CAPÍTULO ONZE
DESILUSÃO
Galeria subterrânea/ Gotham / 19h13 / Hoje O homem-morcego deslizou sob a cidade sem ser visto. Um rato que eventualmente tivesse o azar de entrar no túnel subterrâneo naquela noite, caso sobrevivesse ao primeiro instante do encontro, teria ficado aterrorizado com a passagem repentina de um grande negrume invisível acima, o som lancinante de suas rodas girando sobre as paredes do corredor. O negrume teria desaparecido antes mesmo que a criatura pudesse registrar seu medo primal. As telas holográficas na cabine davam a Batman uma visão perfeita do canal tronco da Gotham Power and Light 824LL, que passava por ele a uma velocidade tremenda. Era uma interpretação do túnel da GP&L a partir da visão noturna, totalmente clara aos olhos de Batman, embora o canal do lado de fora de seu veículo estivesse completamente escuro. Ele ergueu a mão esquerda, tocando uma tela virtual com uma sequência de saídas flutuando no ar diante dele. Interseção no tronco GP&L M17... Acesso ao túnel BC418... Linha abandonada de Dilon após estação... Pista de serviço de Coventry para tronco auxiliar GP&L AUX25... A análise do papel em que os convites haviam sido impressos fornecera uma pista adicional. Em todos os casos o papel viera da Gruidae Paper Company, localizada no distrito industrial do Upper West Side. A propriedade da empresa era obscura, mas a palavra Gruidae se referia à classificação científica da família de pássaros que incluía os grous, ou cranes, em inglês. Jonathan Crane, pensou Batman, mais conhecido como o Espantalho. Esse crime se encaixava bem no modus operandi do criminoso, mas não perfeitamente. O Espantalho basicamente motivava e manipulava seus alvos por intermédio de seus medos mais profundos. Alteração de memória ou implantação de memória eram aparentemente similares, mas, embora isso pudesse ser apreciado pelo Mestre do Medo, também teria sido um desvio para o obcecado Crane. Perguntarei a ele quando encontrá-lo. O destino na tela dizia Gruidae Paper Company. Batman estava satisfeito com o roteiro computado, e empurrou a janela gráfica para longe. Ele disse a senha para o acesso de voz do computador como se fosse o nome do carro. – Kronos: Abra arquivo Dante um-seis-dois-cinco-um-sete – disse. Uma janela se abriu na tela virtual à sua direita. O cabeçalho acima da tela dizia “Arquivo de caso Dante: Impressão de voz, Proximidade Segura”. O batmóvel desacelerou levemente ao chegar à interseção com o tronco principal da galeria subterrânea, passando pelos trilhos fixados nos túneis como uma montanha-russa de
tubos de aço. A mudança no momento angular pressionou Batman contra os contornos moldados de seu assento. O programa de navegação estava funcionando perfeitamente, com os dutos de energia, canos de gás e de água e seus suportes na parede disparando por ele a um ritmo alucinante nas telas. Batman se concentrou na nova janela e seu conteúdo reluzente, esticando a mão direita e movendo o arquivo Dante até estar no centro do seu campo visual. Franziu o cenho para o conteúdo que passava à sua frente. Era uma coletânea de informações, peças de um quebra-cabeça ainda não colocadas nos devidos lugares.
Richter, Ernst (PhD, virologia, genética, eugenia) Nascimento: 28 de outubro de 1909, Munique, Alemanha Morte: 2 de abril de 1958, Gotham City Casamento: Juliet Renoir (PhD, neuropsicologia), 16 de maio de 1943, Sacré-Coeur, Montmartre, Paris (morta: 20 de novembro de 1983 no asilo Arkham, Gotham City, por complicações de uma pneumonia quando sob tratamento de demência). Imigração para os Estados Unidos: Secreta (OSS)
Batman parou por um momento enquanto o veículo se inclinava bruscamente, e depois subiu em disparada pelo túnel de acesso à linha de metrô abandonada logo acima. O pai de Alfred, Jarvis Pennyworth, havia sido membro do OSS, o escritório de serviços estratégicos, durante a Segunda Guerra Mundial. O velho Jarvis começara a trabalhar para a família Wayne pouco depois da guerra, levando a esposa e o filho recém-nascido. Que Ernst Richter estivera em Paris durante a ocupação nazista da França era evidente, considerando a data e o local do casamento. Sua imigração para os Estados Unidos foi facilitada por uma operação do OSS. O pedido de informação sobre os detalhes da operação propriamente dita ainda estava sendo processado por uma série de intermediários, e levaria alguns dias. O problema era a época da informação: a maioria dos arquivos ainda não havia sido convertida para a forma digital, de modo que a autorização e localização levavam tempo. Ainda assim, era obviamente outra peça do quebra-cabeça, uma ligação entre as famílias Pennyworth e Richter, mas não explicava por que Alfred mentiria sobre ter qualquer conhecimento da mulher atormentada que ele encontrara no terreno. Quanto a Amanda Richter, era uma peça do quebra-cabeças que não se encaixava, não importava o que ele fizesse. Batman continuou a ler.
Filhos: 2 Marion Maria Richter (nascimento: 29 de fevereiro de 1944, Berlim, Alemanha / morte: 16 de maio de 1979 no asilo Arkham) Amanda Dora Richter (nascimento: 14 de agosto de 1947, Fort Bliss, Texas / morte: 16 de maio de 1973 no asilo Arkham por complicações resultantes de overdose de drogas)
Batman franziu o cenho. Havia muito ele passara a acreditar que coincidência era apenas a desculpa do idiota para um padrão ainda não compreendido. Que todas as três mulheres Richter morressem dentro dos muros de Arkham era algo que o perturbava. As duas filhas morrendo no dia do aniversário de casamento dos pais? Era uma coincidência que ele ouvia em sua mente como um riso debochado, zombando de seu intelecto. A Amanda que ele conhecera alegou ser filha de Richter, mas, de acordo com o registro,
ela estava morta. Mesmo que estivesse viva, a data de nascimento indicava que estaria agora na casa dos sessenta. Mas Amanda parecia ter informações e percepções sobre o pai dela – o pai dele – que ninguém mais poderia ter. Meu pai foi a base de tudo o que sou. Eu faço o que faço por causa de meu pai. Batman balançou a cabeça levemente para afastar da mente o devaneio negro que o envolvia. Franziu o cenho desgostoso consigo mesmo por perder a concentração. Várias telas de informações haviam passado por ele sem que fossem lidas e registradas conscientemente. Retomou a trilha das palavras.
...correu como boato, mas não foi provado. Pedidos de pesquisa de Richter foram negados em cinco ocasiões diferentes pelo Conselho de Diretores do Hospital Universitário de Gotham. Os pedidos foram intitulados (por ordem de apresentação):
a. Memória química e modificação comportamental: Aplicações práticas na reforma social b. Sonhos genéticos: Falsas lembranças e influências ancestrais na ciência comportamental c. Doença criminosa: Curando a predisposição comportamental através de inoculação e transmissão viral d. Eugenia: Uma nova abordagem e. Pensamento por contágio: Implementação genética de memória subliminar e falsa
Batman pensou na relação de temas sugeridos. Modificação comportamental e memória falsa certamente se encaixavam nos sintomas apresentados pelo comissário Gordon e vários cidadãos de destaque de Gotham. Memória química e o uso de um vírus para transmiti-la por intermédio dos convites apresentava uma série de problemas, mas também parecia se encaixar nos fatos. Que Fay Moffit, a Spellbinder, também estivesse agindo sob o mesmo tipo de ilusão significava que alguém mais alto na cadeia alimentar criminosa de Gotham estava manipulando todos. Quem estava por trás daquilo parecia ter tido acesso à pesquisa de Richter. Pesquisa financiada por meu pai. Batman franziu o cenho, sua voz se tornando um rosnado ao falar. – Kronos: fechar arquivo. Abrir arquivo Alfa zero-zero-um-barra-zero-zero-zero-um. O arquivo Richter sumiu, substituído imediatamente por uma nova janela brilhando diante dele. Dois rostos dolorosamente familiares o encaravam lado a lado na página. Pai... Mãe... O lábio superior de Batman se curvou levemente. A dor está sempre ali, o fogo do demônio que aquece minha alma. Você tem de alimentar o ódio, alimentar a fúria, alimentá-los diariamente... – Ir para: Histórico, Sinclair... Uma frase pulsando em vermelho surgiu no canto superior esquerdo de sua visão, perguntando se ele queria abandonar a atual rota de navegação. – Não! Ir para o arquivo: Histórico, Sinclair, Denholm. O aviso de mudança de rota desapareceu e o arquivo rolou em um borrão, parando de repente em uma linha com fonte negrito e corpo grande.
Sinclair, Denholm Nascimento: 18 de agosto de 1932, Upper East Side, Gotham Morte: 16 de fevereiro de 1958 (REF: Gotham Globe)
Batman ergueu a mão enluvada, tocando na referência ao jornal que pairava no ar. A janela foi imediatamente substituída por uma moldura vertical e uma página escaneada do Globe datada de 16 de fevereiro de 1958.
INCÊNDIO FATAL EM ORFANATO É CONSIDERADO “SUSPEITO” Homem detido para interrogatório Cúmplice é procurada GOTHAM CITY – O incêndio desastroso no orfanato da Fundação Kane, onde acredita-se que dezessete crianças morreram nas primeiras horas da manhã de quinta-feira, na rua Copper, foi classificado como “suspeito por natureza” pelos investigadores do Corpo de Bombeiros de Gotham. O incêndio, que destruiu totalmente o antigo sítio histórico de um hospital da Guerra Civil, engolfou o prédio nos trinta minutos que sucederam o primeiro relato. Fontes anônimas confirmaram que a investigação encontrou provas do uso de aceleradores em vários pontos de ignição simultâneos. O alarme de incêndio dentro do prédio parece ter sido acionado antes do princípio do fogo, e o sistema automático de sprinklers foi aparentemente danificado. A maioria das mortes se deu no oitavo andar, ala das crianças surdas, onde os alarmes de incêndio não foram percebidos. Os funcionários que normalmente trabalham no andar estavam ausentes de forma suspeita. Denholm Sinclair, um homem com supostas ligações com o submundo, está detido pela polícia para interrogatório por conexão com a tragédia. Segundo fontes da polícia, o Sr. Sinclair foi alvo de uma investigação em curso sobre fraude em recentes transferências de recursos, realizadas através das contas do orfanato. Uma funcionária do orfanato encarregada desses recursos e ligada ao Sr. Sinclair, Celia Kazantzakis, também está sendo procurada pelas autoridades...
A tela de navegação à sua esquerda apitou, o destino piscando em um mostrador digital fazendo contagem regressiva de três minutos para a chegada. Subitamente, Batman voltou a franzir o cenho, esticando a mão enluvada e interrompendo a lenta exibição da matéria de jornal com o indicador. Ele o deslizou para baixo, as palavras da imagem do jornal arquivado ficando borradas pela velocidade. Ele deteve seu movimento com um gesto do dedo.
...onde acredita-se que dezessete crianças morreram nas primeiras horas da manhã de quinta-feira, na rua Copper...
Esticou a mão esquerda, arrastando a tela de navegação para junto da matéria.
Destino em 00h45 / Gruidae Paper Company / Rua Copper, 1628.
– Kronos: nova busca – disse Batman, mais alto do que pretendia. – Rua Cooper um-seisdois-oito em Gotham City. Uma terceira tela surgiu.
Busca: Rua Copper, 1628 / Gotham 1781: Criado endereço da rua 1781: Fazenda Erasmus Parkinson
1824: William Bros. Greater Gotham Development Fellowship 1827: Hospital St. Brigid 1850: Sampson’s Liver Pill Establishment 1862: Hospital de Veteranos de Guerra de Gotham (local histórico) 1915: Swensen Storage 1932: Banco de Gotham (retomado) 1939: International Trade Building 1947: Orfanato da rua Copper 1954: Orfanato da Fundação Kane
A tela de navegação surgiu novamente: Piloto automático desligando em 00h10. Batman esticou a mão e pegou o manche, trincando os dentes. Não existe coincidência...
Mansão Wayne / Bristol / 7h37 / 16 de fevereiro de 1958
– Jovem Wayne... A Srta. Kane está... Martha passou por Jarvis Pennyworth, quase derrubando o mordomo idoso no solário. Vestia um cardigã rosa apertado com echarpe branca enrolada no pescoço e calças capri escuras. O cabelo estava preso em rabo de cavalo, e ela tinha uma aparência de frescor, a não ser pelos olhos, que estavam vermelhos, e as lágrimas correndo por suas bochechas macias. – Tommy! Ah, Tommy, você precisa ajudá-lo! Thomas se levantou imediatamente da mesa, quase derrubando seu café no prato de ovos Benedict do café da manhã. Pousou o jornal, tomando o cuidado de colocá-lo com a primeira página voltada para a mesa, escondendo a manchete que já havia desmoronado sobre ele. Sabia por que ela estava ali, e temia pelo motivo. – Martha! O que houve? Ela correu até ele, raspando nas plantas tropicais que floresciam sob o teto de vidro e as paredes que mantinham longe a neve do inverno. Soluçava enquanto corria, os sapatos estalando sobre as pedras do piso. Thomas mal teve tempo de abrir os braços antes que ela jogasse os dela ao seu redor, apertando a cabeça em seu ombro. Thomas corou levemente com a sensação do corpo firme pressionado ao dele, o calor dela se juntando ao seu, e a curva suave de suas costas de repente, de algum modo, sob suas mãos. – Jovem Wayne, talvez eu possa ser de alguma ajuda para a Srta. Kane... – Não, Jarvis – disse Thomas imediatamente. – Já basta. Obrigado. Jarvis desapareceu rapidamente, a porta do solário se fechando de maneira instantânea e silenciosa atrás dele. Thomas a abraçou. Ele sonhara em abraçá-la, passara muito tempo perdido em pensamentos de abraçá-la, fantasiara esse momento em mil ocasiões, lugares e circunstâncias diferentes. Agora o momento chegara. Ele de pé com a camisa aberta no colarinho e calças casuais em meio a palmeiras, seringueiras e orquídeas no calor úmido, enquanto a neve caía suavemente para além do vidro, no mundo frio do lado de fora. Sabia que o momento não poderia durar; o
feitiço seria quebrado no instante em que ela dissesse as palavras que cravariam pregos em seu coração. Mas a abraçou bebendo a totalidade dela em sua alma e memória para que pelo menos tivesse aquele momento para aquecê-lo quando voltasse para o frio de sua realidade. – É Denny! – ela disse, soluçando em ombro. – Eles o prenderam! Estão dizendo coisas horríveis sobre ele! O momento terminara. – Sim, Martha – disse Thomas, erguendo a mão para dar um tapinha em suas costas. – Eu sei. Martha se afastou, o rosto coberto de lágrimas o fitando com olhos perscrutadores. – Mas não é verdade! Não pode ser verdade... Todas as mentiras horríveis que estão contando sobre ele! – Martha, não sei – Thomas mentiu. Ele sabia. Seu pai lhe dera a notícia em primeira mão, tendo sido informado pelo escritório do promotor distrital, que era generosamente pago para manter Patrick Wayne informado. Thomas negara com veemência diante do pai naquela manhã de sábado e, como resultado, dera ao pai a oportunidade perfeita de arrastar o filho até o centro e mostrar que estava errado. As provas reunidas pelo promotor distrital eram esmagadoras – os livroscaixa do orfanato, as várias contas bancárias, a trilha correspondente de desfalques e subornos. Celia Kazantzakis indubitavelmente havia sido cúmplice de Denholm Sinclair no roubo, conclamando Martha a fazer doações adicionais ao orfanato e então conseguindo tirar os recursos da contabilidade. Thomas soubera por intermédio de Lew Moxon que Denholm trabalhava para a máfia de César Rossetti, mas não tinha ideia do quanto estava envolvido – ou do quanto estava endividado com a operação de apostas de César. O pagamento de suas dívidas saiu do controle e o desfalque no orfanato cresceu na mesma proporção. Agora Celia fugira, suas passagens da Pan Am foram rastreadas até o Canadá, onde ela pode ter comprado passagens para a Espanha sob um pseudônimo. A polícia ainda tentava descobrir isso. Mas as autoridades haviam apanhado Denholm perto do orfanato pouco depois do começo do incêndio, e posteriormente descobriram que ele comprara grande quantidade de redutor de tinta e querosene na quarta-feira anterior. E havia a confissão que assinara. – Você tem que ajudá-lo, Tommy! – suplicou Martha. – Não sei o que posso... – Thomas Wayne, não ouse me dizer que não pode ajudar Denny! – disse Martha, se afastando dele de repente. – Ele é seu amigo! Ele é bom, gentil e... e... Ah, Thomas, eu sei que ele tem um lado difícil, e talvez tenha feito algumas coisas das quais não se orgulhe... Mas é bom por dentro, e eu... Eu... – Você o ama – disse Thomas, embora as palavras tenham caído de seus lábios tão frias e suaves quanto a neve do lado de fora. Martha, mergulhada em sua própria dor, ouviu apenas o que queria ouvir, e sorriu em meio às lágrimas. – Você entende, não é? Ah, Tommy, por favor, dê um jeito nisso para mim. Por favor, acerte as coisas. Thomas respirou fundo.
Dê um jeito nisso para mim. Thomas anuiu. – Tudo bem, Martha. Vou cuidar disso. Vá para casa, e eu ligo para você à tarde. Martha passou os braços ao redor dele mais uma vez. – Obrigada, Tommy! Você é o máximo! Abraçá-la não foi a mesma coisa dessa vez, talvez porque ele soubesse o que iria se seguir. Thomas a observou enquanto saía apressada do solário. Assim que não pôde mais ouvir seus passos, pegou o telefone na mesa. Era hora de dar um jeito no problema de Martha. Pegou o fone, o dedo discando rapidamente o número que discara tantas vezes nos últimos meses. Esperou poucos minutos antes de ser atendido. – Dr. Richter, por favor... Doutor? Minhas desculpas por incomodá-lo esta manhã, mas preciso que cuide de algo imediatamente... Não, temo que precise ser hoje... Quantos pacientes de teste recebeu da ala criminal? Três? Bem, preciso que receba outra transferência para nosso projeto o quanto antes. Caso preencha a recomendação até 14h acho que posso... Não, imediatamente. Precisa ter certeza de que a cela está preparada, e me avise assim que a papelada estiver pronta, para que eu possa acertar a transferência do meu lado. Thomas levou a mão na direção do garfo, mas mudou de ideia. Seu café da manhã estava arruinado. – O nome dele é Sinclair. Denholm Sinclair.


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