PROLOGO : GUERREIROS
Speedball mal conseguia ficar parado. Isso não era raro. Desde o acidente no
laboratório, seu corpo se tornara um gerador quase incontrolável de bolhas altamente
voláteis de força cinética. Seus colegas dos Novos Guerreiros estavam acostumados à sua
hiperatividade, sua incapacidade de se concentrar em alguma coisa por mais do que noventa
segundos de cada vez. Eles nem viravam mais os olhos.
Não, o Speedball impaciente não era novidade nenhuma. Mas o motivo para estar assim
era.
– Terra para Speedball – a voz do produtor soou aguda no ouvido dele. – Você vai
responder à minha pergunta, garoto?
Speedball sorriu.
– Pode me chamar de Robbie, Sr. Ashley.
– Você conhece as regras. Quando estão usando microfones em campo, apenas o nome de
guerra. Speedball.
– Sim, senhor – não conseguia deixar de implicar com Ashley. O cara era um mala.
– Então – disse Ashley.
– Então?
– Quantos vilões?
Speedball tirou uma erva daninha de sua perna. Deu um salto no ar, passando por
Namorita, que estava encostada em uma árvore, entediada. Quicou perto do enorme corpo
de Micróbio – o cara estava esparramado na grama, roncando – e aterrissou com a leveza de
uma pena bem atrás do Radical, o líder deles, com seu traje preto.
Radical estava concentrado, os olhos ocultos espreitando através de binóculos de alta
tecnologia. Speedball o ignorou e olhou diretamente para a casa velha de madeira, escondida
da vizinhança por uma cerca alta. Os Guerreiros – e a equipe de gravação – estavam a uns
quinze metros de distância, escondidos atrás de grandes carvalhos.
Três homens musculosos apareceram na porta da casa, todos usando roupas comuns:
jeans e camisas. Speedball apertou um botão no dispositivo que usava no ouvido.
– Três vilões.
– Quatro – corrigiu Radical.
Speedball olhou com mais atenção e viu uma mulher musculosa de cabelo preto.
– Isso. Estou vendo a Impiedosa lá atrás, esvaziando o lixo – Speedball riu. – Esvaziando o
lixo. Cara, esse pessoal é barra pesada.
– Na verdade, todos eles estão na lista dos mais procurados do FBI – Ashley soou quase
como se estivesse preocupado. – Homem de Cobalto, Speedfreek, Nitro… todos eles fugiram
da prisão da Ilha Rykers há três meses. E a ficha deles é maior do que o meu braço.
Micróbio veio desajeitado por trás deles – com todos os seus 150 quilos – com seu
uniforme verde e branco com um grosso cinto cheio de compartimentos.
– E aí?
Radical fez um gesto para que ficasse em silêncio.
– A Impiedosa já lutou com o Homem-Aranha algumas vezes – continuou Ashley. – E
escutem isto. Speedfreek quase derrubou o Hulk.
Radical abaixou os binóculos.
– Ele o quê?
Micróbio coçou a cabeça.
– Esses caras são muita areia pro nosso caminhãozinho.
– Pro seu, talvez, balofo.
– Cala a boca, Ball.
– Já disse pra não me chamar assim.
– Ball – repetiu Micróbio, com um sorriso preguiçoso no rosto.
– Já chega – Namorita virou o rosto, pouco interessada. – Qual é o plano?
Speedball riu com desdém.
– O plano é você gastar mais cinco minutos se maquiando, Nita. Ou acha que o público vai
querer ver essa espinha horrenda no seu queixo?
Ela levantou o dedo do meio para ele e virou de costas. Pierre correu atrás dela, cheio de
base na mão.
Namorita era uma formosura de pele azul, de uma ramificação da família real de Atlântida.
Prima, sobrinha ou alguma coisa do Príncipe Namor, governador da cidade submarina. Uma
vez, Speedball se engraçou pro lado dela, e ela segurou a cabeça dele embaixo d’água por cinco
minutos.
– Não sei, não – respondeu Radical, lançando um olhar preocupado para a casa. – Não sei
se devíamos fazer isso.
– Qual é? – Speedball quase deu um pulo, mas lembrou a tempo que aquilo denunciaria o
esconderijo deles.
– Pense na audiência, Radical. Estamos sendo esquecidos. Há seis meses que andamos pelo
país atrás de criminosos para combater e só conseguimos um vagabundo com uma lata de
spray e uma perna de pau. Esse pode ser o episódio que vai colocar os Novos Guerreiros no
mapa de verdade. Acabamos com esses palhaços e todo mundo vai parar de reclamar que o
Nova saiu do programa pra voltar pro espaço.
Fernandez, o cinegrafista, limpou a garganta.
– Só quero lembrar que o nosso turno termina daqui a vinte minutos. Depois disso, só
voltamos uma hora e meia depois.
Todos se viraram para Radical.
– Ok, escutem – Radical levantou um tablet, que mostrava os perfis dos quatro vilões. –
Nitro e Homem de Cobalto são as verdadeiras ameaças aqui. O forte da Impiedosa é a luta
corpo-a-corpo; é melhor manter distância dela se possível. Não sei como está a armadura do
Cobalto agora, mas…
– Ball – disse Micróbio de novo, se debruçando no ombro de Speedball para sussurrar em
seu ouvido: – Ball, ball, ball, ball, ballllll.
Speedball sacou seu iPhone, colocou uma música do Honey Claws. Batidas eletrônicas com
o som do baixo proeminente soaram. Felizmente, abafaram as implicâncias do Micróbio e os
planos táticos chatos do Radical.
Speedball estava cansado e mal-humorado. Todos estavam, ele sabia. Fora ideia do Radical
transformar os Novos Guerreiros em um reality show e, no começo, pareceu excitante. Eram
tempos difíceis para um herói adolescente, e essa era uma chance de transformar seu time de
terceiro escalão em estrelas. O programa obteve um breve sucesso, e Speedball ficou viciado
no clamor do público, nas participações em The Colbert Report e Charlie Rose.
Mas então, o Nova pediu demissão, e quanto menos se falar de sua substituta – Escombro
– melhor. Ela só precisou de dois episódios para se mostrar um fracasso. Conforme a
temporada foi progredindo, a tensão das viagens e das constantes refilmagens deixou todos
com os nervos à flor da pele. E os números da audiência despencaram. Era muito improvável
que houvesse uma segunda temporada.
Isso é muito ruim, pensou ele. Quando isso tudo começou, nós éramos amigos.
Nita deu uma cotovelada forte nas costelas dele e arrancou seus fones de ouvido.
– O quê?
– Fomos vistos.
Speedball olhou para a casa no momento em que Impiedosa virou-se e olhou bem na
direção deles. Então, ela correu para dentro, gritando:
– Todos de uniforme. É um ataque!
Os Guerreiros estavam prontos. Fernandez levantou a câmera, se preparando para seguilos.
– Ataque padrão – gritou Radical. – Venham atrás de mim…
Speedball apenas sorriu e pulou, bolhas de energia cinética jorrando dele em todas as
direções.
– MANDA VER! – berrou ele.
Quase pôde sentir o suspiro exausto de Radical. Conforme Speedball fazia uma
aterrissagem em forma de arco, no meio do gramado, ele tocou a tela de seu iPhone para
escutar outra música. O programa não era ao vivo, mas de alguma forma, o tema musical
retumbando em seus ouvidos sempre injetava adrenalina em suas veias. E Speedball vivia de
adrenalina.
– SPEEDBALL! – anunciava o locutor em seu ouvido. – RADICAL! MICRÓBIO! A ARDENTE
NAMORITA! E… O HOMEM CHAMADO NOVA!
Ele odiava essa parte.
– EM UM MUNDO DE TONS DE CINZA… AINDA HÁ O BEM E O MAL! AINDA HÁ…
… OS NOVOS GUERREIROS! – Speedball gritou as palavras junto com o locutor, no exato
momento em que derrubava a porta da frente, quebrando-a em pedacinhos.
Os outros Guerreiros corriam atrás dele, analisando a cena. A sala estava desmobiliada,
como uma boca de fumo. Um homem de cabelo comprido veio recebê-los girando, meio
vestido em um exoesqueleto de metal.
– Speedfreek – disse Radical.
– Puta merda! – Speedfreek tentava pegar um capacete prateado com visor vermelho.
Sorrindo de novo, Speedball lhe golpeou com o corpo, fazendo o capacete voar. Eles se
chocaram contra a parede dos fundos, caindo no quintal. Freek caiu de costas em cima de um
tronco velho, cercado por mato e ervas daninhas.
– Ouvi dizer que o hábito faz o monge, Speedfreek. – Speedball deu um forte soco de
esquerda no rosto dele. – E, no seu caso, isso é totalmente verdade!
– Ai! – Speedfreek voou para trás, caindo na grama.
Fernandez, o cinegrafista, bateu no ombro de Speedball.
– Perdi o som, cara. Alguma chance de repetir essa última parte?
Speedball fez uma careta, acenou para Namorita. Ela revirou os olhos e caminhou até um
Speedfreek tonto. Com facilidade, ela o levantou e jogou seu corpo inerte na direção do
cinegrafista.
Speedball abaixou-se e pulou alto, voltando com um chute voador. Quando o seu pé
encostou no maxilar de Speedfreek, ele gritou de forma bem clara:
– No seu caso, Mané, é totalmente verdade!
Fernandez abaixou a câmera e deu um entediado “joinha”.
Speedball olhou à sua volta. Radical e Micróbio estavam encurralando Impiedosa e Cobalto
na cerca. Cobalto estava tentando colocar o traje high-tech em seu corpo grande, enquanto
Impiedosa disparava suas espadas de energia no ar, mantendo os Guerreiros acuados.
Micróbio virou-se lentamente para fitar Speedball. Provavelmente torcendo pra eu levar um
chute na cara, pensou Speedball.
– Espera aí – Impiedosa parou, segurando duas espadas de energia em uma postura
defensiva. – Conheço esses caras. Vocês são aqueles idiotas do reality show.
– Isso mesmo – respondeu Radical. – E isso aqui é a realidade.
Speedball balançou a cabeça. Que frase de efeito ridícula, chefe.
– Não – continuou Impiedosa. – Eu não vou ser derrotada pela Peixinho-Dourado e pela
Drag Queen. – Ela cortou o ar com a espada, descrevendo um arco.
Mas Namorita já estava invadindo o espaço de defesa da Impiedosa. Nita acertou o punho
azul, fortalecido por anos de sobrevivência nas profundezas do oceano, bem no maxilar da
vilã.
– Discordo, queridinha.
Radical seguiu com um chute acrobático no estômago de Impiedosa.
– Podemos editar a parte em que ela me chamou de Drag Queen?
– Claro – Nita zombou. – Porque Radical é muito macho.
Impiedosa estava no chão – mas onde estava o Homem de Cobalto? E que diabos Micróbio
estava fazendo, parado no canto do quintal, de costas para eles?
Speedball saltou até onde estava Micróbio. Surpreendentemente, o crianção estava de pé
sobre um vilão contorcido de dor e dominado, que usava um sobretudo. Por baixo do casaco,
um exoesqueleto parecia se dissolver diante de seus olhos.
– Peguei o Homem de Cobalto! – vangloriou-se Micróbio. – Meus poderes bacterianos
estão enferrujando o traje dele. Acho que não sou tão fracassado assim, hein?
– Aprenda a fazer conta, seu fracassado – Speedball olhou em volta. – Cadê o quarto vilão?
Nita deu um salto, as pequenas asas dos seus pés batendo alucinadamente. Ela parou no ar
e apontou para a casa perto da estrada.
– Deixa comigo – ela se virou para sobrevoar o telhado.
Radical e Micróbio voltaram para a casa. Entraram pelo buraco na parede, indo atrás de
Namorita.
Speedball começou a segui-los, mas virou-se ao escutar um ruído. No chão, Speedfreek
rosnava, tentando levantar. Speedball chutou-o com força, depois seguiu para a casa.
Fernandez o seguiu, apoiando a câmera no ombro.
No meio da sala, Speedball parou. Fernandez estancou em seu encalço, e Speedball acenou
para que ele seguisse em frente. O cinegrafista caminhou até a porta da frente.
Speedball olhou longa e cuidadosamente ao redor da sala. Havia latas de cerveja espalhadas
por todo lugar. Em uma mesa dobrável, havia uma caixa gordurosa de pizza onde uma última
fatia fora esquecida ali para apodrecer. Um inalador de metanfetamina ainda brilhava, jogado
em cima de uma pilha de discos de Xbox. A pintura antiga descascava da parede; o
estofamento escapava do sofá velho.
Esta casa, ele se deu conta, é onde você acaba. Quando tudo dá errado, quando as coisas
não acabam como você esperava. Quando você toma todas as decisões erradas e acaba
correndo para se salvar.
Speedball atingira o clímax durante a luta; agora seus níveis de adrenalina estavam
despencando. De repente, se sentiu cansado, inútil, fútil. Ficou satisfeito pelos outros não
estarem por perto – gastava muita energia, sem nenhum trocadilho, escondendo sua
condição bipolar deles. Sentia-se irreal, como se estivesse observando a si mesmo de longe.
Como um espectador do programa, entediado e sem rosto, se preparando para trocar de
canal.
– Speedball! – a voz de Ashley soou em seu ouvido. – Garoto, cadê você? Quer perder o
melhor da festa?
Não, percebeu ele. Não quero perder.
Speedball saiu pela porta da frente, estilhaçada pela explosão de energia cinética. Pisou no
primeiro degrau, fazendo uma pose rápida, caso alguma das câmeras estivesse gravando,
então saltou para a rua.
Na calçada do lado oposto, um grupo de crianças do ensino fundamental havia se reunido
na beira de um parquinho. Alguns carregavam livros, outros, computadores; um garoto
segurava um taco de beisebol. Radical e Micróbio os mantinham afastados, agindo com
firmeza, enquanto Namorita seguia pelo ar até um ônibus escolar que estava estacionado.
Uma pequena figura atravessou a rua e seguiu na direção do ônibus escolar: traje roxo e
azul, cabelo comprido prateado. Olhos cruéis que pareciam ter visto – e feito – coisas
terríveis.
Nita mergulhou em cima dele, atirando-o contra o ônibus, amassando sua lateral. Vidros
quebrados caíram, cobrindo os dois.
O homem não emitiu nenhum som.
– De pé, Nitro – Namorita estava em posição de batalha, os braços levantados, as pernas
firmemente plantadas no chão, em uma pose para a câmera. – E nem tente nenhuma das
suas explosões idiotas, porque isso só vai fazer você apanhar mais.
Speedball se aproximou para dar apoio a ela.
Nitro ajoelhou no asfalto, apoiando-se no ônibus amassado. Quando levantou o olhar,
seus olhos faiscavam de ódio… um fogo mortal.
– Namorita, certo?
Fernandez se aproximou, virando a câmera de Nitro para Nita.
Nitro sorriu, e seus olhos brilharam ainda mais.
– Infelizmente pra você, eu não sou um daqueles fracassados com quem você está
acostumada, amorzinho.
O corpo todo de Nitro cintilava agora. Nita deu um passo atrás. Radical assistia, tenso e
inseguro. Micróbio só fitava, de boca aberta e olhos arregalados.
Os estudantes estavam na rua agora, também de olhos arregalados. Um deles quicava uma
bola de basquete, sem pensar, nervosamente.
Radical deu alguns passos à frente, com um olhar repentinamente alarmado.
– Speedball… Robbie. Me ajude a tirar essas crianças daqui!
Ashley também estava tagarelando no ouvido dele.
Speedball não se moveu, nem mesmo assentiu. Mais uma vez, sentia como se estivesse
assistindo a eventos, imagens gravadas em alguma tela de alta definição. Isso importa? Ele se
perguntou. Se tudo der errado, se não seguir o roteiro certo, podemos simplesmente gravar outra
tomada?
Ou esta é a última, a única tomada?
Nitro era uma bola de fogo agora. Apenas seus olhos cintilantes eram visíveis, fixos nos de
Namorita.
– Agora você está mexendo com gente grande – disse Nitro.
A energia jorrou dele, consumindo primeiro Namorita. Ela arqueou o corpo de dor, soltou
um grito silencioso e então se dissolveu em cinzas. A onda de choque continuou se
espalhando, envolvendo a câmera, o cinegrafista, o ônibus escolar. Radical, depois Micróbio.
A casa e os três vilões espalhados no quintal dos fundos.
E as crianças.
Oitocentos e cinquenta e nove moradores de Stamford, Connecticut, morreram naquele
dia. Mas Robbie Baldwin, o jovem herói chamado Speedball, não chegou a saber disso. O
corpo de Robbie ferveu até evaporar, e enquanto a energia cinética dentro dele explodia pela
última vez no vazio, seu último pensamento foi:
Pelo menos, não terei que ficar velho.
O ULTIMO BRILHO
ENERGIA formigava por sua pele, dançando pela malha de um milímetro
de espessura que cobria seu corpo. Sensores sem fio se estenderam das mãos, tocando
circuitos parecidos nas botas, no peitoral da armadura e nas pernas. Microprocessadores
ganharam vida, cada um mais rápido do que o anterior. Placas de blindagem se abriram,
acomodando-se ao seu corpo, travando no lugar certo, completando um circuito de cada vez.
Luvas envolveram seus dedos: um, dois, três, quatro-cinco-dez.
O capacete veio por último, flutuando suavemente para suas mãos. Colocou-o na cabeça e
abaixou a viseira.
Junto com os primeiros raios de sol, Tony Stark alçou voo pelo céu de Manhattan.
A Torre dos Vingadores desapareceu lá embaixo. Tony olhou para baixo, executando uma
meia-volta vertical. O horizonte de Manhattan começava a aparecer em seu campo de visão,
majestoso e vasto. Ao norte, o Central Park se esparramava como um cobertor verde sobre
uma cama cinza. Ao sul, os cumes pontiagudos do labirinto de prédios de Wall Street se
estreitavam até despontarem no mar.
Nova York era sua casa, e Tony amava a cidade. Mas hoje estava inquieto.
Uma dúzia de indicadores piscava tentando chamar a atenção de Tony, mas ele os ignorou.
Onde, ele se perguntava, devo tomar café da manhã hoje? The Cloisters? Um passeio rápido por
Vineyard? Ou talvez uma viagem um pouco mais longa até Boca? Serena devia estar se
arrumando no Delray Hyatt – ficaria surpresa ao revê-lo.
Não, concluiu ele. Hoje estava inquieto. Hoje seria diferente.
Com um rápido comando mental, discou para Pepper Potts. A ligação caiu na caixa postal.
– Cancele todos meus compromissos da manhã – ordenou ele. – Obrigado, boneca.
Pepper nunca estava de folga. A caixa postal significava que ela estava ignorando-o
deliberadamente. Não importa; ela estaria seguindo as suas ordens em poucos minutos.
Tony se inclinou, lançando uma olhadela para o Central Park. E então, suas botas a jato
dispararam – e o invencível Homem de Ferro sobrevoou a cidade na direção do rio East.
A luz que indicava mensagens em seu telefone estava piscando, mas Tony não podia cuidar
disso ainda. Ligou o piloto automático, certificando-se de que a luz que indicava notificações
da FAA estava ativada. Passou pelo aeroporto La Guardia, virou à esquerda e piscou duas
vezes para ver o feed de notícias. Diante de seus olhos, abriu-se um menu de manchetes.
Mais problemas econômicos na União Europeia; teria de verificar novamente seus
investimentos mais tarde. Outra guerra no Oriente Médio estava prestes a estourar, talvez
hoje mesmo. Pepper anexara também uma matéria sobre a subsidiária mexicana da Stark
Enterprises. Tony precisava se certificar de que Nuñez, o diretor de operações da divisão, se
lembrava da política antibelicista da empresa.
E o Comitê Senatorial de Investigações Meta-humanas era notícia de novo. Isso fez com
que Tony se lembrasse de outro compromisso, então clicou no e-mail. Passou o olho por
umas duzentas mensagens: instituições de caridade, contratos, velhos amigos, supostos
velhos amigos que só queriam dinheiro, convites, assuntos dos Vingadores, declarações
financeiras…
… ali estava. Confirmação de seu depoimento ao Comitê na próxima semana. Isso era
importante – nenhum voo de longa distância seria suficiente para me fazer relaxar nesse dia.
O Comitê tinha sido formado para investigar os abusos de poder super-humano, e para
recomendar normas e regulamentos que regeriam as ações de meta-humanos. Assim como
muitos comitês do Congresso, seu maior objetivo era aumentar o prestígio político de seus
membros. Mas Tony tinha de admitir que, conforme o mundo ficava mais perigoso, seres
com superpoderes se tornavam cada vez menos populares entre os civis. Sendo o Vingador
mais famoso e tendo sua identidade conhecida pelo grande público, Tony sentia-se
especialmente obrigado a garantir que ambos os lados fossem ouvidos.
Lá embaixo, um barco de passageiros estava atracando em Pelham Bay. Tony acenou para
eles, e alguns turistas retribuíram o aceno. Então, seguiu o voo sobre a imensidão do Oceano
Atlântico.
A princípio, barcos espalhados. Depois, apenas ondas: grandiosas, quebrando, uma
exibição pura e infinita do poder da natureza. A vista acalmou Tony, fez com que se
concentrasse. Ao desacelerar, a fonte real de sua ansiedade veio à tona em sua mente.
Thor.
O mensageiro de Asgard, lar dos deuses Nórdicos, apareceu de repente. Três metros e
meio de altura, imponente e austero, pairando em uma nuvem de fumaça sobre a Torre dos
Vingadores. Tony recebera o mensageiro no telhado, com Carol Danvers – a Vingadora
conhecida como Miss Marvel – pairando logo acima. Ela flutuava de forma graciosa, o corpo
flexível e forte em seu traje azul e vermelho. O Capitão América estava com eles,
completamente uniformizado, ao lado de Tigresa, a mulher felina de pelo laranja.
Por um momento, o mensageiro não disse nada. Depois, desenrolou um pergaminho,
amarelado pelo tempo, e começou a ler.
– RAGNAROK CHEGOU – disse ele. – FUI ENVIADO PARA AVISÁ-LOS DO DESTINO DO
DEUS DO TROVÃO. VOCÊS NÃO O VERÃO MAIS.
Tigresa arregalou os olhos, alarmada. Capitão América, com dentes cerrados, deu um
passo à frente.
– Estamos prontos. Diga-nos aonde ir.
– NÃO. ACABOU. RAGNAROK CHEGOU E PASSOU, TRAZENDO DESTRUIÇÃO A TODA
ASGARD.
Tony levantou voo, confrontando o mensageiro diretamente.
– Olhe – começou ele.
– THOR FOI DERRUBADO EM BATALHA. NÃO ESTÁ MAIS ENTRE NÓS.
Ao ouvir essas palavras, uma terrível sensação tomou conta de Tony. Sentiu-se tonto,
quase caindo do céu.
– ESTOU AQUI POR RESPEITO AO QUE ELE SIGNIFICAVA PARA VOCÊS. MAS
ESCUTEM-ME: ESTE É O FINAL DA MENSAGEM DO PAI ODIN. A PARTIR DE HOJE, NÃO
HAVERÁ MAIS CONTATO ENTRE MIDGARD E ASGARD, ENTRE O SEU REINO E O
NOSSO.
– THOR ESTÁ MORTO. A ERA DOS DEUSES ACABOU.
E com o estrondo melancólico e ecoante de um trovão, o mensageiro se foi.
Isso foi há quatro semanas. Agora, plainando sobre o oceano, Tony escutava novamente as
palavras em sua cabeça. A ERA DOS DEUSES ACABOU.
Bem, pensou ele. Talvez sim. Talvez não.
Tony sofrera por Thor no último mês. A dor e a frustração que sentiam foi motivo de
discussão entre Os Vingadores: após dezenas, centenas de batalhas juntos, o amigo e
companheiro deles aparentemente morrera sozinho, em uma guerra disputada bem longe
dali, em algum outro plano de existência totalmente diferente. Os Vingadores não apenas
estavam impotentes para ajudar o amigo, como provavelmente não poderiam sequer ter
percebido a batalha que tirou a vida dele.
Agora, porém, Tony começava a notar que alguma outra coisa o incomodava. Thor não
havia sido apenas seu amigo; o deus do trovão era o eixo, o centro dos Vingadores. Tony e
Capitão eram homens cheios de força de vontade, cada um com seus pontos fortes e fracos: o
Capitão era guiado pelo coração e pelo instinto, Tony pela fé no poder da indústria e da
tecnologia. Muitas vezes depois que a equipe foi fundada, eles quase foram aos tapas por
causa de alguma estratégia ou sacrifício. E todas as vezes, Thor levantou aquela voz
retumbante que não deixava espaço para discussões. Ele os lembrava de suas
responsabilidades ou ria da tolice deles, e sua risada gigantesca sempre os unia. Ou, então, ele
apenas se colocava atrás dos dois e dava tapinhas em suas costas, com tanta força que quase
fundia a armadura de Tony em sua pele.
Tony tentara se aproximar do Capitão, mas o Supersoldado passara as últimas semanas
muito quieto. Tony tinha a terrível sensação de que a morte de Thor havia aberto uma ferida
permanente no coração dos Vingadores.
Nos outros aspectos, as coisas estavam indo bem, a Stark Enterprises estava cheia de
contratos com o Departamento de Segurança, e mesmo que não houvesse nenhuma mulher
em especial em sua vida no momento, havia umas quatro ou cinco gostosas. De uma forma
geral, os últimos anos tinham sido bons para Tony Stark.
Ainda assim, ele não conseguia afastar esse medo. Uma sensação, bem no fundo de seu
coração revestido de metal, de que algo imensamente terrível estava prestes a acontecer.
Outra luz piscou. Happy Hogan, seu motorista.
– Bom dia, Hap.
– Sr. Stark, deseja que eu lhe pegue em algum lugar?
Um vulto surgiu à sua frente, refletindo na água agitada, pouco visível através da camada
de nuvens. Tony observou, um pouco distraído.
– Sr. Stark?
– Uh, esta manhã não, Happy. Acho que não conseguiria trazer o carro onde estou agora.
– Outro quarto de hotel? Quem é ela desta vez?
Tony mergulhou nas nuvens, inclinou para o lado, fazendo um arco – e viu um barco
pesqueiro de 24 pés. Provavelmente português, muito longe do porto de origem. Estava
declinando, a água do mar revolto entrando. A tripulação trabalhava no deque, tentando tirar
a água com baldes, mas estavam perdendo terreno.
– Ligo mais tarde, Hap.
Tony mergulhou na direção do barco. Uma onda enorme avolumou-se embaixo dele,
fazendo-o balançar. A tripulação se agarrou freneticamente ao mastro, buscando suporte.
Mas a onda era impiedosa. O navio estava prestes a emborcar.
Enquanto mergulhava, Tony pediu uma pesquisa sobre barcos de 24 pés. O peso seria algo
entre 1.500 e 1.900 quilos, sem contar a tripulação e a carga. Bem pesado, mas com os novos
microcontroladores intensificadores de força muscular em seus ombros, seria possível. A
popa do barco se levantou diante dele, agora apontando para cima. Segurou a popa, acionou
os microcontroladores com um comando mental e empurrou.
Para sua surpresa, o peso do barco continuava a pressioná-lo, forçando-o para baixo, na
direção do mar. Percebeu que sua armadura apagara e os controladores não estavam ligando.
Dois mil quilos do barco pesqueiro caíam sobre os músculos humanos, normais, de Tony.
Nesse momento uma ligação entrou – um número prioritário da Torre dos Vingadores.
Tony praguejou; não poderia atender agora. Com um rápido pensamento, ativou a resposta
de texto: Ligo mais tarde.
Embaixo dele, os pescadores estavam pendurados nos mastros, gritando em pânico. Em
segundos, estariam submersos.
Tony não podia usar os raios propulsores; a esta distância, eles despedaçariam o barco.
Esforçou-se para respirar e executou um reboot de força dos microcontroladores. Luzes
dançavam diante de seus olhos… e então, desta vez, os controladores ligaram. Energia fluiu
por seu exoesqueleto metálico. Tony empurrou, inicialmente com dificuldade, e agarrou o
barco para acertar seu curso. Então o soltou devagar, colocando-o gentilmente sobre a água.
O mar se acalmara, temporariamente. Tony buscou um tradutor interno e escolheu
PORTUGUÊS.
– É melhor voltarem para o porto – aconselhou ele. A armadura traduzia suas palavras
automaticamente, amplificando-as para os pescadores abaixo.
Um capitão aliviado e encharcado sorriu timidamente para ele. Os lábios dele formavam
palavras em português, e Tony escutou a voz metálica da armadura:
– Obrigado, Sr. Anthony Stark.
Hum, pensou Tony. Até em Portugal eu sou conhecido.
Subiu alto o suficiente para visualizar a costa de Portugal e da Espanha. A água parecia
calma o suficiente para navegarem em segurança, então acenou, despedindo-se do barco e
partiu em direção à costa.
Esses microcontroladores estavam com problema. Tony sempre tivera problemas com
microcircuitos; quanto menor o seu trabalho ficava, maior a probabilidade de falhar.
Precisava consultar alguém a esse respeito… quem sabe Bill Foster? Antes de se tornar o
herói Golias, Foster era especialista em miniaturização.
– Nota – disse Tony em voz alta. – Ligar para Bill Foster amanhã.
O litoral espanhol, cheio de praias, apareceu, tentando-o. Ousaria parar para comer tapas?
Não. Hoje não. Abriu o menu do telefone e selecionou LIGAR PARA ÚLTIMO NÚMERO.
Apareceu uma opção: VÍDEO? Ele selecionou SIM.
Uma aparição horrível surgiu diante de Tony, enchendo seu campo de visão. Uma criatura
brilhante, parecida com um inseto, refletindo dourado e vermelho metálico, braços finos e
pernas estalando com energia elétrica. Lentes douradas alongadas escondiam seus olhos, lhe
dando um ar de malícia inumana. Sua forma era vagamente humana – exceto pelos quatro
tentáculos adicionais que saíam de suas costas, balançando aleatoriamente em movimentos
convulsivos.
Tony se desequilibrou no ar, rapidamente se endireitando. Já passara pela Espanha e agora
seguia para o Mar Tirreno, na direção da Itália.
– Tony? Você está aí?
A voz era simpática, meio aguda e familiar. Tony riu.
– Peter Parker – disse ele.
– Quase te fiz enfartar, hein? Foi mal, não teve graça.
– Tudo bem, Peter. – Tony virou para o sul, para longe da Bósnia, e deu uma volta pela
ponta da Grécia. – Eu deveria ter reconhecido esse traje… afinal de contas, eu mesmo o
construí. Só nunca tinha visto ninguém usando.
Na tela de vídeo de Tony, Peter Parker – o espetacular Homem-Aranha – pulou em cima de
uma mesa, cheio de graça e velocidade. Ele improvisou, adotando uma pose cômica, estilo
Vogue, os tentáculos metálicos emoldurando seu rosto.
– O que você acha?
– Perfeito pra você.
Tony checou as informações da origem da ligação; era da Torre dos Vingadores, certo. Isso
explicava a capacidade do vídeo. E também lhe dava uma boa ideia do por que Peter tinha
ligado.
– Honestamente, Tony… e você me conhece, eu não falo ‘honestamente’ com muita
frequência. Esse traje é um estouro.
– Se eu fosse você, também não diria isso com muita frequência.
O Homem-Aranha bateu nas lentes douradas.
– O que tem nessas coisas?
– Filtros infravermelhos e ultravioletas. O dispositivo de ouvido tem um receptor
embutido que capta as frequências da polícia, dos bombeiros e da emergência. – Tony sorriu:
adorava explicar o próprio trabalho. – A cobertura da boca tem filtros de carbono para não
deixar entrar toxinas, e tem um sistema completo de GPS acoplado na placa do peito.
– Uau! Nunca mais vou me perder no West Village. Aquelas ruas diagonais são um
labirinto!
– Só um minutinho, Peter…
A Jordânia aparecia à sua frente, com a Arábia Saudita logo adiante. Tony acionou o campo
furtivo de sua armadura, sentiu o conhecido formigamento por todo o corpo. Agora, estava
invisível aos radares, satélites e ao olho nu em um raio de doze metros.
– … nunca se sabe por onde estamos passando – solicitou um dossiê detalhado sobre Peter.
– Como está a sua tia?
– Melhor, obrigado. O infarto não foi muito grave.
– Bom saber.
– Tony, quero lhe agradecer muito. Muito mesmo. Aquele traje que eu costurei quando
tinha 15 anos… estava bem gasto.
– Também incorporei uma membrana de teia que vai permitir que você plane por
pequenas distâncias – continuou Tony.
– Tony…
– O traje todo é feito de microfibra Kevlar resistente ao calor. Nada que seja mais fraco do
que uma bomba de médio calibre pode penetrar.
– Tony, não sei se posso aceitar.
Tony franziu a testa, acionou a pós-combustão. O deserto se estendendo à sua frente, uma
mancha de colinas marrons sob o sol inclemente.
– O traje é um presente, Peter.
– Eu sei. Estou falando da outra coisa.
Os tentáculos traseiros de Peter se contorceram. Ele ainda não se adaptou aos controles
mentais, percebeu Tony.
– Preciso de você, Peter.
– Fico lisonjeado. Acredite em mim, não tenho escutado isso de muitas chicas
recentemente.
– Posso lhe ajudar com isso também.
– Só não acho que eu possa substituir um deus.
Então, é isso.
Tony parou, colocou os pensamentos em ordem. Sabia que os próximos momentos seriam
críticos. Poderiam ficar debatendo pelo resto de sua vida, e de Peter também.
Peter acrescentou:
– Eu nunca fui um agregador também. Sou apenas o Homem-Aranha, amigão da
vizinhança. Vocês operam em um nível completamente diferente.
Tony aumentou o nível de sensibilidade de seu microfone. Quando falou de novo, havia
uma ressonância sutilmente mais forte em sua voz.
– Peter – começou ele –, tem muita coisa acontecendo agora. Você já ouviu falar do Comitê
Senatorial de Investigações Meta-humanas?
– Não, mas já estou querendo participar.
– Eles estão analisando várias medidas que terão impactos profundos na forma como eu e
você vivemos nossa vida. A era do lobo solitário está no fim, Peter. O mundo inteiro é a sua
vizinhança agora.
– Se os seus planos são seguir em frente, se você quer continuar salvando vidas, ajudando
pessoas, usando os seus dons para o bem da humanidade, vai precisar de uma estrutura de
apoio.
O Homem-Aranha não disse nada. Sua expressão era indecifrável por trás da fachada da
malha de metal.
– Tenho um grupo forte nos Vingadores – continuou Tony. – Capitão, Tigresa, Miss
Marvel, Gavião Arqueiro, Golias. Até Luke Cage está começando a aderir. Mas não tem
nenhum outro que pense como eu, que entenda de ciência e tecnologia e que esteja sempre de
olho no futuro.
– Ha! Tudo que faço atualmente é me preocupar com o futuro.
– Peter, não estou pedindo que você substitua Thor. Ninguém pode fazer isso. Mas preciso
da sua força bruta e de sua mente afiada. Você agora é uma parte crucial do Projeto
Vingadores.
O Homem-Aranha saltou, correndo nervosamente pelo teto da sala de reuniões da Torre.
Seus tentáculos açoitavam o ar à sua volta. Nunca parecera tanto uma aranha naquele
momento.
A Índia passou abaixo, depois a Tailândia e a Indonésia.
– Assistência médica completa? – perguntou o Aranha.
– Melhor do que a Assistência do Obama que você tem agora.
– Estou dentro, então.
– Excelente. – O contorno cinza da Austrália apareceu adiante. – Estarei em casa daqui a
três horas. Que tal um drinque para comemorar? Às duas da tarde na Torre?
– Club soda, claro.
– Você me conhece bem. – Tony fez uma pausa. – Peter, estou tendo um probleminha de
satélite. Vejo você hoje à tarde.
– Probleminha de satélite? Onde você está?
– Você não acreditaria.
– Está tudo bem?
– Uns probleminhas com os novos microcontroladores da minha armadura… nada demais.
Estou bem.
– Que bom. Obrigado. De novo.
– Faremos coisas grandiosas juntos, Peter. Eu que agradeço.
Tony desligou a conexão.
Olhou para baixo enquanto sobrevoava a Nova Zelândia. Virou para a esquerda, apontou
para o norte e acionou a pós-combustão com força total. O primeiro bum sônico mal
penetrou por sua armadura; o segundo trepidou de leve em seus ouvidos.
Tony estava cansado de voar. Queria voltar para casa, retornar ao trabalho. Colocar a
próxima fase da sua vida em ação.
Conseguir alistar Peter nos Vingadores tinha sido uma prioridade máxima. Tony
realmente gostava do rapaz e não mentira ao elogiar a capacidade científica e a mente rápida
de Peter. Percebeu que gostaria de ser o seu mentor.
Mas havia outro assunto que ele não mencionara. Tony não estava interessado apenas em
Peter Parker, o prodígio da ciência. Como Homem-Aranha, Peter era um dos meta-humanos
mais poderosos do planeta no momento. Isso o tornava um recurso a ser aproveitado… e um
perigo em potencial a ser observado.
Melhor mantê-lo por perto.
Tony olhou para o Oceano Pacífico abaixo, observando enquanto as minúsculas ilhas do
Havaí apareciam. Diminuiu um pouco a velocidade, imaginando-se no deque de um hotel com
uma Pina Colada sem álcool na mão. Lindas mulheres com corpos brilhando ao mergulharem
e saírem da água.
Não. Hoje não.
Quando chegou à Califórnia, havia oito mensagens de voz da Pepper. Compromissos,
ligações, contratos. Sucessivamente, a cada mensagem, a voz dela ficava um pouco mais
furiosa.
Bem, pensou Tony. Se ela esperou até agora…
As dunas de Utah passaram rápido, depois as lindas montanhas do Colorado com seus
cumes cobertos de neve. As planícies de Kansas, as florestas exuberantes de Missouri.
Tão lindo. Tudo isso.
Quando as Montanhas Apalaches entraram em seu campo de visão, ele discou para Happy.
– Vou precisar de uma carona, Hap.
– Ainda está em um quarto de hotel, chefe? – Happy riu. – O que quer que houvesse nas
suas veias, deveria ser colocado em frascos e vendido como Viagrrrr…
Uma onda de luzes e alarmes o assustou, bloqueando a voz de Happy. Tony piscou,
sobrevoou Pittsburgh, e limpou todas as notificações com um comando mental.
– Ainda aí, Hap?
– Estou, chefe.
– Fique no aguardo.
Tony solicitou o feed de notícias; ele carregou lentamente. Zapeou pelos canais a cabo de
notícias. Todas as reportagens pareciam muito confusas, até mesmo com um tom de pânico.
Algo sobre centenas de mortos… uma enorme cratera, bem no meio de…
Já conseguia ver a Torre dos Vingadores, projetando-se no horizonte de Manhattan à sua
frente.
– Happy, me encontre na Torre – mandou ele. – O mais rápido…
Então, seus ótimos sensores detectaram uma coluna de fumaça subindo pelo ar, à
esquerda. Alguns quilômetros ao norte. Não… mais longe que isso, fora dos limites da cidade.
Sessenta quilômetros, pelo menos.
Uma grande coluna de fumaça.
Algo terrível aconteceu.
– Mudança de planos, Hap, espere mais instruções. Estou mudando o curso agora, para…
Fez uma pausa, travou o GPS no local da fumaça preta e espessa que subia.
– … Stamford, Connecticut.
A primeira coisa que o Homem-Aranha pensou ao entrar em
Stamford foi: Esta é uma baita primeira missão como Vingador.
Nos arredores da cidade, sirenes de ambulâncias berravam. As pessoas estavam paradas do
lado de fora de suas casas, conversando, temerosas. Alguns poucos empresários mexiam em
seus celulares, frustrados; o serviço estava sobrecarregado. Todo mundo olhava para o norte,
na direção da espessa nuvem preta no centro da explosão.
O Homem-Aranha parou em um cruzamento, olhando para cima. A fumaça já tinha
diminuído, mas uma neblina artificial cobria todo o céu. As lentes do seu novo traje
provavelmente poderiam analisar a composição dessa neblina, mas, de qualquer modo, ele
realmente não queria saber.
Aranha sabia que precisava estar ali. Mas Tony não atendia às suas ligações, e por mais
constrangedor que isso parecesse, não sabia como entrar em contato com nenhum dos
outros Vingadores. Então, pegou uma carona em um caminhão que ia em direção ao norte e,
quando o trânsito parou, foi saltando de prédio em prédio usando suas teias nos últimos
cinco quilômetros.
Um Quinjet dos Vingadores passou sobrevoando, na direção do local da explosão. O
Homem-Aranha levantou o braço, lançou a teia em um poste de luz, e foi atrás de seus
colegas de equipe.
Menos de um quilômetro depois, uma barricada da polícia bloqueava a estrada principal.
Mais adiante, Aranha podia ver a devastação: prédios caídos, veículos de emergência com
suas sirenes piscando, pedaços de tecido eram levados pelo vento nas ruas cobertas de
entulhos. Civis frenéticos discutiam com tiras, ameaçando e adulando-os, desesperados por
notícias de seus entes queridos.
Fora da barricada, um pequeno grupo se juntou, apontando para cima. O antigo prédio de
quatro andares que abrigava uma biblioteca, coberta por uma cúpula ornamentada, rangeu e
oscilou. Homem-Aranha focou suas lentes e localizou a causa: um pedaço de concreto fora
arremessado em uma parede, aparentemente vindo da zona de desastre. Uma senhora e um
homem de muletas saíam pela porta da frente da biblioteca, incitados pela polícia local.
Mas não era para isso que a multidão olhava. Na lateral da cúpula, perto do topo do prédio,
estava a silhueta grená do Demolidor, o Homem Sem Medo.
Homem-Aranha ficou tenso e saltou. Quase errou o alvo – os intensificadores musculares
do novo traje acionaram automaticamente. Mas ele girou no ar e, em menos de um segundo,
tocou levemente a parede externa. Seus dedos aderiam com facilidade, como os de uma
aranha, à fachada de tijolos.
Se o Demolidor ficou surpreso, não demonstrou. Seu radar provavelmente o avisara.
– Peter – perguntou ele. – É você?
– Em carne e osso, Matt – o Homem-Aranha fez uma pausa e bateu com os dedos nas
lentes metálicas. – E aço, eu acho.
Abaixo deles, o prédio rangia e balançava.
– Tem uma criança presa lá dentro – informou o Demolidor. – Você me dá um suporte?
– Sempre.
O Demolidor agarrou o trinco da janela e tentou abrir. Trancada. O Homem-Aranha deu
um tapinha no ombro dele, depois – se concentrando – estendeu um dos tentáculos que
saíam das costas de seu traje. O tentáculo tremulou diante da janela, depois atravessou-a com
força, apenas uma vez. O vidro estilhaçou.
O Demolidor virou-se para ele.
– Onde conseguiu esse traje?
– Um camarada chamado Anthony Stark construiu para mim. Talvez tenha ouvido falar
dele?
O Demolidor franziu a testa, o rosto sério por baixo do capuz vermelho. Então, ele se virou
e mergulhou para dentro do prédio.
O Homem-Aranha deu de ombros e o seguiu, usando seus tentáculos para tirar os cacos
que restavam no batente.
O escritório estava vazio, silencioso. Sem eletricidade; os computadores apagados em cima
das duas mesas cobertas de papéis.
– Você sabe onde está a criança? – indagou o Homem-Aranha.
Mas o Demolidor estava se concentrando, usando seu radar para rastrear através do chão.
Apontou para a porta e, de novo, Aranha o seguiu.
– Matt. E como você está? Sei que essa história toda de identidade tem sido difícil pra você.
O Demolidor não respondeu na hora. Seis meses antes, um tabloide com conexões no
crime organizado divulgou sua identidade secreta, revelando ao público que ele era Matt
Murdock, o famoso advogado. Isso levou a uma enxurrada de processos civis e
constrangimento público. Matt tomara a decisão arriscada de negar tudo, de jurar
publicamente que não era o Demolidor – o que, claro, era uma mentira. O Homem-Aranha
não sabia se concordava com a decisão do amigo; a moralidade do ato parecia um tanto
obscura. Mas Matt conseguiu provar que era a única opção viável.
– Estou bem – respondeu o Demolidor. Não foi muito convincente. – Ei! Ali!
Em uma sala cheia de cubículos, uma menina de sete anos estava encolhida no chão,
encostada em uma barreira. O prédio balançava, e ela chorava.
Então, ela viu o Homem-Aranha e gritou.
Acho que nem todo mundo se acostumou com meu novo traje ainda, pensou ele.
– Deixa que eu pego a menina – disse o Demolidor.
Cinco minutos depois, eles estavam de volta à rua. O Demolidor entregou a menina para a
mãe, enquanto um bando de tiras observava com cautela. A mulher lançou um olhar
desconfiado para o Demolidor, depois para o Homem-Aranha. E então, saiu correndo.
– Gratidão – ironizou Aranha.
O Demolidor virou-se para ele.
– E alguém pode culpá-la depois do que aconteceu aqui hoje?
– Eu não sei o que aconteceu aqui hoje.
– Foiruim, Peter. Para todos nós.
O Homem-Aranha franziu a testa.
– Poderia me dar uma pista?
– Estou falando da Lei de Registro de Super-Humanos.
Aranha deu de ombros, com os dois braços e os quatro tentáculos.
O Demolidor olhou para cima, e o Homem-Aranha seguiu seu olhar. A figura vermelha e
dourada do Homem de Ferro passou sobrevoando em direção ao local do desastre.
– Pergunte ao seu novo melhor amigo – continuou o Demolidor.
Quando Aranha olhou, Matt já tinha sumido.
Atravessar a barricada balançando na teia não foi problema. Um tira gritou para o
Homem-Aranha uma vez, sem entusiasmo, depois voltou para seus afazeres. A polícia de
Stamford já tinha mais do que suficiente com o que se preocupar.
Dentro da barricada, as ruas logo se tornaram um caos. Algumas casas tinham implodido;
outras estavam caídas sob pilhas de escombros. Equipes de emergência andavam por todos os
lados, transferindo os mortos e feridos para ambulâncias ou, nos lugares onde as ruas
estavam muito ruins, para jipes bem equipados.
E o céu… o céu estava coberto por cinzas, com uma névoa escura. O sol conseguia
fracamente atravessar essa névoa, mas nem produzia sombras, era difícil conseguir ver o
globo vermelho opaco através da nuvem de poeira.
Um bater de asas chamou a atenção do Homem-Aranha. Falcão, um musculoso homem
negro vestindo traje vermelho e branco estava aterrissando um quarteirão adiante. Aranha
seguiu seu pouso e localizou o Capitão América, totalmente uniformizado, conversando com
alguns médicos.
Capitão e Falcão tinham sido parceiros, entre idas e vindas, por alguns anos. Tiveram um
diálogo sucinto – Aranha estava longe demais para escutar – e saíram correndo na direção de
uma casa que ainda estava em chamas.
Capitão América virou-se, olhou o Homem-Aranha e franziu a testa. Então, continuou em
direção à casa incendiada.
Aranha balançou a cabeça. O que foi aquilo? Estendeu a mão para lançar uma teia, com a
intenção de seguir o Capitão e Falcão…
– Ei? Você é um Vingador?
Um bombeiro havia tirado a máscara respiratória. Parecia exausto, impaciente.
– Sou – respondeu o Homem-Aranha. – Acho que sim.
– Sua ajuda seria bem-vinda – ele apontou para uma pilha de pedras, os destroços de um
velho prédio administrativo. – Os detectores de movimento captaram algo, a uns seis metros
de profundidade. Mas não conseguimos fazer com que nossas escavadeiras cheguem até lá.
– Pode deixar. – Aranha deu um salto no ar. – Pode me dar um espacinho, galera?
Hora de colocar esse novo traje para trabalhar.
E, então, ele foi cavando, usando seus tentáculos para afastar pedras e cimento, os restos
arremessados de mesas, paredes, tetos caídos. Chegou ao nível do solo e continuou fuçando,
descendo até o porão do prédio, depois para o subsolo. Descendo com cuidado, se segurando
por teias, girando os tentáculos para afastar os escombros e abrir caminho por camadas de
solo. Antigamente, teria de fazer isso da forma mais difícil, levantando tetos com suas teias e
forçando a passagem por corredores bloqueados usando apenas o poder dos músculos.
Assim parecia mais fácil. Mais natural até.
Antes que o Homem-Aranha pudesse perceber, os bombeiros seguiram-no buraco abaixo,
pendurados por cordas. Eles se espalharam pelo subsolo enquanto o Aranha reforçava o teto
com camadas de teia. Quando localizaram os cinco sobreviventes, prenderam os feridos em
cordas e começaram a içá-los. Os civis tinham inalado muita poeira; um deles estava com a
perna quebrada. Mas todos sobreviveriam.
Peter escalou de volta para o nível do solo, e recebeu alguns aplausos dos bombeiros. E de
outros dois também: da Tigresa, a mulher felina, e de Luke Cage, o Poderoso.
A Tigresa estendeu os braços, segurando-o com um e se apoiando com o outro, puxou o
Homem-Aranha para fora do prédio. Seu corpo coberto de pelos era quente e musculoso; seu
traje, que mais parecia um biquíni, mal cobria o corpo. O abraço durou um pouquinho
demais.
– Bem-vindo aos Vingadores – Tigresa sorriu e passou os olhos pelo corpo esbelto do
Homem-Aranha. – Já estava na hora de ter uns gostosos nesse grupo.
– Obrigado. Pena que as circunstâncias não foram menos… – ele apontou à sua volta. –
Bem, circunstâncias menos apocalipticamente terríveis.
– Os Vingadores salvaram a minha vida – Tigresa parecia séria agora. – Depois da minha
transformação. O Capitão e o Homem de Ferro… Não sei o que teria sido de mim sem o apoio
dessa equipe.
Cage, um herói nascido no Harlem, usava calças jeans sujas, uma camisa justa preta, e
óculos escuros que cobriam seus olhos. O rosto escuro estava coberto de poeira e fuligem.
Ele deu um tapinha nas costas do Homem-Aranha.
– E você? – quis saber o Homem-Aranha. – Ser um Vingador tem sido bom?
– Ainda faz poucos meses. Se isso fosse uma prisão, e eu ainda nem estaria em condicional
– Cage tirou os óculos e fitou Aranha mais de perto. – Roupas interessantes.
– Design original de Tony Stark. No ano que vem, estará à venda nas melhores lojas do
ramo.
– Vamos – chamou Tigresa. – Vamos ver se podemos ajudar o Capitão.
Ela correu se apoiando nas mãos e pés, abrindo caminho por postes e fios de telefone
caídos. Cage assentiu para Aranha e, juntos, eles seguiram.
Logo à frente, um único prédio de tijolos permanecia em pé, mas em chamas. Golias, o
último de uma longa fila de heróis dos mais variados tamanhos, estava de pé com seus quatro
metros de altura, tirando escombros do telhado. Abaixou-se, desviando de uma explosão de
chamas, e agarrou um pedaço solto de piche. Jogou-o bem alto, e Miss Marvel lançou-se
sobre ele. Disparou uma onda de energia radiante, incinerando o pedaço do telhado no
mesmo instante.
O Homem-Aranha franziu a testa.
– Aquilo é o posto do corpo de bombeiros? Pegando fogo?
– Antigo posto do corpo de bombeiros. – Falcão aterrissou na frente deles. – Agora são
escombros. Bem, agora é uma área de desastre.
Cage se aproximou e deu um leve abraço no Falcão. Os dois tinham crescido no mesmo
bairro.
– O Capitão está lá dentro?
– Exatamente. Disse para esperar por mais instruções aqui fora.
– Onde estão os bombeiros? – perguntou Aranha.
O Falcão fez um gesto mostrando à sua volta, o caos e as sirenes.
– A caminho.
Um homem de meia-idade saiu tropeçando e tossindo do prédio, e caiu de joelhos. Falcão
levantou voo e assoviou; dois médicos vieram correndo.
Gavião Arqueiro, o atirador, saiu do edifício logo atrás do homem, equilibrando duas
crianças em seus braços fortes. Seu traje roxo estava queimado e rasgado; uma das alças de
sua aljava tinha sido totalmente queimada. Ele entregou as crianças nas mãos dos médicos e
se afastou, tropeçando, tonto.
Acima, Golias tirava outro pedaço de telhado.
– Fogo provocado por gás – informou ele, para quem estava embaixo. – Ainda está
queimando.
Falcão pousou ao lado do Gavião Arqueiro e o levou até onde estava Homem-Aranha e os
outros.
– Bom trabalho, Gavião. Onde está o Capitão?
O Gavião Arqueiro tossiu e fez uma careta.
– Ainda lá dentro. Eu achei que tínhamos tirado todo mundo, mas ele disse… ele insistiu…
– e começou a tossir de novo, se curvando.
– Você também deveria ser examinado.
Mas o Gavião Arqueiro lentamente se endireitou, um brilho travesso cruzando seus olhos.
Pegou uma flecha de sua aljava, estendeu a mão e cutucou Homem-Aranha no peito com ela.
– E perder o melhor da festa? – ele sorriu. – Bem-vindo aos Vingadores, Aranha.
Pela primeira vez, o Homem-Aranha se viu sem palavras. Ficou parado por um longo
momento…
… e, então, o posto do corpo de bombeiros explodiu. Chamas saíam pela porta. Golias deu
um passo gigante para trás e quase caiu. Miss Marvel lançou-se para trás no ar, observando
com os outros, horrorizada.
– Capitão – disse Falcão.
Então, uma figura surgiu na porta, sua silhueta contornada pelo fogo enfurecido. Um
homem alto e musculoso usando um uniforme vermelho, azul e branco rasgado. Capitão
América, a lenda viva da Segunda Guerra Mundial, dava um passo cauteloso de cada vez,
deixando o inferno para trás, carregando uma mulher inconsciente em seus braços fortes.
Médicos o cercaram, pegando a vítima.
– Queimaduras de terceiro grau – diagnosticou um deles. – Mas ela ainda está viva.
– Vamos colocá-la no Jipe.
– Capitão! – gritou Tigresa.
Cage, Falcão e Gavião Arqueiro seguiram-na na direção do prédio. Capitão tossiu uma vez,
afastando-os. Ele sorriu para Falcão, deu um tapinha nas costas de Gavião Arqueiro e pousou
o braço no corpo esbelto de Tigresa.
Então, virou-se para Homem-Aranha e seu rosto ficou sombrio.
– Homem-Aranha acabou de chegar – informou Tigresa. – É a primeira missão dele como
um Vingador.
Com o olhar ainda furioso, Capitão estendeu a mão. Aranha aceitou, inseguro, e sentiu o
aperto forte do Supersoldado.
– Não era o visual que eu esperava – disse o Capitão.
Atrás deles, um caminhão dos bombeiros finalmente chegou, com a sirene ligada.
Bombeiros desenrolaram mangueiras e começaram a apontá-las para o prédio em chamas.
Capitão segurou a mão de Homem-Aranha por um longo momento. Cage e Falcão
trocaram um olhar. Gavião Arqueiro esfregou o pescoço, pouco à vontade.
Por trás da máscara, Homem-Aranha franzia a testa. Sentia como se estivesse no colégio,
nervoso atrás das lentes grossas enquanto algum garoto popular o olhava de cima.
– Eu, hã, tenho de procurar o Tony – anunciou ele. – Alguém sabe onde ele está?
Quando o Homem-Aranha chegou à cratera, percebeu a verdadeira extensão da
devastação. Uma área que se estendia por um quarteirão e meio da cidade fora totalmente
derrubada, reduzida a cinzas e poeira. Metade de uma escola estava de pé no limite da zona
destruída. A outra metade estava incinerada, caída dentro da própria cratera.
O Quinjet dos Vingadores estava estacionado em uma cratera, ao lado do avião feito
especialmente para o Quarteto Fantástico. A névoa estava mais espessa ali, parecendo
envolver a cratera em um assustador crepúsculo no meio do dia.
Aranha pousou ao lado do Quinjet.
– Chefe – disse ele.
Homem de Ferro levantou uma das mãos para ele:
– Espere um minuto – Tony continuou falando com Reed Richards, o Senhor Fantástico do
Quarteto. Reed montara uma rede provisória de laptops, pontos de Wi-Fi e detectores
sensoriais, bem no centro morto da cratera. Ben Grimm, o Coisa, contraiu seu bíceps de
rocha alaranjada para tirar um enorme sistema de computadores do avião.
Os outros membros do Quarteto Fantástico os observavam: Sue Richards, esposa de Reed,
conhecida como Mulher Invisível, e seu irmão Johnny Storm, o Tocha Humana. Os olhos de
Johnny estavam arregalados; ele parecia quase em estado de choque. Pequenas chamas
acendiam e apagavam involuntariamente em seus braços e ombros.
Um movimento repentino chamou a atenção de Homem-Aranha. Ele se virou e encontrou
Wolverine abaixado no extremo oposto da cratera. Cheirando o ar.
– … acho que são todos os sobreviventes – disse Reed, examinando a tela. – Não havia
muitos tão perto assim da explosão.
– O que… – Johnny parou, se recompondo. – O que causou isso?
– Os Novos Guerreiros – respondeu Tony. – Acabei de assistir à filmagem… foi transmitido
remotamente para o estúdio deles. Para aumentar a audiência, eles tentaram acabar com uma
gangue de vilões muito acima do nível de poder deles.
– Bem, eles pagaram por isso. – Reed estava taciturno. – As leituras dizem que não há
nenhum sobrevivente na zona da explosão.
– Confirmo isso – gritou Wolverine. – Nenhum cheiro vivo.
– Nem mesmo Nitro? – perguntou Tony. – Foi ele quem causou a explosão.
O Homem-Aranha franziu a testa.
– Que tipo de cretino explode tudo, sabendo que vai morrer junto com as vítimas? Agora,
temos supervilões-bomba suicidas?
Tony virou as fendas dos olhos pela primeira vez na direção do Homem-Aranha.
– Se eu pudesse perguntar a ele, perguntaria. Mas essa não é mais uma opção.
– Esses garotos… – disse Johnny. E ergueu um pedaço de pano azul e dourado, um
minúsculo retalho do traje de Speedball. – Eles eram apenas crianças.
O Homem-Aranha foi até Johnny, colocou a mão no ombro do velho amigo.
– Palito de Fósforo. Você está bem?
Mas Johnny o afastou, fez uma careta e se incendiou, levantando voo para o céu coberto
de névoa cinza.
Sue fez uma cara feia e virou-se para o avião do Quarteto.
– Vou atrás dele, para garantir que fique bem. Quer uma carona para casa?
– Claro – respondeu Reed. Os olhos deles se encontraram em um momento de profunda e
silenciosa compreensão.
O Homem-Aranha se perguntou: Será que algum dia serei tão íntimo de uma mulher assim?
– Reed – começou Tony –, vou precisar de todos os dados que você puder reunir. A
audiência no Senado é na próxima semana… este é o pior momento para uma tragédia
dessas.
– Tony! – chamou Homem-Aranha. Mas Tony já estava em pleno voo, se afastando da
cratera.
Homem-Aranha o seguiu a curta distância, sem saber o que fazer em seguida. Atrás dele,
Reed Richards virou-se para o Coisa e começou a configurar alguma peça nova do
maquinário.
Capitão América estava parado fora da cratera, observando os últimos corpos que eram
removidos para uma ambulância. Tony pousou ao lado dele.
– Capitão.
Capitão América virou-se lentamente em sua direção.
– Todas essas crianças, Tony – a voz de Capitão estava rouca, ainda mais intensa do que de
costume. – O chefe da FEMA
*
disse que deve ter quase novecentos mortos. Tudo por causa
de um programa de TV.
– Eles deveriam ter nos chamado – replicou Tony. – Os Novos Guerreiros, quero dizer.
Radical sabia que esses vilões estavam acima da capacidade deles.
Capitão o encarou por um momento, depois se virou. Caminhou com passos rápidos até
uma ambulância e começou a falar com o motorista.
Homem-Aranha deu um passo à frente.
– Tony – repetiu ele. – Estou à sua disposição. Só precisa me dizer o que fazer.
– Não há nada a fazer, Peter… ou melhor, Homem-Aranha. Tire o seu smoking do armário
e se prepare para as solenidades. Temos alguns funerais para ir.
– Mas…
– Isso não é um crime para ser resolvido, nem uma aventura, nem um vilão a ser
destruído. É apenas uma tragédia.
– Ou uma oportunidade. Certo, xará?
Wolverine se aproximara por trás deles em silêncio. Seu olhar era hostil, mas sem aquela
selvageria animal. Era algo mais profundo, mais pessoal.
– Você vai para Washington em breve, certo? Para falar com o Congresso sobre a situação
dos super-humanos neste país.
– Isso mesmo, Logan.
– Bem, eu não dou a mínima para o que você vai fazer com aqueles palhaços – apontou
para Falcão e Miss Marvel. – Mas tenho um recado dos X-Men: somos neutros. A
comunidade mutante vai ficar de fora dessa sujeirada.
– Você também é um Vingador, Logan – Tony deu um passo na direção de Wolverine, os
propulsores cintilando.
Na mesma hora, o mutante se colocou em posição defensiva. Garras inquebráveis saíram
de suas mãos, parando a um centímetro do peito do Homem de Ferro.
Atrás de Tony, os outros Vingadores já estavam reunidos: Golias, Cage, Gavião Arqueiro.
Tigresa estava agachada, rosnando baixinho.
Capitão América continuava distante, perto de uma ambulância. Olhou para o corpo em
uma maca e balançou a cabeça.
Tony se ergueu a alguns centímetros do chão, bem na ponta da cratera, e fitou Wolverine
de cima, como um deus.
– Talvez você deva tirar uma licença dos Vingadores.
Wolverine se virou e saiu andando.
– Já tinha pensado nisso. Chefe.
– Tenha cuidado onde pisa, Logan.
O mutante se virou e rangeu os dentes.
– Se pensar em vir atrás de mim, Tony, é melhor tomar mais do que cuidado.
Então, ele disparou como um animal selvagem, se afastando em uma velocidade incrível.
Todos os Vingadores pareceram soltar a respiração ao mesmo tempo. Olharam em volta,
pouco à vontade, assistindo enquanto os últimos carros de resgate saíam.
– Tony – disse Homem-Aranha. – O que você vai dizer para o comitê?
Tony Stark não respondeu. Ficou apenas parado, fitando a cratera, conforme a névoa cinza
lentamente se dissipava, revelando um sol baixo, já se pondo.
Homem-Aranha ficou ao seu lado, junto com seus novos companheiros. Era um Vingador
agora; este deveria ser seu novo começo. Mas para novecentos moradores de Stamford,
Connecticut…
– … é o fim – sussurrou ele.
Tony virou-se bruscamente para ele. Por um momento, Homem-Aranha teve a louca
impressão de que Tony estava prestes a lhe dar um soco. Mas o Vingador blindado apenas
olhou para cima, ativou suas botas a jato e subiu silenciosamente para o céu vermelho como
sangue.
Do lado de fora, o Blazer Club não parecia grande coisa. Apenas uma porta
dupla de vidro engordurado, com sua pequena corda de veludo se projetando para a calçada.
Um toldo ao estilo de filmes antigos com letras de plástico que anunciavam: ESTA NOITE:
ATOS DE VING NÇA.
O segurança olhou Sue Richards de cima a baixo, de seus sapatos rasteiros à sua calça jeans
velha, e para o seu corte de cabelo na altura dos ombros. Os olhos se escondiam atrás de
lentes grossas, mas a boca assumiu um sorriso de desdém. Nem se incomodou em balançar a
cabeça.
Sue fez uma careta e se afastou, misturando-se à multidão. Era um grupo que chamava
atenção mesmo para os padrões de Nova York. Um grupo de executivos de Wall Street, rindo
alto e exibindo grandes anéis. Duas turistas jovens, inacreditavelmente magras e cobertas de
joias, tentando ao máximo parecer descoladas. Um homem negro, baixo e musculoso com
uma garota em cada braço e uma fatia de pizza quente na mão. Uma Amazona, com mais de
dois metros de altura usando um vestido branco revelador, o decote ameaçando despejar seu
conteúdo pelas ruas de Manhattan.
Dentro e fora, o Blazer era mais L.A. do que a maioria das boates de Nova York. Talvez
fosse por isso que Johnny Storm, irmão de Sue, gostasse tanto dali.
Um homem latino usando uma camiseta regata que deixava seus músculos à mostra e uma
barbicha de bode passou por Sue, com uma pequena mulher asiática na sua cola. O guarda
abriu a corda e os deixou entrar.
Sue fechou os punhos. Estava caçando Johnny a tarde inteira, e essas eram as únicas
roupas civis que tinha guardadas no avião. Se não parecia fabulosa o suficiente para o Blazer
Club, o problema era deles.
Fechou os olhos, se concentrou e desapareceu.
Susan Richards, a Mulher Invisível, caminhou de novo até a porta e contornou a corda
facilmente. Ao passar pelo segurança, expandiu um pouco seu campo de força,
imprensando-o contra um nerd suburbano que tentava convencê-lo a permitir a sua entrada.
O segurança virou-se, confuso, mas não viu nada.
Isso foi desprezível, pensou Sue. Mas sorriu.
O salão principal da Blazer era enorme, pelo menos metade do tamanho de um campo de
futebol. Luz baixa, paredes de doze metros de altura que terminavam em um teto abobadado.
Pessoas usando roupas coloridas dançavam descontraídas ou se juntavam em grupos,
berrando para serem ouvidas apesar da música techno hip-hop que tocava. Homens de ternos,
garotos ricos, modelos de lingerie admiradas por todos, lançavam olhares ao redor em busca
do agente certo, do fotógrafo certo.
Sue abriu caminho através do amontoado de pessoas, mantendo-se invisível. Em cima do
palco, uma dominatrix fantasiada de Viúva Negra estava em cima de um “Demolidor” de
quatro, enfiando seu salto agulha e batendo de leve com o chicote nas costas dele. Sue
percebeu que os trajes eram realmente fiéis, cada zíper, gargantilha e bastão no lugar certo.
Mas os clientes pareciam nem se importar.
Sue parou para observar, mais pensativa do que excitada. Perdi muita coisa nos últimos anos
enquanto criava Franklin e a pequena Valéria.
Percebeu que nem reconhecia a música que tocava.
Para Johnny, o desastre em Stamford foi um golpe mais forte do que para os outros. Ele
sempre foi um garoto emotivo, e o número de mortos mexeu com todos eles. Entretanto, Sue
havia percebido mais uma coisa: de todos os super-heróis com quem conversara naquele dia,
Johnny era o que tinha a idade mais próxima dos Novos Guerreiros.
E Johnny também cometera muitos erros na vida.
Eu poderia ter sido uma nadadora olímpica, pensou Sue de repente. Quando eu tinha quinze
anos, treinava todos os dias; até passei pelas preliminares. Eu estava no caminho certo.
Mas abri mão quando papai… desistiu. Abri mão para cuidar do meu irmão mais novo.
Anos depois, ela ainda estava cuidando dele.
Johnny não era do tipo que ficava quieto quando se sentia mal. Ele saía em busca de
encrenca. O que significava…
Um rapaz jovem que usava uma gravata fina trombou com Sue, quase derramando um dos
seus quatro drinques. Ele olhou em volta, sem entender nada. Envergonhada, ela voltou à
vista, balbuciando um pedido de desculpas que se perdeu em meio ao som da música. O jovem
piscou duas vezes, franziu a testa momentaneamente, depois deu de ombros e lhe ofereceu
um coquetel marrom.
Sue começou a balançar a cabeça, depois sorriu e aceitou o drinque.
Nesse momento, a música parou. Algum defeito técnico. Sue virou-se ao escutar o som de
vozes altas.
Do outro lado do salão, havia uma escada de metal que levava a uma plataforma e a uma
porta colocada no meio da parede. Um grupo heterogêneo de frequentadores estava reunido,
olhando algo ou alguém no topo das escadas. Uma forte chama laranja brilhou do alto da
plataforma, e a multidão se afastou, soltando um Oooh de espanto.
Johnny.
Ela abriu caminho pela multidão, deixando o cara da gravata fina para trás. Tentou chamar
o irmão, mas o lugar era muito barulhento. Quando chegou ao pé da escada, pôde ver Johnny
parado na frente da porta, acenando com a mão em chamas para o grupo abaixo. Alguns
pareciam impressionados; outros estavam… bem, era difícil definir. Uma loura barata estava
pendurada no braço de Johnny, gesticulando, e bêbada.
No topo da escadaria, um segurança abriu a porta.
– Sala VIP, Sr. Storm. Paris e Lindsay estão esperando.
– Valeu, Chico. – Johnny puxou uma nota de cinco e, acidentalmente, a incendiou. – Foi
mal! Aqui vamos nós.
Sue fez uma careta e se aproximou da escada. Mas uma mulher enorme usando um vestido
justo e decotado nas costas subiu na sua frente, bloqueando o caminho.
– Por que esse otário pode entrar na sala VIP? – questionou a mulher.
Johnny parou na porta, e virou-se lentamente.
Não, pensou Sue. Não faça isso, garoto.
– É o seguinte, Gata – os olhos de Johnny faiscavam. – Da próxima vez que você salvar o
mundo do Galactus, talvez eu te empreste meu passe.
– Que tal da próxima vez que você mandar uma escola pelos ares?
O acompanhante da mulher, um homem sarado com uma camiseta toda preta, colocou a
mão no ombro dela.
– É isso aí, babaca. Que tal da próxima vez que você matar algumas criancinhas inocentes?
Johnny cambaleou, bêbado, dando um passo em direção à ponta da escada.
– Do que você está falando, cara?
O segurança observava, apertando os olhos. A companhia de Johnny se soltou do braço
dele, lançando-lhe um olhar desconfiado.
Sue ficou tensa, preparando-se para ficar invisível de novo… mas parou ao ver a culpa
passando pelo rosto de Johnny.
– Olha só – começou ele. – Quero dizer…
– Cara – disse um homem atarracado –, você tem muita cara de pau de dar as caras por aí
depois daquilo. Se eu fosse você, teria vergonha de sair.
Johnny se jogou para frente, repentinamente furioso, e quase caiu da escada.
– Cala essa sua matraca, seu tampinha! Eu não tenho nada a ver com o Speedball nem com
os Novos Guerreiros. Aqueles caras eram da terceira divisão.
– Assassino de criancinhas!
A multidão invadiu a escadaria.
Depois disso, tudo aconteceu rápido demais. Sue expandiu seu campo de força, abrindo
caminho escada acima. Pessoas foram imprensadas no corrimão, algumas caindo os poucos
centímetros até o chão. Sue subiu os degraus, três de cada vez. Escutou um crack repugnante
e um grito de dor.
A música voltou, mais forte e alta do que antes.
Quando Sue chegou ao topo, Johnny estava deitado na plataforma, com as mãos na cabeça
ensanguentada. A Srta. Vestido Justo estava sobre ele, o rosto contorcido de ódio, uma
garrafa quebrada na mão. O segurança estava na beira da plataforma, afastando as pessoas.
A companhia de Johnny soltou um grito e desapareceu na sala VIP, batendo a porta ao
entrar.
Sue atacou a Srta. Vestido Justo, projetando força invisível de suas mãos. A mulher ainda
deu mais um bom chute na cabeça de Johnny antes de Sue atingi-la. Sue usou seu campo de
força para levantá-la, empurrando a mulher por cima do corrimão e observando enquanto ela
caía em cima da multidão abaixo.
Johnny estava se contorcendo de dor, sangue pingando pela malha de metal da
plataforma, como chuva vermelha caindo nos clientes abaixo. Seus braços faiscaram
rapidamente, depois as pernas. Apertou o crânio e soltou um som horrível.
Mais clientes estavam correndo para a escada agora. Furiosos, excitados, alguns deles com
pingos de sangue de Johnny no rosto. Eles querem matá-lo, ela notou. Querem matar todos
nós.
Seguranças se aproximaram, tentando impedir a onda humana. Mas os frequentadores da
boate continuavam avançando, como enlouquecidos aldeões do século XIX. Quando eles
chegaram ao topo das escadas, Sue se abaixou ao lado do irmão, envolvendo os dois com um
campo de força impenetrável. Os dois primeiros atacantes bateram com força no campo,
caindo para trás.
Johnny não estava se mexendo.
– Meu irmão! – gritou Sue, se esforçando para gritar mais alto do que a música. –
CHAMEM UMA AMBULÂNCIA PRO MEU IRMÃO!
– PRIMEIRAMENTE, gostaria de agradecer a presença de todos.
Significa muito… para mim, e acima de tudo, para seus amigos, vizinhos e familiares que
perderam entes queridos na tragédia de ontem, que poderia ter sido completamente evitada.
Assunto: Henry Pym
Apelidos: Homem-Formiga, Homem-Gigante, Jaqueta Amarela
Grupo ao qual é afiliado: Vingadores (formação antiga)
Poderes: habilidade de mudança de tamanho, voo, armas explosivas
Tipo de poder: artificial
Localização atual: Nova York, NY
Tony Stark abriu o teclado na tela de seu iPhone e fez uma anotação: Aposentado.
Inofensivo.
– Em momentos como este, é crucial que a comunidade se una. Não podemos permitir que
nos rebaixemos ao ódio e à amargura. A Deus cabe julgar, não a nós.
Assunto: Robert Reynolds
Apelidos: Sentinela
Grupo ao qual é afiliado: os Vingadores (ocasionalmente)
Poderes: Extrema força, invulnerabilidade e outras capacidades desconhecidas
Tipo de poder: inato
Localização atual: desconhecida
Tony franziu a testa e escreveu: Problema em potencial. Encontrar e recrutar.
– Dito isso… – o reverendo abaixou o olhar e tirou os óculos. – … em nossa dor, não
podemos nos esquecer das causas dessa tragédia, nem perdoar seus perpetradores. O perdão
também é reservado ao Senhor.
Assunto: Robert Bruce Banner
Apelidos: Hulk
Grupo ao qual é afiliado: nenhum
Poderes: Força com limite imensurável motivada pela raiva
Tipo de poder: inato
Localização atual: exilado no espaço
Tony estremeceu.
A igreja era enorme, com centenas de bancos; mas todos estavam ocupados naquele dia.
Jovens e velhos, homens e mulheres, todos de luto, vestindo preto.
Tony estava sentado na quinta fila, sua mente a mil por hora. Não dormira na noite
passada. Desde o incidente, entrara em um ritmo insano de trabalho, como sempre fazia
quando confrontado por algum problema complexo de engenharia. Seu subconsciente girava
e girava, analisando a situação de mil ângulos diferentes.
– … e, então, vos suplicamos, Senhor, a sua misericórdia.
Tantos heróis. Centenas deles, e sabe-se lá quantos vilões. Tony já mantinha dossiês sobre
a maioria deles, mas agora se via compulsivamente atualizando as informações.
Tem muito poder aqui, pensou ele. Muitos Nitros em potencial.
– Misericórdia. Não apenas para as almas das crianças que faleceram… – o reverendo fez
uma pausa e olhou para os fiéis –, … mas também para as chamadas superpessoas, cuja
negligência nos trouxe a este momento triste.
Um ícone de alerta de notícia piscou no canto da tela do telefone de Tony. Ele colocou os
fones de ouvido, olhando rapidamente à sua volta, com uma expressão de culpa. Um homem
careca apareceu na tela do celular na frente do logotipo de um canal de televisão a cabo, sua
voz soava pequena nos ouvidos de Tony.
– … assim como Speedball, por exemplo. Ninguém gosta de falar mal dos mortos, mas ele era um
rapaz que, ao que tudo indica, sequer sabia o nome do presidente dos Estados Unidos. Um garoto
como esse não deveria ser testado antes de ter permissão para trabalhar nas nossas comunidades?
Tony franziu a testa, clicou em outro canal. A tela do telefone se encheu com um close do
rosto ensanguentado e inconsciente de Johnny Storm, enquanto ele era levado para uma
ambulância. Luzes fortes brilhavam na noite de Manhattan.
– … detalhes do violento ataque a Johnny Storm, o Tocha Humana, ontem à noite. Este é o
último de uma série de ataques à supercomunidade de Nova York. Daqui a pouco mais
informações, e também mais a respeito da crescente pressão sobre o presidente enquanto o povo de
Stamford pergunta: Quais são suas propostas para a reforma dos super-heróis?
Clique.
– Banir os super-heróis? – Mulher-Hulk se inclinou para frente e tirou os óculos,
conversando com o apresentador do programa de entrevistas. – Bem, em um mundo cheio de
super vilões, isso é obviamente impossível, Piers. Mas treiná-los e dar-lhes distintivos? Isso sim,
acho que essa é a resposta mais razoável.
Tony sentiu um arrepio no pescoço e levantou o olhar de repente. Duas mulheres sentadas
próximas a ele estavam encarando-o sob os véus. Ele abriu um sorriso tímido.
E então, notou mais um par de olhos sobre ele, do final do banco. Capitão América.
Tony arrancou os fones de ouvido, enfiou o telefone no bolso.
Quando a cerimônia terminou, Tony entrou na fila para a saída. As pessoas já estavam se
reunindo, chorando e confortando umas às outras. Não tinha a menor vontade de se
intrometer no sofrimento delas. Vários outros Vingadores também quiseram vir, incluindo
Tigresa e Miss Marvel, mas todos tinham concordado que era melhor manter o contingente
super-humano o menor possível. Ninguém queria transformar a tristeza do povo de
Stamford em um circo da mídia.
Tony saiu rapidamente da igreja. Também não estava com a menor vontade de discutir
com o Capitão naquele momento.
Assim que saiu, Tony sentiu a mão de alguém em seu ombro. Virou-se e encontrou Peter
Parker, sorrindo timidamente.
– Chefe – Peter disse.
– Peter. Achei que tínhamos combinado que eu e o Capitão representaríamos os
Vingadores.
Peter deu de ombros.
– Quem é Vingador aqui? Você está olhando para um humilde fotojornalista do Clarim
Diário.
Tony teve de sorrir e olhou Peter de cima a baixo. O smoking alugado caíra bem nele, mas
os sapatos estavam gastos. E eram marrons.
Pequenos passos, pensou Tony. Este é um projeto.
– Além disso – continuou Peter. – Eu queria estar aqui.
O caminho que levava à igreja era estreito e curvo, à margem de um campo aberto. Carros
se enfileiravam por toda sua extensão, parando um de cada vez para pegar os fiéis mais
velhos. Na fila, Tony localizou Happy Hogan encostado na limusine.
– Venha comigo, Peter.
Peter se colocou ao lado de Tony. Passaram pelo ministro, que estava confortando duas
viúvas inconsoláveis. Uma senhora muito velha estava com eles, chorando
incontrolavelmente em seu lenço de renda.
Capitão América estava afastado, apertando solenemente a mão de dois bombeiros.
O ministro levantou a cabeça e fixou rapidamente os olhos em Tony, que desviou o olhar.
– Acho que eu devia estar tirando fotos – disse Peter.
– Essa parte da sua vida ficou pra trás – respondeu Tony. – Nada mais de labuta pra
conseguir o dinheiro do aluguel.
– Quer dizer que agora faço parte do um por cento?
Tony parou e colocou a mão no ombro do rapaz.
– As coisas estão acontecendo rápido, Peter. Que bom que está comigo.
– Coisas. Como a Lei de Registro de Super-humanos.
Tony levantou a sobrancelha.
– Poucas pessoas ouviram falar disso.
– Mas é por isso que você vai para Washington semana que vem, não é?
– Hoje à noite, na verdade. O Comitê antecipou o meu horário por causa… – ele fez um
gesto mostrando tudo à sua volta, incluindo a igreja e os parentes dos mortos. – O presidente
pediu pra se encontrar comigo hoje à noite, e as audiências serão amanhã.
– O que significaria? Essa Lei?
– Todos os meta-humanos teriam que se registrar e passar por um treinamento para ter
permissão de praticar seus… seus dons em público. Também dá ao governo poderes
extremamente amplos de coerção. Mais amplos até do que o Senado vinha considerando
antes.
– E você apoia isso?
– É uma lei delicada – Tony franziu a testa. – Se for aprovada, teria de ser administrada
com muita sabedoria. Muito cuidado.
– Tony Stark?
Tony virou-se a tempo de ser atingido no rosto por uma cusparada.
– Seu canalha asqueroso!
A mulher estava chorando abertamente, lágrimas escorrendo pelo rosto. Peter já ia
segurá-la, mas Tony levantou a mão.
Happy Hogan já estava atrás da mulher.
– Senhora, vou pedir que se retire – e colocou a mão gorda no ombro dela.
– De onde? Do funeral do meu filho? – ela sacudiu furiosamente o ombro para que ele
tirasse a mão. – Ele é quem deveria ser expulso daqui.
Tony fez uma careta e enxugou o rosto.
– Senhora, entendo que esteja chateada. Mas as… trágicas ações dos Novos Guerreiros não
têm nada a ver comigo.
– Ah, é? E quem financia os Vingadores? Quem há anos vem dizendo para a garotada que
eles podem viver fora da lei, contanto que usem trajes?
Peter Parker limpou a garganta.
– Eu, hã, não acho que o Sr. Stark tenha dito isso.
– Policiais precisam treinar e carregar distintivos – continuou a mulher –, mas isso é chato
demais para Tony Stark. Você só precisa de alguns poderes, pose de machão e pronto!
Conquistou um lugar na supergangue particular do Sr. Bilionário.
Tony abriu a boca para falar e então, aconteceu algo que só havia acontecido uma vez com
ele. Ficou completamente sem palavras.
Ela está certa, ele percebeu.
Happy tentou pegar a mulher de novo, mas ela recuou, dobrando o corpo e chorando
compulsivamente. Uma multidão já havia se formado, assistindo com olhos hostis.
– Jerome me deixou – contou a mulher entre soluços. – Quando cortaram a pensão dele…
ele não suportou a pressão. Só me restava o meu pequeno Damien. E agora… e agora…
– Hap – disse Tony. – Vamos embora.
– Você, Stark – a mulher se endireitou e apontou o dedo para Tony que já se afastava. –
Você patrocina essa insanidade. Com seus bilhões. O sangue do meu Damien está em suas
mãos. Agora e para sempre.
Tony caminhou a passos largos para a limusine, cercado por Hap e Peter. Mil pares de
olhos julgadores os seguiram.
– Bem, isso foi divertido – Peter fez uma careta. – E um pouco assustador.
– Eles é que estão assustados – constatou Tony. – Todos eles. Cresceram achando que
teriam um emprego, depois se aposentariam e teriam uns trocados para gastar na velhice.
Agora, estão em pânico. Quem pode culpá-los?
– Talvez você possa dar a eles “uns trocados”.
– Talvez eu possa fazer mais do que isso – Hap abriu a porta da limusine e Tony entrou.
Parou por um momento e fitou os olhos questionadores de Peter. – Posso garantir a
segurança deles.
Peter assentiu, devagar.
Ele sabe, pensou Tony. Ele compreende.
A porta fechou e, de repente, Tony estava sozinho. Sozinho na tranquila escuridão da
limusine, protegido por metal e vidro do mar de tristeza que inundava o lado de fora. Apenas
um bilionário e seus pensamentos íntimos, sombrios e intensos.
Happy deu a volta pela frente e sentou atrás do volante.
– Para casa, chefe?
– Direto para o aeroporto, Hap – Tony olhou através das janelas escuras os parentes que
choravam pela perda dos entes queridos. – Eu sei o que tenho de fazer.
O Edifício Baxter, lar do Quarteto Fantástico, já havia sido palco de
muitas batalhas. Certa vez, o Sexteto Sinistro despedaçou a praça da frente do prédio e
deixou o Quarteto sem água por uma semana. Em outra, Galactus, o Devorador de Planetas,
foi derrotado no telhado. E ainda teve aquela vez que o Doutor Destino lançou o prédio
inteiro para o espaço.
O povo da área central de Manhattan, compreensivelmente, tinha um relacionamento de
amor e ódio com o Quarteto. Adorava ter heróis na vizinhança, principalmente heróis
públicos e simpáticos como o Quarteto. Mas as constantes lutas e estragos lhes trouxeram
processos civis, protestos e até ocasionais ameaças de morte.
Mesmo assim, o Homem-Aranha nunca havia visto nada como a cena daquele dia.
Um muro sólido de manifestantes formava um semicírculo em frente ao Edifício Baxter,
bloqueando o cruzamento entre a Broadway e a Sétima Avenida no extremo norte da Times
Square. Furiosos, gritavam frases e balançavam cartazes dizendo:
QUARTETO FORA DE NY!
(NOVOS) GUERREIROS DA MORTE
REGISTRO AGORA
HERÓIS = ASSASSINOS
E, talvez, a mais sucinta:
LEMBREM-SE DE STAMFORD
O Homem-Aranha se balançou por sobre a multidão o mais rápido que pôde. Algumas
pessoas apontaram, e as frases pararam de ser entoadas. A multidão ficou em silêncio por um
momento, como se estivesse confusa.
Ótimo, pensou ele. Será que ninguém me reconhece com o traje novo?
Então, iniciou-se um fraco rumor, seguido por vaias e assovios. Uma pedra passou
raspando pela cabeça do Aranha; ele desviou com facilidade, seu sentido aranha funcionando
automaticamente. Em seguida, veio um tomate.
Ele soltou a teia e abriu os braços. Sentiu um momento de pânico; só usara o mecanismo
para planar uma vez, e não queria cair de cara em cima da multidão furiosa. Mas, às vezes,
refletiu ele, você tem que confiar em alguma coisa.
Ou em alguém. Tony Stark, neste caso.
Então, Homem-Aranha estava planando, praticamente voando. Estendeu o braço e sentiu
a parede externa do Edifício Baxter, em seguida, escalou para cima como um aracnídeo,
contornando o prédio para evitar as enormes portas do hangar de veículos nos últimos
andares. Lá embaixo, os gritos da multidão pareciam se dissipar como um pesadelo.
No segundo andar, a partir do topo, ele encontrou uma porta escondida, construída sob
uma fachada de tijolos. Estendeu o braço para a porta e…
… virou-se alarmado.
– Privet.
*
Natasha Romanov, a super espiã russa conhecida como Viúva Negra, estava bem à vontade
sentada no peitoril, linda como sempre em seu traje justo de couro preto. Estava comendo
uma salada em uma embalagem de entrega.
– Natasha! – exclamou Homem-Aranha. – Como… você chegou aqui?
Ela virou-se, lançando um olhar fulminante.
– Os aviões já chegaram a este país?
– O que você está fazendo?
– Esperando por você. Bem, alguém como você. De preferência mais alto – ela se levantou,
equilibrando-se precariamente no peitoril. Aranha prontamente avançou para segurá-la; a
rua ficava quarenta andares abaixo. E ela não parecia preocupada.
– Acabei de chegar da mãe Rússia – continuou ela. – Tony foi muito gentil em me avisar
sobre a reunião, mas aparentemente Reed Richards não recebeu o recado. Eu não estava na
lista de autorizados para entrar. – Ela apontou para a multidão, agora apenas pontinhos
coloridos ao longe. – E a segurança está rigorosa atualmente.
– Então, você só…
– Já previa a chegada de um visitante aéreo, mais cedo ou mais tarde.
Aranha fez uma pausa, digerindo tudo por um momento. Depois, deu de ombros e se
aproximou da porta secreta.
– Johnny Storm me deu acesso a isso – contou ele. – Cara, tomara que ele esteja bem.
– Tá, tá – ele escutou Natasha bocejar.
Ao toque do Homem-Aranha, a porta brilhou. A palavra AUTENTICANDO apareceu
superposta holograficamente sobre os tijolos; depois AUTORIZADO. A porta se abriu para
dentro.
Rastejaram-se brevemente por um duto de ar e chegaram a um corredor perto do centro
operacional do Quarteto Fantástico.
– Então, você está aqui como uma Vingadora? – quis saber Homem-Aranha. – Ou
representando a S.H.I.E.L.D.?
A Viúva deu de ombros, como se a pergunta não tivesse importância.
Uma explosão de gargalhadas, e então uma menininha apareceu, tropeçando nos próprios
pés. Um menino um pouco mais velho de cabelos louros veio correndo atrás dela. Ambos
pararam ao mesmo tempo ao verem Viúva Negra. Ela os encarou.
Então, o garoto se virou para Homem-Aranha e sorriu.
– Oi, tio Aranha. Traje irado!
– Valeu, Franklin – agradeceu Homem-Aranha. – Você é a primeira pessoa que vejo hoje
que tem bom gosto.
A menina – Valéria – já tinha se recuperado, e agora os fitava com olhos enfeitiçados e
cintilantes.
– Todo mundo está no laboratório do papai – informou ela.
– Legal – Aranha abaixou-se e bagunçou o cabelo dela. Valéria ficou imóvel, observando-o
como se estivessem conduzindo uma experiência juntos.
Então, Franklin bateu no braço dela e correu. Ela girou, rindo, e saiu correndo atrás dele.
Homem-Aranha observou enquanto se afastavam. Franklin e Valéria eram crianças
ótimas, e ele sabia o quanto significavam para Reed e Sue. Sentiu uma pontada de
arrependimento, de inveja. Se, pelo menos, as coisas tivessem sido diferentes com…
– Vai demorar muito? – indagou Viúva.
Aranha fez uma careta e seguiu-a pelo corredor.
Sempre se sentia como um garoto de doze anos quando ela estava por perto.
O laboratório de Reed Richards era enorme, não tinha janelas, o teto era alto e estava
abarrotado de equipamentos científicos. Microscópios de feixe de partículas, lasers gigantes,
espaçonaves de alienígenas prontas para serem dissecadas como sapos. Supercomputadores,
mostrando desde os mais novos sistemas SUN até os antigos Cray, todos unidos em uma rede
intrincada que só o cérebro formidável de Reed conseguia entender. Johnny Storm certa vez
comentara com Aranha que se alguma coisa acontecesse com Reed, ninguém conseguiria
sequer fazer uma torrada no laboratório dele.
Parecia um lugar estranho para a maior reunião de super-heróis já realizada. Mas
Homem-Aranha logo se deu conta: era a única sala no Edifício Baxter grande o suficiente.
Gavião Arqueiro, Golias, Falcão, Tigresa e Miss Marvel estavam reunidos, imersos em uma
intensa conversa. Peter sabia que eles formavam o núcleo dos Vingadores, o elo da equipe de
elite de super-heróis de Tony. Gavião Arqueiro gesticulava muito, quase batendo nos grandes
equipamentos eletrônicos de Reed.
Luke Cage estava separado, com suas roupas comuns e seus óculos escuros, falando baixo
com Manto, o jovem herói afro-americano em seu traje azul esvoaçante. Falcão Noturno e
Valquíria, representantes do time dos Defensores, andavam de um lado para o outro pouco à
vontade com seus drinques na mão. Mulher-Aranha, a Vingadora mascarada que usava traje
amarelo e vermelho, estava afastada sozinha, mexendo em seu celular. Os Jovens Vingadores
– Hulkling, Patriota, Wiccano, Estatura e Célere – estavam juntos, observando os heróis mais
velhos com desconfiança.
Adaga, a jovem esbelta com poderes de luz, se movimentava pelo salão, indo rápida e
animadamente de uma das máquinas de Reed para outra. O próprio Reed estava nos fundos,
perto do portal da Zona Negativa, o pescoço esticado como uma cobra de três metros. A
cabeça balançando pra frente e pra trás, seguindo os passos de Adaga. Cada vez que ela tocava
em alguma coisa, ele estremecia.
Homem-Aranha sentiu uma pontada de claustrofobia. Aqui, entre seus camaradas heróis,
ele se sentia, de alguma forma, paradoxalmente exposto. Vulnerável.
Você não é mais procurado pela justiça, se lembrou. Você agora é um Vingador.
Localizou Demolidor em um canto, conversando baixinho com a verde Mulher-Hulk. Junte
dois advogados, pensou ele… provavelmente já estão analisando profundamente as
implicações legais da Lei de Registro de Super-humanos.
O Homem-Aranha seguiu na direção de Demolidor, mas Natasha passou na sua frente,
dando-lhe uma cotovelada. Aproximou-se furtivamente de Demolidor, colocando a mão em
seu peito. Mulher-Hulk revirou os olhos e deu as costas.
Ben Grimm, o Coisa, deu um tapa nas costas do Homem-Aranha – não tão forte; Ben
aprendera a não aleijar pessoas normais com gestos amigáveis.
– E aí, Aranha? Que bom que você veio.
– Ben.
Aranha se debruçou sobre uma intricada máquina, uma treliça de vidro e metal. Ben
franziu a testa.
– Melhor não mexer nisso.
– Foi mal. Reed não vai gostar?
– Pior. Ele vai passar vinte minutos explicando o que ela faz.
Aranha seguiu o olhar do Ben. Do outro lado da sala, Reed estava fazendo gestos
exagerados com seus braços alongados, explicando alguma coisa para Adaga, que estava
claramente confusa. Manto, o parceiro dela, se juntara a eles. Parecia igualmente perplexo.
– Ei – disse Homem-Aranha. – Como está o Johnny?
– Melhor… está estável, consciente a maior parte do tempo. Suzy está com ele – Ben bateu
com o punho rochoso na palma da outra mão. – Não posso pensar muito nisso, me dá
vontade de esmagar alguém.
– Sei. Alguma novidade sobre A Lei de Registro?
– Ainda não – Ben apontou para uma tela enorme ligada na CNN. O som estava mudo, mas
estava escrito na legenda: BREAKING NEWS: SENADO ESTÁ EM SESSÃO FECHADA
DISCUTINDO A LRS.
** – A qualquer momento teremos alguma.
Miss Marvel se juntou a eles, alta e esbelta com seu traje azul e vermelho. Os outros
Vingadores seguiram seus passos.
– Tony ficou incomunicável o dia todo – ela disse ao Homem-Aranha. – Estávamos nos
perguntando se teve alguma notícia dele?
Tigresa sorriu, mostrando dentes pontiagudos.
– Homem-Aranha é o novo querrrridinho do Tony.
– Eu não – negou Aranha. – Não sei de nada. – Sentiu-se pouco à vontade de novo, como
um penetra em um clube privado.
– Tony só me manda mensagens de gostosas. E ainda não recebi nenhuma foto hoje. – O
Gavião Arqueiro levantou o olhar do celular. – Isso realmente me preocupa.
– Ei – Homem-Aranha olhou em volta. – Cadê o Capitão América?
– Recebeu um chamado. Ultrassecreto – Falcão deu de ombros. – Foi tudo que ele disse.
– Deve ser da S.H.I.E.L.D. – opinou o Gavião Arqueiro. – Sempre é a S.H.I.E.L.D.
Falcão Noturno estava olhando para a tela da TV.
– Planos de aposentadoria e férias anuais? Querem nos transformar em funcionários
públicos?
Luke Cage franziu a testa.
– Acho que estão tentando acabar com a gente.
– Ou nos colocar na legalidade – respondeu Miss Marvel. – Por que não devemos ser mais
bem treinados e responder pelos nossos atos publicamente?
Patriota, o líder dos Jovens Vingadores, falou alto, para todos ouvirem.
– Alguém disse que deveríamos entrar em greve se eles tentarem mexer com a gente.
Alguém concorda com isso?
Reed Richards deu um passo à frente, o rosto sério.
– Não acho que alguém aqui consideraria uma greve, rapaz.
– Nos tornarmos funcionários públicos faz todo sentido – continuou Miss Marvel –, se isso
ajudar o povo a dormir melhor.
– Não posso acreditar que estou escutando isso – Golias cresceu um pouco, atingindo dois
metros e meio de altura, e todos os olhos se voltaram para ele. – As máscaras são uma
tradição. Fazem parte do que nós somos. Não podemos permitir que o governo nos
transforme em supertiras.
– Na verdade – opinou Homem-Aranha –, temos sorte disso ter demorado tanto para
acontecer. Por que a gente deveria ter permissão para se esconder atrás dessas coisas?
O Gavião Arqueiro se enfureceu.
– Porque o mundo não é tão legal fora da sua torre de marfim, cara.
– Nunca entendi esse fetiche por identidade secreta – admitiu Reed. – O Quarteto
Fantástico é conhecido do público desde o começo, e sempre funcionou para a gente.
– Para vocês, talvez – Homem-Aranha sentiu a claustrofobia, o pânico, crescendo dentro
dele novamente. – Mas e se um dia eu chegar em casa e encontrar a mulher que me criou
empalada em um dos tentáculos do Doutor Octopus?
Silêncio constrangedor.
Parker, pensou Aranha. Você realmente sabe como animar uma festa.
À medida que as conversas eram lentamente retomadas, ele se retirou para um canto.
Atrás de um microscópio de elétrons do tamanho de uma geladeira, Demolidor e Viúva Negra
estavam bem juntinhos, os lábios quase se tocando. À princípio, Aranha não conseguia dizer
se eles estavam discutindo ou namorando.
– … de ser paranoico – argumentou Viúva Negra. – Isso tudo é especulação.
– Não – replicou Demolidor. – Isso já vem sendo feito há muito tempo. Stamford foi só a
gota d’água.
– Vocês, americanos – ela acariciou o peitoral dele, um olhar duro em seu lindo rosto. –
Tão mal acostumados com a liberdade. A menor ameaça de perdê-la, e vocês já têm um ataque
de raiva.
Demolidor virou os olhos cegos na direção de Homem-Aranha.
– Se essa Lei passar – continuou Demolidor –, será o fim da maneira como trabalhamos. O
final de tudo. Posso sentir o cheiro disso no ar.
– Mimado – reiterou Viúva Negra, sussurrando suavemente, próxima ao peito dele.
– Silêncio, todo mundo!
Aranha virou-se e viu Reed Richards apontando o controle remoto para a tela. Atrás de
uma repórter com a expressão austera, a manchete dizia: BREAKING NEWS.
– Estão prestes a anunciar o resultado da votação.
O chiado da televisão encheu o ambiente, abafando a especulação das duas dúzias de
heróis uniformizados. Asas se agitaram; drinques foram colocados de lado. Máscaras, olhos e
lentes, todos virados e fixados na tela.
A imagem do Homem de Ferro os encarava, acompanhada pela legenda: APÓS A
REPORTAGEM: ENTREVISTA EXCLUSIVA COM ANTHONY STARK, O INVENCÍVEL
HOMEM DE FERRO.
Peter Parker, o espetacular Homem-Aranha, sentiu outra pontada de pânico. Ah, Tony,
pensou ele. Cara, espero que saiba o que está fazendo.
O mundo já fora mais simples. Países faziam guerras por causa das linhas de
um mapa, ocupando territórios com tanques, exércitos, frotas. Homens guerreavam em
terra, no mar ou em aviões de guerra. Lutavam, caíam e morriam.
Menos o Capitão América. Em 1945, perto do final da Segunda Guerra Mundial, ele caiu
em batalha… mas não morreu. Por um acaso da natureza, ele foi preservado em estado de
suspensão, destinado a acordar décadas depois em um mundo muito diferente. Um mundo
de comunicações globais, rastreamento via satélite, de câmeras e computadores menores do
que uma partícula de poeira. Um mundo onde guerras são disputadas de uma forma bem
diferente, por motivos diferentes, com novas e surpreendentes tecnologias.
Tecnologias como o aeroporta-aviões da S.H.I.E.L.D.
Construído durante a Guerra Fria, o aeroporta-aviões servia como posto de comando e
plataforma para todas as grandes operações da Superintendência Humana de Intervenção,
Espionagem, Logística e Dissuasão. Com uns oitocentos metros de largura e o tamanho e
volume de uma pequena cidade, ele pairava sobre a Terra, sustentado por avançadas
tecnologias desenvolvidas pela Stark Enterprises. Localização atual: dez quilômetros acima
da Cidade de Nova York.
No deque do aeroporta-aviões, Capitão América assistia a um F-22 Raptor planar para
aterrissar. As rodas do elegante avião – que voava em modo furtivo para ser confundido com
um pequeno animal caso fosse detectado pelos radares – ejetaram no último minuto,
derrapando de leve ao pousar. Ele taxiou até o final do comprido deque, passou por um
museu virtual de aeronaves militares do passado e do presente, e desacelerou até sua
completa e graciosa parada.
Eles pararam de fabricar F-22, pensou o Capitão. Esperava que os novos modelos tivessem a
mesma performance. Nunca se sabe.
Ele se virou para olhar para baixo pela beirada do balcão de metal; o vento batendo em seu
rosto. Em algum lugar, bem lá embaixo, os super-heróis da Terra estavam reunidos. Mas ele
não conseguia ver a cidade. Havia muitas nuvens encobrindo-a.
– Capitão? A diretora irá recebê-lo agora.
Agentes armados da S.H.I.E.L.D. o acompanharam para dentro, pelos corredores altos de
metal cinza pontuados por escotilhas. Os deveres do Capitão América o levaram ao
aeroporta-aviões muitas vezes. Mas desta vez, algo estava diferente.
O lugar parecia frio. Quase Alienígena.
O corredor se abria para uma sala ampla, com teto baixo, cortada por passarelas. Nada de
janelas. Uma mulher imponente usando o uniforme completo da S.H.I.E.L.D. o encarava, seu
cabelo era curto e os traços admiráveis. Dois agentes do sexo masculino a flanqueavam, as
mãos soltas perto de suas armas de alta tecnologia. Um deles tinha olhos cruéis; o outro
usava bigode e óculos escuros.
– Capitão – disse a mulher.
– Comandante Hill.
Ela abriu um sorriso frio e reptiliano.
– Agora é Diretora Hill. Bem, Diretora em exercício.
O Capitão franziu a testa.
– Onde está Fury?
– Você anda desinformado, não? – ela se aproximou dele. – Sinto lhe informar que
Nicholas Fury foi dado como perdido no mar há quatro meses. Já ouviu falar do Protocolo de
Poseidon?
– Apenas o nome.
– E é o máximo que ouvirá a respeito. Basta dizer que Nick Fury deu a vida pelo seu país.
Capitão sentiu um nó no estômago. Já perdera companheiros antes, mas esse foi um
choque – ainda mais logo depois da morte de Thor. Assim como Capitão, Fury era apenas um
homem, mas um homem extraordinário. Ele era tão ou mais experiente do que Capitão,
lutou em mais guerras e enfrentou uma adversidade após a outra.
Deu a vida pelo seu país.
– Fiquei sabendo que vinte e três de seus amigos estão reunidos neste momento no
Edifício Baxter para discutir a reação da supercomunidade à Lei de Registro de Superhumanos.
O que você acha que eles devem fazer?
– Eu… – Capitão fez uma pausa, surpreso pela pergunta direta de Hill. – Acho que não cabe
a mim dizer.
– Deixa de papo furado, Capitão. Sei que você era amigo de Fury, mas agora eu sou a chefe
da S.H.I.E.L.D. Pelo menos, respeite o meu distintivo.
Capitão América franziu a testa e respirou fundo. Virou-se brevemente pra colocar os
pensamentos em ordem.
– Acho que esse plano vai nos dividir ao meio. Acho que vamos acabar em guerra uns
contra os outros.
– Qual é o problema com esses caras? – o agente com expressão cruel apontou para o
Capitão. – Como alguém pode ser contra a possibilidade dos super-heróis serem mais bem
treinados e receberem um salário por seus serviços?
Capitão encarou Hill: Coloque seus homens na linha? Mas ela apenas olhou para o outro
agente, o que usava bigode.
– Quantos rebeldes você estima aqui, Capitão? – perguntou o Bigode.
– Se a lei for aprovada? Muitos.
– Algum peso-pesado? – questionou Hill.
Ele franziu a testa de novo.
– Principalmente os heróis que trabalham nas ruas. Demolidor, Punho de Ferro talvez.
Não tenho certeza.
– Então, ninguém que você não possa encarar.
– O quê?
– Você me escutou.
Involuntariamente, Capitão fechou o punho. Escondeu-o atrás das costas.
– A proposta acaba de passar pelo Senado – continuou Hill. – Acabou, Capitão. A lei estará
em vigor daqui a duas semanas, o que significa que já estamos atrasados. – Ela apontou para
o aeroporta-aviões, com suas frias paredes cinza. – Estamos desenvolvendo uma unidade de
resposta antissuper-humana aqui. Mas temos de garantir que os Vingadores estarão conosco
e que você irá liderá-los.
– Você está me pedindo para prender pessoas que arriscam suas vidas por este país sete
dias por semana?
– Não, Capitão. Estou pedindo para obedecer a vontade do povo americano.
O Capitão percebeu que mais agentes da S.H.I.E.L.D. tinham se aproximado. Homens e
mulheres fortemente armados, usando coletes à prova de balas e capacetes com viseiras
grossas. Eles se reuniram em volta de Hill e atrás do Capitão. Cercando-o.
– Não venha com politicagem, Hill. Os super-heróis precisam estar acima dessas coisas. Ou
daqui a pouco Washington vai querer nos dizer quem são os supervilões.
– Eu acho que supervilões são caras mascarados que se recusam a obedecer à lei.
O movimento do dedo dela foi quase imperceptível, mas Capitão o notou. Na mesma hora,
uma dúzia de agentes da S.H.I.E.L.D. preparou seus rifles, lasers e dardos tranquilizantes.
Um a um, eles engatilharam suas armas: Clic-Clac, Clic-Clac, Clic-Clac.
Todos apontaram para um único homem. O homem com uma bandeira no peito.
O Capitão não se retraiu, não moveu um músculo.
– Esse é o esquadrão que você treinou para derrotar os heróis?
– Ninguém quer uma guerra, Capitão – Hill gesticulou e tentou sorrir. – O povo só está
cansado de viver no Velho Oeste.
– Heróis mascarados fazem parte da história deste país.
– A varíola também – disse o agente com feições cruéis. – Agora cresça, ok? Ninguém está
dizendo que não vão poder fazer o trabalho de vocês – alertou Hill. – Só estamos querendo
expandir os parâmetros, só isso.
– Já estava mais do que na hora de vocês se tornarem legítimos como o resto de nós –
Bigode segurava o seu rifle apontado, o laser vermelho dançando pela estrela no peito do
Capitão. – Soldado.
Capitão América deu um único passo na direção de Hill. Uma dúzia de agentes reagiu
dando um passo à frente.
– Conheci seu avô, Hill. Sabia disso?
Ela não disse nada.
– A unidade dele teve baixa de oitenta por cento na Batalha do Bulge. Eles recuaram pelo
Canal da Mancha, isolados, sem suprimentos. O clima era cruel: tempestades violentas,
nevascas em que não se conseguia ver nada à frente, temperaturas abaixo de zero. Um
homem sangrou até a morte; outro morreu impedindo que uma Divisão Panzer atravessasse
o rio. O Cabo Francis Hill conseguiu manter seu último companheiro vivo. Quando os
encontramos, estavam famintos e sofrendo por causa da severa exposição às intempéries.
Mas ele se manteve firme contra os alemães e salvou a vida de pelo menos um homem.
Hill apenas o encarava.
– Alguma vez, ele lhe contou essa história, Diretora Hill?
– Um monte de vezes.
– Ele foi um dos muitos heróis verdadeiros que conheci naquela guerra – lentamente, o
Capitão se virou e se dirigiu ao círculo de agentes da S.H.I.E.L.D. – Abaixem as armas,
rapazes.
– O Capitão América – avisou Hill devagar –, não está no comando aqui.
Ela deu um passo à frente, dentes trincados de raiva.
– A guerra era deles – sussurrou ela. – Não minha.
– Abaixem. As. Armas – repetiu Capitão. – Ou eu não me responsabilizo pelo que vai
acontecer aqui.
– Tranquilizantes a postos. Preparem-se.
– Isso é loucura, Hill.
– Existe uma solução mais fácil.
– Maldita seja você por isso.
– Maldito seja você por me obrigar a fazer is…
Capitão levantou e estendeu o braço, batendo com o escudo no rifle do agente no
momento em que ele puxava o gatilho. Saltou, deu uma cambalhota no ar e agarrou o
pescoço do segundo homem, torcendo o suficiente para que ele apenas desmaiasse. O
homem soltou um grito abafado.
– Tranquilizantes! – gritou Hill. – AGORA!
Capitão agarrou o terceiro agente pelo colete à prova de balas e o levantou no ar. O
bombardeio de cápsulas tranquilizantes atingiu em cheio o agente, protegendo o Capitão
num momento crucial. Em seguida, ele jogou o agente em cima de seus agressores e saiu
correndo.
– Vão atrás dele! Vão!
Ele foi abrindo caminho pela fila de agentes, socando e batendo, derrubando suas armas e
jogando-os no chão. As armaduras tinham seu lado negativo; o Capitão era mais leve e rápido
do que seus inimigos. Ele lançou seu escudo impenetrável em dois atacantes, cortando a
ponta de suas armas. Quando o escudo voltou, ele o pegou no ar sem nem olhar.
O agente da S.H.I.E.L.D. com traços cruéis estava parado no corredor que levava para o
lado de fora, bloqueando a passagem do Capitão. Quatro homens o apoiavam, todos armados
com rifles de calibres pesados. Estas não eram armas tranquilizantes. Não mais.
Capitão levantou o escudo, e seus lábios se contorceram em uma expressão de batalha.
– Nem pense nisso, rapaz.
Então, ele segurou o escudo diante da cabeça abaixada, como um aríete. Avançou sobre o
agente, esmagando seu maxilar. Girou o escudo para um lado, depois para o outro,
derrubando agentes como pinos de boliche.
– DIRETORA HILL PARA TODAS AS UNIDADES – os autofalantes agora gritavam, numa
altura quase ensurdecedora. – DETENHAM O CAPITÃO AMÉRICA. REPITO: DETENHAM O
CAPITÃO AMÉRICA!
O Capitão se lançou pelo corredor, balas zunindo à sua volta. Cartuchos, feixes de
partículas, cápsulas tranquilizantes. Parou ao lado de uma pequena janela, segurando o
escudo atrás de si para bloquear o fogo.
Ele esperou, encostado na janela, por um intervalo nos tiros. O que, inevitavelmente,
aconteceu.
Músculos desenvolvidos na Segunda Guerra Mundial se contraíram, e o Capitão América
girou e quebrou a janela com seu escudo. Então, ele saltou pela janela, caindo no espaço. Uma
nova saraivada de balas o seguiu; ele desviou e caiu, reduzindo as suas ações a puro instinto
de sobrevivência.
O deque de pouso estava logo abaixo, mas não era uma boa ideia; se tornaria alvo fácil.
Saltou sobre um suporte de armas e impulsionou o corpo para cima, na direção dos andares
mais altos do aeroporta-aviões. Agarrou-se à parede externa, segurou um propulsor em
desuso e voltou a subir.
Abaixo, uma tropa de agentes da S.H.I.E.L.D. apareceu na janela estilhaçada. Eles olharam
em volta, o avistaram e atiraram para cima.
Isso não é bom, pensou ele. Mais de oito quilômetros acima da terra e sem ter para onde correr.
Foi então que ele viu: um antigo caça P-40 descendo para o deque de pouso. Uma relíquia,
assim como ele, que por milagre ainda estava em serviço. No bico do avião, estava pintada a
cabeça de um tubarão, símbolo dos Tigres Voadores, meticulosamente retocada no decorrer
dos anos.
O P-40 devia estar se aproximando para pousar quando os tiros estouraram. Oitenta,
noventa pés de altitude, e descendo. Setenta. Sessenta e cinco.
O Capitão pulou.
Aterrissou em cima da cabine do piloto, o escudo primeiro, estilhaçando o vidro. Sentiu a
dor irradiar por suas pernas. O piloto hesitou, balançou a cabeça quando o vento repentino o
atingiu.
– QUE PORRA É ESSA!
O Capitão agarrou o pescoço do homem.
– Continue voando, filho. E cuidado com essa boca suja.
O piloto assentiu freneticamente, puxando o manche. O deque de pouso estava cada vez
mais perto, depois pareceu se achatar quando o avião arremeteu a menos de seis metros do
deque. O piloto acionou as turbinas, e o avião começou a subir.
O Capitão cambaleou, quase caindo. Segurou-se firme, rangendo os dentes.
Os agentes da S.H.I.E.L.D. correram para o deque de pouso: uns vinte ou trinta.
Apontaram para cima e começaram a atirar.
Mas o avião do Capitão estava se movendo rápido demais. O piloto levantou o nariz da
aeronave e subiu, afastando-se cada vez mais do aeroporta-aviões. O deque passou como uma
mancha e, então, eles estavam no espaço aberto.
O Capitão olhou para trás. O aeroporta-aviões ficava cada vez menor conforme se
distanciava, seu formato irregular contornado pelas nuvens. Não tinha dúvidas de que Hill já
estava ordenando que aviões viessem atrás deles, mas sabia que não conseguiriam alcançá-lo.
O Capitão se endireitou em cima da cabine quebrada, montando o avião como um surfista.
Olhava para baixo apenas quando as nuvens se abriam… revelando as torres de Manhattan, o
oceano e os rios que a cercavam. O mar ao leste, as montanhas, fazendas e cidades a oeste.
– Pa-pa-para onde nós vamos? – gritou o piloto.
O Capitão se inclinou para frente.
– Para os Estados Unidos da América – disse ele.

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