C A P Í T U L O 11
"Pelo cheiro, é o que estou pensando?" disse Chloe entusiasmada, vindo da garagem.
"Camarões ao molho?" Entrou na cozinha e deu um beijo no pai. "Meu prato predileto! Quem são
os convidados?"
"A convidada de honra acaba de chegar", ele disse. "Você prefere fazer a refeição na sala
de jantar? Poderemos levar tudo para lá rapidamente."
"Não, aqui está ótimo. Qual é o motivo?"
"Seu novo emprego. Fale-me dele."
"Papai! O que deu em você?"
"Liberei o meu lado feminino", ele disse.
"Ora, por favor!" ela suspirou. "Tudo menos isso!"
Durante o jantar ela contou ao pai o serviço que Bruce lhe passara e todas as pesquisas e
estudos que já havia feito.
"Então, é isso que você vai fazer?"
"Aprender, estudar e ganhar dinheiro? Acho que é uma tarefa fácil, papai."
"E sobre Bruce?"
Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça. "E sobre Bruce?"
Enquanto Rayford e Chloe lavavam a louça do jantar, ele ouviu o relato da ϐilha sobre seu
embaraçoso encontro com Bruce. "Então quer dizer que ele não confessou ter enviado as
flores?"
"Foi muito estranho, papai", ela disse. "Tentei várias vezes puxar o assunto da solidão e do
quanto nós quatro necessitávamos um do outro, mas ele pareceu não captar a mensagem.
Depois de concordar que todos nós estávamos carentes, ele sempre voltava ao assunto do estudo
ou de outra coisa que desejava que eu examinasse. Finalmente eu falei que estava curiosa
acerca dos relacionamentos amorosos durante este perıó do da história, e ele disse que abordaria
o assunto hoje à noite. Disse também que outras pessoas o haviam procurado recentemente
para falar deste mesmo assunto e, como ele também tinha algumas dúvidas, resolveu
aprofundar-se no estudo."
"Talvez ele esclareça tudo esta noite."
"Não é uma questão de esclarecer, papai. Não acho que Bruce vai confessar diante de você
e de Buck que foi ele quem enviou as ϐlores. Talvez possamos ler nas entrelinhas e descobrir por
que ele fez isso."
Buck ainda estava no escritório de Bruce quando Rayford e Chloe chegaram. Bruce iniciou
a reunião da Força Tribulação naquela noite, pedindo a permissão do grupo para contar o que
estava acontecendo na vida de cada um deles. Todos concordaram.
Depois de resumir as propostas recebidas por Buck e Rayford, Bruce disse que precisava
confessar que não se sentia à altura de ser o pastor de uma igreja de crentes recém-convertidos.
"Eu ainda me sinto envergonhado todos os dias. Sei que fui perdoado e redimido, porém viver
uma vida de mentiras durante trinta anos é desgastante demais para qualquer pessoa. Apesar de
Deus ter dito que nossos pecados estão afastados dele assim como o Oriente está distante do
Ocidente, para mim é difıć il esquecer." Bruce também admitiu sua solidão e fadiga.
"Principalmente", prosseguiu ele, "quando penso nessa tarefa de viajar para tentar unir os
pequenos focos que a Bíblia chama de 'santos da tribulação'."
Buck desejava ir direto ao assunto e perguntar por que ele não havia assinado o cartão das
ϐlores de Chloe, mas achou que não seria conveniente. Bruce passou, então, a falar das novas
oportunidades de trabalho recebidas por Rayford e Buck. "Talvez minha opinião escandalize a
todos vocês por eu não ter-me manifestado até o momento, mas acho que vocês dois, Buck e
Rayford, deveriam pensar seriamente em aceitar essas propostas."
Essas palavras causaram grande alvoroço nos participantes da reunião. Foi a primeira vez
que os quatro falaram com tanta ϐirmeza sobre seus assuntos pessoais. Buck mantinha a opinião
de que jamais seria capaz de viver em paz consigo mesmo se abrisse mão de seus princıṕ ios
jornalıśticos, passando a manipular as notıć ias e ser manipulado por Carpathia. Ele tinha a
impressão de que Rayford ainda não se deixara inϐluenciar pela proposta, mas concordava com
Bruce que o amigo deveria estudá-la.
"Rayford", disse Buck, "o fato de você não estar ansioso por aceitar é um bom sinal. Se
estivesse ansioso depois de saber tudo o que sabe agora, estarıá mos todos preocupados com
você. Mas pense na oportunidade de ficar perto dos corredores do poder."
"Qual seria a vantagem?" perguntou Rayford.
"Talvez pouca no âmbito pessoal", respondeu Buck, "a não ser pela remuneração. Mas será
que essa aproximação com o presidente não seria uma grande vantagem para todos nós?"
Rayford disse a Buck que considerava um erro pensar que o piloto oϐicial da Casa Branca
tem a oportunidade de estar mais bem informado sobre a vida do presidente do que qualquer
outra pessoa que leia os jornais diariamente.
"Talvez isso se aplique à situação do momento", disse Buck. "Mas se Carpathia adquirir os
principais órgãos de imprensa, alguém que trabalhe próximo do presidente será um dos poucos a
saber o que realmente acontece."
"Uma razão a mais para você trabalhar para Carpathia", disse Rayford.
"Talvez eu devesse aceitar o seu emprego e você o meu", disse Buck, provocando risos.
"Vejam só o que está acontecendo aqui", disse Bruce. "Nós quatro enxergamos a situação
alheia com mais clareza e mais objetividade do que enxergamos a nossa própria situação.”
Rayford deu uma risadinha. "Você está dizendo que Buck e eu estamos sendo
contraditórios."
Bruce sorriu. "Talvez. EƵ possıv́ el que Deus tenha colocado essas coisas no caminho de
vocês só para testar seus objetivos e o quanto são leais a ele, mas elas parecem grandes demais
para serem desprezadas."
Buck perguntou a si mesmo se Rayford se sentia tão indeciso quanto ele. Antes, estava
plenamente convicto de que jamais aceitaria a proposta de Carpathia. Agora, não sabia o que
pensar. Chloe rompeu o silêncio. "Acho que vocês dois deveriam aceitar os empregos."
Buck achou estranho Chloe ter aguardado os quatro se reunirem para se pronunciar, e era
evidente que seu pai pensava o mesmo. "Você disse antes que eu deveria pensar no assunto,
Chio", disse Rayford, "e agora tem certeza de que devo aceitar?"
Chloe assentiu com a cabeça. "Não por causa do presidente. Por causa de Carpathia. Se
Carpathia for o que estamos pensando, e isso nós quatro já sabemos, em breve ele será mais
poderoso do que o presidente dos Estados Unidos. Pelo menos um de vocês deverá estar perto
dele sempre que possível."
"Eu estive perto dele uma vez", disse Buck, "e foi o suficiente."
"Acho que vocês dois estão preocupados com sua própria segurança e equilıb́ rio mental",
pressionou Chloe. "Sei o quanto aquela cena foi horrıv́ el para você, Buck. Mas se não houver
alguém firme por perto, Carpathia vai ludibriar todo mundo."
"Mas assim que eu abrir a boca para dizer o que realmente está acontecendo", disse Buck,
"serei eliminado."
"Talvez. Mas talvez Deus o proteja. Talvez vocês dois venham a ter condições de nos dizer
o que está acontecendo para que possamos transmitir aos crentes."
"Eu teria de abandonar todos os meus princípios jornalísticos."
"E esses princípios são mais sagrados do que suas responsabilidades para com seus irmãos e
irmãs em Cristo?"
Buck não sabia como responder. Essa era uma das caracterıśticas da personalidade de
Chloe que ele tanto admirava. Porém, a independência e a integridade sempre estiveram tão
enraizadas dentro de si desde o inıć io de sua carreira jornalıśtica que Buck não conseguia sequer
pensar em ϐingir ser o que não era. A idéia de ocupar o cargo de editor e, ao mesmo tempo,
fazer parte da folha de pagamento de Carpathia não lhe passava pela cabeça.
Bruce virou-se subitamente e passou a concentrar-se em Rayford. Buck ϐicou satisfeito por
deixar de ser o foco das atenções, mas entendia como Rayford se sentia. "Acho que sua decisão é
mais fácil de ser tomada, Rayford", disse Bruce. "Basta impor algumas condições, como, por
exemplo, morar aqui desde que isso seja importante para você, e pôr à prova a seriedade deles."
Rayford estava confuso. Olhou para Buck. "Se colocássemos o assunto em votação, seriam
três contra um?"
"Eu poderia perguntar o mesmo", disse Buck. "Aparentemente somos os únicos a achar
que não devemos aceitar esses empregos."
"Talvez você deva", disse Rayford, em tom de brincadeira.
Buck riu. "Estou propenso a pensar que devo ter sido cego, ou pelo menos míope."
Rayford disse que também não sabia o que ele próprio estava propenso a pensar. Bruce
sugeriu que todos se ajoelhassem para orar... algo que eles costumavam fazer reservadamente,
mas não em grupo. Bruce empurrou sua cadeira para o outro lado da escrivaninha e os quatro
ajoelharam-se. Rayford sempre se comoveu ao ouvir outras pessoas orando. Desejava que Deus
lhe dissesse de forma audıv́ el o que deveria ser feito, mas quando ele orou, simplesmente pediu a
Deus que esclarecesse a mente de todos.
Enquanto permanecia ajoelhado, Rayford se deu conta de que precisava submeter-se à
vontade de Deus... novamente. Aparentemente essa deveria ser uma atitude diária, despojar-se
de todas as coisas pessoais, racionais e mesquinhas às quais ele se apegava.
Rayford sentia-se tão insigniϐicante, tão imperfeito diante de Deus que desejava render-se
a ele de maneira mais submissa ainda. Curvou-se mais um pouco, apoiou as mãos no chão,
encostou o queixo no peito, e mesmo assim continuava a sentir-se arrogante, em evidência.
Bruce estava orando em voz alta, mas parou repentinamente. Ao perceber que ele chorava em
silêncio, Rayford sentiu um nó na garganta. Apesar de sentir falta de Irene e Raymie, ele estava
profundamente grato por Chloe, por sua própria salvação e por seus amigos.
Ajoelhado diante de sua cadeira, com o rosto enterrado nas mãos, Rayford orava
silenciosamente. Obedeceria à vontade de Deus, mesmo que não ϐizesse sentido do ponto de
vista humano. A sensação opressiva de ser uma criatura indigna parecia aniquilá-lo e ele
prostrou-se no chão sobre o carpete. Por um breve instante veio-lhe à mente a posição ridıć ula
em que se encontrava, mas afastou rapidamente esse pensamento. Ninguém estava olhando
nem prestando atenção. E se alguém viesse a pensar que aquele orgulhoso piloto havia perdido o
juízo, estaria certo.
Rayford esticou seu longo corpo no chão, enterrando o rosto nas palmas das mãos sobre o
áspero carpete. De vez em quando um deles orava alto por alguns instantes, e
Rayford percebeu que todos estavam com o rosto encostado no chão.
Rayford perdeu a noção do tempo. Sabia apenas vagamente que haviam se passado alguns
minutos sem que ninguém dissesse nada. Ele nunca sentira antes a presença de Deus de forma
tão real. Essa era a verdadeira sensação de pisar em solo sagrado, a mesma que Moisés deve ter
sentido quando Deus lhe pediu que tirasse as sandálias dos pés. Rayford desejava afundar-se ainda
mais no carpete, poder cavar um buraco no chão e ocultar-se da pureza e poder infinito de Deus.
Ele não tinha certeza de quanto tempo permaneceu ali orando, ouvindo. Depois de alguns
instantes, ouviu Bruce levantar-se e sentar-se, cantarolando um hino. Em seguida, os outros três
começaram a cantar em voz baixa e voltaram a sentar-se. Todos tinham os olhos banhados em
lágrimas. Finalmente Bruce falou.
"Tivemos uma experiência muito rara", ele disse. "Acho que precisamos selar esse
acontecimento com uma renovação de compromisso com Deus e com cada um de nós. Se
houver algo entre nós que necessite ser confessado ou perdoado, não devemos sair daqui sem
fazer isso. Chloe, ontem à noite você abordou alguns assuntos importantes, sem deixar claro o
que pretendia."
Rayford olhou de relance para Chloe. "Peço desculpas", ela disse. "Foi um mal-entendido.
Já está esclarecido."
"Não vamos precisar de uma reunião para discutir a pureza sexual durante a Tribulação?"
Ela sorriu. "Não, acho que o assunto está bastante claro para todos nós. No entanto, há
uma coisa que eu gostaria de esclarecer e lamento fazer esta pergunta diante de todos..."
"Não há problema", disse Bruce. "Faça."
"Bem, recebi ϐlores de um anônimo e gostaria de saber se esse gesto partiu de alguém
desta sala."
Bruce olhou ao redor. "Buck?"
"Não", respondeu ele, com um leve sorriso. "Já fui castigado por ser considerado suspeito."
Em seguida, Bruce olhou para Rayford, que apenas sorriu balançando negativamente a
cabeça.
"Então só restei eu", disse Bruce.
"Você?" perguntou Chloe.
"Você limitou suas suspeitas às pessoas que estão aqui nesta sala, não foi?"
Chloe fez um movimento afirmativo com a cabeça.
"Acho que vocêdeverá ampliar a lista de suspeitos", disse Bruce, corando. "Não fui eu, mas
sinto-me lisonjeado por ser um deles. Gostaria de ter tido essa idéia."
A surpresa de Rayford e Chloe deve ter-se evidenciado, porque Bruce imediatamente
passou a dar explicações. "Oh, não é o que vocês estão pensando", disse Bruce. "Acontece que...
bem, acho que enviar flores é um gesto maravilhoso e espero que você tenha gostado de recebê-
las, Chloe, não importa de quem tenham partido."
Bruce pareceu aliviado ao mudar de assunto e voltar ao tema principal da reunião. Pediu
que Chloe falasse de suas pesquisas naquele dia. AƱs dez horas, quando todos já estavam prontos
para partir, Buck virou-se para Rayford. "Por mais maravilhosos que tenham sido estes
momentos de oração, não recebi nenhuma orientação direta sobre o que fazer."
"Nem eu."
"Só vocês não receberam", disse Bruce olhando de relance para Chloe, que concordou com
um movimento de cabeça. "Ficou claro para nós o que vocês devem fazer. E ϐicou claro para
cada um de vocês o que o outro deve fazer. Mas ninguém poderá tomar decisões por vocês."
Buck acompanhou Chloe até a saída da igreja.
"Foi uma maravilha", ela disse.
Ele assentiu. "Não sei o que seria de mim sem aqueles dois."
"Aqueles dois?" Ela sorriu. "Você não deveria ter dito sem vocês?"
"Como eu poderia dizer isso a alguém que tem um admirador secreto?"
Ela piscou para ele. "Talvez você saiba melhor que eu."
"Falando sério, quem você acha que é?"
"Nem sei por onde começar."
"Há tantas possibilidades assim?"
"Poucas. Para falar a verdade, nenhuma."
Rayford estava começando a imaginar que Hattie Durham tinha algo a ver com as ϐlores
de Chloe, mas não queria mencionar essa desconϐiança à ϐilha. Que espécie de idéia maluca teria
passado pela mente de Hattie para maquinar tal coisa? Seria outro de seus trotes?
Na manhã de quarta-feira, Rayford teve a surpresa de ver o presidente da Pan-Con,
Leonard Gustafson, no escritório de Earl em O'Hare. Já se encontrara com ele duas vezes.
Quando desceu do elevador no piso inferior, Rayford deveria ter imaginado que havia algo
anormal. O lugar parecia diferente. Mesas bem arrumadas, funcionários atarefados, gravatas
com laços impecáveis e nenhum sinal de desorganização. As pessoas lançavam olhares
inquiridores enquanto Rayford caminhava em direção ao escritório de Earl.
Gustafson, um ex-militar, era mais baixo que Rayford e mais magro que Earl, mas sua
presença ali parecia tomar conta do pequeno escritório de Earl. Havia uma cadeira extra na
sala. Quando Rayford entrou, Gustafson levantou-se rapidamente, com a capa de uniforme ainda
pendurada no braço, e cumprimentou-o efusivamente.
"Steele, como vai você, homem?" ele disse, apontando uma cadeira como se estivesse em
seu próprio escritório. "Precisei vir a Chicago hoje para tratar de outro assunto, e quando soube
que vocêtinha um encontro com Earl, bem... quis passar por aqui para felicitá-lo e liberá-lo e
desejar-lhe muito sucesso."
"Liberar-me?"
"Bem, não para demiti-lo, é claro, mas para deixá-lo à vontade. Fique tranqüilo porque não
haverá nenhum ressentimento de nossa parte. Você teve uma carreira extraordinária, ou
melhor, brilhante na Pan-Con. Sentiremos sua falta e estamos orgulhosos de você."
"A notícia já foi liberada oficialmente?" indagou Rayford.
Gustafson deu uma sonora gargalhada. "A notıć ia poderá ser liberada imediatamente e
fazemos questão de divulgá-la. Isso será motivo de orgulho para você tanto quanto para nós.
Você é dos nossos e a partir de agora será dele. Você nem está acreditando, não?"
"Os outros candidatos foram eliminados?"
"Não, mas temos informações confidenciais de que o emprego é seu, se você quiser."
"Como foi possível? Houve troca de favores?"
"Não, Rayford, trata-se de uma coisa meio maluca. Você deve ter amigos influentes."
"Para ser franco, não. Não tive nenhum contato com o presidente e não conheço nenhum
de seus assessores."
"Aparentemente você foi recomendado pelo pessoal de Carpathia. Você o conhece?"
"Nunca o vi."
"Conhece alguém que o conheça?"
"A bem da verdade, conheço", murmurou Rayford.
"Você deu a cartada na hora certa", disse Gustafson, dando uma leve palmada no ombro de
Rayford. "Você é perfeito para a função, Steele. Estaremos torcendo por você."
"Então não posso recusar, se quiser?"
Gustafson sentou-se, com o corpo inclinado para frente e os cotovelos apoiados nos joelhos.
"Earl me contou que você estava apreensivo. Não cometa o maior erro de sua vida, Rayford.
Você quer esse emprego. Sabe que quer. Ele está em suas mãos. Agarre-o. Eu o agarraria. Earl o
agarraria. Qualquer outra pessoa da lista daria tudo por ele."
"E tarde demais para eu cometer o maior erro de minha vida", disse Rayford.
"Como é que é?" perguntou Gustafson, mas Rayford viu Earl tocar no braço dele, como se o
estivesse lembrando de que estava lidando com um fanático religioso que acreditava ter perdido
a oportunidade de ir para o céu. "Ah, sim, entendi. Eu quis perguntar desde quando é tarde
demais", emendou Gustafson.
"Sr. Gustafson, como é possıv́ el Nicolae Carpathia determinar ao presidente quem deve ser
o piloto de seu avião?"
"Não sei! E daı?́ Polıt́ ica é polıt́ ica, seja ela da parte dos democratas ou republicanos, como
acontece neste país, ou da parte dos trabalhistas ou bolcheviques em outro lugar qualquer."
Rayford não gostou muito da analogia, mas não podia discutir sua lógica. "Então alguém
está fazendo negociatas e eu sou apenas o instrumento."
"Não é o que acontece com todos nós?" disse Gustafson. "Mas todos amam Carpathia. Ele
parece estar acima da política. Se eu tivesse o poder de adivinhar, diria que o presidente está lhe
cedendo o novo 757 só porque gosta dele."
Ah, sim, pensou Rayford, e eu sou o coelhinho da Páscoa.
"Então, vai aceitar o emprego?"
"Nunca fui pressionado a aceitar um emprego."
"Vocênão está sendo pressionado, Rayford. Gostamos muito de você. Apenas não terıá mos
como justificar por que um de nossos melhores pilotos recusou o melhor emprego do mundo."
"E sobre meu prontuário? Houve o registro de uma queixa contra mim."
Gustafson deu um sorriso de compreensão. "Uma queixa? Não ouvi falar de queixa
nenhuma. Você ouviu, Earl?"
"Nada chegou à minha mesa, senhor", ele disse. "E se tivesse chegado, teria sido
encaminhada imediatamente."
"A propósito, Rayford", disse Gustafson, "você conhece bem Nicholas Edwards?"
Rayford fez um movimento afirmativo com a cabeça.
"Ele é seu amigo?"
"Foi meu primeiro-piloto duas vezes. Gostaria de pensar que somos amigos."
"Você soube que ele foi promovido a capitão?"
Rayford balançou negativamente a cabeça. Política, ele pensou, carrancudo.
"Bom, não?" disse Gustafson.
"Muito bom", disse Rayford, com a cabeça rodando.
"Há outra coisa atrapalhando seu caminho?" perguntou Gustafson.
Rayford percebeu que suas desculpas estavam acabando. "No mıń imo eu teria de
permanecer aqui em Chicago, e mesmo assim não estou afirmando que vou aceitar o emprego."
Gustafson fez um trejeito com a boca e balançou a cabeça. "Earl já me contou isso. Não
compreendo. Achei que vocêgostaria de estar longe daqui, longe das lembranças de sua mulher
e de sua filha."
"Filho."
"Sim, o que estava na faculdade."
Rayford não o corrigiu, mas viu Earl estremecer levemente.
"De qualquer forma", disse Gustafson, "você poderia afastar sua ϐilha de quem a esteja
perseguindo e..."
"Como?"
"...e arrumar um bom lugar para morar nos arredores de Washington."
"Perseguindo?"
"Bem, talvez isso não seja tão evidente ainda, Rayford, mas com certeza eu não ia gostar
que minha filha recebesse presentes anônimos de quem quer que fosse."
"Mas como o senhor...?"
"Rayford, vocênunca se perdoaria se algo acontecesse à sua ϐilha se tivesse a oportunidade
de afastá-la de quem a esteja ameaçando."
"Minha filha não está sendo perseguida nem ameaçada! Do que o senhor está falando?"
"Estou falando das rosas ou de um buquê de flores. O que está por trás disso?"
"EƵ o que eu gostaria de saber. Até onde sei, apenas três pessoas, além da que enviou as
flores, sabe disso. Como o senhor descobriu?"
"Não me lembro. Alguém já mencionou que às vezes uma pessoa tem um bom motivo
para sair de onde está da mesma forma que tem um bom motivo para aceitar uma nova
oportunidade."
"Mas se o senhor não estiver me pressionando, não terei nenhum motivo para sair de onde
estou."
"Nem mesmo se sua filha estiver sendo seguida por alguém?"
"Qualquer um que queira seguir minha ϐilha poderá encontrá-la tanto em Washington
quanto aqui com a mesma facilidade", disse Rayford.
"Mas ainda..."
"Não me agrada a idéia de que o senhor esteja sabendo disso."
"Não recuse um emprego que vale uma vida inteira só por causa de um mistério
insignificante."
"Não é insignificante para mim."
"Gustafson levantou-se. "Não estou acostumado a implorar para que façam o que peço."
"Então, se eu não aceitar o emprego, estarei liquidado na Pan-Con?"
"Deveria estar, mas acho que terıá mos de enfrentar um processo de sua parte depois de
termos incentivado você a aceitar o emprego de piloto do presidente."
Rayford não tinha nenhuma intenção de dar entrada em um processo, mas permaneceu
calado.
Gustafson sentou-se novamente. "Faça-me um favor", ele disse. "Vá até Washington.
Converse com algumas pessoas, principalmente com os assessores do presidente. Diga-lhes que
concorda em pilotar o avião que voará até Israel para a assinatura do tratado de paz. Depois
decida o que fazer. Você me faria esse favor?"
Rayford sabia que Gustafson jamais lhe diria quem o informou a respeito das flores de Chloe
e achou que o melhor seria perguntar a Hattie. "Sim", respondeu ele. "Farei isso."
"OƵtimo!" disse Gustafson, cumprimentando Rayford e Earl. "Penso que já percorremos
metade do caminho. Earl, providencie para que o vôo de hoje de Rayford para Baltimore seja o
último antes de sua viagem a Israel. Ou melhor, como Rayford estará bem perto de Washington,
arrume outro piloto para trazer o avião de volta de modo que ele possa encontrar-se com o
pessoal da Casa Branca ainda hoje. Você pode providenciar isso?"
"Já está providenciado, senhor."
"Earl", disse Gustafson, "se vocêfosse dez anos mais novo, seria o homem ideal para esse
emprego."
Rayford percebeu uma expressão de mágoa no rosto de Earl. Gustafson não sabia o quanto
Halliday havia desejado aquela posição. No caminho para tomar o avião, Rayford veriϐicou sua
caixa de correspondência. Entre outros pacotes e memorandos internos havia um bilhete. Dizia
simplesmente o seguinte: "Obrigado por seu aval à minha recente promoção. Agradeço muito. E
boa sorte a você. Capitão Nicholas Edwards."
Algumas horas depois, quando saıá da cabina de piloto de seu 747 em Baltimore, Rayford
deparou com um funcionário da Pan-Con que lhe entregou as credenciais para entrar na Casa
Branca. Assim que lá chegou, passou com facilidade pelo portão. Um segurança cumprimentouo
pelo nome e desejou-lhe boa sorte. Quando ϐinalmente chegou ao escritório de um assistente
do chefe de gabinete, Rayford deixou claro que concordava apenas em ser o piloto do avião que
voaria para Israel na segunda-feira da semana seguinte.
"Muito bem", disse o assistente. "Já começamos a providenciar a checagem de suas
referências e atestado de idoneidade, a investigação no FBI e a entrevista com o Serviço
Secreto. Como esse processo é um pouco demorado, por ora o senhor poderá demonstrar suas
aptidões para nós e para o presidente, sem ser responsável por ele, até que as investigações
sobre sua vida sejam finalizadas.”
"Então, os senhores estão me autorizando a transportar o secretário-geral da ONU com
menos burocracia do que necessitam para o presidente?"
"Exatamente. De qualquer forma, o senhor já foi aprovado pela ONU."
"Fui?"
"Foi."
"Por quem?"
"Pelo próprio secretário-geral.”.
Buck estava falando ao telefone com Marge Potter, do Semanário Global em Nova York,
quando tomou conhecimento da notıć ia. O mundo inteiro passaria a usar o dólar como moeda
corrente dentro de um ano. O plano seria iniciado e dirigido pela Organização das Nações Unidas,
sendo que um décimo do imposto de um por cento sobre cada dólar seria revertido à ONU.
"Parece razoável, não?" perguntou Marge.
"Pergunte ao editor ϐinanceiro, Marge", disse Buck. "A arrecadação será de montanhas de
dinheiro por ano."
"E o que representa isto?"
"Mais do vocêe eu somos capazes de contar", disse Buck, com um suspiro. "Vocêϐicou de
fazer alguns contatos, Marge, a respeito de encontrar alguém que pudesse ajudar a organizar as
entrevistas sobre religião."
Ele percebeu que Marge mexia em papéis sobre a mesa. "O pessoal ligado à religião
universal está aqui em Nova York", ela disse. "Eles irão embora na sexta-feira, mas poucos
seguirão para Israel. Tentaremos entrar em contato com aqueles dois malucos do Muro das
Lamentações, mas os entendidos daqui aconselham a não contarmos com isso."
"Vou aproveitar as oportunidades."
"E para onde você quer que seus restos mortais sejam enviados?"
"Vou sobreviver."
"Ninguém conseguiu."
"Não vou ameaçá-los, Marge. Vou ajudá-los a divulgar a mensagem deles."
"Se é que eles têm."
"Você entende por que precisamos fazer uma reportagem sobre eles."
"A vida é sua, Buck."
"Obrigado."
"E quando você estiver por aqui, será conveniente ter um encontro com o cardeal
Mathews. Ele está viajando constantemente de Nova York até a arquidiocese de Cincinnati para
participar das reuniões da religião universal. Em seguida, irá para o Vaticano para a eleição do
papa, logo após a assinatura do tratado na próxima segunda-feira."
"Ele estará em Jerusalém?"
"Ah, sim. Se o cardeal Mathews for eleito o novo papa, há rumores de que ele fará alguns
contatos em Jerusalém para erigir ali um santuário ou coisa parecida. Mas os católicos jamais
deixarão o Vaticano, não?"
"Nunca se sabe, Marge."
"Bem, isso é verdade. Mal tenho tempo para pensar nessas coisas porque estou sempre
trabalhando para você e para todo o pessoal daqui que não consegue andar com as próprias
pernas."
"Você é excelente, Marge."
"A bajulação vai atrapalhar você."
"Atrapalhar no quê?"
"Sei lá, vai atrapalhar."
"E quanto ao assunto do rabino?"
"O rabino recusa-se a dar qualquer entrevista antes de apresentar os resultados de sua
pesquisa."
"E quando vai ser isso?"
"Fiquei sabendo hoje que a CNN lhe está concedendo uma hora ininterrupta em sua
comunicação internacional via satélite. Os judeus do mundo inteiro poderão ver o programa ao
mesmo tempo, mas evidentemente alguns terão de acordar no meio da noite."
"E esse programa, quando será?"
"Na segunda-feira à tarde, após a assinatura do tratado, que será às dez da manhã, horário
de Jerusalém. O pronunciamento do rabino Ben-Judá irá ao ar durante uma hora, a partir das
duas da tarde."
"Um plano muito astuto. O programa irá ao ar exatamente quando a nata da imprensa
mundial estiver em Jerusalém."
"Todos aqueles religiosos são astutos, Buck. O indivıd́ uo que provavelmente será o novo
papa estará presente por ocasião da assinatura do tratado, fazendo média com os israelitas. O
rabino se considera tão importante que a assinatura do tratado terá um brilho muito maior em
razão da leitura de sua pesquisa. Com certeza, naquele momento estarei assistindo ao meu
programa favorito de TV. Não quero ver de maneira nenhuma essa baboseira."
"Ora, vamos, Marge. Ele vai contar como você poderá encontrar o Messias."
"Não sou judia."
"Também não sou judeu, mas eu gostaria muito de poder reconhecer o Messias. E você?"
"Você está querendo me tirar do sério para que eu lhe diga a verdade pelo menos uma vez,
Buck? Acho que já vi o Messias. Acho que o conheço. Se é que existe realmente alguém enviado
por Deus para salvar o mundo, acho que esse alguém é o novo secretário-geral da ONU."
Buck sentiu um calafrio.
O nome de Rayford constava da lista de prioridade como passageiro de primeira classe
para o próximo vôo de Baltimore para Chicago. Ele telefonou para Chloe do aeroporto
informando que chegaria um pouco mais tarde.
"Hattie Durham está à sua procura."
"O que ela quer?"
"Está tentando marcar uma entrevista entre você e Carpathia antes que você seja seu
piloto."
"Serei seu piloto na viagem de ida e volta a Tel-Aviv. Por que deveria encontrar-me com
ele?"
"Talvez seja por esse motivo que ele queira ver você antes. Hattie lhe contou que você é
cristão."
"Que maravilha! Ele jamais vai confiar em mim."
"Talvez ele queira vigiá-lo."
"De qualquer forma, preciso conversar com Hattie pessoalmente. Quando Carpathia quer
me ver?"
"Amanhã."
"De repente, minha vida passou a ser muito agitada. Você tem alguma novidade?"
"Hoje recebi mais um presente de meu admirador secreto", ela disse. "Bombons, desta
vez."
"Bombons!" exclamou Rayford, assustado depois do que ouviu de Leonard Gustafson. "Você
não comeu nenhum, não?"
"Ainda não. Por quê?"
"Não toque nessa coisa antes de saber quem mandou."
"Ora, papai!"
"Nunca se sabe, querida. Por favor, não corra riscos."
"Está bem, mas são meus bombons prediletos! Parecem apetitosos.”
"Não tente abri-los até sabermos de onde vieram, está bem?"
"Está bem, mas você vai querer experimentar um. São iguais aos que você sempre me
traz de Nova York, daquela pequena rede de lojas de departamentos."
"Bombons Windmill com recheio de hortelã, da Holman Meadows?"
"Exatamente."
Aquilo era o maior dos insultos. Quantas vezes Rayford havia mencionado a Hattie que
precisava comprar bombons com recheio de hortelãnaquela loja durante suas escalas em Nova
York! Ela chegou a acompanhá-lo mais de uma vez. Então Hattie não estava tentando esconder
que partiam dela os misteriosos presentes. Qual seria o objetivo? Não poderia ser uma vingança
uma vez que ele sempre a tratara como cavalheiro. O que isso tinha a ver com Chloe? Será que
Carpathia tinha conhecimento — ou estava por trás — de uma coisa tão banal?
Rayford descobriria, disso ele tinha certeza.
Buck sentia-se animado novamente. Depois dos desaparecimentos, sua vida esteve tão
tumultuada que ele pensava consigo mesmo se conseguiria voltar à rotina agitada da qual tanto
gostava. Sua jornada espiritual não tinha nada a ver com seu rebaixamento de cargo e
transferência. Mas agora ele parecia ter voltado a cair nas graças da diretoria do Semanário
Global, e usara sua sensibilidade para fazer a troca das reportagens consideradas por ele as mais
sensacionais do mundo inteiro.
Sentou-se em seu escritório doméstico improvisado e voltou a fazer suas tarefas
costumeiras, tais como enviar fax e e-mails, trabalhar com Marge e com os repórteres do
Semanário e fazer contatos telefônicos. Ele precisava entrevistar muitas pessoas em curto
espaço de tempo e todos os acontecimentos pareciam estar pipocando na mesma hora.
Embora estivesse horrorizado com o que acontecera, Buck gostava de seu trabalho
agitado. Desejava muito convencer sua famıĺia a respeito da verdade. Contudo, seu pai e seu
irmão, não lhe dariam ouvidos, e se ele não estivesse tão atarefado com seu trabalho
empolgante e polêmico, aquele fato em si teria sido suϐiciente para deixá-lo completamente
desnorteado.
Buck tinha apenas poucos dias, antes e depois da assinatura do tratado, para aprontar seu
trabalho. Parecia que sua vida inteira estava agora girando em alta velocidade, e ele procurava
aproveitar ao máximo esse perıó do de sete anos. Ele não sabia como seria o reino celestial na
terra, embora Bruce estivesse tentando explicar isso a ele, a Rayford e a Chloe. Buck aguardava
com ansiedade o Glorioso Aparecimento e o reinado de Cristo na terra durante mil anos. Porém,
pelo que aprendera até aquele momento, qualquer coisa normal que ele desejasse fazer —
como, por exemplo, reportagens e artigos sobre fatos a serem investigados, paixão por uma
mulher, casamento e talvez filhos — teria de ser feita em breve.
Chloe era o que Buck tinha de melhor em sua nova vida. Mas será que haveria tempo para
aprender a lidar com um relacionamento que prometia ir além das experiências que ele já
tivera? Ela era diferente de qualquer mulher que ele conhecera e, mesmo assim, não sabia
distinguir essa diferença. A nova fé de Chloe a enriquecera e transformara em outra pessoa, mas
ele sentiu atração por ela antes de ambos aceitarem a Cristo.
A idéia de que o encontro de ambos foi obra de um plano divino deixava Buck maravilhado.
Como ele gostaria de tê-la conhecido alguns anos antes e serem arrebatados juntos! Se ele
quisesse passar algum tempo ao lado dela antes de sua viagem a Israel, teria de ser naquele
mesmo dia.
Buck olhou para o relógio. Havia tempo para mais um telefonema antes de falar com
Chloe.
C A P Í T U L O 12
Rayford cochilava na primeira classe, com os fones de ouvido ligados. As imagens do
noticiário povoavam a tela à sua frente, mas ele perdera o interesse por reportagens sobre os
ıń dices de criminalidade nos Estados Unidos. Ao ouvir o nome de Carpathia, despertou. O
Conselho de Segurança das Nações Unidas estava se reunindo várias horas por dia com o objetivo
de ϐinalizar os planos para a moeda universal e o desarmamento em massa que o secretáriogeral
havia estabelecido. Originalmente, a idéia era destruir 90 por cento das armas e doar à
ONU os 10 por cento restantes. Agora, os paıś es aliados teriam de alistar seus soldados na força
militar da ONU em prol da paz.
Carpathia pedira ao presidente dos Estados Unidos que encabeçasse o comitêde inspeção,
uma atitude altamente controvertida. Os paıś es inimigos dos Estados Unidos chamaram
Fitzhugh de tendencioso e desleal, considerando-se prejudicados porque estariam destruindo
suas armas ao passo que os Estados Unidos estariam aumentando seu potencial bélico.
Carpathia estava abordando esses assuntos, como sempre de maneira direta e simpática.
Rayford deu de ombros enquanto ouvia. Se não tivesse se tornado cristão, com certeza ele teria
defendido esse homem e confiado nele.
"Os Estados Unidos têm sido um paıś mantenedor da paz desde muito tempo", disse
Carpathia. "Este paıś dará o exemplo, destruindo seus armamentos e enviando os 10 por cento
restantes para a Nova Babilônia. Os povos do mundo inteiro poderão vir até aqui e inspecionar o
trabalho feito pelos Estados Unidos, para verem com seus próprios olhos o cumprimento desta
determinação e seguirem o exemplo.”
"Permitam-me fazer um adendo", disse o secretário-geral. "Esta é uma tarefa importante
e grandiosa que talvez levasse anos para ser concluída. Cada país poderia retardar mês após mês
o processo de remessa, mas não devemos permitir que isso aconteça. Os Estados Unidos da
América do Norte darão o exemplo e nenhum outro paıś deverá demorar mais do que eles para
destruir suas armas e doar o restante. Quando a nova sede da Organização das Nações Unidas
estiver instalada na Nova Babilônia, as armas estarão em seu devido lugar.”
"A era da paz está próxima, e o mundo ϐinalmente estará no limiar de tornar-se uma
comunidade global."
O pronunciamento de Carpathia foi seguido de aplausos ensurdecedores, até mesmo por
parte da imprensa.
Mais tarde, no mesmo noticiário, Rayford assistiu a uma breve edição especial sobre o
novo Air Force One, um 757 que pousaria no Aeroporto Dulles, em Washington, e em seguida
voaria para Nova York a ϐim de aguardar seu vôo inaugural sob a direção de "um novo capitão a
ser anunciado em breve. Esse homem foi selecionado de uma lista dos melhores pilotos das
principais empresas aéreas".
Um outro noticiário mencionava que Carpathia havia dito que ele e o conselho ecumênico
dos lıd́ eres religiosos do mundo inteiro fariam um importante pronunciamento na tarde do dia
seguinte.
Buck conseguiu falar por telefone com o assistente do cardeal arcebispo Peter Mathews
em Cincinnati. "Sim, ele está aqui, descansando. Partirá amanhã cedo para Nova York para
estar presente na reunião de encerramento do conselho ecumênico. De lá seguirá para Israel e
depois para o Vaticano."
"Eu estou às ordens para ir a qualquer lugar, a qualquer hora, como ele preferir.", disse
Buck.
"Ligarei para o senhor de volta dentro de trinta minutos, dando-lhe uma resposta."
Buck telefonou para Chloe. "Meu tempo está muito escasso", ele disse, "mas será que
poderíamos nos encontrar, só nós dois, antes da reunião desta noite?"
"Claro, o que houve?"
"Nada especıϐ́ico", ele respondeu. "Eu só gostaria de passar alguns momentos com você,
agora que sabe que sou um homem livre."
"Livre? É isso que você é?"
"Sim, madame! E você?"
"Acho que também sou livre. Isso significa que temos algo em comum."
"Você tinha algum plano para hoje à noite?"
"Não. Papai chegará mais tarde. Ele foi entrevistado na Casa Branca hoje."
"Então ele vai aceitar o emprego?"
"Ele vai fazer a vôo inaugural e decidir depois."
"Eu poderia estar naquele vôo."
"Eu sei."
"Então, posso buscá-la às seis?" perguntou Buck.
"Eu adoraria."
Conforme prometeu, o assistente do cardeal Mathews telefonou para Buck, dando boas
notıć ias. Por ter gostado muito da entrevista que concedera anteriormente a Buck, a qual seria
brevemente publicada como reportagem de capa, o cardeal mandou o assistente dizer que o
convidava para viajar junto com ele para Nova York na manhã seguinte.
Buck reservou lugar no último vôo daquela noite, de O'Hare para Cincinnati. Surpreendeu
Chloe ao aparecer em sua casa às seis horas da tarde levando comida chinesa. Contou a ela
sobre seus planos de viajar ainda naquela noite e complementou: "Eu não quis perder nosso
precioso tempo tentando descobrir um lugar para jantarmos."
"Meu pai ficará com inveja quando chegar", ela disse. "Ele adora comida chinesa."
Enϐiando a mão dentro de uma grande sacola, Buck retirou um prato extra e disse
sorrindo. "É preciso deixar o papai feliz."
Buck e Chloe sentaram-se na cozinha para comer e conversaram por mais de uma hora. A
conversa girou em torno dos mais variados assuntos — a infância de ambos,
suas famıĺias, principais acontecimentos, esperanças, temores e sonhos. Buck gostava
muito de ouvir Chloe falar, não só pelo que ela dizia, mas pelo som de sua voz. Ele não sabia se
ela era a melhor pessoa com quem já conversara ou se simplesmente estava apaixonado.
Provavelmente as duas coisas, ele concluiu.
Quando Rayford chegou, encontrou Buck e Chloe diante do computador de Raymie, que
não havia sido ligado desde a semana dos desaparecimentos. Em poucos minutos Buck havia
estabelecido conexão entre Chloe e a Internet e conseguido um endereço eletrônico para ela.
"Agora você poderá localizar-me em qualquer lugar do mundo", ele disse.
Rayford deixou Buck e Chloe sozinhos diante do computador e examinou os bombons da
Holman Meadows. Ainda estavam embalados em papel celofane e tinham sido entregues por
uma empresa conceituada. Estavam endereçados a Chloe, mas não havia nenhum cartão.
Rayford notou que não havia sinal de violação na embalagem. Decidiu que, mesmo que tivessem
sido enviados por Hattie Durham por algum motivo inexplicável, não faria sentido deixar de
saboreá-los.
"Seja lá quem for que esteja apaixonado por sua ϐilha, com certeza tem bom gosto", disse
Buck.
"Obrigada", disse Chloe.
"Eu quis dizer bom gosto para escolher bombons com recheio de hortelã."
Chloe corou. "Entendi o que você quis dizer."
Por insistência de Rayford, Buck concordou em deixar seu carro na garagem da casa dos
Steeles durante sua viagem. Buck e Chloe saíram mais cedo da reunião da Força
Tribulação direto para o aeroporto. O trânsito estava menos congestionado do que o
normal e eles chegaram ao aeroporto com mais de uma hora de antecedência. "Poderıá mos ter
ficado mais tempo na igreja", disse Buck.
"EƵ melhor chegar com antecedência, vocênão acha?" ela disse. "Detesto chegar em cima
da hora."
"Eu também", ele disse, "mas é o que sempre acontece comigo. Você poderá deixar-me
no meio-fio."
"Eu posso até a hora do vôo, se você não se importar de pagar o estacionamento."
"Você não tem medo de voltar sozinha para pegar o carro a esta hora da noite?"
"Já fiz isso muitas vezes", ela disse. "Há muitos seguranças por aqui."
Ela estacionou o carro e ambos atravessaram juntos o enorme terminal. Ele levava sua
sacola de couro a tiracolo, contendo tudo o que havia de mais precioso em sua vida. Chloe
parecia embaraçada, mas não havia outra sacola para ela carregar. Como eles ainda não
haviam chegado à fase de andar de mãos dadas, continuaram a caminhar lado a lado. Todas as
vezes que Buck virava-se para que ela pudesse ouvi-lo, sua sacola saıá do lugar e a tira
escorregava do ombro, portanto resolveram seguir em silêncio até o portão.
Ao fazer o check-in, Buck constatou que havia poucos passageiros em seu vôo. "Gostaria
que você fosse comigo", ele disse suavemente.
"Eu gostaria...", ela começou a falar, mas aparentemente arrependeu-se.
"Do quê?"
Ela balançou a cabeça.
"Você também gostaria de ir comigo?"
Ela assentiu. "Mas não posso e não vou, portanto não há o que discutir."
"E o que eu faria com você?" perguntou ele. "Colocaria você dentro da sacola?"
Ela riu.
Ambos permaneceram diante das paredes envidraçadas, observando os carregadores de
malas e os controladores do tráfego de terra. Buck ϐingia olhar através do vidro, mas ϐixava-se
no reϐlexo de Chloe a pouca distância dele. Por duas vezes Buck percebeu que Chloe desviou o
olhar da pista para o vidro, e imaginou que deveria estar atraindo o olhar dela. Assim fosse
verdade, ele pensou.
"O vôo atrasará vinte minutos", avisou a funcionária do balcão.
"Não se sinta obrigada a aguardar, Chloe", disse Buck. "Quer que eu a acompanhe até o
carro?"
Ela riu novamente. "Você é paranóico quanto a estacionamentos grandes e antigos, não é
mesmo? Combinamos que eu o traria até aqui, ϐicaria a seu lado para vocênão sentir-se sozinho
e aguardaria até vocêentrar no avião. No momento da decolagem vou acenar para você, ϐingir
que não consigo sair do lugar e só voltarei para o estacionamento quando o avião desaparecer de
vista."
"O quê? Você sempre faz isso quando acompanha alguém?"
"Claro. Agora sente-se, relaxe e finja que está acostumado a viajar pelo mundo inteiro."
"Gostaria de fingir pelo menos uma vez que não estou acostumado."
"Então você ficaria nervoso e precisaria de minha companhia?"
"Preciso de você em qualquer circunstância."
Ela desviou o olhar. Vá devagar, ele disse a si mesmo. Essa era a parte mais divertida, a
fase de defesa mútua, mas também era extremamente incerta. Ele não queria dizer coisas a ela
que não teria dito se não fosse pelo fato de permanecer longe durante alguns dias.
"Preciso de você aqui", ela disse suavemente, "mas você está me abandonando." "Eu
jamais faria isso." "O quê? Abandonar-me?"
"Jamais", ele disse em tom de brincadeira para não afugentá-la. "Isso é animador. Não
gosto dessa história de abandonar."
Rayford aguardava a chegada de Chloe enquanto arrumava as coisas para sua rápida
viagem a Nova York na tarde do dia seguinte. Earl telefonara querendo saber se Rayford
recebera algum telefonema do escritório de Carpathia.
"Essa tal de Hattie Durham é a mesma que trabalhou conosco?" perguntou Earl.
"Exatamente a mesma."
"Ela é secretária de Carpathia?"
"Mais ou menos isso.
"Que mundo pequeno!"
"Acho que seria tolice de minha parte dizer-lhe para tomar cuidado em Cincinnati, Nova
York e Israel, considerando tudo o que você já passou", disse Chloe.
Buck sorriu. "Não comece com suas despedidas antes de estar pronta para ir embora."
"Vou ficar aqui até seu avião desaparecer de vista. Eu já disse isso."
"Temos tempo para comer um doce", ele disse, apontando para um balcão no corredor.
"Já comemos a sobremesa", ela disse. "Chocolates e doces."
"Biscoitinhos da sorte não valem", ele disse. "Vamos. Você se lembra do nosso primeiro
doce?"
No dia em que se conheceram, Chloe havia comido um doce e ele retirara com o polegar
um pedacinho de chocolate que ϐicou grudado no canto de sua boca. Em seguida, sem saber o
que fazer, ele havia lambido o polegar.
"Eu fui uma tola", ela disse. "E você tentou levar na brincadeira."
"Você gostaria de comer um doce?" perguntou Buck, iniciando a mesma brincadeira que
ela fizera com ele no dia em que se conheceram em Nova York.
"Por quê? Eu pareço um?"
Buck riu, não porque a brincadeira foi mais engraçada do que na primeira vez, mas porque
foi um fato tolo acontecido entre eles.
"Não estou com fome", ela disse enquanto ambos observavam através do vidro um jovem
atendente aguardando o pedido com ar de tédio.
"Eu também não", disse Buck. "É para comermos mais tarde."
"Mais tarde ainda hoje ou mais tarde amanhã?" ela perguntou.
"Quando nossos relógios estiverem sincronizados."
"Vamos comer os doces juntos? Quero dizer, na mesma hora?"
"Não seria ótimo?"
"Sua imaginação não tem fim."
Buck pediu dois doces, em pacotes separados.
"Não posso fazer isso", disse o jovem.
"Então quero um só", disse Buck, com o dinheiro na mão e entregando algumas moedas a
Chloe.
"E eu também quero um", ela disse, mostrando as moedas.
O jovem fez uma careta, resolvendo atender ao pedido inicial de Buck, e fez o troco.
"Um jeito a mais de convencer alguém", disse Buck.
Eles caminharam lentamente de volta ao portão. Havia mais alguns passageiros à espera e
a funcionária do balcão avisou que o avião deles ϐinalmente tinha chegado. Buck e Chloe
sentaram-se observando os passageiros que caminhavam em fila, parecendo cansados.
Buck embrulhou cuidadosamente seu doce e colocou-o na sacola. "Estarei voando para
Nova York amanhã cedo, às oito horas", ele disse. "Vou comer este doce na hora do café,
pensando em você."
"Aqui serão sete horas", disse Chloe. "Ainda estarei na cama, pensando em meu doce e
sonhando com você."
Ainda estamos nos testando, pensou Buck. Nenhum de nós quer falar sério.
"Então vou esperar você se levantar", ele disse. "Diga-me quando vai comer seu doce."
"Chloe olhou para cima. "Hummm, ela brincou. "A que horas você estará em sua reunião
mais importante, mais formal?"
"Provavelmente no ϐinal da manhã em um dos grandes hotéis de Nova York. Carpathia
estará lá para fazer um pronunciamento em conjunto com o cardeal Mathews e outros lıd́ eres
religiosos."
"Então vou comer meu doce nessa hora", disse Chloe. "E duvido que vocêtambém coma o
seu nessa hora."
"Você vai aprender a não duvidar de mim." Buck sorriu, mas não estava brincando. "Não
sei o que é medo."
"Pois sim!" ela disse. "Você tem medo do estacionamento daqui e não é capaz de
atravessá-lo sozinho!"
Buck pegou o pacote de doce da mão dela.
"O que você está fazendo?" ela perguntou. "Não estamos com fome, lembra-se?"
"Quero só cheirá-lo", ele disse. "O aroma ajuda a memória."
Buck abriu o pacote do doce de Chloe e aproximou-o do nariz. "Que cheiro bom! Não sei se
é da massa, do chocolate, das nozes ou da manteiga."
Ele aproximou o doce do nariz de Chloe. "Adoro esse cheiro", ela disse.
Com a outra mão, Buck segurou o queixo de Chloe. Ela não se retraiu e ϐixou os olhos nos
dele. "Lembre-se deste momento", ele disse. "Estarei pensando em você enquanto estiver
longe."
"Eu também", ela disse. "Agora feche o pacote. O doce precisa permanecer fresco para
que o cheiro me faça lembrar de você."
Rayford despertou mais cedo que Chloe e dirigiu-se para a cozinha. Pegou o pacote de
doce que estava no balcão. Sobrou um, ele pensou, e teve vontade de comê-lo. Em vez disso,
escreveu o seguinte bilhete a Chloe: "Espero que você não se importe. Não pude resistir." No
verso ele escreveu: "Foi brincadeira", e colocou o bilhete em cima do pacote. Tomou café e
suco. Depois, trocou de roupa e saiu para sua corrida matinal.
Buck sentou-se na primeira classe com o cardeal Mathews no vôo da manhãde Cincinnati
para Nova York. Mathews tinha pouco menos de 60 anos e era um homem forte de rosto
redondo e cabelos bem aparados, cuja cor parecia natural. Sua posição eclesiástica era
evidenciada apenas por seu colete clerical. Carregava uma ϐina maleta e um computador
portátil. Buck notou que ele havia embarcado quatro malas.
Mathews tinha um acompanhante, que simplesmente desviava a atenção das pessoas e
falava pouco. O acompanhante mudou-se para a poltrona da frente de modo que Buck pudesse
sentar-se ao lado do arcebispo. "Por que o senhor não me contou que era candidato a sucessor
do papa?" indagou Buck.
"EƵ melhor não entrarmos desde já neste assunto", disse Mathews. "Você gosta de tomar
champanhe de manhã?"
"Não, obrigado."
"Bem, se você não se importar, preciso tomar algo estimulante."
"Esteja à vontade. Avise-me quando o senhor estiver disposto a conversar."
O acompanhante de Mathews ouviu a conversa e fez um sinal para a comissária de bordo,
que imediatamente trouxe uma taça de champanhe ao cardeal. "O de sempre, não é mesmo?"
ela perguntou.
"Obrigado, Caryn", ele disse, como se a comissária fosse uma velha amiga. Aparentemente
era. Depois que ela foi embora, ele sussurrou: "Ela é da famıĺia Litewski, de minha primeira
paróquia. Foi batizada por mim. Trabalha neste vôo há anos. Mas sobre o que estávamos
falando?"
Buck não respondeu. Sabia que o cardeal ouvira o que ele disse e se lembrava da pergunta.
Se quisesse que fosse repetida para satisfazer seu próprio ego, ele que a repetisse.
"Ah, sim, você queria saber por que não mencionei que era candidato a sucessor do papa.
Pensei que todos soubessem. Carpathia sabia."
Aposto que sim, pensou Buck. Provavelmente maquinou isso. "Carpathia espera que o
senhor seja o próximo papa?"
"Trata-se de um assunto conϐidencial", sussurrou Mathews. "Já está tudo acertado. "Nós
temos os votos."
"Nós?"
"É uma forma de dizer. Nós, eu. Eu tenho os votos, você entende?"
"Como o senhor pode ter tanta certeza assim?"
"Fui membro do Sacro Colégio por mais de dez anos. O fato de vir a ser papa não me
surpreende. Você sabe como Nicolae me chama? Ele me chama de P.M."
Buck deu de ombros. "Ele o chama por suas iniciais? Existe algum significado?"
O acompanhante de Mathews olhou para trás por entre as poltronas e balançou a cabeça.
Eu devia saber, conjeturou Buck. Mas ele nunca receou fazer perguntas tolas.
"Pontifex Maximus", disse Mathews, radiante. "Supremo Papa."
"Parabéns", disse Buck.
"Obrigado, mas espero que você saiba que Nicolae tem outros planos em mente para meu
pontificado do que meramente ser o líder da Santa Madre Igreja Católica Romana."
"Diga-me quais são."
"Serão anunciados no ϐinal desta manhã, e se você não mencionar que fui eu quem disse,
vou lhe dar a notícia em primeira mão."
"Por que o senhor faria isso?"
"Porque gosto de você."
"O senhor mal me conhece."
"Mas conheço Nicolae."
Buck afundou-se na poltrona. "E Nicolae gosta de mim."
"Exatamente."
"Então esta viagem em sua companhia não aconteceu por causa de meu trabalho."
"Ah, não", disse Mathews. "Carpathia deu boas referências suas. Quer que eu lhe conte
tudo. Só não me julgue um homem mau nem pense que estou fazendo autopromoção ao lhe
contar isso."
"O pronunciamento dará essa idéia do senhor?"
"Não, porque o próprio Carpathia fará o pronunciamento."
"Estou ouvindo."
"Escritório do secretário-geral Carpathia. Quem fala é a Srta. Durham."
"Aqui é Rayford Steele."
"Rayford! Como vai..."
"Deixe-me ir direto ao assunto, Hattie. Quero chegar um pouco mais cedo esta tarde para
poder conversar com você em particular por alguns minutos."
"Seria maravilhoso, capitão Steele. Porém, devo dizer-lhe antecipadamente que já tenho
alguém em vista."
"Não achei graça."
"Eu não quis fazer graça."
"Você terá um tempo disponível?"
"Com certeza. Sua reunião com o secretário-geral Carpathia está marcada para as quatro
horas. Posso esperá-lo às três e meia?"
Rayford desligou o telefone enquanto Chloe entrava na cozinha, vestida para trabalhar na
igreja. Ela leu o bilhete. "Oh, papai! Não acredito que vocêtenha feito isso!" Rayford achou que a
ϐilha estava prestes a romper em prantos. Ela pegou o pacote e chacoalhou-o. Assim que virou o
bilhete do outro lado, fez uma expressão de alıv́ io e riu. "Seja adulto, papai. Pelo menos uma vez
na vida, aja de acordo com sua idade."
Ele estava se aprontando para dirigir-se para o aeroporto, e ela para o trabalho, quando a
CNN mostrou ao vivo uma entrevista coletiva à imprensa diretamente da reunião dos lıd́ eres
religiosos em Nova York. "Veja isto, papai", ela disse. "Buck está lá."
Rayford colocou sua bagagem de mão no chão e postou-se ao lado de Chloe, que segurava
uma caneca de café com as duas mãos. O correspondente da CNN explicava o que estava
acontecendo. "Estamos aguardando um pronunciamento em conjunto da coalizão dos lıd́ eres
religiosos e da Organização das Nações Unidas, representada pelo novo secretário-geral Nicolae
Carpathia. Ele parece ser a personalidade do momento. Ajudou a elaborar as proposições e a
reunir os representantes de uma ampla gama de crenças. Desde que ele assumiu o cargo, não
passou um dia sequer sem que houvesse um importante acontecimento.”
"Especula-se por aqui que as religiões do mundo vão fazer uma nova tentativa no sentido
de lidar com as questões de natureza global de uma forma mais coesiva e tolerante como nunca
ϐizeram. O ecumenismo fracassou no passado, mas em breve veremos que desta vez existe uma
nova maneira de fazer com que ϐinalmente ele seja posto em prática. Neste momento está
subindo à tribuna o cardeal arcebispo Peter Mathews, prelado da arquidiocese da Igreja Católica
Romana em Cincinnati e considerado por muitos como um forte candidato a sucessor do Papa
João XXIV, cuja atuação polêmica durou apenas cinco meses até ser incluıd́ o na lista dos que
desapareceram algumas semanas atrás."
A TV exibiu uma imagem panorâmica da plataforma diante dos jornalistas, onde mais de
duas dúzias de religiosos do mundo inteiro, todos vestidos com trajes de seus paıś es de origem,
dirigiam-se para seus respectivos lugares. Assim que o arcebispo Mathews abriu caminho até o
lugar destinado aos microfones, Rayford ouviu Chloe dar um grito.
"Lá está Buck, papai! Olhe! Bem ali!"
Ela apontava para um repórter que não se encontrava no meio da multidão de jornalistas,
mas que parecia estar balançando na beira da plataforma. Era Buck, tentando manter o
equilíbrio. Por duas vezes ele desceu e subiu novamente na plataforma.
Enquanto Mathews discorria em tom monótono a respeito da cooperação internacional,
Rayford e Chloe ϐixavam os olhos em um canto no fundo da plataforma onde estava Buck.
Ninguém mais teria notado sua presença. "O que ele tem nas mãos?" perguntou Rayford.
"Parece um bloco de anotações ou um gravador."
Chloe aproximou-se do aparelho de TV e respirou fundo. Correu até a cozinha e voltou
com o pacote de doce. "E o doce dele!" ela disse. "Vamos comer nossos doces na mesma hora!"
Rayford não entendeu nada, mas com certeza gostou de não ter comido aquele doce. "O
quê...?" ele começou a falar, mas Chloe pediu-lhe silêncio.
"Tem o mesmo cheiro de ontem à noite!" ela disse.
Rayford deu uma risada de desdém. "O que tem o mesmo cheiro de ontem à noite?"
"Silêncio!"
Enquanto ambos ϐitavam a tela da TV, Buck enϐiou rapidamente a mão dentro do pacote
e, de modo disfarçado e quase invisıv́ el pegou o doce, colocou-o na boca e deu uma mordida.
Chloe acompanhou os gestos dele e Rayford notou que ela ria e chorava ao mesmo tempo.
"Você não deve estar regulando bem", ele disse, e saiu para o aeroporto.
Buck não fazia idéia se sua pequena artimanha tinha sido notada por alguém, muito menos
por Chloe Steele. O que aquela moça estava fazendo com ele? Algo estranho havia acontecido.
Ele, que era um famoso jornalista internacional, de repente passara a ser um homem romântico
cometendo tolices para chamar a atenção. Não muita atenção, assim ele esperava. Poucas
pessoas costumam notar o que se passa nos cantos de uma tela de TV. Chloe poderia estar
assistindo ao noticiário sem tê-lo visto.
Mais importante do que seus esforços para chamar a atenção foi um acontecimento maior
ainda que, em outra ocasião, poderia ter sido rotulado de típica confabulação internacional. Quer
fosse pelo fato de prometer apoio ao pontiϐicado de Mathews quer fosse por sua sinistra
habilidade em cativar as pessoas, Nicolae Carpathia tinha conseguido que aqueles lıd́ eres
religiosos elaborassem uma proposição de um incrível significado.
Além de anunciarem seus esforços e cooperação no sentido de serem mais tolerantes uns
com os outros, eles também estavam anunciando a formação de uma religião totalmente nova,
que incorporaria os dogmas de todas as já existentes.
"E para que isso não pareça impossıv́ el aos seguidores de cada uma das religiões que aqui
representamos", disse Mathews, "houve unanimidade de nossa parte, de todos nós. Nossas
religiões têm sido a causa de muitas divisões e derramamento de sangue no mundo inteiro como
acontece com qualquer governo, exército ou armamento. A partir de hoje nos uniremos sob a
bandeira da Fé da Comunidade Global. Nosso emblema terá os sıḿ bolos sagrados de todas as
religiões, e daqui em diante abrangerá todos esses sıḿ bolos. Quer acreditemos em Deus como
um ser real ou simplesmente como um conceito, Deus está em tudo, acima de tudo e ao redor
de tudo. Deus está em nós. Deus é igual a nós. Nós somos Deus."
Quando a sessão foi aberta para perguntas, muitos astutos editores religiosos dispararam
suas ϐlechas. "O que vai acontecer com a liderança do, digamos, catolicismo romano? Haverá
necessidade de um papa?"
"Elegeremos um papa", respondeu Mathews. "E esperamos que as outras principais
religiões continuem a nomear seus lıd́ eres. Porém esses lıd́ eres prestarão contas à Fé da
Comunidade Global e esperamos que preservem a lealdade e a devoção de seus paroquianos à
causa maior."
"Existe um dogma principal que tenha a concordância de todos vocês?"
Esta pergunta provocou gargalhadas nos participantes. Mathews convocou um
rastafariano (membro de uma seita da Jamaica que considera os negros como o povo escolhido
por Deus para a salvação, n.t.) para responder. Por meio de um intérprete, ele disse:
"Acreditamos de fato em duas coisas. Em primeiro lugar acreditamos na bondade fundamental
do ser humano. Em segundo lugar acreditamos que os desaparecimentos foram uma puriϐicação
de natureza religiosa. Em algumas religiões, muitas pessoas desapareceram. Em outras, poucas.
Em diversas, nenhuma. Porém o fato de muitas pessoas terem sido deixadas para trás,
independentemente da religião que professam, prova que nenhuma é melhor que a outra.
Seremos tolerantes com todas as pessoas, acreditando que as melhores ficaram."
Buck postou-se diante dos lıd́ eres religiosos e levantou a mão. "Cameron Williams, do
Semanário Global", ele disse. "Esta pergunta é dirigida ao cavalheiro que está diante do
microfone, ao cardeal Mathews ou outro lıd́ er religioso. Como esse dogma da bondade
fundamental do ser humano se coaduna com a idéia de que as pessoas más foram separadas de
nós? Elas não possuíam a bondade fundamental do ser humano?"
Nenhum deles se movimentou para responder. O rastafariano olhou para Mathews, que
ϐitava Buck de maneira inexpressiva, deixando claro que não desejava demonstrar
aborrecimento mas desejando também dar a entender que se sentia traído.
Finalmente Mathews pegou o microfone. "Não estamos aqui para debater teologia", ele
disse. "Sou um daqueles que acredita que os desaparecimentos constituıŕ am uma puriϐicação e
que a bondade fundamental do ser humano é o denominador comum dos que ϐicaram. E grande
parte dessa bondade fundamental é encontrada no secretário-geral da Organização das Nações
Unidas Nicolae Carpathia. Vamos saudá-lo, por favor!"
Os lıd́ eres religiosos levantaram as mãos para saudar Carpathia. Alguns jornalistas
aplaudiram. Pela primeira vez Buck notou o enorme público que se aglomerava atrás do pessoal
da imprensa. Em razão dos holofotes, ele não conseguira enxergar o público e não ouvira sua
manifestação até Carpathia aparecer.
Carpathia, com seu tıṕ ico jeito dominador, dava todo crédito à liderança do corpo
ecumênico e apoiava aquela "idéia histórica e perfeita, que há muito tempo deveria ter sido
implantada".
Ele respondeu a algumas perguntas, inclusive sobre o que aconteceria com a reconstrução
do templo judeu em Jerusalém. "Tenho a satisfação de dizer que a reconstrução continuará.
Conforme a maioria de vocês já sabe, uma grande soma de dinheiro tem sido doada para esta
causa durante décadas, e há alguns anos estão sendo preparados blocos pré-moldados em outros
lugares do mundo para a reconstrução do templo. Assim que a reconstrução for iniciada,
terminará rapidamente."
"E o que acontecerá com a Cúpula Islâmica do Rochedo?"
"Fico muito satisfeito por você ter feito esta pergunta", disse Carpathia, enquanto Buck
indagava a si mesmo se o próprio Carpathia não a teria planejado. "Nossos irmãos muçulmanos
concordaram em mudar o santuário e a parte sagrada do rochedo para a Nova Babilônia,
deixando os judeus à vontade para reconstruıŕ em seu templo onde acreditam ser o seu lugar
primitivo.’”
“E agora, peço a permissão dos senhores para alongar-me um pouco mais. Eu gostaria de
dizer que estamos vivendo o momento mais decisivo da história mundial. Com a consolidação
da moeda universal, com a cooperação e tolerância de muitos lıd́ eres religiosos, com o
desarmamento mundial e o compromisso rumo à paz, o mundo será verdadeiramente
unificado.”
"Muitos de vocês ouviram-me pronunciar a expressão Comunidade Global. Trata-se de um
nome digno para a nossa nova causa. Podemos nos comunicar uns com os outros, professar nossa
fé uns com os outros, comercializar uns com os outros. Em razão dos avanços nas comunicações
e nas viagens, não somos mais um conglomerado de paıś es e nações, mas uma comunidade
global completa, uma aldeia composta de cidadãos iguais. Agradeço aos lıd́ eres aqui presentes
que compuseram esta linda peça de mosaico, e gostaria de fazer um pronunciamento em
homenagem a eles.”
"Com a mudança da sede da ONU para a Nova Babilônia nossa grande organização
receberá um nome novo. Seremos conhecidos como Comunidade Global!" Depois que os
aplausos cessaram, Carpathia concluiu: "Portanto, o nome da nova religião universal, Fé da
Comunidade Global, aplica-se com precisão."
Carpathia estava sendo conduzido para fora enquanto as equipes de TV e som começavam
a deixar o local da entrevista. Nicolae avistou Buck e parou, avisando seus guarda-costas que
queria conversar com alguém. Eles formaram uma barreira humana enquanto Carpathia
abraçava Buck. Sem poder recuar, Buck só conseguiu sussurrar o seguinte no ouvido de
Carpathia: "Tome cuidado com o que o senhor está fazendo com minha independência
jornalística."
"Alguma notıć ia boa para mim?" perguntou Carpathia, segurando no braço de Buck e
lançando-lhe um olhar penetrante.
"Ainda não, senhor.
"Nós nos encontraremos em Jerusalém?"
"Claro."
"Você manterá contato com Steve?"
"Sim."
"Diga-lhe o que você vai precisar e será feito. É uma promessa."
Buck desviou-se para um pequeno grupo onde Peter Mathews estava rodeado de
admiradores. Quando o arcebispo notou sua presença, Buck inclinou-se para frente e' sussurrou:
"O que eu deixei de ver?"
"Como assim? Você esteve presente."
"O senhor disse que Carpathia faria um pronunciamento a respeito de uma função mais
abrangente para o novo papa, algo maior e mais importante até mesmo que a Igreja Católica."
Mathews balançou a cabeça. "Talvez eu tenha supervalorizado sua capacidade, amigo.
Ainda não sou papa, mas pela declaração do secretário-geral você deveria ter deduzido que
haverá necessidade de um chefe para a nova religião. E qual o melhor lugar para sua sede a não
ser o Vaticano? E quem estaria mais apto a dirigi-la do que o novo papa?" "Então o senhor será o
papa dos papas."
Mathews sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. "P.M.", ele disse.
Duas horas mais tarde, Rayford chegou à sede da Organização das Nações Unidas.
Continuava a orar em silêncio depois de ter telefonado a Bruce Barnes pouco antes de
embarcar. "Parece que vou encontrar-me com o demônio", dissera Rayford. "Não que exista
algo nesta vida que me assuste, Bruce. Sempre me orgulhei disso. Mas preciso lhe dizer que isto
é horrível."
"Em primeiro lugar, Rayford, se você fosse encontrar-se com o Anticristo na segunda
metade da Tribulação, aí é que estaria lidando com o próprio Satanás."
"Então, o que Carpathia é? Um demônio de segundo escalão?"
"Não, você necessita de orações. Sabe o que aconteceu diante dos olhos de Buck."
"Buck é dez anos mais novo que eu e está em melhor forma fıś ica", disse Rayford. "Achou
que vou desmoronar lá."
"Não vai. Permaneça ϐirme. Deus sabe onde você está, e o tempo dele é perfeito. Estarei
orando e você sabe que Chloe e Buck também estarão."
Essa conversa foi muito confortadora para Rayford, e ele se sentia particularmente
animado por saber que Buck estava em Nova York. O fato de saber que ele estava próximo fez
Rayford sentir-se menos solitário. Mesmo assim, em sua ansiedade por ter de encarar Carpathia,
não queria deixar passar a provação de enfrentar Hattie Durham.
Hattie estava aguardando quando ele desceu do elevador. Ele esperava ter alguns
momentos para fazer o reconhecimento do terreno, refrescar-se, respirar fundo. Mas lá estava
ela, jovem e linda, mais deslumbrante do que nunca em razão de uma tez bronzeada e roupas
caras confeccionadas sob medida para um corpo escultural. Rayford não esperava vê-la tão linda
e teve a sensação de estar pecando quando um lampejo de saudade dela invadiu sua mente.
A velha ıń dole de Rayford imediatamente fê-lo lembrar-se do motivo de ter sentido
atração por ela durante um perıó do crıt́ ico de seu casamento. Orou em silêncio, agradecendo a
Deus por não ter permitido que ele tivesse feito algo do qual viesse a arrepender-se para sempre.
Assim que Hattie abriu a boca, ele voltou à realidade. Sua dicção e articulação eram mais
refinadas, mas ela ainda era uma mulher misteriosa, e ele percebeu isso em seu tom de voz.
"Capitão Steele", disse efusivamente. "Que maravilha vê-lo novamente! Como vão todos os
outros?"
"Todos os outros?"
"Você sabe. Chloe, Buck e todos os outros."
Chloe e Buck são todos, ele pensou, mas não disse.
"Todos estão bem."
"Ah, que ótimo."
"Existe um lugar reservado onde possamos conversar?"
Ela o conduziu para seu local de trabalho que era demasiadamente exposto. Não havia
ninguém por perto para ouvi-los, mas o teto tinha uma altura de no mıń imo seis metros. A
escrivaninha, as mesas e os arquivos dela estavam instalados em uma local que fazia lembrar
uma estação ferroviária, sem paredes ao redor. Os passos de ambos ecoavam e Rayford teve a
nítida impressão de que eles estavam muito distantes do escritório do secretário-geral.
"Então, quais são as novidades depois da última vez que nos encontramos, capitão Steele?"
"Hattie, não quero ser indelicado, mas peço que você pare com esse 'capitão Steele' e
deixe de ϐingir que não sabe das novidades. A novidade é que você e seu novo chefe invadiram
meu trabalho e minha família, e parece que estou sem forças para tomar uma atitude.”
C A P Í T U L O 13
Stanton Bailey segurou ϐirme nos braços de sua enorme poltrona e encostou-se no
espaldar, analisando Buck Williams.
"Cameron", ele disse, "nunca vou conseguir entender você. Qual o signiϐicado daquele
pacote?"
"Era apenas um doce. Eu estava com fome."
"Eu também sinto fome", vociferou Bailey, "mas não costumo comer diante das câmeras
de TV!"
"Achei que não seria visto por ninguém."
"Bem, agora você já sabe que foi visto. E se Carpathia e Plank ainda quiserem que você
esteja presente durante a assinatura do tratado em Jerusalém, nada de lanches."
"Era só um doce."
"Nada de doces também."
Depois de anos como capitão de Hattie Durham, agora Rayford sentia-se como se fosse seu
subordinado, sentado do outro lado daquela imensa mesa. De repente ela ϐicou séria, talvez por
ele ter abordado o assunto de forma tão direta.
"Ouça, Rayford", ela disse, "continuo a gostar de você apesar de ter-me desprezado, está
certo? Não quero magoá-lo por nada deste mundo."
"Tentar protocolar uma queixa contra mim na empresa em que trabalho não é uma forma
de me magoar?"
"Foi só uma brincadeira. Você sabe disso."
"Causou-me muita dor de cabeça. E quanto ao bilhete enviado para mim em Dallas,
mencionando que o novo Air Force One era um 757?"
"Foi a mesma coisa, eu já lhe disse. Uma brincadeira."
"Não achei graça. Foi muita coincidência."
"Bem, Rayford, se você não gosta de brincadeiras, tudo bem, não vou ϐicar aborrecida.
Como somos amigos, achei que um pouco de divertimento não faria mal a ninguém."
"Vamos, Hattie. Você acha que acredito nessa história? Não é de seu feitio. Você não
costuma passar trotes em seus amigos. Não faz parte de seu modo de ser."
"Está bem, sinto muito."
"Isso não basta."
"Perdoe-me, mas lembre-se que não me reporto mais a você."
Hattie tinha a capacidade de confundir Rayford mais do que qualquer outra pessoa. Ele deu
um suspiro profundo e lutou para controlar-se. "Hattie, quero que vocême conte a história das
flores e dos bombons."
Hattie não tinha o mıń imo talento para blefar. "Flores e bombons?" ela repetiu após uma
pausa, demonstrando culpa.
"Pare com esse jogo", disse Rayford. "Admita que foi você e explique-se."
"Só faço o que me pedem, Rayford."
"Viu? Não consigo compreender. Será que eu deveria perguntar ao homem mais poderoso
do mundo por que ele enviou ϐlores e bombons para minha ϐilha, se nem ao menos a conhece?
Ele a está perseguindo? E se estiver, por que não se identifica?"
"Ele não a está perseguindo, Rayford! Ele tem alguém em vista."
"Como assim?"
"Ele tem interesse em alguém."
"Alguém que conhecemos?" Rayford lançou-lhe um olhar de desagrado.
Hattie parecia conter o riso. "Só posso dizer que temos uma novidade, mas a imprensa
ainda não sabe, portanto gostaríamos..."
"Vamos fazer um trato. Vocêpára de mandar presentes anônimos a Chloe, me explica os
motivos e eu guardo seu pequeno segredo, que tal?"
Hattie inclinou-se para frente, como se estivesse conspirando. "Está bem. Vou dizer o que
penso, certo? Quero dizer, não sei. Conforme já lhe disse, faço o que me pedem. Mas existe uma
mente brilhante por trás disso."
Rayford não tinha dúvidas. Só gostaria de saber por que Carpathia estava gastando tempo
com uma coisa tão banal.
"Prossiga."
"Ele deseja realmente que você seja seu piloto."
"Está bem", disse Rayford, tentando fazê-la prosseguir.
"Você vai aceitar?"
"Aceitar o quê? Eu só mencionei que estava entendendo o que você dizia, apesar de não
ter certeza disso. Ele quer que eu seja seu piloto, e...?"
"Mas ele sabe que você se sente feliz onde está."
"Continuo tentando entender."
"Ele quer oferecer-lhe um emprego sedutor e, ao mesmo tempo, forçá-lo a sair do lugar
onde você vive."
"Ele persegue minha filha e eu vou trabalhar com ele por causa disso?"
"Não, seu bobo. Para todos os efeitos, você não sabe que foi ele!"
"Entendo. Eu ϐicaria preocupado com alguém de Chicago e tentaria procurar outro
emprego longe de lá." "Agora você entendeu." "Tenho muitas perguntas a fazer, Hattie."
"Pergunte."
"Por que eu iria embora de lá só pelo fato de alguém estar perseguindo minha ϐilha? Ela já
tem quase vinte e um anos. É normal que tenha admiradores."
"Mas nós agimos anonimamente. Deveria ter dado a impressão de algo um pouco perigoso,
um pouco preocupante."
"E foi."
"Então conseguimos o que queríamos."
"Hattie, você não imaginou que eu descobriria tudo quando enviou os bombons favoritos de
Chloe, vendidos só na Holman Meadows em Nova York?"
"Opa!", ela disse. "Parece que não fui muito esperta."
"Está bem, digamos que funcionou. Acho que minha filha está sendo perseguida por alguém
que parece sinistro. Se Carpathia está tão ıń timo do presidente, ele não sabia que a Casa Branca
me quer como piloto do Air Force One!"
"Rayford! Entenda! "É esse o emprego que ele deseja para você."
Rayford afundou-se na cadeira e suspirou. "Hattie, por tudo o que há de mais sagrado no
mundo, diga-me o que está acontecendo. Recebo informações da Casa Branca e da Pan-Con que
Carpathia quer que eu seja piloto do presidente. Sou aprovado sem burocracia para conduzir a
delegação da ONU até Israel. Carpathia me quer como seu piloto mas primeiro quer que eu seja
o capitão do Air Force One, é isso?"
Hattie dirigiu um sorriso tolerante e condescendente a Rayford, o que o deixou furioso.
"Rayford Steele", ela disse em tom de voz professoral, "você ainda não entendeu nada, não?
Você não sabe quem Carpathia realmente é."
Rayford ϐicou desorientado por alguns instantes. Ele sabia mais do que ela quem Carpathia
realmente era. A dúvida era se ela suspeitava disso. "Então me conte quem ele é", disse Rayford.
"Ajude-me a entender."
Hattie olhou para trás, como se estivesse aguardando a chegada de Carpathia a qualquer
momento. Rayford sabia que ninguém conseguiria entrar sorrateiramente naquele enorme
edifıć io com piso de mármore sem que o eco de seus passos fossem ouvidos. "Nicolae não vai
devolver o avião."
"Como?"
"Você ouviu. O avião já está em Nova York. Você vai vê-lo hoje. Está sendo pintado."
"Pintado?"
"Você verá."
A mente de Rayford girava. O avião tinha sido pintado em Seattle antes de seguir para
Washington, D.C. Por que seria pintado novamente?
"Como ele vai fazer para não devolvê-lo?"
"Ele vai agradecer ao presidente o presente que recebeu e..."
"Ele já agradeceu. Eu ouvi."
"Mas desta vez ele deixará claro que está agradecendo um presente e não um empréstimo.
Você vai ser contratado pela Casa Branca e vai trazer o avião, recebendo seu salário como
funcionário do presidente. O que o presidente poderá fazer? Dizer que foi traıd́ o? Dizer que
Nicolae está mentindo? Ele apenas vai desejar ser tão generoso quanto Nicolae diz que ele é.
Você não acha uma idéia brilhante?"
"Trata-se de uma grosseria, de um roubo. Por que eu deveria querer trabalhar para um
homem como esse? E você? Por quê?"
"Vou trabalhar para Nicolae pelo tempo que ele me quiser aqui, Rayford. Nunca aprendi
tanto em tão pouco tempo. Não se trata de roubo nenhum. Nicolae diz que os Estados Unidos
estão tentando encontrar uma forma de ajudar a ONU, e a forma é esta. Vocêsabe que o mundo
está se uniϐicando e alguém vai precisar ser o lıd́ er desse novo governo universal. A doação do
avião é uma prova de que o presidente Fitzhugh tem o secretário-geral Carpathia em alta
consideração."
Hattie falava como um papagaio. Carpathia a doutrinara bem, talvez não para entender,
mas pelo menos para acreditar.
"Está bem", resumiu Rayford. "Carpathia consegue de uma maneira ou outra que a PanCon
e a Casa Branca coloquem meu nome em primeiro lugar na lista dos candidatos a piloto do
Air Force One. Ele faz com que você me perturbe a ponto de eu querer mudar de cidade. Eu
aceito o emprego, ele pega o avião e nunca mais o devolve. Eu sou o piloto, mas quem me paga
é o governo dos Estados Unidos. E tudo isso tem relação com o fato de Carpathia ϐinalmente
tornar-se o líder do mundo."
Hattie apoiou o queixo nos dedos cruzados, com os cotovelos sobre a mesa, empinando a
cabeça. "Não foi tão complicado assim, foi?"
"Eu só não entendo por que sou tão importante para ele."
"Ele me perguntou qual foi o melhor piloto com quem trabalhei e por quê."
"E eu venci", disse Rayford.
"Venceu."
"Você lhe contou que quase tivemos um caso?"
"Tivemos?"
"Não importa."
"Claro que não lhe contei e nem você vai querer lhe contar, se quiser preservar um bom
emprego."
"Mas você contou-lhe que sou cristão."
"Sim, por que não? Você conta a todo mundo. Eu acho que ele também é cristão."
"Nicolae Carpathia?"
"Claro! Pelo menos ele vive de acordo com os princıṕ ios cristãos. Está sempre preocupado
em fazer o bem. Esta é uma de suas frases prediletas. Assim como o assunto do avião. Ele sabe
que os Estados Unidos querem presenteá-lo com o avião, mesmo que não estejam pensando
nisso. Talvez eles se sintam um pouco confusos a princıṕ io, mas como é para o bem do mundo,
ϐicarão satisfeitos com este gesto. Parecerão heróis generosos aos olhos de todos, por causa de
Carpathia. Não é uma atitude cristã?"
Buck estava escrevendo à mão rapidamente. Havia deixado seu gravador no hotel, dentro
da mala, na esperança de apanhá-lo quando retornasse do escritório do Semanário Global para
entrevistar o rabino Marc Feinberg, um dos principais defensores da reconstrução do templo
judaico. Porém, assim que entrou no saguão do hotel, quase esbarrou em Feinberg, que
arrastava um enorme baú, com rodas na base. "Lamento muito, meu amigo. Consegui lugar em
um vôo mais cedo e estou de saída. Acompanhe-me."
Buck tirou o caderno de anotações de um dos bolsos e uma caneta do outro. "O que o
senhor tem a dizer sobre os pronunciamentos?" perguntou Buck.
"Tenho a dizer o seguinte: Hoje eu me transformei em uma espécie de polıt́ ico. Se
acredito que Deus é um conceito? Não! Acredito que Deus é uma pessoa! Se acredito que todas
as religiões do mundo podem unir-se e tornar-se uma só? Não, provavelmente não. Meu Deus é
um Deus cioso de seus direitos e não compartilhará sua glória com ninguém. Se temos condição
de tolerar uns aos outros? Com certeza.
"Vocêtalvez vai me perguntar por que estou dizendo que me tornei um polıt́ ico. Porque
vou me empenhar na reconstrução do templo. Vou tolerar e cooperar com qualquer pessoa que
tenha um bom coração, desde que minha fé no verdadeiro Deus de Abraão, Isaque e Jacó não
venha a ser sacriϐicada. Não concordo com as idéias e os métodos de grande parte dessa gente,
mas se eles quiserem prosseguir, vou fazer o mesmo. Acima de tudo, quero que o templo seja
reconstruído em seu local primitivo. E essa idéia será levada adiante a partir de hoje. Tome nota
de minhas palavras. O templo será reconstruído dentro de um ano."
O rabino atravessou rapidamente a porta de saıd́ a e pediu ao porteiro que chamasse um
táxi. "Mas, senhor", disse Buck, "se o dirigente da nova religião universal considera-se um
cristão..."
Feinberg fez um gesto de irritação com a mão. "Ora! Todos nós sabemos que o chefe da
nova religião será Mathews e que ele provavelmente também será o novo papa! Considera-se
um cristão? Ele é um cristão do princıṕ io ao ϐim! Ele acredita que Jesus foi o Messias. Logo, logo
vou acreditar que Carpathia é o Messias."
"O senhor está falando sério?"
"Creia-me, já pensei nisso. A missão do Messias é trazer justiça e paz duradoura. Veja o
que Carpathia fez em questão de semanas! Ele não preenche todos os requisitos? Constataremos
isso na segunda-feira. Você sabia que meu colega, o rabino Tsion Ben-Judá, está..."
"Sim, e vou continuar atento." Havia inúmeras outras questões que Buck poderia levantar
acerca de Carpathia, mas antes ele precisava conversar pessoalmente com Ben-Judá. De
Feinberg, ele só queria extrair a história do templo, portanto redirecionou o assunto. "O que há
de tão importante a respeito da reconstrução do templo?"
O rabino Feinberg deu um passo à frente e virou o corpo, observando a ϐila de táxis,
visivelmente preocupado com o pouco tempo de que dispunha. Apesar de não ϐitar Buck nos
olhos, ele continuou sua explanação. Fez uma breve preleção, como se estivesse lecionando a
um grupo de gentios interessados na história dos judeus.
"O rei Davi desejava construir um templo ao Senhor", ele disse. "Deus, porém, achou que
Davi havia provocado muito derramamento de sangue por ser um guerreiro. Portanto, quem
construiu o templo foi Salomão, o ϐilho de Davi. O templo era magnıϐ́ico. Jerusalém era a cidade
onde Deus estabeleceria seu nome e onde seu povo se reuniria para adorá-lo. A glória de Deus
tornou-se visıv́ el no templo e ele passou a ser um sıḿ bolo da mão de Deus protegendo a nação.
O povo sentia-se tão protegido que, mesmo quando se voltava contra Deus, acreditava que
Jerusalém era uma cidade intocável, enquanto o templo permanecesse ali."
Um táxi aproximou-se e o porteiro colocou a maleta dentro do baú. "Pague o porteiro e
acompanhe-me", disse Feinberg. Buck sorriu, tirou uma nota do bolso e colocou-a na mão do
porteiro. Mesmo que tivesse de pagar a corrida de táxi, a entrevista em si valeria a pena.
"Kennedy", disse Feinberg ao motorista.
"Este carro tem telefone?" perguntou Buck ao motorista.
O motorista entregou-lhe um telefone celular. "Só para chamadas com cartão de crédito."
Buck pediu a Feinberg que lhe mostrasse a conta do hotel onde constava o número do
telefone. Chamou a chefe da administração e disse-lhe que sua mala deveria ϐicar guardada ali
por mais tempo do que ele esperava. "Alguém já pegou a mala para o senhor."
"Alguém o quê?"
"Pegou a mala para o senhor. Disse que era seu amigo e que a entregaria ao senhor."
Buck estava perplexo. "A senhora deixou minha mala ser levada por um estranho que disse
ser meu amigo?"
"Senhor, o caso não é tão grave assim. Acho que o homem poderá ser localizado
facilmente, se for necessário. Ele aparece todas as noites nos noticiários."
"O Sr. Carpathia?"
"Sim, senhor. Um de seus assessores, um tal de Sr. Plank, prometeu entregar a mala ao
senhor."
Feinberg demonstrou um ar de satisfação quando Buck desligou o telefone. "Vamos voltar
ao templo!" ele gritou e o motorista tirou o pé do acelerador. "Você não!" disse Feinberg. "Nós!"
Buck perguntou a si mesmo o que um homem com tanta energia e entusiasmo faria em
outra profissão. "O senhor seria um exímio racquetball player [jogador de um tipo semelhante ao
squash]."
"Eu sou um exímio jogador de squash!" retrucou Feinberg. "Categoria 'menos A. E você?"
"Aposentado."
"Tão jovem!"
"Tão atarefado."
"Ninguém é atarefado demais para praticar exercıć ios fıś icos", disse o rabino, batendo de
leve em seu estômago ϐirme e rijo. "Ah, o templo", ele disse. O trânsito estava congestionado e
Buck continuou a fazer anotações.
Quando Hattie se desculpou para atender ao telefone, Rayford tirou do bolso seu Novo
Testamento que incluıá o livro dos Salmos, dos quais ele havia memorizado alguns versıć ulos. AƱ
medida que sua ansiedade sobre a reunião com Carpathia começou a intensiϐicar-se, ele passou
a tentar localizar seus versículos favoritos.
Encontrou o Salmo 91 e leu os versıć ulos que ele havia sublinhado. "O que habita no
esconderijo do Altıś simo, e descansa à sombra do Onipotente, diz ao Senhor: Meu refúgio e meu
baluarte, Deus meu em quem conϐio. Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita; tu não serás
atingido. Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos
dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos."
Quando Rayford levantou os olhos, Hattie já tinha desligado o telefone e olhava para ele
com ar de expectativa. "Desculpe-me", ele disse, fechando a Bíblia.
"Está tudo bem", ela disse. "O secretário-geral já pode recebê-lo."
Diante da aϐirmativa do motorista de que chegariam ao aeroporto a tempo, Feinberg
voltou ao assunto. "O templo e a cidade de Jerusalém foram destruıd́ os pelo rei Nabucodonozor.
Setenta anos depois, foi emitido um decreto para que a cidade fosse reconstruıd́ a e, em seguida,
o templo. O novo templo, sob a direção de Zorobabel e Josué, o sumo sacerdote, era tão inferior
ao templo de Salomão que alguns anciãos choraram quando viram seus alicerces.”
"Mesmo assim, o templo serviu ao povo de Israel até ser profanado por Antıó co Epıf́anes,
um legislador greco-romano. Por volta do ano 40 a.C, Herodes, o Grande, derrubou peça por
peça do templo e reconstruiu-o. O templo passou a ser conhecido como Templo de Herodes. E
você sabe o que aconteceu depois."
"Sinto muito, não sei."
"Você escreve sobre religião e não sabe o que aconteceu com o Templo de Herodes?"
"Na verdade, nesta reportagem sou um reserva do articulista religioso."
"Um reserva?"
Buck sorriu. "O senhor é um jogador de raquetball — categoria 'menos A' — e não sabe o
que é reserva?"
"Não é uma palavra usada em squash", disse o rabino. "E com exceção do futebol
americano, não me interesso por outros esportes. Deixe-me contar-lhe o que aconteceu com o
Templo de Herodes. Tito, um general romano, sitiou Jerusalém e, apesar de ter dado ordens
para que o templo não fosse destruıd́ o, os judeus não conϐiaram nele. Resolveram queimar o
templo para impedir que caıś se nas mãos dos pagãos. Hoje o Monte do Templo, local do antigo
templo judaico, está ocupado pelos maometanos e abriga a mesquita muçulmana chamada
Cúpula do Rochedo."
Buck estava curioso. "Como os muçulmanos foram persuadidos a transferir a Cúpula do
Rochedo de lugar?"
"EƵ uma prova da grandeza de Carpathia", disse Feinberg. "Quem, a não ser o Messias,
poderia pedir aos devotos muçulmanos que mudassem o santuário que, na religião deles, é o
segundo em importância depois de Meca, o local de nascimento de Maomé? Mas veja, a Cúpula
do Rochedo no Monte do Templo está construıd́ a bem em cima do Monte Moriá, onde
acreditamos que Abraão tenha mostrado sua submissão a Deus, dispondo-se a sacriϐicar seu ϐilho
Isaque. Evidentemente não cremos que Maomé seja divino, portanto acreditamos que nosso
local sagrado está sendo profanado, enquanto a mesquita muçulmana estiver ocupando o Monte
do Templo."
"Então hoje é um grande dia para Israel."
"Um grande dia! Desde que nossa nação foi estabelecida, temos reunido milhões de pessoas
do mundo inteiro para a reconstrução do templo. A obra já começou. Muitas paredes pré-
fabricadas estão terminadas e, em breve, serão enviadas para o local. Quero viver para assistir à
reconstrução do templo. Ele será mais espetacular do que o templo da época de Salomão!"
"Finalmente nos conhecemos", disse Nicolae Carpathia, levantando-se e caminhando ao
redor da mesa para apertar a mão de Rayford Steele. "Obrigado, Srta. Durham. Vamos nos
sentar aqui mesmo."
Hattie saiu e fechou a porta. Nicolae apontou para uma cadeira e sentou-se na outra,
diante de Rayford. "E assim fechamos nosso pequeno círculo."
Rayford sentia-se estranhamente calmo. Tinha orado por isso e sua mente estava repleta
das promessas dos Salmos. "Como assim, senhor?"
"Acho interessante notar como o mundo é pequeno. Talvez seja por isso que acredito tanto
que em breve seremos uma verdadeira comunidade global. Vocêacredita que vim a conhecê-lo
por intermédio de um botânico israelense chamado Chaim Rosenzweig?"
"Ouvi falar de seu nome, evidentemente, mas não o conheço pessoalmente."
"Claro que não. Mas você o conhecerá. Se não for hoje, enquanto estiver aqui, será no
sábado, no vôo para Israel. Chaim me apresentou a um jovem jornalista que escreveu uma
reportagem sobre ele. O jornalista conheceu sua comissária de bordo, a Srta. Durham, no avião
que vocêpilotava e depois apresentou-a a mim. Agora ela é minha assistente e apresentou você
a mim. Que mundo pequeno!"
Earl Halliday dissera a mesma coisa quando ouviu falar que Hattie Durham, uma exfuncionária
da Pan-Con, estava trabalhando para o homem que queria Rayford como piloto do
Air Force One. Rayford não disse nada a Carpathia. Não acreditava que o encontro entre eles
havia sido coincidência. O mundo não era tão pequeno assim. Talvez todos eles tinham sido
encaminhados para o lugar onde Deus queria que estivessem, e por esse motivo Rayford estava
ali naquele dia. Não era uma situação que ele tinha almejado ou procurado, mas estava disposto
a ouvir.
"Então, você quer ser o piloto do Air Force One."
"Não, senhor, não era esse o meu desejo. Estou disposto a pilotá-lo até Jerusalém com sua
delegação, a pedido da Casa Branca, e depois vou decidir se aceito ou não o convite para o cargo
de piloto."
"Você não procurou ocupar essa posição?"
"Não, senhor."
"Mas está disposto."
"Vou fazer uma tentativa."
"Sr. Steele, vou fazer um prognóstico. Presumo que depois de ver o avião, experimentar
sua tecnologia de última geração, jamais desejará pilotar outro mais simples."
"Acredito que sim." Mas não por esse motivo, pensou Rayford. Só se for da vontade de Deus.
"Quero também contar-lhe um pequeno segredo, algo que ainda não foi divulgado. A Srta.
Durham assegurou-me que você é um homem conϐiável, um homem de palavra e que
recentemente tornou-se um homem religioso."
Rayford assentiu, não desejando dialogar.
"Vou conϐiar que você guardará segredo até a notıć ia ser divulgada. O Air Force One está
sendo emprestado à Organização das Nações Unidas pelo presidente dos Estados Unidos como
um gesto de apoio ao nosso trabalho."
"Os noticiários já divulgaram isso, senhor."
"Claro, mas ainda não divulgaram que, depois, o avião será doado a nós, junto com a
tripulação, para nosso uso exclusivo."
"Quanta amabilidade da parte do presidente Fitzhugh."
"Quanta amabilidade", repetiu Carpathia. "E quanta generosidade."
Rayford compreendeu por que as pessoas eram atraıd́ as pelo charme de Carpathia, mas,
sentado diante daquele homem e sabendo que ele estava mentindo, era fácil resistir.
"Para quando está marcado seu vôo de volta?" perguntou Carpathia.
"Deixei-o em aberto. Estou à sua disposição. No entanto, preciso estar em casa antes de
partirmos no sábado."
"Gosto de seu estilo", disse Carpathia. "Você está à minha disposição. Isso é ótimo.
Evidentemente você deve entender que, se aceitar este emprego — e sei que vai aceitá-lo —
não deverá fazer dele uma plataforma para proselitismos."
"Não entendi."
"Estou dizendo que a Organização das Nações Unidas, que passará a ser conhecida como
Comunidade Global, e eu em particular, somos contra o sectarismo."
"Sou um crente em Cristo", disse Rayford. "Freqüento igreja. Leio minha Bıb́ lia. Digo às
pessoas o que acredito."
"Mas não no trabalho."
"Se o senhor vier a ser meu superior e der essa ordem, serei obrigado a obedecer."
"Serei seu superior, darei essa ordem e você obedecerá", disse Carpathia. "Creio que
estamos entendidos."
"Certamente."
"Gosto de você e acredito que podemos trabalhar juntos."
"Eu não conheço o senhor, mas acredito que posso trabalhar com qualquer pessoa." De
onde partira essa frase? Rayford quase sorriu. Se ele podia trabalhar com o Anticristo, com quem
mais não poderia?
Assim que o táxi encostou no meio-ϐio do Aeroporto Internacional Kennedy, o rabino Marc
Feinberg disse: "Estou certo de que vocênão se importará de incluir esta corrida de táxi em sua
conta, uma vez que me entrevistou."
"Certamente", disse Buck. "O Semanário Global tem a satisfação de proporcionar-lhe uma
corrida de táxi até o aeroporto, desde que não seja necessário levá-lo de avião para Israel."
"Já que você mencionou isso...", disse o rabino com um piscar de olhos, porém não
completou a frase. Limitou-se a fazer um aceno, pegou sua bagagem e entrou apressadamente
no terminal.
"Só chamadas com cartão..."
"Eu sei, só chamadas com cartão de crédito." Buck ligou para Steve Plank na ONU. "Qual o
motivo para você surripiar minha mala?"
"Eu só estava tentando fazer-lhe um favor, velho companheiro. Você está no Plaza?
Levarei a mala para você."
"Estou no Plaza, mas vou até aí. Não era isso que você pretendia?"
"Que assim seja."
"Estarei aí em uma hora."
"Carpathia talvez não esteja aqui."
"Não vou até aí para ver Carpathia. Vou até aí para ver você."
Nicolae Carpathia apertou o botão do interfone. "Srta. Durham, já providenciou o carro
para nos levar até o hangar?"
"Sim, senhor. Está na entrada dos fundos."
"Estamos prontos."
"Darei um toque quando o pessoal da segurança chegar."
"Obrigado." Nicolae virou-se para Rayford. "Quero que você veja o avião."
"Certamente", disse Rayford, embora preferisse voltar para casa. Por que cargas d'água
havia dito que estava à disposição de Carpathia?
"Vamos voltar para o hotel, senhor?"
"Não", respondeu Buck. "Para o edifıć io da ONU, por favor. Eu gostaria de usar novamente
seu telefone celular. Posso?"
Quando Hattie deu o toque, Carpathia levantou-se e sua porta foi aberta. Dois seguranças
postaram-se ao lado de Nicolae e Rayford enquanto eles se dirigiam para os corredores até o
elevador de serviço. Desceram até o subsolo e caminharam em direção ao estacionamento onde
havia uma limusine aguardando. O motorista levantou-se rapidamente e abriu a porta para
Carpathia. Rayford foi encaminhado para o outro lado do carro, onde a porta já estava aberta.
Rayford notou algo estranho. Carpathia não lhe oferecera nada para beber enquanto
estiveram em seu escritório e agora insistia em mostrar-lhe tudo o que havia na limusine em
matéria de bebidas, desde uıś que e vinho até cerveja e refrigerantes. Rayford aceitou um
refrigerante.
"Você não bebe?"
"Não bebo mais."
"Costumava beber?"
"Nunca fui um beberrão, mas abusava de vez em quando. Não bebi mais nada desde que
perdi minha família."
"Lamento muito a perda de sua família."
"Obrigado, mas já superei essa fase. Sinto imensamente a falta deles..."
"Claro."
"Mas sinto-me em paz."
"Sua religião acredita que Jesus Cristo os levou para o céu, não é isso?"
"Isso mesmo."
"Não vou ϐingir que aceito essa crença, mas respeito em razão do conforto que ela lhe
trouxe."
Rayford gostaria de argumentar, mas lembrou-se do conselho prudente de Bruce Barnes
quanto ao fato de 'testemunhar' ao Anticristo.
"Também não sou um beberrão", disse Carpathia, tomando um gole de água mineral
gasosa.
"Por que você não quis que eu levasse sua mala ao hotel?" perguntou Steve Plank. "Eu
teria ido até lá."
"Necessito de um favor."
"Podemos fazer uma troca de favores, Buck. Diga sim à proposta de Carpathia e jamais
precisará pedir favores nesta vida."
"Para lhe dizer a verdade, Steve, neste momento tenho tantas reportagens excelentes nas
mãos que não há tempo sequer para pensar em mudar de emprego."
"Escreva-as para nós."
"De jeito nenhum. Mas ajude-me, se você puder. Quero encontrar-me com aqueles dois
indivíduos que estão no Muro das Lamentações."
"Nicolae odeia aqueles dois. Acha que são malucos. E é evidente que são."
"Então ele não teria problemas em me ajudar a entrevistá-los."
"Vou ver o que posso fazer. Hoje ele está ocupado, falando com um candidato a piloto.”
"Não diga!"
Carpathia e Rayford desceram da limusine em um imenso hangar do aeroporto Kennedy.
Carpathia disse ao motorista: "Diga a Frederick para preparar a apresentação de sempre."
Quando as portas do hangar se abriram, o avião foi magniϐicamente iluminado por
holofotes. No lado diante de Rayford viam-se as palavras Air Force One e o brasão da presidência
dos Estados Unidos. No entanto, quando se dirigiram para o outro lado, Rayford viu um grupo de
homens em cima de um andaime, pintando o avião. O brasão e o nome tinham sido eliminados.
Em seu lugar, havia o antigo logotipo da Organização das Nações Unidas mas com as palavras
Comunidade Global pintadas por cima do nome atual. E no lugar do nome da aeronave os
homens estavam terminando de pintar as palavras Global Community One (Comunidade Global
Um).
"Quanto tempo vai demorar para vocês terminarem de pintar os dois lados?" perguntou
Carpathia ao chefe da equipe.
"A tinta estará seca em ambos os lados por volta da meia-noite!" foi a resposta. "Levamos
seis horas para pintar este lado. A pintura do outro lado será mais rápida. Estará em perfeitas
condições para voar no sábado!"
Carpathia fez um sinal de positivo com o polegar e os funcionários do hangar aplaudiram.
"Gostarıá mos de subir a bordo", disse Carpathia em voz baixa. Em poucos minutos os homens
instalaram um elevador improvisado para permitir que os dois entrassem pela porta traseira
daquele avião cintilante.
Rayford já havia conhecido inúmeros aviões novos e geralmente ficava impressionado, mas
nenhum era semelhante ao que ele via naquele momento.
Cada detalhe foi luxuosamente instalado e todos eram funcionais e maravilhosos. Na parte
traseira havia banheiros completos com chuveiros. Depois via-se a área reservada à imprensa,
com tamanho suϐiciente para instalar divisórias. Cada poltrona tinha um telefone, tomada para
modem, videocassete e TV. O restaurante ϐicava na parte central, completamente abastecido e
com espaço para os passageiros movimentarem-se e respirarem.
Perto da parte frontal estavam os aposentos presidenciais e a sala de reuniões. Um dos
cômodos continha soϐisticados equipamentos de segurança e vigilância, serviço de comunicação
de alta tecnologia, permitindo que o avião se comunicasse com qualquer parte do mundo.
Logo atrás da cabina do piloto viam-se os aposentos da tripulação, incluindo um
apartamento privativo para o piloto. "Talvez você não queira permanecer dentro do avião
quando pousarmos em algum lugar durante alguns dias", disse Nicolae, "mas com certeza vai ser
difícil encontrar acomodações semelhantes fora daqui."
Enquanto Buck se encontrava na sala de Steve, Hattie entrou para avisar que Nicolae saíra
por alguns minutos. "Oh, Sr. Williams!" ela disse. "Não me canso de agradecer-lhe por ter-me
apresentado ao Sr. Carpathia."
Buck não sabia o que falar. Não queria dizer que foi uma satisfação. Na verdade, sentia-se
arrependido. Fez apenas um sinal afirmativo com a cabeça.
"Você sabe com quem ele está hoje?" ela perguntou.
Ele sabia, mas fingiu ignorar. "Com quem?"
Buck entendeu que deveria estar sempre alerta diante dela, de Steve e principalmente de
Carpathia. Eles não poderiam saber de sua amizade com Rayford, e se tivesse condições de
impedir que os três tomassem conhecimento de seu caso com Chloe, seria melhor ainda.
"Rayford Steele. Ele era o piloto do avião em que conheci você."
"Eu me lembro", disse Buck.
"Você sabia que ele está sendo avaliado para ser o piloto do Air Force One!"
"Seria uma honra para ele, não?"
"Ele merece. É o melhor piloto com quem já trabalhei."
Buck sentia-se embaraçado por falar sobre seu novo amigo e irmão em Cristo como se
mal o conhecesse. "O que faz dele um bom piloto?" perguntou Buck.
"Decolagens e aterrissagens suaves. Ele se comunica muito com os passageiros. Trata a
tripulação como colegas e não como escravos."
"Impressionante", disse Buck.
"Você gostaria de conhecer o avião?" perguntou Steve.
"Posso?"
"Ele está no hangar suplementar do aeroporto Kennedy."
"Acabei de vir de lá."
"Gostaria de voltar?"
Buck deu de ombros. "Já designaram outra pessoa para fazer a reportagem sobre o novo
avião, sobre o piloto e outros assuntos relacionados, mas com certeza eu adoraria conhecer o
avião."
"Você poderá voar nele até Israel." "Não, não posso", disse Buck. "Meu chefe foi muito
claro quanto a esta questão."
Quando Rayford voltou para casa naquela noite, sabia que Chloe seria capaz de adivinhar
que ele estava pensativo. "Bruce cancelou a reunião desta noite", ela disse.
"Ótimo. Estou exausto."
"Então fale-me sobre Carpathia."
Rayford tentou. O que havia para ser dito? O homem era amistoso, charmoso, sereno e, se
não tivesse mentido, Rayford teria pensado que eles o haviam julgado mal. "Acho que não há
mais dúvidas quanto à sua identidade, você concorda?" ele deduziu.
"Em minha mente, não", ela disse. "Mas ainda não o conheço pessoalmente."
"Sabendo quem você é, acho que ele não a enganaria nem por um segundo."
"Assim espero", ela disse. "Mas Buck admite que ele é um assombro."
"Você teve notícias de Buck?"
"Ele ficou de ligar hoje à meia-noite, horário de Nova York."
"Será que vou precisar ficar acordado para ter a certeza de que você não vai cair no sono?"
"EƵ difıć il. Ele ainda não sabe que comemos nossos doces na mesma hora. Eu não poderia
deixar de contar-lhe isso por nada deste mundo.”
C A P Í T U L O 14
Buck Williams estava tirando proveito de todas as suas habilidades jornalísticas. No sábado,
depois de tentar dormir um pouco no Hotel Rei Davi para recuperar o cansaço da viagem,
deixou recados para Chaim Rosenzweig, Marc Feinberg e até mesmo para Peter Mathews. De
acordo com Steve Plank, Nicolae Carpathia recusara o pedido de Buck para ajudá-lo a
aproximar-se dos dois pregadores diante do Muro das Lamentações.
“Eu já contei a você, disse Steve. Ele acha que aqueles indivıd́ uos são loucos e está
desapontado por você pensar que merecem uma reportagem.”
“E ele não conhece ninguém que possa me ajudar a chegar lá?”
“É uma área restrita.”
“Exatamente o meu ponto forte. Será que ϐinalmente descobrimos algo que Nicolae, o
Grande, não pode fazer?”
Steve zangou-se. “Você sabe tanto quanto eu que Carpathia pode comprar o Muro das
Lamentações – disse em tom irado. Mas você não chegará perto daquele lugar sem sua ajuda.
Ele não quer você lá, Buck. Pelo menos uma vez na vida, procure entender e não se meta.”
“Ah! Até parece que sou assim.”
“Buck, deixe-me perguntar-lhe uma coisa. Se vocêafrontar Carpathia e depois recusar sua
proposta ou deixá-lo tão irritado a ponto de ele desistir de contratá-lo, onde vai trabalhar?”
“Vou trabalhar.”
“Onde? Você não vê que ele exerce inϐluência em qualquer lugar? O povo o adora! Fará
qualquer coisa por ele. As pessoas saem de uma reunião com ele e passam a fazer coisas que
jamais sonharam fazer.”
Não me diga! pensou Buck.
“Tenho muito trabalho a fazer — disse Buck. — De qualquer maneira, obrigado.”
“Neste momento você tem trabalho. Mas nada é permanente.”
Steve jamais proferira palavras tão verdadeiras, apesar de não saber.
A segunda batalha de Buck foi com Peter Mathews, que estava escondido em uma suíte de
cobertura em um hotel cinco estrelas de Tel-Aviv. Apesar de ter recebido o recado de Buck, não
dera a devida atenção. “Admiro você, Williams — ele disse — mas acho que já lhe passei as
melhores informações que sei, tanto conϐidenciais como não-conϐidenciais. Não tenho nenhuma
ligação com os indivíduos do Muro, mas vou-lhe dar uma opinião, se é isso que você quer.”
“Só quero encontrar alguém que tenha condições de me aproximar dos dois, a ϐim de que
eu possa conversar com eles. Se quiserem me matar, me queimar ou ignorar minha presença, é
prerrogativa deles.”
“Tenho permissão para aproximar-me do Muro das Lamentações por causa de minha
posição, mas não estou interessado em ajudá-lo a chegar lá. Sinto muito. Acho que esses
indivıd́ uos são dois anciãos estudiosos do Torá, ϐingindo ser Moisés e Elias reencarnados. Seus
trajes são horrıv́ eis e suas pregações, piores ainda. Não tenho idéia por que as pessoas morreram
quando tentaram ofendê-los. Talvez esses dois bobocas tenham compatriotas escondidos no
meio das massas que tiram da frente quem os ameaça. Agora preciso ir. Você estará presente
por ocasião da assinatura do tratado na segunda-feira?”
“Estou aqui por esse motivo, senhor.”
“Então nos encontraremos lá. Faça um favor a si mesmo e não manche sua reputação
escrevendo uma reportagem sobre esses dois. Se vocêquiser uma reportagem, acompanhe-me
num passeio hoje à tarde, quando visitarei os possıv́ eis locais para a instalação do Vaticano em
Jerusalém.”
“Mas como o senhor explica o fato de não ter chovido em Jerusalém desde que esses dois
começaram a pregar?’”
“Eu não dou a mıń ima atenção a isso. Talvez até as nuvens não queiram ouvir o que eles
têm a dizer. De qualquer forma, é raro chover por aqui.”
Rayford conheceu a tripulação do Global Community One apenas poucas horas antes da
decolagem. Nenhum dos tripulantes trabalhara na Pan-Continental. Durante uma rápida
conversa preliminar com eles, Rayford enfatizara que a segurança era um requisito de suma
importância. “EƵ por isso que cada um de nós está aqui. Os procedimentos corretos e o protocolo
vêm depois. Devemos fazer tudo de acordo com o regulamento e manter em dia nosso diário de
bordo e a conferência de todos os itens da aeronave. Devemos estar vigilantes, com os pés no
chão e servir a nossos patrões e passageiros. Embora tenhamos de dar tratamento diferenciado
às autoridades e servi-las, devemos ter em mente que a segurança dessas pessoas é a nossa
maior preocupação. A tripulação mais eϐiciente é a tripulação invisıv́ el. Os passageiros sentem
conforto e segurança quando vêem uniformes e bom atendimento, mas não nos vêem
individualmente.”
O primeiro co-piloto de Rayford era mais velho que ele e provavelmente gostaria de
ocupar a posição de piloto. No entanto, era simpático e eϐiciente. O navegador era um jovem
que Rayford não teria escolhido, mas que dava conta do recado. Os comissários de bordo tinham
trabalhado junto no Air Force One e pareciam estar muito impressionados com a nova aeronave.
Rayford não poderia culpá-los por isso. Tratava-se de uma maravilha da tecnologia, porém em
breve eles já estariam acostumados e não mais haveria motivos para espanto.
Pilotar o 757 era, conforme Rayford comentara com o examinador em Dallas, a mesma
coisa que sentar-se ao volante de um Jaguar. Contudo, a empolgação foi desaparecendo durante
o vôo. Logo depois da decolagem, Rayford deixou a aeronave por conta do co-piloto e dirigiu-se
a seus aposentos particulares. Esticou-se na cama e, de repente, se deu conta de sua solidão.
Como Irene ϐicaria orgulhosa naquele momento, quando ele tinha alcançado a posição máxima
na aviação mundial. Para ele, no entanto, isso signiϐicava muito pouco, apesar de sentir dentro
de si que estava cumprindo a vontade de Deus. Por que motivo, ele não fazia idéia. Porém, no
fundo Rayford tinha a certeza de que não mais voaria pela Pan-Con.
Telefonou a Chloe, acordando-a. “Sinto muito, Chio”, ele disse.
“Não se preocupe, papai. Como você está? Empolgado?”
“Ah, sim. Não posso negar isso.”
Eles já haviam conversado que as comunicações entre o ar e a terra provavelmente
seriam vigiadas, portanto não deveria haver palavras depreciativas a respeito de Carpathia nem
de qualquer outra pessoa ao redor dele. Também não mencionariam o nome de Buck.
“ Você conhece alguém daí?”
“Somente Hattie. Estou me sentindo muito só.”
“Eu também. Não conversei com ninguém mais. Devo receber um telefonema na segundafeira
de manhã, seu horário. Quando você chegará a Jerusalém?”
“Dentro de mais ou menos três horas pousaremos em Tel-Aviv e seremos transportados
para Jerusalém em carros de luxo.”
“Você não vai pousar em Jerusalém?”
“Não. Um 757 não tem condições de pousar lá. Tel-Aviv ϐica apenas a cinqüenta e poucos
quilômetros de Jerusalém.”
“Quando você vai voltar?”
“Estamos programados para sair de Telavive na terça-feira de manhã, mas agora estão
dizendo que voaremos para Bagdá na segunda à tarde e sairemos de lá na terça de manhã. Isto
aumenta o percurso total em seiscentas milhas aéreas, cerca de mais uma hora.”
“Por que Bagdá?”
“EƵ o único aeroporto perto da Babilônia que comporta uma aeronave deste tamanho.
Carpathia quer dar uma chegada até a Babilônia para contar seus planos ao povo de lá.”
“Você vai junto com ele?”
“Imagino que sim. Babilônia ϐica cerca de oitenta quilômetros ao sul de Bagdá, de ônibus.
Se eu aceitar este emprego, imagino que vou conhecer uma grande parte do Oriente Médio nos
próximos anos.”
“Eu já estou com saudade de você. Gostaria de estar aí.”
“Sei de quem você está com saudade, Chloe.”
“Minha saudade inclui você, papai.”
“Ah, dentro de um mês serei apenas um zero à esquerda para você. Então, vou poder ver
de perto aonde você e esse tal de quem está com saudade vão chegar.”
“Bruce ligou. Ele recebeu um telefonema estranho de uma senhora chamada Amanda
White, que diz ter conhecido a mamãe. Ela contou a Bruce que viu a mamãe apenas uma vez
num dos grupos de estudos bıb́ licos da igreja e que não se lembra exatamente do nome dela. Ela
só se lembra que o nome da mamãe soava como ferro e aço.”
“Hum — disse Rayford — Irene Steele. Nunca pensei nela dessa maneira. O que aquela
senhora queria?”
“Ela contou que se tornou cristã em grande parte por lembrar-se do que a mamãe disse
naquele estudo bıb́ lico, e agora está procurando uma igreja. Ela queria saber se a Igreja Nova
Esperança ainda estava de pé e funcionando.”
“Por onde ela tem andado?”
“Chorando a perda do marido e de duas filhas adultas. Ela os perdeu no Arrebatamento.”
“Se sua mãe foi tão importante em sua vida, como essa senhora não consegue lembrar-se
do nome dela?”
“Sei lá — disse Chloe.”
Buck deu um cochilo de uma hora e meia antes de receber uma ligação de Chaim
Rosenzweig, que acabara de chegar.
“Até eu vou precisar adaptar-me ao fuso horário, Cameron, disse Rosenzweig. — Já ϐiz
tantas vezes esta viagem e, no entanto, ainda sinto os efeitos da mudança de horário. Há quanto
tempo você está em nosso país?”
“Cheguei ontem de manhã. Preciso de sua ajuda. — Buck contou a Rosenzweig que
gostaria de aproximar-se do Muro das Lamentações. — Já tentei — ele disse — mas devo ter
ϐicado a quase cem metros de distância. Os dois homens estavam pregando, e a multidão era
muito maior do que vi pela CNN.”
“Oh, a multidão é bem maior agora que estamos perto da assinatura do acordo. Em vista
disso, talvez os dois intensiϐiquem suas atividades. Mais e mais pessoas estão chegando para
ouvi-los, e aparentemente eles estão vendo judeus ortodoxos convertendo-se ao Cristianismo.
Muito estranho. No caminho, Nicolae perguntou sobre os dois e os viu nos noticiários da TV. Ele
ficou tão zangado como nunca vi.”
“O que ele disse?”
“Esse é o problema. Ele não disse nada. Seu rosto ϐicou vermelho e ele cerrou a mandıb́ ula.
Só o conheço um pouco, você sabe, mas sei quando ele está perturbado.”
“Chaim, preciso de sua ajuda.”
“Cameron, não sou ortodoxo. Não posso ir até o Muro, e mesmo que pudesse,
provavelmente não me arriscaria. Também não o aconselho a ir. O fato mais importante aqui é
a assinatura do acordo na segunda-feira de manhã. Nicolae, a delegação israelense e eu
ϐinalizamos os preparativos em Nova York na sexta-feira. Nicolae foi brilhante. Ele é magnıϐ́ico,
Cameron. Aguardo com ansiedade o dia em que nós dois estaremos trabalhando para ele.”
“Chaim, por favor. Sei que qualquer jornalista do mundo gostaria muito de ter uma
entrevista exclusiva com os dois pregadores, mas sou o único que não vai desistir até conseguir
ou morrer tentando.”
“Não faça isso.”
“Doutor, nunca lhe pedi nada a não ser um pouco de seu tempo, e o senhor sempre
demonstrou generosidade.”
“Não sei o que posso fazer por você, Cameron. Eu mesmo o levaria até lá, se pudesse. Mas,
de qualquer forma, você não vai conseguir.”
“Mas o senhor conhece alguém que tenha acesso.”
“Claro que conheço! Conheço muitos judeus ortodoxos, muitos rabinos, mas...”
“E quanto a Ben-Judá?”
“Ora, Cameron! Ele está muito atarefado. Sua apresentação ao vivo sobre o projeto de
pesquisa irá ao ar na segunda-feira à tarde. Ele deve estar se preparando como um estudante
antes das provas de fim de ano.”
“Talvez não, Chaim. Talvez ele já tenha feito tantas pesquisas que poderia falar sobre esta
última durante uma hora, sem ter nenhuma anotação em mãos. Talvez ele já esteja pronto e
aguardando algo com que se ocupar, a ϐim de não exagerar nos preparativos ou não ϐicar
estressado enquanto aguarda o grande momento.”
Houve silêncio do outro lado da linha, e Buck orou para que Rosenzweig capitulasse.
“Não sei, Cameron. Eu não gostaria de ser incomodado numa ocasião tão próxima a um
grande momento.”
“Vocême faria apenas um favor, Chaim? Só peço que ligue para ele, deseje-lhe boa sorte e
sinta como está sua programação neste ϐim de semana. Eu irei a qualquer lugar, a qualquer
hora, se ele puder me fazer chegar perto do Muro.”
“Só se ele estiver à procura de uma diversão — disse Rosenzweig.. — Se eu perceber que
ele está mergulhado em seu trabalho, não vou nem abordar o assunto.”
“Obrigado! O senhor me dará um retorno?”
“De uma forma ou outra. Cameron, por favor não ϐique muito esperançoso nem me culpe
se ele não tiver tempo.”
“Eu jamais faria isso.”
“Eu sei. Percebo o quanto isso é importante para você.”
Buck estava desligado do mundo e não tinha idéia de quanto tempo o telefone estava
tocando. Sentou-se na cama e viu o sol da tarde de domingo adquirir uma tonalidade alaranjada.
Pela janela entrava uma réstia de luz, formando um belo desenho sobre a cama. Quando esticou
o braço para atender o telefone, Buck viu sua imagem de relance no espelho. Suas faces
estavam vermelhas e vincadas, o cabelo completamente despenteado. Sentia um gosto horrıv́ el
na boca, e dormira sem trocar de roupa.
“Alô!”
“Aı́ês Chamerown Weeleeums? — soou a voz grossa do outro lado da linha com sotaque
hebraico.”
“Sim, senhor.”
“Aqui ês Dochtor Tsion Ben-Judah.”
Buck levantou-se imediatamente, como se estivesse diante de um mestre na sala de aula.
— Sim, Dr. Ben-Judá. É um privilégio falar com o senhor!
“Obrigado, disse com dificuldade o Dr. Ben-Judá. — Estou ligando de perto de seu hotel.”
Buck esforçou-se para compreender. “Sim?”
“ Tenho um carro e um motorista.”
“Um carro e um motorista, entendi, sim, senhor.”
“Você está pronto para ir?”
“Ir?”
“Ao Muro.”
“Oh, sim, senhor... quero dizer, não, senhor. Vou precisar de dez minutos. O senhor pode
aguardar dez minutos?”
“Eu devia ter telefonado antes. Nosso amigo disse que era um caso de certa urgência para
você.”
Buck analisou rapidamente aquele estranho modo de falar.
“Um caso de urgência, sim! Só preciso de dez minutos! Obrigado, senhor!”
Buck tirou as roupas apressadamente e entrou debaixo do chuveiro. Não esperou a água
esquentar. Ensaboou o enxaguou o corpo e, em seguida, barbeou-se o mais rápido que pôde.
Como não tinha tempo a perder procurando o adaptador elétrico para o secador de
cabelos, pegou uma toalha e esfregou com tanta força seus cabelos compridos que pensou estar
arrancando metade do couro cabeludo.
Passou um pente nos cabelos e escovou os dentes. Que roupa deveria usar para ir ao Muro
das Lamentações? Ele sabia que não teria permissão para entrar, mas será que ofenderia seu
anϐitrião se não usasse paletó e gravata? Ele não tinha trazido terno. Não tinha planejado o que
vestir mesmo por ocasião da assinatura do tratado na manhã seguinte.
Escolheu uma camisa comum de algodão grosso, calça jeans, botas de cano curto e
jaqueta de couro. Jogou seu gravador e sua câmera dentro de uma pequena sacola de couro e
desceu correndo três lances de escada. Quando atravessou rapidamente a porta de saıd́ a, parou.
Não tinha idéia da ϐisionomia do rabino. Será que ele era parecido com Rosenzweig, com
Feinberg ou com nenhum dos dois?
Não se parecia com nenhum dos dois. Tsion Ben-Judá, trajando terno preto e chapéu de
feltro preto, desceu do banco de passageiros de um Mercedes branco e acenou timidamente.
Buck correu em sua direção.
— Dr. Ben-Judá? — ele disse, apertando sua mão. O rabino era um homem de meia-idade,
magro, de ϐisionomia jovem, forte e traços pronunciados, e com apenas alguns ϐios grisalhos em
seu cabelo castanho escuro.
Em seu inglês com sotaque, o rabino disse: “Em seu dialeto, meu primeiro nome soa mais
ou menos como a cidade, Zion [Sião]. Você pode me chamar assim.”
“Zion? O senhor tem certeza?”
“Certeza de meu nome?. O rabino sorriu. — Tenho certeza.”
“Não, quero dizer, o senhor tem certeza de que posso chamá-lo...”
“Sei o que o você quer dizer, Sr. Williams. Pode me chamar de Zion.”
Para Buck, Zion não soava muito diferente de Tsion no modo de falar do Dr. Ben-Judá. “Por
favor, chame-me de Buck.”
“Buck? — O rabino segurou a porta aberta enquanto Buck entrava e sentava-se ao lado do
motorista.”
“É um apelido.”
“Está certo, Buck. O motorista não entende nenhuma palavra de inglês.”
Buck virou-se e viu o motorista com a mão estendida. Apertou a mão dele e o homem
disse algo totalmente indecifrável. Buck limitou-se a sorrir e movimentar a cabeça
aϐirmativamente. O Dr. Ben-Judá dirigiu-se ao motorista em hebraico, e o carro começou a
rodar.
“Agora, Buck – disse o rabino enquanto Buck virava-se no banco para ver o rosto dele — o
Dr. Rosenzweig disse que você quer ter acesso ao Muro das Lamentações, o que é impossıv́ el,
você deve compreender. Só posso levar você até perto das duas testemunhas para que possa
chamar a atenção deles, se tiver coragem.”
“As duas testemunhas? O senhor chama os dois de testemunhas? EƵ assim que meus amigos
e eu...”
O Dr. Ben-Judá levantou as duas mãos e virou a cabeça, indicando que não responderia
nem comentaria aquela pergunta. — A pergunta é: você tem coragem?
“Tenho.”
“E não vai me responsabilizar por qualquer coisa que possa acontecer a você?”
“Claro que não, mas eu também gostaria de entrevistar o senhor.”
O rabino levantou as mãos novamente. — Deixei claro à imprensa e ao Dr. Rosenzweig
que não estou concedendo entrevistas.
“Só quero algumas informações pessoais. Não vou perguntar-lhe sobre a pesquisa, porque
estou certo de que após ter resumido três anos de estudos em uma hora de apresentação, o
senhor explicará todas as suas conclusões amanhã à tarde.”
“Exatamente. Quanto a informações pessoais, tenho quarenta e dois anos. Cresci em Haifa,
ϐilho de rabino ortodoxo. Tenho dois doutorados, um em história judaica e um em lıń guas
antigas. Estudei e lecionei durante a vida inteira e me considero mais um erudito e historiador
do que um educador, embora meus alunos sejam generosos quando me avaliam. Penso, oro e
leio a maior parte do tempo em hebraico, e ϐico embaraçado por falar tão mal o inglês,
principalmente num paıś igualitário como este. Conheço a gramática e a sintaxe inglesas
melhor do que muitos ingleses e muitos americanos — você está fora disso, é claro — mas
nunca tive tempo de praticar e muito menos de aperfeiçoar minha dicção. Sou casado há apenas
seis anos e tenho dois filhos pequenos, um menino e uma menina. Há pouco mais de três anos, fui
comissionado por um órgão estatal para conduzir um estudo completo das passagens
messiânicas a ϐim de que os judeus reconheçam o Messias quando ele vier. Foi o trabalho mais
gratiϐicante da minha vida. No processo, incluı́o grego e o aramaico na lista dos idiomas antigos
que domino, que agora chegam a vinte e dois. Estou empolgado por ter completado o trabalho e
ansioso para revelar minhas descobertas ao mundo, via TV. Não pretendo que o estudo vá
competir com qualquer outro que inclua sexo, violência ou humor, mas espero que gere
controvérsias.
“Não sei o que mais perguntar — admitiu Buck.”
“Então é melhor terminarmos a entrevista e passarmos para o assunto do momento.”
“Tenho curiosidade de saber por que o senhor está investindo seu tempo nisto.”
“O Dr. Rosenzweig é um mentor e um dos colegas que mais prezo. Um amigo dele é amigo
meu.’”
“Obrigado.”
“Admiro o trabalho seu. Li os artigos que você escreveu sobre o Dr. Rosenzweig e muitos
outros. Além disso, os homens do Muro também me intrigam. Talvez a minha versatilidade em
línguas ajude a nos comunicar com eles. Até agora, só sei que eles se comunicam com as massas
que se reúnem ao seu redor. Eles falam com as pessoas que os ameaçam, mas, por outro lado,
não conheço ninguém que tenha conversado com eles.”
O Mercedes estacionou perto de alguns ônibus de turismo, e o motorista aguardou
enquanto o Dr. Ben-Judá e Buck subiam numa escada para avistar o Muro das Lamentações, a
Colina do Tempo e tudo o que havia entre um e outro. — Nunca vi uma multidão tão grande
como esta — disse o rabino.
“Mas todos estão em silêncio — cochichou Buck.”
“Os dois pregadores não usam microfones — explicou o Dr. Ben-Judá. — As pessoas que
fazem barulho se arriscam. Há tanta gente querendo ouvir o que os dois homens têm a dizer que
sempre existe alguém para ameaçar os arruaceiros.”
“Os dois nunca fazem uma pausa para descansar?”
“Ah, sim, fazem. De vez em quando um deles caminha ao redor daquele pequeno edifıć io
ali e deita-se no chão, perto da cerca. Geralmente os dois se revezam para descansar e falar. Os
homens que há pouco tempo foram consumidos pelo fogo tentaram atacar os dois pelo lado de
fora da cerca enquanto eles descansavam. EƵ por isso que ninguém se aproxima dos dois quando
eles estão ali.”
“Talvez esta seja a minha melhor oportunidade — disse Buck.”
“É o que estou pensando.”
“O senhor vai comigo?”
“Só se deixarmos claro aos dois que não queremos lhes fazer nenhum mal. Eles mataram
pelo menos seis pessoas e ameaçaram muitas outras. Um amigo meu esteve presente no dia em
que eles queimaram quatro agressores, e ele jura que o fogo saiu da boca dos dois.”
“O senhor acredita nisso?”
“Não tenho motivos para duvidar de meu amigo, apesar de estarmos bem distantes dos
dois.”
“Será que existe um momento apropriado para nos aproximarmos deles, ou devemos
sondar o ambiente?”
“Acho melhor nos misturarmos à multidão, antes de mais nada.”
Eles desceram a escada e caminharam em direção ao Muro. Buck estava impressionado
com a demonstração de respeito da parte do povo. A uma distância de doze ou quinze metros
dos pregadores havia rabinos ortodoxos, curvando-se, orando e introduzindo papéis contendo
orações nas fendas das pedras do Muro. De vez em quando, um dos rabinos virava-se para as
testemunhas e levantava o braço com a mão fechada, gritando palavras em hebraico. A
multidão pedia que se calasse. Às vezes, um dos pregadores respondia diretamente.
Quando Buck e o Dr. Ben-Judá se aproximaram da multidão, um rabino que estava diante
do Muro ajoelhou-se, olhou para o céu e proferiu, aos berros, uma oração de angústia.
“Silêncio! — gritou um dos pregadores, e o rabino caiu num choro convulsivo. O pregador
virou-se para a multidão.”
“Ele implora ao Deus Todo-poderoso que nos destrua por estarmos blasfemando seu nome!
Mas ele é igual aos fariseus de antigamente! Ele não reconhece aquele que foi Deus, que é Deus e
que será Deus eternamente! Viemos para testemunhar a divindade de Jesus Cristo de Nazaré!”
Com isso, o rabino que chorava prostrou-se e escondeu o rosto, tremendo de humilhação
diante das palavras cruéis que ouvira.
“Você gostaria que eu traduzisse? — cochichou o Dr. Ben-Judá a Buck.”
“Traduzir o quê? A oração do rabino?”
“E a resposta do pregador.”
“Entendi o que o pregador disse.”
O Dr. Ben-Judá parecia perplexo. — Se eu soubesse que você fala hebraico ϐluentemente,
teria sido muito mais fácil eu me comunicar com você.
“Eu não sei falar hebraico. Não entendi a oração do rabino, mas o pregador falou à
multidão em inglês.”
Ben-Judá balançou a cabeça. – Eu me enganei. AƱs vezes esqueço em que lıń gua estou
falando ou ouvindo. Mas veja! Agora! Ele está falando em hebraico novamente. Está dizendo...
“Perdão por interromper o senhor, mas ele está falando em inglês. Existe um sotaque
hebraico, mas ele está dizendo:”
"E Ele tem o poder de impedir que você caia..."
“Você está entendendo?!”
“Claro.”
O rabino demonstrou estar confuso e cochichou a Buck em tom de voz sinistro. “Ele está
falando em hebraico.”
Buck virou-se e ϐixou o olhar nos dois pregadores. Eles revezavam-se para falar, frase por
frase. Buck entendia cada palavra em inglês. Ben-Judá tocou de leve no ombro de Buck, e ambos
entraram no meio da multidão. — Inglês? — perguntou Ben-Judá a um homem de
características hispânicas que estava de pé ao lado da mulher e dos filhos.
— Espanhol — respondeu o homem, como se estivesse se desculpando.
O Dr. Ben-Judá imediatamente passou a conversar com ele em espanhol. O homem
assentia com a cabeça e respondia aϐirmativamente. O rabino agradeceu-lhe e continuou a
caminhar. Encontrou um norueguês e conversou com ele na lıń gua nativa daquele homem, e
depois conversou com alguns asiáticos. Ele segurou ϐirme no braço de Buck e afastou-o da
multidão, aproximando-se dos pregadores. Pararam a cerca de dez metros dos dois homens,
separados por uma grade de ferro.
“Estas pessoas estão ouvindo os pregadores, cada uma em sua própria lıń gua! — disse
Ben-Judá com a voz estremecida. — Com certeza isto procede de Deus!”
“O senhor tem certeza?”
“Absoluta. Eu ouço os dois falando em hebraico. Você ouve os dois falando em inglês. A
família do México conhece apenas um pouco de inglês e nada de hebraico. O homem da Noruega
conhece um pouco de alemão e de inglês, mas nada de hebraico. Ele ouve os dois falando em
norueguês. Oh Deus, oh Deus — complementou o rabino, e Buck percebeu que seu tom era de
reverência. Estava com medo de que Ben-Judá desfalecesse.”
Iuuuuh! Gritou um jovem de botas surradas, calça caqui e camiseta branca, abrindo
caminho por entre a multidão. As pessoas deitaram-se imediatamente no chão quando viram
sua arma automática. Ele usava uma corrente dourada e tinha barba e cabelos pretos
desgrenhados. Seus olhos escuros estavam injetados e ele rodava uma espécie de pandeiro no ar,
para abrir caminho até os pregadores.
O jovem gritava algumas palavras num dialeto oriental que Buck não conseguia entender.
Porém, enquanto Buck estava deitado no chão olhando por baixo do braço, o rabino Ben-Judá
cochichou: — Ele diz que está em missão de Alá.
Buck estendeu o braço para pegar sua sacola e ligou o gravador enquanto o jovem corria
para a frente da multidão. As duas testemunhas pararam de pregar e permaneceram lado a
lado, ϐitando o jovem armado, enquanto ele se aproximava, correndo a toda velocidade e
disparando tiros. Os pregadores continuaram ϐirmes como uma rocha, sem falar, sem se mover,
com os braços cruzados sobre seus trajes longos e esfarrapados. Quando o jovem chegou a uma
distância de um metro e meio dos dois, pareceu chocar-se contra uma parede invisıv́ el. Ele caiu
e rolou, e sua arma voou para longe. Sua cabeça bateu no chão ele começou a gemer.
De repente, um dos pregadores gritou: — Você está proibido de aproximar-se dos servos
do Deus Altıś simo! Estamos sob sua proteção até o momento devido e causamos desgraça a
qualquer um que se aproxime sem a proteção do próprio Jeová. — Enquanto ele terminava de
falar, o outro soprou uma coluna de fogo da boca que reduziu a cinzas as roupas do jovem,
consumiu seu corpo e órgãos e, em segundos, deixou no chão um esqueleto carbonizado, de onde
saıá fumaça. A arma derreteu-se e fundiu-se com o cimento, e o ouro derretido da corrente do
jovem penetrou na cavidade de seu peito.
Deitado de bruços e boquiaberto, Buck pôs a mão nas costas do rabino, que tremia
incontrolavelmente. As famıĺias correram gritando em direção a seus carros e ônibus, enquanto
os soldados israelenses se aproximavam lentamente do Muro, com as armas engatilhadas.
Um dos pregadores falou. — Ninguém deve nos temer, se vier aqui para ouvir nosso
testemunho a respeito do Deus vivo! Muitos creram e ouviram o que dissemos. Somente aqueles
que nos querem agredir morrerão! Não temais!
Buck acreditou nele. Não tinha certeza se o rabino também acreditou. Ambos
levantaram-se e começaram a afastar-se, porém os olhos das testemunhas estavam fixos neles.
Os soldados israelenses gritavam da calçada da praça pública. — Os soldados dizem que
devemos sair daqui lentamente — traduziu o Dr. Ben-Judá.
“Quero ficar. — disse Buck. — Quero conversar com esses dois.”
“Você não viu o que acabou de acontecer?”
“Claro, mas ouvi também que eles não fazem nenhum mal aos ouvintes sinceros.”
“Você é um ouvinte sincero ou é um jornalista à procura de um furo de reportagem?”
“Sou as duas coisas — admitiu Buck.”
“Deus o abençoe — disse o rabino, virando-se e falando em hebraico com as duas
testemunhas enquanto os soldados gritavam para que ele, Buck e as outras pessoas se
afastassem dali. Buck e Ben-Judá olharam para os dois, que agora permaneciam em silêncio.”
“Eu lhes disse que voltaremos para encontrá-los às dez horas desta noite atrás do edifıć io
onde eles descansam de vez em quando. Você tem condições de vir comigo?”
“Não rejeitaria este convite por nada deste mundo — disse Buck.”
Depois de terminar um jantar tranqüilo com parte de sua nova tripulação, Rayford recebeu
um recado urgente de Chloe. A ligação de retorno demorou alguns minutos para ser
completada, e Rayford desejou que ela lhe tivesse dado alguma indicação do que havia
acontecido. Chloe não tinha o hábito de dizer que alguma coisa era urgente, se realmente não
fosse. Ela atendeu após o primeiro toque.
“Alô! — ela disse. — Buck? Papai?”
“Sim, o que houve?”
“Como está Buck?”
“Não sei. Ainda não o vi.”
“Você vai vê-lo?”
“Com certeza, isto é, suponho.”
“Você sabe em que hospital ele está?”
“O quê?”
“Você não viu?”
“Vi o quê?”
“Papai, a notıć ia foi divulgada aqui hoje de manhã. As duas testemunhas diante do Muro
das Lamentações queimaram um indivıd́ uo até morrer, e todos os que estavam perto caıŕ am no
chão. Um dos dois últimos que ficaram estendidos ali era Buck.”
“Você tem certeza?”
“Absoluta.”
“Você sabe com certeza se ele foi ferido?”
“Não! Só pensei. Ele estava deitado no chão ao lado de um homem de terno preto, cujo
chapéu caiu-lhe da cabeça.”
“Onde ele está hospedado?”
“No Hotel Rei Davi. Deixei um recado para ele. Disseram que a chave estava na portaria,
mas que ele saíra. O que isso significa?”
“Algumas pessoas costumam deixar a chave na portaria sempre que saem do hotel. Não há
nada de especial nisso. Tenho certeza de que ele vai telefonar para você.”
“Existe algum jeito de você descobrir se ele foi ferido?”
“Vou tentar. Vamos fazer o seguinte: se souber de alguma coisa, telefono para você, quer a
notícia seja boa ou má.”
Os joelhos de Buck tremiam como gelatina. — O senhor está bem, rabino?
“Estou bem — respondeu o Dr. Ben-Judá — mas ainda não me recuperei do susto.”
“Sei o que está sentindo.”
“Quero acreditar que aqueles homens são de Deus.”
“Eu acredito que são — disse Buck.”
“Você acredita? Você é um estudioso da Bíblia?”
“Passei a estudá-la recentemente.”
“Venha. Quero mostrar-lhe uma coisa.”
Quando eles retornaram ao carro, o motorista do rabino estava de pé com a porta de seu
lado aberta e o rosto pálido. Tsion Ben-Judá conversou com ele em hebraico, tranqüilizando-o. O
motorista olhou firme para o rabino e depois para Buck, o qual forçou um sorriso.
Buck entrou no carro e sentou-se ao lado do motorista. Ben-Judá orientou o motorista em
voz baixa para que estacionasse o mais perto possıv́ el do Golden Gate (Portão de Ouro), a leste
da Colina do Templo. Convidou Buck para caminharem juntos até o portão de modo que ele
pudesse interpretar as palavras rabiscadas em hebraico. — Veja. Aqui diz o seguinte: "Venha,
Messias". E aqui: "Liberte-nos". E ali: "Venha em triunfo". Meu povo tem almejado, orado,
observado e aguardado a chegada do Messias há séculos. Porém, uma parte do Judaıś mo, até
mesmo na Terra Santa, tornou-se secular e menos orientado biblicamente falando. Minha
pesquisa foi solicitada quase como um fato inevitável. As pessoas perderam a noção exata do
que ou de quem estão procurando, e muitas desistiram. E para que você comprove a intensa
animosidade entre os muçulmanos e os judeus, veja este cemitério que muçulmanos
construíram junto desta cerca aqui, do lado de fora.
“Qual é o significado?”
“A tradição judaica diz que no ϐinal dos tempos, o Messias e Elias conduzirão os judeus ao
templo em triunfo através do portão do lado leste. Mas Elias é um sacerdote e, se atravessar um
cemitério, será maculado, portanto os muçulmanos construıŕ am um aqui para tornar impossıv́ el
a entrada triunfal.”
Buck pegou seu gravador e ia pedir ao rabino que repetisse aquele pequeno trecho da
história, mas percebeu que ainda estava ligado. — Veja isto — disse Buck. — Gravei toda a
investida daquele jovem.
Ele voltou a ϐita até o ponto em que ouviram o tiroteio e os gritos. Depois ouviram o som
do jovem caindo e a arma sendo atirada para longe. Em sua mente, Buck reteve a imagem do
fogo saindo da boca de um dos pregadores. Na ϐita, o som foi semelhante ao de uma forte rajada
de vento. Mais gritos. Em seguida, os pregadores gritaram numa lıń gua que Buck não conseguiu
entender.
“EƵ hebraico! — disse o rabino Ben-Judá. — Com certeza você ouviu as palavras em
hebraico!”
“Eles falaram em hebraico — admitiu Buck — e o gravador captou as palavras em
hebraico. Mas eu as ouvi em inglês e tenho absoluta certeza.”
“Vocêdisse que ouviu os dois prometerem que não causariam mal àquele que estivesse ali
para ouvir o testemunho deles.”
“Entendi palavra por palavra.”
O rabino fechou os olhos. — O momento em que isto aconteceu é muito importante para
minha apresentação.
Buck caminhou ao lado dele de volta para o carro. — Preciso dizer-lhe uma coisa.
Acredito que seu Messias já veio.
“Sei disso, meu jovem. Estarei interessado no que os pregadores vão dizer quando você
lhes contar isso.”
Rayford conversou com Steve Plank para constatar se algum de seus funcionários tinha
notıć ia de mais uma morte no Muro das Lamentações. Não falou especiϐicamente de Buck, pois
não queria que Plank soubesse da amizade entre ambos.
“Sabemos de tudo o que aconteceu — disse Plank zangado. — O secretário-geral acredita
que aqueles dois devem ser presos e julgados por assassinato. Ele só não entende por que o
exército israelense parece tão impotente.”
“Talvez eles tenham medo de ser queimados.”
“Que chance teriam os dois contra uma arma de precisão de alta potência? Alguém cerca
o local, tira fora os inocentes e mata aqueles dois. Pode ser uma granada ou um míssil.”
“Essa é a idéia de Carpathia?”
“Ouvi de sua própria boca.”
“Palavras de um verdadeiro pacifista.”
C A P Í T U L O 15
Rayford viu o noticiário e estava certo de que Chloe tinha razão. Era Buck Williams o
homem que naquele momento estava deitado no chão, aparentemente com o corpo
completamente chamuscado, a uma distância de pouco menos de dez metros das testemunhas
e bem próximo do atirador. Porém, a TV de Israel continuou a reproduzir as imagens e, após
observar a cena por mais alguns instantes, Rayford conseguiu tirar os olhos da testemunha que
soprava fogo e observar as margens da tela. Buck estava se levantando rapidamente e ajudando
o homem de terno preto a levantar-se também. Nenhum dos dois parecia estar ferido. Rayford
ligou para o Hotel Rei Davi. Como Buck ainda não havia retornado, Rayford foi de táxi até o
hotel e sentou-se no saguão para aguardar sua chegada. Sabendo que não deveria ser visto na
companhia de Buck, Rayford planejava esgueirar-se até uma cabina telefônica assim que o
avistasse.
“Na longa história do Judaıś mo — estava dizendo o rabino Ben-Judá — existem claras
evidências da mão protetora de Deus. Mais durante os tempos bıb́ licos, é claro, porém a
proteção de Israel contra todas as guerras modernas, mesmo lutando em condição de
inferioridade, é outro exemplo. A destruição da Força Aérea Russa, deixando a Terra Santa
incólume, com certeza foi um ato de Deus.”
Buck virou-se para trás no banco do carro. — Eu estava aqui quando isso aconteceu.
“Li sua reportagem — disse Ben-Judá. — Mas pelo mesmo motivo os judeus aprenderam a
ser céticos em relação ao que aparenta ser uma intervenção divina em suas vidas. Os que
conhecem as Escrituras sabem que, apesar de Moisés ter tido o poder de transformar uma vara
em serpente, os mágicos do Faraó também ϐizeram o mesmo. Eles transformaram a água em
sangue, imitando Moisés. Daniel não foi o único interpretador de sonhos na corte do rei. Estou
lhe contando isto só para explicar por que esses dois pregadores estão sendo vistos com tantas
suspeitas. Seus atos são poderosos e terrıv́ eis, mas sua mensagem é um anátema no modo de
pensar dos judeus.”
“Mas eles estão falando sobre o Messias! — disse Buck.”
“E parecem ter o poder de sustentar suas aϐirmações — disse Ben-Judá. — Porém a idéia
de Jesus ter sido o Messias judeu é arcaica, tem milhares de anos. O nome de Jesus é tão profano
aos judeus como o racismo e os epítetos são para outras minorias.”
“Algumas pessoas converteram-se aqui — disse Buck. — Eu vi isso nos noticiários, gente
curvando-se e ajoelhando-se diante da cerca, tornando-se seguidores de Cristo.”
“A duras penas — disse o rabino. — E eles são uma grande minoria. Por mais boa
impressão que essas testemunhas de Cristo possam causar, você não verá um número
significativo de judeus converter-se ao Cristianismo.”
“Esta é a segunda vez que o senhor chama os pregadores de testemunhas — disse Buck. —
O senhor sabe que isso é o que a Bíblia...”
“ Sr. Williams — interrompeu o rabino Ben-Judá — não se engane ao pensar que sou
apenas um estudioso do Torá. Você deve entender que meus estudos incluíram as obras sagradas
de todas as principais religiões do mundo.”
“Então como o senhor o explica o Novo Testamento, uma vez que o conhece?”
“Em primeiro lugar, você talvez esteja exagerando ao dizer que eu "conheço" o Novo
Testamento. Não posso aϐirmar que o conheço tanto quanto minha Bıb́ lia. Só passei a
aprofundar-me no estudo do Novo Testamento nos últimos três anos. Em segundo lugar, você
está extrapolando a ética jornalística.”
“Não estou perguntando como jornalista! — disse Buck. — Estou perguntando como
cristão!”
“Não confunda gentio com cristão — disse o rabino. — Muitas, muitas pessoas se
consideram cristãs só porque não são judias.”
“Eu sei qual é a diferença — disse Buck. — De amigo para amigo, ou pelo menos de
conhecido para conhecido, o senhor, com todo o seu estudo, deve ter chegado a algumas
conclusões a respeito de Jesus como o Messias.”.
O rabino escolheu cuidadosamente as palavras. “Jovem, em três anos eu não divulguei a
ninguém uma letra sequer dos resultados de minhas pesquisas. Mesmo aqueles que me
encarregaram deste estudo e o patrocinaram não sabem a que conclusões eu cheguei. Respeito
você. Admiro sua coragem. Vou levá-lo novamente até as duas testemunhas hoje à noite,
conforme prometi. Porém, não vou revelar nada a você do que vou dizer na TV amanhã.”
“Entendo, disse Buck. — Haverá mais pessoas vendo do que o senhor imagina.”
“Talvez. E talvez eu estivesse usando de falsa modéstia quando disse que minha
apresentação provavelmente não competiria com a programação normal. A CNN e o órgão
estatal que me incumbiu do estudo têm cooperado em âmbito internacional para comunicar a
transmissão do programa aos judeus de todos os continentes. Disseram-me que o ıń dice de
audiência em Israel será apenas uma fração dos telespectadores judeus do mundo inteiro.”
Rayford estava lendo o International Tribune quando Buck passou apressado por ele
dirigindo-se à recepção, onde pegou a chave e um recado. Rayford provocou um ruıd́ o com as
folhas do jornal e, quando Buck olhou em sua direção, fez um sinal que telefonaria para ele. Buck
movimentou a cabeça afirmativamente e subiu a escada.
“EƵ melhor você ligar para Chloe — disse Rayford quando ligou da cabina telefônica para
Buck alguns minutos depois. — Você está bem?”
“Sim. Rayford, eu estava lá!”
“Eu vi você.”
“O rabino com quem eu estava é amigo de Rosenzweig. EƵ o tal que falará na TV amanhãà
tarde. Avise a quem você puder para que vejam o programa. Ele é uma pessoa muito
interessante.”
“Vou avisar. Prometi a Chloe que um de nós ligaria para ela assim que eu tivesse alguma
notícia.”
“Ela viu?”
“Sim, no noticiário da manhã.”
“Vou ligar para ela agora mesmo.”
Buck pediu à telefonista do hotel que ϐizesse a ligação e desligou, aguardando a chamada.
Nesse ıń terim, sentou-se na beira da cama com a cabeça baixa. Sentiu um arrepio ao pensar no
que vira. Depois de ter visto a mesma coisa, ouvido a mesma coisa, como o rabino podia insinuar
que os dois se faziam passar por mágicos ou videntes e que não eram homens de Deus? O
telefone tocou. — Sim!
“Buck!”
“Sou eu, Chloe, e estou bem.”
“Oh, graças a Deus.”
“Obrigado!”
Chloe parecia emocionada. “Buck, aquelas testemunhas conhecem a diferença entre quem
é crente e quem é inimigo, não é mesmo?”
“Espero que sim. Vou saber disso hoje à noite. O rabino vai me levar de novo até lá para eu
vê-los.”
“Quem é o rabino?”
Buck contou-lhe a história do rabino.
“Você tem certeza que isso é prudente?”
“Chloe, é a chance de toda a minha vida! Ninguém conseguiu falar com eles
particularmente.”
“Qual é a posição do rabino?”
“Ele é ortodoxo, mas conhece o Novo Testamento, pelo menos intelectualmente. Você e
Bruce precisam ver o programa amanhãà tarde... bem, estamos seis horas na frente de vocês.
Peça a todos na igreja que vejam. Seria interessante. Se você quiser ver a assinatura do pacto
antes, vai precisar levantar bem cedo.”
“Buck, estou com saudade de você.”
“Eu também. Mais do que você pensa.”
Rayford retornou ao hotel em que estava hospedado e encontrou um envelope de Hattie
Durham. Dentro havia o seguinte bilhete:
Capitão Steele, isto não é um trote. O secretário-geral está lhe enviando a passagem anexa
para a solenidade de amanhã cedo e manifestando sua ótima impressão sobre o seu serviço no
Global Community One. Como ele não sabe se terá condições de conversar pessoalmente com você
até amanhã à tarde, a caminho de Bagdá, está desde já agradecendo o seu serviço. E eu também.
Hattie D.
Rayford colocou a passagem junto com seu passaporte e jogou o bilhete no lixo.
Buck, sofrendo ainda as conseqüências do fuso horário e do trauma da manhã, tentou
dormir algumas horas antes do jantar. Jantou sozinho uma comida leve. Enquanto isso, pensava
consigo se haveria algum protocolo para encontrar-se com os homens de Deus. Seriam eles
humanos? Seriam espıŕ itos? Seriam, como Bruce acreditava, Elias e Moisés? Eles chamavam
um ao outro de Eli e Moisés. Poderiam ter milhares de anos? Buck estava mais ansioso por
conversar com eles do que esteve quando entrevistou um chefe de estado ou até mesmo Nicolae
Carpathia.
Fazia muito frio à noite. Buck vestiu um paletó de lã esporte com forro grosso e bolsos
grandes para não precisar carregar uma sacola. Pegou apenas uma caneta, um bloco e um
gravador, e lembrou-se de falar com Jim Borland e outros funcionários do Semanário para saber
se os fotógrafos estavam conseguindo tirar fotograϐias dos dois enquanto pregavam, mesmo que
fosse a longa distância.
AƱs 9:45 Rayford sentou-se na cama. Cochilara diante da TV, com a roupa do corpo, mas
algo lhe chamara a atenção. Ele ouvira a palavra Chicago, talvez Chicago Tribune, e isso o fez
despertar. Começou a vestir o pijama enquanto ouvia. O jornalista estava resumindo uma
reportagem importante diretamente dos Estados Unidos.
"O secretário-geral está fora do paıś este ϐim de semana e sem condições para comentar,
mas os principais meios de comunicação do mundo inteiro estão conϐirmando esta notıć ia. A
surpreendente legislação concede a uma autoridade não-eleita e a uma organização
internacional sem ϐins lucrativos o domıń io irrestrito de todas as formas de veiculação de
notıć ias e abre as portas para a Organização das Nações Unidas, que em breve será conhecida
como Comunidade Global, para que ela adquira e controle as comunicações via jornais, revistas,
rádio, televisão, cabo e satélite. A única limitação será o valor do capital disponıv́ el à
Comunidade Global, mas os seguintes meios de comunicação estão entre os mais visados pelo
grupo da Comunidade Global encarregado dessa transação: New York Times, Long Island News
Day, USA Today, Boston Globe, Baltimore Sun, Washington Post, Atlanta Journal and
Constitution, Tampa Tribune, Orlando Sentinel, Houston..."
Sentado na beira da cama, Rayford parecia não acreditar no que ouvia. Nicolae Carpathia
conseguira colocara-se em posição de controlar as notıć ias e, portanto, controlar as mentes da
maioria das pessoas dentro de sua esfera de influência.
O jornalista continuava a ler a lista em tom monótono: Turner Network News, the Cable
News Network, the Entertainment and Sports Network, the Columbia Broadcast System, the
American Broadcasting Corporation, the Fox Television Network, the National Broadcasting
Corporation, the Christian Broadcasting Network, The Family Radio Network, Trinity
Broadcasting Network, Time-Warner, Disney, U.S. News and World Report, Global Weekly
[Semanário Global], Newsweek, Readefs Digest e uma relação de outras cadeias de noticiários e
publicações periódicas e grupos de revistas.
"Mais surpreendente ainda foram as primeiras reações dos atuais proprietários. Quase
todos parecem saudar o novo capital e dizem que acata a palavra do lıd́ er da Comunidade
Global, Nicolae Carpathia, quando ele pede que não haja interferências.
Rayford pensou em telefonar para Buck. Mas com certeza ele já devia saber da notıć ia
antes de ser divulgada pela TV. Alguém do Semanário Global o teria informado ou, pelo menos,
Buck teria ouvido a notıć ia de um das centenas de jornalistas que estavam presentes em Israel
para a assinatura * do tratado. Mas talvez todos estivessem pensando o mesmo que ele. Rayford
não queria que Buck fosse o último a saber.
Pegou o telefone e ligou, porém não houve resposta do quarto de Buck.
Uma pequena aglomeração movia-se lentamente na escuridão, a pouco menos de
cinqüenta metros do Muro das Lamentações. O corpo do pretenso assassino tinha sido removido,
e o comandante militar da região disse ao pessoal da imprensa que o jovem e seu grupo não
foram capazes de agir "contra duas pessoas que não portavam armas, não tocaram em ninguém
e tinham sido atacadas".
Aparentemente ninguém que ali estava parecia disposto a aproximar-se dos pregadores,
embora ambos pudessem ser vistos de pé, sob uma iluminação fraca, perto de uma das
extremidades do Muro. Eles não se aproximavam das pessoas nem falavam.
Assim que o motorista do rabino Tsion Ben-Judá entrou com o carro num estacionamento
quase vazio, Buck foi tentado a perguntar se o rabino acreditava em oração. Sabia que o rabino
diria que sim, mas gostaria de orar em voz alta pedindo a proteção de Cristo, e orar a Cristo era
algo que ele não deveria pedir a um rabino. Resolveu orar silenciosamente.
Buck e Tsion desceram do carro e caminharam com passos lentos e com cuidado, bem
distantes da aglomeração. O rabino caminhava com as mãos cruzadas diante de si. Ao perceber
isso de relance, Buck olhou pela segunda vez para confirmar. Parecia um gesto piedoso inusitado
e quase ostensivo... principalmente porque Ben-Judá demonstrara muita humildade para alguém
que ocupava uma posição tão elevada no meio religioso.
“Estou caminhando na posição tradicional de respeito e conciliação — explicou o rabino.
— Não quero erros nem mal-entendidos. Para nossa segurança, é importante que esses homens
saibam que viemos até aqui com espıŕ ito de humildade e curiosidade. Devemos deixar claro que
não vamos atacá-los.”
Buck ϐitou o rabino nos olhos. “A verdade é que estamos morrendo de medo e não
queremos dar a eles nenhum motivo para que nos matem.”
Buck notou um leve sorriso nos lábios do rabino. “Vocêtem um jeito especial de falar uma
verdade — disse Ben-Judá. — Estou orando para que nós dois voltemos sãos e salvos e que
possamos contar aos outros a experiência que tivemos aqui.”
Eu também, pensou Buck, sem dizer nada.
Três soldados israelenses interceptaram o caminho de Buck e do rabino, e um deles falou
asperamente em hebraico. Buck começou a procurar sua credencial de jornalista, mas percebeu
que ela não teria nenhuma serventia ali. Tsion Ben-Judá deu um passo à frente e conversou
também em hebraico, em tom de voz ϐirme e baixo, com o lıd́ er dos três soldados. O soldado fez
algumas perguntas, parecendo agora menos hostil e curioso. Finalmente, ele fez um sinal
afirmativo com a cabeça, e os dois foram autorizados a passar.
Buck olhou de relance para trás. Os soldados permaneciam no mesmo lugar. — O que
aconteceu? — ele perguntou.
“Eles disseram que apenas os ortodoxos têm permissão para passar de um determinado
ponto. Assegurei-lhes que vocêestava comigo. Acho sempre divertido quando o exército secular
tenta fazer cumprir as leis religiosas. Ele me advertiu sobre o que aconteceu antes, mas eu lhe
disse que tínhamos um encontro marcado e que estávamos dispostos a assumir o risco.”
“E estamos? — perguntou Buck, sem pensar.”
O rabino deu de ombros. “ Talvez não. Mas, de qualquer forma, vamos até o ϐim, não é
mesmo? Dissemos que iríamos, e nenhum de nós perderia esta oportunidade.”
Enquanto Buck e Ben-Judá prosseguiam, as duas testemunhas mantinham os olhos ϐixos
neles, da extremidade do Muro onde estavam, a uma distância de cerca de quinze metros. “—
Estamos caminhando em direção àquela cerca — disse Ben-Judá, apontando para o outro lado
do pequeno edifıć io. — Se eles estiverem dispostos a falar conosco, virão até aqui e haverá uma
cerca entre nós.”
“Depois do que aconteceu ao assassino hoje, a cerca não ajudaria muito.”
“Não estamos armados.”
“Como eles podem saber?”
“Eles não sabem.”
Quando Buck e Ben-Judá chegaram a menos de cinco metros da cerca, uma das
testemunhas levantou a mão, e os dois pararam. — Vamos nos aproximar e nos apresentar —
falou a testemunha, não em tom de voz alto como Buck já ouvira antes, mas audıv́ el. Os dois
homens caminharam lentamente e ϐicaram atrás das barras de ferro. — Podeis me chamar de
Eli — ele disse. — Este é Moisés.
“Em inglês? — sussurrou Buck.”
“Hebraico — respondeu Ben-Judá.”
“Silêncio! — disse Eli em voz baixa e rouca.”
Buck teve um sobressalto. Naquele mesmo dia um dos dois havia gritado pedindo silêncio
ao rabino. Poucos minutos depois o jovem caíra morto e carbonizado.
Eli fez um gesto para que Buck e Tsion se aproximassem. Eles avançaram, ϐicando a
menos de um metro da cerca. Buck surpreendeu-se com seus trajes esfarrapados. Um odor de
cinzas, como se tivesse havido um incêndio recente, pairava sobre eles. Na penumbra, os braços
compridos e fortes dos dois pareciam musculosos e de pele rija. Suas mãos eram grandes e
ossudas, e ambos estavam descalços.
Eli disse: “ Não responderemos a nenhuma pergunta sobre nossa origem e identidade. Deus
as revelará ao mundo no tempo devido.”
Tsion Ben-Judá fez um movimento aϐirmativo com a cabeça e curvou levemente o tronco
para frente. Buck enϐiou a mão no bolso e ligou o gravador. De repente, Moisés aproximou-se da
cerca e pôs o rosto barbado entre as barras.
Fitou o rabino com os olhos semicerrados. O suor corria por seu rosto.
Ele falou mansamente com voz ϐirme e lenta, mas Buck entendeu cada palavra. Queria
perguntar a Tsion se ele ouvira Moisés falar em inglês ou em hebraico.
Moisés falou como se tivesse acabado de pensar em uma história muito interessante, mas
suas palavras eram familiares a Buck.
“Há muitos anos, houve um homem fariseu chamado Nicodemos, uma autoridade entre o
povo judeu. Assim como vós, esse homem foi falar com Jesus à noite.”
O rabino Ben-Judá sussurrou: “Eli e Moisés, sabemos que sois homens de Deus, porque
ninguém é capaz de fazer os sinais que fazeis sem que Deus esteja com ele.”
Eli falou: “Em verdade te digo que, se uma pessoa não nascer de novo, não poderá ver o
Reino de Deus... — Como um homem pode nascer, sendo velho? — perguntou o rabino Ben-Judá,
e Buck percebeu que ele estava citando o Novo Testamento. — Pode, porventura, voltar ao
ventre materno e nascer pela segunda vez?”
Moisés respondeu: “Em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espıŕ ito, não pode
entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espıŕ ito, é
espírito. Não te admires de eu te dizer: Importa-vos nascer de novo.”
Eli falou novamente: “O vento sopra para onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de
onde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito.”
Aproveitando a deixa, o rabino disse: “Como pode suceder isto?”
Moisés ergueu a cabeça. “Tu és mestre em Israel, e não compreendes estas coisas? Em
verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testiϐicamos o que temos visto, contudo não
aceitais o nosso testemunho. Se tratando de coisas terrenas não me credes, como crereis, se vos
falar das celestiais?”
Eli fez um movimento aϐirmativo com a cabeça. “Ninguém subiu ao céu, senão aquele que
de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu. E do modo por que Moisés levantou a
serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que
nele crê tenha a vida eterna.”
Buck estava empolgado. Sentiu como se tivesse voltado no tempo e fosse o espectador da
mais famosa conversa noturna. Em nenhum momento ele se esqueceu de que seu
acompanhante não era Nicodemos nem que os outros dois homens não eram Jesus. Buck
conhecia a Bıb́ lia e essa verdade há pouco tempo, mas sabia o que estava acontecendo quando
Moisés concluiu: “ Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo,
mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está
julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.”
Repentinamente o rabino pareceu animar-se. Abriu os braços e levantou as mãos,
afastando uma da outra. Como se estivesse assistindo a uma peça ou a um recital, ele provocou
as testemunhas para mais uma resposta. “E o que é julgamento?”
Os dois responderam em uníssono. “Que a luz veio ao mundo.”
“E como os homens não a viram?”
“Os homens amaram mais as trevas do que a luz.”
“Por quê?”
“Porque as suas obras eram más.”
“Que Deus nos perdoe — disse o rabino.”
“Deus vos perdoa — disseram as duas testemunhas. — E aqui se encerra a nossa
mensagem.”
“Não falareis mais conosco? — perguntou Ben-Judá.”
“Não — respondeu Eli, porém Buck não viu seus lábios se moverem. Pensou que tivesse se
enganado, que talvez tivesse sido Moisés quem respondeu. Contudo, Eli prosseguiu, falando
claramente, mas não em voz alta. — Moisés e eu não falaremos novamente até o alvorecer
quando continuaremos a testificar a respeito da vinda do Senhor.”
“Mas eu ainda tenho muitas perguntas a fazer— disse Buck.”
“Nem mais uma pergunta — disseram em unıś sono, sem que nenhum deles abrisse a boca.
— Que a bênção de Deus, a paz de Jesus Cristo e a presença do Espıŕ ito Santo se derramem
sobre vós. Amém.”
Quando os homens se afastaram, Buck sentiu os joelhos tremerem. Enquanto ele e o rabino
permaneceram parados e olhando, Eli e Moisés simplesmente dirigiram-se para o edifıć io,
sentaram-se e encostaram-se na parede. “Adeus e obrigado — disse Buck, sentindo-se um tolo.”
O rabino Ben-Judá entoou uma linda canção, uma espécie de bênção que Buck não
compreendeu. Eli e Moisés pareciam estar orando ou dormindo sentados.
Buck estava sem fala. Acompanhou Ben-Judá, que se voltou e caminhou na direção de um
obstáculo feito de correntes. Pulou o obstáculo começou a afastar-se do Monte da Colina,
atravessando a estrada rumo a um pequeno bosque. Buck pensou que talvez o rabino quisesse
ficar sozinho, mas Ben-Judá deu a entender que desejava sua companhia.
Quando chegaram à beira do bosque, o rabino passou a olhar ϐixamente para o céu. Cobriu
o rosto com as mãos e chorou. Seu choro transformou-se em fortes soluços. Buck também
estava emocionado e não conseguiu conter as lágrimas. Ambos haviam estado em solo sagrado,
disso ele sabia. Ele só não sabia como o rabino interpretava tudo aquilo. Será que o rabino não
entendera a mensagem da conversa entre Nicodemos e Jesus, quando a leu na Bıb́ lia, e não
entendera novamente ao ouvir sua reprodução?
Buck certamente entendera. O Comando Tribulação não acreditaria no privilégio que lhe
fora concedido. Ele não o guardaria para si, não teria receio de divulgá-lo. Na verdade, desejava
que todos pudessem ter estado ali junto com ele.
Como se estivesse sentindo que Buck desejava conversar, Ben-Judá o preveniu. “Não
devemos aviltar a experiência reduzindo-a a simples palavras — ele disse. — Pelo menos até
amanhã, meu amigo.”
O rabino virou-se e avistou seu carro e o motorista na beira da estrada. Caminhou até a
porta da frente, do outro lado do motorista, e abriu-a para Buck. Buck entrou e murmurou um
agradecimento. O rabino deu a volta pela frente do carro e cochichou com o motorista, que deu
partida e acelerou, deixando Ben-Judá na beira da estrada.
“O que está acontecendo? — perguntou Buck, esticando o pescoço e vendo o homem de
terno preto desaparecer na escuridão. — Ele vai saber voltar?”
O motorista não disse nada.
“Espero não ter ofendido o rabino.”
O motorista lançou um olhar de desculpa a Buck e deu de ombros. “Não entender inglês —
ele disse, levando Buck de volta para o Hotel Rei Davi.”
O recepcionista do hotel entregou a Buck um recado de Rayford, porém como não estava
marcado urgente, Buck resolveu deixar o telefonema para a manhãseguinte. Se desencontrasse
de Rayford, procuraria por ele na solenidade da assinatura do tratado.
Buck apagou a luz do quarto e atravessou a porta de vidro que dava para um pequeno
terraço no meio das árvores. Por entre dos galhos ele avistou a lua cheia no céu sem nuvens. O
vento estava brando, mas a noite começava a esfriar. Ele levantou a gola do casaco e admirou a
beleza da noite. Sentia-se o homem mais privilegiado do mundo. Além de sua charmosa vida
proϐissional e de seu aprimorado talento, ele havia sido testemunha ocular de uma das obras
mais extraordinárias de Deus na história do mundo.
Ele havia estado em Israel por ocasião do ataque russo menos de um ano e meio antes.
Deus havia destruıd́ o a ameaça a seu povo escolhido. Buck estava em pleno vôo quando
aconteceu o Arrebatamento, num avião pilotado por um homem que ele não conhecia. Foi
atendido por uma comissária de bordo cujo futuro aparentemente passou a ser responsabilidade
dele. E a ϐilha do piloto? Buck acreditava que estava apaixonado por ela, se soubesse o que era
amor.
Buck curvou os ombros, deixou as mangas do casaco cobrirem suas mãos e cruzou os
braços. Fora poupado de uma explosão de carro em Londres, aceitara a Cristo no ápice do fim do
mundo e fora protegido de forma sobrenatural ao testemunhar dois assassinatos cometidos pelo
Anticristo. Naquele mesmo dia, ele assistira ao cumprimento das Escrituras quando um
assassino foi atingido pelo fogo que saiu da boca de uma das testemunhas. E, logo depois, ouviu
uma delas recitar as palavras de Jesus a Nicodemos! Buck sentia que devia humilhar-se, dizer a
seu Criador e Salvador o quanto era indigno, o quanto estava agradecido. “Tudo o que posso
fazer — ele sussurrou com voz rouca na noite fria — é entregar-me inteiramente a Ti pelo
tempo que ainda me restar. Farei o que quiseres, irei aonde me mandares, obedecer-te-ei em
tudo.”
Em seguida, tirou o gravador do bolso e rebobinou a ϐita. Ao reproduzir a conversa que
teve com as testemunhas naquela noite, ele surpreendeu-se por não ouvir nenhuma
palavra em inglês. Não deveria ser surpresa, ele pensou. Fazia parte dos acontecimentos
do dia. Buck ouviu pelo menos três idiomas. Identiϐicou o hebraico, embora não o
compreendesse. Identiϐicou o grego, que também não compreendia. O outro idioma, que Buck
estava certo de nunca ter ouvido antes, foi usado quando as testemunhas recitaram as palavras
de Jesus. Tinha de ser aramaico.
No ϐinal da ϐita, Buck ouviu o Dr. Ben-Judá perguntar algo em hebraico, que ele se
lembrava ter ouvido em inglês. "Não falareis mais conosco?" Porém, não ouviu nenhuma
resposta.
Em seguida, ouviu sua própria voz: "Mas eu ainda tenho muitas perguntas a fazer." E
depois, após uma pausa: "Adeus e obrigado." O que os homens falaram diretamente ao seu
coração não havia sido gravado.
Com uma caneta, Buck quebrou pequenas lingüetas da ϐita. Ninguém mais poderia gravar
por cima daquela fita de valor incalculável.
A única coisa que ele poderia fazer para tornar tudo mais perfeito seria compartilhar sua
experiência com Chloe. Olhou para ao relógio. Passava da meia-noite em Israel, o que
significava pouco mais de seis horas da tarde em Chicago. Porém, quando Buck ligou para Chloe,
ele mal conseguiu falar. Contou chorando o que se passara naquela noite, e Chloe chorou com
ele. “Buck — ela disse ϐinalmente — desperdiçamos tantos anos de nossas vidas sem Cristo. Vou
orar pelo rabino.”
Alguns minutos depois, Rayford foi despertado pela campainha do telefone. Estava certo de
que era Buck e esperava que ele não tivesse ouvido de outra pessoa a notıć ia dos planos de
Carpathia a respeito da imprensa.
“Papai, é Chloe. Acabei de conversar com Buck, mas não tive coragem de falar sobre o
assunto de Carpathia a respeito da imprensa. Você ouviu?”
Rayford conϐirmou que tinha ouvido e perguntou se ela tinha certeza de que Buck não
sabia de nada. Chloe relatou o que Buck lhe contara sobre sua experiência naquela noite. “Vou
tentar localizá-lo de manhã — disse Rayford. — Se eu não falar com Buck logo cedo, com
certeza ele vai ouvir a notícia da boca de alguém.”
“Ele estava muito emocionado, papai. A hora não é boa para lhe dar essa notıć ia. Não sei
como ele reagirá. O que você acha que vai acontecer com ele?”
“Buck vai superar. Terá de engolir uma grande parte de seu orgulho, tendo de trabalhar
para Carpathia aonde quer que ele vá. Mas vai dar tudo certo. Sei quem ele é. Vai encontrar um
jeito de levar a verdade às massas, camuϐlando-a nas publicações de Carpathia ou trabalhando
por baixo dos panos em publicações vendidas clandestinamente.”
“Parece que Carpathia vai controlar tudo.”
“Com certeza vai.”
Rayford ligou para Buck às seis e meia da manhã seguinte, mas ele já havia saído do hotel.
Fazia séculos que Buck não via Steve Plank tão aϐlito. “Este trabalho foi divertido e
interessante até hoje — disse Steve enquanto um grupo hospedado no mesmo hotel começava a
aglomerar-se para uma curta excursão até a Cidade Velha. — Carpathia arruma confusão e
joga o problema pra cima de mim.”
“O que houve?”
“Ora, nada de especial. Tudo precisa ser perfeito, só isso.”
“E você ainda está tentando convencer-me a trabalhar para ele? De jeito nenhum.”
“Bem, de qualquer maneira esse assunto vai ser muito discutido nas próximas semanas,
não vai?”
“Claro que vai. — Buck sorriu intimamente. Já decidira recusar a oferta do Tribune e
continuar no Semanário Global.”
“Você vai conosco para Bagdá?”
“Estou tentando arrumar uma maneira de ir, mas não com vocês.”
“Buck, não vai haver muitas maneiras de chegar lá. Temos lugar e, para todos os efeitos,
você trabalha para Carpathia. Vá conosco. Você vai adorar o que ele tem em mente para a
Nova Babilônia e, se as notícias forem levadas a sério, a coisa já começou a acontecer.”
“Eu, trabalhar para Carpathia? Achei que o assunto estava encerrado.”
“É apenas uma questão de tempo, meu rapaz.”
“Você está sonhando — disse Buck, assustando-se com o olhar perplexo de Plank.”
Buck viu Jim Borland organizando suas anotações. “Oi, Jim — ele disse. — Já entrevistou
Carpathia? — Borland mal levantou os olhos.”
“Sim — respondeu Borland. — Nada de tão especial. No momento ele só está preocupado
com a transferência do local da assinatura.”
“Transferência?”
“Ele está com receio daqueles malucos diante do Muro das Lamentações. Os soldados têm
condições de manter o local livre de turistas, mas os dois contarão com a presença da multidão
que vai assistir à assinatura do tratado.”
“Uma grande multidão — disse Buck.”
“Não brinque. Não sei por que eles não mantêm aqueles dois esfarrapados longe daqui.”
“Você não sabe?”
“O quê? Buck, você acha que aqueles velhos bobocas vão soprar fogo no exército? Seja
franco. Você acredita na história do fogo?”
“Eu vi o cara, Jimmy. Ele ficou torrado.”
“Aposto um milhão contra um que ele pôs fogo em si mesmo.”
“Não foi um ato de imolação, Jim. Ele caiu ao chão, e um daqueles dois o queimou
completamente.”
“Com o fogo que saiu de sua boca.”
“Foi o que eu vi.”
“Ainda bem que você está fora da reportagem de capa, Buck. Você está perdendo a
parada. E daí, você conseguiu uma entrevista exclusiva com os dois?”
“Não foi inteiramente exclusiva nem exatamente uma entrevista.”
“Em outras palavras, você só tentou, certo?”
“Não. Estive com eles ontem, tarde da noite. Não foi um diálogo, é tudo o que posso dizer.”
“Eu diria que você vai escrever uma ϐicção, você devia entrar para o ramo de novelas e
seguir em frente. Vocêainda vai trabalhar no ramo editorial com Carpathia, mas precisa ter um
pouco mais de visão.”
“Não vou trabalhar para Carpathia — disse Buck.”
“Então vai ficar fora dos meios de comunicação.”
“Do que você está falando?”
Borland contou-lhe sobre o comunicado.
Buck empalideceu. — “O Semanário Global está incluído?”
“Incluído? Se você me perguntar, vou dizer que ele é um dos principais.”
Buck balançou a cabeça. Nesse caso, ele estaria escrevendo suas reportagens para
Carpathia, no ϐinal das contas. “Não é de admirar que todos pareçam tão neuróticos. Então, se a
assinatura do tratado não for perto do Muro, onde será?”
“No Knesset.”
“Dentro?”
“Acho que não.”
“A parte de fora é viável?”
“Não acho.”
“Ouça, Jim, você vai ver a apresentação do rabino Ben-Judá hoje à tarde?”
“Só se for no avião para Bagdá.”
“Você conseguiu lugar?”
“Vou no Global Community One.”
“Você se vendeu?”
“Ninguém pode se vender a seu próprio chefe, Buck.”
“Ele ainda não é seu chefe.”
“É só uma questão de tempo, companheiro.”
Chaim Rosenzweig caminhava apressadamente e parou de repente. “Cameron! — ele
disse — Venha, venha! — Buck acompanhou aquele homem idoso e de ombros curvados até um
canto. — Fique comigo, por favor! Nicolae está aborrecido esta manhã. Vamos transferir a
assinatura para o Knesset, tudo está num rebuliço, ele quer que todo mundo vá até Babilônia e
alguns estão resistindo. Para lhe dizer a verdade, acho que ele próprio mataria aqueles dois do
Muro das Lamentações, se tivesse oportunidade. A manhãtoda eles gritaram contra a injustiça
da assinatura, dizendo que o tratado sinaliza uma aliança profana entre um povo que não
aceitou o Messias da primeira vez e um lıd́ er que nega a existência de Deus. Mas, Cameron,
Nicolae não é ateu. Pode ser um agnóstico... mas eu também sou!”
“O senhor deixou de ser agnóstico desde a invasão russa!”
“Bem, talvez não, mas aqueles dois falam palavras duras contra Nicolae.”
“Pensei que não fosse permitida a presença de ninguém na área em frente ao Muro esta
manhã. O que estão dizendo sobre isso?”
“ A imprensa está lá com seus microfones de longo alcance, e aqueles homens têm bons
pulmões! Nicolae conversou por telefone com a CNN a manhãtoda, insistindo para que eles não
dêem nenhuma cobertura aos dois, principalmente hoje. A CNN não aceitou, é claro. Mas ai
quando ele passar a ser o proprietário da CNN, eles vão cumprir as ordens de Nicolae. Vai ser um
alívio.
“Chaim! O senhor aceita esse tipo de liderança? Controle total da imprensa?”
“Estou cansado da maior parte da imprensa, Cameron. Você sabe que eu o tenho na mais
alta estima. Você é um dos poucos em quem conϐio. O resto é tão preconceituoso, tão crıt́ ico,
tão negativo. EƵ nossa obrigação unir o mundo de uma vez por todas. Finalmente haverá uma
organização noticiosa com credibilidade, dirigida pelo Estado, para dar um jeito em tudo.”
“Isto é assustador — disse Buck. Intimamente ele lamentava por seu amigo que teve uma
visão tão ampla e agora estava disposto a submeter-se a um homem em quem ele não devia
confiar.”

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