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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SD 98

C A P Í T U L O 19


Algo muito importante estava sendo tramado. Buck foi encontrar-se com o presidente norte-americano Gerald Fitzhugh em uma reunião secreta. O presidente transformara-se em uma ϐigura trágica, reduzido a uma simples peça decorativa. Depois de ter sido útil a seu paıś por quase dois mandatos na presidência, agora estava relegado a uma suıt́ e no Edifıć io do Poder Executivo e perdera a maior parte da pompa a que tinha direito como presidente. Seu Serviço Secreto atual consistia de três homens, ϐinanciados pela Comunidade Global, que se revezavam a cada vinte e quatro horas. Buck encontrou-se com Fitzhugh logo após ter pedido Chloe em casamento, duas semanas antes da cerimônia. O presidente queixou-se de que seus guarda-costas estavam ali só para que Carpathia tomasse conhecimento de todos os seus movimentos. Porém, na mente de Fitzhugh, o fato mais desolador era o povo norte-americano ter aceitado o rebaixamento do presidente com tanta facilidade. Todos estavam fascinados por Carpathia e não davam importância a mais ninguém. Fitzhugh levou Buck até uma sala onde seu Serviço Secreto não poderia ouvir a conversa. Fitzhugh contou a Buck que havia uma rebelião prestes a eclodir. Pelo menos dois outros chefes de estado acreditavam que chegara a hora de quebrar os grilhões que os prendiam à Comunidade Global. “-Estou arriscando minha vida ao contar isto a um empregado de Carpathia — disse Fitzhugh.” “Ora, todos nós somos empregados de Carpathia — disse Buck.” Fitzhugh conϐidenciou a Buck que o Egito, a Inglaterra e as forças militares patrióticas dos Estados Unidos estavam determinados a tomar uma atitude "antes que fosse tarde demais". “O que isso significa? — perguntou Buck.” “Signiϐica logo — respondeu Fitzhugh. — Signiϐica permanecer longe das principais cidades da costa leste.” “Nova York? Washington? — perguntou Buck, e Fitzhugh assentiu.” “Principalmente Washington.” “Não vai ser fácil — disse Buck. — Minha noiva e eu vamos morar em Nova York depois que nos casarmos.” “Não por muito tempo.” “O senhor tem idéia de quando será?” “Isso eu não posso contar. Digamos que eu devo estar de volta ao Salão Oval dentro de uns dois meses.” Buck queria desesperadamente dizer que Fitzhugh estava sendo um joguete nas mãos de Carpathia. Tudo isso já estava escrito. A rebelião contra o Anticristo seria subjugada e daria inıć io à Terceira Guerra Mundial, que acarretaria fome e pragas em todo o planeta e a exterminação de um quarto da população mundial. A cerimônia dupla de casamento no escritório de Bruce, realizada duas semanas depois, foi a mais particular possıv́ el, contando com a presença de apenas cinco pessoas — os dois casais e o pastor. Bruce Barnes encerrou a cerimônia agradecendo a Deus todos os sorrisos, abraços, beijos e a oração. Buck perguntou se podia conhecer o abrigo subterrâneo que Bruce construıŕ a. — Ele estava começando a ser construído quando me mudei para Nova York — disse Buck. — EƵ o local mais secreto da igreja — disse Bruce enquanto eles passavam pela sala da caldeira e depois pela porta secreta. “Você não quer que os membros da igreja façam uso dele? — perguntou Buck.” “Você vai ver como ele é pequeno — disse Bruce. — Estou incentivando as famıĺias a construıŕ em seus próprios abrigos subterrâneos. Seria o caos se todo o pessoal da igreja viesse para cá num momento de perigo.” Buck surpreendeu-se com o tamanho reduzido do abrigo, mas aparentemente ele continha material de sobrevivência suϐiciente para algumas semanas. O Comando Tribulação não era composto de pessoas que permaneceriam escondidas por muito tempo. Os cinco ajuntaram-se para comparar as programações e discutir quando seria o próximo encontro. Carpathia tinha engendrado um programa minucioso para as próximas seis semanas. Nesse programa, Rayford seria seu piloto numa viagem pelo mundo inteiro, terminando em Washington. Em seguida, Rayford teria alguns dias de folga antes de voltar para a Nova Babilônia. “— Nesse perıó do, Amanda e eu poderemos sair de Washington e vir para cá — ele disse.” Buck disse que ele e Chloe também voltariam para Chicago nessa mesma época. Bruce estaria de volta de uma viagem pela Austrália e Indonésia. Eles marcaram o encontro para as quatro horas da tarde, seis semanas depois. Teriam um estudo bıb́ lico intensivo de duas horas no escritório de Bruce e depois sairiam para jantar em um restaurante qualquer. Antes de partirem, ϐizeram um cıŕ culo de mãos dadas e oraram mais uma vez. — Pai — sussurrou Bruce — nós te agradecemos este breve momento de alegria quando o mundo está à beira de um desastre, e suplicamos tua bênção e proteção sobre todos nós até o momento de nos encontrarmos aqui novamente. Que os nossos corações estejam unidos como irmãos e irmãs em Cristo durante nossa separação. Nicolae Carpathia pareceu emocionar-se ao saber do casamento de Rayford e insistiu em conhecer sua nova esposa. No momento da apresentação, Carpathia cumprimentou-a segurando as duas mãos dela, e conduziu o casal até seus magnıϐ́icos escritórios, que ocupavam o último andar inteiro da sede da Comunidade Global na Nova Babilônia. A suıt́ e também incluıá salas de conferência, aposentos particulares e um elevador até o heliporto. Dali, um dos integrantes da tripulação de Rayford poderia transportar o potentado até a nova pista de pouso. Rayford percebeu que o coração de Amanda batia na garganta. Ela falou pouco e deu um sorriso forçado. Seu encontro com o homem mais maligno da face da terra era uma experiência totalmente nova, embora ela tivesse dito a Rayford que conhecia alguns atacadistas de confecções que se enquadravam nessa categoria. Após algumas brincadeiras bem-humoradas, Nicolae aprovou imediatamente o pedido de Rayford para que Amanda os acompanhasse na próxima viagem aos Estados Unidos para visitar a ϐilha dele e seu novo genro. Rayford não disse quem era o seu genro nem mencionou que os recém-casados estavam morando em Nova York. Disse apenas que ele e Amanda visitariam o casal em Chicago, o que era verdade. — Ficarei em Washington por quatro dias, no mıń imo — disse Carpathia. — Aproveitem esse tempo da melhor maneira que puderem. E agora eu tenho uma novidade para você e sua esposa. — Carpathia retirou um pequenino controle remoto do bolso e apontou-o para o interfone sobre sua mesa, do outro lado da sala. — Querida, você poderia vir até aqui, por favor? Querida? pensou Rayford. Já nem ϔingem mais. Hattie Durham bateu na porta e entrou. — Sim, meu bem? — ela disse. Rayford sentiu-se enojado. Carpathia foi ao encontro de Hattie e abraçou-a delicadamente como se ela fosse uma boneca de porcelana. Hattie virou-se para Rayford. — muito feliz por você e Amélia — ela disse. “— Amanda — corrigiu Rayford, observando o corpo de sua mulher enrijecer. Ele contara a Amanda tudo sobre Hattie Durham, e aparentemente as duas nunca seriam almas gêmeas.” “— Também temos um comunicado a fazer — disse Carpathia. — Hattie vai demitir-se da Comunidade Global para aguardar a chegada de nosso bebê.” Carpathia estava radiante, esperando uma reação de alegria por parte de Rayford e Amanda. Rayford fez o que pôde para não deixar transparecer sua repulsa. “— Um bebê? — ele disse-— Quando será o grande dia?” “— Acabamos de saber da novidade — disse Nicolae, piscando para Rayford.” “— Bem, é uma novidade importante — disse Rayford.” “— Eu não sabia que vocês eram casados — disse Amanda docemente. Rayford esforçouse para manter a compostura. Amanda sabia muito bem que eles não eram casados.” “— Oh, em breve seremos — disse Hattie, radiante. — Ele ainda vai fazer de mim uma mulher honesta.” Chloe ϐicou desolada quando leu o e-mail de seu pai sobre Hattie. “Buck, fracassamos com aquela mulher. Todos nós fracassamos com ela.” “ E eu não sei? — disse Buck. — Eu a apresentei a ele.” “Mas eu a conheço e sei que ela conhece a verdade. Eu estava junto quando papai contou sua história a você, e ela também estava ao redor daquela mesa. Ele tentou, mas precisamos fazer mais do que tentar. Precisamos conversar com ela de alguma maneira.” “E deixá-la saber que sou crente, como seu pai? Para Nicolae, parece que o fato de seu piloto ser cristão não faz nenhuma diferença, mas você pode imaginar por quanto tempo eu ainda trabalharia como editor de sua revista se ele soubesse quem sou?” “Num destes dias temos de falar com Hattie, mesmo que isso signiϐique uma viagem nossa a Nova Babilônia.” “O que vocêpretende fazer, Chloe? Dizer-lhe que ela está carregando no ventre o ϐilho do Anticristo e que deve abandoná-lo?” “Talvez a solução seja essa.” De pé atrás de Chloe e olhando por cima de seus ombros, Buck lia o que ela digitava em resposta ao e-mail de Rayford e Amanda. Os dois casais haviam combinado escrever as mensagens sem mencionar nomes. "Existe alguma possibilidade", escreveu Chloe, "de que ela o acompanhe em sua próxima viagem à capital?" "Nenhuma", foi a resposta recebida no dia seguinte em razão da diferença de fuso horário. A Nova Babilônia estava sete horas na frente. “ Algum dia, de uma forma ou outra — disse Chloe a Buck. — E antes do nascimento do bebê.” Para Rayford, foi difıć il entender a incrıv́ el mudança ocorrida na Nova Babilônia desde a primeira vez que a visitara logo após a assinatura do tratado em Israel. Atribuiu essa mudança a Carpathia e a sua montanha de dinheiro. Das ruıń as, surgira uma magnıϐ́ica cidade, a capital do mundo, que agora fervilhava em matéria de comércio, indústria e transporte. O centro da atividade mundial estava se mudando para o leste, e a terra natal de Rayford parecia destinada a tornar-se obsoleta. Uma semana antes de Rayford e Amanda voarem para Washington junto com Nicolae e sua delegação, Rayford enviou um e-mail para Bruce na Igreja Nova Esperança, dando-lhe as boas-vindas por seu regresso e fazendo algumas perguntas. “Há algumas coisas, ou melhor, muitas, que ainda me intrigam quanto ao futuro. Você poderia nos explicar o quinto e o sétimo?” Rayford não mencionou a palavra selos para não ser detectada por algum intruso. Bruce entenderia o que ele queria dizer. O segundo, o terceiro, o quarto e o sexto dispensam explicações, mas ainda tenho dúvidas quanto ao quinto e ao sétimo. Estamos com saudade de você. "A" está lhe mandando um abraço. Buck e Chloe já estavam instalados na linda cobertura de Buck na Quinta Avenida, porém a alegria que um casal em lua-de-mel normalmente deveria sentir por estar morando em um lugar como aquele não existia para eles. Chloe continuava com suas pesquisas e estudos pela Internet, e ela e Buck mantinham contato diário com Bruce via e-mail. Bruce escreveu queixando-se de solidão e da falta que sentia cada vez mais de sua famıĺia, mas estava feliz por saber que seus quatro amigos haviam encontrado amor e companhia. Todos eles mencionaram que aguardavam ansiosamente o grande momento de estarem juntos novamente na próxima reunião. Buck estava orando e pedindo a orientação de Deus para saber se devia contar a Chloe o alerta que ouvira do presidente Fitzhugh sobre Nova York e Washington. Fitzhugh estava bem assessorado e recebia informações de fontes ϐidedignas, mas Buck não podia passar a vida inteira fugindo do perigo. A vida era arriscada naqueles dias, e a guerra e a destruição poderiam irromper em qualquer lugar. Seu trabalho o havia levado a visitar os locais mais perigosos e arriscados do mundo. Ele não queria pôr a vida de sua esposa em jogo por negligência ou tolice, mas todos os membros do Comando Tribulação conheciam os riscos que corriam. Rayford sentiu-se agradecido por Chloe ter passado a conhecer melhor Amanda por e-mail. Quando Rayford e Amanda começaram a sair juntos, ele havia monopolizado a maior parte do tempo dela e, embora as duas demonstrassem gostar uma da outra, não tinham outros vıń culos, exceto o fato de serem crentes. Agora, com a comunicação diária, Amanda estava ampliando seus conhecimentos sobre a Bıb́ lia com a ajuda de Chloe, que lhe repassava tudo o que estava estudando. Por intermédio de Bruce e Chloe, Rayford encontrou as respostas que queria sobre o quinto e o sétimo selos. Não eram notıć ias agradáveis, mas ele não esperava nada diferente. O quinto selo referia-se ao martıŕ io que os santos da Tribulação sofreriam. Dentro de um pacote seguro, remetido pelo correio, Bruce enviou a Chloe — que o repassou a Rayford — seu estudo criterioso e explicações do trecho extraído do Apocalipse que se referia ao quinto selo. João vê debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Eles perguntam a Deus até quando demoraria seu julgamento e sua vingança pela morte deles. O Senhor lhes dá uma vestidura branca e diz que antes disso alguns de seus servos e irmãos também serão martirizados. Portanto, o quinto Selo do Julgamento custa a vida do povo que se converteu após o Arrebatamento. Isso pode incluir qualquer um de nós ou todos nós. Digo perante Deus que eu consideraria um privilégio dar minha vida por meu Deus e Salvador. A explicação de Bruce sobre o sétimo selo deixou claro que ele ainda era um mistério, mesmo para ele. O sétimo selo é tão terrível que, quando for revelado no céu, haverá silêncio por meia hora. Parece ser uma continuação do sexto selo, o maior terremoto da história, e tem a ϐinalidade de iniciar os sete Julgamentos das Trombetas, que evidentemente tornam-se cada vez piores do que os Julgamentos dos Selos. Amanda tentou resumir as explicações para Rayford: "Vamos enfrentar uma guerra mundial, fome, pragas, morte, o martıŕ io dos santos, um terremoto e, depois, um silêncio no céu, preparando o mundo para os próximos sete julgamentos." Rayford balançou a cabeça e olhou para baixo. — Bruce vem nos alertando sobre isso o tempo todo. Há momentos em que penso que estou preparado para qualquer coisa, mas há outros em que desejo que o fim chegue logo. “Este é o preço que devemos pagar — ela disse — por não termos levado em consideração as advertências quando ainda era tempo. Você e eu fomos alertados pela mesma mulher.” Rayford assentiu. “Olhe aqui — disse Amanda. — A última linha da mensagem de Bruce diz o seguinte: "Consultem seu e-mail na segunda-feira à meia-noite. Para que vocês não ϔiquem tão deprimidos como eu, estou enviando um versículo para confortar seus corações.” Bruce enviara o versıć ulo de modo que os dois casais pudessem lê-lo antes de viajarem para Chicago a ϐim de encontrar-se com ele. O versıć ulo era o seguinte: "Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, descansará à sombra do Onipotente." Rayford remexeu-se na poltrona do piloto, ansioso para conversar com Amanda e saber como ela estava se sentindo no cansativo vôo sem escalas da Nova Babilônia até o Aeroporto Internacional Dulles. Durante a viagem, ela estava passando a maior parte do tempo nos aposentos particulares de Rayford, localizados atrás da cabina, porém havia conversado bastante com o resto da delegação para não parecer rude. Rayford sabia que aquelas conversas não tinham nenhum conteúdo. Alguém já havia feito perguntas a Amanda sobre o negócio de importação/exportação que ela estava iniciando, mas de repente o clima que reinava dentro do Global Community One pareceu mudar. Num dos poucos intervalos para descanso que Rayford tinha passado ao lado de Amanda, ela disse: “— Alguma coisa está acontecendo. Alguém está passando informações a Carpathia pelo computador. Ele as analisa, franze a testa e convoca reuniões acaloradas.” “ Hum! — disse Rayford. — Pode ser alguma coisa ou pode não ser nada.” Amanda deu um sorriso desconfiado. “ Não duvide de minha intuição.” “ Já sei disso.” Buck e Chloe chegaram a Chicago na noite anterior ao dia do encontro programado pelos membros do Comando Tribulação. Hospedaram-se no Drake Hotel e telefonaram para a Igreja Nova Esperança. Deixaram um recado para Bruce, dizendo que haviam chegado e que se encontrariam com ele às quatro horas da tarde do dia seguinte. Por intermédio dos e-mails enviados por Bruce, Buck e Chloe sabiam que ele regressara de sua viagem à Austrália e Indonésia, mas dali em diante não haviam recebido nenhuma outra notícia. Buck e Chloe também haviam enviado um e-mail para Bruce contando que Rayford e Amanda almoçariam no Drake Hotel no dia seguinte, e à tarde os quatro viajariam juntos para Monte Prospect. Ficaríamos muito contentes se você pudesse almoçar conosco no Cape Cod Room, escrevera Buck. Cerca de duas horas depois, enquanto eles ainda aguardavam resposta por e-mail ou por telefone, Chloe disse: “O que você está achando disto?” “Acho que ele vai fazer uma surpresa e almoçar conosco amanhã.” “Espero que você esteja certo.” “Você pode ter certeza.” “Então não será uma surpresa, não é mesmo?” O telefone tocou. — Acabou a surpresa — disse Buck. Deve ser ele. Mas não era. Rayford havia acendido o luminoso com os dizeres Apertem os cintos. Faltavam cinco minutos para a aeronave pousar em Dulles, quando ele recebeu uma mensagem através dos fones de ouvido de um dos engenheiros de comunicação de Carpathia. — O potentado quer conversar com você. — Agora? Já estamos chegando. — Vou perguntar a ele — Alguns segundos depois, o engenheiro voltou a falar. — A conversa vai ser na cabina, só com você, depois que os motores forem desligados. — Há uma lista de equipamentos que devo veriϐicar após o vôo junto com o co-piloto e o navegador. — Aguarde um momento! — disse o engenheiro, demonstrando irritação na voz. Em seguida, voltou a falar: — Depois de desligar os motores, dispense os dois e faça as veriϐicações após a reunião com o potentado. — De acordo — murmurou Rayford. — Se você reconhecer minha voz e quiser conversar comigo, ligue para este telefone público e faça a chamada também de um telefone público. — Entendido — disse Buck, desligando o telefone e virando-se para Chloe. — Preciso sair por alguns minutos. — Por quê? Quem era? — Gerald Fitzhugh. — Obrigado, cavalheiros, e perdoem minha intromissão — disse Carpathia enquanto passava pelo co-piloto e o navegador, entrando na cabina. Rayford sabia que os dois estavam tão aborrecidos quanto ele pela quebra dos procedimentos após o vôo, mas era Carpathia quem mandava. Ele era o chefe. Carpathia acomodou-se na poltrona do co-piloto. Rayford imaginou que além de todos outros dons de Carpathia, provavelmente ele também saberia pilotar um avião a jato numa tarde. — Capitão, achei necessário levar um assunto conϐidencial ao seu conhecimento. Nosso serviço secreto descobriu uma conspiração e estamos sendo forçados a divulgar um falso itinerário para mim nos Estados Unidos. — Rayford assentiu e Carpathia continuou. — Suspeitamos de um envolvimento por parte do exército e até mesmo de um conluio entre as facções norte-americanas descontentes e pelo menos dois outros paıś es. Para maior segurança, estamos confundindo nossas comunicações via rádio e transmitindo notıć ias conϐlitantes à imprensa sobre meu itinerário. — Isso me parece um plano — disse Rayford. — A maioria das pessoas pensa que estarei em Washington por no mıń imo quatro dias, mas agora estamos comunicando que nos próximos três dias também estarei em Chicago, Nova York, Boston e talvez até em Los Angeles. — Quer dizer que minhas curtas férias irão por água abaixo? — perguntou Rayford. — Ao contrário. Mas vou precisar de você a qualquer momento. — Vou mantê-lo informado sobre os locais onde poderei ser encontrado. — Eu gostaria que vocêconduzisse o avião até Chicago e conseguisse um piloto em quem confia para conduzi-lo a Nova York no mesmo dia. — Conheço a pessoa certa — disse Rayford. — Vou chegar a Nova York de um jeito ou de outro, e poderemos sair do paıś de lá. Estamos apenas tentando confundir os conspiradores. — Ei — disse Buck quando o presidente Fitzhugh atendeu após o primeiro toque. — Sou eu. — Estou contente por você não estar em casa — disse Fitzhugh. — O senhor pode dizer-me alguma coisa mais? — Só posso dizer que é bom você não estar em casa. — Entendido. Quando posso voltar para casa? — Isso pode ser problemático, mas você saberá antes de voltar para lá. Há quanto tempo você está longe de casa? — Quatro dias. — Perfeito. Clique. — Alô! Sra. Halliday? — Sim. Quem é...? — EƵ Rayford Steele ligando para Earl, mas por favor não lhe diga que sou eu. Tenho uma surpresa para ele. Na manhã seguinte Buck recebeu uma ligação de uma das senhoras que trabalhavam no escritório da Igreja Nova Esperança. — Estamos um pouco preocupadas com o pastor Barnes — ela disse. — Senhora? — Ele queria fazer uma surpresa. Ia até lá para almoçar com vocês. — Era o que estávamos pensando. — Mas ele pegou uma espécie de virose na Indonésia e tivemos de levá-lo para o prontosocorro. Ele não queria que contássemos a ninguém, porque tinha certeza de que era uma coisa simples e que ainda daria tempo de almoçar com vocês. Mas ele entrou em coma. — Em coma!? — Como eu disse, estamos um pouco preocupadas com ele. — Assim que os Steeles chegarem, vamos vê-lo. Onde ele está? — No Hospital da Comunidade Noroeste em Arlington Heights. — Descobriremos onde fica — disse Buck. Rayford e Amanda encontraram-se com Earl Halliday em O'Hare às dez horas daquela manhã. — Nunca me esquecerei disto, Ray — disse Earl. — Quero dizer, não estarei transportando o potentado nem o presidente, mas posso ϐingir que estou transportando um dos dois. — Eles estão aguardando por você em Kennedy — disse Rayford. — Vou telefonar-lhe mais tarde para saber se você gostou de pilotar a aeronave. Rayford alugou um carro e Amanda respondeu a uma mensagem de Chloe. — Temos de buscá-los e ir direto para Arlington Heights. — Por quê? O que houve? Quando Rayford e Amanda chegaram, Buck e Chloe estavam aguardando na calçada em frente ao Drake. Depois de se abraçarem rapidamente, entraram no carro. — O Hospital da Comunidade Noroeste fica no centro da cidade, correto, Chio? — perguntou Rayford. — Correto. Vamos rápido. Apesar de sua preocupação com Bruce, Rayford sentiu um certo conforto. Voltara a ter uma famıĺia de quatro pessoas, mesmo com uma nova esposa e um novo genro. Eles conversaram sobre a situação de Bruce e contaram as novidades. Apesar de saberem que atravessavam um tempo de grande perigo, resolveram simplesmente apreciar o momento de estarem juntos novamente. Sentado no banco traseiro perto de Chloe, Buck limitava-se a ouvir a conversa. Como era bom estar ao lado de pessoas com quem ele tinha aϐinidades, pessoas que se amavam, preocupavam-se e respeitavam-se mutuamente. Ele não queria sequer pensar em sua família de mente bitolada. Algum dia, talvez, ele convenceria seus familiares de que eles não eram os cristãos que pensavam ser. Se fossem, não teriam sido deixados para trás, como ele. Chloe encostou-se em Buck e segurou a mão dele. Buck estava agradecido por ela ser tão despreocupada, tão sincera em sua devoção a ele. Chloe era a maior dádiva que Deus podia terlhe concedido depois de ser salvo. — O que aconteceu? — ele ouviu Rayford dizer. — Tudo estava indo tão bem. Rayford começou a procurar uma saıd́ a para a estrada de Arlington Heights a noroeste de Tollway. Chloe lhe dissera que o Hospital da Comunidade Noroeste ϐicava perto dali. Mas agora a polıć ia municipal e estadual e um grupo de paciϐicadores da Comunidade Global estavam dirigindo o trânsito caótico e bloqueando as saídas da estrada. Os carros não andavam. Depois de alguns minutos, eles conseguiram avançar um pouco. Rayford abriu o vidro e perguntou a um policial o que estava acontecendo. — Por onde você tem andado, camarada? Não pare, siga em frente. — O que ele estava dizendo? — perguntou Amanda, ligando o rádio. — Quais são as emissoras que dão notícias, Chloe? Chloe afastou-se de Buck e inclinou-se para frente. — Ligue na AM e tente 1, 2 e 3 — ela disse. — Uma dessas deve ser a WGN ou a MAQ. Eles pararam novamente. Desta vez havia um paciϐicador da Comunidade Global bem perto da janela de Buck. Buck abaixou o vidro e exibiu sua credencial do Semanário Comunidade Global. — Que confusão é esta? — A milıć ia apossou-se de uma antiga base Nike para armazenar armas contrabandeadas. Depois do ataque em Washington, nosso pessoal expulsou a milícia de lá. — Ataque em Washington? — disse Rayford, esticando o pescoço para falar com um policial. — Washington, D.C.? — Não pare, siga em frente — disse o policial. — Se você precisar voltar por esta pista saia na Rota 53 e tente as rodovias marginais, mas não queira chegar perto daquela velha base Nike. Rayford continuou a dirigir o carro. No caminho, ele e Buck ϐizeram perguntas a cada policial enquanto Amanda procurava sintonizar uma emissora local. Todas as que ela encontrava levavam ao ar o som do Sistema Transmissor de Emergência. — Ligue no rastreador sintonizador automático — sugeriu Chloe. Finalmente o rádio sintonizou uma emissora da EBS, e Amanda travou o botão. Um correspondente de rádio da CNN/Rede Comunidade Global estava transmitindo ao vivo dos arredores de Washington, D.C. "O destino do potentado da Comunidade Global, Nicolae Carpathia, permanece desconhecido até esta hora, enquanto Washington encontra-se em ruıń as — ele disse. "O ataque em massa partiu da milıć ia da costa leste, com a ajuda da União das Nações Britânicas e do antigo estado soberano do Egito, agora parte do Estado Democrático do Oriente Médio. O potentado Carpathia chegou aqui ontem à noite e deveria ter permanecido na suıt́ e presidencial do Capital Noir, porém há testemunhas dizendo que aquele luxuoso hotel desabou nesta manhã. As forças paciϐicadoras da Comunidade Global imediatamente revidaram, destruindo um antigo centro Nike na região suburbana de Chicago. Notıć ias vindas de lá dão conta de que há milhares de mortos e feridos civis na periferia, e que um gigantesco congestionamento de trânsito está dificultando a chegada do socorro." — Oh, bendito Deus! — orou Amanda. "Outros ataques de que temos conhecimento neste momento", prosseguia o repórter, "incluem uma incursão das forças de infantaria egıṕ cias em direção ao Iraque com a ϐinalidade evidente de sitiar a Nova Babilônia. Esse plano foi rapidamente debelado pelas forças aéreas da Comunidade Global, que agora estão avançando sobre a Inglaterra. Isso talvez seja uma retaliação contra a Inglaterra por ela estar tomando parte na ação da milıć ia norte-americana contra Washington. Por favor, continuem conosco. Ah, aguardem... o potentado Carpathia está salvo! Ele vai falar à nação por intermédio do rádio. Ficaremos à espera aqui e transmitiremos seu pronunciamento assim que recebermos o sinal." — Precisamos chegar até Bruce — disse Chloe, enquanto Rayford avançava lentamente. — Todos estão pegando a 53 norte, papai. É melhor irmos para o sul e fazer o retorno. "Dentro de alguns momentos o potentado Carpathia estará falando à nação", disse o repórter. "Aparentemente a Rede Comunidade Global está tomando providências para que sua transmissão não possa ser rastreada. Enquanto isso, ouçam esta notıć ia de Chicago sobre o ataque à antiga base Nike: Parece ter sido uma retaliação. O serviço secreto da Comunidade Global descobriu hoje um golpe para destruir o avião do potentado Carpathia, que poderia ou não estar viajando nele quando partiu para O'Hare Internacional esta manhã. O avião está no ar, com destino ignorado, embora as forças da Comunidade Global estejam reunidas em Nova York." Amanda segurou com força o braço de Rayford. — Poderíamos ter morrido! Quando Rayford falou, Buck pensou que ele ia sucumbir. — Só espero não ter conseguido realizar o sonho de Earl enviando-o para a morte — ele disse. — Você quer que eu dirija o carro? — perguntou Buck. — Não, estou bem. O locutor prosseguia: "Estamos à espera de um pronunciamento mentiroso, perdão, um pronunciamento ao vivo [Os autores jogam com as palavras lie (mentira) e live (ao vivo), n.t.] do potentado da Comunidade Global, Nicolae Carpathia..." — Pela primeira vez ele falou uma coisa certa — disse Chloe. "...Enquanto aguardamos, ouçam esta notıć ia procedente de Chicago. Os porta-vozes das forças paciϐicadoras da Comunidade Global dizem que a destruição da antiga base Nike foi levada a efeito sem o uso de armas nucleares. Apesar de lamentarem o grande número de mortes de civis na periferia, eles emitiram o seguinte pronunciamento: 'As morte devem ser creditadas ao movimento de resistência da milıć ia. Forças militares subversivas são ilegais, e a insensatez de armazenar armas numa área civil explodiu literalmente na cara deles.' Não há, repetimos, não há perigo de precipitação radioativa na região de Chicago, mas as forças paciϐicadoras não estão permitindo o tráfego de automóveis perto da área destruıd́ a. Por favor, ouçam agora o pronunciamento ao vivo do potentado Nicolae Carpathia." Finalmente Rayford conseguiu encontrar uma saıd́ a em direção ao sul na Rota 53. Fez um retorno passando por uma área restrita apenas a veıć ulos autorizados e seguiu para o norte rumo a Rolling Meadows. "Leais cidadãos da Comunidade Global", soou a voz de Carpathia, "dirijo-me a vocês neste dia com o coração quebrantado, sem ao menos poder dizer-lhes de onde estou falando. Temos trabalhado há mais de um ano para congregar esta Comunidade Global sob a bandeira da paz e da harmonia. Hoje, lamentavelmente, soubemos outra vez que ainda existem pessoas entre nós que desejam a nossa desunião. Não é segredo que sou, tenho sido e sempre serei um paciϐista. Não acredito em guerra. Não acredito em armamentos. Não acredito em derramamento de sangue. Por outro lado, sinto-me responsável por você, meu irmão ou minha irmãdesta aldeia global. As forças paciϐicadoras da Comunidade Global já subjugaram a resistência. Lamento muito a morte de civis inocentes, mas prometo solenemente que todos os inimigos da paz terão julgamento imediato. A bela capital dos Estados Unidos da América do Norte foi devastada e vocês ouvirão mais notıć ias de destruição e morte. Nosso objetivo continua sendo a paz e a reconstrução. Estarei de volta aos escritórios da Nova Babilônia no devido tempo e me comunicarei com vocês com freqüência. Acima de tudo, não tenham medo. Conϐiem que nenhuma ameaça à tranqüilidade mundial será tolerada. Nenhum inimigo da paz sobreviverá." Enquanto Rayford procurava um caminho que o levasse próximo ao Hospital da Comunidade Noroeste, o correspondente da CNN/Rede Comunidade Global voltou a falar. "Uma notıć ia de última hora: As forças militares da Comunidade Anti-Global ameaçaram dar inıć io a uma guerra nuclear sobre Nova York, principalmente sobre o Aeroporto Internacional Kennedy. Os civis estão fugindo daquela área e causando um dos piores congestionamentos de tráfego e de pedestres da história de Nova York. As forças paciϐicadoras dizem que têm condições e tecnologia para interceptar mıś seis, mas estão preocupadas com os danos que serão causados às áreas mais afastadas. E agora uma notıć ia de Londres: Uma bomba de cem megatons destruiu o aeroporto de Heathrow, e a precipitação radioativa ameaça a população que vive a um raio de alguns quilômetros de distância. Aparentemente a bomba foi atirada pelas forças paciϐicadoras após a descoberta de um contrabando de bombardeiros egıṕ cios e ingleses que estavam agrupados numa pista aérea militar perto de Heathrow. As notıć ias dão conta de que os navios de guerra, que foram abatidos pelo ar, estavam equipados com armamentos nucleares e a caminho de Bagdá e da Nova Babilônia. — É o fim do mundo — murmurou Chloe. — Que Deus nos ajude. — Talvez fosse melhor tentarmos chegar à Igreja Nova Esperança — sugeriu Amanda. — Não antes de sabermos como Bruce está — disse Rayford. Ele perguntou aos assustados transeuntes se seria possível chegar a pé ao Hospital da Comunidade Noroeste. — EƵ possıv́ el — disse uma mulher. — Ele ϐica logo depois daquele campo, naquela elevação. Mas não sei se vocês vão conseguir chegar perto do que restou dele. — O hospital foi atingido? — Se foi atingido? Senhor, ele ϐica perto da estrada e do outro lado da rua da antiga base Nike. Quase todos acham que ele foi atingido em primeiro lugar. — Eu vou até lá — disse Rayford. — Eu também — disse Buck. — Todos nós vamos — insistiu Chloe, mas Rayford levantou a mão. — Todos nós, não. Vai ser difıć il demais para um de nós passar pela segurança. Buck ou eu poderemos passar com mais facilidade por termos credenciais da Comunidade Global. Penso que um de nós dois deve ir, e o outro ϐicará aqui com vocês duas. Temos de estar com alguém que nos livre das formalidades, se for necessário. — Eu quero ir — disse Buck — mas você é quem dá as ordens. — Fique aqui e posicione o carro de modo que possamos sair facilmente e ir para Monte Prospect. Se eu não voltar dentro de meia hora, arrisque-se e vá atrás de mim. — Papai, se Bruce estiver melhor, tente trazê-lo para cá. — Não se preocupe, Chloe — disse Rayford. — Cuidarei disso. Assim que viu Rayford atravessar com diϐiculdade o capim enlameado e sumir de vista, Buck arrependeu-se de não ter ido. Ele sempre fora uma pessoa de ação e, ao ver os cidadãos traumatizados caminhando a esmo e lamentando a perda de entes queridos, ele mal conseguia ficar parado no lugar. O coração de Rayford angustiou-se quando ele chegou à elevação e viu o hospital. Parte da estrutura mais alta ainda estava intacta, mas muito daniϐicada. Veıć ulos de emergência cercavam o local, e o pessoal do socorro trajando uniformes brancos corria de um lado para o outro. A polıć ia colocara uma longa faixa de bloqueio de trânsito ao redor do terreno do hospital. Assim que Rayford levantou a faixa para passar por baixo, um guarda de segurança, com uma arma na mão, correu em sua direção. — Alto lá! — ele gritou. — Esta é uma área restrita! — Tenho autorização para passar! — gritou Rayford, exibindo sua carteira com a credencial. — Fique onde está! — gritou o segurança. Ao chegar perto de Rayford, ele pegou a carteira e analisou a credencial, comparando a foto com o rosto de Rayford. — Puxa! Autorização nível 2-A. Você trabalha diretamente para Carpathia? Rayford assentiu. — Qual é a sua função? — Confidencial. — Ele está aqui? — Não, e se ele estivesse eu não lhe diria. — Todos vocês são amáveis — disse o guarda. Rayford caminhou em direção ao que havia sido a frente do hospital. Quase todos ignoraram sua presença porque as pessoas estavam muito atarefadas, sem tempo de prestar atenção em quem tinha ou não tinha autorização para estar ali. Os corpos eram colocados um ao lado do outro e cobertos. — Há sobreviventes? — perguntou Rayford a um atendente do pronto socorro. — Até agora, só três — respondeu o homem. — Todas mulheres. Duas enfermeiras e uma médica. Elas haviam saído para fumar. — Há alguém lá dentro? — Ouvimos vozes — respondeu o homem. — Mas ainda não conseguimos resgatar ninguém. Murmurando uma oração, Rayford dobrou sua carteira de modo que a credencial ϐicasse do lado de fora e colocou-a no bolso da camisa. Caminhou até o necrotério improvisado ao ar livre onde vários atendentes do pronto-socorro andavam por entre os corpos, levantando os lençóis e fazendo anotações na tentativa de identiϐicar pacientes e funcionários por meio dos braceletes de identificação. “ Ajude ou saia do caminho — disse asperamente uma mulher corpulenta ao passar esbarrando em Rayford.” “Estou à procura de Bruce Barnes — disse Rayford. A mulher, com um crachá onde se lia Patrícia Devlin parou, olhou-o de esguelha, levantou a cabeça e consultou uma prancha com várias folhas contendo uma lista de nomes. Folheou as três primeiras e balançou a cabeça. — Funcionário ou paciente? — ela perguntou.” “Paciente. Foi trazido para o pronto socorro. A última notícia foi que ele estava em coma.” “Deve ter ido para a UTI — ela disse. — Dêuma olhada ali. — Patrıć ia apontou para seis corpos mais adiante. — Espere um momento — ela complementou, virando mais uma folha.” “Barnes, UTI. Sim, era lá que ele estava. Há mais pacientes lá dentro, mas a UTI quase desapareceu.” “ Então quer dizer que ele tanto pode estar aqui como lá dentro?” “Se ele estiver aqui, meu caro, está morto. Se estiver lá dentro, nunca será encontrado.” “Há chances de haver algum sobrevivente na UTI?” “Até agora nenhum. Parente seu?” “Mais que um irmão.” “O senhor quer que eu verifique?” O rosto de Rayford contorceu-se, e ele mal conseguiu falar. “Ficaria muito agradecido.” Patrıć ia Devlin, uma mulher bastante ágil para seu tamanho, movimentava-se com rapidez. Seus sapatos grossos de sola branca estavam enlameados. Ela ajoelhou-se ao lado de cada corpo para veriϐicar, enquanto Rayford permanecia a cerca de três metros de distância, com a mão cobrindo a boca e um soluço brotando na garganta. A Srta. Devlin aproximou-se do quarto corpo. Quando começou a levantar o lençol, hesitou e veriϐicou o nome escrito no bracelete. Olhou para Rayford, e ele entendeu. As lágrimas começaram a rolar por seu rosto. Ela levantou-se e aproximou-se dele. — Seu amigo está apresentável — disse. “Eu não me atreveria a mostrar-lhe alguns destes corpos, mas o senhor pode ver seu amigo.” Rayford esforçou-se para dar alguns passos. A mulher abaixou-se e afastou lentamente o lençol, mostrando Bruce, de olhos abertos, sem vida e parados. Rayford tentou manter a calma, sentindo um aperto no peito. Estendeu a mão para fechar os olhos de Bruce, mas a enfermeira o impediu. — Não posso permitir que o senhor faça isto. — Estendendo a mão com luva, ela disse: — Deixe que eu faça. — Você poderia verificar a pulsação? — perguntou Rayford. — Oh, senhor — ela disse, com voz comovida — eles só trazem aqui para fora os que estão mortos. — Por favor — murmurou Rayford, agora em prantos. — Faça isso por mim. Enquanto Rayford permanecia de pé e com as mãos no rosto, no burburinho do inıć io de tarde daquela região suburbana de Chicago, uma mulher que ele nunca vira antes nem veria novamente colocou o polegar e o indicador sob a mandíbula de seu pastor. Sem olhar para Rayford, ela tirou a mão, cobriu novamente a cabeça de Bruce Barnes com o lençol e voltou ao seu trabalho. Rayford abaixou-se e ajoelhou-se no chão enlameado. O som das sirenes ecoavam ao longe, luzes de emergência piscavam à volta dele e sua famıĺia o aguardava a menos de um quilômetro de distância. Agora só haviam sobrado ele o os outros três. Não havia mais o mestre. Não havia mais o mentor. Só eles quatro. Enquanto se levantava e descia penosamente a elevação para dar a terrıv́ el notıć ia, Rayford ouviu o Sistema Transmissor de Emergência ligado a todo volume em todos os carros pelos quais passava. Washington fora arrasada. Heathrow não mais existia. Houve mortes no deserto egípcio e nos céus de Londres. Nova York estava em estado de alerta. Buck estava quase pronto para ir atrás de Rayford quando avistou um vulto alto no horizonte. Reconheceu-o por seu modo de andar e pelos ombros caídos. — Oh, não — ele murmurou, e Chloe e Amanda começaram a chorar. Os três correram ao encontro de Rayford e voltaram com ele até o carro. O Cavalo Vermelho do Apocalipse estava entrando em ação.

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