UM JEITO MELHOR
O britânico Paul Cornell é escritor de ficção científica e fantasia em romances, quadrinhos e TV; é um dos
dois únicos autores a serem indicados para o Hugo pelos três meios. Tem dois romances de fantasia urbana
lançados, London Fall e sua sequência, The Severed Streets. Já fez roteiros de Doctor Who para a BBC
e de Batman e Robin para a DC Comics — atualmente é o autor de Wolverine para a Marvel Comics.
Teve contos publicados na Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine, na Interzone e em várias
antologias.
O conto que se segue, de ritmo ágil e um pouco estranho, é parte de uma série de histórias que Paul
Cornell tem escrito sobre o espião Jonathan Hamilton no Grande Jogo entre nações em uma Europa do
século XIX onde a tecnologia seguiu um caminho muito diferente do da nossa linha temporal, explorando a
habilidade de abrir e manipular dobras multidimensionais no espaço — histórias como O prisioneiro de
Zenda escrito por Charles Stross, enquanto Hamilton luta para impedir desastres de forma divertida e
extravagante, lembrando as aventuras de James Bond ou, mais ainda, de Dominic Flandry, criação de Poul
Anderson, que poderia ser seu ancestral.
Nesta aventura, Hamilton se encontra preso em uma luta de vida ou morte com alguém tão perigoso e
esperto quanto ele — ele mesmo.
Cliveden é uma das mais impressionantes casas da Grã-Bretanha. Fica às margens do
Tâmisa, em Buckinghamshire, no fim de uma daquelas grandes avenidas que casas como essa
guardavam e que faziam as carruagens subirem por elas, na época em que as carruagens eram
o veículo de transporte mais utilizado. Em meio às vastas florestas, uma árvore Grand
Charles das colônias americanas havia sido cultivada e moldada no formato de uma casa de
hóspedes. A passarela feita com madeira de teixo leva até um ancoradouro que exibe, pintadas
em sua rampa, marcas datadas e decrescentes que indicam a altura até onde a água já havia
subido no ápice da estação das cheias. A rampa já havia sido estendida duas vezes para
chegar até o rio. De dentro da casa, é possível observar por sobre o jardim num arco de 180
graus e enxergar um horizonte que, antigamente, era composto por pradarias que costumavam
ficar inundadas, mas que hoje são campos cultivados. A vista da outra metade do mundo é o
que alguém esperaria encontrar em uma propriedade de caça. Há uma colina íngreme e plana,
mantida vazia para exibir os alvos contra o horizonte, com árvores de ambos os lados, lugares
para onde os animais podem fugir. Há bases para as pessoas que espantam os animais de seus
esconderijos. Há uma sacada com vista para o jardim, de onde as pessoas podem jogar mimos
para quem está abaixo e fazer novas amizades. Em certas épocas do ano é possível ouvir o
ruído das armas sendo disparadas, o chamado dos cães de caça e os gritos daqueles que
perseguem suas presas, sem se deixar deter por cercas ou fossos. As valetas que cercam o
pátio principal foram construídas para recolher o sangue.
Hamilton várias vezes trabalhava à paisana, e por isso conhecia as grandes propriedades.
Eram os lugares onde a realeza se arriscava a ter uma vida social fora dos seus palácios, mas
ainda assim exigiam que houvesse olhos atentos ao seu lado. Eram os lugares para onde os
indivíduos que haviam perdido muito de suas almas no grande jogo, a ponto de terem que
mudar de lado, eram levados. Casas como essa eram os lugares onde esses infelizes podiam
entrar para se livrarem dos fardos que os oprimiam, onde suas palavras ajudariam a
restabelecer o equilíbrio que suas ações haviam perturbado. Casas como essa também eram
lugares onde oficiais como ele eram entrevistados após serem feridos ou depois de uma
missão fracassada. E finalmente, sempre finalmente, eram lugares de onde pessoas como ele,
às vezes, não retornavam. Eram o indicador que classificava a vida de um militar em Londres
e quase metade da sua vida no exterior, a margem na qual as anotações condenatórias eram
feitas. Casas como essa eram a manifestação física de como essas coisas sempre foram feitas,
e suas plantas-baixas eram um lema típico da nobreza no interior da Inglaterra. Palavras que
podiam ser lidas mesmo que o seu rosto estivesse enfiado na lama. Especialmente em
momentos assim. Nas circunstâncias em que Hamilton se encontrava agora, a ideia o
reconfortava. Mesmo assim, ainda não estava pronto para morrer.
Ele encontrou o convite sobre a mesa do desjejum: o nome da propriedade e uma data, que
era aquele mesmo dia. A caligrafia era no novo estilo, o que significava que nenhuma mão
chegara perto do papel, que ela havia sido ditada ao cartão como se pela voz de Deus.
Hamilton não conseguiu identificar nada baseado na letra. Exceto o fato de que a convicção
desse gesto indicava que, apesar de tudo, aqueles que tinham poder sobre ele ainda não
duvidavam de quem eram e do que podiam fazer.
Pegou o convite sem a expectativa que talvez sentisse antes, apenas com uma sensação
inconveniente e resignada de pavor. Essa era a resposta a uma pergunta que não havia
expressado em palavras. Começou a sentir uma raiva mais profunda — um sentimento sem
nome, inútil — do que qualquer sensação que já havia sentido antes. Sabia o que lhe era
devido, mas estava cada vez mais convencido de que não receberia nada. O fato de que tinha
algo a receber seria visto como um gesto impertinente da sua parte, um fardo para aqueles que
haviam investido em outras áreas. Tinha somente um pedido a fazer, decidiu, olhando para o
cartão entre os dedos entorpecidos: pediria que fosse mandado para contribuir para alguma
causa perdida. Mas talvez essas situações pudessem ser encontradas apenas nas regiões dos
bloqueios, e, se eles não o quisessem por perto, com certeza não iriam permitir que Hamilton
assumisse uma posição por lá. Mesmo assim, decidiu confiar naquela ideia enquanto se vestia
adequadamente e fazia as malas para ir para o campo. Entretanto, mesmo essa esperança
começou a se parecer com um ato de traição e covardia. Um homem condenado não deve
pedir nada ao carrasco. Seria como se ele começasse a implorar.
Ainda assim, a esperança permaneceu com ele. Brincava com ele. Seu próprio equilíbrio o
traía enquanto se preparava. Um tolo, disse a si mesmo, imaginaria que estava indo a Cliveden
para receber o que lhe era devido. Pelo menos para receber os agradecimentos por tantos anos
de serviço e um adeus cordial. E procurou se certificar de que não tinha esperanças de que
isso acontecesse.
Agora ele a observava, de dentro da carruagem, conforme o veículo balançava enquanto
descia a avenida que levava a Cliveden. Não viu ninguém perto da propriedade, nem um único
operário nos campos. Isso era extraordinário. Normalmente haveria uma enorme quantidade
deles por ali, acenando para qualquer carruagem do alto das suas enormes colheitadeiras,
arados e cavalos de propulsão. Hamilton não fazia ideia de quantos servos eram necessários
para manter uma propriedade como Cliveden, mas o número devia chegar às centenas.
Tradicionalmente, o número seria excessivo; na verdade, “um trabalho para cada homem, e
várias dessas tarefas se resumem a ficar à disposição, caso seja necessário”, como algum
debochado descrevera certa vez. Nas duas ocasiões em que ele vira um oficial morrer em
lugares como esse, o ato ocorreu (num dos casos, como se fosse um acidente; no outro, e isso
era uma cena que ele levaria consigo para o túmulo, como se fosse um suicídio) em algum
lugar distante, longe dos olhos dos trabalhadores. Não era preciso mandar que todos se
afastassem. Mas não, ele se deteve. Com certeza isso era somente uma versão maior do que
havia visto em Keble, não? Hamilton estava criando novos horrores para si mesmo, sem
qualquer nova evidência.
A carruagem parou no final da via de acesso e Hamilton desceu, pisando o cascalho. Seu
joelho se moveu com um espasmo e ele quase caiu. Estava ficando velho. Imaginou se
estariam observando isso, e reprimiu a ideia de que não se importava. Ele se importava, sim.
Devia se importar. Vir até aqui numa carruagem foi um ato perdulário, percebeu, quando
atualmente podia entrar em um túnel que se abria em seus próprios aposentos em Londres. E
ele trouxe uma valise consigo, como se não estivesse disposto a, caso precisasse se vestir de
maneira adequada para o jantar, retornar da mesma maneira. Estava criando afirmações
silenciosas com essas ações. Afirmações que demonstravam sua teimosia. Similares às que
fez, como se tivesse a intenção de pôr um ponto final em seus anos de serviço, naquela noite
em Keble. Dar-se conta disso o irritou mais do que qualquer outra coisa. Apenas idiotas e
criminosos não sabiam o motivo pelo qual faziam as coisas. Parecia que ele não era mais forte
o bastante para afastar aquele destino. Chegar até aqui como alguém que se curvava ao
comando daquelas outras vozes dentro de uma única voz, à dor, ao desejo ou ao egoísmo, por
ter permitido que essas ameaças ao equilíbrio houvessem crescido e se enraizado dentro de
alguém, e perceber isso somente naquele momento, ao cruzar o limiar... era um convite para
que os poderes nessa casa o aniquilassem. E teriam o direito de fazê-lo.
Ele se permitiu sorrir com o alívio que aquela ideia lhe trouxe. Eles teriam o direito de
fazê-lo. Se conseguisse aceitar isso, tudo ficaria bem. Ele havia trazido a valise. Não iria
vacilar e correr para tentar devolvê-la desesperadamente como um novato em pânico. Se de
repente fizesse ou dissesse ou desse a impressão de que qualquer de suas ações não ocorria
por vontade própria, mas que havia surgido da sua outra metade que devia estar sob controle,
então o equilíbrio ainda poderia ser restaurado, mesmo que isso lhe custasse a vida. Não
precisava se preocupar com isso.
Mas um pensamento ainda lhe surgiu na cabeça: aqueles que tinham sua vida nas mãos não
pareciam valorizar tanto o equilíbrio nos dias de hoje, não é?
Tal pensamento era como se uma morte muito maior estivesse à sua espera.
Se o mundo estivesse tentando instigá-lo a derrubar seu próprio castelo de cartas, tal coisa
ocorria porque isso era tudo que as pessoas pareciam estar fazendo agora. Ele estava
hesitando em seu propósito, realmente hesitando. Havia encarado sua vida como se fosse um
castelo de cartas.
Talvez o mundo estivesse morrendo também.
Talvez todas as pessoas da sua idade se sentissem assim.
Mas será que alguém chegava a ter essa sensação em circunstâncias como essa?
A carruagem finalmente foi embora. Ele se forçou a dar um passo à frente, observando a
valise que estava presa inescapavelmente em sua mão.
Descobriu que tinha ordens nos olhos. Não devia entrar na casa, mas sim na floresta.
Ele enveredou por uma trilha sinuosa que ia até os limites da floresta. O dia estava nublado,
mas as sombras que vinham do interior da floresta estavam inclinadas em ângulos
impossíveis, como se houvesse alguém ali dentro iluminando um palco.
Adentrou a floresta.
A trilha o fez passar diante de árvores derrubadas, cortadas há pouco tempo por um
lenhador que agora estava ausente. Parou para escutar os sons da natureza. Mas não havia
nenhuma serra, nenhum eco distante de metal contra a madeira, nada de grandes máquinas. Era
estranho que o efeito pudesse ser tão abrangente.
Chegou à borda de uma clareira. Era dali que vinha aquela luz estranha. Parecia ser verão
nesse lugar, porque a luz vinha de cima. O ar estava um pouco mais quente. Hamilton manteve
a expressão firme. Caminhou lentamente em direção ao centro e viu árvores que não deveriam
estar ali. Queria seguir as regras de etiqueta, mas isso era difícil quando aqueles a quem ele
precisava se dirigir já haviam abandonado todo o decoro. Era como se houvessem agarrado a
fita da medalha que ele ostentava e depois se jogassem dentro de um poço. Teve vontade de
gritar com eles. Sentiu-se mal por ter vontade de gritar com eles.
Dirigiu-se à mais alta das árvores.
— O senhor mandou me chamar?
Poucas semanas antes, ele havia sido convidado para se encontrar com Turpin em Keble. Seu
oficial superior era um dos convidados do reitor, e ele pediu a Hamilton que o acompanhasse
na Mesa de Honra. Naquele momento, pareceu ser a coisa mais natural do mundo, já que
Keble foi a faculdade onde Hamilton estudou e se formou. Ele foi até Oxford, como de
costume, e deixou que os Porters se ocupassem com o Morgan como de costume. Parou por
alguns momentos diante da capela, pensando em Annie e na terrível falta que ela fazia. Mas
ainda era capaz de olhar para a capela e sentir algum prazer naquilo. E ficou satisfeito com a
própria compostura, também. Naquela época, estava de licença há várias semanas. Devia ter
percebido que o período era estranhamente longo. E antes disso havia sido usado para tarefas
de pouca importância, atribuídas a ele por oficiais de baixo escalão, e nem chegou a receber
permissão para retornar ao pelotão dos dragões de cavalaria que haviam sido destacados para
uma temporada infindável de exercícios na Escócia. Ele devia ter compreendido, antes que
isso lhe fosse revelado, que estava sendo mantido longe de algo importante.
Foi nos aposentos do reitor em Keble que Turpin surgiu pela primeira vez em sua vida,
havia tantos anos, e pela primeira vez perguntou-lhe sobre o que achava de trabalhar sem
envergar o uniforme. Para algumas pessoas, disse ele, o equilíbrio, a ponderação e mudanças
que ocorrem a cada momento em tudo, desde a força militar até a ética pessoal que impediam
que a guerra irrompesse entre grandes nações e suas colônias do outro lado do sistema solar,
eram algo que era sentido, algo corporal. Isso fora um ou dois anos antes de os teólogos
médicos terem conseguido compreender como, na realidade, o equilíbrio estava presente
dentro da própria mente. Naquela época Turpin já era como Hamilton sempre o conheceu, com
um rosto que era uma colcha de retalhos feitos com pedaços de pele artificial após passar por
seu treinamento nas ruelas de Kiev e nas trincheiras imundas do Zimbábue.
Mas, ao entrar nos aposentos do reitor nessa ocasião mais recente, após décadas de
serviço, Hamilton pegou-se batendo continência para um Turpin diferente. Suas feições eram
lisas e todos os traços da sua experiência haviam sido removidos. Cuidadosamente, Hamilton
não reagiu. Turpin não fez nenhum comentário.
— Um grupo interessante esta noite, major — disse ele, indicando aqueles que estavam
reunidos sob o teto do reitor com um movimento de cabeça. Hamilton olhou. E, agora que se
lembrava da ocasião, aquele foi o momento em que seu próprio equilíbrio começou a adernar
perigosamente rumo ao colapso.
Junto dos uniformes de gala, dos trajes elegantes para noite e dos colarinhos clericais,
havia um pequeno cervo.
Não era um animal de estimação exótico. Seu olhar seguia os movimentos de um diálogo e
logo ele estava participando da conversa, com a boca formando palavras de uma maneira
horrivelmente humana. Hamilton olhou de relance para onde um esvoaçar de cortinas
translúcidas conversava com o capelão. Nas proximidades, um pilar giratório feito por... o
que pareciam ser pássaros que caíam sem parar, ou coisas que não eram pássaros, mas
imitações de brasões heráldicos em geral ostentadas pelos Forasteiros cujas forças agora
cercavam o sistema solar. Ele havia imaginado que a queda era o objetivo, em vez de... Ele
queria chamar aquilo de vestido... ser uma celebração da ideia de que os Forasteiros
poderiam se unir e criar seus planos em grandes massas giratórias. O pilar sustentava um
cálice de vinho, e de algum modo era sustentado por todas aquelas formas que caíam ao seu
lado. Essas criaturas eram todas damas, presumiu Hamilton. Ou, pelo menos, esperava que
fossem.
— Só se fala disso no Palácio — disse Turpin. — É tudo relativo a isso, relativo àquilo.
Hamilton não conseguiu encontrar nenhum comentário sensato para fazer. Já havia ouvido
falar sobre tais coisas, obviamente. O bastante para desdenhar delas e depois mudar de
assunto. O fato de que o novo rei houvesse permitido, ou mesmo estimulado, esse tipo de
coisa, para talvez continuar a envergonhar Elizabeth... Ele se recompôs. Estava pensando na
rainha e não podia se permitir sentir-se tão íntimo dela quanto poderia nem pensar sobre seu
marido.
— Não é o tipo de coisa de que você gosta? — perguntou Turpin.
— Não, senhor.
Turpin parou por um momento, considerando, e ofereceu um novo assunto:
— O Bodlean, eu creio, agora é infinito.
— Ótimo.
Turpin indicou o canto do salão com a cabeça.
— E então, o que me diz dele?
Estava indicando um rapaz que conversava com uma bela mulher. A primeira sensação de
Hamilton foi a de que o rapaz lhe era familiar. Então percebeu. E pela primeira vez encontrou
a raiva que não o abandonou desde então. Foi isso que as naves dos Forasteiros derrubadas
haviam trazido até aqui. É claro que nem tudo seria usado para ostentação. Ou então, talvez, a
ostentação houvesse invadido a guerra.
Era como olhar para o filho que ele nunca teve, para o próprio rosto sem tudo que o tempo
havia escrito nele. Por um momento sentiu o fantasma de um pensamento, como se lhe
houvessem arrancado o momento de ver um filho. Esse foi o primeiro de muitos fantasmas.
O cabelo era mais escuro. O corpo era mais esguio, com quadris mais proeminentes do
que os ombros. O garoto não usava um uniforme, mas sim black-tie, então não haviam
conseguido, ou mesmo desejado, colocá-lo no regimento. A jovem com quem o rapaz
conversava o cutucou e ele olhou na direção de Hamilton. Foi o choque de encarar um
espelho. Os olhos eram os mesmos. Ele não sabia qual era a sua expressão naquele instante,
mas sua versão mais jovem abriu um sorriso quando os olhares dos dois se cruzaram. Não
mostrava um mínimo de deferência. E também não era atraente. Porém Hamilton o reconheceu.
Conteve sua irritação, sabendo que esse garoto seria capaz de perceber e identificar suas
reações sem qualquer dificuldade. Hamilton não fazia ideia de como esse tipo de coisa era
possível agora. Essa reunião de pessoas devia ser uma ocasião bastante segura para que os
dois pudessem ser vistos juntos. O garoto esperava que isso acontecesse. Tivera permissão
para isso.
Ele se virou para seu oficial superior com uma sobrancelha erguida.
— Quem é a garota?
Turpin fez uma pausa, embasbacado pelo fato de Hamilton não tecer nenhum comentário
sobre o garoto.
— Seu nome é Nada Preciosa.
— Pais que gostam de desafios?
— Talvez seja um memento mori. Ela está...
— Com o Colégio dos Arautos, sim. — Hamilton viu as cores na estola de seda que ela
usava, um lugar incrível para exibi-las.
— Bem, só por enquanto, na verdade. Ela é uma arauta de alto escalão, mas foi colocada
sob vigilância.
— Por causa dele. — Hamilton achava bastante inquietante a ideia de que uma dos arautos
estivesse ligada a uma criatura tão estranha quanto o garoto. Os arautos decidiam sobre a
procriação, sobre famílias e nações. O Colégio guardava os registros de todas as linhagens
familiares, decidia os detalhes dos brasões e era a autoridade final em qualquer questão que
envolvesse um cerimonial grandioso ou assuntos relativos a heranças. É claro, a cada uma ou
duas semanas alguém ouvia rumores de que o Colégio estava a beira de ser dissolvido ou
denunciado, quando os arautos tentavam e não conseguiam encontrar um novo jeito de
protestar contra os novos modos de se portar. Pareciam ficar continuamente atordoados com o
fato de que Sua Majestade, o rei, estava sendo tão mal assessorado. Uma parte desses
conflitos havia chegado até mesmo aos jornais da manhã. Mas tudo quase sempre desaparecia
quando chegavam as edições vespertinas. Para Hamilton, a ideia de organizações públicas às
turras umas com as outras era como a ideia de um homem dar um soco no próprio rosto. Era
uma blasfêmia física bastante adequada a esta era, uma indicação do ponto aonde as coisas
haviam chegado.
— Você não tem mesmo nada a dizer sobre ele? —perguntou Turpin, interrompendo
aquelas reminiscências.
Hamilton fingiu parar um momento para pensar.
— Como ele se sai no estande de tiro?
— É razoável. Você sempre foi razoável. — Ele não enfatizou a palavra você.
E então o reitor bateu em seu cálice com uma colher, e todos, damas e cavalheiros e a
trompe l’oeil e o pequeno cervo, entraram para o jantar.
Hamilton ficou aliviado ao descobrir que sua versão mais jovem foi até a extremidade mais
distante da mesa de jantar que repousava sobre uma pequena elevação no fundo do salão. Em
qualquer outra circunstância, seria desconfortável estar de volta a esse lugar com o cheiro do
lustra-móveis e as luzes de vela, mas, olhando para as mesas dos estudantes, percebeu que
faltava alguma coisa. Normalmente haveria inúmeros servos andando por entre as fileiras,
trazendo pratos de comida e enchendo copos e cálices. Subitamente, ele viu uma dessas
refeições surgir ao lado de um jovem que falava sem parar, algo que não causou qualquer
surpresa no rapaz. Hamilton estava sentado de frente para Turpin e voltou a olhar para ele.
— Serviços ocultos — disse seu superior. — Acontece em muitos lugares hoje em dia. Os
servos andam por uma dobra infinita, que, em termos práticos, é um mundo opcional vazio à
margem do mundo real. Mais um uso para os novos motores. E bem mais inteligente, como
você tem que admitir.
Hamilton não sentiu necessidade de concordar com as opiniões do seu velho mentor.
Imaginava se as novas feições suaves e impecáveis do rosto do homem se devessem ao fato de
que também era uma versão mais jovem. Mas não, com certeza não era o caso. Ali ainda
estavam a experiência e o tom de voz aos quais estava acostumado. Turpin percebeu aquele
olhar.
— Um dos militares que agem sem uniforme o encontrou para mim — disse, como se
estivesse conversando sobre uma carruagem. — Assim que os grandes poderes reconheceram
que vários dos motores que caíram em nossas mãos nos deram acesso a mundos opcionais,
fora do equilíbrio, o Palácio achou que caberia a nós o dever de começar a mapeá-los para
descobrir até onde levam esses túneis de dobra aberta. Nossos grupos regimentais de caça têm
ido a praticamente todos os lugares.
Hamilton pensou que entendia por que não havia sido incluído nessa campanha.
— Incluindo outra versão de você?
— Várias outras. O proprietário original desta aqui tinha somente um ou dois Newtons de
diferença para o original. Bem, em termos físicos. No lugar de onde ele veio, não ocorreu
nenhum de nossos conflitos e é por isso que suas feições não estão tão castigadas. Nossos
rapazes o colocaram na mala e, quando voltaram, conectaram sua mente a um túnel infinito. É
como usar um terrier para desentocar uma raposa. Enquanto ele estava fora eu entrei, usando o
mesmo método. Vai servir para que eu continue em ação por mais algum tempo.
Hamilton percebeu que estava analisando aquela frase. Seu equilíbrio havia sido
perturbado pelo rapaz e assim ele se permitiu aquele pensamento sedicioso, porque não lhe
pareceu tão perigoso, de que Turpin estava tentando encontrar, como ele mesmo disse, não
uma extensão do seu tempo de serviço, mas, na realidade, uma vantagem tática na corte. Agora
ele era mais parecido com aqueles a quem servia. E não importava a distância que isso
colocasse entre ele e seus oficiais.
— E se mundos opcionais começarem a nos atacar da mesma forma?
— Foi a primeira coisa em que pensamos. Parece que somos únicos, pelo menos em
relação a todas as opções mais próximas. Somos os únicos que encontraram os Forasteiros.
Ou então, talvez eles só existam neste mundo. Se eles começarem a surgir por toda parte, é
possível que tenhamos que começar a fazer tratados com Bretanhas opcionais ao invés de
atacá-las.
— E estender o equilíbrio a elas?
Turpin ergueu as mãos. Talvez sentisse que isso estava além do seu dever ou da sua
compreensão.
— Como é possível que existam versões mais jovens das pessoas? Como pode haver um
mundo opcional onde... eu... tenho a idade dele?
— Esses mundos se formam em ondas, pelo que me disseram.
— Assim como as ondas que interferem umas com as outras neste mundo para criar os
altos e baixos do equilíbrio?
— É possível. — Ali estava a impaciência com a questão do equilíbrio de novo. —
Algumas ondas estão um pouco atrás de nós no tempo, e outras estão um pouco adiante.
— E há algumas outras opções onde existam cervos falantes e pilares de pássaros? Ou são
apenas exemplos do que vem por aí?
— Um pouco de cada. Há uma gama enorme de opções, no total.
Turpin se inclinou um pouco para a frente, como se desejasse que Hamilton fosse direto ao
ponto. E Hamilton ficou contente por não ter sido a pessoa que os levou até lá.
— Escute, aquela versão mais jovem de você é o primeiro da sua espécie que foi trazido
para cá. A mente naquela cabeça pertence a ele mesmo. É um bom rapaz, um voluntário de um
mundo tão parecido com o nosso que não havia um átomo de diferença.
— Exceto pelo fato de não haver Forasteiros?
— Exato.
— E por não haver equilíbrio?
— Sim, sim!
Hamilton imaginou se Turpin planejava colocar sua mente na cabeça do rapaz. Mas ele
dificilmente teria convidado os dois para a mesma ocasião social antes.
— Se podemos fazer tudo isso agora, e eu não sabia que poderíamos...
— Vou lhe dizer uma coisa em caráter oficial. Você vai perceber, se prestar atenção, que
as suas lentes já reagiram ao meu tom de voz. Você não vai poder falar sobre isso com
ninguém. — Ficou subitamente decepcionado com a expressão assustada no rosto de
Hamilton. — Não que você fosse fazer isso, é claro!
Os modos de Turpin pareciam ter mudado com o seu novo corpo. Isso também foi
chocante, um choque como aquele que alguém sente às vezes ao ouvir sobre coisas que foram
ditas e feitas na corte.
— Se podemos fazer tudo isso agora que temos os motores deles, por que os Forasteiros
não podem abrir um túnel nos bloqueios, aparecer em Whitehall e nos atacar?
— Boa pergunta. As grandes potências estão analisando essa questão. Juntas. — Haviam
sido divulgadas informações suficientes para que Hamilton compreendesse que havia um grau
significativamente maior de cooperação entre as cortes das grandes potências da Europa. A
chegada dos Forasteiros havia levado a isso, no momento em que a captura acidental dos
novos motores em várias partes do sistema solar poderia ter abalado o equilíbrio. Era aí,
suspeitava ele, que a mão da divindade estava presente, em meio a tudo isso. Se é que estava
em algum lugar.
— A principal teoria no momento é que, por algum motivo, os Forasteiros proíbem, entre
si, o uso de mundos opcionais. Isso seria um princípio da religião equivocada que eles
praticam, seja ela qual for. O opcionalismo talvez seja apenas um efeito colateral do que usam
como propulsão. Mas até agora só conseguimos compreender o efeito colateral, e não a
propulsão em si.
— Podemos usá-la para surpreender os Forasteiros?
— É exatamente nisso que estamos trabalhando.
Esse era o tipo de conversa que Hamilton estava mais acostumado a ter com seu oficial
comandante. Percebeu que se arrependia das suas reações anteriores, compreendendo-as,
recuperando o autocontrole. Essa noite, fosse lá o que fosse, certamente havia sido planejada
para servir como um teste do seu caráter, e até agora ele não havia se saído muito bem. O que
ele sentia sobre qualquer coisa era algo tão irrelevante agora quanto sempre fora.
Turpin passou o restante do jantar sondando-o a respeito de vários aspectos das
estratégias compartilhadas de defesa que estavam sendo adotadas pela “grande aliança” das
principais potências. Todos os dias algum novo território ou potência era anexado ao grupo. A
Saboia, mais recentemente. Havia até mesmo rumores de que os turcos iriam se juntar à
aliança. Hamilton quis perguntar onde estava o equilíbrio em tudo isso. O que aconteceria se
todas as nações estivessem do mesmo lado? A chegada dos Forasteiros e seus motores, ao
mesmo tempo, seria o choque fatal, o momento final no qual o equilíbrio desmoronaria e se
transformaria em alguma nova e verdadeira realidade social, como os especialistas no assunto
viviam teorizando? Era o que estava acontecendo ao redor de todos eles agora? Ele sempre
imaginou que esse momento seria grandioso, não apenas uma questão de encontrar animais
selvagens no salão do reitor. Ou isso era apenas uma agitação particularmente feroz do
pêndulo, que acabaria por se estabilizar num movimento mais gentil?
Mas Turpin, fiel à sua nova forma, passou a noite inteira sem mencionar o equilíbrio,
exceto quando se juntou à prece antes da refeição. Parte de Hamilton tinha esperado que um
dos divinos iniciasse um debate sobre o assunto. Ele soube, enquanto conversava sobre
assuntos corriqueiros com sua arrumadeira, Alexandria, que nem tudo estava bem entre o clero
e que o próximo sínodo em York seria duro para Sua Majestade e sua implacável comunidade
de nações, mas não havia nenhum sinal de que isso estivesse acontecendo ali. Esses clérigos,
em particular, estavam tão contentes em vagar por entre essas coisas quanto aquela arauta.
Durante todo o diálogo, Hamilton manteve o olhar fixo em seu superior. Não queria ser
visto esticando o pescoço para olhar na direção da versão mais jovem de si mesmo. Continuou
a fingir tranquilidade. E esperava que não estivesse passando uma impressão de afetação. O
sino tocou, os alunos começaram a sair e o reitor chamou os convidados para seus aposentos
para beberem conhaque. Turpin anunciou que queria conversar com alguém e foi na frente.
Quando Hamilton entrou, o homem mais jovem veio em sua direção para interceptá-lo.
Preciosa estava com ele. Tinha uma expressão de interesse no rosto. Turpin já havia chegado
ao outro lado da sala, graças a Deus, então não haveria ninguém para tentar fazer uma
apresentação desajeitada entre os dois. Mas Hamilton sabia que o olhar do seu oficial
superior estaria fixo nele agora. Ainda não sabia o que esperavam que fizesse. Mas, se isso
fosse um jogo, Hamilton iria vencê-lo.
— Major — disse o rapaz —, não tenho como descrever o quanto eu estava ansioso por
este momento.
— Eu gostaria de poder dizer o mesmo. — A frase soou como um insulto. Assim, ele
retesou os músculos do queixo e deixou que a impressão se estabelecesse. — Onde foi que
encontraram você?
O rapaz não parecia ter ficado perturbado.
— Ah, em algum corredor empoeirado do que alguém ainda pode chamar de realidade.
— O modelo deste ano. — Hamilton não conseguiu evitar olhar para Preciosa em vez de
para seu eu mais jovem. Ela retribuiu o olhar. Hamilton se perguntava de quantas maneiras ela
estaria comparando os dois.
— A maioria das pessoas teria muitas perguntas a fazer — disse o jovem.
— A natureza da inocência é questionar. A natureza do dever é aceitar.
— E a natureza da idade é confiar demais em si mesma. — O garoto estava pronto para
ficar irritado se sentisse que devia agir assim. Parecia ter plena consciência da sua honra.
Com certeza também estava sendo observado. E foi por isso que Hamilton mexeu com seus
brios naquele momento: para verificar seu autocontrole, ou a falta dele. Aquela
racionalização, desagradavelmente, só foi percebida por Hamilton após o fato ocorrer.
Talvez o objetivo daquela situação fosse avaliar qual dos dois demonstrava mais graça? O
garoto havia sido informado do destino que o aguardava, se fracassasse nesse teste? Hamiton
poderia estar tendo uma oportunidade de inspecionar seu novo... veículo? Ou o rapaz seria o
seu substituto? Ele não podia se deixar dominar por essa possibilidade. Em vez disso,
Hamilton dirigiu-se educadamente a Preciosa. Era uma mulher esguia, com longos cabelos
ruivos que contrastavam com um vestido verde para a noite que... sim, a influência da
opcionalidade também estava presente ali: o vestido foi, ou ainda era, uma campina
ensolarada. Estar na presença dela não era o mesmo que ver a paisagem e estar naquele lugar.
Ela estava acostumada a ser observada e fazia questão de procurar oportunidades para que
isso acontecesse. As sardas não pareciam infantis em seu rosto, mas de algum modo se
somavam à seriedade passional daqueles olhos que exibiam uma expressão de intenso
interesse, um desafio ao mundo que se equiparava ao do vestido. E tinha uma boca
convidativa.
— E então — disse ele. — Onde você me conheceu?
Ela abriu um sorriso, mas não riu.
— Fomos apresentados no Colégio dos Arautos. O coronel Turpin o trouxe em uma visita.
Mas percebo que nós não fomos apresentados.
— Você terá que me perdoar. Imaginei que já tivéssemos certo... grau... de intimidade.
Hamilton imaginou se ela ficaria ofendida com aquilo. Mas a mulher sorriu em vez de se
ofender. Ainda assim, foi um sorriso forçado. Não estava totalmente habituada com o valetudo
que era socialmente aceitável nos dias de hoje, então. Ainda era uma arauta em seu
íntimo. Hamilton encontrou algo de que gostou nela. Uma descoberta que não devia
surpreendê-lo, supôs.
— Por que você acha que Turpin queria que nos conhecêssemos? — perguntou o garoto.
— Talvez ele queira escolher um novo terno e deseje experimentar os dois. — Ele voltou
a olhar para Preciosa, como se sugerisse que poderia estar fazendo a mesma coisa. Ela
simplesmente ergueu uma sobrancelha delicada.
O garoto se interpôs entre os dois. Havia decidido que era necessário trazer aquela
contenda ao mundo físico e também o meio pelo qual faria isso.
— Diga-me, major., o senhor joga cartas?
O reitor, sem dúvida encorajado por Turpin, não demorou a se animar com a possibilidade
de um jogo. O grupo seleto de convidados, que certamente já havia se dado conta do que
estavam observando quando olhavam para Hamilton e o seu eu mais jovem, estava intrigado e
conversava em voz alta sobre aquilo. Ele supunha, enquanto as cartas eram preparadas e
voltava a observar os convidados, que havia grupos de pessoas como esse por toda a Grã-
Bretanha agora, na maioria dos elegantes salões de festa, mudando suas formas, idades e
aparências e mandando o equilíbrio às favas, e que de agora em diante todos estariam
ansiosos para colocar as mãos no que havia de mais novo e extremo como se fossem malditos
islandeses. Talvez aquilo tivesse ocorrido por causa do bloqueio. Talvez todos estivessem
começando a dançar enquanto o navio afundava.
Alguém decidiu que o jogo seria o pôquer do relógio. Nem ele nem o rapaz o conheciam.
E, novamente, Hamilton supôs que aquela decisão não fora tomada por acaso. Cada um puxou
dez cartas de um novo baralho, um dentre uma série que estava sendo disposta sobre a mesa.
Enquanto isso Hamilton bebeu um Knappogue Castle da destilaria de Tullamore, um uísque
irlandês que misturava cevada maltada e grãos não maltados em sua composição. Nada que
fosse servido ali ou na Mesa de Honra era o tipo de coisa que as lentes em sua cabeça
conseguiriam ignorar. Essa era a razão da existência de noites como essa. Para entender a
realidade, era o que se pensava na época em que as pessoas convidadas para virem até ali
ainda se interessavam por isso, supunha Hamilton. Assim, isso indicava que ele estava
aceitando uma desvantagem. O rapaz, é claro, teria que fazer o mesmo, e, apesar do olhar de
advertência de Preciosa, tomou uma dose igual.
A ideia era formar combinações de valores diferentes ao se descartar cartas e pegar novas
de outro maço. Mas a natureza do que constituía uma combinação válida mudava de acordo
com o tempo; cada arco de dez minutos no relógio de bronze polido do reitor decidia as regras
daquele período. Havia também um limite de alguns segundos que ditava quanto tempo os
participantes podiam demorar para fazer suas jogadas, de modo que um deles não pudesse
simplesmente esperar até que o terreno ficasse mais favorável. Assim, Hamilton percebeu,
enquanto os dois esperavam que o sino da capela soasse as nove horas, que um dos jogadores
poderia guardar cartas para tentar ganhar a vantagem em estágios posteriores do jogo, ou
começar a fazer os descartes de maneira constante, buscando os valores médios em vez de
esperar por uma mão devastadora. O tempo e o significado nesse jogo eram interconectados
de uma maneira bizarra. Uma projeção inteligente e um pouco espalhafatosa foi estampada na
parede atrás de ambos, assustando o cervo. A projeção tinha todos os tons de cor e linhas
borradas que indicavam um cortesão que prestava atenção demais ao gosto estético de Sua
Majestade. Dizia-se que a aparência do salão de baile em Hampton Court mudava dependendo
de onde uma pessoa estivesse, e frequentemente mostrava-se apenas como um borrão de
movimentos, como se fosse visto a partir de uma carruagem. Várias damas já haviam caído
como resultado disso durante uma das novas danças, que Hamilton teve a impressão de se
parecerem com galopes sem qualquer graça em que o tempo da música mudava continuamente,
em que as pessoas podiam colidir a qualquer momento, e era difícil saber onde elas estavam.
Os dançarinos não demoraram a culpar suas próprias deficiências em vez de questionarem
aquele cuja perspectiva foi a responsável por criar tudo isso. E era o que deveriam fazer, é
claro, pois essa era a maneira correta de se comportar. O que é que Hamilton tinha na cabeça?
Ele repreendeu a si mesmo mais uma vez.
Os dois sacaram as cartas para compor suas mãos iniciais. O garoto o fitou nos olhos outra
vez. Nada de sorrisos agora. Subestimar o rapaz seria óbvio para Hamilton. Ele não faria isso.
Seria como mentir sobre si mesmo. Deixou que seus olhos se erguessem acima do oponente,
que estava sentado, e que permanecessem por um momento onde não deveriam.
— O que você está olhando? — perguntou o garoto, sem se virar.
— Nada — disse Hamilton, e voltou a olhar para as suas cartas, erguendo a sobrancelha
de uma maneira calculada com precisão.
Na primeira rodada de dez minutos, Hamilton obteve uma larga vantagem, pois seu oponente
não conseguiu marcar nenhum ponto, ao passo que ele baixou combinações simples e óbvias.
O garoto parecia sempre estar esperando uma última carta para montar uma combinação
vencedora. Hamilton reconheceu aquilo em si mesmo. Era algo que o serviço militar tinha
arrancado dele.
Uma salva de aplausos e gritos de júbilo e a batida da colher do reitor no cálice marcaram
o final da rodada, e na hora o rapaz exibiu o que tinha nas mãos, as combinações que não
conseguira usar para pontuar antes, colocando-o na dianteira da disputa e provocando uma
nova onda de aplausos com o gesto floreado. Hamilton se perguntou se haveria alguém
naquela multidão torcendo por ele, ou se, para aqueles que vieram à festa vestidos como uma
miragem, a versão mais velha de um indivíduo fosse automaticamente menos interessante.
Olhou de novo para Preciosa e imaginou ter percebido algo em sua expressão. Por que ele
tinha a sensação de que ela não tinha exatamente a mesma opinião? Ela mordia o lábio, os
olhos saltados pela empolgação causada pelo jogo. Ele voltou a se concentrar no garoto.
— Você conhece bem as fábulas? — perguntou para disfarçar algo que estava se formando
em suas cartas. — Devagar e sempre, a tartaruga ganha a corrida.
— Sim, os gregos iriam adorar este jogo. — E baixou a primeira de uma série de
combinações rápidas, acumulando pontos constantemente e colocando-se na dianteira,
tentando forçar Hamilton a apostar em algo que poderia nunca vir a acontecer. — Ele é cheio
de transformações.
— Ainda assim, dificilmente pode ser chamado de clássico.
— O que é visto como clássico muda com o passar do tempo, assim como todas as outras
coisas.
Então ele parecia compartilhar das opiniões que possibilitaram a sua chegada a esse lugar.
Ou estava disposto a se juntar ao coro, pelo menos. Mas com certeza devia se sentir como se
ainda fosse um escravo, um espólio arrancado de uma província invadida por uma tropa de
conquistadores, não? Afinal, o próprio Hamilton tinha um pouco disso em si. Hamilton
arriscou uma olhada rápida na direção de Turpin e decidiu aumentar a temperatura.
— Vamos deixar isto mais interessante? — Ao perceber que o sotaque do garoto era
refinado, decidiu deixar seu irlandês um pouco mais perceptível.
— Quanto?
Hamilton tentou se lembrar do que seria necessário para quebrar sua conta bancária
quando tinha vinte e poucos anos. Não era muito menos do que seria necessário atualmente.
Ou isso era um efeito da sua memória distorcendo o tempo outra vez? Não queria mencionar
um valor que o garoto considerasse uma ninharia. Ainda assim, o valor do dinheiro não havia
mudado tanto no decorrer dos anos, apenas o seu conceito de quanto seria suficiente.
— Mil guinéus? — Houve um murmúrio geral de espanto entre as pessoas que assistiam
ao jogo. Hamilton percebeu imediatamente o seu erro. Deu a impressão de que só estava
provocando o garoto. Preciosa fazia sinais negativos com a cabeça para o rapaz, indicando
que ele devia baixar as cartas que tinha na mão. — Ou não, talvez não, digamos...
— Mil guinéus. — Aquilo acordou o garoto. É claro que sim. Hamilton jogara a isca para
ele bem diante da sua garota.
Ele teria feito o mesmo com aquela idade se Annie estivesse ali; poderia ter feito o mesmo
agora. Não iria humilhar o seu eu mais jovem recuando da aposta.
— Tudo bem, então.
As três rodadas seguintes pareceram ocorrer em um instante. Hamilton e o garoto mal
levantaram os olhos enquanto sacavam cartas, consideravam, baixavam e o reitor anunciava os
escores conforme o jogo prosseguia. Os ases podiam ter o valor máximo ou o mínimo para
formar as combinações. A ordem das cartas com as figuras da corte, para espanto de alguns
dos presentes, que ao se verem sob pressão acabavam por revelar uma mentalidade mais
tradicional, também mudava. E o Embaixador, o Cavalo e o Diabo às vezes podiam aumentar
ou diminuir o valor das cartas com números dos naipes de copas, espadas, paus e ouros.
Faltando onze minutos para o fim do jogo, todas as pessoas haviam cercado a mesa onde
Hamilton e o rapaz estavam suando, olhando para as suas mãos e também se entreolhando,
sacando cartas e baixando-as, cada vez mais rápido. Hamilton estava considerando o baque
que a perda de mil guinéus representaria. Teria que vender alguma coisa, talvez o Morgan.
Seria capaz de lidar com essa pressão devido à sua experiência e treinamento. O garoto
possuía a certeza e a indestrutibilidade da juventude, mas tinha mais a perder. Até mesmo a
própria vida, se não pudesse pagar, ou se aquilo que tivesse no lugar de uma família ou um
regimento decidisse que a sua existência não valia aquela despesa. Talvez sua vida, ao menos
como uma mente em seu próprio corpo, fosse dependente do jogo maior do qual ambos
estavam participando essa noite, fosse lá qual fosse. Hamilton ignorara uma pontada de culpa.
Era por essa razão que ele estava jogando, não? Não para prejudicar o rapaz, mas para
desequilibrar o seu jogo. Ou aquele jogo realmente era a única coisa que estava acontecendo?
Ele logo se repreendeu por perder a concentração naquele segundo, ao perceber, quando fez
sua jogada, que podia ter segurado algumas daquelas cartas por mais um momento e
conseguido uma pontuação maior. O grupo de convidados aplaudiu o início da última rodada e
a última mudança nas regras. O garoto estava na dianteira por pouco. Ele mal considerava
cada combinação que tinha nas mãos antes de baixá-las, e agora não precisava pensar no que
estava por vir. Eles haviam entrado na última curva e disparavam rumo à linha de chegada.
Hamilton decidiu que a única maneira de continuar no jogo era jogar com a mesma velocidade
do rapaz, avaliando rapidamente qual era a melhor mão e baixando-a, esperando pelo melhor,
esperando pressionar o garoto a agir da mesma forma. O reitor gritava os escores com rapidez
cada vez maior. Embolar-se com os próprios dedos nas cartas se transformou em um
problema. Hamilton empatou com o rapaz e percebeu que tudo que lhe restava nos últimos
segundos era a sorte. Não seria a primeira vez que se curvaria ao seu capricho. Viu que tinha
as quatro cartas com valor de dez de cada naipe — não era a melhor mão, mas também não era
a pior, e baixou-a no último momento que tinha para jogar. O garoto olhou para a própria
mão... e pareceu ficar paralisado. Hamilton viu que seus dedos tremiam. Será que ele estava
esperando, prolongando deliberadamente o martírio? O próprio Hamilton muitas vezes agia
com crueldade, quando uma missão lhe dava essa liberdade. O ponteiro do relógio galgou os
últimos três segundos... dois... Hamilton tinha um único ponto de vantagem; com certeza o
garoto devia ter algo na mão, não? O rapaz se atrapalhou com as cartas que tinha na mão e
baixou tudo com um grito, e o toque dos sinos da capela soou pela sala, e o reitor bateu com a
colher em seu cálice e todos se aproximaram para ver no mesmo instante...
Que o garoto não tinha nada. Não podia montar nenhuma combinação que valesse pontos.
E agora ele encarava Hamilton, e Preciosa deu um passo à frente para defendê-lo, o rosto
furioso, apesar de toda a tradição que ditava que ela devia ir na direção oposta. E agora,
como um pai, Hamilton subitamente percebeu que concordava com aquilo.
— Estou satisfeito — começou Hamilton. — Vou apenas querer uma boa garrafa de...
— Não se atreva! — gritou o garoto. — Não se atreva! Vou pagar o que devo. — E sua
voz soou num irlandês puro, o som que Hamilton quase sempre ouvia em seus pensamentos e
raramente na sua fala. Com isso, o garoto se levantou de supetão e saiu da sala, sem se
despedir formalmente ou agradecer a seu anfitrião. Preciosa o seguiu com o olhar,
escandalizada com o mundo. Mas não tinha em si a indecência necessária para segui-lo.
Houve somente um breve período de silêncio antes que as conversas o preenchessem.
Hamilton olhou na direção do reitor, que estava guardando desajeitadamente a caderneta que
usara para anotar a pontuação. Ele não encarou Hamilton. Não parecia haver muita alegria na
sala com o que havia acontecido. Não que essas pessoas estivessem torcendo para o homem
mais jovem; não era isso. Mas pairava no ar uma sensação de que algo havia se quebrado.
Como se as pessoas de repente houvessem descoberto, após aquele abalo, que muitas coisas
haviam mudado, tanto dentro quanto fora delas, e que não sabiam mais o que deviam aplaudir
ou comemorar.
Hamilton se levantou e tomou um último gole do seu copo. Ficou contente, apesar de tudo,
ao perceber, um momento depois, que Preciosa havia se aproximado dele.
— Ele não merecia isso — disse ela.
— Não, não merecia. Mas merecer é algo que raramente entra no jogo.
Ao redor deles a festa estava chegando ao fim. Os presentes estavam se despedindo. E
Turpin escolheu esse momento para se aproximar. Colocou a mão no ombro de Hamilton, que
não se lembrava do seu oficial superior tocá-lo em outra ocasião. Preciosa se afastou a passos
rápidos.
— Foi um espetáculo ruim — disse Turpin, de maneira bastante discreta.
— Lamento, senhor. Imaginei que fosse uma competição.
— Você não precisava ter forçado o rapaz a escolher entre a falência e a humilhação. Eu
esperava que a nossa jovem arauta aqui pudesse ser levada, devido à sua proximidade com o
rapaz, a iniciar uma nova tendência em seu Colégio, para trazê-los para uma posição mais
próxima do ponto de vista de Sua Majestade. Ganhando ou perdendo, ela ficaria mais
envolvida com o rapaz após ele provar sua coragem. Mas agora ela não poderá mais vê-lo e
manter seu cargo.
Turpin olhou para onde Preciosa estava, e o rosto dela, agora que pensava não estar sendo
observada, traía uma espécie de cálculo, como se estivesse tentando mensurar o decoro em
proporção ao tempo que devia esperar antes de partir atrás do garoto. Em seguida ele voltou a
olhar para Hamilton, balançou a cabeça em negativa e foi se despedir do anfitrião.
E, até o momento em que viu o cartão na mesa do café da manhã, aquela foi a última vez
que Hamilton teve notícias dele. Desejou boa-noite, saiu dos aposentos do reitor e foi até a
porta da Capela. Descobriu, no desespero que já afundava em seu estômago, que aquele
prédio agora representava um horror para ele, depois de tudo que ocorrera.
E agora ele estava aqui em Cliveden, dirigindo-se ao que ele sabia serem seu oficial
superior, juntamente com um oficial-adjunto da realeza da Corte de Saint James e o Secretário
de Poderes da Coroa, somente porque as ordens em seus olhos assim o diziam. Era possível
presumir que os oficiais ainda estivessem em Londres, no gabinete de Turpin perto de
Horseguards Parade, ou pelo menos uma parte deles estivesse. Estavam vestindo as árvores,
do outro lado da sua nação, com a mesma disposição de alguém que veste um casaco.
— Boa tarde, major. — A voz de Turpin surgiu do ar à sua volta. — Lamento informar-lhe
que... temos uma missão para você.
Um imenso alívio fez com que Hamilton se sentisse incapaz de responder por um
momento.
— Uma... missão, senhor?
— Ao que parece, durante o seu encontro com ele, você decifrou o caráter do seu eu mais
jovem. Exatamente como Sua Majestade desejava que fizesse — comentou o oficial-adjunto.
Houve uma época em que a antiga Rainha Mãe cuidaria em pessoa de tais questões, mas
hoje em dia ela nunca deixava sua ala do Palácio, e havia rumores... Hamilton percebeu que
estava deixando que aquele pensamento respirasse em sua mente, seu alívio lhe dando essa
licença... as pessoas diziam que ela havia enlouquecido.
— Eu não sabia que estava agindo a serviço de Sua Majestade, senhor. — Ele esperava
que o tom da sua voz não demonstrasse o conhecimento que os dois compartilhavam, de que
Sua Majestade sabia tanto a respeito desse assunto quanto ele.
— Isso, é claro, ocorreu de acordo com os desejos dele. E ele deseja informá-lo de que
você se saiu bem.
— O rapaz devia ter lidado melhor com a pressão que você exerceu sobre ele —
acrescentou Turpin. — Foi o primeiro sinal do que veio a ser revelado mais tarde. — Havia
um tom naquela voz que Hamilton não havia ouvido antes. Ele estava acuado, quase se
desculpando.
— O Palácio se ofereceu para cobrir a dívida que ele contraiu com você — disse a árvore
que era o Secretário da Coroa. — Mas, em seu orgulho, o garoto recusou. Percebemos isso
como um gesto nobre e tentamos outra vez, deixando bem claro que a oferta era séria. —
Hamilton conseguiu imaginar que qualquer pressão à qual houvesse submetido o rapaz não
seria nada comparada ao “deixar bem claro” do Palácio.
— Em seguida, ele subitamente declarou que tinha os recursos — prosseguiu Turpin. —
Perguntei a ele onde os conseguiu. Ele me disse que ganhou jogando cartas. Mas era óbvio que
estava mentindo. Pouco tempo depois eu tive o prazer de receber uma visita surpresa em meu
gabinete de Sua Graça o conde de Marischal e duque de Norfolk, para tratar de assuntos
relacionados à sua posição de oficial de armas do Colégio dos Arautos. Ele me disse que mil
guinéus haviam desaparecido da conta do Colégio em Cuits.
Ele havia tirado a quantia exata. Hamilton se sentiu perversamente aborrecido pela
associação entre o amadorismo do garoto e sua própria pessoa.
— Preciosa fez isso por ele? — A arauta não parecia ser capaz de fazer uma tolice
daquelas. Seu eu mais jovem era tão encantador assim? Era uma ideia tentadora demais para
ser verdade.
— Talvez ele tenha se aproveitado de informações que conseguiu com a arauta, mas sem o
conhecimento dela — disse Turpin. — Sua Graça também me informou que a própria arauta
desapareceu. Nossos agentes inspecionaram os aposentos dela e encontraram sinais de luta,
assim como uma tentativa relativamente displicente de encobri-los. O próprio rapaz não se
apresentou quando recebeu instruções para fazê-lo.
Agora Hamilton já não se sentia mais tão contrariado pela associação, e estava tendo
dificuldade para disfarçar sua satisfação. Quer dizer, então, que o garoto prodígio havia
virado a casaca.
— É desnecessário dizer — declarou ele — que o rapaz ainda não me pagou.
— Eu me atreveria a dizer que Preciosa o pegou com o dinheiro nas mãos. Uma dobra
infinita foi aberta nos aposentos dela algumas horas antes de nossos homens chegarem.
Encontramos vestígios dela. Somos capazes de rastrear para onde esses túneis levam. Nosso
alvo fugiu para cá, para Cliveden.
— Por quê?
— Existe um... novo complexo de túneis de dobra nesta propriedade — disse o oficialadjunto,
num tom de voz que quase dava a impressão de que estava se desculpando pelo modo
de agir da sua Corte. — Sua Majestade estava... bem, ainda está... planejando passar o verão
aqui, entre os mundos opcionais que escolher. O Colégio... por enquanto... ainda compartilha
desse tipo de informações sigilosas. Seu eu mais jovem, major, está escondido em alguma
versão opcional desta floresta.
O Secretário da Coroa limpou a garganta e o silêncio se instalou na clareira.
— Sua Majestade continua intrigado pelo conceito de trazer opcionais para agir a nosso
serviço. Ele costuma imaginar se a quantidade de opcionais poderia agir contra o bloqueio.
Precisaria de boas razões para voltar atrás em sua decisão. Mas sabe que existe a
possibilidade de que essas boas razões possam ser apresentadas.
Hamilton inclinou a cabeça. Havia sido informado de que todos os resultados ainda eram
possíveis. Que, se ele fosse buscar um rapaz assustado no meio dos arbustos, pretextando um
mal-entendido, o garoto seria ouvido, embora essa conversa provavelmente acontecesse nos
porões de Cliveden. Bem, chega de conversa, então. Tinha uma missão a cumprir. Colocou a
valise no chão e a abriu, fazendo a mão serpentear rapidamente por entre as múltiplas dobras
até encontrar o seu distorcedor Webley e o coldre de ombro.
— Estamos vigiando o perímetro — disse Turpin. — Estreitamos a realidade ao redor
dele, de modo que não possa fugir. — A qualidade da luz na clareira mudou, e Hamilton
percebeu que algo havia sido feito com as lentes em seus olhos. — Estávamos testando o
equipamento com o garoto, pois logo os aparelhos serão fornecidos aos soldados
regularmente. Vão permitir que você enxergue todos os mundos opcionais ao seu redor e se
mova entre eles, assim como o seu alvo.
Hamilton terminou de prender o coldre, guardou a pistola nele e vestiu o paletó outra vez.
Sentiu o que tinha que fazer para usar as novas lentes e ativou-as. Repentinamente viu pessoas
na clareira, bem ao seu lado. Fez com que o aparelho voltasse ao ajuste anterior e elas
desapareceram. Tinha visto alguns dos trabalhadores e lavradores, aqueles que mantinham a
propriedade funcionando. Provavelmente eram a opção menos interessante para Sua
Majestade e seus amigos explorarem.
— Entre nas dobras por aqui e traga o garoto e a arauta de volta. Vivos, se você conseguir.
— E aquelas três últimas palavras foram ditas num tom que particularmente sugeria às lentes
que, até onde interessava a Turpin, Hamilton tinha total autonomia. Ele não viu necessidade de
substituir a arma dele por outra menos letal, afinal de contas. Os cortesãos à sua volta talvez
não tivessem o conhecimento militar necessário para estarem cientes de uma decisão tomada
através da omissão. Hamilton olhou para as árvores que lhe davam ordens. A pergunta sobre o
que lhe era devido por causa do seu serviço havia se desmanchado na simplicidade de que o
serviço continuaria a existir. Todos eles presumiam, afinal de contas, que cumpriria com o seu
dever. Pensar que morreria nas mãos deles havia se tornado algo digno de um mundo opcional.
Ele deu meia-volta e entrou na floresta.
— Boa sorte, major — disse o oficial-adjunto.
Hamilton não olhou para trás. Após um momento, começou a correr.
Ele observou o mapa da propriedade em sua cabeça. Correu de uma árvore para outra,
mudou o ajuste das lentes por um momento e de repente se perdeu outra vez. Forçou-se a
verificar continuamente as opções. Não podia se dar ao luxo de deixar que o garoto o pegasse
de surpresa.
Seu eu mais jovem cometera esse ato desonroso porque o equilíbrio não era uma ideia
presente nos mundos opcionais? Isso devia ser o que Sua Majestade estava considerando, a
ideia de que não havia necessidade de formar um exército porque seus supostos súditos nos
outros mundos não teriam a moral necessária. Talvez nos outros mundos o equilíbrio
simplesmente não existisse, uma indicação de que esses lugares eram menos reais do que este
mundo. Ou talvez, de algum modo, o equilíbrio se estendesse por todos os mundos, e fosse
devido a isso que resistisse a tantos choques. Imaginou qual foi o parâmetro que o garoto usou
para julgar a si mesmo, em seus anos de formação. Isso serviria para justificar suas ações?
Era difícil dizer se as mesmas regras deveriam se aplicar ao caso ou não. Se tudo fosse real,
se o valor em si fosse algo relativo, qual era a importância, aqui e agora, de ser um traficante
de armas, usar um tartan escocês, atentar contra a bandeira, se os perpetradores dessas ações
pudessem executá-las em outros lugares, governados por regras diferentes? Pode ter sido isso
que o garoto sentiu ao receber aquela oferta milagrosa de ascensão social, honra, o interesse
de uma bela mulher, vindos de outro lugar que não era o seu próprio mundo. Era possível
imaginar que ele fora arrancado do seu mundo original durante a noite e seus novos horizontes
lhe foram apresentados no decorrer de semanas, talvez meses. E se esse novo mundo incluísse
esse costume estranho, esse ideal desesperado sobre a preservação da ordem diante de um
possível colapso, bem... quando em Roma, faça como os romanos.
Mas Turpin dissera que o mundo do garoto era como o nosso em quase todos os aspectos,
embora estivesse alguns anos atrás na onda. E mesmo assim eles não tinham o equilíbrio. A
ideia de que seriam capazes de sobreviver sem ele, de que as grandes potências em seu mundo
houvessem, talvez por mero acidente, preservado suficientemente o status quo para a
consciência e para a sociedade... bem, aí estava um toque de subversão. Não era de admirar
que Turpin se sentisse um pouco vulnerável por ter aberto aquela porta. Não era de admirar
que ele mesmo parecesse estar confiando cada vez menos no equilíbrio.
Hamilton voltou a se censurar. Reflexões como essas não eram apropriadas quando se está
em campo. Ele conseguiu se orientar na floresta conforme ela se erguia, se fosse possível
dizer que qualquer coisa era capaz de se erguer por seus próprios meios agora. Dividiu o
lugar em quadrantes e, avançando com o máximo de silêncio que conseguia, explorou o
território que ia até o rio, todos os ângulos da propriedade. Não encontrou ninguém.
Usou as lentes em seus olhos para ir até a próxima opção que havia depois do mundo dos
servos. Seria um dos lugares escolhidos para que Sua Majestade pudesse praticar seu esporte.
A casa era quase igual, com alguns poucos detalhes diferentes em sua arquitetura. Uma
bandeira com uma espécie de símbolo desprovido de qualquer significado tremulava acima da
casa. Hamilton não quis saber o que aquilo significava. Dividiu o terreno em quatro
quadrantes outra vez e encontrou apenas alguns velhos em um uniforme que ele não
reconhecia, e algumas mulheres que se vestiam em trajes sumários e bastante interessantes.
Provavelmente essa situação ficasse mais extraordinária quando a estação de férias chegasse.
Ele imaginou se as damas seriam trazidas até ali ou se receberiam suas próprias opções para
tomar chá e se perder em labirintos.
Hamilton alterou as configurações das lentes novamente, e, dessa vez, quando procurou,
encontrou columbianos caminhando pelas trilhas, com aquele sotaque prosaico que o fazia
lembrar-se das peças de Shakespeare. Essas pessoas que passavam por ali, enquanto ele se
agachava e prestava atenção, falavam com uma falta de cuidado horrenda, como se não
houvesse ninguém para julgá-los, nenhum inimigo para se opor a eles. Alguns saberiam do
interesse que o Rei tinha por seu mundo, enquanto outros não fariam a menor ideia. Para Sua
Majestade, aventurar-se em qualquer um desses mundos cuidadosamente escolhidos seria
como participar de um safári, entrar em um território que não era o seu. E ainda assim a
escolha incluía tudo, não? Esses mundos deviam ser totalmente seguros. Exceto se o garoto
estivesse escondido em um deles.
Procurou em vários mundos. Manteve-se distante do que significavam. Pensou no lugar
para onde iria se estivesse no lugar do garoto, e, ao considerar isso, percebeu que havia algo
que estava deixando passar despercebido... porque não conseguia imaginar a hipótese de vir
até aqui, de maneira nenhuma. Ele finalmente encontrou, em meio a dez ou doze possíveis
opções, uma que estava vazia. Não havia nenhuma casa visível entre as árvores, o rio ficava
em outro lugar, a altura onde ele se encontrava em relação ao nível do mar era diferente, e
mesmo assim, de acordo com a informação básica sobre o lugar do globo onde ele estava que
suas lentes insistiam em mostrar, Hamilton estava no mesmo lugar. Olhou à sua volta
lentamente, certificando-se de que estava escondido, por todos os ângulos. Não somente a
casa havia desaparecido, mas também não havia outras casas na planície, até onde ele podia
ver. E havia algo... algo extraordinário em...
— Então eles mandaram você. — Aquela era a sua própria voz. Vinha do alto da colina.
Hamilton não conseguiu identificar sua origem. Deu um passo para colocar uma árvore
entre a voz e o próprio corpo. Tirou o distorcedor Webley do coldre.
— Onde está a arauta? — gritou.
— Você não vai encontrá-la.
Isso indicava a Hamilton que ela não estava exatamente ao lado do rapaz. Ele se apoiou
sobre um dos joelhos quando saiu de trás da árvore, com a mão esquerda firmando o punho
que segurava a pistola, e disparou na direção da voz. O estrondo da explosão e o baque do
projétil disparado se mesclaram em um único som. E em seguida houve outro som, um quebrar
de galhos quando o garoto saiu de trás da sua cobertura. Hamilton saltou para a frente e
disparou mais duas vezes na direção do som, a folhagem e as plantas rasteiras se compactando
em instantes, pulsos momentâneos de gravidade puxando suas roupas, uma luz recém-focada
ofuscando-o como uma linha de novas estrelas se formando e desaparecendo em poucos
momentos.
Sem olhar para o resultado dos disparos, voltou para trás da árvore. Em seguida, aguçou
os ouvidos para prestar atenção.
O movimento havia parado. É claro que iria parar. Ele não iria continuar avançando.
Ficaria deitado ali por alguns momentos e depois continuaria deitado ainda por mais algum
tempo.
Hamilton ouviu alguns movimentos breves no alto da colina. Com aqueles disparos, era
provável que, se o garoto ainda estivesse vivo, também não estivesse ferido. Começou a
avançar lentamente por entre as árvores, certificando-se de que também não estaria no lugar
onde o garoto o localizou pela última vez. Enquanto caminhava, começou a examinar o terreno
que o cercava. Havia mesmo algo muito estranho neste mundo vazio. Por vezes ele chegou a
ouvir, em festas na Corte, na época em que era convidado a participar delas, pessoas que não
tinham nada melhor a fazer conversarem sobre as glórias da natureza, sobre alguma misteriosa
energia poética que poderia surgir a partir da observação da sua simplicidade. Hamilton
pensava, e chegou até mesmo a dizer de maneira imprudente certa vez, que a natureza com
certeza não era algo simples, que os bilhões de bordas e detalhes e superfícies angulosas sob
qualquer perspectiva eram a essência da complexidade, muito mais do que quaisquer artefatos
da civilização. Para ele a natureza era uma camada superficial, e ficava muito melhor com
seus detalhes. Liz... Sua Alteza Real... fez uma piada na ocasião para encobrir o fato de que
ele havia acabado de contradizer imprudentemente o embaixador francês.
Mas aqui havia também uma estranha sensação de glória. Todas essas árvores ao seu
redor, a vegetação rasteira à qual prestava bastante atenção enquanto avançava, tudo aquilo
parecia estar gritando para ele. As cores pareciam estar vivas demais. Seria algum problema
com suas lentes? Não. Tudo aquilo era real. Mas não havia simplicidade. Os objetos que via
por perto, até mesmo o rio que conseguia avistar da posição onde estava... havia uma
quantidade maior de detalhes do que aquela a que ele estava acostumado. Lembrou-se de uma
época em que lesionara uma das córneas, o embaçamento da visão em um dos olhos, até que
conseguiram cultivar e implantar um novo. Foi como se houvesse sofrido de algo parecido
durante toda a sua vida e agora fosse capaz de ver melhor. Meu Deus, seria ótimo poder ficar
aqui. Todo esse alívio e a possibilidade de repouso seriam seus.
Não. Pensamentos assim eram perigosos.
Ouviu um ruído à sua frente e empunhou a pistola. Logo viu o que era. Uma raposa olhava
fixamente em sua direção, entre dois arbustos. Claro, ele estava a favor do vento em relação à
raposa, e ela se virou para encará-lo naquele instante. Uma oportunidade melhor do que
qualquer outra que ele jamais tivera em caçadas, mas os olhos dessa coisa, o brilho do seu
pelo, a intensidade de cada fio que ele conseguia ver de onde estava...
A raposa quebrou o encanto do momento e correu.
Alguma coisa no mundo se partiu com aquele movimento e Hamilton caiu no chão,
percebendo naquele instante que seus tímpanos estavam ressoando e feliz pelo fato porque
isso significava que ainda estava vivo, e se jogou para o lado enquanto o solo e as folhas
ainda caíam ao seu redor e eram sugadas para o outro lado, e seguiu rolando pela encosta da
colina, chocando-se com as plantas e tentando agarrar o solo para parar de rolar antes que o
ruído desaparecesse.
O garoto quase conseguira acertá-lo. O garoto tinha a mesma arma. É claro que tinha.
Ele ficou deitado ali, ofegante. E permaneceu deitado por mais algum tempo. O garoto não
tinha certeza de onde ele estava agora ou já teria disparado. Hamilton refletiu, de maneira
ridícula, por um momento, sobre a vida da raposa. Eliminou aquele pensamento e começou a
se arrastar para a frente, apoiando-se nos cotovelos. Percebeu, enquanto avançava, que não
estava ferido. Tudo poderia se resumir a um golpe de sorte. Era uma competição de arcabuzes
que disparavam contra balões.
Sentiu, estranhamente, que era adequado que sua vida chegasse a esse ponto. Em seguida,
eliminou esse pensamento também. Seria mais adequado se sua vida chegasse a esse ponto e
continuasse após a morte do outro homem.
— Você poderia ficar aqui. — Era o garoto outra vez, e era difícil saber o ponto exato de
onde a voz vinha, sendo possível apenas ter uma noção geral da direção onde estava. Ele
havia se colocado em um lugar que alterava o som, um grupo de árvores próximas ou um
paredão de pedra.
Hamilton continuou observando o seu entorno.
— Por que você diz isso?
— Você não sabe onde está?
— Em uma Bretanha opcional.
— Nem perto, meu velho. — As expressões que ele deixou de usar no decorrer da vida.
— Não pode ser chamado de país se não houver ninguém aqui.
— Presumo que Sua Majestade esteve aqui. E provavelmente encontrou boas caçadas.
— Assim como todos podemos. No paraíso.
Hamilton sorriu ante a estranheza daquela frase.
— Como você sabe disso? — Era como se o garoto quisesse discutir com um pai. Testar
as barras da jaula. Talvez ele mesmo tenha se sentido assim quando tinha a idade dele, mas o
fracasso do seu próprio pai significara que nunca se sentiu capaz disso, ou talvez que nunca
tivesse achado necessário. Um lugar onde não havia identidade para ele nem motivos para
fazer o que quer que fosse? Isso, sim, seria mais parecido com o inferno sem qualquer
equilíbrio de onde o garoto viera.
— É mais... real... do que os lugares de onde eu e você viemos. E eu digo que este lugar
obviamente é o paraíso, porque ninguém chegou até aqui.
Hamilton percebeu o sorriso na voz do garoto.
— Exceto nós. Tem certeza de que não se refere a outro lugar? — Uma ideia curiosa lhe
veio à mente. — É por isso que você quer que eu fique?
— Estou dizendo que, se eu voltar, eles não procurariam aqui. Você poderia esperar alguns
dias, ir a qualquer lugar que quisesse.
Hamilton fez uma careta ao perceber a falta de sentido na vida do garoto.
— Você acha que eu abandonaria o meu dever? — Por um momento ele se viu sendo
substituído pelo homem mais jovem em sua vida. Era como se estivesse sendo invadido. Mas
também havia uma assustadora tentação naquela ideia.
— Eu nem sonharia em sugerir uma coisa dessas, meu velho. — E estava sendo sincero.
— Estou dizendo que você poderia se aproveitar deste jogo. Eles precisam que um de nós
morra. Então...
De onde foi que ele tirou aquela ideia? Turpin queria ver o garoto ser levado de volta
como um troféu, mas o Palácio estava se mantendo decididamente neutro em relação ao tema,
e Hamilton não conseguiu ter certeza de que qualquer uma das partes interessadas ficaria
satisfeita se fosse o garoto, ao invés dele mesmo, que saísse da floresta.
— Quem lhe disse isso? — Uma pausa. — Está tentando mentir para mim?
— Eu nem sonharia em fazer uma coisa dessas... meu velho. Estou aqui simplesmente para
levá-lo de volta. — O garoto poderia presumir que Hamilton havia recebido lentes diferentes
das suas, mentiras capazes de enganar ouvidos acostumados a detectar mentiras. Ou podia
saber que aquilo que tinha em sua cabeça era mais avançado do que qualquer artefato que
Hamilton recebera como equipamento padrão dos seus superiores. Mas cada um deles
conhecia muito bem a voz do outro.
Um som surgiu de uma direção que Hamilton não esperava. Ele se virou, mas obrigou-se a
fazê-lo com a arma abaixada. Lá estava o garoto. Estava com a arma abaixada também.
Hamilton foi na direção dele. Permitiu-se fazer o primeiro contato visual honesto com seu eu
mais moço. Ver aquele rosto olhando abertamente para ele era algo extraordinário, uma
alegria que precisava ser contida, uma gentileza que fazia valer a pena atravessar as águas que
separavam os mundos. Respirou fundo, inspirando um ar que era mesmo melhor do que
qualquer outro que já havia provado. Mesmo que este lugar não fosse o paraíso, ele podia
imaginar Sua Majestade caminhando por aqui e tendo ideias do que devia pertencer a ele, das
caçadas infindáveis aqui, com uma nova juventude para si sempre que desejasse, e versões
mais jovens de todos os bajuladores ou cortesãs sob seu comando. Haveria, graças a esse
garoto, e se algum tipo de mal-entendido pudesse ser comprovado, novas maneiras de se
comportar para sempre. Mas dificilmente isso aconteceria por culpa do rapaz. E, naquele
momento, Hamilton decidiu levá-lo de volta à clareira, para obter outra coisa que muitas
vezes era negada àqueles que eram como ele: explicações.
— Disseram-me que eu só conseguiria assegurar o meu lugar na sociedade, no seu mundo,
se o matasse. Que foi por isso que fomos reunidos em... competições diferentes.
Hamilton percebeu que isso era exatamente o que ele mesmo havia imaginado.
— Quem...?
Um tiro exatamente como o seu ou o do garoto ecoou pela claridade absoluta do céu. O
rosto do garoto inchou de imediato, o corpo deformando-se pelo impacto, o sangue e os
pedaços de um nome explodindo da sua boca. A cápsula do distorcedor absorveu a gravidade
outra vez e o corpo caiu ao chão, esvaziado.
Ela deu um passo à frente, baixando a arma. Pelo menos, teve a decência de parecer triste.
— Srta. Nada — disse ela.
Ela ainda estava usando aquele maldito vestido. Guardara a arma dentro dele, escondendo-a
outra vez. Ela e Hamilton permaneceram em pé por algum tempo, entreolhando-se, até que
Hamilton entendeu que, se quisesse atirar nela, ela iria deixar que fizesse isso. Irritado,
guardou a arma no coldre.
Ela imediatamente começou a andar em direção à casa. Ele considerou a ideia de enterrar
o garoto. O absurdo daquilo fez com que um nó se formasse em sua garganta. Marchou atrás
dela e logo a alcançou.
— Vá para o inferno. Diabos, para o inferno comigo e com ele por não termos visto você
chegar. — Ele a segurou pelo braço para detê-la. — Imagino que você nunca sequer ficou em
má situação com o Colégio, não é?
Ela o observou com toda a calma.
— Não nos importamos com a ideia de pilhar mundos opcionais. Não nos importamos em
roubar novos corpos para abrigar velhas mentes. Até certo ponto. Mas estabelecemos um
limite quando surge a ideia de que eles podem nos substituir. Nós somos o maldito Colégio de
Arautos, major. Sem árvores genealógicas, não teríamos como trabalhar.
— E, ao armar uma situação para o garoto para dar a impressão de que ele seria capaz de
roubar, sequestrar e trair, a ponto de chegar a ser uma ameaça a Sua Majestade...
— Nós provamos que tais substitutos não são confiáveis. Eles nunca tiveram o equilíbrio,
como você pode perceber.
— E por que você está me contando isso?
Ela olhou para Hamilton com uma expressão verdadeiramente entristecida. Ela o entendia.
— Porque você vai permitir que eu escape desta situação ilesa.
Os dois surgiram na clareira. Quando o fizeram, Preciosa imediatamente se transformou no
modelo de uma vítima trêmula, recém-resgatada.
— Ele era um monstro! — gritou, apoiando-se no braço de Hamilton.
— Era? — perguntou a voz de Turpin, vinda das árvores.
Hamilton manteve a expressão calma.
— O garoto está morto agora — disse.

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