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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 67

OS DECISORES

SERÁ que estava tudo indo por água abaixo? Tony Stark não sabia dizer. De alguma forma, a opinião pública se voltara contra o Registro, depois do desastre na fábrica de produtos químicos; as últimas pesquisas mostravam que as opiniões estavam bem divididas. A deserção de Sue Richards também era um problema, e logo teria de lidar com ele. E a comunidade internacional não estava feliz. Os líderes da União Europeia estavam fazendo um discurso após o outro contra a nova política, felizes por ter um assunto para desviar a atenção de suas economias em crise. Wakanda, a nação africana que fornecia para a Stark Enterprises o valioso elemento Vibranium, estava considerando cortar todas as relações diplomáticas com os Estados Unidos. A nação submersa de Atlântida era outro problema potencial, já que um dos membros mortos dos Novos Guerreiros era filha da família real. O Príncipe Namor, governante de Atlântida, certa vez encenou uma invasão em larga escala ao mundo da superfície. Nos últimos anos, não se teve muitas notícias de Namor, ou do enigmático povo de pele azul de Atlântida. Tony tinha esperanças de que o lendário gênio de Namor tivesse amansado com o tempo. Os X-Men tinham praticamente se trancado atrás dos muros de sua escola. Maria Hill estava pronta para invadir o lugar com tropas de choque da S.H.I.E.L.D., prender e deter todo mundo que estivesse lá dentro. Tony a convencera a adiar. O relacionamento dos X-Men com a comunidade dos super-heróis nunca fora muito tranquila; eles não se entregariam fácil no caso de uma invasão. O resultado seria um banho de sangue. Mas Hill estava certa sobre uma coisa: cada herói que demorava a aderir aumentava o problema. Para o Registro dar certo, um número crítico de heróis precisava concordar. Do contrário, o processo inteiro daria errado. Em vez de mostrarem controle sobre o problema, Tony e a S.H.I.E.L.D. pareceriam impotentes, ineficazes – e isso abriria caminho para mais forças hostis e repressivas se intrometerem. No lado positivo, os campos de treinamento estavam realmente se concretizando. Informações continuavam vindo de dentro da Resistência do Capitão América. O projeto Thunderbolt entrara na fase de teste alfa. E devagar e sempre, os heróis estavam se registrando. Esta manhã mesmo, o Doutor Sansom e o Sentinela aderiram. O Registro é a lei, lembrou-se Tony. Com o tempo, todos vão entrar na linha. – Logo depois dessa colina, Happy – Tony se enfiou mais embaixo do grande guarda-chuva de Happy Hogan, pisando com cuidado entre as poças de lama. A chuva caía com toda força, pintando o cemitério de cinza e marrom. – Uau – exclamou Happy. O buraco tinha três metros de largura e nove de comprimento e, pelo menos, seis de profundidade. Seis grandes guindastes industriais trabalhavam ruidosamente, descendo lentamente o corpo enfaixado e acorrentado de Golias em direção ao solo. As pessoas assistiam, pouco à vontade, em grupos de dois ou três. Miss Marvel e Viúva Negra estavam juntas; Carol parecia alta e elegante em um terno cinza, enquanto Natasha usava um sobretudo preto. Reed Richards vestia um paletó de veludo e gravata, mas seus braços estavam esticados de forma protetora em volta de Franklin e Valéria, seus dois filhos. Eles pareciam confusos e desconfortáveis em roupas formais. – Reed trouxe as crianças? – indagou Happy. – Ele não quis deixá-las com os robôs o dia todo – Tony suspirou. – E não sobrou mais ninguém do Edifício Baxter. Um casal negro mais velho se abraçava. A mulher fixou o olhar no de Tony por um momento. Ele desviou. – Os pais de Bill – informou Tony. – Deve estar sendo duro pra eles – comentou Happy. – Principalmente porque você não conseguiu encolher o corpo ao tamanho normal. – Hank Pym está de licença. Mas eu liguei pra ele e ele me disse que não era possível. Alguma coisa sobre atividade cerebral elétrica e decomposição orgânica de tecidos. – Quanto será que a família precisou desembolsar…? Por trinta e oito jazigos? – Nada. Eu arquei com as despesas. Era o mínimo que eu podia fazer. Um guindaste tombou um pouco. O corpo de Golias escorregou, e um dos braços bateu na parede do buraco. Tony fez uma careta. – Meu Deus, Happy. Isso tudo vale a pena? Eu tenho o… o direito de fazer isso? Happy não disse nada. Ficou ali parado, segurando o guarda-chuva, protegendo Tony do dilúvio. – Stark? A voz de Maria Hill, em seu fone de ouvido acionado por Bluetooth, fez Tony dar um pulo. Ele se afastou do túmulo e clicou. – O quê? – Tem algumas pessoas que quero que você encontre. – Droga, Maria! Estou enterrando o Bill Foster. Ele desligou antes que ela pudesse falar de novo. Essa mulher estava realmente se tornando um problema. Por ela, todos os super-heróis ficariam presos para sempre. Tony olhou em volta. – Onde será que está Peter Parker? Reed se aproximou, trazendo as crianças junto dele. Parecia ter sido atropelado por um caminhão. – Tony. – Reed. Obrigado por vir. Oi, Franklin, Valéria. Happy agachou e tentou bagunçar o cabelo de Franklin. O garoto se afastou, se escondendo atrás da perna do pai. Reed segurava um pedaço de papel molhado, apertando-o e soltando dentro do punho fechado. – O que é isso? – quis saber Tony. – Nada – respondeu Reed, logo enfiando o papel no bolso. Mas Tony conseguiu ver a assinatura embaixo: Susan. – Reed – Tony estendeu a mão e apertou o ombro dele. – Sei que está sendo difícil. Mas vamos superar. Estamos fazendo a coisa certa. – Pai – chamou Val. – Meus sapatos estão ficando ensopados. Reed deu um tapinha nas costas dela e se virou. As crianças seguiram-no. – Hoje à noite, nos veremos no Edifício Baxter – disse Tony. – A S.H.I.E.L.D. tem mais um grupo de prisioneiros. – Claro – concordou Reed. Ele soou velho, derrotado. Fazendo um ruído chato e mecânico, os guindastes soltaram seu fardo. O enorme corpo de Golias foi deixado para descansar no profundo túmulo enlameado. Um autofalante começou a tocar, e a música “Hey, Hey, I Saved the World Today”, da dupla Eurythmics, encheu o ambiente. Soou triste, como um canto fúnebre. Uma lembrança de infância surgiu na cabeça de Tony: um videoclipe de Annie Lennox, com um terno masculino amarrotado, as mãos acenando e conjurando sobre um globo da Terra. Ela parecia uma máquina, poderosa e sensual, brincando com o mundo como se fosse seu brinquedo particular. – Tony? Tony levantou o olhar. Os guindastes tinham se afastado. Pás úmidas rangiam e gemiam, jogando terra molhada para dentro do túmulo. As pessoas se afastavam, lentamente indo embora. Miss Marvel e Viúva Negra se aproximaram. Natasha tinha um brilho estranho no olhar. – Está todo mundo feliz agora – disse ela –, o vilão se foi pra sempre. – O que você quer dizer com isso? – indagou Tony. Ela fez um gesto com a mão e lançou seu olhar “americano estúpido”. – A música – disse ela. – Sr. Stark? Tony se virou. Miriam Sharpe, a mulher de Stamford, estava ali parada embaixo de um pequeno guarda-chuva. Happy ficou tenso ao vê-la, mas Tony levantou a mão. – Sra. Sharpe, me desculpe por não ter tido tempo para… – Não, não se preocupe com isso. Eu só vim porque sei que vocês perderam muito apoio na comunidade de super-heróis depois… – Ela apontou para o túmulo. Tony franziu a testa. Atrás dele, Miss Marvel e Viúva Negra escutavam também. – Vim dar a minha opinião – continuou Sharpe. – Golias sabia o que estava fazendo, e o que ele estava fazendo era infringindo uma lei feita para salvar vidas. Se ele tivesse se registrado, ainda estaria vivo – ela sorriu para Tony, uma lágrima começando a se formar em seu olho. – A culpa não é sua. Assim como não podemos culpar um tira por atirar em um criminoso que aponta uma arma para ele. – Sra. Sharpe… – Shh. Eu também queria lhe dar isso – ela procurou na bolsa. – Era o brinquedo preferido do meu filho Damien desde que ele tinha três anos. Ele pegou o brinquedo e fitou-o através da chuva. Um boneco do Homem de Ferro de quinze centímetros, as juntas duras, a pintura vermelha e dourada gasta pelo tempo. Ele rodou o boneco entre os dedos. Empurrou o braço: ele girou no ar. Ainda funciona. Tony levantou o olhar, totalmente sem palavras. – Só pra lembrar-lhe por que está fazendo isso – disse ela. Ele tocou o ombro dela, um agradecimento sem palavras. Então, ele se virou, ainda segurando o boneco. Era bom tê-lo nas mãos. Tony colocou um dedo em seu fone de ouvido. – Maria. Fale comigo. Uma breve pausa. – Já estava na hora, Stark. Encontre-me na entrada oeste. Mas se prepare… seu pequeno funeral agitou alguns nativos. A noite estava começando a cair quando Tony abaixou a cabeça e atravessou o portão do cemitério, passando por duas filas de manifestantes. Da sua direita, ecoou um coro de vaias e gritos, pontuadas por xingamentos: “Fascista” e “Mata-capa!”. Da sua esquerda, soavam saudações mais baixas. “Continue brigando pela nossa segurança!”, gritou alguém. Tony analisou os dois grupos. Ambos os lados eram uma mistura de universitários vestindo capas de chuva, trabalhadores comuns e algumas mulheres de luto que ele reconheceu de Stamford. Se alguém escolhesse uma pessoa aleatória do protesto, percebeu Tony, eu não identificaria de que lado estava. Um lado me odeia porque sou um super-herói. O outro lado me saúda porque sou uma autoridade. Soldados de cavalaria tinham erguido barreiras para afastar os dois grupos. Mas os tiras pareciam nervosos. Tony parou para perguntar a um soldado: – Vocês têm homens suficientes aqui? – A Guarda Nacional está a caminho – o soldado fez uma careta. – Conseguimos segurar as pontas até eles chegarem. – Stark – a voz de Maria Hill soou no ouvido de Tony novamente. O Centro de Comando Móvel da S.H.I.E.L.D. estava parado na rua, sobressaindo-se à primeira fila do trânsito. Uma linha de guardas o cercava, abrindo-se rapidamente quando Tony e Happy se aproximaram. Dentro da Sala de Guerra, dois recém-chegados aguardavam. Gavião Arqueiro estava parado com a cara feia, com seu traje roxo completo, o arco em cima de uma mesa próxima. Com ele, estava uma loura alta vestida de vermelho e preto, usando uma máscara que cobria os olhos. Tony franziu a testa, por um momento não a reconheceu. – Estatura – esclareceu Maria Hill. – Ex-integrante dos Jovens Vingadores. – Claro – Tony estendeu a mão. – E Gavião Arqueiro. Bom tê-lo de volta, Clint. Sei que não deve ter sido uma decisão fácil. Gavião Arqueiro coçou o pescoço. – A mais difícil que já tomei, Tony. – Eu sei. A cabeça sabe o que é certo fazer, mas o coração insiste em querer que as coisas continuem do jeito que sempre foram. – É, mas… estamos vivendo em um mundo diferente agora. Acho que Golias precisou morrer pra eu perceber isso. Tony analisou o arqueiro por um minuto, depois se virou para encarar Estatura. – E você… Cassie, certo? Está dando um passo muito importante. – Sei disso – ela olhou-o diretamente nos olhos. – Meus colegas de equipe não entendem. – Mas você entende. – O povo quer que a gente seja bem treinado, senhor. Não estamos mais na década de 1940. – Isso é verdade – concordou Happy. – Só quero fazer meu trabalho, usar minhas habilidades da melhor forma possível. Tony assentiu, devagar. Isso era uma boa notícia; mais dois recrutas. Ainda assim, estava com uma pulga atrás da orelha. Tinha alguma coisa errada ali. Hill deu um passo à frente. – Temos muita coisa para resolver, Stark. Começando com o Projeto Thunder… Tony levantou a mão e fez um movimento para contê-la. Hill acompanhou o olhar dele até o Gavião Arqueiro, depois assentiu. Gavião sorriu. – Não confia em mim, Tony? – Pra ser sincero, Gavião. Tem partes desta operação que eu não conto nem pra mim mesmo. Os olhos de Estatura acompanhavam os dois, como num jogo de pingue-pongue. Hill apontou para dois agentes. – Stathis, Roeberg. Levem os dois recrutas de volta para cidade na limusine. Aproveitem e coloquem-nos a par de todos os procedimentos. – Entendido. Gavião Arqueiro pendurou o arco no ombro e seguiu o agente até a porta. Ele parou e lançou um último olhar para Tony. Será que ele está puto comigo? Tony se perguntou. Ou está tentando me enganar e imaginando se eu percebi? Hill se aproximou dele. – Você acha que o Capitão está tentando infiltrar um espião na sua operação? – Nós temos um do lado dele, não temos? E Gavião Arqueiro deve muito ao Capitão América – Tony franziu a testa de repente. – Alguma notícia do Homem-Aranha hoje? Hill olhou para o agente da S.H.I.E.L.D. que restava. – Ellis, faça um Protocolo de Busca de Herói. Assunto: Peter Parker. As mãos do agente voaram em cima dos controles. Um número surpreendente de imagens de câmeras de vigilância piscou nas telas, terminando em uma montagem colorida do superherói. A tela parou em uma imagem aérea do Homem-Aranha, com seu traje vermelho e dourado, lançando suas teias nos prédios do centro da cidade. – Última vez que foi visto, ontem às 18:34. Do lado de fora do Edifício Baxter. – 18:34. Foi logo depois que eu o vi – Tony franziu a testa. – Nada depois disso? – Não com o traje, senhor. As sub-rotinas com identidade civil ainda não estão funcionando. Tony virou-se para Happy. – Hap, você está com o meu traje, certo? Happy ergueu a pasta de Tony. – Bom. Maria, espero que não se importe de eu me trocar na sua frente. – Já vi isso antes. O Agente Ellis levantou a cabeça, surpreso. – Volte ao trabalho, rapaz – ordenou Hill. – O que houve, Sr. Stark? – Acho que tenho um problemão, Hap – Tony abriu a pasta, fitou o traje do Homem de Ferro. – E está na hora de eu cuidar disso.

–ENTENDI. Ok, obrigada. Esteja lá em meia hora. Sue Richards colocou o fone do gancho do orelhão e virou para o irmão. Johnny estava usando calça jeans e jaqueta. Um enorme curativo saía de baixo do seu boné de beisebol, mas ele parecia muito mais saudável do que da última vez que ela o vira. – Falcão me deu o endereço – disse ela. – Fica no Harlem. Chamas começaram a sair da cabeça e dos ombros de Johnny. – Podemos ir voando… – Apague isso! A S.H.I.E.L.D. tem olhos em todos os lugares – ela olhou em volta, subitamente paranoica. – Vamos andando. – Sim, irmã mais velha. Pelo menos a chuva parou. Sue começou a subir a 11 a Avenida. Ela e Johnny tinham ido diretamente para o antigo quartel-general da Resistência, só para encontrá-lo fechado e abandonado. Por um momento terrível, Sue pensou: Será que Tony prendeu todos eles? Mas, não… eles tinham apenas se realocado. Caminharam em silêncio por um momento, passando por postos de gasolina, boates e lojas de autopeças fechadas. Ali, no extremo oeste da cidade, coisas novas se misturavam com as antigas. Um restaurante da moda podia abrir ao lado de um armazém velho, e fechar novamente numa noite, sem deixar rastros. – Como está o Reed? – perguntou Johnny. Sue hesitou. – Sabe aquela coisa que ele faz quanto está totalmente envolvido em um projeto? – Não faço a menor ideia do que você está falando. Ela riu. – Ele está dez vezes pior. Ele e Tony Stark estão… eles parecem crianças em uma loja de doces. Não, mais que isso, duas crianças construindo sua própria loja de doces gigante. Com todos os tipos de doces do mundo sob o controle absoluto deles. – Ainda estamos falando de doces? Porque tá me deixando com fome. Ela parou sob um poste, virou-se para fitar Johnny. Desde que tinha quinze anos, Sue cuidava dele. Agora, ele era um jovem e bonito adulto, vivendo sua própria vida. Ainda assim… – Johnny, eu preciso fazer isso. Eu fiz a minha escolha quando ajudei a Resistência a fugir dos capangas de Tony. Mas… – Não, mana. – … mas você não precisa. Você ainda pode voltar – ela esfregou as duas mãos nos ombros largos dele. – Vá se entregar. Johnny apontou para uma grande fábrica. Ela o seguiu para dentro da alcova escura ao lado do portão. Quando não podiam ser vistos da rua, ele estendeu um dedo em chamas e traçou a letra “A” no ar, deixando um rastro da imagem na frente dos olhos de Sue. – A – começou ele –. Até agora, o registro só me rendeu um rasgo na cabeça. B, Tony Stark é um rico babaca. Sue riu. – Bem, continue. O que é o C? – C? – devagar, ele traçou a letra com chamas no ar. – C é que eu e minha irmã sempre enfrentamos as situações difíceis juntos, e eu nunca a abandonaria. Nunca. Ela sentiu as lágrimas encherem seus olhos. E o abraçou forte. Então, eles escutaram um grito. – Você… – Escutei – respondeu ele. – Dentro do prédio. Ele acendeu a mão com fogo e iluminou a parede como uma lanterna. As janelas estavam lacradas, os tijolos lascados pelo tempo e pela negligência. Mas a porta… Johnny empurrou a porta de leve. Ela rangeu e abriu para dentro. Um cadeado com corrente estava jogado no chão. Então, eles escutaram de novo. Um distante pedido de ajuda. – Apague a sua luz – sussurrou Sue. Então, ela estendeu a mão, deixando ambos invisíveis. Passou por ele e entrou, mantendo a mão levantada para gerar um campo de força protetor na frente deles. Eles atravessaram um corredor escuro e empoeirado. Não havia nenhuma luz acesa, nem mesmo de emergência. Mais duas vezes, porém, eles escutaram os gritos fracos: “Socorro!” e o “O que você está fazendo?”. O corredor se abria para uma doca de carga abandonada. Tetos altos, cheiro de pólvora e jornal velho. Uma única luz brilhava de uma lanterna elétrica portátil, colocada bem no centro do lugar. Numa grande viga que subia do chão até o teto, um homem tinha sido amarrado com cordas grossas. A lanterna iluminava-o de baixo, projetando sombras gigantes no teto. Ele lutava em pânico e gritava: – O que você quer? A pasta do homem estava aberta no chão, papéis espalhados formando um leque. Havia também um tablet, com a tela rachada. A alguns metros dele, o carrasco estava agachado, limpando uma faca. Braços musculosos, pernas grossas, cenho sério. Um desenho de caveira na blusa. – Aquele é o Justiceiro – sussurrou Johnny. – Eu sei – respondeu Sue. – Ele é registrado? – Eu duvido muito. Justiceiro levantou a cabeça. Por um momento, fitou diretamente a porta. Sue estremeceu; os olhos frios dele pareceram pousar nela. Ainda mais baixo, Johnny disse: – Ainda estamos invisíveis, certo? Sue assentiu bruscamente, e colocou um dedo sobre os lábios. Justiceiro franziu a testa, passou os olhos por todo o lugar. Então, voltou para o seu trabalho, tirou uma pedra de amolar de dentro da bolsa. Sue acenou para que Johnny andasse, e eles se moveram silenciosamente pelo local. Justiceiro era um vigilante, um assassino conhecido por constantemente eliminar chefes da máfia. Depois que sua família foi assassinada em um ataque de mafiosos, ele jurou vingança contra todo o crime organizado. O homem preso à viga estava chorando. Lutando para se soltar. Sue analisou-o: usava camisa de botão branca, calças impecáveis e gravata frouxa. Os sapatos, que balançavam, pareciam engraxados e caros. Esse cara não era um chefe da máfia, nem mesmo um que se tornara legal. Ele era um executivo. Justiceiro levantou a faca, analisou a lâmina iluminada pela luz da lanterna. Sem encarar a vítima, ele disse: – Wilton Bainbridge Junior. Conhecido como “Wilt”, não é isso? – I-isso. – Wilt – Justiceiro se virou para ele, levantou a lâmina. – Precisamos ter uma conversa. – Uma conversa? Oh. S-sim. Eu… eu não vou a lugar nenhum. Justiceiro sorriu, um sorriso indiferente. – Você é banqueiro, certo, Wilt? – S-sim. – E você participa de vários conselhos administrativos também. – Creio que sim. – Como o da Roxxon International. O homem assentiu. Ainda estava frenético, mas agora parecia curioso também. Esperando uma brecha. – A Roxxon está desenvolvendo muitas tecnologias para o governo atualmente – continuou Justiceiro. – Claro, não tanto quanto a Stark. Mas existem muitos contratos rolando. E alguns deles envolvem tecnologias que poderiam interferir no meu trabalho. – No seu trabalho? – Isso mesmo – Justiceiro colocou a faca a poucos centímetros do homem que se contorcia, passando-a no ar do estômago até a virilha dele. – Então, eu preciso que você me conte tudo que sabe sobre o protocolo Busca-Capa. – O Busca-Capa… ah, sim. Claro! – Wilt fitou a faca. – Isso é fácil. É um software de reconhecimento padrão, usado para fazer a verificação cruzada de milhares de fontes com objetivo de localizar qualquer super-herói, ou, ou, ou vilão, no mundo. Não é realmente novo, é uma adaptação do software do Departamento de Segurança Nacional, usado em aeroportos. A única diferença é que também detecta poderes meta-humanos. Você sabe, tipo, tipo, raios congelantes ou radiação gama. – Poderes meta-humanos – Justiceiro virou de costas, assentindo. – Obrigado, Wilt. – Isso é estranho – sussurrou Johnny. – Justiceiro não sequestra civis. Nunca fiquei sabendo que ele tentou extorquir informações deles. Sue assentiu, e fez um sinal para que ele ficasse quieto. – E o Projeto Thunderbolt? – perguntou Justiceiro. – O… o quê? – Primeiro, eu achei que fosse um nome codificado para aquele monstro do deus do trovão que perdeu o controle ontem. Mas as minhas fontes me disseram que é algo diferente, algo muito perigoso. O que é o Projeto Thunderbolt, Wilt? – Eu, eu não sei. Justiceiro se virou com olhos assassinos em sua direção. Levantou a faca e espetou o próprio dedo. Ele nem piscou quando o sangue começou a sair do pequeno corte. – Eu não sei! – Wilt se agitou, se debatendo contra as amarras. – Já escutei o nome, mas nós não temos nada a ver com isso. É ultrassecreto, desenvolvido pela S.H.I.E.L.D. apenas em parceria com a Stark Enterprises. – Você não sabe de nada? – Não! Eu juro! Justiceiro voltou para sua bolsa. Procurou lá dentro e tirou um rifle de alta potência. – Acho, então, que você não serve mais pra nada, Wilt. Johnny apertou o ombro de Sue com mais força. Mas Wilt balançou a cabeça, juntando toda a sua coragem. – Então, você vai me matar? Justiceiro não respondeu. Abriu uma caixa de munição e esvaziou-a em sua mão. – Eu acho que você não vai me matar – Sue percebeu que Wilt estava suando, mas ele parecia mais confiante agora. – Eu conheço você, conheço a sua reputação. Você não mata pessoas comuns a sangue frio. Você mata criminosos, ponto final. Meticulosamente, Justiceiro carregou o rifle com a munição. – Isso mesmo. Eu mato criminosos. Permita-me deixar as coisas claras aqui, Wilt – Justiceiro virou-se para ele. – Oito anos atrás, enquanto trabalhava na Terriman Gaston and Associates, você vendia hipotecas para o Chase, para o Bank of America e vários outros grandes bancos nacionais. – Isso. E daí? – Em centenas de casos, você vendeu a mesma hipoteca pra três ou mais bancos. Muito, muito lucrativo. – Você vai me matar por isso? – Wilt encarou-o, incrédulo. – Todo mundo estava fazendo a mesma coisa. – Entre as hipotecas que você vendeu pra três bancos diferentes, havia a de um conjunto de casas de um condomínio em Hialeah, na Flórida. Perto de Miami. Lembra? Wilt balançou a cabeça. O medo estava de volta aos seus olhos. Justiceiro fitou todo o rifle, franziu a testa. Pegou um pano e começou a limpar o cano da arma. – Dois bancos diferentes executaram a hipoteca daquelas casas. Os moradores eram imigrantes de Cuba, de primeira ou segunda geração, que vieram para começar uma nova vida. De repente, homens brancos vestindo ternos bateram em suas portas, tomando posse das casas que compraram corretamente, com apoio policial. Os cubanos não puderam discutir. – Desesperados, sem teto e morrendo de fome, esses imigrantes se juntaram e começaram a vender heroína. No começo, enfrentaram uma competição acirrada, mas logo aprenderam a ser cruéis e estabeleceram uma base na área de Miami – Justiceiro virou-se de novo para seu prisioneiro. – Você sabe o que estava fazendo na época, Wilt?” – Eu… eu não me lembro. – Vou refrescar a sua memória. Você gastou boa parte de seus lucros recém-adquiridos numa coisa chamada Cruzeiro Afrodite, uma orgia em alto-mar em que prostitutas de classe prestavam serviços a executivos ricos tendo como cenário a arquitetura decadente da Grécia. Divertido pra quem pode, não é? – Enquanto isso… enquanto você cheirava cocaína diretamente da barriga de uma stripper chamada “Mnemosyne”, nossos amigos cubanos começaram a vender constantemente para um cliente chamado Enrique. Esse hábito de Enrique o tornava instável e pouco confiável, o que fez com que perdesse o emprego. Quando o dinheiro dele acabou, os cubanos cortaram o fornecimento de heroína. Então, Enrique decidiu assaltar uma loja do Taco Bell. O gerente bancou o herói e abateu Enrique com uma calibre .30-06. Mas não antes de ele atirar em três clientes. – Um desses cientes era um empreiteiro afro-americano chamado James Victor Johnson. Wilt o fitava, incrédulo. – Do que você está falando? – James Victor Johnson morreu três horas depois do assalto. A irmã dele me procurou. Contou a história toda – Justiceiro fez uma pausa. – Bem, mais ou menos. Precisei pesquisar um pouco para chegar até você. – E… foi por isso que você me pegou? – Isso mesmo. – E aquele outro papo todo? Sobre a S.H.I.E.L.D. e a tecnologia para localizar super-herói? Justiceiro deu de ombros. – Você é uma fonte, Wilt. – E você é louco. Você é totalmente louco! – Wilt se debatia ferozmente, puxando com força as cordas. – Você me culpa pela morte desse cara? Não foi culpa minha. Justiceiro armou o rifle, fazendo ecoar um estalo no lugar vazio. – Oh, não – sussurrou Sue. – Você não está atrás de mim – Wilt tremia. – Você devia ir atrás de quem atirou no cara. Ou dos traficantes. Dos bandidos, subversivos que fazem esse tipo de coisa! – Oh, eu vou – Justiceiro apontou o rifle para sua vítima e mirou. – Mas eu gosto de começar por cima. Sue sentiu uma onda de calor. Um boné de beisebol queimado caiu em cima dela, pequenas chamas ainda dançando sobre sua superfície. Ela hesitou, jogou-o no chão e olhou para cima… … e viu Johnny Storm, o Tocha Humana, se lançando no ar na direção do Justiceiro. Fogo ardia de cada centímetro do corpo de Johnny; destruíra sua roupa, incinerando-a em um único e repentino ataque de raiva. Justiceiro olhou para cima. Mas não a tempo. Uma bola de fogo foi saiu das mãos de Johnny, atingindo o rifle dele. Justiceiro xingou, sacudindo a mão dolorida, e a arma caiu no chão. Johnny deu a volta e pousou entre Justiceiro e sua vítima. Deixou seu fogo se apagar, revelando seu uniforme do Quarteto Fantástico. Justiceiro se agachou e fitou Johnny com desdém. – Tocha Humana. Estou vendo que está trabalhando pro Stark agora. Johnny franziu a testa. – O quê? – Você não vai me prender. – Não estou aqui pra… Estou aqui pra não deixar que você mate pessoas! – Ele é louco – gritou Wilt. – Você tem que prendê-lo! – Johnny! – chamou Sue. – Não baixe sua guarda… Mas o aviso chegou tarde demais. Justiceiro enfiou a mão na bota, puxou uma segunda faca e jogou-a em Johnny a queima-roupa. A faca atingiu seu rosto, arrancando sangue. Johnny gritou e caiu para trás, instintivamente em chamas. Então, com uma rapidez incrível, a bota do Justiceiro estava em seu pescoço, prendendo-o ao chão. Chamas levantavam do corpo de Johnny que se debatia, atingindo a roupa do Justiceiro sem causar nenhum dano. – Kevlar à prova de fogo – murmurou o vigilante. – Apague o fogo, garoto. Agora. Johnny soltou um ruído abafado. As chamas se apagaram. Sue fez uma careta. Ainda sem ser vista, ela começou a rastejar para frente. – Sua irmã invisível também está aqui, não está? – Justiceiro olhou à sua volta. – Trabalhando pra S.H.I.E.L.D.? Eles estão longe daqui? Um estrondo enorme soou. Sue olhou para cima e viu fragmentos enormes do teto caindo na direção deles. Poeira, barulho e luzes bem acima de sua cabeça. Instintivamente, ela ativou seu campo de força. Wilt, amarrado mais alto do que os outros, gritou. Um enorme pedaço de granito atingiu o topo da viga de suporte em que ele estava amarrado, soltando-a do teto. Wilt caiu, berrando, ainda amarrado à viga, indo na direção de Johnny e do Justiceiro. Sue estendeu o braço, aumentando seu campo de força para proteger o irmão. Wilt quicou de leve no campo, se contorcendo para soltar as amarras, e então, caiu no chão. Sue desativou o campo por uma fração de segundo para permitir que ele entrasse, depois o ativou novamente sobre todos os quatro. Madeira e gesso caíam ao redor, formando uma nuvem no ar. Justiceiro não se moveu nem um centímetro, ainda estava de pé com a bota no pescoço de Johnny. Devagar, ele se virou para Sue, e ela se deu conta de que, na confusão, tornou-se visível. Justiceiro mostrou os dentes. Wilt se livrou das amarras e começou a rodar pelo interior do campo de força, tentando sair, mas ricocheteou em suas paredes e gritou de dor. Em seguida, os raios de um enorme holofote atravessaram o buraco no teto. Sue recuou. – RESULTADOS DE BUSCA DE CAPAS: FRANCIS CASTLE, O JUSTICEIRO – a voz era ensurdecedora. – JONATHAN STORM, O TOCHA HUMANA. Bem em cima, quatro helicópteros da S.H.I.E.L.D. pairavam e zuniam no ar empoeirado. – SUSAN RICHARDS, A MULHER INVISÍVEL. Justiceiro se inclinou para frente para falar com Johnny, que ainda estava se contorcendo no chão. – Vocês não estão com eles? – ele indagou. – Não! – AQUI É A EQUIPE QUATRO DA S.H.I.E.L.D. RENDAM-SE, E PREPARAM-SE PARA SEREM PRESOS. Justiceiro virou-se para Sue. – Inimigo do inimigo? – O quê? – questionou ela. – Trégua temporária. – Isso! – gritou Johnny. Justiceiro tirou o pé do pescoço de Johnny, que tossiu, com a mão na garganta. Justiceiro estendeu a mão para ele e ajudou-o a ficar de pé. – AVISO FINAL. LARGUEM TODAS AS ARMAS, NÃO USEM SEUS PODERES NÃO AUTORIZADOS. Sue correu até Johnny, certificando-se de que o campo de força permanecesse intacto. Wilt se encolheu no canto da barreira de energia invisível, que tinha a forma de domo. Justiceiro acenou com o rifle para mostrar os helicópteros que sobrevoavam o teto derrubado. – Eles não vão embora – afirmou. Sue assentiu, séria. Tirou suas roupas comuns, revelando seu uniforme do Quarteto Fantástico. Então, de uma só vez, ela abaixou seu campo de força. – Tire-nos daqui – ordenou ela. Johnny assentiu e queimou em chamas. Pegou-a por baixo dos braços, em seu uniforme à prova de fogo, e decolou para o céu. Um som estridente fez Sue olhar para baixo. Wilt estava correndo para a porta, para longe do Justiceiro – que estava se protegendo, atirando com dois rifles automáticos ao mesmo tempo. Nas paredes, não nos helicópteros; aleatoriamente, levantando poeira para encobrir sua fuga. Ele deve ter uma bolsa de armas e tanto, pensou ela. – META-HUMANOS TENTANDO FUGIR. FIREFOX-DEZ E DOZE, MOVAM-SE PARA INTERCEPTAR. Sue e Johnny subiram cortando o ar, indo diretamente para um dos helicópteros. Uma violenta barreira antiaeronaves se abriu na sua lateral, girando e apontando para eles. – Johnny! – gritou ela. – Segure firme, mana. Ele ziguezagueou pelo ar, passando pela abertura no teto e assumindo uma posição quase horizontal, voando por baixo do helicóptero principal e passando pelos outros dois. Balas foram disparadas na direção deles, enchendo o ar; Sue levantou os pés, desviando. Ela se esforçava para manter o campo de força, mas era quase impossível se concentrar nessas circunstâncias. Então, Johnny fez uma volta de 180 graus a uma velocidade estonteante, indo em direção ao fogo inimigo. Ele estendeu a mão, derretendo as balas no ar. Sue mal podia olhar. Johnny virou, ainda segurando-a e levantou voo. Os helicópteros se agitaram atrás, virando e subindo para segui-los. – TODAS AS UNIDADES CONTINUEM A PERSEGUIÇÃO. META-HUMANOS SEGUINDO PARA O CENTRO DA CIDADE, EM DIREÇÃO ÀS EQUIPES NOVE E ONZE. Sue olhou para frente. Viu os arranha-céus de Nova York, o tapete verde do Central Park, avistou um segundo grupo de helicópteros se aproximando. Somos como patinhos no lago aqui, pensou ela. Como um cometa, cortando a noite… – Sue – falou Johnny. – Deixe a gente invisível. Agora. Ela assentiu, fechou os olhos apertando-os. Confie nele, pensou. Confie no seu irmão. Devagar, seu poder de invisibilidade foi acionado. As chamas de Johnny deixaram de ser vistas. Ela fez um sinal para ele para indicar que estavam invisíveis, e ele começou a descer em direção à rua abaixo. – EQUIPE NOVE, AQUI É A EQUIPE QUATRO. PERDEMOS CONTATO VISUAL COM OS META-HUMANOS. VOCÊS AINDA CONSEGUEM VÊ-LOS? – NEGATIVO, EQUIPE QUATRO. – ATIVAR SENSORES DE PODER… As vozes amplificadas foram sumindo conforme a rua chegava ao encontro deles. Gradualmente, Johnny apagou suas chamas, e eles aterrissaram suavemente em uma esquina tranquila do Central Park. Ele respirou fundo, tossiu e encostou-se a um poste, inspirando. Duas pessoas passaram fazendo exercício, indiferentes à dupla invisível. Uma delas levantou a cabeça ao escutar a respiração pesada, deu de ombros e continuou. Sue examinou o corte no rosto de Johnny e o hematoma na garganta. – Você está bem? – Tô sim. – O ferimento na sua cabeça está sangrando de novo. Um médico tem que examinar isso. – Ótimo. Ela olhou para o céu. Os helicópteros estavam mudando de direção, seguindo para o sul. Eles tinham conseguido – enganaram a S.H.I.E.L.D., pelo menos por enquanto. – Melhor a gente não… usar os poderes de novo – Johnny disse – Acho que foi assim que rastrearam a gente. – Vamos – Sue pegou o irmão pelo braço, acompanhando-o pelo parque arborizado e pouco iluminado. Quando estavam fora de visão, ela desativou a barreira de invisibilidade. – Vamos pra Resistência. Eles vão te ajudar. – Maldito Justiceiro – Johnny tossiu de novo. – Será que conseguiram pegá-lo? – Duvido. Mas isso não é problema nosso. Eles desceram um caminho pavimentado, os sons do trânsito diminuindo conforme se distanciavam. O parque estava tranquilo; apenas algumas poucas pessoas conversando baixinho e rindo. – Não foi uma noite tão ruim – comentou Sue. – Evitamos que um homem fosse morto. – Talvez ele merecesse. – Talvez – Ela sorriu para ele, e respirou fundo o ar noturno. – Mas isso não cabe a nós decidir, não é mesmo?

TONY, preciso que você entenda. Não sei se eu consigo… Homem-Aranha balançou a cabeça. Não. Não é forte o suficiente. Ele estava sentado como um louva-a-deus na oficina de Tony Stark, na ponta da bancada do computador principal. Na sua frente uma série de telas piscava, com um fluxo constante de informações, incluindo atualizações da S.H.I.E.L.D., relatórios de super-humanos, projeções populacionais e status de raças alienígenas conhecidas. No chão, estavam espalhados projetos inacabados de Tony: minirreatores, motores, suprimentos de combustível, algo que parecia um carro voador e protótipos da armadura do Homem de Ferro de todas as cores e formas possíveis – luvas, botas, até uma unidade para a parte inferior do corpo com rodas de tanque. Sei que está atolado, Tony. Aliás, você está sempre atolado. Talvez isso seja parte do… Os computadores já estavam ligados quando Homem-Aranha chegou; na pressa, Tony nem ativara a senha para bloqueá-los. Aranha esticou um tentáculo metálico e clicou em um ícone na tela. Em cima dele, no ar, uma imagem holográfica tremeu e ganhou vida. Tony, com uma das primeiras armaduras do Homem de Ferro, amarela, maciça e pesada, parado numa rua da cidade. Um Hank Pym de três metros de altura movia-se desajeitadamente juntando-se a ele. Hank foi o primeiro Golias, lembrou Aranha. Ou ele era o Homem-Gigante? Um flash vermelho e preto e Vespa – Janet Van Dyne, futura esposa de Hank – apareceu na cena, com não mais que trinta centímetros de altura, seus fones de ouvido apontados para cima como um ferrão. E então: Thor. Ele caiu das nuvens, o martelo girando, um sorriso que dizia: Que coisa fantástica estar aqui hoje, junto com os mortais. É que está tudo acontecendo rápido demais. Tony, será que você pode me escutar só… Homem-Aranha fitou o holograma. Esses foram os primeiros Vingadores, recémformados; o Capitão América nem havia sido encontrado ainda, flutuando em uma animação suspensa. Os Vingadores no holograma se espalharam, virando-se para encarar o inimigo que apareceu do nada. Um homem com traje roxo, com cabelo em forma do chifre do diabo e um olhar assassino. Homem-Aranha franziu a testa, clicou no monitor para pausar e voltar. Clicou duas vezes em cima do homem de roxo e apareceu uma etiqueta: FANTASMA DO ESPAÇO. O Fantasma do Espaço. As coisas eram tão mais simples, não? O arquivo que ele acessou parecia ser um registro cronológico dos casos dos Vingadores. Ao lado, na tela, um segundo ícone dizia: P PARKER. Ele esticou um dedo e clicou. A cena dos Vingadores desapareceu, sendo substituída por uma imagem da última coletiva de imprensa. Homem-Aranha observou enquanto sua própria imagem tirava a máscara, piscando por causa das centenas de flashes. O holograma de Tony colocava um braço protetor sobre os ombros do holograma de Peter, e assentia carinhosamente para ele. Aranha voltou o arquivo. E de repente viu que estava assistindo a um registro de sua própria carreira, em ordem inversa. Sua chegada ao desastre em Stamford, usando seu novo traje. Tony pedindo que ele se juntasse aos Vingadores. Justificando-se, muito tempo atrás, para o Departamento de Polícia de Nova York. Confrontando J. Jonah Jameson, no escritório dele, acerca dos editoriais difamatórios. Lutando com Venom, Cabeça de Martelo, Cabelo de Prata, Kraven, o Caçador. Os arquivos de Tony eram incrivelmente completos. Aranha sentiu uma pontada no estômago; ficou lisonjeado, mas de alguma forma também se sentia violado. Havia uma última imagem no arquivo. Uma fotografia bidimensional desbotada. Um garotinho usando óculos grossos sorria enquanto um homem colocava uma medalha em seu pescoço. Na medalha estava escrito: PEQUENO GÊNIO DA FEIRA DE CIÊNCIAS – PRIMEIRO LUGAR. O homem tinha cabelo grisalho, usava um terno de alfaiataria meticulosa sobre o corpo forte, e tinha um olhar sério. Homem-Aranha se aproximou, franzindo a testa. O garoto era ele, com uns seis anos. Mas o homem… Clicou duas vezes em cima dele. HOWARD ANTHONY WALTER STARK. Por trás das lentes, Homem-Aranha arregalou os olhos. O pai de Tony. Homem-Aranha não se lembrava desse prêmio, o primeiro que ganhara em ciências. E certamente havia se esquecido de quem lhe entregara. Mas Tony não. – Peter? Seu tentáculo está batendo e fazendo um buraco na minha cadeira. Homem-Aranha deu um pulo, assustado. Estendeu o braço e tocou na tela do computador. O holograma desapareceu. Tony estava parado, com a armadura do Homem de Ferro completa, na entrada da oficina. Uma rampa curva dava acesso ao lugar, permitindo que ele entrasse e saísse voando rapidamente. – Não vi que estava aí, chefe. Homem de Ferro deu dois passos cautelosos, quase mecânicos, para dentro da oficina. – Não me lembro de convidá-lo pra minha oficina, Peter. – Foi mal, mas eu tinha que falar com você. Homem de Ferro parou, abriu os braços. – Aqui estou eu. O reator no peito do Homem de Ferro brilhava, mostrando seu poder. Homem-Aranha se aproximou dele, levantou a mão. – Olha… – Por que você não se senta e diz a que veio? – Isso não foi uma pergunta. Aranha sentiu uma pontada de fúria. Ele está fazendo aquela coisa com a voz. O volume é aumentado, e a frequência atinge o seu cérebro. Faz com que você queira obedecê-lo. – Não vou tomar muito o seu tempo – começou ele. – Só queria avisar que estou saindo dos Vingadores. Os olhos de Tony cintilaram, vermelhos. – Sei. – Sou realmente grato a você por… por tudo. Mas trancafiar heróis na Zona Negativa? Matar Bill Foster? – Thor reagiu como um policial, Peter. Foi ameaçado e reagiu com força mortal. Mas Bill Foster também era meu amigo… você realmente acha que vou deixar que aconteça alguma outra coisa parecida? – Não! Não se você puder evitar. Mas você está perdendo o controle da situação, Tony. – O que você sugere que façamos com as superpessoas que não se registraram? Colocá-los em prisões comuns? Eles sairiam em quinze minutos. – Não, claro que não. Mas… eles precisam mesmo ser presos? – Você tem que entender uma coisa, Peter – Homem de Ferro rodeou-o, os punhos fechados. – Existem forças dentro da S.H.I.E.L.D., e mais importantes ainda, dentro do governo federal, que querem acabar com os super-humanos. Total e completamente. – Sai… – Nós nos comprometemos a regulamentar o nosso comportamento. Voluntariamente, e de acordo com um plano que eu administraria. Porque não tem como voltar atrás pros velhos tempos, Peter. Isso nunca esteve em jogo. – Saia da minha frente, Tony. – O que você planeja fazer, Peter? – Tony agora estava na frente dele, alto e imponente, todos os sistemas bélicos cintilando. – Ir pra TV de novo, retirar o seu apoio ao Registro? Quem sabe se juntar ao bando de traidores do Capitão América? – Ainda não sei. – Seu idiota – apesar da armadura, Peter conseguia ver que a voz de Tony estava alterada. – Você realmente acha que pode desistir de tudo isso e voltar pra sua vidinha de antes? Todo mundo sabe quem você é agora. Como você vai ganhar dinheiro? E sua Tia May? Fúria fervilhou dentro de Peter Parker. Ele deu um soco com toda a sua força em Tony, um golpe super-humano que amassou o peitoral da armadura blindada. Tony voou, quebrando o console de um computador, e bateu na parede. – Tia May – rosnou o Homem-Aranha – está longe, muito longe de você. Tony levantou a mão e acionou um raio repulsor. O sentido de aranha lançou um alerta no cérebro de Peter, mas tarde demais. O raio o atingiu, derrubando-o e tirando seu fôlego. – Eu confiei em você, Peter – a voz de Tony estava mais controlada. – Eu coloquei você debaixo da minha asa. Eu dei tudo pra você. É assim que você me paga? Ele disparou um segundo raio repulsor, depois um terceiro. Mas Homem-Aranha já estava de pé, saltando e desviando, girando os braços para trás para subir e descer pelas paredes. – Não – respondeu ele. – É assim. Homem-Aranha saltou na direção de Tony… – Senha de emergência: Delta Delta Epsilon – disse Tony. … e o Homem-Aranha congelou no ar. Todas as suas juntas, de repente, pareciam paralisadas, não respondendo ao seu comando. Ele caiu dolorosamente ao chão, com força e por cima de um ombro. Olhou em volta, atordoado. Aterrissara no meio de uma vitrine de capacetes do Homem de Ferro: vermelho, dourado, branco, alguns com barbatanas, outros com armas extras. Quando levantou o olhar, Tony vinha em sua direção como um Zeus, olhando para ele do Olimpo. – Peter – disse ele. – Que tipo de engenheiro eu seria se eu lhe desse um traje tão poderoso quanto o seu sem construir uma proteção? Para garantir que não fosse usado contra mim, seu criador? Aranha se esforçava para respirar. – Escute – continuou Tony. – Você não precisa fazer isso. Não precisa fugir. Você já é registrado; a parte mais difícil já foi feita. Estou disposto a esquecer desse pequeno ataque de raiva. Homem-Aranha respirou, depois falou cinco palavras. Mas ele as disse baixo demais para serem ouvidas. – O que foi? – Eu disse… Senha: Tudo Que Uma Aranha Pode. Homem-Aranha saltou para o lado dele, quase rápido demais para ser visto. Levantou um braço e disparou teia no rosto de Tony, bloqueando suas lentes. – Que tipo de gênio da ciência eu seria se não percebesse isso e anulasse a sua senha… chefe? Mais uma vez, Aranha usou os dois punhos para socar um Tony surpreso. Um golpe mortal, do tipo que nunca usaria em um adversário comum. Mas este, percebeu ele com raiva, é um dos homens mais poderosos da terra. Em vários aspectos. Tony caiu para trás, tentando arrancar a teia de seu capacete. Estendeu os braços e acionou os dois repulsores, que dispararam. Homem-Aranha lançou sua teia e desviou, escapou pela parede, passando por uma prateleira de equipamentos sobressalentes. Indo em direção à rampa que levava à saída de emergência. Então, a porta interna se abriu com uma explosão. Homem-Aranha virou-se para olhar, momentaneamente surpreso. Um pelotão de tropas de choque da S.H.I.E.L.D., com armaduras que cobriam o corpo inteiro, invadiu a oficina, seus rostos escondidos atrás de visores opacos à prova de balas. O líder virou a cabeça para Tony, que lutava para se levantar, lentamente queimando a teia em seu rosto com um raio repulsor de baixa capacidade. Homem-Aranha saltou para a rampa que o levaria para a liberdade. O líder do pelotão da S.H.I.E.L.D. apontou para ele e gritou: – Abaixe, Sr. Stark! Nós o pegamos! Vários disparos abafaram a resposta de Tony. Homem-Aranha não teve tempo de desviar; as balas atingiram-no. Seu traje impedia que alcançassem a sua pele, mas os projéteis ricocheteavam em seus braços e pernas, torso, deixando-o sem fôlego. Deu um salto no ar, girou e disparou teias das duas mãos aleatoriamente. E então, Aranha correu pela rampa, saltando e quicando pelas paredes do corredor. As balas continuavam a atingir suas costas e suas pernas, fazendo com que perdesse o equilíbrio, abrindo pequenos buracos em seu traje. Cada junta, cada músculo, cada milímetro de sua pele latejava. Ele tropeçou uma vez e bateu dolorosamente com o ombro na parede. Mas continuou se movendo. Era a única forma de sobreviver. Lentamente, sua consciência recuou, deixando apenas o instinto. Ele escutou a voz metálica do Tony Stark gritar como se estivesse muito distante: – Parem! Cessar fogo! Em seguida, ele chegou a um enorme alçapão que Tony havia deixado entreaberto quando chegou. Homem-Aranha empurrou a porta para abri-la e lançou-se para fora. O ar gelado da noite soprou sobre ele, acordando-o com o choque. Planou no ar por um instante, depois grudou na parede externa do prédio. Respirou fundo, deixando os sons da cidade tomarem conta dele. Lá dentro, passos ecoavam na rampa. Aranha fechou o alçapão e o selou com suas teias. Depois, começou a descer pela lateral do edifício, em direção à distante cidade abaixo. Encontre algum bueiro, disse para si mesmo. Fique consciente até lá. Se conseguir chegar aos canos de esgoto, estará a salvo. Mas ele sabia, bem no fundo, que estava se enganando. Peter nunca mais estaria seguro.

TONY Stark levantou as duas mãos e disparou raios repulsores no alçapão para abri-lo. Parafusos racharam e teias de aranha voaram pelos ares. A porta explodiu e abriu. Ficando pendurada por apenas uma dobradiça. Tony colocou a cabeça para fora, olhou para baixo. Alguma coisa parecia estar escalando parede abaixo, ziguezagueando de um lado para o outro em fuga, aproximando-se da calçada lá embaixo. As luzes dos postes refletiram na metálica forma inumana. Só então Tony reconheceu que era Peter. O que eu fiz com ele? Tony se perguntou. O que eu fiz com todos eles? Acionou um comando mental: AUMENTAR IMAGEM. A armadura dele hesitou – não mais do que um microssegundo, mas o suficiente para deixá-lo inquieto. Então o zoom de sua visão se centralizou automaticamente no Homem-Aranha. A máscara do escalador de paredes estava rasgada, seu traje de malha de metal, amassado; sangue pingava de seu queixo. Ele pulou no chão sem equilíbrio, abaixou-se e correu até um bueiro. Tony se preparou para saltar, acionou um comando de aquecimento para suas botas. Uma dúzia de alertas piscou na frente de seus olhos: EFICIÊNCIA DAS BOTAS: 56%. INTEGRIDADE DA ARMADURA COMPROMETIDA. SISTEMA DE VISÃO 72%. SISTEMAS MOTORES/ARTICULARES COMPROMETIDOS POR LÍQUIDO ESTRANHO. A teia do Homem-Aranha. Ela havia se espalhado por toda a armadura, grudando em todos os sistemas mecânicos. Tony xingou baixinho. Eu devia ter reprojetado a maldita teia quando construí o resto do traje. Teria que trocar de armadura antes de ir atrás de Peter. Se ainda houvesse alguma intacta na oficina. Ele se virou e se arrastou rampa abaixo. Havia poeira para todo lado e o cheiro de pólvora das balas disparadas era mais forte do que o odor das peças eletrônicas queimadas. A oficina estava um desastre. Computadores estilhaçados, armaduras do Homem de Ferro quebradas, bancadas de trabalho e fontes de força rachadas e amassadas. Centenas de milhares de dólares de prejuízo, pensou Tony. Talvez milhões. Maria Hill estava falando com o líder do pelotão da S.H.I.E.L.D. Estava vestida com um macacão preto e justo, armadura e óculos escuros, mas nenhum capacete. Ela se virou para Tony, a boca mostrando desdém. – Então. Seu inseto de estimação abandonou a colmeia. – Aracnídeo – corrigiu Tony. – O quê? – Ele não é um inseto, e sim um aracnídeo. Nada. Deixa pra lá – Tony foi até um armário cheio de buracos de bala. – Eu vou atrás dele. Supondo que seus homens não destruíram todo o meu equipamento. – Perdão por tentar salvar sua vida. Ele se abaixou para colocar a mão no cadeado de um armário e cambaleou. Quase caiu. – Acho que você não vai a lugar nenhum – declarou Hill. – Sargento? Um agente musculoso da S.H.I.E.L.D. abaixou-se para segurá-lo. Tony o empurrou, furioso. – Eu estou bem. – Acho que seu joelho está quebrado. Ou coisa pior. Ela estava certa, ele sabia. A armadura o estava mantendo de pé, evitando que ele se desse conta da extensão dos danos. Homem-Aranha tinha a reputação de ser um dos superhumanos mais poderosos da Terra; foi um dos motivos que levou Tony a recrutá-lo. Agora ele tinha a prova em primeira mão. Hill tocou em um botão de comunicação em seu ombro. – Diretora Hill, autorização alfa – disse ela. – Ativar Projeto Thunderbolt. – Não – contrapôs Tony. – Operativos Quatro e Seis. Enviando coordenadas agora. Alvo: Homem-Aranha. – Não! Isso está… – Ele cambaleou e se jogou em uma cadeira. – Com todo o respeito, Stark: isso não está sob o seu controle – Hill se aproximou dele, o lábio curvado com desprezo. – E você não comanda a S.H.I.E.L.D. Isso é decisão minha. Tony desmoronou, derrotado. Levantou o capacete, fitou-a com os olhos descobertos. – Não machuque o Homem-Aranha. – Não se preocupe, não vou colocar outra morte na sua consciência sensível. Se eu puder evitar. – Você não vai colocar outra morte na nossa consciência – ele ficou de pé e a encarou. – O movimento pró-Registro não precisa desse tipo de publicidade. – Sinto muito se o seu pequeno aracnídeo o decepcionou, Stark. É uma merda tentar ser mentor de alguém. Ela estalou os dedos. Um agente da S.H.I.E.L.D. apareceu do seu lado, trazendo um dispositivo de comunicação com um fio USB pendurado. – Agora. Vamos assistir ao show? Ainda deve haver uma tela de vídeo funcionando nessa bagunça. Cinco minutos depois, a poeira tinha se assentado e os escombros de uma parte da oficina haviam sido retirados. Os projetores de holograma estavam destruídos, mas um agente da S.H.I.E.L.D. continuava tentando sintonizar uma imagem embaçada em uma tela plana. Outro agente havia colocado cadeiras dobráveis em volta da tela. Tony estava sentado, usando bermuda e camiseta enquanto um médico da S.H.I.E.L.D. enfaixava seu joelho. O agente levantou o olhar da tela plana. – Conseguimos. Hill tocou no comunicador em seu ombro. – Esse é um teste de apenas sessenta minutos – informou ela. – Modo invisível essencial. Operação Thunderbolt ainda é confidencial. Todas as nano sanções estão em vigor? – Estão sim, Diretora. – Sinal de localização ativo. Na tela, um mapa apareceu, mostrando o labirinto sinuoso que era o sistema de esgoto subterrâneo de Manhattan. Dois sinais com um 4 e um 6 em cima se moviam rapidamente pelos túneis. – Os T-bolts estão desorientados – informou o agente –, o Homem-Aranha desativou o rastreador GPS do traje dele – disse arriscando um palpite. Um sinal vermelho e dourado começou a piscar, mostrando a localização aproximada do Homem-Aranha, a muitas curvas e voltas à frente dos outros sinais. Hill sorriu. – Eu sabia que não podíamos confiar naquele cara. – Não precisa ficar tão feliz – Tony fitou-a, furioso. Não preciso lembrá-la o que são os Thunderbolts, Hill. Supervilões. – Ex-supervilões. Que foram devidamente registrados junto ao governo e treinados em um curso intensivo. Eles receberam chips, etiquetas e injeções com nanomáquinas que nos permitem controlar totalmente seu comportamento. Tony franziu a testa. – Como cachorros. – Cachorros selvagens – ela apontou para a tela, para o ponto que se movia indicando a posição do Homem-Aranha. – E não vejo muita diferença entre eles e ele. Não, pensou Tony. Você não faria isso. A tela mudou para uma imagem de vídeo trêmula do interior do cano de esgoto. Iluminação artificial escura e velhas lâmpadas incandescentes tinham sido colocadas em cada metro das paredes. Paredes acentuadamente curvas passavam conforme a câmera se movia; água respingava do chão. – Ambos os operativos têm câmeras em seus uniformes – explicou Hill. – Esta é a câmera do Operativo Seis. Agente, nos forneça o dossiê sobre ele. Uma imagem parada apareceu no canto da tela: uma figura assustadora usando uma malha de metal e elástico, com uma cabeça de abóbora em chamas e um sorriso amedrontador. Escrito embaixo: Assunto: Steven Mark Levins Apelido: Halloween Grupos aos quais é afiliado: nenhum Poderes: armadura, visão 360 graus, dispara granadas do pulso Tipo de poder: artificial Localização atual: Nova York, NY No vídeo principal, o cano de esgoto se abria em um túnel longo e reto. Bem à frente e distante, algo fazia a água respingar. – Operativo Seis? – chamou Hill. – Na escuta, gostosa – a voz de Halloween era baixa, cruel e nem um pouco sem fôlego depois de sua longa jornada pelo esgoto. – Acho que conseguimos pegar ele. – Câmbio, Thunderbolts. Você está liberado para agir. Tony ficou tenso. Inclinou-se para frente, fitando a tela. A câmera virou para a direita, e uma segunda pessoa apareceu. Um homem magro usando botas roxas e um gorro pontudo, com máscara azul e dentes afiados e pontiagudos. – Operativo Quatro – Hill sinalizou para o agente, e outro perfil apareceu no canto da tela. Assunto: Jody Putt Apelido: Polichinelo Grupos aos quais é afiliado: nenhum Poderes: vários brinquedos e dispositivos de “brincadeira” (potencialmente letais) Tipo de poder: artificial Localização atual: Nova York, NY Polichinelo virou para a câmera e sorriu. – Olhem o que eu tenho – dentro de uma bolsa, ele pegou uma pequena boneca de plástico com uma expressão comicamente furiosa no rosto. Girou sua manivela uma, duas, três vezes e colocou-a na água. O brinquedo disparou pelo túnel em pequenos foguetes, deslizando pela água do esgoto. – Mudar para câmera do Polichinelo – ordenou Hill. A imagem mudou para o ponto de vista de Halloween, agachado e perigoso em cima de um disco voador, flutuando pouco acima da água. Ele esticou a mão e agarrou Polichinelo, fazendo-o embarcar no disco, e juntos ele aceleraram pelo túnel de esgoto atrás da boneca de corda. A câmera do Polichinelo seguiu em frente. A imagem do Homem-Aranha entrou em seu campo de visão, freneticamente abrindo caminho e fazendo respingar água suja enquanto tentava se afastar deles. O traje dele estava rasgado, os tentáculos pendiam inúteis. Parte do rosto dele estava exposta através dos rasgos do que restava de sua máscara. O brinquedo apareceu, indo em direção ao Homem-Aranha. Ele se virou, assustado. – Que… Então o brinquedo explodiu. Uma grande bola de fogo encheu a tela. Tony virou-se para Hill. – Você disse que eles não iam matá-lo! – Você acha que isso conseguiria matá-lo? – ela revirou os olhos. – De volta ao Operativo Seis. Na tela, a poeira baixou lentamente. Homem-Aranha estava sentado na água imunda, tossindo. Em cima dele, o corpo alto do Polichinelo o encarava fixamente. – Bem, se não é o pequeno Peter Homem-Aranha – Polichinelo riu. – Como é estar do outro lado da lei, Parker? Está gostando de ver o Polichinelo com o distintivo de xerife? A imagem tremia conforme Halloween rodeava o Homem-Aranha de cima. – Precisa ver com quem a gente tá andando agora, Peter. Com o Mercenário, Venom, Lady Letal… eu e o Polichinelo finalmente entramos no grupo dos maiores vilões. – E somos registrados também. Homem-Aranha balançou a cabeça, se esforçando para focar nos vilões que o cercavam. – Oh, baby – Polichinelo pegou um ioiô e arremessou no Homem-Aranha. – Isso é terrível demais pra colocar em palavras. O ioiô bateu no peito do Homem-Aranha, explodindo como uma pequena granada. Ele gritou, caiu para trás direto na água. Halloween se moveu rapidamente. Suas mãos entraram na imagem agarrando o HomemAranha, jogando-o na parede do túnel. – Sabe – murmurou ele – essa história de trabalhar pra S.H.I.E.L.D. no começo pareceu um tremenda furada… aí, então, veio ordens de cima pra acabar com o Homem-Aranha – ele esticou o braço e bateu com força na cabeça de Peter. – O que fazer, né? – Só estamos obedecendo a ordens – completou Polichinelo. Polichinelo esticou a mão e arrancou mais um pedaço da máscara do Homem-Aranha. Foi possível ver um dos olhos claramente, roxo e inchado, quase fechado. A cabeça do HomemAranha caiu para o lado, imóvel. – Hill – disse Tony. Ela franziu a testa e tocou no comunicador em seu ombro. – Ele já foi abatido, Thunderbolts. Deixem-no aí e esperem o pessoal da limpeza. – Ah, S.H.I.E.L.D.… – Encoste um dedo nele, Halloween, e eu disparo cinco mil volts em você. Você sabe que não estou blefando. Na tela, os dedos do Halloween soltaram o pescoço do Homem-Aranha, que caiu no chão do túnel, respingando água para todos os lados. – Equipe de apoio da S.H.I.E.L.D. está a caminho. Algemem-no e esperem quietinhos. Tony inspirou aliviado. A tela mudou para a câmera do Polichinelo. Ele se virou para Halloween, cuja cabeça de abóbora em chamas enchia a tela. – Estraga-prazeres – reclamou. Então, a cabeça do Halloween explodiu, estilhaçando-se em pedacinhos de cérebro e abóbora. O grito mortal do vilão ressoou, agudo e filtrado pelo sistema de comunicação. – Mas que diabo! – gritou Polichinelo. A câmera dele virava para todos os lados, procurando pelas paredes do túnel. – S.H.I.E.L.D.? S.H.I.E.L.D.? Está escutando? Tem mais alguém aqui… Outro tiro ecoou ensurdecedor no espaço fechado. A câmera do Polichinelo balançou, oscilou e caiu virada para cima, mostrando o teto do túnel. A imagem tremeu um pouco, depois ficou imóvel. – Ele foi abatido também – o agente da S.H.I.E.L.D. trabalhava freneticamente em seu laptop. – A câmera do Halloween não está mais transmitindo. Ainda temos a do Polichinelo… Na tela, apareceu uma pesada bota preta, obscurecendo o teto do túnel. Fez uma parada quase dramática, depois pisou com força. A tela ficou estática. Hill ficou de pé em um pulo. – Consigam uma imagem. Qualquer imagem! O agente digitava em seu teclado, soltando o ar entre os dentes cerrados. Olhou para ela e abriu os braços, impotente. Hill deu um soco na mesa. – Que diabos aconteceu aqui? – A transmissão foi cortada, Diretora. Estamos surdos e cegos. – Droga – ela tocou novamente no comunicador de ombro. – Todas as unidades S.H.I.E.L.D. nos arredores da Fourth Street com Broadway. Desçam imediatamente para o subsolo, para os canos de esgoto na coordenada 24-J. Patrulhem todas as ruas em um raio de cinco quadras; reportem qualquer coisa ou qualquer pessoa tentando sair por algum bueiro ou outra saída do subsolo. É possível que uma operação da Resistência esteja em andamento ou… – Diretora em Exercício Hill. Contorcido de dor, Tony se moveu para entrar na frente. Ela franziu a testa, mas parou. – Não estou nem um pouco impressionado com seus métodos – afirmou ele. – Você fracassou em capturar sua presa e perdeu dois agentes de seu programa piloto na primeira missão deles. Ela franziu a testa. – Como se fosse uma grande perda. – Entretanto, eu pedi que me deixasse lidar com a situação e você negou. – Você mal consegue andar. E você foi o principal causador desse problema. Quem mandou convidar o Homem-Aranha, famoso por ser um solitário com tendências antiautoritaristas, para o seu círculo de amizades? Tony ficou parado por um momento, fervilhando por dentro. Olhou em volta para as ruínas do seu trabalho, para os equipamentos destruídos. Para os vários capacetes do Homem de Ferro, amassados e furados por balas da S.H.I.E.L.D. – Saia da minha propriedade – ordenou ele. Ela o fitou com raiva, depois sinalizou para os agentes da S.H.I.E.L.D. Eles começaram a guardar suas armas, equipamentos e fechar suas mochilas. Eficientes como sempre, pensou Tony. Militares até o fim. – Rápido, pessoal. Temos que pegar uma aranha! – Vocês não vão conseguir pegá-lo – avisou Tony. – Pensamento positivo, Stark? – Hill virou-se e lançou-lhe um último olhar cheio de fúria. – Nós vamos pegá-lo. Então, a S.H.I.E.L.D. foi embora. Tony ficou ali, parado, por um bom tempo. Testou seu joelho, tentou colocar o peso sobre ele. Sentiu uma pontada, mas conseguiu andar. Isso era o suficiente. Precisou experimentar três celulares até encontrar um que funcionasse. – Pepper, preciso de uma equipe de limpeza – olhou em volta para a destruição. – E veja se consegue colocar o presidente dos Estados Unidos na linha, por favor.

Um cheiro de tinta fresca subiu da carteira de motorista novinha em folha. Capitão América entregou-a para Sue Richards. – Bárbara Landau – informou ele. – Ryan Landau – Johnny Storm estava olhando para sua carteira de motorista. – Nós seremos casados? Capitão América ergueu o olhar da mesa de reunião cheia de papéis. Luzes fluorescentes piscavam, pintando o grupo com tonalidades desbotadas e desfavoráveis. – Estamos com poucas identidades falsas para disfarce – explicou ele. – Com o Demolidor preso, nossa fonte secou. – Casados – Sue olhou para o irmão. – Acho que essa é a coisa mais nojenta que já fizemos. – Como acha que estou em sentindo, mana? Você parece avó da minha última namorada. Capitão suspirou. A mudança para o novo quartel-general tinha sido difícil; transportar os equipamentos médicos e de monitoramento de um lado da cidade ao outro parecera impossível, até Sue aparecer. A invisibilidade dela os salvou da prisão diversas vezes. Mas Capitão sabia que a Resistência ainda não estava segura. Não conseguia se esquecer do aviso de despedida do Gavião Arqueiro, sobre um traidor no grupo. E ele próprio ainda estava devagar por causa de seus ferimentos. Seu braço esquerdo ainda estava em uma tipoia; sentia uma pontada toda vez que o levantava. Vá com calma, dizia pra si mesmo. Lembre-se do que fala para os outros: um passo de cada vez. Um tijolo de cada vez. Tigresa entrou, franzindo a testa. – Nada de identidade falsa pra mim? – Já discutimos isso, Tigresa – ele apontou para o corpo dela coberto dos pés à cabeça por pelos laranja e exibindo apenas um biquíni. – Você não é exatamente discreta. – Oh, sim – Johnny sorriu. – Deve ser duro ser gostosa que nem você. Tigresa ronronou e roçou as costas no ombro de Johnny. Virou-se e lançou-lhe um sorriso provocante. Sue revirou os olhos. – Foi mal, Sra. Landau – desculpou-se Johnny. – Eu costumava passar por uma pessoa normal o tempo todo – contou Tigresa. – Só precisava de um indutor de imagem. – Que é uma tecnologia da Stark Enterprises – explicou Capitão. – E não podemos ter nada disso aqui; Tony provavelmente mandou colocar rastreadores em tudo que fabricou nos últimos dez anos. – Voltou sua atenção para Sue e Johnny. – Quanto a vocês dois, o mais importante: essas identidades permitem que saiam em público de novo. Assim podem ajudar as pessoas. Que é o nosso objetivo, certo? Tigresa sorriu de novo e virou para Johnny. – Ele é sempre tão certinho – comentou ela, apontando para Capitão. – Não tem a menor graça discutir com ele. Luke Cage entrou com passos largos. – E aí, Capitão. Gostou do novo ninho? – Vai servir. Simples, mas isso é uma vantagem – Capitão se levantou e abraçou Cage com um braço só. – O que esse lugar era mesmo? – Corporação de Especialistas em Emprego para Afro-Americanos. Ajudava trabalhadores negros a competir em um mundo de brancos. Foi vítima da economia e o prédio está vazio há mais de um ano. – Nada de ajuda pros operários negros, comentou Falcão. Cage assentiu. – Mmmm-hm. Um a um, eles foram chegando e se sentando em volta da grande mesa. Cage, Falcão, Tigresa. Adaga, Fóton, Arraia em seu brilhante traje vermelho e branco. Sue e Johnny, Patriota e Célere. A Resistência. – Ok, vamos ao que interessa – Capitão olhou para sua agenda escrita à mão. – Alguém foi capturado? Fóton chegara relativamente há pouco tempo, uma mulher afro-americana com poderes baseados na luz. – Falcão Noturno e Valquíria – informou ela –, capturados no Queens. O que reduz nossa força aérea ao Falcão e eu. Arraia abriu as asas. – Esqueceram de mim – disse ele. Falcão franziu a testa. – Planar não é voar, cara. Não precisa se preocupar, Capitão. A gente consegue. – Malditas unidades da S.H.I.E.L.D. – Capitão fechou a mão ferida e sentiu uma pontada no braço. – Pra cada homem que ganhamos nos últimos dias, perdemos um. – E todos eles estão naquela prisão. – Talvez possamos fazer alguma coisa a respeito – avaliou Capitão. – Alguém sabe como andam os planos de transferência de prisioneiros para eles? Sue limpou a garganta. – Tony e Reed estão ativando portais pra Zona Negativa nas principais penitenciárias do país, incluindo a Rykers. Mas nenhum deles está funcionando ainda. Até agora, todos estão sendo transferidos através do Edifício Baxter. – Edifício Baxter – Capitão levantou uma sobrancelha. – Sue, consegue nos colocar lá dentro? – Normalmente sim. Mas… tenho certeza de que Reed já mudou os códigos de segurança. Talvez eu até atrapalhe… os computadores vão detectar a minha presença imediatamente. – Tudo bem. Tenho outra missão urgente pra você. Capitão virou-se para Johnny, que balançou a cabeça. – Nem olhe pra mim. Se Susie não consegue entrar, muito menos eu. Reed vem tentando descobrir como anular os meus poderes desde… desde antes de eu ter poderes. – Droga. Temos uma oportunidade aqui – Capitão passou os olhos pelo grupo. – Se conseguirmos fechar o portal do Edifício Baxter, eles não terão pra onde mandar nossos companheiros. Daqui a uma semana, isso não será mais problema pra eles. Temos que atacar logo. – Corte a corda – opinou Cage –, e os planos vão começar a se desenrolar. – Se tivermos sorte. – O que a gente precisa é recuperar nossos homens – afirmou Falcão. – Pra essa luta ficar justa de novo. – Como eles chamam o lugar? – quis saber Patriota. – Número 42? – Ninguém sabe por quê. – Conhecendo Tony Stark, provavelmente tem a ver com o pai dele… Todos escutaram ao mesmo tempo: passos pesados no corredor externo. Todos os onze membros da Resistência ficaram de pé imediatamente, se viraram para a porta… … e viram o Justiceiro, iluminado de preto e branco pelas luzes. Água imunda pingava dele; cheirava a lixo. Nos braços, carregava um corpo lânguido e ensanguentado, o traje rasgado em uns cem lugares. Homem-Aranha. – Preciso de um médico – gritou Justiceiro. – AGORA! A enfermaria tinha sido adaptada apressadamente em uma área de escritórios, macas e aparelhos de diagnósticos comprimidos onde antes havia cubículos. Dois médicos colocaram o Homem-Aranha em uma cama, lançando olhares desconfiados para o Justiceiro. – Não é muito pesado – comentou o primeiro médico. – Tente carregá-lo por cinco quilômetros – reclamou Justiceiro. Capitão e os outros permaneceram afastados, deixando espaço livre para os médicos trabalharem. Os olhos do Capitão grudados no Justiceiro. – O que aconteceu? – perguntou Capitão. – Múltiplas fraturas e grave hemorragia – respondeu Justiceiro. – Quero dizer… – Tony Stark e seus comparsas. Acho que tinha algum tipo de alucinógeno na bomba que usaram para atacá-lo. – E você o salvou – Capitão cruzou a sala até o Justiceiro, confrontando-o diretamente. – O que aconteceu com os agressores? O Justiceiro deu de ombros. Os médicos levantaram o olhar do corpo lânguido do Homem-Aranha. – Esse traje está grudado à pele dele em alguns lugares. – Tirem cada centímetro e queimem – ordenou Capitão. – Foi feito pelo Stark. Pode estar sendo rastreado neste momento. – Sabem – começou Tigresa. – Isso pode ser uma armadilha. Justiceiro riu. – Você acha que eu estou trabalhando pro Tony Stark? – Não estou entendendo nada – Célere balançou a cabeça. – Todos vocês viram a coletiva de imprensa. Homem-Aranha parecia ser o maior puxa-saco do Homem de Ferro. – Talvez ele fosse, garoto – opinou Justiceiro. – Mas está do nosso lado agora. – Nosso lado? – Falc… – Não, não, Capitão, me dê um minuto – Falcão passou pelo Capitão América, apontando o dedo para o emblema de caveira no peito do Justiceiro. – Você é um assassino procurado, Justiceiro. Você matou mais gente do que a maioria dos vilões com quem lutamos. Desde quando você está do nosso lado? Justiceiro o encarou. – Desde quando o outro lado começou a alistar supervilões. Tigresa abriu um sorriso sombrio. – Eu sou a única que vejo a ironia disso? – Na minha opinião – continuou Justiceiro –, vocês precisam do máximo de apoio que conseguirem. – Ótimo – disse Johnny Storm. – Por que não chamamos Hannibal Lecter e vemos se ele está disponível também? – Porque Hannibal Lecter não tem treinamento em operações secretas para colocar vocês dentro do Edifício Baxter. Falcão o encarou. – Você pode fazer isso? – Eu cheguei aqui. Falcão abriu a boca para começar a responder. Mas parou conforme absorvia as implicações. Sue Richards olhou em volta. – Por favor, me digam que esse grupo não chegou ao ponto de aceitar o Justiceiro. Na maca onde os médicos trabalhavam, Homem-Aranha soltou um leve gemido. Cage se virou para o Capitão. – Você decide, chefe. A gente entrega o caveira aqui pra polícia ou escuta o lado dele da história? Capitão se afastou, franzindo a testa. Já enfrentara o Justiceiro uma vez; fora uma das lutas mais difíceis de sua vida. Ele poderia ser um aliado formidável, para qualquer um dos lados. Na maca, Homem-Aranha continuava fraco e cheio de dor. Lutando pela própria vida. O Capitão se deu conta de que estava em uma sinuca de bico. Qualquer que fosse a sua escolha, qualquer caminho que tomasse, algo de terrível iria acontecer. Podia sentir isso nos seus ossos endurecidos pela guerra. E todos eles dependem de mim. Para liderá-los; para ajudá-los a dar novamente um significado às suas vidas. Para tornar essa Resistência esfarrapada em uma força permanente de uma vez por todas. Um passo de cada vez. Um tijolo de cada vez. Virou-se para encarar Justiceiro novamente. – Fale – mandou Capitão.


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