Powered By Blogger

domingo, 28 de maio de 2017

SD 935 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO VINTE E UM

DISFARCES

Mansão Kane / 23h42 / Hoje Batman passou como uma sombra sob a entrada coberta que dominava a porta principal da Mansão Kane e subiu silenciosamente os largos degraus desertos. As portas principais, havia muito bloqueadas, estavam agora escancaradas, convidando-o a entrar no saguão escuro. Deslizou para as sombras envolventes, fechando os olhos para compreender os arredores. O velho saguão ganhou relevo tridimensional em sua mente, um lugar ao mesmo tempo familiar e estranho. Eu brinquei aqui quando garoto. Minha mãe ficava na base da escadaria e me chamava do patamar acima. Eu sempre tentava deslizar pelo corrimão largo, e minha mãe sempre me alertava que era perigoso demais. Era uma brincadeira que sempre fazíamos... Aqui nestes degraus... Batman franziu o cenho nas sombras, escuras demais para que fosse visto. Isso foi antes de vovó Kane morrer e mãe vender a propriedade para a Kane Corp em 65. Todo o patrimônio foi colocado sob custódia depois do assassinato de minha mãe. A empresa quebrou pouco depois e fechou as portas, e o patrimônio está em litígio desde então. O Banco de Gotham adquiriu o título da propriedade há vinte anos e trancou as portas de um bem que não podia manter e pelo qual nunca se interessou. Um som fraco de música chegou aos seus ouvidos dos fundos do saguão. Ele passou para a visão noturna e, ao olhar naquela direção, um retângulo brilhante de luz surgiu desenhando o perfil das portas duplas. Batman foi até as portas, abriu os olhos e as escancarou.
Mansão Kane / Bristol / 23h44 / 26 de outubro de 1958 – Senhoras e senhores! – anunciou o porteiro ao salão, batendo com seu cajado decorado. Bertie fora vestido como um lacaio elisabetano e estava muito contente de manter a aparência para seu papel. O conjunto parou de tocar na extremidade oposta do salão de baile. Esquisitos em roupas brilhantes pararam de girar no salão para olhar, enquanto aqueles tomando os limites da pista se viraram, curiosos. Vários dos convidados no pátio além das portas francesas entraram novamente para espiar. Harold Ryder apontou para a entrada sua câmera Bell and Howell 70D de 16 mm, usada para fazer cinejornais, e apertou o botão. Estava vestido como cowboy para a ocasião,
escolhendo como fantasia o que considerava ser a saída menos ridícula. A câmera junto ao rosto exigia que o chapéu de cowboy fosse empurrado para a parte de trás da cabeça. A festa estava um tédio: ele preferia trabalhar com crimes, mas os crimes estavam em baixa. Ouvira falar de alguma coisa acontecendo no Amusement Mile mais cedo, mas àquela altura já estava preso ali cobrindo o bando do baile. Ainda assim, apenas alguns poucos convidados mereciam esse tipo de introdução, e sua entrada justificava alguns metros de filme para os noticiários de mais tarde. Ademais, ele só tinha mais alguns metros no rolo, e isso lhe daria a desculpa para terminar o filme antes de colocar outro. – Quem é desta vez? – perguntou Virginia Vale, repórter do Gotham Gazette. Ela estava vestida de pastorinha, com direito a gorro, mas a ilusão era prejudicada pelo cigarro balançando no canto do lábio inferior enquanto falava. – Não sei – respondeu Harold, verificando o foco enquanto a câmera girava. – Número 501 dos 500, imagino. Bertie se empertigou em sua fantasia, oferecendo a todos os olhos no salão lotado a oportunidade de dedicar a devida atenção. – Dr. Thomas Wayne! – anunciou. A figura fantasiada cruzou o umbral sob os aplausos do salão repleto. A câmera continuou girando. – Parece que o Dr. Wayne tem se exercitado – fungou Virginia. – Mas olhe só aquela fantasia – respirou Harold. Ele não trouxera o equipamento de som complicado e pesado, então podia dizer o que quisesse, desde que de uma forma que não fizesse a câmera tremer. – Quem ele deveria ser? – O comunicado à imprensa dos Kane diz que ele viria como Douglas Fairbanks – disse Virginia baixando os olhos para a folha dobrada. – Fairbanks? Então por que está com malha e shorts? – Se ele é Douglas Fairbanks, eu sou Bettie Page – bufou Virginia. – Não me dê esperanças – censurou Harold. Ele soltou o gatilho, baixando a câmera. Sem pensar, puxou a lingueta de dar corda, segurando-a firme com a mão direita enquanto torcia a câmera com a esquerda. Era um velho hábito de seus dias como cinegrafista de guerra no Pacífico Sul, garantindo que a câmera ganhasse corda rápido e estivesse sempre pronta. – Mas vou lhe dizer uma coisa... Ele parece mais um morcego do que um herói naquela roupa. – Bem, parece estar funcionando com alguém – disse Virginia, apontando. Martha Kane, com seu vestido de melindrosa e usando uma máscara dominó branca com lantejoulas acima de seu sorriso espetacular, cruzou o salão e tomou seu novo convidado pelo braço.
Mansão Kane / Bristol / 23h47 / Hoje
O ar tinha um cheiro forte de poeira queimada e lavanda. Os olhos de Batman se apertaram sob o capuz, os lábios se esticando sobre os dentes enquanto recuava do ataque a seus sentidos e passava pelas portas duplas. O salão de baile era enorme, e era difícil ver sua extensão. Tudo estava em movimento, o
aposento tomado por uma dança circular confusa. Compridas faixas de seda vermelha cascateavam da cúpula rachada acima, suspensas de um conjunto de varas metálicas horizontais, motores e mais varas – um enorme móbile mecânico que quase enchia o salão. Entre as faixas de seda, vários casais de manequins em tamanho natural estavam a centímetros do chão. As figuras, suspensas do móbile acima, balançavam e rodopiavam em suas poses, cada uma vestida para um baile de máscaras. O ruído de um velho fonógrafo ecoou da extremidade do salão, uma versão arranhada de uma canção de big band. Batman entrou cautelosamente no salão. Vamos ver se conseguimos penetrar nesta festa. As paredes pareciam se contorcer sob as sombras cambiantes das cascatas de seda e das figuras suspensas. Candelabros espalhafatosos brilhavam demais acima sob suas proteções de tecido barato. Uma fumaça fina se erguia de onde velhas lâmpadas incandescentes tocavam teias de aranha. Cada um dos enormes objetos se torcia e balançava quando a seda esbarrava neles, seus cristais pendurados soando com dolorosa clareza em seus ouvidos. A tinta rachada e o revestimento dourado dos ornamentos de parede estavam foscos sob duas décadas de descuido. As portas francesas cobertas de sabão escondiam qualquer vista do terraço. Um casal de marionetes surgiu. Um vestia o que parecia uma imitação ruim de uma de suas primeiras bat-roupas. Uma figura feminina pendia flácida em pose de dança correspondente, suspensa das varas em constante movimentação acima. Essa com um vestido de melindrosa, a cabeça jogada para trás e a boca aberta. Amanda Richter! Amanda imediatamente saiu de vista, mergulhando nas revoluções das figuras cambiantes suspensas do teto e desaparecendo entre as faixas de seda vermelha, que também giravam em arco pelo salão. Ele levou a mão ao cinto de utilidades sem olhar. O batbumerangue com lâmina de teflon se abriu em sua mão. Ele conferiu o nível de energia da bat-roupa e descobriu que estava em 38%. Não houvera tempo para recarregá-la desde sua última utilização mais cedo naquele dia. Teria de bastar. As figuras se sacudiram ligeiramente. A gravação fez um som de arranhão, como se a agulha tivesse sido arrastada sobre os sulcos. Em seguida outro som tomou o salão, cavernoso, ecoante e levemente distorcido. Causou na coluna de Batman um arrepio como nunca experimentara antes. – Meu nome é Dr. Thomas Wayne... Este é o meu depoimento... Ou, talvez, minha confissão relativa aos acontecimentos de 26 de outubro de 1958 no Baile de Caridade Kane. Fiquei em silêncio tempo demais. Batman se colocou entre os manequins fantasiados que giravam entre o tecido de seda, seu indicador colocado sobre a curva posterior do bat-bumerangue, preparado para cortar os cabos caso as marionetes em tamanho natural ficassem no seu caminho. Ele podia ver o vestido vermelho de melindrosa de Amanda à frente em meio ao labirinto de formas mutáveis.
– Eu não poderia descansar até fazer um registro para meus filhos, ambos queridos para mim. Não podia suportar a ideia de que eles pudessem ser confrontados por meu passado sem ouvir de mim as razões para o que aconteceu, como tudo deu errado a despeito de minhas mais nobres intenções... Um dos manequins à sua direita se moveu. Batman se agachou e pressionou o braço do soldado confederado, empurrando a Uzi em sua mão para cima enquanto disparava um fluxo ruidoso de seu cano. O manequim de Maria Antonieta diante dele pulou com o impacto das balas, a cabeça explodindo em cacos de gesso que retiniram no deformado piso de madeira de lei. Uma série de estalos soou ao seu redor. Vários dos manequins se agacharam no chão. Real e irreal. Vivos e mortos. Algumas dessas fantasias cobrem gesso, e algumas cobrem assassinos que respiram. Qual é qual? Mosqueteiros, ninjas, cavaleiros, piratas e xoguns se ergueram contra ele, mas todos tinham algo em comum: portavam idênticos facões kukri tanto. – Então eu fiz este registro por eles, e pela paz de minha própria alma. – A música mudou, mas ainda é a mesma canção – rosnou Batman. – É hora de dançar.
Mansão Kane / Bristol / 23h53 / 26 de outubro de 1958 Lew Moxon estava em seu traje cinza de cowboy com máscara dominó, tomando um martíni ao lado da pista de dança e vendo seu amigo no ridículo traje de morcego dançar com a anfitriã melindrosa. Parecia que finalmente Thomas Wayne estava fazendo progresso com Martha. Lew ouvira histórias no Koffee Klatch sobre algo grande acontecendo naquela noite. Seu pai e seu antigo modo de comandar a cidade estavam sendo extintos. Todos estavam com medo do bicho-papão Apocalipse e ficando desesperados. Que se aflijam. Lew sorriu, erguendo a taça ao morcego quando passou por ele na pista de dança. Eu tenho minha passagem para fora... Obrigado, Dr. Wayne! Naquele instante, as portas duplas na extremidade do salão de baile se abriram com força. Salvatore, seguido por outros seis da gangue Moxon, abriram caminho para o salão. Big Eddie sacou sua Thompson, disparando uma rajada no teto engessado sob os gritos de várias mulheres e não poucos homens. A banda perdeu o ritmo da canção e parou desajeitada. – Todo mundo! Deitado no chão! – gritou Salvatore acima dos gritos contínuos. – Fiquem quietos e ninguém se machuca! Lew se sentou lentamente com os convivas apavorados. – Só estamos procurando um médico que faça um atendimento – gritou Salvatore. – Onde está o Dr. Wayne?
Mansão Kane / Bristol / 23h53 / Hoje – ...tinha toda intenção de ir ao evento até Denholm Sinclair, então chamando a si mesmo de Discípulo, aparecer em meus aposentos aqui na Mansão Wayne. Ele me atacou,
me deixando inconsciente, e depois, usando minha fantasia, conseguiu entrar na Mansão Kane passando-se por mim... Batman segurou o soldado confederado, continuando a usar seu impulso contra o agressor. Enrolou o braço no soldado, que continuou a sacudir o braço livre, tentando colocar a Uzi em ângulo de tiro em seu alvo. Mas o homem-morcego se lançou contra ele, balançando os dois nos cabos suspensos. Isso os arremessou em um arco que se elevava no ar enquanto ambos tiravam do caminho uma dupla de piratas agachados. Batman girou com o confederado, jogando as costas dele contra a parede espelhada do salão de baile. Ouviu o soldado perder o fôlego com um prazeroso “uf” enquanto o homem ficava flácido abaixo dele. O Cruzado Encapuzado arrancou a Uzi de sua mão, nesse processo quebrando o dedo que estava no gatilho. A automática desmontou nas mãos treinadas de Batman enquanto ele se jogava no chão e rolava até uma posição de luta. – Eu estava inconsciente. Assim que recobrei os sentidos, soube que tinha de ir à Mansão Kane e deter Denholm. Martha estava lá. Eu não tinha ideia do que ele poderia fazer... Dois piratas tentaram flanquear Batman ao mesmo tempo, enquanto o cavaleiro tentava distraí-lo pela frente. Batman prendeu o braço projetado do primeiro pirata com o seu esquerdo, usando a massa corporal para acrescentar peso ao chute no pirata que investia pela direita. Sua bota foi fundo na barriga do segundo pirata, e ele dobrou a perna novamente no joelho, erguendo o segundo chute até a lateral da cabeça. A armadura reagiu imediatamente, lançando-se contra a cabeça do segundo pirata com tal força que seus pés levantaram do chão e o corpo girou no ar. Mas durante o segundo chute o cavaleiro dera um passo rápido para frente, cortando a perna esticada da bat-roupa. Batman sentiu a bat-roupa enrijecer de repente enquanto a blindagem reativa era acionada, então levou a perna para trás do corpo e virou, ainda prendendo o braço do primeiro pirata. Sentiu a articulação do ombro do pirata se soltar com um estalo satisfatório enquanto girava, empurrando o pirata para trás e o arremessando sobre o próprio corpo na direção do cavaleiro. Amanda e seu vestido vermelho de melindrosa passaram rapidamente por ele em meio às compridas faixas de seda vermelha e aos manequins que ainda circulavam. Xoguns, ninjas e mosqueteiros moviam-se ao redor dele, as lâminas erguidas enquanto esperavam uma oportunidade. Batman teve consciência de um alarme soando no capuz. Baixou os olhos para a perna direita. Um comprido talho atravessava a coxa de sua bat-roupa. Um líquido negro escorria do corte. Que tipo de lâmina eles estão usando? O Cavaleiro das Trevas escolheu o alvo – um oficial de cavalaria da União, bem à esquerda. Fez um movimento na direção do homem, que brandiu a lâmina cedo demais. Batman se esquivou, depois chutou o homem no peito, arremessando-o de costas e espalhando os manequins suspensos. Batman o seguiu para o aglomerado de figuras fantasiadas e saltou sobre ele quase imediatamente. Lançou o joelho esquerdo sobre o pulso do homem, esmagando-o sobre o piso e fazendo com que soltasse a lâmina. A mão direita se ergueu para tirar o oficial da União da batalha definitivamente.
Seu punho não desceu. Uma loura acrobática vestindo uma malha verde-escura amarrara sua mão em uma das compridas faixas de seda que desciam do teto. Uma segunda mulher – morena – desceu girando do teto de um segundo pano com graça mortal. Query e Echo? As capangas de Charada também estão nisto? É como se todos os criminosos da cidade estivessem sendo manipulados! O mosqueteiro e os ninjas se aproximaram, com o pulso de Batman irremediavelmente preso na seda. Ele agarrou o tecido com as duas mãos, tentando escalar, mas Echo girava ao redor dele, enrolando a segunda faixa de seda em seus pés balançantes. Batman chutou com força, fazendo Echo rodar para trás, mas ela deteve o rodopio e voltou para ele. Query usou uma terceira faixa de seda, passando-a pelo tronco de Batman, sob os braços e prendendo a capa. Os espadachins começaram a cortar a bat-roupa acima deles. Batman ergueu as pernas, envolvendo a parte superior da seda com os pés. Isso o tirou do caminho das lâminas no momento em que Query balançava novamente, arrastando a comprida seda atrás. Batman forçou o tecido com os pés usando sua massa como apoio. Atingiu Query com um golpe sólido das costas da mão, mandando-a em um rodopio rápido, mas Echo enrolara sua mão esquerda por trás. Ele tentou se livrar do tecido – a trama era flexível o suficiente para não romper nem esgarçar. Armas, facas, explosivos... Eu sobrevivi a tudo isso só para ser imobilizado por uma teia de seda? Batman uivou, furioso com o que o prendia, mas não tinha nada sólido que pudesse empurrar ou que servisse de apoio. Podia sentir a vida escoando da bat-roupa. Abaixo dele, Amanda Richter deslizou, suspensa nos braços de um manequim, enquanto a voz morta de seu pai continuava a soar pelo salão. – Eu fui à Mansão Kane, mas era tarde demais...

Nenhum comentário:

Postar um comentário