CAPÍTULO DEZESSEIS
MOXON
Avenida Moldoff 15247 / Gotham / 21h36 / Hoje Da escada no canto do sobrado, vendo Ellen Doppel descer a rua escura, Bruce Wayne considerou novamente suas opções. A avenida Moldoff ficava em uma área sofisticada e silenciosa chamada Upper East Side. Algumas das árvores que ladeavam a rua larga tinham quase cem anos de idade. Onde eram iluminadas pelos postes, flamejavam em cores outonais que, considerando a limpeza da rua, aparentemente não ousavam cair no chão. Uma chuva mais cedo deixara o asfalto reluzente. Havia pouquíssimos carros estacionados na rua, e esses poucos raramente ficavam muito tempo. Era uma noite silenciosa e pacífica. Sem dúvida porque Mallory Moxon decretara que assim fosse, Bruce reconheceu para si mesmo. A força dos Moxon por trás da implantação dessa paz era sutil, mas muito evidente para os olhos treinados de Wayne, mesmo na escuridão. Havia três homens de ombros largos conversando perto da entrada do 15247 – duas camisas polo e uma rulê, todos cobertos com jaquetas soltas que mal justificavam as licenças que cada um recebera para carregar armas escondidas. Mais dois capangas estavam do outro lado da rua – um nos largos degraus de pedra de uma casa, o outro levemente apoiado em uma das árvores. Havia outros no final do quarteirão, e uma dupla tão perto que Bruce podia ouvi-los conversando sobre o jogo dos Knights da noite anterior, como Bounous terminara o oitavo inning tentando transformar um simples em um duplo e como o arremesso de Rising estava longe de justificar seu salário. Olhe para cima. Sempre olhe para cima. Havia mais deles projetando as cabeças acima ou se inclinando por sobre as seteiras baixas no quinto andar das casas. Estavam se esforçando muito para não perturbar a ilusão de tranquilidade abaixo, mas para Bruce a atmosfera estava carregada com a sensação de um ninho de vespas adormecido. Eu adoro chutar o ninho. Sou o exterminador. Bruce respirou fundo em silêncio. Em outras circunstâncias, de capuz e capa, ele teria gostado de tomar a rua, varrendo os capangas para a sarjeta e os derrubando dos tetos até que a aparente tranquilidade se tornasse real. Mas, enquanto se aproximava do santuário no East Side e escondia o batmóvel em seu nicho disfarçado, se deu conta de que punhos e medo não lhe dariam o que queria naquela noite. O que ele precisava era de Bruce Wayne. Esperou imóvel enquanto a enfermeira Doppel caminhava rigidamente pela rua, o livro encadernado apertado sobre o peito. Teria de esperar que Doppel saísse antes de se mover –
não seria bom que o Sr. Grayson aparecesse inesperadamente, especialmente para o que tinha em mente. Como sabia que fariam, gola rulê e os dois rapazes de polo a observaram com cuidado enquanto subia os degraus até a porta da frente. Ela apertou o botão e então falou algo no interfone. Doppel esperou no patamar por menos de um minuto e então a porta abriu. Eles não se viam pessoalmente há mais de duas décadas, mas Bruce ainda conhecia a forma do rosto e os olhos. Mesmo curtos, não havia como confundir os cabelos vermelhoferrugem ou os ombros fortes. Mallory Moxon atendera a porta. Bruce viu Mallory pegando o livro da enfermeira Doppel. Elas trocaram algumas palavras na varanda, com a enfermeira parecendo mais em pânico a cada momento. Bruce podia ver os três capangas no meio-fio ficando um pouco mais altos enquanto observavam, as mãos se enfiando automaticamente nos casacos. Contudo, em um momento, Mallory anuiu e fechou a porta, deixando a enfermeira Doppel descer os degraus com os ombros caídos – e sem o livro. Bruce esperou que Doppel virasse a esquina, e então conferiu uma última vez a posição dos guardas, garantindo que seu aparecimento na rua não assustaria nenhum deles. Quando ficou satisfeito, saiu do vão da escada para a calçada. Estava ficando uma noite fria, e ele quase desejou estar com a bat-roupa só por causa do calor. Não é apenas o frio. Ele sorriu consigo mesmo. Estava totalmente consciente do gola rulê e seus dois parceiros ao passar por eles e subir a escada, mas propositalmente nenhum deles demonstrou sequer identificar sua existência. Chegou ao topo e apertou o botão do interfone. – Quem é? – perguntou a voz rouca de barítono pelo pequeno alto-falante. Decididamente não é a voz de Mallory. – Barrabás – disse Bruce. – Diga a Mallory que Barrabás quer vê-la. Mais de um minuto se passou. Bruce tinha consciência dos três homens se movendo inquietos atrás dele perto do meio-fio, mas permaneceu imóvel nos degraus de pedra à frente da porta fechada. Núcleo e estrutura de aço. Mallory está vivendo em um cofre. O interfone estalou. – Quem é? O som e o tom ainda me levam de volta. Poderia ter dado certo... Nunca daria certo... – Vamos lá, Malícia, é Barrabás. Está frio aqui fora e preciso entrar. Os capangas na base da escada atrás dele recuaram, relaxando ligeiramente. Bruce ouviu o zumbido elétrico enquanto vários ferrolhos de segurança destravavam ao mesmo tempo. Entrar é fácil... Sair é que será difícil. Bruce agarrou a maçaneta e abriu a porta pesada.
***
– Faz bastante tempo, Mallory – disse Bruce, se acomodando na cadeira de couro excessivamente estofada. Era desconfortável, e ele sentia como se fosse escorregar dela a qualquer momento. A biblioteca ficava no segundo andar da residência. O revestimento de madeira escura entre as enormes estantes subia até um balcão que dava a volta no terceiro andar. Várias cadeiras de couro vermelho-escuro e um sofá combinando estavam espalhados pela sala, com uma grande escrivaninha em uma das extremidades. A escrivaninha era de madeira de lei pesada, tingida para combinar com o revestimento. O painel em sua frente tinha um relevo da cabeça de Jano – um homem cujos rostos gêmeos olhavam para o passado e o futuro. Decididamente tinha um clima “masculino” em sua construção, e provavelmente havia sido do pai dela em algum momento no passado. A superfície da escrivaninha estava atulhada de papéis, mas Bruce podia ver facilmente, em um espaço livre no centro, o livro que Ellen Doppel acabara de entregar. – Quinze longos anos, mas quem está contando? – retrucou Mallory de onde estava sentada, na beirada da escrivaninha, os braços cruzados sobre o peito. Vestia jeans e um suéter de gola redonda, levemente caído no ombro esquerdo. Os pés estavam descalços e os cabelos curtos tinham sido escovados rapidamente. Havia um traço de maquiagem nos olhos, acima dos malares proeminentes, e um toque de vermelho nos lábios em bico. Ela deslizou da escrivaninha e ficou em pé diante dela. – Posso lhe oferecer um drinque? Acho que uísque e soda sempre era sua escolha. Ela descontraidamente empurrou o livro embrulhado para trás dela, fora de vista. – Não, obrigado, Mal. Não foi por isso que vim. – Mesmo? – reagiu Mallory, recostando na escrivaninha, um sorriso brincando em seus lábios. – Não me diga que o filho mais recluso de Gotham veio retomar de onde paramos. – Mallory, por favor – continuou Bruce. – Preciso de sua ajuda em uma coisa. – Sério? – Mallory bufou em desprezo. – Quanto a isso você pode se virar sozinho... Ou sem dúvida seu mordomo ficaria feliz em chamar um de muitos serviços. – Não esse tipo de ajuda. – Ah. – Eu tive problemas com a SEC. – Era uma história, que tinha verdade apenas suficiente para torná-la palatável. A questão para Bruce era se o livro que ele vira ser entregue seria suficiente para fazer com que acreditasse em sua mentira. – Depois do escândalo do subprime, eles estão farejando sangue na água. Estão até mesmo dizendo que podem ir atrás de nós pela Lei de Combate a Organizações Corruptas e Influenciadas pelo Crime Organizado. Mallory sorriu sinceramente com isso, com o mesmo brilho que ele recordava ser tão cativante quando eles se conheceram anos antes. – A Lei RICO? Isso é irônico, Bruce. Mesmo você tem de admitir que é engraçado. – Eles estão falando sério, Mal – afirmou Bruce com toda autoridade que conseguiu reunir. – Poderia forçar uma dissolução. Poderia significar o fim da Wayne Enterprises no mundo inteiro. – Você quer que eu faça algo em relação à SEC? – perguntou Mallory, falando sério, suas
mãos compridas e elegantes se curvando sobre a beirada da escrivaninha. – Acho que posso conseguir isso. – Não, Mal, não é por isso que estou aqui. – Seria caro – pensou Mallory, sem realmente escutá-lo enquanto seu cérebro repassava a logística do problema. – Mas, considerando seu faturamento em todo o mundo, daria um bom retorno a você como investimento. – Não, Mal – interrompeu Bruce. – Não preciso de nenhuma armação na SEC. – Você sempre falou muito – suspirou Mallory, o desapontamento evidente em sua voz. – Mas no fundo sempre foi ingênuo, Bruce. Soube disso quando nos conhecemos no Du Lac Resorts quando éramos crianças. Foi bom que mamãe estivesse do seu lado... Papai não suportava vê-lo. Então, o que você quer? Bruce respirou fundo. – Quero falar com seu pai. Mallory se levantou. O sorriso desapareceu. – Não pode estar falando sério. Bruce sabia que a casa Moxon na verdade ocupava o que do lado de fora pareciam ser seis casas distintas. Era efetivamente uma mansão no meio da cidade. Ademais, os Moxon controlavam todos os quarteirões vizinhos. Bruce entrara no centro da organização criminosa Moxon – uma fortaleza escondida no centro da cidade –, mas havia respostas que precisava receber de Lew Moxon, e Mallory era a chave para consegui-las. – Alguém está me enviando coisas antigas... Diárias, livro, cartas – pressionou Bruce. – Elas não fazem muito sentido para mim, mas são sobre negócios que meu pai teve com o seu. Estou tentando manter tudo escondido. Se a SEC tiver isso em mãos, pode ser ruim para nossas duas famílias. – Você está com os diários? Está com as fitas? – perguntou Mallory, demasiadamente ansiosa. Fitas? Que fitas? – Ainda não, mas acho que posso consegui-las – continuou Bruce. Mallory relaxou, seu sorriso um pouco mais fácil agora. – Bem, isso seria um alívio. Ela está nervosa. Está cometendo erros. Os Moxon não são assim... Especialmente Mallory. Ela está ansiosa por eu estar aqui. Faça com que continue a falar... Tropeçar... Vacilar... – Seria se eu conseguir manter o promotor longe de mim até que estejam seguras – continuou Bruce. – O que você ouviu falar sobre esse negócio, Mallory? Você me conhece, não estou tão por dentro do... O telefone tocou bem alto na sala. Mallory claramente se assustou, quase pulando da mesa com o barulho. Suas palavras saíram rápido demais. – Espere um pouco, Bruce. Tenho de atender. Mallory pegou o telefone na escrivaninha e apertou o botão de atender. – Sim? Ela desviou o rosto de Bruce.
– Sim, está aqui – disse ao telefone. – Ela o deixou há cerca de dez minutos. O quê? Olha, eu fiz o que você pediu, e consegui o que queria. Pode pegar hoje às 23h, e então estamos acabados, entendeu? Nunca mais ligue para este número. Mallory desligou, a mão tremendo levemente. Bruce a observou cuidadosamente enquanto falava. – Mallory, não é nada de mais, só preciso perguntar a seu pai sobre uma coisa chamada Apocalipse. Mallory ficou rígida. – Essa é uma palavra que você nunca deve usar na frente do meu pai. Jamais.
Avenida 125 com rua Broad / Gotham / 9h37 / 17 de outubro de 1958
Thomas não escolhera o lugar. O Brass Ring Diner era razoavelmente limpo para uma espelunca no bairro dos teatros. Afinal, ficava na rua Broad e se destacava na estranhamente chamada Diamond Square, o coração da vida noturna de Gotham. Mas, enquanto se sentava no reservado, Thomas quase podia sentir o cheiro de decadência com o sol nascente. O teatro havia sido importante em Gotham no começo do século, rivalizando com Nova York pela estreia de espetáculos. Mas isso foi antes de duas guerras mundiais e da Coreia. Agora eram os filmes ou, cada vez mais, a televisão que prendiam a atenção do público. Parecia tirar a vida dos teatros, e todo o bairro tinha um clima sujo, dilapidado. Nesse sentido, o Brass Ring Diner era um exemplo da época. Originalmente foi decorado ao estilo art decó, beirando o Streamline Moderne, com compridos painéis de aço inoxidável em linhas paralelas, em camadas e curvas. Mesmo esses painéis estavam agora opacos e sujos. A marchetaria estava rachando e perdera o brilho. As luminárias de baquelite estavam em grande medida gretadas. Parecia haver um revestimento de filme cobrindo as janelas arredondadas que davam para a praça. Thomas estava certo de que os tampos de fórmica da mesa estavam permanentemente envernizados com camadas inimagináveis de xarope de bordo, molho e refrigerantes derramados – tudo isso lustrado até ganhar um brilho baço. Foi ideia de Lew Moxon que se encontrassem aqui para o café. Era caminho para Thomas, já que atravessava a Robert Kane Memorial Bridge desde a mansão em Bristol para sua residência no hospital universitário. Ele não teria rondas pela próxima hora e meia, então parecia um lugar tão bom quanto qualquer outro para um encontro. Thomas reclinou no canto da mesa, as almofadas de vinil estalando levemente enquanto ele se movia, tentando prender seu paletó. Abriu o jornal na primeira página. Já vira a manchete, e temia a matéria. Esticou a mão, tomou um gole do café e se obrigou a ler.
ASSASSINATOS DO APOCALIPSE NO DISTRITO FINANCEIRO
Três gerentes de banco mortos por suposta ligação com a máfia GOTHAM CITY / VIRGINIA VALE / AP WIRE: Gerentes de três instituições bancárias foram encontrados
mortos em seus escritórios na noite passada, nos mais recentes de uma série de assassinatos de uma gangue de justiceiros que se apresentam como “o Apocalipse”. As vítimas parecem ter sido escolhidas por suas supostas ligações com as máfias Rossetti, Moxon e Falcone. Cada um morreu “por meios extraordinários”, segundo fontes da investigação. Os mortos são Marvin J. Collings, gerente do Gotham First Federal Savings, morador de Bristol; Jerome P . Montague, gerente do Banco de Gotham, morador de Coventry; e Lawrence N. Marconi, presidente do Banco Bristol, também morador de Bristol. Segundo fontes não identificadas do departamento de polícia, todos os três assassinatos aconteceram aproximadamente na mesma hora, 23h11. O Sr. Collings foi encontrado preso à cadeira do escritório, sufocado com um rolo de notas de cem dólares e outras moedas enfiado na boca. O Sr. Montague foi descoberto por Leonard Murphy, vigia noturno do Banco de Gotham, com a garganta cortada. O corpo decapitado do Sr. Marconi foi encontrado à sua escrivaninha pela faxineira. Uma busca pela cabeça está sendo realizada no momento. A polícia está seguindo diversas pistas, incluindo o relato sobre uma mulher loura vista rapidamente fugindo pelo teto do Banco de Gotham aproximadamente no mesmo horário, e uma carta de tarô agarrada à mão do Sr. Montague. Não foram feitas prisões. As três mortes são as últimas em uma série de assassinatos espalhafatosos cometidos ao redor da cidade por supostos criminosos. Segundo o comissário de polícia Gillian B. Loeb, esses assassinatos estão “aumentando de frequência” e visando indivíduos acusados de crimes menos graves. Os primeiros assassinatos pelo Apocalipse aconteceram em abril, quando Joseph “Irlandês” Donohough foi descoberto pendurado de cabeça para baixo na West Side Bridge. Desde então, quinze outras mortes foram investigadas como estando ligadas ao Apocalipse. Coincidindo com a ação dos justiceiros, e descontando as mortes atribuídas ao Apocalipse, o índice de crimes em Gotham caiu em 69,5%. Quando perguntado se a queda no número de crimes podia ser atribuída às ações do Apocalipse, o comissário Loeb respondeu: “Quando esses monstros irão parar? Como o público irá se sentir em relação a eles quando começarem a matar pedestres que atravessam fora da faixa?”
O jornal sacudiu um pouco sob as mãos trêmulas de Thomas. Eu fiz isso. Eu queria curar o crime, e agora a cura é pior do que a doença. Jarvis fez bem o seu trabalho... Talvez bem demais. Já se passaram meses desde que Richter morreu e ninguém falou nada. O crime está diminuindo – e não curamos o câncer o matando? E agora o vírus de Richter está solto pelo mundo – matando o crime uma vida por vez. Como posso viver com esse tipo de cura? – Oi, Dr. Wayne! Thomas ergueu os olhos do jornal, assustado. Lew Moxon pareceu não notar, seu rosto largo brilhando abaixo dos cabelos escuros escovinha. A gravata-borboleta estava ligeiramente torta, e o paletó esportivo parecia um pouco apertado. – Obrigado por vir... Uma loucura nos jornais, não? Todos na família estão em pânico. Hoje em dia não sei dizer se meu velho está cuspindo marimbondos ou pronto para se mijar. – Julius não está levando a sério esse absurdo de Apocalipse, está? – perguntou Wayne, colocando o jornal ao seu lado. – Sério? – reagiu Moxon rindo e depois se inclinando sobre a mesa. – Vou lhe dizer o quanto ele está sério: noite passada, entre drinques, ele me disse que nesse ritmo meu Koffee Klatch poderá ser o único negócio da família operando no final do ano! Consegue imaginar isso? O velho está furioso. Acha que Rossetti está por trás disso, mas Rossetti está suando nas meias tanto quanto e aponta o dedo para aquele vagabundo do Falcone, mas Falcone também está perdido. Eles logo começarão a fazer um favor ao promotor e queimar uns aos outros se esses palhaços do Apocalipse não forem eliminados.
Esse era o plano, não era? Era o que Richter e eu queríamos para a cidade... Não era? – Parece uma guerra de gangues – falou Wayne, tomando seu café e esperando que isso o fizesse parecer mais calmo do que se sentia. – Acha que pode chegar a isso? – Duvido! – retrucou Moxon, reclinando confortavelmente no reservado. – Meu velho diz que de um modo ou de outro irá se livrar definitivamente desses palhaços, mas você não ouviu isso de mim. Tudo isso é bom para nós dois, Thomas. – Bom para nós? Como? – As famílias desta cidade nunca estiveram tão fracas! Eu invisto no meu negócio, faz sentido para todo mundo e não me machuco. Então, você viu meus números e conhece o lugar. Que tal, Wayne? Eu e você podemos ser sócios? Thomas olhou para Moxon. – Vou ajudar você, Lew, mas você tem de ficar limpo. – Moleza, Dr. Wayne! – Estou falando sério, Lew – insistiu Wayne. – Você não pode estar envolvido em nada, ou nunca conseguirei a aprovação do conselho, entendeu? – Perfeitamente, Wayne – disse Moxon, se inclinando sobre a mesa e quase esmagando a mão de Thomas em seu aperto. – Estarei limpo como a neve que cai, espere e verá! O único aqui que vê um Apocalipse é meu velho, Julius!
Avenida Moldoff 15247 / Gotham / 21h44 / Hoje
– Olha, Mal – disse Bruce, parecendo confuso. – Estou perdido em relação ao que está acontecendo... – Foi aquele velho pilantra do Salvatore que lhe deu a dica, não foi? – espumou Mallory. Ela apanhou o livro na escrivaninha, agarrando-o com as duas mãos. – Aquele filho da puta estava lá naquela noite e decidiu que podia arrumar algum dinheiro com você, não foi? Salvatore? Arnold Salvatore cuidou do negócio sujo em Robbinsville e Eastside para Julius nos anos 60, mas antes de sua promoção ele era capanga de Moxon. E de qual noite exatamente Mallory estava falando? – Não, Mal, ninguém me deu dica nenhuma – disse Bruce, se levantando. – Eu só vim aqui por achar que você poderia ajudar um velho amigo. Estou sufocado por jacarés federais e você só quer jogar crocodilos em mim. Mallory olhou para ele por um instante e então riu, a turbulenta máscara de seu rosto suavizando e transformando-se na mulher bonita de quem se lembrava. – Bem, não importa como acabe, seria divertido assistir. Lamento, Barrabás, é uma velha ferida, e funda. Não posso lhe dizer nada sobre esse Apocalipse, e falando sério, não tem nenhuma chance de eu deixar alguém puxar esse assunto na frente do pai. Bruce assentiu, pousando sua bebida. – Tudo bem, Mal. Sabia que minhas chances eram pequenas. – Ainda acho que posso ajudá-lo com a chateação da SEC – ofereceu Mallory. – Tenho um ou dois caras lá dentro que provavelmente poderiam sumir com isso. – Ótimo – disse Bruce, estendendo a mão. – Obrigado, Mal.
Mallory olhou para a mão de Bruce por um momento com um sorriso malicioso, balançando a cabeça levemente antes de estender a sua e apertá-la. – De nada, Barrabás. Bruce apertou a mão dela. – Diga, Malícia, por que você começou a me chamar de Barrabás? – Não comecei – disse Mallory, dando de ombros, sua franja caindo sobre os olhos. Jogou a cabeça para trás para afastá-la, um movimento que Bruce achou familiar e reconfortante. – Eu costumava chamá-lo de muitos apelidos. Bwain, Wayno, Beeswax e, se me lembro, em um verão particularmente difícil, Coxswain. – Então de onde veio Barrabás? – perguntou Bruce. – Foi o papai – disse Mallory, indo na direção da porta e segurando o livro embrulhado com estudada descontração. – Ele o chamava assim o tempo todo. – O tempo todo? – Bem, não – disse Mallory da porta, parecendo reflexiva. – Acho que foi depois que os seus pais morreram. Olhe, me desculpe, mas tenho muito a fazer hoje... Você se incomoda? – Aqui está seu chapéu e volte sempre, é isso? Mallory sorriu novamente. – Mas foi bom vê-lo novamente, Bruce. Fico contente por você não ter se transformado na imagem de horror que os jornais ficam publicando. – Não ainda, Malícia – censurou Bruce, as mãos nos bolsos enquanto se balançava sobre os calcanhares. – Vá em frente, eu encontro a saída. Ela deu seu sorriso novamente e partiu. Quando a porta fechou, Bruce se virou imediatamente para o telefone na escrivaninha, tirando um pano do bolso. De olho na porta, pegou o fone, esperou o tom de discar e apertou o botão para retornar a última ligação recebida. Alguém atendeu no quarto toque. – Boa noite, residência Wayne... Bruce ficou um momento olhando para o telefone. – Posso ajudar? A voz de Alfred! – Sim, é Bruce. Estou na cidade – ele respondeu. – Mesmo, jovem Bruce? – A voz de Alfred era sempre afetadamente calma, mas Bruce achou ter sentido tensão nas palavras. – O senhor me informou disso antes, senhor. O identificador de chamadas! Ele sabe onde estou. – Bem, vou ficar mais tempo do que pensei – disse Bruce, relaxado. – Encontrei uma pista na casa de Moxon que irá exigir alguma vigilância em Gotham. Não chegarei antes de 1h. Não espere por mim. – Como queira, jovem Bruce – respondeu Alfred. – Deixarei as luzes acesas. – Obrigado, Alfred – disse Bruce em voz baixa. Desligou o telefone e saiu da sala apressado.
Galeria subterrânea / Gotham / 21h58 / Hoje
Barrabás. Segundo a tradição foi o criminoso libertado para que Jesus fosse crucificado. Por que Julius Moxon insistiria em chamá-lo assim? Bruce desceu rapidamente o túnel de acesso, passou pelo painel escondido em uma parede lateral azulejada e entrou no túnel abandonado do metrô. Seus tênis agitaram o cascalho entre os velhos dormentes enquanto ele ia apressado para a seção de manutenção abandonada onde guardara o batmóvel. Seu peito arfava com o esforço de levar ar aos pulmões. Dissera a Alfred que não chegaria em casa antes de 1h da manhã – mas, por causa do livro, alguém na Mansão Wayne combinara de se encontrar com Mallory às 10 horas daquela noite. Alfred atendera a ligação, e agora Bruce estava determinado a voltar à mansão a tempo de se juntar à festinha. Alfred certamente estava envolvido neste negócio distorcido. Apenas neste momento Bruce considerou ser bastante possível que Alfred estivesse por trás de tudo. Ele conhecia tudo – todos os segredos dos Wayne – e tinha acesso a todos os recursos de Batman para colocar seu plano em prática. Mantenha seus amigos por perto... E seus inimigos ainda mais. O telefonema de Bruce tinha uma vantagem não planejada: obrigaria Alfred a agir. Se ele se movesse rápido o bastante, poderia desmascarar Alfred e descobrir a verdade sobre o passado do pai. Bruce virou a esquina e parou, chocado, escondendo-se nas sombras por instinto. Um grande grupo de guardas de trânsito ajudava a colocar o batmóvel em um vagão aberto ligado a uma locomotiva elétrica. Ele estava sendo rebocado?


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