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domingo, 28 de maio de 2017

SD 938 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO VINTE E QUATRO

EXPIAÇÃO

Academy Theater / Park Row / Gotham / 22h35 / Hoje Bruce Wayne recobrou a consciência lentamente. Viu diante dele um borrão brilhante cercado por escuridão. Uma música fina e estridente ecoava ao redor, abafada como se pela distância. Eu estava indo levar Amanda Richter para casa. Houve um telefonema... A enfermeira Doppel... Depois a escopeta do meu avô... Uma risada borbulhante soou em seu ouvido esquerdo. – Ah, Thomas, é muito engraçado! Bruce virou a cabeça devagar, inseguro. Tentou colocar os olhos em foco. Parecia ter dificuldade para controlar os movimentos. A silhueta enevoada de uma cabeça acima de um comprido pescoço afilado encheu sua visão. Cabelos louros platinados entravam e saíam de foco. A cabeça vaga se inclinou para trás, rindo novamente. Bruce fechou os olhos com força, depois os abriu. A forma ao lado entrou em foco. Estava sentada à sua esquerda em uma fileira de poltronas de cinema enquanto ria de algo que passava na tela. Ele balançou a cabeça, tentando clareá-la, depois olhou novamente. Era outra versão de Amanda Richter. Seus cabelos compridos estavam empilhados na cabeça em um estilo cheio que lembrava vagamente o final dos anos 1960. A maquiagem de Amanda havia sido feita com cuidado para combinar com os olhos verde-esmeralda. Os olhos de Bruce arregalaram com o choque da identificação, sua visão clareando de repente. As manchas escuras ainda podiam ser vistas no cetim, se projetando em um padrão irregular a partir do buraco de entrada, aberto no alto e curvo colarinho logo acima do seio esquerdo. A mancha irradiava sem ser perturbada pela cintura apertada, se dividindo logo acima do joelho em pequenas manchas e salpicos. Era o vestido dela... É o vestido dela. Mãe? Ela se virou para encará-lo, as pupilas dilatadas e sem foco. – Ah, Thomas, isso realmente me leva ao passado! Bruce se virou para a tela. Originalmente era um filme mudo, mas ele podia ouvir uma metálica orquestração de piano saindo pelos alto-falantes do cinema. Douglas Fairbanks saltou para o balcão após ter derrotado Noah Beery e olhou sedutoramente para Marguerite de la Motte. É aquele mesmo maldito filme. Viemos à retrospectiva de cinema de arte naquela noite.
Era um programa de caridade para o Conselho de Artes de Gotham. Bruce baixou os olhos rapidamente. O casaco do smoking estava desabotoado, revelando a camisa social pregueada abaixo. Também havia uma terrível mancha escura em seus trajes, com dois buracos do tamanho de um dedo separados por dois centímetros e meio no peito. O smoking de meu pai. As mãos de Bruce começaram a tremer. Uma figura pequena estava sentada à sua direita. Ele se virou lentamente, temendo o que poderia estar ali. O boneco de ventríloquo Scarface olhou para ele. Não estava mais em seu habitual terno listrado de gângster, mas vestia agora um pequeno smoking que era um pouco grande demais para ele. Bruce o reconheceu imediatamente como sendo seu, de quando era garoto. Ele sabia pelo padrão das manchas que haviam sido gravadas em sua infância. Bruce tentou se levantar no mesmo instante, mas as pernas estavam fracas. – Sente-se, Thomas! – mandou Amanda. – Você está estragando o espetáculo. Bruce caiu de costas na poltrona. Sentia dificuldade de respirar. Douglas Fairbanks estava de pé junto a Marguerite de la Motte e falava galantemente para a multidão que aplaudia abaixo. Um letreiro surgiu na tela.

Você viu este?

De repente o filme pulou. Houve um estalo alto e um som rascante. Então a cena passou a mostrar outra multidão – também silenciosa, e dessa vez sem a leve música de fundo. Era o salão de baile da Mansão Kane... E Bruce se deu conta de que estava vendo o filme feito naquela noite pelo jornalista. Havia arranhões no filme, mas a imagem ainda era clara. Havia a fantasia confusa que parecia mais um morcego que qualquer herói da imaginação popular, lutando contra a máfia de Moxon no final do salão. Depois Lewis Moxon sendo deixado inconsciente. – Ah, Thomas – disse Amanda de forma meiga, se enrolando no braço esquerdo de Bruce. – Eu não tinha visto você de verdade antes daquela noite. – Amanda, temos de sair daqui – disse Bruce. – Thomas! O filme está quase no fim; além disso, é você – ronronou Amanda para ele. – Acho que comecei a me apaixonar por você naquele momento, quando socou o pobre Lewis. Acho que ele nunca o perdoou. O final do filme ficou brilhante e granulado, e então o som surgiu novamente, uma música de marcha dramática soando pelo salão. Um novo letreiro, este animado mas ainda em preto e branco. Ele dizia: “News on the March”, e o título foi gritado pela voz do locutor. A música continuou enquanto um segundo letreiro surgia na tela.


NEWS ON THE MARCH O FIM DE UM APOCALIPSE Justiceira assassina encontra um final terrível FEVEREIRO DE 1962


Bruce respirou com cuidado, os olhos fixos na tela. É uma mensagem... Para mim... – Penitenciária de Blackgate! – continuou o locutor em um tom dramático e grave enquanto uma velha imagem de arquivo dos muros da prisão surgia na tela. – Ilha de julgamento para o primeiro dos assassinos em massa conhecido como o Apocalipse. Aqui, dentro dessas paredes, foi declarado o sinistro fim de Adele “A Chanteuse” Lafontaine. O filme mostrava Chanteuse sendo conduzida escada acima para a estrutura da forca elevada e o laço sendo colocado em seu pescoço. Ela vestia o mesmo casaco verde característico em que sempre havia aparecido. – Julgada e condenada por crimes sensacionalistas e com frequência mortais, Lafontaine foi sentenciada a ser enforcada à meia-noite por seus crimes, mas teve um destino ainda mais chocante. Por um erro do carrasco, a distância de sua queda foi mal calculada... Amanda desviou os olhos. – ...e o resultado foi uma decapitação quase completa da criminosa. Foi uma queda longa demais e uma parada rápida demais para a mulher que um dia foi saudada como heroína justiceira e, desde então, se tornou uma das assassinas mais ostensivas de Gotham City. Um Apocalipse a menos... Faltam mais três! Bruce baixou os olhos de repente para o boneco Scarface, que o encarava da poltrona à direita. Ele sabia algo da história de Scarface. Aqueles no submundo juravam que o boneco era amaldiçoado, e, segundo a lenda, havia sido esculpido da madeira da forca de Blackgate por um interno chamado Donnegan. Donnegan foi colega de cela de Arnold Wesker, que fugiu de Blackgate com a figura esculpida. Wesker circulou pelo submundo no começo dos anos 1960, bem na época em que os vilões mais radicais de Gotham começaram a surgir. Bruce olhou novamente para Scarface. Você é a fonte? Cada supercriminoso da cidade foi infectado pelo vírus que você carregou com o sangue de Chanteuse? Isso significaria que cada perturbado fantasiado que... – Estamos indo embora – disse Bruce, se levantando. – Agora! – Mas o espetáculo não terminou, Tommy! – se queixou Amanda, apontando para a tela. – Eu sei como termina – rosnou Bruce, colocando Amanda de pé. Ele a arrastou pela fileira, sentindo os pés ainda inseguros. – E quanto a Bruce? – gemeu Amanda, esticando a mão na direção do boneco de ventríloquo. Bruce a ignorou. Muitas das poltronas estavam quebradas, bloqueando a passagem. O cinema estava fechado havia algum tempo. Ele sabia, porque o comprara e fechara. O projetor continuou a rodar da cabine no alto da parede enquanto ele arrastava Amanda. Chegou às portas dos fundos do cinema e as empurrou. Elas se moveram levemente, depois travaram. Bruce soltou a mão de Amanda, agarrando a beirada interna de uma das portas duplas com a ponta dos dedos e puxando a porta de vaivém na sua direção. Ela abriu facilmente... Revelando uma firme placa de aço soldada à moldura que enchia a saída por completo. – Droga! – disse Bruce, se virando e procurando uma saída, qualquer saída, que não
aquela que ele sabia estaria aberta para ele. O noticiário continuou a passar na tela, os sons enchendo o cinema dilapidado e a nova atração chamando sua atenção.


NEWS ON THE MARCH

CRUZADA DA FUNDAÇÃO WAYNE CONTRA SARAMPO ALEMÃO Todos os cidadãos testados para presença do vírus diante de surto AGOSTO DE 1965


– O surto nacional de rubéola, popularmente conhecida como sarampo alemão, tem devastado comunidades de costa a costa... Mas hoje, graças à generosidade do filantropo local Dr. Thomas Wayne, Gotham tem uma nova arma contra o flagelo: um teste rápido para identificar o vírus em todo cidadão da cidade e vizinhanças. Thomas Wayne sorriu da tela rasgada do cinema, acenando para a câmera. A isso se seguiu uma cascata de tomadas mostrando profissionais de saúde tirando sangue de pessoas de idades e profissões diferentes. – Em uma ajuda inestimável a possíveis esforços de quarentena, a Wayne Enterprises está financiando este programa sem usar impostos. Hospitais, clínicas e mesmo o seu médico local estão fazendo sua parte para garantir que cada homem, mulher e, isso mesmo, Suzie, criança de Gotham possa se beneficiar desses exames. Bruce agarrou a mão de Amanda mais uma vez, a levando para a saída seguinte, enquanto repassava o noticiário na cabeça. O teste para o vírus em 65 só poder ter sido um disfarce, uma fachada. Havia um surto de rubéola na época e havia preocupações com isso, mas a doença em si não justificava que toda uma cidade fizesse exame para identificar o vírus. TODOS tinham o vírus. A única razão de examinar toda a cidade seria se alguém estivesse procurando algo mais. Foi totalmente financiada pela Wayne Enterprises – então seu pai devia estar caçando, tentando encontrar e isolar qualquer um que pudesse ter tido contato com o vírus de Richter. Qualquer um com emoções exageradas, concentração obsessiva ou radicalismos em vestimenta e comportamento... O segundo conjunto de portas de saída também estava lacrado. Cada uma das saídas laterais também se revelou bloqueada, até ele chegar à única que sabia que iria se abrir – a mesma que se abrira tantos anos antes. Bruce se virou para a mulher que usava o último vestido que sua mãe usara na vida. – Amanda! Preste atenção! – Como? – disse a mulher, parecendo confusa e tonta. – Tommy, com quem você está falando? – Preste atenção! – disse Bruce, sacudindo-a de leve. – Quero que você fique aqui dentro, entendeu? – Me leve para casa, Tommy – murmurou Amanda. – Eu sempre o amei muito. Você sabe disso, Tommy.
– Sim... Sim eu sei disso – disse Bruce. – Eu tenho de... sair e cuidar de uma coisa. Quero que você volte e se sente com Bruce... Está entendendo? Amanda ergueu o rosto para Bruce, os olhos vidrados, mas o sorriso radiante. – Eu... acho que sim. E se tivéssemos ficado um pouco mais? E se tivéssemos saído por outra porta? E se... E se... – Você vai para lá, entendeu? – disse Bruce, a voz pesada de emoção. – Eu voltarei para pegar você. – Claro, Tommy – disse Amanda, dando um tapinha no rosto dele. – Você sempre cuida de mim. Bruce a viu voltar para o cinema. Passou pela fileira novamente e se sentou junto ao boneco Scarface, passando o braço por ele afetuosamente. Bruce cruzou a cortina lateral e chegou às portas de incêndio duplas. Crime Alley, ele sabia, estava logo além. Ele se agachou, respirou fundo, agarrou os pegadores e abriu.
Crime Alley / Park Row / Gotham / 22h46 / Hoje
O território era terrivelmente familiar. Bruce escancarou as portas, girando rapidamente para a direita. O beco era estreito, mas ele lembrava que existia uma vaga de estacionamento à direita da saída. Havia um carro estacionado ali naquela noite de 15 de agosto de 1971... Bruce rolou no para-choque curvo do carro. Era um Pontiac Grand Prix 1966 – branco com teto preto – idêntico ao que estava estacionado no mesmo lugar naquela noite. Deu uma volta agachado entre o carro e a parede do beco, os sentidos alertas. Nada se moveu. Ele podia ouvir uma música tocando no final do beco. Lembrava dela como sendo cantada por um artista com o nome improvável de Gilbert O’Sullivan. Passos se aproximaram pelo beco. Bruce contornou o carro, movendo-se pela parede oposta de volta ao beco. Havia uma grande caçamba de lixo ali que o protegia de quem estivesse se aproximando e, igualmente importante, estava colocada de tal forma que havia uma sombra escura que podia esconder sua presença. Ele deslizou para a escuridão – era dono da noite – e ficou tenso. Estava preparado para derrubar seus inimigos que haviam escolhido aquele lugar – aquele lugar sagrado – para torturá-lo. A figura chegou ao círculo de luz dura, lançado pela luminária da porta de saída. – Olá? O-olá? Bruce, chocado, esticou a mão da sombra e arrastou a mulher para seu canto protegido do beco. – Enfermeira Doppel? – Sr. Grayson! – O que diabos está fazendo aqui?
– Eu.... eu recebi uma mensagem – ela disse. Vestia jeans e uma jaqueta contra o frio, e os mesmos sapatos baixos que sempre vira nela. – Dizia que se quisesse a Srta. Amanda de volta, deveria encontrar você aqui. Acho que ouvi alguém atrás de mim no beco... – Não é seguro... Você tem de sair daqui – disse Bruce, estudando o beco mas não vendo movimento. – Já pode até ser tarde demais. – Não, Sr. Wayne – disse a enfermeira Doppel. – Acho que o senhor está exatamente na hora. Eram 22h47. O cano da pistola semiautomática 9 mm colou no tórax de Bruce quando a mulher recuou, fazendo com que a bala passasse sob seu pulmão esquerdo. Era uma ponta oca que se expandia com o impacto e rasgava tecidos, tendões, órgãos e veias em seu caminho curto e crescente. O impacto da bala jogou Bruce de costas sobre a caçamba. Ele se inclinou para frente, as mãos se fechando sobre o ferimento na camisa do pai, sangue fresco escorrendo sobre a velha mancha.

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