–RAPTADA? O que diabos você quer dizer com raptada? O que tá acontecendo?
Scott e Carlos estavam no elevador do prédio comercial na avenida Park
South.
– Acabou de acontecer – Carlos disse –, numa esquina perto da escola.
Subitamente, Scott ficou tonto, a cabeça leve.
– Isso é um engano, certo? Quer dizer que ninguém sabe onde ela está?
– Não, ela foi raptada. Roger levou um tiro. Mas pegaram a placa, e temos
descrições dos sujeitos. Vamos resgatá-la, eu juro.
Sabendo que aquela era uma situação totalmente diferente, que era real,
Scott perguntou, ensandecido:
– A Cassie tá bem? Tá bem?
– Até onde sabemos, sim.
Até onde sabemos.
Havia sido Dugan; só podia ter sido ele. Scott não conseguia se lembrar desde
quando se sentia assim tão aterrorizado, tão impotente. Era o exato oposto do
que devia sentir um super-herói – mas a maioria dos super-heróis não tinham
filhas desaparecidas.
– Acho que não era o corpo do Dugan naquela fábrica – disse ele. – Acho que
vocês se enganaram nisso também.
– Não sabemos se era ou n…
– Ele tá vivo – Scott exclamou. – Nós dois sabemos disso.
Saíram do elevador quando chegaram ao saguão. Scott agarrou Carlos pelos
ombros e o prensou contra a parede.
– Eu preciso saber exatamente o que aconteceu. Agora!
– Eu disse tudo que sei, amigo. Um carro parou. Atiraram no Roger e levaram
a sua filha.
– Vocês deveriam proteger ela – disse Scott. – Era disso que se tratava a
ordem. Vocês não sabem fazer o trabalho de vocês, não?
– Alguma coisa deu muito errado… claro – disse Carlos. – Nosso homem foi
ferido. Sugiro que me solte.
Sabendo que não havia tempo a perder, Scott soltou Carlos e saiu às pressas
do prédio com ele. Entraram no Charger de Carlos e, com a sirene e o farol do
teto ligados, chegaram ao bairro de Scott em menos de dez minutos.
No carro, Scott não disse nada. Agarrava-se à tênue esperança de que no fim
tudo aquilo fosse apenas um engano. Não estava pronto para considerar a
possibilidade de que Cassie estivesse em perigo, ou pior. Odiava sentir-se
impotente, como uma vítima. Precisava ter poder, ter controle. Precisava ser o
Homem-Formiga.
Qualquer esperança de que tudo fosse um engano evaporou quando
chegaram perto da 1
a
avenida pela rua 76. A área inteira tinha sido interditada, e
não deixavam o tráfego passar.
Scott saiu do carro. Atrás dele, Carlos gritou:
– Ei, espere, aonde você vai?
Scott disparou à frente, e foi costurando por entre a multidão até chegar à
área interditada, perto da avenida. Já tinha erguido a faixa da polícia e estava
prestes a passar por baixo quando um policial civil corpulento com sotaque do
Brooklyn disse:
– Ei, cara, afaste-se.
– Ela é minha filha – disse Scott. – Cassie… a menina que foi raptada.
O agente do FBI, Warren – o que viera ao apartamento dele na noite em que
todo esse pesadelo começou – vinha correndo na direção deles.
– Pode deixar – disse. – Deixe ele passar.
Ainda atrás da faixa, Scott lhe disse:
– Foi o Dugan?
– Ainda não temos certeza.
– Olha, é a minha filha – exclamou Scott. – Minha filha, viu? Não quero essa
sua informação parcial. Que se ferre o seu protocolo. Vocês deixaram isso
acontecer. Quero saber o que tá acontecendo na Louisiana e aqui. Agora!
– Olha, eu entendo como você está preocupado, mas já te dissemos tudo. Não
estou escondendo nada. Até onde eu sei, a investigação sobre a morte do Dugan
na Louisiana continua em andamento. Fique sabendo que estou fazendo tudo o
que posso para trazer sua filha de volta em segurança.
– Segurança – Scott zombou. – Nisso vocês são muito bons mesmo. E as
testemunhas? Alguém viu alguma coisa?
– Sim – disse Warren. – Ainda estão sendo interrogadas, então pode haver
mais informação, mas as testemunhas viram dois homens. Um atirou no Roger, e
depois levaram Cassie. Temos uma identificação preliminar de um deles, Ricky
Gagliardi.
Scott odiou o jeito como Warren dissera “levaram” Cassie. Soou-lhe muito
frio.
– Eu conheço Gagliardi – disse Scott. – Trabalhava com Dugan. Isso significa
que ele tá envolvido.
– Não necessariamente – disse Warren. – O pessoal do Dugan pode estar
trabalhando por conta própria. O que você sabe sobre esse Ricky Gagliardi?
Subitamente Warren pareceu interessado só porque – e agora estava bem
claro – o dele estava na reta. A situação saiu totalmente de controle justo no
turno dele. Ele queria, sim, encontrar Cassie, mas apenas por ser o único jeito de
salvar o seu emprego.
– Não conheço o cara, na verdade – disse Scott. – Faz muitos anos. Temos
conhecidos em comum.
Scott não estava sendo totalmente sincero. Conhecia Gagliardi, ou “Gags”,
muito bem, inclusive por ter feito pequenos trabalhos com ele e Dugan. Gags era
um grandalhão, pura força. Ninguém ousava mexer com ele, o que fazia dele um
cara valioso quando a equipe precisava intimidar alguém. Scott não lembrava
muita coisa de Gags, mas não se lembrava de odiar o cara. Para um criminoso,
tinha uma personalidade bem decente. Adorava pregar peças – parte do motivo
por ele ter esse apelido – e era fã dos grandes filmes, vivia falando dos filmes do
Scorsese. Sempre deu a impressão de gostar de Scott; pelo menos ria de suas
piadas. Scott nunca teve nenhum problema com o cara, nunca testemunhou contra
ele, e era assim que ele agradecia dez anos depois? Como é que um cara hoje ri
das suas piadas e amanhã sequestra a sua filha?
– E o carro? – Scott perguntou. – Alguém identificou, anotou a placa?
– Uma testemunha, um entregador de pizza, viu a coisa toda. Temos
descrição do veículo, inclusive a placa, mas infelizmente o carro acabou de ser
encontrado no Bronx. Pelo visto trocaram de carro.
É, e a uma hora dessas já devem ter trocado mais duas vezes, Scott pensou.
Ele sabia como Willie Dugan trabalhava, e essa situação era a cara dele. Este
era um homem que passara nove anos construindo um túnel para escapar de
Attica. Sempre desenvolvia os planos até o último detalhe. Mas o que conseguiria
com Cassie? Não era muito típico dele ir atrás da filha de um cara quando podia ir
atrás do próprio cara. Se estava disposto a balear um agente federal, por que não
mandara comparsas para atirar em Scott e Carlos? Para que perder tempo com
Cassie, afinal?
– Como puderam deixar isso acontecer? – disse Scott. – Você só tinha uma
função: protegê-la.
– E fizemos nosso melhor – Warren gritou de volta. – Ainda estamos fazendo.
Quando começam a atirar, há uma limitação do que podemos fazer, seja
protegendo a sua filha ou o presidente do país. Mas estamos fazendo tudo que
podemos, usando todos os recursos disponíveis, para encontrar a sua filha. É a
nossa prioridade.
Scott ainda estava furioso com Warren, mas não queria ficar atribuindo culpa
naquele momento. Precisava do agente totalmente concentrado em encontrar
Cassie. Além disso, sabia que não estava sendo muito justo: foi ele quem não dera
bola para as ameaças de Dugan, que não tinha acreditado que este fosse vir atrás
dele e de sua família.
– Está certo – disse. – Vamos apenas encontrá-la.
Outro agente veio e levou Warren dali. Scott avistou Carlos na outra ponta
do quarteirão, obviamente procurando por ele. Scott passou por detrás de um
furgão para evitar ser visto. Seu celular tocou. Ele o tirou do bolso no primeiro
toque, rezando para ser Cassie, mas era Peggy.
Preparando-se para a bronca, sabendo o inferno que esperava por ele, Scott
atendeu a ligação, já dizendo:
– Já ficou sabendo.
– Por favor… – Peggy chorava. – Por favor, diga que não é verdade.
– É, sim – Scott disse – mas vou encontrá-la. Eu…
– Isso é culpa sua! – ela berrou. – Culpa sua!
Scott tinha ouvido aquilo apenas cem mil vezes ao longo de seu casamento.
– Olha, agora não é hora de culpar…
– O Homem-Formiga – ela interrompeu. – O maldito do Homem-Formiga e os
seus segredos malditos.
– Isso não tem nada a ver com isso – Scott rebateu, percebendo que fizera
uma declaração ridícula. E então acrescentou: – Você está sozinha aí?
– Viu? – ela disse. – Você só liga pra esse seu segredo maldito; só liga pra isso.
– Peggy, por favor, tente…
– O quê? Ficar calma? Vai me pedir pra ficar calma? Eu sabia que tinha sido um
erro ter deixado a Cassie com você. Um ex-presidiário! Mas não achava que daria tão
errado, Scott, que você ia deixar isso… o que tá acontecendo, afinal? Eu tenho que
saber.
– Olha, agora não é a hora…
– Só quero minha filhinha de volta. – Peggy chorava muito. – Quero minha
filha em segurança.
– Confia em mim… – Scott também estava se emocionando, sentiu as
lágrimas mornas escorrendo por suas bochechas. – Eu quero a mesma coisa. Eu
prometo, vou trazê-la de volta, e vou fazer a pessoa que fez isso pagar.
– Cansei das suas promessas – disse ela. – Estou indo pra Nova York.
– Não, – Scott disse. – Isso é um erro. Não tem nada que você possa fazer
aqui, e é mais seguro ficar aí.
– Tenho que fazer alguma coisa. Minha filha precisa de mim.
O celular de Scott vibrou – chegou uma mensagem.
O código de área era estranho, fora de Nova York: 859. Seria de Cassie? Será
que de algum jeito ela havia conseguido um celular?
– Ligo para você depois – disse Scott.
– Scott, não… – Peggy disse.
Ele encerrou a ligação e acessou mensagem. Ela dizia:
Se quiser ver sua filha viva, ligue de um celular pré-pago em cinco
minutos
Scott xingou em voz alta. Alguns policiais que estavam perto olharam para
ele.
E então chegou mais uma mensagem do mesmo número:
NADA DE POLÍCIA
Scott olhou ao redor freneticamente, supondo que quem mandara a
mensagem estava ali perto, na cena do crime. Então ele avistou Carlos passando
em meio à multidão, procurando por ele. Scott precisava evitar Carlos. Com o
agente por perto, seria impossível ligar para o tal número com a privacidade que
precisava.
Para afastar-se da multidão e de Carlos, Scott entrou numa farmácia no
quarteirão seguinte e entrou na fila para acessar o local onde ficavam os celulares
pré-pagos. Havia duas pessoas na frente dele: uma senhora que fuçava a bolsa
em busca de trocado para terminar de pagar pelas compras e um cara de cabelo
comprido, óculos e boné dos Brooklyn Dodgers virado para trás.
Scott checou o celular – fazia três minutos que recebera a mensagem, então
tinha dois minutos para comprar o celular e retornar a ligação.
A mulher dizia:
– Eu sei que tem mais uma moedinha em algum lugar aqui.
– Por favor, estou com um pouco de pressa – disse Scott.
– Você vai ter que esperar – o atendente, um rapazinho, retrucou.
Novamente, Scott desejou estar com o uniforme do Homem-Formiga. Embora
não roubasse nada havia anos, havia situações em que roubar uma loja é
permitido, e uma delas é quando sua filha foi raptada e você tem mais dois
minutos para comprar um celular e ligar para o sequestrador. Ele podia ter
passado para trás do balcão, retirado um celular do mostruário e saído da loja –
torcendo para que ninguém reparasse na bizarra cena de um celular sendo
carregado por um homem do tamanho de uma formiga.
– Vou ter que te dar um dólar mesmo – disse a senhora.
Quando ela finalmente terminou a compra, o cara de boné de beisebol,
percebendo a agitação de Scott, disse:
– Tudo bem, cara, pode passar na frente. Sem problema.
Quem disse que os nova-iorquinos não são amigáveis?
– Preciso de um celular daqueles – Scott disse ao atendente.
– Qual deles? – ele perguntou.
– Qualquer um – Scott disse. – Aquele ali… esse mesmo.
O atendente teve de pegar uma chave com o gerente para abrir o mostruário
e retirar o celular. Scott pagou com cartão de crédito, e saiu correndo da loja.
Virou na esquina da rua 75 e invadiu o saguão de entrada de um prédio.
Tinha um minuto… ou menos, se o autor da mensagem tivesse começado a
contagem no instante em que a enviara, em vez de quando fora recebida. Suado e
agitado, Scott ativou o celular o mais rápido que pôde e discou o número.
Alguém atendeu.
–HÁQUANTOTEMPO – disse Dugan. – E bem na hora.
Scott não ouvia a voz de Willie Dugan fazia muitos anos – Dugan optara por
não testemunhar nem dizer uma palavra sequer em público durante seu
julgamento por assassinato. Mas não havia dúvidas de que era ele mesmo.
– Quero falar com ela, agora – explodiu Scott.
– Que indelicadeza – disse Dugan – A gente não se fala faz anos, e agora nada?
Nem um “e aí, como você tá”? Não está curioso? Não tá nem aí pro que passei?
– Passa pra ela agora, Willie.
– Humm, estamos muito bravinhos! Que foi, está com dificuldade de controlar
a raiva agora, Scott? Você costumava ser um cara tão calmo, escutava Bob Dylan e
Cat Stevens. Tocava violão também, se bem me lembro.
– Willie, me deixa falar com ela.
– Que pena, ela não pode falar no momento. Gostaria de deixar recado? – Willie
ria.
Scott tinha uma pressão sanguínea normal, mas agora já devia estar passando
de dezoito.
– Eu juro – Scott disse –, se você a machucar, vou te caçar e acabar com você.
– Diga isso com sotaque irlandês e vai ficar igualzinho ao Liam Neeson.
– Não estou brincando – disse Scott.
– Ah, eu não achei que estivesse – rebateu Dugan. – Então, está surpreso que eu
estou vivo? Tipo, há dias todo mundo anda dizendo que morri.
– Não estou surpreso – Scott disse.
– Não acredito nisso – Dugan disse. – Sei como você é… sempre o Sr. Otimismo.
Parte de você quis acreditar que eu tava morto, que tudo tinha acabado, mesmo que
a parte inteligente soubesse que eu não estava.
– Como você fez isso? – Scott perguntou, supondo que teria mais chances de
conseguir informação com Dugan se ficasse puxando papo, se o mantivesse na
linha.
– Estou um pouco surpreso por ninguém ter sacado até agora – disse Dugan. –
Tipo, com todo aquele equipamento chique de DNA que existe hoje em dia. Estou
surpreso que ainda ninguém comentou que o Mulligan sumiu.
– Mulligan? – perguntou Scott.
– Lawrence Mulligan – Dugan disse. – Lembra? O juiz que presidiu o julgamento.
Sabe, aquele em que você me delatou.
Scott lembrou-se do nome.
– Espera – disse ele –, então você…
– É, eu matei o sacana – Dugan disse. – Estava aposentado em Nova Orleans.
Morava sozinho, acho que ninguém percebeu que o cara sumiu. Mas eu achei que se
arrumasse tudo pra parecer que tava morto, teria mais chance de chegar até você.
Ah, e à sua garotinha.
– Seu filho da mãe – Scott disse. – Se machucar ela, eu te mato!
– Uau, Scotty, você não é assim. – Dugan parecia estar se divertindo muito
com a conversa. – Quer dizer, você não é um amador tipo aquele cara, o Castle. O
Homem-Formiga não mata pessoas, ele leva pra justiça, certo?
Como Dugan havia descoberto que Scott era o Homem-Formiga? Cassie
havia contado? Ela não faria isso… a não ser que fosse ameaçada ou torturada.
– Não faço ideia do que você tá falando – Scott mentiu.
– Pode se fazer de bobo o quanto quiser – Dugan disse –, mas eu sei a verdade.
Descobri há algum tempo, enquanto estava na prisão. Eu sabia que você conhecia
Hank Pym, aquele médico… foi você mesmo quem me falou dele. Depois teve o
incêndio naquele motel. Como será que eu consegui sair de lá? Foi um milagre… ou
será que não foi? Os bombeiros disseram que parecia que eu havia pulado da janela,
mas eu sabia que tava preso lá em cima, fraco demais pra pular. Não tinha como eu
ter me levantado, ido até a janela e pulado. Digo, não sozinho. Eu tava quase
desmaiando, morrendo, mas… bom, você sabe o resto, Scott.
Scott não sabia por que Dugan tocava naquele assunto, mas precisava mantê-
lo na linha. Precisava descobrir onde Cassie estava e certificar-se de que ela
estava bem.
– Não entendo o que isso tem a ver com a Cassie – disse.
– Achou que eu fosse idiota? – disse Dugan. – Que eu não fosse sacar?
– Se ela estiver com você, pode pelo menos…
– Não tô falando da sua maldita filha! – Dugan berrou. E então Scott
escutou-o respirando fundo algumas vezes, como se tentasse se acalmar.
Jesus, o cara parecia totalmente fora de controle, e estava com a Cassie.
Aquele era o pior dos pesadelos imagináveis.
– Tipo, eu admito que levei um tempo pra juntar as peças – continuou Dugan. –
Foi o timing que te entregou. Você disse que ia sair da equipe, queria se endireitar, e
logo depois comecei a ouvir falar do Homem-Formiga. Ele usa as partículas Pym no
cinto ou sei lá, encolhe, fica do tamanho de uma formiga e trabalha com os
grandões, Homem de Ferro, Capitão América, até com o Homem-Aranha, ajudando
a livrar o mundo do mal e essa porcaria toda. Muitos rumores rolaram também.
Todo mundo ficou intrigado. Quem é esse cara que encolhe? Será que é meu amigo?
Será que é meu vizinho? Será que Hank Pym passou a tecnologia pra outra pessoa?
Daí eu fui preso, chega meu julgamento, e quem colocam para testemunhar contra
mim? Meu antigo parceiro leal. Coube direitinho; mais uma peça do quebra-cabeça.
Foi por isso que você testemunhou contra mim, né? Porque ficou todo certinho.
Então essa sua virada de casaca me colocou na prisão, prisão perpétua, e enquanto
isso você leva esse vidão na cidade grande, fingindo que é herói. É, eu disse “fingindo”
porque é isso que você faz. Você finge, você mente. Sabia que pensei em você todos os
dias na prisão? Pensei no que ia fazer pra me vingar de você. Tinha outras pessoas na
minha lista, mas com eles foi só aquecimento. Você é o meu grande prêmio, Scott.
Cada dia que eu passei construindo aquele túnel com as próprias mãos, isso mesmo,
com as mãos, eu pensava em você, que me traiu. E a cada punhado de terra eu
chegava mais perto do dia em que ia me vingar de você. Você pode até enganar os
outros, Scott, mas não me engana. Sei quem você é. Sei o que você é. Só porque você
usa um terno chique não quer dizer que tenha mudado. Você não é herói coisa
nenhuma, Scott.
Scott não sentiu remorso algum; sabia que tinha feito a coisa certa. Contudo,
precisava acalmar Dugan, argumentar com aquele lunático.
– Por que você machucaria a mim ou a minha filha? – perguntou. – Eu entendo
que você me odeie por causa do julgamento, mas se o que diz é verdade, e não
estou dizendo que não seja, então eu salvei a sua vida.
– Vida? – Dugan disse, parecendo chocado. – Eu não vivi, eu fiquei preso. Você
cumpriu quanto, seis meses? Um ano?
– Quase dois anos – Scott disse.
– Dois anos numa colônia de férias se comparado ao que eu passei em Attica.
Sabe que tipo de animal ficou lá comigo? Sabe o inferno que eu vivi? E chama isso de
vida?
– Sei que você viveu um inferno – disse Scott –, e sinto muito pelas coisas
terem acontecido assim. Mas a gente está falando da minha filha, cara. Ela não
tem nada a ver com isso. Seu problema é comigo, vem me pegar. Lute comigo
como um homem.
Dugan caiu no riso.
– Que foi? – disse Scott. – Está achando graça? Tô falando sério. Solte-a, e te
encontro onde você quiser.
Ainda rindo, Dugan disse:
– Brother, você não mudou nada, né? Sempre achando que é o cara mais esperto
da sala. Bom, quer saber? Você não é.
– Ah, tá, porque você é o mais esperto – disse Scott. – Você sabe tomar boas
decisões. Lembro de como você organizava os esquemas até o último detalhe.
Sabia quando havia menos pessoal, menos armas, e nunca dava um passo errado.
Você pode tomar a decisão certa agora, Willie. Pode…
– Cala a boca. Está me dando dor de cabeça – Dugan cortou. – Nunca mais vou
voltar para a prisão, tá me ouvindo? Quando entrei naquele túnel, eu soube disso,
não tinha mais volta. Eu tinha que chegar até o final ou morrer tentando, só tinha
essas duas opções. Mas eu não morri, eu saí, e agora é a minha vez. Minha vez de me
vingar.
Scott não conseguia acompanhar Dugan, mas prosseguiu.
– Eu te entendo. Você está frustrado, está nervoso. Qualquer um ficaria, na
sua situação, mas isso não quer dizer que você tenha que…
– Vou mandar um endereço pra esse número depois que eu desligar – disse
Dugan. – Venha hoje, seis da tarde, sozinho. Se eu vir um policial, ou achar que vi,
vou meter bala na cabeça da sua filha.
O rosto de Scott ficou vermelho de raiva, mas ele manteve compostura
suficiente para dizer:
– Estarei lá
Scott permaneceu no saguão, esperando que a mensagem chegasse. Só
conseguia pensar na ameaça de Dugan de matar Cassie. Era difícil acreditar que
passara tanto tempo convivendo com esse psicopata, que chegou até mesmo a
gostar dele. No julgamento, Scott vira um Dugan completamente diferente,
ouvira sobre as coisas terríveis que o cara fizera, como havia se tornado duro e
cheio de ódio. Se, naquela época, Dugan ainda tinha um pouco de moral, a prisão
conseguira arrancá-la dele. Agora ele estava totalmente maluco, delirante,
irremediável. Será que durante todo aquele tempo Dugan havia escondido de
Scott sua verdadeira natureza? Ou os sinais sempre estiveram lá, mas Scott,
envolvido em seus próprios problemas, preferira ignorá-los?
A mensagem chegou – um endereço em Wallkill, Nova York. Wallkill? Não
havia uma prisão lá? Scott procurou no Google – pois é, a Instituição de Correção
de Wallkill. Fazia sentido, na verdade – bom, fazia sentido para Willie Dugan. Ele
costumava dizer que o melhor lugar para se esconder dos policiais era bem ao
lado da porta da delegacia, por ser o último lugar em que os caras esperariam te
encontrar. Expandindo um pouco mais o conceito: se você fosse um presidiário
fugido, um dos mais procurados do país, qual seria o lugar mais seguro para se
esconder? Que tal uma cidadezinha na qual havia outra prisão?
Aproveitando que já estava no Google, Scott abriu o mapa de Wallkill –
ficava ao norte, perto de Catskills, a cerca de uma hora e meia da cidade. Eram
quatro da tarde. Como Dugan esperava que ele chegasse assim tão rápido?
Scott escreveu:
Preciso de mais tempo
E recebeu:
6 ou ela leva bala, e não mande mais mensagens, o celular vai ser
destruído
Scott xingou, depois seguiu para a 2
a
avenida. Pensou em dar a volta para
chegar ao apartamento, pegando um quarteirão a mais, para evitar dar de cara
com Carlos.
Então, atrás de si, ele escutou:
– Ei, aonde você vai?
Scott parou e deu meia-volta.
– Te procurei em todo canto – disse Carlos. – Não pode ficar sozinho agora…
é perigoso demais.
– Desculpe. Eu, hã, tive que ficar um pouco sozinho.
Scott continuava com o celular pré-pago na mão. Escondeu-o discretamente
no bolso.
– Aonde vai agora? – Carlos perguntou.
– Só queria ir pra casa – Scott disse. – Esperar pelas novidades lá.
– Tá indo na direção errada.
– Ah, é – disse Scott, fingindo desorientação. – Tem razão.
– Eu te acompanho – disse Carlos. – Tenho que garantir que sua casa está
segura, e quero ficar com você. Nem imagino o que está passando pela sua cabeça
agora.
O que passava pela cabeça de Scott era muito simples: estava planejando o
jeito mais rápido de se livrar de Carlos e chegar voando em Wallkill.
No prédio, Carlos entrou junto com Scott no apartamento e, olhando ao
redor, sugeriu:
– Posso te fazer companhia, se quiser.
– Não, está tudo bem. Tem umas coisas que preciso fazer agora.
O celular dele, o celular verdadeiro, tocou. Scott checou a tela e leu: Tony
O celular dele, o celular verdadeiro, tocou. Scott checou a tela e leu: Tony
Stark.
– Preciso atender… é minha ex-mulher – mentiu.
– Vou estar lá embaixo se precisar de mim – disse Carlos.
Quando o agente se foi, Scott atendeu ao telefone.
– Acabei de ficar sabendo – disse Tony. – Vamos lá… te ajudo a encontrar
Cassie.
Seria ótimo voar até Wallkill com a velocidade de um jatinho. Mas
lembrando-se de que Dugan avisara para chegar sozinho, Scott recusou.
– Não precisa, Tony, eu resolvo.
– Tem certeza? É sua filha que está em perigo. Não é hora de ser orgulhoso, cara.
Scott não estava tomando uma decisão movido por orgulho. Se achasse que
levar Tony junto aumentaria as chances de trazer Cassie a salvo para casa, claro
que aceitaria a oferta.
– Não, está tudo bem – disse. – Sério, agradeço muito. Se precisar de apoio,
te procuro, mas não acho que seja o caso.
– Então já sabe onde está esse cara? – perguntou Tony.
Scott não respondeu.
– Vou entender como um sim. Tudo bem, Scott, você é quem sabe, claro. Tenho
certeza de que tem tudo sob controle, mas tome cuidado. Esse tal de Willie Dugan
parece que não tem nada a perder; esse é o tipo mais perigoso de criminoso.
Scott já estava agachado no armário, digitando a combinação que abria o
cofre.
– Não se preocupe. – Ele abriu a portinha, revelando o traje do HomemFormiga.
– Ele vai ter que jogar com as minhas regras.
Conforme Scott vestia o traje, foi sentindo sua pulsação aumentar, como de
costume. Era isso que ele tinha nascido pra fazer na vida – sua vocação; a coisa
certa a fazer. Como homem, era apenas mais um trabalhador, um rosto anônimo
na multidão. Mas quando vestia o uniforme – ganhando força ao encolher –,
tornava-se um lutador, um líder. Foi por isso que Hank Pym confiara-lhe esse
poder. Alguns nascem para ser médicos, professores, pedreiros, presidentes. Scott
nascera para ser o Homem-Formiga.
O capacete soltou-se das roupas, e Scott o ajustou no lugar. Liberou as
partículas Pym – e então bum, encolheu. Que barato! Transformara-se centenas,
talvez milhares de vezes, ao longo dos anos, mas nunca deixara de sentir-se
admirado com a tecnologia, com a nova perspectiva que ganhava do mundo. Ficar
pequeno nunca o fazia sentir-se insignificante – fazia-o sentir-se imenso.
Mas a sensação de grandeza não era apenas física, era psicológica. Como
homem, os sentidos de Scott limitavam-se aos seus pensamentos e emoções – mas
como Homem-Formiga, tinha uma consciência mais ampla e uma compreensão
natural de como o universo funcionava. Ficar do tamanho de uma formiga lhe
mostrava como a perspectiva humana é limitada – existe um mundo muito maior
ao nosso redor que simplesmente não entendemos. Talvez a tecnologia o
aproximasse de algo que os budistas procuram: conscientização pura. Em alguma
camada de seu inconsciente, ele captava a presença de todas as formigas do
prédio, outro mundo de amigos prontos para apoiá-lo feito soldados leais. Scott
não confiava plenamente nos humanos – a maioria das pessoas o desapontava ou
virava-se contra ele em algum momento –, mas nunca conhecera uma formiga de
que não gostasse.
A euforia foi passando, contudo, dominada por sua única preocupação:
encontrar Cassie e trazê-la para casa sã e salva.
Scott saiu do apartamento e saltou pelas escadas, um andar por vez. Sabia
que estava indo rumo a algum tipo de armadilha. Dugan sempre tinha um plano,
um método em meio à sua loucura – e dessa vez o plano certamente teria algo a
ver com a identidade de Scott como Homem-Formiga. Foi por isso que Dugan
sequestrou Cassie em vez de Scott – por saber que este viria a Wallkill como
Homem-Formiga. Contudo, Scott não fazia ideia se compreendia o plano do
antigo sócio. Talvez fosse tentar convencê-lo a usar os poderes de HomemFormiga
para cometer algum crime, roubar um banco ou um carro-forte. Talvez o
cara planejasse atrair Scott simplesmente para matá-lo – e a Cassie também.
Em frente ao prédio estava Carlos ao celular, provavelmente falando com
algum colega do FBI.
– Isso, está lá dentro… Tá, vou fazer isso… Certo, beleza, entendi, sem
problema… Sim…
Scott passou por ele sem ser visto. Sabia que Carlos sofreria alguma
penalidade por deixar Scott desaparecer do apartamento em seu turno, ainda
mais sendo no mesmo no dia em que Roger deixou Cassie ser levada. Mas essa
era a última das preocupações de Scott.
Ele correu pela calçada, mais rápido do que podia mover-se em tamanho
natural. Na esquina, ele saltou para o topo de um táxi que ia para o norte e
firmou-se ali.
Devia ser umas 4:15, então seria preciso vencer o trânsito do horário do rush
se ele quisesse ter alguma chance de chegar em Wallkill no prazo das seis da
tarde.
Finalmente sentia-se como ele mesmo, seu verdadeiro eu. Não aguentava
mais bancar a vítima, escondido sob uma ordem de proteção, sendo saco de
pancada.
Era hora de ser o Homem-Formiga.
Era hora de contra-atacar.
CASSIEESTAVA no escuro e em silêncio total.
Quando desmaiou, os homens cobriram seus olhos com uma venda, ou fita, ou
talvez ambos, e taparam-lhe a boca também, para que não pudesse gritar. Então
arrastaram-na para fora do carro e depois para dentro de outros carros mais
algumas vezes. Não paravam de mandá-la ficar calma e fazer tudo o que diziam,
que ficaria tudo bem. Ela não acreditava, mas sabia também que o pai viria
resgatá-la. Talvez viesse sozinho, talvez com o Homem de Ferro e o HomemAranha,
para salvá-la e colocar esses caras na cadeia.
Contudo, agora, já não tinha mais tanta certeza.
Não fazia ideia de onde estava nem como o pai poderia encontrá-la. Julgava
que algumas horas haviam passado desde o sequestro, mas estava com tanto
medo que perdeu a noção do tempo. E mesmo que tivessem se passado duas
horas, isso não significava necessariamente que ela estava a duas horas de
Manhattan. Havia lido uma história do Sherlock Holmes na aula de Inglês, no ano
anterior, na qual os criminosos sequestraram um cara e o colocaram no portamalas
do carro e o levaram a um lugar que parecia muito distante por causa do
tempo que passara, mas acabou que tinha sido um truque. Os criminosos tinham
dirigido em círculos o tempo todo. Cassie não acreditava que era isso o que
tinham feito com ela, porque certamente não estava em Manhattan. Quando a
tiraram do carro pela última vez, com o grandalhão pedindo que parasse de
chorar e ficasse tranquila, ela sentiu cheiro de grama, flores e do ar fresco e limpo
do interior.
Ela parou de andar e deixou os pés arrastarem, recusando-se a ir além.
– Anda – disse o grandão. – Pode ir por bem ou por mal.
A menina prestou bastante atenção à voz dele, sabendo que, se escapasse
dessa com vida, teria que lembrar-se dela. Era um timbre profundo, e com
sotaque. Boston? Long Island? Nunca fora muito boa com sotaques, esse era o
problema. Eles não arrastavam as vogais em Boston? Ela continuou escutando,
esperando que ele arrastasse uma vogal um pouco a mais, e então teria certeza.
Sabia que estava sendo ridícula, preocupando-se com sotaques quando sua vida
devia estar em perigo, mas estava assustada demais para pensar no que estava
de fato acontecendo. Tinha que pensar em outra coisa, se distrair.
– Tá bom, pelo visto ela vai querer ir por mal – disse o grandão.
Os caras a pegaram pelos braços e arrastaram por uma escadaria, para
dentro de algum lugar. Era uma casa – sem dúvida uma casa. Tinha cheiro de
mofo, mas ela também pensou ter sentido cheiro de comida – alguma coisa
apimentada, talvez mexicana. Teria que lembrar-se disso também, caso alguém
perguntasse mais tarde. Tinha que dar uma de detetive, como Sherlock Holmes, e
continuar juntando as pistas. Seria o melhor jeito de lidar com aquilo: como se
fosse um jogo, um mistério.
Abriu-se uma porta. As portas rangem em casas antigas, certo? Então estava
numa casa antiga no interior onde talvez vivessem mexicanos moradores de
Boston. Tá, não era muito, mas já era alguma coisa.
O grandão a mandou sentar-se, então ela se sentou numa cadeira, uma
cadeira de madeira.
– Se prometer não gritar nem fazer nenhuma bobagem, eu tiro a fita da sua
– Se prometer não gritar nem fazer nenhuma bobagem, eu tiro a fita da sua
boca. Acha que consegue fazer isso?
Cassie não achou mais que o cara fosse de Boston, mas não sabia de onde era.
Ela apenas assentiu.
– Deve doer um pouco – disse ele, e puxou a fita da boca da menina.
– Ai! – ela reclamou.
– Lembre-se – disse ele –, a gente não tá de brincadeira, então vê se não
tenta fazer nada, ou a fita volta pra sua boca.
– Por que tão fazendo isso? – Cassie perguntou.
– Ei – disse o homem –, por acaso eu disse que você podia falar?
– Tenho que ir ao banheiro – Cassie disse.
– Não acredito, está falando por falar – o cara respondeu.
– Por que eu falaria só por falar?
– Deixa ela ir ao banheiro – disse o baixinho.
Cassie gostava mais deste. Parecia mais bonzinho.
– Tá bom – o grandalhão disse. – Acho bom não tentar nenhuma gracinha.
Ele a levou para fora do cômodo até um corredor. O local ainda cheirava a
comida mexicana, mas não fez Cassie sentir fome – estava assustada demais para
ter fome.
– Tá, o banheiro é aqui, pode entrar – disse o cara.
– Como é que eu vou usar o banheiro de olhos vendados?
– Fica bem aqui à esquerda. Vai tateando que você se vira. E nem pense em
tentar sair pela janela. Está parafusada.
Cassie entrou no banheiro e fechou a porta. Teve a impressão de que o
homem mentira sobre a última parte, mas não queria tentar nada estúpido e
acabar morta. Tinha que torcer para que o pai pudesse salvá-la, de algum modo.
Era sua melhor chance – talvez a única.
Foi tão nojento sentar no vaso de olhos vendados. E se estivesse tão sujo
quanto os da escola? Mas quando se está com medo de morrer, um vaso nojento
não incomoda tanto assim.
Ela pensou em tirar a venda e pelo menos olhar pela janela para ver onde
estava, mas teve receio de não conseguir colocá-la de volta corretamente. Além
disso, o grandão estava logo atrás da porta e poderia entrar se a escutasse
andando até a janela.
Cassie teve que tatear ao redor para encontrar a descarga e a pia. Jamais
pensara direito no que os cegos tinham que enfrentar todos os dias. Se saísse dali
viva, passaria a dar mais atenção a tudo com que as pessoas com deficiências
tinham que lidar diariamente. E ajudaria sempre que pudesse, fazendo trabalho
comunitário, ensinando de graça, qualquer coisa. E seria uma pessoa melhor.
Trouxeram-na de volta ao mesmo cômodo. O grandão a mandou sentar-se
numa cadeira, e depois o outro a amarrou com uma corda.
– Quanto tempo planejam me manter presa aqui? – Cassie perguntou.
– Isso depende do seu pai – respondeu o grandão.
– O que querem com ele? – Cassie perguntou. – Ele não fez nada pra vocês;
não fez nada pra ninguém. – Ela virou o rosto para onde achava que estava o
baixinho e disse: – Por que tão fazendo isso comigo? Pede pra ele me soltar? Por
favor, não conto pra ninguém o que aconteceu. Só me larguem em Manhattan que
eu invento uma história, digo que fugi e fiquei escondida. Até porque foi isso que
eu disse pra todo mundo outro dia, que tava escondida, mas na verdade eu tava…
– De tão nervosa, Cassie quase soltou que tinha experimentado o traje de
Homem-Formiga do pai. – Enfim, todo mundo acreditou, e não vou falar nada
sobre vocês. Não vou contar que a casa cheira a comida mexicana. Sou ótima em
guardar segredo. É sério, é um dos meus maiores talentos.
– Ei, faz um favor pra si mesma e fica quietinha, falou? – disse o grandão.
Ela continuou falando com o mais baixo.
– Por favor. Sei que você não é igual ao seu amigo. Dá pra ver que é uma boa
pessoa… você é diferente.
Ela esperava mesmo que ele fosse diferente, que se virasse contra o
grandalhão, talvez sacasse uma arma ou algo do tipo.
Mas o cara não era nem um pouco diferente, afinal, ou era só um baita dum
covarde, porque quando terminaram de amarrá-la, os dois saíram do cômodo sem
dizer mais nada.
Cassie fazia de tudo para agir como adulta. Sabia que chorar não apressaria a
chegada do pai.
Mas sabia também que ficar tão calma numa situação daquelas não era
normal. Provavelmente estava em choque, e isso desde que o grandão atirou em
Roger e os dois a forçaram para dentro do carro.
Roger levou um tiro, um tiro de verdade.
Pensar nisso agora era tão surreal, quase como um pesadelo. Cassie torceu
para que ele estivesse bem. Provavelmente ele estaria usando colete à prova de
balas, então poderia ainda estar vivo; a não ser que o homem tivesse atirado bem
na cara dele. Por que esses homens atirariam num agente federal apenas para
sequestrá-la? O sequestro tinha que ter relação com seu pai e com o HomemFormiga,
obviamente. Como sempre, os segredos do pai criavam caos na vida
dela. Todas as mudanças que tiveram que fazer quando ela era pequena, a
questão do divórcio, era tudo culpa do pai dela e do Homem-Formiga. E agora, se
ela morresse, seria culpa dele também.
Estava tão brava com ele, mas, por outro lado, contava com ele para salvarlhe
a vida. Ficou sem saber, então, o que sentir pelo pai, se devia odiá-lo ou amá-
lo. A história da sua vida.
Foi então que não conseguiu mais segurar o choro – estava com tanto medo,
tão sozinha. Por que a vida tinha que ser assim tão cruel, tão injusta? Aquele
passara do melhor dia da vida dela para o pior, em um segundo. Estivera tão feliz
durante as aulas depois de descobrir que Tucker gostava dela. Imaginara-se
beijando-o tantas vezes, se perguntando como seria a sensação de tocar os lábios
e a língua dele. Na verdade, nunca havia beijado ninguém antes. E se morresse
sem ter beijado ninguém? Era tão injusto – ela não tinha feito nada para merecer
aquilo. Ou tinha? Talvez fosse karma. Porque ela quebrara o nariz de Nikki com a
bolada, fora sequestrada e não teria mais a chance de beijar Tucker.
Cassie ouviu passos no corredor, e então a porta abriu e alguém entrou. Era
um homem – dava para saber pelo odor corporal. Um cheiro horrível.
– Então você é a filha do Scott Lang, hein? – disse o homem.
Era uma voz grave, igual de fumante. A idade? Na casa dos cinquenta ou
sessenta, com certeza mais velho que seu pai. Havia algo de assustador nele,
também. Não somente no jeito de falar, em toda sua presença.
– Lembro de quando você nasceu – ele prosseguiu. – Sentava no meu colo. Eu
sabia que você ia ficar bonita quando crescesse.
Assustador mesmo.
– Quem é você? – Cassie perguntou. – O que você quer?
– É, você é mesmo filha do seu pai, hein. Atrevidinha. Era isso que eu mais
admirava no seu pai. Ele era de lutar, não de choramingar. Não desistia nunca.
– Acho bom você não me machucar – disse Cassie. – E é melhor me soltar,
escuta o que eu tô falando; meu pai vai te procurar, te encontrar e…
– Não se preocupe, seu pai já está a caminho.
– Ah, é? – Cassie se perguntou se ele estava mentindo.
– É – assegurou o homem. – Falei com ele no telefone, e ele vai chegar por
volta das seis.
Ainda achando que era algum tipo de truque, Cassie perguntou:
– Se isso for verdade, por que você está tão tranquilo?
– Como assim? Há algum motivo pra eu ter medo do seu pai? Tipo, se ele for
mesmo só um trabalhador comum de Manhattan, que mal pode fazer pra mim?
Cassie entendeu que o cara jogava verde para colher maduro; queria que ela
revelasse que seu pai era o Homem-Formiga. Mas não falava como se tivesse
certeza disso.
– Ele é meu pai – disse a menina. – Os pais ficam muito bravos quando as
filhas estão em perigo.
– Ah, nossa, não quero nenhum pai bravo vindo atrás de mim – o homem
disse.
– Você está sendo sarcástico – disse Cassie.
– Certo, quer que eu fale sério, eu vou falar sério – o homem disse.
Chegou a hora – o cara ia atirar nela. Cassie pensou em Tucker, seus lábios,
seus beijos. Era essa imagem que queria guardar.
Mas o homem não atirou. Ela ainda respirava, ainda pensava nos lábios de
Tucker.
O homem disse:
– Eu era amigo do seu pai. A gente trabalhava junto. Isso faz muito tempo.
Tipo uns dez, quinze anos.
O coração de Cassie ainda batia acelerado – se era por achar que estava para
morrer, ou por imaginar os beijos de Tucker, não sabia.
– Entendi – disse ela. – Você é um criminoso, que nem o meu pai foi.
– Que palavra pesada essa, criminoso – o homem disse. – Mas é, a gente teve
essa fase juntos. Eu confiava no seu pai, literalmente confiava a ele a minha vida,
mas daí ele fez uma coisa muito má, fez algo para me trair.
Cassie disse:
– É você que tá atrás do meu pai, não é? Por sua culpa a gente teve que ser
protegido.
– Não, não estou atrás dele – disse o homem. – Só quero fazer um trato com
ele, só isso. Se ele cooperar, eu te deixo ir. Só depende dele.
– Meu pai não é má pessoa – disse Cassie. – Ele não faria mal a você, a não
ser que merecesse.
Assim como eu mereço estar aqui pelo que fiz a Nikki, pensou Cassie.
– É, bom, você pode até ser esperta, mas não sabe de tudo – o homem disse. –
Seu pai fez a pior coisa que um homem pode fazer a outro: testemunhou contra
ele. Sabe o que é isso?
– Tenho catorze anos, não quatro. Claro que sei o que é.
Retrucar desse jeito fez Cassie sentir-se mais forte, mais capaz. Ela
conseguiu se esquecer por alguns segundos de que estava amarrada a uma cadeira
e de olhos vendados, ou seja, totalmente incapacitada.
– Criminosos como nós, digo, criminosos mesmo, profissionais, fazem um
juramento – o homem continuou. – Não o tipo de juramento que se faz numa
corte, não juramos por Deus. Juramos por nós mesmos. Confiamos. Estou falando
de confiança. Eu acreditava que seu pai nunca ia me entregar, e foi exatamente
isso que ele fez. Pior, ele fez pra salvar o próprio rabo. Colocou a si mesmo antes
dos amigos. Que tipo de homem faz isso? E por causa do que ele fez comigo, ter
se virado contra mim, passei nove anos no inferno. Nove anos da minha vida
morando numa jaula, como um animal. Mas agora que saí da jaula, eu digo pra
você: nunca mais eu volto pra lá.
Uma das maiores habilidades de Cassie era a de diagnosticar gente maluca.
Às vezes, na cidade, quando estava com amigas no Starbucks ou algum outro
lugar, ela apontava para alguém e dizia: “Olha aquele cara ali; é maluco”, e as
amigas diziam algo tipo “Como assim? Que cara?”. E então a pessoa fazia algo
totalmente maluco, tipo gritar na cara de alguém ou começar uma briga, e Cassie
dizia “Não falei”. Ela sempre acertava. E agora esse seu radar de malucos estava,
bem, enlouquecendo, gritando que aquele homem era louco. Certamente já tinha
matado pessoas, e poderia facilmente matar de novo.
– Se meu pai testemunhou contra você, deve ter tido um bom motivo pra isso
– disse ela. Não sabia de onde vinha toda essa coragem para enfrentar o homem,
dizer o que pensava, mas não estava mais com medo.
– Não tinha motivo nenhum! – gritou o homem, tão alto que fez os ouvidos
de Cassie doerem. – Não tinha!
Mais um ponto para o radar de malucos de Cassie.
Ela achou que o cara fosse bater nela ou algo assim. Chegou até a se retrair e
se preparar para o impacto. Ele apenas continuou falando.
– Eu tenho uma informação sobre o seu pai, e venho tentando descobrir se é
verdade ou não. Se você me ajudar, pode haver um, digamos, um final melhor pra
você e o seu pai. Depende de você.
Mais uma vez, Cassie pensou que o cara queria saber sobre o HomemFormiga,
embora não estivesse muito certa disso. De uma coisa ela tinha certeza:
o cara não a soltaria assim tão fácil, independente do que ela contasse para ele.
Ela vira os outros atirando em Roger, então por que não atirariam nela também?
Se o pai não aparecesse para salvá-la, com certeza ela seria morta. Por isso, de
jeito algum contaria qualquer coisa ao homem.
– Que tipo de informação? – ela perguntou.
– Acho que sabe do que eu estou falando – ele disse.
– Não, eu não sei.
O homem respirou fundo e disse:
– Você e o seu pai parecem ser bem unidos, hein!
– É – ela disse. – E daí?
– Ele já te contou da vida secreta dele?
Sim, era sobre o Homem-Formiga mesmo. Uau, incrível como ela sempre
acertava tudo sobre as pessoas. Quem sabe ela daria uma boa psicóloga no
futuro. Bem, se tivesse futuro. No momento, não dava muito para contar com
isso.
– Não – disse ela. – Nunca.
– Nunca reparou que tem uma coisa diferente no seu pai? Tipo, que ele
consegue falar com os insetos.
– Insetos?
– É – o homem disse. – Mais especificamente, formigas.
– Formigas? Não sei do que você tá falando.
– Tá bom, eu vou ser mais direto – o homem disse. – O seu pai é o HomemFormiga,
não é?
– Quê? Do que você está falando?
– Ele conhece Pym, o cientista – ele disse. – Pym deu o traje pra ele.
– Não sei do que você tá falando – disse Cassie. – Meu pai é só meu pai.
Peraí, é por isso que você me trouxe aqui? Por isso está fazendo isso comigo,
porque você acha que… ai meu Deus, que loucura. Não acredito que isso esteja
acontecendo.
Ei, até que sua atuação não era das piores. Se ela escapasse dessa enrascada,
pensaria seriamente em fazer testes para uma das peças do ano seguinte na
escola.
– Acho que você está mentindo – disse o homem.
Bem, talvez sua atuação não tivesse sido assim tão boa.
Mesmo assim, ela continuou tentando.
– Pense sobre isso – ela disse. – Se meu pai fosse o Homem-Formiga, por que
o FBI teria que proteger a gente de você? Já pensou nisso? Se ele fosse um superherói,
não precisaria de proteção. Poderia se proteger sozinho, certo?
Silêncio. Cassie orgulhou-se de ter sacado esse argumento do FBI. Pareceu
ter algum efeito sobre o cara – no mínimo, deixou-o intrigado.
E então ele disse:
– Você é filha dele mesmo. É teimosa que nem ele. Mas sabe de uma coisa? Eu
acredito em palpites, e o meu me diz que você está me escondendo alguma coisa.
Escuta aqui, tá cometendo um baita dum erro… erro que pode te custar a vida.
– Ah, para de tentar me deixar com medo – Cassie retrucou. – Já cansou. Não
tenho medo de você; não tenho medo de nada… então não vai funcionar.
– É – ele disse – que nem o seu pai.
Então ela ouviu o homem sair do cômodo e bater a porta.
Cassie não fazia ideia do que esperar. Nem sabia que horas eram, se era dia
ou noite. Achava que ainda era dia, porque não estava cansada nem com fome
demais. Mas o que aconteceria mais tarde? Dariam comida? Onde ela ia dormir?
Nos filmes, quando as pessoas estavam amarradas a uma cadeira, apenas
Nos filmes, quando as pessoas estavam amarradas a uma cadeira, apenas
agitavam um pouco as mãos e em poucos segundos, pronto – estavam livres. Mas
na vida real, era tudo muito mais difícil – talvez impossível. Cassie tentou mover
os braços para ver se as cordas se soltavam, mas os outros homens a tinham
amarrado forte demais. Ela continuou tentando; finalmente, os nós em torno de
suas mãos afrouxaram um pouco.
Foi quando escutou os disparos.
Tentou convencer-se de que vinham de uma TV, que não eram reais, mas não
dava para se enganar. Foram quatro disparos, talvez cinco, e ouviu também um
homem gritar, ou talvez berrar – foi tudo rápido demais para assimilar. E então
houve mais um tiro, e tudo ficou quieto.
O silêncio foi a parte mais assustadora. Ela queria gritar, mas teve medo
demais. Com a venda ainda apertada, não dava para ver nada – o que de alguma
forma tornava o silêncio ainda mais silencioso. Ocorreu-lhe, então, uma ideia
terrível: e se todo mundo na casa estivesse morto? E se seu pai nunca viesse?
Poderia ficar amarrada ali naquela cadeira por dias, até acabar morrendo
também.
Cassie continuou se mexendo, puxando as cordas.
Por um bom tempo – ou talvez apenas tenha parecido um longo tempo – o
silêncio foi absoluto. Até que ouviu passos. Alguém se aproximava do cômodo pelo
corredor, e então a porta abriu-se com um rangido.
Se tivesse chegado a hora, se fosse para morrer, preferia mesmo que
acontecesse rápido. Pelo menos seria melhor do que ficar amarrada a uma cadeira
e morrer de fome. Acabaria em poucos segundos. Fim dos pensamentos, fim do
medo. Odiava sentir medo.
Cassie escutou um clique. Nunca atirara com uma arma na vida, mas assistira
a muitos programas de TV e filmes com armas, e sabia como era o clique de uma
arma.
– Anda logo – ela disse. – Manda ver. Eu não ligo.
Talvez estivesse em choque, porque realmente não sentia nada. Bem, nada
além de torpor. Não havia nada a fazer para evitar aquilo, nada mesmo. Nunca
daria seu primeiro beijo, nunca mais veria o rosto de Tucker. Tudo ficou escuro, e
ela ficaria ali no escuro para sempre.
Mas o tiro não veio. Cassie ouviu passos deixando o cômodo e sumindo
corredor afora. Estava sozinha de novo.
SALTANDO DE CARRO EM CARRO, Scott foi seguindo pela ponte GW e ganhou a rodovia
Palisades. Ele monitorava o trajeto e o tempo com a mais nova tecnologia do
capacete, que meio que funcionava como o sistema de Tony Stark, com ativação
por voz e imagens aparecendo em frente aos olhos. Scott meio que, bem, pegara
emprestado a tecnologia de Tony. Mas ele não se importava: Scott e Tony viviam
competindo e provocando um ao outro sobre suas mais recentes invenções. Desde
que Scott se mudou para Nova York, não tinha mais muito tempo livre para
brincar com tecnologia, mas sempre arranjava umas inovações. Trabalhar no traje
do Homem-Formiga era um projeto interminável, que tomava muito tempo.
Scott estava bem adiantado; chegaria facilmente em Wallkill às seis horas.
Era obrigatório chegar a tempo, e Cassie tinha que estar bem. Qualquer outra
possibilidade estava fora de cogitação. Não escureceria antes das 7:30 ou 8 horas
– e nem isso importava, porque ele tinha visão noturna. A única coisa que o podia
limitar era o trânsito, e foi exatamente isso que ele encontrou quando se
aproximava da saída I-87.
Havia um belo de um engarrafamento. Scott conseguiu ir pulando de carro
em carro e fazer certo progresso. Podia mover-se rapidamente como HomemFormiga,
mas não a cinquenta quilômetros por hora. Ele pulou para as costas de
um motoqueiro que dirigia pela lateral para ultrapassar os carros, mas até isso
adiantou muito pouco a travessia.
Finalmente, Scott pousou em cima de um ônibus que pegou a saída. Os carros
andavam bem na 87, mas o trânsito lhe custara uns bons vinte minutos. Um mapa
apareceu diante de seus olhos: o GPS estimava que ele chegaria ao destino às
5:44. Essa estimativa não lhe conferia muita tranquilidade para cumprir o prazo
de seis da tarde.
Scott pulou em outro ônibus que seguia para a I-84. Quando o ônibus saiu, ele
tentou pular para cima de um carro, mas – talvez por estar tão preocupado com o
tempo – não calculou bem o salto e pousou na beirada do porta-malas. Tentou se
segurar, mas soltou a mão e caiu na rodovia. Alguns carros passaram bem por
cima dele, quase o esmagando. Scott ficou de pé e pulou para cima de um carro da
faixa ao lado, e retomou a viagem.
A queda custara-lhe um tempinho, mas não muito. Ele saiu em Newburgh e
conseguiu cruzar boa parte do trajeto até Wallkill na caçamba de uma picape.
Contudo, teve que pular fora cerca de um meio quilômetro longe do endereço
quando a picape mudou de direção, e foi pousar no para-lama de outro caminhão
para cobrir o restante do caminho.
Chegou às 5:47, antes do fim do prazo. De seu ponto de vista de formiga, ele
focalizou a casa. Sem dúvida, não parecia nada com o local onde se esconderia um
fugitivo, mas era essa a ideia. Se Dugan queria se misturar, passar despercebido
como um civil normal, escolhera o lugar perfeito. Não somente ficava perto de
uma prisão de alta segurança, a meio quilômetro de distância, de acordo com o
GPS, mas era uma casa de campo típica da região, com uma bandeira dos Estados
Unidos presa a um mastro na varanda frontal.
Embora Scott tivesse chegado a Wallkill sem chamar a atenção dos humanos,
sua presença atiçou a curiosidade da comunidade local de formigas. Havia muito
mais delas ali, obviamente, do que em Manhattan. Milhares delas saíram de seus
ninhos e montinhos para testemunhar a chegada de Scott. Servindo-se do que ele
chamava de sua telepatia de formiga, o rapaz soube que as amiguinhas ficaram
muito empolgadas e curiosas ao vê-lo. Ele enviou uma mensagem telepática em
resposta, informando-lhes que tinha grande respeito por todas, e que estava ali
porque a filha se encontrava em perigo.
Uma formiga mais velha, líder de uma colônia local, mandou um recado. Scott
sentiu que tinha o apoio das formigas.
Ele respondeu com uma mensagem cheia de sentimento: Obrigado. Fico muito
mais fortalecido sabendo que estão aqui para me dar apoio.
Às vezes as habilidades de Scott como o Homem-Formiga eram como uma
segunda natureza para ele; em outras vezes, como naquele momento, a coisa
toda parecia um completo absurdo. Embora divertir-se com as possibilidades do
traje fosse sempre um barato, às vezes ele não sabia se ser o Homem-Formiga
valia o preço que tinha de pagar.
Scott prometera a Hank Pym que usaria seus poderes para o bem, e não para
o mal, e havia salvado muitas vidas, mas havia consequências. Enquanto ajudava
os outros, prejudicava a própria família. O estresse de suas responsabilidades, de
manter a identidade secreta, sem dúvida foi um dos fatores que culminaram em
seu divórcio, e agora, pior de tudo, era sua filha quem estava em perigo. Em
momentos como esse, não era muito difícil odiar a pessoa que se tornara.
Então Scott escutou os tiros – um, depois muitos mais em rápida sucessão, lá
dentro da casa. Conforme deslizou por debaixo da porta, as preocupações acerca
das motivações secretas de Willie Dugan desapareceram. Sua prioridade era
encontrar a filha.
Ele estava no que deveria ser uma sala de estar. Quando olhou dentro da sala
de jantar adjacente, viu as pernas de um homem no chão. Ao chegar mais perto,
viu uma poça de sangue; sem querer encharcar-se do líquido, saltou até a mesa de
jantar para visualizar melhor o cômodo. Caído perto da porta estava Ricky
Gagliardi, o cara que Scott conhecia. Havia mais dois corpos do outro lado – dois
homens atingidos por tiros. Um ele não reconheceu, mas o outro ele jamais teria
dificuldade de identificar. Mesmo de lado e com uma bala na cabeça.
Willie Dugan.
– Cassie! – Scott gritou. – Cassie!
Mesmo encolhido, usando o traje do Homem-Formiga, Scott podia projetar
sua voz com o volume normal.
Ele saltou da mesa, passou pelo corpo de Dugan e correu pelo corredor.
Escutou movimento no andar superior: passos e o rangido das tábuas de madeira.
Seria Cassie lá em cima, ou o assassino?
Estava prestes a subir para investigar quando avistou uma porta no final do
corredor. Focalizou-a e viu que estava trancada pelo lado de fora. Se estava
trancada assim, era para prender alguém lá dentro.
Mas Scott tinha um ótimo plano B. As formigas locais o haviam seguido para
dentro da casa, e ele pediu a elas que espalhassem algo para todas as formigas da
área: bloqueiem a casa. As formigas se apressaram em entregar a mensagem.
Scott não achava que elas teriam tempo de reunir um contingente grande o
bastante para ajudar muito, mas valia a pena tentar.
Enquanto isso, Scott passou por debaixo da porta do cômodo fechado. Como
esperado, lá estava Cassie. Bem no meio da sala, amarrada e vendada, presa a
uma cadeira. Sacudia as mãos, tentando libertar-se.
– Cass, filhinha, você está bem?
– Pai… é você?
Ela parecia bem, mas ele rezou a Deus para que a menina não estivesse
machucada. Willie Dugan tinha sorte de estar morto, ou Scott teria espancado o
cara até não poder mais.
– Sou eu, sou eu. Eles te machucaram?
– Não, ninguém me machucou. Não acredito que você veio, pai. Te amo
tanto.
– Também te amo, ursinha.
Scott costumava chamar Cassie de ursinha quando era bebê, quando ela ia
com Peggy visitá-lo na prisão.
Ele saltou para o colo da filha, depois escalou até o queixo. A menina sacudiu
a cabeça, tentando livrar-se dele como se ele fosse, bem, um inseto.
– Sou eu, Cassie. Estou no seu queixo.
– Te amo, pai – ela disse.
– Também te amo – Scott disse. – Mais do que tudo!
Ele engatinhou pela corda que prendia Cassie à cadeira e facilmente desfez
os nós, libertando-a.
– Como chegou aqui tão rápido? – ela perguntou.
– Calma aí – ele disse.
Scott agarrou-se à beirada da venda. Estava presa com fita adesiva.
– Isso aqui vai doer igual Band-Aid – ele disse. – Pronta? Um, dois…
Ele saltou do queixo dela, segurando a fita, e a rasgou.
– Ai! – ela reclamou. Depois disse: – Você fez antes do três… Pai? Cadê você?
Pai?
– Estou aqui, Cass.
– Onde?
Ele acenava para a filha do chão, onde tentava se desgrudar de um pedaço
gigantesco de fita.
Ela viu o minúsculo pedaço de fita se mexendo no chão e entendeu.
– Ai meu Deus, que bizarro!
Scott finalmente se soltou.
– Beleza, fica aí.
Ele ativou os controles do traje e seu corpo retornou ao tamanho normal.
– Nossa… – Cassie ficou abismada, mas muito empolgada também. – Você vai
ter que me deixar usar a roupa de novo!
– Quando você…
– Eu sei – disse ela. – Só com 21 anos.
Os dois se abraçaram. Scott não queria soltar a filha nunca mais.
– Hoje foi o dia mais assustador da minha vida – disse ele. – Nunca mais
vamos passar por isso.
– Fechado – disse Cassie. Depois sussurrou: – Acho que tem mais alguém na
casa.
– Eu sei – Scott disse.
– Acho que ouvi um clique de arma – Cassie sussurrou. – Alguém ia atirar em
mim quando você chegou aqui.
Uau, será que ele tinha chegado assim tão na hora certa? Se tivesse sido
pontual, encontraria a filha morta? Como Dugan e os comparsas?
– Não fale alto – disse ele. – Entre no armário. Eu já volto pra te pegar.
– Não, me leva junto – Cassie sussurrou.
– Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Scott lhe deu um beijo no topo da cabeça para acalmá-la, do modo que fazia
quando ela ia visitá-lo na prisão e ele dizia: “Vai ficar tudo bem, ursinha,
prometo. O papai logo volta pra casa”.
Cassie sussurrou:
– Toma cuidado, pai – e foi se esconder no armário.
Scott liberou o gás mais uma vez e voltou ao tamanho de formiga. Depois
saiu do cômodo e parou no corredor, prestando atenção, analisando o cenário.
Tudo estava como antes, e ele não escutava mais barulho nenhum no andar de
cima. Sentia, na verdade, a presença das formigas – um monte delas – do lado de
fora da casa e na área ao redor.
Foi verificar o corredor. Vazio. Estava prestes a saltar para as escadas
quando escutou movimento logo atrás. Era um animal ou uma pessoa? No instante
seguinte, estava esparramado no chão, feito um inseto que acabara de levar uma
borrifada de repelente. Só que, ao contrário do inseto, Scott não conseguia nem
agitar as perninhas. Estava totalmente imóvel.
Ele não fazia ideia do que estava acontecendo. Seu corpo parecia bem – a
respiração estava normal, não sentia enjoo nem dor e pensava normalmente –,
mas não podia se mover. Então escutou um zumbido esquisito vindo do capacete,
e quando tentou ativar o sistema, descobriu que tinha sido desativado. Tentou
reiniciar, mas nada aconteceu.
Sabia que tudo aquilo era intencional; alguém o fizera por algum motivo.
Então escutou um carro dar partida.
– Cassie! Cassie, você está bem? Cass! Cass, responde!
Poucos minutos antes ele prometera à filha que nunca mais a deixaria passar
por apuros. E já estava faltando com a palavra.
– Pai?
Graças a Deus.
– Cass, estou aqui.
– Onde?
– Perto da escada.
– Não tô vendo nada.
O pé dela – o tênis colossal – pousou bem ao lado dele com um baque alto de
sacudir o piso.
– Ei, cuidado – disse ele.
Scott não sabia se a paralisia que vivenciava estava afetando a estrutura
extracraniana do traje, e sua força geral, mas não queria correr riscos. Preferia
voltar ao tamanho natural, porém não podia mover os dedos para ativar o gás
Pym. Tinha um sistema de apoio, um modo de ativar o gás pelo computador, mas
isso também não ia funcionar, não com o mau funcionamento do capacete.
– Aí está você – Cassie agachou, seu enorme rosto olhando para o pai. – Por
que está deitado assim que nem um inseto morto?
– Ah, eu só achei que seria bom fazer um pouquinho de ioga, esticar as costas
– disse Scott, sarcástico. – Me põe na sua mão, rápido. E toma cuidado, não sei se
tem outra pessoa na casa.
– Ouvi um carro saindo.
– Eu sei, também ouvi – Scott disse. – Vamos lá, me levanta.
– Como assim, você não consegue se mexer? – Cassie perguntou.
– Não – Scott respondeu. – Simplesmente faça o que eu estou te pedindo.
Usando seus dedos gigantescos, Cassie ergueu o pai do chão.
– E agora? – ela perguntou, e sem querer o soltou. – Ah, não!
Scott caiu no chão; foi como se tivesse saltado de um penhasco. O impacto
sacudiu um pouco seu corpo, mas não doeu nada.
– Ai meu Deus! Você está bem, pai? – Cassie perguntou.
– Sim, mas faça o que eu disser, ok? Me coloque na palma da mão e me leve
até a cozinha.
A menina obedeceu e disse, enquanto seguia pelo corredor:
– Acho que a cozinha fica pra cá.
– Não olhe para a sala de jantar! – Scott instruiu.
– Ai meu Deus, estou vendo as pernas de um cara.
– Eu disse para não olhar.
– Ele está morto?
– Deixa ele pra lá.
– Só quero sair daqui e ir pra casa – Cassie choramingou.
– Bem vinda ao clube – Scott disse.
Na cozinha, Cassie perguntou:
– O que quer que eu faça agora?
– Arranje um copo e encha de água.
– Pra quê?
– Apenas faça.
Antes que ela abrisse a torneira, Scott gritou para que esperasse. Teve receio
de que ela o derrubasse por acidente no ralo. Se continuasse paralisado, ele não
teria como escapar.
– Que foi? – perguntou ela.
– Me coloque no chão, e depois pegue o copo de água.
Cassie obedeceu, depois perguntou:
– E agora?– Ponha o copo perto de mim no chão, depois me jogue na água.
Uma coisa importante – assim que me largar, saia correndo da cozinha e vá pro
corredor. Corra como se uma bomba fosse explodir.
Cassie ergueu o pai com os dedos e o segurou em cima do copo.
– Quer mesmo que eu te solte lá dentro? – perguntou. – Você vai se afogar.
Scott não podia rejeitar totalmente essa possibilidade, mas tinha que
tranquilizar a filha.
– Não se preocupe, vai dar certo. Lembre-se de fugir pra se proteger. Tá, no
– Não se preocupe, vai dar certo. Lembre-se de fugir pra se proteger. Tá, no
três. Um, dois…
Quando Cassie soltou, Scott pensou: Você soltou antes do três, e mergulhou
ruidosamente na água – talvez não tão ruidosamente assim. Se alguém estivesse
de olho no copo, teria visto que a água nem se mexeu.
Scott esperava que a água acionasse o fluxo do gás expansor Pym. No
começo, não aconteceu nada. Bom, nada além dele afundar cada vez mais para o
fundo do copo. Já estava ficando sem ar. Pior, instruíra Cassie a sair da cozinha,
então a menina não podia salvá-lo. Ele tentou gritar por socorro, mas sua voz foi
abafada pela água.
Foi quando viu umas bolhinhas na água, e num instante, cabum! – retornou ao
tamanho normal numa explosão de estilhaços de vidro.
Scott ficou deitado de costas no chão da cozinha, aturdido e zonzo. Arquejava
um pouco, grato por poder respirar. Podia se mover também, o que também era
uma ótima notícia.
– Cass? – ele chamou. – Cass, você está bem?
Cassie entrou na cozinha, viu Scott no meio dos estilhaços brilhantes e disse:
– O quê… que aconteceu?
Scott deu uma avaliada rápida no sistema – tanto o capacete quanto o
navegador pareciam totalmente de volta ao normal.
– Eu explico depois – Scott disse. – Anda, vamos embora.
Ele só queria tirar Cassie dali e levá-la a um local seguro. Revelaria os
mistérios mais tarde.
Quando abriu a porta e olhou para fora, ficou estupefato com a massa negra.
– Uau – disse Cassie. – Tudo isso são formigas?
Eram sim.
Dezenas de milhares de formigas juntaram-se em torno da casa. As que
estavam paradas mais perto da porta abriram caminho, como se fossem o Mar
Vermelho – no caso, um Mar Preto –, dando assim espaço para que Scott e Cassie
passassem. Os dois seguiram até a rua; as formigas iam mostrando o caminho.
Havia dois carros na garagem. Scott poderia ter retornado a casa e procurado
pelas chaves nos bolsos de Willie Dugan e dos outros mortos, mas tinha um
método mais rápido.
Ele pediu à filha que se afastasse, e então ativou o gás Pym. Encolheu, saltou
para o banco do motorista e pousou abaixo da janela, depois entrou pelo buraco
da chave. Destrancou a porta, deu impulso para a frente, e fez a porta abrir.
Quando Scott emergiu da porta do carro, Cassie falou:
– Você vai ter que me ensinar a fazer isso algum dia.
– Ainda não terminei – Scott disse.
Dentro do carro, o Homem-Formiga entrou na ignição e deu partida no
motor. Depois voltou, saiu do carro e retornou ao tamanho normal.
Fez tudo isso em menos de vinte segundos.
– Incrível – disse a filha.
Scott sempre carregava uma muda de roupa e uns duzentos dólares em
dinheiro encolhidos numa bolsinha acoplada ao traje. Ele vestiu essas roupas, calça
jeans, camiseta, moletom preto e tênis. O traje do Homem-Formiga era incrível,
mas foi ótimo sentir-se como humano novamente depois da experiência de quase
morrer em um copo de água.
– Vamos nessa! – ele disse.
Cassie sentou-se no banco do passageiro, e os dois deixaram Wallkill, em
direção à Nova York. Durante o trajeto, Scott tratou de garantir à filha que
agora ela estaria a salvo, que os homens que a sequestraram estavam mortos.
Contudo, ele não parava de pensar numa coisa: quem estaria por trás de tudo
isso? Dessa vez, Dugan estava morto, e Scott não precisava de um exame médico
para comprovar. Mas quem matou Dugan e sua equipe foi a mesma pessoa que o
apagou?
– O cara que entrou na sala – ele disse à filha –, quando você tava amarrada.
– Que tem ele?
– Lembra de alguma coisa dele?
– Eu tava vendada.
– Eu sei – disse Scott. – Mas talvez haja mais alguma coisa. Você escutou
alguma coisa? Sentiu algum cheiro?
– Não, mas seja lá quem for, é mau. Tipo, senti uma vibração muito negativa.
– A menina parecia estar em pânico. – Ai meu Deus, e se ele vier atrás de mim? E
se me sequestrar de novo?
– Vai ficar tudo bem agora – Scott disse. – Não tem perigo.
– Você fica falando isso – disse Cassie. – Disse que a ordem de proteção ia
cuidar de mim também. Como sabe que agora não há mais perigo?
– Ei, você viu do que o Homem-Formiga é capaz – disse Scott, tentando
acalmar a filha. – Você testou o traje, viu como é.
– É, mas ele não fez nada de bom por você hoje – Cassie disse.
– Ele me levou até lá – disse Scott. – Até aquela casa.
– É, e você também acabou esparramado no chão igual uma barata morta.
Touché.
– Não sei bem como isso aconteceu – disse Scott –, mas vou descobrir.
Ele tentou distrair Cassie, falando do futuro – coisas positivas. Lembrou-lhe
de que logo ela estaria de volta à escola, com os amigos, e tinha as férias ainda
para esperar. Ia para o acampamento em Poconos com Elly, antiga amiga dela de
São Francisco.
A estratégia de distração funcionou por alguns minutos, mas depois Cassie
ficou chateada de novo e disse:
– Eu podia ter morrido naquela cadeira, pai. Se você não tivesse aparecido
pra me salvar, eu estaria morta a uma hora dessas.
– E se você não tivesse me colocado naquele copo de água, talvez tivesse um
pai-formiga imobilizado pra sempre – Scott disse.
Na estrada, pararam numa área de descanso. Scott ligou para Peggy pelo
celular que comprou para falar com Dugan.
– Alô – ela atendeu, ansiosa.
– O agente está aí com você? – Scott perguntou.
– Sim – Peggy disse. – Por quê? Que tá acontecendo? O que houve?
– Só queria dizer que já estou com a Cassie – Scott disse. – Ela está bem.
– Ah, graças a Deus. Posso falar com ela?
– Cassie, fala oi pra sua mãe.
Cassie se inclinou para perto do telefone e disse oi para a mãe.
– Oi, docinho, amo você. Você está bem? Te machucaram?
– Estou muito bem – disse Cassie. – Graças ao papai.
Scott ficou emocionado, mas manteve a compostura.
Ele disse para Peggy:
– Isto é importante. Diga ao agente que estamos voltando pra cidade, e que
estamos bem. Logo estaremos de volta ao apartamento.
– Como assim? – perguntou Peggy. – Onde estão?
Scott sabia que podiam rastrear a chamada, mas não ligou. Em pouco tempo
ele e a filha estariam de volta à estrada.
– A gente tá bem, isso é que importa – Scott disse. – Quando chegar na
cidade, ligo pra você.
Entraram, usaram o banheiro e pegaram algo para comer. Havia policiais
estaduais na fila da Pizza Hut, então Scott e Cassie escaparam para o
McDonald’s e compraram comida para a viagem.
Scott sabia que teriam muito a explicar aos policiais e ao FBI quando
retornassem à cidade. Contar a verdade estava fora de cogitação, a não ser que
ele quisesse aproveitar essa oportunidade para revelar ao mundo que era o
Homem-Formiga, então precisava de uma versão dos eventos que soasse
plausível. Estava confiante de que não deixara evidência alguma de sua presença
na casa, mas sabia que os investigadores da cena do crime teriam dificuldade de
explicar como e por que um copo de água explodiu na cozinha.
Durante o restante do trajeto, pai e filha ensaiaram a história que iam
contar. Scott a fez repetir algumas vezes para certificar-se de que um não
contradiria o outro.
Quando chegaram à cidade, passava um pouco das nove da noite. Cumprindo
a primeira parte do plano, estacionaram o carro perto de um terreno baldio num
pedaço feioso do Harlem. Scott limpou todas as digitais do carro, embora
duvidasse que a polícia fosse investigar muito minuciosamente. Conhecia o
trabalho de Dugan: o carro com certeza tinha sido roubado, e tivera as placas
trocadas. Quando fosse encontrado, seria muito difícil conectá-lo ao bando de
Willie Dugan, muito menos a Scott.
Para a parte seguinte do plano, caminharam alguns quarteirões, pegaram um
táxi e seguiram para o Upper East Side.
No banco de trás do táxi, Cassie encostou a cabeça no ombro do pai e fechou
os olhos. Por acaso havia no mundo sensação melhor do que ver a filha
adormecendo usando seu ombro como travesseiro? Se havia, Scott ainda não tinha
experimentado.
Quando chegaram perto da rua 79 com a 1
a
avenida, Scott falou com o
motorista.
– Aqui já está bom. – Deu uma cutucadinha em Cassie e disse: – Chegamos,
filha.
Os dois saíram do carro e seguiram pela avenida.
– Estou tão cansada, pai – Cassie disse.
Scott também estava exausto. Queria que aquela fosse uma noite normal,
que pudesse apenas cair na cama e pegar no sono lendo, sabendo que Cassie
estava protegida no quarto. Porém, quando entraram na rua 78 e viram a
imprensa, as viaturas e todos aqueles policiais perto do prédio, ele soube que a
rodada seguinte de caos estava prestes a começar.
NASALADEESTAR do apartamento de Scott, os agentes Warren e James passaram pelo
menos duas horas interrogando Scott e Cassie. Ela foi examinada por
paramédicos, que determinaram que ela não sofrera dano físico algum durante o
sequestro, embora sugerissem uma avaliação psiquiátrica para ajudar a lidar com
os efeitos da experiência. Para Scott, o interrogatório do FBI poderia ser mais
traumatizante para ela do que o sequestro.
No começo foi ele quem mais falou. Em seguida Cassie teve que dar sua
versão dos eventos, e depois os agentes se revezaram nas perguntas feitas a pai
e filha – às vezes, as mesmas perguntas. A cena fez Scott recordar-se das vezes
em que foi preso e interrogado pela polícia, exceto que dessa vez os
interrogadores não tentavam pegá-lo na mentira. Não suspeitavam nem um
pouco de que Scott e Cassie mentiam sobre algo; só queriam garantir que tinham
todos os fatos redondinhos para poder fechar o caso de Willie Dugan. Cassie dera
aos agentes o endereço da casa em que fora mantida presa em Wallkill, e os
federais já tinham recebido a notícia de que a polícia local encontrara os três
corpos lá.
– Vamos repassar tudo outra vez – Warren disse a Scott, talvez sem se dar
conta de que havia usado esse “tudo outra vez” há menos de uma meia hora. –
Quando você recebeu a ligação de Cassie?
– Isso é necessário mesmo? – Scott reclamou. – Minha filha está exausta, e
teve um dia difícil, obviamente. E ela tem aula amanhã.
– Amanhã é sábado – informou James.
– Ah. É mesmo. – Scott tinha perdido a noção dos dias.
– Tadinho do meu pai – brincou Cassie, sorrindo. Como era bom vê-la
sorrindo de novo.
– Essa é a última vez – disse James. – Prometo.
Scott respirou fundo e recomeçou:
– Cerca de 4:30 da tarde.
– Conte tudo o que aconteceu depois disso – pediu Warren –, e seja o mais
detalhista possível.
James, durante todo o interrogatório, fazia anotações em um iPad.
– Não há mais nenhum detalhe – disse Scott. – Cassie me ligou dizendo que
tinha conseguido escapar da casa. Eu perguntei onde ela estava, e ela disse
Wallkill, Nova York, e que tinha fugido para um bar da cidade e pedido o telefone
emprestado de uma mulher. Eu mandei que ela esperasse onde estava, aluguei um
carro e fui pra lá. Peguei-a, e voltamos pra cidade. Não contei nada à polícia
porque Cassie me disse que os homens avisaram que se aparecessem policiais por
lá, ela seria morta. Na hora, eu não sabia bem o que acontecia, então fui pra lá,
peguei ela e voltamos pra cidade. Ah, sim, e paramos num McDonald’s, onde
liguei pra minha ex-mulher, vocês podem checar isso, e pedi um McFish e um milkshake
de baunilha, e Cassie pediu sanduíche de frango, onion rings e milk-shake
de baunilha também. Você disse que queria detalhes, certo?
Scott sorriu, mas os agentes do FBI não pareceram curtir o sarcasmo.
– Tem certeza de que está contando todos os detalhes relevantes? – Warren
perguntou.
– Tenho, foi só isso – Scott respondeu.
Scott sabia que havia muito mais detalhes nessa história que não passariam
por uma boa checagem de fatos. Por exemplo, se Scott alugou um carro, isso teria
que aparecer na conta do cartão de crédito dele. E se Cassie havia ligado para ele
no meio da confusão, onde estariam as provas de que ela fizera essa ligação? Ele
torcia para que os federais não cavassem muito a fundo a história – que ficassem
contentes por Dugan e seu bando estarem mortos, fora de circulação, e
assumissem que outro associado dele o matou. Contanto que a polícia não
soubesse que o Homem-Formiga tivera uma pequena participação no acontecido,
Scott estava feito.
Na primeira vez que ele contou sua versão, o agente Warren deu-lhe o maior
sermão por não ter contado a ninguém sobre a ligação da filha, dizendo que ele
poderia ter comprometido sua segurança e a dela e blá, blá, blá. Scott se
desculpou repetidamente pelo “lapso”, alegando que estava em choque por causa
do sequestro e agira impulsivamente. Pediu desculpas também por qualquer
problema que causara à polícia ou ao FBI.
Sim, teve de engolir um sapo daqueles.
– Só tem uma coisa que eu ainda não entendo – disse Warren.
Ai, ai.
– E o que é? – Scott perguntou, já se preparando para mais um sermão.
– Carlos Torres, o agente federal, disse que você subiu para o apartamento
um pouco antes de ter recebido a ligação de Cassie. Como foi que você saiu de
casa sem que ele te visse?
Warren ainda não tinha perguntado isso. Scott hesitou; queria ser muito
cuidadoso com as palavras.
– Não faço ideia. Eu apenas saí pela entrada da frente.
Scott não queria colocar Carlos na complicada situação de ter que explicar aos
supervisores que simplesmente deixara o homem passar despercebido.
– Do jeito que você e a sua filha desaparecem, dá até pra achar que são
fantasmas ou algo do tipo.
– Haha – Scott riu, nervoso. – Então, já acabamos o interrogatório?
– Não se preocupe, não vou me esquecer de avisar quando tivermos acabado
– disse Warren naquele tom pomposo e controlador que ele deve ter aperfeiçoado
na prática de inúmeros interrogatórios em Quantico. Ele olhou para Cassie e
disse: – E você pode me contar o que te aconteceu mais uma vez?
Cassie parecia exausta, os olhinhos vermelhos de sono.
– Fala sério – protestou Scott –, isso é mesmo necessário?
– Está tudo bem, pai – Cassie disse.
Pela milésima vez, Cassie explicou a Warren e James como fora sequestrada
na 1
a
avenida, entre as ruas 76 e 77. Descreveu os dois sequestradores, o máximo
que conseguia se lembrar deles: o grandão tinha sobrancelhas grossas; o baixinho
era calvo.
– Viu o motorista do carro? – Warren perguntou.
– Não, já disse. Foi tudo muito rápido.
– Tá bom – Warren disse. – Prossiga.
Cassie explicou que foi amarrada e amordaçada no carro, que trocaram de
Cassie explicou que foi amarrada e amordaçada no carro, que trocaram de
veículos algumas vezes, e que foi levada a uma casa na periferia. Recontou a
anedota da história do Sherlock Holmes que lera na escola e disse que não sabia
onde estava, mas achava que estava a algumas horas de Manhattan. Descreveu
que ficara amordaçada, e que outro homem veio falar com ela. Essa foi a parte da
história que ela ensaiou com Scott enquanto voltavam, mais cedo, para a cidade.
O pai dissera que ela podia mencionar um terceiro homem que viera conversar
com ela, mas que não podia revelar nada do questionamento acerca do HomemFormiga.
Como no relato anterior, a menina não mencionou nada que não devia.
Finalmente, Cassie contou aos agentes que escutara tiros na casa, e como
ficara aterrorizada. Estava ficando visivelmente perturbada: tremia, a voz
falhava conforme ela falava.
Irritado por ver a filha ser forçada a recontar a história pela terceira ou
quarta vez, Scott interveio:
– Não tem por que fazer a menina contar tudo de novo. Qual é?
– Ele tem razão – disse James.
– Tá bom, certo – Warren concordou, relutante. – E tinha mais alguém na
casa?
– Eu já disse, só sei de três caras.
– Mas você disse que escutou alguém saindo. De carro.
– Eu ouvi o carro, só isso.
– Tem algum cheiro em particular que você lembre?
– A casa cheirava a comida mexicana – respondeu Cassie.
– Digo o cheiro de uma pessoa.
– Como eu disse, lembro do cheiro de dois deles. Um usava um perfume forte.
O outro tinha cheiro de suor, como se tivesse acabado de chegar da academia.
Scott ficou escutando, orgulhoso de Cassie por responder às perguntas
exatamente do jeito que ele a instruíra a fazer, apesar de cansada e agitada. Ele
pedira para que não mencionasse nada sobre o quarto homem que estivera na
casa, já que nem mesmo ele entendia muito bem o que lhe tinha acontecido –
como fora temporariamente paralisado, e por qual motivo. Ainda não acreditava
que fora apenas coincidência. Dugan, os outros dois homens mortos e talvez mais
uma pessoa o atraíram para a casa com a suspeita de que ele era o HomemFormiga.
Deve ter havido uma discussão antes de ele chegar; em todo caso, os
três homens foram assassinados, talvez pelo mesmo homem que o paralisara. Ou
o quarto cara chegou depois e não teve nada a ver com as mortes.
Scott não fazia ideia do que o assassino, ou assassinos, queria dele, nem por
qual razão o paralisara. Mas se aquilo envolvia a tecnologia do Homem-Formiga,
ele tinha que descobrir o motivo antes que os federais o fizessem. Scott sabia que
podia ser tudo paranoia dele, que esses eventos estranhos não tinham nada a ver
com o Homem-Formiga, mas sua preocupação tinha fundamento. Já haviam
tentado roubar sua tecnologia no passado; nas mãos erradas, ela poderia tornarse
uma perigosa arma. E se um traficante dos grandes pusesse as mãos nela? E se
o líder de um grupo terrorista criasse um exército de soldados-formiga? As
possibilidades eram quase infinitas.
Já havia repórteres amontoados em frente ao apartamento, e o sequestro,
Já havia repórteres amontoados em frente ao apartamento, e o sequestro,
bem como a dramática escapada de Cassie, eram as notícias mais quentes da
cidade, talvez até do país. Se os federais descobrissem que o Homem-Formiga
estava envolvido, e fosse revelado que ele era Scott Lang, a imprensa faria um
circo ainda maior, gerando mais perturbação na vida de Scott e Cassie.
Finalmente satisfeitos com as informações coletadas, Warren e James se
despediram e deixaram pai e filha sozinhos.
Mas o drama não havia acabado. Scott sabia que no dia seguinte haveria mais
interrogatórios por parte dos federais, e talvez da polícia civil, conforme mais
dados sobre o caso saíssem e a busca pelo assassino, ou assassinos, de Dugan
progredisse. Pior ainda, haveria um assédio incomensurável da imprensa em cima
do caso. Os repórteres que acampavam em frente ao prédio ainda não tinham
conseguido chegar perto de Scott e Cassie.
Dito isso, após todo o drama e loucura do dia, foi muito bom ficar sozinho
com Cassie no apartamento.
– E aí, menti direito por você?
Apague o que eu disse. Cassie parecia irritada e amargurada.
Scott ficou escutando por um segundo para certificar-se de que os agentes
saíram, depois disse:
– Ah, vai, não pense nisso como uma mentira.
– Ah, é? Então, você chama isso de quê?
Scott hesitou, depois rebateu:
– Não ser exatamente acessível.
– Essa é a sua lógica – disse Cassie. – É assim mesmo que você pensa. Quando
roubava, você não dizia: “Não tô roubando, na verdade, porque roubo de pessoas
más, ou de pessoas que merecem”, ou sei lá o que você pensava pra se sentir
melhor?
– Tá bom, Cassie, você está cansada. Eu entendo, mas vai ter que parar com
isso agora e…
– Seus segredos quase me mataram hoje – Cassie disse.
– O quê? – Scott disse. – Isso não faz o menor sen…
– O único motivo pra gente ter que ser protegido era aquele cara maluco, o
Willie Dugan, que tava atrás de você. E por que ele tava atrás de você? Por causa
do outro segredo que eu e a mamãe guardamos pra você, e eu não aguento mais,
não aguento. Sempre tem outro segredo, e outro e mais outro. Com você, não
tem fim. Tem sempre alguma coisa nova que eu não posso fazer, ou que não
posso contar pra ninguém. Por que é tudo sempre em torno de você e dos seus
segredos? E eu? Quando é que eu vou poder viver?
Scott sabia que isso não era apenas melodrama adolescente. Ele tinha dado
mancada enquanto marido e enquanto pai, e a menina tinha o direito de ficar
chateada com ele.
– Tá certo, ursinha – disse ele. – E eu estou tentando me ajeitar, deixar tudo
mais estável pra você.
– Não me chame de ursinha! – Cassie ergueu a voz. – Acha que isso aqui é
estável? Eu fui sequestrada hoje, interrogada pelo FBI. Todas as pessoas no
mundo, nem só na escola, agora me conhecem. Faz ideia de como eu estou com
vergonha? Me sentindo humilhada?
Scott quase lembrou a filha de que ter roubado o traje do Homem-Formiga
também causara bastante “instabilidade” na vida dela. Contudo, conteve-se
sabendo que o argumento não funcionaria visto que o traje era dele.
– Estou tentando mudar as coisas por você – disse. – Estou tentando mesmo.
Cassie fitou o pai por um tempo, depois foi para o quarto e trancou a porta.
Como era de se esperar a história do sequestro em Upper East Side e a
escapada dramática de Cassie Lang de seu cativeiro em Wallkill, Nova York –
onde os corpos de três homens, inclusive um dos fugitivos mais procurados do país,
foram descobertos – era a manchete principal em todos os noticiários
importantes. Havia também relatos de que o homem morto na Louisiana havia
sido identificado como Lawrence Mulligan, o juiz aposentado de Nova York que
presidira o julgamento de Dugan.
– Belo trabalho de investigação – disse Scott, irônico. – Palmas para o FBI.
Deitado na cama, no escuro, ele assistiu mais duas reportagens. Depois
passou para a CNN querendo ver uma cobertura mais extensa, onde viu imagens
repetidas do local – e do pessoal da polícia, equipes de reportagem e curiosos em
frente ao seu prédio. Seu apartamento dava para os fundos, por isso ele não
conseguia ver a rua no momento; apenas ouvir a comoção.
Adormeceu com a TV ligada. Pela manhã, a cobertura do sequestro ainda era
o destaque dos noticiários. O Nova York 1, canal de notícias local, mostrava
imagens ao vivo da fachada do prédio de Scott. Ele teve a impressão de que havia
mais repórteres do que na noite anterior. Aquilo era pior do que a ordem de
proteção – agora haviam se tornado prisioneiros.
Como se sentisse a deixa, chegou uma mensagem de Tony Stark:
Muito bem, meu chapa
Scott sentiu todo o sarcasmo que vazava da mensagem. Escreveu de volta:
Ainda não acabou
Tony devolveu:
Sério, que bom que Cassie tá bem. Se precisar de alguma coisa,
tô sempre aqui. Sabe disso.
Scott respondeu:
Obrigado, cara! Agradeço!
Não houve sarcasmo da parte de Scott. Dava-lhe uma sensação imensa de
segurança saber que mesmo que as coisas ficassem péssimas em sua vida, ele
nunca estava sozinho; seus amigos estavam sempre por perto.
Por volta das onze da manhã, recebeu uma ligação no telefone fixo de um
número bloqueado.
– Alô?
– Espero que tenha descansado. Aqui é o agente Warren.
– Que houve? – Scott perguntou.
– Vai ficar feliz em saber que a ordem de proteção foi revogada – ele disse – É
um homem livre.
– Então pegaram o assassino da casa? – Scott perguntou, imaginando por que
ainda não ouvira nada no noticiário.
– Não, a investigação prossegue. Mas a ordem de proteção se referia à ameaça
de William Dugan, e essa ameaça foi eliminada.
– Peraí, não tô acompanhando. Tem um assassino à solta, uma pessoa que viu
a minha filha, pode ter participado do sequestro e pode ter receio de que ela a
identifique. E você está me dizendo que a ameaça foi eliminada?
Claro que Scott não mencionou que o assassino provavelmente o vira também
– e pior, sabia que ele era o Homem-Formiga.
– Sim, a situação é essa mesmo – disse Warren. – Mas fico surpreso de você
achar ruim, do jeito que estava ambivalente no começo.
– Eu não estou surpreso – disse Scott. – A intenção nunca foi proteger a mim
e a minha família. Foi tudo por causa de vocês, do FBI.
– Desculpa, mas um dos nossos levou um tiro tentando proteger a sua família.
– Não, ele levou um tiro tentando proteger seu emprego. Você ficou cabreiro
quando o Dugan pegou aqueles caras no seu turno, e não queria que acontecesse
de novo.
– Então o que você tá dizendo? Que quer proteção, agora?
Scott não sabia muito bem o que queria do FBI agora.
– Só quero que minha filha tenha segurança. Como é que ela vai pra escola?
Como vai pra qualquer lugar desse jeito?
– No momento, não temos motivo nenhum pra achar que você ou a sua família
estão em perigo. Se a situação mudar, informaremos imediatamente. Mas até onde
sabemos, as mortes na casa foram um incidente isolado que não tem nada a ver com
você e a sua família. Infelizmente, não podemos gastar os recursos do governo com
suposições. Só agimos diante de fatos.
Scott compreendeu que mesmo que o FBI continuasse protegendo Cassie,
talvez não fosse adiantar. Afinal, aquelas pessoas foram ousadas o bastante para
sequestrá-la em plena luz do dia e atirar num agente federal. Se alguém quisesse
vir atrás dela, colocar outro oficial para tomar conta não necessariamente
garantiria sua segurança.
– Eu entendo a situação. Obrigado por tudo – disse Scott.
Ele passou o resto da manhã em seu pequeno apartamento, sentindo algo que
não sentia há anos: um prisioneiro, como fora em Rykers Island. Aquela havia sido
a época mais negra de sua vida. Ficar enfurnado num apartamento no Upper East
Side não era exatamente como o pesadelo do dia a dia na prisão, mas ele odiava a
sensação de estar preso, restringido. Desde que saíra da cadeia, tinha pesadelos
recorrentes de estar amarrado ou confinado em lugares apertados. Uma das
coisas que mais gostava em ser o Homem-Formiga era que jamais poderiam
prendê-lo. Era como se a fantasia do criminoso tivesse virado realidade:
praticamente não havia nenhum espaço que pudesse contê-lo.
Mas naquele momento, o Homem-Formiga não era uma opção. Embora Scott
pudesse facilmente encolher e passar pelos caras lá de fora, não podia ir a lugar
algum sem Cassie. Não podia deixá-la em casa sozinha, desprotegida, com um
possível assassino na cola dela. E se saísse do prédio junto com ela, seriam
atacados pelos repórteres.
A TV repetia os mesmos relatos sobre o sequestro e os assassinatos, mas
ninguém mencionava novidades sobre a busca ao assassino. O que não significava
nada, claro. Mesmo se os policiais estivessem focados em algum suspeito, a
informação não seria publicada ainda. Scott receava que, caso os policiais
capturassem o assassino, este revelaria a identidade do Homem-Formiga. O
problema maior era, na verdade, o que mais o assassino revelaria. E se houvesse
outro motivo para o sequestro? Scott pensou de novo na possibilidade do
assassino estar querendo colocar as mãos na tecnologia do Homem-Formiga. De
todo modo, era preciso encontrar esse assassino antes da polícia.
Ao meio-dia, Cassie ainda estava dormindo. Coisa boa – Scott estava
contente por ela estar descansando bastante. Ele concluiu que esse seria um bom
momento para acalmar a situação com os repórteres.
Ao aproximar-se do saguão de entrada, foi surpreendido pela quantidade de
pessoas lá fora. Parecia haver dezenas de repórteres. Quando foi avistado, a
multidão começou a chamar seu nome.
– Ei – George, o zelador, abordou Scott por trás, assustando-o. Talvez Scott
estivesse sofrendo de estresse pós-traumático após ter sido surpreendido pelas
costas no dia anterior.
– Que loucura, né? – Scott disse.
– Talvez você devesse sair de férias – disse George. – Isso aí não é nada bom
pros vizinhos.
Mandar Cassie passar um tempo fora, talvez no Oregon, com Peggy, não
seria má ideia se a menina tivesse a segurança garantida. Mas com o fim da
ordem de proteção, Scott não queria correr o risco. E não pretendia ir a lugar
algum enquanto não descobrisse o que exatamente acontecera com ele naquela
casa.
– Desculpe por tudo isso – disse ele. – Com certeza vai acabar logo.
– Não está acabando, está piorando – George disse. – Essa é uma violação do
estatuto. Vou ter que relatar para a administradora. Se não fizer alguma coisa,
der um jeito, vai ser despejado.
O rosto raivoso de George brilhava, ruborizado, as veias visíveis na testa. Ele
voltou para seu apartamento e bateu a porta.
Scott sabia que não seria assim tão fácil despejá-lo, mas a possibilidade não
era tão remota. Graças a Willie Dugan, sua filha tinha sido sequestrada, seu
emprego estava em risco e talvez ele fosse obrigado a achar outro lugar para
morar. Scott não estava mesmo se saindo muito bem ao prover estabilidade para
Cassie.
Farto, ele abriu a porta do prédio. Os repórteres avançaram, erguendo
microfones, gritando o nome dele e fazendo perguntas. Diversas câmeras de TV
apontavam para o rapaz.
– Tá, calma – disse ele. – Todo mundo, calma. Vou fazer uma declaração, e
apenas uma.
A multidão silenciou.
– Estou contente e aliviado por minha filha estar a salvo, em casa. Eu e minha
família temos passado por um momento extremamente difícil e cansativo; peço a
vocês que, por favor, respeitem a nossa privacidade. Obrigado.
Os repórteres gritavam perguntas conforme Scott retornava para dentro do
prédio. Ele não acreditava que essa declaração breve e rasa deteria a mídia por
muito tempo, mas valia a pena tentar.
Quando voltou ao apartamento, Cassie estava acordada, sentada à mesa,
comendo cereal numa tijelinha e fitando o celular. Após o inferno do dia anterior,
foi ótimo vê-la retomando a rotina matinal de costume.
Scott foi até ela, beijou-lhe no topo da cabeça, do jeito que fazia desde que
ela era bebê, e disse:
– Bom dia, docinho. Dormiu bem?
– Bem – ela disse. – Tive uns pesadelos.
– Você podia ir falar com aquele psiquiatra que sugeriram – Scott disse. – Vou
marcar uma consulta pra você.
– Tanto faz – ela disse. – Eu sobrevivo.
A menina deu as últimas rápidas colheradas no cereal, levantou-se e disse:
– Preciso me aprontar.
– Aprontar? – Scott perguntou.
– É, ué – ela disse. – Vou sair. Você disse que eu podia comprar um celular
novo hoje, não foi?
Tinham conversado sobre o celular no carro, a caminho da cidade.
– Acho que sair é algo impossível nesse momento – disse Scott.
– Como assim? – Cassie perguntou – Por quê?
Ele explicou a situação com os repórteres lá fora.
– E daí? – disse a menina. – Isso não significa que tenho que ficar aqui dentro
o dia todo.
– Não é boa ideia sair e lidar com aquilo tudo. Principalmente depois do que
você passou ontem. A gente podia ficar aqui hoje, e quem sabe à noite tenha
menos gente lá fora.
– Isso é um absurdo – disse ela. – Eu estou ótima, e quero ver meu namorado.
– Desculpa, o seu o quê?
– O nome dele é Tucker – ela disse.
– Ah, sim, Tucker McKenzie, como eu pude esquecer? Mas desde quando ele é
seu namorado? – Scott perguntou-se: Será que Peggy sabe disso? – E eu tava
achando que não tinha mais essa de namorar.
– Hã? – Cassie se fez de perdida. – Não entendi.
– Ah, não, é verdade. Você disse que não rolam mais os encontros. Pelo visto,
– Ah, não, é verdade. Você disse que não rolam mais os encontros. Pelo visto,
namorar é outra coisa.
– É, totalmente diferente – ela disse.
– Quando isso aconteceu? – Scott perguntou. – O Roger estava seguindo você
o tempo todo. Confie em mim, sei como é. – Scott lembrou-se do café que tomou
com Jennifer.
– Que diferença isso faz? – disse Cassie. – Aconteceu, e ele quer me
encontrar na Sixteen Handles mais tarde. – Sixteen Handles era uma lojinha de
frozen yogurt.
– Pra começar, eu preciso conhecer esse Tucker McKenzie, ou qualquer
menino com quem você sair – Scott disse. – Segundo, eu já disse, hoje não é uma
boa sair. E é bem possível que você não possa ir a lugar nenhum sozinha por um
tempo.
– Como assim? Por que não?
Scott explicou que a ordem de proteção fora revogada, mas até onde ele
sabia, não era seguro para Cassie ficar sozinha com um assassino à solta.
– Mas o FBI acha que está tudo bem – ponderou Cassie –, ou eles
continuariam me protegendo, não é?
– Não necessariamente – Scott disse.
– O que você quer dizer? Agora você acha que sabe mais do que o FBI?
– Ei, mocinha, cuidado – ele disse.
– Eu acho que é só porque você não quer que eu saia com o Tucker – ela disse.
– Não tem nada a ver com a minha segurança. Se você quisesse me ver segura,
estaria você mesmo me protegendo ontem em vez de deixar isso pro FBI fazer.
– Eu te salvei – ele disse.
– É, e eu não precisaria ser salva se você não fosse o Homem-Formiga, se
fosse só um pai normal – ela disse. – É tudo culpa sua, é sempre culpa sua, e sou
sempre eu que sou punida.
– Cassie, deixa disso – Scott disse. – Sei que você está chateada, mas…
– Te odeio! – ela disse – Odeio isso tudo!
A menina marchou para o quarto e bateu a porta. Depois de George, essa
bateção de portas parecia estar começando a virar moda na vida de Scott.
Scott ficou muito bravo consigo mesmo por brigar com a filha, por perder o
controle. Às vezes ele achava que estava fadado a cometer os mesmos erros
repetidamente.
O interfone tocou; tinha alguém no saguão de entrada. Scott ignorou o
chamado, imaginando que fosse um repórter tentando fazê-lo descer. Mais
toques. Após alguns minutos disso, tocou o celular. Um número restrito.
– Alô? – Scott atendeu.
– Oi, é o Carlos.
– Oi – Scott disse.
– Por que não está atendendo o interfone?
– Pensei que fosse um repórter.
– Deixa eu subir – Carlos disse. – É urgente.
SENTADO DE FRENTE PARA CARLOS na mesa de jantar, Scott olhava para o iPad do agente.
Na tela havia uma imagem extraída de uma câmera de segurança, de Scott e a
mulher com quem havia tomado café, tirada quando os dois caminhavam juntos
pela 1
a
avenida.
– O nome dela não é Jennifer – disse Carlos. – É Monica. Monica Rappaccini.
Eu a investiguei, movido apenas por palpite. Sabe alguma coisa a respeito dela?
– Só o que ela me disse no café – Scott disse. – Mudou-se pra cá de Hoboken,
tem uma filha.
– Tudo mentira – Carlos disse. – A ficha dela é longa, e já se associou á
diversas organizações criminosas, inclusive a Hidra e a I.M.A.
O primeiro pensamento de Scott foi: Uma ex-criminosa, por isso que me
apaixonei. Ex-criminosos sempre conseguiam se encontrar, assim como os
alcoólatras. Mas ele sabia que as associações criminosas dessa mulher tinham
implicações muito mais sérias.
– Não fazia ideia de quem ela era – disse ele. – Por que quis investigá-la?
– Achei suspeito ela aparecer tão perto do dia em que a sua filha foi
sequestrada. O reconhecimento facial bateu direitinho. – Carlos estendeu a mão e
foi passando mais fotos de Scott e Monica, depois algumas só dela, de rosto.
Na cabeça dele, uma montagem do encontro com Monica no café foi sendo
exibida, como um filme, inclusive todas as perguntas sobre as formigas. Isso seria
prova de que ela estava trabalhando com Dugan e que talvez tivesse matado ele
e os outros?
– Bem, isso é muito esquisito – disse Scott. – Mas o que tem a ver comigo?
– Eu esperava que você me dissesse – Carlos disse.
Este não era o Carlos gente boa, o federal que convidara Scott para dar um
passeio no Bronx qualquer dia desses. Era o Carlos durão, que queria respostas de
Scott, não perguntas.
– Bom, isso mostra que eu tenho um faro péssimo pra mulheres – Scott disse.
Sorriu, mas Carlos não viu graça.
– Me conta a verdade, amigo – disse ele. – Não estou de brincadeira. Eu já
me lasquei por ter deixado você sair do apartamento e ir para aquela casa. Ainda
não sei como você fez isso. O que você é, algum tipo de Houdini?
Scott abriu um sorriso malicioso.
– É sério – disse Carlos. – Sabia dos antecedentes dessa mulher?
– Claro que não sabia – Scott disse. – Pensei que o nome dela fosse Jennifer.
Isso é tudo novidade pra mim.
– Não faz a menor ideia de por que ela te deu um nome falso?
– Não – disse Scott, mas tinha um palpite. Talvez Jennifer, ou Monica, tenha
lhe dado um nome falso porque estava tentando descobrir se ele era o HomemFormiga,
para poder atraí-lo para a casa. Talvez tenha sido ela quem matou
Dugan e o apagou.
Mas se fosse verdade, qual seria o motivo dela?
– É meio coincidência – Carlos retomou – ela ter te abordado com nome falso
poucos dias antes da sua filha ser sequestrada.
– Eu acho que coincidências acontecem – Scott disse.
– Mas são raras – Carlos retrucou. – Acha possível essa Monica Rappaccini ter
alguma coisa a ver com o sequestro de Cassie?
– Sei lá – disse Scott.
Carlos o fitava, como se tentasse descobrir se ele mentia. Scott tentou
manter a expressão serena, inocente, mas não ajudava nada o fato de ele estar
mesmo mentindo. Bom, mentindo em parte.
– Monica Rappaccini é perigosa – disse Carlos. – Trabalha sozinha, não é leal
a ninguém, trabalha com quem estiver disposto a pagar mais. É cientista, mas
acreditamos que agia como ladra, contrabandista e até assassina. Basicamente, se
a pessoa estiver disposta a pagar bem por qualquer serviço, ela topa.
Scott lembrou-se de quão envolvido ficara por ela, chegara até a pensar que
pudesse ser a mulher de sua vida.
– Uma bela duma atriz, também – disse.
– Sabe se ela tinha alguma conexão com Willie Dugan? – Carlos perguntou.
– Peraí. – Scott olhou sério para Carlos, começando a se irritar. – Tem
certeza de que vai me perguntar isso?
Carlos não disse nada, ou seja: sim.
Scott pôs-se a sussurrar, para que Cassie não ouvisse nada no quarto ao lado.
– A minha filha foi sequestrada ontem. Se eu soubesse que essa mulher tinha
alguma conexão com Willie Dugan, acha mesmo que eu teria me sentado pra
tomar café com ela e não teria te contado nada?
– Eu não sei o que você faria ou não faria – Carlos disse. Só sei que já foi
criminoso, e era amigo de Willie Dugan.
– Amigo, não – Scott protestou. – Eu só trabalhava com o cara. E o que isso
significa?
Scott não podia acreditar que estava começando a gostar desse cara.
– Ela pode ter te encontrado pra mandar uma mensagem do Dugan, algo que
você não queria que eu soubesse.
– E eu faria isso sabendo que colocaria minha filha em perigo?
– Talvez você não soubesse dessa parte. Podem ter te feito uma oferta, e
você a recusou.
– Pensa um pouco no que está falando, só um pouquinho – disse Scott. – Por
que eu faria isso?
– Então não sabia nada mesmo do passado dela?
– Eu nem sabia o nome verdadeiro dela antes de você entrar aqui e me
contar.
Carlos balançou a cabeça, depois se levantou e ficou andando a esmo pela
sala.
– Eu não sei no que acreditar – disse. Sua voz saiu mais fraca, como se ele
começasse a perder a convicção, como se percebesse que sua teoria conspiratória
envolvendo Scott não fazia o menor sentido.
Foi então que Scott entendeu o que realmente estava acontecendo ali.
– Peraí, agora eu saquei – disse. – Entendi por que você está tão incomodado,
me acusando de trabalhar com Dugan, e por que veio aqui sozinho. Por que
Warren e James não vieram também, já que você veio me interrogar? Você veio
sozinho porque já estava em maus lençóis por eu ter saído sem ser visto do
apartamento. Se seus chefes descobrirem que você deixou uma criminosa
conhecida se aproximar de mim na rua durante o seu turno, isso vai te custar seu
emprego. Então você vem até aqui e me joga essa ladainha, me acusa de
trabalhar com a mulher, na esperança de voltar pros seus chefes com essa bomba,
dizendo que descobriu uma espécie de conspiração. Mas é tudo bobagem, nem
mesmo você acredita no que está dizendo.
Carlos parou de andar e disse:
– Tá, olha. Você está certo, amigo. É o meu que tá na reta. Você precisa ser
sincero comigo. Sobre o que conversaram naquele café?
Lembrando-se da conversa, focada principalmente nas formigas, Scott disse:
– Nada de mais. Só, hã, batemos papo.
– Bateram papo, mas sobre o quê?
– Trabalho. Ela me disse que é fotógrafa e que morava em Hoboken, mas que
tava de mudança pro Upper East Side.
– Que mais?
– Falamos das nossas filhas. Ela disse que tem uma filha adolescente… espera,
ela me perguntou em qual escola a Cassie estuda e disse que a filha dela também
estuda lá. Se ela tava mesmo trabalhando com o Dugan, talvez tenha sido assim
que ela soube onde esperar pra pegar a Cassie na saída da aula.
– Então você acha que Monica Rappaccini estava no carro junto com os
sequestradores? – Carlos perguntou.
– Sei lá – disse Scott. – A Cassie não viu nenhuma mulher, mas ela podia estar
dirigindo. A Cassie não conseguiu ver quem dirigia.
Carlos olhou sério para Scott e disse:
– Está me escondendo alguma coisa, amigo? É melhor me contar agora. Se
essas pessoas sequestraram a sua filha, sabe-se lá o que vão tentar fazer em
seguida.
– Do que vocês tão falando? – Cassie perguntou.
A menina entrara na sala sem Scott perceber.
– Nada, não, docinho – disse ele.
– Ele disse que alguém vai tentar me sequestrar de novo – insistiu a menina.
– Isso não é verdade – disse Scott.
– Mas foi isso o que ele falou. Quero saber o que está acontecendo. Tenho
direito de saber o que está acontecendo.
Cassie começava a perder o controle. Tremia, pânico nos olhos.
– Tá, fica calma – disse Scott.
Desse ponto em diante as coisas foram de mau a pior, com Cassie gritando e
chorando.
Num dado momento, Carlos disse:
– Vou esperar no corredor.
Finalmente Scott pôde tranquilizar a filha, convencendo-a de que ela não
estava correndo perigo imediato algum. A menina voltou para o quarto.
Scott saiu para o corredor e sussurrou para Carlos.
– Olha, eu respondi tudo que você me perguntou. A ordem de proteção já era,
então oficialmente você não tem motivo nenhum pra estar aqui.
– Desculpe a sua filha ter ouvido aquilo – disse Carlos. – Sei que você não
– Desculpe a sua filha ter ouvido aquilo – disse Carlos. – Sei que você não
tinha nada a ver com Dugan, e que não sabia quem era aquela mulher. Você é um
cara legal, que ama a filha. Mas eu sei também que tem uma coisa que você não
está me contando.
– Se eu soubesse de alguma coisa, contaria pra você. – Scott torceu para
parecer bem sincero e convincente. Ele continuou, sussurrando: – Olha, talvez
tenha sido mesmo tudo coincidência. Tá, ela mentiu com relação ao nome, e
acabou que ela tem todo esse passado, mas isso significa que ela tem alguma coisa
a ver com Dugan? Ela pode ter mentido porque tava tomando um café comigo e
não quis revelar coisas dela. Não seria a primeira vez que uma mulher mente pra
mim num encontro. Uma vez uma me disse que era solteira, e no dia seguinte eu a
vi no parque com o marido e os filhos. – Scott sabia que estava exagerando na
analogia, mas prosseguiu: – Com certeza foi só isso. Sei que você está paranoico,
achando que tem alguma coisa maior rolando, e que vai vir pra cima de você.
Quer saber? Se essa Monica entrar em contato comigo, você vai ser o primeiro a
saber. Só que eu não acho que isso vá acontecer. Pra mim, eu conheci uma mulher,
ela me deu um fora, e agora eu nunca mais vou ouvir falar dela. E também não
seria a primeira vez que acontece isso.
Carlos não riu, sequer sorriu, mas Scott não esperava que o fizesse. Carlos
tinha de aceitar a situação – não tinha escolha.
– Tá bom – disse ele. – Eu agradeço. Vamos manter contato, amigo. E não se
preocupe que não venho mais aqui sem ser convidado. Prometo.
De volta ao seu apartamento, Scott sentiu alívio, mas sabia que teria de
encontrar Monica Rappaccini antes que Carlos, ou alguém do FBI, a encontrasse.
Do contrário, a identidade do Homem-Formiga seria revelada, e a tecnologia
poderia acabar vendida para quem desse o maior lance. Embora Scott não tivesse
certeza de que fora Monica quem o apagara na casa, tudo apontava para ela.
Só para não dizer que não tentara, Scott entrou na internet em seu iPad e
pesquisou “Monica Rappaccini” e “criminosa” no Google. Não encontrou nada de
útil. Mas quando digitou apenas Monica Rappaccini no Google Imagens, diversas
fotos dela apareceram. Uma num encontro de colégio na Califórnia, tirada alguns
anos antes; outra era uma foto dela com várias mulheres na praia; outras duas
pareciam ter sido tiradas num casamento. Não havia nada nessas fotos que
indicasse que a moça levava vida dupla. Parecia tão direita nas fotos que Scott
poderia achar até que Carlos se enganara, que ela não nunca havia se envolvido
com a Hidra e a I.M.A. – se ela não tivesse contado aquela história toda de
fotografia e Hoboken no outro dia. Scott não precisava de provas para saber que
Monica Rappaccini era uma trambiqueira mentirosa – vira as evidências com os
próprios olhos.
Ele ligou a TV, depois foi checar Cassie, mas a porta estava trancada.
– Cassie, abra a porta. Quero falar com você.
A menina não respondeu.
Ele bateu com força mais algumas vezes e disse:
– Cassie, fala comigo, tá tudo bem?
Continuou sem resposta. Ele começou a ficar preocupado. Não achava que ela
poderia machucar a si mesma, mas por outro lado, nunca a vira tão perturbada e
traumatizada.
Bateu de novo. Nada de resposta. Estava prestes a encolher quando algo na
televisão chamou sua atenção. Não tinha nada a ver com Willie Dugan. Pensando
bem, talvez tivesse.
Imagens em close de arbustos cheios de formigas mortas, penduradas de
cabeça para baixo nas folhas. A âncora, em tom jocoso, explicava que milhares de
formigas tinham morrido na região norte de Nova York no que parecia um suicídio
em massa. Apareceu uma imagem ainda mais ampliada das formigas mortas
enquanto a âncora dizia que os cientistas “não sabem o que está causando os
suicídios de formigas, mas acreditam que o fenômeno esteja relacionado ao
suposto fungo zumbi que geralmente ataca formigas na América do Sul”. Ela
brincou com o âncora ao lado, dizendo que torcia para que “as formigas não
fossem atacadas por fungos vampiros na próxima vez”, e depois passou para a
notícia seguinte.
Scott compadeceu-se pelas formigas – todas aquelas vidas perdidas – e ficou
com raiva dos jornalistas por não levarem o fato a sério.
Cassie saiu do quarto, notando logo como o pai estava irritado.
– Pai, que foi? Que houve?
Scott, perturbado, não disse nada.
SCOTT TROCAVA DE CANAL FRENETICAMENTE, tentando encontrar mais informações sobre as
formigas-zumbis. Mas não encontrava nada.
– O quê você está procurando? – Cassie perguntou. – O que há de errado?
Alguma coisa ruim? Você está me assustando.
– É uma coisa ruim, sim – Scott disse. – Muito, muito ruim.
No iPad, Scott encontrou algumas notícias, muito similares ao que vira na TV,
relatando as estranhas mortes de formigas na região norte de Nova York. Depois,
em outro site de notícias, encontrou o que esperava encontrar: as formigas
estavam morrendo principalmente em Wallkill, Nova York.
– Eu sabia – ele disse.
– Sabia o quê? – Cassie perguntou.
Scott analisou o artigo mais uma vez enquanto a filha lia por cima de seu
ombro. Não havia conexão alguma entre as histórias das formigas mortas e o
assassinato de Willie Dugan e seu bando. A única conexão – bem, a única conexão
óbvia, pelo menos – era o fato de que os dois eventos ocorreram em Wallkill.
– Peraí, já entendi – disse a menina. – Isso tem alguma coisa a ver com todas
aquelas formigas que estavam perto da casa quando a gente saiu?
Garota esperta.
– Talvez tenha – disse Scott.
Scott havia convocado todas aquelas formigas até a casa – talvez tenham
sido afetadas por algo que acontecera nos arredores. Scott lembrou-se do
instante em que foi apagado e caiu de costas feito um inseto morto. Será que o
que o fizera apagar também afetara as formigas?
– Mas só porque elas estavam lá, por que estão cometendo suicídio agora? –
Cassie perguntou.
– Não é bem suicídio – disse Scott. – Elas não podem evitar. Já ouvi falar das
formigas-zumbis. Um fungo cresce dentro dos cérebros delas, e faz com que
procurem lugares úmidos pra morrer. Esse fungo é o pior inimigo natural das
formigas. Por isso que recebeu esse nome, zumbi. Porque suga a vida delas.
– Então morreu um monte de formigas – disse Cassie. – Eu entendo você ficar
chateado por elas, mas qual o problema?
– As formigas são os insetos mais importantes do ecossistema de todo o
planeta. Se todos os humanos fossem retirados da Terra, seria melhor ainda para
o planeta. Mas se todas as formigas fossem removidas, haveria extinções em
massa e caos. Sabe esses romances de distopia que você adora ler? Seria tipo isso,
só que pior. Muito pior.
– Então é isso que você acha que está acontecendo?
– Honestamente, não tenho certeza, Cass. Só sei que, seja lá o que está
acontecendo, está acontecendo rápido. Geralmente, seria preciso dias, talvez
semanas para o fungo chegar ao ponto de causar morte em massa. Então
aconteceu alguma coisa, algo que acelerou o crescimento do fungo ou está
fazendo ele se espalhar.
Scott falava para Cassie, mas também para si mesmo, como se pensasse em
voz alta.
Então Cassie perguntou:
– Mas se isso é um fungo, de onde veio?
– Basta uma única formiga Scott disse. – Uma formiga pode vir numa caixa de
frutas da América do Sul e ir parar em Wallkill. Quando pedi ajuda pras formigas,
a infectada podia estar no meio das outras, uma em milhares. Elas costumam ter
defesas, então o que aconteceu deve ter bagunçado a imunidade delas. Mas por
que iam querer fazer isso? O que ganham com isso?
– Quem? – disse Cassie.
– Sei lá – Scott disse. – Esse é o problema. – Scott percebeu que havia dito
demais. Não queria assustar a filha de novo. – Deixa pra lá. Pode se vestir pra
gente sair?
– Achei que a gente não pudesse sair hoje.
– Não temos mais escolha. Anda, se apronta, vamos sair.
Enquanto Cassie se vestia no quarto, a mente de Scott era um turbilhão,
tentando descobrir qual seria a motivação de Dugan e talvez de Monica
Rappaccini em tudo aquilo. Era como tentar resolver uma complicada charada. Ele
sabia que a resposta estava em algum lugar, que havia resposta, mas isso só o
frustrava ainda mais, porque não a encontrava. Por que quiseram destruir toda a
população de formigas da área? Seria este algum plano sádico, niilista, de Dugan?
O mundo acabara com ele, então ele queria acabar com o mundo?
Não, isso não fazia sentido. Dugan queria vingança, sim, mas para ele a
vingança era sempre algo pessoal. Teria a ver com dinheiro? Também não fazia
sentido. Como conseguir dinheiro com um holocausto em potencial?
No NY1, o âncora dizia:
– O inexplicável suposto suicídio de formigas na região norte de Nova York
parece estar se expandindo. Há relatos de morte em massa de formigas por Catskills
e Adirondacks, e em partes da Pensilvânia e Connecticut.
Scott ouvira o bastante. Gritou para a filha:
– Vamos logo! – em seguida praticamente agarrou Cassie pelo braço e
arrastou-a para fora do apartamento.
Cassie segurava a jaqueta enquanto era levada às pressas pelo pai escada
abaixo. Não havia tantos repórteres e curiosos em frente ao prédio quanto
houvera antes, mas havia gente suficiente para causar tumulto quando Scott e
Cassie saíram.
– Não pare de andar. E não diga nada pra ninguém – Scott instruiu à filha
conforme seguiram pela calçada na direção da avenida York. Dois policiais foram
ajudando a abrir caminho para eles; quando chegaram à esquina, poucos
repórteres ainda os seguiam, gritando perguntas.
Scott chamou um táxi que seguia para o centro e entrou nele com Cassie.
– 57 com a 6
a – Scott disse ao taxista. – O mais rápido que puder.
– Vai ter trânsito na ponte – disse o taxista. – Não posso voar, meu chapa.
– Pode me dizer pra onde a gente vai? – Cassie perguntou ao pai.
– Não vamos pra lugar nenhum. Vou te levar pra um lugar onde vai ficar em
segurança.
– Não, me deixa sair! – Cassie gritou.
Ela foi abrir a porta, mas o carro já estava em movimento, e Scott teve que
agarrá-la pela mão para que não pudesse abrir.
O taxista freou, os olhos pretos escancarados fixos no banco de trás.
– Ei, vocês tão malucos? Querem morrer?
– Tá tudo bem – disse Scott. – Pode ir, pode ir. – Depois disse a Cassie; –
Olha, eu juro que você não vai correr nenhum perigo.
– É, foi isso que você disse na última vez.
– Não, isso foi o que o FBI disse na última vez.
– Quero ir com você, pai. Por favor.
– Não, Cassie.
– Mas eu posso te ajudar. Se você acha que o que está acontecendo com as
formigas tem a ver com o que aconteceu na casa, então precisa de mim, porque eu
tava lá!
– Não, de jeito nenhum, vai ser perigoso demais.
– Ah, é? – Cassie exclamou. – E onde é que vai ser menos perigoso?
Scott não respondeu. Cerca de cinco minutos depois, o táxi parou em frente à
Torre Stark, o novo e escandaloso prédio residencial de Tony.
– Fala sério – disse Cassie. – Quer me deixar com o Homem de Ferro?
Enquanto subiam pelo elevador, Cassie continuou reclamando.
– Não quero ficar aqui – dizia sem parar. – Por que tenho que ficar?
Scott mal podia acreditar. Cassie havia crescido como filha de super-herói, o
que nunca foi muito fácil para ela, mas estaria assim tão farta a ponto de
reclamar tanto de ter que passar um tempinho com Tony Stark? E se o HomemAranha
quisesse passar o dia com ela? A atitude dela seria foi mal, Aranha, tô
ocupada demais pra você?
– Sabe de uma coisa, em outra situação eu diria que você está sendo muito
mimada – disse Scott.
Os dois foram anunciados pelo porteiro. Quando tocaram a campainha do
apartamento, que era praticamente tão grande quanto à da Cidade Esmeralda,
quem atendeu foi Pepper Potts.
Scott não a via há algum tempo, talvez uns meses, e estava linda com seu
cabelo ruivo liso e seus grandes olhos verdes. Será que estava fazendo pilates ou
ioga? Scott ficara um pouco a fim dela quando ela começou a trabalhar com Tony,
mas ficou na dele quando percebeu que havia alguma coisa rolando entre os dois –
não queria entrar num triângulo amoroso, seria esquisito. Por muito tempo, o
relacionamento de Stark com Pepper fora ambíguo. Eram colegas de trabalho?
Amigos? Amantes? Considerando que ela estava na casa dele num sábado à tarde,
descalça, de jeans e camiseta, pelo visto os dois tinham finalmente oficializado o
namoro.
– Uau, que bom ver vocês, gente – disse Pepper. Ela beijou Scott na bochecha
e disse a Cassie: – Olha só você, está maior cada vez que eu te vejo. – Depois,
para Scott, fez cara de sonsa: – Queria poder dizer o mesmo de você.
Uma boa e velha piada sobre formigas. Scott estava acostumado.
Então Tony apareceu usando um jeans velho, camiseta preta justa e tênis de
marca de quinhentos dólares – o look casual do cara rico. O modelito que dizia:
Tenho tanto dinheiro que nem preciso me vestir bem.
– Scott, esse é o cara – disse ele.
Ele se aproximou e deu um abração em Scott. Depois disse a Cassie:
– E olha só você, toda crescida e linda. Tem certeza de que esse cara é seu
pai?
Ninguém sorriu, a não ser o Tony.
– A gente precisa conversar – disse Scott.
Sacando a urgência, Tony disse a Pepper:
– Ei, Pep, pode levar a Cassie lá pra cima? Brinquem de desfile, sei lá.
– Sem problema – disse Pepper.
– Desfile? – Cassie perguntou enquanto acompanhava Pepper,
relutantemente, até uma escada espiralada.
– Não queremos definir nada ainda – Tony disse a Scott, respondendo à
pergunta não feita sobre seu relacionamento com Pepper.
– Os dois, ou só você? – Scott cutucou, sorrindo.
Tony rebateu:
– A gente podia sair em dois casais qualquer dia. Digo, se você conseguir
arranjar alguém.
– Sabe alguma coisa sobre uma mulher chamada Monica Rappaccini?
Tony ficou calado, processando a pergunta. Depois disse:
– Sei que você não tá pegando ela. Digo, nem você tá tão desesperado assim
pra sair com uma maluca dessas. – Tony viu a cara de culpa de Scott. – Ou está?
– Foi só um encontro, e…
– Fala sério, meu – disse Tony. – Tem que haver opções melhores pra você
por aí. Sei que você é divorciado, e está triste, mas devia ser um pouco mais como
eu.
– Frio? – Scott perguntou.
– Prático – Tony disse. – Se o seu coração já chega partido não tem como
ninguém partir de novo.
– Tá, então o que sabe sobre ela? – Scott perguntou.
– Na verdade, ela anda fora do jogo há anos – Tony disse. – Só na maciota,
eu acho. Ela trabalhava com a I.M.A., tem experiência com Ciências. Sabe lutar,
também. Ex-fuzileira. Virou casaca depois da guerra. Desiludida, achou que o país
a deixou na mão. Isso é tudo trauma de abandono.
Scott explicou que fora apagado na casa, e que suspeitava que Monica
estivesse envolvida.
Quando ele terminou de falar, Tony, que permanecera sem expressão
alguma, disse:
– Uau, a sua vida está uma bagunça. Tipo, que bom que eu tenho estilhaços
no coração e voo por aí numa armadura movida à eletricidade – mas em
comparação a você, me sinto um cara normal.
Scott disse:
– Tem formigas morrendo numa taxa altíssima, praticamente cometendo
suicídio.
– Ouvi falar disso na TV – Tony disse. – Estão chamando de
Formigapocalipse.
– Acho que você não tá captando as implicações disso tudo – disse Scott.
– Pra mim, uma porção das suas amigas formiguinhas tão batendo as botas, e
você está chateado com isso.
– É muito maior que isso – Scott disse. – Muito maior. Não é o começo de uma
guerra mundial, nem um ataque de seres espaciais, mas pode ser igualmente
perigoso. Se não for mais.
Tony reparou que Scott falava sério sobre todas essas coisas.
– Continue – disse ele.
– Se a morte das formigas alcançar certo ponto – Scott explicou –, vai levar
ao caos. Estou falando aqui de falta de alimento e extinção em massa.
Agora Tony começava a compreender a seriedade da situação.
– As formigas são seu departamento, então acredito em você, meu chapa –
disse Tony. – Com que velocidade a situação vem evoluindo?
– Já tem formigas morrendo em três estados – Scott disse. – Até domingo,
pode ter acontecido em toda a Costa Leste.
– E como isso está acontecendo assim tão rápido?
– Não tenho certeza – Scott disse. – Sei que a imunidade das formigas foi
afetada. E tenho quase certeza de que tem relação com o que aconteceu comigo
ontem.
– Pergunta óbvia – Tony disse, – por que alguém ia querer matar as formigas
do mundo?
– Acho que foi um acidente – disse Scott. – O que está acontecendo com elas
é um efeito colateral. Queriam alguma coisa de mim, da tecnologia do HomemFormiga,
e as formigas estavam lá. Então alguém traiu o Dugan e o matou, junto
com os capangas, antes de eu chegar lá.
– Isso é a cara da Monica Rappaccini – disse Tony. – Se ela quer muito uma
coisa, faz de tudo pra conseguir. Ela colocou isso no perfil do Tinder?
Scott ignorou a brincadeira. Disse:
– E seja lá o que ela quer, é algo que vale muito dinheiro, ou não teriam
atirado num agente federal nem organizado um sequestro arriscado para
conseguir. E ela não teria matado três homens e deixado as provas lá.
– Então o que você quer de mim? – Tony perguntou. – Quer que eu te ajude a
encontrar a Rappaccini pra descobrir o que está acontecendo?
– Não, quero uma coisa muito mais importante que isso – Scott disse. – Quero
que cuide da minha filha.
– Como? – Tony perguntou.
– Você disse que me ajudaria assim que eu pedisse – Scott falou. – Bom, é
disso que eu preciso. Posso cuidar da Rappaccini, mas a Cassie é a coisa mais
importante da minha vida, e não posso correr o risco de algo acontecer com ela de
novo. A ordem de proteção acabou, e preciso que ela fique no local mais seguro
possível. Se você não puder protegê-la, quem mais pode?
– Por mim, fechado – disse Tony, sorrindo. – E se quiser encontrar a Monica,
acho bom você falar com Peter Lawson. Posso dar o endereço dele. Fica no
Brooklyn.
– Quem é Peter Lawson?
– O ex da Monica – disse Tony. Depois, bancando o malandro, acrescentou: –
Encare os fatos, meu chapa. Ela te enganou feio.
Saindo do prédio de Tony, Scott pensava que tinha que melhorar no quesito
paquera-pós-divórcio.
O celular dele vibrou – número restrito, que ele supôs ser do FBI.
– Scott, cadê você? – Carlos perguntou.
Andando às pressas pela rua 57, passando por entre a horda de turistas, Scott
perguntou:
– Que houve?
– Estão sabendo que você não alugou um carro aquele dia – Carlos disse. –
Querem falar com você de novo.
Scott sabia que o policial se referia a Warren e James.
– Diga que agora não posso.
– Você não entendeu. Eles desconfiam que foi você quem cometeu os
assassinatos naquela casa.
Scott viu uns policiais mais à frente no quarteirão. Eles não o viram, mas ele
deu meia-volta, por via das dúvidas, e seguiu para a 6
a
avenida.
– Mande que fiquem na deles – disse.
– Não posso fazer isso – Carlos respondeu.
– Se quer que eu encontre essa Monica Rappaccini e segure o seu emprego,
vai fazer isso, sim – disse Scott.
– Você já falou com ela? – perguntou Carlos.
Scott encerrou a ligação.
Correu por uns quarteirões, entrou em uma lanchonete e foi ao banheiro.
Tirou as roupas que usava, colocou-as na bolsinha grudada no uniforme, depois
ativou o gás Pym e, de repente, formigou-se.
Notou que havia umas formigas no banheiro: duas bebês e uma adulta fêmea.
Não estavam ali por terem sido atraídas por Scott – estavam evidentemente
doentes. Caminhavam com dificuldade e tinham deformidades nojentas na cabeça,
como se tivessem contraído uma versão para formigas da elefantíase. Pareciam
não ter reparado na presença de Scott conforme zanzavam na direção da poça de
água debaixo da pia, atraídas pela umidade.
Então Scott reparou em outras formigas, já mortas, perto do cano. O fungo
estava se espalhando mais rapidamente do que ele temia.
Scott passou por debaixo da porta do banheiro e voltou para a apinhada
calçada, desviando de todos aqueles sapatos gigantescos. Depois saltou para a
traseira de um táxi, seguindo de volta ao Brooklyn. Tinha que encontrar Monica
Rappaccini o quanto antes e torcer para ter acertado no palpite: que era ela a
causadora da epidemia de fungo zumbi, e que esta podia ser revertida. Mas,
vendo que até em Manhattan as formigas estavam morrendo, havia apenas uma
certeza: o tempo não estava do lado de ninguém.
CASSIE NUNCA FICARAMUITO DESLUMBRADA com celebridades, talvez por ter crescido cercada
de tantos super-heróis famosos. Quando tinha dez anos, o pai pediu que o
Homem-Aranha fizesse uma visita surpresa na festa de aniversário dela na
Pizzaria Uno. Os coleguinhas acharam aquilo a coisa mais legal do mundo, mas
para ela foi, tipo, normal.
Tony Stark, por exemplo. Cassie o conhecia há tanto tempo que nem pensava
mais nele como sendo o Homem de Ferro – parecia apenas aquele tio maluco. Tá,
talvez maluco seja uma palavra um pouco forte demais – excêntrico. É, era
apenas como aquele tio excêntrico. Na verdade, ela o considerava meio irritante.
Tá, a armadura era legal, e ele podia fazer coisas tipo voar, mas ela não
enxergava nada de tão incrível nele enquanto pessoa. Era engraçado, mais ou
menos, mas muito cheio de si. Sério, se não era assim tão egocêntrico, por que
colocava o nome dele estampado em tudo ao redor da cidade? Indústrias Stark,
Torre Stark, Hotel Stark, Ringue de Patinação no Gelo Stark. Se desse dinheiro
suficiente para a cidade, talvez renomeariam a ponte do Brooklyn, chamariam de
Ponte Stark. E em vez da Estátua da Liberdade, por que não Starktua da
Liberdade.
Cassie sempre gostara de Pepper, no entanto. Ela era superlegal e linda, e
Cassie não sabia por que a moça perdia tempo com Tony. Bom, o cara era um dos
homens mais ricos do mundo, então Cassie entendia essa parte, mas Pepper não
parecia fazer o tipo que fica com um homem só pelo dinheiro dele. Isso era uma
das coisas que a menina mais gostava nela. Havia garotos ricos na escola, garotos
que moravam na Park Avenue e tal, e viviam contando sobre as viagens chiques
que faziam – tirando o fato de que não diziam “viagem”, diziam “férias”. Quando
chegaram as férias de Natal no ano anterior, Cassie escutou um desses meninos
da Park Avenue perguntar pro outro: “Onde vai passar as férias este ano?”. Que
irritante! Se Pepper tivesse a idade de Cassie, e as duas estudassem na mesma
escola, a menina tinha certeza de que seriam amigas. Talvez não melhores
amigas, mas amigas.
Enquanto o pai de Cassie e Tony conversavam sobre seus assuntos
ultrassecretos de salvar o mundo que eram importantes demais para ela escutar –
revirada de olhos –, Pepper lhe fez companhia. Primeiro ela mostrou um monte de
vestidos que não usava mais e disse que Cassie podia ficar com eles se quisesse. A
menina os provou, mas Pepper era um pouquinho mais alta, então não caíram
muito bem, o que foi uma pena, porque alguns eram bem legais e Cassie já podia
se imaginar usando um deles em seu primeiro encontro de verdade com Tucker
McKenzie. Cassie contou a Pepper tudo sobre Tucker. Era tão bom ter alguém
com quem conversar, uma mulher, já que a mãe morava tão longe. Obviamente,
não dava pra conversar com o pai sobre garotos. Ele vivia querendo saber da vida
dela, lia as mensagens em voz alta, tentava deixá-la com vergonha. Talvez
estivesse apenas sendo superprotetor, como a maioria dos pais, e ela sabia que
isso era por amor, mas essas atitudes apenas a faziam querer guardar mais ainda
as coisas para si.
Depois que terminaram de provar as roupas, Pepper disse que tinha
cabeleireiro marcado, então colocou Cassie em frente à TV na “sala de vídeo” do
apartamento. A tela era tão grande quanto a de um pequeno cinema, e havia
assentos reclináveis estilo dessas salas de exibições. Aquilo era muito legal, mas
Cassie sentiu-se como um verdadeiro bebê. Não estava a fim de ver filme, então
ficou trocando de canal, até parar num noticiário que falava do Formigapocalipse.
Uau, era mesmo como o pai explicara – talvez pior. Havia formigas morrendo em
toda a região nordeste. As imagens das formigas penduradas, mortas, nas folhas e
em todo canto eram de cortar o coração. Cassie lembrou-se de como foi divertido
usar o traje do Homem-Formiga aquele dia, e ver as formigas tão de perto. Ela
rezou para que o pai descobrisse logo o que estava acontecendo, mas ele parecia
muito confuso com relação à história toda, então ela não estava muito confiante.
Enquanto assistia à TV, recebeu uma mensagem de Tucker:
podemos nos ver mais tarde?
Ela poderia estar em um encontro com o menino mais bonito da escola, o
amor de sua vida, mas em vez disso estava aprisionada no cinema caseiro de Tony
Stark. Aquilo não era justo.
Depois de mais uns vinte minutos de tédio e frustração, Tony entrou e disse:
– E aí, como você está?
– Péssima – Cassie disse.
– Pelo menos não está um desastre ou insuportável – Tony disse. – Eu
também sempre enxergo as coisas pelo lado positivo.
– Posso sair só por uma horinha? – Cassie perguntou.
– Primeiro, eu prometi ao seu pai que você não iria a lugar nenhum – disse
Tony. – Segundo, não.
Tony abriu seu sorriso superarrogante de sempre.
– Por favor – disse Cassie. – Não vou sair desse quarteirão, eu juro.
– Ah, me deixa adivinhar – Tony disse. – Primeiro namorado.
– A Pepper ou meu pai disseram alguma coisa?
Cassie não achava que Pepper poderia ter dito algo, mas podia totalmente
imaginar o pai tagarelando sobre isso.
– Não, foi só a minha brilhante intuição – disse Tony.
– Você não pode me prender aqui – Cassie disse.
– Como sua mais do que qualificada babá, acho que posso, sim. E já que eu
não sei nada sobre esse seu mocinho charmoso, se ele é igual um típico garoto de
catorze anos, ou, Deus o livre, como eu era quando tinha catorze, ele não vale
nada.
– Ele tem quinze – disse Cassie –, e por que eu daria ouvidos a conselhos
sobre relacionamento vindos de você? Sr. Nunca Me Casei, Sr. Nunca Namorei
Sério. E nem vem me dizer que é porque você é ocupado demais pra namorar,
porque é uma péssima desculpa.
– Salvar o mundo tende a tomar muito tempo de uma pessoa – Tony rebateu.
– Falando sério – Cassie disse. – Por que você e a Pepper não se casam logo?
Ela é tão legal!
– Finalmente a gente concorda numa coisa – Tony disse.
– E você tá velho…
– Epa, calma lá.
– Mais velho que o meu pai, pelo menos – Cassie terminou. – Acho que sei
qual é o seu problema.
– Por favor, diga – Tony disse.
– Fobia de compromisso – Cassie disse. – Muitos homens têm, principalmente
os da sua idade que nunca foram casados.
Tony sorriu e disse:
– Peraí, agora é você que vai me dar conselho sobre relacionamento?
– Alguém tem que dar, ué – Cassie disse. – Antes que você estrague de uma
vez o que tem com a Pepper. Se quisesse se casar, já teria se casado. É tão óbvio
que ela é totalmente a fim de você. Você só fica enrolando, fazendo promessas
vazias, e isso não tá certo. Se você não fosse tão centrado na sua imagem e em
pôr seu nome nos prédios, talvez percebesse isso.
Houve uma longa pausa na qual Cassie e Tony competiram pra ver quem
encarava o outro por mais tempo.
Então Tony disse:
– Bom, até agora, estávamos nos divertindo. Quem dera seu pai te deixasse
aqui mais vezes. Eu seria tão mais ajustado psicologicamente se tivesse sua
consultoria.
– Ah, e esse seu sarcasmo – Cassie disse. – Óbvio mecanismo de defesa
provavelmente relacionado a uma profunda insegurança. Eu sugiro que se livre
dele. Confia em mim, mulher nenhuma vai ficar por perto com esse jeito
convencido, principalmente uma legal como a Pepper.
Tony estava impressionado com as respostas da menina.
– Você é uma boa menina, Cassie Lang. Não vou ficar contestando suas
opiniões. Quer ir lá pra cima ver uma coisa legal?
Cassie adorou a chance de poder sair daquele cinema caseiro – estava
começando a ter claustrofobia –, então acompanhou Tony até o último andar da
gigantesca cobertura.
Ali ficava a área de trabalho de Tony, onde acontecia toda a mágica do
Homem de Ferro. No centro da sala estava uma das armaduras vermelhas e
douradas dele.
– Diga oi para o meu mais novo brinquedinho – disse Tony.
Celebridades não impressionavam Cassie, mas tecnologia a deixava pasma.
– Que legal! – Ela chegou mais perto e espiou dentro do painel de controle. –
Posso dar uma volta nela?
– E depois eu que sou convencido? – Tony disse, sorrindo.
– Ser confiante é muito diferente de ser convencido – Cassie retrucou. –
Deixa, vai, meu pai me deixa usar o traje dele.
– Ah, é?
– Bom, deixou uma vez, esses dias. E na verdade não deixou, exatamente,
mas não aconteceu nada.
– Que legal você ser tão, hã, unida ao seu pai. Só que na casa do Tony Stark,
só o Tony Stark brinca com os brinquedos.
Cassie, olhando para a traseira da armadura, disse:
– Repulsores… Legal.
– É – Tony disse, – eles ajudam a dar impulso na horizontal e…
– … e na vertical – Cassie emendou. – Mas é a repulsão giroestabilizada que
te faz voar. – Ela estreitou os olhos para analisar as botas. – Microturbinas pra
liquidificar o ar, correndo sobre círculos de nitrogênio líquido.
Impressionado, Tony comentou:
– Você curte mecânica teórica, hein!
– Pra mim é tipo um hobby – Cassie disse. – Mas meu pai nunca me contou
como funciona a tecnologia do Homem-Formiga. Acho ele meio paranoico. Tive
que descobrir quase tudo sozinha.
– Falando sério, agora – disse Tony –, seu pai é um cara muito legal. Sabe
disso, né?
– É, sei, sim – Cassie disse. – Uma coisa que eu não descobri, quando tava
usando o traje, foi como me comunicar com as formigas. Quando eu tava no traje,
era, sei lá, estranho. Parecia que eu tava falando com elas, mas sem falar. É difícil
de explicar, mas parecia, sei lá, telepatia.
– Isso é porque deve ser mesmo telepatia – disse Tony. – Seu pai nunca me
contou nada também, nem eu pra ele. Segredo de super-herói, podemos chamar.
Mas se eu for chutar, acho que Hank Pym colocou uma espécie de telepatia
sintética no traje. É assim que um cérebro se comunica com uma máquina via
interface neural direta, só que ele arranjou um jeito de fazer uma de um cérebro
humano com uma formiga.
– Mas como isso é possível? – Cassie perguntou. – Tipo, as formigas não
pensam igual a gente.
– Exato – Tony disse. – Essa telepatia é movida por pensamentos, não
linguagem. Como um apito de cachorro, ou o modo como os pássaros se
comunicam. Eles precisam de palavras ou ideias, ou é tudo instinto? Desconfio que
o seu pai consegue se comunicar com as formigas através de um mecanismo
similar, só que é silencioso… pelo menos pra ouvidos humanos.
– Peraí. – Uma ideia começava a brotar na mente de Cassie; ela ficou muito
empolgada. – Meu pai ficou preocupado quando me viu no traje por eu ser muito
jovem, meu cérebro ainda não se desenvolveu completamente. Ficou preocupado
por eu ter encolhido; que efeito isso poderia causar em mim.
– Posso estar maluco, mas acho a preocupação bastante razoável – ponderou
Tony.
– Mas e se na verdade funcionou ao contrário? – disse Cassie. – E se o meu
cérebro fez algo no traje? Ainda não sou adulta, e o traje nunca teve um cérebro
adolescente dentro dele. Quando eu me comuniquei com as formigas por essa
interface neural direta, posso ter mudado alguma coisa no traje, e ele, tipo, abriu
um portal.
– Não estou acompanhando – disse Tony.
– Meu pai acha que aconteceu alguma coisa com as formigas, algo que afetou
a imunidade delas e deixou o fungo se espalhar. Mas talvez tenha sido o traje do
Homem-Formiga que tenha enviado algum tipo de sinal pra elas. Não de
propósito, mas porque alguma coisa no capacete mudou pra acompanhar o meu
cérebro.
– Ele disse que acha que a imunidade delas foi comprometida – Tony disse. –
– Ele disse que acha que a imunidade delas foi comprometida – Tony disse. –
Se esse traje pode se comunicar com os cérebros das formigas, por que não com
seus sistemas imunológicos?
– Certo – disse Cassie. – Mas se o traje mandou uma mensagem que alterou a
imunidade das formigas, por que não pode mandar uma que conserte? Temos que
falar com o meu pai sobre isso. Cadê ele?
– Vai voltar logo.
– A gente devia falar agora, Tony, antes que o Formigapocalipse fique pior
ainda.
– E como é que vamos fazer isso? – Tony perguntou. – Não é fácil rastreá-lo.
Digo, o cara tá do tamanho de uma formiga.
Na verdade, Cassie sabia exatamente como encontrar o pai, mas receava que
Tony não a deixasse sair para procurá-lo. Seria até um erro sugerir isso.
– É, você está certo – disse a menina. – Deixa pra lá.
– Logo ele vai entrar em contato, tenho certeza.
Para mudar de assunto, Cassie fez perguntas a Tony sobre a armadura do
Homem de Ferro. Deu supercerto – ele adorou mostrar todos os novos
equipamentos para ela. Ela achava que seu pai era o nerd mais fissurado por
tecnologia do mundo, mas Tony era igualmente viciado.
Mais tarde, quando Tony colocou para tocar um heavy metal velho e péssimo
e ficou ocupado ajustando alguma coisa nas turbinas, Cassie saiu de fininho para
usar o banheiro. Fo quando lhe ocorreu: ela podia simplesmente sair do
apartamento. Primeiro, pegou um iPad, depois entrou no elevador e desceu ao
saguão, passou pelo porteiro e ficou livre. Tony podia ser um dos mais poderosos
super-heróis do planeta, mas era a pior babá.
Alguns meses antes, Cassie baixara um GPS rastreador no celular de Scott.
Era preciso para uma garota saber sempre onde o pai estava, ou não teria chance
alguma de se divertir. Ela encontrou um Starbucks com Wi-Fi e conectou-se ao
celular do pai pelo aplicativo que baixou no iPad. Apareceu um mapa de Nova
York; ela deu zoom no Brooklyn, vendo o ponto azul perto do centro, a
localização atual de Scott.
Cassie tinha cinco dólares consigo – mais do que suficiente para comprar um
cartão de metrô na Estação da rua 57, na 6
a
avenida. Ela comparou o mapa do
celular com o do metrô e concluiu que o pai estava perto da parada da avenida
Lafayette, no trem C. Ela pegou o F para o centro, desceu na 4
a Oeste e trocou
para o C. Quando chegou a Lafayette, subiu para a rua e viu que saíra um pouco
de curso, mas eram poucos quarteirões. Ela subiu a avenida até a rua certa e
seguiu na direção da localização do pai.
Era uma casa antiga de aparência comum, enfiada entre duas outras casas
velhas. Havia um portão baixinho na frente e um monte de latões de lixo. Perto
da entrada do porão, mais abaixo, havia uma grande poça de água; pelo visto
houvera um vazamento ou algo assim no porão. Havia também pegadas molhadas
indo na direção da casa, então devia ter alguém lá dentro. Cassie não fazia ideia
de por que o pai fora até essa casa, nem o que aquilo tinha a ver com as formigaszumbis,
mas não se preocupou.
Ela tocou a campainha, mas ninguém atendeu. Tentou mais algumas vezes;
ainda sem resposta. Verificou o aplicativo – o pontinho dela estava praticamente
em cima do pontinho do pai. Tentou a maçaneta, e a porta se abriu, então ela
entrou no comprido vestíbulo conjugado à cozinha. Havia um zumbido alto,
esquisito, espalhado pela casa… mas era apenas um ou um monte de ruídos?
– Olá – ela chamou. – Tem alguém em casa?
Conforme Cassie foi adentrando a casa, o zumbido foi ficando mais alto.
ENCOLHIDO, Scott saltou de um furgão no cruzamento da Washington com a Fulton, e
disparou pela calçada. Quando chegou a casa, na esquina, passou por debaixo da
porta. Havia sapatos perto da porta e um par de botas, todos de homem. Ele
parou perto da escada, mas não escutou nada. Foi até a cozinha. Não havia
ninguém ali também – bom, ninguém exceto um ratinho agitado perto da base da
pia. Embora Scott fosse o Homem-Formiga fazia muito tempo, e se sentisse
confortável em miniatura tanto quanto no tamanho natural, sempre ficava um
pouco alarmado quando via um animal ou um inseto sob aquela perspectiva
diminuta. Porém, o rato nem deu bola para ele quando cruzou a cozinha e passou
para a sala de jantar.
Nada parecia estar fora do lugar. Uma mesa, cadeiras. Ele saltou para a mesa
e viu uma caneca com café quente dentro, o que indicava que havia alguém em
casa – ou que houvera recentemente.
De volta ao chão, Scott atravessou a sala de jantar, ultrapassando um tapete
afegão cheio de cabelos – alguns lembravam os de Monica Rappaccini. Uma porta
dava para um pátio nos fundos. Ele saiu e viu diversas formigas caminhando a
esmo, pareciam tontas. Uma delas tinha grotescas protuberâncias na cabeça.
Scott retornou a casa e viu uma pilha de revistas numa mesinha junto ao sofá.
Subiu em cima da primeira, uma National Geographic com matéria de capa
intitulada – dá para acreditar? – “Formigas da Amazônia”. O endereço de
correspondência que aparecia na capa era de Peter Lawson, confirmando que
Scott estava na casa certa. Estava prestes a subir as escadas para checar o
segundo andar quando escutou passos acima, fazendo ranger o piso de madeira.
Depois ouviu uma mulher falando – parecia estar ao telefone, terminando uma
conversa.
– É… tá bom, eu vou… obrigada. Certo, tchau.
Parecia a voz de Monica.
Scott parou perto da escada vendo a mulher descer. De seu ponto de vista,
via apenas as pernas conforme ela chegava ao térreo e ia bem em sua direção.
Scott caminhou bem junto à parede para que ela não o notasse. Ela passou por ele
e foi para a sala de estar.
Cantarolando de boca fechada uma canção que Scott não identificava, a moça
largou o celular na mesa de centro. Depois foi até a cozinha e soltou um berro.
O rato, pensou Scott.
– Que nojo – disse Monica. – Meu Deus!
Scott aproximou-se para poder ver a moça, que se afastara, de medo, da pia.
Foi difícil acreditar que aquela mulher de aparência inocente que tinha medo de
rato fosse uma perigosa criminosa que trabalhara com o pessoal de Dugan e que
cometera os assassinatos em Wallkill.
– Ei, Monica – disse Scott.
Já assustada com o rato, Monica escancarou os olhos na direção da sala de
jantar.
– Quem está aí?
Scott escondeu-se atrás do batente do arco de entrada, onde não podia ser
visto.
– Fico surpreso por você ter me esquecido assim tão rápido.
Quando espiou a cozinha, viu Monica empunhando uma faca enorme.
– Seja quem for, apareça – disse ela.
Scott correu para a cozinha, saltou e arrancou a faca da mão dela.
Monica ficou pasma.
Ele pousou no balcão.
– Acho que você está começando a entender.
Ela deu meia-volta e saiu correndo da cozinha. Scott pulou atrás, agarrou-a
pela blusa, girou-a e a empurrou contra a parede.
– Agora acabou – disse. – Você vai pra cadeia.
Scott soltou-a e voltou ao chão, para que ela não o visse.
– N… não sei do que você tá falando – declarou Monica, olhando
freneticamente para os lados.
– Mas sabe quem eu sou – Scott disse. – Sabe que sou o Homem-Formiga.
– Não sei de nada.
Será que Scott tinha se enganado?
Achou melhor continuar pressionando.
– Você matou três homens. Eram todos assassinos procurados, mas mesmo
assim você matou todos. E também fez algo às formigas.
– Você… você é maluco – ela disse, recuando. Olhava ao redor
freneticamente, tentando descobrir de onde vinha a voz. – Você está enganado.
Eu não sei quem é você, nem o que quer de mim.
– Você queria a minha tecnologia – Scott disse. – Mas pra quê? Que quer
fazer com ela?
– Não faço a menor ideia… – ela disse.
Subitamente, Monica virou e disparou em direção à sala de jantar. Scott logo
a alcançou; agarrou-a pelas costas. Mas ela ergueu um aparelhinho, algo similar
ao que um palestrante usa para ir passando slides durante uma apresentação.
Scott a soltou e caiu no chão, quicou, girou, não conseguia controlar seus
movimentos. Ficou deitado de lado, incapaz de se mover, como acontecera na casa
de Wallkill.
– Ah, aí está você – disse ela.
Tonto, mas ileso após a queda, Scott viu uma gigantesca Monica agachar-se à
sua frente.
– Scott, seu bobinho – disse a moça. – Achou mesmo que poderia vir aqui me
impedir sozinho, desse tamanhinho, sem a ajuda dos seus amigos super-heróis?
Tem ideia de com quem está lidando?
Ela pegou Scott e o espremeu entre o polegar e o indicador.
– Uau, o Dr. Pym sabe mesmo o que faz. – Ela chegou mais perto. – Olha
como sua cabeça está pequena. E seus olhos! Queria poder te adotar como
bichinho de estimação. Levar você por aí no bolso.
Scott sempre ficava muito tranquilo nas situações de tensão, mesmo na época
de criminoso. Precisava ganhar tempo para pensar no que fazer em seguida –
quer dizer, se fosse possível fazer alguma coisa.
– Como conhece do Dr. Pym? – disse.
– Não o conheço pessoalmente – Monica disse. – Sempre curti tecnologia
quando nova. Era fã do trabalho dele, mas meu herói mesmo era o Einstein.
Queria criar a próxima superarma. Mas eu tinha ouvido falar do tal do HomemFormiga,
e que ele escolhera alguém pra dar seguimento ao seu legado. Então era
você esse tempo todo. Não acredito que estou segurando o Homem-Formiga na
mão. Quão poderoso tá se sentindo agora, Scott? Acho que não muito.
Scott supôs que o melhor a fazer seria apaziguar Monica, visto que não podia
se mexer e tinha um milésimo do tamanho dela.
– É, no momento eu me sinto bem… hmm… pequeno.
– Pequeno? – Ela riu. – Está pequeno mesmo. E fraco, incapacitado. E prestes
a morrer.
Scott lembrou-se de quanto gostara de Monica – na época, Jennifer – quando
a conhecera. Tinha realmente péssimo faro pra mulheres.
– Então era você naquela casa? – ele perguntou, ganhando tempo.
– Sim, moi – ela disse. – E sim, eu matei aqueles três imbecis.
– Como foi se meter com Willie Dugan? – Scott perguntou.
– Por favor – ela disse, – não use esse termo, “se meter”. Conheci Willie, Will,
eu chamava assim, anos atrás. Mantivemos contato ao longo dos anos, e ele me
procurou semana passada. Estava planejando matar você e queria minha ajuda
pra sair do país depois. Tenho um monte de contatos – disse ela, e riu. – É até
meio engraçado: se eu não tivesse ajudado ele, você já estaria morto. Ganhei uma
semana a mais de vida pra você.
– Como ele achava que ia poder me matar se eu estava sob proteção?
– Ele matou os outros caras, inclusive o juiz. Confie em mim, você era o
próximo da lista… e ele pretendia matar sua ex e sua filha também. Tinha um
grande plano organizado, e teria conseguido realizar tudo. Mas depois me contou
uma história, de como você o salvou de um incêndio. Ele achava que talvez você
fosse o Homem-Formiga. Foi quando fiz um trato com ele, um que nos faria
ganhar muito dinheiro. Tudo o que eu precisava fazer era confirmar que você era
o Homem-Formiga… e você facilitou tanto pra mim no café com aquela conversa
sobre as formigas.
– Tá, e qual é o seu plano? – Scott perguntou. – Não tem por que esconder.
Monica saiu andando pela sala, abusando do poder que sentia por ter um
ínfimo e imobilizado Scott na palma da mão.
– Legal. Estou gostando. Muito mais íntimo do que nosso primeiro encontro
no café. Mas foi bonitinho ver como você ficou todo apaixonadinho por mim. Em
outra vida, a gente poderia ter sido muito feliz.
– Hmm, não tenho muita certeza disso – Scott zombou. – Em outra vida, eu
teria sacado que você é uma psicopata que não vale nada e te colocado atrás das
grades.
A mulher sorriu.
– Posso até não valer nada. Mas acredite, você vale muito. Você cairia duro
no chão, antes mesmo de eu ter chance de te matar, se ouvisse quanto a I.M.A.
oferece pela sua tecnologia de comunicação com as formigas.
– Pra que querem essa tecnologia?
– Você teria que ver pra acreditar. Era um plano brilhante, mas antes
precisávamos pensar num jeito de fazer você aparecer em algum lugar como
Homem-Formiga. A primeira parte era usando a espertinha da sua filha como isca
pra te atrair pra fora da cidade. Depois que me livrei do peso morto, só precisei
ficar esperando você chegar. Acabou que foi superfácil. Primeiro te paralisei,
depois te repliquei.
– Replicou? Como assim, replicou?
– Inventei um aparelho que pode duplicar certos tipos de tecnologia. O Dr.
Pym ficaria orgulhoso.
– Replicou toda a tecnologia do traje?
– Não, só o que era mais valioso – ela disse. – A habilidade de se comunicar
com as formigas. Pra mim, essa é a invenção mais impressionante do Dr. Pym, só
que acho que ele não a levou até onde ela poderia ir. Se você puder controlar as
formigas, por que não outros insetos também? E se puder controlar insetos, por
que não animais? E se animais, por que não humanos? – A moça foi andando cada
vez mais rápido, se tornando cada vez mais maníaca. – Pensa nisso. Uma única
pessoa poderia controlar um exército inteiro, ou forçar um país a se submeter sem
dar um tiro.
– Um grande objetivo de vida – disse Scott, sarcástico.
– Mas é mesmo – retrucou a mulher, não entendendo, ou apenas ignorando, o
sarcasmo.
– E você disse que é fã do Dr. Pym… – Scott continuou. – Bom, eu o conheço
pessoalmente, e ele queria que a tecnologia fosse usada somente para o bem,
nunca pro mal.
– E eu lá me importo com essa coisa de bem e mal? Não vou usar a tecnologia,
vou vender pra I.M.A por… prepare-se… vinte milhões de dólares. Ops, não era
pra contar?
– Que ótimo – disse Scott. – Bom, caso você tenha ficado escondida embaixo
de uma pedra pelas últimas 24 horas, seu grande plano teve um grande efeito
colateral. Seu replicador parece ter gerado uma mutação num fungo que está
matando formigas em todo o Nordeste, talvez até além.
Ela parou de andar, levou o rosto perto de Scott – ficou a um centímetro dele
– e disse:
– Scott, você não entendeu? Não estou nem aí pras formigas. Eu quero o
dinheiro.
– Acho que quem não entendeu foi você – Scott disse. – Se as formigas
morrerem, tudo mais vai morrer. Bom, quase tudo. Vai ser um mundo no qual
você não vai querer viver.
– Eu compro uma ilha só pra mim, então – ela disse.
– Tá – Scott disse, – e vai morrer de fome lá.
– Se vai ter alguém com dinheiro pra comprar comida, serei eu.
Não tinha como fazê-la compreender.
– O Lawson está aqui? – Scott perguntou. – Ele está nisso junto com você?
– Hmm, ele sofreu um grave acidente semana passada: o corpo ainda não foi
encontrado. Daqui a pouco eu vou ganhar uma bela grana e, caso você ainda não
tenha entendido, eu gosto de jogar sozinha. Faz tempo que tem sido assim, desde
quando eu era criança. Sempre fiz o tipo solitária… e sim, já matei animais. Muito
clichê, eu sei. Mas se eu já matei todos os gatos da vizinhança, acha mesmo que
eu vou ligar pro que está acontecendo com umas formiguinhas idiotas?
O insulto às formigas, principalmente, fez Scott fervilhar. Mas ele engoliu a
raiva.
– Bom, tenho coisas a fazer – ela disse. – Foi um prazer conversar com você.
Ela o levou até um pequeno banheiro. Ergueu a tampa do vaso sanitário e,
entre o polegar e o indicador, manteve Scott pendurado acima da água. Pelo visto
ele estava prestes a ser jogado numa imensa piscina oval.
– Espera, antes de me matar – disse ele –, prometa que vai tentar reverter o
que você fez. Não pode deixar esse fungo se espalhar. Não vai ganhar nada com
isso.
– Vou ganhar vantagem – ela disse. – Poder.
– Não faz sentido – Scott insistiu, mas a moça não escutava.
– Sayonara, Homem-Formiga.
Ela o soltou na privada.
Ele mergulhou espirrando muita água ao redor e foi afundando dentro da
água. Em seguida ouviu um rugido tremendo, e a água começou a girar. Ser
jogado num vaso sanitário era uma experiência que Scott jamais esperara ter que
enfrentar, e não foi nada divertido. A água foi girando cada vez mais rápido. Com
uma força incrível, como a água de um tsunami sendo sugada para o mar antes do
ataque da onda gigante, Scott foi sugado pelo ralo para a total escuridão.
Foi como andar numa montanha-russa – uma versão aquática da Space
Mountain –, só que tirando a diversão. O lado positivo é que a água desativaria
temporariamente o traje, revertendo-o de volta ao tamanho normal; ele só
esperava que isso acontecesse depois que ele tivesse chegado ao esgoto, afinal
não dava para imaginar o que aconteceria se ele ficasse subitamente centenas de
vezes maior dentro de um encanamento estreito.
Num exemplo extremo de “cuidado com o que desejas”, Scott pousou com um
baque no sistema de esgoto da cidade – numa experiência que ele pretendia
bloquear da memória para o resto da vida.
Pelo menos tinha uma boa notícia: a paralisia já era. O gás Pym ativou-se,
devolvendo-o ao tamanho natural. Entretanto, estava preso no esgoto, no escuro.
Foi tateando ao redor, tentando encontrar a saída. Finalmente, conseguiu
agarrar-se a algo gosmento e escalar a parede do esgoto pelas saliências, na
direção de uma luzinha fraca. Acabou que era a tampa de um bueiro. Scott
conseguiu destravá-la e saiu do esgoto, surgindo bem no meio da rua, na frente
da casa de Monica.
Ele reparou, então, em alguns garotos de bicicleta que tinham parado para
observá-lo, estupefatos. Ou melhor, em choque. Não era todo dia que se via um
super-herói emergindo de um bueiro.
– Vão pra casa – disse Scott. – Finjam que não viram nada disso.
Ah, tá, como se houvesse chance disso acontecer. Um dos meninos sacou o
celular e ficou mirando Scott por vários segundos. Depois saíram todos de uma
vez, correndo quarteirão acima. Scott sabia que não demoraria muito até o vídeo
estar na internet, se é que já não estava.
Scott se aproximou da casa de Monica, ainda encharcado e muito fedido. O
traje do Homem-Formiga, contudo, voltara a funcionar. Ele ativou o gás Pym,
encolheu e passou por debaixo da porta.
Ele não viu Monica na sala de estar – devia estar no andar de cima. A
caminho da sala, uma mosca enorme passou voando e colidiu contra ele. Aquilo
era muito estranho; em geral os outros insetos o evitavam, confusos quanto à
natureza do pequeno humano. Depois outra mosca veio na sua direção. Aqueles
olhos verdes e as asas compridas foram ficando cada vez maiores até que, no
último instante, Scott desviou.
Só que mais moscas estavam entrando por debaixo da porta e por uma fresta
na janela, e todas miravam Scott e iam para cima dele. Ele conseguiu enfrentá-
las, claro – era muito mais forte do que uma mosca comum –, mas havia tantas, já
eram dezenas, cutucando-o, atormentando-o. Scott as golpeava, mas havia tantas
que foi ficando difícil manter a vantagem. Será que estavam sendo atraídas a ele
pelo cheiro do esgoto, do mesmo modo que eram atraídas a um cocô de cachorro
na rua? Não parecia ser apenas isso. Estavam agressivas, como se quisessem
matá-lo, algo muito incomum.
– Seja bem-vindo de volta, Scott.
Monica estava na frente dele, perto da cozinha. Devia ter vindo do porão.
Estava em seu tamanho natural, mas usava um capacete muito similar, talvez
idêntico, ao de Scott.
– Pelo visto você é igual a um daqueles gatos que eu matei quando era
criança – disse ela. – Digo, por ter sete vidas. Bom, não importa quantas vidas
você teve, agora só lhe resta uma.
Mais moscas vieram para cima de Scott, dificultando-lhe a visão. Ele tentou
ativar o gás Pym, para ficar grande, mas as moscas bloqueavam suas mãos.
– Ai meu Deus, tá funcionando! E melhor do que eu imaginava! – Monica
comemorou. – Espere só quando eu começar a usar em humanos! Tá, vamos tentar
isso aqui…
Diversas moscas morderam o traje de Scott, agarrando-o com força suficiente
para erguê-lo do chão. Saíram voando com ele ao redor da sala, foram zumbindo
para a janela, voltaram para a cozinha e depois à sala de jantar. Finalmente,
trouxeram-no para o corredor, onde ficaram plainando em frente à Monica.
– É como o vídeo game definitivo – disse ela. – Mas melhor ainda, porque não
precisa de controle. É tudo na mente.
Foi então que Scott ouviu a voz de Cassie.
– Pai!
Estaria imaginando a voz da filha? Era difícil enxergar com todas aquelas
moscas bloqueando seus olhos. Cada mosca da vizinhança devia estar a caminho
da casa.
– Ora, que visita inesperada – disse Monica. – Minha vítima de sequestro
favorita veio se juntar à festa. Bem-vinda, Srta. Lang!
– Pai, você tá aqui?
Monica olhou para Cassie, distraindo-se por um instante, e as moscas
soltaram Scott. Pois é, Cassie estava mesmo ali. Tony era mesmo a melhor das
babás.
A mulher agarrou Cassie e apontou uma arma para a cabeça dela. A menina
parecia estar em pânico, mas procurou manter a calma.
– Pelo visto teria sido melhor você não ter saído do esgoto, onde é o seu lugar
– Pelo visto teria sido melhor você não ter saído do esgoto, onde é o seu lugar
– disse Monica.
Ela não percebera que as moscas haviam soltado o Homem-Formiga. Scott já
estava atacando, ainda encolhido. Ele saltou no ar e facilmente arrancou a arma
da mão dela.
– Você não vai me derrotar agora – disse Monica. – Sou mais forte que você.
– Ah, é mesmo? – Scott meteu um soco na cara da mulher, que voou para trás.
– Quase acreditei.
As moscas voltaram a atacá-lo, tentando grudar-se nele.
– A força aérea sempre vence a guerra – disse a vilã.
As moscas ergueram Scott mais uma vez, e saíram girando com ele pela sala.
O zumbido estava tão alto e furioso que nem mais parecia produzido por insetos.
Foi então que Scott ouviu Cassie gritando por socorro. Ele se lembrou da
promessa que fizera, de que tudo ficaria bem. Então ele juntou forças para
combater algumas das moscas e ativou o display do capacete.
Scott já tinha testado, algumas vezes, alterar o funcionamento do traje para
se comunicar com outros insetos, além de formigas. Certa vez conseguira de fato
comunicar-se com moscas. Para isso, era preciso ajustar a frequência do sensorsonda
principal – tarefa que já era difícil de fazer estando ele sozinho, tranquilo,
num quarto. Não havia jeito de fazer isso sendo carregado pela casa por um
enxame de abelhas.
A filha gritava:
– Não façam isso!
E então Scott teve uma ideia. Podia tentar acessar o aparelho de Monica e
usar seu próprio capacete como transmissor. Seria como roubar o sinal de Wi-Fi do
vizinho.
As moscas o prensaram contra uma parede, depois voltaram voando para
outra direção. Scott conseguiu desligar o software de comunicação do capacete,
deixando-o, contudo, no modo “ativo”. E, como esperado, deu certo.
As moscas que o seguravam pararam em pleno ar no meio da sala de estar.
Elas foram para cima de Monica no instante exato em que ela estava prestes a
disparar contra a cabeça de Cassie. Scott transmitiu o comando de atacar, e tanto
ele quanto as moscas foram para cima de Monica.
– Segura essa! – ele gritou, assustando Monica.
A mulher escancarou os olhos, chocada, quando Scott agarrou o capacete dela,
arrancou-o de sua cabeça e o jogou para longe.
Ela foi ao chão, quase inconsciente – e sem o controle das moscas. Elas se
afastaram de Scott e juntaram-se perto da janela. Scott, ainda encolhido, virou
Monica caída de barriga para baixo. Depois, usando um pano de prato, amarrou
as mãos da mulher atrás das costas.
Scott retornou ao tamanho normal e foi abraçar a filha.
– Tá tudo bem? O que você está fazendo aqui?
Cassie disse, se encolhendo:
– Hã, pai, por que você tá tão fedido?
– Longa história – ele disse. – Por que o Tony deixou você sair? Como sabia
que eu tava aqui?
– Hã – ela disse, – é uma longa história também. Mas eu descobri o que
aconteceu com as formigas.
Ela explicou que achava que havia desestabilizado algo na tecnologia de
comunicação com as formigas ao fazê-la tentar funcionar junto ao seu cérebro.
Scott fitou Monica – deitada de lado, inconsciente –, depois fez uma
varredura no software do traje, vendo os resultados que apareciam num display
holográfico. Dito e feito: havia uma anormalidade nos circuitos de comunicação.
– Uau, acho que você está certa – disse ele. – Foi isso que aconteceu. A
Monica não teve nada a ver com a história.
– Então como podemos consertar? Achei que o certo seria manter aberto
agora, que nem um portal.
– Não, acho que é o oposto – Scott disse. – Tenho que consertar o software,
depois enviar um sinal novo.
– Tem certeza de que vai funcionar? – Cassie perguntou.
– Não – Scott disse, – mas só há um jeito de saber.
Scott encolheu e convocou as formigas da região. Os insetinhos vieram
rastejando das paredes; passaram por debaixo da porta da frente, dos fundos e do
porão. Algumas estavam saudáveis; outras, obviamente infectadas pelo fungo.
– Cassie, venha até a sala de estar comigo – pediu Scott.
Ele pegou o controle remoto que encontrou na bolsa de Monica. Embora
tivesse pouco mais de um centímetro de altura, arremessou facilmente o
aparelhinho para a filha.
Ela o pegou.
– O que você está fazendo? – perguntou.
– É você que vai fazer. Se o cérebro e a imunidade das formigas foram
afetados por isso, então talvez a gente possa consertar.
– O que tenho que fazer?
– Aponta isso aí pra mim e liga.
– Como faço isso?
– Deve ter um botão ou alavanca. Se aprendeu a usar meu traje, vai
aprender a usar isso aí tamb…
Cassie já tinha aprendido.
Scott sentiu o mesmo tranco, só que dessa vez o traje não foi paralisado.
Mais importante: as formigas que pareciam sofrer nas mãos do fungo começaram
imediatamente a mostrar drástica melhora. Já estavam andando normalmente,
não como zumbis.
– Deu certo! – disse Cassie.
Scott retornou ao tamanho normal.
Monica estava quase saindo da cozinha, rastejando pelo chão com os braços
amarrados atrás das costas.
– Você está cometendo um erro, um erro daqueles – disse ela –, usando a sua
tecnologia desse jeito. O que você ganha com isso? Você é um criminoso. Adora
dinheiro. Trabalhe comigo. Podemos ser parceiros.
Então Scott reparou numa coisa estranha. As formigas e moscas estavam indo
para cima de Monica. Foi uma combinação de ataque aéreo e terrestre: as
formigas, talvez já às centenas, atacaram o corpo da moça, mordendo-a,
enquanto as moscas atacavam do alto. Mais moscas e formigas entraram na casa,
todas indo contra Monica, já que sabiam, por instinto, que era ela o seu maior
inimigo, e que era preciso combatê-lo.
– Pelo visto, tá rolando um efeito colateral – disse Scott.
Monica tentou dizer alguma coisa, mas havia moscas e formigas por todo o
rosto, e não pôde nem abrir a boca. Scott vestiu suas roupas casuais por cima do
traje e saiu com Cassie da casa.
–VIRALIZOUTOTAL, pai.
– O fungo das formigas?
– Não, YouTube. Você já tem mais de um milhão de visualizações.
Scott suspirou, aliviado. Já tinha assistido ao clipe de quatro segundos de sua
aparição como Homem-Formiga, emergindo do bueiro; pelo visto, o mundo todo já
tinha visto. Era domingo à noite, e estavam ele e Cassie no apartamento. O fungo
zumbi fora cerceado dramaticamente em um só dia, confundindo cientistas que
não tinham conseguido determinar como ou por que o fungo começara a se
espalhar.
Homem-Formiga era o grande herói. Ironicamente, o vídeo o ajudara: depois
que a mídia local teve acesso, Scott recebeu todo o crédito por apreender Monica
Rappaccini, a mulher responsável por quatro assassinatos e implicada no assalto
que quase matara Roger Shelly, agente federal.
Scott passara a Carlos as informações referentes a Monica Rappaccini, o que
lhe garantira a glória perante seus superiores no FBI. Scott contou-lhe que
estivera na casa com Monica, e que o Homem-Formiga aparecera e o salvara. Ele
achou que Carlos não acreditara muito na história, mas o policial estava satisfeito
por a situação ter chegado ao fim. E não entrou mais no assunto.
Uma complicação: quando foi presa, Monica revelou aos federais que Scott
era o Homem-Formiga. Scott esperava que isso fosse causar um surto de
interesse nos repórteres e curiosos; chegou a pensar que teria de se mudar para
um prédio de alta segurança. Até o momento, contudo, tirando os comentários de
amigos das antigas no Facebook, que diziam coisas tipo “há” ou “parabéns!” e “eu
sempre soube que você escondia alguma coisa”, ninguém pareceu dar muita bola
para a alegação. Scott recebeu convites para dar entrevistas a alguns blogs
desconhecidos, mas não era nada como um programa famoso vir para cima dele ou
alguém querendo fazer uma matéria de capa. Dali em diante ele teria de ser
ainda mais cauteloso ao guardar a tecnologia do Homem-Formiga, mas não pôde
deixar de sentir-se um pouco, digamos, bobo, por ter gasto tanta energia ao longo
dos anos para manter seu segredo.
Ele não sentiu seu ego inflar. Preferia manter-se no anonimato, incógnito. A
falta de atenção e agito, para ele, era uma bênção.
Mais tarde, Cassie estava no quarto quando Scott recebeu uma mensagem de
Tony Stark.
Muito bom seu vídeo na internet, bro. A mulherada vai adorar
Scott sorriu e respondeu:
Olha só quem fala, o ganhador do prêmio de babá do ano
Tony devolveu com:
Foi mal, mas mesmo quando dou mancada eu acabo ajudando, bancando
o herói.
Acho que tenho um dom mesmo
Na manhã seguinte, Cassie veio tomar café da manhã de sainha curta e top
justo.
– Vai à escola vestida desse jeito? – Scott perguntou.
– É normal – Cassie disse.
– Que seja – Scott disse. – Não vou julgar.
Cassie deu algumas colheradas no cereal e disse:
– É que, na verdade, eu vou sair com o Tucker depois da aula.
– Que bom – Scott disse.
– Você não liga?
– Não, só quero que você seja feliz – disse Scott. – Você tá crescendo, eu
entendo. E não precisa me contar de todo menino com quem ficar. Tem que ter
sua privacidade.
– Uau – Cassie disse. – Obrigada, pai.
– Mas ainda pode me chamar de papai. – Scott disse. – Disso eu gosto.
– Obrigada, papai – disse Cassie, sorrindo. – Quer que eu apague o aplicativo
de rastrear?
– Não, tudo bem – Scott disse. – Não ligo de você saber onde eu estou o
tempo todo. Na verdade, eu até gosto.
Cassie foi para a escola.
Um pouco mais tarde, Scott foi para o trabalho. Fazia um dia perfeito de
primavera – 26 graus, céu aberto. Era agradável caminhar pela calçada
arborizada do bairro, passar por todas as formiguinhas atarefadas e contentes,
sem ficar pensando o tempo todo, para variar, se alguém ia tentar matá-lo.
No metrô, a caminho do centro, havia uma ruiva atraente sentada ao lado de
Scott. Ela abriu um sorrisinho em certo momento, então ele achou que talvez ela
também tivesse gostado dele.
Com toda a má sorte que tivera nos últimos dias, Scott hesitou em tentar
puxar papo com ela. Contudo, não quis deixar que uma ou duas experiências
negativas o desanimassem. Não via a hora de retomar sua vida normal.
– Oi, meu nome é Scott. Posso te fazer uma pergunta?
– Claro – disse a moça, sorrindo. Parecia contente por ele ter falado com ela.
– O que acha das formigas? – ele perguntou.
– Formigas? – Ela parecia confusa.
– É, sabe… o inseto mais importante da Terra. São incríveis, não é?
Scott sabia que a reação da moça deixaria bem claro se as coisas tinham
realmente voltado ao normal.
No começo ela ficou só olhando, meio confusa. Depois fez uma careta, soltou
um:
– Nossa, que maluco – e passou para o fundo do vagão.
É, tudo normal.

Nenhum comentário:
Postar um comentário