CAPÍTULO VINTE E TRÊS
O ABISMO
Mansão Kane / Bristol / 23h58 / Hoje Batman podia sentir a vida se esvaindo da bat-roupa. A resposta estava se tornando mais lenta e havia mais resistência aos seus próprios movimentos do que deveria. Ele não conseguia romper o que o prendia nem conseguia se soltar das faixas de seda, cuja flexibilidade e força faziam com que seu próprio peso trabalhasse contra. Tinha de subir. Batman agarrou a seda e puxou com toda força, se afastando das lâminas cortantes abaixo que continuavam a abrir talhos em sua bat-roupa, deixando sua integridade em farrapos. Echo e Query continuavam sua dança aérea ao redor dele, mergulhando e tentando enrolá-lo ainda mais com sua teia de seda. Batman acertou Query na investida seguinte, arremessandoa girando e rolando para baixo até que a seda enrolada em sua cintura deteve a queda. Continuou a escalar, arrastando a seda carmim com ele ao fazê-lo. Podia ver as compridas manchas escuras do fluido da sua bat-roupa sujando o tecido que pendia abaixo dele. Surgiu fogo de automáticas abaixo, e balas acertaram o teto logo acima. Olhou ao redor rapidamente e encontrou o que precisava: o núcleo motorizado do móbile. Tudo era ligado àquele grande mecanismo chumbado no teto. Batman segurou uma das barras do móbile e subiu. Echo agarrou sua bota, tentando arrancá-lo da viga, mas ele chutou com força, também a lançando em rodopio. A voz do seu pai continuava no salão. – ...os convidados não tinham ideia do que realmente acontecera. Todos acreditavam que era eu na fantasia... Que eu era a figura heroica que derrotara a gangue Moxon e partira para prender Julius Moxon... Batman chegou ao mecanismo central, tirando várias pequenas bolas de C-4 e detonadores remotos do cinto de utilidades. Começou a apertá-los junto aos oito parafusos que prendiam o mecanismo ao teto. Tinha cinco colocados quando Echo e Query se atiraram sobre ele ao mesmo tempo. Com o braço direito, Echo prendera seu pescoço em um aperto feroz. Query se agarrara a uma das pernas e tentava arrancá-lo de sua posição na viga. Terá de ser suficiente. Batman virou o rosto e detonou os explosivos. Os pequenos artefatos arrancaram as cabeças dos parafusos, furando a frente de sua batroupa. A blindagem reativa funcionou, mas ele podia sentir os impactos. A bat-roupa estava falhando. A força fizera com que a placa se soltasse parcialmente do teto. O solavanco repentino e o barulho das explosões pegaram Echo e Query de surpresa, fazendo com que
ambas reduzissem a pressão. Era tudo de que Batman precisava. Tirou as duas mulheres e as derrubou com a seda enrolada nas cinturas. Quando ela esticou, quicaram quase quatro metros e meio abaixo do teto. – ...o homem que conhecia como Denholm Sinclair havia sido perdido para mim... Certamente perdido para Martha. Ele se tornara um monstro repulsivo que chamava a si mesmo de Discípulo e a mim de sua inspiração e seu criador... Batman se ergueu, segurando a barra com as duas mãos. Os alarmes da bat-roupa soavam em seu ouvido. Passou as pernas sobre a barra, apoiando os pés nos dois lados do teto danificado em cócoras invertidas, e segurou firme na barra enquanto empurrava com as pernas. – Eu sabia que ele iria matar Julius Moxon, e assim que tivesse feito isso voltaria à festa e mataria novamente... Com minha fantasia e disfarçado de mim... A cantoneira de sustentação gemeu com a carga repentina. O alarme da bat-roupa se tornou mais insistente. De repente o suporte cedeu, arrancando com ele uma grande superfície de gesso do teto. O móbile, as múltiplas vigas, as compridas faixas de seda, Amanda, Echo, Query e todos os manequins suspensos despencaram sobre o piso do salão de baile. Batman mal conseguiu rolar ao tocar o chão, permitindo que o poder remanescente na batroupa dissipasse a energia da queda. Ele se colocou de pé e viu Query, Echo e seus espadachins lutando para escapar da própria teia. Foi para o meio deles, prendendo cada um onde os encontrou com as braçadeiras e, quando necessário, usando os punhos para explicar por que não deveriam resistir. Enquanto isso a voz do pai soava no saguão. – ...Então fiz com que eu fosse seu próximo alvo. Não consegui pensar em mais nada que pudesse afastá-lo da Mansão Kane. Minha ideia original... O pouco que era... Havia sido afastá-lo da casa Kane e de volta à minha própria propriedade. Os céus sabem que havia muitas armas deixadas por meu pai... Mas mesmo com ele muito ferido não consegui ganhar muita dianteira... Ele encontrou Amanda entre os manequins. Sacou uma faca, cortou seus cabos e a enrolou em uma das sedas vermelhas para que o fluido da bat-roupa não a sujasse. Pegou-a, colocou sobre o ombro e se virou para seguir o som da voz do pai. Ela o levou até o coreto. Havia um antigo gravador de rolo Wollensak 1515 tocando rolos de sete polegadas no modo LP. Uma pilha de caixas de fita Scotch gastas estava ao lado do gravador, com a do alto aberta e vazia. O gravador propriamente dito estava ligado a um grande alto-falante que ainda ecoava pelo saguão. – Desci correndo a Ravina Peterson. Podia ouvi-lo bem próximo de mim. Estava em pânico e sem saber exatamente o que... Batman esticou a mão, apertando o botão de parar do lado direito. Os rolos pararam de girar. O som no saguão morreu. Batman olhou para o rolo de fita. O plástico transparente estava amarelando, assim como a etiqueta, mas ainda era legível.
T. Wayne – Observações sobre Apocalipse / 3 de 12
Havia sete caixas junto ao gravador... incluindo a vazia. Batman virou a alavanca de rebobinar para a esquerda. O rolo girou para trás. Batman recolocou o seletor no meio assim que a fita passou pelos cabeçotes de Rec/Play, dando mais algumas voltas livre antes de parar. Retirou o rolo do pino e o guardou na caixa vazia, fechando a tampa. Depois foi até um dos soldados confederados inconscientes no chão arrasado e pegou a bolsa de mapas dele. Voltou ao gravador, com Amanda ainda sobre o ombro, e enfiou as fitas na bolsa. Suas mãos tremiam o tempo todo. Caminhou até o vidro ensaboado das portas duplas, abriu e saiu para a noite fria. Com Amanda e as fitas, cruzou o terreno tomado por ervas daninhas até a floresta vizinha, desceu a Ravina Peterson e foi para sua caverna.
Caverna / Mansão Wayne / Bristol / 23h59 / 26 de outubro de 1958
Thomas estava encharcado. O velho lago subterrâneo que criara as cavernas mudara havia muito. A própria entrada da caverna se tornara o ponto de escoamento do lago, um rio que corria para a ravina além. A entrada era fácil de achar seguindo o rio, mas, sendo a área selvagem da propriedade Wayne, poucos a tinham descoberto. Thomas odiava o lugar com toda a sua alma, mas estava desesperado. Ele se lançou cegamente em sua boca, chapinhando ruidosamente no curso d’água e entrando na escuridão. – Você não pode fugir de si mesmo, Thomas! – ecoou levemente a voz de Discípulo entrando na caverna atrás do Dr. Wayne. – Eu cresci além de você agora... Me tornei algo maior do que você esperava ou achava possível. Thomas sabia que, infelizmente, isso era parcialmente verdade. Vira a carnificina no laboratório e lera os relatórios. O vírus que ele e Richter haviam liberado tivera resultados imprevisíveis na reprogramação genética, mas em geral os resultados eram consistentes: fortaleciam e ampliavam várias características presentes. Os infectados pareciam ser mais exuberantes, usando roupas, uniformes ou fantasias espalhafatosos como expressão exterior de sua visão interna de si mesmos. Certas predisposições genéticas também eram exageradas de forma desproporcional – força, destreza ou acuidade mental em certas áreas ou raciocínio. Ética, moral e ligações sociais – objeto principal de sua modificação comportamental – se revelaram as mais inconstantes. Uma inconstância que, na opinião médica de Thomas, muito provavelmente faria com que fosse morto. Eu posso consertar isso. Se puder argumentar com Denholm... Ou pelo menos obrigá-lo a voltar ao laboratório... Jarvis o trancou, mas ainda está lá. Então poderia consertar isso – consertar Denholm e os outros e acertar as coisas. O vírus ainda não saíra dos hospedeiros – ele estava certo disso. Só havia quatro membros do Apocalipse, e nenhum outro relato de outros justiceiros ou criminosos bizarros. A doença parecia limitada à corrente sanguínea até o momento. Tudo que precisava fazer era contê-los, prendê-los e descobrir uma cura. Tudo que precisava fazer...
– Thomas, o que há de errado? – ecoou a voz de Denholm na caverna. Estava mais perto agora, junto à entrada. – Você queria que eu fosse bom. Queria que levasse a justiça aos culpados, não é? Thomas avançou dentro da caverna. Sabia instintivamente que havia uma pequena alcova à direita da entrada. Seu pai o obrigara muitas vezes a encontrá-la no breu completo da caverna. Engoliu em seco e então seguiu pelo túnel, as pontas dos dedos da mão direita percorrendo a superfície fria, escorregadia e irregular da parede até mergulhar em um abismo à direita. Thomas entrou no vazio e parou. Podia ouvir os morcegos despertando. – Foi isso que eu fiz, Thomas – ressoou a voz de Denholm pela caverna. – Descobri os culpados de Gotham, e isso foi uma revelação... Uma revelação pura e brilhante. Capangas, mafiosos, ladrões, assaltantes... Eles são apenas os ramos, Thomas. São folhas que desaparecem no outono e renascem na primavera. Thomas tateou desajeitadamente atrás do corpo, esperando que a parede da caverna ainda fosse onde ele lembrava... Onde seu pai o obrigara a encontrá-la. – Sabe, também lamento pelos inocentes – disse Discípulo em uma voz suave e baixa, pouco acima do som da água do rio correndo ao seu redor. – Aqueles órfãos que morreram no incêndio, aquilo foi uma tragédia terrível, um crime de horror sem precedentes e crueldade insensível. Eu chorei por eles. Chorei por eles todos. Patrick Wayne só tinha um refúgio da vida. Era descer para aquela caverna, onde podia esconder seus ébrios acessos de raiva na escuridão e descontar nos morcegos acima. Ele voltara ali com frequência até o dia em que morreu, sempre deixando as ferramentas de sua fúria particular bem lubrificadas e prontas. – E morri com eles, Thomas; você garantiu isso – disse Denholm, rindo. – Você queimou as impurezas de minha alma escura, matou tudo o que eu havia sido um dia. Agora farei o mesmo pelos outros, Thomas, exatamente como você queria que eu fizesse. Thomas sentiu o aço frio e liso atrás de si exatamente onde o pai o deixara. – Eu me ergui como uma fênix das cinzas em que você me transformou, meu caro Thomas. – A voz de Denholm ecoou pela caverna. Thomas correu os dedos pelo cano. Sentiu os suportes que o velho Patrick instalara logo acima do carregador. O tubo corrugado estava fixado paralelamente ao cano, se abrindo na ponta. As lentes de vidro pareciam intactas. Ele só esperava que as pilhas também estivessem boas. – E quem pagará pelos gritos daquelas crianças? Celia, que foi quem deu o desfalque? Thomas trincou os dentes, as mãos tremendo enquanto se fechavam sobre a lanterna superposta, buscando o interruptor. – Ou talvez Martha – murmurou Denholm. – A querida Martha Kane, cujo desejo cego de aplacar sua consciência culpada forneceu o dinheiro que alimentou os fogos de ganância e desespero? Sim... Ela desempenhou um papel nas mortes daquelas crianças. Ela também precisa pagar. Com um movimento, Thomas pegou a escopeta, usando o movimento para cima para puxar o carregador. Apoiou a arma pesada no quadril com a mão direita enquanto usava a esquerda
para empurrar o interruptor para frente na lanterna instalada no cano da arma. A luz se acendeu imediatamente, o facho cortando um estreito círculo iluminado no vazio. Denholm se virou na direção da luz. Estava sorrindo para sua presa do outro lado da caverna, o rio subterrâneo correndo entre eles. “Levante-se. Maldição, garoto!” A voz do pai emergiu através dos zunidos em seu ouvido. “Não é assim que se segura uma arma!” – Vai ficar tudo bem, Denholm – disse Thomas, a voz carecendo da força das palavras no mesmo instante em que as dizia atrás do cano da escopeta. A luz da lanterna continuou a lançar sombras mutantes sobre o rosto ainda mascarado de Denholm. – Vou levar você a um lugar... Um lugar seguro... E vamos resolver isso. Eu vou consertar as coisas... – CONSERTAR as coisas? – retrucou Denholm com um sorriso maldoso. – Você ME fez para CONSERTÁ-LAS! “Custe o que custar, garoto, vou fazer de você um homem!” – Denholm, por favor – disse Thomas, a luz falhando acima da escopeta. Suas mãos suavam. – Só venha comigo. Vamos para a casa. Eu posso ajudá-lo. – Não, Thomas – disse Denholm, o sorriso malévolo. – Sou eu quem irá ajudar você. Está no meu sangue, você o colocou no meu sangue. – O quê? – O vírus – disse Denholm. – O presente. Ele vive em minhas veias. Eu vou dar a você esse presente, Thomas. Vou dá-lo ao mundo. “Só há dois tipos de pessoas neste mundo: os caçadores e os caçados, e é bom você decidir imediatamente que irá caçar!” Denholm deu um passo para dentro do rio, a água espirrando ao redor da malha da fantasia. A ridícula capa com pontas se agitava atrás dele enquanto se movia. A máscara de tecido se amontoara do lado da cabeça, criando pequenas dobras pontudas. No estado nervoso de Thomas, parecia uma versão de um morcego dos quadrinhos dominicais. – Lá fora é matar ou morrer, não é como aquele mundo de quadrinhos em que você vive! – Denholm, você não está bem – disse Thomas, a voz tremendo. A arma parecia escorregadia em suas mãos. As velhas pilhas na lanterna colocada sobre o cano falhavam, fazendo com que a luz ao redor de Denholm ficasse amarela e fraca. – Por favor, só venha comigo e eu posso curar isso. – Ir com você? Mas eu vim por você, Thomas, meu querido, incrédulo Thomas. Nunca realmente comprometido com a fé das convicções que esposou... Sempre se questionando. Vim para acabar com suas dúvidas, Thomas – falou Denholm, o Discípulo, desde a luz que diminuía ao redor dele. – Vim para purgá-lo de tudo isso, Thomas, assim como purguei as almas de tantos outros. Também irei purificá-lo, querido Thomas. Você pode ficar livre da culpa, livre do medo. Enviei muitas almas torturadas para essa paz... Uma paz que você me apresentou, querido Thomas... E que eu agora devolvo a você. “E hoje você vai aprender a matar, filho. Você vai matar alguma coisa!” Thomas se lembrou de ficar do outro lado da arma, se apoiando no pé de trás, apertando o ombro com força sobre a coronha.
– Por favor, Denholm... Eu só quero ajudar. – Você está doente, Thomas – rosnou Denholm. – Eu vou curar você. “Seja homem! Me mostre que é um homem!” Thomas soltara a trava de segurança sem pensar. O morcego de quadrinhos saltou sobre ele da beira da água. “ATIRE!” Thomas não ouviu a arma disparar. Ele sentiu o golpe repentino no ombro, seu corpo se curvando e absorvendo o recuo do disparo. Seus olhos se abriram e viram o buraco no peito fantasiado, a mancha carmim se expandindo como maré sobre o tecido. Denholm recuara com o impacto, cambaleando de volta para a beira do rio. “Matar ou ser morto...” Lágrimas corriam pelas faces de Thomas. Parte de sua mente examinava o ferimento no peito de Denholm, revendo os passos necessários para ter alguma chance de salvar o paciente. Costelas quebradas... Pulmões perfurados... Hemorragia interna... “Isso, garoto! Me mostre!” Thomas carregou outro cartucho bem a tempo. Denholm, furioso, investiu contra ele novamente, sangue correndo pelo peito, escorrendo por entre os dentes à mostra. O rugido da escopeta ecoou pela caverna. Thomas não estava tão pronto dessa vez, o recuo da arma quase a arrancando de suas mãos. O impacto atingiu Denholm no ombro, girando seu corpo. Ele se equilibrou antes de cair, virou mais uma vez e gritou. Thomas retomara posição, as cápsulas voando do ejetor da escopeta. Berrou a cada disparo, sua voz afogada pela sequência de explosões do cano da arma. Depois que o sexto cartucho foi expelido, apertou o gatilho de um cano vazio. Denholm felizmente estava caído de barriga para baixo no rio, não podendo mais ser reconhecido por causa da carnificina produzida pelas mãos de Thomas. Seu corpo flutuou um pouco no rio antes de se prender nas pedras à entrada da caverna. Thomas foi até o local onde o rio corria ao redor de Denholm Sinclair, a escopeta sustentada frouxamente pela mão direita. Thomas prometera a Martha que tomaria conta dele. Tudo dera muito errado. Ele baixou os olhos para o corpo; a água era escura à luz da lua. O sangue infectado de Denholm estava descendo o córrego na direção do rio Gotham e das torres acesas da cidade.
Batcaverna / Mansão Wayne / Bristol / 20h59 / Hoje – ...acabou com qualquer esperança de limitar o vírus Richter aos que haviam sido infectados. Enquanto eu via seu sangue correr pelo riacho, me dei conta de que os efeitos do vírus podiam se espalhar pelo contato com o sangue infectado ou outros agentes similares. Também sabia que havia mais três portadores ainda à solta na cidade... O telefone da mansão estava tocando. Bruce estava sentado ao seu terminal na batcaverna escutando a continuação da fita. Demorara algum tempo para encontrar um velho aparelho de rolo, mas agora estava tocando a fita na caverna. Tirara a bat-roupa muito danificada; sua energia havia esgotado totalmente,
e o sistema exomuscular estava completamente comprometido. Escutava a voz de um pai que, agora se dava conta, nunca havia realmente conhecido. O telefone da mansão continuava a tocar. – ...Mais uma vez Jarvis insistiu em cuidar do problema, e desde então fico pensando em se haveria algum outro motivo por trás de seus esforços. Ele certamente é o único homem que tem mais influência sobre mim do que gosto de reconhecer. Suponho que parte de meus motivos para fazer esta gravação seja que meus filhos não sejam ameaçados após meu falecimento, que a culpa e a responsabilidade por tudo o que aconteceu repouse sobre meus ombros, e não sobre os deles... Bruce lentamente tomou consciência do som, pensando vagamente em por que Alfred não atendia ao telefone. Então lembrou. Parou o gravador e pegou o telefone. – Propriedade Wayne – disse secamente. – Sim, eu... Ahn... Desculpe por telefonar, mas estava pensando se poderia me ajudar. Estou tentando entrar em contato com uma pessoa. – Enfermeira Doppel? – disse Bruce, mais como uma declaração que como uma pergunta. – Sim! Sou... É o Sr. Grayson? – Sim, todos os outros estão... fora – respondeu Bruce. Alfred fora embora e ele sentia muito a perda dele. Virando na cadeira, olhou para a imagem em vídeo da inconsciente Amanda, deitada no sofá na reprodução do estúdio ali perto. – Aparentemente também sou o cozinheiro chefe e o lavador de pratos aqui... Para não falar de babá. – Ah, Sr. Grayson, fico muito aliviada de encontrá-lo. Fiz exatamente o que pediu, mas não tive mais notícias de Amanda desde que entreguei aquele livro. Ela não telefonou desde então, e... – Pode relaxar, enfermeira Doppel – disse Bruce, esfregando os olhos com a mão. – Ela está comigo. Está inconsciente no momento. – Não precisa se preocupar muito com isso – ela respondeu. – Pode ser apenas efeito de ela não estar tomando os medicamentos na hora certa. – A senhora sabe melhor do que eu. – A voz de Bruce soava cansada a seus próprios ouvidos. – Fora isso, não acho que esteja ferida. – Ah, graças a Deus! – respondeu Doppel. – Pode trazê-la para casa? Eu não tenho carro, e sem a medicação... Bruce ficou paralisado na cadeira, olhando com furiosa perturbação para a passarela metálica que levava ao elevador da caverna. Seus olhos estavam fixos em algo que ele tinha certeza de que não estava lá quando partira mais cedo para a Mansão Kane. Ali, apoiada nas grades, reluzente e bem lubrificada, estava a escopeta do seu avô. – Eu a levarei – disse Bruce. – Estarei aí em cerca de vinte minutos. Os olhos fixos na arma. Foi a última coisa que se lembrou de ter visto antes de acordar.


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