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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 79

EM CARTAZ


Connie Willis mora com o marido em Greeley, Colorado. Ela chamou atenção como escritora pela primeira vez com algumas histórias para uma revista já extinta, a Galileo, e se estabeleceu como uma das autoras mais aclamadas por público e crítica da década de 1980. Em 1983 ganhou dois prêmios Nebula, um pela noveleta “Fire Watch”, outro pelo conto “A Letter from the Clearys”; alguns meses mais tarde “Fire Watch” também ganhou um Hugo. Em 1989, seu romance The Last of the Winnebagos ganhou o Nebula e o Hugo, e ela ganhou outro Nebula em 1990 por sua noveleta “At the Rialto”. Em 1993 seu importante romance Doomsday Book ganhou o Nebula e o Hugo, assim como seu conto “Even the Queen”. Ela ganhou outro Hugo em 1994 por sua história “Death of the Nile”, outro em 1997 pela história “The Soul Selects Her Own Society”, outro em 1999 pelo romance To Say Nothing of the Dog, outro por The Winds of Marble Arch em 2000, outro em 2006 pelo romance Inside Job, e mais um em 2008 pelo romance All Seated on the Ground, superado em 2011 por seu livro mais recente, o enorme romance de dois volumes Blackout/All Clear, que ganhou os prêmios Hugo e Nebula. Em 2009 ela foi eleita para o The Science Fiction Hall of Fame, e em 2011 recebeu o Prêmio SFWA Grand Master. Tudo isso faz dela a escritora mais homenageada na história da ficção científica e a única pessoa a já ter sido premiada com dois Nebulas e dois Hugos no mesmo ano. Entre seus outros livros estão os romances Water Witch, Light Raid e Promissed Land, escritos em colaboração com Cynthia Felice, Lincoln’s Dream, Bellwether, Uncharted Territory, Remake e Passage e, como editora, as antologias The New Hugo Winners, Volume III, Nebula Awards 33 e (com Sheila Williams) A Woman’s Liberation: A Choice of Futures by and About Women. Seus contos de ficção foram reunidos nas coleções Fire Watch, Impossible Things e Miracle and Other Christmas Stories. Ainda será lançada uma grande coleção de retrospectiva, The Best of Connie Willis. Na história rápida, divertida e furiosa a seguir, ela nos leva para uma noite no cinema que acaba sendo muito mais difícil e complicada do que simplesmente comprar um ingresso.



“Uma comédia encantadora, alegre!” — Entertainment Weekly


No sábado antes do feriado do Natal, Zara entrou no meu dormitório e perguntou se eu queria ir com ela e Kett ao cinema no Cinedrome. — O que vocês vão ver? — perguntei. — Não sei — respondeu ela dando de ombros. — Muitas coisas. — O que significava que o objetivo não era assistir a um filme. Grande surpresa. — Não, obrigada — falei, e voltei a digitar meu trabalho de economia. — Ah, Lindsay, vamos lá, vai ser divertido — ela insistiu, e se jogou na minha cama. — Está passando X-Force, The Twelve Days of Christmas e a reprise de Crepúsculo. O Drome tem uma centena de filmes. Tem que ter alguma coisa que você queira ver. Que tal Christmas Caper? Não queria ver? Sim, pensei. Há oito meses, quando vi o trailer. Mas as coisas mudaram desde então. — Não posso — respondi. — Tenho que estudar. — Todos nós temos que estudar — Zara argumentou. — Mas é Natal. O Drome vai estar decorado e todo mundo vai estar lá. — Exatamente, o que significa que o trem vai estar lotado e a verificação de segurança vai demorar uma eternidade. — É por causa do Jack? — Jack? — perguntei, pensando se seria convincente acrescentar um “que Jack”? Melhor não. Era Zara. Em vez disso, falei: — Por que minha decisão de não ir ao Drome com você tem que ter alguma relação com Jack Weaver? — É que... não sei — ela gaguejou —, você tem estado triste desde que ele foi embora, e vocês dois assistiam a muitos filmes juntos. Que eufemismo. Jack era o único cara que conheci que gostava de cinema tanto quanto eu, todos os tipos de filmes, não só de super-heróis e pancadaria. Ele adorava tudo, de Bollywood e comédias românticas como Surpresas do coração a filmes em preto e branco como A loja da esquina e Capitão Blood, e fomos assistir a dúzias deles no Drome, além de termos visto centenas de filmes on-line no semestre que passamos juntos. Correção, faltou uma semana para completar um semestre. Zara ainda estava falando. — E você não foi ao Drome desde que... — Desde que você me convenceu a ir ver Monsoon Gate. E, quando chegamos lá, você quis comer e conhecer rapazes, e eu nem fui ver o filme. — Não vai ser assim desta vez. Kett e eu prometemos que vamos ao cinema. Venha, vai ser bom para você. Vai ter um monte de rapazes por lá. Lembra aquele Sig Tau que disse que gostava de você? Noah? Ele pode estar lá. Vamos. Por favor, venha com a gente. É nossa última chance. No próximo fim de semana não vai dar para ir por causa das provas finais, e depois iremos para casa para o fim de ano. E ninguém em casa vai querer ver Christmas Caper. Se eu sugerir uma ida ao cinema, minha irmã vai querer ver Meu malvado favorito de Natal com os filhos e vamos acabar passando a tarde toda no andar dos fliperamas, jogando Minion Mash e comprando girafas de pelúcia de Madagascar e raspadinhas de A era do gelo. Quando eu voltar para a escola, Christmas Caper terá saído de cartaz. E Jack não vai aparecer num toque de mágica e me levar para ver o filme, como prometeu. Se eu quiser ver na telona, tem que ser agora. — Tudo bem — falei. — Mas não vou com vocês para conhecer rapazes. Vou porque quero muito ver Christmas Caper. Entendeu? — Sim, é claro — respondeu ela, e pegou o celular para digitar alguma coisa. — Vou mandar uma mensagem para Kett e... — É sério — insisti. — Você tem que prometer que não vai mudar de ideia como na última vez, vamos realmente ao cinema. — Prometo — ela falou. — Nada de rapazes nem de comida antes do filme. — E nada de compras — acrescentei. Perdi Monsoon Gate porque Zara estava experimentando sapatos Polly Pepper na butique O diabo veste Prada. — Prometa. Zara suspirou. — Tudo bem, eu prometo. Juro. “Uma doce comédia romântica com muita ação!” — porcorn.com Apromessa de Zara significou tanto quanto as que Jack fez para mim. Ela começou a mandar mensagens de texto no segundo em que chegamos, e não estávamos nem na verificação preliminar de bolsas e celulares no Drome quando Kett disse: — Os caras da NWU que estão atrás de mim na fila acabaram de me pedir para perguntar a vocês se não queremos ir ver o elenco de A dinastia Bourne. Eles estão em projeção holográfica via Skype em cima da cabine da Universal. Zara olhou para mim esperançosa. — Podemos entrar na sessão das 12h10, em vez de ir na das 10h. — Ou na das 14h20 — sugeriu Kett. — Não — respondi. — Desculpe — Zara disse aos rapazes. — Prometemos a Lindsay que antes iríamos com ela ver Christmas Caper — E eles começaram imediatamente a falar com as garotas atrás do grupo na fila. — Não entendo por que não podemos escolher outra sessão — reclamou Kett quando passamos pela verificação de explosivos. — Porque, depois da projeção holográfica, eles iam querer jogar Skyfall ou comer no Harold ou no Kumar’s White Castle, e teríamos perdido as sessões das 14h20 e das 16h30 — respondi, e segui direto para a bilheteria assim que passamos pelos leitores corporais e de retina e entramos no Drome, ignorando a enxurrada de trailers e hologramas, anúncios e anões que distribuíam cupons de cookies gratuitos, vídeo games e sessões de autógrafos para hoje. — Achei que você ia comprar as entradas on-line antes de sairmos — comentou Zara. — Eu tentei — expliquei —, mas o filme está em pré-estreia, só vendem ingressos na bilheteria. — Deslizei o dedo pela lista de filmes na máquina de venda — Ripper: Mensageiro do Inferno 2, X-Force, The House on Zombie Hill, The Queen’s Consorte, Switching Gears, Just When You Thought You Were Over Him... Francamente, uma centena de filmes, e eles não são listados em ordem alfabética. Lethal Rampage, The Twelve Days of Christmas, Texas Chainsaw Massacre: The Musical, A StarCrossed Season, Back to Back to the Future, Wicked... Ah, aqui. Christmas Caper. Toco no botão dos ingressos, em “3” e insiro meu cartão. “Indisponível” apareceu na tela. “Os ingressos devem ser comprados na bilheteria.” Portanto, tínhamos que entrar na fila, uma das piores coisas quando se vai ao Drome. Considerando o tamanho do lugar e o número de pessoas esperando atendimento, era de se esperar que eles organizassem as filas em ziguezague, mas esse modelo é adotado apenas para as exposições. As filas das bilheterias se estendem pelo saguão do Drome, que tem o tamanho de um campo de futebol, atravessam o estádio de paintball Jogos Vorazes, a praça de alimentação Sem Reservas, a Última Casa Acolhedora de Wetawork’s, a varanda de realidade virtual e continuam por quase um quilômetro de butiques e lojas de suvenires. Levamos vinte minutos só para encontrar o fim, e nesse tempo quase perdemos Kett duas vezes, uma na Pretty in Pink — “Ai, meu Deus, eles têm sapatos de salto em cinquenta tons de cinza!” — e de novo quando ela viu que a Hope, Floats, Shakes and Cones estava vendendo sucos de cranberry. Zara e eu a arrastamos nas duas vezes para o fim da fila, que crescia sem parar. — Não vamos chegar ao cinema nunca — resmungou Kett. — Sim, vamos — falei confiante, mesmo sem ter certeza. Tinha muita gente na fila, mesmo que a maioria fosse de crianças que, obviamente, iam assistir a The Little Goose Girl, ou A felicidade não se compra versão Muppets, ou Dora, a aventureira em Duluth. Perguntei aos adultos mais próximos de nós, e a maioria ia ver A Tudor Af air ou Return to the Best Exotic Marigold Hotel; os outros vestiam camisetas Ironman 8. — Nós vamos entrar. — Acho bom — respondeu Kett. — Por que essa insistência em ver Christmas Caper, aliás? Nunca ouvi falar nesse filme. É comédia romântica? — Não. É mais uma aventura romântica de espionagem. Como Charada. Ou 39 Degraus. — Não vi trailer de nenhum dos dois — confessou ela, olhando para cima, para o luminoso da programação. — Ainda estão em cartaz? — Não. — Eu nem devia ter mencionado um filme antigo. Nesses tempos de relançamentos e remakes, ninguém assiste a nada que não tenha sido exibido na semana anterior. Exceto Jack. Ele gostava até de filme mudo. — É o tipo de filme em que a heroína acaba envolvida em um crime por acidente — expliquei —, ou em algum tipo de conspiração, e o herói é um espião, como em Salve-me quem puder, ou um repórter, ou um detetive que finge ser um criminoso, como em Como roubar um milhão de dólares, ou ele é um malandro... — Malandro? — repetiu Kett confusa. — Um rebelde — continuei —, um canalha, um pilantra como Michael Douglas em Tudo por uma esmeralda, ou Errol Flynn... — Também não vi trailer de nenhum desses — interrompeu ela. — Arrow Flin ainda está em cartaz? — Não — respondi. — Um malandro é um cara arrogante e sem nenhuma preocupação com regras ou leis... — Ah, um traste — resumiu Kett. — Não, um malandro é divertido, sexy, charmoso — corrigi, tentando desesperadamente pensar em um filme recente o bastante para ela poder ter visto. — Como o Homem de Ferro. Ou Jack Sparrow. — Ou Jack Weaver — Zara acrescentou. — Não — protestei. — Nada a ver com Jack Weaver. Para começar... — Quem é Jack Weaver? — perguntou Kett. — O cara por quem Lindsay era apaixonada — respondeu Zara. — Eu não era... — Espere — disse Kett. — Esse é o cara que pôs um bando de patos no gabinete do reitor no ano passado? — Gansos — corrigi. — Uau! — Kett exclamou, impressionada. — Você saiu com ele? — Por pouco tempo. Antes de descobrir que ele era... — Um malandro? — interrompeu Zara. — Não. Um traste. Ele foi expulso de Hanover uma semana antes de se formar. — Ele não foi expulso, na verdade — Zara explicou para Kett. — Saiu antes da expulsão. — Ou do processo criminal — falei. — Isso é bem ruim — opinou Kett. — Ele parece ser totalmente depravado! Queria conhecer Jack. — Talvez tenha sua chance — Zara falou com uma voz estranha. — Olhe! — E apontou para o saguão. E lá, apoiado a um pilar e com as mãos nos bolsos, olhando para cima, para o horário dos filmes, estava Jack Weaver. “Diversão emocionante! Faz o coração disparar!” — USA Today – Éele, não é? — perguntou Zara. — Sim — respondi em tom sombrio. — O que ele está fazendo aqui? — Como se você não soubesse — disparei. De repente entendi a insistência do convite para ir ao cinema. Ela e Jack combinaram um... — Ai, meu Deus! — Kett gritou. — Aquele é o cara de quem estavam falando? O... do que o chamou? — Idiota — respondi. — Malandro — disse Zara. — Sim, malandro. Não falou que ele era tão gostoso! Ele é demais! — Shhh — reagi, mas era tarde demais. Jack já tinha se virado e nos vira. — Zara, se você armou tudo isso, nunca mais falo com você! — Não armei, juro — respondeu ela, o que não significava nada, mas duas coisas me deixaram propensa a acreditar. Uma era que, apesar de a situação parecer um “encontro fofo” de filme, a expressão no rosto de Zara era de choque absoluto, e o motivo ficou claro alguns segundos mais tarde, quando um trio de Sig Taus, Noah entre eles, apareceu caminhando casualmente em nossa direção. — Uau! — disse Noah. — Não sabia que vocês também vinham ao Drome hoje. É claro, e Zara não mandou quinze mensagens de texto para ele enquanto estávamos na fila da verificação de segurança, pensei. Bem, pelo menos a presença de Noah impediria Jack de vir falar comigo. Se ele quisesse falar. Porque outro motivo para eu pensar que Zara não tinha nada a ver com a presença de Jack aqui era a cara dele. Jack não parecia apenas surpreso por me ver ali, mas desanimado. O que significava que eu estava certa. Ele não era um malandro, era um traste. E estava ali com outra garota, provavelmente. — Estou muito surpreso por ver você aqui, Lindsay — disse Noah, que nunca teria sido ator, nem mesmo nos filmes da saga Crepúsculo. — O que faz no Drome? — Nós três — enfatizei bem a palavra “três” — vamos ao cinema. — Ah — ele respondeu, e olhou para Zara, que reagiu com um olhar do tipo “Continue”. — Íamos comer alguma coisa na Cantina Mos Eisley e pensamos se não gostariam de ir com a gente. — Ah, adoro a cantina. — Kett suspirou. — Eu pago um daiquiri Darth Vader para você — Noah ofereceu. — Lindsay prefere Pimm’s Cups — disse Zara. — Não é? Olhei para o saguão na esperança de Jack não ter ouvido isso. Ele não estava lá. Também não estava no fim da fila, nem nas máquinas de venda de ingressos. Devia ter ido encontrar a nova namorada. Torci para que ela odiasse cinema. Noah estava dizendo: — Que diabo é um Pimm’s Cup? — Uma bebida de um filme — respondi. “Minha bebida favorita”, acrescentei em silêncio. Era, pelo menos. A bebida que Jack preparou para mim depois de termos assistido a Ghost Town — Um espírito atrás de mim e Téa Leoni ter dito que aquela era sua bebida favorita. — Podíamos almoçar e depois ir ao cinema, não é, Lindsay? — sugeriu Kett, olhando para Noah com adoração. — Acabei de receber por mensagem um cupom para o café da manhã no bar da Tiffany’s. — Não — falei. Zara lançou mais um olhar de incentivo para Noah e ele disse: — Talvez a gente possa ir ao cinema com vocês. O que vão ver? — Christmas Caper — respondeu Kett. — Nunca ouvi falar desse filme — declarou Noah. — É uma aventura de espionagem — explicou Kett. — Uma aventura romântica de espionagem. Noah fez uma careta. — Está brincando? Odeio comédia romântica. E se formos todos ver Lethal Rampage? — Não — respondi. — Podemos encontrar vocês na Cantina depois do filme — sugeriu Zara. — Ah, não sei — Noah resmungou, e olhou para os outros rapazes. — Estamos com fome. Eu mando uma mensagem — ele concluiu, e os três se afastaram. — Não acredito que fez isso — falou Zara. — Estava tentando ajudar você a esquecer o... — Aquele Noah é uma delícia — Kett interrompeu sem desviar os olhos dos rapazes. — É bom que esse filme seja ótimo. — É — Jack falou ao meu lado. — Oi. — O que está fazendo aqui? — perguntei. — Vou ao cinema — respondeu ele. — O que mais? — E se inclinou para mim. — Traidora — cochichou. — Prometeu que iria comigo assistir a Christmas Caper. — Você não estava aqui — expliquei com frieza. — Sim, sobre isso... desculpe. Aconteceu uma coisa. Eu... — O filme é bom mesmo? — Kett perguntou se aproximando dele. — Lindsay não falou sobre o que é. Só contou que tem um malandro na história. — Malandro. — Jack olhou para mim com a sobrancelha erguida. — Gostei. — E de “fracassado”, você gosta? — perguntei. — Ou “canalha”? Ele me ignorou. — Na verdade — disse a Kett —, ele é um agente secreto trabalhando em um caso, e é um caso confidencial, por isso ele não pode contar nada à heroína sobre o que está fazendo ou por que sai da cidade... — Bela tentativa — resmunguei, virando-me para Kett. — Na verdade, o tal malandro, que conta à heroína um punhado de mentiras, faz uma coisa tremendamente estúpida e depois desaparece sem dizer nada... — Por que não vem com a gente, Jack? — Kett interrompeu, olhando para ele sem esconder o interesse. — Ah, eu sou a Kett. Sou amiga de Lindsay, mas ela nunca me disse que você era tão... Zara se colocou entre eles. — Kett e eu queríamos ir encontrar um pessoal da Pi Kappa, Jack. — Nós... — Que Pi Kappas? — perguntou Kett. Zara a ignorou. — Íamos ao cinema com Lindsay só para fazer companhia, mas, agora que está aqui, você pode levá-la. — Eu adoraria — Jack respondeu franzindo o cenho. — Mas, infelizmente, não posso. — Ele pôs um bando de gansos no cinema onde está passando Twelve Days of Christmas — falei. — Ou foram perdizes desta vez, Jack? — Cisnes — ele respondeu rindo. — Trouxe oito no bolso. — É mesmo? — Kett exclamou. Como se fosse possível passar pela segurança com alguma coisa no bolso, ainda mais um bando de cisnes. — Isso seria muito “depravado”! — ronronou ela. — O que fez no gabinete do reitor foi incrível! Definitivamente, devia ir com a gente ver Christmas Caper! — Não tenho intenção de ir a lugar nenhum com Jack — anunciei. — Então eu vou. — Kett segurou o braço dele. — Nós dois podemos ir assistir ao filme. — Ah, bom, tenho certeza de que seria divertido — Jack respondeu, interrompendo o contato como se o braço dela tivesse arame farpado —, mas não vai acontecer. Não vamos entrar. Está esgotado. — Não está — argumentei apontando para o painel eletrônico. — Veja. — Agora não, mas vai estar quando chegarem à bilheteria. — Está brincando — falou Zara. — Depois de todo esse tempo na fila? — E de termos deixado de ir à Cantina com Noah — acrescentou Kett. — Não vai esgotar — declarei confiante. — Errado — insistiu Jack, apontando para o painel onde a palavra ESGOTADO começou a piscar ao lado de Christmas Caper. “Um mistério envolvente...” — flickers.com – Ah, não. — Zara gemeu. — O que fazemos agora? — Podemos ir ver A Star-Crossed Seasons — Kett falou para Jack. — Dizem que é muito bom. Ou The Diary. — Não vamos ver nenhum dos dois — falei. — A sessão das 12h10 de Christmas Caper está esgotada, mas as outras não estão. Ainda podemos comprar ingressos para a sessão das 14h20. — E esperar duas horas? — Kett gemeu. — Por que não almoçamos antes e compramos os ingressos depois? — sugeriu Zara. — Vamos ao Chocolat... — Não — interrompi. — Isto não vai virar outro Monsoon Gate. Vamos ficar bem aqui até comprarmos os ingressos. — E se você ficar na fila, Lindsay, enquanto nós vamos comer e trazemos alguma coisa para você? — tentou Kett. — Não. Vocês prometeram que iriam comigo. — Sim, e você prometeu que iria comigo, Lindsay — Jack lembrou. — Você furou comigo. — Não furei. Estou aqui, não estou? Além do mais, Kevin Kline furou com Meg Ryan em Surpresas do coração. Michael Douglas furou com Kathleen Turner em Tudo por uma esmeralda. Indiana Jones deixou Marion amarrada na barraca dos bandidos. Admita, isso é o que os malandros fazem. — Sim, mas não jogam o futuro no lixo por causa de uma brincadeira idiota. — Está falando dos gansos? Aquilo não foi brincadeira. — Ah, não? O que foi? — Vejo que vocês dois têm muito o que conversar — interrompeu Zara. — Não queremos atrapalhar. A gente se encontra mais tarde. Manda uma mensagem de texto. — E, antes que eu pudesse protestar, ela e Kett desapareceram na multidão. Olhei para Jack. — Não vou ao cinema com você. — Não mesmo — respondeu ele, e olhou para a bilheteria. — E também não vai entrar na sessão das 14h20. — Agora vai dizer que essa sessão também vai lotar? — Não, eles não costumam usar o mesmo argumento duas vezes. Desta vez vai ser alguma coisa mais sutil. Ingressos gratuitos para uma Apresentação Especial de Natal de A loja da esquina ou uma aparição do novo Hulk. Ou, já que gosta de malandros, do novo Han Solo. — Ele sorriu. — Ou eu. — Não gosto de malandros — respondi. — Não mais. E o que quer dizer com “não usam o mesmo argumento duas vezes”? Jack balançou a cabeça com ar desaprovador. — Sua fala não é essa. Devia dizer “Acontece que gosto de homens bons”, e então eu diria “Eu sou um homem bom”. — Ele se inclinou para mim. — E então você diria... — Isso não é O Império contra-ataca — disparei, me afastando dele. — E você não é Han Solo. — É verdade. Estou mais para Peter O’Toole em Como roubar um milhão de dólares. Ou Douglas Fairbanks em A máscara do Zorro. — Ou Bradley Cooper em The World’s Biggest Liar. Por que disse que também não vou entrar na sessão das 14h20? Fez alguma coisa no cinema? — Não, nada. Eu juro. — E levantou a mão direita. — Ah, sua palavra não é digna de confiança, é? — Na verdade, é. O problema é que... esquece. Juro que não tenho nada a ver com os ingressos esgotados para a sessão das 12h10. — Então como tinha tanta certeza de que estavam esgotados? — É uma longa história. E não posso contar aqui — acrescentou ele olhando em volta. — O que acha de a gente ir a algum lugar tranquilo e eu explico tudo? — Aliás, onde passou os últimos oito meses? E por que pôs aqueles gansos no gabinete do reitor? — Não. Desculpe, não posso até... — Até o quê? Até fazer a mesma coisa aqui? — Baixei a voz: — Sério, Jack, você pode se meter em encrenca séria. A segurança do Drome é... — Eu sabia — ele interrompeu, encantado. — Você ainda é louca por mim. O que acha de discutir tudo isso durante um almoço aconchegante, como Peter disse a Audrey em Como roubar um milhão de dólares? Tem um lugarzinho no Pixar Boulevard chamado Gusteau’s... — Não vou a lugar nenhum com você — anunciei. — Vou ver Christmas Caper na sessão das 14h20. Sozinha. — É o que você acha. “Veja as fagulhas entres esses dois!” — The Web Critic Jack se afastou antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer com “É o que você acha”, e não pude ir atrás dele para perguntar por medo de perder meu lugar na fila, então passei o resto do tempo de espera preocupada com a possibilidade de os ingressos se esgotarem para a sessão das 14h20 também, embora só houvesse cerca de vinte pessoas na minha frente, todas fossem assistir a outro filme e os luminosos ainda anunciassem a sessão com ingressos disponíveis. Mas havia mais três filas, e o vendedor do guichê na frente da minha parecia ter o cérebro de um personagem de Débi & Lóide. Ele demorava uma eternidade para dar o troco ou passar o cartão das pessoas e entregar os ingressos. Felizmente eu não queria ingresso para a sessão das 13h10. Não conseguiria de jeito nenhum. Cheguei perto do guichê depois de mais de meia hora, e aí o cara que estava três pessoas na minha frente não conseguia decidir se ia ver Zombie Prom ou Avatar 4. Ele e a namorada passaram uns bons dez minutos tentando decidir, depois o cartão dele não foi aprovado e tiveram que usar o da namorada, e ela teve que vasculhar a bolsa inteira para encontrá-lo, e foi tirando punhados de coisas para o namorado segurar enquanto ela procurava, e depois ficaram ali parados enquanto ela guardava tudo de volta depois de terem comprado os ingressos. Pensei que era exatamente sobre isso que Jack estava falando. E se estavam fazendo tudo de propósito para me impedir de entrar? “Não seja ridícula”, disse a mim mesma. “Está vendo conspirações onde não existem.” Mas eu ainda olhava ansiosa para o placar luminoso enquanto me aproximava da bilheteria, com medo de ver piscar o ESGOTADO no último minuto. Não aconteceu, e, quando pedi uma inteira para Christmas Caper, sessão das 14h20, o vendedor assentiu, passou meu cartão sem nenhum incidente, me entregou e ingresso e me disse para aproveitar o filme. — Eu vou — respondi determinada, e comecei a andar para a entrada do complexo das salas de cinema. Na metade do caminho, Jack apareceu andando ao meu lado. — Então? — perguntou. — Não estava esgotado, e eu não tive dificuldade nenhuma para comprar um ingresso. Viu? — E mostrei a entrada. Jack não estava impressionado. — Sim, e em Tudo por uma esmeralda eles encontraram o diamante — respondeu —, e Whoopi Goldberg conseguiu um contrato em Salve-me quem puder, e veja o que aconteceu. — Como assim? — Você ainda não está no cinema, e, se não entrar até 14h20, não vão deixar você entrar. Era verdade. Fazia parte dos procedimentos de segurança do Drome não deixar ninguém entrar no cinema depois do começo do filme, mas eram só 13h30. Disse isso a Jack. — Sim, mas a fila para entrar pode ficar muito longa, ou a fila da pipoca. — Não vou comprar pipoca. E não tem fila para entrar — respondi, apontando para o funcionário que esperava sozinho na entrada da sala para recolher os ingressos. — Agora. Você ainda não está lá. Uma horda de mulheres de meia-idade pode aparecer para ver o novo Cinquenta tons de cinza antes de você chegar lá. E, mesmo que entre na sala, o filme pode queimar... — O Drome não usa filmes. É tudo digital. — Exatamente, o que significa que pode acontecer alguma coisa com o equipamento. Pode ser contaminado por um vírus, ou o servidor pode dar pau. Ou alguma coisa pode disparar o alarme de segurança e provocar um estado de emergência no Drome. — Como gansos na sala de cinema? O que está aprontando, Jack? — Já falei, não estou aprontando nada. Só estou dizendo que pode não conseguir entrar. Na verdade, tenho quase certeza de que não vai. E, se não conseguir, estarei no Gusteau’s. — Não vai acontecer nada — falei, e comecei a percorrer a distância que ainda me separava da entrada da sala. O saguão ficava mais cheio a cada minuto: era uma multidão de crianças agitadas, adolescentes olhando seus celulares e famílias discutindo aonde ir primeiro. Eu me desviava de todos e esperava que uma fila não se formasse repentinamente na frente do funcionário, provando que Jack estava certo. Mas o funcionário continuava lá parado e sozinho, com cara de tédio. Entreguei a ele meu ingresso. Ele o devolveu. — Ainda não pode entrar. A sessão não acabou. Desculpe — disse, e estendeu a mão para pegar os ingressos de dois meninos de uns oito anos que pararam atrás de mim. Ele rasgou metade dos ingressos e devolveu o canhoto aos garotos. — Sala 76. Subam a escada até o terceiro andar e virem à direita. Os garotos entraram. Eu falei: — Não posso entrar e esperar no corredor até as pessoas saírem da sala? Ele balançou a cabeça. — É contra as normas de segurança. Não posso deixar ninguém entrar antes do fim do filme. — E quando isso vai acontecer? — Vou verificar — respondeu, e consultou os horários. — Às 13h55. Daqui a dez minutos. Se não quiser esperar... — Eu quero. — E me afastei para o lado para sair do caminho. — Desculpe, não pode ficar aí — avisou outro funcionário que apareceu do nada. — Está no lugar da fila para Dr. Who. — E começou a isolar o espaço com uma corda. Fui me apoiar na parede, mas várias meninas e seus pais já formavam fila para entrar na sala de The Little Goose Girl e o único banco perto da porta estava ocupado por uma mulher que tentava em vão convencer as três filhas a devolverem os óculos de realidade virtual. Elas gritavam. E esperneavam. Eu teria que aguardar no saguão. E esperava que Jack já houvesse ido para o Gusteau’s. Mas ele ainda estava lá. Estava em pé do lado de fora da entrada, com as mãos nos bolsos e um sorriso de “Eu avisei”. — O que aconteceu? — ele perguntou. — Nada — respondi, passando por ele. — A sessão das 12h10 ainda não acabou. — E você decidiu ter aquela conversa comigo, afinal. Ótimo. — Jack segurou meu braço e me levou pelo saguão na direção do Pixar Boulevard. — Podemos ir ao Gusteau’s e você me conta que desculpa o funcionário deu para não deixar você entrar, e por que não permitiram que esperasse perto da entrada. — Não tenho nenhuma intenção de contar nada — avisei, arrancando o braço da mão dele. — Por que contaria? Você não me contou que planejava ser expulso uma semana antes da formatura. — Sim, sobre isso. — Ele ficou sério. — Eu não ia me formar, na verdade. — É claro que não — concordei, aborrecida. — Por que não estou surpresa? Foi por isso que invadiu o gabinete do reitor, porque seria reprovado e queria tentar mudar suas notas? — Não. A verdade é que eu não estava... — Não estava o quê? — Não posso falar. É confidencial. — Confidencial! Chega. Não vou mais ouvir suas fantasias paranoicas. Vou ficar esperando perto da entrada até a sessão acabar e depois vou entrar, e, se você tentar me seguir, eu chamo a segurança. Voltei para perto da entrada atravessando um mar de Hobbits de manto e pés peludos, obviamente a plateia de The Return of Frodo, um grupo de senhoras a caminho de uma Sessão Nostalgia especial de Sex and the City, e o labirinto que era a fila de Dr. Who, que agora se estendia por dez metros até o saguão. Quando cheguei ao lugar onde pretendia esperar, não havia mais motivo para isso. Já eram duas horas. Aproximei-me do funcionário e entreguei meu ingresso. Ele balançou a cabeça. — Ainda não pode entrar. — Mas você disse que o pessoal da sessão das 12h10 saía às 13h55. — Sim, mas não pode entrar até o pessoal terminar de limpar a sala. — E quando será isso? Ele deu de ombros. — Não sei. Um cara vomitou em tudo. Eles vão levar pelo menos dez minutos para deixar tudo limpo. — E me devolveu o ingresso. — Por que não vai pegar alguma coisa para comer? Ou fazer compras de Natal? Tem uma liquidação de máscaras de dormir Inception na loja Sleepless in Seattle. “E Jack vai estar do lado de fora rindo”, pensei. — Não, obrigada — respondi, e me espremi entre as filhas de Dr. Who e Little Goose Girl para ir até o banco, esperando que a mãe e as meninas já houvessem saído de lá. Elas haviam saído, mas o banco agora era ocupado por um casal apaixonado que trocava beijos ardentes quase deitados. Passei por eles e fiquei em pé perto da parede, mas, quando cheguei lá, o casal já havia atingido o estágio proibido para menores de 18 anos e ia além. Pronta para enfrentar Jack e mais uma coleção de teorias da conspiração, voltei ao saguão. “Um presente para as plateias dos cinemas no Natal!” — silverscreen.com Jack não estava lá. Mas ele e Zara e Kett eram os únicos que não estavam no saguão. O lugar estava lotado de gente querendo guardar casacos, comprar ingressos e bebidas e olhando para os luminosos de trailers e horários das sessões. Eu era empurrada e espremida pela multidão que entrava e saía do complexo de salas e pelas crianças que queriam se aproximar dos personagens de Natal que andavam por ali, jogando doces e distribuindo panfletos que anunciavam as próximas atrações. Alvin, o Esquilo, me deu um cupom para uma torta de frutas secas gratuita no bar Sweeney Todd’s e um Grinch assustadoramente simpático me deu um cupom de 50% de desconto em uma camiseta de Twelve Dancing Princess no Disney Pavilion. Dei o cupom para uma garota new gótica e li uma mensagem de texto no meu celular, um aviso de que ganhei um ingresso gratuito para uma Apresentação Extra Especial de Ghost Town, e quase fui atropelada por um enorme Transformer marchando no meio da multidão, balançando os imensos braços de metal e quase batendo a cabeça no teto do saguão. Meio mergulhei, meio fui empurrada para fora do caminho dele pelo mar de gente, e o Transformer seguiu em frente até o outro lado do saguão. A multidão o seguia tirando fotos com os celulares, disputando as melhores posições, formando uma muralha impenetrável. Eu não conseguiria atravessar a área, não enquanto o Transformer não fosse embora. Não tinha importância — ainda faltavam quinze minutos até terminarem a limpeza. Virei para procurar um lugar onde pudesse esperar sem ser atropelada. Não o Gusteau’s, eu não queria ouvir Jack dizer “Eu avisei”. Nem o Sweeney Todd’s, era muito longe. Precisava de um lugar próximo para poder sair de lá no momento em que a multidão diminuísse, ou assim que eu visse a equipe de limpeza avisar o funcionário que a sala estava liberada, e tinha que ser algum lugar com uma fila pequena. Mas isso era praticamente impossível. O Zombie Juice estava ainda mais cheio que o saguão. O Starbucks de Stargate, que anunciava Mochas de Visco, tinha uma fila que encontrava a do Zombie Juice, e o Transformer aparentemente distribuía cupons para um Chá Transformer, porque o Tea and Sympathy, normalmente uma escolha certa, também estava lotado. E, definitivamente, eu não iria à Cantina, embora, a essa altura, quisesse beber alguma coisa. Mas Jack devia ter mandado aquela mensagem, o que significava que estava esperando na Cantina para me embebedar e me encher a cabeça de teorias da conspiração. Eu não iria lá. Restava um chocolate quente no Polar Express, que ficava logo depois do saguão e tinha uma fila de apenas duas pessoas, mas, mesmo assim, demorou uma eternidade. O cara no balcão queria um biscoito de gengibre e um latte de cravo, que a atendente não sabia preparar, então ele deu as instruções passo a passo, e depois a adolescente atrás dele não conseguia passar o cartão. Olhei para trás, para o saguão. O Transformer havia sumido, mas agora o zepelim de The Steampunk League flutuava sobre as máquinas de venda jogando cartões de presente e atraindo uma multidão. Se eu não fosse logo, o saguão ficaria ainda mais lotado do que durante a passagem do Transformer. Decidi pedir o chocolate para viagem e voltar, e comecei a caminhar para a porta. E tropecei no cara do biscoito de gengibre, que trazia de volta seu latte de cravo porque tinha pouco chantilly, e ele conseguiu derrubar toda a bebida em mim. Clientes se aproximaram com guardanapos e piedade, e a atendente insistiu para eu esperar enquanto ela ia buscar um pano molhado. — Tudo bem — falei —, estou com pressa. — Tenho ingresso para o cinema, preciso ir. — É só um segundo — falou ela, correndo de volta ao balcão. — Não pode ficar toda molhada desse jeito. — Está tudo bem — repeti, e comecei a andar. O homem do biscoito de gengibre segurou meu braço. — Insisto em pagar uma bebida para me desculpar. O que vai querer? — Nada. Preciso ir... — E a atendente voltou com o pano e começou a me limpar. — Não precisa, sério — falei, e a afastei de mim. — Não vai processar o Polar Express, vai? — ela perguntou aflita. “Sim”, pensei, “se eu perder o filme por sua causa.” — Não, é claro que não. Está tudo bem. Não foi nada grave. — Ah, bom. Se esperar um pouco, vou pegar um cupom para comer um scone de graça na próxima vez que vier aqui. — Não quero... — Quero pagar a lavagem da roupa, pelo menos — insistiu o homem, já com o celular na mão. — Se me der seu e-mail... — Pensando bem, acho que aceito a bebida. Um chá de hortelã. — E, quando ele se dirigiu ao balcão, saí correndo do Polar Express para a proteção da multidão, para o meio do saguão. Estava ainda mais cheio que antes, quando o Transformer aparecera. Fui atravessando o mar de gente com dificuldade, e felizmente eu não levava meu chocolate. Tinha que abrir caminho com as duas mãos, afastar casais e passar entre eles, empurrar crianças agitadas vestindo camisetas azuis de A Smurf Hanukkah e adolescentes fascinados com os trailers de House on Zombie Hill. Era como nadar em calda de açúcar, e tive a impressão de levar horas para chegar a um lugar de onde, finalmente, conseguia ver o funcionário na entrada do cinema. Agora havia uma fila na frente dele, mas não era para ver Dr. Who ou Little Goose Girl, cujos espectadores ainda esperavam nas filas labirínticas. Eu precisava chegar lá antes do fim dessas sessões ou nunca conseguiria entrar em Christmas... Alguém segurou meu braço. “Por favor, que não seja o Homem do Biscoito”, pensei ao ser puxada de volta para o meio da multidão. Não era. Era Papai Noel com um microfone e uma tropa de renas. — O que quer ganhar no Natal, menininha? — perguntou ele, e aproximou o microfone do meu rosto. — Chegar lá — respondi, apontando. — Ho ho ho. Que tal dois ingressos para a sessão das 15h25 de The Claus Chronicles? — Não, obrigada. Vou ver Christmas Caper. — O quê? Não quer assistir ao filme do Papai Noel? — Ele olhou para uma rena. — Ouviu isso, Prancer? — falou, elevando a voz para todo o saguão ouvir: — Temos um problema aqui. Acho que tenho que olhar minha lista de bonzinhos e maus, Blitzen. A lista apareceu, o Papai Noel pôs os óculos e deslizou um dedo pelo papel, enquanto eu olhava aflita para a entrada do cinema, onde a fila na frente do funcionário ficava maior a cada minuto. — Aqui está ela — finalmente anunciou Papai Noel. — Sim, definitivamente má. E o que damos às crianças más no Natal, Vizen? — Carvão! — gritou a multidão. Papai Noel tirou do saco de presentes um pedaço de alcaçuz. — Devo dar isto a ela ou vamos dar mais uma chance? Afinal, é Natal. — Carvão! — a multidão berrou, e Papai Noel teve que repetir a pergunta mais duas vezes para convencê-los a me oferecer os ingressos novamente. Dessa vez tive o bom senso de aceitar. — E aqui está um ingresso para a sessão das 14h30 de The Twelve Days of Christmas por ter demonstrado espírito esportivo — disse ele. — Feliz Natal, ho ho ho. E finalmente eu pude ir. Corri para a entrada, onde a fila na frente do funcionário havia desaparecido milagrosamente, e entreguei a ele meu ingresso. — Desculpe. — Ele balançou a cabeça. — Ainda estão limpando a sala? — perguntei, incrédula. — Não, mas você está atrasada. São 14h22. A sessão das 14h20 já começou. — Mas os primeiros quinze minutos são de trailers... — Desculpe. Regras do cinema. Ninguém pode entrar depois do horário de início da sessão. Acho que ainda consegue ingresso para 16h30. “Não”, pensei, “e sei quem é o responsável.” — Quer que eu verifique se ainda há ingressos disponíveis? — perguntou o funcionário. — Não, tudo bem. Esquece — respondi, e saí dali, atravessei o saguão e mergulhei na loucura do Drome para encontrar Jack. “Um grande filme! Não perca!” — Time Out Magazine Eu esperava que o Gusteau’s fosse um bar perto das boates e do Rick’s de Casablanca, mas não era, e, depois de consultar os mapas e um guia do Drome vestido de Frosty, o Homem da Neve, encontrei o lugar nas profundezas de Munchkinland, espremido entre a piscina de bolinhas Monstros S.A. e a sala de jogos Meu Malvado Favorito, ambas lotadas de crianças emitindo gritos ensurdecedores de alegria e/ou terror. O restaurante era uma réplica do bistrô francês de Ratatouille, com ratos no papel de parede e nas mesas. Jack estava sentado a uma mesa no fundo. — Oi — ele gritou no meio do barulho da piscina de bolinhas. — Não entrou, não é? — Não — falei em tom seco. — Sente. Quer beber alguma coisa? O Gusteau’s não é um bar para maiores, por isso não posso sugerir um Pimm’s Cup, mas que tal um mocha mouse? — Não, obrigada — respondi, ignorando o convite para sentar. — Quero saber o que está aprontando e por que me impediu de... — Ei, o que aconteceu? — Ele me interrompeu apontando minha blusa ainda molhada. — Não me diga que tropeçou em Hugh Grant carregando um suco de laranja, como em Um lugar chamado Notting Hill. — Não — falei por entre os dentes —, um latte com biscoito de gengibre... — E não deixaram você entrar por causa do código de vestuário do Drome? — Não, porque o filme já havia começado. Porque um cara com um latte e um biscoito de gengibre e um Papai Noel me impediram de voltar do Polar Express a tempo, como você bem sabe. Foi você quem os colocou lá. Essa é mais uma das suas brincadeirinhas de adolescente, não é? — Já disse que não foi brincadeira. — O que foi, então? — É... Lembra quando vimos Oceans 17, e houve uma invasão do cassino? Polícia, sirenes, helicópteros, serviço completo? Mas era tudo só uma distração, e o crime de verdade acontecia no banco? — Está dizendo que os gansos foram uma distração? — Sim. Como o Papai Noel. Como ele atrasou você? — Você sabe muito bem o que ele fez. Você o contratou para me impedir de entrar e para eu ter que ir com você. Mas não vai funcionar. Não tenho intenção de assistir a Christmas Caper com você. — Ótimo. Porque não vai. Não hoje, pelo menos. — Por que não? O que você fez? — Nada. Não sou responsável por nada disso. — É mesmo? — perguntei com sarcasmo. — E quem é? — Se você sentar, eu conto. Também explico por que a sessão das 12h10 estava esgotada, por que The Steampunk League mandou um zepelim naquela hora, e por que não conseguiu comprar os ingressos pela internet. — Como sabe disso? — Palpite. As máquinas de venda também não autorizaram a compra, não é? — Não — confirmei, e sentei. — Por que não? — Antes preciso saber uma coisa. O que estava fazendo no Polar Express? Quando saí de perto, você estava entregando o ingresso ao funcionário. — Ele não me deixou entrar. Um cara vomitou na sala. — Ah, sim, o bom e velho vômito. Sempre funciona. Mas por que não esperou lá na entrada? Contei a ele sobre as filas para Dr. Who e Goose Girl e sobre as pessoas no banco. — Aconteceu mais alguma coisa enquanto você esperava? Alguém mandou uma mensagem de texto oferecendo ingresso grátis para alguma coisa? — Sim. — Falei sobre a apresentação extra de Ghost Town. — E não vai me convencer de que não teve nada a ver com aquilo. Quem mais podia saber que Ghost Town era um dos meus filmes preferidos? — Quem, realmente? Quando estávamos na fila, você disse: “Isso não vai se transformar em outro Monsoon Gate.” Imagino que também não tenha conseguido entrar quando veio assistir a esse filme. Por que não? Aconteceu alguma coisa? — Não — respondi. E falei sobre Zara experimentando sapatos e como, por isso, perdemos a sessão das seis. — Depois ela leu um tweet falando sobre uma pré-estreia de Bachelorette Party... — O que me faz pensar que era esse o filme que ela queria ver. — Sim. Então decidimos entrar na sessão das dez, mas, quando fomos ver o tempo de duração do filme, ele só terminava... — Depois do último trem de volta a Hanover — concluiu ele movendo a cabeça. — Tem certeza de que não quer beber alguma coisa? Uma cerveja rato? Uma vanilla coke roedor? — Não. Aliás, por que estamos aqui? — perguntei olhando em volta. — Deve haver algum lugar aonde possamos ir e conversar sem ter que gritar. — Aqui e o Túnel do Amor são as únicas áreas que não estão sob vigilância. Podemos ir lá. Eu já havia estado no Túnel do Amor com Jack antes. — Não — recusei. — Ouvi dizer que tem atrações novas muito românticas. Anne Hathaway morrendo de tuberculose, Keira Knightley sendo atropelada por um trem, Edward e Bella pegando fogo na noite do casamento e ardendo até virarem cinzas... — Não vamos ao Túnel do Amor — anunciei. — Como assim, são só essas áreas que não estão sob vigilância? — Bem, não é necessário distrair as crianças para não verem A era do gelo 22. As crianças inventaram o tempo de atenção curto. Você, por outro lado, é muito determinada, daí o vômito. E o Homem do Biscoito de Gengibre. — Está dizendo que o Drome tentou me impedir de ver Christmas Caper? — Sim. — Mas por quê? — Tudo bem, para você saber como tudo começou, depois dos massacres de Batman e o Metrolux e Hobbit III, o público simplesmente desapareceu do cinema, e eles tiveram que pensar em um jeito de trazer as pessoas de volta, então transformaram os complexos em fortalezas onde as pessoas se sentem seguras para trazer os filhos pequenos e deixar os adolescentes. Mas, para isso, foi preciso introduzir todo tipo de segurança, detectores de metal, varreduras corporais completas, farejadores de explosivos, e isso significava que as pessoas tinham que ficar na fila por uma hora e quarenta e cinco minutos pra ver um filme de duas horas, o que só reduziu ainda mais o público. Quem quer ficar em uma fila quando pode ficar em casa e assistir aos filmes on-line em uma tela de noventa polegadas? Eles tinham que criar algo novo, alguma coisa realmente espetacular. — Os cinedromes — deduzi. — Isso. Ir ao cinema virou uma experiência de entretenimento de um dia inteiro em ambiente diversificado. — Como o Disneyverse. Jack assentiu. — Ou IKEA. Exibe muitos filmes. Uma centena, em vez dos vinte dos multiplex. E acrescenta muitas variações: 4-D, I-MAX, interativos, estreias no estilo Hollywood, celebridades, restaurantes temáticos, lojas, passeios, boates e espaços para jogar Wii. Nada disso era realmente novo. — Mas você disse... — Os cinemas nunca ganharam seu dinheiro com os filmes que exibiam. Eram só um acessório, um jeito de atrair o público para o local e comprar pipoca e jujubas a preços ultrajantes. Os Dromes só expandiram o conceito, a ponto de os cinemas se tornarem menos e menos importantes. Sabia que 53% das pessoas que vão aos Dromes nunca assistem a um filme? — Acredito — respondi, pensando em Kett e Zara. — E aquilo não foi um acidente. Durante as duas horas de exibição de um filme, você pode gastar muito mais que o preço de um ingresso e da pipoca. E, se fizerem você escolher um horário mais tarde, vai almoçar e jantar aqui, e ainda jogar mais tarde. Quanto mais tempo passar no Drome... — Mais eu gasto. — Isso. Então o Drome faz tudo que pode para que isso aconteça. — Quer que eu acredite que o Drome orquestrou tudo aquilo, os ingressos, o vômito, a mensagem e o aviso de sessão lotada, só para me fazer comprar mais coisas? — Não. Sabe aquele filme antigo que vimos, aquele em que o cara investigava o que parece ser um simples acidente de trem, mas não era um acidente? — Adoro problemas — falei prontamente. — Com Nick Nolte e Julia Roberts. Ela era repórter... — E ele era um malandro — Jack completou rindo. — De quem, se não me engano, Julia gostava muito. — Aonde quer chegar? — O acidente de trem era só a ponta do iceberg. Como Christmas Caper. Acho que existe uma grande conspiração... — Para me impedir de ver um filme? — Não você. Qualquer pessoa. E não só Christmas Caper. The Pimmsleys of Parson’s Court também, e Just When You Thought You Were Over Him, e Switching Gears, e talvez mais alguns. — Por quê? — Porque não podem deixar o público descobrir o que está acontecendo. Eu falei sobre as coisas que os Dromes usam para atrair pessoas, muito merchandise, as variedades de projeção e de filmes. — Sim. — Então, esse é o problema. Os velhos multiplex tinham quinze telas para ocupar. Os Dromes têm cem. — Mas eles exibem alguns filmes em várias salas. — Sim, e em 3-D, 4-D, em versões Wii, e ainda tem uma infinidade de sequências, remakes, relançamentos... — E Apresentações Extras... — E pré-estreias, e festivais de filmes, maratonas Harry Potter, mas, mesmo que acrescente filmes estrangeiros, Bollywood e reboots ruins de comédias românticas britânicas e mais remakes dos três, ainda é muita tela para ocupar. Especialmente quando a maioria das pessoas só quer ver The Return of Frodo. Lembra quando fomos ver Gaudy Night e éramos as duas únicas pessoas na plateia? — Sim. — É como a Baskin-Robbins. Eles anunciam trinta e um sabores, mas quem pede passas ou custard de limão? Pode ser baunilha com corante, pelo que a gente sabe. E isso vale para metade dos filmes dos Dromes. — Está dizendo que Christmas Caper não existe? — Acho que essa é uma possibilidade muito real. — Mas isso é ridículo. Nós dois vimos o trailer. Havia trechos sendo exibidos nos luminosos enquanto esperávamos na fila. — Três minutos de duração, trechos que podem ter sido filmados em um dia. — Mas por que anunciariam um filme que não existe? — Porque, caso contrário, alguém como eu, por exemplo, pode desconfiar. — Mas isso não pode dar certo. — É claro que pode. Muitas pessoas querem ver o último sucesso de bilheteria, e com um incentivo muito pequeno, como um anúncio de ingressos esgotados, você pode convencer 95% desse público a ir ver outra coisa. Ou almoçar no Babette’s Feast. — E os outros 5%? — Você acabou de ver. — Mas sessões de cinema esgotam, principalmente na época do Natal... — E pessoas vomitam, e derrubam bebida, e são assediadas por caras de fraternidade, e não podem ir à sessão das 22h20 porque ela acaba depois do horário do último trem de volta para casa. Mas a última sessão de todos os filmes que mencionei acaba depois do último trem, e tentei entrar em Switching Gears nos últimos cinco dias e não consegui. Que horas são? — Quatro. — Vamos — disse ele segurando minha mão e me puxando para levantar. — Temos que ir, ou vamos perder a hora de Christmas Caper. “Excitante, cheio de suspense e incrivelmente romântico!” — Front Row –Mas você disse que não existe — falei enquanto ele me arrastava para fora do Gusteau’s, — Não existe. Vem. — E me levou por Hogwarts e Neverneverland, e por um corredor de lojas que vendiam lembranças de Toy Story, O grande Oz e Filho do Rei Leão. — Este não é o caminho para as salas de cinema — protestei. — Antes temos que fazer compras — respondeu ele, me levando para a butique Princesas Disney. — Compras? Por quê? — Porque não podemos deixar a administração notar nossa presença, e o jeito mais certo de chamar atenção em um Drome é não gastar dinheiro — ele explicou, estudando as camisetas de uma arara de Enrolados. — Além do mais — continuou, passando para outra arara, essa cheia de moletons da Branca de Neve e os sete Anões —, este é um grande encontro. Precisa de alguma coisa especial para vestir. Alguma coisa que o coletor de ingressos não tenha visto. — Depois de olhar todas as peças da arara, ela passou à seguinte, cheia de tutus das Doze princesas dançarinas, que retirou e pendurou de novo. — O que está procurando? — perguntei. — Já disse. Alguma coisa especial. — Ele continuou procurando em outra arara. — E alguma coisa que não deixe você com cheiro de cozinha da sra. Noel. Ah, aqui está — anunciou, pegando uma camiseta amarela de Dora e Diego no Himalaia, com Diego apontando a câmera, sua marca registrada, para Dora e o macaco, que estão em pé no topo do monte Everest. — Só o ingresso. — Não vou usar — comecei, mas ele já havia posto a camiseta e um boné rosa brilhante da Little Goose Girl em minhas mãos. — Diga à balconista para desativar o alarme para você usar as peças agora e depois vá ao provador, tire a blusa e ponha a camiseta. Estarei na loja ao lado. — E me empurrou em direção à caixa. — E sem perguntas. Fiz como ele disse, tirei a blusa — sim, ele estava certo, o cheiro de biscoito de gengibre era forte — e pus a camiseta em cima da minha regata. Era apertada demais, o que, eu suspeitava, devia ser parte do plano, e parecia ainda pior em mim do que no cabide. — Podia ter escolhido alguma coisa bonitinha — reclamei quando o encontrei na loja ao lado, experimentando óculos escuros de Risky Business. — Não, não podia — respondeu ele. — O que fez com sua blusa? — Pus na sacola. — Bom. Vamos — ele disse, pegando a sacola da minha mão e me levando para fora da loja, de volta ao Gusteau’s, para uma lixeira. E jogou a sacola lá dentro. — Eu gostava daquela blusa — protestei. — Shh, quer assistir ao filme ou não? — perguntou Jack, me levando por um labirinto de artistas de balões, tatuadores a laser, carrinhos para crianças e lojas de brinquedos até o saguão. Ele parou um pouco antes do saguão. — Então, quero que vá àquele quiosque e compre um ingresso para Dragonwar. — Dragonwar? Mas pensei que íamos... — Vamos. Compre um ingresso para Dragonwar, depois... — Um ingresso? Ou dois? — Não, dois não. Vamos entrar separados. — E se a máquina avisar que tenho que comprar o ingresso na bilheteria? — Não vai acontecer. Quando entrar... — E se disserem que ainda não posso entrar? — Também não vão dizer — afirmou ele. — Quando entrar, vá à lanchonete, compre um saco de pipocas grande e um 7-Up grande com dois canudos e desça para a sala 17. — Sala 17? Mas Dragonwar está em exibição na sala 24. — Não vamos ver Dragonwar. Nem Au Revoir, Mon Fou, que é o filme em exibição na sala 17. Você não vai entrar em nenhuma sala. Vai ficar parada na porta da sala 17. Encontro você lá em dois minutos. — E promete que vamos ver Christmas Caper? — Prometo que vou levar você ao Christmas Caper. Pipoca grande — ele lembrou. — E 7-Up grande. Nada de Coca. — E puxou o boné da Little Goose Girl sobre meus olhos. — Sala 17 — repetiu, e desapareceu na multidão. “Baseado em uma história real... mas você não vai acreditar nela!” — At the Movies Ele estava certo. Ninguém me abordou, nem derrubou bebida em mim, nem me parou para oferecer um ingresso livre para You’re Under Arrest, e o funcionário na entrada nem olhou para a minha cara quando rasgou meu ingresso ao meio. — Sala 24 — ele disse, e apontou para a direita. — Fim do corredor — E olhou para um trio de crianças de treze anos, enquanto eu me afastava pelo corredor acarpetado. Não havia nem sinal de Jack, mas ele podia estar escondido em uma das entradas recuadas do cinema ou mais à frente, depois de uma curva à direita. Não estava. Fiquei na porta da sala 17 por mais de dois minutos e depois caminhei devagar para a sala 24, onde era exibido Dragonwar, mas ele também não estava lá. Ele foi pego tentando entrar e posto para fora, pensei, voltando à sala 17 e me plantando no recuo da porta. Esperei um pouco mais. Ainda nenhum sinal de Jack, nem de outra pessoa, exceto uma criança que saiu correndo da sala 30 para o banheiro, batendo a porta com um estrondo ao entrar. Esperei um pouco mais. Queria ver as horas no celular, mas segurava um enorme copo de 7-Up com um braço e um imenso saco de pipocas com o outro, o que me impedia de usar as mãos. Ouvi uma porta bater no corredor e olhei ansiosa na direção do barulho, mas era só o garoto correndo de volta para a sala 30, obviamente determinado a não perder um segundo do filme além do necessário. Tentei imaginar o que podia ser tão interessante. Dei alguns passos pelo corredor para ver o cartaz sobre a porta da sala. Lethal Rampage. E ao lado, no cartaz sobre a sala 28, Christmas Caper. “O elenco é incrível!” — Goin’ Hollywood Aquele rato! Jack me falou que o filme não existia, mas lá estava. E todos aqueles problemas que tive, todas as pessoas no meu caminho, não eram empregados do Drome contratados para me impedir de entrar na sala. Eram só espectadores como eu, e tudo que aconteceu não passou de uma série de coincidências. Não havia nenhuma conspiração. Quando vou aprender que não se pode acreditar em uma palavra do que ele diz? E, se ele estivesse ali, eu teria tido grande prazer em jogar o 7-Up — e as pipocas — sobre sua cabeça e ir embora. Mas, aparentemente, Jack foi pego e posto para fora do Drome. Se é que teve a intenção de vir. E eu fiquei, literalmente, segurando o pacote. E, agora que pensava nisso, Nick Nolte fez a mesma coisa com Julia Roberts em Adoro problemas, quando a mandou — o que mais poderia ser? — em uma missão tão idiota quanto caçar gansos. Com gansos de verdade. Jurei que o mataria quando o encontrasse e comecei a voltar à entrada, furiosa, mas parei para olhar a sala 28. Eu havia ido ao Drome para ver Christmas Caper, e estava bem ali, com a sessão das 16h30 prestes a começar a qualquer momento. E seria um bom castigo para Jack se eu fosse ver o filme sem ele. Voltei até a curva e perscrutei o outro lado para ter certeza de que ninguém — especialmente alguém da equipe de funcionários — ia me pegar entrando em uma sala diferente daquela para a qual comprara ingresso, e depois corri para a sala 28 e abri a porta. Não foi nada fácil, considerando as pipocas e o 7-Up, mas consegui abri-la o suficiente para segurá-la com o quadril enquanto passava. Estava escuro lá dentro. A porta fechou atrás de mim e fiquei lá na escuridão, esperando meus olhos se ajustarem. Eles não se adaptaram, apesar da luz fraca da tela, ou, se os trailers ainda não haviam começado, da iluminação do teto. E os corredores não deviam ter aquelas lâmpadas no chão, caso fosse preciso evacuar a sala? Ali não havia nada, e eu não conseguia ver nada. Fiquei ali na escuridão, ouvindo. Os trailers já haviam começado. Eu ouvia estrondos, estalos e música de efeito. Devia ser o trailer de um daqueles filmes de tiroteio como Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge, ou o reboot de Alien, e era por isso que eu não conseguia enxergar, e em um minuto, quando começasse um trailer diferente, haveria luz suficiente para eu enxergar o caminho. Mas, apesar de os sons mudarem para risadas e vozes abafadas, o corredor continuava completamente escuro. Eu teria que tatear pelo caminho, mas não tinha mão livre para apoiar na parede. Nem para pegar o celular e usar a luz da tela como lanterna. “Tudo isso é culpa do Jack”, pensei, parando para deixar o 7-Up no chão e pegar o telefone no bolso. Abri o aparelho e o segurei na minha frente. E entendi por que estava tudo escuro. O corredor seguia por mais alguns metros e virava bruscamente à esquerda num ângulo quase reto. Se eu tivesse continuado, teria batido com a cara na parede. “Eles estão pedindo por um processo”, pensei, tentando imaginar um jeito de segurar o celular e o copo de 7-Up. Não havia nenhum, o copo era muito grande, mas, se eu conseguisse passar pela curva, poderia enxergar com a luz da tela. Guardei o celular no bolso, tateei até encontrar e pegar o copo e continuei andando pelo corredor, contando os passos até a parede. — Quatro... cinco — sussurrava. — Seis, se... De repente fui agarrada bruscamente por trás, pela cintura. Gritei, mas outra mão já cobria minha boca, e ouvi a voz de Jack em meu ouvido. — Shh... aqui — cochichou ele me puxando pela parede, o que era impossível. “Um sucesso! Você vai ficar feliz por ter vindo!” — Variety Online Surpreendentemente, não derrubei o 7-Up nem o saco de pipocas. — O que pensa que está fazendo? — perguntei, lutando contra as mãos dele. — Shhh! — ele cochichou. — As paredes não são à prova de som. Derrubou as pipocas? — É claro que derrubei um pouco. Você quase me matou de susto! — Shhh. Escute, pode gritar comigo quanto quiser — cochichou ele —, mas espere a próxima cena de perseguição. E não pegue o celular. Não quero que a luz mostre onde estamos. Fique aqui — ordenou ele, e ouvi o ruído de uma porta deslizando, abrindo e fechando, e depois só o som de um pandemônio do outro lado da parede à minha esquerda. Era parecido com o que eu já tinha escutado antes e pensado ser o trailer de Christmas Caper, mas vinha da sala vizinha, o que significava que era Lethal Rampage. Eu não conseguia ver nada, nem mesmo o suficiente para entender o espaço à minha volta, mas esse corredor devia levar à sala de Christmas Caper, porque eu ouvia a voz anunciando “Estreia no Dia dos Namorados!” além da outra parede. Ótimo, ainda estavam passando os trailers. Não perdi o começo do filme. Teria tempo para dizer a Jack o que pensava dele por ter me agarrado daquele jeito e ainda chegar à sala antes das primeiras cenas. Se conseguisse encontrar a sala na escuridão, que ainda era completa. Jack voltou. Ouvi o barulho da porta. — Por sorte, você só derrubou dois punhados de pipocas — comentou ele em meio às explosões de Lethal Rampage. — Que eu comi. Por que demorou tanto? Tive medo de que o funcionário tivesse notado sua presença na sala errada; eu teria que voltar para resgatar você. — Onde eu estava? — reagi furiosa. — Estava do lado de fora da sala 17, onde você disse para eu ficar. Mentiu para mim... — Ninguém viu você na porta da sala 28, viu? — Não mude de assunto. Você... — Alguém viu? — Ele me segurou pelo braço e sacodiu o saco de pipocas. — Não — respondi, mal conseguindo ouvir. Entre explosões ensurdecedoras, o anunciante além da parede da sala de Christmas Caper avisava com voz abafada: “E agora nossa atração principal.” — Olhe, adoraria ficar aqui no escuro e brigar com você, mas pretendo assistir a Christmas Caper. Então, se puder largar meu braço, o filme vai começar. — Não, não vai — ele retrucou. E afagou meu braço. — Espere aqui — acrescentou, depois me soltou e se afastou de mim, e ouvi Jack fazendo alguma coisa, embora eu não pudesse dizer o que era, e então a parede na minha frente foi iluminada por um raio fino de luz, uma lanterninha. Pelo que consegui ver com aquela luz fraca, estávamos em uma passagem estreita como aquela do lado de fora, com carpete no chão e nas paredes e sem lâmpadas de orientação, mas era um corredor longo e estreito que acabava em uma parede, não na entrada da sala. Não havia nem sinal da porta por onde Jack havia passado, e ela tinha que estar naquela parede, porque ele havia tirado a jaqueta e estendido junto dela no chão. — Para impedir que a luz passe — explicou ele. — Que lugar é este? — perguntei. — Onde estamos? — Shhh — ele disse, aproximando um dedo dos lábios e sussurrando: — Vai começar a cena do beijo. — E devia ser verdade, porque o tiroteio e as explosões foram substituídos de repente por acordes de violino. Jack pegou as pipocas e o copo de 7-Up, percorreu metade do corredor na ponta dos pés, parou e deixou tudo no chão, depois levantou e ficou ouvindo com um dedo sobre os lábios. Aparentemente, o ataque havia recomeçado, porque os violinos românticos foram cortados bruscamente, substituídos por trombetas, muitos tambores e o barulho de motores em alta aceleração e pneus girando no asfalto. — Cena de perseguição — Jack anunciou se aproximando de mim. — Hora da ação. — Você disse que ia me contar que lugar é este. Cadê o cinema? — Eu vou contar tudo. Juro. Depois do que vamos fazer agora. Tire a camiseta. — Quê? — A camiseta. Tire. — Você não muda nunca, não é? — Texto errado. Devia dizer “tem certeza de que estamos planejando o mesmo tipo de crime?”, e eu responderia... — Isso não é Como roubar um milhão de dólares — interrompi. — Tem razão. É mais como Salve-me quem puder. Ou Adoro problemas. Tire. E depressa. Não temos muito tempo. — Não tenho a menor intenção de tirar a... — Calma. É para as fotos. Nesta passagem e na outra lá fora — anunciou ele ao me ver parada de braços cruzados. — A câmera que o garoto segura na estampa da sua camiseta não é só um desenho. Tem uma minilente digital nela. E foi por isso que ele olhou todas aquelas blusas na loja Princesas Disney. Estava procurando a camiseta com a câmera. — Por que não pode usar a câmera do seu celular? — Quando eles fazem a varredura na fila de segurança, confirmam suas informações nos bancos de dados da polícia e do FBI. — Onde você está por causa dos gansos — deduzi. — Por isso quis que eu viesse, para eu poder passar com a sua câmera. — É claro. É isso que fazem os malandros. Usam a garota para passar pela alfândega com o colar, para mandar a notícia para a mídia ou tirá-los da Alemanha Oriental. — Isto não é um filme! — Tem razão. Por isso preciso daquelas fotos. Então, vai me dar a camiseta ou quer que eu use a câmera enquanto ainda está com ela? — Tudo bem — respondi, e tirei a camiseta, entreguei a ele e fiquei ali furiosa usando apenas a regata, enquanto ele virava a camiseta do avesso, pegava a minúscula câmera digital e me devolvia a roupa. Eu a vesti enquanto ele tirava fotos do corredor, fazendo sinais para eu sair do caminho enquanto fotograva a parede atrás de mim. Jack fotografou a parede do fundo, por onde me arrastou para cá, e a do outro lado, e depois voltou para perto de mim e ficou ouvindo por um momento. — Já volto — avisou, e desligou a lanterna, trazendo de volta a escuridão antes de desaparecer no corredor. Ele sumiu pelo que pareceu uma eternidade. Colei o ouvido à porta, mas só conseguia ouvir tiros e gritos da sala de Lethal Rampage e música da outra sala. Ouvi atentamente, com medo de o barulho sumir a qualquer momento, mas não sumia, embora do lado de Rampage eu conseguisse escutar, em meio ao caos, o som de vozes abafadas. Torci para não ser o funcionário que recolhia os ingressos ou a segurança do Drome querendo saber o que Jack estava fazendo lá. E não devia ser, porque a porta abriu de novo e eu tive que recuar depressa quando Jack entrou e a fechou. — Consegue achar minha jaqueta? — sussurrou ele. Tateei em volta tentando achar a jaqueta, mas não consegui. Tirei a camiseta de novo e a entreguei para ele colocar junto da porta. — Obrigado — sussurrou Jack, e ligou a lanterna de novo depois de alguns segundos. — Conseguiu tirar as fotos? Ele me mostrou a minicâmera digital. — Sim. — Que bom. Você mentiu para mim. — Não menti. Além do mais, Jimmy Stewart mentiu para Margaret Sullivan, Peter O’Toole mentiu para Audrey Hepburn, Cary Grant mentiu para Audrey Hepburn. É o que fazem os malandros. — Isso não é desculpa. Prometeu que ia me levar para ver Christmas Caper. — E foi o que eu fiz. É isso. — Ele abriu os braços para mostrar a passagem. — Bemvinda à sala 28. — Isto não é um cinema. — Tem razão. Venha comigo. — Ele segurou minha mão e me levou ao local onde havia deixado as pipocas e o 7-Up. — Sente, vou explicar tudo. Sentei no chão, com as costas apoiadas na parede revestida de carpete, os braços cruzados numa atitude beligerante, e ele se sentou na minha frente. — Aquela passagem do lado de fora se divide em duas e vai para as salas dos dois lados — começou ele. — Se eu não tivesse puxado você para cá, teria feito a curva e entrado na sala 30, onde estão exibindo Lethal Rampage. E, se tivesse ido para o outro lado, teria entrado na sala 26 — e apontou a parede atrás dele —, onde está passando Make Way for Ducklings, o que você só teria descoberto depois de quinze minutos de trailers, quando descobriria que havia entrado na sala errada, iria falar com o funcionário e ele se desculparia, mas não poderia deixar você entrar porque a sessão de Christmas Caper já tinha começado, mas se ofereceria para conseguir ingressos para a sessão das sete. Esperto, não? — Mas por quê...? — Eles precisam manter uma última linha de defesa, caso um fã mais determinado passe por todas as barreiras anteriores. Isso raramente acontece, mas, de vez em quando, alguém faz o que você acabou de fazer: não consegue entrar, compra ingresso para outro filme e tenta entrar na sala que pretendia inicialmente. — Por que não fechar a sala, simplesmente? — Eles tentaram, e foi o que fez a gente desconfiar. Então criaram um plano alternativo. Que você vê na sua frente. — A gente? — estranhei. — Ops, quase esqueci. — Jack levantou e foi pegar a jaqueta, que vestiu antes de voltar procurando alguma coisa nos bolsos. — E agora, o que está fazendo? — perguntei. — Tentando resolver tudo isso antes de Lethal Rampage chegar a outro trecho tranquilo. — Franziu o cenho para o copo vermelho de Coca-Cola. — Comprou 7-Up, não é? Não é Coca? — É 7-Up. — E entreguei o copo. — Não vai fazer uma bomba de fedor com a bebida, vai? — perguntei, vendo Jack pegar um cantil e despejar um líquido marrom no refrigerante. — Não. — Ele continuou apalpando os bolsos até encontrar um copo comemorativo de Terminator 12 e um saco cheio de fatias de limão. Em seguida passou metade da mistura de 7-Up, líquido marrom e gelo para o copo Terminator, acrescentou uma fatia de limão e um ramo de hortelã que tirou do bolso sobre o peito, levou a mão ao bolso interno da jaqueta e pegou um caule de ruibarbo com um movimento teatral, enfiou o caule no copo, mexeu a mistura com ele e me deu o copo. — Seu Pimm’s Cup, senhora. — Como o que preparou na noite em que assistimos a Ghost Town — respondi sorrindo. — Bem, não exatamente. Esse tem rum, é a receita de Tom Cruise em Cocktail. E quando fiz o drinque de Ghost Town eu estava tentando levar você para a cama. — E o que está tentando fazer desta vez? Vai me embebedar para eu aceitar ajudar com alguma coisa ilegal? — Não. — Ele sentou do meu lado. — Não imediatamente, pelo menos. — O que não era uma resposta tranquilizadora. — Consegui as fotos, meu verdadeiro objetivo aqui, e foi graças a você e àquela camiseta horrível da Dora. — Jack levantou o copo vermelho para mim. — A probabilidade de ser pego saindo com elas é bem menor. Mas ainda é arriscado continuar investigando antes de tirar as fotos daqui. — E bebeu lentamente um gole do drinque. — Então, não devíamos ir embora? — perguntei. — Não podemos. Não até Lethal Rampage acabar e nos misturarmos ao público que vai sair da sala. Relaxe. Beba seu Pimm’s Cup, coma um pouco de pipoca. Temos... — Ele parou e ouviu o ruído do outro lado da parede por um momento — uma hora e quarenta e cinco minutos de espera. Tempo suficiente para... — Contar o que está acontecendo, como prometeu. Ou vai dizer que isso também é confidencial? — Na verdade, sim. E você já viu o que eles estão fazendo, anunciando filmes que não existem. — Mas por quê? Muitas pessoas nem se importam com a parte dos filmes. — Ah, mas se importam. Acham que têm uma centena para escolher, e é isso que os faz vir até aqui de trem e passar uma eternidade na fila da segurança. Acha que fazem tudo isso só para comprar um saco de pipocas e uma caneca superfaturada dos Vingadores? Quanto tempo acha que a Baskin-Robbins aguentaria se tivesse só três sabores, mesmo que fossem os mais populares? Suas amigas, por exemplo. Elas podem ter passado o dia fazendo compras, comendo e... — Conhecendo rapazes. — E conhecendo rapazes, mas, se amanhã alguém perguntar o que elas fizeram, vão dizer que foram ao cinema, e elas mesmas vão acreditar nisso. O Drome não vende pipocas, vende uma ilusão, uma ideia, uma tela gigantesca com imagens mágicas, sua namorada sentada a seu lado no escuro, romance, aventura, mistério... — Mas eu ainda não entendo. Tudo bem, eles têm que manter a ilusão, mas não é como se não tivessem nenhum filme. Você disse que só havia quatro ou cinco títulos que não existem, e eles já exibiram alguns filmes em mais de uma sala, Por que não exibir X-Force e The Return of Frodo em mais de uma sala, em vez de inventar filmes? — Porque já estão exibindo X-Force em seis salas, e a Startruck acabou de anunciar que está construindo uma cadeia de Superdromes de 250 telas. Além do mais, não acredito que o público que vai ao cinema é o único que estão tentando enganar. — Como assim? — Bom, se você é uma companhia cinematográfica, isso pode ser vantajoso. Se a produção do seu filme atrasa, ninguém é multado ou demitido por atrasar a estreia. Você lança o filme do mesmo jeito, depois, quando termina de produzi-lo, grava em DVD e distribui, e ninguém percebe nada. O que, aliás, aconteceu com Monsoon Gate, e acho que provavelmente aconteceu com Christmas Caper. Não podem lançar um filme de Natal em fevereiro. Ele tem que estrear em dezembro ou vai perder a oportunidade. — O que significa que ele pode aparecer na internet em alguns meses — deduzi. — Sim, e, se isso acontecer, eu vejo com você, prometo. — Acha que foi isso que aconteceu com os outros filmes? — Não. The Ripper Files nunca foi lançado, nem Mission to Antares ou By the Skin of Our Teeth. E por que gastar milhões fazendo um filme se pode fazer só um trailer de três minutos, pagar aos Dromes para impedir a entrada das pessoas nas salas e embolsar a diferença? Os acionistas nem precisam saber. — O que seria uma fraude. — Já é fraude. E propaganda enganosa. Há leis contra vender produtos que não existem. — E é por isso que não vendem os ingressos on-line. Mas, se eles são criminosos, o que você está fazendo não é perigoso? — Não se não souberem que estou fazendo. E é por isso — continuou, baixando a voz — que precisamos ficar aqui quietos, comendo nossas pipocas e assistindo ao filme. — Ele se aproximou de mim. — Sobre o que é o filme? — Um cara está investigando uma conspiração quando a antiga namorada dele aparece. É a última coisa de que ele precisa. Ele tem que ficar invisível... O que explica por que ficou tão desanimado quando me viu, pensei, e me senti mais leve. — E ele sabe que tem que se afastar antes que a garota estrague seu disfarce, mas ela já acredita que ele é... — Um malandro? — Eu ia dizer “idiota”. — Malandro — repeti com firmeza —, e ele precisa dela para ajudá-lo a passar pela segurança com alguma coisa, como Kevin Kline em Surpresas do coração. — Exatamente. E ele tem coisas para dizer a ela, por isso recruta sua ajuda e, ao longo da investigação, ele a convence a perdoá-lo, como Olivia de Havilland perdoa Errol Flynn e Julia Roberts perdoa Nick Nolte e Whoopi Goldberg perdoa... — Jack, é isso o que fazem as namoradas dos malandros. — Exatamente — ele concordou. — E é por isso que deveria... — Shh — interrompi. — O que foi? — Jack cochichou. — Cena do beijo — respondi, e apaguei a lanterna. “O que há de mais divertido nos cinemas!” — moviefone.com – Quanto tempo tem Lethal Rampage? — perguntei um bom tempo depois. — Acho que estou ouvindo a música da cena final. Ele se levantou sobre um cotovelo e disse: — Sim. — E voltou a beijar meu pescoço. — Mas não temos que sair daqui antes do fim? — Sim, mas está esquecendo que é um sucesso de Hollywood. Lembra quando vimos o reboot de Velocidade máxima, como a gente pensou várias vezes que estava acabando e não estava? Ou O retorno do rei? Esse pareceu ter sete fins. Lethal Rampage ainda tem mais três cenas finais. — Ah, bom — murmurei, e me aninhei em seu ombro. Um momento depois ele sentou, pegou a jaqueta, tirou o celular do bolso e abriu o aparelho. — Pensei que não tivesse celular — comentei, e também sentei. — Não tenho um que eu quisesse que fosse pego ao usá-lo para fotografar — explicou Jack olhando para a tela. — Mudança de planos. Preciso cuidar de uma coisa. — Começou a abotoar a camisa. — Espere a próxima explosão, então volte à passagem e aguarde a saída de Lethal Rampage. E não deixe nada para trás. Assenti. — Quando chegar ao saguão, vá para um dos cafés, não o Polar Express, peça uma bebida, mande mensagens para suas amigas e espere alguns minutos antes de tentar ir embora. Vai ficar tudo bem. Ele segurou minhas mãos e me fez ficar em pé. — Escute, não posso ligar nem mandar tweets, a conexão pode ser rastreada, então pode demorar um pouco até eu entrar em contato. Até agora, só provei que existe uma passagem isolada entre as salas e alguma atividade suspeita. Ainda preciso provar que os filmes não existem, o que terei que fazer em Hollywood. — Ele hesitou. — Não gosto de deixar você aqui desse jeito. — Mas Peter O’Toole deixou Audrey Hepburn em um armário e Kevin Kline deixou Meg Ryan em Paris sem passaporte — falei, e o segui até a outra ponta do corredor. — E agora acho que tenho que dizer “Tudo bem, vá”, e você me beija, e eu fico parada na porta como Olivia, vendo você se afastar com os cabelos esvoaçando ao vento que tem o cheiro do mar? — Exatamente. Mas, neste caso, o cheiro é de óleo rançoso de pipoca, e não podemos deixar a porta aberta. Vai entrar muita luz. Mas o beijo eu posso garantir. Ele me beijou. — Viu? — disse em seguida. — Você gosta de malandros. — Gosto de homens bons. Como vai sair do Drome sem ser pego pela segurança? — Eu vou ficar bem. Escute, se tiver algum problema... — Não vou ter. Vá. Ele me beijou de novo, abriu a parede e passou por ela, mas voltou quase imediatamente. — Aliás, sobre os gansos e aquela história da formatura. Lembra em Como roubar um milhão de dólares como Peter O’Toole diz a Audrey Hepburn que não é um ladrão, mas um especialista em segurança com “graduação avançada em história da arte e química e diploma com distinção da Universidade de Londres em criminologia avançada”? — Sim — respondo. — Vai me dizer que tem graduação avançada da Universidade de Londres. — Não, Yale. Em fraude contra o consumidor — ele anunciou, e sumiu, me deixando com a tarefa de recolher o lixo e todos os rastros incriminadores só com a luz quase inútil do meu celular. Depois voltei à passagem, fechei a porta sem fazer barulho e fiquei no corredor que levava à sala ao lado, esperando o filme acabar. “Uma experiência cinematográfica que deixa um gosto de quero mais!” "Aprovado com entusiasmo!” — rogerebert.net Ele estava certo sobre Lethal Rampage. Foram mais vinte minutos de filme, tempo suficiente para eu ter certeza de que a porta estava completamente fechada, sem frestas reveladoras, dar mais uma olhada em possíveis pipocas caídas e depois me encostar na parede do corredor e ouvir uma sinfonia de estrondos, tiros e explosões antes de as luzes acenderem e as pessoas começarem a sair, e então me misturar a elas sem ser notada. Foi mais fácil do que pensei. Todo mundo estava mais interessado em ligar o celular e reclamar do filme; ninguém prestou atenção em mim. Lethal Rampage era tão ruim quanto soava através de uma parede, aparentemente. — Que droga de enredo — disse um menino de doze anos. O amigo concordou e acrescentou: — Odiei o final. Eu também, pensei, melancólica. Andei atrás deles pelo corredor ouvindo a conversa para poder falar sobre o filme, caso alguém me perguntasse alguma coisa. Como o coletor de ingressos, por quem eu ainda tinha que passar. Ele lembrava que entrei para ver Dragonwar, não Lethal Rampage? Talvez eu devesse voltar à sala 17 e sair com a plateia de Dragonwar. Mas, se as pessoas já tivessem saído, eu teria que passar pelo coletor de ingressos sozinha, e ele certamente me notaria. E se algum outro funcionário me visse voltando e concluísse que eu estava tentando entrar sem pagar para ver outro filme? Melhor continuar ali mesmo. Parei um pouco antes da porta, fiquei ao lado de uma lata de lixo até um grupo de colegiais passar, então joguei fora o saco de pipocas e o copo e saí com eles. E foi ótimo, porque havia uma equipe de limpeza parada do lado de fora da porta com seu material de trabalho, esperando a sala esvaziar, e todos pareciam estranhamente alertas. Fiquei bem perto dos colegiais e saí com eles, me inclinando sobre o celular e fingindo mandar uma mensagem como todos faziam, e permaneci com o grupo até nos misturarmos com o público de Piratas do Caribe 9, que havia acabado de sair da sala. Pelo que ouvia, Piratas não era muito melhor que Lethal Rampage, e me ocorreu que me diverti mais que qualquer um deles, apesar de não ter visto nenhum filme. A conclusão desse pensamento foi varrida por um bando de gente descendo a escada das salas do andar de cima, e tive que me concentrar em não perder o equilíbrio quando o mar de pessoas passou pelo coletor de ingressos e saiu para o saguão não menos lotado, que, vi aliviada, não estava cheio de seguranças e sirenes. Jack deve ter saído em segurança. Mas, caso ele ainda estivesse em algum lugar do Drome, eu precisava fazer de tudo para impedir que alguém suspeitasse. O que significava me afastar do grupo de colegiais e entrar na fila para comprar ingresso para a próxima sessão de Christmas Caper. Se ainda tentava entrar, obviamente não sabia que o filme não existia. Os colegiais tentavam decidir onde iam comer. — Enquanto vocês decidem, vou pedir um bolo — falei para o que estava mais perto, que nem desviou os olhos do smartphone, e fui confirmar o horário da próxima sessão, que deveria ser 18h40. Mas não era. Era 19h30, e depois dessa havia uma às 22h. Olhei para o painel por muito tempo, contemplando o que isso significava, depois tentei encontrar o fim da fila da bilheteria. A fila era dez vezes maior do que quando chegamos, dava voltas até chegar ao Death Star Diner e quase não se movia. Felizmente eu não queria entrar de verdade. Não chegaria nem à metade do caminho para a bilheteria antes do horário do último trem para casa. Quanto tempo precisava passar ali? Jack havia dito que não era seguro usar o telefone, mas talvez ele pudesse pegar um aparelho emprestado e me mandar uma mensagem de texto, então liguei o telefone e olhei as mensagens. Nenhuma dele, mas havia quatro de Zara, todas perguntando onde eu estava, exceto a última, que dizia: “Se não respondeu, deve ter entrado. Como foi o filme?” Eu precisava responder, mas só quando a fila andasse o suficiente para não parecer que eu havia acabado de entrar nela. Não queria que ela perguntasse o que eu havia feito durante todo esse tempo. Zara era rápida demais para deixar de perceber a ligação com Jack. Desliguei o celular e fiquei ali parada, dando um passo adiante esporadicamente, pensando na mensagem de Zara. “Como foi?” Ótimo, pensei, e me lembrei daqueles garotos reclamando de Lethal Rampage e de como pensei que havia me divertido mais que eles, sem nem ir ao cinema. E como eu sabia que não era isso que eu havia acabado de viver, uma tarde no cinema? Que não havia participado de uma aventura romântica de espionagem planejada por Jack, que sabia quanto eu queria acreditar que ele havia tido um bom motivo para sumir sem me dizer nada, e que me ouvira reclamar muitas vezes de ter ido ao cinema com Zara e Kett e não ter visto o filme? Podia haver muitas razões para aquela passagem existir. Podia ser um atalho entre as duas salas para o responsável pela projeção, ou uma rota obrigatória para evacuação em caso de incêndio, e Jack se apoderou do espaço para fazer dele seu Túnel do Amor particular. Ele podia ter subornado o coletor de ingressos para me dizer que eu não podia entrar e colocar o cartaz de Christmas Caper sobre a porta da sala 28 depois de as pessoas terem entrado para assistir Make Way for Ducklings. E as outras coisas, o vômito, o latte de biscoito de gengibre e o Papai Noel, tudo isso podia ter sido coincidência, e Jack simplesmente as fez parecer uma conspiração. “Não seja ridícula”, disse a mim mesma. “Acha mesmo que ele teria todo esse trabalho só para levar você para a cama?” “É claro que sim. Pense em todo o trabalho que ele teve só para fazer uma brincadeira com o reitor.” E tudo havia sido parecido com o enredo de Como roubar um milhão de dólares ou Adoro problemas, inclusive com espiões, trapalhadas, um casal separado forçado a conviver em um ambiente confinado e um herói que mentia para a heroína. E acreditar que era uma farsa fazia muito mais sentido que acreditar que uma enorme conspiração de Hollywood estava por trás desse Cinedrome decorado para o Natal. “Isso não é uma conspiração”, pensei. “Você foi enganada, só isso. De novo. Christmas Caper é exibido agora nas salas 56, 79 e 100. E Jack desapareceu para planejar outra palhaçada, ou seduzir outra garota tonta, enquanto eu fico aqui nesta fila estúpida tentando protegê-lo de um perigo que nem existe.” Olhei para trás, para o fim da fila, que estava a apenas doze pessoas de mim. Ainda não conseguira mandar uma mensagem para Zara, mas por um motivo diferente agora: ela não pode descobrir quanto eu fui idiota. Então continuei onde estava, pensando em como foi fácil para Jack subornar um funcionário para anunciar a sessão esgotada no painel, da mesma forma que ele subornou um fazendeiro para soltar aqueles gansos. E pagou alguém para me impedir de atravessar o saguão. E pensando como, quando descobri que Christmas Caper estava esgotado, eu devia simplesmente ter ido ver A Star-Crossed Season. Três calouros de Hanover se debruçaram sobre a barreira para falar com as garotas na minha frente na fila. — O que vão ver? — perguntou um deles. — Não decidimos — respondeu uma das garotas. — Talvez Jogos mortais 7. Ou A StarCrossed Season. — Não! — gritou o trio, e o rapaz do meio disse: — Acabamos de ver. É um porre! “Vale a viagem!” — comingsoon.com Esperei mais dez minutos, tempo em que percorri cerca de trinta centímetros, e liguei para Zara. — Onde estava? — ela perguntou. — Mandei várias mensagens. — Mandou? — respondi. — Não recebi. Deve ter alguma coisa errada com meu celular. — E onde está agora? — Onde acha que estou? Na fila. — Na fila? Ainda não viu Christmas Card? — Caper — corrigi. — Não, ainda não. As três sessões da tarde esgotaram antes de eu chegar à bilheteria, estou tentando comprar ingresso para a sessão das sete. — Onde você está, exatamente? Eu contei. — Estou indo para aí — respondeu Zara, mas não acreditei. Seriam necessários pelo menos vinte minutos para ela e Kett se livrarem dos rapazes, e no caminho para cá ela pararia para ver o vestido que Zoe Deschanel usou em Son of Elf ou para conhecer outros rapazes, e a essa hora eu esperava estar adiantada o bastante na fila para dar a impressão de que não saíra dela desde 12h10. Mas ela apareceu quase imediatamente, e sozinha. — Só andou isso? O que aconteceu com Jack? — perguntou. — Não faço ideia — falei. — Onde está Kett? Zara revirou os olhos. — Ela mandou uma mensagem para Noah e os dois foram para o Dirty Dancing Club. Ele contou onde esteve durante todos esses meses? — Quem? Noah? — Engraçadinha — disse Zara. — Não. Jack. — Não. Na cadeia, provavelmente. — Isso é terrível. — Zara balançou a cabeça com tristeza. — Tinha esperança de que vocês pudessem voltar. Quero dizer, sei que ele é meio... Malandro, pensei. — ...idiota — continuou Zara —, mas o cara é uma delícia! Isso é verdade, pensei. — O que vai fazer agora? — perguntei para mudar de assunto. — Não sei — ela disse, suspirando. — Este passeio foi um fracasso. Não conheci ninguém nem mais ou menos, e não achei nada para dar de presente para minha família no Natal. Acho que eu devia ir até a loja Pretty Woman ver se eles têm alguma coisa de que minha mãe possa gostar, mas talvez eu veja Christmas Caper com você. Que horas é a próxima sessão? — Sete. Ela olhou as horas no celular. — Já são 18h30 — disse, olhando para a fila na nossa frente. — Não vai dar tempo. — E qual é a próxima sessão depois dessa? — perguntei a ela. Mas, antes que Zara pudesse responder, Kett apareceu, aborrecida. — O que aconteceu com Noah? — quis saber Zara. — Está na sala de primeiros-socorros. — Primeiros-soc... — Ele teve um sangramento nasal. Disse que queria me levar para dançar, mas a verdade era que ele queria me inscrever no concurso da camiseta molhada, o cretino. Então, o que rola? — Lindsay continua tentando ver Christmas Caper — disse Zara. — Quer dizer que ainda não conseguiu? — espantou-se Kett. — Caramba, há quanto tempo está na fila? — Uma eternidade — respondeu Zara por mim, olhando o celular. — E com certeza não vai entrar na sessão das sete horas. Aqui diz que está esgotada. — Ela desceu a tela. — E a próxima sessão é às dez — e desceu mais —, e só acaba depois da saída do último trem para Hanover, o que significa que também não vai poder entrar nessa. — Caramba — repetiu Kett. — Passou todo esse tempo na fila para ver um filme que não vai ver. Valeu a pena passar o dia inteiro atrás disso? Ah, sim, pensei. Porque, com ou sem mentiras, com ou sem falsidade, ainda foi a melhor tarde no cinema que tive em muito tempo. Muito melhor que se eu houvesse ido assistir a A Star-Crossed Season. Ou Lethal Rampage. E muito melhor que ficar andando, procurando botas Black Widow e macacões Silver Linings Playbook, como Zara, ou lidando com cretinos, como Kett fez. Ao contrário delas, tive uma tarde ótima. Teve de tudo — aventura, suspense, romance, explosões, perigo, diálogos absurdos, cenas de beijo. Uma perfeita tarde de sábado no cinema. Com exceção do final. Mas talvez ainda não tivesse acabado. Jack prometeu assistir Christmas Caper comigo, se o filme algum dia for lançado. E, imediatamente antes do fim de Salve-me quem puder, Jack deixa Whoopi Goldberg sentada esperando por ele em um restaurante. Michael Douglas deixou Kathleen Turner abandonada em um parapeito. Han Solo deixou a Princesa Leia na lua rebelde. E todos voltaram, como disseram que fariam. É claro, Jack também me disse que era formado em Yale e estava investigando uma enorme e poderosa conspiração, e que colocar aqueles gansos no gabinete do reitor não fora uma brincadeira. Mas nem tudo que ele disse era mentira. Ele falou que adorava filmes, e isso era verdade. Ninguém que não amasse cinema seria capaz de criar um roteiro tão perfeito. E mesmo que ele tivesse inventado todo o resto, mesmo que fosse o malandro que eu temia que fosse e eu nunca mais o visse, ainda havia sido uma tarde incrível no cinema. — Então? — Kett perguntou. — Valeu a pena? Você não fez nada. — Não comi nada — respondi, e saí da fila. — Vamos procurar um sushi, ou alguma coisa. Até que horas o Nemo fica aberto? — Vou ver. — Kett pegou o celular. — Acho que fica aberto até... Ai, meu Deus! — O que é? — perguntou Zara. — Aquele cretino do Noah mandou uma mensagem obscena? — Não — Kett respondeu, estudando a agenda de telefones. — Não vão acreditar nisso. — Ela bateu o dedo em um número e levou o celular ao ouvido. — Oi — disse. — Recebi sua mensagem. O que aconteceu?... Mentira!... Ai, meu Deus!... Tem certeza? Que canal? Ah, não, pensei, mesmo já tendo decidido que ele havia inventado tudo. Prenderam Jack. Eles o pegaram com a minicâmera. — Meu Deus, o que é? — Zara se inquietou. — Espere — disse Kett ao telefone, e apertou o celular contra o peito. — Devíamos ter ficado em casa. Perdemos toda a agitação. Jack voltou ao campus para deixar um recado para mim, pensei, e a polícia do campus o pegou. — Que agitação? — Zara ficou nervosa. — Fale! — Margo está dizendo que tem várias equipes da televisão e muitas viaturas com as luzes ligadas em torno do prédio da administração, e há alguns minutos o dr. Baker contou a ela que o reitor foi preso. — O reitor? — repeti. — Por quê? — Zara perguntou. — Não sei — respondeu Kett. Depois digitou no celular por um minuto e finalmente disse: — Margo falou que tem alguma coisa a ver com desvio de verba federal para empréstimo estudantil contratado por alunos que não existem. Parece que está em todos os jornais. — Ela começou a mudar de tela para achar a cobertura. — O reitor diz que é tudo um grande engano, mas, aparentemente, a divisão de fraude contra o consumidor do FBI está investigando o caso há meses, e eles têm todas as provas. Aposto que sim, pensei, lembrando que Jack disse que tinha que ir, que alguma coisa havia acontecido, e que os gansos haviam sido uma boa ideia. No meio de todo o caos e da confusão, ninguém teria pensado em verificar o gabinete do reitor para ver se alguma coisa havia desaparecido. — É mesmo? — perguntou Kett ao telefone. Depois cobriu o aparelho com a mão. — Margo disse que o lugar está fervilhando de agentes do FBI. — Aqui está — Zara anunciou, virando o celular para eu poder ver a tela, onde se viam muitos oficiais de polícia e agentes do FBI, e repórteres tentando tirar uma foto do reitor enquanto ele era conduzido pela escada para uma viatura. Não havia nem sinal de Jack. — Eles ainda estão aí? — perguntou Kett. E depois, em tom sombrio: — Ah. — Olhou para nós. — Ela diz que não adianta a gente ir para casa. Já acabou. Não acredito que perdemos tudo isso. — Principalmente os agentes do FBI — provocou Zara. — Certo — Kett confirmou. — E enquanto isso eu aguentava um cretino. — E eu ainda não tenho um presente para minha mãe — lembrou Zara, e olhou para mim. — E você não conseguiu ver seu filme, depois de eu ter prometido que iria. — Tudo bem. — Podemos tentar a sessão das 21h30 — sugeriu Zara —, e saímos antes do final. Assim pode ver pelo menos uma parte do filme. — E perco o final? — respondi, pensando em Tudo por uma esmeralda, em que Michael Douglas volta quando Kathleen Turner menos espera, e em Surpresas do coração, em que Meg Ryan já está no avião, e em Salve-me quem puder, em que ele finalmente aparece na última cena e é tão maravilhoso quanto ela imaginava que fosse. — Não, tudo bem — eu disse, fazendo força para não sorrir. — Eu vejo quando o filme for lançado na internet. 

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