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domingo, 28 de maio de 2017

SD 923 : WAYNE DE GOTHAN

CAPÍTULO NOVE

DO QUE SÃO FEITAS AS GAROTINHAS?

Rua Murphy / Gotham / 10h46 / Hoje Bruce apertou a campainha desajeitadamente com o indicador direito, o resto da mão ocupado em segurar o corpo flácido de Amanda Richter. A alvorada ainda não começara sobre o Atlântico a leste. Todas as ruas à luz do começo de manhã estavam banhadas em um brilho rosado. Alguns poucos cidadãos circulavam e várias luzes apareciam através das janelas ao longo da rua, mas entre aqueles madrugadores nenhum prestou grande atenção no homem de camisa de flanela e jeans carregando a mulher pelos degraus da casa. Ele havia escondido o batmóvel em um túnel lateral no sistema de transporte de massa de Gotham, projetado especialmente para manter o veículo – e sua bat-roupa – longe de olhos e mãos. Era o mais perto que ele podia chegar da avenida Elm e da rua Murphy com a certeza de que seu equipamento – especialmente sua bat-roupa – estaria em segurança. Caminhar até o parque havia sido uma distância relaxada. Contudo, o parque ficava a quatro quarteirões dos degraus da casa de Amanda Richter, e Bruce estava sentindo a exaustão pelo esforço de carregar a mulher tão longe. Agora, de pé no patamar com a mulher nos dois braços e sofrendo para apertar a campainha, ele desejou, não pela primeira vez, estar de volta à batroupa exomuscular e deixar que ela levasse embora os anos que, no momento, sentia em seus braços e pernas insatisfeitos. Conseguiu mais uma vez encontrar a campainha e se apoiou nela. A porta finalmente se abriu. – O que em nome de... – Entrega, Sra. Doppel – ele grunhiu. – Quem é você? – cobrou imediatamente a enfermeira. – Gerald Grayson – ele respondeu, suor brotando em sua testa. – Importa-se de entrarmos? – O que você fez com ela? A Sra. Ellen Doppel, enfermeira registrada, era uma mulher sem graça de meia-idade que tinha a aparência geral de quem acabou de ser sacudida em um grande saco de papel e depois despejada dele. Sua saia de algodão escura e sua blusa branca estavam amarrotadas, e havia um suéter rosa brilhante jogado sobre os ombros de maneira desigual. Os olhos também eram desiguais, um parecendo ligeiramente mais baixo que o outro e perceptivelmente caído. Seus cabelos cinza-chumbo se projetavam do coque frouxo em ângulos estranhos. A despeito de sua aparência desgastada, Bruce notou que ela se movia com surpreendente facilidade. – Nada comparado ao que acontecerá com ela caso eu a deixe cair nestes degraus de pedra
– respondeu Bruce por entre dentes trincados. – Quer sair do caminho? A Sra. Doppel não queria sair do caminho, mas ainda assim o fez. Ela encostou na parede de entrada, agarrando o suéter o mais fechado possível. – Siga o corredor, é a primeira porta à esquerda. Há um sofá no estúdio. Coloque-a lá. Bruce obedeceu rapidamente, sem saber quanto tempo mais suas pernas resistiriam. Houve um tempo em que não teria pensado duas vezes nisso. Já foi há muito tempo... Passou de lado pelo corredor estreito e girou pela passagem aberta. O estúdio tinha painéis envernizados que chegavam aos lambris e, logo acima, uma tinta creme subia até sancas decoradas ao longo do teto. Uma escrivaninha pesada e envernizada para combinar com os painéis ficava quase no centro da sala, enquanto estantes altas tomavam uma das paredes. Havia uma janela que deixava entrar luz de um pequeno jardim aninhado entre as casas. Um colchão de couro almofadado ficava junto à parede dos fundos. Aquela havia sido a sala de um homem, mas Bruce decidiu que a sala não via a presença de um em talvez meio século. – Onde a encontrou? – perguntou a Sr. Doppel. Ela os seguira até a sala e estava de pé no umbral. – Ela estava em Curtis Point. Eu esperava uma entrega e resolvi passar o tempo – respondeu Bruce. – Em Curtis Point – repetiu a Sr. Doppel, não acreditando. – Isso. A Sra. Doppel o avaliou por algum tempo antes de falar. – Deve estar com frio, Sr. ahn... – Grayson, madame. Gerry Grayson. – Posso lhe oferecer um café antes que vá embora, Sr. Grayson? Bruce deu seu sorriso mais sedutor. – Gostaria muito, Sra. Doppel. Ela recuou do umbral, voltando para a cozinha. – Venha comigo, por favor. Bruce a seguiu. A cozinha em si era decididamente velha, o piso coberto de azulejos brancos destacados por outros pretos menores. Os equipamentos haviam sido trocados cerca de dez anos antes, pela aparência. A enfermeira indicou um lugar para Bruce em uma pequena mesa com um tampo de fórmica rosa ridiculamente antiquado. As cadeiras pareciam ter saído de uma lanchonete antiga, e o plástico em um dos assentos estava rasgado. – O que sabe sobre a Srta. Amanda, Sr. Grayson? – perguntou a Sra. Doppel sem preâmbulos enquanto colocava café de um bule de metal reluzente em duas grandes xícaras com pires combinando. – Na verdade, não muito – Bruce respondeu. – Não estou certo de que ela tenha todos os parafusos no lugar, se entende o que quero dizer. A Sra. Doppel quase sorriu. – Isso é bastante verdade, Sr. Grayson. Ela pegou xícaras e pires, atravessando a cozinha e os colocando na mesa. – Já que estamos partilhando café, que tal me chamar apenas de Gerry? – Prefiro manter as coisas formais, Sr. Grayson – disse a enfermeira, se sentando diante
dele. – Permanecer impessoal tornará mais fácil a minha notícia. – Mas você tem um prenome, não? – insistiu Bruce. Ela o olhou do outro lado da mesa, sempre avaliando o que dizer antes de fazê-lo. – Meu nome é Dra. Ellen Doppel, e sou, ou era, doutora em psicologia clínica. Tratava da Sra. Richter e de sua filha quando de sua morte infeliz, e agora estou proibida de clinicar devido a imprecisões em depoimentos no inquérito. Contudo, foi o desejo incontestado de mãe e filha em seus testamentos que eu herdasse sua casa e seus bens financeiros. Desde então sou prisioneira de sua generosidade nesta casa. Isso satisfaz sua curiosidade, Sr. Grayson? – E agora está tratando da filha mais jovem por conta própria? – Bruce perguntou com estudada descontração. – Não, ambos sabemos que isso é impossível, não é mesmo? Bruce a encarou por sobre a beirada da xícara. – Desculpe-me? – A Srta. Amanda, como a conhece, não poderia ser Amanda Richter – continuou Ellen Doppel com forçada tranquilidade. – Ernst Richter morreu em um acidente em Arkham em 1958. Marion, a filha mais velha, tinha quinze anos à época. Sua irmã mais nova, Amanda, tinha onze. Se Amanda tivesse sobrevivido, teria mais de sessenta anos agora. – Ela parece bastante bem para sessenta – disse Bruce com um risinho. – Bem, as mulheres Richter eram conhecidas por resistir bem ao tempo – disse a enfermeira Doppel. Bruce ergueu as sobrancelhas. – Uma brincadeira – disse Doppel, dando de ombros. – Não, Sr. Grayson, essa não é Amanda Richter. – Bem, eu carreguei alguém para dentro desta casa. – Mas não Amanda Richter – disse a enfermeira secamente. – Bem, ela certamente acredita ser Amanda – insistiu Bruce. – De onde ela veio? – Não sei – respondeu a enfermeira, uma expressão perturbada vincando seu cenho pela primeira vez. – Ela apareceu na varanda dos fundos certo dia no meio de um temporal, encharcada e mal conseguindo falar. – Ela disse de onde vinha? – Desta casa. – Mas acabou de dizer... – Eu disse que ela não é Amanda Richter – interrompeu a enfermeira Doppel, cruzando os braços. – Fiz de tudo para ajudá-la, mas ela acredita fortemente que quem quer que tenha sido um dia, agora é Amanda Richter. Acredita estar possuída pelo fantasma de Amanda e que todos os poderes de seu pai de reorientar as mentes dos homens também são seus. Acredita que não ficará livre desse fantasma até Amanda ter a morte do pai vingada. – Possuída? – reagiu Bruce, balançando a cabeça. – Isso é loucura. – Sim – respondeu a enfermeira Doppel, tomando um gole do café. – Acredito que é. Bruce observou Doppel por um momento. Havia uma tristeza resignada na mulher, como um animal que foi capturado na natureza e cuja disposição fora eliminada por anos demais
em uma jaula. – Ela chamou a si mesma de Marion – ofereceu Bruce no silêncio. Doppel ergueu os olhos com interesse repentino. – Chamou? Quando? – Pouco antes de desmaiar – respondeu Bruce. – Quem é Marion? – Era a mais velha das irmãs Richter – respondeu a enfermeira Doppel, balançando a cabeça melancolicamente. – Isso é muito ruim. – Ruim? Achei que já tínhamos deixado o ruim para trás – falou Bruce. – Quero dizer pior – corrigiu a enfermeira Doppel. – Ela adotou a persona de Amanda, mas agora parece estar se dividindo em múltiplas personalidades. Primeiro Amanda, e agora, aparentemente, Marion. Transtorno dissociativo de identidade é um revés para Amanda, um agravamento de seus problemas. Isso normalmente é causado por estresse demasiado, mas não consigo pensar em um estresse externo que tenha sofrido que pudesse ser causa para esse novo transtorno. Um gemido vindo do escritório chegou à cozinha. A enfermeira Doppel pousou a xícara cuidadosamente no pires e se levantou, as pernas da cadeira guinchando nos azulejos. – Desculpe-me, Sr. Grayson, voltarei logo. A enfermeira Doppel passou por ele, tomando o cuidado de ficar o mais distante possível. Abriu a porta do escritório, fechando-a após passar. Bruce se esforçou para ouvir, mas as vozes através da porta eram abafadas. Identidade dissociativa é extremo. Será que uma personalidade alternativa pode ser seu adversário sem a personalidade de Amanda saber disso? Dupla personalidade... Não é isso o que sou? Ou com Gerry Grayson conta como três? A enfermeira Doppel passou de novo pela porta do escritório, fechando-a suavemente a seguir. Levava na mão livre um pacote, coberto com papel pardo liso e amarrado firmemente com barbante. – Ela disse que eu deveria dar isso a você. Bruce pegou o pacote e o girou nas mãos. – O que é? – Não tenho a menor ideia – respondeu a enfermeira Doppel, desviando os olhos e seguindo para a porta do saguão. Seus modos eram educados, mas havia uma sensação de despedida acelerada em seu tom. – Bem, então diga a ela “obrigado” por mim – falou Bruce, erguendo o objeto ao passar por ela no umbral. Pelo peso e tamanho, parecia um livro embrulhado. – Farei isso, Sr. Grayson – respondeu Doppel, usando a porta para empurrar Bruce pelo resto do caminho até o patamar. A porta que se fechava quase cortou suas palavras. – Volte quando quiser. Ele desceu as escadas da casa na rua Murphy, girando nas mãos um livro embrulhado em papel pardo liso e amarrado com barbante. Bruce se deslocou com passos rápidos para o cruzamento com a avenida Elm – pensando em por que toda cidade dos Estados Unidos parecia ter uma rua batizada com o nome dessa
árvore específica – e desceu as escadas de uma estação do metrô. Ele desembrulhara o livro, descobrindo que tinha apenas um ano desbotado gravado na capa: 1957. Bruce abriu o velho diário e começou a ler. Uma câmera de vigilância no teto da entrada o gravou chegando à base das escadas, mas não à plataforma da estação. Para os cde Gotham, ele desaparecera.

DIÁRIO DE ERNST RICHTER (TRADUZIDO DO ORIGINAL ALEMÃO) SEXTA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 1957: Diretores são idiotas! Imbecis míopes. O Dr. Hemmingway me chamou de simpatizante comunista! Eu! E o professor Goldstein disse que eu estava abalando a reputação do hospital e da universidade. Isso vindo de ninguém menos que um judeu! Depois de todo o esforço que os americanos fizeram para trazer a mim e minha família para cá – para nos dar esta nova vida de modo a que pudessem lucrar com minha pesquisa –, agora eles não a querem? Não conseguem respeitá-la ou a mim? E como podem me acusar de ser stalinista – após ter fugido dos russos com os americanos oferecendo presentes de Prometeu! Quase trinta anos de pesquisa, grande parte dela prática, e agora não querem saber dela? O que estou fazendo aqui? SÁBADO, 5 DE OUTUBRO DE 1957: Um novo bando de residentes hoje. Goldberg me obrigou a pegá-los, sem dúvida como punição por meu sotaque. Odeio deixar Juliet e Mari no fim de semana, mas não posso irritar ainda mais os chefes do hospital. Um era mais promissor que o resto do bando embotado e desajeitado que me mandaram: um jovem chamado Thomas Wayne. Ele é brilhante e promissor – e aparentemente também muito rico. Tem grande interesse em minha pesquisa. Talvez eu possa conhecer melhor esse jovem...

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