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domingo, 28 de maio de 2017

SD 926 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO DOZE

A CURA

Rua Copper / Gotham / 19h29 / Hoje A sombra do morcego desceu o saguão, a figura que a projetava se movendo praticamente sem ruído. A escuridão do corredor era quebrada apenas por fracas áreas de luz, filtradas pelos vidros foscos nas portas dos escritórios dos dois lados, uma continuação pálida da iluminação pública e das janelas do lado de fora. Mas o homem-morcego estava cego... E podia ver tudo. O sistema de imagem subsônica dava a ele uma consciência do ambiente que era dimensional e completa. Agora estava combinado a uma tecnologia de visão noturna com a luz das estrelas. Era recém-instalado e tinha um campo limitado se comparado ao visor subsônico, mas pelo menos permitia que lesse placas e textos impressos quando voltava os olhos para eles. As portas dos escritórios deslizavam em uma textura verde fantasmagórica mapeada pelo sistema subsônico de imagens tridimensionais em seu capuz. Estava ligeiramente descalibrado, mas se ficasse imóvel podia ler as identificações pintadas nos painéis de vidro de cada porta de escritório. Não está bom... Não ainda. Da próxima vez estará melhor. – Ei! Batman foi paralisado pelo som que ecoava pelo corredor. Ficou imóvel, tentando determinar a direção da qual vinha. – Ah, me ajude, Sr. Morceguinho! – disse a voz aguda cacarejante. – É uma tragédia. Ei, qual o problema? Não gosta de um bom drama quando está nele? – Harley Quinn – Batman murmurou para si mesmo. Ele flexionou os músculos dentro da bat-roupa, acionando os sistemas da exomusculatura sem uma decisão consciente. O mero som da voz dessa psicopata esquizofrênica arrepiava os pelos de seus braços. Que ela surgisse de forma totalmente inesperada era, estranhamente, algo a ser esperado, considerando a natureza completamente aleatória de sua personalidade fragmentada. Ela fora aprendiz do próprio Príncipe Palhaço do Crime. Mas tudo o que acontecera nessa investigação havia sido planejado demais, intencional demais em seu significado para ter sido o Coringa. – Que diabos ela está fazendo aqui? – Você vai se atrasar, Morceguinho! – guinchou a voz anasalada. O fosso da escada. Ela está em vantagem. Foi rapidamente na direção da porta cortafogo, mas se deteve pouco antes de passar. A porta não estava apenas aberta como ele imaginara; as dobradiças haviam sido cortadas e a porta deixada apoiada na parede. Ele esticou a cabeça, mapeando as escadas de emergência metálicas acima. Havia um fosso
aberto, seguindo pelo centro das escadas de metal até o poço. O espaço era grande e, a julgar pelo tamanho, poderia ter um dia abrigado um elevador de carga. Do patamar no qual estava, Batman podia ver dois andares do porão, bem como mais cinco até o alto da escadaria. – Não recebeu seu convite, morcego? – provocou Harley desde a escuridão acima. – Você foi convidado! Foi convidado! Foi convidado! O chão tremeu, rolando levemente sob seus pés, Batman sentiu a onda de ar quente subir pelo poço antes que a chama irrompesse na escadaria, um inferno em movimento passando por ele em disparada. Podia ouvir vidro se partindo com a pressão por todo o prédio, misturado à concussão grave da distante pirotecnia inflamando-se abaixo. – Buuu! – a voz provocadora ecoou, repicando na escada metálica. – Onde vamos encontrar um herói, Sr. Morcego-da-torre? Ó, quem irá nos salvar? Hahahahaha! Batman pegou a pistola de gancho no cinto de utilidades, apontando para a estrutura de vigas de aço no alto do fosso. O recipiente de pressão disparou ao toque, e o gancho se fixou cinco andares acima. Ele podia sentir o calor aumentando atrás. Estava oprimindo a visão noturna pela luz das estrelas. Batman abriu os olhos. O saguão já estava tomado pelas chamas, se espalhando na sua direção em camadas famintas que queriam consumi-lo. “Você foi convidado”... Harley sabe. Num instante, Batman enrolou o monofilamento no cilindro, prendeu o gancho de pulso da bat-roupa ao equipamento, e disparou o guincho de velocidade. A exomusculatura da batroupa enrijeceu, sustentando seu corpo enquanto o acelerava para cima ao longo do eixo central do poço. As escadas metálicas escuras, iluminadas pelas chamas abaixo, passavam por ele enquanto subia. Um movimento chamou a atenção de Batman no patamar do quarto andar, pousando em um lado do poço logo acima. Ele tomou impulso nas escadas, balançando para trás no poço enquanto continuava a subir. Travou o guincho, detendo seu giro ruidoso no instante em que chegava ao auge de seu rodopio. A forma de uma mulher estava no patamar, as mãos na grade enquanto ria enlouquecida. Era Harley Quinn... E ainda assim não era. Batman captou tudo de imediato. Havia sinais familiares de Harleen Frances Quinzel, a residente de psicologia do asilo Arkham que tentara curar o Coringa, mas, em vez disso, fora arrastada para sua loucura. Era a mesma forma graciosa e atlética. A boca grande e os lábios generosos ainda eram emoldurados pela maquiagem branca de palhaço, assim como os olhos castanhos. A voz hedionda era inconfundível, assim como as provocações psicóticas que haviam se tornado sua marca registrada. Mas ela deixara de lado o habitual macacão de bufão e o chapéu de arlequim. Em vez disso, vestia um jaquetão verde-escuro com manchas no colarinho e dragonas. O cabelo, normalmente louro alvejado, havia sido tingido de preto apressadamente, e caía solto sobre os ombros, em vez de no rabo de cavalo apertado que sempre usara antes. – Me salve! Me salve! Me salve! – tagarelou Harley enquanto recuava do patamar pela passagem e ia para a escuridão além da porta. Batman pegou impulso na escada atrás, balançou acima do fogo que subia do poço abaixo
e soltou o gancho. Rolou pelo patamar, se levantando logo após a passagem. O som distante de sirenes penetrou no rugido crescente do incêndio abaixo. Os bombeiros de Gotham City estavam respondendo ao incêndio, mas, considerando a velocidade com que aumentava, Batman sabia que o prédio estaria perdido antes que conseguissem controlá-lo. Os sons de estalos e rangidos das vigas de sustentação abaixo ficavam mais frequentes a cada instante. Embora o corredor diante dele parecesse firme e intacto em meio à nuvem crescente de fumaça, Batman sabia que era uma ilusão; tudo sob seus pés estava sendo devorado pelas chamas. O depósito de papel era no porão, e sem dúvida alimentava o calor que se difundia a seus pés. Batman podia sentir o suor se acumulando na cabeça sob o capuz. Dissipação de calor na bat-roupa exomuscular era um problema em qualquer momento, mas no meio de um incêndio era ainda pior. A capa adejava atrás dele no vento produzido pelo fogo. Estava ficando sem tempo. Seguiu rapidamente pelo corredor. O piso sob suas botas já estava ficando macio, cedendo sob os passos. Vinha luz de uma única porta no final do corredor. Tinha de ser Harley, guiando-o, provocando. Ele chegou à porta. A identificação no vidro agora rachado originalmente dizia “Conferência B”, mas alguém pintara apressadamente por cima disso. Agora dizia Ala dos órfãos surdos. Batman abriu a porta com tal força que a arrancou das dobradiças. Lançou-se para cima, agarrando as vigas enquanto se preparava para a armadilha que havia sido preparada tão extravagantemente para ele. Parou, jogando-se com cuidado no chão. A luz bruxuleante do incêndio no prédio penetrava pelas janelas da comprida sala, refletida nos prédios do outro lado da rua. A luz laranja iluminava duas fileiras de berços, oito de cada lado, colocados à esquerda e à direita do espaço. No final das filas de berços estava Harley Quinn em seu sobretudo manchado, as mãos esticadas para ele. Lágrimas corriam por suas bochechas, marcando a maquiagem branca. – Por favor, Tommy – suplicava Harley. – Salve as crianças! Salve as crianças! Batman foi rapidamente até o primeiro berço à direita, esticando a mão para a forma sob o cobertor. Estava imóvel, dura, fria. Arrancou o cobertor. Um boneco de ventríloquo Scarface olhava para ele, seu rosto mudava com a luz infernal que atravessava as janelas. Segurava um convite entre os dedos rígidos. – Você consegue salvá-los, Tommy? – perguntou Harley com um risinho. – Você vai salvar todas as suas crianças, hein, Tommy? Batman foi até o berço seguinte... E o seguinte... Cada um tinha um idêntico boneco Scarface olhando para ele do berço, cada um com um convite em sua mão de madeira. Um estalo alto repentino percorreu o salão. Uma parte do piso perto da porta desabara, a chama subindo em um turbilhão, se espalhando pelo teto. Batman correu até Harley Quinn, agarrando-a rispidamente, prendendo seus braços. Ele rugiu para ela, quase perdendo o controle.
– Por que está me chamando assim? – Chamando como, Tommy? – reagiu Harley sorrindo. – Vou lhe chamar de Tommy porque é seu nome, e você pode me chamar de Adele. – Adele? – repetiu Batman, piscando. – Quem diabos é Adele? – Eu, seu morceguinho-inho! – respondeu Harley. – Eu sou Adele, e estou aqui para ajudálo a limpar minha bagunça. Mas então você terá de morrer... Todos temos de morrer, não é? Batman agarrou um dos bonecos Scarface e o usou para quebrar a janela mais distante. O prédio do outro lado do beco teria de servir. Se o gancho firmasse, ele poderia tirar os dois dali antes que o prédio desabasse sob eles. – Vamos embora... Adele – disse Batman, puxando Harley para si, sentindo a bat-roupa compensar o peso. Houve um tempo em que ele teria conseguido sozinho, mas isso passara havia muito. – Para onde vamos, Tommy? – Você vai voltar para o asilo Arkham – disse Batman, lançando o gancho mais uma vez. Pelas janelas atrás, podia ver as escadas dos bombeiros subindo. Suas mangueiras logo estariam jogando água sobre e através do teto em ruínas. Não seria bom estar entre as mangueiras e o fogo. – Arkham? Ah, tão cavalheiro, me levando para casa – disse Harley, rindo. – E tão pudico! Ainda está cedo, Tommy.
Asilo Arkham / Gotham / 15h05 / 16 de fevereiro de 1958 – Dr. Wayne, isso é totalmente inadequado – disse Richter, mais uma vez passando a mão pelo cabelo enquanto falava. – Há protocolos que precisam ser seguidos. Nossa pesquisa não terá utilidade para ninguém caso não possa ser testada. – Estou perfeitamente consciente disso, Dr. Richter – retrucou Thomas, de pé no escritório de Richter, os punhos apoiados no tampo da escrivaninha. – Mas o senhor mesmo disse que as chaves da memória genética tiveram um desempenho bem acima da curva estatística, e que esse era o último passo antes de pedir testes clínicos. – Nunca antes reunimos a sequência inteira – contrapôs Richter, gesticulando para enfatizar, as luminárias de mesa destacando as rugas em seu rosto. – Os elementos isolados, sim, todos parecem estar produzindo os resultados desejados, mas combinados... – E quanto aos resultados iniciais das cobaias humanas que o senhor já tem? – perguntou Thomas, pegando a prancheta do alto de uma pilha de papéis espalhada pela mesa. – Veja aqui... Michael Smalls, assassino profissional antes de metralhar metade de Tricorner Yards. Sua terapia de substituição de memória funcionou nele. Estas duas mulheres, Caprice Atropos e Adele Lafontaine, não apresentaram efeitos colaterais ao transmissor viral benigno e ambas responderam aos gatilhos de memória genética que o senhor concebeu. O senhor conseguiu coletar lembranças usando as terapias de traço viral das duas, e com um grau de precisão que nenhum de nós esperava. As motivações básicas são muito mais amplas em sua base química e fáceis de localizar que lembranças específicas, o senhor provou isso. Só o que resta é ligar a memória química às chaves genéticas no vírus benigno e todo o
sistema estará completo. Em uma única inoculação, poderemos virar o crime contra si mesmo... E livrar o mundo de agressores, bandidos e qualquer um que queira estender seu domínio sobre outro ser humano. – Sim, os protocolos parecem sólidos – argumentou Richter. – Podemos substituir as motivações básicas desses criminosos, mas pelo quê? Que ética escolheremos? Thomas pensou por um momento antes de falar. – A minha. – A sua? – reagiu Richter, surpreso. – Elísio é o nosso sonho, doutor. É hora de torná-lo realidade. Temos os meios, literalmente, de curar o crime. Só precisamos querer pô-los em prática. Richter desviou os olhos. – Ernst – disse Thomas em voz baixa. Richter se virou para encará-lo. – Ambos temos coisas em nosso passado que queremos corrigir – disse Thomas. – Nós também podemos ser curados. Richter baixou os olhos, mas assentiu. – Tenho de voltar ao hospital – disse Thomas. – Me ligue quando estiver pronto. Vou dar uma checada em todos antes de ir. Thomas se virou e saiu pela porta do escritório. A área do laboratório tinha de ser combinada com a de operação, e, embora estivesse abarrotada de equipamento, havia espaço suficiente para o que eles precisavam. Thomas se virou para a rotunda no fundo, onde ficavam as celas. Começou com a cela da direita, olhando pela abertura quadrada de dez centímetros na porta metálica. Caprice Atropos praticava ioga junto ao catre, mantendo uma posição de lótus totalmente imóvel. Seus cabelos louro-escuros caíam sobre o rosto. Ela fora uma ventanista sociopata da máfia Moxon até decidir que era mais divertido matar as vítimas de formas únicas durante os roubos. A cela seguinte abrigava Michael “Foice” Smalls. O Açougueiro de Tricorner era um homem alto e musculoso com bochechas encovadas. Havia sido um assassino violento da máfia Rossetti, que se deliciava especialmente em infligir dores terríveis a suas vítimas antes de permitir que morressem. Estava deitado em seu catre – outra evidência de melhoria, já que, pelo que as pessoas sabiam, não dormira nada nos oito meses anteriores à sua internação em Arkham. A terceira era Adele “Chanteuse” Lafontaine. Estava de pé com as costas apoiadas na parede lendo um exemplar de Bonequinha de luxo, de Truman Capote. Seus cabelos negros compridos caíam sobre o jaquetão verde-oliva que vestia desde sua prisão e pelo qual lutava violentamente sempre que era separada dele. Virou a cabeça na direção da porta e, vendo o Dr. Wayne, deu um pequeno sorriso e acenou. Havia sido uma cantora, Wayne recordava, cujo marido servira na Coreia. Ela o flagrara com outra mulher, e o resultado fora duas pessoas mortas e uma psique abalada. Oito maridos depois, ela era conhecida como a Viúva Negra de Robinson Park. Dizia-se que o casaco pertencera ao primeiro marido. Finalmente, Thomas chegou à última cela.
– Thomas! – disse Denholm, correndo para a porta, o rosto colado à pequena abertura. – Graças aos céus que está aqui! Você tem que me tirar deste lugar. Thomas respirou fundo, estremecendo. – Mas eu me esforcei tanto para colocar você neste lugar, Denny. Denholm piscou, como se seu cérebro não reconhecesse as palavras. – Eu sei o que você fez, Denholm – continuou Thomas. – Os desfalques, as mentiras, as vezes que enganou a Martha... – Não! Não, Thomas, você entendeu tudo errado – disse Denholm rapidamente. – Eu não tinha escolha! Que chance um cara como eu pode ter? O jogo inteiro era armado... Então tentei armar algumas coisas eu mesmo... Mas acabou saindo do controle. – Saindo do controle? – repetiu Thomas. – Denny, dezessete crianças morreram no incêndio que você iniciou. – Não era para isso ter acontecido! – gemeu Denholm. – Eu disparei o alarme... Eu!... Achei que daria tempo de elas saírem. Celia disse que haveria tempo de sobra. Como eu poderia saber que tinham garotos surdos naquele andar? – E quanto a Martha? – perguntou Thomas em voz baixa. – Martha? – repetiu Denholm, inseguro. – Você se lembra da Martha, não lembra? – Ah, claro, é uma menininha doce, mas o que ela tem a ver com... – Denholm, você não vale o chiclete grudado na sola do sapato dela – disse Thomas, a raiva finalmente crescendo. – Eu a conheço desde que ela tinha seis anos de idade, teria feito qualquer coisa por ela, caso tivesse se dado o trabalho de pedir. Mas agora ela quer você e uma fantasia de quem acha que você é. Ela me procurou esta manhã. “Dê um jeito nisso”, falou. Pediu que eu desse um jeito nisso para você. É uma das poucas coisas que me pediu em toda a vida. Então vou dar um jeito nisso por ela, Denholm... E você também vai dar um jeito nisso por ela. – Ótimo! – disse Denholm, sorrindo inseguro. – O quê? O que você quer dizer com isso? – Você não é o homem que ela imagina – disse Thomas gravemente. – Mas quando sair daqui, será.

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