Powered By Blogger

domingo, 28 de maio de 2017

SD 917 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO TRÊS

AMANDA



Bruce Wayne, playboy de Gotham, com inesgotável riqueza, se tornara o Howard Hughes do novo século. Durante mais de uma década, ele desapareceu da vida pública. Comentaristas de noticiários nacionais recebiam cachês para preencher as lacunas sobre o significado de sua ausência remontando seu desaparecimento a 11 de setembro de 2001. Apresentadores locais, por outro lado, anualmente e a intervalos regulares, gastavam um pouco mais de tempo no ar mostrando o material de arquivo sobre a morte violenta de seus pais – posteriormente com reconstituições computadorizadas dos assassinatos – e relacionando a peculiar reclusão a essas compreensíveis raízes. Artigos nas páginas de economia do Gotham Globe vendiam jornais com a alegação de que as aberrações mentais do herdeiro dos Wayne tinham origem em meados dos anos 1990 e na ascensão do neoliberalismo. Seu concorrente, o Gotham Gazette, adotava um ponto de vista inteiramente diferente, insistindo em que as causas subjacentes do seu abalo seriam encontradas na inflamabilidade econômica de um mercado dos anos 1980 libertado dos limites da ética ou da consciência social. Várias biografias – todas não autorizadas e sempre alvo de um processo rotineiro – insistiam em que havia sido um antigo amor, feminino ou masculino, que abandonara o desequilibrado Wayne. Duas delas chegaram um pouco perto demais da realidade. Princesa Maculada: Como Julie Madison tornou-se Portia Storme sem fazer esforço fora um livro best-seller centrado tanto em Bruce quanto na vida estranha e meteórica de sua antiga namorada de faculdade. A outra, a muito mais sensacionalista Slain Manor: o estranho caso de Vesper Fairchild, revivera o interesse pelo chocante assassinato da popular repórter de televisão e celebridade, que Bruce namorara rapidamente até decidir esfriar as coisas... Apenas para ser preso quando o corpo dela foi encontrado em sua casa. Esses livros foram a exceção, pois em sua maioria os participantes dessas fantasias eram sombras. Aparentemente, o público estava ansioso por qualquer notícia escandalosa referente ao Príncipe de Gotham e se dispunha a pagar preços de tabloide e brochura para ler isso. Cada uma prometia destacar uma nova dama em apuros ou prostituta com coração de ouro. Suas identidades sempre eram conhecidas apenas pelo autor, que só estava disposto a revelar o segredo a alguém disposto a comprar seu livro, inflar seus royalties e chapinhar pelos surpreendentes detalhes ficcionais. Eles não sabiam absolutamente nada sobre Bruce, mas isso não era admissível para a bocarra da mídia que tinha de ser alimentada, então preenchiam o silêncio com sua própria imaginação selvagem e, nesse processo, vendiam ainda mais tempo no ar, jornais, livros e blogs. Contudo, todos ficariam ultrajados se soubessem a verdade: que Bruce se deliciava com aquilo.
Tudo aumentava o mistério e nunca chegava perto da verdade – um disfarce ainda melhor do que o de antes. A ligação com Hughes era evidente e só precisara de um pequeno empurrão. Alfred foi promovido de “cavalheiro de um cavalheiro” a assessor de imprensa e gerente de relações públicas praticamente na mesma época. Alfred Pennyworth se tornou o rosto que a imprensa associava a Bruce Wayne sempre que alguém telefonava ou precisava de uma declaração. Bruce até mesmo se divertia com o jogo, de tempos em tempos aparecendo com uma máscara de látex que fizera para si mesmo, curvado em uma cadeira de rodas e usando grandes óculos escuros, um chapéu panamá de abas largas e um xale sobre os ombros. Obrigara Alfred a empurrá-lo pelo jardim do leste nesses trajes em intervalos aleatórios até um dos paparazzi aparecer no terreno e conseguir uma ou duas imagens levemente desfocadas dos dois dando um passeio. Os sensores de segurança espalhados por todo o terreno da mansão Wayne haviam alertado Bruce da presença do intruso muito antes que o paparazzo os visse. Ainda assim, a foto se tornara uma imagem icônica de Bruce Wayne, o recluso: um homem inacreditavelmente rico, mas arrasado. Bruce e Alfred eventualmente eram obrigados a repetir versões da farsa quando outros fotógrafos se arriscavam no terreno, mas aquela primeira fotografia se tornara um ícone. Agora talvez eles me deixem trabalhar. Havia sido um sonho maravilhoso, mas Bruce descobrira que não existe nada tão público quanto ser privado demais. Porém, com o tempo, Bruce Wayne parou de despertar interesse, se tornando uma figura mítica cuja imagem real havia sido tão recriada que ninguém sabia mais como o verdadeiro Bruce Wayne fora um dia.
Terreno da propriedade Wayne / Bristol / 6h32 / Hoje O multibilionário Bruce Wayne saiu da ravina vestindo o paletó de brim e um boné na cabeça. O rosto estava coberto com barba por fazer. Os olhos apertados na manhã clara e resplandecente enquanto passava de sombra em sombra em meio à floresta. Permitiu que os passos de suas botas de caça esmagassem os arbustos... Um luxo incomum. O grande gramado fica do outro lado da encosta. Meu pai costumava fazer enormes reuniões naquele gramado atrás da mansão. Os gramados sempre foram impecavelmente cuidados, mas agora seu silêncio era quebrado apenas pelo ocasional canto de uma cotovia. A vista magnífica para o braço norte do rio Gotham e, do outro lado da água, para o perfil único da própria Gotham não era apreciada. Não haveria música. Nenhum riso iria perturbar uma única folha de relva. Daria um belo cemitério. Ele precisava pensar. Estava estudando o convite quando, de repente, na escuridão das cavernas, sua memória o levara de volta a um tempo distinto. Minha mãe gostava de planejar as festas de jardim mais que todos os outros eventos; dizia que o resultado desejado era inevitável se o evento fosse devidamente organizado. Nunca conseguia pensar dentro de casa... Sempre tinha de ir para algum lugar onde pudesse limpar a mente... Limpar a alma... Bruce desceu a encosta, se afastando do gramado que podia ser visto entre as árvores. Não
pensava no jardim da mãe há mais de uma década. Folhas mortas apodrecendo após inúmeras estações cobriam a velha trilha. Bruce parou, inclinando a cabeça para o lado. A parede era quase totalmente encoberta por arbustos altos e trepadeiras, ainda cheias de folhas apesar do adiantado do ano. Poderia ter passado despercebida não fosse pelo fato de que a passagem havia sido totalmente despida de arbustos. A porta estava gasta e só revelava vestígios mínimos da tinta esmeralda que sua mãe escolhera para ela havia tanto tempo, mas estava livre de obstáculos. Pensara vagamente se a sucessão de jardineiros ao longo dos muitos anos tinha se esquecido de sua existência, assim como ele. No final, parecia que o jardim havia sido cuidado. “Se você precisa pensar atentamente em algo, Bruce, é melhor encontrar algum lugar agradável”, dissera Martha Wayne. Bruce enfiou a mão no paletó, tirando uma grande chave de cadeado suja, e foi até a porta. O cadeado estava destrancado... A porta ligeiramente aberta. Bruce ficou imóvel, os sentidos atentos. – Ting-a-ling-a-ling-tum, ting-tum, ting-tum… Um canto. Alguém está cantando no jardim de minha mãe. – Ting-a-ling-tum, ting-tum-tae... Eu conheço essa música... Eu me lembro dessa música. Bruce lentamente recolocou a chave no bolso do paletó. Esticou a mão esquerda, colocando-a suavemente sobre a porta e testando sua resistência. Ela se moveu com surpreendente facilidade, as dobradiças estalando apenas duas vezes enquanto a porta se abria diante dele. O jardim estava morto. As rosas haviam se tornado selvagens e morrido durante a sequência de invernos sem cuidado. Seus galhos retorcidos se erguiam como garras das laterais dos passeios, cobertos de folhas mortas que se decompunham em terra. Os lilases premiados dos quais sua mãe tanto se orgulhara subiam ameaçadoramente sobre as paredes. O jardim se tornara silvestre, ervas daninhas sufocando e obscurecendo o cuidadoso planejamento que, agora, estava soterrado e mal podia ser reconhecido. O gazebo ainda estava lá. A madeira apodrecia e um lado do teto desabara, aparentemente calcinado por um relâmpago ou um galho em chamas caído de uma das árvores ao redor, que poderia ter sido atingida durante uma tempestade. Os bancos de pedra no perímetro interno do gazebo permaneciam de pé. Uma mulher estava sentada de costas para a porta. Bruce trincou os dentes. Os cabelos da mulher eram louro platinado. Seus cabelos eram louro platinado. Ela sempre adorara Kim Novak, pintando seus próprios cabelos escuros para imitar a aparência de Novak. Usava um casaco de pele de camelo com colarinho alto levantado às costas. Ele ainda podia ouvir a própria voz quando disse: “Martha, esse casaco fica fantástico em você!” Ela nunca mais usou outro casaco depois disso... – Ting-a-ling-a-ling-tum, ting-tum, ting-tum...
Dê um bebê a minha mãe e ela começará essa música. Ela cantava isso para mim desde que eu consigo... A mulher balançava para frente e para trás no banco, sua voz preguiçosamente murmurando a letra. – Ting-a-ling-tum, ting-tum-tae... Minha mãe no jardim... Minha mãe no jardim para pensar... Bruce se lançou para frente. Cruzou o jardim morto em cinco passadas rápidas, estendendo a mão na direção da mulher mesmo enquanto passava entre os postes rachados do gazebo. Ele a agarrou pelo casaco, colocando-a de pé diante dele. – Quem é você? – gritou na cara dela. – Que diabos está fazendo aqui? Inicialmente sua pele assustou Bruce. O rosto era um alabastro cremoso que se fixou em sua mente como sendo quase fantasmagórico em sua palidez. Ela poderia estar na casa dos trinta anos, mas seu rosto tinha uma beleza atemporal que tornava difícil lhe atribuir uma idade. Os olhos eram grandes e cinzentos, mas, enquanto olhava para eles, eram desfocados e ligeiramente dilatados. Seu nariz era levemente arrebitado, com uma covinha quase imperceptível na ponta, e suas sobrancelhas haviam sido cuidadosamente depiladas. Os cabelos eram compridos, mas presos em um coque apertado. Era bonita e elegante, mas de uma forma completamente fora de época. – Por favor – ela disse. – Me ajude. Me ajude a encontrar Bruce. – O quê? – Você está me machucando... – Sim, estou. Quem é você? – Eu não... Por favor, me ajude a encontrá-lo. – Ajudá-la a encontrar quem? Seus olhos de repente se concentraram nele com brilhante intensidade. – Bruce! Ela me conhece? Eu nunca encontrei essa mulher antes. – Eu lhe disse, tenho de encontrar Bruce – ela continuou, olhando ao redor. – Por favor, ele está perdido... Ele está perdido e assustado e tenho de trazê-lo para casa. Seja você quem for, pode me ajudar? Mais do que imagina... Espero. Bruce relaxou levemente o aperto em seus ombros. – Não sabe quem eu sou? – Bem, como poderia? – retrucou, indignada. – Acabamos de nos conhecer! Uma identidade... Um pseudônimo... Quem devo ser hoje? – Sou Gerald Grayson... Sou o guarda-florestal daqui. Ela olhou ao redor como se pela primeira vez. – Aqui... Onde estou? – Não sabe? Ela corou levemente. – Não. Eu... Eu realmente não sei como cheguei aqui. – Bem, aqui é um lugar onde você não deveria estar... Está invadindo uma propriedade –
disse Bruce, soltando os ombros dela e enfiando os polegares nos passadores do jeans. – O velho “Wayne Eremita” não gostaria que aparecesse sem avisar. – Bruce, você quer dizer – falou, como se a palavra tivesse um gosto estranho em sua língua. – Eu... Eu preciso encontrá-lo. Alertá-lo. – Eu o vejo de vez em quando – disse Bruce, dando de ombros. – Poderia dar seu recado a ele. O sorriso dela foi levemente sardônico. – Obrigada, mas... Poderia simplesmente me mostrar a saída? Bruce pensou por um momento em como ela poderia ter entrado. O número de sistemas de alarme e vigilância instalados, não apenas no perímetro, mas dentro do terreno, incluindo sensores sísmicos, deveria tornar impossível que qualquer um circulasse pela propriedade sem ser notado. De fato, embora o próprio Bruce tivesse projetado o sistema, mais recentemente passara a se sentir prisioneiro em sua própria gaiola. A ideia antes reconfortante de ser capaz de rastrear qualquer um no terreno desmanchara com o tempo, até Bruce sentir que era constantemente observado por Alfred. As coisas tinham mudado lentamente entre eles nos últimos anos. A promoção de Alfred em título e posição na empresa havia sido necessária, mas abalara o delicado equilíbrio de sua relação. Bruce começara a se sentir vagamente desconfortável em sua presença, como os pelos na nuca que se arrepiam sem nenhuma razão identificável. Alfred era deferente e eficiente como sempre, mas agora havia algo irritante na sobrenatural perfeição dos serviços prestados a ele por seu ex-mordomo. Por isso, Bruce queria algum espaço em sua vida que Alfred não pudesse alcançar – algo que a segurança da mansão, do terreno e mesmo das cavernas abaixo não podiam lhe dar. Mas o paletó de Bruce tinha em seu revestimento algo que facilitava a solução: um transmissor de baixo retorno costurado ali exatamente para tais ocasiões. Se quisesse caminhar pelo terreno sem que Alfred soubesse onde estava, teria de ser um fantasma para seus próprios sistemas de vigilância. Desde que aquela mulher permanecesse a um metro e meio dele, conseguiria tirá-la do terreno sem disparar nenhum dos múltiplos alarmes. E talvez então pudesse descobrir como ela conseguira entrar ali, para começar. – Se puder escoltá-la – disse Bruce, oferecendo o braço dobrado. Ela sorriu enquanto passava sua elegante mão comprida pelo braço. – Meu cavaleiro em armadura reluzente. Dificilmente reluzente, madame. – Então você é guarda-florestal? – perguntou, enquanto saíam do jardim murado e desciam a encosta. Ela arqueou a sobrancelha direita ainda mais. – Eles ainda têm isso, Sr. Grayson? Com a mão esquerda no bolso, ele brincou com o convite. O mistério do cartão... Agora o mistério da mulher. Eu queria vir ao jardim para... Por que eu vim ao jardim? Por que não fiquei na caverna, onde era seguro e escuro? Por que tive de sair para a luz? – Eles têm – respondeu. – Aqui eles têm. E você ainda não me disse seu nome. – Richter – ela disse, virando a cabeça ligeiramente ao falar. – Amanda Richter. Não significa nada. Novidade para mim. Guardar e usar mais tarde como referência. – Bem, Sra. Richter, eu a levarei até a guarita dos empregados – disse Bruce. – Fica no
sopé da colina, e podemos chamar um táxi da sala da guarda. – O guarda não se incomodará de o perturbarmos? – ela perguntou. – Não há guarda – sorriu. Eles já haviam passado por mais de cem diferentes sistemas de alarme e reação a invasores. – Ainda assim, não recomendaria que voltasse a pular a cerca. – Foi assim que entrei? – Amanda perguntou. – Escalei a cerca com meu casaco de marca e terno de alfaiate? – Bem, se o fez lamento não estar lá para ver – disse Bruce, anuindo. – Eis a guarita. Eles estavam no sopé da enorme encosta do gramado de trás. O muro de pedra tinha três metros e meio e emergia da floresta à esquerda, se estendendo pelos fundos da propriedade até a floresta no extremo oposto do gramado. A linha só era interrompida pela guarita e o largo portão de ferro junto a ela, bloqueando a estrada que subia pelo limite da floresta até a mansão, que estava a cerca de três quilômetros de distância, no topo da elevação ao norte. Se Amanda ouviu a porta destrancar com sua aproximação, não demonstrou. Bruce a conduziu para dentro da guarita e pela saída do outro lado. Ele deu o telefonema pedindo o táxi e depois saiu para onde ela estava, de pé junto à estrada. – Dizem que chegará em cerca de dez minutos – disse Bruce. – Deve haver uma reunião da elite em algum ponto de Bristol esta noite se os táxis estão tão perto. Amanda assentiu, depois voltou os olhos cinzentos para ele. – Eu realmente preciso ver Bruce, Sr. Grayson. – Chame-me de Gerry – Bruce corrigiu. – Gerry, então. Não há nenhuma forma de eu... – Bem, você pode pedir – disse Bruce. Lembre-se de dar seu sorriso encantador. Já faz muito tempo. Bruce se apoiou na guarita, cruzou os braços e apontou com a cabeça para o interfone junto ao portão. Amanda deu a ele um sorriso de “obrigado por nada” e foi até o interfone. Apertou o botão com um dedo comprido e elegante. – Sim? Alfred soa aborrecido. Provavelmente está se perguntando por que não recebeu qualquer alerta de proximidade com a chegada dela. – Estou aqui para ver Bruce Wayne – disse Amanda. Bruce ergueu as sobrancelhas e balançou a cabeça em gesto de aprovação. – O Sr. Bruce não está recebendo chamadas – retrucou do aparelho a voz metálica de Alfred. – Tenho uma mensagem para ele... Uma mensagem muito importante – disse Amanda. – Ficarei encantado em transmitir a mensagem, madame – respondeu Alfred. – De quem devo dizer que é? – É minha. Amanda Richter. A caixa metálica ficou em silêncio por um momento. Isso não é típico de Alfred. Repórteres e escritores tentando conseguir algo o abordam diariamente, e normalmente com muito mais criatividade que isso. – Poderia repetir esse nome? – disse Alfred finalmente.
– Sim. Sou Amanda Richter. Silêncio de novo? Estou ouvindo estresse na voz de Alfred? – Sra. Richter, por favor, fique onde está – disse Alfred. – Descerei imediatamente. Bruce continuou a sorrir, mas decididamente havia algo errado. Alfred tinha ordens estritas de nunca receber ninguém na propriedade, nem permitir que alguém entrasse sem ser autorizado pessoalmente por ele. Não havia exceções. – Pelo visto você não irá precisar daquele táxi – disse Bruce. – Suponho que não, Sr. Grayson – disse Amanda. – Ah, e eu não deveria tê-la deixado passar pela guarita – acrescentou Bruce. – Se aquele mordomo me vir aqui será um inferno. Eu poderia perder meu emprego. – Prometo não dizer nada – disse Amanda, anuindo. – Obrigado – respondeu Bruce. – Foi um prazer, Amanda. – Obrigada, Gerry. Bruce deu as costas e entrou na guarita com estudada descontração. Voltou ao terreno do outro lado, registrando o som das trancas das portas se fechando atrás dele automaticamente. Amanda agora estava devidamente trancada fora de seus domínios, embora ele ainda não soubesse como ela havia conseguido entrar no terreno para começar. Ademais, havia a questão de Alfred. Alfred estava com ele desde o princípio. Toda relação tem seus problemas. Ele e Alfred haviam passado por tudo juntos desde que Bruce era capaz de recordar. Algumas vezes era fácil, e outras era duro. Recentemente, o relacionamento caloroso entre o criado e seu senhor havia esfriado um pouco, e os silêncios entre eles, se prolongado. Ainda assim, Bruce acreditava que Alfred Pennyworth havia sido absolutamente honesto a seu serviço. Mas, agora, Alfred estava agindo contra ordens diretas de Bruce por causa de uma mulher que obviamente conhecia – uma que de alguma forma havia conseguido penetrar no terreno sem ser detectada. “São apenas peças do quebra-cabeça, Bruce”, minha mãe costumava dizer. “Apenas junte aquelas que fazem sentido, e o resto se seguirá com o tempo...” Bruce voltou rapidamente para a ravina. Podia ouvir o motor do Bentley vindo da mansão, sem dúvida com Alfred ao volante, e queria estar fora de vista antes que chegasse. Bruce se acomodou na enorme cadeira diante de seu console de pesquisa. O ar na batcaverna agora parecia opressivo em comparação com a manhã do lado de fora, mas também era familiar e um tanto reconfortante após o estranho encontro que tivera no terreno. Não se permita ser distraído. Atenha-se ao quadro geral e deixe que as peças se coloquem na posição certa quando descobrir onde se encaixam. Tirou o cartão do bolso do paletó e o colocou diante de si. Depois pegou as luvas da interface virtual. A gama de telas despertou e ele começou a pegar informações do ar com as mãos. Elas mudavam no espaço à sua frente enquanto as estudava. A primeira era o cartão em si. Abriu a análise química do cartão e do texto impresso, que surgiu em uma cascata à sua esquerda. A cobertura laminada dos cartões era, na verdade, um complexo proteico, permeável e que
liberava suas ligações sob ação do calor. Era uma substância incomum para um revestimento de cartão, e compreender suas propriedades demandaria análise adicional. Ele deixou o sequenciador continuar ruminando aquilo e avançou. O papel em si era um derivado plástico, em vez de papel real. O grão era uma bela simulação do toque de papel, com uma camada superficial bem fina, e uma comparação entre o cartão que pegara no boneco Scarface com aquele que tomara de Alfred mostrou que os padrões de textura eram idênticos até o nível microscópico. É um esforço incomum para um convite. Muitos detalhes... Abriu as imagens óticas de alta resolução dos cartões para examinar a impressão lado a lado, buscando variações na tinta. Não havia nenhuma. Sem sangramento, manchas ou variações borradas que seriam de esperar em uma impressão em massa. O texto impresso era idêntico até a maior ampliação da... A maior ampliação... Ele ampliou a imagem o máximo possível. A tinta não era contígua. Era uma imagem em meio-tom na escala de microimpressão mais minúscula que ele já havia visto. Cada uma das letras era composta de uma série de pontos espaçados. Não havia apenas pontos distintos, mas eles pareciam ser do mesmo tamanho em todos os casos, embora suas posições e os espaços entre eles variassem. Não... Eles não variam de modo algum. São uma distribuição totalmente uniforme de pontos pretos e espaços brancos. É um fluxo digital. É informação! Ele colocou de lado a análise química e baixou um módulo de análise gráfica, ligando-o a um programa de criptografia. O analisador transformaria a microimagem em um fluxo de informações, e então o programa de criptografia o processaria buscando padrões identificáveis. A análise gráfica seria quase instantânea, mas a criptografia poderia levar dias ruminando as informações antes de apresentar possíveis padrões reconhecíveis. Bruce definiu os parâmetros, rodou o programa, tirou as luvas e girou na cadeira. Ele mal havia começado a se levantar quando o console começou a zumbir. Devo ter cometido um erro na sequência de comparação. Sentou novamente e se virou para o console, calçando as luvas, irritado. O mostrador piscava Sequência concluída. Ele buscou a imagem, clicou nela e esperou que as informações inutilizáveis aparecessem para poder jogá-las fora. – Que diabos...? – murmurou Bruce, olhando para a tela. Era um arquivo PDF coerente. – Não pode ser assim tão simples. Apertando os olhos, Bruce se inclinou para frente e clicou no arquivo para abri-lo. Ele abriu.

DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE GOTHAM CITY NÚMERO DO CASO: VR/01/04/05/1689 INVESTIGADOR: DETETIVE J. GORDON DIVISÃO DE COSTUMES E EXTORSÃO 28 DE JUNHO DE 1974

Dois dias após a morte de meus pais. Dois dias após eu morrer com eles. Bruce se inclinou para frente, lendo a fonte indistinta na página digital que flutuava diante dele.

Dica telefônica recebida de certa Marion Richter / Rua Pearl 1426 / Upper West Side em referência a: morte dos Wayne. Eu e meu parceiro, o detetive T. Holloway, conduzimos a entrevista no apartamento de Richter às 10h36. Richter afirmou que a morte de Thomas e Martha Wayne foi um crime por encomenda motivado pelos supostos negócios de Thomas Wayne com seu pai, o Sr. Ernst Richter (falecido). Alegou ainda que Thomas Wayne tinha ligações com a máfia Moxon e conspirava com eles havia várias décadas. Ela apresentou como prova seis dos diários encadernados do pai, bem como vários contratos e papéis que parecem ter sido assinados por Wayne e seu pai. Também incluiu uma série de depósitos bancários e extratos indicando quando haviam sido feitos pagamentos a seu pai e, após sua morte, a ela e à irmã mais jovem, Amanda, por Thomas Wayne usando como intermediários os gerentes da casa Wayne, Jarvis Pennyworth e posteriormente seu filho, Alfred Pennyworth. Esses itens foram catalogados por Holloway e aceitos.

Bruce recostou na cadeira, franzindo ainda mais o cenho. Então não espanta que Alfred tenha descido até a guarita para ver Amanda Richter pessoalmente. Mas nunca ouvi falar sobre esses Richter, e certamente não em relação à morte de meus pais. Por que Alfred não me falou sobre isso? Continuou a ler.

A Srta. Richter afirmou ainda que, segundo os diários do pai, Thomas Wayne também mantinha diários detalhados que corroborariam seu depoimento. Concluímos a entrevista com Marion Richter às 11h46. Seguimos, então, para a Mansão Wayne em Bristol com a intenção de ouvir Alfred Pennyworth sobre os pagamentos feitos aos Richter e os supostos diários. O Sr. Pennyworth concordou com a entrevista, que fizemos na biblioteca da Mansão Wayne. Alfred admite conhecer os Richter e dar assistência financeira aos Richter em nome de seu empregador, Thomas Wayne. Negou a existência de diários de Thomas Wayne em qualquer forma, eletrônica ou outra. (Mandado de busca solicitado / aguardando.) Nega ainda qualquer ligação entre a máfia Moxon e o...

O texto datilografado terminava no pé da página. Bruce esticou a mão, clicando no documento para passar à página seguinte. Nada aconteceu. Ele olhou para o canto inferior direito da página exibida. Dizia “1/14”, significando que lera a primeira de catorze páginas. Verificou rapidamente o tamanho do arquivo. A única página era toda a informação existente na microimpressão do cartão. Bruce cruzou o número do caso com a base de dados dos Arquivos de Provas da Polícia. O arquivo citado no documento estava desaparecido dos arquivos. Bruce apertou as mãos, os indicadores erguidos diante dos lábios apertados. Esticou a mão, apertando o botão do interfone no console. – Alfred. – Sim, jovem Wayne. – Você mais cedo mencionou algo sobre um café da manhã... E acho que deveríamos conversar. – Claro, senhor – disse Alfred, a voz suave como creme. – Então logo estarei aí em cima. – Ah, com seu perdão – respondeu Alfred imediatamente. – Eu me desculpo, mas sua refeição ficará pronta alguns minutos depois do que imaginava. Temo que precise correr ao
mercado por um pouco de coentro fresco. Deverá demorar mais uma hora, senhor. Coentro? Em uma hora? – Ah, tudo bem, Alfred – disse Bruce em um tom equilibrado e treinado. – Eu mesmo sou mais de brunch. A propósito, havia alguém no portão agora há pouco? Há uma pausa na resposta. Ele nunca faz pausa... Nunca hesita. – Não, senhor – respondeu Alfred animado. – Não que eu saiba. – Apenas achei ter ouvido o alarme de proximidade. – Não, senhor. Talvez seja um defeito. Vou cuidar disso imediatamente. – Claro – respondeu Bruce. – Avise quando o café estiver servido. Bruce soltou o botão do interfone, uma sombra negra cobria seu rosto enquanto reclinava na cadeira para pensar. O arquivo de provas está desaparecido. Treze páginas do relatório de Gordon estão desaparecidas. Alfred está mentindo para mim sobre Amanda Richter. As vidas de meus pais estão desaparecidas e, agora, o motivo por trás de suas mortes também está desaparecido. Com relutância, Bruce esticou a mão e puxou um arquivo que fechara havia muito tempo.

BC001-0001 WAYNE, THOMAS E MARTHA

Nenhum comentário:

Postar um comentário