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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 78

A ÁRVORE RELUZENTE


Patrick Rothfuss, autor best-seller do New York Times, conquistou popularidade e elogios da crítica com a publicação de seu primeiro romance, O nome do vento. O segundo romance da série, O temor do sábio, foi recebido com igual sucesso e elogios por todo o mundo. Outros projetos de Patrick são um livro infantil de humor negro, The Adventures of the Princess and Mr. Whiffle, e a Worldbuilders, uma iniciativa geek de caridade que já arrecadou mais de dois milhões de dólares para a Heifer International desde a sua fundação, em 2008 (Worldbuilders.org). Neste conto, ele nos leva até a icônica hospedaria Marco do Percurso para acompanhar um dia típico na vida de um dos personagens mais populares de A Crônica do matador do rei, o misterioso Bast, aparentemente um menino de recados, que é muito mais do que parece — um dia no qual Bast aprende muitas lições e ensina outras tantas também




Manhã: A estrada estreita 


Bast quase conseguiu passar pela porta dos fundos da Marco do Percurso. Na verdade, ele tinha passado, com os dois pés na soleira, e a porta estava quase fechada atrás dele quando ouviu a voz de seu mestre. Bast parou, com a mão na maçaneta. Franziu a testa para a porta; faltavam menos de vinte centímetros para ela fechar. Não tinha feito barulho. Sabia disso. Estava familiarizado com todas as peças silenciosas da hospedaria, quais tábuas do soalho gemiam debaixo dos pés, quais janelas empacavam... As dobradiças da porta de trás rangiam algumas vezes, dependendo de seu humor, mas isso era fácil de resolver. O rapaz apertou a maçaneta em outro lugar, erguendo-a para que o peso da porta não fizesse tanta pressão depois fechou-a lentamente. Sem rangido. O movimento da porta tinha sido mais suave que um suspiro. Bast se empertigou e sorriu. Seu rosto era doce, matreiro e selvagem. Ele parecia uma criança levada que acabara de roubar a Lua para comer. Seu sorriso era como a última fatia do que lhe restava: afiado, branco e perigoso. — Bast! — Ele ouviu seu nome novamente, mais alto dessa vez. Nada tão rude quanto um grito; o mestre jamais se humilharia berrando. Mas, quando ele queria ser ouvido, sua voz de barítono não seria detida por algo tão insubstancial quanto uma porta de carvalho. A voz soou como uma trombeta e Bast sentiu o chamado puxá-lo como se fosse uma mão ao redor de seu coração. O rapaz suspirou, abriu a porta suavemente e voltou para dentro. Ele era moreno, alto e atraente. Ao caminhar, parecia que dançava. — O que foi, Reshi? — chamou. Após um instante, o estalajadeiro entrou na cozinha; trajava um avental limpo e branco e seu cabelo era vermelho. Afora isso, o homem era dolorosamente comum. Seu rosto tinha a placidez pastosa dos hospedeiros entediados em toda parte. Apesar de cedo, parecia cansado. O homem estendeu a Bast um livro de couro. — Você quase esqueceu isto — falou, sem vestígio de sarcasmo. Bast pegou o livro e fez questão de parecer surpreso. — Ora! Obrigado, Reshi! O homem deu de ombros e sua boca assumiu o formato de um sorriso. — Sem problema, Bast. Enquanto você estiver fora nas suas tarefas, se importaria de pegar alguns ovos? Bast fez que sim com a cabeça, enfiando o livro debaixo do braço. — Mais alguma coisa? — perguntou, obediente. — Talvez umas cenouras também. Estou pensando em fazer um ensopado hoje à noite. Hoje é o dia da sega, por isso temos que nos preparar para uma multidão. — A boca virou levemente para um dos cantos enquanto ele dizia isso. O homem começou a se afastar, então parou. — Ah. O garoto dos Williams passou aqui ontem à noite atrás de você. Não deixou recado. — Ele ergueu uma das sobrancelhas para Bast. Aquela expressão dizia mais do que suas palavras. — Não tenho a menor ideia do que ele quer — retrucou o rapaz. O estalajadeiro fez um ruído indefinido e se virou de novo na direção do salão. Antes que desse três passos, Bast já estava do lado de fora da porta e corria sob a luz do sol do início da manhã. Quando Bast chegou, já havia duas crianças esperando. Elas brincavam sobre a imensa pedra cinzenta quase caída no sopé do morro, e subiam pelo lado inclinado para depois pular na grama alta. Sabendo que as crianças estavam observando, Bast levou o tempo que precisou para escalar o minúsculo morro. No topo, havia o que as crianças chamavam de árvore reluzente, embora atualmente fosse pouco mais que um tronco sem galhos e maior do que um homem. A casca toda caíra havia muito tempo e o sol desbotara a madeira até ficar branca como osso. Tudo, a não ser pelo topo em si, onde, mesmo após todos esses anos, a madeira estava chamuscada com uma cor preta irregular. Bast encostou as pontas dos dedos no tronco e lentamente traçou um círculo ao redor da árvore. Ele se moveu da esquerda para a direita, a mesma direção do sol que se deslocava. Do modo adequado. Então girou e trocou as mãos, traçando três círculos lentos na direção oposta. Esse giro era oposto ao mundo. Era a maneira de romper. Ele caminhou para a frente e para trás, como se a árvore fosse um carretel e ele o enrolasse e desenrolasse. Por fim, o rapaz sentou-se, recostado na árvore, e ajeitou o livro numa pedra próxima. O sol reluzia nas letras douradas e brilhantes, Celum Tinture. Então se distraiu jogando pedrinhas no rio que cortava o declive suave do morro do outro lado da pedra cinzenta. Após um minuto, um garotinho louro e rechonchudo caminhou com dificuldade morro acima. Era o filho mais novo do padeiro, Brann. Ele tinha cheiro de suor, pão fresco e... outra coisa. Uma coisa fora de lugar. A aproximação vagarosa do menino tinha um ar de ritual. Ele escalou o pequeno morro e ficou parado ali por um instante, em silêncio; o único barulho vinha das outras duas crianças que brincavam embaixo. Finalmente Bast se virou e lançou um olhar ao menino. Ele não tinha mais que oito ou nove anos, estava bem-vestido, era mais gordinho do que a maioria das outras crianças na cidade e trazia um tecido branco amarrotado na mão. O garotinho engoliu em seco, nervoso. — Eu preciso de uma mentira. Bast acenou com a cabeça. — Que tipo de mentira? O garoto abriu a mão com todo o cuidado e revelou que o pano amarrotado era uma atadura provisória, salpicada de vermelho-vivo. Estava levemente grudada em sua mão. Bast meneou a cabeça: fora o cheiro daquilo que ele sentira. — Eu estava brincando com as facas da minha mãe — falou Brann. Bast examinou o corte. Ele seguia superficial ao longo da palma até quase perto do polegar. Nada grave. — Dói muito? — Nada como a surra de vara que vou levar se ela descobrir que andei mexendo nas facas dela. Bast acenou com a cabeça em solidariedade. — Você limpou a faca e guardou no lugar? Brann concordou com a cabeça. Bast bateu nos lábios, pensativo. — Você achou que tivesse visto um grande rato. Ele assustou você. Você jogou a faca nele e se cortou. Ontem, uma das crianças lhe contou uma história sobre ratos que mastigavam as orelhas e os dedões dos pés de soldados enquanto eles dormiam. Isso lhe deu pesadelos. Brann estremeceu. — Quem foi que me contou a história? Bast deu de ombros. — Escolha alguém de quem você não goste. O garotinho sorriu maldosamente. Bast começou a fazer a contagem das coisas nos dedos. — Bote um pouco de sangue na faca antes de jogá-la. — Apontou para o pano no qual o menino tinha enrolado a mão. — Livre-se disso também. O sangue está seco e obviamente velho. Você sabe fingir choro? O garotinho fez que não com a cabeça e parecia um pouco constrangido com esse fato. — Ponha um pouco de sal nos olhos. Fique encatarrado e lacrimejante antes de correr para eles. Uive e soluce. Então, quando eles perguntarem sobre sua mão, diga à mamãe que sente muito por ter quebrado a faca. Brann ouviu com atenção, acenando a cabeça devagar no começo e, depois, mais rápido. E sorriu. — Isso é bom. — Olhou ao redor, nervoso. — Quanto eu lhe devo? — Algum segredo? — indagou Bast. O filho do padeiro pensou por um minuto. — O velho Lant está transando com a viúva Creel... — falou, esperançoso. Bast fez um gesto desdenhoso com a mão. — Há anos. Todo mundo sabe disso. — Coçou o nariz, depois falou: — Você poderia me trazer dois pães doces hoje mais tarde? Brann fez que sim com a cabeça. — É um bom começo — falou Bast. — O que você tem nos bolsos? O menino revirou os bolsos e ergueu as duas mãos. Ele tinha dois calços de ferro, uma pedra lisa e esverdeada, o crânio de um pássaro, um emaranhado de cordéis e um pedaço de giz. Bast pediu os cordéis. Então, com cuidado para não tocar nos calços, segurou a pedra esverdeada entre os dois dedos e arqueou uma das sobrancelhas para o garoto. Após um momento de hesitação, o menino acenou com a cabeça. Bast guardou a pedra no bolso. — E se eu levar a surra de vara de qualquer jeito? — perguntou Brann. Bast deu de ombros. — Isso é problema seu. Você queria uma mentira. Eu lhe dei uma boa mentira. Se você quiser que eu tire você dessa encrenca, aí é outra coisa. O filho do padeiro parecia decepcionado, mas fez que sim com a cabeça e caminhou morro abaixo. Em seguida, subindo o morro, veio um garoto um pouco mais velho em roupas de lã puídas. Um dos garotos dos Alard, Kale. Ele tinha um lábio ferido e uma casca de sangue ao redor de uma narina. Estava furioso como apenas um menino de dez anos pode ficar. Sua expressão era tempestuosa. — Eu flagrei meu irmão beijando a Gretta atrás do velho moinho! — falou assim que escalou o morro, sem esperar pela pergunta de Bast. — Ele sabe que eu gosto dela! Bast abriu as mãos, impotente, e deu de ombros. — Vingança. — O menino cuspiu. — Vingança pública? — perguntou Bast. — Ou vingança secreta? O menino tocou o lábio cortado com a língua. — Vingança secreta — respondeu em voz baixa. — Quanta vingança? — perguntou Bast. O menino pensou por um segundo, então afastou as mãos uns sessenta centímetros uma da outra. — Este tanto. — Hummmm — falou Bast. — Quanto, numa escala de camundongo a touro? O menino esfregou o nariz por um tempo. — Do tamanho de um gato — falou ele. — Do tamanho de um cachorro, talvez. Não como o cachorro do Martin Maluco. Do tamanho dos cães dos Benton. Bast assentiu e inclinou a cabeça, pensativo. — Muito bem — falou. — Faça xixi nos sapatos dele. O menino pareceu em dúvida. — Isso não é uma vingança do tamanho de um cachorro. Bast balançou a cabeça. — Você faz xixi numa caneca e esconde. Deixe descansar um ou dois dias. Então, uma noite, quando ele deixar os sapatos junto ao fogo, você derrama o xixi neles. Não deixe empoçar, basta umedecê-los. De manhã, eles estarão secos e não vão feder demais... — Pra que serve isso? — interrompeu o garoto, irritado. — Essa vingança não tem nem o tamanho de uma pulga! Bast ergueu uma mão pedindo paciência. — Quando os pés dele ficarem suados, ele vai começar a feder a xixi — falou calmamente. — Se ele pisar numa poça, vai feder a xixi. Se caminhar na neve, vai feder a xixi. Vai ser difícil descobrir de onde está vindo o mau cheiro, mas todo mundo vai saber que é o seu irmão que está fedendo. — Bast sorriu para o garoto. — Imagino que Gretta não vá querer beijar um garoto que não para de se mijar. Admiração pura espalhou-se pelo rosto do garotinho como a luz do sol nas montanhas. — Essa é a coisa mais maldosa que eu já ouvi — falou ele, cheio de espanto. Bast tentou parecer modesto, mas fracassou. — Você tem alguma coisa para mim? — Eu achei uma colmeia selvagem — falou o garoto. — Para começar, vai servir — falou Bast. — Onde? — Bem depois dos Orisson. Depois do Rio Pequeno. O garoto se agachou e desenhou um mapa na terra. — Você está vendo? Bast acenou com a cabeça. — Mais alguma coisa? — Bem... eu sei onde o Martin Maluco mantém a destilaria... Bast ergueu as sobrancelhas ao ouvir isso. — Verdade? O menino desenhou outro mapa e deu algumas indicações. Então ficou de pé, limpando a terra dos joelhos. — Tenho uma mensagem também. Rike quer ver você. Bast balançou a cabeça com firmeza. — Ele conhece as regras. Diga-lhe que não. — Eu já disse — retrucou o garoto, dando de ombros de modo comicamente exagerado. — Mas vou dizer de novo se o encontrar... Depois de Kale, não havia mais crianças à espera, por isso, Bast enfiou o livro de couro debaixo do braço e deu um longo passeio. Encontrou algumas framboesas e comeu. Tomou um gole de água do poço de Ostlar. Por fim Bast escalou até o topo de um promontório que ficava por ali, onde se esticou bastante antes de enfiar o exemplar encadernado em couro do Celum Tinture em um espinheiro no qual um galho largo formava um aconchegante recesso contra o tronco. Então ergueu o olhar para o céu, límpido e brilhante. Sem nuvens. Não havia muito vento. Cálido, mas não quente. Há bastante tempo não chovia. Não era dia de feira. Horas antes do meio-dia no dia da sega... A sobrancelha do rapaz fez um pequeno vinco, como se ele realizasse algum cálculo complexo. Anuiu para si mesmo. Depois Bast voltou ao promontório, passou pela casa do velho Lant e deu a volta nas sarças que delimitavam a fazenda de Alard. Quando chegou ao Rio Pequeno, cortou alguns juncos e preguiçosamente os aparou com uma pequena faca brilhante. Em seguida, tirou um cordel do bolso e os amarrou juntos, formando uma flauta de pã. Bast soprou pelo topo e inclinou a cabeça para ouvir a doce dissonância. A faca brilhante aparou mais alguns e ele voltou a soprar. Dessa vez o som ficou mais próximo, o que fez com que a dissonância fosse muito mais irritante. A faca de Bast se moveu de novo, uma, duas, três vezes. Então ele a pôs de lado e aproximou a flauta do rosto. Inspirou pelo nariz, sentindo seu cheiro verde. Depois lambeu os topos recém-cortados dos juncos, o movimento de sua língua mostrando um súbito, e espantoso, vermelho. Então ele inspirou e soprou a flauta. Dessa vez o som foi límpido como o luar, vivo como um peixe saltitante, delicado como uma fruta roubada. Sorrindo, Bast partiu na direção do morro dos Benton e não tardou para que escutasse o balido baixo e sem sentido das ovelhas distantes. Logo depois, o rapaz alcançou o topo de um morro e viu mais de vinte ovelhas gordas e estúpidas pastando a grama no vale verde abaixo. Aqui era sombrio e isolado. A ausência de chuva recente significava que o pastoreio seria melhor ali. As laterais íngremes do vale indicavam que as ovelhas não se afastariam, por isso não era necessário vigiar muito. Uma jovem estava sentada à sombra de um olmo que se voltava para o vale. Ela havia retirado os sapatos e a touca. Seus cabelos compridos e volumosos eram da cor do trigo maduro. Bast começou a tocar. Uma melodia perigosa. Doce e brilhante, lenta e maliciosa. A pastora se empertigou ao ouvir aquilo, ou, ao menos, pareceu fazer isso no início. Ela ergueu a cabeça, agitada... mas não. Nem olhou em sua direção. Apenas se ergueu para se espreguiçar, elevando-se, apoiada nos dedões, com as mãos se contorcendo acima da cabeça. Ainda aparentemente sem notar que faziam uma serenata para ela, a jovem pegou um cobertor próximo, esticou-o debaixo da árvore e voltou a sentar-se. Era um pouco estranho, pois ela ficara sentada ali antes sem o cobertor. Talvez tivesse apenas sentido mais frio. Bast continuou a tocar enquanto descia o declive do vale na direção da jovem. Ele não tinha pressa, e a música que tocava era doce, divertida e lânguida ao mesmo tempo. A pastora não deu sinal de notar a música ou o próprio Bast. Na verdade, ela olhava para longe dele, na direção do outro extremo do pequeno vale, como se estivesse curiosa pelo que as ovelhas poderiam estar fazendo ali. Quando virou a cabeça, expôs a adorável linha do pescoço, desde a orelha perfeita em forma de concha até o volume delicado dos seios, que apareciam acima do corpete. Olhos fixos na jovem, Bast pisou numa pedra solta e cambaleou, de modo estranho, morro abaixo. Soprou uma única nota, dura e alta, depois soltou mais algumas notas da canção enquanto estendia ferozmente um dos braços para recuperar o equilíbrio. Nesse momento, a pastora deu uma gargalhada, mas fitava, decidida, o outro extremo do vale. Talvez as ovelhas tivessem feito algo engraçado. Isso. Sem dúvida, era isso. Ovelhas podiam ser animais divertidos, às vezes. Mesmo assim, ninguém poderia olhar para ovelhas durante tanto tempo. A jovem suspirou e relaxou, voltando a se recostar no tronco inclinado da árvore. O movimento acidentalmente puxou a barra de sua saia até um pouco acima do joelho. Suas panturrilhas eram redondas e bronzeadas, cobertas com ralos pelos cor de mel. Bast continuou a olhar morro abaixo. Seus passos eram delicados e graciosos. Ele parecia um gato atrás da presa. E parecia estar dançando. Aparentemente satisfeita com o fato de as ovelhas estarem em segurança, a pastora voltou a suspirar, fechou os olhos e inclinou a cabeça sobre o tronco da árvore. Seu rosto se virou para captar o sol. Parecia que estava prestes a adormecer e, a não ser pelos suspiros, sua respiração era bastante rápida. Quando mudou de posição, inquieta, para ficar mais à vontade, uma das mãos caiu de modo a, acidentalmente, puxar ainda mais para cima a barra do vestido, até mostrar um pedaço pálido da coxa. É difícil rir enquanto se toca uma flauta de pã. De alguma maneira, Bast conseguiu. Osol se elevava no céu quando o rapaz retornou à árvore reluzente, agradavelmente suado e levemente despenteado. Dessa vez, não havia crianças à sua espera perto das pedras cinzentas, o que lhe convinha. De novo ele traçou um rápido círculo na árvore quando chegou ao topo do morro, uma vez em cada direção, para garantir que seus pequenos trabalhos ainda estivessem no lugar. Então desabou ao pé da árvore e se apoiou em seu tronco. Menos de um minuto depois, seus olhos estavam fechados e ele roncava baixinho. Depois de mais de meia hora, o som quase silencioso de passos despertou o rapaz. Ele se esticou com vontade e avistou um garoto magro, sardento, com roupas que haviam passado um pouco do ponto em que simplesmente seriam chamadas de puídas. — Kostrel! — cumprimentou Bast, animado. — Como está a estrada para Tinuë? — Parece suficientemente ensolarada para mim hoje — retrucou o garoto enquanto chegava ao topo do morro. — E descobri um adorável segredo ao lado da estrada. Algo que achei que talvez lhe interessasse. — Ah! Então venha sentar-se aqui — falou Bast. — Com que tipo de segredo você se deparou? Com as pernas cruzadas, Kostrel sentou na grama ao lado do rapaz. — Eu sei onde Emberlee toma banho. Bast ergueu uma sobrancelha meio desdenhosa. — Sério? Kostrel deu um sorriso. — Seu falso. Não finja que você não se importa. — Claro que me importo — falou Bast. — Afinal de contas, ela é a sexta garota mais bonita da cidade. — Sexta? — repetiu o garoto, indignado. — Ela é a segunda e você sabe disso. — Talvez a quarta — concedeu Bast. — Depois de Ania. — As pernas de Ania são finas como as de uma galinha — observou Kostrel calmamente. Bast sorriu para o garoto. — Gosto não se discute. Mas, sim. Estou interessado. Do que é que você gostaria em troca? Uma resposta, um favor, um segredo? — Eu quero um favor e uma informação — falou o garoto com um sorrisinho. Os olhos escuros eram vivos no rosto fino. — Quero boas respostas para três perguntas. E isso vale a pena. Porque Emberlee é a terceira garota mais bonita na cidade. Bast abriu a boca como se fosse protestar; em seguida, deu de ombros e sorriu. — Sem favor. Mas vou lhe dar três respostas para um assunto combinado previamente — retrucou ele. — Qualquer assunto, desde que não seja relacionado com meu patrão, cuja confiança eu não posso, em sã consciência, trair. Kostrel concordou com a cabeça. — Três respostas completas — falou ele. — Sem embromação ou mentiras. Bast assentiu. — Desde que as perguntas sejam objetivas e específicas. Sem bobagens do tipo: Me diga tudo o que você sabe sobre... — Isso não seria uma pergunta — comentou Kostrel. — Exatamente — falou Bast. — E você concorda em não dizer a mais ninguém onde Emberlee toma seu banho? — Kostrel fez uma careta ao ouvir isso, e Bast deu uma risada. — Seu espertinho, você teria vendido isso vinte vezes, não teria? O garoto deu de ombros, sem negar e também sem ficar constrangido. — É uma informação valiosa. Bast deu uma risadinha. — Três respostas sérias e completas sobre um único assunto, com a certeza de que eu sou o único a quem você contou. — Você é — falou o garoto sombriamente. — Eu vim aqui primeiro. — E com a certeza de que você não vai contar a Emberlee que alguém sabe. — Kostrel pareceu tão ofendido ao ouvir isso que Bast nem se importou em esperar que ele concordasse. — E com a certeza de que você não vai aparecer também. O garoto de olhos escuros cuspiu algumas palavras que surpreenderam Bast mais do que o uso anterior de “embromação”. — Ótimo — resmungou Kostrel. — Mas, se você não souber a resposta à minha pergunta, tenho o direito de fazer outra. Bast pensou por um momento e concordou. — E, se eu escolher um assunto sobre o qual você não sabe muita coisa, tenho o direito de escolher outro. Outro aceno de cabeça. — Isso é justo. — E você me empresta outro livro — falou o garoto, seus olhos brilhando intensamente. — E uma moeda de cobre. E tem que descrever os peitos dela para mim. Bast jogou a cabeça para trás e deu uma risada. — Feito. Eles apertaram-se as mãos para selar o acordo; a mão magra do garoto era tão delicada quanto a asa de um pássaro. Bast se inclinou contra a árvore, bocejou e esfregou a parte de trás do pescoço. — Então, qual é o assunto? A expressão sombria de Kostrel se animou um pouco e ele sorriu, agitado. — Quero saber sobre os encantados. O fato de Bast terminar o grande bocejo como se nada importasse era significativo. É difícil bocejar e se esticar quando sua barriga dói como se você tivesse engolido um pedaço de ferro amargo e sua boca de repente ficasse seca. Mas Bast era um fingidor profissional, por isso bocejou e se esticou, e foi capaz até de se coçar preguiçosamente debaixo do braço. — E então? — O garoto perguntou impaciente. — Você sabe o suficiente sobre isso? — Um bocado — respondeu Bast, e dessa vez ele foi muito bem-sucedido em parecer modesto. — Mais do que o seu pessoal, imagino. Kostrel se inclinou para a frente, com o rosto fino decidido. — Achei que poderia saber. Você não é daqui. Sabe coisas. Viu o que tem realmente lá fora, no mundo. — Um pouco — admitiu Bast e ergueu o olhar para o sol. — Faça suas perguntas então. Tenho que estar em outro lugar assim que der meio-dia. O garoto assentiu, sério. Depois, por um momento, baixou os olhos para a grama diante dele, pensando. — Como é que eles são? Bast piscou por um momento, confuso. Depois ele não conseguiu evitar rir e ergueu as mãos para o alto. — Tehlu misericordioso. Você tem alguma ideia da loucura que é perguntar isso? Eles não são como qualquer outra criatura. São como são. Kostrel parecia indignado. — Não tente me enganar! — falou, apontando um dedo para Bast. — Eu disse sem embromação! — Não estou enganando. Sério. Não estou. — Bast ergueu as mãos, na defensiva. — É que simplesmente é uma pergunta impossível de responder. O que você diria se eu lhe perguntasse como é o seu povo? Como você poderia responder isso? Há tantos tipos de pessoas e todos são diferentes. — Então é uma pergunta grandiosa — falou Kostrel. — Me dê uma resposta grandiosa. — Não é apenas grandiosa— retrucou Bast. — Ela encheria um livro. O outro garoto encolheu os ombros, bem pouco solidário. Bast fez uma careta. — Eu poderia argumentar que sua pergunta não é nem objetiva nem específica. Kostrel ergueu uma sobrancelha. — Então estamos discutindo agora? Achei que estávamos trocando informações. Completas e livres? Se você me perguntasse onde a Emberlee ia tomar banho e eu dissesse “Num regato”, você se sentiria como se eu tivesse pouca consideração por você, não é? Bast suspirou. — É justo. Mas, se eu lhe contasse cada boato e pedaço de história que já ouvi, isso levaria dias. A maior parte seria inútil e algumas coisas provavelmente nem seriam verdade porque são apenas histórias que ouvi. Kostrel franziu a testa, mas, antes que pudesse protestar, Bast ergueu uma das mãos. — Eis o que eu vou fazer: apesar da natureza pouco objetiva da sua pergunta, vou lhe dar uma resposta que engloba o formato geral das coisas e... — Bast hesitou — ...um segredo de verdade sobre o assunto. Está bem assim? — Dois segredos — falou Kostrel, os olhos escuros brilhando, agitados. — Parece justo. — Bast respirou fundo. — Quando você diz “encantados”, se refere a qualquer criatura que vive no reino das fadas. Isso inclui um monte de coisas que são... apenas criaturas. Como os animais. Aqui vocês têm cães, esquilos e ursos. No reino das fadas, temos demônios raum, gnomos-de-dênera e... — E duendes? Bast acenou com a cabeça. — E duendes. Eles são reais. — E dragões? Bast balançou a cabeça. — Não que eu já tenha ouvido falar. Não mais... Kostrel pareceu decepcionado. — E quanto aos outros? Os latoeiros feéricos e coisas assim? — O garoto estreitou os olhos. — Sabe, essa não é uma nova pergunta, é apenas uma tentativa de tornar parte da sua resposta objetiva. Bast não conseguiu controlar o riso. — Pelo senhor e pela senhora. Parte? Sua mãe se assustou com um juiz quando estava grávida? Onde você ouve esse tipo de conversa? — Eu fico acordado na igreja. — Kostrel deu de ombros. — E, algumas vezes, o abade Leoden me deixa ler os livros dele. Com que eles se parecem? — Com pessoas normais — respondeu Bast. — Feito você e eu? — indagou o garoto. Bast disfarçou um sorriso. — Feito você ou eu. Você mal notaria se eles passassem por você na rua. Mas há outros. Alguns deles são... diferentes. Mais poderosos. — Como os Varsa-que-nunca-morrem? — Alguns — concedeu Bast. — Mas são mais poderosos, de outras formas. Como o prefeito é mais poderoso. Ou como um usurário. — A expressão de Bast ficou amarga. Não é bom ficar perto... de muitos deles. Gostam de enganar as pessoas. Brincar com elas. Magoá- las. Parte da agitação de Kostrel se foi ao ouvir isso. — Eles parecem demônios. Bast hesitou, em seguida acenou com a cabeça em relutante concordância. — Alguns são muito parecidos com demônios — admitiu. — Ou tão parecidos que não faz diferença. — Alguns deles são anjos também? — perguntou o garoto. — É bom pensar assim — retrucou Bast. — Espero que sim. — De onde eles vêm? Bast inclinou a cabeça. — Essa é a sua segunda pergunta? — indagou. — Imagino que deva ser, pois não tem nada a ver com a aparência deles... Kostrel deu um sorriso e pareceu um pouco constrangido, embora Bast não soubesse dizer se estava envergonhado por ter se empolgado com as perguntas ou por ter sido flagrado tentando obter uma resposta gratuita. — Desculpe — falou ele. — É verdade que uma fada não pode mentir? — Algumas não podem — falou Bast. — Algumas não gostam. Algumas mentem alegremente, mas nunca quebram uma promessa nem retiram o que dizem. — Ele deu de ombros. — Outras mentem muito bem e fazem isso sempre que podem. Kostrel começou a fazer outra pergunta, mas Bast limpou a garganta. — Você tem que admitir — falou. — Essa é uma ótima resposta. Eu até lhe dei algumas perguntas gratuitas para ajudá-lo a se concentrar nas coisas, por assim dizer. Sombrio, Kostrel acenou a cabeça levemente. — Eis o seu primeiro segredo. — Bast esticou um dedo. — A maior parte deles não vem a este mundo. Não gostam dele. Ele arranha sua pele, como se vestissem aniagem. Mas, quando vêm, gostam de uns lugares mais do que outros. Gostam de lugares selvagens. Lugares secretos. Lugares estranhos. Há muitos tipos de fadas, muitas cortes e casas. E todos eles são governados segundo os próprios desejos. Bast prosseguiu num tom baixinho de conspiração: — Mas algo que agrada a todas as fadas são os locais com conexões para as coisas puras e verdadeiras que modelam o mundo. Locais tocados por fogo e pedras. Locais próximos à água e ao ar. Quando todos os quatro se encontram... Bast fez uma pausa para ver se o garoto ia acrescentar alguma coisa. Mas o rosto de Kostrel perdera a vivacidade aguda que tinha antes. Ele parecia novamente uma criança, com a boca entreaberta e os olhos arregalados de admiração. — Segundo segredo — falou Bast. — O povo feérico parece muito com a gente, mas não exatamente. A maioria tem alguma coisa que os torna diferentes. Os olhos. As orelhas. A cor do cabelo ou da pele. Algumas vezes, eles são mais altos do que o normal, ou mais baixos, mais fortes, ou mais bonitos. — Como Feluriana. — Isso. Isso — falou Bast com impaciência. — Como Feluriana. Mas qualquer fada que tenha a capacidade de viajar até aqui terá habilidade suficiente para disfarçar essas coisas. — Ele se reclinou, acenando com a cabeça para si mesmo. — É um tipo de magia da qual todo o povo fada compartilha. Bast lançou esse comentário final como um pescador que joga uma isca. Kostrel fechou a boca e engoliu em seco. Ele não lutou contra a linha. Nem soube que fora pego. — Que tipo de magia eles sabem fazer? Bast revirou os olhos dramaticamente. — Ora, ora, essa pergunta vale outro livro inteiro. — Bem, talvez você devesse escrever um livro então — falou Kostrel sem rodeios. — Aí vai poder me emprestar e matar dois coelhos com uma cajadada só. O comentário pareceu ter pego Bast de surpresa. — Escrever um livro? — É o que fazem os sabe-tudo, não é? — retrucou Kostrel com sarcasmo. — Escrevem para poder se exibir. Bast ficou pensativo por um momento, depois balançou a cabeça como se quisesse esvaziá-la. — Muito bem. Eis o que eu sei. Eles nunca pensam nisso como magia. Nunca usam o termo. Falam de arte ou habilidade. Falam de aparência ou forma. Ergueu os olhos para o sol e deu um muxoxo. — Mas se eles fossem francos, e raramente são, veja você, diriam que praticamente tudo o que fazem é encantamento ou convencimento. Encantamento é a arte de fazer algo parecer. Convencimento é a habilidade de fazer algo ser. Bast se adiantou antes que o garoto pudesse interrompê-lo: — Encantamento é mais fácil. Eles podem fazer uma coisa parecer outra coisa. Poderiam fazer uma camisa branca parecer azul. Ou uma camisa rasgada parecer inteira. A maioria das fadas tem, ao menos, um pouco dessa arte. O suficiente para se disfarçarem aos olhos dos mortais. Se seu cabelo for totalmente branco e prateado, seu encantamento poderia fazê-lo parecer preto como a noite. O rosto de Kostrel ainda estava perdido em admiração. Mas não era a admiração estúpida, profunda de antes. Era uma admiração reflexiva. Uma admiração inteligente, curiosa e faminta. Era o tipo de admiração que conduziria um garoto à pergunta que começava com um como. Bast podia ver a forma dessas coisas se movendo nos olhos escuros do garoto. Seus malditos olhos inteligentes. Inteligentes demais para o próprio bem. Em breve essas admirações vagas começariam a se cristalizar em perguntas do tipo: “Como é que eles fazem seu encantamento?” ou, pior, “Como é que um garoto poderia rompê-lo?” E o que dizer então, com uma pergunta como essas pairando no ar? Nada de bom resultaria disso. Quebrar uma promessa feita e mentir pura e simplesmente eram o oposto de seu desejo. Era até pior fazer isso nesse lugar. Muito mais fácil dizer a verdade e então ter certeza de que algo aconteceria ao garoto... Mas, sinceramente, gostava dele. Kostrel não era entediante nem simplório. Não era mesquinho nem baixo. Ele recuou. O garoto era engraçado e sombrio, faminto e mais vivo que quaisquer outras três pessoas na cidade juntas. Ele era brilhante como um vidro quebrado e agudo o suficiente para se cortar. E a Bast também, ao que parecia. Esfregou o rosto. Isso não costumava acontecer. Ele nunca tinha ficado em conflito com o próprio desejo antes de chegar ali. Bast odiava isso. Era tão simplesmente unívoco antes. Querer e ter. Ver e pegar. Correr e perseguir. Sede e saciedade. E se ele fosse frustrado na busca de seu desejo... o que aconteceria? Era assim que as coisas eram. O desejo em si ainda era dele, ainda era puro. Não era assim agora. Seus desejos se complicaram. Estavam constantemente em conflito. Ele se sentia infinitamente jogado contra si mesmo. Nada mais era simples, ele era forçado de tantas maneiras... — Bast? — chamou Kostrel, com a cabeça inclinada para o lado e a preocupação evidente em seu rosto. — Você está bem? — perguntou ele. — Qual é o problema? Bast deu um sorriso sincero. O garoto era curioso. Claro. Esse era o caminho. Essa era a estrada estreita entre um desejo e outro. — Estava apenas pensando. Convencimento é muito mais difícil de explicar. Não posso dizer que eu mesmo entenda muito bem. — Apenas faça o seu melhor — falou Kostrel em solidariedade. — Não importa o que você me disser, vai ser mais do que eu sei. Não. Ele não poderia matar esse garoto. Seria difícil demais. — Convencimento serve para mudar uma coisa — falou Bast, com um gesto inarticulado. —, tornar algo diferente do que é. — Como fazer o cobre virar ouro? — indagou Kostrel. — É assim que eles fazem ouro de fadas? Bast fez questão de sorrir ao ouvir a pergunta. — Boa pergunta, mas isso é encantamento. É fácil, mas não dura muito tempo. Por isso as pessoas que pegam o ouro de fadas acabam com os bolsos cheios de pedras ou bolotas de manhã. — Será que poderiam transformar cascalho em ouro? — perguntou Kostrel. — Se quisessem de verdade? — Não é esse tipo de mudança — explicou Bast, ainda sorrindo e meneando a cabeça após ouvir a pergunta. — Isso é grande demais. Convencimento é sobre... mudança. É fazer uma coisa ser mais do que ela já é. O rosto de Kostrel se contorceu, confuso. Bast respirou fundo e soltou o ar pelo nariz. — Me deixe tentar outra coisa. O que você tem nos bolsos? Kostrel remexeu nos bolsos e estendeu as mãos. Havia um botão de latão, um pedaço de papel, um pedaço de lápis, uma pequena faca dobrável... e uma pedra com um buraco. Claro. Bast lentamente percorreu com a mão a coleção de quinquilharias, finalmente parando acima da faca. Não era fina ou bonita, apenas um pedaço de madeira lisa, do tamanho de um dedo, com uma ranhura onde uma lâmina pequena, articulada, fora colocada. Bast pegou-a delicadamente entre dois dedos e ajeitou-a no chão entre os dois. — O que é isso? Kostrel enfiou o restante de seus pertences no bolso. — É a minha faca. — É isso que ela é? — perguntou Bast. Os olhos do garoto se estreitaram com desconfiança. — O que mais poderia ser? Bast tirou a própria faca. Era um pouco mais larga e, em vez de madeira, era entalhada num pedaço de chifre, polido e bonito. Bast abriu a faca e a lâmina reluzente brilhou ao sol. Ele depositou a faca ao lado da do garoto. — Você trocaria a sua faca pela minha? Kostrel fitou o objeto com inveja. Mas, mesmo assim, não houve vestígio de hesitação antes que ele balançasse a cabeça em negativa — Por que não? — Porque é minha — respondeu o garoto, com a face obscurecida. — A minha é melhor — falou Bast objetivamente. Kostrel esticou a mão e pegou a faca, envolvendo-a com a mão possessivamente. Seu rosto estava sombrio como uma tempestade. — Meu pai me deu isto — falou. — Antes de pegar a moeda do rei, virar soldado e nos salvar dos rebeldes. — Ele ergueu o olhar para Bast, como se o desafiasse a dizer uma palavra em contrário. Bast não desviou os olhos dele, apenas acenou com a cabeça, sério. — Então é mais do que uma faca — retrucou. — É especial para você. Kostrel ainda apertava a faca ao acenar com a cabeça, piscando rapidamente. — Para você, é a melhor faca. Outro aceno de cabeça. — Ela é mais importante que outras facas. E isso não é apenas uma aparência — falou Bast. — É algo que a faca é. Houve um lampejo de compreensão nos olhos de Kostrel. Bast acenou com a cabeça. — Isso é convencimento. Agora imagine se alguém pudesse pegar uma faca e fazer com que fosse mais do que uma faca é. Transformá-la na melhor faca. Não apenas para si mesmo, mas para qualquer um. — Bast pegou a própria faca e fechou-a. — Se a pessoa for hábil mesmo, pode fazer isso com outra coisa, além da faca. Poderia fazer uma fogueira que fosse mais do que uma fogueira é. Mais faminta. Mais quente. Poderia pegar uma sombra... — Ele se interrompeu delicadamente, abrindo espaço no ar vazio. Kostrel respirou fundo e se apressou para encher o ar com uma pergunta. — Como Feluriana! — falou. — Foi isso que ela fez com a capa de sombra de Kvothe? Bast concordo com a cabeça, sério, e ficou feliz com aquela pergunta, odiando que tivesse que ser aquela pergunta. — Eu acho provável. O que uma sombra faz? Ela oculta, protege. A capa de sombra de Kvothe faz a mesma coisa, mas faz mais. Kostrel anuía entendendo, e Bast prosseguiu depressa, ansioso por deixar para trás esse assunto em particular. — Pense na própria Feluriana... O garoto sorriu, e parecia não ter dificuldade em fazer isso. — Uma mulher pode ser uma criatura bela — falou Bast lentamente. — Ela pode ser o foco do desejo. Feluriana é isso. Como a faca. A mais bela. O foco do maior desejo. Para todos... — Bast deixou que sua frase morresse delicadamente de novo. Os olhos de Kostrel estavam muito distantes, obviamente deliberando sobre o assunto. Bast deu-lhe tempo para isso e, após um instante, outra pergunta brotou do garoto. — Não poderia ser simplesmente encantamento? — quis saber ele. — Ah — falou Bast, sorrindo. — Mas qual é a diferença entre ser bela e parecer bela? — Ora... — Kostrel parou por um instante, depois se recompôs. — Uma é real e a outra não é. — Ele soou seguro, mas isso não se refletia em sua expressão. — Uma seria falsa. Você poderia ver a diferença, não poderia? Bast deixou a pergunta no ar. Estava próxima, mas não muito. — Qual é a diferença entre uma camisa que parece branca e uma camisa que é branca? — retrucou. — Uma mulher não é a mesma coisa que uma camisa — falou Kostrel com imenso desprezo. — Você saberia se tocasse nela. Se ela parecesse macia e rosada como a Emberlee, mas o cabelo fosse como a cauda de um cavalo, você saberia que não era real. — Encantamento não é apenas para olhos tolos — explicou Bast. — É para tudo. O ouro de fadas parece pesado. E um porco encantado teria o mesmo cheiro das rosas quando você o beijasse. Kostrel se desestabilizou ao ouvir isso. A mudança de Emberlee para um porco encantado o fez sentir-se mais do que apenas ligeiramente horrorizado. Bast aguardou um momento para que ele se recuperasse. — Não seria muito difícil encantar um porco? — perguntou ele afinal. — Você é inteligente — falou Bast, encorajador. — Você tem toda a razão. E encantar uma garota bonita para que seja mais bonita não daria trabalho algum. É como pôr glacê num bolo. Kostrel esfregou a bochecha, pensativo. — Você pode usar encantamento e convencimento ao mesmo tempo? Bast ficou genuinamente impressionado dessa vez. — Foi isso que eu ouvi. Kostrel assentiu para si mesmo. — É isso que Feluriana deve fazer — falou. — Como creme no glacê do bolo. — Acho que sim — falou Bast. — A fada que eu encontrei... — Parou abruptamente; a boca se fechando sem perda de tempo. — Você conheceu algum deles? Bast sorriu como uma armadilha para urso. — Sim. Dessa vez, Kostrel sentiu o anzol e a linha ao mesmo tempo. Mas era tarde demais. — Seu filho da mãe! — Eu sou — admitiu Bast animadamente. — Você me fez perguntar isso. — Eu fiz — falou Bast. — Era uma pergunta relacionada ao assunto e eu dei uma resposta completa sem ambiguidade. Kostrel ficou de pé e partiu irritado, mas voltou um instante depois. — Me dê uma moeda — exigiu. Bast enfiou a mão no bolso e tirou uma moeda de cobre. — Onde a Emberlee toma banho? Kostrel o encarou com expressão furiosa, depois falou: — Bem depois da Velha Ponte de Pedra, na direção dos morros por quase um quilômetro. Tem um pequeno vale com um olmo. — E quando? — Depois do almoço na fazenda Boggan. Depois que ela termina de lavar e pendurar a roupa. Bast jogou a moeda para ele, ainda sorrindo feito louco. — Espero que o seu pau caia — falou o garoto maliciosamente antes de sair batendo os pés morro abaixo. Bast não conseguiu deixar de rir. Tentou fazer isso em silêncio para poupar os sentimentos do garoto, mas não teve muito sucesso. Kostrel se virou no sopé do morro e gritou: — E você ainda me deve um livro! Bast parou de rir nesse momento quando alguma coisa disparou em sua memória. Entrou em pânico por um segundo ao perceber que o Celum Tinture não estava no lugar de sempre. Depois recordou-se de ter deixado o livro na árvore no topo do morro e relaxou. O céu límpido não mostrava sinal de chuva. Era seguro o suficiente. Além disso, era praticamente meio-dia, talvez um pouco mais. Por isso, deu meia-volta e se apressou morro abaixo, sem querer chegar atrasado. Bast correu pela maior parte do caminho até o pequeno vale arborizado e quando chegou estava suando feito um cavalo. A camisa colava nele de modo desagradável, por isso, enquanto descia a margem íngreme até a água, ele a tirou e usou para secar o suor do rosto. Uma saliência rochosa, comprida e plana se estendia até o Rio Pequeno naquele local, formando um dos lados de uma piscina tranquila, onde o riacho se dobrava sobre si mesmo. Uma fileira de salgueiros pendia sobre a água, tornando o lugar privado e sombrio. A praia estava coberta com arbustos grossos e a água era lisa, calma e límpida. Com o peito nu, Bast caminhou até a saliência íngreme. Vestido, o rosto e as mãos faziam com que ele parecesse magro, mas sem camisa seus ombros largos eram surpreendentes, mais do tipo que você poderia esperar ver num trabalhador rural, em vez de em um preguiçoso que fazia pouco mais do que perambular por uma hospedaria vazia o dia inteiro. Assim que saiu da sombra dos salgueiros, Bast se ajoelhou e mergulhou a camisa na água. Então torceu-a por cima da cabeça, estremecendo um pouco por causa do frio. Esfregou o peito e os braços com força, sacudindo gotas de água do rosto. Pôs a camisa de lado, segurou a borda de pedra na beirada do lago, então respirou fundo e abaixou a cabeça. O movimento fez os músculos ao longo das costas e dos ombros se contraírem. Um instante depois retirou a cabeça, arfando levemente e sacudindo a água do cabelo. Então Bast ficou parado ali, alisando o cabelo com ambas as mãos. A água escorria pelo peito, criando trilhas nos pelos escuros e descendo pela barriga reta. Ele se sacudiu um pouco, depois foi até um nicho escuro feito por uma beirada irregular da rocha que assomava mais acima. Tateou por um momento antes de retirar um pedaço de sabão cor de manteiga. Bast se ajoelhou de novo na beira da água, mergulhando a camisa algumas vezes, depois esfregou-a com sabão. Isso levou algum tempo, pois ele não tinha tábua de lavar, e obviamente não queria esfregar a camisa nas rochas ásperas. Ensaboou e enxaguou a camisa algumas vezes, torcendo-a com as mãos e deixando os músculos dos braços e dos ombros tensos e doloridos. Ele foi cuidadoso, embora ao terminar estivesse completamente encharcado e salpicado de espuma. Bast estendeu a camisa numa pedra ensolarada para secar. E começou a tirar a calça, depois parou e inclinou a cabeça para um lado, tentando tirar a água do ouvido. Talvez tenha sido por causa da água no ouvido que Bast não escutou o chilreio agitado que vinha dos arbustos que cresciam ao longo da praia. Um som que poderia compreensivelmente ser de pardais tagarelando entre os galhos. Um bando de pardais. Alguns bandos, talvez. E se Bast também não tivesse visto os arbustos se moverem? Ou notado que, entre a folhagem que pendia dos galhos de salgueiro, havia cores que normalmente não eram encontradas em árvores? Algumas vezes, rosa-claro; outras, vermelho. Algumas vezes, um amarelo malvisto ou um azul de centáurea. E embora fosse verdade que os vestidos pudessem vir naquelas cores... bem... os pássaros também. Tentilhões e gaios. E, além disso, era quase do conhecimento comum entre as jovens da cidade que o rapaz moreno que trabalhava na hospedaria era terrivelmente míope. Os pardais chilrearam nos arbustos enquanto Bast voltava a puxar o cordão da calça. O nó aparentemente estava lhe dando algum trabalho. Durante um tempo, Bast remexeu nele, então ficou frustrado e se espreguiçou como um gato, com os braços se arqueando acima da cabeça e o corpo curvando-se como um arco. Finalmente conseguiu afrouxar o nó e se livrou da calça. Não vestia nada por baixo. Ele a deixou de lado e do salgueiro partiu um tipo de grasnido que poderia ter vindo de uma ave maior. Uma garça-real, talvez. Ou um corvo. E se um galho balançasse violentamente ao mesmo tempo, bem, talvez um pássaro tivesse se inclinado e quase caído. Parecia razoável afirmar que alguns pássaros eram mais desajeitados do que outros. Além disso, nesse momento Bast estava olhando em outra direção. O rapaz mergulhou então, respingando água como um menino e perdendo o fôlego por causa do frio. Após alguns minutos, deslocou-se até uma parte mais rasa da piscina, onde a água se elevava até quase alcançar sua cintura estreita. Debaixo d’água, um observador cuidadoso poderia notar que as pernas do jovem eram um pouco... estranhas. Mas havia sombra e todos sabem que a água reflete a luz de modo estranho, fazendo com que as coisas pareçam diferentes do que são. Além disso, os pássaros não são os observadores mais atentos, muito menos quando sua atenção se concentra em outra parte. Mais ou menos uma hora depois, ligeiramente molhado e cheirando a sabonete de madressilva, Bast escalou o morro até onde tinha certeza de que deixara o livro do mestre. Era o terceiro morro que ele escalava na última meia hora. Quando chegou ao topo, Bast relaxou ao ver o espinheiro. Aproximando-se, viu que era a árvore correta; o vale se situava à direita, tal como ele se recordava. Mas o livro sumira. Ao circundar a árvore, viu que ele não tinha caído no solo. Então o vento se agitou e Bast viu uma coisa branca. Sentiu um súbito calafrio, temendo que fosse uma página arrancada do livro. Poucas coisas irritavam mais o mestre do que um livro malcuidado. Mas não. Esticando a mão para pegar a coisa branca, Bast não tocou em papel. Era um fragmento liso de tronco de bétula. Ele o pegou e viu as letras rudemente entalhadas na lateral: TENHO QUE CONVERSÁ COCÊ. É IMPROTANTE. RIKE

 Tarde: Pássaros e abelhas 

Sem ter ideia de onde poderia encontrar Rike, Bast retornou até a árvore reluzente. Ele tinha acabado de se sentar no lugar de sempre quando uma garotinha apareceu na clareira. Ela não parou na pedra cinzenta e, em vez disso, subiu com dificuldade o morro. Era mais nova do que os outros, seis ou sete anos. Vestia um vestido azul-escuro e fitas de um violeta escuro se contorciam pelo cabelo cuidadosamente cacheado. Ela nunca tinha ido à árvore antes, mas Bast já a vira. Mesmo que não tivesse visto, ele poderia adivinhar pelas roupas finas e o cheiro de água de rosas que era Viette, a filha mais nova do prefeito. A menina subiu lentamente a colina, trazendo alguma coisa peluda no braço. Quando chegou ao topo do morro, parou, nervosa, mas ainda à espera. Bast a fitou em silêncio por um momento. — Você conhece as regras? — perguntou ele. Ela ficou parada, com as fitas violeta no cabelo. Obviamente estava um pouco assustada, mas o lábio inferior se projetou, desafiador. Acenou com a cabeça. A garotinha lambeu os lábios e começou a recitar com voz monótona: — Ninguém mais alto que a pedra. — Ela apontou para a pedra cinzenta no sopé do morro. — Vá até a árvore escura. Vá sozinha. E pôs o dedo sobre os lábios, imitando alguém pedindo silêncio. — Não diga... — Espere aí — interrompeu Bast. — Você diz as duas últimas regras tocando na árvore. A garotinha empalideceu um pouco ao ouvir isso, mas deu um passo à frente e pôs a mão contra a madeira descolorida pelo sol da árvore há muito morta. Viette pigarreou mais uma vez, então fez uma pausa e os lábios se moveram em silêncio enquanto ela percorria o início do poema até reencontrar a sua deixa: — Não diga aos adultos o que foi conversado, caso contrário, o raio atinge e mata você. Quando a menina pronunciou a última palavra, engasgou e puxou a mão de volta, como se algo tivesse queimado ou mordido seus dedos. Os olhos se arregalaram quando ela olhou para as pontas dos dedos e viu que tinham um rosado saudável e intocado. Bast disfarçou um sorriso atrás da mão. — Muito bem então — falou. — Você conhece as regras. Eu guardo seus segredos e você guarda os meus. Posso responder perguntas ou ajudar você a resolver um problema. — Ele sentou-se mais uma vez, com as costas na árvore, para ficar na altura dos olhos da garota. — O que você quer? Viette estendeu a minúscula bolinha de pelos brancos que trazia nos braços. A bolinha miou. — Ele é um gatinho mágico? — perguntou ela. Bast segurou o gatinho em sua mão e examinou. Era uma coisinha sonolenta, quase que toda branca. Um olho era azul, o outro, verde. — Na verdade, é — falou, surpreso. — Pelo menos, um pouco. — E o devolveu. Ela acenou com a cabeça, séria. — Eu quero chamar de Princesa Bolinho com Glacê. Bast simplesmente a encarou, surpreso. — Está bem. A garotinha olhou para ele de cara feia. — Eu não sei se é menina ou menino! — Ah — falou Bast. Esticou a mão, pegou o gatinho, acariciou-o e o devolveu. — É uma menina. A filha do prefeito estreitou os olhos ao ouvir isso. — Você está mentindo? Bast piscou para a garota, depois deu uma risada. — Por que você acreditaria em mim da primeira vez, mas não da segunda? — perguntou ele. — Dava para ver que era um gatinho mágico — falou Viette, revirando os olhos, exasperada. — Só queria ter certeza. Mas o gatinho não está usando vestido. Não tem fitas nem laços. Como você pode saber que é uma menina? Bast abriu a boca e fechou-a de novo. Ela não era a filha de um fazendeiro. Viette tinha uma governanta e um armário cheio de roupas. Não passava o tempo com ovelhas, porcos e cabras. Nunca vira um cordeiro nascer. Tinha uma irmã mais velha, mas não tinha irmãos... Ele hesitou; preferia não mentir. Não ali. Mas ele não tinha prometido responder à pergunta, não tinha feito nenhum tipo de acordo com ela. Isso deixava as coisas mais fáceis. Um bocado mais fáceis do que ter um prefeito irritado vindo à Marco do Percurso e querendo saber por que a filha subitamente aprendera a palavra “pênis”. — Eu faço cosquinha na barriga do gatinho — respondeu Bast com facilidade. — E, se ele pisca pra mim, sei que é uma menina. Viette ficou satisfeita com a explicação e acenou a cabeça com gravidade. — Como posso fazer o meu pai me deixar ficar com ele? — Você já pediu para ele com educação? Ela fez que sim com a cabeça. — Papai odeia gatos. — Implorou e chorou? Sim com a cabeça. — Gritou e bateu os pés? Ela revirou os olhos e deu um suspiro exasperado. — Eu tentei tudo isso ou não estaria aqui. Bast pensou por um momento. — Muito bem. Primeiro, você tem que pegar um pouco de comida para alguns dias. Biscoitos. Salsichas. Maçãs. Esconda isso no seu quarto num lugar onde ninguém encontre. Nem a sua governanta. Nem mesmo a criada. Você tem um lugar assim? A garotinha concordou com a cabeça. — Então vá e pergunte ao seu pai mais uma vez. Seja gentil e educada. Se ele disser não, não fique zangada. Simplesmente lhe diga que você ama o gatinho. Diga que, se não pode ficar com ele, tem medo de ficar muito triste e morrer. — Ele ainda vai dizer que não — falou a garotinha. Bast deu de ombros. — Provavelmente. A segunda parte é a seguinte: hoje à noite, brinque com a comida. Não coma. Nem mesmo a sobremesa. — A garotinha começou a dizer algo, mas Bast ergueu uma das mãos. — Se alguém perguntar, diga apenas que não está com fome. Não mencione o gatinho. Quando você estiver sozinha no seu quarto à noite, coma um pouco da comida que escondeu. A garotinha parecia pensativa. Bast continuou: — Amanhã, não levante da cama. Diga que está cansada demais. Não tome o café da manhã. Não coma o seu almoço. Você pode beber um pouco de água, mas só goles. Apenas fique deitada na cama. Quando eles perguntarem qual é o problema... Ela se animou. — Digo que quero meu gatinho! Bast balançou a cabeça, com expressão sombria. — Não. Isso vai estragar tudo. Apenas diga que está cansada. Se eles deixarem você sozinha, pode comer, mas tem que ter cuidado. Se a pegarem, você nunca vai ter o gatinho. A garotinha estava ouvindo com atenção agora, com as sobrancelhas franzidas de concentração. — Na hora do jantar, eles vão estar preocupados. E vão oferecer mais comida. As suas favoritas. Continue dizendo que não está com fome. Que só está cansada. Apenas fique deitada no quarto. Não fale. Faça isso o dia inteiro. — Será que eu posso fazer xixi? Bast assentiu. — Mas lembre-se de agir como se estivesse cansada. Nada de brincadeiras. No dia seguinte, eles estarão apavorados. Vão chamar um médico. Vão tentar fazer você tomar um caldo. Vão tentar de tudo. Em algum momento, seu pai vai estar lá e perguntará qual é o problema. Bast sorriu para ela. — É aí que você começa a chorar. Nada de gritos. Nada de soluços. Apenas lágrimas. Só fique deitada e chore. Então você diz que sente muita falta do gatinho. Sente tanta falta dele que não quer mais viver. A garotinha pensou por um momento, acariciando o gatinho, distraída, com uma das mãos. Finalmente, concordou com a cabeça e disse: — Está bem. — E se virou para ir embora. — Espere aí! — falou Bast rapidamente. — Eu lhe dei o que você queria. Agora você está me devendo. A garotinha deu meia-volta, e sua expressão era uma mistura curiosa de surpresa e constrangimento embaraçado. — Eu não trouxe dinheiro — falou ela, sem fitá-lo nos olhos. — Nada de dinheiro — retrucou Bast. — Eu lhe dei duas respostas e um meio de ficar com o gatinho. Você me deve três coisas e paga com presentes e favores. Paga com segredos... Ela pensou por um momento. — O papai esconde a chave do cofre-forte dentro do relógio sobre a cornija da lareira. Bast acenou com a cabeça em aprovação. — Esse foi um. A garotinha ergueu os olhos para o céu, ainda acariciando o gatinho. — Uma vez eu vi a mamãe beijando a criada. Bast ergueu uma das sobrancelhas ao ouvir isso. — São dois... A garota pôs o dedo no ouvido e remexeu lá dentro. — É só isso, acho. — E que tal um favor? — falou Bast. — Preciso que você me traga duas dúzias de margaridas com caules compridos. E uma fita azul. E duas braçadas de ciúmes. O rosto de Viette se enrugou denotando confusão. — O que é ciúmes? — Uma flor — explicou Bast, e também pareceu confuso. — Talvez você chame de balsamina? Elas crescem espalhadas por aqui — falou, fazendo um gesto amplo com as duas mãos. — Você quer dizer “gerânios”? — perguntou ela. Bast balançou a cabeça. — Não. Elas têm as pétalas soltas e são grandes assim. — Ele traçou um círculo com o polegar e o dedo do meio. — São amarelas, laranja e vermelhas... A garota o encarou sem expressão. — A viúva Creel as mantém nas jardineiras da janela — emendou Bast. — Quando você toca as vagens, elas se mexem... A face de Viette se iluminou. — Ah! Você está falando das não-me-toques — retrucou ela, num tom de voz condescendente. — Eu posso trazer um monte delas. Isso é fácil. — E deu meia-volta, correndo morro abaixo. Bast gritou antes que ela tivesse dado seis passos. — Espere aí! — Quando ela girou, ele perguntou: — O que você vai dizer se alguém perguntar para quem você está colhendo flores? Ela revirou os olhos novamente. — Digo que não é da conta de ninguém — falou. — Porque meu pai é o prefeito. Depois que Viette se foi, um assobio alto fez Bast baixar os olhos na direção da pedra cinzenta. Não havia crianças à espera ali. Ele ouviu o assobio de novo e se pôs de pé, esticando-se muito e com vontade. Muitas jovenzinhas da cidade teriam ficado surpresas ao saber da facilidade com que ele avistou o vulto de pé nas sombras da árvore, na beirada da clareira, a sessenta metros. Bast desceu o morro devagar, cruzando o campo gramado na direção da sombra das árvores. Havia um garoto mais velho ali, com rosto sujo e um nariz de lutador. Devia estar perto dos doze anos, e a camisa e a calça eram pequenas demais para ele, mostrando partes demais dos pulsos sujos nos punhos e os calcanhares nus embaixo. Ele estava descalço e tinha um cheiro levemente azedo. — Rike. — A voz de Bast não tinha o tom amigável e brincalhão que ele usava para as outras crianças da cidade. Como está a estrada para Tinuë? — É uma droga de caminho comprido — falou o garoto amargamente, sem fitar Bast nos olhos. — Moramos no fim de lugar nenhum. — Vejo que você está com o meu livro — observou Bast. O garoto o estendeu. — Eu não tava tentando roubar — resmungou ele rapidamente. — Só precisava falar com você. Bast pegou o livro em silêncio. — Eu não violei as regras — falou o garoto. — Nem entrei na clareira. Mas preciso de ajuda. E vou pagar por ela. — Você mentiu pra mim, Rike — falou Bast em tom severo. — E não paguei por isso? — quis saber o garoto, irritado, e ergueu o olhar pela primeira vez. — Não paguei por isso dez vezes? A minha vida já não tá uma merda pra ter mais merda em cima disso tudo? — E nada disso faz sentido porque você está velho demais agora — falou Bast sem rodeios. — Também não! — O garoto bateu um dos pés, depois fez um esforço e respirou fundo; era visível que ele se obrigava a controlar o mau gênio. — Tam é mais velho do que eu e ainda pode vir até a árvore. Eu simplesmente sou mais alto que ele! — São as regras — retrucou Bast. — É uma regra de merda! — gritou o garoto, cerrando os punhos com irritação. — E você é um bastardinho de merda, que merece levar mais correadas do que ele! Fez-se silêncio depois e só foi interrompido pela respiração entrecortada do garoto. Os olhos de Rike estavam fixos no solo, punhos cerrados ao lado do corpo; ele tremia. Os olhos de Bast se estreitaram muito sutilmente. A voz do outro garoto era rouca. — Apenas um — falou Rike. — Apenas um favor e só desta vez. É um favor grande. Mas eu vou pagar. Vou pagar o triplo. Bast respirou fundo e soltou um suspiro. — Rike, eu... — Por favor, Bast! — Ele ainda tremia, mas Bast percebeu que a voz do garoto já não tinha raiva. — Por favor! — Os olhos ainda estavam fixos no solo e ele deu um passo hesitante à frente. — Apenas... por favor! — Sua mão se esticou e ele apenas a deixou cair, inútil, como se o garoto não soubesse o que fazer com ela. Por fim, agarrou a manga da camisa de Bast e puxou uma vez, sem força, antes de deixar a mão cair novamente ao lado do corpo. — Não posso resolver isso sozinho. — Rike ergueu o olhar; olhos cheios de lágrima. Seu rosto estava contorcido num nó de raiva e medo. Um garoto jovem demais para evitar chorar, mas ainda assim velho o suficiente para não conseguir evitar se odiar por fazer isso. — Eu preciso me livrar do meu pai — falou com voz entrecortada. — Não consigo imaginar um jeito. Eu poderia bater nele enquanto está adormecido, mas minha mãe ia descobrir. Ele bebe e bate nela. E ela chora o tempo todo e aí ele bate mais nela. Rike voltara a fitar o solo e as palavras saíam dele num esguicho: — Eu poderia fazer isso quando ele estivesse bêbado por aí, mas ele é muito grande. Não conseguiria movê-lo. Eles encontrariam o corpo e aí os juízes me pegariam. Eu não ia conseguir olhar nos olhos da minha mãe. Não se ela soubesse. Não posso nem pensar como ela ficaria se soubesse que sou o tipo de pessoa que mata o próprio pai. Ele ergueu o olhar então, o rosto furioso, olhos vermelhos de chorar. — Mas eu faria isso. Eu o mataria. Você só tem que me dizer como. Fez-se um momento de silêncio. — Está bem — falou Bast. Eles desceram até o rio, onde poderiam tomar água e Rike poderia lavar o rosto e se recompor. Quando o rosto do garoto ficou mais limpo, Bast percebeu que nem toda a sujeira era terra. Era fácil confundir, pois o sol do verão o bronzeara até uma cor marrom e forte de noz. Mesmo depois de se limpar, era difícil dizer que eram os suaves vestígios de machucados. Mas, rumor ou não, os olhos de Bast eram atentos. Bochechas e mandíbulas. Mancha escura ao redor de um dos pulsos finos. E, quando ele se curvou para tomar um gole do riacho, Bast entreviu as costas do garoto... — Então — falou Bast quando eles se sentaram ao lado do regato —, o que exatamente você quer? Quer matá-lo ou apenas quer que ele suma? — Se apenas sumisse, eu nunca voltaria a dormir de novo temendo que ele voltasse — falou Rike, e depois ficou quieto por um tempo. — Uma vez ele sumiu por dois meses. — O garoto esboçou um sorriso. — Foi uma época boa, só eu e a minha mãe. Era como se fosse meu aniversário todo dia quando eu acordava e ele não estava lá. Eu nunca imaginei que minha mãe sabia cantar... Rike voltou a ficar em silêncio. — Pensei que ele tinha caído em algum lugar, bêbado, e que finalmente tivesse quebrado o pescoço. Mas ele só tinha trocado um ano de peles por dinheiro para beber. Ele havia ficado em sua cabana de caça, naquele estupor de bêbado, durante metade do mês, a pouco menos de dois quilômetros. O garoto balançou a cabeça, com mais firmeza dessa vez. — Não, se ele for embora, não vai ficar longe. — Eu posso imaginar como — falou Bast. — É isso que eu faço. Mas você precisa me dizer o que quer de verdade. Rike permaneceu sentado por um longo tempo, com a mandíbula abrindo e fechando. — Que ele se vá — falou por fim. As palavras pareciam presas em sua garganta. — Desde que ele fique longe para sempre. Se você puder mesmo fazer isso. — Eu posso fazer — retrucou Bast. Rike olhou para as mãos por um bom tempo. — Que ele se vá então. Eu o mataria. Mas esse tipo de coisa num dá certo. Não quero ser esse tipo de homem. Um homem não deveria matar o próprio pai. — Eu poderia fazer isso para você — falou Bast tranquilamente. Rike ficou sentado durante algum tempo e depois fez que não com a cabeça. — É a mesma coisa, num é? De um jeito ou de outro, sou eu. E, se fosse eu, seria mais honesto fazer com as minhas mãos do que com a minha boca. Bast concordou com a cabeça. — Certo então. Que ele se vá para sempre. — E sem demora — emendou Rike. Bast suspirou e ergueu o olhar para o sol. Ele já tinha coisas para fazer hoje. As rodas giratórias do desejo não paravam de girar porque um fazendeiro bebia demais. Logo Emberlee iria tomar seu banho. Supostamente ele devia pegar cenouras. Ele não devia nada ao garoto. Ao contrário. O garoto havia mentido para ele. Quebrado a promessa. E embora Bast tivesse resolvido a questão com decisão, de tal modo que nenhuma outra criança na cidade jamais sonharia enganá-lo assim de novo... a lembrança ainda o irritava. A ideia de ajudá-lo agora, apesar disso, parecia o oposto de seu desejo. — Tem que ser logo — falou Rike. — Ele está piorando. Eu posso fugir, mas minha mãe não pode. E a pequena Bip também não. E... — Muito bem. Muito bem... — Bast o interrompeu com um gesto das mãos. — Em breve. Rike engoliu em seco. — Quanto isso vai me custar? — perguntou ele, ansioso. — Muito — respondeu Bast, sombrio. — Não estamos falando de fitas nem de botões aqui. Pense no quanto você quer isso. Pense em como é grandioso. — Ele olhou nos olhos do garoto sem desviar. — Três vezes é o que você me deve. Além de mais alguma coisa por ser tão rápido. — Ele continuou olhando fixo para o garoto. — Pense com cuidado nisso. Rike estava um pouco pálido agora, mas acenou com a cabeça em concordância sem desviar o olhar. — Você pode ter o que quiser de mim — falou. — Mas nada da minha mãe. Não tem muita coisa dela que meu pai já não tenha usado para pagar bebida. — Vamos resolver isso — falou Bast. — Mas não será algo dela. Prometo. Rike respirou fundo, depois balançou a cabeça com força. — Muito bem. Por onde começamos? Bast apontou para o riacho. — Encontre uma pedra do rio com um buraco nela e traga-a para mim. Rike fitou Bast com uma expressão estranha. — Você quer uma pedra de fada? — Pedra de fada — respondeu Bast com tal zombaria ácida que Rike corou, constrangido. — Você é velho demais para essa bobagem. — Bast deu uma olhadela no garoto. — Quer ou não a minha ajuda? — perguntou. — Quero — respondeu Rike baixinho. — Então, quero uma pedra do rio. — Bast apontou de volta para o riacho. — Você é quem tem que encontrar — falou ele. — Não pode ser outra pessoa. E você tem que encontrá-la seca na praia. Rike concordou com a cabeça. — Certo, então. — Bast bateu as palmas das mãos duas vezes. — Agora vá. Rike se foi e Bast voltou para a sua árvore. Nenhuma criança aguardava para conversar com ele, por isso passou o tempo ociosamente. Jogou pedras no riacho próximo e folheou o Celum Tinture, olhando algumas das ilustrações. Calcificação. Trituração. Sublimação. Brann, animado por não ter levado uma surra e com uma das mãos enfaixada, trouxe-lhe dois pãezinhos doces enrolados num lenço branco. Bast comeu o primeiro e deixou o segundo de lado. Viette trouxe braçadas de flores e uma fita azul fina. Bast trançou as margaridas numa coroa, passando a fita através dos caules. Em seguida, erguendo os olhos para o sol, viu que estava quase na hora. Tirou a camisa e a encheu com a guirlanda de não-me-toques vermelhas e amarelas que Viette trouxera. Acrescentou o lenço e a coroa em seguida; pegou um bastão e fez uma trouxa de modo a carregar tudo com mais facilidade. Passou pela Velha Ponte de Pedra, depois caminhou morro acima e deu a volta numa colina até encontrar o local que Kostrel descrevera. Ficava oculto da vista e o riacho se curvava e remoinhava numa piscina pequena e adorável, perfeita para um banho privado. Bast sentou-se atrás de alguns arbustos e, após quase meia hora de espera, cochilou. O estalido agudo de um galho e um fragmento de canção o despertaram, e ele avistou uma jovem descendo cuidadosamente a encosta íngreme até a beira da água. Movendo-se em silêncio, Bast deu passos leves rio acima, carregando sua trouxa. Dois minutos depois, estava ajoelhado na margem relvada com a pilha de flores a seu lado. Pegou uma flor amarela e inspirou delicadamente. Conforme sua respiração roçava as pétalas, a cor desapareceu e transformou-se num delicado azul. Ele a deixou cair e a corrente levou-a rio abaixo. Bast juntou um punhado de buquês de flores, vermelhas e cor de laranja, e voltou a inspirar. Elas também se mexeram e modificaram até adquirirem uma cor azul-clara vibrante. Ele as espalhou na superfície do riacho. Fez isso mais duas vezes até acabarem as flores. Depois, pegando o lenço e a coroa de margaridas, correu novamente rio abaixo até o pequeno e agradável vale com o olmo. Ele se movera rápido o suficiente para que Emberlee estivesse apenas se aproximando da beira da água. Delicadamente e em silêncio, Bast se esgueirou até o olmo. Mesmo com uma das mãos segurando o lenço e a coroa, subiu a encosta tão rápido quanto um esquilo. Bast se deitou sobre um galho baixo, protegido por folhas, e respirou rápido, mas não com força. Emberlee retirava as meias e as arrumava cuidadosamente numa sebe próxima. O cabelo era de um louro-acobreado e brilhante, caindo em cachos preguiçosos. O rosto era delicado e redondo, de um adorável tom claro e rosado. Bast sorriu ao observá-la se virar, primeiro para a esquerda, depois para a direita. Então ela começou a desamarrar o corpete. O vestido era azul-claro, debruado de amarelo, e, quando ela o esticou sobre a sebe, ele se agitou e se esticou, desajeitado como a asa de uma grande ave. Talvez alguma combinação fantástica de tentilhão com gralha. Vestida somente com a combinação branca, Emberlee olhou ao redor: esquerda, depois direita. Então ela se balançou até a peça cair: um movimento fascinante. Jogou a combinação no chão e ficou parada ali, nua como a lua. A pele cor de creme com as sardas era impressionante. Os quadris, amplos e adoráveis. As pontas dos seios, pintadas com o mais claro cor-de-rosa. Ela caminhou levemente para dentro d’água. E deu uma série de gritinhos desanimados por causa do frio. Refletindo sobre eles, não eram parecidos com os de um corvo, embora pudessem, talvez, ser remotamente semelhantes ao de uma garça. Emberlee se lavou um pouco, espalhando água e estremecendo. Ela se ensaboou, mergulhou a cabeça no rio e subiu, arfando. Molhado, seu cabelo ficou da cor das cerejas maduras. Foi então que as primeiras não-me-toques azuis chegaram, boiando na água. Ela observou com curiosidade enquanto as flores flutuavam e começou a fazer espuma no cabelo. Mais flores se seguiram. Desceram pelo rio e fizeram círculos ao redor dela, presas na lenta correnteza. Ela as observou, impressionada. Depois retirou um punhado da água com as mãos em concha e as aproximou do rosto, puxando o ar para cheirá-las. Ela riu, encantada, e mergulhou sob a superfície, emergindo no meio das flores; a água escorreu pela pele clara, descendo pelos seios nus. Flores se prenderam a ela, como se relutassem em ir embora. Foi então que Bast caiu da árvore. Breve e agitadamente, ele arranhou os dedos contra a casca da árvore, um pouco como um grito, depois bateu no solo como um saco de sebo. Ficou deitado de costas na grama e deixou escapar um gemido baixo e infeliz. Ele ouviu um respingo e então Emberlee apareceu acima dele. Ela segurava a combinação branca diante de si. Bast ergueu o olhar de onde estava deitado na grama alta. Tivera sorte de aterrissar naquele trecho de turfa elástica, acolchoado com grama verde e alta. Uns metros adiante, ele teria se arrebentado contra as rochas. Mais um metro na outra direção e chafurdaria na lama. Emberlee se ajoelhou ao lado dele, a pele clara, os cabelos escuros. Uma das flores estava presa no seu pescoço — tinha a mesma cor de seus olhos, um azul-claro vibrante. — Ah — murmurou Bast animado ao olhar para ela. Os olhos do garoto estavam ligeiramente borrados. — Você é muito mais bonita do que eu tinha imaginado. Ele ergueu uma das mãos como se fosse roçar a bochecha dela e descobriu que segurava a coroa e o lenço com o nó. — Ah — falou, recordando-se. — Eu também trouxe umas margaridas para você. E um pão doce. — Obrigada — respondeu ela e pegou a coroa de margaridas com as duas mãos. Para fazer isso, ela teve que soltar a combinação, que caiu delicadamente sobre a grama. Bast piscou e, por um momento, ficou sem palavras. Emberlee inclinou a cabeça para olhar a coroa; a fita era de um azul impressionante, mas não chegava nem perto de ser tão adorável quanto os olhos dela. A garota ergueu-a com ambas as mãos e orgulhosamente colocou-a na cabeça. Com os braços ainda erguidos, inspirou lentamente. Os olhos de Bast desceram da coroa. Ela sorriu para ele com expressão indulgente. Bast respirou fundo antes de falar, depois parou e inspirou pelo nariz. Madressilva. — Você roubou meu sabonete? — perguntou, incrédulo. Emberlee deu uma risada e o beijou. Um bom tempo depois, Bast pegou o caminho comprido até a árvore reluzente e fez uma grande curva em direção aos morros ao norte da cidade. Era mais íngreme caminho acima, sem solo plano suficiente para plantações, e o terreno era traiçoeiro demais para o pastoreio. Mesmo com as orientações do garoto, Bast levou algum tempo até encontrar a destilaria de Martin. No entanto, ele tinha que dar crédito ao filho da mãe velho e maluco. Em meio a sarças, deslizamentos de rochas e árvores caídas, não havia chance de que ele tivesse esbarrado naquilo acidentalmente, enfiado dentro de uma caverna rasa em um pequeno vale coberto com vegetação rasteira. A destilaria não era um mecanismo desajeitado construído com panelas velhas e arame torcido. Era uma obra de arte. Havia barris e bacias, além de grandes espirais de tubos de cobre, uma grande chaleira de cobre, com o dobro do tamanho de um tanque de lavar, e um fogão a lenha para aquecê-la. Um cocho de madeira percorria todo o teto e somente após segui-lo no lado de fora foi que Bast percebeu que Martin coletava água da chuva e a trazia para dentro para encher os barris de resfriamento. Olhando aquilo, Bast sentiu uma vontade súbita de folhear o Celum Tinture e aprender como eram chamadas todas as peças da destilaria e para que serviam. Somente então percebeu que deixara o livro para trás, na árvore reluzente. Em vez disso, Bast remexeu por ali até encontrar uma caixa com uma miscelânea louca de recipientes: duas dezenas de garrafas de todos os tipos, jarros de barro, potes de vidro antigos... Uma dúzia deles estava cheia. Nenhum tinha qualquer tipo de rótulo. Bast ergueu uma garrafa comprida que obviamente guardara vinho antes. Tirou a rolha, farejou com cautela, depois tomou um gole cuidadoso. Seu rosto se iluminou de prazer. Ele esperara solvente, mas isso era... bem... ele não estava totalmente certo. Tomou outro gole. Havia um pouco de maçã nele e... cevada? Bast tomou um terceiro gole e sorriu. Não importa como quisessem chamar, aquilo era maravilhoso. Consistente, forte e só um pouquinho adocicado. Martin poderia ser um texugo louco, mas era evidente que entendia de bebida. Passou-se mais de uma hora até Bast voltar para a sua árvore. Rike não havia retornado, mas o Celum Tinture estava ali, intacto. Que ele se recordasse, era a primeira vez que ficava feliz ao ver o livro. Ele o abriu e folheou até o capítulo sobre destilação, e leu por meia hora, acenando a cabeça para si mesmo em vários pontos. Aquilo era chamado de serpentina de condensação. Ele achava que parecia importante. Finalmente, Bast fechou o livro e deu um suspiro. Havia algumas nuvens e não seria nada bom deixar o livro largado de novo. Sua sorte não duraria para sempre e ele estremeceu ao pensar no que aconteceria se o vento derrubasse o livro na grama e arrancasse suas páginas. Se chovesse de repente... Por isso, Bast caminhou de volta à hospedaria Marco do Percurso e se esgueirou em silêncio pela porta dos fundos. Pisando com cuidado, abriu um dos armários e enfiou o livro lá dentro. Cruzou metade do caminho de volta até a porta em silêncio, então ouviu passos atrás de si. — Ah, Bast — falou o hospedeiro. — Você trouxe as cenouras? Bast congelou, flagrado enquanto se esgueirava desengonçadamente. Ele se empertigou e, constrangido, alisou as roupas. — Eu... eu não passei por lá ainda, Reshi. O hospedeiro deu um suspiro profundo. — Eu não pedi um... — Parou, fungou e então encarou o jovem de cabelos escuros e estreitou os olhos. — Você está bêbado, Bast? Bast olhou ofendido. — Reshi! O estalajadeiro revirou os olhos. — Muito bem então, você andou bebendo? — Eu estava investigando — retrucou Bast, enfatizando a palavra. — Você sabia que o Martin Maluco tem uma destilaria? — Eu não sabia — respondeu o homem, e seu tom de voz deixava claro que ele não considerava essa informação particularmente emocionante. — E Martin não é maluco. Ele só tem um punhado de compulsões que, infelizmente, são muito fortes. E um pouco de loucura, da época em que era soldado. — Ora, sim... — Bast falou devagar. — Eu sei por que ele mandou o cachorro para cima de mim e, quando subi na árvore para escapar, ele tentou derrubar a árvore. E, além disso, pondo todas essas coisas de lado, ele também é doido, Reshi. Muito, muito doido. — Bast. — O homem lançou-lhe um olhar desaprovador. — Não estou dizendo que ele é mau, Reshi. Não estou nem dizendo que não gosto dele. Mas, pode acreditar, eu sei o que é loucura. A mente dele não foi criada feito a de uma pessoa normal. O hospedeiro acenou levemente com a cabeça, impaciente. — Anotado. Bast abriu a boca, depois pareceu ligeiramente confuso. — Do que é que estamos falando? — Do seu avançado estado de investigação — falou o homem, olhando para fora da janela. — Apesar de mal terem soado três sinos. — Ah. Certo! — falou Bast, animado. — Eu sei que Martin deve dinheiro há algum tempo. E sei que ele teve problemas para pagar a dívida porque não tinha dinheiro. — Ele não usa dinheiro — corrigiu o hospedeiro sutilmente. — O que dá no mesmo, Reshi. — Bast suspirou. — E isso não muda o fato de que nós não precisamos de outro saco de cevada. A despensa está abarrotada de cevada. Mas se ele tem uma destilaria... O hospedeiro já balançava a cabeça. — Não, Bast — falou. — Eu não vou envenenar meus hóspedes com vinho da montanha. Você não tem ideia do que acaba entrando naquela coisa... — Mas eu sei, Reshi — Bast falou melancolicamente. — Acetato de etila e metano. E não é nada disso. O homem piscou, obviamente surpreso. — Você... você andou lendo o Celum Tinture? — Eu li, Reshi. — Bast sorriu. — Para o melhoramento da minha educação e pelo meu desejo de não envenenar as pessoas. Eu provei um pouco, Reshi, e posso dizer com alguma autoridade que Martin não está fazendo vinho da montanha. É coisa boa. Fica bem próximo do Rhis, e isso não é algo que eu diga levianamente. O hospedeiro acariciou o lábio superior, pensativo. — Onde foi que você conseguiu uma prova? — perguntou ele. — Eu negociei por ela — falou Bast, evitando com facilidade as beiradas da verdade. — Andei pensando — emendou. — Isso não apenas daria a Martin uma chance de pagar a dívida, mas nos ajudaria a ter novos suprimentos. Está mais difícil, as estradas ruins do jeito que estão... O homem ergueu as duas mãos, impotente. — Já estou convencido, Bast. O rapaz sorriu, animado. — Sinceramente, eu teria feito isso apenas para comemorar o fato de você ler pela primeira vez a sua lição. Mas também vai ser bom para o Martin. Isso vai lhe dar uma desculpa para passar aqui com mais frequência. Vai ser bom para ele. O sorriso de Bast diminuiu um pouco. Se o mestre notou, não falou nada. — Vou mandar um garoto falar com o Martin e pedir que ele venha e traga umas garrafas. — Peça umas cinco ou seis — falou Bast. — Está esfriando à noite. O inverno está chegando. O hospedeiro sorriu. — Sem dúvida, Martin vai ficar lisonjeado. Bast empalideceu ao ouvir isso. — Pela raiz da carqueja, não, Reshi — falou ele, agitando as mãos à frente e dando um passo para trás. — Não diga a ele que eu vou beber. Ele me odeia. O homem disfarçou um sorriso com a mão. — Não é engraçado, Reshi — falou Bast com irritação. — Ele joga pedras em mim. — Há meses ele não faz isso — observou Reshi. — Martin tem sido perfeitamente cordial com você nas últimas vezes que passou para nos visitar. — Porque não há pedras dentro da hospedaria — falou Bast. — Seja justo, Bast — emendou o hospedeiro. — Ele tem sido civilizado há quase um ano. Cortês até. Lembra-se de quando ele pediu desculpas há dois meses? Você já ouviu falar do Martin pedindo desculpas a alguém mais na cidade? Já? — Não — respondeu Bast, de mau humor. O estalajadeiro acenou com a cabeça. — Isso é um grande gesto para ele. Ele está virando uma página. — Eu sei — resmungou Bast, caminhando na direção da porta dos fundos. — Mas, se ele estiver aqui quando eu voltar para casa à noite, vou jantar na cozinha. Rike se aproximou de Bast antes mesmo que ele tivesse chegado à clareira e muito menos à árvore. — Eu peguei — falou o garoto, erguendo as mãos em triunfo. Seu corpo, da cintura para baixo, pingava. — O quê, já? — indagou Bast. O garoto acenou com a cabeça e fez surgir a pedra entre dois dedos. Era achatada, lisa e arredondada, pouco maior que uma moeda de cobre. — E agora? Bast coçou o queixo por um instante, como se tentasse se lembrar. — Agora precisamos de uma agulha. Mas tem que ser emprestada de uma casa onde não more nenhum homem. Rike pareceu pensativo por um momento, depois se animou. — Eu posso pegar uma da tia Sellie! Bast controlou a vontade de xingar. Ele se esquecera de Sellie. — Isso vai resolver... — falou relutantemente. — ...mas vai ser melhor se a agulha vier de uma casa com muitas mulheres morando nela. Quanto mais mulheres, melhor. Rike ergueu o olhar por mais um instante. — A viúva Creel então. Ela tem uma filha. — Ela tem um filho também — observou Bast. — Uma casa onde não haja homens ou garotos. — Mas onde more um monte de garotas... — falou Rike. Ele teve que pensar nisso por um longo tempo. — A velha Nan não gosta nem um pouco de mim — falou. — Mas acho que ela me daria um alfinete. — Uma agulha — enfatizou Bast. — E você tem que tomá-la emprestada. Não pode roubar nem comprar. Ela tem que emprestar a você. Bast tinha imaginado que o garoto reclamaria dos detalhes, do fato de que a velha Nan morava do outro lado da cidade, tão a oeste quanto você poderia ir e ainda ser considerado parte da cidade. Ele levaria meia hora para chegar lá e mesmo assim talvez a velha nem estivesse em casa. Porém Rike nem suspirou. Ele apenas acenou com a cabeça, sério, deu meia-volta e partiu correndo, com os pés descalços voando. Bast prosseguiu até a árvore reluzente, mas ao chegar à clareira viu uma confusão de crianças brincando na pedra cinzenta, sem dúvida esperando por ele. Eram quatro. Observando-as na sombra das árvores, na borda da clareira, Bast hesitou; em seguida, ergueu o olhar para o sol antes de se esgueirar de volta para a mata. Ele tinha outro peixe para fritar. A fazenda dos Williams não era propriamente uma fazenda. Não há décadas. Os campos permaneciam sem cultivo há tanto tempo que mal dava para reconhecê-los como tais, salpicados de arbustos e mudas. O celeiro alto ficara sem reparos e metade do telhado se abria sob o céu. Caminhando pela longa trilha através dos campos, Bast dobrou uma esquina e viu a casa de Rike. A história que ela contava era diferente da do celeiro. Era pequena, mas estava em ordem. As telhas precisavam de reparos, mas, a não ser por elas, a casa parecia amada e bem cuidada. Cortinas amarelas se agitavam na janela da cozinha e uma jardineira transbordava com corações-magoados e calêndulas. Havia um cercado com um trio de cabras num dos lados da casa, e um jardim grande e bem cuidado do outro, cercado densamente com estacas bem amarradas, mas Bast podia ver linhas retas de folhagens e flores em seu interior. Cenouras. Ele ainda precisava de cenouras. Esticando um pouco o pescoço, Bast viu algumas caixas quadradas grandes atrás da casa. Deu mais uns passos para o lado e olhou até perceber que eram colmeias de abelhas. Foi então que se ouviu um grande ribombar de latidos e dois cães, gigantes e negros, com orelhas molengas vieram saltando da casa na direção de Bast, latindo de acordo com seu tamanho. Quando se aproximaram o suficiente, o rapaz se apoiou num dos joelhos e lutou com eles de brincadeira, coçando suas orelhas e os pelos do pescoço. Após alguns minutos assim, o jovem seguiu até a casa, os cães balançando a cauda para a frente e para trás, antes de avistarem algum tipo de animal e arrancar a vegetação rasteira. Ele bateu educadamente à porta da frente, embora, depois de todos os latidos, sua presença dificilmente pudesse ser uma surpresa. A porta se abriu alguns centímetros e, por um momento, tudo que Bast conseguiu ver foi uma pequena fenda escura. Depois a porta se abriu um pouco mais e revelou a mãe de Rike. Era uma mulher alta, e o cabelo castanho e cacheado se soltava da trança que pendia sobre as costas. Ela abriu a porta por completo e segurava um bebê minúsculo e seminu na curva do braço. O rosto redondo da criança estava pressionado contra o seu seio e ela sugava determinada, grunhindo baixinho. Bast baixou os olhos e sorriu afetuosamente. A mulher fitou a criança com amor, depois agraciou Bast com um sorriso cansado. — Olá, Bast, o que é que posso fazer por você? — Ah. Ora — disse ele, constrangido, erguendo o olhar até os olhos dela. — Eu estava me perguntando, senhora. Quer dizer, Sra. Williams... — Nettie está bem, Bast — disse ela com indulgência. Alguns habitantes da cidade consideravam Bast meio simplório, fato com o qual ele não se importava nem um pouco. — Nettie — falou o garoto e deu o seu sorriso mais agradável. Fez-se uma pausa e a mulher se apoiou na moldura da porta. Uma garotinha espiou por trás da saia azul e desbotada da mãe; não era mais que um par de olhos escuros e sérios. Bast sorriu para a menina, que desapareceu nas costas da mulher. Nettie fitou o rapaz em expectativa. Finalmente, soltou: — Você estava se perguntando... — Ah, sim — falou Bast. — Eu estava me perguntando se, por acaso, o seu marido estaria por aí. — Temo que não — respondeu ela. — Jessom está fora, olhando as armadilhas. — Ah — falou Bast, decepcionado. — Será que ele vai voltar logo? Eu poderia esperar... Ela balançou a cabeça. — Sinto muito. Ele vai olhar as armadilhas e vai passar a noite tirando as peles e defumando em sua cabana. — Ela apontou na direção das montanhas ao norte. — Ah. — Bast soltou mais uma vez. Aninhado confortavelmente no braço da mãe, o bebê respirou fundo, depois suspirou, satisfeito, e ficou quieto e mole. Nettie baixou o olhar e a seguir fitou Bast com um dedo sobre os lábios. Bast acenou com a cabeça e deu um passo para trás, observando Nettie entrar, tirar o bebê adormecido do mamilo com a mão livre, depois ajeitar a criança com cuidado num pequeno berço de madeira no chão. A menina de olhos escuros emergiu por trás da mãe e foi bisbilhotar o bebê. — Me chame se ela começar a se mexer — falou Nettie em voz baixa. A garotinha acenou com a cabeça, séria, sentou-se numa cadeira próxima e começou a balançar suavemente o berço com o pé. Nettie deu um passo para fora e fechou a porta atrás de si. Ela caminhou o necessário para se juntar a Bast, rearrumando o corpete sem nenhum constrangimento. Sob a luz do sol, Bast percebeu as maçãs do rosto proeminentes e a boca generosa. Mesmo assim, ela estava mais fatigada do que bonita, com os olhos escuros pesados de preocupação. A mulher alta cruzou os braços sobre o peito. — Qual é o problema então? — perguntou, cansada. Bast pareceu confuso. — Não tem problema — falou ele. — Eu estava me perguntando se o seu marido teria algum trabalho para mim. Nettie descruzou os braços e parecia surpresa. — Oh. — Não tem muita coisa para fazer lá na hospedaria — Bast falou, envergonhado. — Pensei que seu marido podia precisar de ajuda extra. Nettie olhou ao redor, e seus olhos roçaram o velho celeiro. A boca repuxou-se para baixo nos cantos. — Ele monta as armadilhas e caça na maior parte do tempo atualmente. Isso o mantém ocupado, mas não tanto assim para ele precisar de ajuda, acho. — Ela voltou a olhar para Bast. — Pelo menos, ele nunca disse que queria ajuda. — E quanto a você? — perguntou o garoto, dando seu sorriso mais encantador. — Tem alguma coisa por aqui na qual você pudesse precisar de uma mãozinha? Nettie sorriu indulgentemente para ele. Foi um esboço de sorriso, mas tirou dez anos e meio mundo de preocupação de seu rosto, fazendo com que ela quase brilhasse de tão bonita. — Não tem muita coisa para fazer — retrucou a mulher em tom de desculpas. — Apenas três cabras, e meu garoto cuida delas. — Lenha? — perguntou Bast. — Não tenho medo de trabalho pesado. E deve ser difícil com o seu cavalheiro fora por dias sem fim... O rapaz sorriu para ela com esperança. — Lamento, nós simplesmente não temos dinheiro para ajudar — falou Nettie. — Eu só quero umas cenouras — disse Bast. Nettie o encarou por um instante, então desandou a rir. — Cenouras — repetiu, esfregando o rosto. — Quantas cenouras? — Umas... seis? — perguntou Bast, sem parecer nem um pouco seguro de sua resposta. Ela riu mais uma vez e balançou um pouco a cabeça. — Muito bem. Você pode cortar um pouco de lenha. — Apontou para o cepo que se encontrava nos fundos da casa. — Vou atrás de você quando fizer o equivalente a seis cenouras. Bast começou a trabalhar com vontade e logo o quintal foi tomado pelo som saudável e animado de madeira partida. O sol ainda estava forte no céu e, após apenas alguns minutos, o rapaz estava coberto por uma camada brilhante de suor. Indiferente, tirou a camisa e a pendurou na cerca do jardim próxima. Havia algo diferente no modo como ele partia a madeira. Nada dramático. Na verdade, ele partia a madeira do mesmo modo que todo mundo: você põe a tora em posição vertical, gira o machado e parte a madeira. Não havia muito espaço para improvisar. Ainda assim, havia uma diferença no modo como ele fazia isso. Quando colocava a tora de pé, ele fazia o gesto com concentração. Então ficava de pé por um brevíssimo momento, perfeitamente imóvel. Aí vinha o giro. Era fluido. A colocação dos pés, o jogo dos músculos longos nos braços... Não havia nada de exagerado. Nada de floreado. Mesmo assim, quando ele erguia o machado acima da cabeça num arco perfeito, havia graça. A tosse forte que a madeira dava enquanto se partia, o modo súbito com o qual as metades caíam no solo. Ele fazia tudo isso parecer, de algum modo... bem... galante. Ele se esforçou durante meia hora e nesse momento Nettie saiu de casa com um copo de água e um punhado de cenouras gordas com as folhas ainda presas. — Tenho certeza de que isso vale, pelo menos, as seis cenouras — falou ela e sorriu para o rapaz. Bast pegou o corpo de água, que bebeu até a metade; em seguida se abaixou e derramou o restante sobre a cabeça. Ele se sacudiu um pouco, depois se esticou dando um passo para trás; seu cabelo escuro se enrolou e grudou no rosto. — Você tem certeza de que não tem mais nada em que poderia precisar de uma mãozinha? — perguntou ele e lhe deu um sorriso fácil. Seus olhos eram escuros e sorridentes e mais azuis que o céu. Nettie balançou a cabeça. Os cabelos estavam fora da trança agora e, quando ela baixou os olhos, parte dos cachos soltos caiu sobre seu rosto. — Não consigo pensar em nada — respondeu ela. — Eu também tenho mão boa para lidar com mel — falou Bast, erguendo o machado e apoiando-o contra o ombro nu. Ela pareceu um pouco confusa com isso até que Bast acenou com a cabeça na direção das colmeias de madeira, espalhadas através do campo com grama crescida. — Ah — falou ela, como se estivesse se recordando de um sonho que fora em parte esquecido. — Eu costumava fazer velas e produzir mel. Mas perdemos algumas colmeias no inverno ruim de três anos atrás. Depois, perdemos uma para as lêndeas. Então veio aquela primavera úmida e mais três se foram com a cal, antes que nos déssemos conta. — Ela deu de ombros. — No início deste verão, vendemos uma para os Hestle para ter dinheiro e pagar os impostos... Ela balançou novamente a cabeça, como se sonhasse acordada. Deu de ombros e se virou para olhar para Bast. — Você entende de abelhas? — Um pouco — falou o rapaz em voz baixa. — Não são difíceis de se lidar. Apenas precisam de paciência e gentileza. — Casualmente ele girou o machado para que ficasse preso no cepo. — Elas são como tudo mais, sério. Somente querem saber se estão seguras. Nettie fitava o campo e anuiu às palavras de Bast inconscientemente. — Restaram somente duas — falou. — O suficiente para algumas velas. Um pouco de mel. Não muito. Dificilmente valeria o trabalho, na verdade. — Ora, ora — falou Bast em voz baixa. — Um pouco de doçura é tudo que qualquer um de nós deseja às vezes. Vale a pena. Mesmo se exigir algum esforço. Nettie se virou e o encarou. Seus olhos encontraram os dele. Sem dizer uma única palavra, mas também sem desviar o olhar. Seus olhos eram como uma porta aberta. Bast sorriu, gentil e paciente, sua voz cálida e doce como mel. E esticou a mão. — Venha comigo — falou. — Tenho uma coisa para lhe mostrar. O sol estava começando a mergulhar na direção das árvores a oeste quando Bast voltou à sua árvore. Ele mancava um pouco e tinha terra nos cabelos, mas parecia de bom humor. Havia duas crianças no sopé do morro, sentadas na pedra cinzenta, agitando os pés como se fosse um imenso banco de pedra. Bast nem teve tempo de se sentar antes que elas subissem o morro juntas. Era Wilk, um menino sério, de dez anos, com cabelo louro e bagunçado. A seu lado estava a irmãzinha, Pem, com metade da idade e uma boca três vezes maior. O garoto acenou com a cabeça para Bast ao chegar ao topo do morro, depois baixou os olhos. — Você machucou a mão — falou ele. Bast baixou os olhos e se surpreendeu ao ver alguns fios de sangue escorrendo pela lateral. Tirou o lenço e cobriu a mão com ele. — O que foi que aconteceu? — indagou Pem. — Fui atacado por um urso — mentiu Bast, indiferente. O menino acenou com a cabeça, sem indicar se acreditava ou não que aquilo era verdade. — Preciso de uma charada para desafiar a Tessa — explicou o garoto. — Uma das boas. — Você tem o cheiro do vovô — chilreou Pem enquanto parava ao lado do irmão. Wilk a ignorou, e Bast fez a mesma coisa. — Muito bem — falou o rapaz. — Preciso de um favor, e negocio com você. Um favor por uma charada. — Você tem o cheiro do vovô quando ele toma remédio — explicou Pem. — Mas tem que ser uma charada das boas — enfatizou Wilk. — Um desafio. — Me mostre uma coisa que nunca foi vista antes e que nunca vai ser vista de novo — falou Bast. — Hummm... — ronronou Wilk com expressão pensativa. — O vovô diz que se sente muito melhor com o remédio — falou Pem em voz alta, claramente irritada por ser ignorada. — Mas a mamãe diz que não é remédio. Diz que ele anda bebendo. E o vovô diz que fica muito melhor, então é remédio, meleca. — Ela olhou de Wilk para Bast, como se os desafiasse a brigarem com ela. Nenhum dos dois fez isso, e ela assumiu uma expressão um pouco decepcionada. — Essa é boa — admitiu Wilk por fim. — Qual é a resposta? Bast deu um sorriso lento. — O que é que você vai negociar comigo? Wilk inclinou a cabeça para um lado. — Eu já disse. Um favor. — Eu troco a charada com você por um favor — retrucou Bast facilmente. — Mas agora você está pedindo a resposta... Wilk pareceu confuso por meio segundo, depois seu rosto ficou vermelho e irritado. Ele respirou fundo como se fosse gritar. Então pareceu pensar duas vezes e desceu correndo o morro, batendo os pés. Sua irmã o observou, em seguida se virou para Bast. — Sua camisa está rasgada — falou em tom de desaprovação. — E você tem manchas de grama na sua calça. Sua mãe vai lhe dar uma sova. — Não, não vai — falou Bast, presunçoso. — Porque sou adulto e posso fazer o que eu quero com a minha calça. Eu poderia jogá-la no fogo e não me meteria em encrenca de jeito nenhum. A garotinha o encarou com inveja reprimida. Wilk voltou batendo os pés morro acima. — Muito bem — falou, de mau humor. — Meu favor primeiro — insistiu Bast. E entregou uma pequena garrafa com rolha para o garoto. — Eu preciso que você encha com água que foi recolhida em pleno ar. — O quê? — falou Wilk. — Água que caia naturalmente — falou Bast. — Não pode encher em um barril ou regato. Tem que recolher enquanto ela ainda está no ar. — A água cai de uma bomba quando você bombeia... — falou Wilk sem esperança alguma na voz. — Água que caia naturalmente — voltou a falar Bast, enfatizando cada uma das palavras. — Não adianta alguém simplesmente sentar numa cadeira e derramar tudo de um balde. — Para que é que você precisa dela? — perguntou Pem com sua vozinha aguda. — O que você vai trocar pela resposta a essa pergunta? — falou Bast. A garotinha ficou pálida e bateu na boca com uma das mãos. — Talvez não chova por dias — falou Wilk. Pem deu um suspiro entrecortado. — Não tem que ser da chuva — falou a irmã, com a voz cheia de condescendência. — Você podia simplesmente ir até à cachoeira perto do Rio Pequeno e encher a garrafa ali. Wilk piscou. Bast sorriu para a menina. — Você é esperta. Ela revirou os olhos. — É o que todo mundo diz... Bast retirou uma coisa do bolso e a estendeu. Era uma casca de milho envolvendo um pedaço de favo de mel grudento. Os olhos da garotinha se iluminaram ao vê-lo. — Eu também preciso de 21 bolotas perfeitas — falou ele. — Sem buracos, com os chapeuzinhos intactos. Se vocês as pegarem para mim, perto da cachoeira, eu lhes dou isso. A menina assentiu, ansiosa. Depois, ela e o irmão se apressaram morro abaixo. Bast voltou para o remanso perto do salgueiro e tomou outro banho. Não era a hora costumeira de se banhar, por isso não havia pássaros à sua espera e, consequentemente, o banho foi muito mais simples do que antes. Rapidamente ele se enxaguou para retirar o suor e o mel e também molhou um pouco as roupas, esfregando-as para se livrar das manchas de grama e do cheiro de uísque. A água fria ardia ligeiramente nos cortes dos nós dos dedos, mas não era nada sério e sarariam em breve, por conta própria. Nu e pingando, ele saiu do lago e encontrou uma pedra escura, quente por conta do longo dia de sol. O rapaz a cobriu com as roupas e deixou que elas secassem enquanto sacudia os cabelos até secarem e tirava a água dos braços e do peito com as mãos. Depois, caminhou de volta à árvore reluzente, pegou um comprido talo de grama para mastigar e quase que imediatamente adormeceu sob a luz dourada da tarde.

Noite: Lições 

Horas depois, as sombras da noite se estenderam o suficiente para cobrir Bast, e ele se sacudiu até ficar desperto. Sentou-se muito ereto, esfregando o rosto e olhando ao redor, desorientado. O sol estava apenas começando a roçar o topo das árvores a oeste. Wilk e Pem não tinham voltado, mas isso dificilmente o surpreenderia. Ele comeu o pedaço de favo que prometera a Pem, lambendo os dedos lentamente. Em seguida, mastigou ociosamente a cera e observou um par de falcões traçarem círculos preguiçosos no céu. Ouviu um assobio em meio às árvores. Ficou de pé e se espreguiçou; o corpo se curvou como um arco. Depois desceu correndo o morro... mas, sob a luz que se desvanecia, não parecia uma corrida. Se ele fosse um menino de dez anos, teria parecido mais que estava pulando. Mas não era um menino. Se fosse uma cabra, pareceria que ele estava trotando. Mas ele não era uma cabra. Se um homem descesse o morro correndo assim, pareceria que estava correndo. Mas havia algo estranho no movimento de Bast sob a luz que diminuía. Algo que era difícil de descrever. Era quase como se ele estivesse... o quê? Saltitando? Dançando? Um pouco. Basta dizer que rapidamente ele percorreu o caminho até a borda da clareira, onde Rike estava de pé na escuridão crescente debaixo das árvores. — Consegui — falou o garoto em triunfo. Ergueu a mão, mas a agulha era invisível no escuro. — Você pediu emprestada? — quis saber Bast. — Não trocou nem barganhou por ela? Rike concordou com a cabeça. — Muito bem — falou o rapaz. — Venha comigo. Os dois caminharam até a pedra cinzenta, Rike continuou sem dizer uma palavra enquanto Bast escalava um dos lados da rocha inclinada. A luz do sol ainda estava forte ali e ambos tinham espaço de sobra para ficar de pé na ampla parte de trás da pedra. Rike olhou ao redor ansioso, como se temesse que alguém pudesse vê-lo. — Me deixe ver a pedra — falou Bast. Rike remexeu no bolso e a mostrou a ele. Nesse mesmo instante, o rapaz afastou a mão para trás, como se o garoto tivesse lhe oferecido carvão em brasa. — Não seja idiota — falou rispidamente. — Não é para mim. O encantamento só vai funcionar para uma pessoa. Você quer que seja eu? O garotou recuou a mão e fitou a pedra. — Como assim, uma pessoa? — É assim que são os pingentes — explicou Bast. — Eles somente funcionam para uma pessoa de cada vez. — Ao ver a confusão estampada em seu rosto, Bast suspirou. — Você sabe que algumas garotas fazem pingentes de aproximação, torcendo para chamar a atenção de um garoto? Rike acenou com a cabeça, corando levemente. — Isso é o oposto — falou Bast. — É um pingente de afastamento. Você vai furar o seu dedo, deixar cair uma gota de sangue e isso vai selar a pedra. Vai fazer as coisas irem embora. Rike baixou os olhos para a pedra. — Que tipo de coisas? — perguntou. — Qualquer coisa que queira ferir você — falou Bast tranquilamente. — Você pode manter em seu bolso ou pode pegar um pedaço de barbante... — Isso vai fazer meu pai ir embora? — interrompeu Rike. Bast franziu a testa. — Foi isso que eu disse. Você tem o sangue dele. Então isso vai afastá-lo com mais força do que o restante. Provavelmente você vai querer andar com isso ao redor do pescoço, então... — E quanto a um urso? — perguntou Rike e fitou a pedra pensativo. — Será que ele faria um urso me deixar em paz? Bast fez um gesto para a frente e para trás com a mão. — Criaturas selvagens são diferentes — falou. — Elas são possuídas por puro desejo. Não querem machucar você. Normalmente querem comida ou segurança. Um urso iria... — Posso dar para a minha mãe? — Rike interrompeu mais uma vez, erguendo o olhar para Bast. Seus olhos escuros estavam sérios. — ...querer proteger seu terr... O quê? — Bast gaguejou até parar. — Minha mãe é quem devia ficar com ele — falou Rike. — E se eu estiver fora com o pingente e meu pai voltar para casa? — Ele vai mais longe do que isso — retrucou Bast, e sua voz estava cheia de certeza. — Ele não vai ficar se escondendo na esquina da ferraria... A expressão no rosto de Rike era decidida agora, seu nariz de boxeador fazendo com que ele parecesse ainda mais teimoso. O garoto balançou a cabeça. — Ela devia ficar com ele. Ela é importante, e tem que cuidar de Tess e da pequena Bip. — Isso vai funcionar bem... — Tem que ser para ELA! — gritou Rike, e sua mão se fechou num punho ao redor da pedra. — Você falou que podia ser para uma pessoa, então faça isso para ela! Bast encarou o garoto com expressão séria e sombria. — Não gosto do seu tom — falou, desanimado. — Você me pediu para deixar o seu pai longe. E é isso que estou fazendo... — Mas se não for o bastante? — O rosto de Rike estava vermelho. — Será — disse Bast, esfregando distraído o polegar nos nós dos seus dedos. — Ele vai para bem longe. Você tem a minha palavra... — NÃO! — berrou Rike, com o rosto vermelho e raivoso. — E se mandar meu pai para longe não for suficiente? E se eu crescer como ele? Eu fico tão... — Sua voz falhou, e os olhos começaram a verter lágrimas. — Eu não sou bom. Eu sei. Sei melhor do que ninguém. Como você falou. Eu tenho o sangue dele em mim. Ela precisa ficar a salvo de mim. Se eu crescer deformado e mau, ela precisa do pingente para... ela precisa de alguma coisa para me fazer ficar lon... Rike cerrou os dentes, incapaz de continuar. Bast esticou a mão e segurou o ombro do garoto. Ele estava tenso e rígido como uma tábua de madeira, mas Bast o recompôs e pôs os braços ao redor dos ombros de Rike. Delicadamente, porque ele tinha visto as costas do garoto. Eles ficaram de pé ali por um longo momento, Rike tenso e rígido como a corda de um arco e tremendo como uma vela ao vento. — Rike — chamou Bast baixinho —, você é um bom garoto, sabia? Então o garoto se curvou, afundando contra Bast, e parecia que os soluços iam parti-lo ao meio. Ele apertou o rosto contra a barriga de Bast e falou alguma coisa, que soou abafada e desconexa. Bast fez um som baixo de murmúrio do tipo que se usa para acalmar um cavalo ou tranquilizar uma colmeia de abelhas inquietas. A tempestade passou, Rike se afastou rapidamente e esfregou o rosto com força na própria manga. O céu estava começando a se tingir de vermelho com o pôr do sol. — Muito bem — falou Bast. — Está na hora. Vamos fazer para a sua mãe. Você vai ter que dar a ela. A pedra do rio funciona melhor se for um presente. Rike fez que sim com a cabeça, sem erguer o olhar. — E se ela não usar? — perguntou ele em voz baixa. Bast piscou, confuso. — Ela vai usar porque você deu a ela — falou. — E se não usar? Bast abriu a boca, hesitou e fechou-a de novo. Ergueu o olhar e viu a primeira das estrelas do crepúsculo emergir. Baixou os olhos para o garoto. E suspirou. Não era bom nessas coisas. Não foi difícil, porém. Encantamento era uma segunda natureza. Tratava-se simplesmente de fazer as pessoas verem o que queriam ver. Fazer as pessoas de bobas era tão simples quanto cantar. Enganar e contar mentiras era como respirar. Mas isso? Convencer as pessoas da verdade que elas eram deformadas demais para ver? Como poderia sequer começar? Era uma confusão. Essas criaturas eram frágeis e assustadiças em seu desejo. Uma cobra nunca se envenenaria, mas essas pessoas fizeram disso uma arte. Se enrolavam em seu medo e choravam por sua cegueira. Era enfurecedor. O suficiente para partir um coração. Então Bast tomou o rumo mais fácil. — É parte da magia — mentiu. — Quando você lhe der, tem que dizer que fez para ela porque a ama. O menino pareceu pouco à vontade, como se tentasse engolir uma pedra. — É essencial para a magia — falou Bast com firmeza. — Então, se você quiser tornar a magia mais forte, precisa lhe dizer isso todo dia. Uma vez pela manhã e uma vez à noite. O garoto concordou com a cabeça, com uma expressão determinada no rosto. — Muito bem. Eu posso fazer isso. — Certo, então — falou Bast. — Sente-se aqui. Fure o dedo. Rike fez isso. Furou o dedo gordinho e deixou uma gota de sangue se formar e depois cair sobre a pedra. — Bom — falou Bast, sentando-se de frente para o garoto. — Agora me dê a agulha. Rike entregou a agulha. — Mas você falou que somente precisava... — Não me diga o que eu falei — reclamou Bast. — Segure a pedra reta para que a abertura fique para cima. Rike segurou. — Mantenha firme — falou Bast e furou o próprio dedo. Uma gota de sangue cresceu lentamente. — Não se mova. Rike apoiou a pedra com a outra mão. Bast virou o dedo e a gota de sangue pendeu no ar por um momento antes de cair diretamente através do buraco e bater na pedra cinzenta abaixo. Não se ouviu som algum. Nenhuma agitação no ar. Nenhum relâmpago distante. Na melhor das hipóteses, era como se tivesse havido meio segundo de perfeito silêncio pesado no ar. Mas provavelmente não foi nada mais que uma breve pausa no vento. — É isso? — perguntou Rike após um instante, evidentemente esperando algo mais. — Isso — falou Bast, e lambeu o sangue do dedo com uma língua muito vermelha. Depois mexeu um pouco a boca e cuspiu a cera que tinha mastigado. Girou-a entre os dedos e entregou ao garoto. — Esfregue isso na pedra, depois leve-a para o topo da montanha mais alta que puder encontrar. Fique lá até o último raio de sol desvanecer e então dê à sua mãe à noite. Os olhos de Rike dispararam pelo horizonte, em busca de um bom morro. Então ele pulou da pedra e saiu correndo. Bast estava na metade do caminho de volta à Marco do Percurso quando percebeu que não fazia ideia de onde estavam as cenouras. Quando Bast chegou à porta dos fundos, pôde sentir o cheiro de pão e cerveja, além do de caldo fervente. Olhou ao redor, na cozinha, e viu migalhas sobre a tábua de pão e a tampa fora da chaleira. O jantar já tinha sido servido. Com passos leves, aproximou-se da porta o salão e espiou por ela. As pessoas de sempre se sentavam curvadas no bar; lá estavam o velho Cob e Graham, raspando as tigelas. O aprendiz de ferreiro passava o pão dentro da tigela, depois, enfiava na boca um pedaço de cada vez. Jake espalhava a manteiga na última fatia de pão e Shep batia educadamente o fundo da caneca vazia contra o bar; o som oco, uma pergunta em si mesma. Bast irrompeu salão adentro com uma tigela cheia de caldo para o aprendiz de ferreiro enquanto o hospedeiro servia mais cerveja a Shep. Bast pegou a tigela vazia e desapareceu novamente dentro da cozinha, então voltou com outra fatia de pão fumegante. — Adivinha o que foi que eu ouvi hoje? — falou o velho Cob com o sorriso de um homem que sabe que tem as notícias mais recentes à mesa. — O quê? — perguntou o rapaz com a boca cheia até a metade de caldo. Cob esticou a mão e pegou a ponta do pão, um direito que ele reivindicava como a pessoa mais velha ali, apesar de não ser realmente o mais velho e de mais ninguém se importar tanto assim com aquela parte. Bast suspeitava que ele pegava porque tinha orgulho de ainda ter tantos dentes na boca. Cob sorriu. — Adivinha — falou ele para o rapaz, depois lentamente espalhou manteiga no pão e deu uma grande mordida. — Imagino que seja alguma coisa sobre Jessom Williams — falou Jake casualmente. O velho Cob o encarou com expressão severa e a boca cheia de pão com manteiga. — O que eu ouvi — falou Jake com voz arrastada e sorrindo ao mesmo tempo que o velho Cob tentava furiosamente mastigar até esvaziar a boca — foi que Jessom estava ficando sem rotas de armadilhas e foi atacado por um puma. Então, enquanto ele estava fugindo, perdeu a direção e foi até o Rio Pequeno. E se meteu numa encrenca terrível. O velho Cob finalmente conseguiu engolir. — Você é burro como uma porta, Jacob Walker. Não foi isso que aconteceu, de jeito nenhum. Ele caiu no Rio Pequeno, mas não havia um puma. Pumas não atacam um homem adulto. — Atacam se o homem estiver com cheiro de sangue — insistiu Jake. — E Jessom cheirava a sangue porque estava guardando suas coisas. Ouviu-se um murmúrio de concordância nesse momento, o que irritou o velho Cob. — Não era um puma — insistiu ele. — O homem estava tão bêbado que mal podia ficar de pé. Foi o que eu ouvi dizer. Bêbado, cambaleando e perdido. É a única verdade nisso. Porque o Rio Pequeno não ficava nem perto das armadilhas. A menos que vocês achem que o puma o perseguiu por quase dois quilômetros... Nesse momento, o velho Cob recostou-se na cadeira, arrogante. Todos sabiam que Jessom bebia um bocado. E, embora o Rio Pequeno não ficasse mesmo a dois quilômetros da terra dos Williams, era uma distância grande demais para ser perseguido por um puma. Jake encarou o velho Cob maliciosamente, mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, Graham interrompeu: — Também ouvi dizer que foi a bebida. Uns garotos o encontraram enquanto brincavam nas cascatas. Pensaram que ele estava morto e correram para chamar a polícia. Mas ele apenas tinha batido a cabeça e estava bêbado como um gambá. Havia todo tipo de vidro quebrado também. Ele se machucou um pouco. O velho Cob ergueu as mãos no ar. — Ora, não é uma maravilha?! — falou, olhando de cara feia para Graham e Jake. — Alguma outra parte da minha história que vocês gostariam de contar antes que eu acabe? Graham parecia decepcionado. — Eu pensei que você tinha... — Eu não acabei — disse Cob, como se falasse com alguém simplório. — Eu estava contando aos poucos. Juro. O que vocês não sabem sobre contar histórias caberia num livro. Um silêncio tenso desceu sobre os amigos. — Eu tenho novidades também — falou o aprendiz de ferreiro quase com timidez. Ele estava sentado ligeiramente curvado no bar, como se ficasse envergonhado por ser muito mais alto que todos os outros e duas vezes mais largo. — Se é que ninguém mais soube da história, isso sim. Shep falou: — Prossiga, rapaz. Você não tem que pedir. Esses dois trocam farpas há anos. Não estão falando sério. — Ora, eu estava pregando umas ferraduras quando o Martin Maluco entrou — falou o aprendiz. O rapaz balançou a cabeça, impressionado, e tomou um longo gole de cerveja. — Eu só o vi algumas vezes na cidade e esqueci como ele era grande. Não tenho que erguer o olhar para ele, mas ainda acho que ele é maior do que eu. E hoje ele parecia ainda maior porque estava furioso. Cuspia cobras e lagartos. Juro. Parecia alguém que tinha amarrado dois touros raivosos e tinha feito uma camisa com eles! — O aprendiz de ferreiro riu o riso fácil de alguém que tivesse tomado mais cerveja do que estava acostumado. Fez-se uma pausa. — E quais são as novidades? — perguntou Shep gentilmente, cutucando o garoto. — Ah! — exclamou o aprendiz. — Ele veio perguntar ao mestre Ferris se havia cobre suficiente para consertar uma chaleira grande. — O aprendiz abriu bem os braços compridos, e uma das mãos quase bateu no rosto de Shep. — Aparentemente alguém encontrou a destilaria do Martin. — O rapaz se inclinou para a frente, se desequilibrando um pouco, e falou, num sussurro: — Roubou um bocado de bebida e destruiu o lugar. Ele se reclinou na cadeira e cruzou os braços diante do peito, orgulhoso e confiante da história bem contada. Não se ouviu o murmúrio que normalmente acompanhava uma boa fofoca. Ele tomou outro gole de cerveja e, aos poucos, começou a parecer confuso. — Por Tehlu, de qualquer forma — falou Graham, e seu rosto empalideceu. — Martin vai matá-lo por isso. — O quê? — falou o aprendiz. — Quem? — Jessom, seu desprezível — interrompeu Jake. Ele tentou atingir o garoto na parte de trás da cabeça, mas em vez disso teve que mirar no ombro. — O sujeito que ficou bêbado no meio do dia e caiu de um penhasco com um punhado de garrafas. — Achei que tivesse sido um puma — falou o velho Cob com malícia. — Ele bem vai querer que fossem dez pumas quando Martin o pegar — falou Jake, sombrio. — O quê? — O aprendiz deu uma risada. — O Martin Maluco? Ele não bate bem, claro, mas não é mau. Um tempo atrás ele me encurralou e conversou comigo sobre cevada durante duas horas. — Ele deu mais uma risada. — Que era saudável. Que o trigo ia arruinar um homem. Que dinheiro é sujo. Que prende à terra ou uma bobagem dessas. O aprendiz baixou a voz e curvou um pouco os ombros, arregalando os olhos e fazendo uma imitação razoável de Martin Maluco. — Você sabe disso? — falou, fazendo uma voz rouca e correndo os olhos ao redor. — É. Você sabe disso. Está ouvindo o que eu digo? O aprendiz riu de novo, balançando para trás no banquinho. Obviamente já tinha tomado mais cerveja do que deveria. — As pessoas acham que têm que ter medo dos grandões, mas não têm. Eu nunca bati num homem na minha vida. Todos apenas o fitaram. Seus olhos estavam mortalmente severos. — Martin matou um dos cães de Ensal, que latiu para ele — comentou Shep. — Bem no meio da feira. Jogou uma pá como se fosse uma lança. Depois chutou o animal. — Quase matou aquele último padre — falou Graham. — Aquele antes do abade Leoden. Ninguém sabe o porquê. O homem foi até a casa do Martin. Naquela noite, Martin trouxe o abade para a cidade num carrinho de mão e o deixou na frente da igreja. — Ele fitou o aprendiz de ferreiro. — Mas isso foi antes da sua época. Faz sentido você não saber. — Uma vez ele deu um soco num latoeiro — falou Jake. — Um soco num latoeiro?! — berrou o hospedeiro, incrédulo. — Reshi — falou Bast em voz baixa —, o Martin é totalmente maluco. Jake concordou com a cabeça. — Nem o cobrador de impostos vai à casa dele. Parecia que Cob ia gritar de novo com Jake, depois decidiu assumir um tom mais gentil. — Ora, sim — falou. — É verdade. Mas é porque o Martin perdeu o juízo no exército do rei. Oito anos. — E voltou doido feito um cão raivoso — falou Shep. O velho Cob já estava fora de seu banquinho e a meio caminho da porta. — Já conversei o suficiente. Temos que avisar ao Jessom. Se ele puder sair da cidade até o Martin esfriar um pouco a cabeça... — Então... quando ele vai morrer? — perguntou Jake rispidamente. — Lembram-se de quando ele jogou um cavalo pela janela da velha hospedaria porque o atendente não quis lhe dar outra cerveja? — Um latoeiro? — repetiu o hospedeiro, e sua voz não parecia menos chocada do que antes. Fez-se silêncio ao ouvirem o som de passos no alpendre. Todos fitaram a porta e ficaram imóveis feito pedra, a não ser por Bast, que lentamente se aproximou da entrada da cozinha. Os homens deram um imenso suspiro de alívio quando a porta se abriu e revelou o vulto magro e alto de Carter. Ele fechou a porta atrás de si, sem perceber a tensão no cômodo. — Adivinhem quem vai pagar uma rodada de uísque para todo mundo hoje à noite? — gritou animado, depois parou onde estava, confuso pelo cômodo cheio de expressões sombrias. O velho Cob começou a seguir novamente na direção da porta, fazendo um gesto para o amigo acompanhá-lo. — Venha, Carter, vou lhe explicar no caminho. Temos que encontrar Jessom o mais rápido possível. — Vocês vão ter que andar um bocado para encontrá-lo — falou o outro. — Eu o levei até Baden hoje à tarde. Todo mundo no cômodo pareceu relaxar. — Por isso você chegou tão atrasado — comentou Graham, com a voz rouca de alívio. Desabou no banquinho e bateu no balcão com o nó do dedo, fazendo força. Bast serviu-lhe outra cerveja. Carter franziu a testa. — Nem tão tarde assim — resmungou. — Queria ver você ir até Baden e voltar na hora; são mais de sessenta quilômetros... O velho Cob pôs uma das mãos no ombro do homem. — Bah. Não é bem assim — falou, conduzindo o amigo na direção do bar. — Apenas ficamos um pouco assustados. Provavelmente você salvou a vida do maldito e tolo Jessom levando-o para fora da cidade. — O velho olhou-o de esguelha. — Embora eu tenha lhe dito que você não devia se meter na estrada por estes dias... O estalajadeiro pegou uma tigela para Carter, ao passo que Bast saía para cuidar de seu cavalo. Enquanto o homem comia, aos poucos os amigos lhe contavam as fofocas do dia. — Ora, isso explica tudo — falou Carter. — Jessom apareceu fedendo a rum e com jeito de ter apanhado de doze demônios diferentes. Me pagou para levá-lo até a Passagem Férrea e pegou a moeda do rei bem ali. — Carter tomou um gole de cerveja. — Depois me pagou para levá-lo direto a Baden. Não quis parar em casa nem para pegar roupas ou coisa assim. — Não precisa de nada disso — falou Shep. — Eles vão vesti-lo e alimentá-lo no exército do rei. Graham soltou um grande suspiro. — Foi por pouco. Vocês podem imaginar o que aconteceria se o juiz fosse atrás do Martin? Todos ficaram em silêncio por um instante, imaginando a encrenca que seria se um oficial da Lei da Coroa fosse atacado aqui na cidade. O aprendiz de ferreiro olhou ao redor. — E quanto à família de Jessom? — perguntou, evidentemente preocupado. — Será que o Martin vai atrás deles? Os homens no bar balançaram a cabeça ao mesmo tempo. — O Martin é louco — falou o velho Cob —, mas não é desse tipo. Não é de ir atrás de mulher nem de crianças. — Ouvi dizer que ele socou um latoeiro que estava se engraçando com a jovem Jenna. — Isso é verdade — disse o velho Cob baixinho. — Eu vi. Os homens no salão se viraram para fitá-lo, surpresos. Eles tinham conhecido Cob a vida toda e ouvido todas as suas histórias. Mesmo a mais entediante das histórias tinha sido contada três ou quatro vezes ao longo dos anos. A ideia de que ele poderia ter escondido algo era... bem... era quase impensável. — Ele estava ficando todo saliente com a jovem Jenna — falou Cob, sem erguer os olhos da cerveja. — E na época ela era mais jovem ainda, sabem. — O velho fez uma pausa, depois suspirou. — Mas eu já era velho e... bem... sabia que o latoeiro me daria uma surra se eu tentasse impedi-lo. Dava para ver isso bem claro em seu rosto. — O homem suspirou novamente. — Não tenho orgulho disso. Cob ergueu o olhar com um sorrisinho malicioso. — Então Martin dobrou a esquina — falou ele. — Isso foi atrás da casa do velho Cooper, lembram? E Martin olhou para o homem e para Jenna, que não estava chorando nem nada, mas que obviamente também não estava feliz. E o latoeiro segurou o pulso dela... Cob balançou a cabeça. — Quando Martin o acertou, foi como um martelo batendo num presunto. Jogou o homem no meio da rua. Três metros, mais ou menos. Depois Martin encarou Jenna, que nesse momento chorava um pouco. Mais surpresa que qualquer outra coisa. E Martin meteu a bota nele. Apenas uma vez. Nem foi com tanta força. Dava para ver que ele apenas estava acertando as contas, em sua cabeça. Como se fosse um usurário enchendo um dos pratos da balança. — Esse homem não era um latoeiro decente — falou Jake. — Eu me lembro dele. — E eu ouvi coisas sobre aquele padre — emendou Graham. Alguns dos outros homens assentiram com a cabeça sem dizer uma única palavra. — E se Jessom voltar? — perguntou o aprendiz de ferreiro. — Ouvi dizer que algumas pessoas enchem a cara, pegam a moeda do rei, depois se acovardam e fogem do exército quando ficam sóbrias. Todo mundo pareceu considerar aquilo. Não era uma ideia difícil de acreditar para qualquer um deles. Um grupo de guardas do rei percorrera a cidade no mês passado e pregara um aviso anunciando uma recompensa pelos desertores. — Por Tehlu, de qualquer maneira — falou Shep, sombrio, dentro da caneca quase vazia. — Isso não seria uma grande confusão real? — Jessom não vai voltar — falou Bast para encerrar. Sua voz tinha um tom de certeza que fez com que todos o fitassem curiosos. O rapaz partiu um pedaço de pão e colocou na boca antes de perceber que era o centro das atenções. Engoliu em seco, constrangido, e fez um gesto amplo com as duas mãos. — O que foi? — perguntou-lhes, dando risada. — Vocês voltariam se soubessem que o Martin está esperando? Ouviu-se um coro de resmungos negativos e cabeças que balançavam. — Tem que ser um tipo especial de idiota para destruir a destilaria do Martin — falou o velho Cob. — Talvez oito anos sejam suficientes para Martin esfriar um pouco a cabeça — falou Shep. — Não é provável — retrucou Jake. Mais tarde, depois que os fregueses foram embora, Bast e o hospedeiro se sentaram na cozinha e prepararam o próprio jantar com as sobras do caldo e metade de um pão. — Então o que foi que você aprendeu hoje, Bast? — indagou o homem. Bast abriu um sorrisão. — Hoje, Reshi, eu descobri onde Emberlee toma banho! O homem inclinou a cabeça, pensativo. — Emberlee? A filha dos Alard? — Emberlee Ashton! — Bast ergueu os braços no ar e fez um ruído exasperado. — É a terceira garota mais bonita num raio de trinta quilômetros, Reshi! — Ah — falou o hospedeiro, e um sorriso honesto se esboçou em seu rosto pela primeira vez naquele dia. — Você tem que me mostrar a moça. Bast sorriu. — Vou levar você amanhã — falou ansioso. — Não sei se ela toma banho todos os dias, mas vale o risco. Ela é doce como creme e tem ancas largas. — Seu sorriso aumentou para proporções maliciosas. — Ela é uma ordenhadeira, Reshi — falou enfatizando o final. — Uma ordenhadeira. O hospedeiro balançou a cabeça, embora seu próprio sorriso se abrisse no rosto. Finalmente, ele começou a dar risadas e ergueu a mão. — Você pode me mostrar uma hora em que ela esteja vestida — falou enfaticamente. — Isso vai servir. Bast deu um suspiro de desaprovação. — Se você saísse um pouco, isso lhe faria muito bem, Reshi. O homem deu de ombros. — É possível — falou enquanto mexia ociosamente seu caldo. Eles comeram em silêncio por um longo tempo. Bast tentou pensar em algo para dizer. — Eu peguei as cenouras, Reshi — falou Bast enquanto terminava seu caldo e retirava o restante da chaleira com uma concha. — Antes tarde do que nunca, suponho — falou o hospedeiro com voz indiferente e sombria. — Vamos usá-las amanhã. Bast se remexeu na cadeira, envergonhado. — Acho que eu as perdi depois — falou obedientemente. Isso fez com que Reshi desse outro sorriso cansado. — Não se preocupe, Bast. — Seus olhos se estreitaram então, concentrando-se na mão com que o rapaz segurava a colher. — O que foi que aconteceu com a sua mão? Bast baixou os olhos para os nós dos dedos da mão direita; eles não sangravam mais, mas tinham arranhões feios. — Eu caí de uma árvore — respondeu o rapaz. Não mentiu, mas também não respondeu a pergunta. Era melhor não mentir. Mesmo cansado e desanimado, seu mestre não era homem fácil de enganar. — Você devia ser mais cuidadoso, Bast — falou o hospedeiro, remexendo a comida desanimado. — E, com o pouco que há para fazer aqui, seria bom se você passasse um pouco mais de tempo estudando. — Eu aprendi um monte de coisas hoje, Reshi — protestou Bast. O homem sentou-se ereto, parecendo mais atento. — Sério? — falou. — Então me impressione. Bast pensou por um instante. — Nettie Wiliams encontrou uma colmeia selvagem hoje — contou. — E ela conseguiu pegar a rainha... 

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