CAPÍTULO UM
ENFEITIÇADO
Aparo Park Docks / Gotham / 1h12 / Hoje
Você não pode correr... Não pode se esconder... Batman se lançou no quadrado de cimento, pousando agachado, a capa assentando ao redor. Ela suavizava sua silhueta na escuridão. O punho direito pressionou o chão e ele ergueu a cabeça. Saia, saia, de onde quer que esteja... Era uma paisagem de pesadelo arrancada de um desenho de M. C. Escher. Escadas de ferro partindo do pequeno balcão de cimento, ligadas de formas absurdas a outras escadas. As escadas torturadas levavam a mais patamares e mais escadas impossíveis, uma cascata de peças metálicas se estendendo até o espaço infinito. Luzes de trabalho protegidas pendiam em ângulos retos uma das outras. Seus raios fracos mal iluminavam as figuras nas sombras abaixo. Algumas estavam nos lados opostos das mesmas escadas, como se a gravidade fosse uma questão de ponto de vista pessoal. Seus perfis sombreados balançavam nervosamente no escuro. Revólver, automática, escopeta, rifle – uma variedade de armas apontadas para o espaço em ângulos bizarros. Cada uma era diferente e cada uma era semelhante em aspectos importantes. Mãos nervosas as seguravam. Dedos nervosos se retorciam nos gatilhos. Passou por sua cabeça uma imagem de outro tempo e lugar muito distantes, mas nunca distantes dele. As mãos de Joe Chill não tremiam. Elas estavam firmes como granito. Seus olhos tão inflexíveis quanto uma geleira... Batman se agachou mais. A bat-roupa era nova, e ele estava satisfeito com a reação. Era essencialmente uma forma de armadura poderosa, embora sua capacidade de bloquear danos ainda não tivesse sido testada. O exterior da bat-roupa ainda usava uma variação leve da trama Nomex/Kevlar, mas felizmente muito do peso havia sido reduzido com o abandono da blindagem. Em seu lugar havia agora um conjunto complexo de exomusculatura sob a trama externa. Era sua bat-roupa “musculosa”, que podia aumentar artificialmente seus movimentos naturais e sua força. O sistema bidirecional de neurofeedback mantinha uma estabilidade dinâmica imediatamente ligada às respostas neurais voluntárias e involuntárias de seu corpo. Que ele pudesse usar os arrectores pilorum de seus pelos corporais como uma fonte neural para controle era ainda mais conveniente. Os polímeros eletroativos eram PEAs líquidos de ligação iônica que mantinham a voltagem baixa em toda a bat-roupa e a geração de calor no mínimo. O kevlar era sempre passivo; esta bat-roupa tinha uma defesa ativa, uma carga iônica que reagia ao trauma. O ponto fraco era que a bat-roupa podia sangrar caso não
reagisse suficientemente rápido. A bat-roupa podia morrer em mim. Eu podia morrer na bat-roupa. Um sorriso passou por seus lábios com esse pensamento. Que simetria maravilhosa. A capa se moveu ao redor dele. Seu tecido era do mesmo polímero reativo, e também se movia como se tivesse vontade própria. Ela se deslocava ao redor dele como algo vivo. Seu objetivo original havia sido dissipar calor para a exomusculatura, mas a mente sempre inventiva e adaptadora de Bruce Wayne encontrara outros usos criativos para a capa. É a caçada. Espreitar aquele que espreita. Predar aquele que preda. Batman ergueu a cabeça, vasculhando o labirinto louco que se estendia ao infinito em todas as direções. Sua mente estava em disparada. O tempo desacelerava. Ele montava o jogo na cabeça. Agora os pedaços estavam mais claros. Montou cada um na mente. Avaliar. Pensar em estratégia. Jillian Masters. Âncora do noticiário das onze da WGXX. Roubou quatro bancos em três dias. Escapou todas as vezes. Todos acharam que estava cobrindo a matéria. No fim, ela era a matéria. Segura a automática de lado com firmeza. Quando ela move o cano, ele para, sólido como uma rocha. O canhão de 9 mm em seus braços parece ser um velho amigo. Aaron Petrov. Chefe da bolsa de diamantes. Liderou a investigação dos roubos por todo o Diamond District. Ninguém pensou em olhar em suas bolsas. Fuzil de assalto com boa posição de disparo. Campo aberto cobrindo todas as plataformas independentemente de suas orientações. Mão insegura. Não é atirador de elite e não está familiarizado com a arma. Três ou quatro tiros antes de conseguir acertar um alvo parado. Batman continuou a catalogar os obstáculos entre ele e seu oponente do outro lado do tabuleiro retorcido. Aquele que procurava era óbvio. Spellbinder – antes Fay Moffit – de alguma forma recebera alta do asilo Arkham seis semanas antes e imediatamente desaparecera. Fay não era a primeira a assumir os negócios de Spellbinder. Ela aprendera os poderes de hipnotismo com seu amante, o Spellbinder anterior – um criminoso de quinta categoria chamado Delbert Billings. Conquistou o título após aposentar Delbert com um tiro na cabeça. Agora ela usara seus talentos para convencer vários cidadãos respeitáveis de Gotham a cometer seus roubos para ela... Novamente. Velha história... Nem mesmo interessante. Apenas um teste para a nova bat-roupa... Com uma caminhada pelo parque. Ele continuou a relacionar os oponentes na cabeça. Angel Jane-Montgomery, socialite com uma escopeta... William Raymond, bombeiro com uma automática... Diana Alexandria, celebridade da música pop com um lançador de granada... James Gordon... Batman franziu o cenho sob o capuz. Gordon iria exigir alguma sutileza. Batman fechou os olhos. O capuz na cabeça também era novo. Usá-lo exigira considerável treinamento, mas
justificava o esforço. Os sensores na beirada das aberturas para os olhos liam seu fechamento de olho, ativando um sistema de imagem subsônico – como o sonar de um morcego – que se comunicava diretamente com um implante ligado ao seu nervo ótico. A imagem ainda não tinha detalhes claros, mas ele se adaptara a isso, e lhe dava um campo de visão que podia interpretar tridimensionalmente em todas as direções ao seu redor. Era como ter olhos nas costas, nas laterais e na frente da cabeça, uma consciência tática que se estendia para todos os lados. A justiça é cega. Os lábios de Batman se separaram sobre os dentes. O gerador de imagem do sonar tinha uma vantagem adicional. Era baseado em som, e as ilusões da Casa de Diversões de Spellbinder quanto à curvatura da luz iriam desaparecer. Fácil demais... Batman saltou, os músculos sintéticos da bat-roupa fortalecendo suas pernas poderosas. Disparou pelo espaço aberto, girando pela luz distorcida dos espelhos presos ao longo do saguão. Vieram tiros de todas as direções. O fuzil de assalto cuspiu balas pelo cano, produzindo altos sons graves de “chuff” a cada rajada. Vários gritos de fúria e medo penetraram a cascata de tiros – pois de repente Batman parecia estar em toda parte ao mesmo tempo, sua forma escura voando pelo espaço espelhado de ilusões e de repente multiplicado mil vezes. Espelhos de vidro de segurança foram perfurados pela chuva de chumbo. Vários estilhaçaram com um ruído alto, o vidro arredondado de seus restos caindo como neve cintilante entre as luzes de trabalho que agora balançavam. É um lugar para começar. Jillian Masters girou sua automática 9 mm no momento em que Batman baixou o ombro para a plataforma de cimento. O músculo do ombro contraído se transmitiu para o traje, que também contraiu, amortecendo o impacto enquanto ele rolava. A 9 mm só disparou uma vez antes que o impulso de Batman o colocasse de pé, atingindo a mão que segurava a arma com as costas do antebraço. A musculatura fortalecida do traje acertou a automática com tal força que ela abriu um comprido corte na mão da apresentadora. Chuff... Ping! O projétil do fuzil de assalto ricocheteou em um dos degraus de metal. Foi um, Aaron. Os outros cidadãos hipnotizados continuaram a disparar, mas o labirinto ainda estava no caminho, desviando a pontaria. Os espelhos continuaram a sofrer o pior da carnificina aleatória. Outros mais estilhaçavam a cada momento que passava. Não há mais tempo. Batman agarrou o pulso da apresentadora furiosa, girou seu corpo e a jogou no chão perto de uma das escadas metálicas. Ela logo rolou de barriga, se levantando com as mãos. Batman rapidamente ajoelhou em suas costas enquanto levava a mão ao cinto de utilidades. Chuff... Clang! O disparo foi na escada, a pouca distância. Foram dois, Aaron... Talvez você seja melhor do que eu pensei. O Cavaleiro das Trevas tirou uma comprida fita de plástico preto do cinto. Agarrando as mãos de Jillian, enrolou a fita em seus pulsos e no suporte metálico do degrau. Com um puxão rápido e um som rascante, Jillian foi presa ao suporte.
Braçadeiras plásticas. Às vezes o simples é o melhor. Chuff... Crack! Mas Batman não estava mais ajoelhado no ponto em que o cimento foi lascado pelo terceiro tiro de Aaron. Sua forma negra correu novamente, pulando de plataforma em plataforma... Montgomery, Raymond, Alexandria... Gordon. Onde está Gordon? Aaron Petrov suava de pé na plataforma. Restava apenas uma luz de trabalho, brilhando sobre sua reluzente cabeça sem pelos. – Você não pode ficar com eles! Eles são meus, e você não pode tirá-los de mim! Você não pode... Você... Você não pode – ele gritou para a escuridão. Aaron ergueu os olhos. A luz desapareceu quando a escuridão o engolfou. Batman se levantou. Aaron Petrov estava com mãos e pés amarrados abaixo dele, gemendo e soluçando como uma criança. – PARADO! Ele estava esperando por mim. Está atrás de mim. Automática oficial. Gordon sempre foi um ótimo atirador. De alguma forma eu sempre soube em minha alma que ele estaria lá quando eu morresse. Mas não hoje... Batman começou a se virar lentamente. – Eu disse PARADO! Batman parou. – Calma, Gordon. Você está sendo manipulado pelo Spellbinder. – O inferno que estou! – respondeu Gordon. Havia um tremor em sua voz. – Spellbinder está trancada em Arkham... Eu mesmo a vi lá ontem antes... antes que você... Ele está com raiva. Sente dor. O que está vendo? O que Moffit o convenceu a ver? As palavras de Gordon cortavam como os cacos de vidro espalhados ao redor deles. – Como você pôde? Seu desgraçado, você a matou! – Quem? Quem eu matei, Gordon? – Você sequer lembra o nome dela? – disse Gordon, a voz gelada. – Bárbara. Minha pequena Bárbara... Você a colocou naquela cadeira de rodas, e agora terminou o serviço! – Gordon, pense! O Coringa a colocou ali... Lembra? Ela ainda está viva, Jim. – Eu devia acabar com você agora mesmo! – berrou Gordon. – Mas não vai. Você irá me prender. – Não! Vou poupar muito trabalho e dinheiro a essa cidade... Eu vou... – Você é um bom policial, Gordon – disse Batman, se movendo muito lentamente, erguendo as duas mãos. – Você vai me prender. Vai garantir que seja feita justiça. Batman colocou as duas mãos atrás da cabeça. Fechou os olhos. A justiça é cega.
Gordon ergueu a arma, avançando. O cano da arma de serviço enfiado na base do pescoço de Batman, sob seus dedos. Na base do crânio. Nenhuma blindagem – ativa ou não – o protegeria a essa distância. – Isso mesmo, Batman! – espumou Gordon. – Eu vou garantir que a justiça seja feita! Eu sou a justiça, seu filho da... A capa voou, subitamente cobrindo o rosto de Gordon. Já não serve apenas para exibição. Gordon atirou no instante em que a cabeça de Batman se deslocou para o lado. O disparo explodiu no ouvido de Batman enquanto ele se virava para Gordon. A interface neurobiônica foi danificada, e por um momento Batman ficou realmente cego ao abrir os olhos. A capa ainda estava enrolada no pulso do comissário de polícia, puxando-o para frente, até o alcance de Batman. O chute giratório custou a Gordon seus óculos, mas o comissário estava alimentado por raiva, vingança e desespero. Conseguiu disparar sua arma mais duas vezes em uma louca fúria antes de Batman arrancá-la de sua mão. Ela caiu no vazio ao redor deles, enquanto lutavam. Gordon não tinha nada a perder com a morte de seu oponente. Batman tinha tudo a perder. Gordon finalmente caiu, estremecendo sob os golpes cuidadosos de seu velho amigo. Batman o prendeu como havia feito com os outros, embora talvez sem a mesma firmeza. Ele se ergueu e fechou os olhos. O capuz estava novamente respondendo. O jogo terminara. Era hora de buscar seu prêmio. – Eu fiz o que exigiu, mestre – ela murmurou. – Tudo exatamente como pediu. Você ficou satisfeito, mestre? Eu o deixei satisfeito? Batman a encontrou em uma pequena sala com uma única poltrona de espaldar alto. Estava sentada diante de um santuário. No santuário, um boneco de ventríloquo olhava para o intruso com olhos mortos e vazios enquanto ele se aproximava. Batman apertou os maxilares. Conhecia o boneco de madeira bem demais para dar as costas a ele. Recebeu o nome de Woody quando foi esculpido na penitenciária de Blackgate. O patíbulo havia sido desmontado após uma execução frustrada em 1962, e um “perpétuo” chamado Donnegan resgatara um pouco da madeira para manter as mãos ocupadas. Donnegan era um grande fã de filmes noir e de gângster, e conseguiu vestir seu boneco com um terno de gângster em miniatura, com listras largas e lapelas combinando. Quando Blackgate ficou mais cheia, Donnegan e Woody ganharam em sua cela a companhia de um assassino bastante improvável, um homem normalmente tímido de nome Arnold Wesker. Ele tentou se enforcar, mas, segundo os relatórios psiquiátricos da prisão da época, foi “convencido a desistir” pelo boneco, que Wesker alegou ter começado a falar com ele. Woody persuadiu Wesker a tentar
fugir com ele usando um túnel que Donnegan começara a cavar no ano anterior, mas que abandonara antes da conclusão. Donnegan concordou em ajudar, dizendo que terminaria o túnel para a escapada de Wesker. Mas ficou chateado ao descobrir que o homem planejava levar Woody. Ele estava feliz e seguro em sua cela com Woody e não o deixaria partir. Wesker, sob a ilusão de que o boneco mudo realmente o instigava, atacou Donnegan na cela com um saca-rolhas. Seu golpe inicial não acertou Donnegan, mas cortou o rosto de Woody, deixando uma feia cicatriz comprida. Wesker matou Donnegan e fugiu com o boneco. O lunático foragido e sua marionete logo assumiram novas personas: Wesker se tornou o Ventríloquo, enquanto Woody era anunciado como “Scarface” por causa do talho irreparável deixado pelo saca-rolhas. O Ventríloquo se revelou um péssimo artista – pronunciando errado todos os Bs e Gs – mas sempre alegou que os conselhos de Scarface fizeram dele um gênio do crime. Ambos desapareceram nos subterrâneos de Gotham. Wesker acabou morto por sua própria gangue, mas Scarface seguiu em frente como um estranho ícone entre a sociedade oculta de Gotham. Dizia-se que o boneco havia sido amaldiçoado ou possuído, e alguns no submundo criminoso juravam que também falava com eles. Os olhos do boneco pareciam seguir Batman enquanto contornava a poltrona. Fay Moffit olhava sem expressão para o boneco enquanto murmurava um monólogo. – Você realmente é muito gentil, Scarboy! Obrigada. Obrigada... Ela ficou em silêncio, os olhos desfocados e a respiração fraca. A cabeça caiu de lado na poltrona. Spellbinder... Está enfeitiçada? Quem hipnotiza um hipnotizador? Batman prendeu seus pulsos. Ela quase não se moveu, muito menos resistiu. Jogou o corpo flácido sobre o ombro e se virou para partir. – Solucionou mais uma, hein, tira? Batman se virou imediatamente. Scarface falava com ele. – Você errou o alvo, meganha – disse o boneco, a boca se movendo enquanto falava, os olhos mortos fixos em Batman. – Deixando o chefão escapar. Eu sou o cérebro desta operação e você só está catando as migalhas. Mas é isso, você nunca viu bem as coisas. É um aparelho. Um reprodutor de áudio ligado a sensores. Mas dirigido a mim. Isso tudo foi para transmitir uma mensagem... Mas qual é a mensagem, e de quem vem? – Veja o seu pessoal, por exemplo! Sal da terra! Santos de Gotham! Que tristeza que um bandido louco tenha acabado com eles em Crime Alley – disse o boneco, a cabeça balançando para a frente e para trás. – Foi assim que contaram a você... Uma bela história de ninar para que pudesse dormir à noite em sua bela cama quente em Bristol. Batman ficou paralisado. Quem quer esteja por trás disto sabe quem eu sou. Scarface balançou a cabeça de madeira violentamente de um lado para o outro. – Mas agora você está crescidinho, não é? Tem novos brinquedos para brincar e não precisa mais de contos de fadas. Talvez possa acordar e saber que todos os santos pagam um preço e que suas almas nem sempre são limpas. Eu vou fazer uma festa, só para você. Acha que tem idade para ir? O boneco de repente parou de se mover.
Só então Batman percebeu o cartão na mão do boneco. Ele levaria o boneco com ele, juntamente com todo o equipamento de áudio. Não seria bom ter aquelas palavras sendo tocadas durante qualquer investigação policial posterior. Mas primeiro ele esticou a mão enluvada e pegou o cartão estendido. Aparentemente era de tamanho padrão, em branco atrás com uma única linha de texto na frente. “Você está convidado.”

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