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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 65

COMEÇANDO A ACREDITAR


Lugar: esquina da rua 12 com a Quinta Avenida, Manhattan. Hora: 8h24 da manhã – hora do rush matinal. Robô: três metros e meio de altura, estremecendo o chão a cada passo, o rosto gigantesco, uma imagem destorcida do vilão chamado Doutor Destino. Tony Stark freou até parar no ar, a meia quadra de distância do robô. Olhou para baixo e viu que a polícia esvaziara o quarteirão. As pessoas estavam atrás das barricadas, assistindo, gravando a cena com seus telefones celulares e câmeras digitais. – Esta é a nossa chance – informou Tony. Miss Marvel planava ao lado de Tony, aguardando instruções. Lá embaixo, Luke Cage e a Viúva Negra corriam pelo meio da rua vazia. Homem-Aranha vinha logo atrás deles, lançando suas teias em postes e semáforos. Tony abriu uma linha de rádio. – Reed, você está on-line? O robô pisou com força, quebrando o asfalto. As pessoas gritaram e se encolheram mais atrás das barricadas, se pressionando contra as vitrines das lojas e padarias. – EU SOU DESTINO! – disse o robô. A voz de Reed Richards soou no ouvido de Tony. – Na falta de provas conclusivas – informou ele –, eu diria que esse é o Destinobô. Tony franziu a testa. Ele estava fazendo uma piada ou apenas afirmando o óbvio? Com Reed, era difícil dizer. – Estamos prontos, Tony – a voz do Homem-Aranha entrou clara na frequência de Stark. – Vingador amigão da vizinhança se apresentando. Tony analisou sua tropa. Tigresa assentiu veementemente para ele; Cage parecia furioso, incerto. Homem-Aranha estava agarrado à parede de uma fábrica, pronto para entrar em ação. Miss Marvel pairava, aprumada e linda como sempre. Com o pensamento, Tony ligou os amplificadores de sua armadura no volume máximo e anunciou: – ATENÇÃO, CIDADÃOS. SOU O HOMEM DE FERRO, SUPER-HUMANO REGISTRADO; NOME REAL, ANTHONY STARK. ESTE É UM PROCEDIMENTO SUPER-HUMANO APROVADO, OPERANDO DENTRO DOS PROTOCOLOS DE SEGURANÇA DA LRS. POR FAVOR, AFASTAM-SE E PERMITAM QUE FAÇAMOS O NOSSO TRABALHO. NÃO HÁ NADA O QUE TEMER. As pessoas trocavam olhares, inseguras. O robô deu outro passo lento e pesado na direção da Quinta Avenida. – EU SOU DESTINO! O passo causou outro tremor de terra, fazendo disparar o alarme de vários carros no quarteirão. – Reed – chamou Tony. – Um breve resumo sobre essa coisa. E rápido. – É um protótipo das tropas de paz construído pelo Doutor Destino. Sabe quem é ele? – Sei, Reed. Victor Von Doom era arqui-inimigo de Reed, um cientista brilhante que usava uma armadura e governava um país chamado Latvéria com mão de ferro, literalmente. Destino tinha uma rixa com Reed desde a época em que estudaram juntos. – Certo, então. Destino alega que sua intenção era usar o robô apenas para assuntos domésticos em Latvéria. Mas este desenvolveu algum tipo de inteligência artificial rudimentar e fugiu para os Estados Unidos. Miss Marvel franziu a testa. – Destino realmente avisou você sobre essa coisa? Por quê? – Talvez ele esteja acompanhando os eventos políticos neste país. Desconfio que ele queira ficar do lado de Tony. Ou, talvez, ele tenha algum outro plano mais escuso – Reed hesitou. – Eu não sei. Tony pensou: Essas são as três palavras que menos gosto. – Obrigado, Reed. Stark desligando. Tony verificou mais uma vez. Todos os Vingadores estavam na sua frequência. – Todos sigam as minhas ordens – ordenou ele. – Este é o começo de uma nova era. É a nossa chance de mostrar como as coisas vão funcionar de agora em diante. Para reconquistarmos a confiança do povo. – Mim gostar de confiança – disse o Homem-Aranha. – Confiança bom. – EU SOU DESTINO! – Primeiro, ataque aéreo – Tony se lançou para frente. – Carol? A Miss Marvel se posicionou atrás dele, sua longa faixa vermelha reluzindo ao sol da manhã. Juntos, eles seguiram como flecha sem direção à cabeça do robô, cortando o ar em uma formação perfeita. O robô virou seus olhos brilhantes para eles, pôs-se de lado… … e tropeçou em um carro estacionado, esmagando o porta-malas. Uma mulher abriu a porta do motorista e saiu meio caindo, meio tropeçando, com um bebê nos braços. Ela recuou, olhando em volta com o olhar em pânico e correu – direto para a perna do robô. Devagar, a cabeça dele se virou, olhando para ela. Tony girou em direção à Miss Marvel. Seus braços cobertos por luvas azuis estavam esticados para frente, começando a brilhar de energia. A fisiologia meio-alienígena de Carol permitia que ela gerasse dardos com alta carga de energia; entre os Vingadores, em uma situação de combate, ela era uma das mais poderosas. Mas se ela disparasse no robô agora… – Carol – a voz amplificada de Tony era aguda, deliberadamente penetrante. – Segurança dos civis em primeiro lugar. Miss Marvel fez uma careta, assentiu e mergulhou. O robô estendeu um enorme braço na direção da mulher amedrontada. Ela estava imóvel, congelada, apoiada no carro, os dedos rígidos em volta do bebê. Miss Marvel passou entre eles, esticando a mão. Mas a mulher recuou ainda mais. Ela está com tanto medo de nós quanto do Destinobô, Tony percebeu. – Protocolos – disse ele. Miss Marvel pareceu girar no ar, até parar bem acima do carro amassado. A cabeça do robô balançava para cima e para baixo, em um movimento confuso, olhando para ela e para a mulher alternadamente. Tony se pegou encarando Miss Marvel. Ela é linda. Escultural, poderosa, com a graça de uma bailarina. Um modelo para tudo que estamos tentando conseguir. Miss Marvel dirigiu-se à mulher, falando com um tom de voz indiferente, ensaiado. – Eu sou Miss Marvel – apresentou-se –, super-humana registrada. Nome verdadeiro: Carol Danvers. Estou aqui para ajudá-la. Por favor, permita que eu… Tony já estava em ação, mas meio segundo atrasado. O robô levantou o enorme braço de metal e golpeou, mandando Miss Marvel pelos ares. – AVANTE VINGADORES! Os poderosos raios propulsores de Tony explodiram na cabeça do robô. Faíscas encheram o ar. Ele recuou poucos metros e ativou um protocolo multicâmera. Ao mesmo tempo, seus monitores internos mostraram: Miss Marvel bateu contra um prédio, fazendo voar tijolos pela calçada. Estava claramente zonza, mas seus batimentos cardíacos estavam normais. Nenhuma lesão séria. A mulher saiu correndo pela rua, com o bebê no colo. Em segurança. O capacete que protegia o cérebro do Destinobô se abriu, expondo mecanismos e circuitos. Mas ele ainda estava de pé. Tony sentiu o formigamento de um bloqueio de radar e viu uma arma nada familiar saindo do dedo do robô. Balançando em suas teias, Homem-Aranha entrou na batalha. Cage e a Viúva Negra vinham correndo pela rua, logo atrás dele. A arma do Destinobô soltou uma luz cintilante em forma de arco, cegando Tony momentaneamente. Filtros oculares foram acionados em menos de um segundo. Levou mais três para a sua visão normalizar, e então: O robô ainda estava em movimento, mas os Vingadores estavam em cima dele. Cage subira em suas costas, socando-o com punhos duros como aço. Viúva Negra estava agachada em cima de um poste, lançando seus ferrões. O robô balançou de um lado para o outro, quase como se pudesse sentir a dor do ataque deles. – EU SOU… DESTINO – repetia ele, em meio a chiados. Homem-Aranha aterrissou leve como uma pluma na rua, bem atrás do robô. Plantou o pé com firmeza, estendeu os dois braços e disparou um bombardeio de teia grudenta. Atingiu as costas do robô – elegantemente não acertando Cage, que já subia para a cabeça da criatura. O robô parou bruscamente, preso pela teia. Cage localizou o capacete estilhaçado do cérebro do robô e abriu um sorriso malicioso. Estalou os dedos uma vez, deu um passo atrás e começou a socar os circuitos ali dentro. – Cage – chamou Tony. – Os protocolos. Cage o ignorou. Enfiou a mão dentro da cabeça do robô e começou a arrancar fios. Faíscas elétricas cintilavam por sua pele. Tony se aproximou, os propulsores brilhando. – Aguenta firme aí, Pe… é, Homem-Aranha. – Deixa comigo, chefe. – Pare de me chamar assim. – Claro, chefe. As teias formaram um grosso cabo, se estendendo dos pulsos do Homem-Aranha até o Destinobô, que se debatia. Com a facilidade conquistada pela prática, Aranha torceu as mãos e agarrou a teia, no momento em que a última saía de seus lançadores. E então, puxou. O Destinobô levantou uma perna, tentou andar pra frente. Homem-Aranha segurou firme, seus músculos contraídos. O Destinobô parou, morto, imóvel no lugar. Dentro de sua armadura, Tony sorriu de orgulho. Esses eram os novos Vingadores. Os seus Vingadores. – Continue assim, Peter. Bom trabalho. – Valeu. Ei, Tony, depois que isso tudo acabar, quero bater um papo com você. – Só tenho uma brecha na minha agenda lá pela primavera. Melhor conversarmos agora. Ainda segurando o cabo de teias, Homem-Aranha virou os olhos dourados para cima, onde estava Homem de Ferro, e se surpreendeu. – Agora? Tony abriu uma frequência particular. – Isso se chama multitarefa. – Uau! É como se você estivesse dentro da minha cabeça. Então, a Miss Marvel mergulhou de novo, desta vez na frente do robô. Disparou ondas de energia das duas mãos, e a cabeça do robô afundou. Ele emitiu um estridente grito eletrônico. – Tic tac, Peter. – Certo. Bem, recebi meu primeiro salário que você mandou. E… – Certifique-se de que descontaram os impostos. Senão depois vem o leão e morde você. – Tony, é mais do que ganhei no ano passado inteiro. Tony golpeou o robô uma, duas vezes. Ele cambaleou, a cabeça estava solta, conectada ao corpo por um cabo grosso. – Você está fazendo por merecer, Peter. Agora mesmo. – Bem, valeu. Cage agora dava vários socos na barriga do robô, abrindo um buraco na armadura de metal. O robô se dobrou em dois, caindo pra frente, de joelhos. Tony estendeu o braço e atingiu a lateral do robô. Mudando o cabo de teia para outro lado, Homem-Aranha estendeu a outra mão e lançou teia nos sensores óticos da coisa. A cabeça dele balançou com força, de um lado pro outro, presa pelo cabo. – Peter, escute – Tony fez um gesto para Miss Marvel, que lançou outra assustadora rajada de energia. – A Lei de Registro de Super-humano entra em vigor à meia-noite de hoje. Eu liguei pessoalmente para o presidente para garantir que assumirei o comando de sua implementação. – Você? – Alguém tem que fazer isso. Ninguém quer uma administração burocrática e sem rosto fazendo isso. É melhor que seja alguém que compreenda a comunidade dos super-heróis, que seja registrado e conhecido pelo público. – Eu… é. Isso faz sentido. – Vou precisar de você ao meu lado. – Por aquele salário? Quando quiser. – Não é um assunto simples, Peter – Tony mudou de canal por um momento. – Natasha, decepe a cabeça dessa coisa, ok? De sua posição em cima do poste, Viúva Negra sorriu. Seus ferrões saíram e a cabeça do Destinobô se soltou. Mas o corpo continuou se mexendo, andando de um lado para o outro, perdido, perigosamente perto dos espectadores atrás das cercas de contenção. – Peter, vou precisar da sua ajuda em algumas questões de… aplicação da lei. Detalhes estarão disponíveis em breve. – Ok. Eu acho. – E tem mais uma coisa. Você sabe do que estou falando. – Tony… – Peter, é a coisa certa a se fazer – Tony fez uma pausa, aumentando um pouco o volume. – E a partir da meia-noite de hoje será lei. A expressão de Homem-Aranha era indecifrável por baixo da máscara. Mas os visores de Tony mostravam níveis elevados de adrenalina dentro dele e batimentos cardíacos acelerados. Cage agarrou a perna do Destinobô, dando um soco poderoso atrás do outro. – Esse garoto precisa de um castigo – disse ele. – Isso não está em negociação, Peter. – Eu… eu preciso que você me prometa uma coisa. – É só falar. – Minha tia. Tia May. Não importa o que aconteça, você tem que garantir a segurança dela. – Peter, eu juro pra você, aqui e agora: se você fizer isso, eu protegerei aquela doce senhora pessoalmente até que um de nós morra. E desconfio que ela viverá mais do que eu. Homem-Aranha ficou tenso e resmungou. Então, usando toda a sua força de aranha ampliada, ele puxou a teia. Cage se soltou, Viúva Negra pulou. Miss Marvel alçou voo, cheia de graça e poder. O Destinobô se espatifou no asfalto, soltando uma chuva de faíscas. Uma perna se contorceu, chocando-se contra um bueiro. Então, ele ficou imóvel. Tony olhou para baixo, analisando a cena. O Destinobô estava esparramado em um pedaço de asfalto rachado, no meio da rua. Os Vingadores formaram um círculo em volta dele, passando a mão em seus trajes, limpando-se. Natasha alongou um músculo dolorido. Tony ergueu o polegar para a multidão, e a polícia começou a retirar as barricadas. As pessoas começaram a entrar com cuidado, indo para o meio da rua. Executivos, turistas, mulheres empurrando carrinhos de bebê. Fitaram o robô, amassado, por um longo momento. Sem falar, mal respirando. Então, a multidão começou a aplaudir. Tony estendeu o braço e pegou a mão de Miss Marvel. Juntos, como a realeza, eles desceram até a rua. – Estão escutando? – perguntou Tony. – Esse é o som do povo voltando a acreditar nos heróis. – Não tenho tanta certeza – Cage se aproximou, esfregando os nós dos dedos. – Ainda seremos super-heróis depois disso, Tony? Não seremos apenas agentes da S.H.I.E.L.D., na folha de pagamento do governo? – Não, Luke. Nós somos heróis. Nós lutamos contra supercrimes e salvamos a vida das pessoas – Tony olhou para Homem-Aranha. – A única diferença é que as crianças, os amadores e os sociopatas ficarão de fora. Viúva Negra levantou uma sobrancelha, irônica como sempre. – Em que categoria o Capitão América se encaixa, Tony? Tony se afastou um pouco do chão e girou. Levantou os braços poderosos para a multidão, e eles aplaudiram mais uma vez. Miss Marvel sorriu. Cage fez uma careta e desviou o olhar. Natasha assentiu. O rosto de Homem-Aranha estava escondido, mas Tony sabia que ele estava escutando tudo. Tony voou por cima do Destinobô caído e imóvel. Estendeu um braço de metal para um casal jovem, que estava parado assistindo a tudo com olhos arregalados. O rapaz assentiu e ergueu o polegar para Tony. – Acredite em mim, Natasha. Capitão está errado desta vez.

Susan Richards estava cansada. Cansada da comida do hospital, do café do hospital. Cansada de conversar com seu irmão grogue, tentando mantê-lo animado. Cansada de tentar arrancar informações dos médicos sobre como havia sido a cirurgia. De tentar explicar para as enfermeiras que precisavam manter a temperatura de Johnny baixa o tempo todo, a não ser que quisessem acordar uma manhã e encontrar lençóis acidentalmente reduzidos a cinzas. Em geral, ela estava apenas cansada. – Franklin? – ela tirou os sapatos, acendeu a luz da sala de estar. – Val, amorzinho? Silêncio. Pegou o telefone. A luz estava piscando: nova mensagem de texto. De Ben Grimm. Suzie – Franklin queria assistir o novo filme da Pixar, então saí com as crianças. Achei que ia gostar de ficar um pouco sozinha. E uma segunda mensagem: Ok, eu que queria ver o filme da Pixar. Val insistiu pra ver um documentário, mas ainda sou maior que ela. Sue sorriu. Em momentos como este ela via o quanto o Quarteto Fantástico era uma bênção. Não era apenas uma equipe, como os Vingadores ou os Defensores. Era um grupo de apoio mútuo, uma família. Um conforto em épocas difíceis. Andou pelos quartos. Verificou os e-mails, ligou a televisão e deixou no mudo. Mais imagens sobre a explosão de Stamford, com a nuvem preta de fumaça subindo. Será que nunca iam parar de mostrar isso? Quase como um ritual, Sue passou pela sala de jantar, cozinha, por todos os três banheiros. Pelo pequeno quarto de Franklin, e o menor ainda de Val. A suíte máster estava escura, vazia, a cama que a empregada-robô arrumara de manhã, imaculada. Pare de protelar, disse para si mesma. Você sabe onde ele está. O laboratório de Reed estava zunindo, figurativa e literalmente. Na última semana, ele alugara uma dúzia de novos sistemas de alta potência da Universidade de Columbia, trazendo-os de avião e ligando-os em rede com seus bancos de dados já existentes. No chão, havia uma miscelânea de cabos, caixas de servidores, roteadores e tomadas. E no meio: uma mesa hexagonal coberta de laptops, papéis e tablets. Reed estava sentado do outro lado, o pescoço esticando-se para cima e para os lados, os olhos indo de um tablet para uma pilha de papéis com selos holográficos marcados como CONFIDENCIAIS. Deus, pensou Sue. Eu amo esse homem. Ela sabia como Reed ficava quando estava mergulhado em sua pesquisa. Para despertar a atenção dele, teria de falar pelo menos umas quatro coisas absurdas e diferentes, esperando que ele soltasse um gemido depois de cada uma delas. Às vezes, era necessário dar um soco nele. Para sua surpresa, ele olhou para ela na mesma hora e sorriu. – Susan! – exclamou Reed. – Você não vai acreditar no que aconteceu esta manhã. Ela sorriu e olhou para o emaranhado de fios. – Espero que não tenha sido a conta de luz. – Eu avisei aos Vingadores sobre um Destinobô, os ajudei a impedir o ataque dele. E… e depois, Tony veio aqui e conversamos um tempão. Ele está cheios de planos, amor. Planos muito importantes. – Humm. – Nunca trabalhei em nada tão grandioso – os olhos dele estavam brilhando; Sue nunca o vira assim. – Tony não estava brincando quando disse que revolucionaria cada meta-humano dos Estados Unidos. Não fico tão animado assim desde que descobri meu primeiro buraco negro. – Eu também estaria animada – comentou ela –, se o plano genial de Tony não significasse cadeia para metade da nossa lista de Natal. – Eu sei, eu sei – ele desviou o olhar, ativou uma tela comprida na parede. – Mas a escolha é deles. Eles podem se registrar. – Sobre esse Registro… – É uma obrigação, amor. Dê uma olhada nas minhas projeções. Franzindo a testa, Sue se aproximou da tela na parede. A caligrafia de Reed a cobria, do chão ao teto: equações, anotações, círculos, linhas. – Isso é incompreensível – ela disse. – Não, não – ele se esticou atrás dela, apontando para a tela. É a curva exponencial que o número de superseres está seguindo. Vemos mais a cada ano: mutantes, casos acidentais, humanos com poderes artificiais como Tony. Alienígenas. Até mesmo viajantes. É um enorme perigo social. – Todos eles são pessoas – sussurrou ela. – Vamos enfrentar um apocalipse se a atividade sem regulamentação não for controlada – Ela sentiu a mão macia dele em seu ombro. – Isso não é política, amor. É ciência. Eu já tinha chegado a esta conclusão: o plano do Tony é o melhor, a forma mais rápida de evitar o desastre. Ela não disse nada. – Você deveria ter visto a equipe em ação hoje de manhã – continuou Reed. – Tony me mostrou o vídeo. Eles desempenharam seus papéis perfeitamente, e fizeram tudo de acordo com as novas diretrizes. Isso pode dar certo, amor. Além de ser uma oportunidade incrível para nós – ele gesticulava animadamente, os braços alongados clicando em touch screens por toda a sala. – Você precisa escutar as ideias que tivemos. Eu me sinto como uma máquina conceitual. Reed recolhera o braço; os dedos acariciando as costas dela. Foi descendo a mão lentamente. Sue e Reed sempre tiveram uma vida sexual ativa, mesmo depois que as crianças nasceram. Mais de uma vez, ela se pegou rindo da ideia que seus amigos tinham deles. Todo mundo via Reed como um cientista frio e obsessivo, e ela como uma alegre figura materna. Não faziam ideia. Mas isso… alguma coisa estava profundamente errada. Involunta-riamente, ela ativou seu campo de força. Reed afastou os dedos como se tivesse sido espetado. – Desculpe – disseram ambos ao mesmo tempo. De repente, um rangido encheu a sala. Sue se virou na direção do portal da Zona Negativa. Suas luzes piscavam; seu perímetro circular ganhando vida. Dentro do portal, apareceu uma massa de estrelas formando um redemoinho, pontilhadas de asteroides e formas humanoides distantes que se moviam rapidamente. – Está tudo bem – garantiu Reed. – Só estou fazendo um teste. O rangido do portal ficou mais alto, aumentando a frequência. Na parte de cima, perto do teto, uma tela se acendeu: PROJETO 42 EXERCÍCIO DO PORTÃO/BEM-SUCEDIDO. – Projeto 42? – gritou ela. – O que é isso? Reed inclinou a cabeça, fitou a expressão estranha dela. Hesitou. Então, uma voz metálica cortou o rangido. – Isso é confidencial. Enquanto Sue observava, a figura vermelha e dourada de Homem de Ferro apareceu dentro do portal. Suas botas propulsoras flamejavam, impulsionando-o para cima e para frente. Ele planou graciosamente por um minuto, depois entrou na sala. – Olá, Susan – cumprimentou Tony. – Tony – respondeu ela, mantendo a voz cuidadosamente neutra. O portal girou até parar. As estrelas sumiram, e o círculo luminoso se fechou. Reed sorriu para Tony, esticou a parte superior de seu corpo para ficar frente a frente com ele. – Como estão as condições lá dentro? – Interessantes – Tony lançou um olhar para Susan, depois interrompeu Reed com um gesto de mão. – Acho que vai dar. – Vou conferir os dados… – Discutiremos mais tarde. Preciso ir – Tony levantou o olhar, como se estivesse distraído por algum sinal vindo de sua armadura. – A LRS se torna lei à meia-noite. Os papéis de vocês já estão prontos, certo? Reed franziu a testa. – Nós já somos públicos. Nossas identidades são conhecidas. – Mesmo assim, existem formulários. Precisamos saber o nível dos seus poderes. Fraquezas conhecidas, qualquer histórico de prisão ou incidentes em que algum membro da equipe tenha perdido o controle. – Claro – Reed assentiu várias vezes, sua mente a mil por hora. – Também quero falar com o Dr. Pym sobre o Protocolo Niflhel que você mencionou… – Reed – Tony se inclinou para frente, os olhos metálicos vermelhos cintilando. – Agora não. Susan estreitou os olhos. Reed nunca tivera segredos com ela. – Amor – Reed virou o pescoço, e sorriu hesitante para Susan. – Você pode cuidar dessa papelada que Tony mencionou? – Está tudo on-line – informou Tony. Tony pairava um pouco acima do solo, ela notou, o que lhe conferia além de altura, um ar adicional de autoridade. Parecia uma criatura de um filme de ficção científica dos anos 50, um soberano alienígena que veio cheio de bondade governar a terra. A armadura do Homem de Ferro cobria cada centímetro do corpo dele, não deixando nenhum traço visível de sua humanidade. E Reed parecia totalmente enfeitiçado por ele. Como um adolescente apaixonado. – Claro – respondeu Sue. – Ah, e Reed? – Sim, amor? – Seu cunhado está melhorando. O cirurgião conseguiu tirar os fragmentos de osso do cérebro dele; deve até receber alta daqui a um ou dois dias. – Isso é… – Só para o caso de você se importar. Então, ela deu as costas e saiu da sala. Sentindo os olhos de laser gelados e vermelhos de Homem de Ferro em suas costas, a cada passo que dava.

NA limusine de Tony Stark, havia todo tipo de refrigerante conhecido pelo homem. Cola, diet cola, de laranja, de uva; refrescos de frutas, Gatorade e oito tipos de água vitaminada. Café normal, descafeinado, e bebidas com perigosos teores de cafeína da América do Sul. Garrafas de vidro esculpido enfeitadas com letras japonesas, todas seladas com um único material. Marcas vintage como Jolt, Patio e New Coke, vindas de todas as partes do mundo. As bebidas ficavam em uma cuba de vidro com gelo picado, encarando Tony como um monte de olhos de metal e vidro. E ele não queria nenhuma delas. É melhor se distrair, pensou ele. Ligou a TV e uma mulher bem penteada apareceu sobre o logotipo de um canal de TV a cabo. – … acabei de saber que Tony Stark marcou uma entrevista coletiva para amanhã – informou ela. – Isso, claro, para dar andamento à vigoração da Lei de Registros Superhumanos, que acontecerá daqui a poucos minutos. Como isso atinge você? A tela mudou para um severo rosto masculino. Sobrancelhas cabeludas, têmporas grisalhas, um bigode curto demais sobre os lábios. Camisa branca, mangas dobradas. Narinas dilatadas de excitação. Embaixo do rosto, lia-se: J. JONAH JAMESON EDITOR, CLARIM DIÁRIO – Como isso me atinge? – repetiu Jameson. – Isso é ótimo, Megan. Quer dizer, é apenas o primeiro passo para controlarmos nosso difícil problema com os super-humanos. Mas à meia-noite de hoje, tudo que meu jornal sempre acreditou vai se tornar lei. Nossa, pensou Tony. Ele é ainda mais assustador quando ri. – Você acha… – Chega de máscaras – continuou Jameson, cortando a repórter. – Chega de se esconder e chega de desculpas repulsivas sobre identidades secretas! Esses palhaços vão trabalhar para a S.H.I.E.L.D. ou seus traseiros coloridos vão acabar na cadeia. Ponto final. – Sr. Jameson. O senhor acha realmente que todos os super-heróis irão se registrar? – Não – Jameson se aproximou da câmera, e um olhar furioso surgiu em seus olhos. – Só os espertos. Tony sorriu. Foi mal, velho, mas Peter não é mais seu escravo. Ainda assim, era bom ter um jornal importante a favor da Lei. Mesmo que seja dirigido por um quase psicopata. A repórter fez outra pergunta. Jameson a ignorou completamente, lançando-se em uma longa recitação das grandes batalhas por justiça que o heroico Clarim Diário enfrentou ao longo dos anos. Tony revirou os olhos e mudou de canal. A espessa nuvem de fumaça novamente, saindo das ruínas da escola de Stamford. Como se eu não visse isso em meus sonhos todas as noites. Emudeceu a TV. No canto da tela lia-se: 23h53. – Estacione, Happy – mandou Tony. – Hora de fazer um brinde. A voz de Happy saiu pelo autofalante. – Tem uma cerveja pra mim aí atrás, Sr. Stark? – Você está dirigindo, Hap – Tony olhou rapidamente para a cena de devastação que aparecia na tela. – Vamos seguir as regras esta noite. – Alguma notícia do Capitão América, Sr. Stark? Tony mexia impacientemente em seu smartphone, mudando de mão toda hora. Olhou para Happy, que estava sentado à sua frente, segurando sua água com gás, o corpo pesado reclinado contra a barreira que separava o motorista. Ele parece tão… à vontade, pensou Tony. Será que algum dia vou me sentir assim de novo? – Nada do Capitão – Tony franziu a testa. – O Gavião Arqueiro também sumiu, e não consigo localizar Cage. Acho que o Capitão está formando sua própria equipe em segredo – Ele jogou o telefone para Happy. – Meu Deus, Happy, não consigo ver; me diga quantos heróis já se registraram. Happy olhou para a tela. – Parece que… 37. Espere, 38. O registro da Viúva Negra acabou de aparecer. – Ah, a Natasha me faz suar um pouco. – Tony respirou fundo. – Trinta e oito. – É o que o senhor esperava, não é? – Mais ou menos. Ainda assim… Hap, os formulários do Quarteto já aparecem? – Só um segundo… – Hap desceu a tela com seu dedo gordo. – Já, aqui estão. Os quatro. Bem. Isso já era alguma coisa, pelo menos. – Mais dois acabaram de se registrar. Provavelmente nem todo mundo vai conseguir fazer isso dentro do prazo. – Happy olhou para o relógio. – Falta um minuto. Quer fazer uma contagem regressiva estilo Réveillon? – Não – Tony recostou, fechando os olhos com força. Ficou com eles assim, bem fechados, apertando-os até aparecerem manchas. – Só espero estarmos fazendo a coisa certa… Um bipe alto e agudo encheu o ar, ecoando pelas paredes da limusine. Tony abriu os olhos a tempo de ver um assustado Happy jogar o smartphone para cima como se fosse uma batata quente. Tony pegou o telefone, apertou o botão para colocar no mudo. – Alerta da S.H.I.E.L.D. – informou ele. Quando se virou, Happy já estava segurando o capacete do Homem de Ferro. O Centro de Comando Móvel 3A da S.H.I.E.L.D. era um hovercraft high tech planejado especificamente para operações urbanas. Tony o alcançou a alguns quarteirões ao norte de Wall Street, entre os tantos arranha-céus da parte baixa de Manhattan. Primeiro só viu uma mancha, como uma onda de calor reverberando na noite contra as janelas do prédio de cinco andares. Acionou suas botas ao máximo, corrigindo o curso usando o bom e velho método de tentativa e erro. Quando alcançou a mesma velocidade do veículo, seus sensores penetraram o campo de invisibilidade da S.H.I.E.L.D. e ele viu o Centro de Comando: um ônibus baixo e achatado com a frente pontuda, serpenteando entre os edifícios altos. – HOMEM DE FERRO, NOME REAL TONY STARK – informou ele. – SOLICITO APROVAÇÃO PARA EMBARCAR. O interior era escuro, apertado e cheio de telas de vigilância. Uma verdadeira sala de guerra. Quatro agentes da S.H.I.E.L.D. em terminais completamente informatizados. – Menor sem registro – disse Maria Hill, apontando para uma tela plana. – Tentou impedir um assalto fantasiado. Violação clara da Lei. Tony levantou o capacete e olhou para a tela. Mostrava um jovem negro mascarado, acompanhado por um de seus dossiês: Assunto: Eli Bradley Apelidos: Patriota Grupos ao qual é afiliado: Jovens Vingadores (não autorizado) Poderes: força aumentada, agilidade, arremesso de estrelas de metal Tipo de poder: inato/artificial (híbrido) Localização atual: Nova York, NY Tony franziu a testa. – Onde ele está agora? Hill virou-se para um agente. – Russel. O novo visor de holograma já está on-line? – Sim, senhora. – Acione. Ela acenou para Tony se afastar. No meio da sala, uma imagem tridimensional ganhou vida: Patriota, assustado e arfando, iluminado apenas por postes esporádicos e luzes de prédios. Ele corria e pulava para salvar a própria vida, dando saltos incríveis do telhado de um prédio alto para outro. – Esse visor é de última geração – contou Hill. – Usa câmeras comuns, mas melhora as imagens… – Eu sei – Tony passou a mão através da imagem; ela sequer tremia. – Eu o projetei. – Nós o pegamos – disse o agente. – As câmeras de vigilância da Polícia de Nova York estão focalizadas em suas assinaturas de calor. Foxtrot-Quatro está se aproximando, a poucos quarteirões ao sul daqui. Na imagem, o farol de um helicóptero apareceu no ar, logo atrás do Patriota. Ele deu meia-volta, uma expressão assustada no rosto. Então, saiu correndo ainda mais rápido. Hill sorriu. – Corra mesmo, sua aberração. Tony franziu a testa. Nunca soube o que pensar sobre Hill; ela lhe parecia ser extremista, o tipo de soldado que sempre buscava a solução mais simples e violenta para um problema. A perda de Nick Fury havia deixado um vazio no topo da S.H.I.E.L.D., uma coisa perigosa em uma organização cuja missão era policiar todo o mundo. Hill viu a sua chance e a agarrou. E ela certamente estava gostando muito. – A Lei de Registro só entrou em vigor há 38 minutos, Comandante. A senhora não poderia dar um pouco mais de tempo pro menino? Hill levantou uma sobrancelha. – Antes de tudo, Stark, agora é Diretora. – Diretora em exercício, creio eu. Ela o fuzilou com o olhar. – O Patriota e os Novos Vingadores, um grupo que, devo acrescentar, você deu permissão tática para ser formado, vem twittando a noite toda contra a lei – ela fez um sinal para um agente que abriu uma tela cheia de frases. – Exemplos: “Prefiro morrer a tirar a máscara” S.H.I.E.L.D. fdp”. “Tony Stark: coração de pedra”. – Ela sorriu. – Essa é um tanto poética, não? – Diretora – chamou o agente. – Sinal do Foxtrot-Quatro. No holograma, o Patriota saltou de um prédio para outro e quase não conseguiu alcançar o telhado do outro lado, mas se agarrou e se ergueu. O helicóptero deu a volta para interceptá- lo, apontando o farol para o telhado. Tony podia ver atiradores posicionados nos dois lados, pouco acima do trem de pouso. A voz eletrônica do piloto encheu o Centro de Comando. – Confirmação visual. S.H.I.E.L.D.-TAC. Em posição. Hill deu um passo à frente. – Câmbio, Foxtrot-Quatro. Permissão para usar tranquilizantes e força mínima – ela se virou para Tony. – Satisfeito? Ele não respondeu. Uma chuva de cápsulas e balas de borracha caiu sobre o Patriota, que continuava correndo, rasgando as costas de sua jaqueta. Ele gritou, mas continuou correndo. – Não quero feridos, S.H.I.E.L.D.-TAC. O agente se virou para Hill, franzindo a testa. – Esse garoto é à prova de balas agora? – Droga de banco de dados! – disse um segundo agente. – Achei que houvesse pessoas atualizando essa coisa. – Paciência, pessoal – Hill sorriu de novo. – Como disse o Sr. Stark, nós estamos nesse negócio há menos de uma hora. – Para onde ele vai? – perguntou Tony. – Está saindo da ilha. – De acordo com o nosso serviço de inteligência, os Jovens Vingadores têm um esconderijo seguro bem… Ainda perseguido pelo helicóptero, Patriota se lançou para a lateral de outro prédio. Mas, desta vez, ele não mirou no telhado. Se debateu no ar, e em seguida bateu direto contra uma janela de vidro, estilhaçando-a. Ele soltou um grito e entrou aos tombos no prédio. – … ali – terminou Hill. – Mudar para a visão do helicóptero – informou o agente. A tela mudou para uma imagem tremida do Patriota, parado bem na frente da janela quebrada. O lugar parecia escuro, abandonado. Tony não conseguiu ver se havia outras pessoas. – Pessoal! – berrou o Patriota. – Temos que dar o fora daqui! Eu estava impedindo um assalto e agora a S.H.I.E.L.D. está na minha cola! – Ele vai ter uma surpresa – disse Hill. – Pegamos os outros Jovens Vingadores meia hora atrás. – Na verdade, Wiccano ainda está solto – informou um dos agentes. – Mas a polícia local já está cuidando disso. – PESSOAL, ISSO É SÉRIO! – o Patriota perdeu um pouco do equilíbrio quando o helicóptero se aproximou do prédio. – A S.H.I.E.L.D.… ELES NÃO ESTÃO DE BRINCADEIRA! – Os tranquilizantes não surtiram efeito, S.H.I.E.L.D.-TAC – disse o piloto do helicóptero. – E agora eu não consigo colocá-lo na mira. Hill virou-se para um agente. – O prédio está vazio? – Sim, senhora. Nenhum sinal de vida. – Foxtrot-Quatro, tem autorização para usar força total. Tony virou-se para ela, alerta. – O que isso… O agente clicou na tela, voltando para a visualização ampla. Mísseis incendiários gêmeos foram lançados do helicóptero em direção ao prédio. O holograma mudou para a câmera do helicóptero, bem a tempo de capturar o rosto aterrorizado do patriota. Ele olhou diretamente para a câmera, boquiaberto, enquanto os mísseis se aproximavam dele. Em seguida, o prédio explodiu. A estrutura se despedaçou e os três andares superiores se desfizeram no ar, lançando metal e vidro para todos os lados. Uma nuvem de cinzas escuras encheu a tela, ocultando a devastação. Tony agarrou Hill pelos ombros. – O que você está fazendo? Está maluca? Ela se debateu, tentando se soltar das mãos metálicas dele, depois puxou o braço com força, furiosa. – Aquele garoto é praticamente indestrutível. O que você esperava? – Eu esperava que você não destruísse propriedades arbitrariamente – ele apontou para a nuvem de poeira na tela. – A ideia por trás disso tudo é exatamente não causar pânico! – Creio que nossos métodos são diferentes. – Se aquele garoto estiver morto… – Não está – o agente batia em seus controles, e o holograma piscava, indo da estática às cinzas e voltando. – Não consigo uma imagem… As câmeras da Polícia de Nova York foram destruídas com a explosão. Mas Foxtrot-Quatro confirmou: eles conseguiram pegá-lo. – Isso está errado – Tony bateu em seu capacete e todos os seus sistemas ganharam vida. – Isso é… vou falar com o presidente sobre isso. – Ele se virou e caminhou para o convés. – Stark. Alguma coisa no tom de voz de Hill o fez parar. – Estamos do mesmo lado aqui – afirmou ela. Ele chegou ao convés e ativou a câmara de vácuo. A porta interior se abriu. – Eu sei – respondeu ele. E saiu voando para a noite.

A casa da Tia May estava muito quieta. Livros velhos, quinquilharias; souvenirs de viagens feitas em uma época em que viagens aéreas eram bem menos comuns. Porta-retratos em todos os lugares: de Peter, Tio Ben e dos pais de Peter, mortos há muito tempo, posando orgulhosamente com seus uniformes militares. Fotos em tom sépia do começo do século XX, talvez até mesmo do XIX. Cheiro de naftalina, de desinfetantes fabricados décadas atrás. Peter Parker sentou-se em sua cama, passou a mão pela velha colcha xadrez. Como todo o resto no quarto, ela estava ali há décadas. Seu velho e pesado microscópio; a câmera de filme analógico com a qual tirou suas primeiras fotografias. O troféu de ciências amassado, porque Flash Thompson o jogou no chão no ensino médio. Tudo igual. Preservado, pensou ele, mas não obsessivamente. Orgulhosamente. É diferente. Tanto dele, Peter Parker, estava naquele quarto. Ainda assim, uma grande fatia, um grande fio da meada de sua vida, estava faltando. Foi até o armário, puxou uma tábua solta. Tateou por um momento e fechou a mão em volta de sua primeira máscara de Homem-Aranha. Ela o encarava com enormes olhos brancos, levemente desbotada pela ação do tempo. – Peter? Ao som da voz da Tia May, de repente se lembrou por que viera. Uma onda de pânico tomou conta dele. Amassou a máscara e a enfiou no bolso de trás. – Aqui, Tia May. Toda vez que Peter vinha visitá-la, Tia May fazia bolinhos, sendo dia ou noite. Felizmente, ele estava faminto. – Meu Deus, Peter, você acordou cedo! O sol nem nasceu ainda. Ela estava parada na porta. Um pouco hesitante, ele percebeu, mas sorrindo para o sobrinho. O cabelo dela estava preso em um arrumado coque; o rosto exibia novas rugas a cada ano. As mãos estavam cobertas de veias azuis, mas continuavam firmes. Só havia uma coisa estranha: a bandeja em suas mãos carregava cookies com gotas de chocolate e não bolinhos. – Não consegui dormir – Peter sorriu timidamente, olhando para a bandeja. – Cookies, Tia May? Ela olhou para a bandeja, como se a visse pela primeira vez. Por um momento, pareceu confusa. Peter sentiu outra pontada de pânico, de preocupação. Então, ela balançou a cabeça. – Não sei, querido. Hoje me pareceu diferente. – Não estou reclamando – ele pegou um e mordeu. Ainda quente. As gotas derreteram em sua língua, uma sensação prazerosa de volta ao lar. May sorriu e colocou a bandeja em uma mesinha. Peter terminou o cookie, fitando-a em silêncio. – Como está se sentindo, Tia May? – Estou bem, Peter. Estou sempre bem – ela gesticulou com a mão, como se quisesse afastar as preocupações dele. – Mas eu me preocupo com você. – Comigo? Ela se sentou na beirada da cama, acenando para que ele se sentasse ao lado dela. – A sua sorte com as garotas… bem, não é da melhores, querido. Sinto por ter de dizer isso. – Tia May… – Ainda acho uma pena não ter dado certo com a sobrinha da Anna Watson. Só estou dizendo. – Pare de mudar de assunto, belezura. Você está tomando os remédios? – Quem está mudando de assunto agora? – ela estendeu a mão e tocou o joelho dele. – De verdade, Peter, tem alguma coisa errada. – Tem mesmo, Tia May. Tem muita coisa errada – então, viu o medo estampado no rosto dela. – Ah, não, não aqui. Não com você. É que… tem muita coisa acontecendo lá fora. Ela assentiu, séria. – O desastre em Stamford. – É. As pessoas estão com muito medo. – Isso é terrível – ela se levantou, um olhar distante. – Eu era uma menininha quando Joseph McCarthy lançou sua grande campanha contra o Comunismo. Ele conseguiu fazer com que as pessoas acreditassem que havia comunistas em todos os lugares: no Congresso, no quintal, à espreita atrás das árvores, esperando para tomar o governo. – Havia mesmo? – Ah, talvez alguns. Mas a maioria deles estava ocupada demais fumando maconha para tomar alguma coisa. Peter riu. – Isso é um pouco diferente, Tia May. As pessoas estão com medo dos super-humanos, e existem muitos deles andando por aí. E voando também. – O que eu quero dizer Peter é que as pessoas tomam decisões muito ruins quando estão com medo. Ele assentiu. – Você está inquieto. O que é? – É que… eu preciso lhe contar uma coisa, Tia May. E é tipo, bem… delicado. Delicado? pensou ele. Você está subestimando o assunto. Controle-se, Parker. – Peter, me escute – Ela segurou o queixo dele, forçando-o a olhar nos olhos dela. – O que quer que esteja acontecendo no mundo, é lá fora. Não nos atinge. Não entra dentro dessas paredes. Somos só eu e você aqui, e você pode me contar o que quiser. – Ok, mas… isso pode ser um choque. Ela arregalou os olhos. Levantou-se rapidamente, cambaleou e, em seguida, olhou para ele. – Então, é verdade. – O quê? – Está… está tudo bem, Peter. Eu meio que desconfiei. O filho da Sra. Cardoman acabou de sair do armário, e ele está tão mais feliz agora. Está até falando em se casar com o… companheiro dele, acho que é assim que vocês chamam – Ela colocou a mão no próprio queixo. – Pensando nisso, ele costumava namorar modelos também. – O quê? – Peter ficou de pé em um pulo. – Tia May, eu não… espera aí, Jason Cardoman é gay? Ah, é claro que é. Mas… – Você tem que entender, Peter. A minha geração não cresceu assim… nós simplesmente não falávamos dessas coisas – ela estendeu a mão e tocou o rosto dele. – Mas os tempos são outros. E você… você tem que ser você mesmo, essa pessoa única e maravilhosa. – Tia May, eu não sou gay. – Ah. Por um momento, ela pareceu confusa de novo. Seus olhos vagaram pelo quarto e voltaram a pousar em Peter. É agora, pensou ele. Este é o momento. Mas eu não posso. Não consigo fazer isso. Lentamente, ela chegou por trás dele. Os dedos finos se fecharam em um pedaço de pano vermelho que saía do bolso de trás da calça de Peter. Ela puxou e arrumou o tecido até a estampa em forma de teia aparecer. Então, com um movimento rápido, o soltou. Eles ficaram ali parados juntos por um longo momento, ambos encarando os olhos brancos da máscara do Homem-Aranha. Até que, para a surpresa dele, Tia May sorriu. Um sorriso longo, sereno, maravilhoso. – Peter – começou ela –, eu sei disso há anos. Ele sentiu lágrimas escorrendo por seu rosto. – Você não é tão sorrateiro quanto pensa, rapaz. – Tia May… ah, Tia May. – Mas por que hoje, Peter? Por que agora? – Porque… Ele estendeu os braços e a abraçou. Enterrou a cabeça no ombro dela, como quando era um garotinho. – … porque uma coisa vai acontecer – sussurrou ele. – Uma coisa que vai entrar dentro dessas paredes. Ela dava tapinhas nos ombros dele. – Mas está tudo bem – continuou ele. – A senhora ficará segura. Já garanti isso. Não importa o que aconteça, a senhora estará segura. – Peter – disse ela, sua voz um suave garganteio no ouvido dele. – Peter, querido. Confio em você. E independente do que acontecer, tenho muito orgulho de você. Ele a abraçou com força, balançando-a lentamente para os lados. Lágrimas escorriam pelo seu rosto. Por um momento, ele se sentiu totalmente em paz. Então, o pânico voltou. Junto com o pensamento: Essa foi a parte fácil.

– ÔNIBUS-Um, nós o pegamos. O garoto bruxo já é nosso. Ao som da voz da Diretora Hill, as mãos do Capitão América apertaram o volante. Ela perguntou calmamente: – Localização? – Ponte do Brooklyn. O distintivo no uniforme roubado da S.H.I.E.L.D. que Capitão usava dizia: Agente Lamont. Felizmente, Maria Hill não reconheceu a sua voz. Capitão olhou para o agente musculoso no banco do carona – Axton, esse era seu nome. Estava sentado tenso, com toda a sua armadura, sorrindo, batendo com o cassetete na mão. – Esse é o último – disse Axton. – Segure firme. Capitão virou o volante o máximo que pôde. O Ônibus-Um – um camburão urbano de oito toneladas com paredes reforçadas com adamantium – chamava atenção com suas luzes e sirenes. Fez a volta em um retorno atravessando um cruzamento cheio de carros, jogando seu peso contra a inclinação do veículo, as rodas do lado do carona levantando do chão. Então, o veículo se estabilizou, fazendo um pequeno estalo ao tocar o chão, e seguiu a toda velocidade em direção ao sul, para West Street. – S.H.I.E.L.D.-TAC, aqui é o Ônibus-Um – disse o Capitão cautelosamente. – Aproximando-se para coleta. – Câmbio, Ônibus-Um. Está uma confusão lá, mas vou mandar a polícia local deixar o caminho livre para você. – Ok. É disso que estou falando – Axton se inclinou para frente e solicitou um dossiê com fotos dos Jovens Vingadores na tela do computador de bordo. – Patriota, Hulkling, Estatura, Célere. Célere? Isso lá é nome de herói? Capitão ligou a sirene novamente. Uma minivan ultrapassou pela lateral da estrada. Abrindo caminho. – Esses garotos – continuou Axton. – Eles têm o que… dezesseis? Dezessete anos, no máximo? Estão lá fora, vestidos em seus collants, rindo das nossas caras. Está na hora de alguém dar uma lição neles. Uma enorme placa verde apareceu, com uma grande seta branca dizendo: BROOKLYN BRIDGE. O Capitão virou com força para a esquerda, entrando com o ônibus na Chambers Street. Bem à frente, podia ver as luzes piscando. Eco de sirenes na noite. – A gente não está proibindo esse pessoal, cara. Ninguém está impedindo que eles façam o trabalho deles. O governo quer até pagar para esses palhaços se tornarem oficiais. Mas sabe de uma coisa? Eles não querem isso. Eles não curtem ser legalizados. O que esses malucos curtem é essa história de máscara e baboseira de “homem misterioso”. À direita, uma falange de carros de polícia acesos bloqueava a rampa que levava à Brooklyn Bridge. O Capitão diminuiu a velocidade, mas continuou em frente. Um capitão de polícia grisalho fez um sinal para seus homens e os carros saíram de suas posições, abrindo a via. Axton ainda estava falando: – Vai ser um balde de água fria quando essa galera vir a nova penitenciária que estão construindo para superbabacas. Frank, dos suprimentos, disse que é de virar a cabeça, está sendo feito de uma maneira que não dá nem pra pensar em fugir. O ônibus pulou ao passar por um desnível entre a formação da polícia e a ponte. As duas faixas na direção do Brooklyn tinham sido esvaziadas. À frente, Capitão só conseguia ver uma pessoa deitada no meio da estrada, cercada por outros dois carros de polícia. Wiccano. O último dos Jovens Vingadores. – Tranquilizantes – informou Axton. – Tomara que machuque o abusadinho. A minha irmã namorou um super-herói, sabe. O nome dele era Turbo. Ele se achava o máximo. O ônibus se aproximou de Wiccano, um adolescente inconsciente vestido de cinza. A capa rasgada em volta do pescoço. Os tiras formavam um semicírculo em volta do corpo dele, as armas apontadas. – Mas não tinha nenhum poder de verdade. O Turbo, quero dizer. Sempre tive vontade de dar uma lição nele sem aquele supertraje. Eu ia dar a surra da vida dele. Ei, cara, você não devia ir um pouco mais devagar? – Sabe de uma coisa, Axton? O Capitão girou o volante todo novamente, e Axton bateu contra a porta. O Capitão destravou-a e deu um chute para o lado, mirando bem no braço de Axton. O cotovelo do agente bateu na maçaneta da porta, abrindo-a, e Axton caiu do veículo em movimento. – Você fala demais – completou o Capitão. Gritando, o agente da S.H.I.E.L.D. rolou no asfalto, e por pouco não bateu no corpo prostrado de Wiccano. Os tiras enfileirados recuaram, assustados. Capitão apertou a lapela para ligar um transmissor escondido. – Falcão – chamou ele. – Retirada. AGORA! A resposta de Falcão foi comprometida por uma chuva de xingamentos na frequência da S.H.I.E.L.D. – S.H.I.E.L.D.-TAC – gritava a voz de Axton. – Ônibus-Um foi sequestrado. Devia ter acertado com mais força, pensou Capitão. Pelo espelho retrovisor, Capitão viu um borrão vermelho e branco passar rasante sob o céu noturno. Asas de quase três metros se abriram, assustando os tiras. A polícia local até arriscou alguns tiros, mas Falcão já estava voando novamente, carregando o inconsciente Wiccano nos braços. – Estou com ele – disse a voz de Falcão. Capitão franziu a testa, batendo no rádio da S.H.I.E.L.D. Silêncio. Eles tinham mudado as frequências, deixando-o de fora da conversa. A estrada à sua frente estava limpa – os tiras haviam bloqueado as duas extremidades. – Falcão, onde você está? – Uns quatro metros acima de você. Capitão olhou pelo espelho retrovisor. Os tiras apontavam as armas para cima, tentando acertar Falcão, que se esquivava, subindo cada vez mais. Em seguida, um clarão de luzes chamou sua atenção. Lá na frente, no lado Brooklyn da ponte, dois outros carros de polícia surgiram em seu campo de visão, aproximando-se rapidamente dele. Luzes e sirenes ligadas. – Fique comigo, Falcão. O Capitão pisou com força no acelerador, fazendo o ônibus disparar na direção dos dois recém-chegados. Tarde demais, os carros de polícia desviaram, tentando sair do caminho. O Capitão cerrou os dentes. O Ônibus-Um bateu de frente no primeiro carro de polícia, quebrando os faróis. Tiras saíram pelas duas portas, mergulhando no asfalto. Eles assistiram horrorizados enquanto as enormes rodas do ônibus passavam devagar por cima do capô do carro, estilhaçando o parabrisa e esmagando o motor no chão. O Ônibus saltou e achatou o outro carro de polícia. O carro derrapou e parou. O motorista colocou o corpo para fora da janela, disparou alguns tiros, que bateram inofensivos na traseira do Ônibus. O Capitão continuou seguindo seu caminho. – No sleep till Brooklyn * – cantarolou a voz de Falcão. O Capitão franziu a testa. – Isso é um poema? Então, ele os viu à frente. Grandes luzes piscando, maiores do que as da polícia local. Veículos da S.H.I.E.L.D. aterrissando para interceptá-los. Olhou no espelho retrovisor de novo. Os tiras da polícia de Nova York, aqueles que capturaram Wiccano, estavam em movimento. Aproximando-se rápido. O novo estado de segurança, pensou o Capitão. Certamente, é eficiente. – Capitão – chamou Falcão –, polícia local atrás de você e S.H.I.E.L.D. à frente. Não sei você, mas eu só vejo duas saídas nessa ponte. O Capitão fez uma careta, tocou a tela do computador de bordo ligando-a. Foi descendo rapidamente, passando por uma série de dossiês, então clicou em um: Assunto: William “Billy” Kaplan Apelidos: WICCANO Grupo ao qual é afiliado: Jovens Vingadores (não autorizado) Poderes: provável magia, teletransporte Tipo de poder: inato Localização atual: Nova York, NY À frente, tropas da S.H.I.E.L.D. se colocavam em formação, bem no meio da estrada. Três helicópteros, outro ônibus e, isso mesmo, o próprio Centro de Comando Móvel 3A. Parado no ar, logo acima da primeira saída do Brooklyn. A voz de Maria Hill encheu a cabine. – Entregue-se, Capitão. Você não tem para onde fugir. Eles não estavam nem se movendo para interceptá-lo. Não havia pressa; sabiam que tinham conseguido pegá-lo. – Falcão – chamou o Capitão. – Esse garoto está consciente? – Infelizmente. Acabou de acordar e começou a gritar. – Mudança de planos. Venha se encontrar comigo… AGORA. – Com você? O Capitão olhou para a porta do lado do carona, que ainda batia aberta depois da saída pouco graciosa de Axton. – A porta está aberta. As tropas de solo estavam bloqueando a saída, carregando suas armas. Formaram uma fila, com os helicópteros voando logo acima. Rifles apontados das portas dos helicópteros. Os olhos do Capitão estavam fixos à frente; desviaram para a direita; para frente de novo, então para a direita – e desta vez, ele viu o borrão branco das asas do Falcão. O forte herói resmungava no ar, esforçando-se para mudar Wiccano para seu braço direito, e estender o outro braço para agarrar a maçaneta da porta. – Segure firme. E então, ambos estavam dentro da cabine. Wiccano choramingava e se debatia. Falcão olhou para ele, depois esticou o braço para fechar a porta. – Filho – disse o Capitão, vigorosamente. Wiccano levantou o olhar para fitá-lo e calou a boca. Falcão respirou fundo e fechou as asas graciosamente nas costas. Em seguida, fez uma careta e apontou para a estrada à frente. – Aquilo é um exército de agentes da S.H.I.E.L.D. – Filho – repetiu Capitão América. – Preciso de uma retirada estratégica. Sabe do que estou falando? Wiccano apenas o fitou com olhos assustados. – Seus colegas estão na traseira deste veículo – continuou o Capitão. – Todos eles: Patriota, Hulkling, Estatura e Célere. Não vou conseguir tirá-los, nem a nós, dessa sozinho. Preciso da sua ajuda. O Capitão abriu um mapa de Manhattan na tela de vídeo da cabine. Clicou em um local específico e um círculo vermelho apareceu ao lado da palavra Chelsea. Estavam se aproximando da linha da S.H.I.E.L.D. Uma dúzia de rifles de partículas de alta potência apontavam seus lasers diretamente para o ônibus. – Precisamos que conjure um teletransporte – explicou o Capitão, apontando para o mapa. – E precisamos que seja agora. Falcão puxou o garoto, encarando-o. – Entendeu? – Si-sim, senhor. Wiccano começou a sussurrar para si mesmo, os olhos arregalados. Parecia totalmente traumatizado. Em cima, os helicópteros da S.H.I.E.L.D. avançavam, barulhentos. O sol estava começando a nascer, os primeiros raios de luz aparecendo no horizonte. – Tem que ser agora, filho – disse o Capitão. O primeiro tiro saiu de um canhão de mão da S.H.I.E.L.D. Acertou bem na frente do ônibus, sacudindo o veículo, que diminuiu a velocidade só um pouco. Uma rachadura apareceu no para-brisa, da espessura de um fio de cabelo. – Outro-lugar – sussurrava Wiccano.– Quero-estar-em-outro-lugar. Quero-estar-emoutro-lugar. Q… – Capitão – A voz de Maria Hill estava distante, entrecortada. Então, uma luz azul pareceu acender dentro da cabine. Capitão olhou para a direita e viu o garoto – Wiccano – brilhando de energia. Falcão se afastou, assustado. O brilho azul se expandiu, enchendo o pequeno compartimento. – Quero estar em outro lugar – a voz de Wiccano agora estava mais clara, mais alta. O Capitão se inclinou para frente. A ponte, a estrada, os agentes da S.H.I.E.L.D. à frente… tudo pareceu brilhar, cintilar com a mesma radiação azul. Tudo piscou uma vez, e depois sumiu. Por um longo momento, Capitão só conseguia ver essa luz azul ofuscante. Pulsando, brilhando, tão forte que fazia os olhos arderem. Repentinamente, a luz pareceu se transformar em uma dúzia de raios, todos radiando de um núcleo central. Essa dúzia tornou-se centenas, milhares de pontinhos de luz, cada um apontando para fora em uma direção diferente no espaço. Probabilidades, ele se deu conta. E, então, estava caindo, se afastando do núcleo de luz, em direção a um dos raios. Um único destino, dentre milhões. – … outro lugar – dizia a voz fraca de Wiccano. O ônibus sacudiu, atingiu o solo – e, de repente, a aceleração fez Capitão ficar grudado no assento. Olhou em volta, alarmado. O ônibus atravessava em alta velocidade um lugar fechado, uma área industrial e vazia, do tamanho de meio campo de futebol. Em direção a um muro. A 100km/h. – Estamos fritos, freie! – disse Falcão. O Capitão pisou no freio, girou o volante para o lado. Os pneus cantaram, começaram a soltar fumaça. O Ônibus girou, quase derrapando até parar pouco antes do muro. Quase. A parte traseira derrapou, girou e bateu de lado no muro com força. O Ônibus deu uma freada brusca e quase virou, então, endireitou-se novamente. Wiccano ainda estava com os olhos fixos. – Outro lugar – repetia ele, bem baixinho, quase inaudível. Falcão sorriu, dando-lhe um tapa nas costas. – Você conseguiu, garoto. Estamos aqui. O Capitão abriu a porta e pulou para o chão. A porta traseira do Ônibus estava amassada, mas seu mecanismo de trava ainda a mantinha fechada. Ele apontou um dispositivo manual da S.H.I.E.L.D., e ela se abriu. – Podem sair – anunciou ele. Hesitantes, os quatro Jovens Vingadores desceram a rampa. Estatura, a jovem loura que mudava de tamanho, saiu primeiro, seguida pelo Patriota, Hulkling e Célere. Todos estavam presos por coleiras grossas, brilhando com uma tecnologia inibitória. Os pulsos estavam algemados nas costas. Falcão levou Wiccano para ver os amigos. Os olhos do jovem se encontraram com os de Hulkling, e ambos sorriram. Apertaram as mãos. Capitão se dirigiu à Estatura. O traje vermelho e preto dela estava ensanguentado por causa de um corte em seu rosto; ela recuou. Ele abriu suas algemas, e ela alongou os braços, involuntariamente crescendo uns trinta centímetros. – O que está acontecendo? – perguntou ela. – Onde estamos? – Parabéns, garotada – Capitão apontou para a porta do outro lado. – Vocês acabaram de se juntar à Resistência. Um grupo diversificado se aproximou deles. Demolidor, sinistro em seu traje vermelho. Golias, quase três metros e meio de altura no momento. Gavião Arqueiro, um arco pendurado no ombro. Tigresa, a mulher felina. E Luke Cage. Falcão sorriu. Foi até Cage e deu um tapa em seu ombro. – Cage, meu irmão. Finalmente, colocou a cabeça no lugar. – Tudo certo – disse Cage. Mas parecia confuso. Estatura se aproximou de Golias. – Dr. Foster. O senhor participa disso? Golias sorriu, estendeu os braços. – Cresça um pouquinho para que eu possa abraçá-la. Um a um, os Jovens Vingadores foram soltos de suas correntes. – O que é este lugar? – questionou o Patriota. – Fortaleza da S.H.I.E.L.D. número 23 – respondeu o Capitão. – É da época da Guerra Fria. Apenas oficiais da S.H.I.E.L.D. de nível 34 sabem de sua existência. – Quantos oficiais desses existem? – Agora que não temos mais Nick Fury? Zero. Ele me contou a respeito, há muito tempo. Capitão sentiu o nível de adrenalina diminuir. Uma onda de tristeza, de perda, tomou conta dele. De repente, sentiu falta de Fury – e de Thor também. Thor teria acabado com aqueles agentes da S.H.I.E.L.D. lá na ponte com apenas um golpe de seu martelo. E depois, riria. Mais tarde, soldado. Capitão se endireitou, tirando poeira do ombro. Tem uma guerra acontecendo. Os membros da Resistência estavam dando as boas-vindas aos recém-chegados. Wiccano e Célere conversavam animadamente com Demolidor e Gavião Arqueiro. As garotas pareciam fascinadas por Tigresa, tocando com hesitação em seu pelo. Falcão contava a história do dramático resgate aéreo, fazendo gestos amplos com os braços, enquanto Golias, Cage e Patriota escutavam. – Capitão? Ele se virou. Wiccano estava parado na sua frente, a testa franzida, segurando a mão de Hulkling, um jovem grande e verde, que fitava Wiccano com olhar preocupado. De repente, Capitão percebeu que eles eram um casal. – Filho – disse Capitão –, você fez um bom trabalho hoje. Salvou as nossas peles. – Valeu. Mas… qual é o seu plano agora? Qual a sua intenção, se escondendo aqui nesta base? Capitão se endireitou, mostrando toda a sua altura. O lugar pareceu ficar quieto; todos os olhos se viraram em sua direção. – Nossa intenção é ajudar as pessoas – explicou ele –, como sempre fizemos. Fazer o que é certo. Estatura franziu a testa. – Mas como vocês… como nós podemos fazer isso? Somos fugitivos da lei agora. Criminosos procurados. – Não vai ser fácil – ele respirou fundo. – Tony Stark tem todas as cartas nas mãos: a lei está do lado dele, a S.H.I.E.L.D. está no bolso dele. E ele tem mais dinheiro e tecnologia à sua disposição do que muitas nações soberanas. A Stark Enterprises vem raspando o dinheiro do Departamento de Segurança na última década. Só Deus sabe que novas armas eles têm esperando em seus laboratórios. – Então, temos de ser espertos. Temos de ser sorrateiros. Temos de usar todos os recursos que tivermos à nossa disposição. Se quisermos vencer, se quisermos viver como heróis, livres para operar de acordo com o interesse público, então teremos que conquistar a nossa liberdade. Teremos que construir o país em que queremos viver, tijolo por tijolo. Assim como nossos ancestrais imigrantes fizeram. Houve um momento de silêncio, então Falcão aclamou Capitão bem alto, e os outros começaram a aplaudir e ovacioná-lo. O enorme salão ecoava com gritos e aplausos. Capitão virou-se de costas, se esforçando para não chorar. Mais tarde, ele iria pensar nisso como o momento em que a Resistência realmente nasceu. Infelizmente, muito sacrifício ainda estaria por vir.

NO momento em que Tony Stark subiu na tribuna, sentiu um frio na barriga. Olhou em volta, confuso. Já havia participado de dezenas de coletivas ali, na sala de imprensa principal da Stark Enterprises. Suas paredes brancas e sua enorme janela eram quase tão familiares para ele quanto sua casa ou laboratório. Hoje, a sala estava lotada, com cadeiras dobráveis extras nas laterais, repórteres correndo de um lado para o outro e cochichando baixinho. De repente, ele se deu conta: É isso. A última vez que a sala de imprensa ficou tão cheia assim foi há dois anos, quando – impulsivamente e sem planejar – revelou ao mundo o segredo da sua vida: que ele era o Homem de Ferro. Tony limpou a garganta e se aproximou do microfone. – Já estivemos aqui antes? Uma onda de risos encheu a sala. Tony olhou para trás, onde estava Pepper Pots, em pé totalmente ereta logo atrás dele, a expressão profissional insondável. Happy Hogan estava ao lado dela, com o Secretário de Segurança Nacional do outro. Pepper franziu a testa para Tony, dando-lhe uma cotovelada discreta. Então, Tony percebeu mais uma similaridade com a outra coletiva de imprensa. Na primeira fila, com suas adoráveis pernas cruzadas, estava Christine Everhart da Vanity Fair. Quando os seus olhos pousaram nela, ela levantou a cabeça e lançou-lhe um olhar desafiador. Ele abriu um sorriso rápido e abaixou o olhar. Consultou rapidamente seus cartões de anotações, depois os jogou na tribuna. – Geralmente, quando estou de pé na frente de um grupo de pessoas, começo com estas palavras: Meu nome é Tony. E eu sou alcoólatra. A multidão riu novamente, um pouco nervosa. Pelo menos, não são hostis. – Isso aqui é diferente, claro. Mas estranhamente similar. – Ele fez uma pausa de efeito, tomando um gole de sua água com gás. – Uma das primeiras coisas que se aprende durante a recuperação é que você tem de jogar limpo com as pessoas, em todos os níveis. Comecei esse processo dois anos atrás. A minha identidade como Homem de Ferro é de conhecimento público, assim como meus impostos, minha história familiar e o histórico detalhado de meus dolorosos fracassos pessoais. A minha vida não é apenas um livro aberto; é praticamente um texto eletrônico com código aberto com licença da Creative Commons – mais risos. – Mas existe uma coisa que as pessoas que não têm o meu… problema… costumam não entender. Um alcoólatra não busca ajuda quando as coisas estão indo bem para ele. Alguns de nós precisam chegar ao fundo do poço. Outros chegam a um ponto em que o estilo de vida, os efeitos cumulativos sobre si mesmos e sobre outras pessoas ficam pesados demais para suportar. Ainda assim, alguns experimentam um momento de clareza. Um breve e vívido lampejo de seu futuro, do destino terrível que espera por ele se não mudar. – Senhoras e senhores, Stamford foi o meu momento de clareza. Tem muita coisa na minha vida das quais me envergonho, mas tenho muito orgulho da minha carreira como super-herói. Salvei milhares de vidas, coloquei centenas de criminosos perigosos atrás das grades e impedi dezenas de catástrofes antes que elas sequer pudessem acontecer. Fundei os Vingadores, a primeira equipe de super-heróis do mundo, cuja longa história de bons trabalhos fala por si. – Não, não, não aplaudam. Não quero o aplauso de vocês hoje; não é por isso que estou aqui. Porque outra lição que aprendi é que decidir não tomar o primeiro gole não é o fim da jornada de um alcoólatra em direção à luz. É apenas o primeiro passo. – E para mim, para a comunidade super-humana, da qual me orgulho fazer parte, a minha decisão de ir a público, de revelar os detalhes da minha vida para vocês, foi o Primeiro Passo. Hoje é o próximo passo. Ele fez uma pausa, a garganta seca. Seu olhar correu pela sala, analisando o mar de repórteres, escrevendo e digitando furiosamente em seus dispositivos eletrônicos. – Super-humanos, meta-humanos, heróis, vilões. Como quer que vocês os chame, eles se proliferaram enormemente na última década. Alguns nasceram com habilidades físicas e mentais superiores; outros recebem seus poderes por meio de acidentes. Outros, como eu, desenvolveram meios tecnológicos de melhorar seus dons naturais. Outros, sem nenhum poder de verdade, fazem justiça com as próprias mãos, vestindo fantasias e saindo nas ruas. E outros ainda, são seres alienígenas, total ou parcialmente humanos. – Vivemos em um mundo assustador e incerto. Guerras estouram no Oriente Médio e em outros lugares; o medo do terrorismo ainda não acabou. Em todo o país, famílias enfrentam a ameaça de ruína financeira, de não realizar o Sonho Americano que sempre foi a promessa desta nação. O Sonho que tem sido tão bom pra mim, pessoalmente. – Então, estou aqui hoje, um homem, para prometer a vocês: eu farei o que puder para tornar o mundo um pouco menos assustador. Não posso resolver a economia mundial, e não posso fazer muito a respeito de ataques nucleares ou biológicos. Mas eu posso, e vou, resolver o problema das armas super-humanas de destruição em massa. – De hoje em diante, qualquer homem, mulher ou alienígena que for para as ruas ou para os céus tentar usar seus dons naturais ou artificiais em um cenário público, deve seguir os seguintes passos. Primeiro, deve se registrar on-line no Departamento de Segurança Nacional, um processo rápido e simples. Entre as informações requeridas estão: o verdadeiro nome e endereço do solicitante, informações para contato 24 horas, nível de experiência e extensão das habilidades super-humanas, se tiver. – Esse formulário será rapidamente avaliado por mim e pelo Secretário de Defesa – o secretário assentiu. – Dependendo da nossa avaliação, várias coisas podem acontecer depois. A pessoa pode ser aprovada para atividade meta-humana sob os termos da Lei de Registro de Super-humanos. Ela receberá um contrato severo, informando sobre as diretrizes de comportamento apropriado, e um distintivo emitido pela S.H.I.E.L.D. Essa pessoa também receberá um salário de acordo com sua experiência e habilidade, além de plano de saúde, tudo isso supervisionado pelo governo federal e pela S.H.I.E.L.D. Tony fez uma pausa para respirar. – Se o solicitante não tiver muita experiência, ele receberá uma licença condicional, que o permitirá que exercer suas habilidades depois, e só depois, de ter concluído um curso intensivo de oito semanas em um dos vários centros de treinamento que serão estabelecidos pela S.H.I.E.L.D. Esses centros são ultrassecretos e ficam longe de qualquer grande centro urbano, assim não haverá nenhum perigo para a população civil durante o processo de treinamento. Uma vez que o solicitante tiver concluído o curso, ele será avaliado por um conselho formado por super-heróis experientes. Se for considerado responsável e competente no uso de seus poderes, uma licença total será emitida. Caso contrário, ele terá a opção de retomar o curso de treinamento ou se aposentar. – É claro que haverá aqueles solicitantes que mostrarão ser um perigo real ou potencial para o público, seja por imprudência, falta de moral ou pela natureza incontrolável de seu poder. A eles será negada a oportunidade de praticar suas habilidades. Acreditamos que isso seja justo. Um homem pode possuir o conhecimento de como construir uma bomba atômica, mas isso não lhe dá o direito de montar uma no meio da Times Square – Tony fez uma pausa. – Acreditem em mim, descobri isso aos nove anos. O grupo riu. Está dando certo, pensou Tony. Eles estão realmente me apoiando. – Vou responder a algumas perguntas agora, depois tenho uma surpresa para vocês. Mas antes que façam qualquer pergunta, quero lembrar-lhes que nada disso é decisão minha. É a lei; foi apropriadamente votada pelo Congresso e assinada pelo presidente. Ele me pediu, pessoalmente, para supervisionar a implementação da Lei de Registro de Super-humanos, e eu aceitei. É meu privilégio e dever em vários aspectos. Sim, Gerry. Um homem corpulento se levantou. – Como está a situação com os supervilões, Sr. Stark? – Bem, se eles resolverem tentar o registro, obviamente irão cair na terceira categoria, e lhes será negada a licença para operar. A não ser que eles demonstrem desejo de se recuperar e disposição para passar pelo treinamento. Acreditem ou não, entramos em contato com alguns criminosos famosos e estamos iniciando um diálogo. – Mesmo se eles forem procurados por outros crimes? – Existem… alguns casos… que receberão tratamento especial. Mas isso, quero ressaltar, é uma situação muito rara. Realmente esperamos que a maioria dos supervilões não consiga o registro, o que automaticamente os colocará como violadores da lei. Não posso entrar em detalhes sobre nossos planos sem dar dicas para esses mesmos criminosos. Mas posso dizer isto: estamos desenvolvendo métodos surpreendentemente eficazes e radicalmente novos de capturar vilões que se recusarem a se registrar, e de mantê-los presos. Melissa? – E os super-heróis, não os vilões, mas aqueles que são conhecidos pelo público por terem detido criminosos perigosos, por terem salvado vidas no passado. O que acontece se eles não se registrarem? Parece que eles vão ser tratados da mesma forma que os vilões que você acabou de descrever. Isso é verdade? Tony olhou para o nada, apenas por um momento. – Sim, é verdade. A sala explodiu em perguntas. Repórteres inclinados para frente, mãos levantadas, um tentando falar mais alto do que o outro. Então, uma voz se sobressaiu. Christine Everhart se levantou, os olhos escuros fixos nos de Tony. Ele engoliu seco, novamente ficando nervoso. – Sr. Stark – disse ela devagar. – Acho que o público vai querer saber de uma coisa. Por que um pretenso super-herói deve receber um salário e benefícios do governo federal enquanto tantos americanos comuns estão sem trabalho? Tony assentiu; ele havia se preparado para essa pergunta. – Ótima pergunta, Chris… Srta. Everhart. Primeiramente, apenas os super-heróis que forem aprovados e concordarem com a supervisão pública receberão tais benefícios. Segundo, a senhorita deve saber que o Senado debateu exaustivamente essa questão e decidiu que a “oferta” de salário e de benefícios era a ferramenta mais eficaz para recrutar o maior número de super-heróis para o programa rapidamente. – Mas, levando em consideração um aspecto mais amplo: eu não acho que o melhor para nós, americanos, seja perguntar ‘por que meu vizinho recebe isso?’ Acho que estaríamos muito mais bem servidos se perguntássemos ‘como mais americanos podem prosperar da mesma forma que o meu vizinho?’ É assim que se constrói uma sociedade melhor. Esse é o meu objetivo aqui hoje, e todos os dias quando piso na Stark Enterprises. Aplausos. Mas Everhart permaneceu imóvel, o rosto franzido. – Continue – ela apontou para o cartaz da STARK na parede dos fundos. – Já que você mencionou a Stark Enterprises: A nova lei não trará uma nova safra de contratos com o governo para essa empresa? Uma empresa cujo dono é você, uma empresa que já se beneficiou enormemente com o boom pós-onze-de-setembro nos gastos do departamento de defesa? Tony podia sentir os olhos do Secretário de Defesa Nacional nas suas costas. Pepper se mexeu de leve, os saltos altos estalando no palco. – Srta. Everhart – começou Tony. – Como sabe, a Stark Enterprises não fabrica mais munição. Essa é outra promessa que fiz para o mundo e que pretendo continuar cumprindo. – Entretanto, sim, é claro que somos parceiros do governo dos Estados Unidos na guerra contra o terror, super-humano ou não. E eu seria ingênuo em negar que essa conexão, essa parceria, foi o principal motivo para o presidente ter me pedido para supervisionar esse programa. A segurança do povo americano, essa é a prioridade mais alta do governo atual, da Stark Enterprises e do próprio Anthony Stark. Não vejo nenhum conflito de interesses aqui. O secretário deu um passo à frente e aplaudiu com suas mãos gordas. Os repórteres se juntaram às palmas, desta vez mais alto do que antes. Everhart se sentou, os olhos faiscando. Acho que nunca mais vou dormir com ela de novo, pensou Tony. Mas nunca se sabe. – Mais uma… sim, Dan. Um homem simpático usando um terno amassado se levantou. – Quanto custa esse terno, Tony? Risos. Tony sorriu, apontando para seu paletó Armani. – Caro – ele fez um gesto para Pepper, que lhe entregou uma maleta. – Mas não tanto quanto este traje aqui. Ele abriu a trava e colocou a maleta em cima da tribuna. O cintilante capacete vermelho e amarelo do Homem de Ferro apareceu, cercado pelo traje de metal organizadamente guardado. Luvas e botas impecáveis nas laterais. – Esse é o meu trabalho – afirmou Tony. – É o que eu faço, quem eu sou. Eu construí esse traje com as minhas próprias mãos, no decorrer dos anos. É por isto que estou aqui diante de vocês hoje, por isso que concordei em administrar essa lei: para que todas as pessoas deste país tenham a mesma oportunidade, a mesma liberdade, a mesma segurança pra trabalhar duro e construir um futuro brilhante, que eu tive o privilégio de usufruir. – E sobre isso, quero apresentar-lhes uma mulher muito importante. A Sra. Miriam Sharpe perdeu o filho no trágico incidente de Stamford, e foi ela quem me conscientizou da minha própria culpa, por cumplicidade, naquele evento. Eu lhe devo reparações, e ela se tornou a minha consciência nesse esforço, e porta-voz dos direitos civis neste assunto. Por favor, recebam com aplausos a Sra. Sharpe. A Sra. Sharpe entrou, confiante e sorrindo. Ela havia passado por uma sutil transformação desde o funeral: seu terno fora feito sob medida, a maquiagem cuidadosamente aplicada. Mas ainda parecia uma dona de casa normal, a gentil mãe da casa ao lado. Todos ficaram de pé, aplaudindo com veemência. Quando Sharpe chegou perto de Tony, se desfez em lágrimas. – Obrigada, Sr. Stark. Muito obrigada. Tony a segurou pelos ombros e olhou dentro de seus olhos. – Não, Sra. Sharpe. Eu que agradeço a você. Um ruído no teto. Tony olhou para cima e rapidamente posicionou a Sra. Sharpe ao seu lado. – E, da mesma forma… – Tony apontou para o teto – … tenho certeza de que O Espetacular Homem-Aranha dispensa apresentações. Homem-Aranha desceu graciosamente, deixando uma teia para trás, em uma aterrissagem perfeita. Estava usando seu traje antigo, aquele de tecido vermelho e azul. Tony discutira esse assunto com ele, e ambos concordaram que isso seria um fator de maior reconhecimento do público. Tony se afastou e o Aranha pulou para frente, sendo aplaudido. No entanto, assim que ele se posicionou na tribuna, sua postura mudou. Parecia hesitante, quase tímido. – Humm, valeu. Mesmo – Aranha coçou o pescoço, nervoso. – Foi realmente… inspirador ouvir o Tony falar tudo aquilo e ver como foi forte a reação de vocês a tudo o que ele disse. Isso facilita muito as coisas. Bem, um pouquinho. Risos nervosos. – Vejam – continuou Homem-Aranha –, a Lei de Registro nos dá uma escolha. Podemos seguir o caminho defendido pelo Capitão América e deixar que as pessoas com poderes permaneçam sem nenhum controle. Ou podemos nos tornar legítimos e reconquistar a confiança do povo. Vamos lá, Peter, pensou Tony. Faça logo. – Tenho orgulho do que faço. De quem eu sou. E estou aqui para provar isso. Homem-Aranha levantou a mão e arrancou a máscara do rosto. A multidão prendeu a respiração; câmeras dispararam seus flashes, cadeiras dobráveis caíram conforme repórteres ficavam de pé apressadamente. O homem com o traje do Homem-Aranha parecia levemente em pânico, depois sorriu timidamente. – Meu nome é Peter Parker – apresentou-se ele. – E eu sou o Homem-Aranha desde os quinze anos. Tony Stark deu um passo à frente. Colocou o braço em volta dos ombros de Peter e trocou um olhar longo e agradecido com o jovem. Então, Tony virou para os repórteres. – Alguma pergunta?


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