O PRÍNCIPE DE WESTEROS E OUTRAS HISTÓRIAS
Aqueles que duvidavam
da paternidade dos
filhos de Rhaenyra
sussurravam que os ovos
nunca chocariam, mas o
nascimento de três jovens
dragões deu fim a essa
conversa. Os dragões
foram chamados Vermax,
Arrax e Tyraxes.
E Septão Eustace nos diz
que Sua Majestade sentou
Jace em seu colo no
Trono de Ferro diante da
corte e ouviram-no dizer:
“Um dia este será seu
trono, rapaz.”
TODO MUNDO AMA UM CANALHA
... embora, às vezes, a gente sobreviva para se arrepender.
Desavergonhados, vigaristas e malandros. Vagabundos, ladrões, trapaceiros e crápulas.
Meninos e meninas maus. Ludibriadores, sedutores, enganadores, burladores, impostores,
fraudadores, falsários, mentirosos, malvados, charlatões... eles têm muitos nomes, aparecem
em histórias de todos os tipos, em todo e qualquer gênero, em mitos e lendas... Ah, e também
em todos os lugares na História. São filhos de Loki, irmãos do Coiote. Às vezes, são heróis.
Outras, vilões. Mas costumam ficar num ponto intermediário, personagens numa zona
cinzenta... e cinza tem sido minha cor favorita há tempos. É muito mais interessante que o
preto ou o branco.
Acho que sempre tive uma queda por canalhas. Quando eu era criança, na década de 1950,
às vezes parecia que metade do horário nobre da televisão era dedicado às sitcoms e a outra
metade aos faroestes. Meu pai amava faroestes, então cresci vendo esses filmes, um desfile
interminável de xerifes de queixo forte e delegados da fronteira, cada um mais heroico que o
outro. O delegado Dillon era uma rocha, Wyatt Earp era valente, corajoso e ousado (era o que
dizia a música tema); o Cavaleiro Solitário, Hopalong Cassidy, Gene Autry e Roy Rogers
eram heroicos, nobres, honrados, os exemplos mais perfeitos que qualquer um poderia querer
ter... mas nenhum deles parecia real para mim. Meus heróis de faroeste favoritos eram três que
rompiam com o padrão: o Paladino do Oeste, que se vestia de preto (como um vilão) quando
estava na estrada e como um dândi afeminado quando estava em São Francisco, “na
companhia” (claro) de uma bela mulher diferente a cada semana, e que prestava serviços por
dinheiro (heróis não se importavam com dinheiro); e os irmãos Maverick (especialmente
Bret), pilantras charmosos que preferiam trajes de apostadores com terno preto, gravata de
laço e colete pomposo ao uniforme tradicional de delegado, distintivo e chapéu branco, e
eram mais vistos em uma mesa de pôquer do que num tiroteio.
E, sabe, quando vistos hoje, Maverick e Paladino do Oeste continuam muito melhores que
os faroestes mais tradicionais de seu tempo. É possível alegar que tinham roteiros melhores,
atuações melhores e melhores diretores que a maioria dos faroestes da época, e talvez não
seja mentira... mas acho que o fator “canalha” traz uma bela contribuição.
Porém não são só os fãs de antigos faroestes televisivos que apreciam um bom canalha. A
verdade é que esse arquétipo de personagem permeia todos os meios e gêneros.
Clint Eastwood tornou-se uma estrela ao dar vida ao durão Rowdy Yates, ao implacável
Dirty Harry e ao Estranho Sem Nome, todos canalhas. Se, em vez desses personagens, ele
tivesse representado os bonzinhos Goody Yates, Billy Certinho e Estranho com Dois Nomes
Perfeitamente Legítimos, ninguém se lembraria dele. É verdade que, quando eu estava na
faculdade, conheci uma garota que preferia Ashley Wilkes, tão nobre e abnegado, ao canalha
Rhett Butler, jogador e contrabandista... mas acho que ela é a única. Todas as outras mulheres
que conheci escolheriam Rhett em vez de Ashley sem pensar duas vezes, e nem vamos
comentar sobre Frank Kennedy e Charles Wilkes. Harrison Ford causa uma impressão bem
canalha em todo papel que assume, mas, claro, tudo começou com Han Solo e Indiana Jones.
Alguém aí prefere mesmo Luke Skywalker a Han Solo? Claro que Han entra no jogo apenas
por dinheiro, deixando isso claro desde o início... o que deixa a coisa toda mais emocionante
quando ele volta no fim de Guerra nas estrelas para enfiar aquele foguete no rabo de Darth
Vader. (Ah, e ele REALMENTE atira primeiro, não importa quantas versões corrigidas
George Lucas faça daquele primeiro filme.) E Indy... Indy é a definição máxima do canalha.
Sacar a arma para atirar naquele espadachim não foi justo... mas, olha, quem não ama o cara
por essa cena?
Porém os canalhas não dão as cartas apenas na televisão e nos filmes. Olhe para os livros.
Pense na fantasia épica, por exemplo.
A fantasia geralmente é caracterizada como um gênero em que o bem absoluto combate o
mal absoluto, e esse tipo de situação é mesmo abundante, especialmente nas mãos das legiões
de imitadores de Tolkien com seus cansativos senhores sombrios, lacaios maléficos e heróis
de queixo quadrado. Porém existe um subgênero mais antigo da fantasia que fervilha com
canalhas, chamado de “espada e magia”. Conan da Ciméria às vezes é caracterizado como
herói, mas não nos esqueçamos que ele também era ladrão, saqueador, pirata, mercenário e,
em última análise, um usurpador que se instalou num trono roubado... e dormiu com todas as
mulheres atraentes que encontrou pelo caminho. Fafhrd e o Rateiro Cinzento são ainda mais
canalhas, apesar de não terem alcançado tanto sucesso. É improvável que algum deles termine
sendo rei. E, então, temos Cugel, o Astuto, de Jack Vance, totalmente amoral (e delicioso),
cujas maquinações nem sempre parecem produzir os resultados desejados, mas ainda assim...
A ficção histórica também tem sua parcela de patifes ousados, sorrateiros, suspeitos. Os
Três Mosqueteiros certamente tinham suas qualidades malandras. (Não se pode desembainhar
uma espada com ousadia sem elas.) Rhett Butler era tão canalha no romance quanto no filme.
Michael Chabon nos deu dois novos e esplêndidos canalhas com Amram e Zelikman, as
estrelas de sua novela histórica Gentlemen of the Road, e eu espero que possamos ver muitas
aventuras dessa dupla. E, claro, há o imortal Harry Flashman de George MacDonald Fraser
(para você, Sir Harry Paget Flashman, Cavaleiro da Cruz Vitória, Cavaleiro Comandante da
Ordem de Bath e Cavaleiro Comandante da Ordem do Império Indiano, por favor), um
personagem que parece emprestado de Tom Brown’s Schooldays, o romance clássico de
Thomas Hughes, famoso nos internatos britânicos (uma espécie de Harry Potter sem quadribol,
magia ou garotas). Se você ainda não leu os livros de MacDonald com o Flashman (pode
pular o Hughes, a menos que curta os princípios morais vitorianos), ainda não viu um dos
maiores canalhas da literatura. Essa experiência é realmente de causar inveja.
Faroeste? Caramba, o Velho Oeste inteiro fervilha de canalhas. O herói fora da lei é tão
comum quanto o vilão fora da lei, se não for ainda mais comum. Billy the Kid? Jesse James e
sua gangue? Doc Holliday, canalha e dentista extraordinaire? E, se pudermos voltar à
televisão, mas desta vez para as TVs a cabo, também temos o fabuloso Deadwood, da HBO,
cujo final foi muito lamentado, e o vilão que era sua estrela, Al Swearengen. Do jeito que foi
interpretado por Ian McShane, Swearengen roubou completamente a cena do suposto herói, o
xerife. Ora, canalhas costumam ser bons larápios. É uma das coisas que eles fazem de melhor.
E o que dizer do gênero romântico? Hum... O canalha quase sempre fica com a garota em
um livro romântico. Hoje em dia, não é raro que a canalha seja a garota, o que pode ser ainda
mais legal. É sempre bom ver as convenções de cabeça para baixo.
A ficção de mistério tem subgêneros inteiros com canalhas. Detetives particulares sempre
têm esse aspecto; se fossem do tipo certinho, honesto, presos apenas aos fatos, seriam
policiais. E não são.
Eu poderia dar muitos outros exemplos. A ficção literária, os romances góticos,
paranormais, chick lit, horror, cyberpunk, steampunk, fantasia urbana, tragédias, comédias,
eróticos, thrillers, space opera, horse opera, histórias esportivas, ficção militar, romances
rurais... todo gênero e subgênero tem seus canalhas e, quase sempre, são os personagens mais
celebrados e mais lembrados.
Infelizmente, nem todos esses gêneros estão representados nesta antologia... mas uma parte
de mim desejou que estivessem. Talvez seja o canalha em mim, a parte que ama os tons de
cinza, mas a verdade é que não respeito muito as barreiras dos gêneros. Atualmente, sou
conhecido como um escritor de fantasia, mas esta não é uma antologia de fantasia... apesar de
ter fantasia das boas nela. Meu coeditor, Gardner Dozois, editava uma revista de ficção
científica algumas décadas atrás, mas também esta não é uma antologia de ficção científica...
embora traga algumas histórias do gênero tão boas como qualquer uma que figure nas revistas
mensais.
Assim como Warriors e Dangerous Women, nossas antologias anteriores supragênero,
esta, O príncipe de Westeros e outras histórias, foi pensada para cruzar todas as linhas do
gênero. Nosso tema é universal, e Gardner e eu amamos boas histórias de todos os tipos, não
importa em qual tempo, lugar ou gênero elas estejam. Então saímos por aí e convidamos
autores bem conhecidos dos mundos da fantasia épica, de espada e magia, fantasia urbana,
ficção científica, românticos, mainstream, do mistério (leve ou hard boiled), thrillers,
históricos, faroeste, noir, horror... opções à vontade. Nem todos aceitaram, mas muitos
toparam, e o resultado está aí, nas próximas páginas. Nossos colaboradores formam uma
equipe de elite com autores premiados e best-sellers, representando uma dúzia de editoras e
gêneros diferentes. Pedimos a cada um deles a mesma coisa — uma história sobre canalhas,
cheia de boas reviravoltas, planos ousados e reveses. Não impusemos nenhum limite de
gênero aos nossos escritores. Alguns deles escolheram escrever no gênero que conheciam
melhor. Outros tentaram algo diferente.
Em minha introdução a Warriors, nossa primeira antologia supragênero, falei como foi
crescer nos anos 1950, em Bayonne, Nova Jersey, uma cidade sem livrarias. Eu comprava
todo meu material de leitura em bancas de jornal e nas “lojas de doces” de esquina, em
expositores de arame. Aquelas edições econômicas nos expositores não eram separadas por
gênero. Tudo era amontoado, um exemplar desse, dois exemplares daquele. Era possível
encontrar Os irmãos Karamazov espremido entre um romance sobre enfermeiras e a última
aventura de Mike Hammer, de Mickey Spillane. Dorothy Parker e Dorothy Sayers dividiam o
espaço com Ralph Ellison e J. D. Salinger. Max Brand ficava ao lado de Barbara Cartland. A.
E. van Vogt, P. G. Wodehouse e H. P. Lovecraft amontoavam-se com F. Scott Fitzgerald. Livro
de mistério, faroestes, góticos, histórias de fantasma, clássicos da literatura inglesa, os
últimos romances “literários” contemporâneos e, claro, ficção científica, fantasia e horror —
era possível encontrar tudo isso naquele expositor de arame.
Eu gostava das coisas daquele jeito. E ainda gosto. Mas, nas décadas que vieram (décadas
demais, temo eu), o setor editorial mudou, as cadeias de livrarias se multiplicaram e as
barreiras de gênero se fortaleceram. Acho uma pena. Os livros deveriam ampliar nossa visão,
nos levar a lugares onde nunca estivemos e mostrar coisas que nunca vimos, expandir nossos
horizontes e nossa maneira de olhar o mundo. Limitar a leitura a um único gênero acaba com
essa missão. Também nos limita, nos torna menores. Para mim, tanto no passado como agora,
parece haver boas e más histórias, e essa era e ainda é a única distinção que realmente
importa.
Acreditamos que reunimos aqui algumas boas histórias. Você encontrará canalhas de todos
os tamanhos, formas e cores nestas páginas, com uma grande variedade de cenários,
representando uma mescla considerável de diferentes gêneros e subgêneros. Mas você não
saberá quais gêneros e subgêneros até ter lido essas histórias, pois Gardner e eu, na tradição
do velho expositor de arame, misturamos tudo. Esperamos que algumas das histórias sejam de
seus autores favoritos; outras são de autores de quem você nunca ouviu falar (ainda).
Torcemos para que, quando você terminar O príncipe de Westeros e outras histórias, alguns
desses desconhecidos possam se tornar favoritos.
Curta a leitura... mas tome muito cuidado. Alguns dos cavalheiros e encantadoras damas
destas páginas não são tão confiáveis assim.

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