OS DECISORES
SERÁ que estava tudo indo por água abaixo? Tony Stark não sabia
dizer. De alguma forma, a opinião pública se voltara contra o Registro, depois do desastre na
fábrica de produtos químicos; as últimas pesquisas mostravam que as opiniões estavam bem
divididas. A deserção de Sue Richards também era um problema, e logo teria de lidar com ele.
E a comunidade internacional não estava feliz. Os líderes da União Europeia estavam
fazendo um discurso após o outro contra a nova política, felizes por ter um assunto para
desviar a atenção de suas economias em crise. Wakanda, a nação africana que fornecia para a
Stark Enterprises o valioso elemento Vibranium, estava considerando cortar todas as
relações diplomáticas com os Estados Unidos.
A nação submersa de Atlântida era outro problema potencial, já que um dos membros
mortos dos Novos Guerreiros era filha da família real. O Príncipe Namor, governante de
Atlântida, certa vez encenou uma invasão em larga escala ao mundo da superfície. Nos
últimos anos, não se teve muitas notícias de Namor, ou do enigmático povo de pele azul de
Atlântida. Tony tinha esperanças de que o lendário gênio de Namor tivesse amansado com o
tempo.
Os X-Men tinham praticamente se trancado atrás dos muros de sua escola. Maria Hill
estava pronta para invadir o lugar com tropas de choque da S.H.I.E.L.D., prender e deter todo
mundo que estivesse lá dentro. Tony a convencera a adiar. O relacionamento dos X-Men com
a comunidade dos super-heróis nunca fora muito tranquila; eles não se entregariam fácil no
caso de uma invasão. O resultado seria um banho de sangue.
Mas Hill estava certa sobre uma coisa: cada herói que demorava a aderir aumentava o
problema. Para o Registro dar certo, um número crítico de heróis precisava concordar. Do
contrário, o processo inteiro daria errado. Em vez de mostrarem controle sobre o problema,
Tony e a S.H.I.E.L.D. pareceriam impotentes, ineficazes – e isso abriria caminho para mais
forças hostis e repressivas se intrometerem.
No lado positivo, os campos de treinamento estavam realmente se concretizando.
Informações continuavam vindo de dentro da Resistência do Capitão América. O projeto
Thunderbolt entrara na fase de teste alfa. E devagar e sempre, os heróis estavam se
registrando. Esta manhã mesmo, o Doutor Sansom e o Sentinela aderiram.
O Registro é a lei, lembrou-se Tony. Com o tempo, todos vão entrar na linha.
– Logo depois dessa colina, Happy – Tony se enfiou mais embaixo do grande guarda-chuva
de Happy Hogan, pisando com cuidado entre as poças de lama. A chuva caía com toda força,
pintando o cemitério de cinza e marrom.
– Uau – exclamou Happy.
O buraco tinha três metros de largura e nove de comprimento e, pelo menos, seis de
profundidade. Seis grandes guindastes industriais trabalhavam ruidosamente, descendo
lentamente o corpo enfaixado e acorrentado de Golias em direção ao solo.
As pessoas assistiam, pouco à vontade, em grupos de dois ou três. Miss Marvel e Viúva
Negra estavam juntas; Carol parecia alta e elegante em um terno cinza, enquanto Natasha
usava um sobretudo preto. Reed Richards vestia um paletó de veludo e gravata, mas seus
braços estavam esticados de forma protetora em volta de Franklin e Valéria, seus dois filhos.
Eles pareciam confusos e desconfortáveis em roupas formais.
– Reed trouxe as crianças? – indagou Happy.
– Ele não quis deixá-las com os robôs o dia todo – Tony suspirou. – E não sobrou mais
ninguém do Edifício Baxter.
Um casal negro mais velho se abraçava. A mulher fixou o olhar no de Tony por um
momento. Ele desviou.
– Os pais de Bill – informou Tony.
– Deve estar sendo duro pra eles – comentou Happy. – Principalmente porque você não
conseguiu encolher o corpo ao tamanho normal.
– Hank Pym está de licença. Mas eu liguei pra ele e ele me disse que não era possível.
Alguma coisa sobre atividade cerebral elétrica e decomposição orgânica de tecidos.
– Quanto será que a família precisou desembolsar…? Por trinta e oito jazigos?
– Nada. Eu arquei com as despesas. Era o mínimo que eu podia fazer.
Um guindaste tombou um pouco. O corpo de Golias escorregou, e um dos braços bateu na
parede do buraco. Tony fez uma careta.
– Meu Deus, Happy. Isso tudo vale a pena? Eu tenho o… o direito de fazer isso?
Happy não disse nada. Ficou ali parado, segurando o guarda-chuva, protegendo Tony do
dilúvio.
– Stark?
A voz de Maria Hill, em seu fone de ouvido acionado por Bluetooth, fez Tony dar um pulo.
Ele se afastou do túmulo e clicou.
– O quê?
– Tem algumas pessoas que quero que você encontre.
– Droga, Maria! Estou enterrando o Bill Foster.
Ele desligou antes que ela pudesse falar de novo. Essa mulher estava realmente se
tornando um problema. Por ela, todos os super-heróis ficariam presos para sempre.
Tony olhou em volta.
– Onde será que está Peter Parker?
Reed se aproximou, trazendo as crianças junto dele. Parecia ter sido atropelado por um
caminhão.
– Tony.
– Reed. Obrigado por vir. Oi, Franklin, Valéria.
Happy agachou e tentou bagunçar o cabelo de Franklin. O garoto se afastou, se
escondendo atrás da perna do pai.
Reed segurava um pedaço de papel molhado, apertando-o e soltando dentro do punho
fechado.
– O que é isso? – quis saber Tony.
– Nada – respondeu Reed, logo enfiando o papel no bolso. Mas Tony conseguiu ver a
assinatura embaixo: Susan.
– Reed – Tony estendeu a mão e apertou o ombro dele. – Sei que está sendo difícil. Mas
vamos superar. Estamos fazendo a coisa certa.
– Pai – chamou Val. – Meus sapatos estão ficando ensopados.
Reed deu um tapinha nas costas dela e se virou. As crianças seguiram-no.
– Hoje à noite, nos veremos no Edifício Baxter – disse Tony. – A S.H.I.E.L.D. tem mais um
grupo de prisioneiros.
– Claro – concordou Reed. Ele soou velho, derrotado.
Fazendo um ruído chato e mecânico, os guindastes soltaram seu fardo. O enorme corpo de
Golias foi deixado para descansar no profundo túmulo enlameado.
Um autofalante começou a tocar, e a música “Hey, Hey, I Saved the World Today”, da dupla
Eurythmics, encheu o ambiente. Soou triste, como um canto fúnebre. Uma lembrança de
infância surgiu na cabeça de Tony: um videoclipe de Annie Lennox, com um terno masculino
amarrotado, as mãos acenando e conjurando sobre um globo da Terra. Ela parecia uma
máquina, poderosa e sensual, brincando com o mundo como se fosse seu brinquedo
particular.
– Tony?
Tony levantou o olhar. Os guindastes tinham se afastado. Pás úmidas rangiam e gemiam,
jogando terra molhada para dentro do túmulo. As pessoas se afastavam, lentamente indo
embora.
Miss Marvel e Viúva Negra se aproximaram. Natasha tinha um brilho estranho no olhar.
– Está todo mundo feliz agora – disse ela –, o vilão se foi pra sempre.
– O que você quer dizer com isso? – indagou Tony.
Ela fez um gesto com a mão e lançou seu olhar “americano estúpido”.
– A música – disse ela.
– Sr. Stark?
Tony se virou. Miriam Sharpe, a mulher de Stamford, estava ali parada embaixo de um
pequeno guarda-chuva. Happy ficou tenso ao vê-la, mas Tony levantou a mão.
– Sra. Sharpe, me desculpe por não ter tido tempo para…
– Não, não se preocupe com isso. Eu só vim porque sei que vocês perderam muito apoio na
comunidade de super-heróis depois… – Ela apontou para o túmulo.
Tony franziu a testa. Atrás dele, Miss Marvel e Viúva Negra escutavam também.
– Vim dar a minha opinião – continuou Sharpe. – Golias sabia o que estava fazendo, e o
que ele estava fazendo era infringindo uma lei feita para salvar vidas. Se ele tivesse se
registrado, ainda estaria vivo – ela sorriu para Tony, uma lágrima começando a se formar em
seu olho. – A culpa não é sua. Assim como não podemos culpar um tira por atirar em um
criminoso que aponta uma arma para ele.
– Sra. Sharpe…
– Shh. Eu também queria lhe dar isso – ela procurou na bolsa. – Era o brinquedo preferido
do meu filho Damien desde que ele tinha três anos.
Ele pegou o brinquedo e fitou-o através da chuva. Um boneco do Homem de Ferro de
quinze centímetros, as juntas duras, a pintura vermelha e dourada gasta pelo tempo. Ele
rodou o boneco entre os dedos. Empurrou o braço: ele girou no ar.
Ainda funciona.
Tony levantou o olhar, totalmente sem palavras.
– Só pra lembrar-lhe por que está fazendo isso – disse ela.
Ele tocou o ombro dela, um agradecimento sem palavras. Então, ele se virou, ainda
segurando o boneco. Era bom tê-lo nas mãos.
Tony colocou um dedo em seu fone de ouvido.
– Maria. Fale comigo.
Uma breve pausa.
– Já estava na hora, Stark. Encontre-me na entrada oeste. Mas se prepare… seu pequeno
funeral agitou alguns nativos.
A noite estava começando a cair quando Tony abaixou a cabeça e atravessou o portão do
cemitério, passando por duas filas de manifestantes. Da sua direita, ecoou um coro de vaias e
gritos, pontuadas por xingamentos: “Fascista” e “Mata-capa!”. Da sua esquerda, soavam
saudações mais baixas. “Continue brigando pela nossa segurança!”, gritou alguém.
Tony analisou os dois grupos. Ambos os lados eram uma mistura de universitários
vestindo capas de chuva, trabalhadores comuns e algumas mulheres de luto que ele
reconheceu de Stamford. Se alguém escolhesse uma pessoa aleatória do protesto, percebeu
Tony, eu não identificaria de que lado estava.
Um lado me odeia porque sou um super-herói. O outro lado me saúda porque sou uma
autoridade.
Soldados de cavalaria tinham erguido barreiras para afastar os dois grupos. Mas os tiras
pareciam nervosos. Tony parou para perguntar a um soldado:
– Vocês têm homens suficientes aqui?
– A Guarda Nacional está a caminho – o soldado fez uma careta.
– Conseguimos segurar as pontas até eles chegarem.
– Stark – a voz de Maria Hill soou no ouvido de Tony novamente.
O Centro de Comando Móvel da S.H.I.E.L.D. estava parado na rua, sobressaindo-se à
primeira fila do trânsito. Uma linha de guardas o cercava, abrindo-se rapidamente quando
Tony e Happy se aproximaram.
Dentro da Sala de Guerra, dois recém-chegados aguardavam. Gavião Arqueiro estava
parado com a cara feia, com seu traje roxo completo, o arco em cima de uma mesa próxima.
Com ele, estava uma loura alta vestida de vermelho e preto, usando uma máscara que cobria
os olhos. Tony franziu a testa, por um momento não a reconheceu.
– Estatura – esclareceu Maria Hill. – Ex-integrante dos Jovens Vingadores.
– Claro – Tony estendeu a mão. – E Gavião Arqueiro. Bom tê-lo de volta, Clint. Sei que não
deve ter sido uma decisão fácil.
Gavião Arqueiro coçou o pescoço.
– A mais difícil que já tomei, Tony.
– Eu sei. A cabeça sabe o que é certo fazer, mas o coração insiste em querer que as coisas
continuem do jeito que sempre foram.
– É, mas… estamos vivendo em um mundo diferente agora. Acho que Golias precisou
morrer pra eu perceber isso.
Tony analisou o arqueiro por um minuto, depois se virou para encarar Estatura.
– E você… Cassie, certo? Está dando um passo muito importante.
– Sei disso – ela olhou-o diretamente nos olhos. – Meus colegas de equipe não entendem.
– Mas você entende.
– O povo quer que a gente seja bem treinado, senhor. Não estamos mais na década de
1940.
– Isso é verdade – concordou Happy.
– Só quero fazer meu trabalho, usar minhas habilidades da melhor forma possível.
Tony assentiu, devagar. Isso era uma boa notícia; mais dois recrutas. Ainda assim, estava
com uma pulga atrás da orelha. Tinha alguma coisa errada ali.
Hill deu um passo à frente.
– Temos muita coisa para resolver, Stark. Começando com o Projeto Thunder…
Tony levantou a mão e fez um movimento para contê-la. Hill acompanhou o olhar dele até
o Gavião Arqueiro, depois assentiu.
Gavião sorriu.
– Não confia em mim, Tony?
– Pra ser sincero, Gavião. Tem partes desta operação que eu não conto nem pra mim
mesmo.
Os olhos de Estatura acompanhavam os dois, como num jogo de pingue-pongue.
Hill apontou para dois agentes.
– Stathis, Roeberg. Levem os dois recrutas de volta para cidade na limusine. Aproveitem e
coloquem-nos a par de todos os procedimentos.
– Entendido.
Gavião Arqueiro pendurou o arco no ombro e seguiu o agente até a porta. Ele parou e
lançou um último olhar para Tony.
Será que ele está puto comigo? Tony se perguntou. Ou está tentando me enganar e imaginando
se eu percebi?
Hill se aproximou dele.
– Você acha que o Capitão está tentando infiltrar um espião na sua operação?
– Nós temos um do lado dele, não temos? E Gavião Arqueiro deve muito ao Capitão
América – Tony franziu a testa de repente. – Alguma notícia do Homem-Aranha hoje?
Hill olhou para o agente da S.H.I.E.L.D. que restava.
– Ellis, faça um Protocolo de Busca de Herói. Assunto: Peter Parker.
As mãos do agente voaram em cima dos controles. Um número surpreendente de imagens
de câmeras de vigilância piscou nas telas, terminando em uma montagem colorida do superherói.
A tela parou em uma imagem aérea do Homem-Aranha, com seu traje vermelho e
dourado, lançando suas teias nos prédios do centro da cidade.
– Última vez que foi visto, ontem às 18:34. Do lado de fora do Edifício Baxter.
– 18:34. Foi logo depois que eu o vi – Tony franziu a testa. – Nada depois disso?
– Não com o traje, senhor. As sub-rotinas com identidade civil ainda não estão
funcionando.
Tony virou-se para Happy.
– Hap, você está com o meu traje, certo?
Happy ergueu a pasta de Tony.
– Bom. Maria, espero que não se importe de eu me trocar na sua frente.
– Já vi isso antes.
O Agente Ellis levantou a cabeça, surpreso.
– Volte ao trabalho, rapaz – ordenou Hill.
– O que houve, Sr. Stark?
– Acho que tenho um problemão, Hap – Tony abriu a pasta, fitou o traje do Homem de
Ferro. – E está na hora de eu cuidar disso.
–ENTENDI. Ok, obrigada. Esteja lá em meia hora.
Sue Richards colocou o fone do gancho do orelhão e virou para o irmão. Johnny estava
usando calça jeans e jaqueta. Um enorme curativo saía de baixo do seu boné de beisebol, mas
ele parecia muito mais saudável do que da última vez que ela o vira.
– Falcão me deu o endereço – disse ela. – Fica no Harlem.
Chamas começaram a sair da cabeça e dos ombros de Johnny.
– Podemos ir voando…
– Apague isso! A S.H.I.E.L.D. tem olhos em todos os lugares – ela olhou em volta,
subitamente paranoica. – Vamos andando.
– Sim, irmã mais velha. Pelo menos a chuva parou.
Sue começou a subir a 11
a Avenida. Ela e Johnny tinham ido diretamente para o antigo
quartel-general da Resistência, só para encontrá-lo fechado e abandonado. Por um momento
terrível, Sue pensou: Será que Tony prendeu todos eles? Mas, não… eles tinham apenas se
realocado.
Caminharam em silêncio por um momento, passando por postos de gasolina, boates e lojas
de autopeças fechadas. Ali, no extremo oeste da cidade, coisas novas se misturavam com as
antigas. Um restaurante da moda podia abrir ao lado de um armazém velho, e fechar
novamente numa noite, sem deixar rastros.
– Como está o Reed? – perguntou Johnny.
Sue hesitou.
– Sabe aquela coisa que ele faz quanto está totalmente envolvido em um projeto?
– Não faço a menor ideia do que você está falando.
Ela riu.
– Ele está dez vezes pior. Ele e Tony Stark estão… eles parecem crianças em uma loja de
doces. Não, mais que isso, duas crianças construindo sua própria loja de doces gigante. Com
todos os tipos de doces do mundo sob o controle absoluto deles.
– Ainda estamos falando de doces? Porque tá me deixando com fome.
Ela parou sob um poste, virou-se para fitar Johnny. Desde que tinha quinze anos, Sue
cuidava dele. Agora, ele era um jovem e bonito adulto, vivendo sua própria vida. Ainda
assim…
– Johnny, eu preciso fazer isso. Eu fiz a minha escolha quando ajudei a Resistência a fugir
dos capangas de Tony. Mas…
– Não, mana.
– … mas você não precisa. Você ainda pode voltar – ela esfregou as duas mãos nos ombros
largos dele. – Vá se entregar.
Johnny apontou para uma grande fábrica. Ela o seguiu para dentro da alcova escura ao
lado do portão. Quando não podiam ser vistos da rua, ele estendeu um dedo em chamas e
traçou a letra “A” no ar, deixando um rastro da imagem na frente dos olhos de Sue.
– A – começou ele –. Até agora, o registro só me rendeu um rasgo na cabeça. B, Tony Stark
é um rico babaca.
Sue riu.
– Bem, continue. O que é o C?
– C? – devagar, ele traçou a letra com chamas no ar. – C é que eu e minha irmã sempre
enfrentamos as situações difíceis juntos, e eu nunca a abandonaria. Nunca.
Ela sentiu as lágrimas encherem seus olhos. E o abraçou forte.
Então, eles escutaram um grito.
– Você…
– Escutei – respondeu ele. – Dentro do prédio.
Ele acendeu a mão com fogo e iluminou a parede como uma lanterna. As janelas estavam
lacradas, os tijolos lascados pelo tempo e pela negligência. Mas a porta…
Johnny empurrou a porta de leve. Ela rangeu e abriu para dentro. Um cadeado com
corrente estava jogado no chão.
Então, eles escutaram de novo. Um distante pedido de ajuda.
– Apague a sua luz – sussurrou Sue. Então, ela estendeu a mão, deixando ambos invisíveis.
Passou por ele e entrou, mantendo a mão levantada para gerar um campo de força protetor
na frente deles.
Eles atravessaram um corredor escuro e empoeirado. Não havia nenhuma luz acesa, nem
mesmo de emergência. Mais duas vezes, porém, eles escutaram os gritos fracos: “Socorro!” e
o “O que você está fazendo?”.
O corredor se abria para uma doca de carga abandonada. Tetos altos, cheiro de pólvora e
jornal velho. Uma única luz brilhava de uma lanterna elétrica portátil, colocada bem no
centro do lugar.
Numa grande viga que subia do chão até o teto, um homem tinha sido amarrado com
cordas grossas. A lanterna iluminava-o de baixo, projetando sombras gigantes no teto. Ele
lutava em pânico e gritava:
– O que você quer?
A pasta do homem estava aberta no chão, papéis espalhados formando um leque. Havia
também um tablet, com a tela rachada.
A alguns metros dele, o carrasco estava agachado, limpando uma faca. Braços musculosos,
pernas grossas, cenho sério. Um desenho de caveira na blusa.
– Aquele é o Justiceiro – sussurrou Johnny.
– Eu sei – respondeu Sue.
– Ele é registrado?
– Eu duvido muito.
Justiceiro levantou a cabeça. Por um momento, fitou diretamente a porta. Sue
estremeceu; os olhos frios dele pareceram pousar nela.
Ainda mais baixo, Johnny disse:
– Ainda estamos invisíveis, certo?
Sue assentiu bruscamente, e colocou um dedo sobre os lábios.
Justiceiro franziu a testa, passou os olhos por todo o lugar. Então, voltou para o seu
trabalho, tirou uma pedra de amolar de dentro da bolsa.
Sue acenou para que Johnny andasse, e eles se moveram silenciosamente pelo local.
Justiceiro era um vigilante, um assassino conhecido por constantemente eliminar chefes da
máfia. Depois que sua família foi assassinada em um ataque de mafiosos, ele jurou vingança
contra todo o crime organizado.
O homem preso à viga estava chorando. Lutando para se soltar. Sue analisou-o: usava
camisa de botão branca, calças impecáveis e gravata frouxa. Os sapatos, que balançavam,
pareciam engraxados e caros.
Esse cara não era um chefe da máfia, nem mesmo um que se tornara legal. Ele era um
executivo.
Justiceiro levantou a faca, analisou a lâmina iluminada pela luz da lanterna. Sem encarar a
vítima, ele disse:
– Wilton Bainbridge Junior. Conhecido como “Wilt”, não é isso?
– I-isso.
– Wilt – Justiceiro se virou para ele, levantou a lâmina. – Precisamos ter uma conversa.
– Uma conversa? Oh. S-sim. Eu… eu não vou a lugar nenhum.
Justiceiro sorriu, um sorriso indiferente.
– Você é banqueiro, certo, Wilt?
– S-sim.
– E você participa de vários conselhos administrativos também.
– Creio que sim.
– Como o da Roxxon International.
O homem assentiu. Ainda estava frenético, mas agora parecia curioso também. Esperando
uma brecha.
– A Roxxon está desenvolvendo muitas tecnologias para o governo atualmente –
continuou Justiceiro. – Claro, não tanto quanto a Stark. Mas existem muitos contratos
rolando. E alguns deles envolvem tecnologias que poderiam interferir no meu trabalho.
– No seu trabalho?
– Isso mesmo – Justiceiro colocou a faca a poucos centímetros do homem que se
contorcia, passando-a no ar do estômago até a virilha dele. – Então, eu preciso que você me
conte tudo que sabe sobre o protocolo Busca-Capa.
– O Busca-Capa… ah, sim. Claro! – Wilt fitou a faca. – Isso é fácil. É um software de
reconhecimento padrão, usado para fazer a verificação cruzada de milhares de fontes com
objetivo de localizar qualquer super-herói, ou, ou, ou vilão, no mundo. Não é realmente
novo, é uma adaptação do software do Departamento de Segurança Nacional, usado em
aeroportos. A única diferença é que também detecta poderes meta-humanos. Você sabe, tipo,
tipo, raios congelantes ou radiação gama.
– Poderes meta-humanos – Justiceiro virou de costas, assentindo. – Obrigado, Wilt.
– Isso é estranho – sussurrou Johnny. – Justiceiro não sequestra civis. Nunca fiquei
sabendo que ele tentou extorquir informações deles.
Sue assentiu, e fez um sinal para que ele ficasse quieto.
– E o Projeto Thunderbolt? – perguntou Justiceiro.
– O… o quê?
– Primeiro, eu achei que fosse um nome codificado para aquele monstro do deus do trovão
que perdeu o controle ontem. Mas as minhas fontes me disseram que é algo diferente, algo
muito perigoso. O que é o Projeto Thunderbolt, Wilt?
– Eu, eu não sei.
Justiceiro se virou com olhos assassinos em sua direção. Levantou a faca e espetou o
próprio dedo. Ele nem piscou quando o sangue começou a sair do pequeno corte.
– Eu não sei! – Wilt se agitou, se debatendo contra as amarras. – Já escutei o nome, mas
nós não temos nada a ver com isso. É ultrassecreto, desenvolvido pela S.H.I.E.L.D. apenas em
parceria com a Stark Enterprises.
– Você não sabe de nada?
– Não! Eu juro!
Justiceiro voltou para sua bolsa. Procurou lá dentro e tirou um rifle de alta potência.
– Acho, então, que você não serve mais pra nada, Wilt.
Johnny apertou o ombro de Sue com mais força.
Mas Wilt balançou a cabeça, juntando toda a sua coragem.
– Então, você vai me matar?
Justiceiro não respondeu. Abriu uma caixa de munição e esvaziou-a em sua mão.
– Eu acho que você não vai me matar – Sue percebeu que Wilt estava suando, mas ele
parecia mais confiante agora. – Eu conheço você, conheço a sua reputação. Você não mata
pessoas comuns a sangue frio. Você mata criminosos, ponto final.
Meticulosamente, Justiceiro carregou o rifle com a munição.
– Isso mesmo. Eu mato criminosos. Permita-me deixar as coisas claras aqui, Wilt –
Justiceiro virou-se para ele. – Oito anos atrás, enquanto trabalhava na Terriman Gaston and
Associates, você vendia hipotecas para o Chase, para o Bank of America e vários outros
grandes bancos nacionais.
– Isso. E daí?
– Em centenas de casos, você vendeu a mesma hipoteca pra três ou mais bancos. Muito,
muito lucrativo.
– Você vai me matar por isso? – Wilt encarou-o, incrédulo. – Todo mundo estava fazendo a
mesma coisa.
– Entre as hipotecas que você vendeu pra três bancos diferentes, havia a de um conjunto
de casas de um condomínio em Hialeah, na Flórida. Perto de Miami. Lembra?
Wilt balançou a cabeça. O medo estava de volta aos seus olhos.
Justiceiro fitou todo o rifle, franziu a testa. Pegou um pano e começou a limpar o cano da
arma.
– Dois bancos diferentes executaram a hipoteca daquelas casas. Os moradores eram
imigrantes de Cuba, de primeira ou segunda geração, que vieram para começar uma nova
vida. De repente, homens brancos vestindo ternos bateram em suas portas, tomando posse
das casas que compraram corretamente, com apoio policial. Os cubanos não puderam
discutir.
– Desesperados, sem teto e morrendo de fome, esses imigrantes se juntaram e começaram
a vender heroína. No começo, enfrentaram uma competição acirrada, mas logo aprenderam a
ser cruéis e estabeleceram uma base na área de Miami – Justiceiro virou-se de novo para seu
prisioneiro. – Você sabe o que estava fazendo na época, Wilt?”
– Eu… eu não me lembro.
– Vou refrescar a sua memória. Você gastou boa parte de seus lucros recém-adquiridos
numa coisa chamada Cruzeiro Afrodite, uma orgia em alto-mar em que prostitutas de classe
prestavam serviços a executivos ricos tendo como cenário a arquitetura decadente da Grécia.
Divertido pra quem pode, não é?
– Enquanto isso… enquanto você cheirava cocaína diretamente da barriga de uma stripper
chamada “Mnemosyne”, nossos amigos cubanos começaram a vender constantemente para
um cliente chamado Enrique. Esse hábito de Enrique o tornava instável e pouco confiável, o
que fez com que perdesse o emprego. Quando o dinheiro dele acabou, os cubanos cortaram o
fornecimento de heroína. Então, Enrique decidiu assaltar uma loja do Taco Bell. O gerente
bancou o herói e abateu Enrique com uma calibre .30-06. Mas não antes de ele atirar em três
clientes.
– Um desses cientes era um empreiteiro afro-americano chamado James Victor Johnson.
Wilt o fitava, incrédulo.
– Do que você está falando?
– James Victor Johnson morreu três horas depois do assalto. A irmã dele me procurou.
Contou a história toda – Justiceiro fez uma pausa. – Bem, mais ou menos. Precisei pesquisar
um pouco para chegar até você.
– E… foi por isso que você me pegou?
– Isso mesmo.
– E aquele outro papo todo? Sobre a S.H.I.E.L.D. e a tecnologia para localizar super-herói?
Justiceiro deu de ombros.
– Você é uma fonte, Wilt.
– E você é louco. Você é totalmente louco! – Wilt se debatia ferozmente, puxando com força
as cordas. – Você me culpa pela morte desse cara? Não foi culpa minha.
Justiceiro armou o rifle, fazendo ecoar um estalo no lugar vazio.
– Oh, não – sussurrou Sue.
– Você não está atrás de mim – Wilt tremia. – Você devia ir atrás de quem atirou no cara.
Ou dos traficantes. Dos bandidos, subversivos que fazem esse tipo de coisa!
– Oh, eu vou – Justiceiro apontou o rifle para sua vítima e mirou. – Mas eu gosto de
começar por cima.
Sue sentiu uma onda de calor. Um boné de beisebol queimado caiu em cima dela, pequenas
chamas ainda dançando sobre sua superfície. Ela hesitou, jogou-o no chão e olhou para
cima…
… e viu Johnny Storm, o Tocha Humana, se lançando no ar na direção do Justiceiro. Fogo
ardia de cada centímetro do corpo de Johnny; destruíra sua roupa, incinerando-a em um
único e repentino ataque de raiva.
Justiceiro olhou para cima. Mas não a tempo.
Uma bola de fogo foi saiu das mãos de Johnny, atingindo o rifle dele. Justiceiro xingou,
sacudindo a mão dolorida, e a arma caiu no chão.
Johnny deu a volta e pousou entre Justiceiro e sua vítima. Deixou seu fogo se apagar,
revelando seu uniforme do Quarteto Fantástico.
Justiceiro se agachou e fitou Johnny com desdém.
– Tocha Humana. Estou vendo que está trabalhando pro Stark agora.
Johnny franziu a testa.
– O quê?
– Você não vai me prender.
– Não estou aqui pra… Estou aqui pra não deixar que você mate pessoas!
– Ele é louco – gritou Wilt. – Você tem que prendê-lo!
– Johnny! – chamou Sue. – Não baixe sua guarda…
Mas o aviso chegou tarde demais. Justiceiro enfiou a mão na bota, puxou uma segunda
faca e jogou-a em Johnny a queima-roupa. A faca atingiu seu rosto, arrancando sangue.
Johnny gritou e caiu para trás, instintivamente em chamas.
Então, com uma rapidez incrível, a bota do Justiceiro estava em seu pescoço, prendendo-o
ao chão. Chamas levantavam do corpo de Johnny que se debatia, atingindo a roupa do
Justiceiro sem causar nenhum dano.
– Kevlar à prova de fogo – murmurou o vigilante. – Apague o fogo, garoto. Agora.
Johnny soltou um ruído abafado. As chamas se apagaram.
Sue fez uma careta. Ainda sem ser vista, ela começou a rastejar para frente.
– Sua irmã invisível também está aqui, não está? – Justiceiro olhou à sua volta. –
Trabalhando pra S.H.I.E.L.D.? Eles estão longe daqui?
Um estrondo enorme soou. Sue olhou para cima e viu fragmentos enormes do teto caindo
na direção deles. Poeira, barulho e luzes bem acima de sua cabeça. Instintivamente, ela ativou
seu campo de força.
Wilt, amarrado mais alto do que os outros, gritou. Um enorme pedaço de granito atingiu o
topo da viga de suporte em que ele estava amarrado, soltando-a do teto. Wilt caiu, berrando,
ainda amarrado à viga, indo na direção de Johnny e do Justiceiro.
Sue estendeu o braço, aumentando seu campo de força para proteger o irmão. Wilt quicou
de leve no campo, se contorcendo para soltar as amarras, e então, caiu no chão. Sue
desativou o campo por uma fração de segundo para permitir que ele entrasse, depois o ativou
novamente sobre todos os quatro.
Madeira e gesso caíam ao redor, formando uma nuvem no ar. Justiceiro não se moveu
nem um centímetro, ainda estava de pé com a bota no pescoço de Johnny. Devagar, ele se
virou para Sue, e ela se deu conta de que, na confusão, tornou-se visível.
Justiceiro mostrou os dentes.
Wilt se livrou das amarras e começou a rodar pelo interior do campo de força, tentando
sair, mas ricocheteou em suas paredes e gritou de dor.
Em seguida, os raios de um enorme holofote atravessaram o buraco no teto. Sue recuou.
– RESULTADOS DE BUSCA DE CAPAS: FRANCIS CASTLE, O JUSTICEIRO – a voz era
ensurdecedora. – JONATHAN STORM, O TOCHA HUMANA.
Bem em cima, quatro helicópteros da S.H.I.E.L.D. pairavam e zuniam no ar empoeirado.
– SUSAN RICHARDS, A MULHER INVISÍVEL.
Justiceiro se inclinou para frente para falar com Johnny, que ainda estava se contorcendo
no chão.
– Vocês não estão com eles? – ele indagou.
– Não!
– AQUI É A EQUIPE QUATRO DA S.H.I.E.L.D. RENDAM-SE, E PREPARAM-SE PARA
SEREM PRESOS.
Justiceiro virou-se para Sue.
– Inimigo do inimigo?
– O quê? – questionou ela.
– Trégua temporária.
– Isso! – gritou Johnny.
Justiceiro tirou o pé do pescoço de Johnny, que tossiu, com a mão na garganta. Justiceiro
estendeu a mão para ele e ajudou-o a ficar de pé.
– AVISO FINAL. LARGUEM TODAS AS ARMAS, NÃO USEM SEUS PODERES NÃO
AUTORIZADOS.
Sue correu até Johnny, certificando-se de que o campo de força permanecesse intacto.
Wilt se encolheu no canto da barreira de energia invisível, que tinha a forma de domo.
Justiceiro acenou com o rifle para mostrar os helicópteros que sobrevoavam o teto
derrubado.
– Eles não vão embora – afirmou.
Sue assentiu, séria. Tirou suas roupas comuns, revelando seu uniforme do Quarteto
Fantástico. Então, de uma só vez, ela abaixou seu campo de força.
– Tire-nos daqui – ordenou ela.
Johnny assentiu e queimou em chamas. Pegou-a por baixo dos braços, em seu uniforme à
prova de fogo, e decolou para o céu.
Um som estridente fez Sue olhar para baixo. Wilt estava correndo para a porta, para longe
do Justiceiro – que estava se protegendo, atirando com dois rifles automáticos ao mesmo
tempo. Nas paredes, não nos helicópteros; aleatoriamente, levantando poeira para encobrir
sua fuga.
Ele deve ter uma bolsa de armas e tanto, pensou ela.
– META-HUMANOS TENTANDO FUGIR. FIREFOX-DEZ E DOZE, MOVAM-SE PARA
INTERCEPTAR.
Sue e Johnny subiram cortando o ar, indo diretamente para um dos helicópteros. Uma
violenta barreira antiaeronaves se abriu na sua lateral, girando e apontando para eles.
– Johnny! – gritou ela.
– Segure firme, mana.
Ele ziguezagueou pelo ar, passando pela abertura no teto e assumindo uma posição quase
horizontal, voando por baixo do helicóptero principal e passando pelos outros dois. Balas
foram disparadas na direção deles, enchendo o ar; Sue levantou os pés, desviando. Ela se
esforçava para manter o campo de força, mas era quase impossível se concentrar nessas
circunstâncias.
Então, Johnny fez uma volta de 180 graus a uma velocidade estonteante, indo em direção
ao fogo inimigo. Ele estendeu a mão, derretendo as balas no ar.
Sue mal podia olhar.
Johnny virou, ainda segurando-a e levantou voo. Os helicópteros se agitaram atrás,
virando e subindo para segui-los.
– TODAS AS UNIDADES CONTINUEM A PERSEGUIÇÃO. META-HUMANOS SEGUINDO
PARA O CENTRO DA CIDADE, EM DIREÇÃO ÀS EQUIPES NOVE E ONZE.
Sue olhou para frente. Viu os arranha-céus de Nova York, o tapete verde do Central Park,
avistou um segundo grupo de helicópteros se aproximando.
Somos como patinhos no lago aqui, pensou ela. Como um cometa, cortando a noite…
– Sue – falou Johnny. – Deixe a gente invisível. Agora.
Ela assentiu, fechou os olhos apertando-os. Confie nele, pensou. Confie no seu irmão.
Devagar, seu poder de invisibilidade foi acionado. As chamas de Johnny deixaram de ser
vistas. Ela fez um sinal para ele para indicar que estavam invisíveis, e ele começou a descer
em direção à rua abaixo.
– EQUIPE NOVE, AQUI É A EQUIPE QUATRO. PERDEMOS CONTATO VISUAL COM OS
META-HUMANOS. VOCÊS AINDA CONSEGUEM VÊ-LOS?
– NEGATIVO, EQUIPE QUATRO.
– ATIVAR SENSORES DE PODER…
As vozes amplificadas foram sumindo conforme a rua chegava ao encontro deles.
Gradualmente, Johnny apagou suas chamas, e eles aterrissaram suavemente em uma
esquina tranquila do Central Park. Ele respirou fundo, tossiu e encostou-se a um poste,
inspirando.
Duas pessoas passaram fazendo exercício, indiferentes à dupla invisível. Uma delas
levantou a cabeça ao escutar a respiração pesada, deu de ombros e continuou.
Sue examinou o corte no rosto de Johnny e o hematoma na garganta.
– Você está bem?
– Tô sim.
– O ferimento na sua cabeça está sangrando de novo. Um médico tem que examinar isso.
– Ótimo.
Ela olhou para o céu. Os helicópteros estavam mudando de direção, seguindo para o sul.
Eles tinham conseguido – enganaram a S.H.I.E.L.D., pelo menos por enquanto.
– Melhor a gente não… usar os poderes de novo – Johnny disse – Acho que foi assim que
rastrearam a gente.
– Vamos – Sue pegou o irmão pelo braço, acompanhando-o pelo parque arborizado e pouco
iluminado. Quando estavam fora de visão, ela desativou a barreira de invisibilidade. – Vamos
pra Resistência. Eles vão te ajudar.
– Maldito Justiceiro – Johnny tossiu de novo. – Será que conseguiram pegá-lo?
– Duvido. Mas isso não é problema nosso.
Eles desceram um caminho pavimentado, os sons do trânsito diminuindo conforme se
distanciavam. O parque estava tranquilo; apenas algumas poucas pessoas conversando
baixinho e rindo.
– Não foi uma noite tão ruim – comentou Sue. – Evitamos que um homem fosse morto.
– Talvez ele merecesse.
– Talvez – Ela sorriu para ele, e respirou fundo o ar noturno. – Mas isso não cabe a nós
decidir, não é mesmo?
TONY, preciso que você entenda. Não sei se eu consigo…
Homem-Aranha balançou a cabeça. Não. Não é forte o suficiente.
Ele estava sentado como um louva-a-deus na oficina de Tony Stark, na ponta da bancada
do computador principal. Na sua frente uma série de telas piscava, com um fluxo constante
de informações, incluindo atualizações da S.H.I.E.L.D., relatórios de super-humanos,
projeções populacionais e status de raças alienígenas conhecidas. No chão, estavam
espalhados projetos inacabados de Tony: minirreatores, motores, suprimentos de
combustível, algo que parecia um carro voador e protótipos da armadura do Homem de
Ferro de todas as cores e formas possíveis – luvas, botas, até uma unidade para a parte
inferior do corpo com rodas de tanque.
Sei que está atolado, Tony. Aliás, você está sempre atolado. Talvez isso seja parte do…
Os computadores já estavam ligados quando Homem-Aranha chegou; na pressa, Tony nem
ativara a senha para bloqueá-los. Aranha esticou um tentáculo metálico e clicou em um ícone
na tela.
Em cima dele, no ar, uma imagem holográfica tremeu e ganhou vida. Tony, com uma das
primeiras armaduras do Homem de Ferro, amarela, maciça e pesada, parado numa rua da
cidade. Um Hank Pym de três metros de altura movia-se desajeitadamente juntando-se a ele.
Hank foi o primeiro Golias, lembrou Aranha. Ou ele era o Homem-Gigante?
Um flash vermelho e preto e Vespa – Janet Van Dyne, futura esposa de Hank – apareceu
na cena, com não mais que trinta centímetros de altura, seus fones de ouvido apontados para
cima como um ferrão. E então: Thor. Ele caiu das nuvens, o martelo girando, um sorriso que
dizia: Que coisa fantástica estar aqui hoje, junto com os mortais.
É que está tudo acontecendo rápido demais. Tony, será que você pode me escutar só…
Homem-Aranha fitou o holograma. Esses foram os primeiros Vingadores, recémformados;
o Capitão América nem havia sido encontrado ainda, flutuando em uma animação
suspensa. Os Vingadores no holograma se espalharam, virando-se para encarar o inimigo que
apareceu do nada. Um homem com traje roxo, com cabelo em forma do chifre do diabo e um
olhar assassino.
Homem-Aranha franziu a testa, clicou no monitor para pausar e voltar. Clicou duas vezes
em cima do homem de roxo e apareceu uma etiqueta: FANTASMA DO ESPAÇO.
O Fantasma do Espaço.
As coisas eram tão mais simples, não?
O arquivo que ele acessou parecia ser um registro cronológico dos casos dos Vingadores.
Ao lado, na tela, um segundo ícone dizia: P PARKER. Ele esticou um dedo e clicou.
A cena dos Vingadores desapareceu, sendo substituída por uma imagem da última coletiva
de imprensa. Homem-Aranha observou enquanto sua própria imagem tirava a máscara,
piscando por causa das centenas de flashes. O holograma de Tony colocava um braço
protetor sobre os ombros do holograma de Peter, e assentia carinhosamente para ele.
Aranha voltou o arquivo. E de repente viu que estava assistindo a um registro de sua
própria carreira, em ordem inversa. Sua chegada ao desastre em Stamford, usando seu novo
traje. Tony pedindo que ele se juntasse aos Vingadores. Justificando-se, muito tempo atrás,
para o Departamento de Polícia de Nova York. Confrontando J. Jonah Jameson, no
escritório dele, acerca dos editoriais difamatórios. Lutando com Venom, Cabeça de Martelo,
Cabelo de Prata, Kraven, o Caçador.
Os arquivos de Tony eram incrivelmente completos. Aranha sentiu uma pontada no
estômago; ficou lisonjeado, mas de alguma forma também se sentia violado.
Havia uma última imagem no arquivo. Uma fotografia bidimensional desbotada. Um
garotinho usando óculos grossos sorria enquanto um homem colocava uma medalha em seu
pescoço. Na medalha estava escrito: PEQUENO GÊNIO DA FEIRA DE CIÊNCIAS –
PRIMEIRO LUGAR. O homem tinha cabelo grisalho, usava um terno de alfaiataria meticulosa
sobre o corpo forte, e tinha um olhar sério.
Homem-Aranha se aproximou, franzindo a testa. O garoto era ele, com uns seis anos. Mas
o homem… Clicou duas vezes em cima dele.
HOWARD ANTHONY WALTER STARK.
Por trás das lentes, Homem-Aranha arregalou os olhos. O pai de Tony.
Homem-Aranha não se lembrava desse prêmio, o primeiro que ganhara em ciências. E
certamente havia se esquecido de quem lhe entregara.
Mas Tony não.
– Peter? Seu tentáculo está batendo e fazendo um buraco na minha cadeira.
Homem-Aranha deu um pulo, assustado. Estendeu o braço e tocou na tela do computador.
O holograma desapareceu.
Tony estava parado, com a armadura do Homem de Ferro completa, na entrada da oficina.
Uma rampa curva dava acesso ao lugar, permitindo que ele entrasse e saísse voando
rapidamente.
– Não vi que estava aí, chefe.
Homem de Ferro deu dois passos cautelosos, quase mecânicos, para dentro da oficina.
– Não me lembro de convidá-lo pra minha oficina, Peter.
– Foi mal, mas eu tinha que falar com você.
Homem de Ferro parou, abriu os braços.
– Aqui estou eu.
O reator no peito do Homem de Ferro brilhava, mostrando seu poder.
Homem-Aranha se aproximou dele, levantou a mão.
– Olha…
– Por que você não se senta e diz a que veio? – Isso não foi uma pergunta.
Aranha sentiu uma pontada de fúria. Ele está fazendo aquela coisa com a voz. O volume é
aumentado, e a frequência atinge o seu cérebro. Faz com que você queira obedecê-lo.
– Não vou tomar muito o seu tempo – começou ele. – Só queria avisar que estou saindo
dos Vingadores.
Os olhos de Tony cintilaram, vermelhos.
– Sei.
– Sou realmente grato a você por… por tudo. Mas trancafiar heróis na Zona Negativa?
Matar Bill Foster?
– Thor reagiu como um policial, Peter. Foi ameaçado e reagiu com força mortal. Mas Bill
Foster também era meu amigo… você realmente acha que vou deixar que aconteça alguma
outra coisa parecida?
– Não! Não se você puder evitar. Mas você está perdendo o controle da situação, Tony.
– O que você sugere que façamos com as superpessoas que não se registraram? Colocá-los
em prisões comuns? Eles sairiam em quinze minutos.
– Não, claro que não. Mas… eles precisam mesmo ser presos?
– Você tem que entender uma coisa, Peter – Homem de Ferro rodeou-o, os punhos
fechados. – Existem forças dentro da S.H.I.E.L.D., e mais importantes ainda, dentro do
governo federal, que querem acabar com os super-humanos. Total e completamente.
– Sai…
– Nós nos comprometemos a regulamentar o nosso comportamento. Voluntariamente, e
de acordo com um plano que eu administraria. Porque não tem como voltar atrás pros velhos
tempos, Peter. Isso nunca esteve em jogo.
– Saia da minha frente, Tony.
– O que você planeja fazer, Peter? – Tony agora estava na frente dele, alto e imponente,
todos os sistemas bélicos cintilando. – Ir pra TV de novo, retirar o seu apoio ao Registro?
Quem sabe se juntar ao bando de traidores do Capitão América?
– Ainda não sei.
– Seu idiota – apesar da armadura, Peter conseguia ver que a voz de Tony estava alterada.
– Você realmente acha que pode desistir de tudo isso e voltar pra sua vidinha de antes? Todo
mundo sabe quem você é agora. Como você vai ganhar dinheiro? E sua Tia May?
Fúria fervilhou dentro de Peter Parker. Ele deu um soco com toda a sua força em Tony, um
golpe super-humano que amassou o peitoral da armadura blindada. Tony voou, quebrando o
console de um computador, e bateu na parede.
– Tia May – rosnou o Homem-Aranha – está longe, muito longe de você.
Tony levantou a mão e acionou um raio repulsor. O sentido de aranha lançou um alerta no
cérebro de Peter, mas tarde demais. O raio o atingiu, derrubando-o e tirando seu fôlego.
– Eu confiei em você, Peter – a voz de Tony estava mais controlada. – Eu coloquei você
debaixo da minha asa. Eu dei tudo pra você. É assim que você me paga?
Ele disparou um segundo raio repulsor, depois um terceiro. Mas Homem-Aranha já estava
de pé, saltando e desviando, girando os braços para trás para subir e descer pelas paredes.
– Não – respondeu ele. – É assim.
Homem-Aranha saltou na direção de Tony…
– Senha de emergência: Delta Delta Epsilon – disse Tony.
… e o Homem-Aranha congelou no ar. Todas as suas juntas, de repente, pareciam
paralisadas, não respondendo ao seu comando. Ele caiu dolorosamente ao chão, com força e
por cima de um ombro.
Olhou em volta, atordoado. Aterrissara no meio de uma vitrine de capacetes do Homem de
Ferro: vermelho, dourado, branco, alguns com barbatanas, outros com armas extras.
Quando levantou o olhar, Tony vinha em sua direção como um Zeus, olhando para ele do
Olimpo.
– Peter – disse ele. – Que tipo de engenheiro eu seria se eu lhe desse um traje tão poderoso
quanto o seu sem construir uma proteção? Para garantir que não fosse usado contra mim,
seu criador?
Aranha se esforçava para respirar.
– Escute – continuou Tony. – Você não precisa fazer isso. Não precisa fugir. Você já é
registrado; a parte mais difícil já foi feita. Estou disposto a esquecer desse pequeno ataque de
raiva.
Homem-Aranha respirou, depois falou cinco palavras. Mas ele as disse baixo demais para
serem ouvidas.
– O que foi?
– Eu disse… Senha: Tudo Que Uma Aranha Pode.
Homem-Aranha saltou para o lado dele, quase rápido demais para ser visto. Levantou um
braço e disparou teia no rosto de Tony, bloqueando suas lentes.
– Que tipo de gênio da ciência eu seria se não percebesse isso e anulasse a sua senha…
chefe?
Mais uma vez, Aranha usou os dois punhos para socar um Tony surpreso. Um golpe
mortal, do tipo que nunca usaria em um adversário comum. Mas este, percebeu ele com raiva,
é um dos homens mais poderosos da terra. Em vários aspectos.
Tony caiu para trás, tentando arrancar a teia de seu capacete. Estendeu os braços e
acionou os dois repulsores, que dispararam. Homem-Aranha lançou sua teia e desviou,
escapou pela parede, passando por uma prateleira de equipamentos sobressalentes. Indo em
direção à rampa que levava à saída de emergência.
Então, a porta interna se abriu com uma explosão. Homem-Aranha virou-se para olhar,
momentaneamente surpreso.
Um pelotão de tropas de choque da S.H.I.E.L.D., com armaduras que cobriam o corpo
inteiro, invadiu a oficina, seus rostos escondidos atrás de visores opacos à prova de balas. O
líder virou a cabeça para Tony, que lutava para se levantar, lentamente queimando a teia em
seu rosto com um raio repulsor de baixa capacidade.
Homem-Aranha saltou para a rampa que o levaria para a liberdade. O líder do pelotão da
S.H.I.E.L.D. apontou para ele e gritou:
– Abaixe, Sr. Stark! Nós o pegamos!
Vários disparos abafaram a resposta de Tony. Homem-Aranha não teve tempo de desviar;
as balas atingiram-no. Seu traje impedia que alcançassem a sua pele, mas os projéteis
ricocheteavam em seus braços e pernas, torso, deixando-o sem fôlego. Deu um salto no ar,
girou e disparou teias das duas mãos aleatoriamente.
E então, Aranha correu pela rampa, saltando e quicando pelas paredes do corredor. As
balas continuavam a atingir suas costas e suas pernas, fazendo com que perdesse o
equilíbrio, abrindo pequenos buracos em seu traje. Cada junta, cada músculo, cada milímetro
de sua pele latejava. Ele tropeçou uma vez e bateu dolorosamente com o ombro na parede.
Mas continuou se movendo. Era a única forma de sobreviver.
Lentamente, sua consciência recuou, deixando apenas o instinto. Ele escutou a voz
metálica do Tony Stark gritar como se estivesse muito distante:
– Parem! Cessar fogo!
Em seguida, ele chegou a um enorme alçapão que Tony havia deixado entreaberto quando
chegou. Homem-Aranha empurrou a porta para abri-la e lançou-se para fora. O ar gelado da
noite soprou sobre ele, acordando-o com o choque. Planou no ar por um instante, depois
grudou na parede externa do prédio. Respirou fundo, deixando os sons da cidade tomarem
conta dele.
Lá dentro, passos ecoavam na rampa. Aranha fechou o alçapão e o selou com suas teias.
Depois, começou a descer pela lateral do edifício, em direção à distante cidade abaixo.
Encontre algum bueiro, disse para si mesmo. Fique consciente até lá. Se conseguir chegar aos
canos de esgoto, estará a salvo.
Mas ele sabia, bem no fundo, que estava se enganando.
Peter nunca mais estaria seguro.
TONY Stark levantou as duas mãos e disparou raios repulsores no
alçapão para abri-lo. Parafusos racharam e teias de aranha voaram pelos ares. A porta
explodiu e abriu. Ficando pendurada por apenas uma dobradiça.
Tony colocou a cabeça para fora, olhou para baixo. Alguma coisa parecia estar escalando
parede abaixo, ziguezagueando de um lado para o outro em fuga, aproximando-se da calçada
lá embaixo. As luzes dos postes refletiram na metálica forma inumana. Só então Tony
reconheceu que era Peter.
O que eu fiz com ele? Tony se perguntou. O que eu fiz com todos eles?
Acionou um comando mental: AUMENTAR IMAGEM. A armadura dele hesitou – não mais
do que um microssegundo, mas o suficiente para deixá-lo inquieto. Então o zoom de sua
visão se centralizou automaticamente no Homem-Aranha. A máscara do escalador de
paredes estava rasgada, seu traje de malha de metal, amassado; sangue pingava de seu
queixo. Ele pulou no chão sem equilíbrio, abaixou-se e correu até um bueiro.
Tony se preparou para saltar, acionou um comando de aquecimento para suas botas. Uma
dúzia de alertas piscou na frente de seus olhos: EFICIÊNCIA DAS BOTAS: 56%.
INTEGRIDADE DA ARMADURA COMPROMETIDA. SISTEMA DE VISÃO 72%. SISTEMAS
MOTORES/ARTICULARES COMPROMETIDOS POR LÍQUIDO ESTRANHO.
A teia do Homem-Aranha. Ela havia se espalhado por toda a armadura, grudando em todos
os sistemas mecânicos. Tony xingou baixinho. Eu devia ter reprojetado a maldita teia quando
construí o resto do traje.
Teria que trocar de armadura antes de ir atrás de Peter. Se ainda houvesse alguma intacta
na oficina.
Ele se virou e se arrastou rampa abaixo. Havia poeira para todo lado e o cheiro de pólvora
das balas disparadas era mais forte do que o odor das peças eletrônicas queimadas.
A oficina estava um desastre. Computadores estilhaçados, armaduras do Homem de Ferro
quebradas, bancadas de trabalho e fontes de força rachadas e amassadas. Centenas de
milhares de dólares de prejuízo, pensou Tony. Talvez milhões.
Maria Hill estava falando com o líder do pelotão da S.H.I.E.L.D. Estava vestida com um
macacão preto e justo, armadura e óculos escuros, mas nenhum capacete. Ela se virou para
Tony, a boca mostrando desdém.
– Então. Seu inseto de estimação abandonou a colmeia.
– Aracnídeo – corrigiu Tony.
– O quê?
– Ele não é um inseto, e sim um aracnídeo. Nada. Deixa pra lá – Tony foi até um armário
cheio de buracos de bala. – Eu vou atrás dele. Supondo que seus homens não destruíram todo
o meu equipamento.
– Perdão por tentar salvar sua vida.
Ele se abaixou para colocar a mão no cadeado de um armário e cambaleou. Quase caiu.
– Acho que você não vai a lugar nenhum – declarou Hill. – Sargento?
Um agente musculoso da S.H.I.E.L.D. abaixou-se para segurá-lo. Tony o empurrou,
furioso.
– Eu estou bem.
– Acho que seu joelho está quebrado. Ou coisa pior.
Ela estava certa, ele sabia. A armadura o estava mantendo de pé, evitando que ele se desse
conta da extensão dos danos. Homem-Aranha tinha a reputação de ser um dos superhumanos
mais poderosos da Terra; foi um dos motivos que levou Tony a recrutá-lo. Agora ele
tinha a prova em primeira mão.
Hill tocou em um botão de comunicação em seu ombro.
– Diretora Hill, autorização alfa – disse ela. – Ativar Projeto Thunderbolt.
– Não – contrapôs Tony.
– Operativos Quatro e Seis. Enviando coordenadas agora. Alvo: Homem-Aranha.
– Não! Isso está… – Ele cambaleou e se jogou em uma cadeira.
– Com todo o respeito, Stark: isso não está sob o seu controle – Hill se aproximou dele, o
lábio curvado com desprezo. – E você não comanda a S.H.I.E.L.D. Isso é decisão minha.
Tony desmoronou, derrotado. Levantou o capacete, fitou-a com os olhos descobertos.
– Não machuque o Homem-Aranha.
– Não se preocupe, não vou colocar outra morte na sua consciência sensível. Se eu puder
evitar.
– Você não vai colocar outra morte na nossa consciência – ele ficou de pé e a encarou. – O
movimento pró-Registro não precisa desse tipo de publicidade.
– Sinto muito se o seu pequeno aracnídeo o decepcionou, Stark. É uma merda tentar ser
mentor de alguém.
Ela estalou os dedos. Um agente da S.H.I.E.L.D. apareceu do seu lado, trazendo um
dispositivo de comunicação com um fio USB pendurado.
– Agora. Vamos assistir ao show? Ainda deve haver uma tela de vídeo funcionando nessa
bagunça.
Cinco minutos depois, a poeira tinha se assentado e os escombros de uma parte da oficina
haviam sido retirados. Os projetores de holograma estavam destruídos, mas um agente da
S.H.I.E.L.D. continuava tentando sintonizar uma imagem embaçada em uma tela plana.
Outro agente havia colocado cadeiras dobráveis em volta da tela. Tony estava sentado,
usando bermuda e camiseta enquanto um médico da S.H.I.E.L.D. enfaixava seu joelho.
O agente levantou o olhar da tela plana.
– Conseguimos.
Hill tocou no comunicador em seu ombro.
– Esse é um teste de apenas sessenta minutos – informou ela. – Modo invisível essencial.
Operação Thunderbolt ainda é confidencial. Todas as nano sanções estão em vigor?
– Estão sim, Diretora.
– Sinal de localização ativo.
Na tela, um mapa apareceu, mostrando o labirinto sinuoso que era o sistema de esgoto
subterrâneo de Manhattan. Dois sinais com um 4 e um 6 em cima se moviam rapidamente
pelos túneis.
– Os T-bolts estão desorientados – informou o agente –, o Homem-Aranha desativou o
rastreador GPS do traje dele – disse arriscando um palpite. Um sinal vermelho e dourado
começou a piscar, mostrando a localização aproximada do Homem-Aranha, a muitas curvas e
voltas à frente dos outros sinais.
Hill sorriu.
– Eu sabia que não podíamos confiar naquele cara.
– Não precisa ficar tão feliz – Tony fitou-a, furioso. Não preciso lembrá-la o que são os
Thunderbolts, Hill. Supervilões.
– Ex-supervilões. Que foram devidamente registrados junto ao governo e treinados em um
curso intensivo. Eles receberam chips, etiquetas e injeções com nanomáquinas que nos
permitem controlar totalmente seu comportamento.
Tony franziu a testa.
– Como cachorros.
– Cachorros selvagens – ela apontou para a tela, para o ponto que se movia indicando a
posição do Homem-Aranha. – E não vejo muita diferença entre eles e ele.
Não, pensou Tony. Você não faria isso.
A tela mudou para uma imagem de vídeo trêmula do interior do cano de esgoto.
Iluminação artificial escura e velhas lâmpadas incandescentes tinham sido colocadas em
cada metro das paredes. Paredes acentuadamente curvas passavam conforme a câmera se
movia; água respingava do chão.
– Ambos os operativos têm câmeras em seus uniformes – explicou Hill. – Esta é a câmera
do Operativo Seis. Agente, nos forneça o dossiê sobre ele.
Uma imagem parada apareceu no canto da tela: uma figura assustadora usando uma malha
de metal e elástico, com uma cabeça de abóbora em chamas e um sorriso amedrontador.
Escrito embaixo:
Assunto: Steven Mark Levins
Apelido: Halloween
Grupos aos quais é afiliado: nenhum
Poderes: armadura, visão 360 graus, dispara granadas do pulso
Tipo de poder: artificial
Localização atual: Nova York, NY
No vídeo principal, o cano de esgoto se abria em um túnel longo e reto. Bem à frente e
distante, algo fazia a água respingar.
– Operativo Seis? – chamou Hill.
– Na escuta, gostosa – a voz de Halloween era baixa, cruel e nem um pouco sem fôlego
depois de sua longa jornada pelo esgoto. – Acho que conseguimos pegar ele.
– Câmbio, Thunderbolts. Você está liberado para agir.
Tony ficou tenso. Inclinou-se para frente, fitando a tela.
A câmera virou para a direita, e uma segunda pessoa apareceu. Um homem magro usando
botas roxas e um gorro pontudo, com máscara azul e dentes afiados e pontiagudos.
– Operativo Quatro – Hill sinalizou para o agente, e outro perfil apareceu no canto da tela.
Assunto: Jody Putt
Apelido: Polichinelo
Grupos aos quais é afiliado: nenhum
Poderes: vários brinquedos e dispositivos de “brincadeira”
(potencialmente letais)
Tipo de poder: artificial
Localização atual: Nova York, NY
Polichinelo virou para a câmera e sorriu.
– Olhem o que eu tenho – dentro de uma bolsa, ele pegou uma pequena boneca de plástico
com uma expressão comicamente furiosa no rosto. Girou sua manivela uma, duas, três vezes
e colocou-a na água.
O brinquedo disparou pelo túnel em pequenos foguetes, deslizando pela água do esgoto.
– Mudar para câmera do Polichinelo – ordenou Hill.
A imagem mudou para o ponto de vista de Halloween, agachado e perigoso em cima de um
disco voador, flutuando pouco acima da água. Ele esticou a mão e agarrou Polichinelo,
fazendo-o embarcar no disco, e juntos ele aceleraram pelo túnel de esgoto atrás da boneca de
corda.
A câmera do Polichinelo seguiu em frente. A imagem do Homem-Aranha entrou em seu
campo de visão, freneticamente abrindo caminho e fazendo respingar água suja enquanto
tentava se afastar deles. O traje dele estava rasgado, os tentáculos pendiam inúteis. Parte do
rosto dele estava exposta através dos rasgos do que restava de sua máscara.
O brinquedo apareceu, indo em direção ao Homem-Aranha. Ele se virou, assustado.
– Que…
Então o brinquedo explodiu. Uma grande bola de fogo encheu a tela.
Tony virou-se para Hill.
– Você disse que eles não iam matá-lo!
– Você acha que isso conseguiria matá-lo? – ela revirou os olhos. – De volta ao Operativo
Seis.
Na tela, a poeira baixou lentamente. Homem-Aranha estava sentado na água imunda,
tossindo. Em cima dele, o corpo alto do Polichinelo o encarava fixamente.
– Bem, se não é o pequeno Peter Homem-Aranha – Polichinelo riu. – Como é estar do
outro lado da lei, Parker? Está gostando de ver o Polichinelo com o distintivo de xerife?
A imagem tremia conforme Halloween rodeava o Homem-Aranha de cima.
– Precisa ver com quem a gente tá andando agora, Peter. Com o Mercenário, Venom, Lady
Letal… eu e o Polichinelo finalmente entramos no grupo dos maiores vilões.
– E somos registrados também.
Homem-Aranha balançou a cabeça, se esforçando para focar nos vilões que o cercavam.
– Oh, baby – Polichinelo pegou um ioiô e arremessou no Homem-Aranha. – Isso é terrível
demais pra colocar em palavras.
O ioiô bateu no peito do Homem-Aranha, explodindo como uma pequena granada. Ele
gritou, caiu para trás direto na água.
Halloween se moveu rapidamente. Suas mãos entraram na imagem agarrando o HomemAranha,
jogando-o na parede do túnel.
– Sabe – murmurou ele – essa história de trabalhar pra S.H.I.E.L.D. no começo pareceu
um tremenda furada… aí, então, veio ordens de cima pra acabar com o Homem-Aranha – ele
esticou o braço e bateu com força na cabeça de Peter. – O que fazer, né?
– Só estamos obedecendo a ordens – completou Polichinelo.
Polichinelo esticou a mão e arrancou mais um pedaço da máscara do Homem-Aranha. Foi
possível ver um dos olhos claramente, roxo e inchado, quase fechado. A cabeça do HomemAranha
caiu para o lado, imóvel.
– Hill – disse Tony.
Ela franziu a testa e tocou no comunicador em seu ombro.
– Ele já foi abatido, Thunderbolts. Deixem-no aí e esperem o pessoal da limpeza.
– Ah, S.H.I.E.L.D.…
– Encoste um dedo nele, Halloween, e eu disparo cinco mil volts em você. Você sabe que
não estou blefando.
Na tela, os dedos do Halloween soltaram o pescoço do Homem-Aranha, que caiu no chão
do túnel, respingando água para todos os lados.
– Equipe de apoio da S.H.I.E.L.D. está a caminho. Algemem-no e esperem quietinhos.
Tony inspirou aliviado.
A tela mudou para a câmera do Polichinelo. Ele se virou para Halloween, cuja cabeça de
abóbora em chamas enchia a tela.
– Estraga-prazeres – reclamou.
Então, a cabeça do Halloween explodiu, estilhaçando-se em pedacinhos de cérebro e
abóbora. O grito mortal do vilão ressoou, agudo e filtrado pelo sistema de comunicação.
– Mas que diabo! – gritou Polichinelo. A câmera dele virava para todos os lados, procurando
pelas paredes do túnel. – S.H.I.E.L.D.? S.H.I.E.L.D.? Está escutando? Tem mais alguém aqui…
Outro tiro ecoou ensurdecedor no espaço fechado. A câmera do Polichinelo balançou,
oscilou e caiu virada para cima, mostrando o teto do túnel. A imagem tremeu um pouco,
depois ficou imóvel.
– Ele foi abatido também – o agente da S.H.I.E.L.D. trabalhava freneticamente em seu
laptop. – A câmera do Halloween não está mais transmitindo. Ainda temos a do Polichinelo…
Na tela, apareceu uma pesada bota preta, obscurecendo o teto do túnel. Fez uma parada
quase dramática, depois pisou com força.
A tela ficou estática.
Hill ficou de pé em um pulo.
– Consigam uma imagem. Qualquer imagem!
O agente digitava em seu teclado, soltando o ar entre os dentes cerrados. Olhou para ela e
abriu os braços, impotente.
Hill deu um soco na mesa.
– Que diabos aconteceu aqui?
– A transmissão foi cortada, Diretora. Estamos surdos e cegos.
– Droga – ela tocou novamente no comunicador de ombro. – Todas as unidades
S.H.I.E.L.D. nos arredores da Fourth Street com Broadway. Desçam imediatamente para o
subsolo, para os canos de esgoto na coordenada 24-J. Patrulhem todas as ruas em um raio de
cinco quadras; reportem qualquer coisa ou qualquer pessoa tentando sair por algum bueiro
ou outra saída do subsolo. É possível que uma operação da Resistência esteja em andamento
ou…
– Diretora em Exercício Hill.
Contorcido de dor, Tony se moveu para entrar na frente. Ela franziu a testa, mas parou.
– Não estou nem um pouco impressionado com seus métodos – afirmou ele. – Você
fracassou em capturar sua presa e perdeu dois agentes de seu programa piloto na primeira
missão deles.
Ela franziu a testa.
– Como se fosse uma grande perda.
– Entretanto, eu pedi que me deixasse lidar com a situação e você negou.
– Você mal consegue andar. E você foi o principal causador desse problema. Quem mandou
convidar o Homem-Aranha, famoso por ser um solitário com tendências antiautoritaristas,
para o seu círculo de amizades?
Tony ficou parado por um momento, fervilhando por dentro. Olhou em volta para as
ruínas do seu trabalho, para os equipamentos destruídos. Para os vários capacetes do
Homem de Ferro, amassados e furados por balas da S.H.I.E.L.D.
– Saia da minha propriedade – ordenou ele.
Ela o fitou com raiva, depois sinalizou para os agentes da S.H.I.E.L.D. Eles começaram a
guardar suas armas, equipamentos e fechar suas mochilas.
Eficientes como sempre, pensou Tony. Militares até o fim.
– Rápido, pessoal. Temos que pegar uma aranha!
– Vocês não vão conseguir pegá-lo – avisou Tony.
– Pensamento positivo, Stark? – Hill virou-se e lançou-lhe um último olhar cheio de fúria.
– Nós vamos pegá-lo.
Então, a S.H.I.E.L.D. foi embora.
Tony ficou ali, parado, por um bom tempo. Testou seu joelho, tentou colocar o peso sobre
ele. Sentiu uma pontada, mas conseguiu andar. Isso era o suficiente.
Precisou experimentar três celulares até encontrar um que funcionasse.
– Pepper, preciso de uma equipe de limpeza – olhou em volta para a destruição. – E veja se
consegue colocar o presidente dos Estados Unidos na linha, por favor.
Um cheiro de tinta fresca subiu da carteira de motorista novinha em folha.
Capitão América entregou-a para Sue Richards.
– Bárbara Landau – informou ele.
– Ryan Landau – Johnny Storm estava olhando para sua carteira de motorista. – Nós
seremos casados?
Capitão América ergueu o olhar da mesa de reunião cheia de papéis. Luzes fluorescentes
piscavam, pintando o grupo com tonalidades desbotadas e desfavoráveis.
– Estamos com poucas identidades falsas para disfarce – explicou ele. – Com o Demolidor
preso, nossa fonte secou.
– Casados – Sue olhou para o irmão. – Acho que essa é a coisa mais nojenta que já fizemos.
– Como acha que estou em sentindo, mana? Você parece avó da minha última namorada.
Capitão suspirou. A mudança para o novo quartel-general tinha sido difícil; transportar os
equipamentos médicos e de monitoramento de um lado da cidade ao outro parecera
impossível, até Sue aparecer. A invisibilidade dela os salvou da prisão diversas vezes.
Mas Capitão sabia que a Resistência ainda não estava segura. Não conseguia se esquecer do
aviso de despedida do Gavião Arqueiro, sobre um traidor no grupo. E ele próprio ainda estava
devagar por causa de seus ferimentos. Seu braço esquerdo ainda estava em uma tipoia; sentia
uma pontada toda vez que o levantava.
Vá com calma, dizia pra si mesmo. Lembre-se do que fala para os outros: um passo de cada vez.
Um tijolo de cada vez.
Tigresa entrou, franzindo a testa.
– Nada de identidade falsa pra mim?
– Já discutimos isso, Tigresa – ele apontou para o corpo dela coberto dos pés à cabeça por
pelos laranja e exibindo apenas um biquíni. – Você não é exatamente discreta.
– Oh, sim – Johnny sorriu. – Deve ser duro ser gostosa que nem você.
Tigresa ronronou e roçou as costas no ombro de Johnny. Virou-se e lançou-lhe um sorriso
provocante.
Sue revirou os olhos.
– Foi mal, Sra. Landau – desculpou-se Johnny.
– Eu costumava passar por uma pessoa normal o tempo todo – contou Tigresa. – Só
precisava de um indutor de imagem.
– Que é uma tecnologia da Stark Enterprises – explicou Capitão. – E não podemos ter nada
disso aqui; Tony provavelmente mandou colocar rastreadores em tudo que fabricou nos
últimos dez anos. – Voltou sua atenção para Sue e Johnny. – Quanto a vocês dois, o mais
importante: essas identidades permitem que saiam em público de novo. Assim podem ajudar
as pessoas. Que é o nosso objetivo, certo?
Tigresa sorriu de novo e virou para Johnny.
– Ele é sempre tão certinho – comentou ela, apontando para Capitão. – Não tem a menor
graça discutir com ele.
Luke Cage entrou com passos largos.
– E aí, Capitão. Gostou do novo ninho?
– Vai servir. Simples, mas isso é uma vantagem – Capitão se levantou e abraçou Cage com
um braço só. – O que esse lugar era mesmo?
– Corporação de Especialistas em Emprego para Afro-Americanos. Ajudava trabalhadores
negros a competir em um mundo de brancos. Foi vítima da economia e o prédio está vazio há
mais de um ano.
– Nada de ajuda pros operários negros, comentou Falcão.
Cage assentiu.
– Mmmm-hm.
Um a um, eles foram chegando e se sentando em volta da grande mesa. Cage, Falcão,
Tigresa. Adaga, Fóton, Arraia em seu brilhante traje vermelho e branco. Sue e Johnny,
Patriota e Célere.
A Resistência.
– Ok, vamos ao que interessa – Capitão olhou para sua agenda escrita à mão. – Alguém foi
capturado?
Fóton chegara relativamente há pouco tempo, uma mulher afro-americana com poderes
baseados na luz.
– Falcão Noturno e Valquíria – informou ela –, capturados no Queens. O que reduz nossa
força aérea ao Falcão e eu.
Arraia abriu as asas.
– Esqueceram de mim – disse ele.
Falcão franziu a testa.
– Planar não é voar, cara. Não precisa se preocupar, Capitão. A gente consegue.
– Malditas unidades da S.H.I.E.L.D. – Capitão fechou a mão ferida e sentiu uma pontada
no braço. – Pra cada homem que ganhamos nos últimos dias, perdemos um.
– E todos eles estão naquela prisão.
– Talvez possamos fazer alguma coisa a respeito – avaliou Capitão. – Alguém sabe como
andam os planos de transferência de prisioneiros para eles?
Sue limpou a garganta.
– Tony e Reed estão ativando portais pra Zona Negativa nas principais penitenciárias do
país, incluindo a Rykers. Mas nenhum deles está funcionando ainda. Até agora, todos estão
sendo transferidos através do Edifício Baxter.
– Edifício Baxter – Capitão levantou uma sobrancelha. – Sue, consegue nos colocar lá
dentro?
– Normalmente sim. Mas… tenho certeza de que Reed já mudou os códigos de segurança.
Talvez eu até atrapalhe… os computadores vão detectar a minha presença imediatamente.
– Tudo bem. Tenho outra missão urgente pra você.
Capitão virou-se para Johnny, que balançou a cabeça.
– Nem olhe pra mim. Se Susie não consegue entrar, muito menos eu. Reed vem tentando
descobrir como anular os meus poderes desde… desde antes de eu ter poderes.
– Droga. Temos uma oportunidade aqui – Capitão passou os olhos pelo grupo. – Se
conseguirmos fechar o portal do Edifício Baxter, eles não terão pra onde mandar nossos
companheiros. Daqui a uma semana, isso não será mais problema pra eles. Temos que atacar
logo.
– Corte a corda – opinou Cage –, e os planos vão começar a se desenrolar.
– Se tivermos sorte.
– O que a gente precisa é recuperar nossos homens – afirmou Falcão. – Pra essa luta ficar
justa de novo.
– Como eles chamam o lugar? – quis saber Patriota. – Número 42?
– Ninguém sabe por quê.
– Conhecendo Tony Stark, provavelmente tem a ver com o pai dele…
Todos escutaram ao mesmo tempo: passos pesados no corredor externo. Todos os onze
membros da Resistência ficaram de pé imediatamente, se viraram para a porta…
… e viram o Justiceiro, iluminado de preto e branco pelas luzes. Água imunda pingava dele;
cheirava a lixo. Nos braços, carregava um corpo lânguido e ensanguentado, o traje rasgado
em uns cem lugares.
Homem-Aranha.
– Preciso de um médico – gritou Justiceiro. – AGORA!
A enfermaria tinha sido adaptada apressadamente em uma área de escritórios, macas e
aparelhos de diagnósticos comprimidos onde antes havia cubículos. Dois médicos colocaram
o Homem-Aranha em uma cama, lançando olhares desconfiados para o Justiceiro.
– Não é muito pesado – comentou o primeiro médico.
– Tente carregá-lo por cinco quilômetros – reclamou Justiceiro.
Capitão e os outros permaneceram afastados, deixando espaço livre para os médicos
trabalharem. Os olhos do Capitão grudados no Justiceiro.
– O que aconteceu? – perguntou Capitão.
– Múltiplas fraturas e grave hemorragia – respondeu Justiceiro.
– Quero dizer…
– Tony Stark e seus comparsas. Acho que tinha algum tipo de alucinógeno na bomba que
usaram para atacá-lo.
– E você o salvou – Capitão cruzou a sala até o Justiceiro, confrontando-o diretamente. –
O que aconteceu com os agressores?
O Justiceiro deu de ombros.
Os médicos levantaram o olhar do corpo lânguido do Homem-Aranha.
– Esse traje está grudado à pele dele em alguns lugares.
– Tirem cada centímetro e queimem – ordenou Capitão. – Foi feito pelo Stark. Pode estar
sendo rastreado neste momento.
– Sabem – começou Tigresa. – Isso pode ser uma armadilha.
Justiceiro riu.
– Você acha que eu estou trabalhando pro Tony Stark?
– Não estou entendendo nada – Célere balançou a cabeça. – Todos vocês viram a coletiva
de imprensa. Homem-Aranha parecia ser o maior puxa-saco do Homem de Ferro.
– Talvez ele fosse, garoto – opinou Justiceiro. – Mas está do nosso lado agora.
– Nosso lado?
– Falc…
– Não, não, Capitão, me dê um minuto – Falcão passou pelo Capitão América, apontando o
dedo para o emblema de caveira no peito do Justiceiro. – Você é um assassino procurado,
Justiceiro. Você matou mais gente do que a maioria dos vilões com quem lutamos. Desde
quando você está do nosso lado?
Justiceiro o encarou.
– Desde quando o outro lado começou a alistar supervilões.
Tigresa abriu um sorriso sombrio.
– Eu sou a única que vejo a ironia disso?
– Na minha opinião – continuou Justiceiro –, vocês precisam do máximo de apoio que
conseguirem.
– Ótimo – disse Johnny Storm. – Por que não chamamos Hannibal Lecter e vemos se ele
está disponível também?
– Porque Hannibal Lecter não tem treinamento em operações secretas para colocar vocês
dentro do Edifício Baxter.
Falcão o encarou.
– Você pode fazer isso?
– Eu cheguei aqui.
Falcão abriu a boca para começar a responder. Mas parou conforme absorvia as
implicações.
Sue Richards olhou em volta.
– Por favor, me digam que esse grupo não chegou ao ponto de aceitar o Justiceiro.
Na maca onde os médicos trabalhavam, Homem-Aranha soltou um leve gemido.
Cage se virou para o Capitão.
– Você decide, chefe. A gente entrega o caveira aqui pra polícia ou escuta o lado dele da
história?
Capitão se afastou, franzindo a testa. Já enfrentara o Justiceiro uma vez; fora uma das
lutas mais difíceis de sua vida. Ele poderia ser um aliado formidável, para qualquer um dos
lados.
Na maca, Homem-Aranha continuava fraco e cheio de dor. Lutando pela própria vida.
O Capitão se deu conta de que estava em uma sinuca de bico. Qualquer que fosse a sua
escolha, qualquer caminho que tomasse, algo de terrível iria acontecer. Podia sentir isso nos
seus ossos endurecidos pela guerra.
E todos eles dependem de mim. Para liderá-los; para ajudá-los a dar novamente um significado
às suas vidas. Para tornar essa Resistência esfarrapada em uma força permanente de uma vez por
todas.
Um passo de cada vez. Um tijolo de cada vez.
Virou-se para encarar Justiceiro novamente.
– Fale – mandou Capitão.

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