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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 70

O PRÍNCIPE DE WESTEROS E OUTRAS HISTÓRIAS 



Aqueles que duvidavam da paternidade dos filhos de Rhaenyra sussurravam que os ovos nunca chocariam, mas o nascimento de três jovens dragões deu fim a essa conversa. Os dragões foram chamados Vermax, Arrax e Tyraxes. E Septão Eustace nos diz que Sua Majestade sentou Jace em seu colo no Trono de Ferro diante da corte e ouviram-no dizer: “Um dia este será seu trono, rapaz.”



TODO MUNDO AMA UM CANALHA ... embora, às vezes, a gente sobreviva para se arrepender. Desavergonhados, vigaristas e malandros. Vagabundos, ladrões, trapaceiros e crápulas. Meninos e meninas maus. Ludibriadores, sedutores, enganadores, burladores, impostores, fraudadores, falsários, mentirosos, malvados, charlatões... eles têm muitos nomes, aparecem em histórias de todos os tipos, em todo e qualquer gênero, em mitos e lendas... Ah, e também em todos os lugares na História. São filhos de Loki, irmãos do Coiote. Às vezes, são heróis. Outras, vilões. Mas costumam ficar num ponto intermediário, personagens numa zona cinzenta... e cinza tem sido minha cor favorita há tempos. É muito mais interessante que o preto ou o branco. Acho que sempre tive uma queda por canalhas. Quando eu era criança, na década de 1950, às vezes parecia que metade do horário nobre da televisão era dedicado às sitcoms e a outra metade aos faroestes. Meu pai amava faroestes, então cresci vendo esses filmes, um desfile interminável de xerifes de queixo forte e delegados da fronteira, cada um mais heroico que o outro. O delegado Dillon era uma rocha, Wyatt Earp era valente, corajoso e ousado (era o que dizia a música tema); o Cavaleiro Solitário, Hopalong Cassidy, Gene Autry e Roy Rogers eram heroicos, nobres, honrados, os exemplos mais perfeitos que qualquer um poderia querer ter... mas nenhum deles parecia real para mim. Meus heróis de faroeste favoritos eram três que rompiam com o padrão: o Paladino do Oeste, que se vestia de preto (como um vilão) quando estava na estrada e como um dândi afeminado quando estava em São Francisco, “na companhia” (claro) de uma bela mulher diferente a cada semana, e que prestava serviços por dinheiro (heróis não se importavam com dinheiro); e os irmãos Maverick (especialmente Bret), pilantras charmosos que preferiam trajes de apostadores com terno preto, gravata de laço e colete pomposo ao uniforme tradicional de delegado, distintivo e chapéu branco, e eram mais vistos em uma mesa de pôquer do que num tiroteio. E, sabe, quando vistos hoje, Maverick e Paladino do Oeste continuam muito melhores que os faroestes mais tradicionais de seu tempo. É possível alegar que tinham roteiros melhores, atuações melhores e melhores diretores que a maioria dos faroestes da época, e talvez não seja mentira... mas acho que o fator “canalha” traz uma bela contribuição. Porém não são só os fãs de antigos faroestes televisivos que apreciam um bom canalha. A verdade é que esse arquétipo de personagem permeia todos os meios e gêneros. Clint Eastwood tornou-se uma estrela ao dar vida ao durão Rowdy Yates, ao implacável Dirty Harry e ao Estranho Sem Nome, todos canalhas. Se, em vez desses personagens, ele tivesse representado os bonzinhos Goody Yates, Billy Certinho e Estranho com Dois Nomes Perfeitamente Legítimos, ninguém se lembraria dele. É verdade que, quando eu estava na faculdade, conheci uma garota que preferia Ashley Wilkes, tão nobre e abnegado, ao canalha Rhett Butler, jogador e contrabandista... mas acho que ela é a única. Todas as outras mulheres que conheci escolheriam Rhett em vez de Ashley sem pensar duas vezes, e nem vamos comentar sobre Frank Kennedy e Charles Wilkes. Harrison Ford causa uma impressão bem canalha em todo papel que assume, mas, claro, tudo começou com Han Solo e Indiana Jones. Alguém aí prefere mesmo Luke Skywalker a Han Solo? Claro que Han entra no jogo apenas por dinheiro, deixando isso claro desde o início... o que deixa a coisa toda mais emocionante quando ele volta no fim de Guerra nas estrelas para enfiar aquele foguete no rabo de Darth Vader. (Ah, e ele REALMENTE atira primeiro, não importa quantas versões corrigidas George Lucas faça daquele primeiro filme.) E Indy... Indy é a definição máxima do canalha. Sacar a arma para atirar naquele espadachim não foi justo... mas, olha, quem não ama o cara por essa cena? Porém os canalhas não dão as cartas apenas na televisão e nos filmes. Olhe para os livros. Pense na fantasia épica, por exemplo. A fantasia geralmente é caracterizada como um gênero em que o bem absoluto combate o mal absoluto, e esse tipo de situação é mesmo abundante, especialmente nas mãos das legiões de imitadores de Tolkien com seus cansativos senhores sombrios, lacaios maléficos e heróis de queixo quadrado. Porém existe um subgênero mais antigo da fantasia que fervilha com canalhas, chamado de “espada e magia”. Conan da Ciméria às vezes é caracterizado como herói, mas não nos esqueçamos que ele também era ladrão, saqueador, pirata, mercenário e, em última análise, um usurpador que se instalou num trono roubado... e dormiu com todas as mulheres atraentes que encontrou pelo caminho. Fafhrd e o Rateiro Cinzento são ainda mais canalhas, apesar de não terem alcançado tanto sucesso. É improvável que algum deles termine sendo rei. E, então, temos Cugel, o Astuto, de Jack Vance, totalmente amoral (e delicioso), cujas maquinações nem sempre parecem produzir os resultados desejados, mas ainda assim... A ficção histórica também tem sua parcela de patifes ousados, sorrateiros, suspeitos. Os Três Mosqueteiros certamente tinham suas qualidades malandras. (Não se pode desembainhar uma espada com ousadia sem elas.) Rhett Butler era tão canalha no romance quanto no filme. Michael Chabon nos deu dois novos e esplêndidos canalhas com Amram e Zelikman, as estrelas de sua novela histórica Gentlemen of the Road, e eu espero que possamos ver muitas aventuras dessa dupla. E, claro, há o imortal Harry Flashman de George MacDonald Fraser (para você, Sir Harry Paget Flashman, Cavaleiro da Cruz Vitória, Cavaleiro Comandante da Ordem de Bath e Cavaleiro Comandante da Ordem do Império Indiano, por favor), um personagem que parece emprestado de Tom Brown’s Schooldays, o romance clássico de Thomas Hughes, famoso nos internatos britânicos (uma espécie de Harry Potter sem quadribol, magia ou garotas). Se você ainda não leu os livros de MacDonald com o Flashman (pode pular o Hughes, a menos que curta os princípios morais vitorianos), ainda não viu um dos maiores canalhas da literatura. Essa experiência é realmente de causar inveja. Faroeste? Caramba, o Velho Oeste inteiro fervilha de canalhas. O herói fora da lei é tão comum quanto o vilão fora da lei, se não for ainda mais comum. Billy the Kid? Jesse James e sua gangue? Doc Holliday, canalha e dentista extraordinaire? E, se pudermos voltar à televisão, mas desta vez para as TVs a cabo, também temos o fabuloso Deadwood, da HBO, cujo final foi muito lamentado, e o vilão que era sua estrela, Al Swearengen. Do jeito que foi interpretado por Ian McShane, Swearengen roubou completamente a cena do suposto herói, o xerife. Ora, canalhas costumam ser bons larápios. É uma das coisas que eles fazem de melhor. E o que dizer do gênero romântico? Hum... O canalha quase sempre fica com a garota em um livro romântico. Hoje em dia, não é raro que a canalha seja a garota, o que pode ser ainda mais legal. É sempre bom ver as convenções de cabeça para baixo. A ficção de mistério tem subgêneros inteiros com canalhas. Detetives particulares sempre têm esse aspecto; se fossem do tipo certinho, honesto, presos apenas aos fatos, seriam policiais. E não são. Eu poderia dar muitos outros exemplos. A ficção literária, os romances góticos, paranormais, chick lit, horror, cyberpunk, steampunk, fantasia urbana, tragédias, comédias, eróticos, thrillers, space opera, horse opera, histórias esportivas, ficção militar, romances rurais... todo gênero e subgênero tem seus canalhas e, quase sempre, são os personagens mais celebrados e mais lembrados. Infelizmente, nem todos esses gêneros estão representados nesta antologia... mas uma parte de mim desejou que estivessem. Talvez seja o canalha em mim, a parte que ama os tons de cinza, mas a verdade é que não respeito muito as barreiras dos gêneros. Atualmente, sou conhecido como um escritor de fantasia, mas esta não é uma antologia de fantasia... apesar de ter fantasia das boas nela. Meu coeditor, Gardner Dozois, editava uma revista de ficção científica algumas décadas atrás, mas também esta não é uma antologia de ficção científica... embora traga algumas histórias do gênero tão boas como qualquer uma que figure nas revistas mensais. Assim como Warriors e Dangerous Women, nossas antologias anteriores supragênero, esta, O príncipe de Westeros e outras histórias, foi pensada para cruzar todas as linhas do gênero. Nosso tema é universal, e Gardner e eu amamos boas histórias de todos os tipos, não importa em qual tempo, lugar ou gênero elas estejam. Então saímos por aí e convidamos autores bem conhecidos dos mundos da fantasia épica, de espada e magia, fantasia urbana, ficção científica, românticos, mainstream, do mistério (leve ou hard boiled), thrillers, históricos, faroeste, noir, horror... opções à vontade. Nem todos aceitaram, mas muitos toparam, e o resultado está aí, nas próximas páginas. Nossos colaboradores formam uma equipe de elite com autores premiados e best-sellers, representando uma dúzia de editoras e gêneros diferentes. Pedimos a cada um deles a mesma coisa — uma história sobre canalhas, cheia de boas reviravoltas, planos ousados e reveses. Não impusemos nenhum limite de gênero aos nossos escritores. Alguns deles escolheram escrever no gênero que conheciam melhor. Outros tentaram algo diferente. Em minha introdução a Warriors, nossa primeira antologia supragênero, falei como foi crescer nos anos 1950, em Bayonne, Nova Jersey, uma cidade sem livrarias. Eu comprava todo meu material de leitura em bancas de jornal e nas “lojas de doces” de esquina, em expositores de arame. Aquelas edições econômicas nos expositores não eram separadas por gênero. Tudo era amontoado, um exemplar desse, dois exemplares daquele. Era possível encontrar Os irmãos Karamazov espremido entre um romance sobre enfermeiras e a última aventura de Mike Hammer, de Mickey Spillane. Dorothy Parker e Dorothy Sayers dividiam o espaço com Ralph Ellison e J. D. Salinger. Max Brand ficava ao lado de Barbara Cartland. A. E. van Vogt, P. G. Wodehouse e H. P. Lovecraft amontoavam-se com F. Scott Fitzgerald. Livro de mistério, faroestes, góticos, histórias de fantasma, clássicos da literatura inglesa, os últimos romances “literários” contemporâneos e, claro, ficção científica, fantasia e horror — era possível encontrar tudo isso naquele expositor de arame. Eu gostava das coisas daquele jeito. E ainda gosto. Mas, nas décadas que vieram (décadas demais, temo eu), o setor editorial mudou, as cadeias de livrarias se multiplicaram e as barreiras de gênero se fortaleceram. Acho uma pena. Os livros deveriam ampliar nossa visão, nos levar a lugares onde nunca estivemos e mostrar coisas que nunca vimos, expandir nossos horizontes e nossa maneira de olhar o mundo. Limitar a leitura a um único gênero acaba com essa missão. Também nos limita, nos torna menores. Para mim, tanto no passado como agora, parece haver boas e más histórias, e essa era e ainda é a única distinção que realmente importa. Acreditamos que reunimos aqui algumas boas histórias. Você encontrará canalhas de todos os tamanhos, formas e cores nestas páginas, com uma grande variedade de cenários, representando uma mescla considerável de diferentes gêneros e subgêneros. Mas você não saberá quais gêneros e subgêneros até ter lido essas histórias, pois Gardner e eu, na tradição do velho expositor de arame, misturamos tudo. Esperamos que algumas das histórias sejam de seus autores favoritos; outras são de autores de quem você nunca ouviu falar (ainda). Torcemos para que, quando você terminar O príncipe de Westeros e outras histórias, alguns desses desconhecidos possam se tornar favoritos. Curta a leitura... mas tome muito cuidado. Alguns dos cavalheiros e encantadoras damas destas páginas não são tão confiáveis assim.


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