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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 71

COMO O MARQUÊS


Um dos maiores nomes da literatura fantástica atual, Neil Gaiman ganhou quatro prêmios Hugo, dois Nebula, um World Fantasy, seis Locus, quatro Stoker, três Geffens, dois Mythopoeic Fantasy, e uma Medalha Newbery. Gaiman conquistou o público pela primeira vez como criador de Sandman, uma das mais aclamadas séries de graphic novels de todos os tempos. Gaiman ainda é uma estrela no campo dos quadrinhos. Suas HQs incluem Breakthrough, Death Talks About Life, Legend of the Green Flame, The Last Temptation, Only the End of the World Again, Mirrormask e uma grande quantidade de livros em colaboração com Dave McKean, incluindo Orquídea negra, Violent Cases, Signal to Noise, Mr. Punch, Os lobos dentro das paredes e O dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos dourados. Nos últimos anos, desfrutou de sucesso equivalente nos campos da ficção científica e da fantasia, com o romance best-seller Deuses americanos, vencedor dos prêmios Hugo, Nebula e Bram Stoker em 2002; com Coraline, vencedor do Hugo e do Nebula em 2003; e com Um estudo em esmeralda, vencedor do Hugo em 2004. Seu romance O livro do cemitério venceu o Hugo, a Medalha Newbery e a Medalha Carnegie em 2009. Ele também recebeu o prêmio World Fantasy por sua história com Charles Vess, Sonho de uma noite de verão, e o prêmio International Horror Guild com sua coletânea Angels & Visitations: A Miscellany. Outros romances de Gaiman incluem Belas maldições (escrito com Terry Pratchett), Lugar nenhum, Stardurt: O mistério da estrela e Filhos de anansi. Além de Angels & Visitations, seus contos foram reunidos em Sombra e espelhos: Contos e ilusões, Adventures in the Dream Trade e Coisas frágeis. Um filme baseado em seu romance Stardurt: O mistério da estrela foi lançado em 2007, e uma animação baseada em Coraline estreou em 2009. Seus trabalhos mais recentes incluem um livro de imagens com Adam Rex, Chu’s Day, seu primeiro romance para adultos em muitos anos, O oceano no fim do caminho, uma brincadeira de viagem no tempo para todas as idades, e, como editor, a antologia Unnatural Creatures. A seguir, ele nos conduz às profundezas do mundo surreal da Londres de Baixo, o cenário de seu famoso romance Lugar nenhum, para uma aventura que demonstra que às vezes a roupa faz o homem — literalmente.



COMO O MARQUÊS RECUPEROU SEU CASACO

 Ele era lindo. Era extraordinário. Era único. Ele era a razão de o Marquês de Carabas estar acorrentado a um mastro no meio de uma sala circular, nas profundezas do subsolo, enquanto o nível da água subia cada vez mais, devagarzinho. Ele tinha trinta bolsos, sete dos quais eram óbvios, dezenove escondidos e quatro mais ou menos impossíveis de encontrar — até mesmo, em algumas ocasiões, para o próprio Marquês. Ele tinha sido presenteado (voltaremos mais adiante ao poste, à sala e à água subindo), — embora “presenteado” possa ser considerado um exagero infeliz, mesmo que justificado — com uma lente de aumento pela própria Victoria. Era um artefato maravilhoso: ornamentado, dourado, com uma corrente e minúsculos querubins e gárgulas, e a lente tinha a propriedade incomum de tornar transparente qualquer coisa que você olhasse através dela. O Marquês não sabia onde Victoria a tinha obtido, antes de lhe furtar a lupa para compensar um pagamento que, em sua opinião, não era exatamente o que havia sido acordado. Afinal, só havia um Elefante, e obter o seu diário não tinha sido fácil, assim como não fora fácil escapar do Elefante e do Castelo depois de tê-lo obtido. O Marquês tinha guardado a lupa de Victoria em um dos quatro bolsos que quase não estavam lá e nunca mais conseguira encontrá-la. Além de seus bolsos incomuns, ele possuía mangas magníficas, uma gola imponente e uma fenda nas costas. Era feito de algum tipo de couro, tinha a cor de uma rua molhada à meianoite e, mais importante do que qualquer uma dessas coisas, ele tinha estilo. Há quem diga que a roupa faz o homem, mas essas pessoas estão erradas na maioria das vezes. Entretanto, seria verdade dizer que, quando o garoto que se tornaria o Marquês colocou esse casaco pela primeira vez e olhou-se no espelho, ele se levantou mais ereto e sua postura mudou porque sabia, vendo seu reflexo, que o tipo de pessoa que vestia um casaco como aquele não era um mero rapaz, não era um simples ladrão furtivo e negociador de favores. O menino vestindo o casaco, na época grande demais para ele, sorriu olhando seu reflexo no espelho e lembrou-se de uma ilustração de um livro que tinha visto, do gato de um moleiro de pé sobre as duas patas traseiras. Um gato garboso vestindo um casaco fino e botas grandes e altivas. E ele se deu um nome. Um casaco assim, ele sabia, era o tipo de casaco que só poderia ser usado pelo Marquês de Carabas. Nunca teve certeza, nem naquela época nem depois, de como pronunciar Marquês de Carabas. Alguns dias ele pronunciava o nome de um jeito, alguns dias de outro. O nível da água havia chegado aos seus joelhos, e ele pensou: Isto nunca teria acontecido se eu ainda tivesse meu casaco. Era o dia do mercado após a pior semana da vida do Marquês de Carabas e não parecia que as coisas iriam melhorar. Por outro lado, não estava mais morto, e o corte em sua garganta sarava rapidamente. Havia inclusive uma rouquidão em sua garganta que ele achou bastante atraente. Esses eram, sem dúvida, pontos positivos. Com certeza também havia desvantagens em se estar morto, ou, pelo menos, de ter sido morto há pouco tempo, e perder o casaco era a pior delas. A Tribo do Esgoto não ajudou. — Você vendeu meu cadáver — disse o Marquês. — Essas coisas acontecem. Você também vendeu minhas posses. Eu as quero de volta. Pagarei por elas. Dunnikin, da Tribo do Esgoto, deu de ombros. — Eu as vendi — disse ele. — Assim como vendemos você. Você não pode pegar de volta o que vendeu. Não é um bom negócio. — Estamos falando — retrucou o Marquês de Carabas — do meu casaco. E pretendo recuperá-lo de qualquer jeito. Dunnikin voltou a dar de ombros. — Para quem você o vendeu? — perguntou o Marquês. O morador do esgoto não respondeu. Agiu como se nem tivesse escutado a pergunta. — Posso conseguir perfumes para você — ofereceu o Marquês, disfarçando sua irritação com toda a brandura que conseguiu. — Perfumes gloriosos, magníficos, odoríferos. Sabe que os quer. Dunnikin encarou o Marquês, a expressão impassível. Então passou os dedos pela garganta. Em termos de gestos, o Marquês refletiu, aquele tinha sido de um terrível mau gosto. Ainda assim, teve o efeito desejado. Ele parou de fazer perguntas: não teria respostas dali. O Marquês caminhou até a praça de alimentação. Naquela noite, a Galeria Tate sediava o Mercado Flutuante. A praça de alimentação fora instalada na Sala Pré-Rafaelita e já tinha sido praticamente toda desmontada. Quase não havia tendas abertas: apenas um homenzinho de aparência triste vendendo algum tipo de linguiça e, na esquina, embaixo de uma pintura de Burne-Jones com donzelas em robes translúcidos descendo uma escada, havia alguns representantes do Povo Cogumelo, com alguns bancos, mesas e uma churrasqueira. O Marquês já havia comido uma das linguiças do homem tristonho, e tinha uma política inflexível de nunca cometer de propósito o mesmo erro duas vezes, então caminhou até a tenda do Povo Cogumelo. Havia três pessoas Cogumelo cuidando da tenda, dois rapazes e uma moça. Eles cheiravam a umidade. Vestiam casacos velhos duf el e jaquetas militares, e espiavam por debaixo de seus cabelos desgrenhados como se a luz machucasse seus olhos. — O que vocês estão vendendo? — perguntou ele. — Cogumelo. Cogumelo na torrada. Cogumelo cru. — Quero cogumelo na torrada — disse ele, e um deles, a jovem magra e pálida com cara de mingau velho, cortou uma fatia de cogumelo bola do tamanho do cepo de uma árvore. — E eu quero cozido direito, por completo — acrescentou. — Tenha coragem. Coma-o cru — disse a moça. — Junte-se a nós. — Já tive meus contatos imediatos com o cogumelo — disse o Marquês. — Nós chegamos a um entendimento. A mulher colocou a fatia de cogumelo bola sobre a churrasqueira portátil. Um dos jovens, alto, de ombros arqueados, vestindo seu casaco duf el que cheirava a porões antigos, se debruçou sobre o Marquês e encheu seu copo com chá de cogumelo. Ele se inclinou para a frente e o Marquês pôde ver a pequena plantação de cogumelos pálidos se projetando como espinhas de sua bochecha. — Você é o de Carabas? O quebra-galho? O Marquês não pensava em si mesmo como um quebra-galho. Mas respondeu: — Sou. — Ouvi dizer que está procurando o seu casaco. Eu estava lá quando a Tribo do Esgoto o vendeu. Foi no início do último mercado, foi sim. Em Belfast. Eu vi quem o comprou. O cabelo na nuca do Marquês se arrepiou. — E o que quer pela informação? O rapaz Cogumelo lambeu os lábios com uma língua liquenoide. — Tem uma garota de quem eu gosto que não fala comigo nem para dizer as horas. — Uma garota Cogumelo? — Quem dera eu fosse tão sortudo. Se estivéssemos unidos no amor e no corpo do cogumelo, eu não teria com que me preocupar. Não. Ela faz parte da Corte dos Corvos. Mas come aqui de vez em quando. E nós conversamos. Do mesmo jeito que você e eu estamos conversando agora. O Marquês não sorriu de pena nem fez uma careta. Ele mal ergueu uma sobrancelha. — E ainda assim ela não retribuiu seu ardor. Que estranho. O que quer que eu faça a respeito? O jovem enfiou a mão cinza no bolso de seu longo casaco duf el. Puxou um envelope dentro de um saco plástico transparente de sanduíche. — Escrevi uma carta para ela. Está mais para um poema, pode-se dizer, embora eu não seja exatamente um poeta. Para contar como me sinto em relação a ela. Mas não sei se ela leria se eu entregasse. Então vi você e pensei que, se fosse você a entregá-la, com todas as suas palavras finas e seus floreios extravagantes... — Ele parou. — Pensou que ela leria e ficaria mais inclinada a ouvir seu terno pedido. O jovem olhou para baixo, para seu casaco duf el, com uma expressão intrigada. — Eu não tenho um terno — disse ele. — Só isto que estou vestindo agora. O Marquês tentou não suspirar. A moça Cogumelo colocou um prato de plástico rachado na frente dele, com uma fatia fumegante de cogumelo grelhado. Ele cutucou o cogumelo com cuidado, certificando-se de que estava totalmente cozido e de que não havia esporos ativos. O seguro morreu de velho, e o Marquês gostava demais de si mesmo para pensar em uma simbiose. Estava saboroso. Ele mastigou e engoliu, apesar de a comida machucar sua garganta. — Então, tudo que quer que eu faça é garantir que ela leia a sua declaração de desejo? — Quer dizer, minha carta? Meu poema? — Isso. — Bem, sim. E quero que esteja com ela, para garantir que não a jogue fora sem ler, e quero que traga a resposta dela para mim. — O Marquês olhou para o jovem. Podia ver que ele tinha pequenos cogumelos brotando do pescoço e das bochechas, seu cabelo era pesado e sujo e havia nele um leve cheiro de lugares abandonados, mas também era verdade que atrás da franja espessa seus olhos eram de um azul claro e intenso, e ele era alto e quase atraente. O Marquês o imaginou banhado e limpo e, de alguma forma, menos fúngico, e aprovou. — Coloquei a carta na embalagem de sanduíche para ela não ficar úmida no caminho. — Muito sábio. Agora, diga-me: quem comprou meu casaco? — Ainda não, apressadinho. Você não me perguntou sobre meu verdadeiro amor. O nome dela é Drusilla. Você a reconhecerá porque ela é a mulher mais bonita de toda a Corte dos Corvos. — A beleza está tradicionalmente nos olhos de quem a vê. Precisarei de mais informações. — Já disse. O nome dela é Drusilla. Só existe uma. E ela tem uma marca de nascença grande e vermelha no dorso da mão que parece uma estrela. — Parece um par romântico improvável. Um dos garotos Cogumelo apaixonado por uma dama da Corte dos Corvos. O que o faz pensar que ela abrirá mão da vida dela por seus porões úmidos e suas diversões fungoides? O jovem deu de ombros. — Ela me amará — disse — depois de ler o meu poema. Ele torceu a haste de um pequeno cogumelo guarda-chuva crescendo em sua bochecha direita e, quando caiu na mesa, ele o pegou e continuou a torcê-lo entre os dedos. — Estamos de acordo? — De acordo. — O sujeito que comprou seu casaco carregava um cajado — disse o jovem Cogumelo. — Um monte de gente carrega cajados — disse o Marquês. — Esse era curvo na parte de cima — disse o jovem Cogumelo. — Ele parecia um pouco com um sapo. Baixinho. Bem gordo. Cabelo da cor de cascalho. Precisava de um casaco e gostou do seu. Ele enfiou o cogumelo guarda-chuva na boca. — Informação útil. Com certeza transmitirei seu ardor e suas felicitações à bela Drusilla — disse o Marquês de Carabas com um otimismo que definitivamente não sentia. De Carabas se esticou sobre a mesa, pegou das mãos do jovem o saco de sanduíche com o envelope e colocou-o em um dos bolsos costurados dentro de sua camisa. E então foi embora, pensando em um homem segurando um cajado. O Marquês de Carabas usava uma manta para substituir seu casaco. Ele a vestia enrolada como se fosse um poncho vindo do próprio Inferno. Aquilo não o fazia feliz. Ele desejava que fosse seu casaco. Penas bonitas não fazem pássaros bonitos, sussurrou uma voz no fundo de sua mente, algo que alguém tinha dito a ele quando menino: suspeitava que fosse a voz do irmão e fez o possível para esquecer que algum dia a tivesse ouvido. Um cajado: o homem que havia pegado seu casaco com a Tribo do Esgoto carregava um cajado. Ele ponderou. O Marquês de Carabas gostava de ser quem era e, quando assumia riscos, gostava que fossem riscos calculados, além de ser do tipo que conferia esses cálculos duas e depois três vezes. Ele verificou seus cálculos pela quarta vez. O Marquês de Carabas não confiava nas pessoas. Era ruim para os negócios e podia abrir um precedente infeliz. Não confiava em seus amigos nem em amantes ocasionais, e não confiava em seus empregadores de jeito nenhum. Ele confiava exclusivamente no Marquês de Carabas, uma figura imponente em um casaco imponente, capaz de superar a todos no discurso, no pensamento e no planejamento. Havia apenas duas classes de pessoas que carregavam cajados: bispos e pastores. No Portão dos Bispos, os cajados eram decorativos, sem função, puramente simbólicos. E os bispos não precisavam de casacos. Afinal, tinham túnicas; túnicas legais, brancas e no estilo deles. O Marquês não tinha medo dos bispos. Sabia que a Tribo do Esgoto não tinha medo dos bispos. Os habitantes do Arbusto do Pastor, porém, eram outra história. Mesmo vestindo seu casaco e em seu melhor momento, no auge de sua saúde e com um pequeno exército sob seu comando, o Marquês não gostaria de enfrentar os pastores. Refletiu sobre a possibilidade de visitar o Portão dos Bispos e de gastar alguns dias agradáveis garantindo que seu casaco não se encontrava lá. Então suspirou de maneira dramática e foi para a Baia dos Guias, à procura de um guia vinculado que pudesse ser persuadido a levá-lo ao Arbusto do Pastor. Sua guia era bastante baixinha, com o cabelo louro curto. De início, o Marquês pensou que ela fosse adolescente, até viajar com ela metade de um dia e então decidir que já tinha seus vinte e poucos anos. Havia falado com meia dúzia de guias antes de encontrá-la. O nome dela era Knibbs e tinha parecido confiante, e ele precisava de confiança. Ele lhe disse os dois lugares aonde estava indo e partiram da Baia dos Guias. — Então, para onde quer ir primeiro? — perguntou ela. — Ao Arbusto do Pastor ou à Corte dos Corvos? — A visita à Corte dos Corvos é uma formalidade, só para entregar uma carta. Para alguém chamada Drusilla. — Uma carta de amor? — Acredito que sim. Por que quer saber? — Ouvi dizer que a bela Drusilla é perversamente bonita e tem o péssimo hábito de transformar aqueles que a desagradam em aves de rapina. Você deve amá-la muito para estar lhe escrevendo cartas. — Lamento, mas nunca encontrei essa jovem — disse o Marquês. — A carta não é minha. E não importa qual visitaremos primeiro. — Sabe... — disse Knibbs, pensativa. — Considerando a possibilidade de algo terrivelmente infeliz acontecer a você quando encontrar os pastores, devíamos passar primeiro na Corte dos Corvos. Assim a bela Drusilla receberá a carta dela. Veja bem, não estou dizendo que algo terrível acontecerá a você. Mas o seguro morreu de velho. O Marquês de Carabas olhou para baixo, para sua silhueta coberta. Estava indeciso. Sabia que, se estivesse vestindo seu casaco, não estaria indeciso: saberia exatamente o que fazer. Olhou para a garota e evocou o sorriso mais convincente possível. — Então vamos para a Corte dos Corvos — disse. Knibbs assentiu e se pôs a caminho, e o Marquês a seguiu. As trilhas da Londres de Baixo não eram os caminhos da Londres de Cima; eles dependiam em grande parte de coisas como crença, opinião e tradição, tanto quanto das realidades dos mapas. De Carabas e Knibbs eram duas pequenas silhuetas caminhando por um túnel alto e abobadado esculpido em pedra branca e antiga. Seus passos ecoavam. — Você é o de Carabas, não é? — perguntou Knibbs. — Você é famoso. Sabe como chegar aos lugares. Para que exatamente precisa de uma guia? — Duas cabeças são melhores do que uma — respondeu ele. — E também dois pares de olhos. — Você costumava usar um casaco elegante, não? — disse ela. — Costumava, sim. — O que aconteceu com ele? Ele não respondeu. Então falou: — Mudei de ideia. Vamos ao Arbusto do Pastor primeiro. — É justo — disse sua guia. — É fácil levá-lo tanto a um lugar quanto a outro. Esperarei por você no posto comercial dos arbustos, do lado de fora, se não se importar. — Menina esperta. — Meu nome é Knibbs — retrucou ela. — E não menina. Quer saber por que me tornei uma guia? É uma história interessante. — Não muito — disse o Marquês de Carabas. Ele não estava se sentindo exatamente no clima para conversar, e a guia estava sendo bem recompensada pelo seu esforço. — Por que não tentamos nos mover em silêncio? Knibbs assentiu e não disse nada até chegarem ao fim do túnel, permanecendo em silêncio enquanto desciam alguns degraus metálicos presos na lateral de um muro. Só quando alcançaram as margens do Mortlake, o vasto Lago dos Mortos subterrâneo, e depois de acender uma vela na beira para chamar um barqueiro, ela falou novamente. — O importante para ser um guia de verdade é estar vinculado. Então as pessoas sabem que não irá orientá-las da maneira errada — explicou Knibbs. O Marquês apenas grunhiu. Estava pensando no que dizer aos pastores no posto comercial, tentando rotas alternativas por entre possibilidades e probabilidades. Ele não tinha nada que os pastores pudessem querer, esse era o problema. — Se você os conduz da maneira errada, nunca mais trabalha como guia — continuou Knibbs alegremente. — Por isso somos vinculados. — Eu sei — disse o Marquês. Ela era uma guia das mais irritantes, pensou. Duas cabeças só são melhores do que uma se a outra cabeça mantiver a boca fechada e não começar a lhe contar coisas que ele já sabia. — Eu fui vinculada na Rua dos Vínculos. Ela bateu na pequena corrente em torno de seu pulso. — Não vejo o barqueiro — disse o Marquês. — Ele já deve estar chegando. Olhe naquela direção e grite quando o vir. Continuarei a procurar por ali. De um jeito ou de outro, nós o encontraremos. Eles fitaram as águas negras do Tyburn. — Antes de ser uma guia, quando era pequena, meu povo me treinou para isso — Knibbs retomou sua história. — Eles disseram que era a única forma de satisfazer a honra. O Marquês se virou para olhá-la. Ela segurava a vela na altura de seus olhos. “Tudo está fora do lugar aqui”, pensou o Marquês, e percebeu que deveria estar prestando atenção nela desde o começo. “Tudo está errado.” — Quem é o seu povo, Knibbs? De onde você é? — De um lugar onde você não é mais bem-vindo — respondeu a garota. — Nasci e fui criada para dar a minha fidelidade e lealdade ao Elefante e ao Castelo. Algo duro o atingiu na nuca, acertou-o como um golpe de martelo, e relâmpagos pulsaram na escuridão de sua mente enquanto ele caía no chão. O Marquês de Carabas não conseguia mover os braços. Eles estavam, percebeu, presos atrás dele. Estava deitado de lado. Tinha desmaiado. Se as pessoas que haviam feito isso com ele pensavam que ainda estava inconsciente, então não faria nada para que mudassem de ideia, decidiu. Deixou os olhos abrirem a mais fina fresta, para espiar o mundo. — Ah, não seja tonto, de Carabas — disse uma voz profunda e rouca. — Eu não acredito que ainda esteja desmaiado. Tenho orelhas grandes. Posso ouvir as batidas do seu coração. Abra seus olhos direito, seu fuinha. Encare-me como um homem. O Marquês reconheceu a voz e torceu para estar enganado. Abriu os olhos. Encarava pernas, pernas humanas de pés descalços. Os dedos eram achatados e pressionados uns contra os outros. As pernas e os pés eram da cor de teca. Ele conhecia aquelas pernas. Não havia se enganado. Sua mente se bifurcou: uma pequena parte dela lhe dava um sermão sobre sua falta de atenção e tolice. Knibbs havia contado a ele, perto do Templo e do Arco: ele só não lhe havia dado ouvidos. Mas, mesmo enquanto se enraivecia com sua própria tolice, o resto de sua mente assumiu o comando e forçou um sorriso. — Ora, mas é uma honra — respondeu. — Você não precisava se dar ao trabalho de se encontrar comigo assim. Pois a mera noção de que Vossa Proeminência teria o mais ínfimo desejo de me ver teria... — Feito você correr na direção contrária o mais rápido que suas pernas de espiga pudessem aguentar — disse o indivíduo com as pernas cor de teca. Ele esticou seu tronco, que era longo e flexível, de uma cor azul-esverdeada e pendia até os tornozelos, e empurrou o Marquês, derrubando-o de costas. O Marquês começou a esfregar devagar os pulsos atados contra o concreto embaixo dele enquanto dizia: — Nem um pouco. Muito pelo contrário. Palavras não podem descrever meu enorme prazer diante de sua presença paquidérmica. Posso sugerir que me desamarre e permita-me cumprimentá-lo de homem para... de homem para Elefante? — Acho que não, considerando todo o trabalho que tive para fazer isto acontecer — disse o outro. Ele tinha a cabeça de um elefante cinza-esverdeado. Suas presas eram afiadas e manchadas de marrom-avermelhado nas pontas. — Sabe, quando descobri o que você tinha feito, jurei que faria você gritar e implorar por misericórdia. E jurei que diria não, que não seria misericordioso quando implorasse. — Poderia dizer sim, ao invés disso — disse o Marquês. — Não poderia dizer sim. Abuso de hospitalidade — retrucou o Elefante. — Nunca esqueço. O Marquês tinha sido contratado para levar o diário do Elefante a Victoria, quando ele e o mundo eram muito mais novos. O Elefante comandava seu feudo de modo arrogante, às vezes violentamente e sem sensibilidade ou humor, e o Marquês havia pensado que ele era estúpido. Achara, inclusive, que o Elefante não conseguiria de jeito algum identificar seu papel no desaparecimento do diário. Isso havia acontecido muito tempo atrás, contudo, quando o Marquês era jovem e tolo. — Todos esses anos gastos treinando uma guia para me trair contando apenas com a possibilidade de eu aparecer e contratá-la — disse o Marquês. — Não é uma reação exagerada? — Não se me conhece — respondeu o Elefante. — Se você me conhece, é muito branda. Também fiz um monte de outras coisas para encontrá-lo. O Marquês tentou se sentar. O Elefante o empurrou de volta para o chão com um pé descalço. — Implore por misericórdia — disse o Elefante. Essa era fácil. — Misericórdia! — disse o Marquês. — Eu imploro! Suplico! Seja misericordioso, a melhor de todas as dádivas. É condizente com você, poderoso Elefante, como senhor de seu próprio domínio, ser misericordioso com aquele que não é nem mesmo adequado para limpar o pó dos seus excelentes dedos dos pés... — Sabia — reagiu o Elefante — que tudo o que diz soa sarcástico? — Não sabia. Peço desculpas. Fui sincero em cada palavra. — Grite — disse o Elefante. O Marquês de Carabas gritou muito alto e por muito tempo. É difícil gritar quando sua garganta foi cortada recentemente, mas ele gritou com toda a força e tristeza possíveis. — Até gritando você é sarcástico — reclamou o Elefante. Um grande cano preto de ferro fundido projetava-se da parede. Um registro instalado no cano permitia que o que quer que saísse dele fosse ligado e desligado. O Elefante o puxou com braços poderosos, e um fio de lodo escuro apareceu, seguido por um jato de água. — Água do cano de escoamento — disse o Elefante. — Agora, é o seguinte: eu faço meu dever de casa. Você mantém sua vida bem escondida, de Carabas. Tem feito isso todos esses anos, desde que nossos caminhos se cruzaram pela primeira vez. Não fazia sentido nem mesmo tentar nada enquanto você levasse sua vida em outro lugar. Eu tenho gente em toda Londres de Baixo: pessoas com quem comeu, com quem dormiu ou riu, ou com quem acabou nu na torre do Big Ben, mas nunca fez sentido levar isso adiante, não enquanto sua vida estivesse cuidadosamente protegida, fora de risco. Até a semana passada, quando os rumores sob as ruas diziam que sua vida estava exposta, vulnerável. Foi então que espalhei que daria a liberdade do Castelo para a primeira pessoa que me deixasse ver... — ...Me ver gritando por misericórdia — falou de Carabas. — Foi o que falou. — Você me interrompeu — disse o Elefante, compassivo. — Eu ia dizer que daria a liberdade do Castelo à primeira pessoa que me deixasse ver o seu cadáver. Ele abriu completamente o registro e o esguicho de água tornou-se um jorro. — Devo alertá-lo. Existe — avisou de Carabas — uma maldição para qualquer um que me matar. — Eu aceito a maldição — respondeu o Elefante. — Apesar de que é provável que a esteja inventando. Vai gostar da próxima parte. A sala se enche de água e então você se afoga. Aí eu deixo a água sair, entro e rio um bocado. — Ele emitiu um som de trombeta que, de Carabas refletiu, parecia ser uma risada caso você fosse um elefante. O Elefante saiu do campo de visão de de Carabas. O Marquês ouviu a porta bater. Estava deitado em uma poça. Contorceu-se e continuou se contorcendo até conseguir ficar de pé. Olhou para baixo: havia uma argola metálica em seu tornozelo, acorrentada a um poste de metal no centro da sala. Desejou estar vestindo seu casaco: havia lâminas nele; havia gazuas; havia botões que não eram tão inocentes e decorativos quanto pareciam. Esfregou a corda que atava seus pulsos contra o poste de metal, na esperança de desgastá-la, sentindo a pele dos pulsos e das palmas das mãos se desgastando enquanto a corda absorvia a água e se apertava mais e mais. O nível da água continuava a subir: já estava acima da cintura. De Carabas olhou ao redor da câmara circular. Tudo que precisava fazer era se soltar das amarras que prendiam seus pulsos — obviamente soltando o poste ao qual estava amarrado — e então poderia soltar as argolas em seus tornozelos, desligar a água, sair da sala, evitar o Elefante movido a vingança e qualquer um de seus inúmeros capangas e fugir. Puxou o poste. O poste não se mexeu. Puxou com mais força. Continuou sem se mover. Caiu contra o poste e pensou na morte, a verdadeira morte final, e pensou no seu casaco. Uma voz sussurrou em seu ouvido: — Silêncio! Algo puxou seus pulsos, e suas amarras caíram. Só quando a vida voltou aos punhos percebeu o quão apertado tinha sido amarrado. Ele se virou. — O quê? O rosto que encontrou era tão familiar quanto o seu. O sorriso era devastador; os olhos, inocentes e aventureiros. — Tornozelo — disse o homem, com um novo sorriso mais devastador que o anterior. O Marquês de Carabas não estava devastado. Ergueu a perna e o homem se abaixou, fez algo com um pedaço de arame e removeu a argola da perna. — Ouvi dizer que estava tendo um probleminha — disse o homem. Sua pele era tão escura quanto a do Marquês. Ele devia ter uns três centímetros a mais do que de Carabas, mas agia como se fosse muito mais alto do que qualquer pessoa que viesse a conhecer. — Não. Sem problemas. Estou ótimo — disse o Marquês. — Não está. Acabei de salvá-lo. De Carabas o ignorou. — Onde está o Elefante? — Do outro lado daquela porta, com um monte de capangas. As portas se trancam automaticamente quando o salão se enche de água. Ele precisava ter certeza de que não ficaria preso aqui com você. Eu estava contando com isso. — Contando com isso? — É claro. Venho seguindo-os há horas. Desde que soube que tinha ido embora com um dos traidores plantados pelo Elefante. Pensei “péssima ideia”, pensei mesmo. Ele vai precisar de ajuda. — Você ouviu...? — Escute — disse o homem que se parecia um pouco com o Marquês de Carabas, que era um pouco mais alto, e talvez algumas pessoas (não o Marquês, obviamente) achassem ter um corte de cabelo melhor. — Você não pensou que eu ia deixar alguma coisa acontecer com meu irmãozinho, não é? Eles estavam com água acima da cintura. — Eu estava bem — falou de Carabas. — Tinha tudo sob controle. O homem caminhou até a parte mais distante da sala. Ajoelhou-se, afundou na água e depois, de sua mochila, tirou algo que parecia uma pequena alavanca. Enfiou uma ponta abaixo da superfície da água. — Prepare-se — disse ele. — Acho que este deve ser nosso caminho mais rápido para fora daqui. O Marquês ainda flexionava seus dedos com câimbra e formigamento, tentando devolvê- los à vida. — O que é isso? — perguntou, tentando soar desinteressado. — Lá vamos nós — respondeu o homem, e puxou um grande quadrado de metal. — É o ralo. De Carabas não teve chance de protestar enquanto seu irmão o pegava e o jogava em um buraco no chão. “Provavelmente”, pensou de Carabas, “há passeios assim em parques de diversões.” Ele podia imaginá-los. As pessoas do mundo de cima pagariam um bom dinheiro para fazer esse passeio se tivessem certeza de que iriam sobreviver. Caiu através de tubos, arrastado pelo fluxo de água, sempre descendo mais e mais fundo. Ele não tinha certeza de que iria sobreviver, e não estava se divertindo. O corpo do Marquês foi machucado e surrado enquanto cavalgava a água dentro do cano, até ser despejado de bruços em uma grande grade metálica, que parecia mal conseguir aguentar seu peso. Arrastou-se para fora da grade, deitou-se no chão de pedra ao lado dela e estremeceu. Escutou um tipo improvável de ruído, e foi imediatamente seguido pelo seu irmão, que disparou pelo cano e aterrissou de pé, como se tivesse prática nisso. Ele sorriu. — Divertido, não? — Na verdade, não — disse o Marquês de Carabas. E então teve de perguntar. — Você estava dizendo ‘Iupi!’? — É claro! Você não? — perguntou o irmão. De Carabas se levantou, um pouco desequilibrado. — Como se chama atualmente? — A mesma coisa. Eu não mudo. — Peregrino não é seu nome real — retrucou de Carabas. — Dá para o gasto. Marca meu território e minhas intenções. Você continua se chamando de Marquês, então? — perguntou o Peregrino. — Continuo, sou o Marquês porque digo que sou — respondeu o Marquês. Ele tinha certeza de que, no momento, parecia um rato molhado, e certamente soou pouco convincente. Sentiu-se pequeno e tolo. — Você é que sabe. De qualquer modo, vou embora. Você não precisa mais de mim. Fique longe de problemas. Não precisa me agradecer, realmente — Seu irmão foi sincero, é claro. Isso foi o que mais doeu. O Marquês de Carabas se odiou. Ele não queria falar aquilo, mas agora tinha que dizer. — Obrigado, Peregrino. — Ah! — disse o Peregrino. — Seu casaco. Nas ruas estão dizendo que ele parou no Arbusto do Pastor. É tudo o que sei. Então: conselho. Considere-o o mais sincero possível. Sei que não gosta de conselhos. Mas, sobre o casaco? Deixe-o para lá. Esqueça-o. Simplesmente arrume um novo casaco. Sério. — Está bem, então — disse o Marquês. — Bom — respondeu o Peregrino, e sorriu e se sacudiu como um cachorro, jogando água para todos os lados, antes de deslizar pelas sombras e partir. O Marquês de Carabas permaneceu lá, parado e pingando tristemente. Tinha pouco tempo antes de o Elefante descobrir a falta de água na sala, e a falta de um corpo, e vir atrás dele. Verificou o bolso da camisa: o saco de sanduíche estava lá, e o envelope parecia seguro e seco dentro dele. Por um momento, perguntou-se sobre algo que o tinha incomodado desde o mercado. Por que o rapaz Cogumelo pediria a ele, de Carabas, para entregar uma carta à bela Drusilla? E que tipo de carta poderia convencer um membro da Corte dos Corvos, e uma que ainda por cima possuía uma estrela em sua mão, a desistir de sua vida na corte e amar alguém do Povo Cogumelo? Uma suspeita lhe ocorreu. Não era uma ideia confortável, mas ela foi varrida por problemas mais imediatos. Poderia se esconder: ficar na dele por um tempo. Isso passaria. Mas havia o casaco para pensar a respeito. Ele havia sido resgatado — resgatado! — por seu irmão, algo que nunca aconteceria em circunstâncias normais. Poderia conseguir um novo casaco. Claro que sim. Mas ele nunca seria o seu casaco. Um pastor estava com seu casaco. O Marquês de Carabas sempre tinha um plano, e sempre tinha um plano B; e, por trás desses planos, sempre tinha um plano real, um que não deixaria nem ele mesmo saber, para quando o plano original e o plano B houvessem falhado. Agora, e lhe doía admitir, não tinha plano algum. Não tinha nem mesmo um plano normal, entediante e óbvio que pudesse abandonar assim que as coisas se complicassem. Ele só tinha um desejo, e isso o impulsionava como a necessidade de alimento, amor ou segurança impulsionava aqueles que o Marquês considerava pessoas menores. Ele não tinha nenhum plano. Só queria seu casaco de volta. O Marquês de Carabas começou a caminhar. Tinha um envelope contendo um poema de amor em seu bolso, estava enrolado em uma coberta ensopada e odiava o fato de seu irmão tê- lo resgatado. Quando você se cria do zero, é preciso um modelo de algum tipo, algo para se mirar ou para ser seu ponto de partida — todas as coisas que você quer ser, ou intencionalmente não quer ser. Quando garoto, o Marquês sabia quem ele não queria ser. Definitivamente não queria ser como o Peregrino. Não queria ser como ninguém. Ele queria, em vez disso, ser elegante, elusivo, brilhante e, acima de todas as coisas, queria ser único. Assim como o Peregrino. A questão era: existia um ex-pastor em fuga que ele havia ajudado a cruzar o rio Tyburn e chegar à liberdade, e a uma pequena mas feliz vida como artista de campo para a Legião Romana que esperava lá, ao lado do rio, por ordens que nunca viriam. O ex-pastor lhe dissera que os pastores nunca o obrigavam a fazer nada. Eles apenas usavam seus impulsos e desejos naturais e os estimulavam, reforçavam-nos, então você agia quase naturalmente, mas da forma que eles queriam. Lembrou-se disso e então se esqueceu, porque estava assustado por estar sozinho. Só nesse momento o Marquês entendeu o quanto estava assustado de estar sozinho, e ficou surpreso de notar o quão feliz estava de ver diversas outras pessoas caminhando na mesma direção que ele. — Estou feliz que esteja aqui — falou um deles. — Estou feliz que esteja aqui — disse outro. — Também estou feliz de estar aqui — respondeu de Carabas. Aonde estava indo? Para onde eles estavam indo? Era tão bom que todos estivessem viajando juntos na mesma direção. Havia segurança na multidão. — É bom ter companhia — disse uma mulher branca e magra, com uma espécie de suspiro feliz. E era mesmo. — É bom ter companhia — repetiu o Marquês. — De fato é. É bom ter companhia — disse seu vizinho do outro lado. Havia algo familiar naquela pessoa. Ele tinha orelhas enormes, como leques, e um nariz como uma grossa cobra verde-acinzentada. O Marquês começou a se perguntar se já tinha encontrado aquela pessoa antes, e tentava lembrar exatamente onde, quando um homem segurando um cajado grande com a ponta curva bateu gentilmente em seu ombro. — Nunca queremos sair da linha, não é mesmo? — disse o homem, com sensatez, e o Marquês pensou “É claro que não”, e acelerou um pouco e entrou no ritmo uma vez mais. — Isso é bom. Estar fora da linha é estar fora de si — disse o homem com o cajado, e seguiu adiante. — Fora da linha é fora de si — repetiu o Marquês em voz alta, se perguntando como poderia estar alheio a algo tão óbvio, tão básico. Havia uma pequena parte dele, em algum lugar distante, que se perguntava o que aquilo realmente significava. Eles chegaram ao lugar para onde estavam indo, e foi bom estar entre amigos. O tempo passava de modo estranho naquele lugar, mas logo o Marquês e seu amigo com o rosto verde-acinzentado e o longo nariz receberam trabalho para fazer, um verdadeiro trabalho que era o seguinte: eles se livravam dos membros do rebanho que não podiam mais se mover ou servir, depois que tudo que pudesse ser útil fosse removido e reutilizado. Removiam as últimas partes que sobravam, cabelo e gordura de sebo e os arrastavam para o poço, onde largavam os restos. Os turnos eram longos e cansativos, e o trabalho, complicado, mas os dois empenhavam-se juntos e continuavam em sincronia. Já vinham trabalhando em conjunto orgulhosamente há vários dias quando o Marquês notou algo irritante. Alguém parecia estar tentando atrair sua atenção. — Eu o segui — sussurrou o estranho. — Sei que não queria que eu fizesse isso. Mas, bem, a necessidade falou mais alto. O Marquês não sabia a que o estranho se referia. — Tenho um plano de fuga, assim que eu conseguir acordá-lo — disse o estranho. — Acorde, por favor. O Marquês estava acordado. Novamente se deu conta de que não sabia do que o estranho estava falando. Por que o homem pensava que ele estava dormindo? O Marquês poderia ter dito algo, mas tinha trabalho a fazer. Ele ponderou sobre isso, enquanto desmembrava mais um ex-integrante do rebanho, até decidir que havia algo que poderia dizer para explicar o motivo de o estranho irritá-lo. E disse isso alto. — É bom trabalhar — falou o Marquês. Seu amigo com o nariz longo e flexível e as orelhas enormes assentiu com a cabeça diante da afirmação. Eles trabalharam. Após um tempo, seu amigo puxou o que restava de alguns antigos membros do rebanho para o poço e os empurrou para dentro dele. O poço era bem profundo. O Marquês tentou ignorar o estranho, que agora estava de pé atrás dele. Ficou bastante incomodado quando sentiu algo cobrir sua boca e suas mãos sendo atadas atrás das costas. Ele não tinha certeza do que deveria fazer. Isso o fez se sentir desalinhado do rebanho, e teria reclamado, teria chamado seu amigo, mas seus lábios agora estavam colados e era incapaz de fazer mais do que ruídos ineficazes. — Sou eu — sussurrou a voz atrás dele, desesperada —, Peregrino. Seu irmão. Você foi capturado pelos pastores. Temos que tirá-lo daqui. — E então: — Uh-uh. Um barulho no ar, como algo latindo. Ele se aproximou: um latido alto que, de repente, se tornou um uivo triunfante e foi respondido por uivos harmônicos ao redor deles. — Onde está seu companheiro de rebanho? — latiu uma voz. Uma voz baixa e elefantina retumbou: — Ele foi para lá. Com o outro. — Que outro? O Marquês desejou que eles viessem, o encontrassem e resolvessem tudo. Obviamente, houvera algum tipo de engano. Ele queria estar em sincronia com o rebanho e agora agia fora de compasso, uma vítima relutante. Queria trabalhar. — O Portão de Lud — murmurou o Peregrino. E então foram cercados por silhuetas de pessoas que não eram exatamente pessoas: eram recortes de rostos vestidos com peles. Eles falavam agitados uns com os outros. As pessoas soltaram as mãos do Marquês, embora tenham deixado a fita cobrindo sua boca. Ele não se importou. Não tinha nada a dizer. O Marquês ficou aliviado por tudo estar acabado e mal podia esperar para voltar ao trabalho, mas, para sua ligeira perplexidade, ele, seu sequestrador, e seu amigo com o enorme nariz longo e flexível foram levados na direção oposta ao poço, ao longo de uma calçada, e por fim enfiados em um favo com pequenos quartos, cada quarto cheio de pessoas trabalhando duro em sincronia. Acima, alguns degraus estreitos. Um dos que o escoltavam, vestido com peles pesadas, arranhou uma porta. Uma voz gritou “Entre!” e o Marquês sentiu uma emoção quase sexual. Aquela voz. Era a voz de alguém que o Marquês tinha passado a vida inteira querendo agradar. (Sua vida inteira desde quando? Uma semana? Duas semanas?) — Uma ovelha perdida — informou alguém da escolta. — E seu predador. Também seu companheiro de rebanho. A sala era larga e ornada com pinturas a óleo penduradas: paisagens, a maioria manchada pela idade e de fumaça e poeira. — Por quê? — perguntou o homem, sentado em uma mesa no fim da sala. Ele não se virou. — Por que me incomoda com essas bobagens? — Porque — disse uma voz, e o Marquês a reconheceu como sendo de seu pretenso sequestrador — você deu ordens dizendo que, se eu fosse capturado dentro das fronteiras do Arbusto do Pastor, eu deveria ser trazido à sua presença para ser eliminado pessoalmente. O homem empurrou a cadeira para trás e se levantou. Andou até eles, entrando na área iluminada. Havia um cajado de madeira apoiado na parede e ele o pegou enquanto passava. Por longos momentos ele os encarou. — Peregrino? — disse por fim, e o Marquês vibrou com sua voz. — Ouvi dizer que havia se aposentado. Que virara monge ou algo do tipo. Nunca imaginei que ousaria voltar. (Algo grande estava preenchendo a cabeça do Marquês. Algo estava enchendo seu coração e sua mente. Era algo enorme, algo que quase conseguia tocar.) O pastor esticou a mão e arrancou a fita da boca do Marquês. O Marquês sabia que deveria se sentir extasiado por isso, deveria se sentir encantando por receber atenção desse homem. — Agora eu entendo... Quem teria imaginado? — A voz do pastor era profunda e ressonante. — Ele já está aqui. E já é um dos nossos? O Marquês de Carabas. Sabe, Peregrino, venho ansiando pela oportunidade de arrancar sua língua, de triturar seus dedos enquanto você observa, mas pense o quão mais prazeroso seria se a última coisa que visse fosse seu próprio irmão como um do nosso rebanho, como o instrumento do seu fim. (Uma coisa enorme preencheu a cabeça do Marquês.) O pastor era roliço, bem alimentado e muito bem-vestido. Tinha cabelo grisalho cor de areia e uma expressão tensa. Vestia um casaco extraordinário, mesmo estando um tanto apertado nele. O casaco tinha a cor de uma rua molhada à meia-noite. A coisa enorme preenchendo sua cabeça, o Marquês percebeu, era raiva. Era raiva, e queimava por dentro do Marquês como um incêndio na floresta, devorando tudo em seu caminho com uma chama vermelha. O casaco. Era elegante. Era lindo. Estava tão perto que ele poderia ter se esticado e o tocado. E era, sem dúvida alguma, o seu. O Marquês de Carabas não fez nada para indicar que havia acordado. Isso seria um erro. Ele pensou, e pensou rápido. E o que pensou não tinha nada a ver com a sala onde se encontrava. O Marquês só tinha uma única vantagem sobre o pastor e seus cães: sabia estar acordado e no controle de seus pensamentos, e eles, não. Levantou hipóteses. Testou-as na cabeça. E então agiu. — Desculpe — disse suavemente —, mas infelizmente preciso ir embora. Podemos apressar as coisas? Estou atrasado para algo que é terrivelmente importante. O pastor apoiou-se em seu cajado. Não parecia estar preocupado com isso. Disse apenas. — Você deixou o rebanho, de Carabas. — Assim parece — disse o Marquês. — Oi, Peregrino. É ótimo ver que parece estar tão alegre. E o Elefante. Que agradável. A gangue toda está aqui. — Ele voltou a se concentrar no pastor. — Foi ótimo encontrá-lo, maravilhoso passar um pouco de tempo como alguém do seu pequeno grupo de grandes pensadores. Mas realmente preciso ir embora agora. Estou numa missão diplomática importante. Tenho uma carta para entregar. Sabe como é. — Meu irmão, não sei se entendeu a gravidade da situação aqui — disse o Peregrino. O Marquês, que entendia a gravidade da situação perfeitamente, respondeu: — Tenho certeza de que essas pessoas adoráveis — apontou para o pastor e para as três criaturas com cara canina, cobertas de pelos e de rosto pontudo que os cercavam — me deixarão sair daqui, deixando-o para trás. É a você que eles querem, não a mim. E tenho algo extremamente importante para entregar. — Posso lidar com isso — respondeu o Peregrino. — Fiquem quietos agora — disse o pastor. Pegou a fita que tinha removido da boca do Marquês e a pressionou na do Peregrino. O pastor era mais baixo e mais gordo do que o Marquês, e o casaco magnífico ficava meio ridículo nele. — Algo importante para entregar? — perguntou o pastor, esfregando poeira de seus dedos. — Do que estamos falando exatamente? — Receio não poder lhe contar — disse o Marquês. — Afinal, você não é o destinatário dessa comunicação diplomática particular. — Por que não? O que ela diz? Para quem é? O Marquês deu de ombros. Seu casaco estava tão perto que ele poderia ter estendido a mão e o acariciado. — Somente uma ameaça de morte poderia me forçar a mostrá-la a você — disse, relutante. — Bem, isso é fácil. Eu o ameaço de morte. É uma adição à sentença de morte que já tem por ser um membro apóstata do rebanho. E quanto ao garoto risonho aqui... — o pastor apontou com seu cajado para o Peregrino, que não estava rindo — ...ele tentou roubar um membro do rebanho. Essa também é uma sentença de morte, além de tudo mais que planejávamos fazer com ele. O pastor olhou para o Elefante. — E, sei que devia ter perguntado antes, mas, em nome da Bruxa Auld, o que é isso? — Sou um membro leal do rebanho — disse o Elefante, humildemente, com sua voz profunda, e o Marquês se perguntou se ele tinha soado tão sem alma e monótono quando fazia parte do rebanho. — Continuei leal e em sincronia mesmo quando esse daí não continuou. — E o rebanho é grato por todo o seu trabalho árduo — disse o pastor. Esticou uma mão e tocou a ponta afiada de uma das presas do Elefante, experimentando. — Nunca vi nada como você antes, e, se nunca vir outro de novo, está bom para mim. Provavelmente é melhor você morrer também. As orelhas do Elefante se torceram. — Mas eu faço parte do rebanho... O pastor olhou para o rosto enorme do Elefante. — O seguro morreu de velho — disse. Depois dirigiu-se ao Marquês: — Bem? Onde está essa carta tão importante? — Dentro da minha camisa — respondeu o Marquês. — Preciso repetir que é o documento mais significativo que já me encarregaram de entregar. Devo pedir que não a leia. Para sua própria segurança. O pastor deu um puxão no peito da camisa do Marquês. Os botões voaram e tilintaram nas paredes e depois no chão. A carta, em seu saco de sanduíche, estava no bolso interno da camisa. — Isso é uma pena. Confio que vá ler a carta em voz alta para nós antes de morrermos — disse o Marquês. — Mas, lendo ou não para nós, posso prometer que eu e o Peregrino estaremos prendendo nossa respiração de tanta expectativa. Não estaremos, Peregrino? O pastor abriu o saco de sanduíche e olhou para o envelope. Rasgou-o e puxou uma folha de papel desbotada de dentro dele. Quando o papel foi retirado, uma nuvem de pó saiu do envelope. A poeira pairava no ar imóvel daquele quarto escuro. — “Minha querida e bela Drusilla” — leu o pastor em voz alta. — “Embora eu saiba que atualmente não sente por mim o mesmo que sinto por você...”. Que maluquice é essa? O Marquês não disse nada. Ele nem mesmo sorriu. Estava, como dissera, prendendo a respiração, esperançoso de que o Peregrino o tivesse entendido. E estava contando, porque naquele momento contar parecia o melhor jeito possível de distrair a si mesmo da necessidade de respirar. Ele logo precisaria respirar. 35... 36... 37... Perguntou-se por quanto tempo os esporos do cogumelo permaneceriam no ar. 43... 44... 45... 46... O pastor havia parado de falar. O Marquês deu um passo para trás, temendo uma faca em suas costelas ou dentes na sua garganta, dos homens de pelo áspero da guarda canina, mas nada aconteceu. Recuou, afastando-se dos homens caninos e do Elefante. Viu que o Peregrino também estava se afastando. Seus pulmões doíam. As batidas do seu coração pulsavam em suas têmporas com um som quase alto o suficiente para abafar o leve ruído de sinos em seus ouvidos. Somente quanto as costas do Marquês encontraram uma estante na parede e ele se achava o mais longe possível do envelope, permitiu-se inspirar profundamente. Ouviu o Peregrino respirar também. Houve um barulho de algo sendo esticado. O Peregrino abriu ao máximo a boca e a fita caiu no chão. — O que foi tudo isso? — perguntou o Peregrino. — Nova escapatória desse quarto, e do Arbusto do Pastor, se não estou enganado — disse de Carabas. — E raramente estou. Poderia desamarrar os meus pulsos, por favor? Sentiu as mãos do Peregrino em suas mãos atadas, e então as amarras caíram. Houve um estrondo baixo. — Vou matar algo — disse o Elefante. — Assim que descobrir o que preciso matar. — Calma aí, queridão — disse o Marquês, esfregando suas mãos. — Você quer dizer quem... quem você vai matar. — O pastor e os cães de pastoreio estavam dando passos desajeitados e hesitantes em direção à porta. — E posso garantir que não vai matar ninguém, não enquanto quiser voltar para casa, no Castelo, em segurança. A tromba do elefante chicoteou, irritada. — Definitivamente, matarei você. O Marquês sorriu. — Vai me forçar a dizer shhh para calar essa boca — disse ele. — Ou putz. Até hoje nunca tive o menor anseio de dizer putz. Mas posso senti-lo agora mesmo crescendo dentro de mim... — O que, pelo Templo e pelo Arco, há de errado com você? — perguntou o Elefante. — Pergunta errada. Mas responderei à pergunta correta, para sua informação. A pergunta real não é o que há de errado conosco; o que não entrou no Peregrino e em mim porque prendemos a respiração, e não entrou em você, não sei, provavelmente por ser um elefante, com uma boa pele espessa, mais provavelmente porque estava respirando pela sua tromba, que se encontrava abaixada, perto do chão; mas sim o que há de errado com nossos captores. E a resposta é: o que não entrou em nós são os mesmos esporos que entraram em nosso corpulento pastor e em seus companheiros pseudocaninos. — Esporos do cogumelo? — perguntou o Peregrino. — O cogumelo do Povo do Cogumelo? — Exato. O mesmíssimo cogumelo — concordou o Marquês. — Inacreditável — disse o Elefante. — É por isso que — de Carabas disse ao Elefante —, se tentar matar a mim ou ao Peregrino, não só falhará como também condenará a todos nós. Enquanto que, se calar a boca e todos nós fizermos o nosso melhor para parecer que ainda somos parte do rebanho, então temos uma chance. Os esporos seguirão seu caminho até o cérebro deles agora. E a qualquer momento o cogumelo começará a chamá-los para casa. Um pastor caminhava implacavelmente. Segurava um cajado de madeira. Três homens o seguiam. Um daqueles homens tinha a cabeça de um elefante, outro era alto e ridiculamente bonito, e o último do rebanho vestia o mais magnífico casaco. O casaco servia perfeitamente nele, e era da cor de uma rua molhada à noite. O rebanho foi seguido pelos cães de guarda, que se moviam como se estivessem prontos para caminhar pelo fogo para chegar aonde quer que acreditassem estar indo. Não era incomum no Arbusto do Pastor ver um pastor e parte de seu rebanho indo de um lugar para outro, acompanhados por vários de seus mais ferozes cães de pastoreio (que eram humanos, ou já haviam sido). Então, quando viram um pastor e três cães de pastoreio aparentemente liderando três membros do rebanho para fora do Arbusto do Pastor, nenhum do rebanho maior prestou qualquer atenção. Os membros do rebanho que os viram apenas fizeram as mesmas coisas que sempre faziam como membros do rebanho. E, se ficaram cientes de que a influência dos pastores tinha diminuído um pouco, então esperaram pacientemente outro pastor vir e cuidar deles, e mantê-los protegidos dos predadores e do mundo. Era assustador estar sozinho, no fim das contas. Ninguém notou quando eles atravessaram as fronteiras do Arbusto do Pastor, e eles continuaram a caminhar. Todos os sete chegaram às margens do Kilburn, onde pararam, e o ex-pastor e os três homens caninos desgrenhados entraram na água a passos largos. Não havia, o Marquês sabia, nada nas cabeças dos quatro homens naquele momento além da necessidade de chegar ao Cogumelo, de provar de sua carne mais uma vez, de deixá-lo vivo dentro deles, de servi-lo, e servi-lo bem. Em troca, o Cogumelo consertaria todas as coisas neles que odiavam: tornaria suas vidas interiores mais felizes e mais interessantes. — Devia ter me deixado matá-los — disse o Elefante, enquanto o ex-pastor e os cães de pastoreio se afastavam. — Não faz sentido — respondeu o Marquês. — Nem mesmo por vingança. As pessoas que nos capturaram não existem mais. O Elefante balançou as orelhas com força, depois as coçou vigorosamente. — Falando em vingança, para quem diabos roubou meu diário, afinal? — perguntou. — Victoria — admitiu de Carabas. — Não estava na minha lista de ladrões potenciais, na verdade. Ela é enigmática — disse o Elefante, após um momento. — Não discutirei esse assunto — disse o Marquês. — Além disso, ela não me pagou o valor total acordado. Acabei tendo de pegar meu próprio brinde para compensar a dívida. Ele enfiou uma mão escura dentro do casaco. Seus dedos encontraram os bolsos óbvios, e os menos óbvios, e então, para sua surpresa, o menos óbvio de todos. Enfiou a mão nele e puxou uma lente de aumento em uma corrente. — Era de Victoria — disse ele. — Acredito que possa usá-la para ver através de coisas sólidas. Talvez isso possa ser considerado um pequeno pagamento da dívida que tenho com você?... O Elefante tirou algo do próprio bolso — o Marquês não podia ver o que era — e olhou para ele através da lupa. Em seguida, o Elefante fez um barulho que ficava entre uma bufada de prazer e um bramido de satisfação. — Oh, ótimo, muito bem — disse ele. Guardou os dois objetos. Então disse: — Suponho que salvar minha vida compense roubar meu diário. E, embora eu não fosse precisar ser salvo se não o tivesse seguido pelo esgoto, não há sentido em mais recriminações. Considere que sua vida lhe pertence mais uma vez. — Estou ansioso para visitá-lo no Castelo algum dia — disse o Marquês. — Não abuse da sorte, amigo — disse o Elefante, com uma chicoteada irada de sua tromba. — Não irei — disse o Marquês, resistindo à vontade de ressaltar que abusar da sorte tinha sido a única maneira de sobreviver até então. Olhou em volta e percebeu que o Peregrino tinha desaparecido misteriosa e irritantemente nas sombras mais uma vez, sem nem se despedir. O Marquês odiava quando as pessoas faziam isso. Ele fez uma breve mesura cortês para o Elefante, e o casaco do Marquês, seu casaco glorioso, pegou a mesura, amplificou, tornou-a perfeita e fez dela o tipo de mesura que somente o Marquês de Carabas poderia fazer. Quem quer que ele fosse. Opróximo Mercado Flutuante seria instalado no jardim no telhado do Derry e Tom. O Derry e Tom não existia desde 1973, mas o tempo e o espaço e a Londres de Baixo tinham suas próprias regras complexas, e o jardim no telhado estava mais jovem e mais inocente do que é hoje. O pessoal da Londres de Cima (eles eram jovens, estavam envolvidos em uma discussão intensa e usavam saltos em camadas, blusas paisley e calças bocas de sino, tanto os homens quanto as mulheres) ignorava completamente o pessoal da Londres de Baixo. O Marquês de Carabas atravessou o jardim no telhado como se fosse o dono do lugar, caminhando rapidamente até chegar à praça de alimentação. Passou por uma mulher minúscula vendendo sanduíches de queijo enrolados em um carrinho de mão com uma pilha alta deles, por uma barraca de curry, por um homem baixo com um garfo de lareira e uma enorme tigela de vidro de peixes cegos de um branco pálido, até finalmente chegar à tenda onde estavam vendendo o cogumelo. — Uma fatia de cogumelo, bem grelhada, por favor — pediu o Marquês de Carabas. O homem que anotou seu pedido era mais baixo que ele e, ainda assim, mais robusto, de certa maneira. Era calvo, tinha cabelos louros claros e uma expressão atormentada. — Saindo já — disse o homem. — Mais alguma coisa? — Não, isso é tudo — Em seguida, o Marquês perguntou, por curiosidade: — Você se lembra de mim? — Creio que não — respondeu o homem Cogumelo. — Mas devo dizer que esse é um belíssimo casaco. — Obrigado — disse o Marquês de Carabas e olhou em volta. — Onde está o jovem que trabalhava aqui? — Ah. Essa é uma história curiosa, senhor — disse o homem. Ele ainda não cheirava a umidade, mas já havia uma pequena incrustação de cogumelos na lateral de seu pescoço. — Alguém disse à bela Drusilla, da Corte dos Corvos, que nosso Vince tinha planos para ela, e tinha, pode não acreditar, mas me garantiram que é verdade: aparentemente enviou uma carta cheia de esporos a ela com a intenção de transformá-la em sua noiva no Cogumelo. O Marquês ergueu uma sobrancelha, intrigado, apesar de não ter achado nada disso uma surpresa. No fim das contas, ele mesmo havia contado a Drusilla, e havia lhe mostrado a carta original. — Ela lidou bem com a novidade? — Não acho que ela tenha lidado nada bem com isso, senhor. Não mesmo. Ela e várias de suas irmãs ficaram esperando por Vince e nos emboscaram em nosso caminho para o mercado. Ela lhe disse que tinham assuntos de natureza íntima a discutir. Ele pareceu encantado pela novidade e foi com ela descobrir que assuntos seriam esses. Estou esperando-o chegar ao mercado e vir trabalhar durante toda a noite, mas não acredito mais que virá — continuou o homem, melancólico. — Esse é um casaco muito sofisticado. Sinto como se pudesse ter tido um desses em uma vida anterior. — Não duvido — disse o Marquês de Carabas, satisfeito com o que havia escutado, enquanto cortava sua fatia grelhada do cogumelo. — Mas este casaco em particular é definitivamente meu. Enquanto saía do mercado, passou por um amontado de pessoas descendo a escada, parou e acenou com a cabeça para uma jovem de graciosidade incomum. Ela possuía cabelos longos alaranjados e o perfil achatado de uma beleza pré-rafaelita, além de uma marca de nascença na forma de uma estrela de cinco pontas no dorso da mão. Sua outra mão acariciava a cabeça de uma coruja grande e amarrotada que olhava desconfortável para o mundo com olhos que eram incomuns para um pássaro daqueles, de um azul claro e intenso. O Marquês acenou, e ela olhou sem jeito para ele. Depois, desviou o olhar, como alguém que começava a perceber que devia um favor ao Marquês. Ele acenou amigavelmente para ela e continuou a descer. Drusilla apressou-se atrás dele. Parecia que queria dizer alguma coisa. O Marquês de Carabas alcançou o fim da escada antes dela. Parou por um momento e pensou sobre as pessoas e sobre as coisas, e sobre o quanto era difícil fazer algo pela primeira vez. Em seguida, vestindo seu casaco encantador, sumiu de modo misterioso e até irritante nas sombras, sem nem mesmo se despedir, e se foi. 

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