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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SD 95

C A P Í T U L O 6


"Antes de falar sobre isso", disse Carpathia, procurando ganhar tempo, uma péssima caracterıśtica de sua personalidade que sempre irritou Buck, "deixe-me pensar um pouco. Você se lembra de quando eu lhe assegurei que poderia livrá-lo de um problema?" Será que Buck se lembrava? Até o dia dos assassinatos, aquele tinha sido seu olhar mais assustado a Carpathia. O informante de Buck, um galés colega dos tempos de faculdade, morreu depois de aproximar-se muito de um esquema internacional de transações bancárias envolvendo seu chefe, Joshua Todd-Cothran, presidente da Bolsa de Valores de Londres. Buck voara para a Inglaterra a ϐim de fazer uma investigação junto com um amigo, agente da Scotland Yard. Quase morreu quando o agente foi exterminado por uma bomba deixada no carro. Buck concluiu que o suicıd́ io de seu amigo galés tinha sido, na verdade, um homicıd́ io. Diante disso, precisou fugir da Inglaterra usando um nome falso. Quando regressou a Nova York, o próprio Nicolae Carpathia prometeu-lhe que tomaria conta do assunto, se ToddCothran estivesse envolvido em qualquer atividade ilıć ita. Pouco tempo depois, Todd-Cothran morreu pelas mãos de Carpathia diante dos olhos de Buck em um duplo assassinato do qual apenas Buck parecia recordar. "Eu me lembro", disse Buck categoricamente. "Deixei claro que não toleraria falsidade ou desonestidade em minha administração na ONU. E a situação de Todd-Cothran resolveu-se sozinha, não foi?” Resolveu-se sozinha? Buck permaneceu em silêncio. "Você acredita em sorte, Sr. Williams?" "Não." "Você não acredita em sorte para aqueles que agem corretamente?" "Não." "Eu acredito. Sempre tive sorte. Os fanfarrões e até mesmo os criminosos têm sorte uma vez na vida. Porém, geralmente, quanto melhor uma pessoa executa seu trabalho, mais sorte parece ter. Você está entendendo?” "Não." "Deixe-me simpliϐicar. Vocêcorreu grande perigo. Viu pessoas morrerem ao seu redor. Eu lhe disse que tomaria conta do assunto, apesar de não ter nada a ver com aquilo. Confesso que quando lhe assegurei com tanta ênfase que o livraria de problemas, não estava certo de como faria isso. Por não ser uma pessoa religiosa, devo dizer que estive acompanhado de um bom carma. Você não concorda? "Para ser franco, não tenho a menor idéia do que o senhor está falando." "E está curioso para saber por que gosto tanto de você?" Carpathia deu um largo sorriso. "Vocêé a pessoa de que preciso! O que estou dizendo é que vocêe eu temos um problema. Você estava na mira de alguém e eu tive duas pessoas de minha conϐiança que se envolveram em graves crimes. Ao matar Todd-Cothran e em seguida suicidar-se, meu velho amigo Jonathan Stonagal resolveu os problemas que nós dois tıń hamos. Este é o bom carma, se é que entendo meus amigos orientais." "Então, quando o senhor diz que lamenta a morte de seus amigos, na verdade está feliz porque ambos estão mortos." Carpathia endireitou-se na cadeira, parecendo estar impressionado. "Exatamente. Feliz por você. Lamento a morte deles. Eram meus velhos amigos e conselheiros de conϐiança, até mesmo mentores. Mas quando procederam mal, eu tinha de fazer algo a respeito. Se tivesse feito, não teria cometido erro. Mas Jonathan fez isso por mim." "Posso imaginar", disse Buck. Carpathia ϐixou atentamente os olhos em Buck como se quisesse ler seus pensamentos. "Estou sempre me surpreendendo", prosseguiu Carpathia, "com a velocidade com que as coisas mudam." "Não posso contestar isso." "Há menos de um mês eu era senador da Romênia. No minuto seguinte, fui presidente daquele paıś e uma hora depois, passei a ser secretário-geral da Organização das Nações Unidas.” "Buck sorriu diante da hipérbole de Carpathia, mas mesmo assim, sua ascensão ao poder tinha sido muito rápida. O sorriso de Buck desapareceu quando Carpathia complementou: "EƵ quase o suficiente para fazer um ateu acreditarem Deus." "Mas o senhor atribui o sucesso a um bom carma", disse Buck. "Francamente", disse Carpathia, "isso me dá uma lição de humildade. De certa maneira esse parece ter sido meu destino, mas nunca sonhei com tal coisa, nem imaginei e muito menos planejei. Não procurei ocupar nenhum cargo público desde que me candidatei a senador da Romênia, e mesmo assim cheguei até onde estou. Não posso fazer nada a não ser dedicar-me de corpo e alma e esperar que seja merecedor da confiança que foi depositada em mim." Um mês antes, Buck teria amaldiçoado aquele homem em voz alta. Perguntou a si mesmo se demonstrou essa reação. Aparentemente não. "Buck", prosseguiu Carpathia, "preciso de você. E desta vez não vou aceitar um não como resposta." Rayford desligou o telefone do carro depois de falar com Bruce Barnes. Rayford tinha perguntado a Bruce se poderia chegar um pouco antes do inıć io da reunião daquela noite para mostrar-lhe algo, mas não contou o que era. Pegou o bilhete de Hattie no bolso da camisa e abriu-o diante do volante. O que aquilo signiϐicava? Como Hattie, ou melhor, o chefe dela, sabia onde localizá-lo? O telefone do carro tocou. Rayford apertou um botão e pegou o fone embutido no espelho retrovisor. "Ray Steele", ele disse. "Papai, você estava usando o telefone?" "Sim, por quê?" "Earl está tentando falar com você." "O que houve?" "Não sei. Parece ser assunto sério. Eu lhe disse que você estava a caminho de casa e ele ϐicou surpreso. Resmungou dizendo que ninguém o mantém informado sobre nada. Pensou que você voltaria de Dallas mais tarde e..." "Eu também pensei." "De qualquer forma, ele tinha esperança de encontrá-lo em O'Hare antes de você sair de lá." "Vou ligar para ele. Vejo você mais tarde. Vou sair de casa um pouco mais cedo para conversar com Bruce. Você poderá ir comigo e aguardar na ante-sala ou, então, iremos com dois carros." "Está bem, papai. Não sei se quero aguardar na ante-sala e ter de encarar Buck. Acho que não. Vá na frente, papai. Chegarei um pouco depois." "Oh, Chloe." "Não comece, papai." Buck sentiu-se confiante. Curioso, mas confiante. Certamente queria ouvir o que Carpathia tinha em mente, mas pareceu que aquele homem ϐicou mais impressionado quando Buck usou de franqueza. Buck não estava preparado para dizer tudo o que sabia e o que de fato pensava, e provavelmente não faria isso, mas sentiu que devia falar, para seu próprio bem. "Talvez eu não devesse ter vindo sem saber o que o senhor desejava", disse Buck. "E quase não vim. Passei um bom tempo dando explicações a Steve." "Ora, vamos falar com franqueza e seriedade", disse Carpathia. "Sou diplomata e sou sincero. Agora você já me conhece o suϐiciente para saber disso." Ele fez uma pausa como se estivesse aguardando uma conϐirmação. Buck nem sequer assentiu com a cabeça. "Vamos, vamos. Vocênão se desculpou nem explicou o motivo de ter feito pouco caso de meu convite, e mesmo assim não guardo nenhum rancor. Você não pode desapontar-me novamente." "Não posso? O que me aconteceria?" "Talvez teria de explicar-se novamente com Stanton Bailey, e você seria rebaixado ainda mais. Ou demitido. De qualquer maneira, seria uma lástima. Não sou ingênuo, Buck. Conheço a origem de seu apelido [potro], e este é um dos motivos por que o admiro tanto. Mas você não pode continuar a me jogar no chão. Não que eu me considere uma pessoa especial, mas o mundo e os meios de comunicação me consideram. As pessoas que me desprezam correm perigo." "Então devo ter medo do senhor, e é por isso que devo aceitar qualquer papel que venha a me oferecer?" "Oh, não! Medo de fazer pouco caso de mim, sim, mas só pelos motivos óbvios e práticos que acabei de expor. Mas esse medo devia motivá-lo apenas a estar presente quando peço e quando tenho uma proposta para você. O medo nunca deverá ser o motivo principal para você decidir se deve trabalhar comigo. Não é necessário impor medo para persuadi-lo." Buck desejava perguntar o que seria necessário, mas estava claro que Nicolae aguardava essa pergunta, portando não disse nada. "Qual é mesmo a antiga expressão que vocês, americanos, gostam muito de usar? 'Uma oferta irrecusável'? É isso o que tenho para lhe oferecer." "Rayford, detesto agir assim com você, mas precisamos conversar pessoalmente hoje à tarde." "Earl, já estou a caminho de casa." "Lamento muito. Eu não faria isso se não fosse importante.” "O que houve?" "Se eu pudesse falar por telefone, não estaria insistindo para uma conversa pessoal, certo?" "Você quer que eu dê meia-volta imediatamente?" "Sim, e lamento muito." "Existem leis e existem regras", Carpathia estava dizendo. "Leis às quais obedeço. Regras que não me importo de desprezar, se puder justiϐicá-las. Por exemplo, em seu paıś não é permitido levar lanches a um campo esportivo. A administração quer arrecadar sozinha todo o dinheiro da concessão. OƵtimo. Entendo por que essas regras são estabelecidas e, se eu fosse o proprietário, provavelmente tentaria fazer com que fossem cumpridas. Mas não consideraria crime o fato de entrar no campo com meu lanche escondido. Você me entende?" "Acho que sim." "Há uma regra que é pertinente aos chefes de estado e aos órgãos oϐiciais, como a Organização das Nações Unidas. Entendo que somente em um regime repressivo ditatorial o líder tenha domínio ou interesse financeiro na divulgação de uma notícia importante pelos meios de comunicação." "Concordo plenamente." "Mas é uma lei?" "Nos Estados Unidos, sim." "E na esfera internacional?" "Não existe uniformidade." "Aí está o ponto." Carpathia queria induzir Buck a perguntar aonde ele queria chegar, mas não obteve sucesso. "Vocês gostam muito de usar a expressão a verdade é que", disse Nicolae. "Já ouvi você usá-la. Sei o que significa. A verdade aqui é que vou adquirir os principais órgãos de comunicação e quero que você faça parte." "Parte do quê?" "Parte do corpo administrativo. Serei o único proprietário dos grandes jornais do mundo, das redes de TV e dos serviços de comunicação. Vocêpoderá dirigir para mim qualquer um que escolher." "O secretário-geral da ONU proprietário dos principais órgãos de comunicação? Como o senhor explicaria isso?" "Se as leis precisarem ser mudadas, elas mudarão. A época é mais do que apropriada para exercer influência positiva nos meios de comunicação, Buck. Você não concorda?" "Não concordo." "Milhões de pessoas desapareceram. O povo está assustado. Tem medo de guerra, está cansado de derramamento de sangue, cansado do caos. O povo precisa saber que temos condição de propiciar a paz. A reação ao meu plano de desarmamento mundial foi favorável por quase unanimidade." "Não pelo movimento da milícia norte-americana." "Que se dane a milıć ia", disse Carpathia, sorrindo. "Se levarmos a cabo minha proposta, você acha realmente que um bando de fanáticos que perambulam pelas matas usando fardas surradas e dando tiros de espingarda serão considerados ameaça à comunidade global? Buck, estou simplesmente atendendo aos anseios dos cidadãos decentes do mundo. EƵ claro que as maçãs podres não serão erradicadas, e jamais proibirei os órgãos de comunicação de lhes dar uma cobertura razoável, mas faço isso com a mais sincera das intenções. Não preciso de dinheiro. Tenho um mar de dinheiro." "A ONU tem tanto dinheiro assim?" "Buck, vou lhe contar uma coisa que poucas pessoas sabem e, como conϐio em você, sei que guardará segredo. Jonathan Stonagal nomeou-me o único herdeiro de todos os seus bens." Buck não conseguiu esconder sua surpresa. Se o multibilionário tivesse nomeado Carpathia para receber parte de sua fortuna, ninguém se surpreenderia, mas ser o único herdeiro? Signiϐicava que agora Carpathia era proprietário dos principais bancos e instituições ϐinanceiras do mundo. "Mas, mas, a família dele...", Buck balbuciou. "Já ϐiz um acordo judicial com eles. Comprometeram-se a manter silêncio e jamais contestar a vontade de Jonathan. Cada um receberá 100 milhões de dólares." "Isso me faz calar a boca", disse Buck. Mas quanto se sacriϐicaram por não receber a parte justa que lhes cabe?" Carpathia sorriu. "E vocêainda quer saber por que o admiro? Vocêsabe que Jonathan era o homem mais rico do mundo. Para ele, dinheiro era simplesmente uma comodidade. Nem sequer carregava carteira. A parcimônia fazia parte de seu charme. Permitia que um homem de poucas posses lhe pagasse um jantar e, em seguida, comprava uma empresa por centenas de milhões de dólares. Para ele, o dinheiro era apenas uma questão de números." "E o que será para o senhor?" "Buck, digo isso do fundo do coração. Esse estupendo recurso me dá a oportunidade de concretizar um sonho acalentado há muito tempo. Quero a paz. Quero o desarmamento global. Quero uniϐicar os povos do mundo. O mundo devia ter-se transformado em uma aldeia global décadas atrás quando fomos unidos por meio dos transportes aéreos e das comunicações via satélite. Mas foram os desaparecimentos — talvez a melhor coisa que já aconteceu a este planeta — que conseguiram nos unir. Quando falo, sou ouvido em quase todos os cantos do mundo.” "Não estou interessado em riqueza pessoal", prosseguiu Nicolae. "Minha história prova isso. Conheço o valor do dinheiro. Não me importo de usá-lo como forma de persuasão, se servir para motivar uma pessoa. Porém toda a minha preocupação está voltada para a humanidade." Buck sentia-se enojado, e sua mente estava invadida por imagens. Carpathia encenara o "suicıd́ io" de Stonagal e conseguira mais testemunhas do que qualquer tribunal necessitaria. Agora, estaria aquele homem tentando impressioná-lo com seu altruísmo, sua generosidade? A mente de Buck foi transportada para Chicago e, de repente, ele sentiu falta de Chloe. O que seria isso? Algo dentro dele o fazia desejar conversar com ela. O fato de serem "apenas bons amigos" nunca o agradou, mas desta vez a sensação foi pior. Teria sido meramente a conϐissão chocante de Carpathia o motivo para fazer Buck sentir falta de alguma coisa ou de alguém que lhe proporcionasse conforto e segurança? Havia pureza e frescor em Chloe. Como ele pôde confundir seus sentimentos com fascinação por uma mulher mais jovem? Carpathia olhava ϐirme para ele. "Buck, vocêjamais deverá comentar com quem quer que seja o que eu lhe disse hoje. Ninguém poderá saber. Vocêtrabalhará para mim e terá privilégios e oportunidades que nem pode imaginar. Você vai pensar nisso, mas no ϐinal das contas aceitará." Buck lutava para manter sua mente focalizada em Chloe. Admirava o pai dela e estava começando a sentir uma grande amizade por Bruce Barnes, uma pessoa com quem nunca teria nada em comum se não tivesse se tornado seguidor de Cristo. Mas o objeto de sua atenção era Chloe, e Buck se deu conta de que Deus havia ϐixado esses pensamentos em sua mente para ajudá-lo a resistir ao poder hipnótico e persuasivo de Nicolae Carpathia. Será que amava Chloe Steele? Não sabia dizer. Mal a conhecia. Sentia atração por ela? Claro. Queria sair com ela, iniciar um relacionamento? Com certeza. "Buck, se você pudesse escolher um lugar para morar no mundo, onde seria?" Buck ouviu a pergunta e procurou ganhar tempo. Cerrou os lábios como se estivesse pensando na resposta. Mas ele só pensava em Chloe. O que ela diria se soubesse disso? Sentado diante do homem mais falado do mundo que lhe oferecia um cheque em branco, Buck não conseguia desviar o pensamento de uma moça de vinte anos que abandonara os estudos e vivia em Chicago. "Onde seria, Buck?" "Já estou morando nesse lugar", respondeu Buck. "Chicago?" "Chicago." De repente, Buck percebeu que não podia viver longe de Chloe. O comportamento e as atitudes dela nos dois últimos dias evidenciavam que ele não lhe dera a atenção devida, mas Buck acreditava que haveria tempo de reverter a situação. Quando ele demonstrou interesse, ela fez o mesmo. Quando demonstrou incerteza, ela fez o mesmo. Ele teria de deixar claro seu interesse e esperar pelo melhor. Havia ainda graves questões a considerar, mas, no momento, ele só sabia que sentia muita falta de Chloe. "Por que razão alguém desejaria morar em Chicago?" indagou Carpathia. "A cidade tem um aeroporto central, porém o que mais oferece? Estou lhe pedindo que amplie seus horizontes, Buck. Pense em Washington, Londres, Paris, Roma, Nova Babilônia. Você morou aqui durante anos e sabe que esta cidade é a capital do mundo — pelo menos até transferirmos nossa sede." "O senhor me perguntou onde eu gostaria de morar se pudesse escolher", disse Buck. "Francamente, eu poderia morar em qualquer lugar. Com a Internet e os aparelhos de fax, posso enviar uma reportagem mesmo estando no Pólo Norte. Eu não escolhi Chicago, mas agora não gostaria de sair de lá." "E se eu lhe oferecesse milhões de dólares para você ser transferido?" Buck encolheu os ombros e deu uma risadinha. "O senhor é o dono da maior fortuna do mundo e diz que não é motivado por dinheiro. Bem, eu tenho pouco dinheiro, e com certeza não sou motivado por ele." "Então você é motivado pelo quê?" Buck orou rápida e silenciosamente. Deus, Cristo, a salvação, a Tribulação, o amor, os amigos, as almas perdidas, a Bıb́ lia, o aprendizado, a preparação para o Glorioso Aparecimento, a Igreja Nova Esperança, Chloe. Eram esses os motivos principais de sua vida, mas como Buck poderia dizer isso? Deveria dizer? Deus, coloca as palavras na minha boca! "Sou motivado pela verdade e pela justiça", disse Buck secamente. "Ah, a caracterıśtica dos norte-americanos!" disse Carpathia. "Exatamente como o Superman!" "Mais do tipo Clark Kent", disse Buck. "Sou um simples repórter de um grande semanário metropolitano." "Está certo, você quer morar em Chicago. Então, o que gostaria de fazer, se pudesse escolher?" De repente, Buck voltou à realidade. Gostaria de refugiar-se em seus pensamentos secretos a respeito de Chloe, mas sentiu-se pressionado pelo relógio. Sua viagem, por mais estranha que tenha sido, valera a pena só por aquela informação que Carpathia deixara escapar sobre a herança de Stonagal. Buck não queria discutir com Nicolae, e preocupava-se com a bomba que sua última pergunta representava. "Se eu pudesse escolher? Sempre acalentei o sonho de ser editor quando estiver velho demais para viajar pelo mundo correndo atrás de notıć ias. Seria muito divertido ter uma grande equipe de gente talentosa para treinar, e conseguir uma publicação que mostrasse suas habilidades. Mas eu sentiria falta de bater pernas, pesquisar, entrevistar e escrever." "E se você pudesse fazer as duas coisas? Ser editor com funcionários para cheϐiar e, ao mesmo tempo, ter o privilégio de escolher os trabalhos que mais aprecia?" "Creio que seria o máximo." "Buck, antes de contar-lhe como posso fazer isso acontecer, diga-me por que usa o verbo no condicional quando fala de seus sonhos, como se os considerasse difıć eis de ser concretizados." Buck não havia sido cuidadoso. Quando conϐiou em Deus para ter uma resposta, recebeu-a. Quando se aventurou a emitir uma por conta própria, escorregou. Ele sabia que o mundo duraria apenas sete anos a partir da assinatura do tratado entre Carpathia e Israel. "Acho que falo assim porque não sei quanto tempo este mundo vai durar", disse Buck. "Ainda estamos apurando os fatos da devastação causada pelos desaparecimentos e..." "Buck! Assim você me ofende! Estamos mais perto de alcançar a paz mundial do que estivemos em cem anos! Minhas humildes propostas encontraram muita receptividade e acho que estamos perto de anunciar uma sociedade global quase utópica! Conϐie em mim! Fique comigo! Junte-se a mim! Você poderá concretizar todos os seus sonhos! Você não é motivado por dinheiro? OƵtimo! Nem eu. Deixe-me oferecer-lhe os recursos para que você nunca mais tenha de pensar ou se preocupar com dinheiro.” "Posso oferecer-lhe uma posição, uma publicação, um grupo de colaboradores, um escritório e até mesmo um refúgio onde vocêpoderá fazer o que sempre quis, mesmo morando em Chicago." Como sempre, Carpathia fez uma pausa, aguardando Buck morder a isca. E ele mordeu. "Isso eu preciso ouvir", ele disse. "Desculpe-me um instante, Buck", disse Carpathia, apertando o botão do interfone para chamar Hattie. Aparentemente ele deu um sinal diferente do que o usual, porque ao invés de atender o interfone ela surgiu na porta atrás de Buck. Ele virou-se para ver quem era, e ela piscou para ele. "Srta. Durham", disse Carpathia, "por favor, avise o Dr. Rosenzweig, o Sr. Plank e o presidente Fitzhugh que estou um pouco atrasado em minha programação. Devo gastar mais dez minutos aqui e outros dez com Chaim e Steve. Estaremos em Washington por volta das cinco horas." "Perfeitamente, senhor." Rayford estacionou o carro em O'Hare e atravessou rapidamente o terminal em direção ao centro de controle no subsolo e à sala de Earl Halliday. O comandante Earl era seu chefe havia anos e acompanhou sua carreira desde quando ele era um de seus jovens pilotos mais eϐicientes até tornar-se um de seus brilhantes e experientes pilotos. Agora, Rayford sentia-se feliz por estar em uma posição na qual podia conversar francamente com Earl, eliminando as formalidades e entrando direto no assunto. Earl o aguardava do lado de fora da sala e olhou para seu relógio quando Rayford se aproximou. "Ótimo", disse Earl. "Entre." "Prazer em vê-lo", disse Rayford colocando o quepe debaixo do braço e sentando-se. Earl sentou-se na única outra cadeira daquela sala atravancada, a que estava atrás de sua mesa. "Temos um problema", principiou. "Obrigado por ir direto ao assunto", disse Rayford. "Será que Edwards escreveu um relatório a meu respeito por eu estar fazendo, como é mesmo o nome que você dá a isso, proselitismo?" "Essa é apenas uma parte do problema. Se não fosse isso, eu estaria aqui para dar-lhe uma notícia extraordinária." "Que notícia?" "Antes de tudo, diga-me se entendi bem o que você disse. Quando o repreendi por estar falando de Deus no trabalho, vocême disse que precisava pensar no assunto. Eu lhe disse que se você me garantisse que pararia de falar nisso, eu convenceria Edwards a desistir do relatório. Certo?" "Certo." "E quando você concordou em ir a Dallas hoje para se reinscrever, eu não deveria supor que poderia contar com sua boa vontade?" "Não inteiramente. E entendo que você gostaria de saber como transcorreu minha reinscrição." "Já sei como transcorreu sua reinscrição, Ray!" vociferou Earl. "Agora responda à minha pergunta! Vocêestá querendo dizer que foi até lá para conseguir autorização para pilotar o 757 e que em nenhum momento teve a intenção de parar de falar de religião no trabalho?" "Eu não disse isso." "Então seja claro, Ray! Vocênunca foi desleal comigo, e estou muito velho para isso. Você me ofendeu com toda aquela história de igreja e Arrebatamento, e eu fui atencioso, não fui?" "Mais ou menos." "Mas ouvi como amigo, da mesma forma que vocême ouve quando enalteço meus ϐilhos, certo?" "Eu não estava enaltecendo nada." "Não, mas estava empolgado. Você encontrou algo que lhe deu conforto e o ajudou a explicar as perdas que sofreu. E eu me sinto feliz por isso, seja qual for o motivo que o empurre para frente. Vocêcomeçou a pressionar-me para ir à igreja e ler a Bıb́ lia. Eu lhe disse, tentando ser gentil, que considerava isso um assunto de natureza pessoal e pedi que você não insistisse." "Foi o que fiz. Apesar disso, continuo orando por você." "Oh, muito obrigado. Eu também lhe disse para tomar cuidado no trabalho, mas vocênão me obedeceu. Estava achando tudo uma novidade e sentindo-se como um sujeito que acabou de encontrar a fórmula de enriquecer rapidamente. Então, o que fez? Entre todos, preferiu doutrinar Nick Edwards. Ele é novato aqui, Ray, e os chefes gostam dele." "Eu também gosto dele. É por isso que me preocupo com ele e com seu futuro." "Ah, sim, tudo bem, mas ele deixou claro que não quer mais ouvir isso, da mesma forma que eu. Você parou de pressionar-me, então por que não pára também de pressioná-lo?" "Pensei que tinha parado." "Só pensou." Earl pegou uma pasta na gaveta e folheou-a até encontrar uma determinada página. "Então você nega ter-lhe dito 'eu não me importo com o que você pensa de mim'?" "Essa frase está um pouco fora do contexto, mas não nego o espıŕ ito da coisa. Eu só estava dizendo que..." "Eu sei o que você estava dizendo, Ray, tudo bem, porque você também me disse! Eu o alertei que não queria vê-lo transformar-se em um daqueles fanáticos de olhar furioso que se acha melhor do que todos os outros e tenta salvá-los. Você disse que se preocupava comigo, o que muito aprecio, e eu retruquei que você estava próximo de perder meu respeito." "E eu disse que não me importava." "Bem, você não vê que está me insultando?" "Earl, como posso insultá-lo quando me preocupo tanto com sua alma a ponto de pôr em risco nossa amizade? Eu disse a Nick a mesma coisa, que não me importo mais com o que as pessoas pensam de mim. Parte de mim ainda se preocupa, é claro. Ninguém quer ser visto como um tolo. Mas se eu não lhe falar de Cristo só por estar preocupado com o que vocêvai pensar de mim, que tipo de amigo eu sou?" Earl suspirou e balançou a cabeça, olhando ϐixo para a pasta. "Então, você sustenta que Nick extraiu uma frase do contexto, mas tudo o que acabou de dizer está aqui no relatório." "Está?" "Está." Rayford empinou a cabeça. "O que você sabe sobre isso? Ele me ouviu. Entendeu o ponto principal." "Tenho certeza de que ele não entendeu. Caso contrário, qual a razão de tudo isso?" Earl fechou a pasta e empurrou-a com força. "Earl, eu estava exatamente onde você e Nick estavam na noite anterior aos desaparecimentos. Eu..." "Já ouvi tudo isso", disse Earl. "Estou apenas dizendo que entendo sua posição. Eu estava quase me indispondo com minha mulher por pensar que ela se tornara fanática." "Você me contou." "Mas agora digo que ela se tornou fanática. Ela estava certa! Provou que estava certa!" "Rayford, se você quer pregar, por que não cai fora da aviação e vai ser ministro?" "Você está me despedindo?" "Espero não precisar fazer isso." "Então vocêquer que eu me desculpe com Nick, diga-lhe que compreendi que o pressionei muito mas que minhas intenções eram boas?" "Gostaria que fosse tão fácil assim." "E não é o que você me propôs no outro dia?" "Sim! E eu cumpri minha palavra. Não enviei cópia deste relatório para o Departamento Pessoal nem para meus superiores, e contei isso a Nick. Disse-lhe que o guardaria e que ele passaria a fazer parte permanente de meu arquivo pessoal sobre você como meu subordinado..." "O que não significa nada." "Evidentemente, você e eu sabemos disso, e Nick também não é nada bobo. Mas aparentemente ficou satisfeito.” Entendi que ao ir a Dallas para se reinscrever você estava tentando me dizer que ouviu meus conselhos e que estávamos cooperando um com o outro." Rayford assentiu. "Eu tinha planejado ser mais sensato e não lhe criar problemas por você defender minhas atitudes." "Não me importei de fazer isso, Ray. Você é merecedor. Mas, de repente, hoje de manhã você me deu outro golpe igual. O que estava pensando?" Rayford sobressaltou-se e endireitou-se na cadeira. Colocou o quepe sobre a mesa e ergueu as mãos, com as palmas para cima. "Hoje de manhã? Do que vocêestá falando? Pensei que tudo correu bem, perfeito. Fui reprovado?" Earl curvou-se sobre a mesa e lançou um olhar zangado a Rayford. "Então, você não fez com o examinador a mesma coisa que fez comigo, com Nick e com todos os outros colegas com quem trabalhou nas últimas semanas?" "Falar a respeito de Deus, você quer dizer?" "Sim!" "Não! Na verdade, senti-me um pouco culpado por isso. Não conversamos quase nada. Ele foi muito severo e veio com uma conversa fiada sobre o que ia e o que não ia fazer." "Você não pregou para ele?" Rayford balançou a cabeça, tentando lembrar-se do que havia feito ou dito que pudesse ter sido mal interpretado. "Não. Só não escondi minha Bıb́ lia. Geralmente guardo-a dentro de minha maleta de vôo, mas ela estava fora quando nos encontramos porque eu a estava lendo no furgão. Ei, vocêtem certeza de que a queixa não partiu do motorista do furgão? Ele me viu lendo e fez perguntas. Conversamos sobre o que havia acontecido." "Como sempre." Rayford assentiu. "Mas não percebi nenhuma reação negativa da parte dele." "Nem eu. A queixa partiu de seu examinador." "Não entendo", disse Rayford. "Você acredita em mim, não, Earl?" "Gostaria de acreditar", respondeu Earl. "Não me olhe desse jeito. Sei que somos amigos há muito tempo, e nunca imaginei que vocêpudesse mentir para mim. Lembra-se daquela vez em que você reteve a aeronave no solo propositadamente por ter tomado alguns drinques?" "Cheguei a me oferecer para pagar outro piloto." "Eu sei. Mas o que devo pensar agora, Ray? Vocêdiz que não discutiu com aquele sujeito. Quero acreditar. Mas vocêfez o mesmo comigo, com Nick e com outros. Sou obrigado a pensar que agiu da mesma forma hoje de manhã." "Vou ter uma conversa com esse sujeito." "Não, não vai." "O quê? Não posso enfrentar meu acusador? Earl, eu não disse uma só palavra a respeito de Deus àquele indivıd́ uo. Gostaria de ter dito, principalmente se vou ser prejudicado. Quero saber por que ele disse isso. Deve ter sido um mal-entendido, alguma queixa indireta do motorista do furgão, mas como estou dizendo, não percebi nenhuma resistência da parte dele. No entanto, ele deve ter dito algo ao examinador. Do contrário, como o examinador sabia que já ϐiz isso antes? Será que foi por causa da Bíblia?" "Não posso imaginar que o motorista do furgão tenha tido algum contato com o examinador. Por que teria, Ray?" "Estou confuso, Earl. Não tenho certeza se deveria desculpar-me por essas acusações, mas tenho certeza de que não posso desculpar-me por algo que não fiz." Buck lembrou-se de Rosenzweig ter-lhe dito que o presidente se oferecera para ir a Nova York a ϐim de encontrar-se com Carpathia, mas em sua imensa humildade, Nicolae insistira em ir até Washington. Agora Carpathia pede casualmente que sua assistente pessoal avise o presidente que está um pouco atrasado? Teria planejado isso? Seria essa a maneira de Carpathia informar a todos o quanto era poderoso? Poucos minutos depois, Hattie bateu na porta e entrou. "Sr. Secretário-Geral", ela disse. "O presidente Fitzhugh está enviando o Air Force One para buscá-lo." "Oh, diga-lhe que não será necessário", disse Carpathia. "Ele disse que a aeronave já decolou e que o senhor poderá embarcar quando desejar. O piloto informará a Casa Branca quando o senhor estiver a caminho." "Obrigado, Srta. Durham", disse Carpathia, virando-se para Buck. "Que homem bondoso! Você o conhece pessoalmente?" Buck assentiu. "Ele foi o primeiro 'Fazedor da Notícia do Ano' indicado por mim." "Foi a primeira ou a segunda vez que ele recebeu esse título?" "A segunda." Mais uma vez, Buck admirava a memória enciclopédica daquele homem. Haveria alguma dúvida sobre quem seria o próximo "Fazedor da Notıćia do Ano"? Era uma tarefa que Buck não apreciava nem um pouco.


C A P Í T U L O 7

Earl ajeitou-se na cadeira com nervosismo. "Bem, deixe-me dizer-lhe uma coisa, isso aconteceu no pior momento possıv́ el. O novo Air Force One, que está programado para voar na próxima semana, é um 757.” Rayford ϐicou atordoado. O bilhete de Hattie Durham, dizendo a mesma coisa, ainda estava em seu bolso. Rayford ajeitou-se na cadeira e observou o rosto de seu chefe. "Eu já tinha ouvido falar", disse, procurando ganhar tempo. "Existe alguém nos Estados Unidos que não tenha ouvido falar do novo avião? Pelo que dizem dele, eu gostaria muito de conhecê-lo." "EƵ o máximo, com certeza", disse Earl. "A última palavra em tecnologia, comunicação, segurança e acomodações." "Você é a segunda pessoa que fala desse avião hoje. O que há de tão importante?" "O importante é que a Casa Branca entrou em contato com nossa diretoria. Aparentemente o pessoal da Casa Branca acha que já é tempo de despedir seu atual piloto. Querem que recomendemos um para substituı-́ lo. O pessoal de Dallas reduziu a lista a meia dúzia de pilotos veteranos, e ela veio parar em minhas mãos porque inclui seu nome." "Não estou interessado." "Não seja precipitado! Como pode falar assim? Quem não gostaria de pilotar um dos aviões mais modernos do mundo, com todos aqueles equipamentos, para o homem mais poderoso da terra? Ou talvez eu deva dizer o segundo mais poderoso, agora que temos Carpathia na direção da ONU." "Simples. Eu teria de mudar-me para Washington." "O que o mantém aqui? Chloe vai voltar para a faculdade?" "Não." "Então ela também não sabe o que quer. Ou conseguiu um emprego." "Está procurando?" "Então que procure um em Washington. Você ganhará o dobro do que ganha agora, e já está na lista dos cinco por cento mais bem remunerados da Pan-Con.” "O dinheiro não significa tanto para mim", disse Rayford. "Pare com isso!" vociferou Earl. "Quem é o primeiro a me telefonar quando há uma notıć ia de aumento de salário à vista?" "Agora não é mais assim, Earl. E você sabe por quê." "Ah, sim, poupe-me de um sermão. Ray, pense na independência ϐinanceira para conseguir uma casa maior e mais bonita, freqüentar outros lugares..." "É o lugar que estou freqüentando que me prende em Chicago. Minha igreja." "Ray, o salário..." "Não me importo com dinheiro. Agora somos apenas dois, Chloe e eu, lembra-se?" "Desculpe-me." "Talvez seja até necessário mudarmos para um lugar menor. A casa ϐicou muito grande para nós e temos mais dinheiro do que podemos gastar." "Então aceite a função como desaϐio! Não haverá rotas comuns, não haverá um grupo de comandantes e navegadores. Vocêviajará pelo mundo inteiro, conhecerá um lugar diferente de cada vez. É a realização de um piloto, Ray." "Você disse que havia outros cinco nomes na lista." "Ah, e são todos bons. Mas se eu interferir a seu favor, vocêganhará a posição. O problema é que não posso interferir a seu favor com este relatório de Nick Edwards na pasta." "Você disse que está apenas em seu arquivo." "Está, mas depois da confusão desta manhã não posso correr o risco de escondê-lo. Imagine se eu conseguir o cargo na Casa Branca para você, e o examinador puser a boca no mundo? Assim que a notıć ia se espalhar, Edwards tomará conhecimento e conϐirmará a história. O cargo não será seu e eu parecerei um idiota por ter acobertado a queixa e defendido você. Fim da história." "De qualquer forma, é o ϐim da história", disse Rayford. "Não posso mudar-me para Washington." Earl levantou-se. "Rayford", ele disse vagarosamente, "tenha calma e ouça-me. Abra um pouco a sua mente. Deixe-me dizer-lhe o que tenho ouvido, e depois dê-me uma oportunidade de persuadi-lo." Rayford começou a protestar, mas Earl o interrompeu. "Por favor! Não posso tomar uma decisão por você, e não vou tentar. Mas deixe-me terminar. Mesmo que eu não concorde com sua opinião sobre os desaparecimentos, estou satisfeito por vocêter encontrado algum conforto na religião." "Não é..." "Ray, eu sei. Eu sei. Vocêjá me falou e eu ouvi com atenção. Para você, o importante não é a religião, é Jesus Cristo. Será que entendi bem, ou o quê? Admiro o fato de você ter se dedicado a isso. Vocêé um homem piedoso. Não duvido. Mas não vire as costas a um cargo que milhares de pilotos dariam tudo para conseguir. Francamente, não estou absolutamente certo se vocêprecisará mudar de cidade. Com que freqüência o presidente dos Estados Unidos viaja nos domingos? Com certeza, menos vezes do que você tem voado nos domingos." "Por ser um piloto veterano, raras vezes trabalho nos domingos." "Você poderá designar outro piloto para voar em seu lugar nos domingos. Você será o comandante, o mais experiente, o responsável, o chefe. Não reportará mais a mim." "Se é assim, aceito!", disse Rayford sorrindo. "Estou brincando." "Claro! Para você, faria mais sentido morar em Washington, mas aposto que se sua única condição for morar em Chicago, talvez eles aceitem." "Não posso, de jeito nenhum." "Por quê?" "Porque minha igreja não tem trabalhos apenas nos domingos. Temos reuniões freqüentes. Trabalho ao lado do pastor. Reunimo-nos quase todos os dias." "E você não pode abrir mão disso?" "Não posso." "Ray, e se essa for apenas uma fase de sua vida? E se você vier a deixar de lado o fanatismo? Não estou dizendo que você é um impostor ou que dará as costas ao que encontrou. Estou apenas dizendo que a novidade poderá acabar, e talvez vocêtenha condição de trabalhar em outro lugar se puder estar em Chicago nos fins de semana." "Por que isso é tão importante para você, Earl?" "Você não sabe?" "Não." "Porque é uma coisa com a qual sonhei a vida inteira", disse Earl. "Depois que assumi esta posição, acompanhei de perto todos os últimos concursos e inscrevi-me como piloto de cada presidente eleito." "Eu nunca soube disso." "Claro que não. Quem admitiria ser perdedor e contar a todo mundo que se remoıá por dentro a cada quatro ou oito anos por ver outros pilotos conseguirem a vaga? Se vocêconseguila, será uma maravilha. Eu ficarei imensamente feliz por você.” "Só por esse motivo, eu gostaria muito de estar livre para aceitar o cargo." Earl voltou a sentar-se. "Obrigado por conceder-me essa migalha." "Eu não quis que você entendesse assim, Earl. Estou falando sério." "Sei que está. A verdade é que conheço dois bobocas da lista, e não permitiria sequer que dirigissem meu carro." "Pensei ter ouvido você dizer que eram bons pilotos." "Estou apenas tentando dizer-lhe que se você não aceitar, alguém aceitará.” "Earl, eu realmente não acho..." Earl levantou a mão. "Ray, vocême faria um favor? Não tome uma decisão agora. Quero dizer, sei que vocêjá se decidiu, mas será que poderia contar-me isso oϐicialmente só depois de consultar o travesseiro?" "Vou orar nesse sentido", consentiu Rayford. "Já sabia disso." "Você está me proibindo de falar com o examinador?" "Absolutamente. Se quiser fazer uma queixa, faça-a por escrito, por meio dos canais competentes, da maneira certa." "Você tem certeza de que deseja recomendar um sujeito como eu, em quem não acredita, para ocupar uma função como essa?" "Se você me disser que não pressionou o indivíduo, serei obrigado a acreditar." "Eu nem sequer puxei o assunto, Earl." "Isso é uma loucura." Earl balançou a cabeça. "Quem recebeu a queixa?" "Minha secretária." "Partindo de quem?" "Da secretária dele, acho." "Posso ver a queixa?" "Eu não deveria mostrá-la." "Deixe-me vê-la, Earl. O que você está pensando? Que vou prejudicá-lo?" Earl chamou a secretária pelo interfone. "Francine, traga-me suas anotações sobre a queixa que recebeu de Dallas esta manhã." Ela trouxe uma única folha de papel datilografada. Earl leu-a e colocou-a sobre a mesa diante de Rayford. Dizia o seguinte: Recebi um telefonema às 11:37 da manhã de uma mulher que se identiϐicou como Jean Garfield, secretária do examinador Jim Long, da Pan-Con de Dallas. Perguntou-me como poderia protocolar uma queixa contra Rayford Steele por ter molestado Long com assunto de natureza religiosa durante seu teste esta manhã. Eu disse que voltaria a ligar para ela mais tarde. Ela não deixou o número do telefone, mas disse que ligaria novamente. Rayford levantou o papel. "Earl, você costuma ser melhor detetive do que está sendo." "Como assim?" "Isso não está me cheirando bem." "Você acha que é trambique?" "Em primeiro lugar, o sobrenome de meu examinador tinha duas sıĺabas, de acordo com seu crachá. E desde quando um examinador tem secretária?" Earl fez uma careta. "Boa pista." "E por falar em pista", disse Rayford, "gostaria de saber de onde partiu esse telefonema. EƵ difícil constatar?" "Não. Francine! Chame alguém da segurança para mim, por favor." "Você poderia pedir que ela veriϐique mais uma coisa para mim?" perguntou Rayford. "Peça-lhe que telefone para o Departamento Pessoal e veja se existe um Jim Long ou uma Jean Garfield trabalhando na Pan-Con." "Se você não se importar", disse Carpathia, "gostaria de convidar seus amigos para se reunirem conosco." Agora, já? perguntou Buck a si mesmo. Na hora exata da grande notícia, seja ela qual for? "O espetáculo é seu", disse Buck, surpreso diante da expressão magoada de Carpathia. "Quero dizer, a reunião é sua. Claro! Peça-lhes que entrem." Buck não sabia se era fruto de sua imaginação, mas parecia que Steve Plank e Chaim Rosenzweig estavam confusos, trocando olhares quando entraram, seguidos de Hattie. Ela pegou uma cadeira da mesa de reunião e colocou-a do outro lado de Buck. Os dois homens sentaram-se. Hattie saiu da sala. "O Sr. Williams tem um pré-requisito", anunciou Carpathia, provocando um murmúrio de Plank e Rosenzweig. "Ele precisa ficar sediado em Chicago." "Isso reduz as possibilidades", disse o Dr. Rosenzweig. "Não é mesmo?" "EƵ verdade", disse Carpathia. Buck olhou de relance para Steve que estava balançando a cabeça aϐirmativamente. O secretário-geral virou-se para Buck. "Minha proposta é a seguinte: Vocêpassa a ser presidente e editor do Chicago Tribune, que eu vou adquirir da famıĺia Wrigley dentro dos próximos dois meses. O nome do jornal será mudado para The Midwest Tribune e publicado sob o patrocıń io das Empresas Comunidade Global. A sede permanecerá na Tribune Tower em Chicago. Vocêterá uma limusine com motorista, um criado pessoal, funcionários que julgar necessários, uma casa em North Shore com empregados domésticos e uma casa de lazer no Lago Genebra, ao sul de Wisconsin. Não vou intrometer-me em suas decisões, a não ser mudar o nome do jornal e a editora. Você terá inteira liberdade para dirigir o jornal como desejar." A voz de Carpathia adquiriu um tom sarcástico. "Com suas duas torres, a da verdade e da justiça, circundando cada palavra." Buck sentiu vontade de rir alto. Sem dúvida, Carpathia tinha condição de fazer tal aquisição, mas não seria possıv́ el a um homem de tanta notoriedade esconder-se atrás do nome de uma editora e romper com todas as regras da ética jornalıśtica, sendo proprietário de um órgão de imprensa tão importante e, ao mesmo tempo, atuando como secretário-geral da Organização das Nações Unidas. "O senhor jamais conseguirá isso", disse Buck, sem expressar a verdadeira questão: que Carpathia jamais daria liberdade total a alguém sob seu comando, a menos que acreditasse ter domínio completo sobre sua mente. "Será problema meu", disse Carpathia. "Se eu tiver liberdade total", disse Buck, "também serei problema seu. Parto do princıṕ io que o público tem o direito de ser bem informado. Portanto, a primeira matéria de investigação que eu atribuir a um funcionário, ou escrever por conta própria, será sobre a aquisição do jornal." "E eu gostaria da publicidade", disse Carpathia. "Que mal haveria se a Organização das Nações Unidas fosse proprietária de um jornal dedicado a publicar notıć ias da comunidade global?" "O proprietário não será o senhor?" "Trata-se de uma questão de semântica. Se for mais apropriado que a ONU seja a proprietária, e não eu, doarei o dinheiro ou comprarei a empresa e a doarei à ONU." "O Tribune se transformaria, então, em um órgão de publicação interna, promovendo os interesses da ONU." "O que está de acordo com a lei." "Mas o jornal também não teria forças como um arauto independente." "Isso será problema seu." "O senhor está falando sério? Permitiria que seu próprio jornal o criticasse? Discordasse da ONU?" "Aplaudo sua responsabilidade. Meus motivos são puros, meus objetivos são pacıϐ́icos e meu público é global." Buck lançou um olhar de frustração para Steve Plank, mesmo sabendo que seu antigo chefe era um dos que provaram ser suscetıv́ eis ao poder de Carpathia. "Steve, você é seu conselheiro para assuntos de comunicação! Diga-lhe que tal empreendimento não teria credibilidade! Não seria levado a sério." "A princıṕ io, não seria levado a sério pelos outros meios de comunicação, Buck", admitiu Steve. "Mas em breve a Editora Comunidade Global também será dona de seus próprios meios de comunicação." "Então, o senhor monopoliza o ramo editorial, elimina a concorrência e o público não percebe?" Carpathia assentiu com a cabeça. "Esta é uma das formas de expressar isso. E se meus motivos forem movidos só por idealismo, também terei problemas. Porém, que mal há em controlar os noticiários mundiais quando estamos nos esforçando para conseguir a paz, a harmonia e a união dos povos?" "E como ϐicará o poder de formação de opinião? E como ϐicará o fórum de diversiϐicação de idéias? O que acontecerá com o tribunal de opinião pública?" "O tribunal de opinião pública", disse Steve, "está exigindo mais do que o secretário-geral tem a oferecer." Buck sentiu-se derrotado, e sabia disso. Não podia esperar que Chaim Rosenzweig entendesse a ética do jornalismo, mas quando um veterano como Steve Plank era capaz de defender um blefe jornalístico para um ditador caridoso, que esperança havia?" "Não posso sequer imaginar envolver-me em tal aventura", disse Buck. "Eu adoro esse sujeito!" exclamou Carpathia, entusiasmado. Plank e Rosenzweig sorriram e concordaram com um movimento de cabeça. "Pense no assunto. Medite sobre ele. Darei um jeito de legalizá-lo de forma que seja aceito até mesmo por você, e então não admitirei um não como resposta. Quero adquirir o jornal, e vou conseguir. Quero que você o dirija, e vou conseguir. Liberdade, Buck Williams. Liberdade total. O dia em que você achar que estou me intrometendo, poderá demitir-se recebendo indenização total.” Depois de agradecer a conϐiança de Earl Halliday e prometer pensar no assunto — embora a idéia de aceitar o cargo nem lhe passasse pela cabeça — Rayford permaneceu de pé no terminal diante de uma ϐileira de telefones desocupados. Francine, a secretária de Earl, conϐirmara que não havia nenhuma Jean Garϐield trabalhando na Pan-Con. E, dos seis funcionários com o nome de James Long, quatro eram carregadores de malas e os outros dois, burocratas de nıv́ el médio. Nenhum trabalhava em Dallas, nenhum era examinador e nenhum tinha secretária. "Quem estaria perseguindo você?" perguntara Earl. "Não consigo imaginar." Francine informou que a chamada recebida naquela manhãpartira de Nova York. "Ainda vai levar algum tempo para sabermos o número exato do telefone", ela disse, mas Rayford descobriu em um piscar de olhos quem estava por trás disso. Ele não tinha certeza do motivo, mas apenas Hattie Durham seria capaz de realizar tal façanha. Somente ela tinha acesso ao pessoal da Pan-Con que sabia onde ele estava e o que fazia naquela manhã. E o que tudo aquilo tinha a ver com o Air Force One 7. Rayford chamou o serviço de informações e conseguiu o número do telefone da ONU. Depois de passar pela telefonista e pelo setor administrativo, ϐinalmente chegou até Hattie, a quarta pessoa com quem falou. "Aqui fala Rayford Steele", ele disse secamente. "Oi, capitão Steele!" A vivacidade em sua voz fê-lo retrair-se. "Eu desisto", disse Rayford. "Seja lá o que for que está fazendo, você venceu." "Não estou entendendo." "Vamos, Hattie, não se faça de tola." "Ah! Meu bilhete! Achei engraçado, porque há alguns dias, quando eu estava conversando com uma amiga do setor de tráfego da Pan-Con, ela mencionou que meu velho amigo estava se reinscrevendo para pilotar o 757 em Dallas hoje cedo. Você não achou divertido receber um bilhete meu? Não foi mesmo divertido?" "Ah, sim, divertido demais. O que significa?" "O bilhete? Ora, nada. Com certeza vocêjá sabia, não? Todo mundo já sabe que o novo Air Force One é um 757, não é verdade?" "Sim, e qual a razão de você me lembrar disso?" "Foi uma brincadeira, Rayford. Quando eu soube de sua reinscrição, ϐiz uma brincadeira achando que você ia ser o novo piloto do presidente. Você não entendeu?" Como era possıv́ el? Seria ela assim tão ingênua e inocente? Será que aquela brincadeira sem graça teria sido uma coincidência? Rayford queria perguntar a Hattie como ela soube que a posição foi oferecida a ele, mas se ela não soubesse, ele certamente não gostaria de lhe contar. "Entendi. Muito engraçado. Então, qual foi o motivo daquela falsa queixa?" "Falsa queixa?" "Não me faça perder tempo, Hattie. Você é a única pessoa que sabia onde eu estava e o que fazia. E então sou acusado falsamente de ter molestado alguém com assuntos religiosos." "Oh, entendi!" Ela riu. "Foi apenas uma suposição. Você teve um examinador a seu lado, não teve?" "Sim, mas eu não..." "E precisou jogar aquela conversa fiada em cima dele, certo?" "Não." "Ora, Rayford. Você fez isso comigo, com sua ϐilha, com Cameron Williams, com Earl Halliday, com qualquer pessoa com quem trabalhou recentemente. Não é verdade? Você não pregou para o examinador?" "Não, com certeza." "Está bem, acho que me enganei. Mas continua a ser engraçado, você não acha? E as probabilidades estão do meu lado. Eu quis saber o que vocêpensaria se tivesse falado de religião ao examinador e recebesse uma queixa. Vocêteria de pedir-lhe desculpas e ele negaria. Adoro passar trotes! Vamos, dê-me um pouco de crédito." "Hattie, se você está tentando vingar-se de mim pela maneira como a tratei, acho que mereço." "Não, Rayford, não se trata disso! Não tenho nada contra você. O assunto está superado. Se tivéssemos tido um relacionamento, eu jamais estaria onde estou hoje e, creia-me, este é o melhor lugar do mundo. Não foi uma vingança. Eu só quis fazer uma brincadeira. Se você não gostou, lamento muito." "Você me criou um problema." "Ora, vamos! Quanto tempo vai demorar para essa história ser esquecida?" "Tudo bem, você venceu. Há mais surpresas reservadas para mim?" "Acho que não, mas fique alerta.” Rayford não engoliu nenhuma palavra de Hattie. Carpathia devia saber do oferecimento da Casa Branca. O bilhete de Hattie e aquela proposta, e a pequena brincadeira dela que quase estragou o negócio eram coincidência demais para serem considerados uma simples tentativa de trote. Rayford estava mal-humorado quando retornou ao estacionamento. Esperava que Chloe não continuasse aborrecida. Se estivesse, talvez ambos devessem acalmar-se um pouco antes da reunião daquela noite. Chaim Rosenzweig colocou a mão enrugada no joelho de Buck. "Insisto que você aceite esta posição de tanto prestígio. Se não aceitá-la, alguém aceitará, e não será interessante." Buck não estava disposto a discutir com Chaim. "Obrigado", disse. "Preciso pensar muito." Mas ele não pretendia considerar a idéia de aceitar a proposta. Gostaria muito de conversar sobre o assunto, primeiro com Chloe e depois com Bruce e Rayford. Quando Hattie Durham se desculpou por interromper e aproximou-se da mesa para falar ao ouvido de Carpathia, Steve começou a cochichar algo para Buck. Porém, Buck estava agraciado com o poder de discernir o que valia a pena ouvir e o que valia a pena ignorar. Naquele momento, decidiu que seria mais conveniente prestar atenção em Hattie e Nicolae do que escutar o que Steve estava lhe dizendo. Inclinou-se em direção ao amigo, ϐingindo ouvir. Buck sabia que Steve tentaria convencê-lo a aceitar o cargo, assegurando-lhe que exercera pressão sobre Carpathia, admitindo que como jornalista a história lhe parecera meio maluca no inıć io, mas que o mundo havia mudado, blá, blá, blá. Buck concordava com a cabeça e ϐitava o amigo nos olhos enquanto prestava atenção em Hattie Durham e Carpathia. "Acabei de receber uma ligação do alvo", ela disse. "Sim, e daí?" "Ele não demorou muito tempo para decifrar." "E o Air Force One?” "Acho que ele não tem nenhuma pista." "Bom trabalho. E o outro?" "Nenhuma resposta ainda." "Obrigado, querida." O alvo. Aquilo não parecia boa coisa. O restante da conversa aparentemente estava relacionado com a viagem de Carpathia naquela tarde no avião do presidente. Carpathia voltou a atenção para seu convidado. "No mıń imo, Buck, converse sobre o assunto com as pessoas que lhe dizem respeito. E se pensar em sonhos mais específicos que você gostaria de realizar, se o problema não fosse dinheiro, lembre-se de que neste momento você está no assento do motorista. Está na posição de vendedor. Eu sou o comprador e vou conseguir o homem que quero." "O senhor me obriga a recusar sua oferta só para mostrar-lhe que não estou à venda." "Conforme eu lhe disse inúmeras vezes, esse é o verdadeiro motivo por que você é o homem talhado para o cargo. Não cometa o erro de perder a oportunidade de uma vida toda só para provar um ponto de vista insignificante." Buck sentiu-se preso em uma armadilha. De um lado estava o homem que ele admirara e com quem trabalhara durante anos, um jornalista de princípios. Do outro lado estava o homem a quem ele amava como um pai, um brilhante cientista que, de muitas maneiras, era ingênuo o suϐiciente para ser um perfeito peão no jogo de xadrez do ϐim do mundo. Do lado de fora estava alguém que ele conheceu no avião quando Deus tomou conta do mundo. Foi o próprio Buck que a apresentou a Carpathia só para se mostrar, e vejam onde eles estavam agora. Bem em sua frente, exibindo um sorriso belo e conciliatório, estava Carpathia. Das quatro pessoas com quem Buck estava conversando naquela tarde, Carpathia era quem ele mais entendia. Sabia também que Carpathia era a pessoa com quem tinha menos prestıǵ io. Seria tarde demais para conversar com Steve, adverti-lo sobre a situação em que ele se metera? Tarde demais para salvar Hattie pela estupidez de tê-la apresentado a Carpathia? Estaria Chaim apaixonado demais pelas possibilidades geopolıt́ icas, deixando de dar ouvidos à razão e à verdade? E se conϐiasse em qualquer um deles, seria o ϐim de qualquer esperança de impedir que a verdade viesse à tona, ou seja, que Deus o protegia do poder de Carpathia? Buck não via a hora de retornar a Chicago. Seu apartamento era novo e ainda lhe parecia um pouco estranho. Seus amigos também eram novos, mas não havia ninguém mais no mundo em quem ele conϐiasse tanto. Bruce ouviria com atenção, analisaria o assunto, oraria e o aconselharia. Rayford, com sua mentalidade cientıϐ́ica, analıt́ ica e pragmática, daria sugestões sem jamais impingir opiniões. Mas era de Chloe que ele mais sentia falta. Seria um plano de Deus? Teria sido Deus quem havia derivado os pensamentos de Buck para Chloe naquele momento mais vulnerável diante de Carpathia? Buck mal conhecia aquela mulher. Mulher? Ela era pouco mais que uma garota, mas parecia... o quê? Adulta? Mais que adulta. Atraente. Quando ele falava, o olhar de Chloe o absorvia. Ela demonstrava compreensão, empatia. Aconselhava e orientava sem dizer uma única palavra. A presença dela lhe trazia uma sensação de conforto e segurança. Ele a tocara apenas duas vezes. Uma vez para tirar um pedaço de chocolate que grudara perto de sua boca, e a outra na igreja, na manhã do dia anterior, para que ela notasse sua presença. E agora, a uma distância de duas horas de vôo, Buck sentia uma necessidade premente de abraçá-la. Evidentemente, não podia fazer isso. Mal a conhecia e não desejava afugentá-la. Não obstante, em sua mente, Buck aguardava com ansiedade o momento de poder segurar as mãos dela e abraçá-la. Visualizava os dois juntos, sentados lado a lado em um lugar qualquer, desfrutando a companhia um do outro — ela com a cabeça apoiada em seu peito, ele com os braços ao redor dela. Foi então que Buck se deu conta do homem solitário no qual se transformara. Ao chegar em casa, Rayford encontrou Chloe completamente desolada. Decidiu não lhe contar os acontecimentos daquele dia, por enquanto. Tudo foi muito estranho, e aparentemente o dia não havia sido muito diferente para ela. Rayford abraçou a ϐilha e ela rompeu em prantos. Na lata do lixo, havia um enorme buquêde ϐlores. "As ϐlores só serviram para piorar a situação, papai. Pelo menos essa minha reação mostrou-me uma coisa — que Buck é muito importante para mim." "Parece uma reação muito racional de sua parte", disse Rayford, arrependendo-se imediatamente de suas palavras. "Então não posso ser racional só porque sou mulher, não é mesmo?" "Desculpe-me! Eu não deveria ter dito isso." "Se estou sentada aqui chorando é porque minha reação é emocional, certo? Não se esqueça, papai, cinco semestres na lista do reitor. Isso não é emocional; é racional. Sou mais parecida com você do que com a mamãe, lembra-se?" "Claro. E justamente por sermos assim é que ainda estamos aqui." "Bem, estou feliz por termos um ao outro. Pelo menos estava até você acusar-me de ser uma típica mulher." "Eu não disse isso." "É o que você estava pensando." "Agora você passou também a ler pensamentos?" "Sim, sou uma adivinha emocional." "Eu me rendo", disse Rayford. "Ora, vamos, papai. Não desista tão cedo. Ninguém gosta de um perdedor que desiste facilmente." No avião, novamente agraciado com uma viagem de primeira classe, Buck continha-se para não dar uma gargalhada. Editor do Tribune. Dentro de vinte anos, talvez, se não for adquirido por Carpathia e se Cristo não tiver retornado antes. Buck sentia-se como se tivesse ganho um prêmio de loteria em uma sociedade na qual o dinheiro não valia nada. Depois de jantar, ele reclinou-se na poltrona e contemplou o pôr-do-sol. Fazia anos, muitos anos desde a última que ele foi atraıd́ o a uma cidade por causa de alguém. Será que chegaria a tempo de vê-la antes da reunião? Se o trânsito não estivesse muito congestionado, haveria tempo para conversarem da maneira como ele tanto desejava. Buck não queria afugentar Chloe por ser muito detalhista, mas queria desculpar-se por ter sido evasivo. Não desejava pressioná-la. Mas talvez ela não tivesse nenhum interesse. Ele estava certo apenas de uma coisa – não fecharia a porta a qualquer possibilidade. Talvez fosse melhor ligar para ela do avião. "Bruce ofereceu-me um emprego hoje", disse Chloe. "Você está brincando", disse Rayford. "Que tipo de emprego?" "Algo que tem muito a ver comigo. Estudo, pesquisa, preparo, ensino." "Onde? Como?" "Na igreja. Ele quer 'multiplicar seu ministério." "Uma função remunerada?" "Sim. Tempo integral. Poderei trabalhar em casa ou na igreja. Ele me passará as tarefas, ajudará a ampliar meu currıć ulo, essas coisas. Quer que eu vá devagar na parte de ensino porque ainda sou muito novata nessa área. Muitas pessoas a quem estarei lecionando passaram a vida freqüentando igreja e escola dominical." "O que você vai lecionar?" "As mesmas coisas que ele. Minha pesquisa também o ajudará no preparo das aulas. Posteriormente passarei a dar aulas em classes da escola dominical e a pequenos grupos. Bruce vai pedir a você e a Buck que façam o mesmo, mas evidentemente ele ainda não sabe do caso de Buck com sua noivinha." "E você foi bastante prudente para não lhe contar." "Por enquanto", disse Chloe. "Se Buck achar que não está errado — e talvez pense assim — alguém precisa contar a Bruce." "E você está se candidatando a essa tarefa." "Sim, se não houver ninguém que queira contar-lhe. Sou a única pessoa que soube desde o início." "Mas você não acha que existe um leve conflito de interesses?" "Papai, desejei muito que algo acontecesse entre mim e Buck. Agora, não o quero mais, mesmo que ele se atire em meus braços." O telefone tocou. Rayford atendeu e, em seguida, cobriu o fone com a mão. "Aqui está a oportunidade de provar o que acaba de dizer. Buck está ligando do avião." Chloe semicerrou os olhos como se estivesse decidindo se devia atender ou não. "Dê-me o telefone", ela disse. Buck tinha certeza de que Rayford dissera à ϐilha de quem era a ligação. Mas o alô de Chloe foi seco, e ela fingiu não saber quem era, portanto Buck foi obrigado a identificar-se. "Chloe, sou eu, Buck! Como vai?" "Já estive melhor." "O que houve. Você está doente?" "Estou bem. Você deseja alguma coisa?" "Bem, sim, acho que gostaria de vê-la esta noite." "Acha que gostaria?" "Sim, isto é, claro que gostaria. Posso?" "Vou vê-lo na reunião das oito, certo?" "Ah, sim, mas pensei que poderíamos conversar um pouco, antes da reunião." "Não sei. O que você deseja?" "Só conversar com você." "Estou ouvindo." "Chloe, há algo errado? Houve alguma falha minha? Você parece aborrecida." "As flores estão na lata do lixo, se isto lhe diz alguma coisa." As ϔlores estão na lata do lixo, Buck repetiu para si mesmo. Era uma expressão que ele nunca tinha ouvido. Devia ter algo a ver com gente da geração de Chloe. Ele era um articulista famoso, mas com certeza nunca ouvira essa expressão. "Sinto muito", disse Buck. "É um pouco tarde para isso", ela retrucou. "Quero dizer, sinto muito não ter entendido o que você estava dizendo." "Você não me ouviu?" "Ouvi, mas não entendi." "Como não entendeu? Eu disse que 'as flores estão na lata do lixo'." Buck tinha estado um pouco distante dela na sexta-feira à noite, mas o que seria isso? Bem, valia a pena prosseguir. "Vamos começar pelas flores", ele disse. "Sim, vamos." "De que flores estamos falando?" Rayford gesticulou com as duas mãos para que Chloe se acalmasse. Ele receava que a ϐilha explodisse, e mesmo sem saber o que se passava do outro lado da linha, tinha certeza de que ela não estava dando a Buck uma oportunidade de se explicar. Se houvesse um pingo de verdade no que Chloe estava alegando, ela não ajudava em nada agindo daquela maneira. Talvez Buck não tivesse se livrado de todos os problemas de sua vida pregressa. Talvez houvesse algumas situações que precisariam ser enfrentadas imediatamente. Mas não acontecia o mesmo com todos eles, os quatro membros da Força Tribulação? "EƵ melhor conversarmos hoje à noite, está bem?" concluiu Chloe. "Não, antes da reunião, não. Não se terei tempo depois... Bem, dependerá da hora em que a reunião terminar, acho... Sim, ele disse das oito às dez, Buck, mas vocêainda não entendeu que não quero conversar nada agora? E também não sei se vou querer conversar mais tarde... Sim, até à noite." Ela desligou o telefone. "Ufa, que homem insistente! Estou conhecendo um lado dele que nunca imaginei." "Ainda gostaria que algo acontecesse?" perguntou Rayford. Ela balançou a cabeça negativamente. "Se houve alguma coisa, agora acabou de vez." "Mas ainda dói." "Claro! Só não imaginei quantas esperanças depositei nisso." "Lamento muito, querida." Ela afundou-se no sofá e apoiou o rosto nas mãos. "Papai, sei que não devemos explicações um ao outro, mas vocênão acha que ele e eu conversamos e nos conhecemos o suϐiciente para que eu viesse a saber que havia alguém mais na vida dele?" "Parece que sim." "Será que eu o interpretei mal? Será que ele acha certo dizer que sente atração por mim sem me contar que existe outra pessoa em sua vida?" "Não posso imaginar." Rayford não sabia mais o que falar. Se houvesse alguma verdade no que Chloe dizia, ele também estava começando a perder o respeito por Buck. Parecia um ótimo sujeito. Rayford só esperava poder ajudá-lo. Buck estava magoado. Ainda desejava ver Chloe, mas já não seria da maneira como ele sonhara. Tinha feito algo, ou deixara de fazer, e seria necessário mais do que uma simples desculpa ou alguns gestos para atingir o âmago da questão. As flores estão na lata do lixo, ele pensou. Qual seria o significado disso?

C A P Í T U L O 8

Quando Buck entrou no apartamento, a porta bateu em uma pilha de caixas. Ele teria de mandar um bilhete de agradecimento a Alice. Gostaria de ter tido tempo para começar a organizar seu escritório em casa, mas tinha de se apressar se quisesse ver Chloe antes da reunião. Ele chegou à Igreja Nova Esperança cerca de meia hora antes e viu o carro de Rayford estacionado próximo ao de Bruce. Ótimo, pensou, todos já chegaram. Olhou para o relógio. Teria se esquecido da mudança de fuso horário? Estaria atrasado? Caminhou apressadamente até a sala de Bruce e bateu na porta ao entrar. Bruce e Rayford levantaram os olhos surpresos. Ali só estavam os dois. "Sinto muito, acho que cheguei um pouco adiantado." "Ah, sim, Buck", disse Bruce. "Estamos conversando um pouco e nos encontraremos às oito, certo?" "Claro. Vou falar com Chloe. Ela já chegou?" "Chegará um pouco mais tarde", respondeu Rayford. "Está bem, ficarei aguardando por ela lá fora." "Antes de tudo", disse Bruce a Rayford, "meus parabéns. Independentemente do que você decidir, é uma honra imensa e uma realização. Imagino que poucos pilotos recusariam uma oferta como essa." Rayford endireitou-se na cadeira. "Na verdade, não estava pensando dessa maneira. Acho que deveria estar agradecido." Bruce assentiu. "Acho que sim. Vocêqueria um conselho ou apenas alguém para escutá-lo. Naturalmente, orarei junto com você sobre isso." "Gostaria de ouvir um conselho." "Não me sinto em condições de aconselhá-lo, Rayford. Gosto de saber que você prefere ϐicar aqui em Chicago, mas primeiro é preciso saber se essa oportunidade procede de Deus. Também quero ϐicar por aqui, mas sinto que Ele está me encaminhando para viajar, organizar outros pequenos grupos, visitar Israel. Sei que você não vai permanecer aqui só por minha causa, mas..." "Isso também faz parte, Bruce." "Agradeço, mas quem sabe por quanto tempo mais permanecerei aqui?" "Precisamos de você, Bruce. Penso que Deus o mantém aqui por um motivo." "Acho que Chloe lhe contou que estou à procura de mais professores." "Ela me contou. E está empolgada com a possibilidade. E eu estou querendo aprender." "Normalmente a igreja não coloca crentes recém-convertidos na posição de lıd́ eres ou professores, mas agora não existe alternativa. Eu mesmo sou um novo crente. Sei que você seria um bom professor, Rayford. O problema é que não posso deixar de pensar que esta oportunidade de trabalhar com o presidente é a única que vocêdeveria levar a sério. Imagine a inϐluência que você poderia ter sobre o presidente dos Estados Unidos." "Oh, não posso imaginar que o presidente e seu piloto conversem muito entre si, se é que conversam." "Ele não entrevista um novo piloto?" "Duvido." "Vocênão acha que ele vai querer conhecer o homem que tem a sua vida nas mãos todas as vezes que o avião levanta vôo?" "Estou certo de que ele confia nas pessoas que tomam tal decisão." "Porém, com certeza, haverá ocasiões em que vocês conversarão." Rayford deu de ombros. "Talvez." "O presidente Fitzhugh, ϐirme e independente como é, deve estar assustado e procurando explicações como qualquer cidadão comum. Pense no privilégio de falar de Cristo ao lıd́ er do mundo livre." "E depois perder o emprego", disse Rayford. "Certamente vocêterá de escolher o momento certo. O presidente perdeu vários parentes no Arrebatamento. O que ele disse quando foi indagado sobre o assunto? Disse algo como estar certo de que não foi obra de Deus, porque ele sempre acreditou em Deus." "Você está falando desse assunto com tanta naturalidade como se eu fosse aceitar o emprego." "Rayford, não posso tomar decisões em seu lugar, mas você precisa lembrar-se do seguinte: Agora sua lealdade não mais deve ser com esta igreja, com a Força Tribulação ou comigo. Você deve ser leal a Cristo. Se você decidir não aceitar esta oportunidade, precisa ter certeza absoluta de que ela não procede de Deus." Era tıṕ ico de Bruce, pensou Rayford, acrescentar um novo argumento na conversa. "Você acha que devo contar a Chloe ou a Buck?" "Estamos todos juntos nessa história", disse Bruce. "Nesse meio tempo", disse Rayford, "deixe-me extrair algo mais de você. O que vocêacha de um caso amoroso durante este período da história?" De repente, Bruce demonstrou um certo desconforto. "Boa pergunta", ele disse. "Francamente, sei por que vocêestá me perguntando." Rayford duvidou dessa aϐirmação. "Sei o quanto você se sente solitário. Pelo menos tem a companhia de Chloe, mas deve sentir o mesmo vazio doıd́ o que sinto depois de perder minha mulher. Tenho pensado se conseguirei viver sozinho durante os próximos prováveis sete anos. Não gosto da idéia, mas estarei muito atarefado. Para ser franco com você, gostaria de acalentar alguma esperança de que Deus venha a me proporcionar uma companheira. Evidentemente, ainda é cedo demais. Vou chorar a perda de minha mulher por muito tempo, como se ela estivesse morta. Sei que ela está no céu, mas está morta para mim. Há dias em que me sinto tão só que mal consigo respirar." Essa foi a história mais reveladora de Bruce desde que ele contou o motivo de não ter sido arrebatado, e Rayford estava admirado por ser ele quem o instigara. A pergunta tinha sido em relação a Chloe. Ela se apaixonara por Buck e, se o caso não fosse adiante, haveria de encontrar outra pessoa, ou isso seria impróprio em razão dos poucos anos que ainda faltavam até a volta de Cristo? "Sinto uma certa curiosidade em relação à questão de logıśtica", explicou Rayford. "Se duas pessoas se apaixonarem, como deverão proceder? A Bıb́ lia diz alguma coisa sobre o casamento durante este período?" "Não especificamente", respondeu Bruce, "até onde sei. Mas também não proíbe." "E os filhos? Seria prudente a um casal pôr filhos no mundo nesta época?" "Não pensei nisso", disse Bruce. "Você gostaria de ter outro filho nessa idade?" "Bruce! Eu não estou pretendendo me casar novamente. Estou pensando em Chloe. Não estou dizendo que ela tenha alguém em vista, mas se tiver..." Bruce mexeu-se na cadeira. "Imagine ter um bebê agora", ele disse. "Não precisarıá mos pensar sequer em uma educação primária, e muito menos em educação secundária ou faculdade. Terıá mos de criar essa criança, preparando-a para a volta de Cristo dentro de poucos anos." "Estarıá mos também proporcionando a essa criança uma vida de medo e perigo e 75 por cento de probabilidade de ela morrer durante o julgamento que virá." Bruce segurou o queixo com a mão, ϐirmando o cotovelo na mesa. "EƵ verdade", ele disse. "Antes de alguém pensar nisso, eu aconselharia muita cautela, oração e exame de consciência." Buck nunca gostou muito de esperar. Passou os olhos pela estante na ante-sala do escritório de Bruce. Aparentemente era esse o lugar em que o ex-pastor guardava os livros e as obras de referência consultados com menos freqüência. Havia dezenas de livros sobre o Velho Testamento. Buck folheou alguns deles, sem encontrar nada interessante. De repente, viu um álbum de fotograϐias dos crentes daquela igreja datado de dois anos antes. Ali, sob a letra B, havia a foto de um jovem Bruce Barnes, de cabelos bem mais longos. Tinha o rosto um pouco mais cheio, sorriso forçado e estava cercado pela mulher e ϐilhos. Que tesouro Bruce havia perdido! Sua mulher era simpática e roliça, e tinha um sorriso triste, porém autêntico. Na página seguinte havia a fotograϐia do Dr. Vernon Billings, o pastor titular que desaparecera. Parecia ter pouco mais de sessenta anos e estava rodeado de sua pequenina esposa e de três ϐilhos acompanhados dos respectivos cônjuges. O pastor Billings assemelhava-se a Henry Fonda, com profundos pés-de-galinha e rosto enrugado ao sorrir. Parecia um homem que Buck gostaria de ter conhecido. Buck folheou a parte ϐinal do álbum e encontrou os Steeles. Lá estava Rayford com seu uniforme de piloto, parecendo tão bem-apessoado como agora, talvez com menos ϐios de cabelo branco e feições um pouco mais deϐinidas. E Irene. Ele estava vendo sua fotograϐia pela primeira vez. Ela parecia inteligente e animada, e se alguém acreditasse nos excêntricos estudiosos da psicologia das fotos, notaria que ela era mais dedicada ao marido do que vice-versa. Seu corpo inclinava-se em direção do marido. Ele estava sentado com o corpo reto. Rayford Júnior também aparecia na fotograϐia, identiϐicado na legenda como "Raymie, 10 anos". Ele e a mãe tinham asteriscos ao lado de seus nomes. Rayford não tinha. Nem Chloe, que estava relacionada como “18 anos, caloura da Universidade Stanford, Paio Alto, Califórnia (não fotografada)". Buck procurou encontrar o signiϐicado dos asteriscos, que indicavam quem era membro da igreja. Os outros, ele imaginou, eram meros freqüentadores. Buck olhou para seu relógio. Dez para as oito. Olhou pela janela em direção ao estacionamento. O outro carro dos Steeles estava lá, perto dos carros de Rayford, de Buck e de Bruce. Buck colocou a mão na vidraça para enxergar melhor e avistou Chloe sentada ao volante. Dez minutos não seriam suϐicientes para conversarem, mas ele poderia pelo menos cumprimentá-la e acompanhá-la até o escritório da igreja. Assim que Buck apareceu na porta, Chloe saiu do carro e caminhou apressada em direção ao templo. "Ei!" ele gritou. "Oi, Buck", ela disse, sem demonstrar nenhum entusiasmo. "As flores ainda estão na lata do lixo?" ele tentou iniciar a conversa, em busca de uma pista para saber o que se passava com ela. "Para dizer a verdade, estão", ela disse, passando rente a ele e abrindo sozinha a porta. Ele subiu a escada atrás dela, passando pelo vestíbulo até chegar ao escritório da igreja. "Acho que eles ainda não terminaram a conversa", disse Buck, enquanto ela se dirigia à sala de Bruce e batia na porta. Aparentemente Bruce disse a mesma coisa a Chloe, e ela fechou a porta, desculpando-se. Era evidente que Chloe gostaria de estar em qualquer lugar, menos ali, e de olhar para qualquer coisa, menos para ele. Notava-se que ela havia chorado. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Ele desejava ansiosamente conversar com ela. Algo lhe dizia que não se tratava apenas de simples melancolia, um aspecto de sua personalidade com o qual ele já se habituara. Havia algo errado e Buck estava no meio. Tudo o que ele desejava naquele momento era ir a fundo no assunto. Porém, teria de esperar. Chloe sentou-se com os braços e as pernas cruzados, balançando a perna de cima. "Veja só o que encontrei", disse Buck, colocando o álbum da igreja diante de seus olhos. Ela nem sequer estendeu a mão para pegá-lo. "Hum, hum", ela disse. Buck abriu o álbum na letra B e apontou as famıĺias de Bruce e do Dr. Billings. De repente ela abrandou a expressão, pegou o álbum e analisou-o. "A mulher de Bruce", ela disse suavemente. "E veja estas crianças!" "Sua família também está aí", disse Buck. Chloe folheou o álbum lentamente até a letra S, analisando página por página como se estivesse procurando alguém mais que conhecera. "Cursei o segundo grau com ele", disse, sem expressão. "Ela e eu estudamos na mesma classe na quarta série. A Sra. Schultz foi minha primeira professora de educação física." Quando ϐinalmente chegou à página de sua famıĺia, ela se emocionou. Com o rosto contorcido, olhou fixamente para a fotografia, lágrimas rolando pelo rosto. "Raymie aos dez anos de idade", ela conseguiu dizer. Buck pousou a mão instintivamente sobre seu ombro, e ela retesou o corpo. "Por favor, não faça isso." "Desculpe-me", ele disse, e a porta da sala de Bruce abriu-se. "Pronto", disse Rayford, percebendo que Buck parecia embaraçado e que Chloe tinha um aspecto desolador. Ele esperava que a filha ainda não tivesse começado a discutir com Buck. "Papai, olhe", ela disse, levantando-se e mostrando-lhe o álbum. Rayford sentiu um aperto na garganta e inspirou profundamente quando viu a fotograϐia. O suspiro foi dolorido. Era difícil demais. Fechou o álbum e entregou-o a Buck, e ao mesmo tempo ouviu a cadeira de Bruce ranger. "O que vocês estão vendo?" "Isto", disse Buck, exibindo a capa e tentando colocar o álbum de volta na prateleira. Porém, Bruce pegou-o. "Já faz dois anos", complementou Buck. "Cerca de um mês depois que passamos a freqüentar esta igreja", disse Rayford. Bruce abriu o álbum direto na fotograϐia de sua famıĺia, analisou-a por alguns segundos e perguntou: "Você também está aqui, Rayford?" "Sim", respondeu Rayford, e Buck notou que ele tentava conduzir Chloe até o escritório. Bruce virou as páginas até encontrar a fotograϐia dos Steeles e fez um movimento aϐirmativo com a cabeça, sorrindo. Levou o álbum consigo até o escritório, colocou-o sob sua Bíblia e o caderno de anotações, e começou a reunião com uma oração. A princıṕ io Bruce estava um pouco emocionado, porém passou logo ao assunto principal. Folheava a Bıb́ lia de Apocalipse a Ezequiel, depois a Daniel e retomava a seqüência, comparando as passagens proféticas com o que estava acontecendo em Nova York e no restante do mundo. "Algum de vocês ouviu o noticiário de hoje sobre as duas testemunhas em Jerusalém?" Buck balançou negativamente a cabeça, e Rayford fez o mesmo. Chloe não esboçou reação. Também não estava anotando nem fazendo perguntas. "Um repórter disse que um grupo de meia dúzia de assassinos tentou acusar os dois, mas foram todos queimados até morrer." "Queimados?" disse Buck. "Ninguém sabe de onde veio o fogo", disse Bruce, "mas nós sabemos, não é mesmo?" "Sabemos?" "Leia Apocalipse 11. O anjo diz ao apóstolo João: 'Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco. São estas as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra. Se alguém pretende causarlhes dano, sai fogo das suas bocas e devora os inimigos; sim, se alguém pretender causar-lhes dano, certamente deve morrer'." "E saiu fogo da boca deles como se fossem dragões?" "Está escrito aqui", disse Bruce. "Gostaria de ver essa notícia na CNN", disse Buck. "Continue acompanhando", disse Bruce. "Veremos mais do que isto." Rayford perguntou a si mesmo se chegaria a acostumar-se com o que Deus lhe estava revelando. Mal conseguia compreender até onde havia chegado e quanta coisa aceitara em menos de um mês. Havia algo acerca da dramática invasão de Deus na vida da humanidade e especiϐicamente dentro dele próprio que mudara seu modo de pensar. Buck sempre foi um homem que precisava ter tudo documentado e, de repente, passou a crer, sem questionar, nos fatos mais absurdos possıv́ eis, desde que comprovados nas Escrituras Sagradas. E o oposto também era verdadeiro: ele acreditava na Bıb́ lia de capa a capa. Mais cedo ou mais tarde os noticiários transmitiriam a mesma história. Bruce virou-se para Buck. "Como foi o seu dia?" Para Rayford, pareceu uma pergunta de natureza pessoal. "Aconteceu tanta coisa que não dá para lhe contar aqui", disse Buck. "Não brinque", disse Chloe asperamente. Foi a primeira vez que ela se manifestou. Buck olhou de relance para ela e disse: "Vou lhe contar tudo amanhã, Bruce, e à noite discutiremos o assunto aqui." "Oh, é melhor você falar agora", disse Chloe. "Somos todos amigos." Rayford gostaria de poder mandar a ϐilha calar a boca, mas ela já era adulta. Se Chloe desejasse exigir uma explicação, qualquer que fosse, a prerrogativa era dela. "Você nem sequer sabe onde estive hoje", disse Buck dirigindo-se a ela e demonstrando espanto. "Mas sei com quem você esteve." Rayford notou o olhar de Buck em direção a Bruce, mas não entendeu. Evidentemente, algo transpirara entre ambos que não era do conhecimento de todos. Teria ele contado a Chloe que Buck esteve com Carpathia? "Você..." Bruce balançou a cabeça. "Acho que você não sabe, Chloe", disse Buck. "Vou discutir o assunto com Bruce amanhã, e à noite contarei a vocês e oraremos juntos." "Ah, sim, claro", disse Chloe. "Mas eu tenho uma pergunta e um pedido de oração para esta noite." Bruce olhou para seu relógio. "Está bem, diga." "Gostaria de saber o que você pensa a respeito de um relacionamento amoroso nesta época." "Você é a segunda pessoa que me faz a mesma pergunta hoje", disse Bruce. "Devemos viver sozinhos." Chloe riu com desdém e olhou zangada para Buck. Ela deve estar pensando que foi Buck quem fez essa pergunta antes a Bruce, Rayford pensou. "EƵ melhor deixar este assunto para ser discutido especiϐicamente em uma de nossas reuniões", disse Bruce. "Que tal na próxima reunião?" pressionou Chloe. "Tudo bem. Conversaremos sobre esse assunto amanhã à noite." "E vocêpoderia acrescentar quais são as regras para a conduta moral dos novos crentes?" perguntou Chloe. "Como assim?" "Fale de como deve ser a nossa vida, agora que somos seguidores de Cristo. Você sabe, assuntos relacionados à moral, sexo, essas coisas." Buck estremeceu. Chloe não parecia a mesma. "Está certo", disse Bruce. "Poderemos abranger tudo isso. Mas não haverá grandes novidades, porque as mesmas regras que se aplicavam antes do Arrebatamento continuam a prevalecer. Não terei muito mais a acrescentar. Somos chamados a levar uma vida pura, e estou certo de que vocês não se surpreenderão..." "Talvez não seja tão óbvio para todos nós", disse Chloe. "Trataremos do assunto amanhã à noite", disse Bruce. "Alguma coisa mais para hoje?" Antes que alguém respondesse ou se oferecesse para encerrar a reunião com uma oração, Chloe disse: "Não. Até amanhã." E saiu. Os três homens oraram e a reunião terminou de maneira estranha. Conforme Carpathia dissera, ninguém quis falar sobre o elefante na sala. Buck voltou para casa frustrado. Não estava acostumado a deixar assuntos sem resolver, e o que mais o enfurecia era não saber sequer o que estava errado. Trocou a roupa de viagem por calça caqui, camisa de brim, botas de passeio e jaqueta de couro. Telefonou para os Steeles. Rayford atendeu e depois de alguns minutos retornou dizendo que Chloe estava ocupada. Buck estava apenas adivinhando, mas pareceu que Rayford se sentia tão frustrado com Chloe quanto ele. "Rayford, ela está aí perto?" "Correto." "Você tem idéia de qual é o problema dela?" "Não totalmente." "Quero ir até o fim", disse Buck. "Concordo." "Ainda esta noite." "Positivo. Com certeza. Você poderá tentar falar com ela amanhã." "Rayford, você está me dizendo que posso ir até aí agora?" "Sim, você está certo. Não posso prometer que ela estará aqui, mas tente novamente amanhã." "Então se eu for até aí agora, não haverá problema?" "Absolutamente. Aguardaremos sua ligação amanhã." "Estou a caminho." "Está bem, Buck. Conversaremos amanhã." Rayford não gostava de enganar Chloe. Foi quase uma mentira. Mas divertiu-se com a brincadeira entre ele e Buck. Lembrou-se de um pequeno desentendimento que teve no passado com Irene a respeito de um encontro. Ela ficou muito aborrecida por alguma coisa insignificante e pediu-lhe que não a procurasse até segunda ordem. Ele obedeceu, e ela se zangou. Rayford não sabia o que fazer, mas sua mãe lhe deu um conselho. "Vá atrás dela e agrade-a. Ela o repeliu uma vez, mas se ϐizer o mesmo depois que vocêa procurar novamente, então o assunto é sério. Talvez ela esteja confusa, mas no fundo, se conheço bem as mulheres, ela vai gostar que vocêa procure e demonstre que não quer abandoná-la." E assim, de certa maneira, ele estimulara Buck a fazer o mesmo com Chloe. Ainda não havia um relacionamento sério entre eles, mas Rayford imaginou que ambos gostariam que houvesse. Ele não tinha idéia do que aquela outra mulher representava na vida de Buck, porém estava certo de que, se o amigo forçasse uma explicação, Chloe o encurralaria até descobrir a verdade. Se Buck estivesse morando com alguém, isso seria um problema para Rayford, para Bruce e também para Chloe. Contudo, Chloe não tinha provas suficientes. "Então ele vai tentar me ligar amanhã?" indagou Chloe. "Foi o que lhe recomendei." "Como ele reagiu?" "Estava à procura de uma explicação." "Você foi bem claro." "Tentei ser." "Vou dormir". "Não seria melhor conversarmos um pouco?" "Estou cansada, papai. Já esgotei o assunto", ela disse, dirigindo-se para a escada. Rayford deteve-a. "Então, você vai atender a ligação dele amanhã, certo?" "EƵ improvável. Antes quero ver qual será a reação dele diante do que Bruce vai falar amanhã à noite." "Como você acha que ele reagirá?" "Papai! Como posso saber? Só sei é o que vi hoje cedo. Agora deixe-me dormir." "Eu queria apenas ouvir mais sobre isso, querida. Converse comigo." "Conversaremos amanhã." "Bem, vocêgostaria de conversar comigo agora se eu falasse de mim e de minha situação no emprego ao invés de falar sobre você e Buck?" "Uma coisa não tem nada a ver com outra, papai. Minha resposta é não. Preϐiro conversar outra hora, a menos que você esteja sendo despedido ou mudando de emprego ou outra coisa parecida." Rayford sabia que poderia prender a atenção da ϐilha contando o que lhe acontecera naquele dia, desde o bilhete de Hattie, o vexame de ter sido acusado falsamente até a reunião com Earl Halliday. Rayford estava propenso a falar sobre o assunto, mas a filha não demonstrava disposição de ouvir. "Você me ajudaria a arrumar a cozinha?" "Papai, a cozinha está perfeitamente em ordem. Qualquer coisa que você queira que eu faça, será feita amanhã, certo?" "O marcador de tempo da cafeteira já está programado para amanhã cedo?" "Está programado há muito tempo, papai. O que há com você?" "Estou apenas me sentindo um pouco solitário. Ainda não estou disposto a dormir." "Se você preferir que eu ϐique aqui um pouco mais, ϐicarei, papai. Mas por que você não liga a TV para relaxar um pouco?" Rayford não tinha mais argumentos para deter a ϐilha. "Está bem. Ficarei aqui na sala de estar com a TV ligada, está bem?” Ela dirigiu-lhe um olhar astuto e respondeu no mesmo tom. "E eu ϐicarei lá em cima no meu quarto com a luz apagada, tá?" Ele assentiu. Ela balançou a cabeça. "Agora que já dissemos tudo um ao outro e sabemos onde cada um de nós estará e o que vai fazer, você me dá licença?" "Sinta-se à vontade." Rayford aguardou Chloe começar a subir a escada e acendeu a lâmpada da varanda. Buck conhecia a região e o endereço, mas não havia estado ali antes. O noticiário na TV estava terminando e havia apenas alguns programas de entrevista, mas Rayford não prestou muita atenção. Estava sentado ali apenas para passar o tempo. Olhou através das cortinas, procurando avistar o carro de Buck. "Papai!" gritou Chloe do alto da escada. "Você poderia abaixar um pouco o som? Ou então ver o programa em seu quarto?" "Vou abaixar o som", ele disse, enquanto um carro subia a rampa com os faróis acesos iluminando a sala. Antes de abaixar o som, ele correu até a porta e interceptou Buck antes que ele tocasse a campainha. "Vou subir a escada para me deitar", ele cochichou. "Aguarde alguns instantes antes de tocar a campainha. Estarei debaixo do chuveiro, e ela vai precisar atender a porta." Rayford trancou a porta, desligou a TV e subiu a escada. Ao passar pelo quarto de Chloe, ela disse: "Papai, você não precisava ter desligado a TV. Bastava ter reduzido o volume." "Está tudo bem", ele disse. "Vou tomar uma ducha e me deitar." "Boa noite, papai." "Boa noite, Chio." Rayford entrou no boxe do banheiro da suıt́ e, sem ligar o chuveiro, deixando a porta aberta. Assim que ouviu o toque da campainha, abriu a torneira. Ouviu Chloe gritar: "Papai! Há alguém batendo à porta!" "Estou debaixo do chuveiro!" "Oh, papai!" Foi uma grande idéia! pensou Buck, impressionado por Rayford ter conϐiado nele a ponto de deixá-lo conversar com Chloe apesar de ela ter demonstrado estar aborrecida com ele. Aguardou alguns instantes e tocou novamente a campainha. Ela gritou: "Um momento, estou indo!" O rosto de Chloe apareceu na janelinha no meio da porta. Ela revirou os olhos. "Buck!" ela disse, com a porta fechada. "Ligue para mim amanhã, está bem? Eu já estava deitada!" "Preciso conversar com você!" disse Buck. "Não agora." "Sim, agora", ele disse. "Não vou sair daqui até você conversar comigo." "Não vai sair?" "Não, não vou." Chloe não levou essas palavras em consideração. A luz da varanda apagou-se e ele ouviu os passos dela subindo a escada. Não podia acreditar. Ela era mais durona do que ele imaginara. Mas depois de dizer que não ia sair dali, ele não podia voltar atrás. Buck era um homem de palavra. Talvez a palavra obstinado fosse mais adequada. E foi isso que o levou a ser o jornalista que era. Ele ainda não se livrara da saudade que sentiu de Chloe naquela tarde em Nova York. Decidiu que esperaria por ela ali fora. Ficaria na varanda até ela se levantar na manhãseguinte, se fosse necessário. Buck sentou-se no último degrau da escada da varanda com as costas para a porta, encostando-se em um dos imponentes pilares. Chloe poderia vê-lo sentado ali se voltasse para veriϐicar. Provavelmente ela ϐicaria atenta para ouvir o barulho do motor do carro, mas não ouviria nada. "Papai!" gritou Chloe da porta do quarto de Rayford. "Você já terminou seu banho?" "Ainda não! O que houve?" "Buck Williams está lá fora, e disse que não vai embora!" "O que você quer que eu faça?" "Livre-se dele!" "Livre-se você dele! O problema é seu!" "Você é meu pai! É dever seu!" "Ele molestou você? Ameaçou você?" "Não! Vá agora até lá, papai." "Eu não quero que ele vá embora, Chloe! Se você quiser, dispense-o." "Vou dormir!" ela disse. "Eu também!" Rayford desligou o chuveiro e ouviu Chloe bater a porta do quarto dele. E depois a do quarto dela. Será que ela ia dormir deixando Buck na varanda? Buck ϐicaria ali? Rayford foi até a porta do quarto na ponta dos pés e abriu-a o suϐiciente para poder observar a ϐilha. A porta do quarto dela permanecia fechada. Rayford deitou-se e ϐicou imóvel, ouvindo e contendo-se para não dar uma gargalhada. Havia sido incluıd́ o na lista dos candidatos a piloto do presidente dos Estados Unidos, e agora lá estava ele, espreitando a própria ϐilha. Fazia semanas que não se divertia tanto. Buck não se deu conta do frio da noite até ϐicar encostado durante alguns minutos naquele pilar gelado. Sua jaqueta de couro fez um ruıd́ o quando ele se movimentou, levantando a gola para proteger o pescoço. O cheiro do couro o fez lembrar de vários lugares no mundo, onde ele arrastara sua velha jaqueta, fugindo de bombardeios. Por diversas vezes ele pensou que morreria dentro dela. Buck esticou as pernas e colocou um pé sobre o outro, percebendo o quanto estava cansado. Se tivesse de dormir na varanda, dormiria. De repente, no silêncio da noite, ele ouviu um leve rangido nos degraus da escada interna. Chloe estava descendo devagar para ver se ele ainda continuava ali. Se fosse Rayford, os passos seriam mais ϐirmes e mais barulhentos. Rayford provavelmente lhe diria para desistir e voltar para casa, que seria melhor lidar com o problema no dia seguinte. Buck ouviu o piso de madeira ranger perto da porta. Para impressionar Chloe, encostou a cabeça no pilar e ajeitou o corpo como se estivesse cochilando. O som dos passos na escada interna aumentou de intensidade. E agora? Rayford ouvira Chloe abrir a porta do quarto e dirigir-se para a escada no escuro. Agora, ela estava voltando. Abriu a porta do quarto com força e deu um tapa no interruptor de luz. Rayford inclinou um pouco o corpo e, minutos depois, viu a ϐilha apagar a luz e sair do quarto. Tinha o cabelo preso no alto da cabeça e usava um roupão longo de veludo. Depois de acender a luz no alto da escada, ela desceu com determinação. Se Rayford tivesse o poder de adivinhar, diria que ela não despacharia Buck. Buck viu sua própria sombra no gramado e percebeu que havia uma luz atrás de si, mas não quis parecer nem muito conϐiante nem muito ansioso. Permaneceu imóvel, como se estivesse dormindo. A porta foi destravada e aberta, porém ele não ouviu mais nenhum outro som. Movimentou os olhos sorrateiramente. Aparentemente ela o estava convidando para entrar. Já que cheguei até este ponto, pensou Buck, não vou parar. Continuou na posição anterior, de costas para a porta. Instantes depois, ele ouviu Chloe caminhando ϐirme novamente até a porta de entrada da casa. Abriu apenas a porta de proteção contra chuva e frio e disse: "O que você deseja, um convite impresso em alto relevo?" "O que...?" disse Buck, fingindo ter levado um susto e virando-se para ela. "Já amanheceu?" "Engraçadinho. Venha até aqui. Você tem dez minutos." Ele se levantou para entrar na casa, mas Chloe soltou com força a porta de proteção e sentou-se na ponta do sofá na sala de estar. Buck empurrou a porta e entrou. "Está tudo bem", ele disse. "Não vou demorar." "A visita foi idéia sua, não minha", ela disse. "Perdoe-me por não tratá-lo como um convidado." Chloe sentou-se em cima dos pés e com os braços cruzados, como se estivesse concedendo com relutância alguns minutos de seu tempo a Buck. Ele colocou sua jaqueta em cima de uma espreguiçadeira e arrastou o banquinho, sentando-se diante de Chloe. Permaneceu ali olhando firme para ela, como se estivesse pensando por onde começar. "Não estou vestida de modo adequado para receber visitas", ela disse. "Você é linda, não importa a roupa que esteja usando." "Poupe-me desses comentários", ela disse. "O que você quer?" "Na verdade, gostaria de ter-lhe trazido ϐlores quando soube que as suas estão na lata do lixo." "Você acha que eu estava brincando?" perguntou ela, apontando para um canto da sala. Ele virou-se e olhou. De fato, havia ali um enorme buquê que mal cabia na lata do lixo. "Não achei que era brincadeira", disse Buck. "Só achei que você estava usando uma linguagem figurada que não consegui entender." "Do que você está falando?" "Quando você me disse que as ϐlores estavam na lata do lixo, pensei que fosse um tipo de expressão que eu nunca tinha ouvido antes, mais ou menos como 'o gato está escondido com o rabo de fora' ou 'águas passadas não movem moinho'." "Eu disse que as ϐlores estavam na lata do lixo, e estão. Eu disse exatamente o que aconteceu, Buck." Buck sentiu-se perdido. Os dois pareciam estar representando papéis diferentes, e ele nem sequer sabia se os papéis se referiam ao mesmo texto. "Hã, você poderia me dizer por que as flores estão na lata do lixo? Talvez isso ajude a esclarecer as coisas para mim." "Porque eu não quis as flores." "Oh, que tolo eu sou. Faz sentido. E vocênão quis as ϐlores porque..." Ele parou e balançou a cabeça, esperando que ela concluísse a frase. "Fiquei ofendida por saber de onde vieram." "E de onde vieram?" "Está bem, por saber de quem vieram." "E vieram de quem?" "Oh, Buck, francamente! Não tenho tempo nem disposição para isso." Chloe fez um movimento para levantar-se e, de repente, Buck ϐicou zangado. "Chloe, espere um pouco." Ela voltou a sentar-se com os braços cruzados, demonstrando desassossego. "Você me deve uma explicação." "Não, você me deve uma explicação." Buck suspirou. "Explicarei o que vocêquiser, Chloe, mas chega de brincadeira. Ficou claro que estávamos sentindo atração um pelo outro, e sei que não demonstrei tanto interesse por você na sexta-feira à noite, mas hoje percebi..." "Hoje cedo", ela interrompeu, lutando contra as lágrimas, "eu descobri por que você pareceu perder o interesse por mim de repente. Vocêestava se sentindo culpado por não ter me contado tudo, e se acha que essas flores serviram para reparar alguma coisa..." "Chloe! Vamos falar sério! Eu não tenho nada a ver com essas flores." Desta vez, Chloe não soube o que dizer. Chloe permaneceu sentada, olhando com ceticismo para Buck. "Não foi você?" ela disse finalmente. Ele balançou a cabeça. "Talvez você tenha outro admirador." "Ah, sim", ela disse. "Outro? Então tenho dois?" Buck estendeu as mãos na direção dela. "Chloe, com certeza houve um mal-entendido." "Com certeza." "Vocêpode me chamar de presunçoso, mas tive a impressão de que houve uma espécie de atração entre nós a partir do momento em que nos conhecemos." Ele fez uma pausa, aguardando uma reação. Ela assentiu. "Nada sério, mas achei que gostamos um do outro." "E eu estava a seu lado no avião quando você orou com seu pai", ele disse. Ela fez um leve movimento afirmativo com a cabeça. "Foi um momento especial", prosseguiu Buck. "Foi", ela concordou. "Em seguida, passei por sérias provações e não via a hora de voltar para cá e lhe contar tudo." A boca de Chloe tremeu levemente. "Foi a história mais incrıv́ el que já ouvi, Buck, e não duvidei de você em nem um momento sequer. Eu sabia que você estava sofrendo muito, mas achei que existia um vínculo entre nós." "Eu não sabia que nome dar a isso", disse Buck, "mas, conforme lhe contei em meu bilhete naquele domingo, senti atração por você." "Aparentemente, não só por mim." Buck não sabia o que dizer. "Não só por você?" repetiu. "Prossiga com seu discurso." Discurso? Então ela pensa que é um discurso? E pensa que existe alguém mais? Fazia anos que não havia nenhuma pessoa especial! Buck sentiu um vazio dentro de si e pensou em desistir, mas decidiu que valia a pena lutar por ela. Desorientada, tirando conclusões precipitadas por algum motivo; mesmo assim valia a pena lutar por ela. "Entre domingo e sexta-feira à noite pensei muito em nós dois." "Mais essa agora", disse Chloe, arrasada novamente. O que ela achava? Que ele estava disposto a dormir na varanda só para lhe jogar na cara, depois que ela o deixasse entrar, que havia outra pessoa em sua vida? "Acho que não me ϐiz entender bem na sexta-feira à noite", ele disse. "Não foi bem isso. Eu estava me afastando." "Não havia muito do que se afastar." "Mas estávamos começando a nos envolver, não é mesmo?" disse Buck. "Vocênão achou que a situação ia progredir?" "Claro. Até sexta-feira à noite." "Fico um pouco constrangido por admitir isso...", ele disse com hesitação. "E deveria estar". "...mas percebi que estava sendo muito arrojado, tendo em vista o pouco tempo que nos conhecemos, sua idade e..." "Então é isso. O problema não é a sua idade, é a minha." "Sinto muito, Chloe. O problema não é a sua idade nem a minha. O problema é a diferença de idades. Quando me dei conta de que teremos só sete anos pela frente, a diferença de idades deixou de ser problema. Mas continuei confuso. Pensei em nosso futuro, como ϐicaria nosso relacionamento, apesar de não termos ainda um relacionamento." "E não vamos ter, Buck. Não quero reparti-lo com outra pessoa. Se existe um futuro para nós, precisa haver exclusividade e... ora, não faça caso. Aqui estou eu falando de coisas que nenhum de nós sequer chegou a considerar antes." "Aparentemente consideramos", disse Buck. "Acabei de dizer isso e parece que você também andou pensando um pouco para frente." "Não, desde hoje cedo." "Chloe, vou ter de perguntar-lhe uma coisa e não quero ser mal interpretado. Talvez eu possa parecer um pouco condescendente, até mesmo paternal, e não quero que seja assim." Ela empertigou-se no sofá, como se esperasse ser repreendida. "Vou lhe pedir que não diga nada por alguns instantes, está bem?" "Como assim?" ela indagou, surpresa. "Não terei permissão para falar?" "Não foi o que eu disse." "Foi o que você acabou de dizer." Buck não conseguia controlar a voz. Sabia que seu olhar e tom de voz eram ásperos, mas tinha de fazer alguma coisa. "Chloe, você não está me ouvindo com atenção. Não está me deixando dizer tudo o que penso. Existe algum equıv́ oco e não sei do que se trata. Não tenho condições de me defender contra mistérios e fantasias. Você continua a dizer que não quer me repartir com ninguém. Existe algo que você queira me perguntar ou me acusar antes que eu possa prosseguir?"


C A P Í T U L O 9 

Rayford, que estava deitado quieto e quase prendendo a respiração para tentar ouvir a conversa, entendeu muito pouco do que eles diziam até Buck levantar a voz. Rayford gostou do que ouviu. Chloe também levantou a voz. "Quero saber se existe outra pessoa em sua vida antes que eu comece a pensar... oh, Buck, do que estamos falando? Será que não existem muitas outras coisas mais importantes para pensarmos neste momento?" Rayford não entendeu a resposta sussurrada de Buck e desistiu. Foi até a porta do quarto e gritou: "Será que dá para vocês falarem mais alto ou então só cochicharem? Se eu não , ...conseguir ouvir, vou dormir!" "Vá dormir, papai!" disse Chloe. Buck sorriu. Chloe também estava contendo o riso. "Chloe, passei o ϐim de semana inteiro pensando em todas as 'coisas mais importantes' que precisamos pensar. Quase decidi propor-lhe que continuássemos bons amigos... até o momento em que eu estava sentado naquele escritório hoje à tarde e senti sua presença a meu lado." "Sentiu minha presença? Você me viu no escritório do Semanário Global?" "Escritório do Semanário Global. Do que você está falando?" Chloe hesitou. "Bem, de qual escritório você estava falando?" Buck fez um trejeito com a boca. Não tinha planejado falar de sua reunião com Carpathia. "Vamos falar disso depois de terminarmos este assunto. Eu estava dizendo que de repente senti um desejo enorme de ver você, conversar com você, voltar para você." "Voltar de onde? Ou voltar de quem, eu deveria perguntar." "Bem, prefiro não falar desse assunto até que você esteja preparada para ouvi-lo." "Estou preparada, Buck, porque já sei de tudo." "Como você soube?" "Porque estive lá!" "Chloe, se vocêfoi até a sucursal de Chicago, então sabe que não estive lá o dia todo, isto é, a não ser logo cedo." "Então você esteve lá." "Só passei por lá para deixar as chaves com Alice." "Alice? É este o nome dela?" Buck assentiu, completamente perdido. "Qual é o sobrenome dela, Buck?" "O sobrenome? Não sei. Sempre a chamei de Alice. Ela é nova na empresa. Substituiu a secretária de Lucinda, que desapareceu." "Você quer que eu acredite que não sabe o sobrenome dela?" "Que motivos eu teria para mentir? Você a conhece?" Os olhos de Chloe perscrutaram os dele. Buck ϐinalmente percebeu que ela estava tentando chegar a um ponto qualquer, mas ele ainda não descobrira qual era. "Não posso afirmar que a conheço", disse Chloe. "Apenas conversei com ela, só isso." "Você conversou com Alice", ele repetiu, tentando juntar as peças. "Ela me disse que vocês estão noivos." "Oh, ela não disse!" gritou Buck, acalmando-se em seguida e olhando em direção à escada. "Do que você está falando?" "Estamos falando da mesma Alice, não estamos?" perguntou Chloe. "Magra, cabelos escuros espetados, saia curta, funcionária do Semanário Global, não é mesmo?" "EƵ ela", respondeu Buck, balançando a cabeça aϐirmativamente. "Mas você não acha que eu deveria saber o sobrenome dela se estivéssemos noivos? E mais, isso seria uma grande novidade para o noivo dela." "Então ela está noiva, mas não de você?" disse Chloe, demonstrando um ar de dúvida. "Alice me contou por alto que ia buscar seu noivo hoje, não sei onde", ele disse. Chloe parecia abalada. "Você se importaria de me dizer o que aconteceu enquanto esteve no Semanário e conversou com ela? Estava à minha procura?" "Para ser franca, estava", respondeu Chloe. "Eu a tinha visto antes e ϐiquei surpresa ao vê- la no Semanário." "Conforme eu já lhe disse, Chloe, não estive lá hoje." "Onde você esteve?" "Eu perguntei primeiro. Onde você viu Alice pela primeira vez?" Chloe respondeu em tom de voz tão baixo que Buck precisou inclinar a cabeça para ouvir. "Em seu apartamento." Buck endireitou-se na cadeira. Agora estava tudo explicado. Sentiu vontade de rir, mas pobre Chloe! Lutou para permanecer sério. "Foi culpa minha", ele disse. "Eu convidei vocêpara me visitar, meus planos mudaram e eu não lhe contei." "Ela tinha as chaves do apartamento", sussurrou Chloe. Buck balançou a cabeça, demonstrando compreensão. "Eu entreguei as chaves a Alice para ela levar para meu apartamento alguns equipamentos que chegaram no escritório. Precisei viajar para Nova York hoje." A frustração de Buck em relação a Chloe transformou-se em compaixão. Ela não conseguia ϐitá-lo nos olhos, e estava prestes a romper em prantos. "Então não foi você quem enviou as flores", ela disse em voz baixa. "Se eu achasse que deveria fazer isso, teria feito." Chloe descruzou os braços e cobriu o rosto com as mãos. "Buck, estou tão envergonhada", ela lamentou, soluçando em seguida. "Não tenho como me desculpar. Fiquei aborrecida depois da sexta-feira à noite e fiz um cavalo de batalha por nada." "Eu não sabia que você se importava tanto comigo", disse Buck. "Claro que me importava. Mas agora não posso esperar que você compreenda ou me perdoe por eu ter sido tão, tão... oh, se você não quiser me procurar mais, vou entender." Ela ainda escondia o rosto. "EƵ melhor você ir embora", complementou. "Eu não estava com boa aparência quando você chegou, e com certeza não estou agora." "Vocêconcorda que eu durma na varanda? Eu gostaria de estar aqui quando sua aparência estiver melhor." Ainda com as mãos no rosto banhado em lágrimas, ela olhou para ele por entre os dedos e sorriu. "Você não precisa fazer isso, Buck." "Chloe, lamento muito. Causei todo esse mal-entendido por não tê-la avisado sobre minha viagem." "Não, Buck. A culpa foi toda minha, e peço-lhe desculpas." "Está bem", ele disse. "Você me pediu desculpas e está desculpada. Podemos encerrar o assunto?" "Isso só vai me fazer chorar ainda mais." "O que eu deveria fazer?" "Você está sendo tão compreensivo!" "Eu não posso vencer sozinho!" "Você me daria um minuto? " Chloe pulou do sofá e subiu correndo a escada. Depois de pedir que os dois falassem mais alto ou apenas cochichassem, Rayford sentou-se no alto da escada, fora do ângulo de visão de ambos. Quando tentou sair dali para esgueirar-se até seu quarto, deu de encontro com Chloe. "Papai!" ela cochichou. "O que você está fazendo?!" "Ouvindo às escondidas. O que você acha disso?" "Que comportamento horrível!" "O meu, horrıv́ el? Veja o que vocêfez a Buck! Mandando o indivıd́ uo para a forca antes de ser julgado." "Papai, fui uma tola." "Foi apenas um equıv́ oco engraçado, querida. Conforme Buck disse, só serviu para mostrar o quanto você se importa com ele." "Você sabia que ele viria?" Rayford assentiu com a cabeça. "Esta noite? Você sabia que ele viria esta noite?" "Reconheço minha culpa." "E você me fez abrir a porta." "Pode me matar." "É o que eu deveria fazer." "Não, você deveria me agradecer." "Claro. Agora vocêpode ir dormir. Vou trocar de roupa e ver se Buck me convida para um passeio." "Então, você está dizendo que não posso ir junto? Nem mesmo acompanhar à distância?" Buck ouviu cochichos no pavimento superior, e depois o barulho de água correndo e do abrir e fechar de gavetas. Chloe desceu a escada trajando calça jeans, camiseta, jaqueta com capuz e tênis. "Você quer ir embora ou dar um passeio?" ela perguntou. "Você não vai me dar um pontapé depois de tudo o que aconteceu?" "Precisamos conversar em outro lugar para que papai possa dormir." "Ele ficou acordado por nossa causa?" "Mais ou menos." Depois de ouvir a porta da frente fechar-se, Rayford ajoelhou-se ao lado da cama. Orou para que Chloe e Buck se dessem bem, independentemente do que o futuro lhes reservava. Mesmo que viessem a ser apenas bons amigos, ele seria grato. Ajeitou-se na cama e dormiu um sono leve e agitado, aguardando a volta de Chloe e orando a respeito da oportunidade que lhe fora oferecida naquele dia. A noite estava fria, porém clara por volta da meia-noite. "Buck", disse Chloe assim que viraram a esquina e atravessaram a elegante subdivisão de Arlington Heights, "gostaria apenas dizer novamente como..." Buck parou e tocou na manga da jaqueta de Chloe. "Chloe, não faça isso. Temos só sete anos. Não podemos viver no passado. Nós dois erramos neste ϐim de semana e já nos desculpamos, portanto vamos encerrar o assunto." "Sério?" "Com certeza." Continuaram a caminhar. "Claro que vou precisar descobrir quem lhe enviou as flores." "Já pensei nisso, e desconfio de uma pessoa." "Quem?" "É um pouco constrangedor, porque a culpa também deve ter sido minha." "Seu ex-namorado?" "Não! Eu já lhe contei antes, Buck. Namoramos quando eu era caloura e ele estava no último ano. Ele se formou e nunca mais o vi. Ele se casou." "Então não deve ter sido ele. Há outros rapazes em Stanford que gostariam que você voltasse a estudar lá?" "Ninguém que tenha o hábito de enviar flores." "Seu pai?" "Ele já negou." "Quem resta?" "Pense um pouco", disse Chloe. Buck semicerrou os olhos e pensou. "Bruce!? Oh, não, você não está pensando...?" "Quem mais poderia ser?" "Você lhe deu algumas esperanças?" "Não sei. Gosto muito dele e o admiro. Sua integridade me comove, e ele é muito fervoroso e sincero." "Eu sei, e ele se sente sozinho. Porém, faz apenas algumas semanas que perdeu a famıĺia. Não posso imaginar que tenha sido ele." "Eu costumo dizer-lhe que gosto de suas mensagens", disse Chloe. "Talvez eu tenha demonstrado mais amizade do que deveria. Só que nunca pensei nele dessa maneira, você entende?" "E por que não? Ele é um sujeito jovem e inteligente." "Buck! Ele é mais velho que você!" "Não muito. "Sim, mas você está chegando bem perto da idade máxima que considero adequada para mim." "Muito obrigado! Quanto tempo ainda resta até você me despachar?" "Ora, Buck, que situação constrangedora! Necessito de Bruce como amigo e como mestre!" "Você tem certeza de que não existe algo mais?" Ela balançou a cabeça negativamente. "Nunca pensei nisso. Não que ele não seja atraente, mas não posso sequer imaginar que existe algo mais. Bruce me convidou para trabalhar com ele, tempo integral. Jamais imaginei que pudesse haver outro motivo." "Não tire conclusões precipitadas, Chloe." "Sou exímia nisso, não sou?" "Você está perguntando para a pessoa errada." "O que devo fazer, Buck? Não quero magoar Bruce. Não posso dizer essas coisas a ele. Você sabe que tudo isso deve ser uma reação por causa das perdas que ele sofreu. Talvez uma reação emocional." "Não posso imaginar o que significa perder uma esposa", disse Buck. "E os filhos." "Ah, sim." "Você me disse certa vez que nunca teve um caso sério com ninguém." "Correto. Quero dizer, duas vezes pensei que isso tivesse acontecido, mas agi com precipitação. Uma garota, que estava um ano na minha frente no curso de pós-graduação, me deu o fora porque eu era muito lerdo para me aproximar dela." "Não!" "Acho que sou um pouco antigo nessas coisas." "Isso é animador." "Perdi logo o interesse por ela." "Posso imaginar. Então você não foi um típico aluno de faculdade?" "Quer saber a verdade?" "Não sei. Devo?" "Depende. Vocêprefere ouvir que eu tive todos os tipos de experiência porque sou um cara legal, ou que sou virgem?" "Você vai me dizer só o que eu quero ouvir?" "Vou lhe dizer a verdade. Eu só quero saber antecipadamente o que você gostaria de ouvir." "Experiente ou virgem", repetiu Chloe. "Isso é fácil. Definitivamente o último." "Acertou", disse Buck suavemente, mais por constrangimento do que por desejo de contar vantagem. "O quê!" exclamou Chloe. "Isso é motivo de orgulho hoje em dia." "Devo dizer que sinto mais gratidão do que orgulho. Meus motivos não foram tão puros como podem parecer hoje. Isto é, sei que teria sido errado andar por aı́dormindo de cama em cama, mas não foi por moralidade que me abstive disso. Quando surgiram oportunidades, eu não estava interessado. Estava tão concentrado nos estudos e em meu futuro que foram poucas as oportunidades. A verdade é que as pessoas sempre pensaram que eu viajava de um lado para outro porque tinha um caso em cada lugar. Mas eu era um tıḿ ido quando se tratava dessas coisas. Uma espécie de conservador." "Você está arrumando desculpas." "Talvez. Não foi minha intenção. EƵ um pouco constrangedor chegar a essa idade totalmente inexperiente. Em outros assuntos, sempre estive adiante de minha geração." "Essa é uma forma atenuada de se expressar", disse Chloe. Vocêacha que Deus o protegia, mesmo antes de sua conversão?" "Nunca pensei no assunto dessa maneira, mas pode ter sido. Nunca precisei preocupar-me com problemas de natureza emocional que acompanham os relacionamentos amorosos entre duas pessoas." Buck esfregou a nuca, consciente de seu gesto. "Isso o constrange, não?" perguntou Chloe. "Sim, um pouco." "Então suponho que você prefere ignorar se tenho ou não experiência sexual." Buck fez trejeito com a boca. "Sim, se você não se importar. Veja, tenho apenas trinta anos e me sinto um homem ultrapassado quando você usa a palavra... sexo. Portanto, talvez seja melhor você me poupar disso." "Mas Buck, e se nosso relacionamento for adiante? Você não vai ficar curioso?" "Talvez eu lhe faça essa pergunta na ocasião." "E se então você já estiver loucamente apaixonado por mim e vier a descobrir algo que não consegue aceitar?" Buck sentiu vergonha de si mesmo. Era difıć il admitir sua virgindade a uma mulher, uma vez que isso o enquadrava dentro de uma pequena minoria no mundo. Mas Chloe era muito direta, muito franca. Buck não queria falar sobre o assunto, ouvir explicações, principalmente se ela fosse mais "experiente" do que ele. E, mesmo assim, ela era objetiva. Parecia se sentir mais à vontade ao falar do futuro de ambos, mas havia sido ele quem decidira levar adiante o relacionamento. Em lugar de responder à pergunta de Chloe, ele simplesmente deu de ombros. "Vou desvendar o mistério", disse Chloe. "Meus namoricos durante curso secundário e, especiϐicamente, meu namoro nos tempos de caloura na Stanford, nunca foram exemplos de decoro. Era assim que minha mãe se referia a essas coisas. Mas tenho a satisfação de dizer que nunca ϐizemos sexo. Talvez tenha sido por esse motivo que meus namoros nunca foram adiante." "Chloe, gostei do que você disse, mas poderíamos falar sobre um outro assunto?" "Você é um cara esquisito, não?" "Acho que sim." Buck corou. "Sou capaz de entrevistar chefes de estado, mas esse tipo de conversa franca é novidade para mim." "Vamos, Buck, você costuma ouvir isso e coisas muito piores todos os dias nos programas de entrevistas." "Mas você não está incluıd́ a na categoria de uma convidada a um programa de entrevistas." "Sou muito grosseira?" "Apenas não estou acostumado a esse tipo de conversa e não me saio bem." Chloe deu uma risadinha. "Existe a probabilidade de haver duas pessoas solteiras nos Estados Unidos passeando à meia-noite, sendo ambas virgens?" "Principalmente depois que os cristãos foram arrebatados." "Surpreendente", ela disse. "Mas você queria conversar sobre outro assunto." "Queria!" "Diga-me por que precisou viajar para Nova York." Passava de uma hora da manhã quando Rayford se mexeu na cama ao ouvir um barulho na porta da frente. A porta foi aberta, mas não foi fechada. Ele ouviu Chloe e Buck conversando na soleira. "Eu preciso ir embora", disse Buck. "Estou aguardando uma resposta de Nova York amanhã cedo sobre meu artigo e quero estar bem acordado para argumentar." Depois que Buck partiu, Rayford ouviu Chloe fechar a porta. Seus passos na escada pareciam mais leves do que no inıć io da noite. Ela caminhou na ponta dos pés até o quarto dele e espiou. "Estou acordado, querida", ele disse. "Está tudo bem?" "Melhor impossıv́ el", ela respondeu, aproximando-se e sentando-se na beira da cama de Rayford. "Obrigada, papai", ela disse na escuridão do quarto. "A conversa foi boa?" "Sim. Buck é uma pessoa incrível." "Ele a beijou?" "Não! Papai!" "Segurou a sua mão?" "Não! Pare com isso! Só conversamos. Você não vai acreditar na oferta que ele recebeu hoje." "Oferta?" "Não tenho tempo para explicar os detalhes esta noite. Você vai voar amanhã?" "Não." "Então conversaremos amanhã cedo." "Quero lhe contar sobre a oferta que também recebi hoje", disse Rayford. "Do que se trata?" "Muito complicada para falar dela agora. De qualquer forma, não vou aceitá-la. Conversaremos amanhã cedo." "Papai, diga mais uma vez que não foi você quem mandou aquelas ϐlores só para me tranqüilizar. Se foi você, vou me sentir muito mal por tê-las atirado na lata do lixo." "Não fui eu, Chio." "Isso é bom, acho. Mas também não foram enviadas por Buck." "Tem certeza?" "Agora, sim." "Xi!" "Você está pensando o mesmo que eu, papai?" "Passei a pensar em Bruce desde o momento em que ouvi Buck dizer a você que não foi ele quem enviou as flores." "O que devo fazer, papai?" "Se você vai trabalhar com Bruce, precisará ter uma conversa com ele." "Por que sou eu a responsável? Não comecei isso! Não incentivei — pelo menos não tive a intenção.” "Bem, você pode deixar as coisas como estão. Quero dizer, ele enviou as ϐlores anonimamente. Como você poderia saber de quem partiram?" "Sim! De fato, eu não sei, não é mesmo?" "Claro que não." "Devo encontrar-me com ele amanhã à tarde", ela disse, "para conversarmos sobre o emprego." "Então converse sobre o emprego." "E não tomo conhecimento das flores?" "De certo modo você já fez isso, não fez?" Chloe riu. "Se ele tiver coragem de confessar que mandou as ϐlores, então poderemos conversar sobre o que elas significam." "Parece uma boa idéia." "Mas, papai, se Buck e eu continuarmos a nos encontrar, o nosso relacionamento vai se tornar evidente." "Você não quer que as pessoas saibam?" "Não quero atirar isso na cara de Bruce, sabendo o que ele sente em relação a mim." "Mas você não sabe." "É verdade. Se ele não disser, eu não sei." "Boa noite, Chloe." "Vai ser esquisito trabalhar para ele ou com ele, não é mesmo, papai? "Boa noite, Chloe." "Eu só não queria..." "Chloe! Daqui a pouco o dia vai amanhecer!" "Boa noite, papai." Buck foi despertado no meio da manhãde terça-feira por uma ligação de Stanton Bailey. "Cameron!" gritou ele. "Você já acordou?" "Sim, senhor." "Não parece!" "Meio acordado, senhor." "Dormiu tarde?" "Sim, mas agora estou acordado, Sr. ..." "Vocêsempre foi muito honesto, Cam. EƵ por isso que não entendo por que insiste em dizer que esteve naquela reunião quando... ah, é melhor deixar esse assunto para trás. Você está muito isolado. Gostaria que fosse o substituto de Plank aqui, mas o que está feito, está feito, não é mesmo?" "Sim, senhor." "Mas você ainda tem credibilidade." "Como assim?" "Ainda tem prestıǵ io. Como você se sente por ter escrito um artigo merecedor de mais um prêmio?" "Fico satisfeito em saber que o senhor gostou do artigo, mas não o escrevi para receber prêmio." "Nunca escrevemos para receber prêmio, não é mesmo? Você já viu algum colega de proϐissão escrever um artigo só para disputar um prêmio? Eu também não. No entanto, tenho visto alguns sujeitos tentar. Não funciona. Eles poderão aprender com você. Perfeito, abrangente mas conciso, incluindo todas as citações, cobrindo todos os ângulos, imparcial diante de todas as opiniões. Gostei muito de você não ter feito aqueles alienígenas excêntricos e religiosos fanáticos parecerem imbecis. Todos têm direito a dar opinião, certo? E todos representam o grande potencial econômico dos Estados Unidos, não importando se acreditam que o responsável foi alguma criatura verde vinda de Marte ou Jesus montado em um cavalo." "Continuo não entendendo." "Ou outra coisa qualquer, fruto da imaginação de alguém. Vocêsabe o que quero dizer. De qualquer forma, o artigo é uma obra-prima e, como sempre, apreciei seu excelente trabalho e o fato de vocênão ter permitido que aquele outro assunto o abatesse. Você vai continuar a fazer um bom trabalho e permanecer aı́ em Chicago pelo tempo que for necessário, portanto sinto que ainda tenho algum controle sobre meu famoso articulista. Vocêestará de volta a Nova York antes do que imagina. Quando termina seu contrato?" "Em um ano, mas gosto daqui e..." "Muito engraçado. Se eles começarem a pressioná-lo sobre esse contrato, Cameron, fale comigo e traremos você de volta para cá. Não sei se poderei reservar-lhe a vaga de editorexecutivo porque precisamos preenchê-la antes disso, e provavelmente não faria sentido você passar de comandado a comandante. Mas pelo menos faremos com que seu salário torne a ser condizente com as suas qualiϐicações e você voltará para cá para fazer o que sempre fez com perfeição." "Obrigado." "Ei, tire o dia de folga! Esse assunto chegará nas bancas de jornais daqui a uma semana e você será notícia na cidade durante alguns dias." "Vou aceitar sua idéia." "E ouça, Cameron, fique longe daquela fulaninha. Qual é o nome dela?" "Verna Zee?" "Sim, Verna. Ela trabalha bem, mas deixe-a em paz. Você não vai precisar ir até lá, a menos que exista um bom motivo. Você tem outro assunto a tratar comigo?" "Steve quer que eu vá até Israel na próxima semana para a assinatura do tratado entre Israel e a ONU." "Temos um bando de pessoas indo para lá, Cameron. Eu ia designar a reportagem de capa ao editor de religião." "Jimmy Borland?" "Algum problema?" "Bem, em primeiro lugar não vejo essa reportagem como um assunto de natureza religiosa, principalmente com a reunião da religião única mundial acontecendo em Nova York ao mesmo tempo, os judeus falando sobre a reconstrução do templo e os católicos escolhendo um novo papa. E, em segundo lugar, isso vai parecer um trabalho em causa própria. Você acha realmente que Jimmy é capaz de assumir a responsabilidade de uma reportagem de capa?" "Provavelmente não. Achei que seria conveniente. Ele esteve lá tantas vezes, e qualquer coisa que Israel faça pode ser considerada de natureza religiosa, certo?" "Não necessariamente." "Sempre gostei de sua franqueza quando fala comigo, Cameron. Há muitas pessoas subservientes aqui. E você não vê essa reportagem como um assunto de natureza religiosa só por estar acontecendo na chamada Terra Santa." "Qualquer coisa em que Carpathia esteja envolvido é geopolıt́ ica, mesmo que tenha algumas ramiϐicações religiosas. O grande assunto religioso de lá, além do templo, são aqueles dois pregadores no Muro das Lamentações." "Ah, sim, o que acontece com aqueles malucos? Eles disseram que não ia chover em Israel durante três anos e meio, e até agora não choveu! EƵ uma terra seca como sempre foi, mas se ϐicar muito tempo sem chover, tudo vai deϐinhar e desaparecer. Será que vão depender da fórmula daquele cientista... hã, Rosenzweig... sobre a chuva?" "Não tenho certeza. Sei que essa fórmula requer menos quantidade de chuva do que tentar viver sem ela, mas acho que, para dar certo, é necessário que a água venha de algum lugar." "Eu gostaria que Jimmy conseguisse uma entrevista exclusiva com aqueles dois", disse Bailey, "mas eles são perigosos, não são?" "Como assim?" "Bem, dois sujeitos tentaram matá-los e caıŕ am mortos no chão. E aquilo que aconteceu no outro dia? Um grupo de gente foi queimado. O povo disse que os dois invocaram fogo do céu!" "Outros disseram que eles sopraram fogo no grupo." "Também ouvi isso!" disse Bailey. "Esse deve ser um problema de mau hálito, não?" Bailey estava rindo, mas Buck não conseguia disfarçar. Acreditava na história do sopro de fogo porque constava da Bıb́ lia. Ele também não enquadrava as pessoas que acreditavam no Arrebatamento na mesma categoria dos que acreditavam em OVNIs. "De qualquer forma", prosseguiu Bailey, "eu não disse a Borland que ele vai fazer a reportagem de capa, mas há rumores de que será ele. Eu podia atribuir essa tarefa a você, e preferia, porém alguém teria de ser excluıd́ o da viagem porque extrapolamos o orçamento. Talvez eu exclua um fotógrafo." Buck estava ansioso para que um fotógrafo captasse alguma cena sobrenatural. "Não, não faça isso", ele disse. "Plank está me propondo viajar como parte da comitiva da ONU." Houve um longo silêncio. "Senhor?" "Não sei disso, Cameron. Estou impressionado por eles o terem perdoado depois do que aconteceu, mas como você poderá manter a objetividade se estiver por conta deles?" "O senhor precisa confiar em mim. Nunca negociei favores." "Sei disso, e Plank também sabe. Mas será que Carpathia entende o que é jornalismo?" "Não tenho certeza." "Nem eu. Você sabe do que tenho medo." "Do quê?" "Que ele o faça desaparecer." "Não há muitas chances de eu ir para qualquer lugar", disse Buck. "Pensei que Carpathia estivesse mais aborrecido com vocêdo que eu, e agora ele quer que o acompanhe na assinatura do tratado?" "Ele só quer que eu esteja presente à assinatura do tratado como parte de sua delegação." "Isso seria totalmente impróprio." "Eu sei." "A menos que vocêdeixe claro que não faz parte da delegação. Que situação complicada! A única pessoa da imprensa sentada à mesa!" "Sim, como eu poderia fazer isso?" "Talvez seja simples. Use alguma identificação qualquer no paletó que mostre que você faz parte do Semanário.”" "Isso eu posso fazer." "Vocêpoderia carregar essa identiϐicação consigo e exibi-la só depois que todos estiverem sentados em seus lugares." "Acho um pouco desonesto." "Ora, não seja tolo, ϐilho. Carpathia é o polıt́ ico dos polıt́ icos e tem todos os motivos do mundo para querer você ao lado dele. O mıń imo que poderá acontecer é que sejam criadas situações para que você deixe o Semanário Global." "Não tenho tais planos, senhor." "Sei que não tem. Ouça, vocêacha que poderia participar da assinatura do tratado, isto é, estar presente ao lado das partes envolvidas e não junto com o pessoal da imprensa, mesmo sem viajar com a delegação da ONU?" "Não sei. Posso perguntar." "Então pergunte. Vou conseguir uma passagem extra em um vôo comercial para que você não viaje por conta da ONU. Não quero que deva nenhum favor a Carpathia, mas gostaria demais de ver você espiando por cima de seu ombro quando ele assinar aquele tratado."

C A P Í T U L O 10

Buck gostou da idéia de tirar o dia de folga, apesar de não ter planejado nada importante para aproveitá-lo. Arrumou com calma o quarto vago, instalando ali seu escritório. Depois de ligar todos os equipamentos e testá-los, veriϐicou seu e-mail e encontrou uma longa mensagem de James Borland, o editor de religião do Semanário Global. Vejam só, ele pensou. Pensei em ligar para vocêe conversarmos por telefone. Porém achei melhor colocar tudo por escrito porque quero desabafar um pouco antes de receber suas desculpas de sempre. Você sabe muito bem que eu estava cotado para fazer a reportagem de capa sobre a assinatura do tratado. A coisa estará acontecendo na capital religiosa do mundo, Cameron. Quem você acha que ia cuidar disso? Só porque não sou um articulista experiente em reportagens de capa e não ϐiz nada no gênero antes, não signiϐica que sou incapaz de cuidar do assunto. Eu deveria ter pedido seus conselhos, mas provavelmente você ia querer dividir a autoria da matéria comigo, com seu nome aparecendo em primeiro lugar. O velho me disse que a idéia de lhe passar essa matéria foi dele, mas não posso imaginar ver vocêescrevendo o que bem entender, e eu fora disso. Vou para Israel também. Ficarei longe de você, desde que fique longe de mim. Buck ligou imediatamente para Borland. "Jimmy", ele disse, "é Buck." "Você recebeu meu e-mail" "Recebi." "Não tenho mais nada a dizer." "Imagino que não", disse Buck. "Você foi bem claro." "Então, o que você quer?" "Só esclarecer alguns pontos." "Ah, sim, vai me dizer o mesmo que Bailey, convencer-me de que você nem sequer lhe pediu essa reportagem." "Para ser franco, Jim, eu disse a Bailey que considerava essa matéria mais de natureza política do que religiosa, e cheguei a mencionar que não tinha certeza se você estava à altura." "E isso por acaso não significa tirar-me da frente para você ser o autor da reportagem?" "Talvez, Jim, mas não foi minha intenção. Lamento muito, e se ela signiϐica tanto para você, vou insistir para que lhe dêem essa responsabilidade." "Certo. Qual é a condição?" "Que eu fique com suas reportagens, e uma inédita." "Você quer ocupar o meu lugar?" "Só por algumas semanas. Para mim, você conseguiu o cargo mais invejado do Semanário." "Por que devo conϐiar em você, Buck? Você parece o Tom Sawyer (personagem do livro As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, n.t.) tentando me fazer pintar sua cerca." "Estou falando sério, Jim. Se você deixar por minha conta as reportagens sobre a religião mundial, a reconstrução do templo, os dois pregadores diante do Muro das Lamentações, a votação para o novo papa, e uma outra que faz parte de sua especialidade mas que ainda não contei a ninguém, vou fazer o possıv́ el para que lhe dêem a reportagem de capa sobre o tratado." "Vou morder a isca. O que há de tão importante no meu cargo que deixei escapar?" "Você não deixou escapar. Acontece que tenho um amigo que estava no lugar certo na hora certa." "Quem? O quê?" "Não vou revelar minha fonte, mas fiquei sabendo que o rabino Tsion Ben-Judá..." "Eu o conheço." "Conhece?" "Bem, ouvi falar dele. Todo mundo ouviu. Um ótimo sujeito." "Você sabe o que ele está engendrando?" "Um projeto de pesquisas, não? Algo tipicamente antiquado." "Então essa é outra coisa que não lhe interessa. Parece que estou pedindo o Báltico e o Mediterrâneo e oferecendo em troca o Boardwalk e o Park Place [logradouros populares em Atlantic City].” "É exatamente o que parece, Buck. Você me considera um idiota?" "Claro que não, Jimmy. Você não está entendendo. Não sou seu inimigo." "Apenas meu concorrente, reservando as reportagens de capa só para você." "Acabei de oferecer-lhe uma!" "Essa conversa não cola, Buck. A reunião da religião mundial está seca como pó, e nunca vai dar certo. Nada vai impedir os judeus de reconstruıŕ em seu templo porque ninguém mais, a não ser eles, se importa com isso. Garanto a vocêque aqueles dois indivıd́ uos diante do Muro das Lamentações dariam uma grande reportagem, porém mais de meia dúzia de pessoas que tentaram aproximar-se deles caıŕ am mortos. Acho que todos os jornalistas do mundo receberam a incumbência de fazer uma entrevista exclusiva com os dois, mas nenhum teve a coragem de se aproximar deles. Todos já sabem quem vai ser o novo papa. E quem no mundo vai se importar com a pesquisa do rabino?" "Opa, espere um pouco, Jim", disse Buck. "Agora você me passou a perna sobre o assunto do novo papa porque não tenho idéia de quem vai ser." "Ora, vamos, Buck. Por onde você andou? Todos apostam no arcebispo Mathews de..." "Cincinnati? Sério? Eu o entrevistei para o..." "Eu sei, Buck. Eu vi. Todos aqui viram seu próximo Pulitzer." Buck calou-se. A dimensão da inveja não teria limites?" Borland deve ter percebido que foi longe demais. "Sinceramente, Buck, eu precisava lhe contar isso. Vai ser uma boa leitura. Mas você não tinha idéia de que ele está na mira de ser nomeado papa?" "Nenhuma." "Ele é um indivıd́ uo muito astuto. Recebeu apoio de todos os lados, e penso que será eleito. Muita gente pensa o mesmo." "Então, já que o conheço e acho que ele conϐia em mim, vocênão deveria se importar que essa reportagem faça parte do negócio." "Oh, agora você acha que estamos fazendo um negócio, não é mesmo?" disse Jimmy. "Por que não? Você não está louco para conseguir a reportagem de capa?" "Buck, pensa que não sei que você vai fazer parte da delegação da ONU na assinatura do tratado e que vai usar um distintivo qualquer do Semanário Global no paletó ou no chapéu para nos dar uma colher de chá?" "Então inclua isso em sua reportagem. 'Substituto do Editor de Religião Coloca-se ao lado do Secretário-Geral'." "Não achei graça. Não acredito de jeito nenhum que Plank lhe dê essa oportunidade maravilhosa e depois indique outra pessoa para escrever a matéria." "Estou lhe dizendo, Jim, que vou insistir nisso." "Você não devia ter mais nenhum poder de barganha depois de deixar de comparecer àquela reunião de Carpathia. O que faz você pensar que Bailey lhe dará ouvidos? Agora você é apenas um articulista da sucursal de Chicago." Buck sentiu um pontapé em seu ego, e as palavras brotaram antes que ele pudesse medilas. "Ah, sim, apenas um articulista da sucursal de Chicago que escreveu a reportagem de capa da próxima edição e que foi designado para escrever a da semana seguinte." "Touché!" "Sinto muito, Jim. Desviei o assunto. Mas falo sério. Não estou blefando para fazer você pensar que seu cargo é mais importante para mim do que uma reportagem de capa. Estou convencido de que as notıć ias sobre religião darão reportagens mais interessantes do que a assinatura do tratado." "Espere um pouco, Buck. Você não é um daqueles trouxas que acreditam em todas aquelas teorias proféticas e apocalípticas da Bíblia, não?" É exatamente o que eu sou, pensou Buck, mas ele ainda não podia tornar isso público. "Você sabe se essa idéia está sendo muito divulgada?" indagou Buck. "Você devia saber. Foi você quem escreveu a reportagem." "Minha reportagem reproduz todas as opiniões." "Ah, sim, mas vocêfoi fundo na tolice do Arrebatamento. Eles adorariam ver um pouco de invencionice em todas essas histórias para enquadrá-las no plano de Deus." "Você é o editor de religião, Jim. Eles têm uma opinião a respeito?" "Não me parece algo que Deus teria feito." "Você está admitindo que existe um Deus." "É só maneira de falar." "Que maneira?" "Deus está em todos nós, Buck. Você conhece minha opinião." "Sua opinião não mudou depois dos desaparecimentos?" "Não." "Deus estava nas pessoas que desapareceram?" "Claro." "Então uma parte de Deus foi embora?" "Tem uma maneira de falar muito literal, Buck. Em seguida vai me dizer que o tratado prova que Carpathia é o Anticristo." Como eu gostaria de convencê-lo, pensou Buck. E um dia vou tentar. "Sei que o tratado é um assunto muito importante", ele disse. "Provavelmente maior do que muita gente imagina, mas a assinatura é apenas o espetáculo. O acordo faz parte da história, e essa história foi contada." "A assinatura talvez seja apenas o espetáculo, mas vale uma reportagem de capa, Buck. Por que você acha que não sou capaz de escrevê-la?" "Diga-me que conseguirei as outras, e farei força para que você consiga essa." "Negócio fechado." "Sério?" "Claro. Tenho certeza de que você acha que conseguiu me iludir, mas não sou mais criança, Buck. Não me importo em que grau essa reportagem de capa será classiϐicada, depois de todas as que você já fez. Quero a reportagem para fazer parte de meu arquivo, para meus netos, essas coisas." "Entendo." "Ah, sim, você entende. Vocêtem a vida inteira pela frente e fará o dobro de reportagens de capa que já fez até agora." "Chloe! Venha até aqui!" Rayford estava de pé na sala de estar, surpreso demais para sentar-se. Tinha acabado de ligar a TV e ouviu o boletim de notícias extraordinárias. Chloe desceu correndo a escada. "Tenho de ir à igreja", ela disse. "O que houve?" Rayford pediu que ela se calasse e ambos passaram a prestar atenção às notıć ias. Um correspondente da CNN na Casa Branca estava falando. "Aparentemente esse gesto raro foi resultado de uma reunião ocorrida no inıć io da noite de ontem entre o secretário-geral da ONU Nicolae Carpathia e o presidente Gerald Fitzhugh. Fitzhugh já assumiu a liderança entre os chefes de estado em razão de seu ϐirme apoio à administração do novo secretário-geral, mas ao lhe ceder o novo avião presidencial, ele estabelece uma conduta totalmente nova.” "A Casa Branca enviou o atual Air Force One para Nova York no ϐinal da tarde de ontem a ϐim de buscar Carpathia, e hoje foi anunciado que o vôo inaugural do novo Air Force One transportará Carpathia e não o presidente." "O quê?" perguntou Chloe. "A assinatura do tratado em Israel", disse Rayford. "Mas o presidente também vai, não?" "Sim, mas no avião antigo." "Não entendi." "Nem eu." O repórter da CNN prosseguiu. "Os céticos suspeitam de um acordo por trás dos bastidores, mas foi o próprio presidente quem fez o pronunciamento na Casa Branca poucos momentos atrás." A CNN rodou um teipe. O presidente Fitzhugh parecia perturbado. "A oposição e os cretinos que só fazem polıt́ ica vão ter muito o que falar sobre este gesto", disse o presidente, "mas os norte-americanos que amam a paz e todos os que estão cansados da politicagem de sempre vão comemorar. O novo avião é lindo. Já o vi. Estou orgulhoso dele. O espaço interior é suϐiciente para acomodar as delegações inteiras dos Estados Unidos e da ONU, mas decidi que só a delegação da ONU tem o direito de usar o avião em seu vôo inaugural. "Até que nosso atual Air Force One passe a ser Air Force Two, batizaremos o novo 757 de 'Global Community One' (Comunidade Global Um) e o ofereceremos ao secretário-geral Carpathia com nossos votos de sucesso. Já é hora de o mundo se unir em torno deste homem apaixonado pela paz, e estou orgulhoso por ser o autor deste pequeno gesto.” "Também exorto meus colegas do mundo inteiro a estudarem seriamente o desarmamento proposto por Carpathia. A firme defesa de nosso país tem sido elogiada por várias gerações, mas estou certo de que todos nós concordamos que a hora da verdade, do desarmamento em favor da paz, já deveria ter acontecido há muito tempo. Espero fazer um pronunciamento em breve sobre nossas decisões a este respeito." "Papai, isso significa que você...?" Rayford novamente pediu silêncio à ϐilha com um gesto enquanto a CNN passava a transmitir de Nova York para uma resposta ao vivo de Carpathia. Com os olhos ϐixos na câmera, Nicolae parecia estar penetrando nos olhos de cada telespectador. Sua voz era tranqüila e comovida. "Eu gostaria de expressar minha gratidão ao presidente Fitzhugh por este gesto de tanta generosidade. Nós da Organização das Nações Unidas estamos profundamente sensibilizados, agradecidos e nos consideramos indignos de tal honra. Aguardamos ansiosamente a magnıϐ́ica cerimônia a realizar-se em Jerusalém na próxima segunda-feira." "Homem, ele é engenhoso." Rayford balançou a cabeça. "Esse é o emprego que você me contou. Você vai pilotar aquele avião?" "Não sei. Suponho. Eu não me dei conta de que o velho Air Force One passaria a ser Air Force Two, o avião do vice-presidente. Gostaria de saber se eles vão realmente aposentar o atual piloto. Parece a dança das cadeiras. Se o atual piloto permanecer com o 747 quando ele se transformar em AF2, o que vai acontecer com o atual piloto do AF2?" Chloe deu de ombros. "Você tem certeza de que não quer ser piloto do novo avião?" "Mais do que nunca. Não quero nada que tenha relação com Carpathia." Buck recebeu um telefonema de Alice, da sucursal de Chicago. "EƵ melhor você ter duas linhas de telefone", ela disse, "se quiser continuar trabalhando em casa." "Tenho duas linhas", disse Buck, "mas uma delas está ligada no computador." "O Sr. Bailey está tentando falar com você, mas o telefone está sempre ocupado." "Por que ele ligou para a sucursal? Ele sabe que estou em casa." "Ele não ligou para cá. Marge Potter estava falando por telefone com Verna sobre um outro assunto e lhe contou." "Aposto que Verna adorou saber disso." "Claro que sim. Ela quase pulou de alegria. Acha que vocêestá novamente com problemas com o chefe." "Duvido." "Sabe o que ela está imaginando?" "Diga logo." "Que Bailey não gostou de sua reportagem de capa e vai despedi-lo." Buck riu. "Não é verdade?" perguntou Alice. "Exatamente o oposto", respondeu Buck. "Mas, por favor, não conte a Verna." Buck agradeceu-lhe a entrega dos equipamentos no dia anterior, poupando-a da história de Chloe ter pensado que Alice era sua noiva, e desligou a ϐim de telefonar para Bailey. Quem atendeu foi Marge Potter. "Buck, já estou com saudade de você", ela disse. "O que aconteceu?" "Qualquer dia eu lhe conto tudo", ele disse. "Soube que o chefe está tentando falar comigo." "Bem, ele me pediu que ϐizesse a ligação. No momento ele está com Jim Borland na sala e ouço vozes alteradas. Nunca ouvi Jim levantar a voz antes." "Você tem ouvido Bailey levantar a voz?" Marge riu. "Talvez duas vezes por dia. De qualquer forma, vou pedir para ele retornar sua ligação." "EƵ melhor você interrompê-los, Marge. Ele deve estar tentando falar comigo por causa dessa reunião." Stanton Bailey entrou na linha quase que imediatamente. "Williams, vocême faz perder a paciência agindo como se fosse um editor-executivo." "Como assim?" "Não é da sua conta designar reportagens de capa. Você disse a Borland que eu tinha em mente passar a ele a matéria sobre o tratado. Em seguida começou a bajulá-lo oferecendo-se para ficar com aquelas porcarias de histórias e depois passou a ele sua reportagem de capa." "Eu não fiz isso!" "Ele não fez isso!" gritou Borland. "Não agüento vocês dois", disse Bailey. "Então, qual é acordo?" Depois que Chloe saiu para tratar de seu novo emprego na igreja, Rayford pensou em ligar para seu chefe. Earl Halliday aguardava uma resposta o mais breve possıv́ el e provavelmente ligaria para Rayford, se ele não se pronunciasse logo. As notıć ias do dia foram determinantes para selar a decisão de Rayford. Ele não podia negar o prestıǵ io que acompanharia sua função como piloto do presidente. E ser o piloto de Carpathia provocaria mais repercussão ainda. Contudo, os motivos e sonhos de Rayford haviam dado uma guinada de 180 graus. Ser conhecido como o piloto do Air Force One — ou até mesmo do Global Community One — durante sete anos simplesmente não fazia parte de seus planos. O tamanho da casa às vezes confundia Rayford, mesmo quando havia quatro pessoas morando ali. Em outras ocasiões ele sentiu orgulho dela. Evidenciava sua posição social, condição de vida, grau de realizações. Agora era um lugar solitário. Rayford estava muito agradecido por ter a companhia de Chloe em casa. Apesar de ter resolvido não interferir em sua decisão caso ela desejasse retornar à faculdade, não fazia idéia de como seria sua vida durante as horas de folga. Uma coisa é ocupar a mente, cuidando de tudo o que é necessário para transportar com segurança centenas de pessoas pelo ar. Outra coisa bem diferente é não ter nada para fazer em casa a não ser comer e dormir. O lugar se tornaria insuportável. Cada cômodo, cada bugiganga, cada toque feminino o fazia recordar-se de Irene. De vez em quando, uma coisa qualquer povoava sua mente com as lembranças de Raymie. Rayford havia encontrado um pedaço do doce favorito de Raymie debaixo da almofada do sofá. Também encontrara seus livros. Havia um brinquedo escondido atrás de um vaso de planta. Rayford estava se transformando em um homem emotivo, mas já não se preocupava muito com isso. Agora sua tristeza provocava-lhe mais uma sensação de melancolia do que de sofrimento. Quanto mais ele se aproximava de Deus, mais ansiava pelo momento de estar na presença dele, junto com Irene e com Raymie, após o Glorioso Aparecimento. As lembranças traziam seus entes queridos mais para perto de si, tanto no pensamento como no coração. Agora, depois de convertido, ele os compreendia e os amava mais ainda. Quando o sentimento de culpa se abatia sobre Rayford, quando ele se sentia envergonhado de sua atuação como marido e como pai, ele simplesmente orava suplicando perdão por ter sido tão cego. Naquela noite, Rayford decidiu cozinhar para Chloe. Prepararia um dos pratos favoritos da ϐilha — camarão acompanhado de massa e outros alimentos decorativos. Ele sorriu. Apesar de todos as caracterıśticas negativas que a ϐilha herdara dele, ela era uma pessoa maravilhosa. Se havia alguém que servisse de exemplo para mostrar como Cristo pode mudar a vida de um ser humano, esse alguém era Chloe. Rayford gostaria de lhe dizer isso, e o jantar era uma forma de expressar seus sentimentos. Teria sido mais fácil comprar alguma coisa para ela ou convidá-la para jantar fora, mas Rayford queria oferecer-lhe algo feito por ele. Passou uma hora na mercearia e mais uma hora e meia na cozinha para deixar tudo pronto antes da chegada da ϐilha. Sentiu uma certa identiϐicação com Irene, lembrando-se de sua expressão de expectativa quase todas as noites antes de servir o jantar. Talvez ele tivesse agradecido e elogiado a esposa o suϐiciente. Mas somente agora compreendia que ela se esforçava para agradá-lo com o mesmo amor e devoção que ele sentia por Chloe. Rayford nunca se dera conta disso, e suas insigniϐicantes tentativas de elogiá-la devem ter sido feitas com muita negligência. Agora não havia mais condições de se explicar com Irene, a não ser no reino eterno, tendo Chloe a seu lado. Buck desligou o telefone depois de conversar com Stanton Bailey e Jim Borland, perguntando a si mesmo por que não aceitava a proposta de Carpathia para dirigir o Chicago Tribune e encerrava o assunto. Tinha convencido ambos de que estava sendo sincero e ϐinalmente conseguiu uma aprovação de má vontade da parte do velho, porém estava em dúvida se valia a pena ϐicar em situação inferiorizada novamente. Seu objetivo era compilar as reportagens religiosas da melhor maneira possıv́ el de modo que Borland aprendesse como deveria realizar seu trabalho e Bailey tivesse uma noção do que era um editor-executivo. Buck não queria aquele cargo e mantinha a mesma opinião quando ele lhe foi oferecido por ocasião da saıd́ a de Steve Plank. Porém, esperava que Bailey encontrasse alguém que gostasse de trabalhar ali. Digitou algumas anotações em seu computador, fazendo um resumo das incumbências que assumira na negociação com Jimmy Borland. Ele havia feito as mesmas suposições iniciais que Borland ϐizera sobre todas as notıć ias que estavam pipocando. Mas isso aconteceu antes de ter estudado as profecias, antes de saber em que lugar Nicolae Carpathia se enquadrava na história. Agora Buck esperava que todos esses fatos acontecessem ao mesmo tempo. Naquele momento, era provável que ele estivesse trabalhando diretamente nos acontecimentos relativos ao cumprimento das profecias de séculos e séculos atrás. Quer fossem reportagens de capa ou não, esses acontecimentos causariam tanto impacto no curto perıó do que ainda restava na história da humanidade quanto o tratado com Israel. Buck telefonou para Steve Plank. "Você já tem uma resposta?" indagou Steve. "Alguma notícia que eu possa dar ao secretário-geral?" "É assim que você o chama?" perguntou Buck, atônito. "Não pode chamá-lo pelo nome?" "Preferi assim. EƵ uma questão de respeito, Buck. Até Hattie chama-o de 'Sr. SecretárioGeral' e, segundo sei, os dois estão sempre juntos tanto no trabalho como fora dele." "Não seja fofoqueiro. Fui eu que apresentei um ao outro." "Vocêse arrepende? Apresentou ao lıd́ er mundial uma pessoa a quem ele adora e mudou a vida de Hattie para sempre." "EƵ disso que receio", disse Buck, percebendo que estava muito perto de revelar seus verdadeiros sentimentos a um confidente de Carpathia. "Ela era uma pessoa totalmente desconhecida, Buck, e agora está em evidência na história." Aquilo não era o que Buck desejava ouvir, mas ele também não estava planejando dizer a Steve o que desejava ouvir. "Então, qual é o assunto, Buck?" "Ainda não me decidi", respondeu Buck. "Você sabe qual é a minha posição." "Não compreendo você, Buck. Onde está o problema? O que poderá não dar certo? EƵ tudo o que você sempre quis." "Sou um jornalista, Steve, e não um relações-públicas." "É assim que você se refere a mim?" "É o que você é, Steve. Não o culpo por isso, mas não finja ser o que não é." Steve sentiu-se claramente ofendido por Buck. "Ah, sim, bem, que assim seja", disse ele. "Você me telefonou, o que deseja?" Buck contou-lhe a respeito do acordo feito com Borland. "Foi um grande erro", disse Steve, ainda zangado. "Você há de se lembrar que nunca o escalei para uma reportagem de capa." "Esta não deveria ser uma reportagem de capa. As outras matérias, as que ele está me passando, essas sim são importantes." Steve levantou a voz. "Esta seria a reportagem de capa mais importante que você teve nas mãos! Será o evento de maior cobertura jornalística da história." "Você me diz isso e fala que não é um relações-públicas?" "Por quê? O quê?" "A ONU assina um tratado de paz com Israel e você acha que esse evento é mais importante do que os desaparecimentos de bilhões de pessoas no mundo inteiro?" "Bem, sim, acho. Claro." "'Bem, sim, acho. Claro'", arremedou Buck. "Pelo amor de Deus, Steve. A notıć ia é o tratado, não a cerimônia. Você sabe disso." "Então você não irá?" "Claro que irei, mas não junto com vocês." "Você não quer viajar no novo Air Force One 1." "O quê?" "Vamos, Senhor Jornalista Internacional. Mantenha-se informado, homem." Rayford aguardava ansiosamente a chegada de Chloe da mesma forma que aguardava a reunião do núcleo naquela noite. Chloe lhe havia dito que Buck não queria aceitar o emprego oferecido por Carpathia tanto quando ele, Rayford, não queria aceitar o emprego na Casa Branca. Mas ninguém ouvira ainda a opinião de Bruce. AƱs vezes ele tinha um modo diferente de analisar a situação e quase sempre suas opiniões eram sensatas. Rayford não conseguia imaginar de que maneira essas mudanças poderiam enquadrar-se em suas vidas de recém-convertidos, mas estava ansioso para conversar e orar sobre o assunto. Olhou para seu relógio. O jantar estaria pronto em meia hora, exatamente quando Chloe disse que chegaria. "Não", disse Buck, "não quero viajar até lá no Air Force One, seja ele novo ou velho. Agradeço o convite para fazer parte da delegação. Mantenho minha palavra de sentar à mesa na ocasião da assinatura, mas até mesmo Bailey concorda que devo viajar por conta do Semanário Global." "Você contou a Bailey sobre nossa proposta?!" "Não sobre a proposta de emprego, evidentemente. Mas sobre viajar com a delegação, sim." "Por que você acha que sua viagem a Nova York foi tão sigilosa, Buck? Acha que queríamos que o Semanário soubesse?" "Imaginei que vocês não queriam que ele soubesse que me ofereceram um emprego, e não lhe contei isso. Mas como eu lhe explicaria o fato de estar em Israel por ocasião da assinatura?" "Esperávamos que você não se importasse que o seu então ex-chefe soubesse." "Não faça suposições, Steve", disse Buck. "Nem você, Buck." "Como assim?" "Não pense que essa excelente proposta vai ϐicar à sua disposição sobre a mesa se você fizer pouco caso como fez da última vez." "Então o emprego está ligado à minha viagem como relações públicas?" "Se é assim que você entende." "A idéia não me agrada, Steve." "Sabe, Buck, não tenho certeza se nesta altura dos acontecimentos você é o homem talhado para política e jornalismo." "Concordo que isso é querer me rebaixar mais ainda." "Não foi minha intenção. De qualquer forma, você se lembra das previsões de seu chefão sobre a nova moeda mundial? Que tal coisa nunca aconteceria? Assista ao noticiário de amanhã, companheiro. E lembre-se que foi obra de Nicolau Carpathia, diplomacia nos bastidores." Buck já conhecia a suposta diplomacia de Carpathia. Com essa mesma diplomacia ele conseguira que o presidente dos Estados Unidos lhe cedesse um 757 novinho em folha, isso sem mencionar as testemunhas de um assassinato que acreditaram ser suicídio. Estava na hora de falar de sua viagem a Bruce. "Rayford, você pode vir até aqui?" "Quando, Earl?" "Já. Grandes novidades sobre o novo Air Force One. Você ouviu?" "Sim, estão em todos os noticiários." "EƵ só me dar a sua palavra e estará voando naquele avião para Israel tendo Nicolae Carpathia a bordo." "Ainda não estou preparado para me decidir." "Ray, preciso de você aqui. Você vem ou não?" "Hoje não, Earl. Estou no meio de uma tarefa neste momento e pretendo encontrar com você amanhã." "O que há de tão importante nessa tarefa?" "É assunto pessoal." "O quê! Não me diga que arrumou um emprego de cozinheiro!" "Estou cozinhando, mas não é um emprego. Estou preparando o jantar para minha filha." Rayford não ouviu mais nenhuma palavra do outro lado da linha durante alguns instantes. Finalmente: "Rayford, sou totalmente a favor de dar prioridade à famıĺia. Só Deus sabe quantos dos nossos pilotos são mal casados e têm problemas com os filhos. Mas sua filha..." "Chloe." "Certo, ela tem idade para estar na faculdade, certo? Ela compreenderia, não é mesmo? Não poderia retardar o jantar com o papai por algumas horas, sabendo que ele está prestes a conseguir o melhor emprego de piloto do mundo?" "Conversaremos amanhã, Earl. Vou para Baltimore no ϐinal da manhãe retornarei no ϐinal da tarde. Poderei me encontrar com você antes de partir." "Nove horas?" "Ótimo." "Rayford, preciso alertá-lo: os outros sujeitos daquela pequena lista devem estar babando por causa desse emprego. Aposto que estão recorrendo aos seus conhecidos, pedindo apoio, tentando descobrir quem tem mais influência, essas coisas." "Ótimo. Talvez um deles consiga e não vou ter de me preocupar mais com isso." Earl Halliday parecia agitado. "Agora, Rayford...", ele começou a falar, mas Rayford o interrompeu. "Earl, é melhor você e eu não perdermos tempo agora. Vamos conversar amanhã cedo. Você já sabe minha resposta e só não lhe conϐirmei ainda porque você me pediu para aguardar até amanhã em nome de nossa amizade. Estou pensando no assunto, orando por ele e conversando com pessoas que me dizem respeito. Não vou me atormentar nem me envergonhar de minha atitude. Se eu recusar um emprego que todos querem, e depois vier a me arrepender, será problema meu." Buck estava entrando no estacionamento da Igreja Nova Esperança no momento em que Chloe saıá . Eles emparelharam os carros e baixaram os vidros. "Oi, garotinha", disse Buck, "você sabe alguma coisa sobre esta igreja?" Chloe sorriu. "Só sei que lota todos os domingos." "Ótimo, vou começar a freqüentá-la. Então, aceitou o emprego?" "Eu deveria lhe fazer a mesma pergunta." "Eu já tenho um emprego." "Parece que também já tenho um", ela disse. "Aprendi mais hoje do que durante um ano inteiro na faculdade." "Como vocêagiu com Bruce? Quero dizer, contou-lhe que já sabe que foi ele quem enviou as flores?" Chloe olhou por cima dos ombros, receando que Bruce pudesse ouvir. "Vou contar tudo a você", ela disse. "Quando tivermos tempo." 


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