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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 77

GALHO ENVERGADO


Prolífico autor texano, Joe R. Lansdale venceu os prêmios Edgar, British Fantasy, American Horror, International Crime Writer e nove prêmios Bram Stoker. Embora ele talvez seja mais conhecido por histórias de terror/thriller, como The Nightrunners, Bubba Ho-Tep, The Bottoms, The God of the Razor e The Drive-In, também escreve a popular série de mistério de Hap Collins e Leonard Pine — Savage Season, Mucho Mojo, The Two-Bear Mambo, Bad Chili, Rumble Tumble, Captains Outrageous —, romances de faroeste, como The Magic Wagon, e romances que perpassam diversos gêneros, totalmente inclassificáveis, como Zeppelins West, The Drive-In, e The Drive-In 2: Not Just One of Them Sequels. Entre seus outros romances incluem-se Dead in the West, The Big Blow, Sunset and Sawdust, Act of Love, Freezer Burn, Waltz of Shadows e Leather Maiden. O autor também contribuiu com romances para séries como Batman e Tarzan. Seus muitos contos foram reunidos em várias coletâneas, incluindo uma seleção de textos já publicados, Flaming Zeppelins: The Adventures of Ned the Seal. Como editor, publicou as antologias The Best of the West, Retro Pulp Tales, Son of Retro Pulp Tales (com Keith Lansdale), Razored Saddles (com Pat LoBrutto), Dark at Heart: All New Tales of Dark Suspense (com sua esposa, Karen Lansdale), The Horror Hall of Fame: The Stoker Winners e uma antologia em homenagem a Robert E. Howard, Cross Plains Universe (com Scott A. Cupp). Suas obras mais recentes são dois novos romances sobre Hap e Leonard, Vanilla Ride e Devil Red, assim como os contos Hyenas e Dead Aim, os romances Edge of Dark Water e The Thicket, duas novas antologias — The Urban Fantasy Anthology (editada com Peter S. Beagle), e Crucified Dreams — e três novas coleções, Shadows West (com John L. Lansdale), Trapped in the Saturday Matinee, e Bleeding Shadows. Ele vive com a família em Nacogdoches, no Texas. Aqui ele envia seus dois personagens mais populares, Hap e Leonard, em uma missão intricada e perigosa para resgatar uma donzela em perigo — embora não do tipo que você costuma encontrar em contos de fadas.



Uma aventura de Hap e Leonard


Quando cheguei do trabalho naquela noite, Brett, minha ruiva, estava sentada à mesa da cozinha. Ela não tinha plantão no hospital naquela semana, portanto fiquei surpreso ao vê-la de pé. Eram duas da manhã. Eu havia acabado meu turno de trabalho de vigilante noturno na fábrica de ração para cachorros, esperando que meu companheiro Leonard voltasse logo de Michigan, para onde fora atrás de alguém em algum caso, contratado pelo nosso amigo Marvin e por sua agência de detetives. Nós fazíamos esse tipo de bico de vez em quando. Não havia trabalho para mim naquela ocasião e, já que Leonard estava sem trabalho nenhum e precisava de dinheiro mais do que eu, ele aceitara a oferta. Eu tinha um bico na fábrica de ração para cachorros. Era tranquilo, mas bem chato. A coisa mais empolgante que eu fizera fora perseguir uns ratos que encontrara no galpão do estoque, roendo alguns sacos de ração, roubando comida da boca do cão, por assim dizer. Aqueles ratos aprenderam a não mexer comigo. Eu alimentava esperanças de que Marvin teria algo para mim, para que pudesse largar aquilo, mas até então, nada. Pelo menos tinha na minha carteira o salário daquela semana na fábrica de ração para cachorros. — O que você está fazendo de pé? — perguntei. — Me preocupando — disse ela. Sentei-me à mesa com ela. — Nós temos dinheiro suficiente, certo? — Nós temos bastante, para variar. É a Tillie. — Ah, merda. — Não é como antes — declarou Brett. O que ela queria dizer era um pouco da coluna A e um pouco da coluna B. A coluna A foi quando ela se aproximou de um grupo de motociclistas num bar local e foi arrastada para ser feita de prostituta, em parte de propósito, já que era sua profissão, em parte contra sua vontade, porque não planejavam pagá-la. Nós tivemos de resgatá-la disso, eu, Brett e Leonard. Depois ela fugiu e se meteu em uma série de problemas domésticos lá em Tyler, mas Brett a tirava desse tipo de coisas, ou pelo menos conseguia impedir a catástrofe por um tempo. Toda vez que Brett mencionava Tillie, significava que ela faria a mala, tiraria uma folga e partiria por alguns dias para ajeitar alguma coisa estúpida que nunca nem devia ter acontecido. Como a moça era filha de Brett, eu tentava me importar. Mas ela não gostava de mim e eu não gostava dela. Só que eu amava Brett, então tentava apoiá-la tanto quanto possível, mas ela sabia como eu me sentia. — Você precisa ir por uns dias? — perguntei. — Pode ser que eu demore mais. — Como assim? — Ela sumiu. — Não seria a primeira vez que ela se manda por um tempo. Você sabe como é. Vai embora sem falar nada, volta sem dizer nada, a menos que precise de dinheiro ou que uma bomba tenha estourado. — Não é tudo culpa dela. — Brett, amor, não me venha com essa de que você não foi uma boa mãe. — Não fui. — Você mesma era jovem, e acho que não foi tão ruim assim. Você teve alguns incidentes e fez o que podia por ela. Ela é uma encrenca por escolha própria. — Talvez. — Mas você não está convencida. — Não importa. Ela é minha filha. — Você me pegou agora — respondi. — Recebi uma ligação de uma amiga dela. Você não a conhece. Seu nome é Monica, e ela é boazinha. Acho que tem mais juízo do que Tillie. Eu a conheci quando fui lá da última vez. Tem sido um bom exemplo para minha menina. Acontece que eu meio que pensei que Tillie estava tomando jeito e andei mantendo contato com a Monica. Ela ligou para dizer que as duas iam ver um filme, uma noite só de garotas. Só que Tillie não apareceu. Não ligou. E isso foi três dias atrás. Monica disse que, depois que a raiva passou, começou a se preocupar. Disse que o cara com quem Tillie vive pode ser o problema. Ele costumava agenciar putas, e Tillie poderia voltar para aquela vida com facilidade. Quer dizer... Bem, o cara tem uns problemas com drogas... e Tillie também, às vezes. Ele pode ter ficado violento com ela. Pode ter tentado ganhar algum dinheiro com ela, ou pode ter entrado numa fria e ter arrastado Tillie com ele. — Monica acha que ele está prendendo Tillie em casa? — Talvez pior. — Achei que ele era tranquilo. — Eu também — disse ela. — Mas, ultimamente, não muito. No começo, era quase um Príncipe Encantado, um ex-drogado que estava indo bem, então de repente ele não queria mais que ela saísse de casa, nem que entrasse em contato com ninguém. Não queria que visse a Monica. Mas Monica acha que é porque ele andava escolhendo quem Tillie deveria ver. — Prostituição — murmurei. Brett aquiesceu. — É, é assim que esse tipo de cara age. Como se se importasse com você, ou como se tivesse os mesmos problemas, e aí, quando Tillie vê, está viciada em coca de novo e vendendo o rabo, e logo depois não ganha dinheiro nenhum com a venda. Ele fica com tudo. — O cafetão fica com tudo, mantém a garota drogada e faz o dinheiro continuar entrando. — É — disse Brett. — Exatamente. Já aconteceu com ela antes, e então, você sabe... — Você está achando que pode acontecer de novo. — É. Estou. — Claro, isso não importa, e pode não ter sido planejado. Ele pode só ter caído do penhasco e a puxado enquanto caía. E, depois de ter conseguido o prêmio que queria, não quis dividi-lo nem exibi-lo por aí. — Ele gostava de exibi-la no começo — disse Brett. — Gostava que ela se vestisse de um jeito sensual, e, se todo mundo olhasse, ficava louco. Ela era dele, mas queria fazê-la desfilar e que ninguém olhasse para o desfile. Depois, quis trazer pessoas para o desfile. Talvez quando seu vício ficou pior. Não sei. Não ligo. Eu só quero saber se ela está bem. — E você quer que eu verifique? — Eu quero que a gente verifique. — Primeiro preciso voltar lá na fábrica, sair e ficar com o prejuízo. — Aviso prévio curto — disse Brett. — Eu sei — murmurei. — Mas aconteceu o mesmo com esse assunto. Era estranho sair para resolver uma coisa daquelas sem o Leonard. Eu gostava de tê-lo por perto naquele tipo de circunstância. Ele me ajudava a fortalecer minha força de vontade. Gostava de pensar que já era bem firme naquela área, mas nunca dói ter seu irmão de outra mãe do seu lado para ajudar a se sentir confiante. Tillie vivia bem nos arredores de Tyler, entre lá e Bullock, uma vila fora da cidade. Tyler não era grande coisa perto de Dallas ou Houston, mas era uma cidade interiorana grande, ou como uma capital pequena, dependendo de como você gosta de rotular as coisas. Mais ou menos cem mil pessoas, com muito tráfico, imigrantes ilegais e estudantes universitários. Gostavam de contratar os imigrantes para fazer trabalhos baratos, e usá-los para bode expiatório em toda situação possível, esquecendo-se de que sequer estariam lá para serem culpados caso não tivessem recebido ofertas de emprego, para início de conversa. Quando chegamos à casa de Tillie, encontramos dois carros na garagem. — Esses são os carros de Tillie e de Robert — disse Brett. — Os carros dos dois estão aqui. Fui até lá e bati na porta da frente, mas ninguém atendeu. É difícil explicar, mas às vezes você bate e sabe que tem alguém lá dentro, e às vezes tem uma sensação oca, como se estivesse batendo numa caveira clareada pelo sol, achando que vai acordar o cérebro que não está mais lá dentro. E às vezes você está errado pra cacete e quem quer que esteja lá dentro está se escondendo. Eu me lembro da minha mãe fazendo isso às vezes, quando algum credor aparecia. Sempre me perguntei se eles sabiam que estávamos lá dentro, nos escondendo para não pagar o aluguel com dinheiro que ainda não tínhamos, mas que íamos pagar, nos escondendo para não pagar o carro, esperando que não o levassem embora. Dei a volta e bati, mas de novo não recebi resposta. Contornei a casa com Brett e olhamos pelas janelas, onde havia janela pela qual olhar. A maioria encontrava-se coberta com persianas ou cortinas, mas a da cozinha, nos fundos, estava com as cortinas recolhidas e conseguimos ver a parte de dentro, colocando as mãos ao redor do rosto e pressionando-as contra o vidro. Só que não havia nada para ver. Finalmente, voltamos para meu carro e nos apoiamos no capô. — Você quer que eu entre? — perguntei. — Não sei — respondeu ela. — Eu chamei a polícia ontem. Era o escritório do xerife, mas eles não fizeram nada. — Eles não dão atendimento vinte e quatro horas? — indaguei. — Na verdade, dão. Mais até. Mas é que eles já lidaram com ela antes. — Eu não sabia de todos os detalhes, mas já havia deduzido aquilo. Tillie costumava se meter em encrencas, fugir de vez em quando, então eles não iam gastar mão de obra para caçar uma mulher que às vezes é prostituta e usuária de drogas e é sempre um pé no saco. — Tá bom — falei. — Vou tomar uma decisão executiva. Vou invadir a casa. Havia outras casas na rua, mas nenhum movimento, e não vi ninguém afastando as cortinas para espiar, então peguei no porta-luvas o conjunto de ferramentas de fechadura, que uso com a agência às vezes, voltei para os fundos e comecei a trabalhar. Não arrombo fechaduras muito bem e, para dizer a verdade, raramente é igual à TV, pelo menos para mim. Sempre leva um tempo. Aquela porta foi bem fácil, então me tomou só uns cinco minutos, e depois eu e Brett entramos. — Tillie. Robert. É a mamãe — chamou Brett. Ninguém respondeu. As palavras dela ricochetearam nas paredes. — Fique perto da porta — adverti-a. Atravessei a casa, olhei em todos os quartos. Não havia ninguém ali, mas na sala de estar uma cadeira e uma mesa de centro encontravam-se viradas; uma bebida espirrara no chão e se tornara pegajosa. Havia um copo quebrado ali perto. Voltei e contei a Brett o que vira. — Talvez agora a gente consiga a atenção da Justiça — comentei. Do lado de fora, nos fundos, vi uma trilha fina de gotas de sangue. Não a notara antes, mas agora, saindo da casa e com o sol na altura certa, consegui enxergá-la. Parecia que alguém derrubara rubis de tamanhos diferentes na grama. Eu disse: — Brett, querida, vá para o carro e sente-se atrás do volante. Aqui estão as chaves caso você precise ir embora. E, se precisar, vá. Não se preocupe comigo. — Besteira — disse ela. — Vamos pegar a arma no porta-luvas. Eu tenho porte de arma, mas raramente a levo comigo. O fato é que não gosto da ideia de usar uma, mas em meu trabalho — e não estou falando só do de vigilante da fábrica de ração para cachorros — às vezes é necessário. Fomos até lá, pegamos a pistola do porta-luvas, um revólver de estilo antigo, e seguimos as gotas de sangue. A trilha levava até o bosque e sumia logo adiante. Seguimos o rastro um pouco mais e avistei o ponto em que algo fora jogado nos arbustos, esmagando-os. Fomos até lá e encontramos um corpo no chão. Jazia deitado de bruços. Eu não deveria tê-lo movido, mas cutuquei-o com o pé a fim de virá-lo. O rosto que me encarava era o de um jovem e tinha os olhos cheios de formigas. O nariz da vítima encontrava-se achatado e arranhado no local em que fora arrastado pelo chão. Havia um buraco de bala em seu peito, ou foi o que presumi. Já vira alguns, e aquele tiro fora dado bem no bolso da camisa. Consegui ver outro em seu flanco direito. Deduzi que um tiro o ferira, o rapaz tentara fugir e quem quer que fosse o alcançara e atirara nele outra vez, depois o arrastara até os arbustos. Também notei que o homem tinha tatuagens nos dois braços inteiros, e não muito boas. Pareciam ter sido feitas por um bêbado tentando escrever em sânscrito e hieróglifos. Ou isso, ou um companheiro de cela. Brett estava em pé bem ao meu lado e disse: — É ele. — Você quer dizer Robert, o namorado de Tillie. — Sim — disse ela, começando a olhar ao redor. Eu fiz o mesmo. Meio que esperava ver o corpo da filha dela, mas não vimos. Voltamos para a casa e a atravessamos sem mexer em nada além da maçaneta, para o caso de termos perdido Tillie na primeira passagem, enfiada embaixo de uma cama, em um armário ou no congelador. Eles não tinham um congelador, e ela não se encontrava debaixo da cama nem em um armário. Coloquei minha pistola de volta no porta-luvas do carro e liguei para a polícia. O que eles nos mandaram foi um jovem vestindo um par de calças grandes e um distintivo tão brilhante quanto o sonho natalino de uma criança. Tinha no quadril uma arma grande o suficiente para me fazer pensar que ele poderia estar esperando que elefantes causassem problemas. Também tinha um chapéu de caubói que parecia alto demais, de aba larga demais. Ele parecia alguém brincando de polícia e ladrão. Disse-me que era um agente. Havia outro cara com ele, mais velho, sentado no banco do passageiro. O jovem saiu e o mais velho não. Ele apenas abriu a porta e ficou sentado lá. Parecia um homem aguardando a aposentadoria, sem muita certeza de que conseguiria. Devia ter uns quarenta anos, mas havia algo em seu rosto que o fazia parecer mais velho. Esse homem trazia uma arma menor no quadril; eu conseguia vê-la claramente, e ele estava com um chapéu de caubói sobre o joelho. O mais jovem colheu nosso depoimento. Parecia interessado e escreveu algumas coisas em um bloco de notas. Eu lhe disse que tinha uma arma no porta-luvas e que possuía porte de arma, só para que as coisas não ficassem ruins no caso de eles a encontrarem mais tarde. Depois de um tempo, o homem mais velho saiu do carro e veio até nós. — Você anotou isso tudo, Olford? — Sim, senhor — disse o agente. Foi quando vi que o cara à nossa frente tinha um distintivo que dizia “xerife”. Parecia muito aquele tipo de distintivo que costumamos comprar quando crianças, aqueles que vinham com arminhas de brinquedo e sem o chapéu, que você tinha de comprar separado. Ele nos fez as mesmas perguntas, acho que só para ver se tropeçaríamos. Não olhou muito para mim enquanto eu respondia. Ele não tirava os olhos de Brett. Não o culpava. Ela estava com uma aparência ótima, como sempre. Cabelo ruivo comprido, caindo sobre os ombros, um corpo incrível, firme por causa dos exercícios, e o tipo de rosto que faria a Mulher Maravilha bater na própria cabeça com um martelo. — Venha comigo — pediu-me o xerife. — Eu vou também — disse Brett. — Não sou uma violeta murcha. — Aposto que não — respondeu o xerife. — Olford, vá se sentar no carro e organize suas anotações. — Elas estão organizadas, xerife — disse Olford. — Vá se sentar no carro mesmo assim. Seguimos por um caminho. O xerife, que havíamos descoberto chamar-se Nathan Hews, continuou: — Olford é o menino do prefeito. O que posso fazer? — Ele conseguiu o uniforme com a Legião da Boa Vontade? — perguntei. — Não seja desrespeitoso — disse o xerife. — Ele roubou aquilo de um varal de roupas. Chegamos até o corpo. Eu disse: — Eu o virei. — Não devia ter feito isso — disse o xerife Hews. — Eu sei. Mas foi para verificar se estava morto. — Quando eles têm essa aparência, tanto faz se de bruços ou de barriga para cima, você sabe que estão mortos. — Talvez. — Você sabe de alguma coisa — afirmou o xerife. — Você contou a história, disse quem vocês dois são, então fiz umas ligações, verifiquei alguns fatos. O chefe lá em LaBorde disse que você é um pé no saco. Que você costuma andar com um negro chamado Leonard. — Sim, esse sou eu — declarei. — Quer dizer, eu ando com um homem negro chamado Leonard. Não sei nada sobre a parte do pé no saco. — Acho que sabe. O chefe me disse umas coisas. — Tagarela — murmurei. Quando terminamos de examinar o corpo, voltamos para o carro. O xerife fez Olford pegar uma câmera na viatura e tirar umas fotos. — Não temos uma equipe de verdade — disse ele. — Só há eu, Olford, outro agente e um expedidor. Mas às vezes conseguimos umas rosquinhas de graça. — É assim que se mantém a forma — comentei. — Pode apostar — disse ele e olhou para Brett. — Você parece estar bem, considerando que sua filha sumiu e um homem foi morto. Ele ainda brincava conosco, tentando descobrir se tínhamos algo a ver com o negócio que ocorrera. — Acredite em mim — disse Brett. — Estou morrendo de preocupação. Tivemos de ficar em um motel por algumas horas antes de o xerife aparecer sem informações. — Não encontramos sua filha — disse a Brett. — Isso pode ser uma boa notícia. — Pode ser — murmurou Brett. O que o xerife perdeu em sua ausência foi Brett desmoronando e chorando, mas ele provavelmente conseguia notar isso pelo vermelho dos olhos dela. Brett ouviu o que ele tinha a dizer, foi até o banheiro e fechou a porta. — Escute, vou direto ao ponto com você — disse para mim. — Vou lhe dizer o que você provavelmente já deduziu. Sou um xerife de meia-tigela em uma cidade de meia-tigela, com dois agentes que estão trabalhando em seu primeiro caso de assassinato. Eles são mais adequados para perseguir gatos e cachorros renegados e para descobrir quem roubou aquelas bolachas de água e sal do jardim de infância. Se tivéssemos um. Não estou lhe dizendo para ir atrás sozinho, e uma jurisdição superior pode ser trazida pra isso. Mas se eu fosse você, pelo que sei a seu respeito... Vou lhe dizer na surdina, que é o que estou fazendo agora, só para o caso de você não perceber... Dê uma procurada por conta própria. Eu concordei e perguntei: — Você faz alguma ideia de onde posso começar? — Disse que era um xerife de meia-tigela, mas já trabalhei na cidade. Vim para cá para ver menos corpos. Até agora, vi menos. Esta é a primeira morte que não é um suicídio em cinco anos. A vítima é Robert Austin, que era procurado por causa de alguma merda. A menina, a filha da sua mulher, dizem que ela fazia uns trabalhos, se entende o que quero dizer. — O que dizem provavelmente é verdade. — Esse cara, o Robert, vendia drogas e vendia a moça. Numa cidade como esta, as pessoas que usavam os serviços dela... Bem, todos sabem. Todo mundo aqui sabe o tamanho da bosta do vizinho e sabem dizer de quem é o fedor. Acontece que Robert estava vendendo drogas para Buster Smith. Buster tem uma casa chamada Ópera Gospel em Marvel Creek. — Nasci lá — comentei. — Então você conhece o lugar. Costumava ser duro como um degrau e afiado como uma navalha. Toda aquela bebida por lá estava a meio quilômetro do inferno. Agora é uma cidadezinha conhecida por antiguidades e todos os fortões se mandaram. A Ópera Gospel... bem, dizem que é um disfarce do velho Buster. O povo de Marvel Creek vê o cara como um homem de negócios devoto. Já eu o vejo como um homem que traz má fama aos cristãos de verdade como eu. — Certo — repliquei. — Ele tem uns cinquenta anos, cabelo penteado para trás e temperamento tranquilo. Usa horríveis casacos esportivos xadrez o tempo todo. Eu o encontrei uma ou duas vezes, quando estava naqueles lados. Até fui à ópera uma vez. Bom entretenimento. Mas continuavam comentando sobre ele, e, embora sejam rumores, comecei a acreditar. Ele é um malandro que aparentemente vive uma vida simples, dando uma de santinho enquanto faz o serviço feio nos fundos. Ele tem todo mundo que importa na palma da mão. Outra coisa: tem um cara chamado Kevin Crisper que sai pra curtir no Go-Mart daqui, senta num banco na parte da frente. É o lugar dele. Kevin faz seu tráfico de drogas lá, e dizem que trabalha pro Buster, embora não possamos provar. Eu fico de olho nele, mas até agora não o vi fazendo nada que não devesse. Ele tem um ou dois caras que o ajudam. Todos eles têm umas manchas na ficha criminal, mas nada que os mantenha atrás das grades. Quer dizer, eu sei o que estão fazendo, mas não posso provar. Não posso fazer com eles o que precisa ser feito. Só sei que Kevin Crisper vende mesmo drogas e fica com uma porcentagem. Buster fica com a maior parte porque é quem fornece a mercadoria. Pelo menos os narcóticos. Tillie, e quero dizer isso antes que a sua namorada volte, era uma profissional liberal, mas dizem que estava afundando bastante nas drogas e que talvez não soubesse quando ia cagar ou ficar cega. Estava lá no fundo da zona dos mortos, com uma ou duas células cerebrais para mantê-la viva, e só. Robert pode ter andado arrendando a moça através desse Kevin. Provavelmente estava. E Tillie, como eu disse, poderia muito bem ter sido uma boneca inflável explosiva, do jeito que a cabeça dela estava uma baderna. — E você sabe tudo isso e não pode fazer nada? — perguntei. — Isso mesmo — declarou ele. — Não é ótimo? Ouça aqui, o chefe de LaBorde disse que você é mais esperto do que parece, então estou pensando no que disse antes. Tem coisas que você pode fazer que eu não posso. A lei e tudo mais. Mas, se você for pego fazendo, eu não lhe disse para fazer, e, se você disser que eu disse, vou chamá-lo de mentiroso de uma figa. Vou até prender você. O que acha dessa forma moderna de coação legal? — Consigo viver com ela — declarei. Depois de algum esforço, finalmente convenci Brett a me deixar levá-la para casa. Liguei para Leonard de meu celular, mas ele não atendeu. Deixei-lhe uma mensagem. Dirigi para a região central de Bullock, que era uma rua transversal, fui até o Go-Mart e encontrei Kevin Crisper. Era um homem na casa dos quarenta que tentava parecer ter uns trinta. Tinha tatuagens parecidas com as de Robert. Kevin parecia um homem que fora encharcado e superaquecido em um micro-ondas. Uma pele como aquela fora vista pela última vez na múmia de Tutancâmon. Possuía braços musculosos, aquele tipo de músculos que não se conseguem em academias, compridos, filamentosos e enganosamente fortes. Andei até ele e disse: — Ouvi dizer que você poderia me vender umas coisas. — Umas coisas? — perguntou ele. — Que tipo de coisas? Parece que tenho algo a vender? Panelas e tachos? Talvez luvas ou sapatos? — Me disseram que você tinha diversão. Um cara chamado Robert me disse. Você é o Kevin, certo? — Sim, sou eu. — Kevin ergueu a cabeça e perguntou: — Quando Robert lhe disse isso? Respondi com uma data anterior, só para o caso de Kevin ter alguma ideia de quando Robert batera as botas. E acrescentei: — Ele disse que há uma garota que poderia me fazer uns favores, sabe. Por dinheiro. — Você ouviu tudo isso, hein? — Ouvi. — Ele mesmo não se ofereceu para ajeitar as coisas para você? — Disse que trabalhava para você e que eu deveria conversar com você. — É engraçado ele ter dito isso — declarou. — Olha, você tem a mercadoria e eu, não. Eu tenho dinheiro. Quero uns serviços. Gostaria de me divertir com uma garota e quero dar um jeito em mim. Você sabe o que quero dizer. Ele assentiu. — Digamos que eu saiba como pegar essa garota e os bagulhos que você quer para dar um jeito em si mesmo. Você acha que eu tenho isso comigo? Acha que eu tenho a boceta da garota no meu bolso junto com um pacote de pó? — Seria conveniente se tivesse. — Ouça, vou lhe dizer uma coisa. Eu gosto do Robert e, já que ele mandou você, tenho um lugar aonde você pode ir para pegar o bagulho e a garota. Não usamos motel. Só tem um por aqui, e todo mundo conhece todo mundo. — Então onde é esse lugar? — Você vai ficar por aqui hoje à noite? — Posso ficar. — Se você quer uma mina e um pouco de brisa doida, tem que ficar por perto. — Brisa doida? — O bagulho que estou vendendo. É uma mistura. Se você toma esse treco, seu pau fica duro e sua cabeça, alta, e você vai se divertir tanto que vai chegar em casa e bater na sua mãe. — Forte assim? — É o que ouvi. Eu não experimento essa merda em mim. — Isso não é um bom argumento de venda — declarei. — Ah, não é isso. Eu experimento a garota, é claro, mas o resto é produto, cara. Se você usa seu próprio produto, especialmente se ele está disponível, pode ficar na merda bem depressa. Ele me deu um horário e um endereço. Agradeci e tentei parecer empolgado. Dirigi até o único café, estacionei na frente e fiquei sentado atrás do volante. Liguei para Leonard outra vez. Tinha alguma noção de que o assunto em Michigan estava quase resolvido, que ele deveria estar dirigindo de volta, e no Texas, àquela altura, mas parecia que a coisa lhe tomara mais tempo do que o esperado, porque de novo não recebi resposta. Deixei uma mensagem detalhada e até lhe disse onde eu deveria estar e a que horas. Repeti as instruções de Kevin. Entrei no estabelecimento e tomei um pouco de café e comi um sanduíche. Imaginei que poderia precisar estar fortalecido. Comprei um almoço para viagem e um cabo de machado na loja de conveniência e coloquei-o no carro, em seguida dirigi até o local em que deveria encontrar Kevin. Só que estava quatro horas adiantado. Tentei falar com Leonard mais algumas vezes, deixando as mesmas instruções, mas o que quer que ele estivesse fazendo não envolvia ter seu telefone à mão. O endereço que Kevin me dera não ficava muito dentro do bosque, mas era fora da cidade, o que, é claro, se adequava ao seu tipo de serviço. Mas já que eu não achava que Tillie, talvez a única moça trabalhando na rede, por assim dizer, estivesse mesmo disponível, e já que eu sabia que Robert estava bem morto e suspeitava que Kevin soubesse também, pensei que não contaria com sua hospitalidade para trazer Tillie direto para mim. Eu, Brett e Leonard já a havíamos resgatado uma vez, alguns anos antes, de algo estúpido em que ela se metera e que parecia muito com aquilo, e, francamente, havia uma parte de mim que queria deixá-la se virar. Não podia fazer isso porque ela era filha de Brett. Esse era o principal motivo. O outro era o fato de eu ser eu. Parece que sou um desses caras que ajudaria um cão raivoso a atravessar a rua se julgasse que ele estava confuso quanto à direção. Refleti a respeito das instruções que me haviam sido dadas e fiz o caminho contrário. Encontrei uma estradinha pela qual descer, uma trilha de caça, e depois um pequeno caminho que saía dela. Estacionei ali, esperando que ninguém encontrasse meu carro e concluísse que gostaria de ligá-lo e fugir dali com ele, ou apenas vandalizá-lo. Peguei meu revólver do portaluvas, enfiei-o nas calças, atrás das costas, e puxei a camisa para cobri-lo. Peguei a comida extra que comprara no café, um hambúrguer com fritas e Coca diet em lata, coloquei o cabo de machado embaixo do braço e caminhei para onde havia entendido que seria o local do encontro. Quando consegui ver a casa, que parecia bem frágil, enfiada na mata, tive certeza de que minhas suspeitas estavam confirmadas. Qualquer um que viesse ali esperando uma boceta e drogas era idiota. Eu não esperava nenhum dos dois, na verdade, mas era um idiota, porque estava ali. Fui até a casa e verifiquei a porta. Trancada. Dei a volta. A porta de trás estava trancada também, mas era fina. Pensei que aquela seria minha entrada de surpresa, derrubando a porta com um chute. Poderia fazer isso naquele momento e esperar por ele, mas, se ele viesse pelos fundos, ou se esse fosse seu modo preferido de entrar, o gracejo se voltaria contra mim. Afastei-me, voltando a entrar na mata à esquerda do local, e encontrei uma árvore caída para me sentar. Servi-me da comida, que seria boa se você não tivesse papilas gustativas e seu estômago fosse feito de ferro fundido. Comi apenas um pouco das batatas fritas, oleosas o bastante para dar dor de barriga em uma estátua de jardim. Bebi a Coca diet e comi o hambúrguer. A carne pareceu suspeita, mas eu estava com fome. Sempre sentia fome quando imaginava que poderia matar alguém ou ser morto. À medida que escurecia, mosquitos saíam de seus esconderijos e zumbiam, e alguns me picaram. Eu me perguntei se eles carregavam o vírus do oeste do Nilo, ou talvez algo pior. Espantei-os. Peguei um chato subindo pela perna da minha calça, dirigindo-se para as minhas bolas; senti orgulho de tê-las salvado. Depois de um tempo, vi Kevin chegar de carro, estacionar e entrar na casa. Vi uma luz ser acesa. Ele não trouxe Tillie consigo, nem parecia ter nada consigo. Estava adiantado também. Pensei em esperar alguns minutos e surpreendê-lo. Olhei o relógio. Eu lhe daria alguns minutos para sentir-se seguro e então o surpreenderia. Claro que, se ele tivesse uma arma, o que com certeza tinha, seria eu o surpreendido. Claro que eu tinha uma também, mas, quando armas entram no jogo, qualquer coisa pode acontecer. Pensei nisso e pensei naquilo e depois pensei que sentia algo gelado na base do meu crânio, e, já que estávamos no fim do verão, mesmo só tendo anoitecido havia pouco, sabia não se tratar de uma brisa fria. Era o cano de uma arma. Não consigo explicar o quanto me senti babaca. Ali estava eu, vigiando-os, e eles haviam me vigiado. Virei-me devagar. Um homem baixo e gordo com um rosto que parecia ter sido usado para prática de tiro ao alvo de mísseis, de tantos buracos, me dava um sorriso que demonstrava precisar de um tratamento dentário de quinze mil dólares. — Eu poderia atirar em você, sabe? — disse ele. — Sim — respondi. — O que vamos fazer é andar até ali e ver Kevin. Levante-se primeiro. Eu me levantei, deixando o cabo de machado sobre o tronco. Ele me deu umas batidinhas com uma mão, encontrou minha pistola e colocou-a em um dos bolsos de suas calças largas. Pegou o cabo de machado com a mão livre e bateu no meu ombro com ele. — Ande até a casa — disse. Percebi que estava envelhecendo. Em qualquer outra época eu estaria preparado. Ou foi o que disse a mim mesmo. Tinha pensado que seria esperto em chegar ali cedo, mas eles haviam colocado alguém para me vigiar; puseram aquele cara-de-crateras-da-lua na mata para esperar e Kevin viera como um bode traiçoeiro. — Há uma estrada atrás da mata aqui, retardado — disse Cratera da Lua. — Eu vim por ela, atravessei a mata, me escondi e esperei. Pensei que poderia precisar fazer uma vigília séria, mas você escolheu um ponto não muito distante de mim. Foi fácil, cara. Kevin disse que achava que você se achava um homem esperto, mas você não é tão esperto assim, é? — Tenho que concordar com isso. Kevin esperava dentro da casa. — Nada de lanchinho nem suco para você, hein? — disse. — Claro que não foi para isso que veio aqui. Não gostei da sua cara desde o começo. — Você não tem espelho em casa? Cratera da Lua bateu na parte de trás das minhas pernas com o cabo de machado com força suficiente para me fazer cair de joelhos. — Suspeitei que você tivesse alguma outra razão para querer me ver. Suspeitei que você pudesse estar procurando Tillie ou Robert. Tenho que dizer que acho que você sabe que Robert está morto. — Você me pegou — respondi. — Sei que ele está morto. E quanto a Tillie? — Está bem, mas não vai continuar assim por muito tempo — disse Kevin. — O Sr. Smith gosta de extrair toda a essência de um produto antes de colocá-lo de lado. Ele a deixa ligadona o suficiente com uma coisa ou outra, e aí pode vendê-la até não sobrar nada para vender, sabe. Então ela ganha uma overdose, fazendo parecer que foi um acidente. Vão achá-la em uma vala em algum lugar com cogumelos crescendo na bunda. — Robert não pareceu ter sofrido um acidente. — Ele provou ser um problema maior. As coisas fugiram do controle. Sabe, ele estava se drogando, ele e a puta. Não gostamos de drogados, a menos que sejam fritos com batatas. Kevin e Cratera da Lua gostaram da piada. Ambos riram. Percebi que não saíam muito. — Ponha-o na cadeira — disse Kevin. Estavam prontos para mim. A cadeira fora colocada no meio do cômodo. Eu tinha uma boa vista da janela quando Kevin saía da frente dela, o que fazia de vez em quando. Eu conseguia ver que ele mentira quanto a experimentar seu próprio produto. Ele tinha um pouco no corpo naquele momento, o que lhe causava contrações musculares. Colocaram-me na cadeira e Cratera da Lua amarrou minhas pernas e meus braços a ela com uma corda, enquanto Kevin segurava a arma de Cratera da Lua apontada para mim. Quando fiquei bem amarrado, Kevin disse: — Agora você vai me dizer o que está planejando. — Você pode ir tomar no meio do seu cu — falei. — Ah, isso não foi legal — disse Kevin. — Jubil, segure a arma. Jubil, vulgo Cratera da Lua, pegou a pistola. Kevin pegou o meu cabo de machado e eu soube que me arrependeria de ter levado aquilo. Ele o impulsionou com força de encontro às minhas canelas. A dor pulou das minhas pernas para a minha espinha e daí até a base do meu cérebro. Por um momento, pensei que ia vomitar e apagar. — Isso deve ter doído — disse Kevin. — Você acha? — murmurei. Não era muito para se dizer, nem era uma boa resposta, mas era alguma coisa, mesmo soando como se viesse de um homem muito pequeno embaixo de um travesseiro. Kevin afastou-se e apoiou o cabo de machado perto da porta da frente. Estendeu a mão para o bolso e pegou um canivete comprido. Abriu-o. — Esta casa foi deixada para mim pela minha avó. Não é grande coisa, mas venho aqui de vez em quando para resolver uns assuntos. E ela tem um valor sentimental para mim, mesmo agora que começou a cair aos pedaços. Sendo esse o caso, o que quero dizer é que não quero ensanguentá-la, não preciso fazer isso. Então, pelo seu bem e pelo meu, você devia falar. — Eu falo e você me deixa ir? — perguntei. — Claro — disse Kevin. — Duvido — declarei. — Está bem, você está certo. Vou matar você. Mas posso fazer isso rápido, cortando sua garganta. É ruim de imaginar, mas acaba rápido. Sangra bem. Acabei tendo de atirar no Robert algumas vezes. Nada muito bom. Ele sentiu dor até a última bala. Mas posso fazer você durar bastante tempo com esta faca aqui. — Então a minha escolha será entre falar e você cortar minha garganta ou não falar e você me cortar um pouco até eu abrir o bico. — É — disse ele. Naquele instante, pela janela, vi a cabeça de Leonard passar. Estaquei. — Então, o que você quer saber? — perguntei. — Eu posso dar algumas respostas, contanto que não envolva problemas de matemática. — Está bem. Primeiro, quem caralho é você? — Eu trabalho para o censo. — Isso vai fazer você ganhar um corte — disse Kevin. — Eu vou ter que tirar uma orelha. — Antes disso, preciso mesmo lhe contar uma coisa. — O que seria? — perguntou Kevin. — O inferno está chegando — afirmei. Naquele momento, a porta foi escancarada, impulsionada para a frente pelo pé de Leonard. Ele avistou o cabo de machado e pegou-o antes que se pudesse dizer: “Nossa, isso é o cabo de um machado?” Leonard exclamou, aproximando-se: — Preto viado e maloqueiro chegando no pedaço. Ele adiantou-se depressa e atingiu os dentes de Cratera da Lua com um golpe do cabo de machado desferido com a mão esquerda, que derrubou o outro no chão e fez a arma voar longe. A luz refletiu o brilho da cabeça raspada de Leonard e dançou em seus olhos e na extensão do cabo de machado novo, que cortou o ar como uma faca quente na manteiga. Quando a madeira encontrou Kevin, ouviu-se um som como o de alguém batendo com um cinto em um sofá de couro, e então voaram tantos dentes e sangue da boca de Kevin que tive certeza de que a casa da vovó ficara arruinada. O sangue espalhou-se na parede e na janela, e os dentes tiniram no chão. Kevin aterrissou de barriga, soltando a faca. Tentou engatinhar até ela, mas Leonard pisou em sua mão e o cabo de machado desceu outra vez. Daquela vez, o som foi mais parecido com alguém cortando o pescoço de um peru com um cutelo. Kevin não se mexeu mais depois daquilo, mas, apenas por precaução, Leonard atingiu-o outra vez. Em seguida, dirigiu-se até Cratera da Lua, que tentava se levantar, e chutou-o na boca. O tratamento dentário de que o homem já precisava antes iria custar muito mais caro agora. Quando Kevin acordou, encontrava-se amarrado à cadeira em que eu estivera. Leonard estava por perto, inclinado sobre o cabo de machado. Eu me agachei à frente de Kevin. Cratera da Lua ainda jazia estirado no chão. Se não estivesse morto ou em coma, provavelmente lá no fundo, em alguma parte de seu ser, desejaria estar. — Bão? — perguntei. — Vá se foder — disse Kevin, mas foi difícil ter certeza se ele dissera aquilo mesmo. Ele cuspia sangue. — Se você sair daqui, e é possível que saia, você pode querer recolher os seus dentes, sem confundi-los com as pedras que ficavam na boca de Jubil. Você pode querer colocá-los em um copo de água e congelá-los. Ouvi dizer que fazem maravilhas com dentes arrancados, hoje em dia. — Quem é você? — perguntou ele. — Meu nome é Hap, e este é meu irmão, Leonard. Mas vocês dois já se conheceram. — Feliz pra caralho em conhecer você — declarou. Levantei-me e me virei para Leonard. — Achei que você não vinha. — Estava a caminho de casa quando você ligou. Comecei a dirigir de volta dois dias atrás, mas estava num ponto sem sinal de telefone. Mata ciliar. Recebi sua mensagem meio tarde. — Mas não tarde demais. Virei-me de volta para Kevin e disse: — Kevin, nós dois precisamos conversar, e preciso receber algumas respostas, e, se eu gostar delas, não vou nem cortar a sua garganta. Eles nos disseram que Tillie fora levada pelo cara da Ópera Gospel, Buster Smith, e que Kevin e Cratera da Lua haviam ajudado a levá-la. Ela estava em um teatro velho, que eu conhecia. Era em Marvel Creek, e quando eu era menor ia assistir a muitos filmes lá. Havia um palco naquele teatro, e uma tela de cinema atrás. Faziam shows infantis e traziam palhaços, malabaristas e entretenimentos especiais. Era horrível e eu sempre ficava feliz quando desciam do palco, apagavam a luz e me deixavam com as baratas e um filme. Leonard não queria deixá-los com o carro e decidiu que não queria foder com o veículo. Queria foder com eles. Eu não gosto desse tipo de coisa, mas, hã, o que há de se fazer? Foram eles que começaram. Leonard colocou ambos no porta-malas do carro dele e eu o segui no meu depois que ele me levou até onde eu o havia deixado. Nós os levamos para a parte baixa do rio e Leonard os tirou de seu porta-malas. Os dois saíram, embora nenhum deles se sentisse bem. Leonard realmente sentara o cacete neles com aquele cabo. — O que vou fazer é quebrar as pernas de vocês dois — disse ele. — Uma de cada. — Não precisa disso, Leonard — falei. — Eu sei. Mas eu quero. — Olha só — disse Kevin. — Ouça o seu amigo. Nós só trabalhamos para aquele retardado. Estamos fora. Esperamos que vocês consigam a garota de volta. — Ah, nós vamos pegá-la de volta, se der — disse Leonard. — Mas prestem atenção: vocês iam matar o meu amigo. Se eu não tivesse aparecido, vocês teriam matado. Então, qual perna? Kevin e Cratera da Lua olharam para mim. — Ele meio que já decidiu — declarei. — E vocês iam me matar. — Mas vamos morrer se nossas pernas forem quebradas — disse Cratera da Lua. — Não sejam tão dramáticos, cacete — disse Leonard. — Vocês ainda poderão se arrastar, talvez até achar um pau pra se apoiar ou sei lá. Sério, não é problema nosso. Qual perna? Ou eu escolho. — Esquerda — disse Kevin. Cratera da Lua não escolheu. — Mas... Antes que Kevin pudesse protestar outra vez, Leonard golpeou com o cabo, que assobiou e atingiu o homem na lateral do joelho, onde ele é mais frágil. Ouvi um som como o de alguém quebrando uma prateleira de bolas de piscina. Kevin gritou e caiu, segurando o joelho. — Um — disse Leonard. Cratera da Lua fugiu num pinote. Eu devia uma a Leonard, então persegui Cratera da Lua, agarrei-o pelo ombro e girei-o, enfiando um cruzado de direita em seu rosto. Ele caiu. Antes que conseguisse se levantar, Leonard já estava lá com o cabo. Acho que Leonard precisou de uns três golpes para acertá-lo em cheio; não me lembro bem. Olhei para o outro lado. Mas acho que foi a perna direita. Deixamos o carro de Leonard no estacionamento de uma igreja, o que nos soou irônico, e seguimos no meu até Marvel Creek. — E se aqueles caras saírem da mata e ligarem? — perguntei. — E avisarem Buster? — Estão a quilômetros do carro deles — disse Leonard. — E a quilômetros de distância de Empresa Nenhuma. Estão com a perna quebrada. Além disso, foi você que não quis que eu os matasse. Por mim, estariam em algum lugar no rio Sabine, com peixes mordiscando seus corpos. — Você é frio, cara — declarei. — Absolutamente — disse Leonard. Pensamos em montar tocaia na Ópera Gospel, mas, quando passamos por lá, havia ação. Uma grande multidão. — Estão pondo esse povo para dentro — disse Leonard. — Que horas são? Nove? Dez? Eu não sabia que Jesus ficava de pé até tão tarde. — Verdade. Ele geralmente dorme cedo e acorda cedo. Peguei minha arma e coloquei-a sob a camisa, nas costas. Deixamos o cabo de machado no banco de trás com suas lembranças. Conforme andávamos, víamos que a multidão crescia. Perguntei para um velho com uma bengala: — O que está acontecendo? — A costumeira Ópera Gospel. Mas hoje tem show de talentos. Vocês não sabiam? — Não — murmurei. — Não sabíamos. — É mais legal que um barril de macacos. Há pessoas que cantam, dançam e fazem comédia. Diversão boa e limpa. — Ele olhou para Leonard. — Você vai poder entrar, filho. Eu lembro de quando sua cor não podia. — Nossa, como os tempos mudaram — disse Leonard. Olhei ao redor e vi uma fila entrando por outra porta, na lateral. — Quem são eles? — perguntei ao velho. — Os talentos. Eles se registram para se apresentar. — Vamos lá, Hap — disse Leonard. Entramos na fila da porta de talentos. — Mais divertido que um barril de macacos e deixam o seu tipo entrar, Leonard — falei. — Ah, eu divia agradecer a uns branquelos de merda por isso. Divia mesmo. Lá dentro havia um homenzinho a uma mesa. Ele usava uma peruca ruim. Perguntou nossos nomes e nós lhe demos nossos primeiros nomes. Leonard disse que faríamos um número de canto. O homenzinho não conseguiu nos achar na lista, é claro. — A gente estava confirmado — menti. — Ligamos antes e tudo mais. Eles acham que somos os melhores lá em Overton. — Overton é tão pequena que, se você atirar uma pedra, ela a atravessa de ponta a ponta — disse o homem. — É, mas ainda somos grandes lá — insisti. Ele pensou a respeito por um momento e falou: — Olhem aqui. Uns caras que tocam gaita de foles cancelaram. A lavanderia perdeu os kilts deles ou algo assim. Eu lhes darei o lugar deles. Vocês não foram registrados, mas vai dar certo. Então vocês cantam? — Como a porra de um pássaro — disse Leonard. O homem olhou-o e sorriu devagar. Jesus parecia não estar sempre em sua casa. Ele gesticulou para que entrássemos e foi o que fizemos. — Cantores? — murmurei. — Os melhores — disse Leonard. Alguém nos orientou sobre o caminho para a coxia. Havia muita gente lá. Um velho vestia o que parecia ser um uniforme de sargento, tinha barriga de chope, era careca e dava a impressão de que devia estar entubado recebendo oxigênio. Trazia um boneco de ventríloquo consigo, vestido de soldado, com boné e tudo. Preciso contar que odeio muito alguns bonecos de ventríloquo. Quando eu era criança, tarde da noite peguei um filme velho chamado Calada da noite, que tinha várias histórias. Uma delas era sobre um homem e um boneco de ventríloquo que assume sua vida. Aquilo me assustou pra cacete. Se vejo um bloco de madeira que pode ser esculpido para virar um boneco daqueles, fico nervoso. E aquele boneco parecia ter sido atacado por ratos e por alguém com um picador de gelo. — Há quanto tempo você faz isso? — indaguei. Ele arquejou antes de responder: — Eu costumava ganhar dinheiro de verdade com isso. Ninguém me contrata hoje em dia, exceto para esses shows de talentos e algumas festas infantis. Não sou tão bom quanto costumava ser. Eles têm a merda da internet hoje. Ah, meninos, vocês não vão me denunciar, vão? Eles gostam que a gente tome cuidado com o jeito de falar. — Não vamos falar porra nenhuma — disse Leonard. O velho riu e se inclinou para perto. — Nenhum de vocês dois tem uma bebida, tem? Admitimos que não. — Tudo bem, então. Só estava me perguntando. — Sacudiu o boneco um pouco, fazendo a poeira levantar. — O soldado Johnson está ficando desgastado. Minha esposa esfaqueou-o uma vez, e usou-o para bater na minha cabeça. Isso causou alguns estragos nele e em mim. Eu peido, apago e acordo usando um tutu. — Ele riu de sua piada e continuou: — Não tenho dinheiro para arrumá-lo. Ajo como se a pálpebra caída fosse só uma parte do número. Ela acrescenta personalidade. — Com certeza — concordei. — Você vai matá-los. Eu esperava que ele não se matasse. Estava com o rosto vermelho e a respiração pesada e parecia estar prestes a soltar o maior pum a qualquer momento. Talvez aquela conversa sobre peidar e desmaiar não fosse só uma brincadeira. Ficamos todos em fila, olhando para o palco. Um número de dança acontecia ali. O som da banda parecia o de vacas morrendo. Os dançarinos moviam-se como se tivessem pernas de madeira. Em seguida, chegou a vez de um jovem com nariz em forma de bico, tocando um violino tão mal que soava como se ele estivesse serrando uma tora de madeira. Era o tipo de som de fazer contrair o cu. — As irmãs vão vencer essa coisa — disse o velho. — Eu não as vi ainda, mas elas provavelmente vão aparecer logo. Aquelas vadias de boceta seca. Elas participam toda semana e ganham os quinhentos dólares. São aqueles hinos malditos. Fazem Jesus entrar nas pessoas, e elas sentem que precisam votar nelas. Merda, é a minha vez. O velho agitou aquele boneco horroroso e pegou um banquinho no caminho para o palco. Seu número era tão doloroso que pensei em usar a corda da cortina para me enforcar, mas ao mesmo tempo admirei aquele bastardo velho. O homem não desistia; arquejava e tentava elevar a voz, mas ao final do ato o boneco parecia mais saudável do que ele. Voltou com o boneco e o banquinho, em que se sentou. — Tentei alcançar um tom alto lá, quando o soldado cantou Boogie Woogie Bugle Boy, e quase me caguei. Acho que uma das minhas costelas se deslocou. — Você foi bem — falei. — Eu ia bem cerca de cinquenta anos atrás, quando era uma manhã de primavera e eu tinha acabado de comer uma bunda. Eu ia bem naquela época. Pelo menos é como gosto de me lembrar. Mas poderia ter sido uma tarde quente no fim do verão e poderia ter comido uma vaca no pasto. — Sente aí e descanse — falei. — Você está certo. Tem certeza de que não tem uma bebida? — Tenho — respondi. Outro grupo de dança se apresentava no palco, e um cara com uns pinos de boliche com os quais ia fazer malabarismo era o próximo da fila. Leonard e eu olhamos ao redor, tentando assimilar o lugar. Não parecia uma prisão onde se manteria uma prostituta, ou, naquele caso, um local onde ela era obrigada a dar de graça até ser exaurida. Não parecia um lugar onde se vendiam drogas. Parecia um lugar de entretenimento ruim. Claro que isso o tornava um bom esconderijo, mas não fiquei convencido. Notei que os candidatos que acabavam seus números iam sendo encaminhados para determinado local, e que havia dois caras de cada lado de uma escadaria escura. Não pareciam diáconos da igreja, mas decidi chamá-los assim na minha cabeça. Deixei Leonard e caminhei até a escadaria, olhando para cima. — O que tem lá em cima? — perguntei. Um dos homens deu um passo à frente e respondeu: — Isso é particular, senhor. — Tem mais um andar inteiro lá em cima — comentei quando cheguei perto de Leonard. — Tem uma escada do outro lado do palco também — disse ele. — Você pode vê-la daqui. E também tem bloqueios de cada lado. Olhei. Com certeza. Mais dois caras. Se os dois próximos de nós não eram diáconos da igreja, aqueles dois não faziam parte do coral. O andar de cima poderia ser apenas um depósito de livros de hinos, mas eu duvidava. — Buster não trabalha com os manos — disse Leonard. — Só caras brancos. — Parece que, para eles, não faz muito tempo que o seu tipo não podia entrar, e pode ser que eles gostem das coisas assim. — Isso não é verdade — declarou Leonard. — Eles entravam aqui, e você sabe. — Eles faziam trabalho de zelador, e costumavam subir as escadas dos fundos e sentar no mezanino. — Dinheiro de preto era tão bom quanto qualquer outro — afirmou Leonard. — Eu sei. Sentei no mezanino uma vez e cuspi na cabeça de um moleque branco. — Você não fez isso — falei. — Não, mas de vez em quando gosto de sonhar. Cochichávamos um plano de ação quando, de repente, o camaradinha que nos inscrevera se aproximou e disse: — As Meninas de Mel estão doentes. — Quem? — perguntei. — As cantoras gospel de que lhes falei — explicou o velho ventríloquo, que havia se aproximado. — Suas fraldas geriátricas provavelmente ficaram cheias e elas não conseguiram chegar. Ou ouviram aquela jovem vir e cantar e foram embora. Sei que estiveram aqui. Eu as vi, aquelas cuzonas convencidas. — Já basta — disse o homenzinho. — Desculpe — disse o ventríloquo, voltando cambaleante para seu banquinho. Eu tinha outras coisas na cabeça, e sequer notei a moça. Mas, no fundo da minha mente, eu meio que me lembrava dela fazendo um número de Patsy Cline, e nada mal. — As Irmãs de Mel disseram que estão doentes — disse o homenzinho. — As duas? — perguntou Leonard. — Foi de repente, então vocês dois são os próximos. — Ah — respondi. Leonard segurou meu cotovelo. — Vamos, eu ainda me lembro de The Old Rugged Cross. — Você está me zoando — falei. — Nós vamos mesmo lá? — Eu canto no chuveiro — disse Leonard. — E faço isso bem. — Ah, inferno! Bem, fomos até lá, e eu conhecia a velha canção também. Sou ateu, mas às vezes gosto de uma música gospel. Não tínhamos música nenhuma, mas havia a banda da casa, e eles conheciam a melodia mais ou menos, embora eu não me lembrasse do solo de tuba. Começamos junto com ele. Leonard era bom, na verdade; cantava muito bem. Eu meio que harmonizava quando ele erguia uma mão para mim, mas depois de alguns versos esqueci a letra e comecei a cantar coisas sem sentido. Uma senhora cadeirante na primeira fileira bradou: — Cai fora. Leonard terminou enquanto eu estalava os dedos e tentava parecer calmo. Acho que, se eu estivesse usando óculos escuros, poderia ter conseguido fazer o número. Quando encerramos, ou meio que desistimos, a plateia ficou feliz em nos ver partir. Alguém até jogou um copo de papel amassado em mim. O filho da puta errou. Quando saímos do outro lado, Leonard disse: — Cacete, Hap, você fodeu tudo. Nós poderíamos ter ganhado o dinheiro do prêmio. Ou eu poderia. — Não imaginei a gente como um dueto, já que nunca cantamos juntos nem uma vez. Eu não tinha a menor intenção de subir lá. — Eu sempre quis fazer isso. — Você se saiu bem, mas não pense nisso como um segundo emprego. — Quanto a você, não pense nisso de jeito nenhum — disse Leonard. — Agora vamos ver se conseguimos achar Tillie. — Se estiver viva. — Se estiver viva, eles vão pagar por isso. Se estiver morta, eles vão pagar por isso com juros. Eu nem sequer gostava de Tillie, mas com certeza gostava de Brett, que chamava a filha de galho envergado. Ela dizia: “Hap, ela é um galho envergado, mas não está partida. Ela pode suportar uma tempestade e sair inteira do outro lado.” Tillie estava bem paradinha na tempestade, até onde eu sabia, mas, se a informação que tínhamos fosse correta, ela não merecia aquilo; era algo ainda pior do que deveria acontecer aos políticos. Fomos até a escadaria do lado em que havíamos saído, perto dos meninos do coral. Um homem ali nos apontou a saída. Era um cara gordo com um terno esporte roxo desbotado, velho o bastante para pertencer a um museu. — Aquilo foi ruim, rapazes. Ruim mesmo. Nós o ignoramos e nos dirigimos até a escadaria. — Não por aí — disse ele, segurando meu braço. Eu sacudi para me soltar, e continuei andando. Sentia que quase ninguém ali tinha ideia do que se passava no andar de cima, nem que o homem que administrava a Ópera Gospel era quase tão respeitável e bondoso quanto a extremidade útil de uma machadinha. — Aqueles caras não brincam — disse o homem que segurara o meu braço, referindo-se aos dois rapazes ao lado das escadas. Eles se adiantaram, um em minha direção e outro na de Leonard. O corista ao meu lado disse: — Não vá para esse lado. Eu o chutei no saco e ele se curvou um pouco; atingi-o com um gancho de direita. Ele bateu na parede e afastou-se dela furioso. Eu o golpeei de novo com um direto de direita no maxilar. Ele caiu sobre um joelho e tentou puxar uma pistola de baixo do casaco. Peguei a minha e golpeei sua cabeça com ela. Ele caiu de quatro, e golpeei-o de novo. Ele meio que dobrou os cotovelos, como se tivesse tentado fazer uma flexão e falhado, e desabou no chão. Foi quando notei que minha perna doía muito no ponto em que Kevin a atingira com o cabo de machado. Percebi isso porque ia chutar o corista mais uma vez e reconsiderei. Lancei um olhar a Leonard. Seu atacante já se encontrava inconsciente ao pé da escada. Acho que ele o apagou com um bom soco. Virei o meu oponente de barriga para cima e peguei sua arma, ficando com uma em cada mão. Subi as escadas atrás de Leonard. Ouvi risadas vindas do palco. Alguém finalmente obtivera sucesso em alguma coisa. Talvez numa piada. Quanto alcancei o patamar, vi que Leonard sacara a automática que tomara do homem que enfrentara, trazendo-a preparada. Virei-me e olhei para baixo, me perguntando se os diáconos do outro lado sabiam o que estávamos tramando. Se não soubessem, logo descobririam. Imaginei que o homem que segurara meu braço lhes diria. Ele podia não ter conhecimento do que realmente se passava ali, mas sabia para quem trabalhava. Claro, se estivéssemos errados e no alto das escadas não ficasse o que esperávamos, mas sim um salão de bingo, teríamos muito que explicar. Aliás, nós poderíamos ter muito a explicar de qualquer jeito. Os diáconos descobriram. Vieram correndo pelo palco no meio de um número de dança com um homem e uma mulher numa roupa de cavalo. O homem era a parte traseira, a bunda do cavalo. Eu sabia disso porque desci as escadas de volta quando ouvi a correria, o que me deu uma visão do palco. Os diáconos derrubaram o cavalo e o homem e a mulher foram arrancados do traje. O casal disse algumas palavras que não se espera ouvir em uma Ópera Gospel. Deus provavelmente fez uma imensa marca negra no livro deles naquele momento. Os diáconos não tinham armas nas mãos e quase passaram por cima de mim, de tão rápido que vinham. Quando viram meu revólver e também a pistola que eu havia arrancado de um dos coristas, eles pararam de súbito. Congelaram como cubos de gelo. — Vocês querem mesmo acabar mortos? — perguntei. Um deles balançou a cabeça e recomeçou a atravessar o palco correndo, passando pelo cavalo que acabara de ser remontado. Uma trombeta metálica e um piano tocavam em algum lugar. O cavalo dançava. Aquela maldita tuba tocava umas notas aleatórias; aquele cara tinha que ser derrubado junto com a tuba. O outro diácono, aquele que não correu, ergueu as mãos, e disse: — Você precisa pelo menos pegar a minha arma, para eu poder dizer que estava desarmado. — Sem problemas — falei. — Mas saque a arma devagar. Ele assim fez, abaixou-se, colocou-a no chão e recuou. — Sem rancor — disse ele. — Que bom, porque estou com um humor de merda — repliquei. Ele recuou e atravessou o palco, caminhando depressa. O casal da fantasia de cavalo acabara de sair. A mulher tirou a cabeça de cavalo e jogou-a na plateia. Desejei que ela atingisse a velha cadeirante que me dissera para cair fora. Peguei a arma dele, uma nove milímetros, e subi as escadas outra vez. Leonard aguardava. — Parou para ir ao banheiro? — perguntou. — Estava desarmando um cavalheiro. Leonard apontou com a arma. — Tem uma porta. Devemos ver o que está do outro lado? A moça ou o tigre? — Acho que podemos achar os dois — respondi. Seguimos depressa pelo corredor e Leonard deu um chute na porta. Ela abriu-se, frouxa, pendendo de uma dobradiça, depois se soltou e caiu. Era um banheiro e estava vazio. — Estavam montando guarda a um banheiro? Sério? — resmungou Leonard. Provavelmente havia um modo de atravessar, mas não o vimos logo de cara, e estávamos com um pouco de pressa. Colocamos as armas no cinto, sob a camisa, e descemos as escadas atrás do palco. O pessoal da Ópera Gospel não havia parado. A ação, tal como era, ainda acontecia. Era um tipo de número de comédia. Quando alcançamos o outro lado, passamos pelo homem e a mulher que haviam usado a fantasia de cavalo. Eles nos olharam de cara feia. — Vocês dois faziam parte daquilo? — disse a mulher. — Não, senhora — respondi, ainda andando. Subimos as escadas em que os diáconos haviam estado, sacando nossas armas. Havia duas portas no corredor. — Fico com uma e você com a outra — disse Leonard. Escolhemos uma porta cada um, meneamos a cabeças um para o outro e sentamos o pé nelas. A minha caiu completamente das dobradiças, velha como era. Ouvi Leonard ainda chutando a dele. Havia uma cama no quarto e uma luzinha à direita, e uma fileira de quatro cadeiras ocupadas daquele lado, e — que eu morra se estiver mentindo — o mais próximo da luz lia um jornal. Era como se estivessem em um barbeiro esperando sua vez. Tillie encontrava-se na cama, e um homem pelado em cima dela, com a bunda pelada quicando como uma bola de basquete. Tillie não estava de verdade ali, mas em algum outro lugar. Seus olhos estavam abertos, mas bem que poderiam estar fechados. Tinha uma aparência esquelética. Meu palpite é que não era alimentada fazia um tempo, exceto pelos conteúdos de uma agulha. Parecia-se muito com Brett, se Brett fosse sobrevivente de um campo de concentração, e isso me perturbou ainda mais. Os quatro homens levantaram-se. Todos estavam vestidos, embora um houvesse tirado os sapatos e os colocado embaixo da cadeira. Um deles vestia um uniforme de polícia e pousara a mão na pistola em seu cinto. Devia ter saído para uma trepada e um pouco de pó durante seu turno. Àquela altura, Leonard entrara pela porta. O policial puxou a pistola e atirei nele. Atingi-o no braço e ele caiu no chão e começou a rodar como o Curly dos Três Patetas. Gritou: — Não atire mais em mim, não atire mais em mim! Havia sangue por todo lado. Os outros três homens fizeram menção de correr, mas Leonard recorreu a um vocabulário chulo que tinha a ver com suas mães. Eles se sentaram novamente, como se ainda aguardassem sua vez. Malditas sejam as mães deles. — Onde está o filho da puta? O Buster? — perguntei. Ninguém disse nada. — Ele fez uma pergunta — disse Leonard. — Vocês não respondem, nós o encontramos e arrancamos todos os dedos dos seus pés a tiros. E depois seu pau. Àquela altura, o homem na cama saíra de cima de Tillie e estava parado ao lado dela com uma mão sobre seu passarinho. — Se eu tivesse um pescoço de peru que nem esse, também o manteria coberto — disse Leonard. — Acontece que sou especialista em paus, e esse aí é feio. — Ele conhece paus mesmo — falei. O homem com uniforme de policial parara de girar e enfiara a cabeça embaixo de uma cadeira, dizendo: — Fui atingido. Fui atingido. — Pra cacete — falei. Aproximei-me e vi que Tillie respirava pesadamente. Puxei o cobertor do pé da cama e a cobri. Olhei para o homem nu que tinha as mãos sobre sua genitália e fiquei em fúria. Não sei o que aconteceu comigo, mas simplesmente não consegui suportar pensar que pessoas como aquela existiam, que podiam sentar em cadeiras e aguardar sua vez de comer uma menina drogada. Chutei o saco do homem nu e bati em sua cabeça com a pistola, e depois fui atrás dos outros três, mas não antes de chutar o policial no chão uma vez e botar sua arma pra baixo da cama. Comecei a bater naqueles três caras com as pistolas, uma em cada mão. Eu batia tão rápido que parecia Shiva. Eles tentaram correr dali, mas, a cada vez que o faziam, Leonard os chutava de volta, e eu continuava o trabalho. Eu me senti errado, selvagem. Eu me senti horrível e, ainda assim, me senti bem. Não levou muito tempo até todos estarem sangrando. Dois jaziam no chão. Um caíra de volta em sua cadeira. O homem nu no chão não se movia. Jazia de lado e vomitara por toda parte, e o ar estava espesso com o fedor do vômito. — Está bem — disse Leonard. Ele adiantou-se e colocou a arma no nariz do homem descalço. Fora ele que caíra sentado na cadeira. — Onde está Buster? O homem não respondeu. Não precisava. Uma porta abriu-se do outro lado e dois homens entraram. Um trazia uma espingarda. Ele se abaixou com ela, mas já estávamos em movimento. Caí no chão atrás da cama e Leonard saltou pela porta que derrubara com um chute, aterrissando no corredor. De baixo da cama, consegui ver as pernas do homem, e atirei nelas três vezes em rápida sucessão. Atingi-o em algum lugar, porque ele ganiu e caiu. Atirei nele de novo, dessa vez no alto da cabeça, estourando-a como uma grande noz. O outro homem também trazia uma espingarda e a disparara durante todo aquele tempo Até então, atingira a cama, matara o homem descalço na cadeira atrás de mim e abrira uns buracos na parede. De baixo da cama vi os pés de Leonard ao passarem pela outra porta, a que eu abrira com um chute, e então ele avançou sobre aquele bastardo. Fiquei em pé e girei, tropeçando no policial que tinha começado, sem eu ver, a se arrastar na direção da porta aberta. — Fique — mandei, como se falasse com um cachorro. Ele parou de rastejar. Quando me virei para Leonard, ele já derrubara o homem. De algum modo, o cara atirara no próprio pé. Chutei sua cabeça, só para ele saber que eu estava na jogada, e Leonard estendeu a mão e pegou a pistola do homem. Considerando a mira do cara, provavelmente era melhor tê-lo deixado com ela. No momento oportuno ele teria atirado em si mesmo de novo, talvez na cabeça. — Você fica — falei a Leonard. — Está bem, mas, se ouvir muito tiroteio, eu vou. Logo depois de matar esse povo. Atravessei a porta pela qual os dois tinham entrado e foi então que ouvi a gritaria no auditório. O tiroteio agitara os espectadores e provavelmente era muito mais empolgante do que qualquer coisa que haviam visto naquela noite. Quando entrei no outro quarto, vi que era muito bem equipado para um prédio velho. Muita mobília moderna, incluindo um sofá grande, que fora afastado da parede, e pude ver pés projetando-se de trás. Caminhei até lá, coloquei minhas armas sobre a mesa de café, agarrei o homem pelos tornozelos e puxei-o de cabeça para baixo. Ele tentou se agarrar no chão, mas isso só o fez arrastar suas unhas pelo piso. Era um homem comprido e magro, com um casaco esporte xadrez e cabelo cor de graxa de sapato preto. — Você é Buster Smith? — perguntei. — Não — respondeu. Tirei sua carteira do bolso de trás e olhei sua licença de motorista. — É, sim — falei. — Aposto que você era sempre pego quando brincava de esconde- esconde na sua época de criança. Ele apoiou-se sobre um joelho. — Era, sim. Peguei minhas armas e disse: — Se tentar algo, vou atirar em você, depois Leonard vai atirar em todos os outros, e vamos ter problemas para explicar as coisas. Mas você estará morto. Não fomos para a cadeia. Essa é a parte importante. Deixe-me contar por quê. Quando tudo acabou e todos estavam presos lá dentro, incluindo eu e Leonard, levaram-nos para o chefe de polícia. Quer dizer, depois dos interrogatórios, buscas, da luva de borracha enfiada no rabo, só para o caso de estarmos escondendo granadas. Era um cara de boa aparência, com o cabelo preto cortado bem curto e uma orelha que sobressaía mais que a outra, como se acenasse para ser sua vez. Ele sentou-se atrás de uma grande mesa de mogno, sobre a qual havia uma plaquinha em que se lia: “Chefe de Polícia”. — Ora, ora, Hap Collins — disse ele. Eu o reconheci. Um pouco mais velho. Ainda em boa forma. James Dell. Havíamos estudado juntos na escola. — Faz um tempo — disse ele. — O que mais lembro a seu respeito é que não gosto de você. — É um clube grande — disse Leonard. — Hap tem até uma newsletter. — Eu e Jim saímos com a mesma moça — falei. — Não ao mesmo tempo — disse Jim. — Ele saiu com ela por último — expliquei. — Isso mesmo. E me casei com ela. — Então você venceu — declarei. — É o modo como gosto de ver — disse James. — Vocês, meninos, fizeram um inferno. E atiraram em pessoas. E surraram pessoas. E, Hap, você matou um cara. Eu também ouvi dizer que há dois rapazes com as pernas quebradas em Empresa Nenhuma. Eles se entregaram para o xerife de lá. — Cara legal — falei. — Um dos homens em que você atirou era um policial — disse James. — Eu sei. Estava esperando na fila para estuprar uma jovem. Como ela está, aliás? — No hospital. Em situação delicada por um tempo. Mas ela sobreviverá. Aparentemente está acostumada com drogas, então talvez tivesse alguma tolerância. Faz dias que não come. Buster Smith, nós conversamos com ele. Ele desmoronou como um biscoito fresco. Só era durão enquanto seu dinheiro trabalhava por ele. Aliás, aquele policial era o chefe de polícia. — Ah — disse Leonard. — Então o que você é? — O novo chefe de polícia. E também devo mencionar que o prefeito foi atingido por uma bala perdida e está tão morto quanto um fulano velho pode estar. — Prefeito. Chefe de polícia. Tivemos uma noite e tanto — falei. Para encurtar essa parte, tivemos que ficar na cadeia até nosso amigo Marvin Hanson conseguir um advogado para nós, e depois saímos, e ficamos livres das acusações, apesar do fato de termos caçado o bastardo e causado um belo fuzuê. O antigo chefe de polícia morrera pelas nossas mãos, e o prefeito encontrava-se na lista de falecidos também, por causa de uma bala perdida, e os outros que estavam na fila de cadeiras eram todos cidadãos proeminentes. Era melhor pegar leve conosco, deixá-los cobrirem sua sujeira a seu próprio modo. A coisa fora simplesmente o seguinte: o crime contra Tillie fora tão terrível que nos deixaram escapar sob a alegação de legítima defesa. Raios, afinal de contas, estamos no Texas. Brett e eu fomos para a cama e ela ficou deitada na dobra do meu braço. — Tillie vai receber alta amanhã — disse ela. Ela permanecera no hospital por três meses. Estivera em mau estado. Eu tinha de admitir uma coisa em relação à garota: era durona como um bife solado de ontem. — Tenho que ir buscá-la. — Está bem — respondi. — Eu sei que você não gosta dela. — Correto. — Você não precisava fazer o que fez. — Precisava, sim. — Por mim? — Por você e por ela. — Mas você não gosta dela. — Eu não gosto de muitas coisas — falei. — Mas você a ama. Você acha que ela é um galho envergado, e talvez esteja certa. Ninguém merece aquilo. — Mas ela atrai essas coisas, não? — É — respondi. — Atrai. Não acredito que ela vá mudar algum dia. E, se não mudar, logo vai acabar morta. Ela escolhe homens como patos escolhem insetos: aleatoriamente. — Eu sei. Tentei ser uma boa mãe. — Eu sei disso também, então não comece a dizer o quanto você falhou. Você fez o que podia. — Só que eu taquei fogo na cabeça do pai dela — disse Brett. — Sim — concordei. — Mas ele mereceu. — Mereceu mesmo, sabe? — Nunca duvidei. — Eu amo você, Hap. — E eu amo você, Brett. — Quer perder cinco minutos da sua vida do jeito difícil? — perguntou. Eu ri. — Isso não foi gentil. Ela riu, rolou na cama e apagou a luz. E então foi bem boazinha. 

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