CAPÍTULO DEZENOVE
NÃO MAIS NECESSÁRIO
Mansão Wayne / Bristol / 23h40 / Hoje A porta da entrada de serviço estalou com a chave abrindo a tranca. Ele sempre se queixou disso, mas nunca consertou. A tranca cedeu e a maçaneta se abriu. A silhueta do velho estava emoldurada pela vidraça colocada no painel superior da porta, obscurecida pelo brasão da família Wayne gravado no vidro fosco. Eu esperei no escuro. Estou há tanto tempo no escuro... A porta foi aberta. Agora a silhueta era clara; séria e nítida contra o patamar bem iluminado. O perfil do sobretudo e o leve brilho da cabeça calva sem chapéu eram ambos muito familiares. Havia algo pequeno e retangular apertado na mão esquerda quando ele entrou no espaço escuro do saguão dos empregados, fechando a porta em seguida. O homem calvo procurou o interruptor... Mas as luzes se acenderam antes que o tocasse. – Compras de Natal antecipadas, Alfred? – disse Bruce em voz baixa desde a adjacente sala de jantar dos empregados. Ainda vestia o falso uniforme de polícia, os sapatos cruzados na beirada da mesa comprida enquanto recostava na cadeira. Sua mão se afastou lentamente do interruptor na parede atrás conforme olhava seu funcionário com indiferença. Alfred Pennyworth prendeu a respiração, chocado por um momento, mas se recuperou rapidamente. Cruzou as mãos às costas, ficando em uma posição de sentido que lhe permitiu esconder o pacote na mão. – Jovem Bruce! Minhas desculpas, havia entendido que passaria a noite fora. – Mudança de planos, Alfred – disse Bruce com sua voz calma cerca de dez graus mais fria que o normal. Ele se ajeitou de leve na cadeira enquanto cruzava os braços no peito. – Então, vejo que pegou uma coisinha... O que é? – Nada de mais, senhor – disse Alfred, empalidecendo enquanto dava de ombros. – Só uma coisinha que peguei para um amigo. – Então sou seu amigo, Alfred? – perguntou Bruce. Alfred respirou com cuidado. – Tão amigo quanto eu poderia um dia esperar. – Bem, então, meu velho amigo, me deixe ver o que está escondendo às costas – disse Bruce com um sorriso triste. – Realmente não é nada de mais, senhor. Na verdade uma piadinha suja – disse Alfred, de repente indo na direção da porta da cozinha. – Posso oferecer-lhe alguma coisa, jovem Bruce? Talvez sanduíches ou um chá de camomila? Só irá demorar...
Bruce subitamente se lançou à frente, pulando da cadeira. O braço bloqueou a porta da cozinha, impedindo a passagem de Alfred. Bruce podia sentir o fogo em seus olhos. Sua voz estava quase descontrolada quando falou. – Não, Alfred! O jovem Bruce não quer biscoitos ou leite! O jovem Bruce não quer ser mimado ou colocado na cama. Já dormi tempo demais. O que quero é que você explique esse livro que está escondendo às suas costas! Alfred recuou um passo, se chocando contra a pesada mesa de jantar e fazendo com que as pernas guinchassem no piso de pedra. – Não, jovem Bruce – reagiu o velho empregado. – Não pode fazer isso... Eu imploro. – Você implora? – sibilou Bruce. – Nunca lhe pedi nada antes, jovem Wayne – disse Alfred, o desespero aumentando em sua voz. – Fiz tudo o que se esperava de mim, pela família e mesmo por você quando... Bruce deu um passo na direção de seu antigo mordomo. – Mesmo quando... o quê? – Mesmo... Mesmo quando embarcou em sua louca cruzada – respondeu Alfred. – Minha louca cruzada? – berrou Bruce. – Nossa louca cruzada, Alfred! Você foi parte dessa louca cruzada desde o início! É esse o problema? O fiel empregado de repente sente medo e quer fingir que o passado nunca aconteceu? – Não sabia que chegaria a este ponto, jovem Bruce. Certamente nunca pensei que chegaria a tanto. Mas os criminosos estavam acabando com a cidade, e você estava sempre ajeitando as coisas. E passei a acreditar no que estava tentando fazer. Eu o arrastei quebrado e sangrando para aquela sua caverna escura e o remendei mais vezes do que fui capaz de contar... E, durante tudo isso, mantive seguros os segredos da família. Agora lhe imploro, jovem Bruce, deixe isto de lado e permita que eu cuide disso para você. É parte do meu trabalho como assessor de imprensa, não é? Cuidar de problemas para você? Pense nisso como uma confusão da qual precisa manter alguma distância. Afaste-se desta investigação agora e deixe que eu cuide disso para você. – Cuide disso para mim? – falou Bruce, trêmulo, lutando para se controlar. – Sim, jovem Bruce! Por favor! – Como seu pai cuidou das confusões do meu pai? O rosto de Alfred murchou. – Não, Bruce. Não diga isso! – Mas veja, Alfred, eu já li o livro. Na verdade tenho feito muitas leituras interessantes ultimamente. Seu pai não foi apenas OSS na Segunda Guerra Mundial. Eu verifiquei a ficha dele. Era originalmente SOE, Executivo Especial de Operações para o serviço secreto britânico. Um especialista em guerrilha preparado para combater os nazistas em seu próprio quintal. Apenas no final da guerra ele se ligou ao OSS. Era um espião, treinado para atuar em condições extremas, cuidar de seus próprios ferimentos, matar sem questionar e, mais importante, limpar tudo para que ninguém sequer suspeitasse que havia estado ali. – Como ousa! – Alfred olhou para ele com indignação. – Meu pai foi um herói! – Assim como o meu – zombou Bruce, se adiantando até seu rosto estar a centímetros do antigo mordomo. – Foi o que você sempre me disse. Mas alguém tem mostrado a rachadura
nas estátuas de mármore que fizemos deles, meu bom homem. Seu pai foi herói o bastante para limpar a bagunça de meu pai no asilo Arkham em 1958. – O quê? – guinchou Alfred. – Como soube? Bruce arrancou o livro das costas do homem mais velho. – Porque eu já li o livro, Alfred. E as cartas de meu pai. – Que cartas? – retrucou Alfred. – Não havia cartas! – Com a caligrafia de meu pai e em seu papel timbrado – replicou Bruce, agitando o livro ameaçadoramente junto ao rosto de Alfred. – Sou relativamente novo nisso, meu velho. Quando você soube disso? – Por favor, senhor, isso não será de nenhuma ajuda. – QUANDO? – berrou Bruce. – Mil e novecentos e sessenta e sete – respondeu Alfred. – Pouco antes de meu pai morrer. Bruce respirou, trêmulo. – Continue. – Foi um ataque cardíaco, mas ele tinha 69 na época – continuou Alfred, sentando-se na mesa. Estava inclinado para frente, girando nas mãos o livro embrulhado. – Foi pouco depois do primeiro episódio leve naquela primavera que ele me chamou. Contou tudo assim como o Dr. Wayne contara a ele: a visão que tivera de usar a ciência para livrar a cidade do crime voltando os criminosos contra eles mesmos, as ideias ousadas de Richter, o vírus comportamental e como tudo desmoronara tão rapidamente. Ele me contou que havia deixado tudo limpo “como um espelho”, como costumava dizer. Meu pai disse que fizera coisas na vida das quais não se orgulhava, mas que esperava consertar tudo quando se recuperasse. Então teve seu ataque fulminante um mês depois e deixou tudo em minhas mãos. – Deve ter sido fácil para você ocupar a posição de seu pai – rosnou Bruce. – Você só precisou insinuar a meu pai sua sabedoria recém-adquirida e garantir que os fatos fossem mantidos em sigilo. – Como ousa! – Então é isso? – sibilou Bruce. – Seu pai encobre um assassinato brutal e agora você o está encobrindo? – Meu pai? – gritou Alfred de volta. – Meu pai escondeu os segredos desta família até o último suspiro! Meu pai escondeu a cumplicidade do seu pai em criar as condições para uma onda de assassinatos no final dos anos 1950 e levou esse segredo para o túmulo com ele. E seu filho tem guardado esses mesmos segredos pelo bem desta família e de seu único herdeiro por quase toda a sua vida adulta! Estava tudo trancado a sete chaves até a tal Richter aparecer. – Amanda? – Quem mais poderia ser? – resmungou Alfred. – Soube que ela era problema no instante em que apareceu no terreno. Agora está tudo desaparecido... Os arquivos, os filmes, as fitas. – Fitas? Que fitas? – cobrou Bruce. – O diário gravado de seu pai – respondeu Alfred. – Todos os rolos sumiram. – Então você soube disso durante toda a minha vida – suspirou Bruce, apertando os olhos. – Mas isso não é tudo, não é, Alfred, meu velho amigo? A respiração de Alfred de repente ficou superficial e acelerada.
– Há mais nisto do que as experiências financiadas pelo meu pai terem dado errado – falou Bruce. – Algo que você não está me contando. – Bruce, eu cuidei de você sua vida inteira – disse Alfred, a voz tremendo apesar de seu óbvio esforço em manter o controle. – Você é tão filho meu quanto alguém do meu próprio sangue teria sido. Estou dizendo, pelo bem de todos nós, que deve deixar que eu cuide disso para você. Deve se afastar totalmente disso, e se o fizer, prometo que tudo ficará bem. – Por que você acreditaria nisso, inferno? – cortou Bruce. – Todos esses anos combatendo as almas mais sombrias da humanidade... Por que você seria tão idiota de achar que poderia barganhar com um chantagista? – Porque sempre funcionou – ganiu Alfred. – Não foi a primeira vez que tive notícias dos Richter. Seus pedidos nunca foram impossíveis de administrar, e era desejo de seu pai que eles fossem atendidos. Sempre cuidei do problema silenciosamente, e eles sempre foram embora, mas desta vez... – As coisas saíram do controle – rosnou Bruce. O telefone na parede do saguão tocou alto. Bruce e Alfred se encararam. O telefone tocou uma segunda vez e uma terceira. – Atenda – mandou Bruce. – Eu... Eu não... – Agora – insistiu Bruce. Alfred contornou Bruce e caminhou de forma vigorosa até o telefone. Bruce o seguiu desconfortavelmente perto. – Mansão Wayne, como posso ajudar? – atendeu Alfred. – Está com o item? – perguntou uma voz de mulher, abafada e indistinta. Alfred olhou para Bruce. Bruce anuiu. – Sim, estou. – Então tenho o que você quer em troca – disse a voz. – Saberá para onde levar. Que a festa comece. O telefone estalou e ficou mudo. – Ela tem as fitas – disse Alfred a Bruce. – Irá trocá-las pelo livro, mas ainda não me disse onde fazer a entrega. – De jeito nenhum – disse Bruce, balançando a cabeça. Seu sorriso tinha um tom malévolo. – Corri a cidade inteira atrás dele. Até o Coringa quis me impedir de chegar aqui esta noite enquanto eu perseguia esse livro... Um livro que me levou diretamente a você. E quando volto para cá, sabe o que encontro? Alfred balançou a cabeça. – Não, senhor, como poderia... Acabei de entrar. Bruce ergueu um envelope de convite. – É idêntico ao entregue a todos na cidade – disse Bruce, virando o envelope com as pontas dos dedos da mão direita. – Estava na mesa, esta mesa aqui no saguão dos empregados, quando entrei. Não havia nenhum nome, então o abri. Sempre correto. Alfred sempre me ensinou a ser correto.
– Mas eu tranquei a casa – falou Alfred apressado. – O sistema de segurança estava ligado. – O mesmo sistema de segurança que permitiu o acesso de Amanda ao jardim de minha mãe? – perguntou Bruce. – Bem, vejo que teremos de aperfeiçoar o sistema, ou pelo menos modificá-lo um pouco. Tirou o convite simples do envelope, segurando-o diante do rosto de Alfred para que ele pudesse ler.
... Para um baile de gala em sua homenagem. Mansão Kane Meia-noite de hoje
– Mansão Kane? – reagiu Alfred. – Aquela residência está fechada há duas décadas! – Como é conveniente que seja tão perto daqui – disse Bruce. – Acho que vou aceitar. – Não, Bruce, não pode ir lá – disse Alfred rapidamente, agarrando os pulsos do patrão com força surpreendente. – Não tem ideia de aonde esse buraco leva nem de onde a escuridão termina. Seus pais estão mortos... O passado está enterrado com eles. Deixe que repousem! Eu cuidei desta família a vida toda, é tudo o que tenho e tudo que sempre quis. Deixe isso para lá, jovem Bruce. Fique aqui e tudo estará bem. – Então estou novamente de calças curtas, não é Alfred? – reagiu Bruce, estremecendo ao inspirar. – Você dará um jeito na bagunça e devo apenas seguir com a vida? Que vida? Não posso descansar por causa da vida que levo. Eu corro atrás de um sonho fugidio... Joe Chill correu pelo beco. Não consigo pegá-lo. Nunca consigo pegá-lo. – ...e toda vez que acho que está ao meu alcance, desaparece e é substituído por alguma nova ameaça à cidade. Gotham se equilibra na beira de um abismo, e sozinho sinto o peso de mantê-la precariamente ali. Que tipo de vida é essa? – Uma vida importante – conclamou Alfred. – Uma vida necessária. Uma vida dada para que outros possam viver a deles. Eu sou o guardião. Quem guarda o guardião? Bruce arrancou o braço das mãos de Alfred. – Não sou mais aquele garoto no beco, Alfred! É hora de acabar com esses jogos. – Não, Bruce – disse Alfred com firmeza. – Não pode ir lá. Há coisas que precisam permanecer enterradas. Não permitirei. Bruce se virou. – Alfred, você está demitido. O velho empregado piscou. – Como, senhor? – Eu disse que você está demitido, dispensado, exonerado, ou como preferir chamar. – Você... Você não pode fazer isso! – gaguejou Alfred. – O inferno que não posso. – Avançou ameaçadoramente mais uma vez. – Você ultrapassou um limite. Está se colocando entre mim e minha presa. – Que presa? – A verdade!
– A verdade pode ser uma fera terrível, jovem Bruce – disse Alfred, com mais calma do que sentia. – Algumas vezes a verdade o caça. – Saia – cortou Bruce. – Saia da mansão, do terreno e da minha vida. – Não! Senhor! – Saia enquanto pode, Alfred, porque estes são os únicos benefícios que terá – rosnou Bruce. – Alegre-se. Está prestes a receber uma bela indenização, incluindo plano de saúde, que espero sinceramente que não seja necessário no futuro próximo. Mas não se preocupe em fazer as malas, tudo será mandado para você. Só leve o Bentley e considere isso um bônus. – Senhor! Por favor... – SAIA! – berrou Bruce, o rosto roxo de raiva. Alfred, o rosto afogueado, deu meia-volta e desapareceu pela porta dos empregados. Bruce esperou um tempo até ouvir o motor do Bentley ser ligado e o barulho das rodas sobre o cascalho sumindo. Bruce engoliu um único soluço e travou o choro. Alfred mentira de modo a esconder algo dele – escondera isso dele toda sua vida. Era uma traição que Bruce não podia aceitar... E isso o deixou mais sozinho do que se lembrava de sentir em toda a vida. – Hora de acabar com o jogo – disse Bruce, olhando mais uma vez para o convite.


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