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sábado, 20 de fevereiro de 2016

SD 85

C A P Í T U L O 6

 FAZIA muito tempo que Rayford Steele não se embriagava. Irene nunca foi muito chegada a bebidas e tinha se tornado abstêmia nos últimos anos. Ela insistia com ele para que escondesse qualquer bebida forte que tivesse em casa. Não queria que Raymie sequer soubesse que seu pai ainda bebia. —Isto é desonesto — contra-atacava Rayford. — É prudente — dizia ela. Ele ainda não sabe de muita coisa, nem precisa saber. — O que dizer daquela sua sarcástica insistência para que sejamos inteiramente sinceros? — Dizer toda a verdade nem sempre signiϐica dizer tudo o que fazemos. Você diz à sua tripulação que vai fazer uma pausa para ir ao banheiro, mas não entra em detalhes sobre o que vai fazer lá, não é mesmo? — Irene! — Estou apenas dizendo que você não deve tornar óbvio para seu ϐilho pré-adolescente que você usa bebida alcoólica. Ele achou que não devia contrariá-la e resolveu guardar seu bourbon num lugar alto, escondido. Se alguma vez houve um momento propıć io para um drinque forte, seria este. Ele esticou o braço, passou a mão atrás de uma tampa de bolo na prateleira mais alta acima da pia e puxou uma garrafa contendo quase um litro de uıś que. Seu desejo era virar toda a bebida pura garganta abaixo e embriagar-se totalmente. Porém, mesmo num momento como aquele, havia tradições e bons costumes. Embriagar-se, bebendo diretamente da garrafa, não era seu estilo. Rayford despejou cerca de quatro dedos de uıś que num copo reto e de boca larga e bebeu tudo num único gole, como um alcoólatra. A necessidade de embriagar-se era grande demais, porém não condizia com seu caráter. A bebida desceu pela garganta queimando tudo pelo trajeto, causando-lhe um arrepio de frio que o fez tremer e gemer. Que tolo!, pensou ele. E acima de tudo com o estômago vazio. Ele já estava sentindo tontura quando recolocou a garrafa na mesa. Depois pensou melhor e a colocou na lata de lixo embaixo da pia. Seria isto uma homenagem a Irene, abandonando, mesmo ocasionalmente, uma bebida forte? Não haveria nenhum benefıć io para Raymie agora, mas, de qualquer modo, ele não achava correto beber sozinho. Seria ele capaz de tornar-se um embriagado secreto? Quem não é?, perguntou a si mesmo. Apesar de tudo, ele não ia morrer por causa do que tinha acontecido. O sono de Rayford havia sido profundo, mas não muito longo. Ele tinha umas poucas tarefas imediatas. Primeiro, precisava ligar para Chloe. Segundo, precisava saber o que a PanContinental desejava dele na próxima semana. Pelos regulamentos normais ele teria de permanecer em terra após um vôo demasiado longo e por ter feito um pouso de emergência reordenado. Mas quem sabia o que estava acontecendo agora? Quantos pilotos eles tinham perdido? Quando as pistas seriam desobstruıd́ as? E quanto aos vôos programados? Ele sabia muito bem que a preocupação das empresas aéreas girava em torno de resultados ϐinanceiros. Assim que suas aeronaves pudessem voar novamente, elas voltariam a ser lucrativas. Bem, a Pan-Continental tinha sido boa para ele. Ele permaneceria lá e faria a sua parte. Mas o que poderia fazer acerca desta angústia, deste desespero, desta dor corrosiva? Finalmente, ele passou a compreender por que as famıĺias enlutadas se queixavam quando o corpo de um parente estava mutilado demais para ser reconhecido ou tinha sido completamente destruído. Elas costumavam dizer que não fazia sentido alguém lacrar o caixão, sem permitir que o corpo fosse visto, e que o sofrimento se tornava maior porque era difıć il aceitarem a idéia de que a pessoa tinha morrido. Isto sempre pareceu estranho para ele. Que motivos teria alguém para desejar ver o corpo da esposa ou do ϐilho estendido num caixão à espera do funeral? Não seria melhor recordar deles vivos e felizes como eram? Mas ele agora compreendia melhor. Não havia dúvida de que sua esposa e ϐilho desapareceram como se tivessem morrido, conforme aconteceu com os pais dele anos antes. Irene e Ray não voltariam, e Rayford não tinha certeza se os veria novamente um dia, por não saber se haveria uma segunda oportunidade para chegar a esse lugar chamado céu. Ele queria pelo menos ter tido a possibilidade de encontrar seus corpos — na cama, num caixão, em qualquer lugar. Daria o que pudesse em troca de ver, num relance que fosse, seus corpos, seus rostos. EƵ claro que isto não os traria de volta, mas talvez não se sentisse agora tão abandonado, tão vazio. Rayford sabia que as comunicações telefônicas entre Illinois e a Califórnia só voltariam ao normal depois de muitas horas, talvez dias. Apesar disso, precisaria tentar. Ele discou para Stanford, chamando o número principal da administração, e não ouviu sequer o sinal de ocupado ou uma mensagem gravada. Ligou então para o dormitório de Chloe. Também não teve sucesso. A cada meia hora, ele apertava a tecla de rediscagem. Não alimentava a esperança de que ela atendesse; se o fizesse, seria uma surpresa maravilhosa. Rayford estava faminto e reconhecia que teria sido melhor não ingerir aquela quantidade de bebida com o estômago vazio. Subiu de novo as escadas, entrando no quarto de . Raymie para pegar a pequena pilha de roupas, a ϐim de guardá-las como recordação do garoto. Colocouas numa caixa de papelão para presentes que encontrou no guarda-roupa de Irene. Depois colocou em outra caixa a camisola de Irene; o medalhão e a aliança foram guardados numa caixa menor. Ele levou as caixas para a sala, com os dois doces que ela havia despachado pelo correio para ele. O resto da fornada dos doces devia estar em algum lugar da cozinha ou da copa. Ele os encontrou numa tigela no guarda-louça. O aroma e o paladar dos doces o fariam com que se lembrasse dela até que terminassem. Rayford pegou dois doces da tigela, colocou-os num pratinho de papelão ao lado dos que já havia recebido, e despejou leite num copo. Sentado à mesa da cozinha, perto do telefone, ele sentiu que teria de fazer esforço para alimentar-se. Parecia paralisado. Precisando manter-se ocupado, apagou da secretária eletrônica as mensagens recebidas e regravou a sua. "Aqui fala Rayford Steele. Por favor, deixe um recado curto. Estou tentando manter esta linha livre para minha ϐilha. Chloe, se for você, estarei dormindo ou em algum outro cômodo da casa, por isso insista até eu atender. Se não for possıv́ el conversarmos por algum motivo, faça o que puder e venha para casa. Qualquer companhia de aviação debitará a passagem em minha conta. Amo você." Em seguida, comeu os doces, cujo cheiro e gosto lhe traziam imagens de Irene na cozinha, e o leite fazia-o sentir saudade do ϐilho. A situação estava se tornando muito penosa, insuportável. Rayford estava exausto, e, além disso, não queria subir as escadas outra vez. Sabia que teria de fazer força para dormir em sua cama naquela noite. Por ora, ϐicaria estendido num diva da sala de estar esperando a ligação de Chloe. Como um autômato, apertou novamente a tecla de rediscagem. Desta vez, ouviu o sinal de ocupado, o que já signiϐicava alguma coisa. Naquele momento, as linhas estavam se restabelecendo. Era um bom sinal. Ele sabia que Chloe estava pensando nele, enquanto ele pensava nela. Mas Chloe não tinha nenhuma idéia do que podia ter acontecido à sua mãe e ao seu irmão. Teria ele de dizer isto à ϐilha por telefone? Receava que sim. Ela certamente perguntaria. Rayford foi se arrastando até o diva e deitou-se, com soluços na garganta, mas não acompanhados de lágrimas. Elas pareciam ter secado. Se Chloe ouvisse apenas a mensagem e resolvesse vir para casa, ele poderia pelo menos dizer isto a ela frente a frente. Continuou angustiado, sabendo que a televisão estaria reproduzindo, incessantemente, imagens que ele não queria ver de tragédia e destruição no mundo todo. De repente, sentiu-se fortalecido. Sentou-se ϐitando estático a escuridão através da vidraça. Era seu dever não falhar com Chloe. Ele a amava, e ela era tudo o que lhe restara. Os dois teriam de descobrir por que desprezaram o que Irene tentou dizer-lhes, por que resistiram tanto a aceitar e crer. Acima de tudo, ele unha de estudar, aprender, estar preparado para o que viesse a acontecer dali em diante. Se os desaparecimentos foram um ato de Deus, seria aquilo o ϐim de tudo? Os cristãos, os crentes verdadeiros, foram levados, e os restantes foram deixados para aϐligir-se, lamentar e reconhecer seu erro? Talvez sim. Talvez fosse esse o preço. Mas, então, o que acontece quando morremos?, pensou. Se o céu é uma realidade, se o Arrebatamento foi um fato, o que isto queria dizer quanto ao inferno e ao Juízo? É este o nosso destino? Viveremos este inferno de tristeza e arrependimento e, depois, iremos também literalmente para o inferno? Irene sempre falava de um Deus amoroso, porém até mesmo o amor e a misericórdia de Deus haviam de ter limites. Todos os que não aceitaram a verdade ϐizeram com que Deus chegasse ao seu limite? Não havia mais misericórdia, nenhuma nova oportunidade? Talvez não houvesse, e, se não houvesse, . que assim fosse. Mas, se houvesse opções, se houvesse ainda um meio de encontrar a verdade e crer ou aceitar, ou tudo mais que Irene disse, Rayford estava disposto a descobrir. Estaria ele, então, admitindo que não sabia essas coisas? Que tinha conϐiado em si mesmo e que agora se considerava estúpido, fraco e imprestável? Talvez. Após toda uma vida de realizações, de superações, de ser melhor do que a maioria e o máximo em muitos cıŕ culos, ele foi tão humilhado quanto era possível por um único golpe. Havia tanta coisa que ele não conhecia, tanta coisa que não compreendia. Mas, se ainda houvesse respostas, ele as encontraria. Não sabia a quem perguntar ou por onde começar, mas isto era algo que ele e Chloe poderiam fazer juntos. Eles sempre se entenderam bem. Ela se tornara independente, um comportamento tıṕ ico da adolescência, mas nunca ϐizera qualquer coisa estúpida ou irreparável, até onde ele sabia. Na verdade, sempre foram muito amigos; ela se parecia muito com ele. Foi tão-somente a idade e a inocência de Raymie que haviam permitido que sua mãe o inϐluenciasse daquele modo. Ele não tinha aquela intrepidez, aquela determinação que Rayford considerava necessária para vencer no mundo real. Raymie não era efeminado, mas Rayford se preocupava com a possibilidade de ele se tornar o ϐilhinho da mamãe — muito compassivo, sensıv́ el e ansioso. Raymie estava sempre querendo assemelhar-se a outrem, ao passo que Rayford achava que o filho devia ser o número um. Quão agradecido estava ele agora pelo fato de Raymie se parecer mais com a mãe do que com o pai. E como desejou naquele momento que Chloe tivesse recebido um pouco dessa inϐluência materna. Chloe tinha o espıŕ ito competitivo, auto-suϐiciente, alguém que precisava ser convencida e persuadida. Podia ser bondosa e generosa quando a coisa era condizente com seu propósito, mas agia como o pai, com independência. Belo trabalho, manda-chuva, disse Rayford a si mesmo. A garota de quem estava tão orgulhoso por ser parecida com você está na mesma situação. Isto, ele decidiu, teria de mudar. Tão logo conversassem, a situação mudaria. Eles estariam numa missão — a busca da verdade. Se ele estava muito atrasado, teria de aceitar e conviver com isso. Ele sempre fora uma pessoa que perseguia um alvo e aceitava as conseqüências. Só que desta vez as conseqüências eram eternas. Acima de tudo, ele esperava que houvesse outra chance para conhecer a verdade. O único problema era que os que conheciam a verdade se foram. O hotel na Rua Washington, a poucos quilômetros do pequenino aeroporto Waukegan, era muito ordinário para ter uma lista de espera. Buck Williams ϐicou agradavelmente j surpreso por não terem aumentado a diária em razão dos recentes acontecimentos. Quando viu o quarto, entendeu o porquê e ϐicou se perguntando como podia uma espelunca daquela sobreviver. Pelo menos, tinha telefone, chuveiro, uma cama e televisão. Exausto como estava, aquilo era suportável. A primeira coisa que Buck fez foi chamar seu voice mail em Nova York. Não havia nada de novo, por isso chamou a mensagem arquivada de Dirk Burton, que lembrava a Buck como considerava importante sua viagem a Londres. Buck a digitou em seu laptop enquanto ouvia: Cameron, você sempre me diz que esse centro de mensagem é conϐidencial. Espero que esteja certo. Não vou nem me identiϐicar, mas você sabe quem sou. Permita-me dizer-lhe algo importante que o faça vir aqui o mais depressa possível. O figurão, o maior, seu compatriota, que eu chamo de poder supremo da corretagem internacional, encontrou-se outro dia com aquele que chamo de grandalhão. Você sabe de quem estou falando. Havia um terceiro no encontro. Tudo o que sei é que ele é da Europa, provavelmente da Europa Oriental. Não sei quais são os planos dos dois para ele, mas aparentemente deve ser alguma coisa muito importante. Minhas fontes dizem que seu amigo se encontrou com cada um de seu pessoal-chave e com esse tal europeu em lugares diferentes. Ele o apresentou ao pessoal da China, Vaticano, Israel, França, Alemanha, daqui e dos Estados Unidos. Algo está sendo engendrado, que não quero nem mesmo insinuar, a não ser pessoalmente. Venha ver-me o mais rápido que puder. Caso não seja possıv́ el, deixe-me apenas mencionar isto: Dê uma olhada nas notıć ias sobre a ascensão ao poder de um novo lıd́ er na Europa. Se você achar, como eu acho, que não há eleições programadas nem mudanças iminentes de poder, vai ter uma surpresa. Venha logo, amigo. Buck telefonou para Ken Ritz e deixou um recado na secretária eletrônica dizendo onde estava. Depois tentou ligar para o oeste mais uma vez e ϐinalmente conseguiu. Buck ϐicou surpreso e aliviado ao ouvir a voz de seu pai, embora ele aparentasse estar cansado, desanimado, mas nem um pouco apavorado. — Estão todos bem aí, papai? — Nem todos. Jeff estava aqui comigo, mas resolveu pegar o carro para ver se pode chegar ao lugar do acidente em que Sharon foi vista pela última vez. — Acidente? — Ela estava levando os ϐilhos a um retiro ou coisa parecida, alguma coisa a ver com a igreja que ela freqüentava. A verdade é que ela nunca chegou lá. O carro capotou. Não havia sinais dela, a não ser as roupas, e você sabe o que , isto significa. — Ela sumiu? — EƵ o que parece. Jeff não aceita isso. Ele está totalmente confuso. Quer ver com os próprios olhos. O problema é que as crianças também sumiram, todas elas. Todos os seus amigos, todos os que se encontravam nesse retiro nas montanhas. A polıć ia encontrou todas as roupas das crianças, cerca de cem mudas, e alguma espécie de lanche para a noite queimando no fogão. — Puxa! Diga a Jeff que estou pesaroso. Se ele quiser conversar comigo, estou aqui. — Não creio que ele queira conversar, Cameron, a menos que vocêtenha respostas para este acontecimento. — Isto é uma coisa que ainda não entendi, papai. Não conheço ninguém que tenha uma explicação. Meu pressentimento é que os que teriam as respostas se foram. — Isto é terrível, Cam. Gostaria que você estivesse aqui conosco. — Aposto que sim. — Você está sendo sarcástico? — Apenas dizendo a verdade, papai. EƵ a primeira vez que o senhor me convida para ir até aí. — Este é o tipo de momento em que talvez tenhamos de mudar nosso modo de pensar. — No meu caso? Duvido. — Cameron, não vamos entrar nesta questão, certo? Pense só uma vez em outra pessoa que não em vocêmesmo. Vocêperdeu uma cunhada, uma sobrinha e um sobrinho ontem, e seu irmão nunca conseguirá superar isso. Buck arrependeu-se do que disse. Por que ele sempre falava o que não devia, especialmente agora? Seu pai estava certo. Se Buck ao menos pudesse admitir isso, talvez eles conseguissem se entender. Ele ϐicou ressentido com a famıĺia desde que foi para a faculdade, depois de sua façanha de conseguir estudar numa universidade famosa. No lugar de onde ele veio, os ϐilhos deviam seguir o negócio dos pais. O trabalho de seu pai era transportar petróleo para o Estado onde morava, principalmente de Oklahoma e Texas. Era um trabalho espinhoso, porque os moradores dali achavam que os recursos tinham de vir do próprio Estado. Jeff começou a trabalhar com o pai, de inıć io no escritório, depois dirigindo caminhão, e agora administrando as operações do dia-a-dia. Os ânimos acirraram, principalmente quando a mãe de Cameron adoeceu na época em que ele estava estudando fora. Ela insistiu que o ϐilho permanecesse na faculdade, mas, quando ele não visitou a famıĺia no Natal por motivos ϐinanceiros, o pai e o irmão nunca o perdoaram. Sua mãe morreu enquanto ele estava fora, e seu pai e irmão o trataram com frieza no funeral. Houve alguma melhora nos relacionamentos com o correr do tempo, principalmente porque sua famıĺia gostava de exaltá-lo e sentir-se orgulhosa, uma vez que ele se tornou conhecido como um fenômeno no ramo jornalıśtico. Ele achava que o passado estava enterrado, mas ressentia-se do fato de passar a ser bem-vindo só porque se tornara famoso. Por isso, raramente os visitava. Havia muitos ressentimentos para superar e chegar a uma reconciliação completa, mas ele ainda sentia ódio de si mesmo por abrir velhas feridas quando sua famıĺia estava sofrendo. — Se houver algum tipo de culto ou cerimônia in memoriam, vou tentar chegar até aı,́ papai. Está bem assim? — Você vai tentar? — Isto é tudo o que posso prometer. O senhor pode imaginar como estão as coisas no Semanário neste momento. É desnecessário dizer que esta é a reportagem do século. — Você escreverá a reportagem da capa? — Vou ter muita coisa para escrever, sim. — Mas e a capa? Buck suspirou, repentinamente cansado. Não era para menos, uma vez que ϐicou acordado quase 24 horas. — Não sei, papai. Reuni um grande número de fatos. Meu palpite é que na próxima edição haverá muita coisa a dizer sobre o que aconteceu no mundo inteiro. EƵ improvável que a minha reportagem seja a única a cobrir o assunto. Talvez eu seja designado para um trabalho muito importante daqui a duas semanas. Ele esperava ter satisfeito seu pai. Queria desligar o telefone e dormir um pouco, mas não desligou. — O que quer dizer isso? Qual é a reportagem? — Oh! Vou reunir material de várias fontes sobre as teorias acerca dos desaparecimentos. — Será um grande trabalho. Todos aqueles com quem converso têm uma idéia diferente. Você sabe que seu irmão está receoso de que isto tenha sido o Juıź o Final de Deus ou alguma coisa parecida? — Ele acha? — Sim. Mas eu não penso assim. — Por que não, papai? — realmente Buck não queria entrar numa longa discussão, mas isto o surpreendeu. — Porque perguntei ao nosso pastor. Ele disse que, se Jesus Cristo levou as pessoas para o céu, ele, eu, você e Jeff também teríamos ido. Faz sentido. — Faz? Nunca fui chegado a religião. — Para o inferno você não vai. Você está sempre envolvido nessa bobagem liberal da Costa Leste. Você sabe muito bem que o levamos à igreja e à Escola Dominical desde quando era um bebê. Você é tão cristão como qualquer um de nós. Cameron quis dizer: "EƵ exatamente isso que me intriga." Mas não disse. Foi a falta de sintonia entre a participação de sua famıĺia na igreja e o modo de vida de cada um que o levou a deixar a igreja definitivamente no dia em que fez sua escolha. — Sim, bem, diga ao Jeff que estou pensando nele, ta? Caso consiga acomodar as coisas aqui, irei até aí para ajudá-lo a decidir o que fazer sobre Sharon e as crianças. Buck estava satisfeito porque aquele hoteleco tinha pelo menos bastante água quente para um demorado banho. Ele só se lembrou do incômodo latejar atrás da cabeça quando a água quente escorreu sobre ela e removeu a atadura. Ele não dispunha de nada para repor o curativo, por isso deixou escorrer um pouco de sangue e, em seguida, conseguiu um pouco de gelo. Pela manhã, procuraria uma atadura, somente para esconder a ferida. Por ora, deixaria como estava. Doíam-lhe os ossos de cansaço. O televisor não dispunha de controle remoto, e ele não queria levantar-se depois de estar acomodado. Ligou a televisão num som baixo, de modo que não interrompesse seu sono, e teve uma visão geral dos fatos antes de adormecer. As imagens do mundo inteiro estavam além do que ele podia suportar, mas notıć ia era seu negócio. Ele se lembrava dos muitos terremotos e guerras da última década e das coberturas noturnas que eram tão comoventes. Agora presenciava um acontecimento milhares de vezes maior, e tudo no mesmo dia. Nunca na História tantas pessoas morreram num único dia como aquelas que simplesmente desapareceram de repente. Foram mortas? Estavam mortas? Voltariam? Buck não podia afastar os olhos da tela, pesados como estavam, enquanto uma seqüência de imagens exibia os desaparecimentos ϐilmados em casa. De alguns paıś es, vinham tomadas proϐissionais de shows de televisão ao vivo; num deles, o microfone do apresentador caiu em cima de suas roupas vazias e escorregou sobre os sapatos, produzindo um ruıd́ o ao rolar no chão. A platéia gritava. Uma das câmeras tomou uma cena panorâmica da multidão, que estava ocupando toda a capacidade do auditório momentos antes. Agora vários lugares estavam vazios, as roupas soltas ao acaso sobre o assento e no chão. Ninguém poderia produzir uma cena como esta, Buck pensou, fechando vagarosamente os olhos carregados de sono. Se alguém tentasse vender um roteiro sobre milhões de pessoas desaparecendo, deixando tudo para trás, menos seus corpos, seria ridicularizado. Buck só percebeu que estava dormindo quando um telefone barato tocou tão estrepitosamente como um chocalho, quase caindo do criado-mudo. Ele tateou no escuro para erguer o fone. — Queira desculpar o incômodo, Sr. Williams, mas enquanto o senhor estava usando o telefone, ligou uma pessoa chamada Ritz. Ele disse que o senhor pode chamá-lo ou simplesmente esperar por ele lá fora às seis da manhã. — Está bem, obrigado. — O que o senhor vai fazer? Telefonar para ele ou encontrá-lo à entrada do prédio? j — Por que você precisa saber? — Oh! Não estou querendo ser intrometido. EƵ que o senhor vai sair daqui às seis horas e preciso do pagamento adiantado. O senhor fez uma ligação interurbana. E eu não me levanto antes das sete. — Vou lhe dizer o que... Ah! Qual é o seu nome? — Mack. — Vou lhe dizer o que fazer, Mack. Deixei com vocêo número de meu cartão de crédito, por isso você sabe que não vou sair sorrateiramente daqui. Amanhã cedo, deixarei um cheque de viagem no quarto para você, cobrindo o preço da diária e um tanto mais do que o necessário para a ligação interurbana. Você entendeu? — Uma gorjeta? — Sim, senhor. — Beleza. — Preciso que você me faça o seguinte: ponha por baixo da porta uma atadura. — Tenho uma. Precisa dela agora? O senhor está bem? — Estou bem. Não preciso dela agora. Quando você for dormir. Por favor, desligue meu telefone, a tıt́ ulo de precaução, ta? Se tenho de acordar tão cedo, preciso de um bom sono a partir de agora. Você pode cuidar disso para mim, Mack? — Claro que posso. Vou desligar o telefone agora. O senhor quer que alguém o chame de manhã? — Não, obrigado — disse Buck, sorrindo quando percebeu que o telefone estava mudo em sua mão. Mack era tão bom quanto sua palavra. Se encontrasse a atadura de manhã, poderia deixar para Mack uma boa gorjeta. Buck fez um esforço para levantar-se, desligou a televisão e apagou a luz. Ele era do tipo que olhava para o relógio antes de pôr a cabeça no travesseiro e despertava na hora exata que havia programado. Era quase meia-noite. Ele estaria em pé às cinco e meia. Foi só acomodar-se e desmaiar de sono. Até cinco horas e trinta minutos mais tarde, ele não havia movido um músculo sequer. Rayford sentia-se como um sonâmbulo, enquanto se arrastava pesadamente sobre o piso da cozinha em direção à escada. Ele não podia acreditar que estivesse ainda tão cansado depois de seu longo sono e de seu cochilo providencial no diva. O jornal ainda estava enrolado e envolto por um elástico no assento de uma cadeira, onde foi jogado. Se ele tivesse qualquer problema para dormir no pavimento superior, talvez desse uma olhada no jornal. Seria interessante ler as notıć ias sem sentido de um mundo que não sabia que sofreria o pior trauma de sua história apenas umas poucas horas depois de o jornal ter sido impresso. Rayford apertou o botão da rediscagem e afastou-se lentamente em direção à escada, escutando mal daquela distância. O que era aquilo? O ruıd́ o de discar tinha sido interrompido, e o telefone do dormitório de Chloe estava chamando. Ele pegou rapidamente o telefone, e uma voz de mulher atendeu. — Chloe? — perguntou Rayford. — Não. Sr. Steele? -Sim! — Aqui fala Amy. Chloe está tentando encontrar um meio de ir para casa. Ela tentará ligar para o senhor durante a viagem, a qualquer momento amanhã. Se não conseguir, ligará quando chegar aí ou tomará um táxi até sua casa. — Ela já saiu daí? — Sim. Não quis esperar. Ela tentou ligar várias vezes, mas... — Sim, eu sei. Obrigado, Amy. Você está bem? — Morrendo de medo, como todo mundo. — Posso imaginar. Você perdeu alguém? — Não, e sinto uma espécie de culpa a este respeito. Parece que cada pessoa que conheço perdeu alguém. Bem, perdi alguns poucos amigos, mas ninguém muito próximo, nenhum familiar. Rayford não sabia se devia congratular-se com ela ou demonstrar tristeza. Se isto fosse o que ele agora acreditava, esta pobre criatura mal conhecia alguém que tivesse sido levado para o céu. — Bem — disse ele -, estou contente em saber que você está bem. — E o senhor? — perguntou ela. — E a mãe e o irmão de Chloe? — Receio que tenham ido, Amy. — Oh! Não! — Mas gostaria que você nada dissesse a Chloe, se ela se encontrar com você antes de chegar aqui ou me telefonar. — Não se preocupe. Acho que não diria nada, mesmo que o senhor me pedisse. Rayford ϐicou deitado vários minutos, depois, lentamente, foi virando as páginas do primeiro caderno do jornal. Hum. Uma surpresa na Romênia. Eleições democráticas tornaram-se obsoletas quando, com o aparente consenso unânime do povo, da assembléia e do senado, um jovem homem de negócios e polıt́ ico popular assumiu o posto de presidente do paıś . Nicolae Carpathia, de 33 anos, nascido em Cluj, provocou nos últimos meses uma reviravolta na nação com seu discurso popular e persuasivo, encantando a população, os amigos e também os inimigos. As reformas que ele propôs para o paıś foram a causa de sua proeminência e poder. Rayford olhou a fotograϐia do jovem Carpathia, um loiro surpreendentemente charmoso que se parecia com Robert Redford quando jovem. Será que ele teria desejado o posto, se soubesse o que estava para acontecer? Pensou Rayford. Seja o que for que ele tenha a oferecer, não valerá nada agora.

C A P Í T U L O 7

 KEN Ritz chegou ao hotel precisamente às seis horas, baixou o vidro da porta e perguntou: — Você é Williams? — Sim — respondeu Buck, entrando em seguida numa van com tração nas quatro rodas, último modelo, com sua única bagagem. Ajeitando com os dedos a atadura em sua cabeça, Buck sorriu imaginando Mack se deleitando com seus vinte dólares extras. Ritz era alto e magro, tinha o rosto marcado pelo tempo e um topete grisalho. — Vamos ao trabalho — disse ele. — São 1.190 km entre O'Hare e Kennedy e 1.200 km de Milwaukee a Kennedy. Vou levá-lo o mais perto possıv́ el do aeroporto Kennedy, e estamos no meio do caminho entre O'Hare e Milwaukee, portanto vamos usar a média de 1.195 km. Multiplicamos isto por US$ 1,25 e chegamos a 1.494 dólares. Arredondamos para 1.500 pelo serviço de táxi, e negócio fechado. — De acordo — disse Buck, puxando seu talão de cheques e começando a assinar. — Que corrida de táxi cara! Ritz deu uma risada. — Especialmente para alguém que dormiu neste lugar. — Foi agradável. Ritz parou diante de um barracão metálico pré-fabricado no aeroporto Waukegan e puxou conversa enquanto trabalhava na preparação do vôo. — Nunca houve desastre neste aeroporto — disse ele. -Aconteceram dois em Palwaukee. Mas perdemos aqui duas pessoas da equipe. Mais do que fatídico, não acha? Buck e Ritz relataram casos de perda de parentes, onde estavam quando o fato aconteceu, e os nome dos desaparecidos. — Nunca transportei um jornalista — disse Ken. — Em vôo fretado, quero dizer. Devo ter levado muitos de seus colegas quando eu pilotava vôos comerciais. — Ganha mais trabalhando por conta própria? — Sim, mas não sabia quando mudei do comercial para o fretado. Não foi minha escolha. Começaram a subir a bordo do jatinho. Buck encarou-o. — Foi afastado da profissão? — Não se preocupe, sócio — disse Ken. — Vou levá-lo até lá. — O senhor tem a obrigação de me dizer se foi afastado. — Fui despedido. Há uma diferença. — Depende do motivo por que foi despedido, não acha? — Tem razão. Mas o motivo deve fazer você sentir-se bem. Fui despedido por ser muito cuidadoso. E essa agora? — Conte-me como foi — atalhou Buck. — Lembra-se de um bom tempo atrás quando havia aquele bate-boca sobre aviões muito velhos que caíam quando fazia muito frio? — Sim, até que fizeram alguns acertos ou coisa parecida. — Certo. Lembra-se de um piloto que se recusou a voar, mesmo depois de ter sido forçado a fazê-lo, e o público foi tranqüilizado com a conversa de que aquele fato era explicável ou um mero acaso? — Hã-hã. — E lembra-se de que houve outro acidente logo depois, que provava que o piloto tinha razão? — Vagamente. — Bem, lembro-me perfeitamente como se fosse hoje, porque você está olhando para o próprio. — Sinto-me melhor. — Você sabe quantos daqueles modelos antigos de avião estão operando hoje? Nenhum. Quando alguém está certo, está certo. Mas fui readmitido? Não. Uma vez encrenqueiro, sempre encrenqueiro. Muitos de meus colegas, porém, ϐicaram agradecidos. E algumas viúvas de pilotos ficaram revoltadas por eu ter sido relegado. Foi tarde para seus maridos. — Que pena! Enquanto o jatinho zumbia em direção ao leste, Ritz quis saber o que Buck pensava dos desaparecimentos. — EƵ singular sua pergunta — disse Buck. — Vou começar a trabalhar seriamente no assunto hoje. O que o senhor leu sobre isso? E se importaria se eu ligasse um gravador? — Tudo bem — disse Ritz. — A coisa mais terrıv́ el que vi. Certamente não sou o único que pensa assim. Devo dizer que sempre acreditei em discos voadores. — O senhor está brincando! Um piloto dotado de bom senso, cônscio da segurança? Ritz meneou a cabeça. — Não estou falando de pequenos homens verdes ou dos alienıǵ enas do espaço que raptam pessoas. Estou falando de coisas mais documentadas, vistas por astronautas e também por alguns pilotos. — Chegou a ver alguma coisa? — Não. Bem, um par de coisas inexplicáveis. Algumas luzes ou miragens. Uma vez achei que estivesse voando muito perto de uma esquadrilha de helicópteros. Não muito distante daqui. Posto Aeronaval Glenview. Mandei um aviso de alerta pelo rádio, e em seguida sumiram de vista. Suponho que isto é explicável. Talvez eu estivesse voando mais rápido do que devia e não estivesse tão perto deles como pensava. Mas nunca tive uma resposta, nenhuma conϐirmação, nem mesmo de que eles estivessem no espaço aéreo. Glenview não conϐirmou isso. Esqueci o caso, mas algumas semanas depois, perto do mesmo lugar, meus instrumentos ficaram malucos. Os ponteiros dos mostradores girando desordenadamente, os medidores paralisados, esse tipo de coisa. — O que achou disso? — Campo magnético ou alguma força semelhante, o que também seria explicável. Você sabe que não faz sentido relatar ocorrências estranhas ou visões perto de uma base militar, porque eles rejeitam isso de imediato. Eles nem mesmo levam a sério qualquer coisa estranha num raio de muitos quilômetros de distância de um aeroporto comercial. EƵ por isso que você nunca ouve relatos de discos voadores perto de O'Hare. Nem tomam conhecimento. — EƵ por isso que o senhor não engole esse negócio de raptos feitos por alienıǵ enas do espaço, porém relaciona os desaparecimentos aos discos voadores? — Não estou falando de ETs ou de outras criaturas. Penso que nossas idéias sobre a aparência fıś ica dos seres do espaço são muito simples e rudimentares. Se é que existe vida inteligente fora daqui, e eu acho que deve existir, por causa dos fatos extraordinários evidentes... — O que o senhor quer dizer? — A vastidão do espaço. — Ah! sim, tantas estrelas e tanto espaço sugerindo que . alguma coisa existe em algum lugar. — Exatamente. Concordo com as pessoas que pensam que aqueles seres são mais inteligentes do que nós. De outro modo, não teriam conseguido nada aqui, se é que de fato estiveram aqui. E, se estiveram aqui, ϐico achando que eles são soϐisticados e avançados demais para fazer coisas com as quais nunca sonhamos. — Como fazer pessoas desaparecerem instantaneamente de dentro de suas roupas. — Isto parecia ser uma idéia ridícula até aquela noite, não é mesmo? Buck balançou a cabeça em sinal de concordância. — Eu sempre ridicularizei as pessoas que admitiam que esses seres podiam ler nossos pensamentos ou penetrar em nossas mentes, e outras bobagens — continuou Ritz. — Mas quem está faltando? Todas as pessoas que eu conheci ou de quem ouvi falar tinham menos de 12 anos ou eram muito especiais. — O senhor acha que todas as pessoas que desapareceram e esses seres, digamos assim, tinham alguma coisa em comum? — Bem, eles têm alguma coisa em comum agora, você não diria? — Mas eles foram desintegrados com mais facilidade? — perguntou Buck. — É o que penso. — Por isso, estamos ainda aqui porque fomos bastante fortes para resistir, ou talvez porque não valíamos o transtorno. Ritz assentiu. — Algo assim. É quase igual a uma força ou poder capaz de conhecer o nível de resistência ou fraqueza, e, uma vez que essa força penetrasse nas pessoas, seria capaz de retirá-las da terra. Elas desapareceram num instante, portanto tiveram de ser desmaterializadas. Pergunto se foram destruídas no processo ou poderiam ser reconstituídas. — O que acha, Sr. Ritz? — A princıṕ io diria não. Mas uma semana antes eu teria dito a você que milhões de pessoas do mundo inteiro desaparecendo no ar, desfazendo-se, sumindo, seria como um ϐilme de ϐicção. Quando admito que o fato realmente aconteceu, tenho de admitir a lógica que vem depois. Talvez eles estejam em algum lugar especıϐ́ico, adquiriram um novo corpo e talvez possam retornar. — Esta idéia é confortadora — disse Buck. — Mas isto é mais do que desejar que aconteça? — De modo nenhum. Essa idéia somada a 50 cents é igual a meio dólar. Eu trabalho por dinheiro. Não tenho a chave do mistério. Estou ainda tão chocado quanto a próxima pessoa que vou encontrar, e não me importo de lhe dizer que estou morrendo de medo. — De quê? — De que possa acontecer outra vez. Se foi alguma coisa como penso que foi, talvez tudo o que essa força precisa fazer agora é procurar inϐiltrar o poder de algum modo nas pessoas e, assim, levar os velhos, os mais experientes, pessoas com mais resistência que ficaram por aqui. Buck levantou os ombros em sinal de dúvida e permaneceu em silêncio por alguns minutos. Finalmente, disse: — Há um pequeno furo em seu argumento. Sei de pessoas que estão faltando e que aparentemente eram muito fortes. — Não estava falando de força física. — Nem eu — Buck pensou em Lucinda Washington. — Perdi uma amiga e colega que era brilhante, saudável, determinada e de personalidade forte. — Bem, não estou dizendo que sei todas as coisas ou mesmo alguma coisa. Você queria minha opinião. Aqui está ela. Rayford Steele deitou-se de costas, olhando para o teto. O sono era agitado e intermitente. Desagradava-lhe aquela sensação de torpor. Ele não queria inteirar-se das notıć ias, mesmo sabendo que haveria um novo jornal na varanda antes do alvorecer. Tudo o que queria era que Chloe chegasse para que pudessem chorar juntos. Não havia nada, concluiu, mais desolador do que o sofrimento pela perda de alguém. Ele e sua ϐilha tinham também trabalho para fazer. Ele queria investigar, aprender, saber, agir. Começou pela procura da Bıb́ lia, não a Bıb́ lia da famıĺia que ϐicou acumulando poeira na prateleira por muito tempo, mas a de Irene. A dela continha anotações, talvez algo que lhe apontasse a direção certa. Não seria difıć il encontrá-la. Estava costumeiramente ao alcance do braço, do lado em que ela dormia. Ele a encontrou no chão, junto a seu leito. Teria ela alguma orientação? Um ıń dice? Alguma coisa que se referisse ao Arrebatamento, ao Juıź o ou a alguma coisa do gênero? Se não, talvez fosse melhor começar pelo ϐim. Se Gênesis signiϐicava "começo", talvez Apocalipse [que signiϐica revelação] tivesse alguma coisa a ver com o ϐim, muito embora a palavra não dissesse isto. O único versıć ulo da Bıb́ lia que Rayford podia citar de memória era Gênesis 1.1: "No princıṕ io, criou Deus os céus e a terra." Ele esperava que houvesse algum versıć ulo correspondente no ϐim da Bıb́ lia que dissesse algo como: "No ϐim Deus levou todo o seu povo para o céu e deu a todos os demais uma nova oportunidade." Mas frustrou-se. O último versıć ulo da Bıb́ lia não signiϐicava nada para ele. Dizia: "A graça do Senhor Jesus seja com todos." E isto lembrou-lhe as palavras do ritual religioso que ouviu na igreja. Ele saltou para o versıć ulo anterior e leu: "Aquele que dá testemunho destas coisas diz: 'Certamente venho sem demora. Amém. Vem, Senhor Jesus." Agora ele estava chegando a algum lugar. Quem teria testemunhado essas coisas, e o que signiϐicavam? As palavras citadas estavam em vermelho. O que isso queria dizer? Ele procurou por todos os lados da Bıb́ lia e então notou na lombada os dizeres: "Palavras de Cristo em vermelho." Então Jesus disse que viria sem demora. Será que Ele tinha vindo? E se a Bıb́ lia era tão antiga, como parecia, o que ela queria dizer com "sem demora"? Talvez essa expressão não significasse logo, a menos que fosse interpretada por alguém com uma longa visão da História. Talvez Jesus tenha sugerido que, quando chegasse o momento de vir, viria sem demora. Teria sido isto o que aconteceu? Rayford leu o último capıt́ ulo inteiro. Três outros versıć ulos estavam em letras vermelhas, e dois deles repetiam a questão sobre a vinda sem demora. Rayford não entendeu bem o contexto do capıt́ ulo. Pareceu-lhe velho e formal. Porém, perto do ϐim, havia um versıć ulo que terminava com palavras que exerceram um estranho impacto sobre ele. Sem nenhuma indicação de seu sentido, ele leu: "Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida." Não teria sido Jesus aquele que estava sedento. Não teria sido Ele quem desejava receber a água da vida. Isso, Rayford admitiu, referia-se ao leitor. As palavras mexeram com ele, que estava sedento, com a alma sedenta. Mas o que era a água da vida? Ele já havia pago um preço muito alto por não ter entendido seu signiϐicado. O que quer que fosse, estava naquele livro por centenas de anos. Rayford folheou a Bıb́ lia ao acaso procurando outras passagens. Nenhuma delas fazia sentido para ele. Ficou desanimado, porque as passagens não ϐluıá m paralelamente, e não havia relação entre uma e outra para servir de orientação. A linguagem e os conceitos não o ajudavam porque lhe eram estranhos. Aqui e ali, ele via anotações nas margens com a letra delicada de Irene. AƱs vezes, ela escrevia: "Precioso." Ele estava determinado a estudar e encontrar alguém que pudesse explicar-lhe aquelas passagens. Sentia-se tentado a escrever "precioso" ao lado daquele versıć ulo de Apocalipse sobre beber de graça a água da vida. O versıć ulo soava-lhe precioso, embora ainda não pudesse avaliá-lo com mais clareza. O pior de tudo é que ele temia estar lendo a Bıb́ lia tarde demais. Era também tarde demais para ter ido para o céu com sua esposa e seu ϐilho. Mas era realmente tarde demais e ponto final? Junto à capa da frente estava o boletim da igreja do último domingo. Mas que dia era hoje? Manhã de quarta-feira. Onde ele estava três dias antes? Na garagem. Raymie pedira-lhe que fosse com eles à igreja. Ele prometeu que iria no domingo seguinte. "Vocêdisse a mesma coisa na semana passada", Raymie retrucara. "Você quer que eu conserte seu carrinho ou não? Não tenho todo o tempo do mundo." Raymie não era do tipo que costumava forçar situações. Ele apenas conϐirmou: "No próximo domingo?" "Certamente", tinha dito Rayford. E agora desejava que . no próximo domingo ele estivesse aqui. Desejava mais do que nunca que Raymie estivesse aqui porque iria com ele. Iria? Será que estaria fora naquele dia? E haveria culto no domingo? Alguém da congregação ϐicou? Ele puxou o boletim de Irene dentro da Bıb́ lia e fez um cıŕ culo em torno do número do telefone. Mais tarde, depois de conϐirmar junto à Pan-Continental, ele telefonaria para o escritório da igreja para obter informações. Rayford estava para colocar a Bıb́ lia sobre o criado-mudo quando ϐicou curioso e abriu a primeira página em branco para ler a dedicatória. Ele tinha dado aquela Bıb́ lia a Irene em seu primeiro aniversário de casamento. Como podia ter esquecido isso, e o que ele tinha em mente quando lhe deu aquela Bıb́ lia? Ela não era mais devotada do que ele naquela época, mas manifestava o desejo sério de freqüentar a igreja antes que os ϐilhos viessem. Ele tinha encontrado um motivo para impressioná-la. Talvez tivesse pensado que ela o julgaria um homem espiritual por ter-lhe dado um presente como aquele. Talvez tivesse esperança de que ela o liberasse e fosse à igreja sozinha, se provasse, por meio do presente, que tinha sensibilidade espiritual. Durante anos, ele tolerou a igreja. Eles freqüentavam uma que exigia pouco e oferecia muito. Fizeram muitos amigos e ali descobriram seu médico, dentista, agente de seguro, e até adquiriram tıt́ ulo de sócio do clube de campo daquela igreja. Rayford era prestigiado, apresentado com orgulho como capitão-aviador de um 747 aos crentes novos e visitantes, e chegou a atuar no conselho da igreja durante vários anos. Quando Irene descobriu a estação de rádio cristã, que ela chamava de "pregação e ensino verdadeiros", acabou se desencantando com aquela igreja e começou a procurar outra. Isto deu a Rayford a oportunidade de deixar a igreja de vez, dizendo a Irene que, quando encontrasse uma de que realmente gostasse, começaria a freqüentar novamente. Ela encontrou uma, e ele tentou freqüentá-la ocasionalmente, mas a igreja era uma muito literal, pessoal e desaϐiadora para ele. Ele não era paparicado. Sentiu-se deslocado e se afastou. Rayford observou outra anotação com a letra de Irene. Tratava-se de uma lista de orações, e o nome dele estava em primeiro lugar. Ela escreveu: "Rafe — orar por sua salvação e para que eu seja uma esposa amorosa para ele. Chloe -para que ela aceite a Cristo e viva com pureza. Ray Jr. — que nunca se desvie de sua forte fé como criança." Em seguida, ela mencionava o pastor da igreja, lıd́ eres polıt́ icos, missionários, conflito mundial, vários amigos e parentes. "Por sua salvação", sussurrou Rayford. "Salvação." Palavra-chave repetida em outras igrejas pequenas mas que nunca o impressionara. Ele sabia que a nova igreja de Irene estava interessada na salvação de almas, algo que ele jamais tinha ouvido nas igrejas anteriores. Porém, quanto mais ele assimilava o conceito, mais indigno se sentia. A salvação não tinha alguma coisa a ver com conϐirmação, batismo, testemunho, religiosidade, santidade? Ele nunca teve vontade de se envolver nisso, fosse o que fosse. E agora estava desesperado para saber exatamente o que ela significava. Ken Ritz comunicou-se por rádio com os aeroportos nos arredores de Nova York e conseguiu permissão para pousar em Easton, Pensilvânia. — Se vocêtiver sorte, poderá cruzar com Larry Holmes -disse Ritz. — Aqui é território dele. — O velho lutador de boxe? Ele continua lutando? Ritz encolheu os ombros. — Não sei qual é sua idade, mas você pode apostar que ele não desapareceu. Quem estivesse levando as pessoas poderia receber um golpe do velho Larry na cara. O piloto perguntou ao pessoal de Easton se alguém podia conseguir uma condução até a cidade de Nova York para seu passageiro. — Você está brincando, não está? — Não tive a intenção, câmbio. — Temos uma pessoa que pode deixá-lo uns três quilômetros do metrô. Carros não estão entrando nem saindo da cidade por enquanto, e mesmo os trens estão fazendo um trajeto confuso e passam por lugares complicados. — Lugares complicados? — aparteou Buck. — Repita, por favor — pediu Ritz por rádio. — Você não leu os jornais? Alguns dos piores desastres na cidade foram causados pelo desaparecimento de maquinistas e ϐiscais. Seis trens foram envolvidos em colisões frontais com numerosas mortes. Vários bateram na traseira de outros. Levará tempo para desimpedir todas as linhas e substituir os vagões. Vocêestá certo de que seu passageiro quer chegar ao centro da cidade? — Positivo. Parece o tipo de pessoa que sabe se virar. — Espero que tenha um bom par de botinas para caminhar. Buck teve de desembolsar mais dinheiro com uma condução que deveria deixá-lo a uma distância razoável da estação e caminhar a pé até lá. O motorista nunca tinha trabalhado na praça, nem o veıć ulo era táxi. Seria bem melhor que fosse. O carro era velho demais e estava em péssimas condições. Após uma caminhada de mais de três quilômetros, ele chegou à plataforma da estação por volta de meio-dia. Depois de esperar mais de 40 minutos no meio de uma multidão compacta, ϐicou sabendo que estava entre os passageiros que teriam de aguardar mais meia hora pelo próximo trem. A viagem em ziguezague levou duas horas para chegar a Manhattan. Durante todo o percurso, Buck digitava em seu laptop ou olhava para fora da janela o congestionamento que se estendia por vários quilômetros. Ele imaginava que muitos colegas de Nova York já teriam apresentado reportagens semelhantes, portanto sua única esperança de marcar pontos com Steve Plank e ver sua matéria publicada seria se a escrevesse com mais determinação e eloqüência. Estava muito aterrorizado com as cenas que via, e talvez nunca as esquecesse. Na melhor das hipóteses, estaria acrescentando mais dramaticidade às suas recordações. Nova York estava paralisada, e a maior surpresa era que as autoridades permitiam a entrada de mais pessoas na cidade. Sem dúvida, muita gente, como ele, morava ali e precisava voltar para suas casas e apartamentos. O trem foi obrigado a parar um pouco antes do local onde Buck deveria desembarcar. O aviso confuso, o melhor que puderam transmitir diante das circunstâncias, informou aos passageiros que aquela parada seria a última. Se o trem prosseguisse, os passageiros teriam de desembarcar no meio de guindastes que estavam retirando os carros que obstruıá m os trilhos. Buck calculou uma caminhada de quase 25 quilômetros até o escritório e mais oito para chegar a seu apartamento. Felizmente, Buck estava em grande forma. Ele colocou tudo na sacola e encurtou as alças, de modo que pudesse carregá-la mais junto ao corpo, sem balançar. Acertou suas passadas no ritmo de mais ou menos seis quilômetros e meio por hora, e três horas depois sentia-se todo dolorido. Estava certo de ter várias bolhas nos pés, e seu pescoço e ombros doıá m por causa da alça e do peso da sacola. Suas roupas estavam molhadas de suor, mas ele não queria ir direto para seu apartamento antes de passar pelo escritório. Ó, Deus, ajuda-me. Buck tomava fôlego penosamente, mais exasperado do que orando. Mas, se havia um Deus, Ele tinha senso de humor, concluiu. Apoiada num muro de tijolos numa passagem, à vista de todos, estava uma bicicleta amarela com um cartaz preso a ela. Lia-se: "Pegue esta bicicleta. Leve-a aonde quiser. Deixe-a para outra pessoa necessitada. É grátis." Só mesmo em Nova York, pensou ele. Ninguém rouba uma coisa que é grátis. Ele pensou em murmurar uma prece de gratidão, mas o mundo que ele contemplava não lhe mostrou nenhuma evidência de um Criador benevolente. Ele se ajeitou na bicicleta, considerou o longo tempo decorrido desde a última vez que pedalou e começou a cambalear quase caindo até conseguir equilibrar-se. Pouco tempo depois, já estava chegando ao centro da cidade, atravessando um emaranhado de destroços e máquinas demolidoras. Poucas pessoas possuıá m uma condução tão eϐiciente quanto a dele. Só havia carteiros em bicicleta, duas pessoas com bicicletas amarelas iguais à dele e policiais a cavalo. A segurança era rigorosa no edifıć io do Semanário Global, o que, de certo modo, não o surpreendia. Após identiϐicar-se a um novo porteiro no térreo, subiu ao 27° andar, parou no banheiro público para arrumar-se e ϐinalmente entrou nas principais dependências da revista. A recepcionista imediatamente ligou para o escritório de Steve Plank dando a notıć ia. Plank e Marge Potter correram para abraçá-lo e dar-lhe as boas-vindas. Buck Williams foi tocado por uma estranha e nova emoção. Ele quase chorou. Notou que, como a maioria das pessoas, estava suportando um terrıv́ el trauma e não tinha dúvida de que sua adrenalina estava alterada. Mas, de qualquer modo, a volta ao seu território familiar — após tantas despesas e esforço — deu-lhe a sensação de estar em casa, ao lado de pessoas que se importavam com ele. Esta era a sua famıĺia. Estava muito, realmente muito contente de revê- los, e parecia que o sentimento era mútuo. Ele mordeu os lábios tentando disfarçar sua emoção, e quando seguia Steve e Marge pelo corredor, passando diante da porta de sua pequena e atravancada sala a caminho do local de reuniões, perguntou-lhes se já sabiam a respeito de Lucinda Washington. Marge parou no corredor colocando as mãos no rosto. — Sim — disse ela, expressando tristeza e horror. — Perdemos várias pessoas. Onde este sofrimento começa e onde termina? Após ter ouvido isto, Buck descontrolou-se. Não conseguia mais disfarçar, apesar de estar surpreso diante de sua sensibilidade. Steve passou o braço ao redor dos ombros de sua secretária em direção à sala de reunião, onde os outros membros da equipe principal estavam esperando. Eles deram vivas quando Buck entrou na sala. As mesmas pessoas que trabalhavam com ele, que o criticavam e combatiam, que o hostilizavam e irritavam, que estavam sempre querendo passá-lo para trás, agora pareciam sinceramente felizes ao vê-lo. Eles não tinham a mínima idéia de como Buck se sentia. — Rapazes, é bom estar de volta aqui — disse ele. Em seguida, sentou-se e enterrou a cabeça entre as mãos. Seu corpo começou a tremer, e ele não pôde segurar as lágrimas. Começou a soluçar, bem à frente de seus colegas e competidores. Procurou enxugar as lágrimas e se controlar, mas, quando levantou a cabeça, forçando um sorriso embaraçado, notou que todos os outros também estavam emocionados. — Está tudo bem, Buck — disse um deles. — Se esta é a primeira vez que vocêchora, vai descobrir que não será a última. Todos nós estamos tão assustados, atordoados, angustiados e pesarosos quanto você. — Sim — disse outro -, mas seu relato pessoal será sem dúvida mais excitante. — Isto fez com que todos misturassem risos com lágrimas. Rayford lembrou-se de chamar o Centro de Vôos da Pan-Continental no começo da tarde e ficou sabendo que deveria apresentar-se dois dias depois para um vôo na sexta-feira. — Está confirmado? — perguntou ele. — Ainda não temos absoluta certeza — disseram-lhe. — Somente uns poucos aviões vão decolar naquele dia. Certamente não haverá nenhum vôo até amanhã à noite e, talvez, nem mesmo na própria sexta-feira. — Há uma chance de eu receber um aviso antes de sair de casa? — Claro que sim; porém esta é a sua tarefa por enquanto. — Qual é a rota? — ORD para BOS para JFK. — Hum. Chicago, Boston, Nova York. Quando volto? — Sábado à noite. — Ótimo. — Por quê? Tem um encontro? — Nada disso. < — Oh! meu Deus, sinto muito, capitão. Esqueci com quem estava falando. — Você soube o que aconteceu com minha família? — Todos aqui sabem, senhor. Lamentamos. Soubemos disso por intermédio da chefe do serviço de bordo no vôo que não pôde descer em Heathrow. O senhor soube o que houve com seu primeiro co-piloto daquele vôo? — Ouvi alguma coisa, mas até agora não recebi um comunicado oficial. — O que o senhor ouviu? — Suicídio. — Certo. Terrível. — Você pode checar uma informação para mim? — Se estiver ao meu alcance, capitão. — Minha filha está tentando voltar da Califórnia por avião. — Improvável. — Eu sei, mas ela já está a caminho, tentando de qualquer forma. EƵ mais do que provável que ela preferirá voar com a Pan-Continental. Você pode veriϐicar se o nome dela ϐigura em qualquer das listas de passageiros para o leste? — Não deve ser muito difıć il. Há poucos vôos, e o senhor sabe que nenhum avião vai pousar aqui. — E quanto a Milwaukee? — Acho que não — disse, enquanto verificava no computador. — De onde ela vai sair? — De algum lugar perto de Paio Alto. — Não vai dar. — Por quê? — Dificilmente haverá algum vôo vindo de lá. Deixe-me checar. Rayford podia ouvir o homem falando para si mesmo, tentando coisas, sugerindo opções. — Aviação Califórnia para Utah. Ei! Encontrei! Chama-se Chloe e tem seu sobrenome? — É ela! — Ela se apresentou em Paio Alto. A Pan levou-a num ônibus até alguma pista externa. Colocou-a num vôo da Aviação Califórnia para Salt Lake City. Aposto que é a primeira vez que eles voam fora do estado. Ela embarcou num avião da Pan-Continental; oh! eles a levaram a, hum, oh! irmão, Enid, Oklahoma. — Enid? Isso nunca esteve em nossas rotas. — Não estou brincando. As rotas foram desviadas por causa do congestionamento em Dallas. Está voando de Ozark para Springfield, Illinois. — Ozark! — Eu apenas trabalho aqui, capitão. — Bem, alguém está tentando fazer essa coisa funcionar, não está? — Sim, a boa notıć ia é que conseguimos por lá um turbopropulsor ou dois que podem trazê-la para esta área, mas não se sabe onde ela poderá descer. O sinal nem entrou na tela, porque eles só saberão quando o avião estiver bem perto. — Como saberei onde apanhá-la? — O senhor não pode. Estou certo de que ela irá telefonar-lhe quando chegar. Quem sabe? Pode ser que ela simplesmente apareça aí. — Isto seria fantástico. — Bem, sinto muito pelo que o senhor está passando, mas pode dar graças a Deus por ela não ter viajado com a Pan-Continental diretamente de Paio Alto. O último que saiu de lá caiu na noite passada. Não há sobreviventes. — E isso foi depois dos desaparecimentos? — Exatamente ontem à noite. Não tem nada a ver com o fenômeno. — Se isso acontecesse com ela, não teria sido desgraça demais? — comentou Rayford. — Sem dúvida.

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