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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 76

A CARAVANA PARA LUGAR NENHUM


Os contos de Phyllis Eisenstein foram publicados nas revistas The Magazine of Fantasy & Science Fiction, Asimov’s, Analog, Amazing e em muitas outras. Ela provavelmente é mais conhecida por sua série de histórias de fantasia sobre as aventuras de Alaric, o Bardo, nascido com a estranha habilidade de teletransporte, que foram reunidas, mais tarde, em dois romances: Born to Exile e In the Red Lord’s Reach. Seus outros livros incluem os dois romances da série Book of Elementals, que são Sorcerer’s Son e The Crystal Palace, além dos romances independentes Shadow of Earth e In the Hands of Glory. Alguns de seus contos, incluindo as histórias escritas com seu marido, Alex Eisenstein, foram reunidos em Night Lives: Nine Stories of the Dark Fantastic. Com um diploma em antropologia pela Universidade de Illinois em Chicago, ela foi por vinte anos membro do corpo docente da Universidade de Columbia, onde ensinou escrita criativa e foi editora de dois volumes da Spec-Lit, uma antologia de ficção científica com trabalhos de seus alunos. Hoje trabalha como revisora em uma grande agência de publicidade e ainda vive com seu marido em sua cidade natal, Chicago. Desta vez, na primeira nova história sobre Alaric em décadas, o bardo parte em uma caravana rumo ao interior imperscrutável do deserto, onde espíritos malignos uivam à noite e miragens são comuns — mas, como acaba descobrindo, nem todos os perigos são de fato imaginários.


 O homem de olhos escuros usava vestes longas e gastas pelo sol e um turbante branco, pesado e desbotado, como a maioria dos homens reunidos na taverna naquela noite, mas Alaric logo percebeu que ele não era um deles. Todos eram falantes, beberrões, homens que riam com facilidade, que puxavam as mulheres que os quisessem para o colo e brindavam com suas canecas por qualquer motivo, berrando uns com os outros e com o taverneiro sobre as mesas de madeira. Eram homens que gastavam seu dinheiro sem preocupações, e as canções de Alaric já tinham lhe dado algum lucro por causa dessa generosidade inebriada. Mas o homem de olhos escuros estava sentado silenciosamente em seu canto, demorandose com uma única taça de vinho e observando o grupo. A mão que erguia a taça era marcada pelo trabalho; os braços, à mostra pelas largas mangas dobradas, eram morenos e musculosos. Um homem trabalhador, Alaric pensou, parando na única taverna de uma cidade à beira do Deserto Ocidental, com determinação em seus olhos. Nessa noite, Alaric cantava músicas indecentes para o salão barulhento, sua voz energética e limpa mais alta que a balbúrdia, com rimas que faziam os bêbados rirem e refrãos que lhes permitiam se juntar à música. Seu alaúde mal podia ser ouvido e por vezes ele nem se esforçava em tocar as cordas, mas nenhum dos ouvintes parecia se importar com isso. Apesar de sua juventude, seu repertório de músicas já havia sido bastante testado em tavernas iguais a essa, e ele sabia o seu efeito. Mas o homem de olhos escuros em nenhum momento riu ou se uniu à cantoria, e Alaric percebeu que ele estava esperando alguma coisa. Passeando pelo salão, ainda cantando enquanto inclinava a cabeça ao agradecer pelas moedas de cobre colocadas na bolsa de pele de cervo aberta em seu cinto, enfim alcançou a pequena mesa do homem de olhos escuros. E lá, sobre a madeira cuja superfície era marcada por incontáveis copos de vinho derramados, estava uma moeda de prata. O homem de olhos escuros baixou o olhar para a moeda enquanto Alaric se aproximava e então ergueu-o de volta para o rosto do jovem bardo. — Você é um viajante — disse o homem, e sua voz grave se sobrepôs facilmente ao clamor do salão: a voz de um líder. Alaric inclinou a cabeça e ergueu a voz para ser ouvido com clareza: — Bardo ou viajante, tanto faz. Nós bardos passamos a vida procurando assuntos para novas músicas. — Você canta bem — disse o homem de olhos escuros. — Poderia trabalhar na casa de alguém rico. Até mesmo na casa de um rei, creio eu. Alaric olhou para a moeda de prata. Guardava algumas dessas em suas vestes, mas não muitas, não o bastante para atrair um ladrão. Ele mesmo tinha sido um ladrão em várias ocasiões, muito tempo atrás, e sempre poderia ser um de novo, usando o poder com o qual havia nascido — o poder de ir de um lugar para outro em um piscar de olhos. Ainda assim, preferia ganhar a prata com suas músicas. Estendeu a mão direita em direção à moeda, sem tocá-la, dois dedos roçando levemente na mesa ao lado. — Eu tive minha cota de casas de ricos. Até mesmo de reis. Mas o horizonte me atrai — disse, erguendo os olhos. — Quero ver o que está além dele. O homem de olhos escuros deu um sorriso de canto de boca. — Eu já fui jovem, como você, e me perguntei o que havia além do horizonte. Agora sou mais velho e já estive lá, e ainda assim faço essa jornada de tempos em tempos. Mas você sabia disso, não? Você sabe quem sou. Alaric puxou a mão de volta e dedilhou seu alaúde. — O taverneiro me contou algumas coisas sobre o homem que leva uma caravana através do grande deserto todos os anos. Seu nome, ele me disse, é Piros. O homem estreitou seus olhos escuros. — E ele lhe disse que Piros está procurando aventureiros para sua jornada? Alaric assentiu. — Ele disse que você está procurando homens para cuidar de seus camelos. E que é uma travessia difícil, durante a qual o destino às vezes decreta a morte. Mas isso eu já tinha adivinhado antes de ele contar — confessou, dando de ombros. — Infelizmente, não sei nada sobre camelos. Piros empurrou a moeda para o lado da mesa onde Alaric estava. — Ouvi você esta noite, e o observei. As noites são longas e tediosas no grande deserto, até mesmo para homens esgotados após um dia inteiro de cavalgada. E existem muitas horas silenciosas para eles discutirem por nada. A música poderia fazer esse tempo passar com mais facilidade — disse, e então se endireitou em sua cadeira. — Leve minha moeda como uma das muitas que você ganhou neste lugar, e provavelmente nunca nos encontraremos de novo. Ou leve-a como o primeiro pagamento por suas canções em nossa jornada, se você preferir. E o conhecimento dos camelos virá ao longo do caminho, eu prometo. Alaric pegou a moeda e a girou entre os dedos. — Você também falou com o taverneiro, imagino. O homem de olhos escuros assentiu. — Você está aqui há oito dias, e ele gostaria que você ficasse. Não que um lugar como este precise de um bardo para atrair clientela, mas ele o vê em parte como um entretenimento para si mesmo. E você faz amigos com facilidade, bardo Alaric. É claro que isso é necessário na sua profissão, como é na minha. Mas meu irmão acha que você se daria bem na jornada, e eu sempre confiei em seu julgamento. — Seu irmão? Piros bateu com um dedo em seu copo. — A semelhança se esvaiu tanto com o passar dos anos? Alaric olhou por sobre o ombro para o taverneiro. Ele a via agora, apesar de o líder da caravana ser mais velho e desgastado. — Pois bem, bardo — disse o homem de olhos escuros —, até amanhã todos os homens deste salão terão gastado seus últimos cobres e me pedido um lugar na caravana. Você se unirá àqueles que eu escolher? Alaric girou a moeda no ar. — Dizem que existe uma cidade perdida no grande deserto. Também dizem que existe um enorme tesouro escondido. Piros deu um pequeno sorriso novamente. — Você tem dado ouvidos a fantasias de bêbados. — E dizem que do outro lado do grande deserto existe uma terra de maravilhas. — Ah, isso depende do que uma pessoa já viu. Alaric enfiou a moeda em sua bolsa. — Eu já vi maravilhas antes, Piros, e desejo ver outras — disse, oferecendo sua mão para selar o acordo. — Irei com você. O homem de olhos escuros ignorou a mão estendida. — Tem mais uma coisa, bardo. — Sim? — questionou Alaric, recuando a mão e passando-a sobre as cordas de seu alaúde. — Eu tenho um filho. Ele é mais ou menos da sua idade, talvez um pouco mais novo, e já fez essa viagem comigo antes. Mas não pense que ele fala por mim. Você está sob o meu comando, não o dele. Estou sendo claro? Alaric baixou o olhar para seu alaúde e pressionou uma corda. — Os outros homens também saberão disso? — Cada um deles. Alaric concordou com a cabeça. — Então será como o senhor deseja, mestre Piros. — Piros — disse o homem. — Somente Piros. Esteja no pátio, pronto para partir, ao amanhecer. Alaric cantou pelo resto da noite, imaginando que tipo de filho faria com que aquele aviso fosse necessário. No crepúsculo cinzento da madrugada, o pátio da taverna já se alvoroçava com homens amarrando tonéis e pacotes atados com cordas às costas de mais camelos do que Alaric conseguia contar. Os camelos estavam ajoelhados, suportando suas cargas crescentes com um uivo abafado ocasional, como um eixo engraxado rangendo sob uma carroça pesada. Alaric reconheceu a maioria dos homens da noite anterior e admirou-se de como eles conseguiam trabalhar tão vigorosamente com a dor de cabeça que deviam estar sentindo por causa da bebida. Vários deles sorriram para o bardo enquanto ele caminhava em busca de seu mestre. Piros estava na extremidade ocidental do pátio, perto da dianteira da caravana, e ao seu lado estava um jovem em trajes mais claros e mais novos que os seus, com um turbante tingido de verde-escuro e um rosto que o identificava como provavelmente sendo o filho de Piros. Ele também tinha a postura do pai: as costas retas e os ombros quadrados. Mas, enquanto Piros gesticulava de vez em quando de maneira rápida e imponente e gritava uma palavra ou um nome, o jovem se mantinha em silêncio, com os braços cruzados sobre o peito, parecendo prestar pouca atenção à movimentação ao seu redor. Alaric atraiu o olhar do líder da caravana. — Bom dia. — De fato — disse o homem. — É um bom dia para ir para oeste. Ele olhou para Alaric de cima a baixo, seus olhos se demorando no chapéu de palha trançada que Alaric havia feito com suas próprias mãos e então percorrendo a túnica e a calça escura, depois as botas robustas, que não eram novas mas ainda eram úteis. — É assim que você acha que vai atravessar o grande deserto? O bardo carregava seus poucos pertences em uma bolsa às costas, com o alaúde pendurado sobre ela. Ele havia viajado por bastante tempo com muito pouco, tanto a pé quanto da sua maneira especial. — É o que eu tenho — disse. Piros voltou sua atenção para os camelos. — Esse é meu filho Rudd — disse, apesar de não ter feito nenhum gesto na direção do jovem. — Ele conseguirá alguns trajes apropriados para o deserto para você usar durante a jornada. Alaric olhou para o jovem, que não esboçou nenhuma reação, como se não tivesse escutado as palavras do pai. — Rudd — disse o pai. E então, mais ríspido: — Rudd! O jovem piscou várias vezes e franziu o cenho. — Pai? Novamente, Piros não olhou para ele. — Vá pedir ao seu tio alguns trajes de viagem para o bardo. Rudd passou os olhos por Alaric, parecendo notá-lo pela primeira vez. Sua boca curvouse levemente, de forma maldosa. — Ele não pode ir pedir sozinho? — Vá — disse Piros. — Seja útil. Os lábios do rapaz se comprimiram por um momento, então sua expressão sombria se desfez e seus olhos pareceram perder o foco. — Eu poderia ser útil — disse em tom apático —, se você deixasse. — Faça o que mandei. Com os ombros menos quadrados e as costas menos retas do que antes, Rudd se voltou para a taverna. Mal dera o primeiro passo quando cambaleou como um bêbado, e Alaric segurou seu braço para impedi-lo de cair. O jovem encarou Alaric, se sacudiu, liberando-se do apoio, e continuou a andar. — Vou atrás dele — disse Alaric para Piros. — Como quiser. Por enquanto. O líder da caravana gesticulou vigorosamente para um grupo de homens próximo, apesar de Alaric poder ver pela inclinação de sua cabeça que ele ainda estava observando o filho. Na entrada da taverna, Rudd abriu a porta só o suficiente para se esgueirar para dentro, fechando-a com força atrás dele. Quando Alaric a alcançou e entrou no estabelecimento, o jovem havia desaparecido na escuridão de seu interior e o único movimento visível era o de um par de cachorros em um canto no fundo do salão, lutando por algumas cascas de pão e lascas de queijo que eram os únicos remanescentes das atividades da noite anterior. Alaric chamou tanto por Rudd quanto pelo taverneiro, mas não houve resposta, e longos momentos se passaram antes que eles finalmente emergissem de uma câmara nos fundos, Rudd trazendo uma trouxa de tecidos no ombro e seu tio logo atrás para evitar que as pontas soltas do tecido se arrastassem pelo chão grudento de vinho. Quando o jovem parou para empurrar um dos cachorros e pegar as cascas que este estava mastigando, a trouxa escorregou de seu ombro e o taverneiro a pegou com agilidade, deixando o sobrinho concentrar toda sua atenção no esmigalhar do pão velho, como se fosse um vira-lata faminto. Os tecidos formavam um traje de três peças: uma túnica na altura dos tornozelos, calças largas e um turbante, todos da cor da areia pálida. Alaric tirou suas roupas, vestiu-se com os trajes do deserto e guardou os antigos na bolsa em suas costas. O taverneiro o ajudou com o longo turbante, que parecia um cachecol e se enrolava de forma intricada em si mesmo, deixando uma ponta jogada sobre o pescoço e caída pelas costas. Aquela, o taverneiro explicou, seria sua máscara quando a areia soprasse. Alaric colocou sua bolsa sobre o ombro, o alaúde amarrado com firmeza sobre ela, e gesticulou para o jovem, que tinha acabado com os farelos e estava sentado em uma mesa, chutando os cachorros, que ainda farejavam suas pernas apesar dos chutes. — Eles sabem — disse o taverneiro em tom bem baixo, acenando com a cabeça na direção do sobrinho. — Os cachorros sempre sabem. E sempre o perdoam. Alaric fitou o rosto do taverneiro e viu tristeza nele. — O que você quer dizer? — Você consegue enxergá-lo? — Eu enxergo... várias coisas — disse Alaric, franzindo as sobrancelhas. — Mas talvez não o que você diz. — Ah — disse o taverneiro —, Piros não lhe contou. Alaric olhou de volta para Rudd. — Ele me disse para não obedecer ao filho. O taverneiro ficou em silêncio por algum tempo e então disse: — Sim, esse é um bom conselho. Ele apoiou a perna sobre uma das mesas a seu lado e balançou a cabeça em direção ao sobrinho: — Uma vez ele pensou que eu fosse seu irmão que morreu no parto. A porta da taverna se abriu e lá estava Piros, uma forma escura com o sol resplandecente por trás dela. — Está pronto? — Sim — disse o bardo. — Rudd — chamou o taverneiro. O jovem não respondeu. Estava de costas para os outros. — Rudd! — disse o pai, e, quando ainda assim não obteve resposta, avançou até o filho e o pegou pelo cotovelo. — Hora de começar a jornada. Rudd piscou algumas vezes, como se acordasse de um devaneio, e se colocou de pé, cambaleando um pouco. O pai não largou seu braço até atravessarem a porta. Sem olhar para trás, Piros gesticulou para que Alaric os seguisse. O taverneiro balançou a cabeça. — Ele ainda tem esperanças de ter um neto. — Há uma mulher? — perguntou Alaric. Eles andavam lado a lado, atravessando o salão. — Que mulher iria querer aquilo? — indagou o taverneiro. Alaric deu de ombros. Segurava seu chapéu de palha em uma das mãos: ele não coube na bolsa. Então o deu ao taverneiro. — Tome isto como um agradecimento pelos trajes. O homem virou o chapéu de um lado e depois do outro e finalmente o colocou na cabeça em um ângulo jovial. Do lado de fora, todos os homens da caravana já haviam montado em seus camelos, exceto um, que segurava dois animais ajoelhados. Após um gesto de Piros, ele ajudou Alaric a subir no assento longo e estreito que ficava em cima do menor dos dois camelos. Era um assento estranho, mas não desconfortável, bem acolchoado e com uma argola grossa à frente para se segurar e outra atrás, um suporte para um segundo passageiro. Com grandes cestos atrás das pernas, um grande saco amarrado no assento de trás e um cantil no joelho, Alaric se sentiu seguro o bastante quando o camelo se levantou, apesar de o chão parecer estranhamente distante. O homem observou Alaric por um momento antes de lhe entregar as rédeas e subir em sua própria montaria. — Meu nome é Hanio — disse ele. — Piros o colocou sob os meus cuidados. Me chame se tiver qualquer dificuldade. — Muito obrigado — respondeu Alaric. — Espero evitar qualquer dificuldade. — Ela é uma criatura calma. Só segure firme e ela seguirá os outros. Nesse momento, a linha de camelos começou a se mover para a frente, e o sereno animal não precisou ser incentivado a tomar o seu lugar entre os companheiros. Hanio o seguiu. O passo do camelo era diferente do de um cavalo, mas não era em nada incômodo, e Alaric logo foi se acostumando a ele. Sob a tutela de Hanio, aprendeu a guiar o animal, e também aprendeu que chamá-la pelo nome — Folero — a fazia girar a cabeça em seu longo pescoço e olhar para ele com todos os indícios de curiosidade. Às vezes ela até mordiscava seu joelho com seus lábios grandes e macios. Então ele a tratava como a um cavalo, com um tapinha no pescoço e um elogio. De vez em quando Piros guiava a caravana à frente dela. Mas era mais comum vê-lo percorrer toda a sua extensão, falando com os condutores, checando a segurança de suas cordas e, de vez em quando, retirando um animal da linha para reajustar seu fardo. Alaric podia quase sempre vê-lo, montado em um camelo especialmente alto. Rudd quase nunca estava por perto; ele ocupava um lugar bem à frente, sua cabeça sacolejante marcada pelo turbante verde-escuro. O calor do dia aumentava constantemente, apesar de Alaric saber que não seria tão quente quanto no fim do ano, nem tão inclemente para um homem montado quanto seria se ele estivesse andando no solo queimado pelo sol do deserto. O horizonte era uma linha ao longe e a grande e achatada planície pela qual se moviam exibia poucos pontos de referência após a taverna ficar para trás: apenas alguns montes de pedras para indicar o caminho. Na maior parte do dia, tufos de grama seca e arbustos baixos eram as únicas vegetações visíveis. De vez em quando um camelo se desviava da linha para mordiscar a grama, mas seu condutor o trazia rapidamente de volta à coluna. Folero parecia desprezar tais petiscos e avançava num ritmo constante. Ao final do dia, a novidade de guiar um novo tipo de montaria começou a se esvair e Alaric ficou bastante satisfeito em desmontar e entregar seu camelo aos cuidados de Hanio. Ele poderia ter cruzado o deserto muito mais rapidamente da sua maneira especial, pulando de um horizonte para o próximo, um instante por vez, seguindo um caminho determinado pelos limites da sua visão, mas a viagem normal lhe permitia questionar seus companheiros sobre seu destino e assim chegar lá sabendo um pouco sobre ele. E foi por esse motivo que, ao lado da maior das várias fogueiras naquela noite, após os camelos terem sido descarregados e amarrados a estacas enfiadas no chão, e depois que ele e os viajantes tinham se alimentado bem com as provisões que Piros levara para eles e que ele tinha entretido o grupo com meia dúzia de canções indecentes, puxou conversa com vários dos homens, perguntando com curiosidade juvenil sobre as pessoas e cidades que ficavam depois do deserto. Ficou um pouco chocado com as respostas, que se limitaram aos prazeres de uma única cidade, poucas tavernas e uma pequena quantidade de mulheres que se dispunham a aceitar sua prata e satisfazer seus apetites. Chegaram mesmo a confessar que não se aventurariam muito além, mas, pelo contrário, estavam ansiosos para descarregar os produtos que haviam trazido, empacotar o que quer que seu empregador tivesse trocado por eles e voltar para casa com seu pagamento. — Esse lugar é tão sem graça que ninguém se importa em conhecê-lo? — perguntou Alaric a Piros. — Esses são homens cuidadosos — respondeu o líder da caravana —, apesar de no estabelecimento do meu irmão não parecerem nem um pouco. Os costumes no lado mais distante do deserto são diferentes, a própria língua é estranha, e os homens preferem o que é familiar. — E você? — indagou Alaric. — Eu sou um pouco mais ousado. Uma pessoa não se torna um mercador de sucesso sem sê-lo. Não olhou para o bardo enquanto falava, mas manteve os olhos no filho, como vinha fazendo desde que as fogueiras foram acesas. O jovem estava sentado com um grupo de homens que conversavam uns com os outros com certa animação, rindo ocasionalmente, apesar de o jovem Rudd nunca fazê-lo. Em vez disso, encarava as chamas, como se visse algo nelas que era tão fascinante que ele não conseguia desviar a atenção. Alaric não via nada além de estrume de camelo sendo queimado. Alaric indicou o jovem com um gesto de cabeça, apesar de não ter certeza se Piros tinha percebido o gesto. — Acredito que você queira que seu filho aprenda sobre esse outro lugar. Piros não respondeu por um longo momento e então murmurou: — Acho que ele já sabe o suficiente. — Levantou-se. — Hora de armar as tendas. Hanio encontrará um lugar para você. A um sinal de Piros, os homens desempacotaram rapidamente várias tendas baixas e as armaram, cobrindo seus pisos com carpetes estampados, e se instalaram, seis homens por tenda, com sacos de mercadorias como travesseiros. Alaric se enrolou em seu próprio lençol fino e deitou próximo a Hanio. A noite esfriou rapidamente, mas o calor de seis corpos deixava a tenda bem aconchegante. O amanhecer veio logo e, depois de uma refeição composta de pão dormido e queijo duro mas ainda assim gostoso, os camelos foram carregados mais uma vez, os viajantes subiram em suas montarias e a caravana seguiu seu caminho. De novo, Hanio se posicionou atrás de Alaric, até que o bardo diminuiu a marcha de propósito, para ficar ao seu lado. Hanio mal olhou em sua direção. Ele usava a ponta desfiada de seu turbante gasto pelo sol de maneira folgada em volta do pescoço, e acima dele seu nariz era afiado como o de um falcão, seu rosto maltratado pelo clima. Ele parecia ser da idade de Piros. — Você trabalha para Piros há muito tempo? — Alaric lhe perguntou. O olhar do homem não se desviou da fila de camelos à sua frente. — Há alguns anos. — Então você deve saber bastante sobre seus negócios. Hanio não respondeu. — Estive pensando — disse Alaric — sobre o que estamos levando para a parte mais distante do deserto que faz esta jornada anual valer a pena. — Várias mercadorias — disse Hanio, e, como se soubesse que Alaric ia pedir mais detalhes, adicionou: — Boas lãs e couro, peças de metal, rendas, ervas desidratadas. E vamos parar para pegar sal no meio do caminho, o sal mais puro do mundo. Eles pagam especialmente bem por isso. — Sal puro também teria seu valor lá — disse Alaric, virando a cabeça para indicar o lugar de onde tinham vindo. — Nós vamos parar nas minas de novo no caminho de volta. — Nas minas? Hanio assentiu. — Eu não sabia que sal vinha de minas. — Você é jovem, bardo. Podem existir várias coisas das quais você não sabe. — E estou ansioso por descobri-las em minhas viagens — respondeu Alaric. — Mas me diga, caro Hanio, se as minas são no meio do deserto, por que o povo do Oeste não manda caravanas para colher seu próprio sal? A boca de Hanio se contorceu. Não era um sorriso. Ele balançou a cabeça. — Eles temem demais o deserto. Alaric endireitou as costas e sentou-se reto em Folero. Olhou em volta e, além dos lentos camelos, não viu nada a não ser uma paisagem monótona até o horizonte. Se havia animais nesta parte do deserto, eles tinham fugido ou estavam se escondendo sob a superfície. Se havia homens, eles não tentaram se aproximar até o alcance da visão humana. Do joelho de Hanio pendia uma espada pesada em uma bainha trabalhada, e a maioria dos outros viajantes também carregava armas: espadas curtas e longas, arcos, estilingues e lanças duas vezes maiores que o braço de um homem. A caravana parecia pronta para o que quer que o destino determinasse. — O que eles temem? — perguntou. — À noite, de vez em quando, você pode ouvir o deserto gemer — respondeu Hanio. — Espíritos malignos, dizem, saindo da cidade perdida para roubar a alma dos homens. Você vai ouvi-los quando alcançarmos as dunas. Gesticulou para a frente de maneira vaga. — Ah — disse Alaric. — A cidade perdida. Eu ouvi uma história ou outra sobre ela. Você já esteve lá? Hanio riu. — Ela dificilmente seria a cidade perdida se os homens pudessem visitá-la. — Então ela não é nada mais do que uma história de viajante? — Bem... — disse Hanio, e finalmente virou a cabeça para encarar Alaric. — Às vezes alguém a vê de longe, e existem torres e abóbadas e paredes, todas pálidas como cinzas. Mas, se alguém tenta se aproximar, ela vai se distanciando e no fim acaba desaparecendo de vez. É uma cidade fantasma, um lar adequado para espíritos malignos. Ele parou de falar por alguns instantes. — Homens morreram perseguindo-a. Eu não tenho nenhum desejo de morrer. — Nem eu — murmurou o bardo. Mas ele não conseguia deixar de imaginar se ela poderia ser alcançada por meio do seu jeito especial de viajar. O que ele disse, em vez disso, foi: — Quanto falta para chegarmos às minas de sal? — Você já está inquieto, bardo? — perguntou Hanio. Alaric balançou a cabeça. — Eu só gosto de saber o que esperar. Hanio riu. — Todos nós também. Pergunte de novo daqui a dezoito dias e vai ter uma resposta — disse, desviando o olhar novamente. — Você se sai bem com a Folero. Talvez não seja mais necessário que eu observe os dois tão de perto. — Como desejar, caro Hanio. O homem assentiu e guiou sua montaria mais para a frente da linha, onde Alaric podia ver Piros cavalgando ao lado de Rudd. Ele não voltou até a caravana parar para pernoitar em um pequeno bosque que tinha aparecido como uma mancha no horizonte e crescido constantemente à medida que o sol descia por trás dele. Havia uma lagoa no centro do bosque, as margens esmagadas por muitos pés, e os viajantes encheram seus cantis e chaleiras antes de deixar seus camelos rodearem-na e beberem. A sombra das árvores era agradável e, enquanto as fogueiras eram acesas e o jantar preparado, Alaric cantou lembrando as planícies do Norte, a neve e o gelo, tão estranhos para os homens da caravana quanto o deserto teria sido para os nômades que cavalgavam veados por entre as geleiras. E os homens à sua volta se impressionaram com a ideia de que tais lugares cobertos de gelo de fato existissem. Naquela noite, na tenda do deserto, ele sonhou com o Norte, e quando acordou na escuridão profunda quase desejou retornar para lá, para ver as únicas pessoas que se importavam com o fato de ele estar vivo ou morto. Ele poderia ter feito isso em um instante, mas sabia que os viajantes da caravana não teriam uma boa impressão de alguém que exibisse os poderes de um feiticeiro e sumisse da mesma maneira que aquela cidade fantasma sumia, então se virou e voltou a dormir. Alguma outra hora, disse pra si mesmo, como em tantas outras vezes. No dia seguinte, uma leve ondulação tornou-se visível no horizonte, e a informação que foi passada rapidamente pela linha de viajantes era que eles chegariam às dunas em não mais que dois dias. A caravana começou a se dirigir mais para o sul e, no fim do dia, chegou a outro pequeno bosque, que dessa vez circundava um poço. Eles gastaram bastante tempo tirando água do poço, um balde de cada vez, para a refeição noturna e para os camelos. Ninguém, a não ser os camelos, bebeu a água antes de ela ser fervida. Os homens até mesmo encheram seus cantis com a água quente. Alaric não tentou experimentar o líquido em seu estado natural depois que Hanio lhe disse que ela afetaria seus intestinos de uma forma ruim. As árvores do bosque ofereciam tâmaras, em busca das quais muitos dos homens as escalaram, e Alaric ficou feliz em comer o punhado que lhe foi destinado como alternativa ao queijo e às sobras do pão dormido. De manhã, os homens retiraram a farinha dos sacos e, com água fervida, moldaram pães achatados para serem colocados nas pedras que esquentavam em suas fogueiras. O resultado não foi aquele a que Alaric estava acostumado, mas eram deliciosos mesmo assim, e ele se sentiu fortalecido para o dia. As dunas estavam bem à vista, grandes colinas de areia rodopiante, e a caravana as contornava sempre na direção sul para ficar fora dos piores trechos. Mesmo assim, ao final do dia tinham deixado o deserto plano para trás e estavam se movendo em terreno menos seguro. Naquela noite não havia um bosque, nem uma lagoa ou um poço, apesar de ainda haver muito pão da fornada da manhã e bastante água no cantil de todos os homens. Os camelos não pareciam perturbados pela falta de água e forragem, e vários dos viajantes lhe garantiram que as corcovas dos animais eram depósitos das duas coisas. “Criaturas extraordinárias”, murmurou, tentando pensar como essa informação se encaixaria no repertório de músicas que ele sabia que iria se originar dessa jornada. Deitado naquela noite em uma cama mais macia por causa da areia, ele se distraiu até dormir tentando encontrar várias rimas para “corcova”. Em meio à escuridão profunda, acordou com o som de gemidos — um coro de gemidos em uma dezena de tons, como um grupo de homens se esforçando para mover alguma pedra gigante, muito acima da capacidade deles, ou o mesmo grupo lamentando a morte de inúmeras pessoas amadas. Nenhum dos outros na tenda parecia ter sido acordado pelos sons, ou pelo menos não se mexiam em resposta a ele. Alaric se descobriu e engatinhou para fora da tenda. Um vento frio havia aparecido, e a luz da lua mostrava redemoinhos de areia aqui e ali. Após alguns momentos, achou que os gemidos aumentavam e diminuíam conforme o vento. Todas as fogueiras tinham sido abafadas pela noite, e dois homens estavam sentados perto da maior delas, montando guarda como alguém fazia todas as noites. Um deles acenou para Alaric. O bardo contornou um par de tendas para se juntar a eles. — Como alguém consegue dormir com este barulho? — perguntou. Os homens riram e um deles disse: — É só o deserto. Então olhou para trás de Alaric e se levantou. Alaric se virou e viu uma figura ao lado de uma das tendas pelas quais ele havia passado. O turbante não estava ali e os cabelos negros revelados se erguiam em ângulos selvagens, mas, quando a pessoa se aproximou, reconheceu Rudd. — Você quer se sentar conosco? — perguntou o homem que havia se levantado. Ele estendia uma mão para Rudd. — Serviremos um pouco de chá para você. Seu companheiro já estava estendendo a mão para a chaleira que repousava nas brasas. Rudd parou a alguns passos da fogueira. — Eles estão nos chamando. Temos que ir. — Iremos com a primeira luz. — Temos que ir agora — disse Rudd. — Carregue os camelos. O homem cruzou o pequeno espaço entre eles e pousou seu braço ao redor dos ombros de Rudd. — Os outros precisam descansar. Ainda há uma longa jornada pela frente. Rudd balançou a cabeça. — Nem tão longa assim. — Ainda assim, todos nós deveríamos chegar lá revigorados — disse o homem, esticando a outra mão em direção à fogueira, e seu companheiro colocou um copo de chá nela. — Aqui — disse, oferecendo-o a Rudd. — Alguns goles contra o frio, então deite e tente dormir um pouco mais. Você seria um péssimo viajante se cochilasse, caísse de seu camelo e quebrasse a cabeça com a queda. — A areia é macia — murmurou Rudd. Ele pegou o copo e bebeu uma, duas vezes. Então apontou para Alaric: — Você consegue ouvir a música no chamado deles. Venha comigo e toque o seu alaúde para eles. — Amanhã — sussurrou o homem parado ao lado dele. Rudd derrubou o resto do seu chá no fogo e jogou o copo para a escuridão antes de se deixar ser virado e acompanhado de volta à sua tenda. Alaric olhou para o homem com a chaleira. Ele estava servindo outro copo e o ofereceu a Alaric, que aceitou o metal morno com gratidão. — Ele agia como um sonâmbulo? — perguntou o bardo. — Algumas pessoas podem chamar disso. O homem encheu um copo para si e baixou a chaleira. — Ele já fez isso antes? O homem assentiu. — É um dos motivos pelos quais estamos de guarda. Piros tiraria nosso couro se alguma coisa acontecesse com o garoto — disse, bebendo um pouco de seu chá. — E se ele tivesse andado para o outro lado, para longe do fogo? — Ele nunca faz isso. O fogo o atrai como a uma mariposa. — Mesmo assim... — Como eu disse, estamos de guarda. Alaric ficou perto da fogueira por um tempo e depois de alguns minutos o outro homem voltou. Então, bocejando, o bardo voltou para sua tenda. A manhã pareceu chegar muito rapidamente. O sol estava alto, a jornada do dia cumprida mais ou menos pela metade quando Piros, que andava para cima e para baixo da linha de viajantes como sempre, se deixou ficar ao lado de Alaric. — Vejo que Folero continua a tratá-lo bem — disse ele. — Nós parecemos combinar um com o outro. Alaric se inclinou bem para a frente para afagar o pescoço do animal. — Piros — disse ele —, eu acordei ontem à noite e ouvi o deserto cantando. Piros o fitou com o rabo do olho. — Suponho que um bardo o chame assim. — Seu filho ouviu também. — Ah — disse Piros —, foi uma dessas noites. — Quem ele achou que estava chamando? Piros balançou a cabeça. — O garoto às vezes tem fantasias loucas. Eu o aconselho a não dar ouvido a elas. Ele se levantou um pouco em seu assento, como se procurando algo mais à frente. — Cante sobre o Norte de novo hoje à noite, bardo. É uma mudança bem-vinda. Ele então esporeou sua montaria e desviou-se da linha para trotar à frente. Parte da carga de um camelo tinha se derramado sobre a areia e a caravana inteira parou enquanto ela era amarrada de volta no lugar. Mais tarde naquele dia, Alaric teve o primeiro vislumbre da cidade fantasma. Pelo menos parecia um pouco com uma cidade, bem longe e ao sul do horizonte, embaçada pela distância, suas torres e muralhas apenas formas oscilantes na luz do deserto, com água prateada em volta delas. Enquanto ele observava, a boca aberta em espanto, podia ouvir os homens rindo atrás dele. A risada parou abruptamente quando um camelo rompeu a linha e começou a galopar na direção deles, enquanto seu condutor — com o turbante verde inconfundível — o atiçava com batidas bruscas de um cajado. Ele passou por Alaric, gritando “Venha comigo!”, e então deu uma guinada para o sul, para o deserto aberto. Quatro outros condutores se destacaram da caravana para segui-lo e a perseguição durou uma distância considerável antes que eles o alcançassem e formassem um círculo apertado à sua volta, impedindo-o de ir mais longe. Alaric podia ver os movimentos ferozes dos braços de Rudd. Ele parecia estar batendo nos outros homens com o cajado. O leve som de suas vozes chegava até Alaric, mas ele não conseguia entender uma palavra. Piros se destacou da linha, apesar de não ter feito nenhuma tentativa de se juntar ao grupo que rodeava seu filho. Alaric parou ao seu lado, enquanto a caravana seguia viagem, deixando-os para trás. — Ele me disse para ir com ele — disse o bardo. — Você pode ver o bem que isso teria lhe feito — disse Piros, mal olhando para ele. Então acenou para a caravana e disse — Vá com os outros. — Um bardo sempre está procurando por novas histórias a serem cantadas — disse Alaric. — Eu acho que aqui existe uma. — Não uma que seja boa — resmungou Piros. Alaric apontou para o horizonte ao sul. — Só a cidade já vale uma canção. Mas, enquanto ele observava os cavaleiros retornarem à caravana, a imagem distante se ondulou e embaçou e diminuiu até não haver mais nada além de uma faixa de água prateada. — Pelo menos a água é real? — perguntou. — Nem mesmo ela — respondeu Piros. — Deve ser atrativa para homens com menos suprimentos que nós. Piros balançou a cabeça muito levemente. — Não importa quão longe você vá, não importa quão rápido, ela sempre vai estar além do seu alcance. Quando eu era jovem e viajei pelo deserto com meu pai, aprendi isso — disse ele, se inclinando para a frente com os antebraços apoiados nas coxas. — Já houve um tempo em que meu filho soube disso também. Os cavaleiros retornaram, um dos perseguidores segurando as rédeas da montaria de Rudd. Enquanto passava por seu pai, Rudd fechou a cara e disse: — A culpa é sua por eles não poderem me esperar. Piros não respondeu. Ele somente apontou para a caravana que avançava e virou sua montaria para ficar por último, enquanto o grupo se apressava para se reunir a ela. Folero não precisou de nenhum comando de Alaric para seguir o ritmo dos outros camelos, e o bardo agarrou-se às argolas à frente e atrás dele para se manter na sela. Naquela noite, depois que o jantar acabou e alguns dos homens da caravana se reuniram para ouvir Alaric cantar, Rudd abriu caminho até a frente do grupo e sentou-se quase aos pés do bardo. Ele não se uniu aos refrãos estridentes, mas balançava a cabeça discretamente no tempo da música e sorria de vez em quando, apesar de Alaric não ter certeza que fosse para as canções. Mesmo com a noite avançando e os ouvintes se retirando aos poucos, ele ficou até Alaric finalmente colocar seu alaúde de lado, e só então deixou que dois dos homens de seu pai o levassem para sua tenda. Depois disso, Alaric se aconchegou ao lado de uma das menores fogueiras, onde Piros estava discutindo a rota deles com os homens que estavam na vanguarda da caravana. Ele esperou até a conversa terminar e os outros homens procurarem suas tendas. A patrulha noturna rodeava uma fogueira maior, a certa distância, assim ele e Piros ficaram sozinhos. — Deve ser difícil para você — disse Alaric — ter um filho desses. Piros observou as chamas baixas por alguns segundos. — A maioria dos homens sabe como lidar com ele. Senão eu já o teria perdido há muito tempo. Alaric pegou uma concha que havia sido usada para mexer o mingau da refeição da noite e, virando-a ao contrário, cutucou a fogueira. As brasas dançaram, voltando à vida por um momento, gerando um calor agradável contra o frio da noite. — Ele sempre foi assim? Novamente Piros ficou em silêncio por um longo tempo. Então disse: — Nem sempre. Pensei que algum dia ele iria tomar o meu lugar. Era um bom cavaleiro. Aprendeu a correr muito jovem e superava a maioria dos homens desta caravana. Mas isso foi antes. — Antes de...? O chefe da caravana suspirou. — Acho que estou um pouco surpreso que nenhum dos outros tenha lhe contado. Que todos eles tenham mantido suas promessas. Alaric aguardou. — Eu pediria uma promessa sua também, mas não acredito que você a faria ou a honraria. Não depois de ouvir suas canções. As pessoas se reconhecem quando você canta? Alaric sorriu um pouco. — Eu seria um tolo se colocasse muita verdade em minhas canções. Eu tenho muito amor à minha vida. Piros escolheu algumas partes de esterco seco de camelo de uma pilha não muito longe de seu quadril e alimentou a fogueira com elas. O fogo cresceu em um instante. — Achei que fosse desse jeito. Alaric apoiou um cotovelo no joelho. — As pessoas podem se reconhecer em qualquer história, sejam as histórias sobre elas ou não. Eu prometo que ninguém mais o reconhecerá. Ou a seu filho. E qualquer canção que eu cante sobre essa jornada será muito longe daqui, onde ninguém sequer saberá seu nome. Piros deu de ombros. — Eu não sei por que isso importa pra mim. Mas importa — disse, olhando para Alaric de soslaio. — Ainda assim, existe uma parte de mim, uma parte vaidosa e gananciosa, que quer ouvir o que você criaria a partir da nossa história. Que deseja a imortalidade que você oferece. Na minha idade, acho que esse é o único tipo de imortalidade que poderei ter. Ele olhou por cima do ombro em direção à tenda onde seu filho dormia e completou: — Nenhum neto, isso é certo. Alaric pegou a chaleira que repousava entre as chamas. Havia um pouco de líquido no fundo, e ele serviu-se de meio copo do chá forte do deserto. — Eu não posso garantir essa imortalidade. Piros tomou a chaleira de suas mãos e encheu o próprio copo. — Não seja modesto, bardo. Você já tem canções que são mais velhas que nós dois juntos. — Então me conte a sua história. Ou me conte a versão que você quer que eu ouça. — Não a... verdadeira? — Ninguém jamais conta a verdade sobre si mesmo. Nós contamos o que queremos que os outros julguem, para o bem ou para o mal. E, quando eu tiver ouvido a sua história, talvez acrescente alguma coisa nela — disse, assoprando o chá para esfriá-lo antes de tomar um gole. — Talvez eu cante sobre a nossa visita às torres da cidade perdida que tocam o céu. Ela tem um nome? Piros bebeu um gole de chá. — Eu já a ouvi ser chamada de Haven — murmurou ele. — Um nome bom, romântico — observou Alaric. — E o que você acha que encontraríamos lá? Alaric deu um pequeno sorriso. — O que os nossos corações desejarem, é claro. Não é isso que todos nós estamos procurando? Piros rolou o copo entre as mãos. — Talvez seja por isso que ela sempre esteja além do nosso alcance — disse, olhando de novo para a tenda do filho. — Ele me culpa por isso. Ele me culpa pela maioria das coisas. — Eu ouvi falar que isso não é incomum entre os filhos — disse Alaric. Piros olhou para baixo, para dentro de seu copo, por um momento, como se pudesse ler algo em seu conteúdo. — Se eu nunca o tivesse levado para as cavernas... talvez nossa história fosse muito diferente. — As cavernas? Piros aquiesceu lentamente. — Alguns diriam que isso estava destinado a acontecer, por causa do tipo de garoto que ele era. Teimoso. De obediência limitada. Se a mãe dele estivesse viva, ela me desprezaria por não ter batido nele até isso melhorar. Ela acreditava bastante em surras. — Você era o de coração mole. — Sim, e olhe que bem isso fez — disse, e bebeu outro pequeno gole de chá. — Ele tinha doze verões quando ela morreu. Depois disso, eu o mantive ao meu lado. A não ser durante a viagem para as cavernas. Aquilo só quando ele tivesse dezesseis anos. Piros balançou a cabeça. — Eu devia tê-lo feito esperar mais. Mas ele queria saber. Ele era curioso naquela época. Ele terminou o chá, apoiou o copo na coxa e se inclinou para a frente com os cotovelos nos joelhos, os dedos entrelaçados. Por um momento, pressionou o queixo entre os dedos, então endireitou a postura mais uma vez e suspirou. — Eu o avisei. Mas no final ele fez o que quis. Você viu o resultado. — As cavernas são... perigosas? — São letais — disse Piros. — Os vapores que nascem delas são venenosos. Mas algo extremamente desejado pelas pessoas que moram do outro lado do deserto cresce lá. Então há um lucro a ser obtido ao entregá-lo para eles. Meu pai fazia isso, e o pai dele, e antes havia um mercador que passou o negócio para a minha família. — Mas, se as cavernas são venenosas — começou Alaric —, como essa substância é obtida? — As pessoas que moram perto delas sabem o segredo de colhê-la sem morrer. — Então é um tipo de planta. Piros deu de ombros. — Pode ser um musgo ou um depósito de minerais. Ninguém parece saber exatamente. Não é fácil estudar algo que subsiste em uma névoa venenosa. — Então... Rudd foi envenenado. Piros balançou a cabeça, negando. — Esse teria sido um destino muito mais simples. Ele respirou fundo e estreitou os olhos, parecendo enxergar algo muito além da fogueira, apesar de não haver nada para ver a não ser o céu escuro e cheio de estrelas. — Eu sabia que teria que contar a você quando pedi que se juntasse a nós, mas agora isso parece mais difícil do que eu esperava. Mesmo assim... — disse, olhando de lado para Alaric. — quando chegarmos às minas de sal, outra jornada vai acontecer durante dois dias, somente para alguns de nós. Eu. Hanio. E Rudd, porque ele vai se recusar a ficar para trás. Nosso destino serão as cavernas, e retornaremos com uma quantidade considerável de certo pó, que ficará sob minha responsabilidade, apesar de serem dadas pequenas porções a Rudd de tempos em tempos. Sob a sua influência, e sabendo que nós temos um estoque renovado, ele talvez o incentive a prová-lo. Se você valoriza a sua vida, não o prove. Piros suspirou profundamente. — Ele vai elogiá-lo. Vai dizer que o pó fará você se sentir como um rei. Alguns achariam que ele não o faria, que iria querer guardar o máximo que pudesse para si mesmo, mas, sob sua influência, os homens tendem a não pensar no futuro. Pelo bem do seu futuro, não o aceite. Acredite no que estou lhe contando. Você vai achar que está conquistando o mundo, mas estará perdendo a si mesmo. — Eu não tenho nenhum desejo de fazê-lo — disse Alaric. Piros suspirou de novo. — Que homem não gostaria de se sentir como um rei? Alaric se permitiu demonstrar a sombra de um sorriso. — Eu já observei alguns reis. Não é uma vida invejável como alguns podem pensar. Piros olhou para ele. — Na parte mais distante do deserto pagarão bem por ele. Eles o chamam de Pó do Desejo. — Um nome interessante. — É bem triturado, de uma cor azul-acinzentada, parecido com tomilho, mas com um aroma muito mais forte e um gosto mais picante. Combina com carne de ave. — Você já o experimentou? Piros voltou a olhar para a fogueira. — Eu era jovem e tolo, e havia uma aposta. Não apostei mais desde então. Rudd me mostrou o que eu poderia ter me tornado. Alaric assentiu lentamente. — Aceito o seu aviso. Mas fico pensando... por que não tirá-lo dele? Com certeza seu poder se esvai com o tempo. Os dedos entrelaçados do chefe da caravana se apertaram até que as veias saltassem da parte de trás das mãos. — Na parte mais distante do deserto... eu vi um homem habituado a ele morrer por sua falta. Foi uma morte longa, lenta e dolorosa — disse, fechou os olhos e baixou a cabeça. — Devo perder até mesmo a sombra do meu filho? Alaric voltou o olhar para a tenda onde Rudd dormia. Havia um homem na entrada, enrolado em uma manta, a cabeça deitada em uma sela de camelo. Alaric sabia que havia outro na parte de trás. — É uma história triste — disse finalmente. — Mas precisa tomar mais forma antes que possa se tornar uma canção. Ele evitou dizer que ela precisava de um fim. — Bem — disse Piros —, ainda temos uma longa jornada. Muito tempo para criá-la. Apoiando a mão no chão arenoso, ele se pôs de pé. No dia seguinte, pouco depois do meio da manhã, a cidade fantasma se tornou visível de novo. Dessa vez Alaric estava seguindo a apenas uma pequena distância de Rudd, e pôde ver que Hanio segurava as rédeas da montaria do jovem e dois outros homens cavalgavam bem perto, um de cada lado. Como antes, a cidade ondulou e se modificou no horizonte, suas muitas torres ora relativamente nítidas, ora se fundindo em um grande borrão. Perto do anoitecer, a massa inteira pareceu se erguer no ar, e o céu vazio podia ser visto abaixo dela. “Nuvens”, pensou Alaric, apesar de ser uma conclusão difícil de se aceitar enquanto o resto do céu era de um azul monótono, a não ser pela sombra brilhante do sol. Os doze dias seguintes se passaram com poucas coisas que os distinguissem uns dos outros. Todas as manhãs pão fresco era assado e compartilhado antes que os homens montassem em seus camelos e a longa linha de animais carregados começasse a caminhar para oeste. A cada dia a caravana se movia mais para oeste, às vezes atravessando o terreno duro do deserto, às vezes contornando mais dunas e avançando lentamente com areia na altura dos tornozelos de um homem, e a longínqua cidade espectral quase sempre os acompanhava, distante, ao sul. Cada noite eles paravam em um poço cuja água só se tornava potável depois de ser fervida, e talvez houvesse alguns arbustos espalhados em volta do poço, apesar de os camelos garantirem que eles não sobreviveriam à sua presença. E quando as tendas eram armadas, as fogueiras acesas e os restos do pão da manhã consumidos com frutas secas e queijo quase tão seco quanto elas, e às vezes algumas porções de carne em conserva que precisava ser banhada em água quente para impedi-la de ficar tão dura quanto couro, Alaric jogava o alaúde em seus braços e tocava e cantava até que somente a patrulha da noite tivesse restado. E todas as noites Rudd sentava-se quase aos pés de Alaric e ouvia e sorria e concordava um pouco, e não dizia nada. Então, num dia que prometia ser como qualquer um dos outros, uma mancha escura apareceu no horizonte e cresceu com a aproximação da caravana, até se revelar como um pequeno bosque rodeando uma faixa oscilante de água que não era nenhuma miragem. Ao lado da água, aninhada entre as árvores, havia uma vila com uma dúzia de cabanas, e, espalhados em volta delas, viam-se homens, mulheres e crianças cuidando de hortas e até mesmo um pequeno rebanho de cabras. Alaric mal podia acreditar em seus olhos. No meio do deserto, onde nada além de alguns poços solitários lembravam a um viajante que de vez em quando alguns homens percorriam esse caminho, estavam estabelecidos seres humanos, com casas bem-feitas e, na área aberta formada pelo contorno dessas casas, cadeiras e mesas cuidadosamente esculpidas sobre tapetes lindamente tecidos — mobília e tapeçaria dignas de uma casa da realeza. Os camelos, incluindo Folero, foram arreados a um lado da faixa de água, suas rédeas amarradas em ferrões com argolas na ponta, enfiados profundamente nos troncos das árvores, para mantê-los longe das hortas. Os homens da caravana armaram suas tendas e fogueiras próximas a elas, o que Alaric pensou ser pelo mesmo motivo. Piros entregou sua montaria a Hanio, caminhou até o centro dos tapetes e, quando chegou lá, um homem em vestes brancas com uma corrente dourada no pescoço e um diadema na testa saiu de uma das casas para encontrá-lo, e os outros aldeões, vestidos com menos opulência, pararam com a sua jardinagem para se aproximarem do homem que era, obviamente, seu príncipe. Alaric viu reverências e gestos largos serem trocados entre o visitante e o príncipe e, após alguns momentos de conversa, Piros acenou para que ele se aproximasse. Alaric se aproximou e fez uma reverência profunda para o homem de vestes brancas. — Este é o nosso bardo — disse Piros. — Ele irá nos entreter hoje à noite. O príncipe sorriu. — E se me agradar haverá uma recompensa para ele — disse, e olhou para Piros. — Mas e nas noites em que você estiver fora? Ele ficará aqui? E talvez até depois? — Isso será conforme ele desejar — disse Piros. — Se ele for habilidoso como diz, espero que fique. Então todos fizeram uma reverência e Alaric seguiu a deixa de Piros e se afastou até que chegassem ao fim dos tapetes, onde o chefe da caravana se virou e levantou um braço na direção dos homens que aguardavam perto dos camelos. Com esse sinal, eles começaram a descarregar sacos de uma das linhas de animais. Alaric acompanhou Piros até a maior fogueira, onde os homens que estavam cuidando dela serviram chá para os dois. Piros bebeu o dele enquanto observava os camelos serem aliviados de suas cargas, os homens colocando os sacos nos ombros, carregando-os para os tapetes e formando uma pilha alta. O príncipe ainda estava lá, e agora ele segurava giz e lousa e conferia a entrega. Finalmente, incapaz de ficar mais tempo em silêncio, Alaric disse: — Você não estava sugerindo que eu possa querer ficar aqui quando a caravana seguir viagem, estava? Piros não olhou para ele. — Como eu disse, isso será escolha sua. Aqui a vida é tranquila, a não ser quando as tempestades de areia sopram. Ainda assim, as pessoas conseguiram se recuperar de todas as tempestades. A comida é boa. Nós comeremos carne fresca de cabra durante a nossa estadia, levando-a desidratada conosco para o resto da jornada. E a maioria daqueles sacos está cheia de cereais, para fazer pão fresco. Eles terão o bastante para o ano inteiro. Um bardo poderia ter um destino muito pior do que cantar para um príncipe. — Eu não acho — disse Alaric. Piros sorriu discretamente. — Ele lhe oferecerá ouro. Tenho certeza disso. Alaric balançou a cabeça em negativa. — Eu já tive ouro. Ele atrai ladrões. Prefiro viajar. Ou você está cansado de mim, caro Piros, e prefere me descarregar como a esses sacos de cereais? Então Piros olhou para ele. — Ele pode lhe oferecer o Pó para mantê-lo aqui. Como o senhor das cavernas das quais ele vem, ele tem um estoque pessoal bem grande. — Ele tem? Então talvez eu não vá comer a comida dele, afinal. Foi o Pó que o fez ficar rico? — Entre outras coisas. Há as mobílias, que são cotadas a altos preços dos dois lados do deserto. E há o sal — disse, e fez um gesto em direção ao norte. — As minas estão a alguma distância naquela direção, apesar de ninguém dizer exatamente qual ou onde. Eles o recolheram nos sacos de cereais do ano passado, e ele está esperando por nós em um depósito a meio dia de viagem daqui. Um grupo dos meus homens vai buscá-lo amanhã, enquanto eu estiver em outro lugar. Se você gosta de trabalho duro, pode ir com eles. — E você — disse Alaric — vai estar... em outro lugar. Piros voltou seu olhar para o príncipe, que estava assentindo enquanto o último saco de cereal era posto a seus pés. Piros repetiu o aceno, e Alaric não soube dizer se foi dirigido a ele ou só em satisfação quanto ao estado das transações com o príncipe. — Talvez você queira vir comigo — disse o líder da caravana. — Nós voltaremos em quatro ou cinco dias. — Com o Pó. Não era uma pergunta. Piros cruzou os braços sobre o peito. — Um homem passa a conhecer seus companheiros no deserto. Alaric sorriu. — Assim como companheiros de viagem em qualquer outro lugar. Ele estava pensando nas planícies do Ártico, desertos de outro tipo, mas ainda assim desertos, e nas pessoas que ele tinha conhecido lá. — Você tem coragem, bardo — disse Piros. Alaric balançou a cabeça. — Menos do que você pensa, caro Piros. Mas tenho uma curiosidade considerável, e ela às vezes é confundida com coragem. Piros olhou para os camelos e as fogueiras. — Como eu lhe disse, meu filho virá conosco. Ele precisará ser vigiado. Ele gosta das suas músicas. Elas talvez o impeçam de correr em busca da cidade. — Por que não deixá-lo para trás? Seus homens parecem ser bons em vigiá-lo. — Eu tenho o Pó do qual ele precisa, pelo menos o bastante até que alcancemos sua fonte. Só existe uma pessoa em quem eu confio para guardá-lo, e ela virá conosco — disse, e olhou fixamente para Alaric. — Acho que entendo seus motivos, bardo. Não vai haver nenhuma recompensa especial por essa jornada, mas duvido que você se importe com isso. — Uma boa canção é recompensa bastante para mim. Piros assentiu outra vez. — Hanio e eu sabemos como encontrar o lugar. Não é fácil ler os sinais no deserto. Ainda mais para um novato. Afaste-se e você poderá se perder para sempre. — Eu sou um viajante cuidadoso e quase nunca me perco — disse Alaric. Ele estava relutante em dizer “nunca”, apesar de ser verdade. O mapa que carregava em sua mente, de cada lugar em que já esteve ou viu, sempre serviu bem ao seu poder especial. — E sou bom em seguir outras pessoas. — Muito bem — disse Piros. — Amanhã, quando o grupo do sal for para o norte, nós iremos para o sul. — Em direção à cidade fantasma. — Sim. Isso também deve agradar meu filho. Naquela noite, a vila os recebeu bem, com carne fresca e vegetais para a caravana inteira e elogios às músicas de Alaric. O príncipe não lhe ofereceu nenhum ouro, mas Alaric não o esperava após apenas uma noite de entretenimento. Pela manhã, um grande grupo de homens e camelos foi enviado para buscar o sal. Um dos aldeões seria o guia deles, apesar de Piros ter dito a Alaric que não duvidava que seus homens pudessem encontrar o depósito sozinhos. Piros, Hanio e Rudd seguiram para o sul em suas próprias montarias, com Alaric, Folero e quatro camelos desmontados totalmente carregados com comida e água seguindo-os logo atrás. À tarde, acamparam em um lugar tão desolado quanto qualquer outro que Alaric vira durante a jornada. Ele não tinha fonte de água, mas é claro que eles haviam trazido seu próprio fornecimento. Eles ferveram chá e compartilharam um pouco do pão da manhã como janta. Logo após a refeição, o bardo cantou uma canção que tinha criado recentemente sobre as dunas que gemem, com um refrão repetitivo que fez dois de seus companheiros balançarem a cabeça no ritmo dele, com exceção de Rudd, que permaneceu sentado perto da fogueira olhando para a escuridão ao sul, como se houvesse algo para ver ali. No dia seguinte, continuaram a jornada e acamparam e comeram, e Alaric cantou novamente. No outro dia, uma pequena elevação na paisagem se tornou visível mais à frente — não dunas, mas uma linha de pequenos montes se espalhando em direção ao sul. Meio dia de percurso levou os viajantes a eles e a um pequeno agrupamento de sete cabanas, benfeitas mas menores que as do acampamento do príncipe. Também havia água, mas Piros avisou que ela não era potável, nem mesmo após ser fervida, e Alaric pôde ver, ao chegar mais perto, que ela tinha uma cor amarelada desagradável — nem mesmo os camelos a beberam. Meia dúzia de homens saiu das cabanas para cumprimentá-los. Eram homens abatidos, os ossos claramente visíveis em seus rostos, os olhos fundos e com olheiras, as mãos e os antebraços esqueléticos à mostra no final das mangas dos trajes de deserto, frouxos em seus corpos como se os homens um dia tivessem sido mais volumosos. O líder, o mais alto do grupo, fez uma grande mesura para Piros e o guiou até uma das cabanas, enquanto os outros começaram a descarregar o grupo de camelos. Alaric os ajudou, carregando em seus ombros sacos de pele de cabra que tinham sido enchidos no lago da vila e jogados por dos camelos em pares ligados por uma cordas grossas. Os homens abatidos levaram a água para seis cabanas; o resto dos suprimentos foi para a que ficava mais perto de uma fogueira comunitária. Pouco depois de tudo ser distribuído, Piros e o homem alto emergiram de sua reunião. — Há mais colheita a ser feita — disse Piros para seus companheiros —, então nós ficaremos aqui o dia de amanhã inteiro enquanto eles a terminam. Hanio assentiu. Ele havia trazido da vila uma cabra jovem ainda viva, carregada na altura de seu joelho em uma bolsa de malha, e então ele a matou com um único golpe rápido de sua faca, tirou sua pele com destreza, limpou suas entranhas e colocou a carcaça em um espeto para que assasse sobre a fogueira, enquanto os homens abatidos colocavam as carnes dos órgãos do animal para cozinhar em uma grande panela, não desperdiçando nada. Enquanto a carne cozinhava, dois dos homens abatidos pegaram sacos pequenos vazios da cabana de suprimentos, escalaram a elevação que ficava além de seu vilarejo e desceram por trás dela até não serem mais visíveis. Eles ficaram lá por algum tempo e, quando retornaram, seus sacos estavam jogados sobre os ombros, cheios de algo pesado e sem forma, e outra dupla seguiu o mesmo caminho, de novo com sacos vazios e de novo voltando mais tarde com os sacos cheios. Os homens abatidos continuaram a fazer isso, dupla após dupla, vez após vez, enquanto Hanio amarrava os sacos cheios nos camelos e Piros trazia outros sacos carregados de várias das cabanas e fazia o mesmo. Em determinado momento, Rudd, que tinha estado sentado de pernas cruzadas ao lado da fogueira, observando o jantar ser assado, se levantou e também escalou a elevação, e Hanio abandonou os camelos sendo carregados e foi atrás dele. Após alguns momentos, Alaric os seguiu, dezenas de passos atrás, e do topo ele pôde ver a cidade fantasma ao sul do horizonte e Rudd descendo o declive na direção dela, com Hanio em seu encalço. Hanio estava falando algo que Alaric não conseguia discernir, mas seu tom parecia gentil e persuasivo, e ele finalmente pegou o braço de Rudd, o fez parar e pareceu estar incentivando-o a voltar. Piros se uniu a Alaric na elevação, mas não fez qualquer tentativa de ir atrás do filho. Hanio finalmente girou Rudd para voltar e Piros assentiu discretamente antes de voltar para a fogueira. Alaric cantou naquela noite sobre uma busca longa e perigosa por tesouros. Era uma canção antiga que ele tinha aprendido muito longe dali, mas parecia apropriada. Ele cortou sua própria parte da carne de cabra da carcaça e ela estava deliciosa. Atendendo a um sinal discreto de Piros, ele não se serviu da carne dos órgãos, que cheirava fortemente ao que podia ou não ser tomilho, e nem Piros nem Hanio a comeram também. Se Rudd comeu ou não, Alaric não percebeu. Depois da refeição, Piros montou uma tenda para seu grupo e todos eles engatinharam para dentro dela para compartilhar calor contra o frio da noite do deserto. Alaric acordou uma vez, quando um dos outros — não Rudd, que dormia mais perto dele — saiu, provavelmente para atender ao chamado da natureza, mas, como ele não precisava fazê- lo também, voltou a dormir. De manhã, a assaram um pouco de pão em pedras aquecidas pela fogueira e prepararam sanduíches com a carne fria da cabra. Depois disso, Hanio sugeriu que Alaric talvez gostasse de ver o que pudesse da colheita do Pó, para satisfazer a curiosidade que o trouxera para o deserto. — É permitido? — perguntou Alaric. — Sim, mas existe pouco para ser visto — disse Piros. Rudd, que estava curvado sobre sua comida, olhou para cima ao ouvir essas palavras. — Eu gostaria de vê-la. — Você já a viu antes — disse o pai. — Ela não é diferente agora. — Eu quero vê-la — disse Rudd, mais alto. Ele se levantou, jogou fora sua refeição inacabada e então se virou e começou a escalar a elevação. Piros olhou para Hanio. — Vá com ele, e não o deixe usar demais do pó fresco. — Eu talvez precise de um pouco de ajuda — disse Hanio. Rudd olhou por sobre o ombro para o pai. — Você não quer vir junto, pai? Para me manter à vista? Piros olhou para Alaric, mas não disse nada. — Eu vou — disse o bardo, alcançando Rudd. — Você pode explicar a colheita para mim. — Meu pai a entende melhor — disse Rudd, e havia um tom sombrio em sua voz, e um olhar sombrio em sua face. — Mas ele tem medo dela. Não é, pai? Piros o fitou com os olhos semicerrados. — Da mesma maneira que você deveria ter — disse. — Olhe o que ela causou àqueles que a fazem. Então se virou para Alaric. — Eles morrem antes da hora, mesmo sem inalar o veneno. Tantos anos de exposição cobram seu preço. — Talvez eu não queira vê-la — disse Alaric, e deu um passo para trás, descendo a elevação. — Fique bem longe da fenda — disse Piros. — Você vai estar seguro lá. O cheiro que emana da fenda é o suficiente para avisar os homens para não chegar muito perto. — Com medo de um cheiro — resmungou Rudd. — Que tipo de cheiro? — perguntou Alaric. — Você não vai confundi-lo com perfume — disse Piros —, nem com tomilho. Alaric hesitou por mais um momento. Ainda assim, Hanio iria junto e parecia saudável o bastante. A curiosidade finalmente ganhou da dúvida e Alaric assentiu para Rudd e Hanio, e os três subiram até o topo da elevação. Lá, seguiram os picos da linha de pequenas elevações para oeste por cem, duzentos passos. À direita deles, a cidade fantasma tremeluzia no horizonte ao sul, e Rudd olhava para ela com frequência, apesar de não ter tentado correr em sua direção, Alaric pensou, porque Hanio segurava seu braço com firmeza. Uma faixa de água — ou de algo que parecia água — se estendia para fora da cidade, e ela parecia bastante real, com exceção de suas margens, que se alteravam constantemente, como líquido sendo carregado em uma bacia através de uma multidão agitada em uma taverna. — Conte-me sobre a colheita — pediu Alaric. Rudd não disse nada, e finalmente Hanio respondeu: — Eles prendem a respiração. Não fazem nada além disso. De qualquer maneira, ninguém ia querer respirar aquele fedor. — Eles o colhem enquanto estão prendendo a respiração? — perguntou Alaric. — Não existe outro jeito — respondeu Hanio. — Através de muita prática, eles se tornam muito bons em segurar a respiração. Aqueles que não são tão bons nunca são escolhidos para o trabalho. Ou morrem. — Esse não parece ser um tipo de trabalho muito atrativo — disse o bardo. — Uma morte precoce ou outra mais precoce ainda. Que tipo de homem o escolheria? — Não é uma escolha — respondeu Hanio. — O príncipe ordena e eles obedecem. É claro, aqueles que fazem a colheita usam quanto Pó quiserem, então existem algumas vantagens. Alaric sentiu o cheiro de seu destino antes de vê-lo, e era tão repulsivo quanto Piros havia prometido: um odor forte de podridão, como vísceras deixadas ao sol por tempo demais. Ele parou por um momento, deixando Hanio e Rudd se afastarem, e começou a descer a elevação desajeitadamente em direção ao sul. Ele os viu contornar uma protuberância de pedras elevadas e desaparecer abaixo dela. Após um longo momento, deu mais dois passos naquela direção, e então parou de novo, a incerteza lutando mais uma vez com a curiosidade. Um sentimento de inquietação estava crescendo dentro dele, e não importava quantas vezes ele dissesse a si mesmo que, se Hanio achava que era seguro o bastante, ele também deveria; ainda assim, hesitava. De repente, um dos homens abatidos subiu a elevação aos pulos em direção a ele, e Alaric ouviu Hanio gritar alguma coisa, apesar de não conseguir entender as palavras. Ele deu um passo para o lado e o homem abatido passou por ele correndo, na direção de onde tinham vindo. Hanio se afastou de baixo da protuberância de pedra e gritou de novo, acenando insistentemente para que Alaric se juntasse a ele. O bardo olhou para o sul de cima da elevação. O que estava acontecendo, ele se perguntou, que Hanio e o segundo homem abatido não podiam resolver? Como eles achavam que ele poderia ajudar? Os sons de alguém correndo o fizeram se virar. Piros e todos os outros cinco homens abatidos restantes se aproximavam às pressas seguindo a linha dos picos das elevações. — O que o garoto estúpido fez agora? — gritou Piros. Mas ele passou por Alaric sem esperar resposta. Os dois últimos homens abatidos agarraram os braços de Alaric e o arrastaram junto com eles, e ele tropeçou, quase perdendo o equilíbrio enquanto os três desciam a elevação correndo. Embaixo da protuberância, atrás do espaço vazio criado por aquela plataforma de pedra, o declive da encosta era quase vertical, formando uma parede um pouco maior que a altura de um homem, e naquela parede estava instalada uma porta de madeira enorme. Rudd estava estirado quase aos pés da porta, e Hanio, ajoelhado ao seu lado, o ninava como a uma criança. — O que aconteceu? — perguntou Piros, debruçado sobre o filho. E, de repente, tudo sucedeu em um piscar de olhos: um dos homens abatidos escancarou a porta de madeira, revelando a escuridão de uma caverna além dela e, assim que o fedor de podridão se espalhou para fora, dez vezes mais poderoso que antes, e que Alaric prendeu a respiração para não senti-lo, três dos homens abatidos seguraram Piros, o levantaram e o arremessaram através do batente da porta enquanto os outros tiravam Alaric do chão com uma força contra a qual ele não podia lutar e o jogavam lá dentro também. Todo o ar que Alaric tinha nos pulmões foi jogado para fora quando ele caiu com força em cima de Piros. Então a porta de madeira foi fechada e a luz do dia desapareceu. Na escuridão total, Alaric estreitou o corpo do líder da caravana contra o seu e num piscar de olhos os dois estavam no Norte, e o cheiro de podridão estava se dissipando no frio e limpo vento nortenho. Alaric soltou Piros e se pôs de joelhos, tossindo e arfando ao inspirar profundamente. O ar estava gelado, e ele tremeu pelo contraste com o calor do deserto, apesar de, para os padrões do Norte, nessa época do ano, o clima estar ameno. Ele quase estava com medo de olhar para Piros. Não tinha pensado em — nem mesmo tentado — usar seu poder. Não teve tempo para isso. Ele tinha trazido o corpo inteiro de Piros com ele ou só haveria uma parte dele, como uma peça de carne de açougue? Um gemido baixo atraiu seu olhar. Piros se apoiou nos cotovelos e tossiu. Ele estava inteiro, e não só isso, mas ele e Alaric estavam deitados em uma grande placa de pedra. Alaric percebeu que seu poder não havia trazido apenas Piros, mas também um bom pedaço do piso da caverna. E naquele chão estava um esqueleto humano desgastado pelo tempo, os quadris quebrados, membros espalhados — Alaric achou que ele e Piros deviam tê-lo atingido quando caíram — e entre esses ossos viam-se incrustações do que poderiam ser pequenos cristais ou mofo de uma cor azul-acinzentada. Havia manchas daquele tom de azulacinzentado em uma das mangas de Alaric e, enquanto se colocava de pé, ele as limpou com a outra manga, com cuidado para não deixar nenhuma parte encostar em sua pele e para não inalar nada. Ele adivinhara o que aquilo devia ser. Piros estava sentado e examinava o lugar com cuidado, de olhos bem abertos para a grama dura do Norte que se espalhava em volta da placa de pedra abaixo dele, para os arbustos e árvores mirradas espalhados pela paisagem ondulada, e para as montanhas distantes com picos brancos além dela. Ele franziu as sobrancelhas para Alaric. — Esta é a terra dos mortos? Alaric balançou a cabeça, negando. — Não, nós escapamos dela. Este é só o Norte. O chefe da caravana se pôs de joelhos e engatinhou para a ponta da placa de pedra, colocando suas mãos no solo frio nortenho e enfiando seus dedos nele apenas por um momento. Então ele se colocou de pé. — Como nós viemos para cá? — perguntou em um sussurro. E olhou para Alaric de novo. — Você fez isso. Alaric não disse nada. Piros se virou para ele. — Estamos bem longe — murmurou, e se agarrou às suas vestes de deserto para se proteger do frio. Então se curvou profundamente perante Alaric. — O que deseja de mim, meu senhor? Alaric voltou a respirar rapidamente. Essa não era a reação que ele esperava. Medo de seus poderes de feiticeiro, sim, e seu primo próximo, o ódio. Mas reverência? — Eu não quero nada, caro Piros, a não ser a sua amizade. — Eu lhe devo a minha vida — disse Piros. — Essa não é uma dívida que se pague com facilidade. Alaric balançou a cabeça. — Eu me salvei, e foi fácil trazê-lo também. — Você poderia ter me deixado para morrer. — Eu não sou esse tipo de homem — disse Alaric. Os olhos de Piros se estreitaram. — Você é um homem? Ou é algum tipo de espírito mágico? — Um homem. — E mesmo assim... — É uma habilidade com a qual nasci. Eu tento não usá-la quando outros podem ver. Ela os assusta — disse, olhando fixo para Piros. — Mas você não está assustado. — Eu já vi várias coisas durante a minha vida — disse Piros —, e nunca vi o medo ser útil. Você pode me levar de volta? Não para a caverna, mas para o lado de fora. — Eu posso levá-lo para o acampamento dos homens abatidos, para a vila perto da lagoa ou para a taverna de seu irmão. — Para a elevação acima da caverna? — Sim, para lá também. — Eu tenho que saber quem ordenou isso. E tenho que ver meu filho e Hanio, se eles já não estiverem mortos. — Os homens que fazem a colheita estão em maior número que nós — disse Alaric. — Eles estão, mas nós temos a vantagem da surpresa desta vez — disse Pires, e balançou a cabeça, desanimado. — Isso não foi orquestrado só por eles. Seu príncipe nunca iria permitir que eles me matassem a não ser que alguma outra pessoa estivesse pronta para assumir o comércio, e com uma oferta mais vantajosa. A pergunta é... quem? — Você acha que...? A boca de Piros se transformou em uma linha firme e sombria. — Alguém que tenha vindo conosco para a fonte do Pó, para ter certeza de que o trabalho estava feito. E para matá-lo, também, para não deixar nenhuma testemunha confiável. — Duas possibilidades — disse Alaric. — De fato — concordou Piros. — Leve-me de volta, bardo. Eu preciso da verdade. — A uma pequena distância da caverna — disse Alaric. — Apenas ligeiramente fora da linha de visão deles. Piros concordou. — Tudo bem — disse o bardo —, venha para os meus braços. Eles se abraçaram e em um piscar de olhos estavam no deserto mais uma vez, na extremidade norte da linha de pequenas elevações que eles tinham seguido para chegar à caverna. Os picos pairavam acima de suas cabeças, mas os dois se jogaram no chão e Piros escalou até o topo de um deles, a cabeça e o corpo abaixados. Espiou por cima da elevação e sinalizou para Alaric se juntar a ele. A protuberância que marcava a caverna estava a apenas uma dúzia de passos largos e inclinados, e três dos homens abatidos podiam ser vistos em volta dela. — Você tem uma faca? — sussurrou Piros. Alaric balançou a cabeça negativamente. Ele tinha, mas estava em sua sacola no acampamento dos homens abatidos. — Pegue esta — disse Piros, puxando uma longa lâmina de sua manga e oferecendo-a, com o cabo virado para Alaric. — Eu não mato pessoas — sussurrou o bardo. — Tudo o que eu quero é ameaçá-los. Fantasmas com facas. Você acha que eles enfrentarão isso? Alaric pegou a faca. Piros tirou outras duas das mangas. Alaric se perguntou quantas mais ele carregava. — Siga-me — disse o líder da caravana, e se pôs de pé, pulou por sobre o topo da elevação e desceu correndo pelo outro lado, gritando. — Assassinos! Assassinos! Alaric segurou sua faca e correu atrás dele. Os três homens abatidos olharam para cima e começaram a gritar — gritos penetrantes e agudos, como de cachorros feridos. Eles se agarraram uns aos outros, como crianças amedrontadas, e os outros três saíram de baixo da protuberância e também começaram a gritar. A essa altura, Piros já os tinha alcançado. — Abaixem-se! — gritou. — Abaixem-se como os vira-latas que vocês são, com os rostos para o chão! Joguem poeira e pedra sobre suas cabeças e me implorem para não lhes dar a justiça que merecem! Ele brandiu suas facas, e Alaric parou a alguns passos dele e começou a brandir a própria faca de uma maneira que ele esperava ser ameaçadora o bastante. Os homens abatidos se agacharam profundamente, arrastando os dedos curvados e trêmulos na terra e jogando o que conseguiam pegar por sobre suas cabeças, gritando durante todo o processo. — Silêncio! — bradou o líder da caravana. Os gritos se transformaram abruptamente em um choro baixo, interrompido por tosses sufocantes. — Quem deu a ordem? — exigiu saber Piros, e chutou a cabeça curvada mais próxima, uma, duas vezes. Como não houve resposta, ele cortou o ombro do homem com a ponta de uma das facas, rasgando tanto o tecido quanto a pele por baixo dele, e o sangue começou a manchar os trajes do homem. — Responda! O homem ferido agarrou o ombro machucado e gemeu. — Seu homem — disse um dos outros. — Foi o seu homem. — Hanio — disse outro. — Ele disse que, se nós fizéssemos isso, poderíamos voltar para a vila. Voltar para nossas famílias! — Ele disse que eles iriam nos receber — disse outro ainda. — Alguma outra pessoa teria que colher o Pó! Piros marchou por entre o grupo de homens agachados e eles não fizeram nenhuma tentativa de detê-lo, apenas o seguiram com seus olhares. Alaric os contornou, perguntando-se quanto tempo o terror deles os impediria de adivinhar que ele e Piros não eram espíritos. Hanio estava esperando abaixo da protuberância, com as costas contra a porta que selava a caverna. Ele também tinha um par de facas, lâminas longas e terríveis. — Então existe outra saída — disse. — E o veneno é uma mentira. Piros balançou a cabeça, negando. — Você nos matou. — Eu acho que não — disse Hanio, e chutou uma pedra na direção de Piros. Ela atingiu a bota macia do líder da caravana onde ela aparecia por baixo de seus trajes. — Você ainda é de carne e osso. Piros franziu as sobrancelhas. — Onde está meu filho? — Se foi — disse Hanio. Gesticulou para o sul com a ponta de uma das facas. — Para onde sempre quis ir. Piros não tirava os olhos do homem. — Ele sabia o que você planejava? — É claro que sim. Você acha que ele gostava da prisão que você fez a vida dele se tornar? Alaric podia ver Piros segurando as facas com mais força, suas juntas brancas de tensão. — Eu teria dado tudo a você algum dia — disse ele —, não para ele. — Algum dia, daqui a vinte anos — respondeu Hanio. — E até lá eu teria que aguentar a loucura dele. Eu cansei. Cansei há muito tempo. Piros deslizou para um dos lados do abrigo nas rochas, até estar junto à parede. — Então é assim que ficamos. — Dois contra um — disse Hanio. — Sete contra dois — respondeu Piros. — Você mesmo definiu as chances. Hanio balançou a cabeça. — Eles acham que você está morto. Eles fugiram. Piros não olhou para trás na direção dos homens abatidos que deixara agachados, mas Alaric não conseguiu evitar desviar o olhar para lá. Eles tinham ido embora. — Parece que estamos sozinhos — disse ele. Piros assentiu. — Me avise se eles voltarem. Caso contrário, seremos apenas Hanio e eu — disse, e deu um único passo na direção de Hanio. — Quais dos outros o apoiam? — Todos eles — respondeu Hanio —, quando eu voltar sem você. E levantou uma de suas facas até a altura da cintura, mantendo a outra junto ao seu quadril. Piros saltou, jogando as facas de Hanio para o lado, junto com as suas, e então os dois homens se chocaram contra a porta de madeira antes de caírem no chão em um emaranhado de vestes de deserto, com Hanio por cima. Alaric percebeu que estava prendendo a respiração, pronto para fugir da sua própria maneira, mas incerto o bastante para ficar por mais um instante, e por outro. Então Piros empurrou Hanio para o lado e se pôs de pé, cambaleando. A lâmina em sua mão esquerda estava com sangue até o punho, e havia uma mancha crescente da mesma cor na barriga de Hanio. Piros limpou a faca ensanguentada na bainha dos trajes de Hanio e enfiou as duas lâminas de volta em suas mangas. Silenciosamente, Alaric lhe entregou a faca que ele lhe emprestara e ela também foi para dentro de uma das mangas. — Vamos deixá-lo aí para que os aldeões o enterrem — disse Piros. — Ou talvez eles só o ponham ao sol para secar. Agora, ao meu filho. Começou a andar de volta para a elevação. Alaric o seguiu. — O que você fará com ele? — perguntou. No topo, Piros se virou e olhou para o sul, e Alaric parou ao seu lado e fez o mesmo. A cidade fantasma estava lá, como tantas vezes antes, e entre ela e eles, quase invisível contra o chão pálido do deserto, via-se uma pequena forma com um turbante escuro na cabeça. — Me pergunto quanto do Pó fresco deram para ele — divagou Piros. — É mais forte quando está fresco. Ele provavelmente vê torres de alabastro e jardins de flores desabrochando onde nós vemos formas que poderiam muito bem ser nuvens. E talvez veja até mesmo barcos na água. Ele respirou profunda e pesadamente. — Foi o que eu vi. E me assustou tanto que nunca usei o Pó novamente. — Nós podemos trazê-lo de volta — disse Alaric. — Nós podemos — disse Piros. — Mas eu não precisava que Hanio me dissesse que o garoto sabia. Se não soubesse, eles o teriam jogado dentro da caverna junto conosco. Hanio sempre foi um homem cuidadoso. Um bom subordinado que nunca deixava nada para o acaso. Se ele decidiu matar você para não deixar testemunhas, não teria poupado Rudd. — Você não pode ter certeza disso — disse Alaric. — Hanio podia estar mentindo para obter vantagem durante a luta. Ele pode ter confiado no Pó para confundir a mente do garoto. Ele apertou os olhos contra o sol, medindo a distância. Seria uma jornada fácil o bastante com seu poder especial, e se agarrasse o garoto bem rápido, enquanto ele estivesse surpreso demais para lutar, a volta também seria fácil. — Piros — chamou Alaric —, ele é seu filho. Piros riu suavemente, de maneira triste. — Ele é filho do Pó. E eu também já cansei de controlar sua prisão. Respirou fundo de novo e se virou na direção contrária ao sul, à cidade, ao seu filho. — Deixe que ele vá em busca do que seu coração deseja. Começou a descer a elevação ao norte, na direção do agrupamento de cabanas dos homens abatidos. Alaric correu atrás dele. — Piros... O chefe da caravana continuou a andar. — Não é um fim bom o bastante para a sua canção, bardo? — Um final perfeito para uma canção — disse Alaric —, mas não para a vida de um homem. Você o deixará lá para morrer porque o Pó está confundindo a mente dele? — Se você for atrás dele — avisou Piros —, ele se tornará o seu fardo. É isso que você quer? Alaric engoliu com dificuldade. — Piros... Eu não posso deixá-lo morrer. Piros balançou a cabeça. — Eu não pensei que você fosse um tolo, bardo, mas parece que você é. Em um piscar de olhos, Alaric estava andando em direção ao sul, alguns passos atrás do filho de Piros. — Rudd! — gritou. O jovem mal olhou por sobre os ombros. Ele não parecia surpreso em ver Alaric. — Volte — disse o bardo. — Não há nada lá. Não existe uma cidade. — Você ouviu demais o meu pai — respondeu Rudd. — Ele sabia que existe uma cidade, mas ela o assustava, então ele negava a sua existência. — É uma ilusão — disse Alaric. — Um truque do deserto. Eu a vi quase todos os dias, e ela sempre desaparece em algum momento. — Ela não vai desaparecer para mim. Ele acelerou o passo, como se para alcançá-la antes que ela sumisse. Alaric parou e deixou o espaço entre ele e Rudd aumentar. A cidade estava lá, logo à frente, tentadoramente indistinta, mas ainda assim lá. Piros havia dito que ela era uma ilusão, e Alaric havia aceitado aquilo, mas e se fosse outra coisa? E se existisse uma cidade — algum tipo de cidade — lá na frente? E se Rudd estivesse certo? Ele mediu a distância até ela e pulou em sua direção da sua maneira especial, um salto equivalente a uma caminhada de um dia e meio de um homem pelo deserto. Quando olhou para trás, não pôde mais ver Rudd, mas, à sua frente, a cidade permanecia tão longe quanto antes. Mais um salto. Dois. Três. No décimo, a cidade tinha sumido, apesar da camada de água que a circulava ainda se espalhar de maneira sedutora pelo deserto ao longe. Mais alguns saltos mostraram que a água continuava a recuar. Ilusão, tudo ilusão. Agora tinha certeza, e se sentiu tanto desapontado quanto um pouco envergonhado por ter-se deixado acreditar no contrário, mesmo que por pouco tempo. Voltou para o ponto inicial, agora algumas dúzias de passos atrás de Rudd, e correu para alcançar o garoto. — Ainda aqui? — perguntou Rudd. — Eu vou andar com você — disse Alaric —, e, quando a cidade desaparecer, nós voltaremos. — Voltar para o quê? Hanio controla a caravana agora, ele não vai me querer lá — disse, e olhou para Alaric. — Sim, eu sei que meu pai está morto, e que você também está. Você é uma ilusão, mas aqui está você. Por que eu deveria acreditar em você, e não na cidade? Alaric não tentou responder a pergunta. Em vez disso, disse: — Eu estou aqui para levá-lo de volta para a terra dos vivos. Para a taverna do seu tio, se você assim desejar. Rudd remexeu em uma dobra em seu traje e tirou uma bolsa de couro daquelas nas quais se carrega moedas. Mas, quando enfiou seus dedos nela, eles saíram com uma pitada do pó cinza, que ele logo lambeu. — Eu estou na terra dos vivos — disse ele. — E a cidade irá me receber. — Rudd... O garoto estendeu a bolsa para Alaric. — Os mortos podem aproveitar o Pó? Alaric balançou a cabeça negativamente. — É uma pena — disse Rudd. — Há bastante Pó na cidade. Ele fechou a bolsa e a guardou. — Há bastante Pó na caravana — rebateu Alaric. — Volte para ela comigo. Ele pegou no braço de Rudd, logo acima de seu cotovelo. Rudd parou abruptamente e olhou para a mão segurando seu braço. — Não é mesmo uma ilusão — murmurou. Ele sacudiu o braço, liberando-se, e empurrou o bardo para longe. Então deu alguns passos para trás, puxou uma faca de sua manga e a brandiu na direção de Alaric. Alaric pulou para o lado, lutando contra seu instinto de desaparecer. — Então você pode morrer duas vezes — disse Rudd, e avançou contra ele. Um segundo depois, Alaric estava no Norte. A seus pés estava a faixa de pedra com os ossos humanos espalhados. Ele respirou fundo e saltou de volta para um ponto a uma dúzia de passos do garoto. — Rudd! — gritou. — A cidade não quer você. Ela me mandou para mantê-lo longe dela! O garoto se virou. — Mentiroso! — gritou — Ela sempre me quis! Então ele se virou de volta para o sul e continuou a sua marcha. — Rudd! O rapaz não respondeu dessa vez. — Rudd — disse Alaric, em tom mais gentil. E ele observou por um longo tempo enquanto a figura do garoto diminuía na distância e a cidade fantasma acenava além dele, inatingível. Quando Rudd se tornou não mais que um ponto na grande paisagem do deserto, Alaric voltou para o agrupamento de tendas dos homens abatidos. Piros estava lá, sozinho com os camelos, inspecionando as amarras dos vários sacos de Pó. Ele ergueu o olhar quando Alaric se aproximou. — Ele não quis vir? Alaric balançou a cabeça negativamente. — Eu não achei que quisesse — disse, e acariciou o pescoço do camelo ao seu lado. — Nós partiremos agora. Já estivemos fora por tempo mais que suficiente. Alaric olhou para a esquerda e depois para a direita. — E os homens da colheita? — Fugiram — disse Piros. — Talvez de volta para o príncipe deles, com alguma história sobre a nossa magia, se eles ousarem contar. Ele vai colocar a culpa no Pó, eu diria. Ou talvez eles só estejam no deserto, esperando que a gente vá embora. Não importa. Não precisamos mais deles. Temos Pó suficiente até a próxima viagem. E eu aposto que eles terão esquecido tudo isso no ano que vem. — E nós dois? — De volta para a vila para continuar a nossa jornada. Guarde um pouco daquela carne de cabra para amanhã. Alaric raspou alguns restos dos ossos e os enrolou em um saco que antes tinha guardado pão. Enfiou o saco em uma das cestas na lateral de Folero. Quando terminou, Piros já estava em cima do próprio camelo. — Quantos dos outros você acha que sabiam? — perguntou Alaric enquanto Folero se ajoelhava para deixá-lo montar nela. — Não importa — respondeu Piros. — Eles seguirão aquele que voltar. Seu lábio se curvou, mas não havia humor em sua expressão. — Você acha que esta é a primeira vez que alguém tentou me matar? Alaric franziu as sobrancelhas. — É um comércio valioso — disse Piros. — E os homens são bem pagos no final. Mas às vezes alguém quer ser mais bem pago ainda. Até hoje, Hanio tinha sido aquele que esteve ao meu lado. Eu achava... Bem, não importa o que eu achava. Folero está esperando por você. Alaric montou e o camelo se pôs de pé com a combinação estranha de falta de jeito e elegância à qual Alaric tinha se acostumado. — Você está deixando seu filho lá — disse Alaric. — Talvez nós dois juntos consigamos convencê-lo. — Eu não tenho filho — disse Piros. Ele deu um puxão nas rédeas de seu camelo. O animal começou a se mover na direção norte. Os outros, ligados a ele por uma linha de cordas, começaram a se mover junto com ele. Piros olhou para trás, na direção de Alaric, e fez um gesto para que o seguisse. — Mas isso pode ser corrigido, com o tempo. Enquanto cavalgava no fim da caravana em miniatura, Alaric não podia deixar de pensar que Piros não havia falado sobre escolher uma nova jovem esposa. No decorrer do dia seguinte, enquanto seguiam para o norte, toda vez que o bardo olhava para trás, ele via a cidade fantasma no horizonte, acenando, mas permaneceu com Piros e tentou não pensar no rapaz que tinha respondido ao seu chamado mas que nunca iria alcançá- la. A canção já estava se formando em sua mente, uma história comovente, perfeita para longas noites de inverno ao lado de uma fogueira ardente bem, bem longe do deserto. Algum dia poderia cantá-la sem imaginar o que mais ele poderia ter feito para mudar o seu final.

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