CAPÍTULO OITO
COINCIDÊNCIA
Curtis Point / Gotham / 10h16 / Hoje Um casal passou rindo. Seus olhos estavam brilhantes e fixos um no outro, enquanto o ritmo da conversa continuava a representar todo seu mundo. O céu era claro em seu universo de um metro, sem espaço para a figura sem nome com os ombros levemente curvados usando jaqueta leve e um gorro a despeito do clima atipicamente quente. Poderiam ter expandido seu universo consideravelmente caso tivessem consciência de que Bruce Wayne, o recluso mais festejado de Gotham, estava passando silencioso e determinado por eles. Mais tempo de TV , banda larga, posts na internet, conversas, fóruns e colunas de jornal haviam sido escritos, digitados, blogados, distribuídos e transmitidos sobre o que o mundo não sabia sobre Bruce Wayne do que sobre qualquer outro cidadão famoso de Gotham, com a exceção do homem-morcego. Os raros paparazzi acertariam na loteria da fama e atingiriam o objetivo desejado de tirar uma fotografia borrada usando lentes extremamente longas por entre os portões trancados ou as cercas imponentes da Mansão Wayne, suas imagens obscuras e desfocadas de um homem mais velho e frágil com cabelos desgrenhados compridos saindo de sob um chapéu de aba larga. Algumas vezes ele era descoberto envolto em cobertores em uma cadeira de jardim Nantucket de madeira, ou com Alfred empurrando a figura frágil pelos jardins da mansão em uma cadeira de rodas. Cada uma dessas imagens recebia uma bela comissão dos vários órgãos de imprensa a despeito de sua legitimidade, e gerara uma espécie de indústria de imagens falsas de Bruce Wayne. Bruce desfrutava dessas “exposições” intrincadas e cuidadosamente coreografadas de seu alter ego recluso. Havia desafios consideráveis em coreografar esses acontecimentos fotográficos de modo a que os fotógrafos escolhidos para tirar essas fotografias nunca suspeitassem de que estavam sendo usados. Agora a imagem que a cidade tinha do herdeiro da fortuna Wayne era algo como um cruzamento de Howard Hughes com Charles Foster Kane. A única coisa que ninguém na cidade esperava era uma versão comum de meia-idade de Bruce Wayne em jaqueta de tecido e gorro se movendo com atlética agilidade pela calçada de cimento ao longo da margem do Sprang River Park, os ombros levemente encolhidos apesar do clima atipicamente quente. Alfred insistira em que houvesse um plano de contingência para quando Bruce decidisse dar esses passeios. A solução de Bruce havia sido um TLE em miniatura – um transmissor de localização de emergência semelhante aos usados em aeronaves –, que implantara sob a pele da orelha direita. Bruce criara o aparelho e fizera o implante no exterior, fingindo que era um aparelho de audição. O resultado era um
transmissor e receptor subcutâneo que podia ligar simplesmente digitando a sequência na orelha direita. Sempre monitorando a frequência especial quando Bruce saía para caminhar pela cidade, Alfred estava pronto para chamar a cavalaria caso necessário. Podia até mesmo falar com Bruce pelo aparelho com total privacidade, sua voz transmitida por condução óssea diretamente para a cóclea no ouvido interno de Bruce, e portanto ouvido apenas por ele. Isso nunca fora usado, mas pelo menos fazia Alfred sentir que tinha a opção e impedia que se preocupasse com aquele aos seus cuidados quando estava fora. O rio Sprang ficava à sua esquerda, separando o bairro Burnley de Uptown Gotham dos bairros do centro ao sul. As torres de apartamentos debruçadas sobre o rio da parte norte ficavam do outro lado da Riverside Parkway, os sons do trânsito vespertino sendo uma perturbação abafada à paz do próprio parque. Folhas de outono dos bordos grandiosos estavam espalhadas sobre os gramados verdes e o passeio sob seus pés. Pareceria bucólico, mas isso não estava no âmbito do mundo de Bruce. Ele tinha ido ali com seu próprio objetivo, sua visão determinada e limitada por sua concentração. Sua intenção havia sido simplesmente observar a casa no endereço da mulher, mas ela saíra sozinha, descendo a rua de sobrados geminados e continuando até o parque junto ao rio mais além. Ele chegou perto de Curtis Point, um pequeno trecho do parque que se projetava sob a alta extensão em arco duplo da ponte Schwartz Bypass quase diretamente acima. Curtis Point era o mirante perfeito para o centro de Gotham. A maioria dos bancos havia sido colocada voltada para o sul e para a grandiosidade e majestade dos arranha-céus do outro lado do rio, e vários dos folhetos de turismo da cidade tinham imagens tomadas desse ponto de vista. Mas, em deferência ao projeto original do parque, um dos bancos era voltado para oeste e, em geral, era cuidadosamente ignorado pelos frequentadores das casas do outro lado, que levavam visitantes ou turistas ao parque por causa da vista. Ele dava para outra paisagem além do ponto em que o braço Falstaff do rio Gotham, afetado pela maré, convergia para o rio Sprang. Ali, a ilha conhecida como Narrows era formada por esses dois rios de maré e o rio Gotham, maior, a oeste. Lá, no ponto mais oriental da ilha, se erguia o escuro conjunto de torres georgianas e góticas conhecido como asilo Arkham. Lá, no banco normalmente desprezado, se sentava a figura solitária da mulher. – Parece que sempre nos encontramos em parques – disse a ela. Amanda Richter não se virou para encará-lo, mas sorriu ao responder. – De todos os parques de todas as cidades do mundo, você entra no meu. Gerald... Grayson, não é isso? – Sim – mentiu Bruce, se sentando no banco com um estudado relaxamento. – Você lembrou. – Surpreso? – perguntou Amanda, ainda olhando para as torres de Arkham. – Eu me lembro de tudo... Coisas demais. O que o traz a mim, Gerald Grayson? – Puro acaso, eu... – Destino – cortou Amanda com convicção, seu sorriso murchando. – O destino o trouxe a mim. – Na verdade, foi mais a Sra. Doppel – disse Bruce, se virando para ela e apoiando o
braço no encosto do banco metálico. – Tentei encontrá-la em casa, mas em vez disso encontrei a Sra. Doppel, saindo para procurá-la. Disse a ela que a levaria para casa. – Casa... Onde fica isso? – perguntou Amanda. Ela vestia um suéter cardigã ultrapassado, pérolas e saia comprida. Seus cabelos estavam puxados para trás e as sobrancelhas reduzidas a linhas finas. Parecia ter saído do passado. – Algumas pessoas chamam Arkham de casa. Para algumas, é a única casa que conhecem. – É casa para você? – Bruce perguntou. – Foi a casa de meu pai – respondeu, a voz melancólica e os olhos lentamente se concentrando em outro tempo. – A vida dele foi lá... Mesmo quando estava em casa. Arkham era onde seu coração tinha morada, recôndito e trancado. Onde ele realmente viveu... E lá ele morreu tão completamente, que mesmo sua lembrança foi enterrada com ele. Meu pai era onde meu coração vivia, e lá também eu morri. – Seu pai, Ernst Richter? Amanda se virou lentamente para ele. – O que sabe sobre... – Pessoas como os Wayne são muito cuidadosas com seus visitantes, mas nem sempre são tão atentas a seu guarda-florestal – disse Bruce, dando de ombros. – Depois que você visitou o terreno, eles montaram um dossiê completo sobre você, e a coisa mais curiosa sobre ele é a finura em comparação com a maioria. – Você lê regularmente os relatórios de segurança dos Wayne, Sr. Grayson? – perguntou Amanda, com olhos apertados. – Apenas quando me interessam pessoalmente – respondeu Bruce. – Sei que seu pai foi médico pesquisador do Hospital Universitário de Gotham e que trabalhou com Thomas Wayne... – Lá – disse Amanda, olhando novamente para Narrows. – Eles trabalharam lá juntos. – Em Arkham? – perguntou Bruce, erguendo uma sobrancelha. – Não, tenho certeza de que o Dr. Wayne nunca trabalhou em Arkham. – Eu costumava sentar aqui e esperar por eles – disse Amanda, uma profunda tristeza tomando sua voz. – Minha mãe me trazia aqui porque papai nos encontrava à tarde. Atravessava a ponte Murdock para almoçar e nos encontrávamos com ele aqui. Ele sempre sorria quando me via, me chamava de Mari. – Mari? – perguntou Bruce, olhando intrigado para ela. – Então ele partiu e mamãe acabou em Arkham, e morreu lá, embora não como ele. Depois fui para Arkham esperando consertar tudo... E, no fim, isso também me matou. Bruce acompanhou o olhar dela. – Marion Richter morreu em 1997. Era psiquiatra comportamental em Arkham na época, tendo sido a principal responsável por sua mãe, Juliet Renoir Richter, que faleceu... Também em Arkham em 1983 sofrendo de colapso mental. Amanda Richter nasceu em 1947... O que a deixaria com cerca de 64 anos de idade. Você parece levar muito bem a idade. – Eu invadi seu lugar e agora o senhor invadiu o meu, Sr. Grayson – disse Amanda, afastando o sonho. – Eu prefiro vagar sozinha. – Talvez possamos vagar juntos por um tempo – sugeriu Bruce.
– Uma pessoa vaga, Sr. Grayson – retrucou Amanda. – Duas pessoas estão sempre indo para algum lugar. – Acho que já ouvi isso em um filme antigo – disse Bruce com um risinho. – Mesmo? Quando ele foi lançado? – Ah, acho que em 1958 – respondeu Bruce. – Ah, isso explica – ela disse. – Eu o verei quando for lançado. Suponho que a Srta. Doppel o mandou atrás de mim. – Srta. Doppel? – Minha enfermeira. A mulher que mora comigo – insistiu Amanda. – Ela o mandou atrás de mim, não? – Eu já estava procurando você – disse Bruce, dando de ombros. – Então, posso levá-la para casa? – Sim – respondeu Amanda com um suspiro, se levantando. – Podemos ir. Papai não virá hoje. – Talvez eu possa encontrá-lo para você – disse Bruce, também se levantando. – É meu dia de folga, e sou bastante bom em encontrar pessoas perdidas. – Sim, acredito que seja, Sr. Grayson – respondeu Amanda, os olhos sem foco voltados para as torres escuras de Arkham do outro lado do rio, a voz sussurrante como se murmurasse em um sonho. – Estou mais perdida que qualquer um e o senhor conseguiu me encontrar aqui. Quão longe teve de ir? Foram quilômetros ou anos? Quão longe acha que terei de ir antes que também possa ir para casa? Antes que possa encontrar meu caminho de volta para os vivos? Bruce se levantou, os olhos fixos nela. – Onde você está, Amanda? Ela se virou de repente para ele, os olhos brilhantes e suplicantes. – Não quero morrer... Quero viver! Por favor, preciso encontrar um caminho de volta. Você precisa me ajudar a encontrar meu caminho de volta. – De volta de onde? – cobrou Bruce. – De volta deste inferno – ela suplicou. Sua voz estava agitada e rápida, os olhos virando de um lado para outro. – De volta de onde eles me colocaram. De volta do túmulo, da escuridão e do frio, Sr. Grayson. Eu vejo as sombras quando eles passam, jovens e velhos ao mesmo tempo, e também vejo você, o eco de seu pai e o eco do meu me levando a fazer coisas que não quero fazer e dizer coisas que não quero dizer. Somos apenas ecos, tons, sombras de nossos pais, você e eu, mas os pecados deles ainda correm por nossas veias e agora o sangue está nos chamando de volta... De volta a um passado que é melhor quando esquecido. Você precisa deter os fantasmas. Eles estão vindo para nos pegar, nós dois, em nossos sonhos à noite, e irão devorar tudo o que somos ou um dia seremos! Bruce levantou as mãos, agarrando-a firmemente pelos ombros. – Eu a levarei para casa, Amanda. É só atravessar a alameda e... – NÃO! – Amanda gritou, se afastando dele. Algumas das pessoas que apreciavam a vista olharam na sua direção. – Não acredito em você, Thomas! Você disse que iria ajudar! Você disse que estaria lá! Você disse que era nosso sonho, mas o pesadelo começou e nunca
terminou. Bruce piscou. Thomas? – Amanda – disse com voz firme e baixa. – Estou aqui para ajudá-la. Vou levá-la para casa... – Pare de me chamar assim! – gritou. – Meu nome é Marion e você sabe muito bem disso! Você fez isso, Thomas! É você quem irá pagar por isso, não eu! Você... Você irá pagar por... Por... De repente, Amanda jogou a cabeça para trás em um espasmo. Sacudiu com violência e então desmaiou tão rapidamente que Bruce mal conseguiu pegá-la antes que caísse no chão. Bruce tomou Amanda nos braços, sentindo os músculos das costas protestando ao se empertigar. As outras pessoas no parque haviam tomado o cuidado de se afastar de onde ele estava ou olhavam intencionalmente em outras direções. Bruce se virou com a mulher nos braços e atravessou depressa a alameda até as fileiras de sobrados no lado mais distante da Sprang River Drive e o bairro Burnley além. De fato, era hora de levar Amanda para casa.


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