C A P Í T U L O 8
QUANDO os outros repórteres e editores retornaram a suas salas, Steve Plank insistiu com
Buck Williams para que fosse para casa descansar antes da reunião que teriam naquela noite, às
oito horas.
— Prefiro que a reunião seja agora e eu possa ir para casa à noite.
— Eu sei — disse o editor-executivo -, mas temos um acúmulo de coisas a fazer e quero
você aqui bem disposto.
Mesmo assim, Buck estava relutante.
— Quando posso ir a Londres?
— O que você vai fazer lá?
Buck adiantou a Steve a informação sobre uma importante reunião de ϐinancistas dos
Estados Unidos com jornalistas do mundo inteiro para apresentar um polıt́ ico europeu em
ascensão.
— Oh! rapaz — disse Steve -, estamos por dentro disso tudo. Você está falando de
Carpathia.
Buck ficou atônito.
— Eu falei?
— Ele é a pessoa que impressionou Rosenzweig.
— Sim, mas você acha que é ele a pessoa que meu informante...
— Rapaz, você está por fora — disse Steve. — O caso não é mais um grande furo de
reportagem. O ϐinancista-chave deve ser Jonathan Stonagal, que parece ser o patrocinador dele.
Eu não disse a você que Carpathia estava vindo fazer um pronunciamento na ONU?
— Então ele é o novo embaixador da Romênia na ONU? -questionou Buck.
— Negativo.
— O que ele é então?
— Presidente do país.
— Para este cargo não tinha sido eleito um lıd́ er havia apenas 18 meses? — retrucou
Buck, lembrando-se da deixa que Dirk lhe dera a respeito de um novo lıd́ er que parecia estar
fora da posição e do tempo.
— Grande reviravolta por lá — disse Steve. — É melhor confirmar.
— Vou fazer isso.
— Não quero mandar você. Na verdade, não acho que tenha sobrado muita coisa para uma
reportagem de impacto. O cara é jovem e impetuoso, fascinante e persuasivo, como pude
deduzir. Tinha sido uma estrela meteórica nos negócios, alcançando um grande sucesso
ϐinanceiro quando o mercado romeno se abriu para o Ocidente faz alguns anos. Mas até a
semana passada, ele nem mesmo estava no senado. Ele estava somente na câmara baixa.
— A Câmara dos Deputados — disse Buck.
— Como você sabia isso? Buck sorriu ironicamente.
— Rosenzweig me falou.
— Por um momento, pensei que você realmente soubesse de todas as coisas. EƵ disso que
eles o acusam aqui, você sabe.
— Que grande crime cometi.
— Mas você se comportou com muita humildade.
— EƵ isto que eu sou, humilde. Então, Steve, você não considera importante o fato de um
cara como Carpathia, que veio do nada, derrubar o presidente da Romênia?
— Ele não veio exatamente do nada. Seus negócios foram construıd́ os com o apoio
ϐinanceiro de Stonagal. E Carpathia tem sido um defensor do desarmamento, muito popular
junto a seus colegas e perante o povo.
— Mas o desarmamento não condiz com Stonagal. Ele não é um armamentista secreto?
Plank assentiu.
— Então aqui há mistério.
— Alguns, mas, Buck, o que poderia ser mais importante a esta altura do que a
reportagem que está fazendo? Você não vai perder seu tempo com um sujeito que se tornou
presidente de um país não-estratégico.
— No meio disso tudo há alguma coisa, Steve. Meu contato em Londres soprou-me.
Carpathia está ligado aos não-polıt́ icos mais inϐluentes do mundo. Ele passou de deputado a
presidente sem uma eleição popular.
—E...
— EƵ preciso mais? Ele por acaso assumiu o lugar de um presidente assassinado ou coisa
parecida?
— EƵ interessante que vocêtenha dito isso, porque o único senão na história de Carpathia é
este: correm alguns rumores de que ele foi desumano com seus concorrentes nos negócios há
alguns anos.
— Como desumano?
— As pessoas foram "apagadas".
— Oh! Steve, você fala exatamente como membro de uma gangue.
— Ouça esta: o presidente anterior renunciou em favor de Carpathia. E insistiu para que
ele assumisse o poder.
— E você diz que não há assunto para uma reportagem neste caso?
— Isto se assemelha aos velhos golpes na América do Sul, Buck. Um novo dirigente a cada
semana. Grandes lances. Assim, Carpathia passa a ser devedor a Stonagal. Tudo isto indica que
Stonagal terá o controle no mundo ϐinanceiro de urn paıś da Europa Oriental que imagina que a
melhor coisa que aconteceu em sua história foi a queda da Rússia.
— Mas, Steve, é como se um estreante do nosso congresso se tornasse presidente dos
Estados Unidos num ano sem eleição marcada, sem voto. O presidente atual renuncia, e todo
mundo fica feliz.
— Não, não, não, há uma grande diferença. Estamos falando da Romênia, Buck. Romênia.
Paıś não-estratégico, com um parco produto interno bruto, nenhum aliado estratégico. Não há
nada lá, a não ser uma política interna de baixo nível.
— Isto ainda me cheira algo mais importante — disse Buck. — Rosenzweig tinha esse
cara em alto conceito, e ele é um observador astuto. Agora Carpathia está vindo para falar na
ONU. O que vai acontecer depois?
— Você se esquece de que ele foi convidado antes de se tornar presidente da Romênia.
— Este é outro enigma. Ele era um ilustre desconhecido.
— Ele é um novo nome em prol do desarmamento. Vai ter seu momento de glória, seus
quinze minutos de fama. Confie em mim; você nunca mais vai ouvir falar dele.
— Stonagal tinha de estar também por trás dessa jogada da ONU — disse Buck. — Você
sabe que o "João Diamante" é um amigo pessoal do nosso embaixador.
— Stonagal é amigo pessoal de cada ϐigura eleita, desde o presidente até os prefeitos da
maioria das cidades de tamanho médio, Buck. E daı?́ Ele sabe fazer o seu jogo. Ele me lembra o
velho Joe Kennedy ou um dos Rockefellers, está bem? Qual é a sua preocupação?
— Apenas que Carpathia vai falar na ONU com a influência de Stonagal.
— Provavelmente. E daí?
— Ele está visando a alguma coisa.
— Stonagal está sempre visando a alguma coisa, mantendo seus motores ligados para um
de seus projetos. Muito bem, então ele promove a ascensão de um homem de negócios a
polıt́ ico na Romênia, com possibilidades de fazê-lo chegar à presidência. Talvez tenha até
conseguido uma entrevista entre esse homem e Rosenzweig, que nunca deu em nada. Agora ele
coloca Carpathia numa posição de destaque internacional. Isto acontece o tempo todo por
causa de pessoas como Stonagal. Vocêprefere correr atrás de uma anti-reportagem a costurar
uma matéria de capa que procura dar sentido ao fenômeno mais monumental e trágico na
história mundial?
— Hum, deixe-me pensar sobre isto — disse Buck, sorrindo, enquanto Plank lhe dava uns
leves socos amistosos no peito.
— Rapaz, você é capaz de dar nó em fumaça — disse o editor-executivo.
— Você costumava gostar de meu faro profissional.
— E ainda gosto, mas você está precisando dormir imediatamente.
— Estou definitivamente impedido de ir a Londres? Então tenho de avisar meu contato lá.
— Marge tentou localizar a pessoa que ia esperar você no aeroporto. Ela pode lhe contar a
ginástica que tivemos de fazer no meio de toda aquela situação. Esteja de volta às oito. Estou
convocando todos os editores de departamentos interessados em várias reuniões internacionais
que vão acontecer aqui neste mês. Você vai coordenar essa cobertura, portanto...
— Portanto, todos eles vão me odiar na reunião que teremos? — perguntou Buck.
— Eles vão sentir que é importante.
— Mas isso é importante? Vocêquer que eu esqueça Carpathia, mas vai complicar minha
vida com — o que era mesmo? — uma convenção religiosa ecumênica e uma confabulação
sobre a moeda internacional única?
— Você está precisando dormir, não está, Buck? EƵ por isso que ainda sou seu chefe. Você
não consegue entender isto?
Sim, quero uma matéria coordenada e bem escrita. Mas pense um pouco. Isto lhe dará
trânsito livre a todos esses dignitários. Estamos falando de lıd́ eres judeus nacionalistas
interessados num governo mundial único...
— Improvável e extremamente constrangedor.
— ...judeus ortodoxos do mundo inteiro que procuram reconstruir o templo, ou alguns
desses...
— Estou sendo injuriado pelos judeus.
— ...monetaristas internacionais que preparam o palco para a moeda mundial...
— Também improvável.
— Mas isto vai permitir que você fique de olho em seu corretor favorito e poderoso...
— Stonagal.
— Certo, e líderes de vários grupos religiosos procurando cooperar internacionalmente.
— Vocêquer me torturar, é isso? Essas pessoas estão discutindo coisas impossıv́ eis. Desde
quando os grupos religiosos foram capazes de se entender?
— Você ainda não compreendeu, Buck. Você vai ter acesso a todas essas pessoas —
religiosos, monetaristas, polıt́ icos -enquanto tenta escrever um artigo sobre o que aconteceu e
por que aconteceu. Você pode colher a opinião de muitas pessoas inteligentes e reunir os mais
diversos pontos de vista.
Buck encolheu os ombros em sinal de rendição.
— Você ganhou. Ainda acho que os editores de nosso departamento vão ϐicar ressentidos
comigo.
— Alguma coisa será dita para dar consistência ao trabalho.
— Ainda quero tentar chegar a Carpathia.
— Isto não vai ser difícil. Ele já é o dodói da mídia na Europa. Está ansioso para ser ouvido.
— E Stonagal.
— Você sabe que ele nunca fala à imprensa, Buck.
— Gosto de um desafio
— Vá pra casa e relaxe. Vejo você às oito.
Marge Potter estava se preparando para sair quando Buck se aproximou.
— Oh! sim — disse ela, arrumando suas coisas e folheando a agenda. — Tentei Dirk Burton
várias vezes. Consegui ligar uma vez para seu voice mail e deixei uma mensagem. O
recebimento não foi confirmado.
— Obrigado.
Buck não estava seguro de poder descansar em casa com todas as coisas rodando em seu
cérebro. Quando chegou à rua, ϐicou agradavelmente surpreso ao ver que os representantes de
várias empresas de táxi estavam postados à frente do prédio, dirigindo as pessoas para os carros
que podiam alcançar determinadas áreas por meio de vias secundárias. Com tarifas acima do
normal, naturalmente. Por 30 dólares, divididos com outros passageiros, Buck foi deixado a duas
quadras de seu apartamento. Em três horas ele deveria estar de volta ao escritório, por isso
pediu ao motorista que o apanhasse no mesmo lugar às 7h45. Isto, reconheceu, seria um
milagre. Com todos os táxis que havia em Nova York, ele jamais pôde antes fazer tal acerto, e,
pelo que se lembrava, nunca conseguiu ver o mesmo taxista duas vezes.
Rayford caminhava de um lado para o outro, sentindo-se angustiado. Chegou à dolorosa
constatação de que aquela era a pior fase de sua vida. Ele nunca tinha passado por isso antes.
Seus pais eram mais velhos do que os de seus colegas. Quando ambos morreram, num espaço de
dois anos um do outro, Rayford sentiu-se aliviado. Eles não estavam bem, haviam perdido a
lucidez. Ele os amava, e seus pais não lhe eram um fardo, mas, anos antes, passaram a ter uma
vida vegetativa em razão de derrame cerebral e outras doenças. Quando faleceram, Rayford
chorou, em grande parte por causa do amor que lhes dedicava e das boas recordações que eles
lhe deixaram. Apreciou a bondade e a simpatia que recebeu em seus funerais e retomou sua
vida. As lágrimas que derramou não foram de remorso ou mágoa. Foram de nostalgia e
melancolia.
O resto de sua vida tinha sido sem complicação ou sofrimento. Tornar-se piloto era o
mesmo que galgar qualquer outro nıv́ el proϐissional regiamente pago. Tinha de ser inteligente,
disciplinado, talentoso, perfeito. Ele passou pelas posições da forma usual — deveres de militar
da reserva, pequenos aviões, depois aviões maiores, depois jatos e bombardeiros. Finalmente,
alcançou o posto máximo.
Ele tinha conhecido Irene no Corpo de Treinamento de Oϐiciais da Reserva, na faculdade.
Ela, ϐilha de um militar, era uma soldadinha que nunca se rebelou. Muitos de seus colegas
voltaram as costas para a vida militar e não quiseram nem mesmo confessar ter vivido essa
experiência. Seu pai perdeu a vida no Vietnã, e sua mãe se casou com outro militar, por isso
Irene tinha vivido em várias bases militares nos Estados Unidos.
Eles se casaram quando Rayford estava prestes a doutorar-se e Irene uma secundarista.
Ela desistiu de estudar quando o marido ingressou na carreira militar, e tudo se acomodou desde
então. Eles tiveram Chloe durante o primeiro ano de casamento, mas, devido a complicações,
esperaram outros oito anos para Ray nascer. Rayford amava os dois ϐilhos, mas tinha de admitir
que sempre desejara ter um menino com seu nome.
Infelizmente, Raymie nasceu durante um perıó do sombrio da vida de Rayford. Ele tinha 30
anos e já se considerava velho, e sentia-se constrangido por ter uma esposa grávida. Seus
cabelos prematuramente grisalhos, porém atraentes, davam-lhe o aspecto de um homem de
mais idade, e ele teve de suportar brincadeiras por ser um pai velho. Foi uma gravidez
particularmente difıć il para Irene; Raymie chegou duas semanas além do tempo normal. Chloe
era uma garotinha geniosa de oito anos, e Rayford distanciou-se da família o mais possível.
Irene, ele acreditava, entrou num perıó do de depressão durante aquela fase e mostrou um
temperamento agressivo para com ele, chorando freqüentemente. No trabalho, Rayford
prosperava, era ouvido e admirado. Foi escalado para os maiores, mais novos e mais soϐisticados
aviões da Pan-Continental. Sua vida de trabalho estava indo muito bem; ele não sentia prazer
em voltar para casa.
Ele tinha ingerido mais álcool durante aquele perıó do do que costumava, e o casamento
passou por sua fase mais difıć il. Voltava para casa cada vez mais tarde e, às vezes, inventava
histórias sobre seu programa de trabalho, de modo que pudesse sair logo cedo e voltar o mais
tarde possıv́ el. Irene o acusava injustamente de estar tendo casos. Ele a desmentia com
veemência e sentia-se justificado pela ira que demonstrava.
A verdade é que ele estava esperando por uma chance para fazer exatamente aquilo de
que ela o acusava. O que mais o frustrava era sentir-se incapaz de traı-́ la, apesar de sua boa
aparência e postura. Ele não tinha o jeito, o desembaraço, o estilo. Uma comissária o havia
certa vez chamado de gostosão, mas ele se sentiu um palhaço, um estúpido. Certamente, ele
tinha acesso a qualquer mulher por um preço, mas isto era indigno para ele. Enquanto brincava
de sonhar com um caso no velho estilo, comportado, e esperava por isso, não suportava a idéia
de entregar-se a alguma coisa tão mesquinha como pagar para ter sexo.
Tivesse Irene sabido quão decidido ele estava de tentar ser inϐiel, ela o teria deixado.
Quando as coisas estavam nesse pé, ele se achou no direito de envolver-se numa aventura
amorosa na noite da véspera de Natal, antes do nascimento de Raymie, mas estava tão
embriagado que mal conseguia se lembrar.
O sentimento de culpa e a possibilidade de manchar sua imagem serviram-lhe de alerta,
fazendo com que ele reduzisse drasticamente a bebida. Ver Raymie nascer contribuiu ainda
mais para a sua sobriedade. Era tempo de melhorar e assumir tanto a responsabilidade como
marido e pai quanto a que ele assumira como piloto.
Agora, porém, quando Rayford permitia que aquelas lembranças desϐilassem em sua
mente conturbada, sentia a mais profunda tristeza e o mais agudo remorso que um ser humano
pode sentir. Ele se considerava um fracasso. Era tão indigno de Irene. De qualquer modo, sabia
agora, embora nunca tivesse admitido antes, que ela de nenhuma forma tinha sido ingênua ou
tola como ele esperava e imaginava. Ela devia ter sabido quão insıṕ ido ele era, quão superϐicial
e, sim, desprezıv́ el. No entanto, ela permaneceu a seu lado, amou-o, lutou para preservar o
casamento.
Ele não pôde perceber se ela se tomou uma pessoa diferente após ter mudado de igreja e
se apegado mais à fé. Logo de inıć io, ela procurou convencê-lo, sem dúvida. Estava empolgada e
queria que o marido também descobrisse o que ela havia encontrado. Ele tirou o corpo.
Finalmente, ela desistiu ou resignou-se diante do fato de que ele não se rendia a seus apelos ou
persuasão. Agora ele sabia, vendo a lista de orações de Irene, que ela nunca desistiu. Limitou-se
apenas a orar por ele, em primeiro lugar.
Não era de admirar agora que nunca tivesse chegado ao ponto de manchar seu casamento
por causa de Hattie Durham. Hattie! Quão envergonhado estava por causa daquele propósito
imbecil! Pelo que ele sabia, Hattie era inocente. Ela nunca depreciara sua esposa nem ϐizera
comentários sobre seu casamento. Jamais insinuara qualquer coisa imprópria. Os jovens eram
mais sensıv́ eis e coquetes, e ela não invocava códigos de moral e religião. O fato de Rayford
estar obcecado com a possibilidade de ter Hattie, embora ela provavelmente nem desconϐiasse
disso, fazia-o sentir-se mais leviano ainda.
De onde vinha esta culpa? Ele tinha trocado olhares com Hattie inúmeras vezes, passaram
horas a sós jantando em várias cidades. Mas ela nunca o convidara para entrar em seu quarto no
hotel ou tentara beijá-lo ou mesmo segurar suas mãos. Talvez ela correspondesse, se ele
tomasse a iniciativa, talvez não. Ela poderia facilmente sentir-se ofendida, insultada,
desapontada.
Rayford balançou a cabeça. Além de sentir-se culpado por cobiçar uma mulher a cujo
acesso ele não tinha nenhum direito, era também um desajeitado que nunca soube como
cortejá-la.
E agora ele enfrentava as horas mais sombrias da sua vida. Estava nervoso acerca de
Chloe. Apesar das circunstâncias do momento, desejava que ela chegasse sãe salva, e esperava
que a presença de sua ϐilha em casa pudesse amenizar um pouco sua aϐlição e sofrimento. Ele se
sentia esfomeado outra vez, mas nada lhe apetecia. Até mesmo o aroma dos deliciosos doces,
que poderiam enganar seu estômago, havia se tomado em lembrança dolorosa de Irene. Talvez
amanhã.
Rayford ligou a televisão, não por interesse de ver mais desgraças, mas com a esperança
de notıć ias sobre a ordem no paıś , o restabelecimento do tráfego, a comunicação. Após um
minuto ou dois de cenas repetidas, ele a desligou. Afastou a idéia de ligar para O'Hare sobre a
probabilidade de entrar no aeroporto e pegar seu carro, porque não queria tirar o fone do gancho
nem mesmo por um minuto, pois poderia acontecer de Chloe tentar uma ligação para casa.
Havia horas desde que ela saıŕ a de Paio Alto. Quanto tempo levaria para fazer todas aquelas
conexões malucas e ϐinalmente voar de Ozark, partindo de Springϐield em direção aos arredores
de Chicago? Ele se recordou da antiga brincadeira na indústria aeronáutica: Ozark lido ao
contrário é Krazo [craze = loucura]. Mas agora ele não achava graça nenhuma.
Ele deu um salto quando o telefone tocou, mas não era Chloe.
— Sinto muito, capitão — disse Hattie. — Prometi chamá-lo, mas caı́no sono depois da
ligação que recebi e só acordei agora.
— Está tudo bem, Hattie. Na verdade, preciso...
— Eu não queria importuná-lo de modo algum num momento como este.
— Não, está tudo bem, eu apenas...
— Falou com Chloe?
— Estou esperando que ela me telefone a qualquer momento, por isso vou ter de desligar!
Rayford tinha sido mais brusco do que pretendia, e Hattie ficou, a princípio, calada.
— Então, tudo bem. Sinto muito.
— Depois ligo pra você, Hattie. Está bem? -Está bem.
Ela pareceu chocada. Ele lamentou por isto, mas não por ter se livrado dela naquele
momento. Sabia que ela estava apenas querendo ajudar e ser atenciosa, mas aparentemente
não entendera a ansiedade dele. Hattie estava sozinha e assustada, tanto quanto ele, e sem
dúvida já recebera notıć ias de sua famıĺia. Oh! não! Ele nem sequer perguntou sobre a famıĺia
dela! Ela iria odiá-lo, e por que não? Quão egoísta pude ser?, pensou ele.
Por mais ansioso que estivesse para ouvir Chloe, ele bem que poderia arriscar-se a falar
mais uns dois minutos ao telefone. Discou para Hattie, mas sua linha estava ocupada.
Logo que chegou ao apartamento, Buck tentou um telefonema para Dirk Burton em
Londres, não querendo esperar mais tempo por causa da diferença de horário. Ele teve uma
resposta desnorteante. A secretária eletrônica particular de Dirk atendeu com a mensagem
particular, mas, tão logo o sinal para "deixar um recado" soou, um outro mais demorado indicou
que não havia mais espaço na ϐita. Estranho. Ou Dirk esteve dormindo esse tempo todo ou...
Buck não havia levado em conta que Dirk podia ter desaparecido. Além de deixar Buck com um
milhão de ■ẄẄỲ §¹∂©§°≥ ≥Ø¢≤• 3¥ØÆ°ß°¨Ẅ #°≤∞°¥®©°Ẅ 4ا§‾#Ø¥®≤°Æ • ¥Ø§Ø °±µ•¨• ¶•Æˉ≠•ÆØẄ $©≤
era um de seus melhores amigos desde Princeton. Oh, por favor, que isto seja apenas uma
coincidência, pensou ele. Que ele esteja viajando...
Tão logo Buck pôs o fone no gancho, seu telefone tocou. Era Hattie Durham. Ela estava
chorando.
— Sinto aborrecê-lo, Sr. Williams, eu tinha prometido a mim mesma nunca ligar para sua
casa...
— Tudo bem, Hattie. O que está havendo?
— Bem, na verdade é uma bobagem, mas estou preocupada e não tenho com quem
conversar. Não pude localizar minha mãe e minhas irmãs e, bem, apenas pensei que talvez o
senhor pudesse me entender.
— Esteja à vontade.
Ela contou a Buck que telefonara para o capitão-aviador Steele, quando chegaram a
Chicago, e soube que ele havia perdido sua esposa e ϐilho. Quando voltou a telefonar-lhe para
saber notıć ias, ele interrompeu bruscamente a conversa, dizendo que estava esperando uma
ligação de sua filha.
— Posso entender isso — disse Buck, revirando os olhos. Desde quando ele fazia parte do
clube de corações solitários? Ela não teria uma amiga com quem pudesse compartilhar seus
problemas?
— Eu também posso — disse ela. — Não há o que fazer. Sei que ele está sofrendo porque
sua esposa e ϐilho desapareceram. EƵ como se tivessem morrido. Mas ele sabia que eu estava
apreensiva com minha família e nem sequer perguntou.
— Bem, estou certo de que tudo isso faz parte da tensão do momento, da angústia, como
você diz, e...
— Oh! eu sei. Eu apenas queria falar com alguém, e pensei no senhor.
— Ora, ligue quando quiser — disse ele da boca para fora. Oh! rapaz, pensou ele. O número
do meu telefone particular vai ter de ser eliminado dos próximos cartões de visita. — Ouça,
gostaria de continuar, mas tenho um encontro esta noite, e...
— Bem, obrigada por me ouvir.
— Compreendo — disse ele, embora duvidasse que ela compreenderia. Talvez Hattie
mostrasse mais perspicácia e sensibilidade quando não estivesse estressada. Ele esperava que
sim.
Rayford ϐicou contente por encontrar ocupada a linha de Hattie, porque poderia dizer-lhe
mais tarde que tentou retornar a ligação. Porém, ele não conseguiu manter a linha desocupada
por muito tempo. Um minuto depois, seu telefone tocou de novo.
— Capitão, sou eu outra vez. Sinto muito, não vou tomar seu tempo, mas imaginei que
você tivesse tentado falar comigo enquanto estive usando o telefone...
— Na realidade, tentei, Hattie. O que você ficou sabendo de seus familiares?
— Eles estão bem — respondeu com voz de choro.
— Oh! graças a Deus — disse ele.
Rayford pôs-se a pensar no que teria havido com ele. Disse que estava contente por ela,
mas chegara à conclusão de que aqueles que não desapareceram haviam perdido o maior dos
eventos da história cósmica. Mas que poderia ele dizer: "Oh! sinto muito que seus familiares
também tenham sido deixados para trás"?
Quando desligou, Rayford sentou-se perto do telefone com a sensação desagradável de que,
com certeza, desta vez tinha perdido a ligação de Chloe. Isto o deixou furioso. Seu estômago
estava dando sinais de fome, e ele sabia que precisava comer, mas resolveu esperar mais algum
tempo, na esperança de poder comer na companhia de Chloe logo que ela chegasse.
Conhecendo-a, imaginava que ela também estivesse sem comer.
C A P Í T U L O 9
O SISTEMA de alarme subconsciente de Buck, que sempre o fazia despertar na hora
desejada, falhou naquele começo de noite. Ao chegar ao escritório de Steve Plank por volta de
8h45, com o cabelo despenteado e desculpando-se pelo atraso, suas suposições foram
conϐirmadas. Sentiu a indignação dos editores veteranos. Juan Ortiz, chefe da seção de polıt́ ica
internacional, estava furioso. Ele não aceitava que Buck participasse dos assuntos relacionados à
conferência de cúpula que planejava cobrir em duas semanas.
— Os judeus nacionalistas estão discutindo um tema que , tenho acompanhado durante
anos. Quem teria acreditado que eles manifestariam interesse em um governo mundial?
O simples fato de aceitarem discutir já é um grande passo. Eles estão se reunindo aqui, e
não em Jerusalém ou Tel-Aviv, porque suas idéias são revolucionárias. Muitos dos nacionalistas
israelenses acham que a Terra Santa já foi longe demais com tanta generosidade. Isto é
histórico.
— Então qual é o seu problema — disse Plank — com minha indicação de nosso principal
repórter para a cobertura?
— Porque eu sou seu principal repórter nessa área.
— Estou tentando entender o significado geral de todas essas reuniões — disse Plank.
Jimmy Borland, o editor de religião, argumentou:
— Compreendo as objeções de Juan, mas tenho duas reuniões para cobrir ao mesmo
tempo. Agradeço qualquer ajuda.
— Agora estamos começando a nos entender — disse Plank.
— Mas vou ser franco com você, Buck, acrescentou Borland. — Quero dar a última
palavra no texto final.
— Certamente — disse Plank.
— Não seja apressado — disse Buck. — Não quero ser tratado como um repórter de
equipe a quem se distribui aleatoriamente o trabalho de campo. Vou tirar minhas conclusões
sobre essas reuniões e não quero me intrometer nos territórios de seus experts. Não quero fazer
nem mesmo as coberturas de reuniões isoladas. Quero fazer a coordenação, saber o que
significam essas reuniões, quais são seus pontos em comum. Jimmy, os seus dois grupos religiosos
— os judeus que querem reconstruir o templo e os ecumênicos que desejam uma espécie de
ordem religiosa universal — vão disputar um com o outro? Haverá judeus religiosos...
— Ortodoxos.
— Está bem, haverá judeus ortodoxos na conferência ecumênica? Porque os ecumênicos
são contrários à reconstrução do templo.
— Bem, ao menos vocêestá pensando como um editor de religião — disse Jimmy. — Isto
é alentador.
— Mas qual é a sua idéia?
— Não sei. Há um fato curioso. As reuniões deles serão realizadas no mesmo horário e na
mesma cidade, o que é bom demais para ser verdade.
A editora de finanças, Barbara Donahue, pôs fim à discussão.
— Tenho tratado com você sobre vários assuntos desta natureza, Steve — disse ela. — E
aprecio seu modo de agir quando permite que todos se manifestem sem ameaça. Mas sabemos
sua decisão a respeito do envolvimento de Buck, portanto vamos passar por cima disto e ir
adiante com este projeto. Se cada um de nós dedicar-se de corpo e alma às reportagens de
nossos respectivos departamentos e der alguma contribuição ao texto geral, que seja do agrado
de todos, vamos em frente.
Até Ortiz meneou a cabeça aϐirmativamente, embora para Buck ele estivesse ainda
relutante.
— Buck é o nosso jogador-chave — disse Plank -, por isso mantenham contato com ele.
Ele se reportará a mim. Você quer dizer alguma coisa, Buck?
— Apenas agradecer muito — disse ele pesarosamente, provocando risos dos colegas. —
Barbara, seus monetaristas estão se reunindo na ONU, como ϐizeram quando decidiram sobre a
questão das três moedas?
— No mesmo lugar e as mesmas pessoas.
— Até que ponto Jonathan Stonagal está envolvido?
— Publicamente, você quer dizer? — perguntou ela.
— Bem, todo mundo sabe que ele é discreto. Mas há uma; influência de Stonagal?
— Você já viu pato falar? Buck sorriu e fez uma rápida anotação.
— Vou tomar isso como um sim. Gostaria de me aproximar dele e, quem sabe, tentar falar
com o "João Diamante".
— Boa sorte. Ele provavelmente não vai mostrar a cara lá.
— Mas ele está na cidade, não está, Barbara? Ele não se hospedou no Plaza na última vez?
— Você vai estar por perto, não vai? — arriscou ela.
— Bem, ele só recebia um figurão por dia em sua suíte. Juan Ortiz levantou a mão.
— Vou concordar com isso, e nada tenho de pessoal contra você, Buck. Mas não creio que
haja um meio de coordenar esta reportagem sem estabelecermos um vínculo.
Quero dizer, se você quiser dar inıć io a uma reportagem de destaque dizendo que houve
quatro importantes conferências internacionais na cidade, quase todas ao mesmo tempo, muito
bem. Mas relacionar uma com a outra seria ir longe demais.
— Se eu achar que elas não têm relação entre si, não haverá uma reportagem geral
consistente — disse Buck. — De acordo?
Rayford Steele não se continha de tanta ansiedade, agravada por sua angústia. Onde
estaria Chloe? Ele ϐicou em casa o dia todo, andando de um lado para o outro, em prantos,
pensando. Sentia-se envelhecido e claustrófobo. Telefonou para a Pan-Continental e lhe foi dito
que seu carro poderia ser liberado quando ele retornasse da viagem do próximo ϐim de semana.
As notıć ias da televisão mostravam o surpreendente progresso na remoção de veıć ulos das
estradas e o restabelecimento do transporte em geral. Mas a paisagem ainda ϐicaria com aquela
aparência de destruição durante meses. Guindastes e máquinas trituradoras de sucata
continuavam trabalhando, e os destroços permaneciam empilhados perigosamente nos
acostamentos das estradas e vias expressas.
Rayford levou horas para decidir telefonar para a igreja de sua esposa e sentiu-se grato de
não ter de conversar com ninguém. Como ele esperava, havia uma nova mensagem gravada na
secretária eletrônica da igreja, transmitida por uma voz de homem que soava um tanto
emotiva e pausada.
"Vocêligou para a Igreja Nova Esperança. Estamos planejando um estudo bıb́ lico semanal,
mas por enquanto vamos nos reunir apenas aos domingos, às dez horas da manhã. Todo o
conselho da igreja, menos eu, e a maioria de nossos congregados foram levados. Eu e os que
ϐicaram estamos cuidando do templo e distribuindo um teipe que nosso pastor titular deixou
preparado para esta ocasião. Vocêpode vir ao escritório da igreja a qualquer hora para apanhar
uma cópia grátis do teipe, e contamos com sua presença no culto matinal de domingo."
Bem, certamente, pensou Rayford, esse pastor falava freqüentemente do Arrebatamento da
igreja. Era esta a razão por que Irene se sentia tão fascinada com isso. Que idéia criativa, a de
gravar uma mensagem para aqueles que foram deixados para trás! Ele e Chloe teriam de buscar
uma cópia no dia seguinte. Seria muito bom se ela estivesse tão interessada como ele em
descobrir a verdade.
Rayford espiou através da vidraça a noite escura, exatamente no momento em que Chloe,
com uma grande mala ao lado, pagava o motorista. Ele saiu correndo de casa, os pés calçados
somente com meias, e abraçou-a com força.
— Oh! papai! — ela exclamou chorando. — Como estão todos? Ele sacudiu a cabeça, o
rosto espelhando desalento.
— Não quero ouvir — disse ela, largando-o e olhando para a casa, como se estivesse
esperando que sua mãe ou seu irmão aparecesse na porta.
— Sobramos só nós dois, Chloe — disse Rayford, abraçando a ϐilha e chorando com ela na
escuridão.
Buck Williams só conseguiu uma informação a respeito de Dirk Burton na sexta-feira por
meio do supervisor da área em que Dirk atuava na Bolsa de Londres.
— O senhor deve me dizer precisamente quem é e qual é o seu grau de relacionamento
com o Sr. Burton antes que eu possa fornecer-lhe alguma informação — disse Nigel Leonard. —
Sou também obrigado a informar-lhe que esta conversa será gravada a partir deste momento.
— Como assim?
— Estou gravando nossa conversa. Se o senhor não concordar, desligue.
— Não estou pescando nada.
— 0 que o senhor quer dizer com "pescando"? O senhor sabe o que é um gravador, não
sabe?
— Claro, também estou usando o meu, se o senhor não se importar.
— Bem, eu me importo, Sr. Williams. Por que raios o senhor está gravando?
— E por que o senhor está?
— Estamos diante de uma situação complicada, e precisamos investigar todos os
contatos.
— Que situação? Dirk também desapareceu?
— Não foi bem assim, suponho.
— Então me conte o que houve.
— Conte o senhor primeiro o motivo de seu telefonema. — Sou um velho amigo dele.
Fomos colegas de classe na faculdade.
— Onde?
— Princeton.
— Muito bem. Quando? Buck lhe contou.
— Muito bem. A última vez que falou com ele?
— Não me lembro. Trocamos mensagens pelo voice mail.
— Sua atividade? Buck hesitou.
— Articulista sênior, Semanário Global, Nova York.
— Seu interesse é de natureza jornalística?
— Não vou esconder-lhe isto — disse Buck, tentando evitar que sua raiva extravasasse -,
mas não posso imaginar que meu amigo, importante como é para mim, seja de interesse para
meus leitores.
— Sr. Williams — disse Nigel cautelosamente -, apesar de nossos gravadores estarem
ligados, permita-me aϐirmar categoricamente que o que vou dizer é estritamente conϐidencial e
não deve ser gravado. Está me entendendo?
— Eu...
— Porque estou ciente de que, tanto em seu paıś como na Comunidade Britânica,
qualquer coisa que se diga, depois da afirmação de que se trata de assunto confidencial, não pode
ser gravada e deve ser protegida.
— Concordo — disse Buck.
— Perdão, o que disse?
— O senhor me ouviu. Concordo. A conversa não está sendo gravada. Agora, onde está
Dirk?
— O corpo do Sr. Burton foi encontrado em seu apartamento esta manhã. Ele tinha uma
perfuração de bala na cabeça. Sinto muito, já que o senhor era um amigo dele, mas foi
confirmado.
O Suicídio.
Buck quase perdeu a fala.
— Por quem? — indagou.
— Pelas autoridades.
— Que autoridades?
— Scotland Yard e o pessoal de segurança da Bolsa. Scotland Yardl, pensou Buck. Vamos
descobrir isso.
— Por que a Bolsa está envolvida?
— Costumamos proteger nossas informações e nosso pessoal, senhor.
— Suicídio é impossível, o senhor sabe — retrucou Buck.
— Eu sei?
— Se o senhor é o supervisor dele, sabe.
— Houve um número muito grande de suicídios aqui desde os desaparecimentos, senhor.
Buck balançou a cabeça como se Nigel pudesse vê-lo do outro lado do Atlântico.
— Dirk não se matou, e o senhor sabe disso.
— Entendo seus sentimentos, mas não sei mais do que o senhor o que se passava na mente
do Sr. Burton. Eu gostava dele, mas não estou em condições de questionar a conclusão da
perícia médica.
Buck bateu o telefone e se dirigiu ao escritório de Steve Plank. Ele contou a seu chefe o
que acabava de ouvir.
— Que coisa terrível — disse Steve.
— Tenho um contato na Scotland Yard que conhece Dirk, mas não me atrevo a falar com
ele sobre este assunto por telefone. Marge pode me fazer uma reserva no próximo vôo para
Londres? Estarei de volta em tempo para essas conferências, mas tenho de ir.
— Se houver vôos para lá. Não estou certo de que o aeroporto Kennedy já tenha voltado a
funcionar.
— E quanto ao aeroporto La Guardiã?
— Pergunte a Marge. Você sabe que Carpathia estará aqui amanhã.
— Você mesmo disse que ele era peixe miúdo. Talvez ele ainda esteja aqui quando eu
voltar.
Em razão do sofrimento da ϐilha, Rayford Steele não foi capaz de convencê-la a sair de
casa para espairecer um pouco. Chloe passara horas no quarto de seu irmão e, depois, no quarto
do casal, escolhendo algumas lembranças pessoais para acrescentar às que seu pai tinha
colocado nas caixas. Rayford estava sofrendo por ela. Intimamente, ele havia esperado que ela o
consolasse. Talvez mais tarde. Por ora, ela precisava de tempo para assimilar as perdas da mãe
e do irmão. Assim que extravasou seu sofrimento, Chloe já estava pronta para conversar. Depois
de recordar fatos relacionados à famıĺia que provocaram mais angústia ainda no coração sofrido
de Rayford, ela finalmente mudou o assunto para o fenômeno dos desaparecimentos.
— Papai, na Califórnia eles estão admitindo a teoria de invasão vinda do espaço.
— Você está brincando.
— Não. Talvez seja porque você sempre foi tão prático e descrente a respeito de tudo o
que os tablóides publicam, mas simplesmente não posso atinar com o que aconteceu. Quero
dizer, deve ter sido alguma coisa sobrenatural ou do outro mundo, mas...
— Mas o quê?
— Parece que, se a força de uma vida do além fosse capaz de fazer isto, também seria
capaz de se comunicar conosco. Será que eles queriam tomar conta deste mundo ou exigir
algum resgate ou que fizéssemos alguma coisa para eles?
— Quem? Os marcianos?
— Papai! Não estou dizendo que acredito nisso. Estou dizendo que não acredito. Mas você
não acha que meu raciocínio faz sentido?
— Você não tem de me convencer. Admito que não teria sonhado que nenhuma dessas
coisas fosse possível há apenas uma semana, mas minha lógica já foi longe demais.
Rayford esperava que Chloe perguntasse sua teoria. Ele não queria começar justamente
pelo tema religioso. Ela foi sempre avessa a este respeito, tendo deixado de ir à igreja durante o
curso secundário. Naquela ocasião, ele e Irene desistiram de insistir com ela. Chloe era uma boa
ϐilha, jamais se envolveu em problemas. Conseguiu notas boas o suϐiciente para ganhar uma
bolsa de estudos parcial. Embora ocasionalmente ϐicasse fora até tarde da noite e ϐizesse parte
daquele perıó do louco da juventude do secundário, os pais nunca precisaram pagar uma ϐiança
para tirá-la da prisão, e não havia a mıń ima evidência de uso de droga. Ela não se deixava
envolver levianamente por essas coisas.
Rayford e Irene sabiam que Chloe havia chegado a casa várias vezes embriagada após
uma festa, a ponto de passar a noite vomitando. Na primeira vez, ele e Irene preferiram não
intervir, agindo como se nada tivesse acontecido. Acreditavam que ela era suϐicientemente
ajuizada para saber melhor quais seriam os resultados numa próxima vez. Quando aconteceu de
novo, Rayford teve uma séria conversa com ela.
— Eu sei, eu sei, eu sei, está bem, papai? Você não precisa começar a pegar no meu pé.
— Não estou começando a pegar no seu pé. Quero apenas tornar claro que você deve
saber que não pode dirigir se beber além da conta.
— É evidente que sei.
— E você sabe quão nocivo e perigoso é beber em demasia.
— Pensei que você não estivesse pegando no meu pé.
— Apenas me diga que você sabe o que está fazendo.
— Acho que já disse.
Ele havia balançado a cabeça sem querer dizer mais nada.
— Papai, pode continuar. Fale dos dois barris que bebi.
— Não brinque comigo — disse Rayford. — Algum dia vocêvai ter um ϐilho e não saberá o
que dizer a ele. Quando você ama alguém de todo o coração e se preocupa com seu bem-estar...
Rayford não conseguira prosseguir. Pela primeira vez, em sua vida adulta, fora dominado
pela emoção. Isso nunca acontecera em suas brigas com Irene. Ele tinha sido sempre muito
defensivo, muito preocupado em compreender as razões dela, evitando um impasse ou
desenlace. Mas, no caso de Chloe, ele queria realmente dizer a coisa certa, queria protegê-la.
Desejara que ela soubesse que ele a amava, mas estava parecendo o contrário. Era como se ele
estivesse punindo, fazendo sermão, repreendendo. Foi isso que o levara a interromper a
discussão.
Embora ele não tivesse planejado, aquela involuntária demonstração emotiva afetara
Chloe. Durante meses, ela permanecera arredia em relação aos pais. Tornara-se malhumorada,
fria, independente, sarcástica, desaϐiadora. Ele sabia que isso tudo fazia parte do seu
desenvolvimento no sentido de tornar-se adulta, mas aquela foi uma fase dolorosa e assustadora.
Enquanto ele mordia os lábios e respirava profundamente, esperando recompor-se e não
ϐicar embaraçado, Chloe aproximara-se dele e o abraçara envolvendo-o com os braços
entrelaçados em seu pescoço, exatamente como fazia quando garotinha.
— Oh! papai, não chore — dissera ela. — Sei que você me ama. Sei que você se importa
comigo. Não se preocupe. Aprendi a lição e não vou ser estúpida outra vez, prometo.
Ele se desmanchara em lágrimas, e ela também. Dali em diante, tornaram-se muito
unidos. Rayford não se recordava de ter voltado a discipliná-la e, embora ela não tivesse
retornado à igreja, ele tinha começado a se afastar também. Tornaram-se unha e carne, e ela
cresceu e se desenvolveu cada vez mais parecida com ele. Irene brincava dizendo que cada um
dos filhos tinha seu progenitor favorito.
Agora, apenas poucos dias depois do desaparecimento de Irene e Raymie, Rayford
esperava que o relacionamento que começara em um momento de emoção, quando Chloe
estava na escola secundária, reϐlorescesse para que pudessem conversar. O que era mais
importante do que aquilo que tinha acontecido? Ele já sabia em que os amigos amalucados da
faculdade e os californianos acreditavam. O que havia de novidade? Ele sempre disse,
generalizando, que as pessoas da Costa Oeste atribuıá m aos tablóides o mesmo peso que os
habitantes do Meio-Oeste davam ao Chicago Tribune ou mesmo ao New York Times.
Já no ϐinal do dia, sexta-feira, Rayford e Chloe concordaram, embora com relutância, que
deviam comer. Ambos trabalharam na cozinha, preparando rapidamente a refeição com o que
encontraram, o que resultou numa saudável mistura de frutas e vegetais. Havia algo ameno e
benéϐico no trabalho que faziam em silêncio. Era pungente, por outro lado, porque qualquer
atividade doméstica fazia Rayford lembrar-se de Irene. E, quando se sentaram para comer,
ocuparam automaticamente os mesmos lugares na mesa aos quais tinham se habituado — o
que tornava os outros dois lugares vazios ainda mais evidentes.
Rayford notou que o rosto de Chloe começou a anuviar-se
de novo e sabia que ela estava sentindo o mesmo que ele. Passaram-se muitos anos desde
que faziam três ou quatro refeições por semana juntos, como famıĺia. Irene sentava-se sempre à
sua esquerda, Raymie, à sua direita, e Chloe, na frente dele. O vazio e o silêncio eram
dissonantes.
Rayford estava faminto e logo devorou uma enorme salada. Chloe parou de comer logo
depois de ter começado e chorou silenciosamente, a cabeça inclinada, lágrimas caindo em seu
colo. O pai tomou sua mão, e ela se levantou sentando-se em seu joelho, escondendo o rosto e
soluçando. Com o coração despedaçado ao vê-la assim, Rayford pôs-se a acalentá-la até que ela
silenciou.
— Onde estão eles? — perguntou Chloe soluçando.
— Você quer saber onde eu penso que estão? — perguntou ele. — Você quer mesmo
saber?
— Claro que sim.
— Creio que estão no céu.
— Oh! papai! Havia alguns caras religiosos na escola que viviam dizendo isso, mas, se
sabiam tanto sobre religião, por que ficaram?
— Talvez eles tenham concluıd́ o que não foram bons o suϐiciente e perderam sua
oportunidade.
— Você acha que é o que fizemos? — perguntou Chloe, voltando à sua cadeira.
— Acho que sim. Sua mãe não lhe disse que acreditava na volta de Jesus algum dia para
levar seus seguidores diretamente para o céu antes de morrerem?
— Certo, mas ela foi sempre mais religiosa do que nós. Eu achava que ela estava
simplesmente sendo arrebatada.
— Boa escolha de palavras.
— O quê?
— Ela foi arrebatada, Chloe. Raymie também.
— Você realmente acredita nisso?
— Acredito.
— Isso é tão estúpido quanto a teoria da invasão dos marcianos.
Rayford ficou na defensiva.
— Então qual é sua teoria?
Chloe começou a tirar os pratos da mesa e falou de costas para ele.
— Sou bastante honesta para admitir que não sei.
— Então não estou sendo honesto?
Chloe voltou-se para ele, olhando-o com simpatia.
— Vocênão vê, papai? Vocêestá gravitando em torno da possibilidade menos dolorosa. Se
houvesse uma votação, eu diria que minha mãe e meu irmãozinho estão no céu com Deus,
sentados nas nuvens, dedilhando suas harpas.
— Então estou enganando a mim mesmo, é o que você está dizendo?
— Papai, não estou culpando-o. Mas tem de admitir que isto é muito artificial.
Agora Rayford enfureceu-se.
— O que é mais artificial do que pessoas desaparecerem saindo de suas roupas? Quem mais
poderia ter feito isso? Há alguns anos, acusamos os soviéticos, dizendo que eles tinham
desenvolvido alguma tecnologia supermoderna, algum raio da morte que afetava somente a
carne e os ossos humanos. Porém não há mais ameaça soviética, e os russos perderam pessoas
também. E como este... este seja lá o que for... escolheu quem levar e quem deixar?
— Vocêestá dizendo que a única explicação lógica é Deus, que Ele levou o que era dele e
nos deixou para trás?
— É o que estou dizendo.
— Eu não quero ouvir isso.
— Chloe, nossa famıĺia é uma perfeita imagem do que aconteceu. Se o que estou dizendo
estiver correto, as duas pessoas lógicas se foram e as duas pessoas lógicas foram deixadas.
— Você acha que sou uma grande pecadora?
— Chloe, ouça. Se você é, eu não sei, mas eu sou pecador. Não estou julgando você. Se
estou certo sobre isso, perdemos alguma coisa. Eu sempre me considerei cristão,
principalmente por ter sido criado num lar cristão e não ser judeu.
— Agora você não se considera mais cristão?
— Chloe, penso que os cristãos se foram.
— Então eu também não sou cristã?
— Você é minha ϐilha e o único membro de minha famıĺia que ainda está aqui; amo você
mais do que qualquer coisa na terra. Mas, se os cristãos se foram e todos os demais ϐicaram,
acho que não existe mais nenhum cristão.
— Não existe mais nenhum supercristão, você quer dizer.
— Sim, um verdadeiro cristão. Aparentemente, aqueles que foram reconhecidos por Deus
como verdadeiramente seus. De quem mais posso estar falando?
— Papai, o que isso prova quem é Deus? Algum ditador doentio, sádico?
— Cuidado, doçura. Você acha que estou errado, mas, e se eu estiver certo?
— Então Deus é rancoroso, abominável, mesquinho. Quem deseja ir para o céu com um
Deus como esse?
— Se é lá que sua mãe e Raymie estão, é lá que eu quero estar.
— Eu também quero estar com eles, papai! Mas diga-me como isto se harmoniza com um
Deus amoroso e misericordioso. Quando freqüentei a igreja, ϐiquei cansada de ouvir como Deus é
amoroso. Ele nunca respondeu às minhas orações e nunca senti que Ele me conhecia ou se
preocupava comigo. Agora você diz que é isso mesmo. Ele não se preocupava comigo. Não fui
qualificada, por isso fui deixada para trás? Seria melhor que você não estivesse certo.
— Mas, se não estiver certo, quem está, Chloe? Onde estão eles? Onde está todo mundo?
— Está vendo? Você se interessou por essa coisa de céu porque isso faz você sentir-se
melhor. Mas me faz sentir pior. Não acredito. Não quero nem mesmo considerar essa idéia.
Rayford desistiu do assunto e foi ver televisão. A programação regular tinha voltado, mas
as notıć ias prosseguiam. Ele ϐicou intrigado com o nome incomum do novo presidente da
Romênia, sobre o qual tinha lido recentemente. Carpathia. Ele deveria chegar ao aeroporto La
Guardiã, em Nova York, no sábado e dar uma entrevista à imprensa no domingo de manhã,
antes de falar na ONU.
Portanto, La Guardiã estava aberto. Era para lá que Rayford devia pilotar um vôo lotado
no início daquela noite. Ele telefonou para a Pan-Continental em O'Hare.
— Estou contente por ter telefonado — disse um supervisor. -Estava para chamá-lo. Sua
avaliação para o 757 está atualizada?
— Não. Já pilotei esse tipo de aeronave muitas vezes, mas preϐiro o 747, e não fui avaliado
este ano para pilotar o 757.
— Estamos somente operando com 757 neste ϐim de semana para o leste. Vamos ter de
chamar outro piloto. E você precisa ser avaliado logo para termos flexibilidade.
— Vou providenciar. Qual é o próximo vôo para mim?
— Você quer voar para Atlanta na segunda-feira e retornar no mesmo dia?
— Num...?
—747.
— Tudo bem. Você sabe se há lugar para um passageiro nesse vôo?
— Para quem?
— Um membro da família.
— Deixe-me checar.
Rayford ouviu o ruído do teclado do computador e som de vozes ao fundo.
— Ah! enquanto eu estava checando, recebemos um pedido de uma integrante da
tripulação para ser escalada para o seu próximo vôo. Ela estava imaginando que esta noite você
faria a rota Logan-Kennedy e retorno.
— Quem? Hattie Durham?
— Deixe-me ver. Certo.
— Então, ela está escalada para Boston e Nova York?
— Hã-hã.
— E eu não estou, portanto esta é uma questão que pode ser discutida mais tarde,
entendido?
— Suponho que sim. Você poderia me adiantar se vai concordar ou não?
— Como assim?
— Ela vai perguntar novamente, suponho. Você tem alguma objeção caso ela seja
escalada para um de seus próximos vôos?
— Bem, de qualquer forma não será para meu vôo até Atlanta, certo?
—Certo.
Rayford suspirou.
— Nenhuma objeção. Não, espere. Simplesmente deixe que aconteça, se é que vai
acontecer.
— Não estou entendendo, capitão.
— Estou apenas dizendo que, se ela for escalada normalmente, não tenho nenhuma
objeção. Mas não vamos fazer qualquer ginástica para que isso aconteça.
— Entendi. E seu vôo para Atlanta parece que vai levar um passageiro grátis. Nome?
— Chloe Steele.
— Vou tentar colocá-la na primeira classe, mas, se estiver lotada, saiba que ela vai sentar
lá no fundo do avião.
Assim que Rayford desligou o telefone, Chloe apareceu na sala.
— Não vou voar esta noite — disse ele.
— A notícia é boa ou ruim?
— Estou aliviado. Quero passar mais tempo com você.
— Depois do modo como lhe falei? Imaginei que você quisesse me ver pelas costas.
— Chloe, podemos falar francamente um com o outro. Vocêé minha famıĺia. Odeio a idéia
de estar longe de você. Vou fazer um vôo de ida e volta para Atlanta na segunda-feira e reservei
um lugar na primeira classe, se você quiser me acompanhar.
— Certamente.
— Eu gostaria apenas que você não tivesse dito uma coisa.
— Qual?
— Que você não quer nem mesmo considerar minha teoria. Você sempre gostou das
minhas teorias. Não me importo se você disser que não a aceita. Não sei o suϐiciente para
articulá-la de uma forma que faça sentido. Mas sua mãe falou sobre isso. Uma vez ela até me
advertiu que, se eu não tivesse certeza de que iria para o céu, quando Cristo retornasse para
buscar seu povo, eu não deveria ser irreverente a este respeito.
— E você foi?
— Certamente fui. Mas nunca mais serei.
— Bem, papai, não vou ser irreverente a este respeito. Simplesmente não posso aceitar.
Só isso.
— É compreensível. Mas não diga que não vai nem mesmo considerar minha teoria.
— Bem, você considerou a teoria dos invasores do espaço?
— Na realidade, considerei.
— Você está brincando.
— Considerei tudo. O que aconteceu estava muito acima da experiência humana; em que
poderíamos pensar?
— Está bem, então, se eu voltar atrás e disser que vou considerar sua teoria, o que isso vai
signiϐicar? Vamos nos tornar religiosos fanáticos de repente, começar a ir à igreja, e o que mais?
Quem sabe se agora já não é muito tarde?
Se você estiver certo, talvez tenhamos perdido nossa chance para sempre.
— EƵ o que temos de investigar, você não acha? Vamos examinar o assunto, ver se existe
alguma coisa relacionada a ele. Se houver, devemos saber se ainda existe uma oportunidade de
um dia voltarmos a estar com mamãe e Raymie.
Chloe sentou-se meneando a cabeça.
— Ih!, papai. Não sei não.
— Ouça, telefonei para a igreja que sua mãe estava freqüentando.
— Oh! não.
Rayford lhe contou sobre a gravação e o oferecimento do teipe.
— Papai! Um teipe para aqueles que ficaram para trás? Por favor!
— Isto lhe parece ridıć ulo porque você está sendo cética. Não conheço outra explicação
lógica, por isso não vejo a hora de ouvir o teipe.
— Você está desesperado.
— Claro que estou! Você não está?
— Estou aϐlita e assustada, mas não tão desesperada a ponto de perder o juıź o. Oh! papai,
sinto muito. Não olhe para mim assim. Não o estou censurando por investigar isso. Continue, e
não se preocupe comigo.
— Você irá comigo?
— Prefiro não ir. Mas se você quiser...
— Você pode esperar no carro.
— A questão não é essa. Não estou com medo de encontrar alguém com quem não
concordo.
— Vamos lá amanhã — disse Rayford, desapontado com a reação de Chloe, mas
determinado a prosseguir, por causa dela e dele. Se estivesse certo, não desistiria de convencer
a própria filha.
C A P Í T U L O 10
CAMERON Williams convenceu-se de que não deveria telefonar para o amigo comum dele
e de Dirk Burton na Scotland Yard antes de deixar Nova York. Por causa da diϐiculdade de
comunicação que perdurava havia vários dias, e em virtude da estranha conversa que teve com
o supervisor de Dirk, Buck não queria correr o risco de ter sua ligação interceptada por alguém.
Tudo o que ele queria era preservar a integridade de seu contato com a Scotland Yard.
Munido de seus dois passaportes, o verdadeiro e o falso, e do visto de entrada — uma
precaução habitual de segurança -, Buck pegou um vôo para Londres, saindo de La Guardiãno
ϐinal da noite de sexta-feira, chegando a Heathrow no sábado pela manhã. Instalou-se no Hotel
Tavistock e dormiu até a metade da tarde. Em seguida, se pôs a buscar a verdade sobre a morte
de Dirk.
Sua primeira providência foi telefonar para a Scotland Yard e perguntar por seu amigo
Alan Tompkins, um detetive de nıv́ el médio. Eles tinham aproximadamente a mesma idade, e
Tompkins era um investigador alto, de cabelos escuros e aparência meio desleixada que Buck
entrevistara para uma reportagem sobre o terrorismo britânico.
Eles se deram bem e, certa noite, chegaram a passar algumas horas numa taverna com
Dirk. Os três se tornaram amigos. Toda vez que Buck visitava Londres, os três se reuniam.
Agora, por telefone, ele tentava comunicar-se com Tompkins de tal modo que o amigo
percebesse seu intuito de imediato, sem mencionar que se conheciam — no caso de o telefone
estar grampeado.
— Sr. Tompkins, o senhor não me conhece, sou Cameron Williams, do Semanário Global.
— Antes que Alan tivesse tempo de rir e saudar seu amigo, Buck continuou ininterruptamente:
— Estou aqui em Londres para escrever um artigo preliminar para a conferência monetária
internacional na ONU.
Alan ficou repentinamente sério.
— Como posso ajudá-lo, senhor? O que isso tem a ver com a Scotland Yard?
— Estou tendo diϐiculdade de localizar uma pessoa para uma entrevista e suspeito que
houve algum problema com ela.
— Como se chama essa pessoa?
— Burton. Dirk Burton. Ele trabalha na Bolsa.
— Vou veriϐicar e em seguida lhe telefonarei. Poucos minutos depois, o telefone de Buck
tocou.
— Tompkins da Yard. Gostaria que o senhor tivesse a gentileza de vir até aqui para
conversarmos.
Na manhã de sábado em Monte Prospect, Illinois, Rayford telefonou novamente para a
Igreja Nova Esperança. Desta vez, um homem atendeu. Rayford apresentou-se como marido de
uma ex-congregada.
— Conheço o senhor — disse o homem. — Já nos encontramos. Sou Bruce Barnes, o pastor
auxiliar.
— Oh! sim, como vai?
— O senhor disse ex-congregada? Então Irene não está mais conosco?
— Exatamente, e nosso filho também.
— Ray Jr., não era esse o seu nome?
— Certo.
— O senhor também tem uma filha mais velha, que não freqüenta a igreja, não tem?
—Chloe.
— E ela...
— Está aqui comigo. Eu queria saber como o senhor está coordenando tudo isso —
quantas pessoas desapareceram, se estão se reunindo, esse tipo de coisa. Sei que o senhor tem
um culto aos domingos e que está oferecendo um teipe.
— Bem, o senhor então já sabe tudo o que aconteceu, Sr. Steele. Quase todos os membros
e freqüentadores habituais desta igreja se foram. Sou a única pessoa que restou do conselho. Pedi
a algumas senhoras que ajudassem no escritório da igreja. Não tenho nenhuma idéia de quantos
aparecerão no domingo, mas será um privilégio revê-lo.
— Estou muito interessado nesse teipe.
— Ficarei feliz em oferecer-lhe um. Vamos falar sobre isto na manhã de domingo.
— Não sei como perguntar-lhe, Sr. Barnes.
— Bruce.
— Bruce. Você vai ensinar, pregar, ou o quê?
— Discutir. Vamos rodar a gravação para aqueles que não a ouviram e depois
discutiremos o assunto.
— Mas o senhor... Quero dizer, como você pode explicar o fato de ainda estar aqui?
— Sr. Steele, há somente uma explicação para isso, e eu preϐiro conversar com o senhor
pessoalmente. Se o senhor me disser quando virá pegar o teipe, estarei aqui aguardando.
Rayford disse-lhe que iria naquela tarde. Talvez Chloe o acompanhasse.
Alan Tompkins estava aguardando logo na entrada do prédio da Scotland Yard. Quando
Buck chegou, Alan apertou sua mão formalmente e levou-o a um pequeno calhambeque, que
dirigiu velozmente até uma taverna escura a alguns quilômetros de distância.
— Não vamos falar até chegarmos lá — disse Alan, sempre olhando a retaguarda pelos
espelhos retrovisores. — Preciso me concentrar.
Buck nunca vira seu amigo tão agitado e, até mesmo, assustado.
Foi servido a cada um meio litro de cerveja preta num canto escondido da taverna, mas
Alan nem tocou na caneca. Buck, que não comera nada desde a chegada, trocou sua caneca
vazia pela cheia de Alan e bebeu todo o conteúdo de uma só vez. Quando a garçonete apareceu
para pegar as canecas, Buck pediu um sanduıć he. Alan recusou, e Buck, conhecendo seus
limites, pediu uma soda.
— Sei que isto vai ser como jogar gasolina numa chama -começou Alan -, mas preciso lhe
dizer que este é um negócio sórdido e que você deve ficar o mais longe dele que puder.
— A verdade é que você está soprando minha chama — disse Buck. — O que está
acontecendo?
— Bem, dizem que foi suicídio, mas...
— Mas nós dois sabemos que é um absurdo. Qual é a evidência? Você esteve no local?
— Estive. Tiro na têmpora, revólver em sua mão. Nenhum bilhete.
— Estava faltando alguma coisa?
— Acho que não, mas, Cameron, você sabe o que isso quer dizer.
—Eu não!
— Vamos, vamos, homem. Dirk era um conspirador teórico, sempre farejando em torno
do envolvimento de Todd-Cothran com homens internacionais do dinheiro, de seu papel na
conferência das três moedas e de seu relacionamento com Stonagal.
— Alan, há livros sobre esse negócio. Pelo amor de Deus! As pessoas fazem disso um
passatempo, atribuindo toda forma de maquinação à Comissão Trilateral, aos iluminados, até
mesmo aos maçons. Dirk pensava que Todd-Cothran e Stonagal faziam parte de um grupo que
ele chamava de Conselho dos Dez ou Conselho dos Sábios. E daí? Isto é inofensivo.
— Mas quando alguém tem um subordinado, reconhecidamente vários nıv́ eis abaixo do
dirigente da Bolsa, tentando ligar seu chefe a teorias conspiradoras, esse alguém tem um
problema.
Buck suspirou.
— Ele deve receber uma repreensão, talvez ser demitido. Mas me explique por que ele foi
morto ou cometeu suicídio.
— Vou dizer-lhe uma coisa, Cameron — continuou Alan. — Sei que ele foi assassinado.
— Sim, estou bastante convencido de que foi, porque acho que, se ele fosse um suicida, eu
teria um indício.
— Estão tentando atribuir o suicıd́ io ao remorso que ele devia estar sentindo por ter
perdido parentes no grande fenômeno dos desaparecimentos, mas isso não convence ninguém.
Que eu saiba, ele não perdeu nenhuma pessoa íntima.
— Mas você sabe que ele foi assassinado? Palavras muito fortes para um investigador.
— Sei porque o conhecia, não porque sou investigador.
— Isso não ajuda — disse Buck. — Eu também posso dizer que o conhecia e que ele não
seria capaz de cometer suicídio, mas estou sendo parcial nessa história.
— Cameron, isto seria muito mais simples se Dirk não fosse nosso amigo. Por que motivos
nós sempre caçoávamos dele?
— Por muitos motivos. Por quê?
— Nós o criticávamos por ele ser um desajeitado.
— Sim. E daí?
— Se ele estivesse conosco neste momento, onde estaria sentado?
De repente, Buck começou a compreender aonde Alan estava querendo chegar.
— Ele estaria sentado à esquerda de um de nós, e era desajeitado por ser canhoto.
— O tiro foi na têmpora direita, e a suposta arma do suicida estava na mão direita.
— E qual foi a reação dos chefes quando você lhes disse que ele era canhoto e, portanto,
devia ter sido assassinado?
— Você é a primeira pessoa a quem falei sobre isso.
— Alan! O que você está dizendo?
— Estou dizendo que amo minha famıĺia. Meus pais ainda estão vivos e tenho um irmão e
uma irmãmais velhos. Tenho também uma ex-esposa de quem ainda gosto muito. Eu não me
importaria de acabar com a vida dela, mas não desejaria que alguém a maltratasse.
— Do que você tem medo?
— Tenho medo de qualquer um que esteja por trás da morte de Dirk, naturalmente.
Mas você tem toda a Scotland Yard em sua retaguarda, homem! Você se considera um
funcionário que aplica a lei e vai deixar isto escapar?
— Sim, e você também vai fazer o mesmo!
— Eu não. Não conseguiria viver em paz comigo mesmo.
— Se você tomar alguma atitude, vai morrer.
Buck acenou para a garçonete e pediu batata palha. Ela trouxe uma porção generosa, frita
com bastante óleo. Era exatamente o que ele queria. A cerveja já começara a fazer efeito, e o
sanduıć he tinha sido insuϐiciente para equilibrar. Ele sentia a cabeça zonza e achava que seu
estômago ficaria satisfeito por um bom tempo.
— Estou escutando — sussurrou ele. — O que você está tentando me dizer? Quem o está
ameaçando?
— Se você acredita em mim, não vai gostar.
— Nao tenho motivo para não acreditar em você e não estou gostando disso. Desembuche.
— A morte de Dirk foi caracterizada oϐicialmente como suicıd́ io, e ponto ϐinal. O local foi
limpo, o corpo, cremado. Pedi uma autópsia, e eles nem quiseram me ouvir. Meu oϐicial
superior, Capitão Sullivan, perguntou-me o que uma autópsia revelaria. Falei-lhe das
escoriações, arranhões, sinais de luta. Ele me perguntou se eu achava que fazia sentido um
sujeito lutar consigo mesmo antes de se matar. Guardei comigo minhas conclusões.
— Por quê?
— Farejei alguma coisa.
— Que tal eu publicar numa revista internacional uma reportagem apontando essas
discrepâncias? Alguma coisa teria de acontecer.
— Fui instruıd́ o a dizer-lhe que volte para casa e esqueça que ouviu qualquer coisa sobre
este suicídio.
Buck franziu a testa e semicerrou os olhos demonstrando descrença.
— Ninguém sabia que eu viria para cá.
— Talvez seja verdade, mas alguém admitiu que você poderia aparecer. Eu não me
surpreendi com sua vinda.
— Por que vocêdeveria? Meu amigo está morto, pretensamente por sua própria mão. Eu
não ignoraria isso.
— Você vai ignorar daqui em diante.
— Você acha que vou me acovardar só porque você se acovardou?
— Cameron, você me conhece bem.
— Eu me pergunto se o conheço realmente! Pensei que tivéssemos o mesmo modo de
pensar. Fomos paladinos da justiça, Alan. Defensores da verdade. Sou jornalista, você é
investigador. Somos céticos por natureza. Como podemos fugir da verdade, especialmente
quando se trata de nosso amigo?
— Você me ouviu? Fui alertado para denunciá-lo, se e quando você aparecesse.
— Então por que você permitiu que eu viesse até a Yard?
— Eu estaria em dificuldade se o tivesse avisado antes.
— Com quem?
— Pensei que você nunca perguntaria. Fui visitado por um capanga, conforme vocês
costumam dizer nos Estados Unidos.
— Um pistoleiro?
— Precisamente.
— Ele o ameaçou?
— Sim. Ele disse que, se eu não quisesse que acontecesse comigo ou com minha famıĺia o
mesmo que aconteceu com meu amigo, teria de fazer o que ele dissesse. Acredito que seja o
mesmo cara que matou Dirk.
— Foi ele, provavelmente. Então por que você não denunciou a ameaça?
— Eu ia fazer isso. Comecei tentando resolver tudo sozinho. Disse a ele que não se
preocupasse comigo. No dia seguinte, fui à Bolsa e solicitei uma entrevista com o Sr. ToddCothran.
— O chefão?
— Em carne e osso. Não tinha uma entrevista agendada, naturalmente, mas insisti que se
tratava de um assunto da Scotland Yard, e ele consentiu em receber-me. Seu escritório é
intimidador. Móveis de mogno e cortinas verde-musgo. Bem, fui direto ao assunto. Disse-lhe:
"Senhor, creio que um de seus funcionários foi assassinado." E, com a voz mais calma do mundo,
ele disse: "Preste atenção, governador" — um termo que os moradores do extremo leste de
Londres usam entre si, mas que não é usado por alguém da posição dele em relação a pessoas
com eu -, "na próxima vez que alguém o visitar em seu apartamento às dez horas da noite,
como fez um certo cavalheiro na noite passada, cumprimente-o por mim, entendeu?"
— O que você disse?
— O que podia eu dizer? Perdi a voz, tão estupefato ϐiquei! Apenas olhei para ele e ϐiz um
gesto aϐirmativo com a cabeça. "E deixe-me dizer uma coisa mais", continuou ele, "diga a seu
amigo Williams para ϐicar fora disso." Perguntei: "Williams?", como se não soubesse de quem ele
estava falando. Ele não deu atenção ao que eu disse, certamente por saber que eu conhecia
você.
— Alguém escutou o voice mail de Dirk.
— Sem dúvida. E ele disse ainda: "Se aquele sujeito precisar ser convencido, diga-lhe que
gosto de seu pai e de Jeff tanto quanto ele." Jeff é seu irmão?
Buck afirmou com a cabeça.
— E então você desmoronou?
— O que poderia fazer? Tentei bancar o herói destemido e disse-lhe: "Posso estar gravando
nossa conversa." Frio como, só ele pode ser, disse-me: "Os detectores de metais já o teriam
apanhado." "Posso ter uma boa memória e, então, desmascará-lo", disse-lhe eu. Ele retrucou: "O
risco é seu, governador. Quem vai acreditar em você, e não em mim? Nem mesmo Marianne
acreditaria em você — ela poderá não estar em condições de compreender."
— Marianne?
— Minha irmã. Mas ainda não cheguei nem à metade da história. Como se precisasse
provar seu poder, ele chamou meu capitão pelo telefone viva-voz e lhe perguntou: "Sullivan, se
um de seus homens viesse ao meu escritório e me aborrecesse por qualquer coisa, o que eu
deveria fazer?"
E Sullivan, um de meus ıd́ olos, respondeu, parecendo um bebezinho: "Sr. Todd-Cothran,
faça o que deve ser feito." Todd-Cothran insistiu: "E se eu o matasse onde ele está sentado?"
Sullivan respondeu: "Senhor, estou certo de que seria um homicídio justificável." Agora pense um
pouco. Em uma conversa telefônica com alguém da Scotland Yard, onde todas as ligações
recebidas são gravadas, e sabendo disso muito bem, Todd-Cothran disse o seguinte: "Mesmo se o
nome dele fosse Alan Tompkins?" Ele disse exatamente isto, tão claro como o sol. E Sullivan
respondeu: "Eu iria aí e trataria de retirar o corpo." Entendi o recado.
— Em resumo, você não tem a quem recorrer.
— Ninguém que eu possa lembrar. — E eu tenho de virar as costas e fugir daqui.
Alan concordou com a cabeça.
— Tenho de informar a Todd-Cothran que transmiti o recado. Ele espera que vocêretorne
no primeiro vôo.
— E se eu não quiser?
— Não há nenhuma garantia, mas eu não tentaria ϐicar aqui. Buck afastou os pratos de
lado e empurrou a cadeira para trás.
— Alan, vocênão me conhece bem, mas ϐique sabendo que não sou do tipo que ouve essas
coisas sem sair do lugar.
— EƵ isto que me preocupa. Eu também não sou, mas a quem posso recorrer? O que fazer?
Talvez vocêimagine que exista alguém conϐiável, mas o que essa pessoa poderia fazer? Se isto
provar que Dirk estava certo, que ele chegou muito próximo de alguma coisa clandestina em
que Todd-Cothran estava metido, onde essa história vai parar? Stonagal também teve
participação? E quanto aos outros do grupo internacional de ϐinancistas que se encontram com
eles? Você considerou que eles podem ter o mundo inteiro nas mãos? Eu cresci lendo histórias
sobre os maϐiosos de Chicago, que tinham nas mãos policiais, juizes e até mesmo polıt́ icos.
Ninguém podia tocar neles.
Buck assentiu.
— Ninguém podia tocá-los, exceto aqueles que não podiam ser comprados.
— Os Intocáveis?
— Eles eram os meus heróis — disse Buck.
— E meus também — acrescentou Alan. — Foi por isso que me tornei investigador. Mas
se a Yard é suja, a quem devo me dirigir?
Buck descansou o queixo na mão.
— Você acha que está sendo vigiado? Seguido?
— Estou procurando saber. Até agora, não.
— Alguém sabe que estamos aqui?
— Observei o tempo todo e não vi ninguém nos seguindo Em minha opinião proϐissional,
estamos aqui despercebidos que você pretende fazer, Cameron?
— Aparentemente, há pouca coisa a se fazer aqui. Talvez retorne a meu paıś com um
nome diferente. Quem estivei preocupado comigo vai pensar que estou teimando em
permanecer aqui.
— Qual a vantagem disso?
— Posso estar atemorizado, Alan, mas vejo as coisas por outro ângulo. E, de uma forma
ou de outra, vou encontrara pessoa certa para ajudar. Não conheço seu paıś o suϐiciente para
saber em quem confiar. Evidentemente, confio em você mas você está incapacitado.
— Você está me chamando de fraco, Cameron? Existe alguma saída para mim?
Buck sacudiu a cabeça.
— Sinto por você — disse ele. — Não sei o que faria em seu lugar.
A garçonete estava passando de mesa em mesa, perguntando alguma coisa aos clientes.
Quando ela se aproximou deles, Buck e Alan fizeram silêncio para ouvir.
— Alguém tem um carro sedã verde-claro? Uma pessoa avisou que a luz interna está
acesa.
— É o meu — disse Alan. — Não me lembro de ter acendido a luz interna.
— Nem eu — disse Buck -, mas parece que a luz estava apagada quando chegamos aqui.
Talvez eu esteja enganado
— Vou ver. Provavelmente, não houve nenhum problema mas aquela velha bateria não
pode agüentar muito tempo
— Cuidado — recomendou Buck. — Alguém pode ter mexido nele.
— É improvável. Estacionamos bem em frente, você se lembra?
Buck endireitou-se na cadeira e acompanhou Alan com os olhos enquanto o investigador
saıá da taverna. Dali, dava para ver que a luz interna do carro estava acesa. Alan circundou o
carro, abriu a porta do lado do motorista desligou a luz. Quando retornou à mesa, disse:
— Estou começando a caducar com minha idade. Logo vou esquecer os faróis acesos.
Buck estava triste, pensando nos apuros de seu amigo. Que problema! Trabalhar em algo
que ambicionou a vida inteira para depois descobrir que seus superiores eram devedores e
submissos a um assassino internacional.
— Vou telefonar para o aeroporto e ver se consigo um vôo para esta noite.
— Não há nenhum vôo para sua terra a esta hora da noite — informou Alan.
— Vou pegar um vôo até Frankfurt e saio de lá de manhã. Acho que não devo abusar de
minha sorte aqui.
— Há um telefone junto à porta. Vou pagar a conta.
— Faço questão de pagar — disse Buck, passando uma nota de 50 marcos por cima da
mesa.
Buck ligou para Heathrow enquanto Alan contava o troco entregue pela garçonete. Buck
conseguiu um lugar num vôo para Frankfurt dali a 45 minutos mais tarde, o que lhe permitia
pegar um vôo no domingo de manhã para o aeroporto Kennedy.
— Oh! Kennedy está aberto? — perguntou.
— Abriu uma hora atrás — disse uma voz feminina. — Vôos limitados, mas o da PanContinental
que sai da Alemanha vai chegar lá de manhã. Quantos passageiros?
—Um.
— Nome?
Buck vasculhou sua carteira para lembrar o nome de seu passaporte britânico falso.
— Desculpe-me — disse ele simulando não ter ouvido, enquanto Alan se aproximava.
— O nome, senhor.
— Oh! perdão, Oreskovich, George Oreskovich.
Alan avisou que aguardaria no carro. Buck fez um sinal afirmativo com a cabeça.
— Tudo certo, senhor — disse a atendente. — Seu nome está anotado para um vôo a
Frankfurt esta noite, continuando amanhã até Kennedy, Nova York. Mais alguma coisa?
— Não, obrigado.
Quando Buck pôs o fone no gancho, a porta da taverna abriu-se violentamente para dentro
do recinto e um clarão ofuscante, seguido de um estrondo ensurdecedor, atirou os clientes ao
chão, que gritavam assustados. Quando o barulho cessou, as pessoas se dirigiram
cautelosamente até a porta para ver o que tinha acontecido. Buck viu horrorizado a estrutura
retorcida e os pneus derretidos do carro seda de Alan, da Scotland Yard. Os vidros estouraram, e
os cacos se espalharam pela rua. A sirene de um carro já se fazia soar. Uma perna e parte do
torso estavam sobre a calçada — o que sobrou de Alan Tompkins.
Enquanto os fregueses saıá m para ver os destroços em chamas, Buck foi se acotovelando
para abrir caminho e tirou da carteira seu passaporte e identidade verdadeiros. Aproveitando-se
da confusão, ele colocou os documentos perto do que restara do Carro e esperou que eles não
fossem atingidos pelo fogo a ponto de ϐicarem ilegıv́ eis. Quem quer que o desejasse morto,
poderia admitir sua morte. Em seguida, abriu caminho na multidão e entrou na taverna vazia,
correndo em direção aos fundos. Mas não encontrou nenhuma porta, somente uma janela. Ele a
levantou e saltou por ela, esgueirando-se junto à parede numa passagem de apenas 60
centıḿ etros entre dois edifıć ios. Raspando suas roupas em ambos os lados enquanto corria em
direção a uma rua paralela, passou por duas quadras e chamou um táxi.
— Hotel Tavistock — disse.
Poucos minutos depois, quando o táxi estava a três quadras do hotel, Buck viu um pelotão
policial e carros em frente do local, bloqueando o tráfego.
— Leve-me, por favor, diretamente a Heathrow — pediu ele ao taxista, lembrando-se de
que tinha deixado o laptop entre suas coisas, mas agora não havia escolha. Ele já havia
transferido para o computador a melhor parte da matéria, mas como saber quem teria acesso a
ela a partir de agora?
— O senhor não precisa de nada do hotel? — perguntou o motorista.
— Não. Estava apenas indo ver uma pessoa.
— Às ordens, senhor.
Heathrow também estava sendo vasculhado pelas -autoridades.
— Você sabe onde alguém poderia comprar um quepe como o seu? — perguntou Buck ao
taxista, enquanto pagava a corrida.
— Esta coisa velha? Posso ser convencido a me desfazer dele. Tenho outro exatamente
igual. Quer levar uma lembrança, hein?
— Isto é suficiente? — perguntou Buck, enfiando uma quantia razoável de dinheiro na mão
dele.
— É mais do que suficiente, senhor, e muito obrigado por sua bondade.
O motorista removeu o emblema oficial dos taxistas de Londres e entregou-lhe o quepe.
Buck enterrou o quepe largo, estilo marinheiro, até as orelhas e correu para o terminal.
Pagou em dinheiro suas passagens em nome de George Oreskovich, um polonês naturalizado
inglês a caminho de férias nos Estados Unidos, via Frankfurt. Antes que as autoridades
descobrissem que ele havia partido, o avião já estava no ar.

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