CLARIDADE
– Passando pelo nível 23 – a voz do Justiceiro estava baixa e séria, ouvida
através da estática. – Capitão, uma vez eu invadi a Rykers para pegar um chefe da máfia. Mas
nunca vi protocolos de segurança como esse.
Capitão franziu a testa, ciente de que Cage, Falcão e Tigresa estavam logo atrás dele.
Estavam todos apertados na nova sala de comunicação, que fora montada com os
equipamentos de um submarino nuclear fora de uso. Capitão cobrara um favor de um
contato na Marinha, que lhe entregara os dispositivos antiquados, cheios de botões e um
telefone fixo vermelho com fio em espiral. Os membros mais jovens da Resistência
remodelaram a estrutura, tirando monitores sonares e substituindo-os por telas planas
novíssimas que mostravam o status da missão, informações sobre os campos de treinamento
e dossiês de heróis hackeados da Stark. Uma fila de hard drives e dois Mac Pros conectavam
todo o sistema.
Capitão se sentia estranhamente em casa ali.
– Justiceiro – Capitão se inclinou em sua cadeira. – Descreva o que está vendo.
– Estou subindo o poço de manutenção, passando por uma série de objetos azuis,
semitransparentes, parecidos com balões. Estão flutuando no ar, como bolhas em um rio.
– São antigenes artificiais – Falcão se inclinou. – Sue Richards disse que, este mês, Reed
baseou a segurança do Edifício Baxter no sistema imunológico do homem.
– Não encoste em nenhuma dessas coisas – avisou Capitão. – Se encostar, o sistema todo
vai atacá-lo como se fosse um organismo invasor.
Justiceiro deu uma gargalhada rude.
– Relaxa, Capitão. Nada vai conseguir me detectar enquanto eu estiver usando esses
amortecedores. Estou invisível para todas as câmeras, sensores e células T
superdesenvolvidas.
Cage franziu a testa.
– Onde diabos você arrumou esse tipo de hardware, Castle?
– Digamos apenas que o gerente do armazém de Tony Stark deveria investir em cadeados
melhores. E não se preocupem, eu fiz uma varredura nele todo em busca de dispositivos de
rastreamento.
Tigresa deu de ombros, fingindo estar impressionada. Seu braço peludo estava sobre o
ombro do Capitão. De repente, ele sentiu a força da presença de Tigresa: seu calor, suas
curvas, seus grandes olhos felinos.
– Passando pelo nível 28 agora – informou Justiceiro.
– Mantenha-me informado, soldado.
– Pode deixar, Capitão.
Cage franziu a testa.
– Justiceiro é um arsenal ambulante, Capitão. Sue não está preocupada por ele estar no
mesmo prédio que os filhos dela?
– Reed mandou as crianças para outro lugar. Felizmente – Capitão girou sua cadeira,
virando-se para os outros.
– Então, qual a nossa situação?
Falcão apontou para uma tela mostrando um noticiário.
– A equipe de Johnny Storm evitou uma invasão do Homem-Molecular na Filadélfia. Tudo
perfeito: eles cercaram a área, protegendo os cidadãos. Depois, eles tiveram um encontro
inesperado com o Doutor Estranho e fizeram contato. Vou acompanhar o que aconteceu logo
depois disso.
Capitão deu um zoom na tela, focando no homem de capa vermelha com uma túnica azulescuro,
bigode estilo chinês e majestosa gola alta.
– Estranho é um poderoso místico. Acho que até Tony tem medo dele.
– Ele também é bem reservado… nenhum compromisso até agora. Mas com a ajuda dele,
nossa equipe fez o trabalho rapidinho. Acabaram com o Molecular e se mandaram de lá antes
que os agentes da S.H.I.E.L.D. chegassem.
Tigresa franziu o cenho.
– Não parece ter ajudado a subir nosso ibope.
– O que importa aqui não são as pesquisas, Greer – Capitão virou para ela e fitou seus
lindos olhos verdes. – E não se trata de um único incidente. Temos que mostrar ao povo que
estamos fazendo a coisa certa, todos os dias.
Ela sorriu. Capitão virou de costas, de repente pouco à vontade.
– Como está o Homem-Aranha? – perguntou.
– Ainda grogue, mas se recuperando rápido – relatou Cage. – A constituição do cara é
espetacular.
Capitão assentiu.
– Não precisa pressioná-lo, mas preciso falar com ele assim que estiver acordado. Ele é a
única pessoa que esteve naquela prisão secreta e voltou por livre e espontânea vontade.
Falando nisso, qual é o status dos portais da Zona Negativa?
Falcão digitou uma sequência e um mapa dos Estados Unidos apareceu em uma das telas.
Luzes vermelhas piscavam em cima de Chicago, Sacramento, Albuquerque e perto da costa da
cidade de Nova York.
– Está programado para que esses portais entrem em funcionamento daqui a oito dias –
ele apontou para o ícone perto da costa. – O da Ilha Rykers será ativado primeiro, depois de
amanhã.
– A partir disso, eles vão começar a transferir todos os prisioneiros da Costa leste através
dele – previu Capitão. – Vão parar de usar o Edifício Baxter para o transporte. Nosso tempo
de ataque está diminuindo rapidamente.
– Nós poderíamos contar com algum apoio – comentou Tigresa. – Foi pra lá que você
mandou Sue Rrrrrichards?
– Exatamente.
Tigresa o fitou, os lindos olhos questionadores. Mas ele não disse mais nada.
– Os campos de treinamento também estão surgindo rapidamente – informou Falcão. – O
último informativo de imprensa de Stark diz que 49 jovens heróis aderiram ao treinamento.
– Campos ou prisões – Capitão sentiu novamente a coisa obscura crescendo dentro dele. –
Nipo-americanos já tiveram essa mesma escolha. Os judeus da Alemanha tiveram as duas
coisas, embrulhadas em um sádico pacote.
Falcão e Cage trocaram olhares confusos.
– Capitão… ninguém gosta menos do fato de eles estarem trancafiados do que este exprisioneiro
aqui – Cage apontou o polegar para o próprio peito. – Mas você tem que admitir
que existe uma diferença entre campos de treinamento e campos de internamento.
– Ou campos de concentração – disse Falcão.
– Também existe uma diferença entre viver livremente e receber ordens de um governo
opressor. O governo que, para manter seu poder, espalha o medo entre seu próprio povo.
Tigresa levantou uma sobrancelha.
– A Stark Enterprises – continuou Capitão – passou a última década construindo um
estado seguro para o povo deste país. Vocês realmente acharam que eles não iam usá-lo?
O autofalante ganhou vida com a voz do Justiceiro.
– Alô, Capitão, estou no centro de dados deles.
– Bom – Capitão se inclinou novamente para frente. – Agora, preciso de tudo que você
puder encontrar sobre esse complexo “Número 42”, principalmente sobre o portal que leva
para a Zona Negativa. Tamanho, espaço para se mover, distância da prisão para a entrada do
portal. Os tipos de guarda que tem, como funciona a segurança – ele fez uma pausa. – Acha
que consegue fazer isso sem dar um tiro na cabeça de alguém?
– Talvez. Se ninguém me interromper. Entro em contato em breve.
Cage virou-se para sair.
– Vou ver o Homem-Aranha.
– E é melhor eu ir ver como andam as coisas com o Doutor Estranho. – Falcão virou-se
para seguir Cage, e então voltou colocando a mão no ombro do Capitão.
– Capitão, eu e você passamos por muita coisa. O Caveira Vermelha, a invasão dos Krees, o
Império Secreto…
– Desembucha, Sam.
– Espero que saiba o que está fazendo.
Ele foi embora. Capitão observou enquanto ele se afastava, depois se virou, olhando para o
mapa dos Estados Unidos por um longo tempo. De repente, se sentiu muito cansado.
Foi quando sentiu as mãos fortes e macias de Tigresa massageando seus ombros.
– Enfim sós – disse ela.
– Greer…
– Você está tenso demais, sabia? – ela se debruçou sobre ele, ronronando em seu ouvido. –
Faz com que tome decisões ruins.
Ele virou-se para encará-la. O lindo rosto era coberto por um adorável e macio pelo; lábios
molhados brilhavam embaixo de um pequeno nariz de gato. Greer Nelson já fora uma
mulher humana normal, até que um ritual místico a transformou em uma guerreira do
Povo-Gato. Sua força e agilidade eram muito maiores do que de um humano. E, pelo que
Capitão sabia, suas paixões também.
Capitão sabia de homens e mulheres que se envolviam casualmente, de forma quase
negligente, em situações de guerra. Correspondentes, empreiteiros civis, às vezes até
soldados. Ele nunca se permitira tal indulgência. Mas…
– Tive notícias do Gavião Arqueiro ontem – contou Tigresa.
Capitão piscou.
– O quê?
– Ele está indo bem. Deram a ele um time de heróis para treinar. Ele me pediu pra contar
pra você.
Capitão franziu a testa e virou de costas.
– Capitão – ele virou; o tom de voz de Tigresa agora estava diferente, mais suave. – Qual é
o seu objetivo?
Ele apontou para a tela.
– A prisão…
– Não, não é isso que estou perguntando. Quero saber… no final, o que estamos tentando
conseguir? O Registro é a lei. Independente do que aconteça, eles simplesmente irão nos
caçar pra sempre, certo?
– Leis podem ser derrubadas – ele se endireitou, encarou-a diretamente. – Se
conseguirmos alcançar um bom número de super-humanos trabalhando para nós,
resolvendo problemas e ajudando pessoas em todo o mundo, poderemos vencer as forças do
medo. Acredito nisso. Tenho que acreditar nisso.
Um olhar estranho cruzou o rosto de Tigresa.
– Acho que sim – sussurrou ela.
Ele se aproximou dela, atraído pelo seu cheiro. Ela hesitou, depois foi de encontro aos
lábios dele.
– Consegui, Mon Capitan.
Capitão suspirou. Tigresa riu.
– O que você conseguiu, Justiceiro?
– Especificações, esquemas, todos os tipos de plantas. Estou enviando agora.
– Ótimo – Capitão fez uma careta. – Obrigado.
– Acho que você não vai gostar. O lugar tem mais proteção do que qualquer penitenciária
que eu já vi. Vai precisar de muito mais do que sua pequena equipe de soldados para chegar
lá.
Um aviso de novos dados piscou na frente do Capitão. Ele clicou, e a marca PROJETO 42
surgiu em uma das grandes telas. Plantas começaram a aparecer em rápida sequência, todas
com a marca d’água do Quarteto Fantástico, a inconfundível logomarca com um número “4”.
Capitão olhou para Tigresa. Ela correspondeu com um sorriso brincalhão, mas um tanto
melancólico.
O momento se foi. O feitiço se quebrou.
– Vou falar com os outros – disse ela.
– Recebendo, Castle – Capitão se levantou, olhando seriamente para os dados que
chegavam. – Continue enviando.
CINCO quilômetros abaixo, Sue escutou alguma coisa. Verificou o painel de
instrumentos, se perguntando se uma transmissão de rádio conseguiria alcançá-la ali, oito
quilômetros abaixo da superfície do oceano. O painel estava limpo; nenhuma transmissão
aparecendo. Ainda assim, ela escutava. Um canto fúnebre. Uma melodia sombria, pulsante,
inumana.
Sue olhou à frente, observando através da cabine de piloto do minissubmarino, tentando
ver alguma coisa no meio daquela escuridão. Mas naquela profundidade, tudo era treva.
Peixes mutantes assustadores apareciam e desapareciam, carapaças ósseas brevemente
iluminadas pelos faróis do submarino.
Então, ela se lembrou. Os atlantes são telepatas. Não estava exatamente escutando alguma
coisa – sua mente conseguia sentir os pensamentos deles, vindo de algum lugar na escuridão
à frente. Isso, por si só, era alarmante. Os atlantes continuavam sendo um povo misterioso,
mas nada que o Quarteto Fantástico já tivesse visto indicava que eles podiam transmitir
mensagens a essa distância. Sue já esteve em Atlântida duas vezes, e em ambas as vezes sua
aproximação fora silenciosa e tranquila.
Talvez algo estivesse errado em Atlântida. Se for o caso, pensou Sue, vai ser duas vezes mais
difícil pedir ajuda a ele.
O canto continuou como um parasita grudado em um canto escuro de seu cérebro.
Pelo menos, estou perto.
Uma luz apareceu bem à sua frente, como uma enorme água-viva de pedra ancorada no
fundo do mar. Lentamente, Atlântida se agigantou à sua frente, uma cidade submersa
cercada pelo nada, suas antigas torres rachadas e desgastadas, mas de pé, orgulhosas. A
cidade resplandecia iluminada por magia desconhecida combinada com uma ciência mais
avançada do que a do mundo da superfície.
Um muro de pedra cercava a base da cidade, marcado com cicatrizes de antigas batalhas.
Assim que Sue se aproximou, dois guerreiros atlantes surgiram, aproximando-se
rapidamente de seu veículo. Eles vestiam um uniforme militar escasso que deixava seus
fortes peitorais nus, e capacetes com grandes barbatanas. O guerreiro que vinha na frente
segurava uma longa lança; o segundo carregava uma compacta arma de energia.
Sue procurou em sua mochila e mostrou um amuleto de pedra pelo vidro da cabine de
piloto. Nele havia o selo pessoal do Príncipe Namor, soberano de Atlântida. O guerreiro que
veio na frente examinou o amuleto, assentiu e acenou para o colega. Eles abaixaram as armas
e acenaram para que ela seguisse adiante.
Ela levantou o bico do submarino e seguiu em frente, passando por cima do muro. A
música telepática agora estava mais forte, como se mil vozes repetissem uma oração furiosa.
Mas não conseguia ver nenhum atlante. Da última vez que estivera ali, uma tropa com seis
guerreiros a recepcionara. Hoje, o muro parecia protegido por uma força mínima, e poucos
cidadãos circulavam ali dentro.
Assim que atravessou o muro, ela estacionou o submarino e trancou seus controles.
Colocou um capacete-bolha com suprimento de ar, verificou se seu traje estava hermético e
pegou uma pequena mochila. Então, saiu nadando livremente, dirigindo-se para o centro da
cidade. De alguma forma ela sabia: era lá que a música em sua mente ficaria mais forte.
Passou por uma variedade de estilos arquitetônicos: colunas dóricas, pirâmides
dravidianas, domos bizantinos. Todos diferiam um pouco de seus correspondentes na
superfície, adaptados para as necessidades de uma cultura submersa. Havia entradas em
todos os níveis, até nos apartamentos de cobertura; varandas abriam-se diretamente para o
mar, sem grades. Uma civilização de nadadores não ficava confinada ao chão, e eles não
tinham medo de cair.
Se os gregos antigos podiam voar, pensou Sue.
Ainda assim, ela viu poucos cidadãos. Dois pastores passaram, conduzindo uma fera
aquática que parecia uma toupeira. Dois senhores, ela supôs que fossem juízes, passaram
apressados, claramente atrasados para algum evento no coração da cidade. Mas exceto pelos
dois guardas do lado de fora, não viu mais nenhum guerreiro, a casta que contabilizava
sessenta por cento da população da cidade.
Quando chegou à Avenida de Poseidon, entendeu o motivo.
Milhares de pessoas, a maioria da cidade, enchiam a praça central, flutuando e nadando em
todos os níveis. Pastores, construtores, comerciantes, juízes, e muitos, muitos guerreiros,
seus capacetes com barbatanas brilhavam de tão bem polidos. Seus tons de pele iam do azul
intenso ao verde-mar até um pálido e desbotado amarelo. Sue sabia que ali havia divisões
raciais, tensões antigas que ela não poderia sequer começar a compreender.
Cuidadosamente, murmurando desculpas, ela foi abrindo caminho através do povo.
Muitos paravam para encará-la. Uma mulher com pele cor-de-rosa com um capacete de ar
não era algo comum em Atlântida, e nem muito bem-vindo.
Quando ela chegou à frente da multidão, ela o viu. E todas as suas velhas dúvidas vieram à
tona novamente, junto com um inquietante arrependimento.
O Príncipe Namor flutuava no centro da praça, acenando para a multidão. Seu corpo
musculoso parecia esculpido, como sempre, em uma arrogante pose real. As orelhas
pontudas, as maçãs do rosto proeminentes, até as pequenas asas de seus pés –
absolutamente nada nele havia mudado desde a última visita de Sue. Ela percebeu que o
príncipe estava usando seu traje real, uma túnica azul-escuro aberta para mostrar seu
magnífico peitoral.
A pele de Namor era caucasiana, herança de seu pai humano. Mas apesar do sangue
misturado, os atlantes o aceitavam como seu governante absoluto. Ele parecia eterno, nobre,
o orgulhoso herdeiro de uma antiga linhagem. Logo atrás dele, um caixão transparente
flutuava, brilhando com energia logomântica. O caixão estava vazio.
Namor ensinara a Sue noções básicas sobre Atlântida e o componente telepático da
linguagem deles, e isso permitia que ela o compreendesse claramente. Quando ele falou, seus
olhos arderam de tristeza e ódio.
– Imperius Rex – disse ele. Normalmente, esse era seu grito de guerra, mas naquele
momento parecia mais uma apresentação: Aqui estou, seu rei.
– Vinte e nove dias – continuou Namor. – Uma mudança total das marés desde a morte
violenta de minha prima nas mãos do odioso povo da superfície. E aqui estamos reunidos
hoje, os orgulhosos herdeiros de Atlântida, para executarmos o antigo ritual.
Meu Deus, pensou Sue, Namorita. Ela se esquecera: um membro dos Novos Guerreiros era
parente direto de Namor. Membro da família real.
– Chegou a hora do regresus. O retorno de Namorita… – a voz de Namor ficou levemente
embargada. – Da minha prima ao mar. Assim como todos nascemos das folhas e seres
rastejantes do fundo do oceano, ela deve voltar para a fonte de toda a vida.
– Corrigindo: ela deveria voltar.
Namor apontou para o caixão, flutuando vazio atrás dele.
– Contemplem os restos mortais da minha prima. Não existem. Os homens da superfície
não apenas nos roubaram nossa princesa real, uma luz de alegria em minha vida e na vida de
todos os atlantes. Eles nos privaram de cada pedacinho do que ela foi.
Uma onda telepática se aproximou, tristeza misturada com raiva como uma maré
vermelha. Sue estremeceu e soltou um pequeno gemido involuntário.
Uma mulher azul a fitou e cutucou um guerreiro, que a encarou. De repente, sentiu-se
pálida e exposta.
– Eles enchem nossas águas de veneno – continuou Namor. – Eles derretem as calotas
polares e caçam as espécies até se tornarem extintas. E quando um de nós, a mais doce e
nobre da nossa raça, se aventura a viver entre eles, essa é a reação. Total aniquilação.
Os pensamentos dos atlantes se tornaram mais sombrios e furiosos. Dois guerreiros
apontaram para Sue, cochichando.
– Não pedimos nada a eles, nada além da coexistência. Ainda assim, o ódio deles e suas
brigas insignificantes infestam nosso refúgio, a milhares de quilômetros de distância. Os
super-humanos do continente norte-americano se gabam de seu poder, sua honra, seu
talento em combate e destruição. Ainda assim, neste momento, enquanto eu falo, eles lutam
uns contra os outros por causa de uma questão incompreensível sobre nomes e papéis.
– Escute o que eu digo, meu povo: desejo profundamente que eles se exterminem e deixem
este mundo para nós.
O povo começou a aplaudir, balançando e acenando com suas lanças. Antes que Sue
pudesse reagir, as mãos ásperas de um guerreiro agarraram seu braço, empurrando-a para
frente. Ela cambaleou na água, perdendo o equilíbrio por causa de sua mochila.
– Meu Senhor – gritou o guerreiro –, comece com esta aqui!
Mais dois guerreiros avançaram na direção de Sue. Ela acionou seu campo de força,
empurrando o guerreiro para trás. Mas o coice fez com que ela rodopiasse na água. Não
estava acostumada a lutar submersa; seu campo de força parecia estranhamente difícil de
controlar.
Sue conseguiu chegar até Namor, com o campo de força ainda ativado. Ele resmungou e
estendeu o braço em direção a ela… e, em seguida, arregalou os olhos.
– Susan Storm! – exclamou.
Sue virou-se para ele, acenando um pedido de ajuda. Uma dúzia de emoções passou pelos
olhos escuros e cruéis de Namor. Então, estendeu a mão para ela.
Ela desativou o campo de força e permitiu que ele a segurasse pelo braço. Namor a puxou
com força para o meio da praça. O caixão flutuava pouco acima deles, mantido no lugar –
agora ela podia ver – por jatos de água ligados à sua base.
Namor pegou-a pelos ombros e, bruscamente, virou-a para encarar a multidão.
– Esta mulher – começou ele – é uma das integrantes do mundialmente famoso Quarteto
Fantástico. Ela representa a comunidade super-humana da superfície, em toda a sua sórdida
decadência.
A multidão gritou, querendo sangue, mas se manteve afastada.
– Diga ao meu povo, Susan – Namor a encarava com ódio. – Defenda as ações dos seus
companheiros, dos chamados heróis do seu reino. – Ele apontou para o caixão. Explique
como essa atrocidade aconteceu.
As pessoas levantavam os punhos azuis, brandiam lanças e armas. Mas Sue os ignorava,
mantendo os olhos fixos em Namor.
– Namorita foi assassinada por um supervilão – explicou ela. – Não por um herói.
– Um vilão – o olhar de Namor não vacilou. – Como eu?
Eu estava errada, pensou ela. Ele mudou. Ele se tornou mais amargo, mais ressentido; não há
mais alegria nele. Ainda assim…
… ele não vai deixar que me machuquem.
De repente, Sue ficou muito calma. Pegou dentro de sua mochila um cilindro impermeável
de mármore esculpido.
– Essa urna contém as cinzas de sua prima – informou ela. – Pelo menos, tudo o que
conseguimos encontrar. Infelizmente, não foi muita coisa.
A multidão murmurou, surpresa. Mil olhos assistiram Namor pegar a urna, passar a mão
por sua superfície.
Sue limpou a garganta.
– Namor, eu… eu sinto muito por isso…
– Vashti – Namor acenou bruscamente, e um senhor nadou em sua direção. Namor
segurou seu pescoço em um gesto íntimo e sussurrou algo urgente no ouvido dele.
Em seguida, o príncipe pegou Sue pelo braço e puxou-a com brutalidade em direção a um
grande prédio com um minarete.
– Venha comigo – disse ele.
– Cuidado com as malditas mãos.
Mas ela permitiu que ele a conduzisse. Atrás deles, ela escutou o senhor falando com a
multidão.
– Bem, a cerimônia continuará amanhã. Guerreiros, retomem seus postos…
Namor levou-a por um salão de mármore, passou por uma sala de estar com cadeiras
flutuantes, até seus aposentos reais. Uma cama grande e redonda ocupava quase todo o
quarto, coberta por lençóis à prova d’água. Enquanto ela observava, fazendo uma careta, ele
tirou sua veste e começou a tirar as calças formais.
– Humm…
Ele parou e um rastro do antigo bom-humor apareceu em seus olhos.
– Por que você está aqui, Susan?
Ela apontou para a urna, deixada sobre a cama.
Ele arrancou as calças, revelando sua roupa de uso cotidiano: a sunga verde e escamosa.
– Não me engane novamente.
Ela assentiu, os lábios comprimidos.
– As coisas estão ruins, Namor. Eles promulgaram uma lei para super-humanos, e estão
prendendo quem não a obedece. Já mataram um de nós.
Ele acenou com a mão, dispensando-a, impaciente.
– Nosso… o ataque do Capitão América está marcado para amanhã à noite. Você tem um
dos exércitos de guerreiros mais valentes do mundo. Ter você ao nosso lado poderia significar
a diferença entre vencer e perder.
Namor fitou-a com a expressão indecifrável por um longo momento. Então, ele jogou a
cabeça para trás e riu.
– Você escutou o meu povo – disse ele. – Sentiu sua tristeza, sua raiva. Eu sou o rei deles; a
dor e a indignação que sentem também são minhas. Por que, nos sete mares, eu iria querer
ajudá-los?
– Capitão América é um dos seus amigos mais antigos – Sue podia sentir sua voz vacilar. –
Você lutou com ele na Segunda Guerra Mundial… você o conhece há mais tempo do que
qualquer um.
– E onde está o meu amigo agora? – Namor nadou pelo quarto, fazendo um gesto teatral. –
Planejando insignificantes lutas pelo poder, sem dúvidas. Enquanto manda você vir aqui, para
se aproveitar do nosso relacionamento especial.
Sue se sentiu diminuída, vulnerável ali nos aposentos de Namor.
– Nós não temos um relacionamento – contradisse ela.
Namor fitou-a com atenção, e um sorriso dissimulado passou por seus lábios. Lançou-se
na água, pousando ao lado dela na beirada da cama.
– Muito bem – disse ele. – Vou ajudá-la, Susan Storm.
Alguma coisa no tom de voz dele causou um arrepio na espinha de Sue.
– É Richards, agora – corrigiu ela.
Ele puxou o lençol de cima e apontou para a cama.
– Prefiro Storm.
Toda a raiva, toda a frustração das últimas semanas irrompeu dentro dela. Sue estendeu a
mão e deu um tapa em Namor, com o máximo de força que a resistência da água permitiu. Ele
nem piscou, mas seus olhos ficaram frios.
– Você é um garoto arrogante e mimado que acha que qualquer pessoa ou qualquer coisa
existe para que você possa possuí-la – sussurrou ela. – Que sempre existiram para servi-lo.
– Você gostava disso.
– Eu não terminei ainda. Você não respeita as mulheres, você não respeita nem a si
mesmo. Mas apesar disso tudo, eu sempre achei que você tivesse seu próprio código de
honra, em algum lugar bem no fundo. Alguma coisa que fez com que o seu povo quisesse
segui-lo para onde quer que você fosse. Mas eu estava errada. Este é o seu preço? Você só vai
nos ajudar, salvar seus amigos e aliados de serem presos, subjugados e mortos se, apenas se,
eu concordar em dormir com você?
Ele virou de costas, furioso. Sacudiu os ombros musculosos.
– Fiquei entediado agora.
– Difícil. Isso está sendo realmente muito difícil. Sabe por quê? Porque isso é importante
pra mim. Deixei o meu marido e meus filhos, e essa foi a coisa mais difícil que já fiz até hoje.
Sinto tanta falta deles, sinto falta deles em cada segundo do dia, eu os vejo em todos os
lugares, mas não são eles, é apenas a minha imaginação. E eu não fiz tudo isso, não parti a
minha vida ao meio para vir aqui e me submeter às vontades de um homem-peixe arrogante e
nojento. Eu fiz isso porque era CERTO!
Ela virou em direção a ele, mas ele se afastou. Estava flutuando do outro lado do quarto, o
rosto irado, humilhado.
Eu fiz isso, pensou ela. Fui longe demais. Mesmo se ele estivesse disposto a ajudar, seu orgulho
não vai mais permitir.
Os níveis de adrenalina de Sue despencaram. Sentia-se envergonhada; fracassada. Tinha
vontade de chorar.
Mas apesar de tudo, ela queria que as coisas entre eles ficassem claras. Alguma coisa
dentro dela não podia permitir que sua visita fosse manchada pela desonestidade.
– As cinzas – ela apontou para a urna. – Eu, nós não temos certeza se elas são de Namorita.
O local foi atomizado. As autoridades fizeram o melhor que podiam, mas…
Namor cerrou os dentes.
– … mas de verdade, Namor. Se as cinzas são dela, do Speedball, do Radical ou do Micróbio.
Isso faz diferença?
Ainda assim ele não disse nada. Apenas apontou para a porta, os braços rígidos, os olhos
ardendo em uma fúria gelada.
Então, ela partiu. Afastou-se nadando, passando novamente pela sala de estar e pelo
grande vestíbulo, entrando nas águas abertas de Atlântida. Passou pelos cardumes e grupos
de homens e mulheres anfíbios, fazendo suas tarefas diárias, parando para encará-la com
olhos hostis.
Exatamente como o povo da superfície. Tão pequenos, tão provincianos. Tão cheios de ódios
insignificantes, tão rápidos em demonizar os outros.
Não, pensou ela, há uma diferença. Quando o povo de Namor chora, suas lágrimas são levadas
pelo mar.
– ENTÃO, Namor não vem?
Johnny Storm fechou o celular, balançando a cabeça.
Capitão fez uma careta, tentando não se apoiar em sua perna ruim enquanto caminhava à
frente do grupo pelo corredor. Estava um pouco furioso. Na Guerra do Pacífico, ele viu
Namor atacar uma base japonesa inteira com apenas um homem – o próprio Capitão – o
apoiando. Naquela época. Namor não o deixaria na mão.
– Vamos seguir em frente – disse o Capitão. – Quem mais nós temos?
– Wolverine não vai contrariar os X-Men, então ele está fora. – Falcão consultou seu
tablet. – E a S.H.I.E.L.D. acabou de capturar Hércules perto de Chicago. Eu gostaria de ter
visto isso.
– Isso é muito ruim. Tony já tem um deus grego na equipe dele, seria bom ter um do nosso
lado também.
– Pantera Negra está com a gente – informou Johnny. – Ele ficou louco da vida com essa
história do Bill Foster… Ele e Tempestade disseram que estão do nosso lado.
– Tempestade não é uma mutante?
– Agora, ela também é a Rainha de Wacanda. Acho que isso acaba com a neutralidade dos
X-Men.
– E o Doutor Estranho?
Falcão franziu a testa.
– Disse que tem que meditar sobre a situação. Da última vez que falei com ele, estava
entrando em um transe de oito dias. Eu não contaria com ele hoje à noite.
Capitão deu um soco na palma da mão. Estava ansioso e excitado, como sempre ficava
antes de uma batalha. Principalmente em uma com tantos “se’s” como essa.
– É a primeira etapa do ataque que me preocupa – confessou ele.
Falcão assentiu.
– Precisamos de todas as tropas que conseguirmos. Chamei todas as reservas, Capitão.
Capitão cruzou a porta da sala de reunião. Uma fila de heróis em trajes coloridos esperava
à mesa: Cage, Adaga, Patriota, Célere, Fóton, Arraia, e pelo menos meia dúzia de recémchegados.
Capitão reconheceu as ex-vilãs Áspide e Cascavel entre os outros.
Justiceiro estava sentado sozinho no canto da mesa, limpando meticulosamente dois rifles
semiautomáticos com uma lata de óleo aberta à sua frente.
Capitão sentou-se na cabeceira da mesa; Johnny e Falcão tomaram seus assentos, cada um
de um lado dele.
– Ok, vamos direto ao assunto – ele clicou em um botão embutido na mesa.
Projetores holográficos recém-instalados ganharam vida, e a imagem rotatória de um
esquema elevou-se sobre a mesa. Mostrava um complexo de prédios de vários tamanhos
projetando-se de uma rocha, flutuando em uma versão surreal do espaço sideral.
– Justiceiro conseguiu para nós todas as especificações da prisão da Zona Negativa. É uma
instalação enorme projetada e construída pela Stark Enterprises especificamente para
prender super-humanos. A planta pode ser vista neste esquema tridimensional.
Capitão estendeu as duas mãos para o holograma e o expandiu. A imagem ampliada
mostrou o interior dos prédios, revelando corredores, celas, áreas de exercício e instalações
médicas, tudo cuidadosamente nomeado.
Em volta da mesa, todos os heróis se inclinaram para frente, examinando o holograma.
Fóton franziu a testa.
– Está cheia de supervilões, certo?
– Teoricamente, é para supervilões de alto risco. Mas tem muito super-herói rebelde preso
lá. Muitos dos nossos amigos.
– Stark, Reed Richards e Henry Pym planejam colocar supermarionetes em todos os
estados – comentou Falcão. – Logo haverá cinquenta portais levando diretamente para a
prisão. Neste momento…
Ele apertou um botão e o holograma desapareceu. Uma nova imagem surgiu: a espiral do
Edifício Baxter.
– … só existe um.
– Mas precisamos agir rápido – Capitão se debruçou sobre a mesa, o sangue fervendo nas
veias. – Nossa inteligência sugere que eles estão planejando um ataque violento à
comunidade super-humana rebelde. Usando a S.H.I.E.L.D. e os Thunderbolts. Portanto, esta
noite é a nossa última oportunidade.
Ele olhou em volta da sala. Algumas pessoas pareciam pouco à vontade, principalmente os
heróis mais jovens: Patriota, Adaga e Célere.
– Olha – continuou Capitão –, compreendo que isso seja difícil. Todos vocês estão
acostumados com as batalhas, as adversidades avassaladoras, até a se esconder das
autoridades. O que vocês não estão acostumados é ter que enfrentar outros heróis, pessoas
cujas prioridades, em outras épocas e lugares, seriam exatamente iguais às suas – ele baixou
o olhar por alguns instantes. – Amigos, e ex-amigos.
– Mas vocês têm que estar prontos. Precisam se endurecer, se preparar para o que vem
hoje à noite. Porque se o Homem de Ferro ou Miss Marvel voarem em direção a vocês para
atacá-los, vocês precisam agir com rapidez para derrubá-los de uma só vez. Caso contrário,
vocês serão os próximos hóspedes da pequena prisão alienígena deles. E pior que isso: vocês
decepcionarão todas as pessoas que estão nesta sala.
Tigresa entrou na sala.
– Parece que vamos contar com mais alguma ajuda – ela fez um gesto teatral…
… e o Homem-Aranha entrou. Vestia seu traje original, vermelho e azul com um padrão de
teias de aranha. Ele levantou a mão e acenou timidamente.
– E aí, gente.
Johnny Storm abriu um enorme sorriso e ficou de pé. Foi até o Homem-Aranha e lhe deu
um abraço apertado.
– Nunca mais dê um susto desses na gente, Aranha.
– Você também passou por maus bocados, Palito de Fósforo – Homem-Aranha fez uma
careta. – Dá pra soltar as minhas costelas? Ainda estou um pouco quebrado.
– Ownnn! Sr. Sensível, sempre querendo a atenção das moças.
– Ok, ok – Capitão franziu a testa e os dois se afastaram. – Homem-Aranha, você tem
certeza de que quer participar disso?
– Absoluta, Capitão – Aranha olhou para todos na sala. – Parece que vocês vão precisar de
toda a ajuda que pintar.
Homem-Aranha se sentou perto da porta, em uma cadeira vaga ao lado do Justiceiro, que
olhava para o rifle desmontado e espirrava um pouco de lubrificante no cano de disparo.
– Você… é… carrega isso pra todo lugar? – indagou Homem-Aranha.
– Bem-vindo – Justiceiro sequer levantou o olhar. – À vida, quero dizer.
Capitão apontou para o Edifício Baxter, dando um zoom nos andares superiores.
– Os lugares-chave são aqui e aqui. O laboratório principal de Reed e a sala do servidor.
– Tem uma placa escrito “The Quincunx” – Johnny Storm se debruçou na mesa, franzindo
a testa. – Nunca vi essa sala antes.
– Nós temos que conseguir entrar. Mas é possível que existam defesas que não
conhecemos.
Cage passou um braço em volta de Falcão e outro em volta de Adaga, que recuou.
– Temos alguns poderes aqui.
– Ainda assim. Mesmo com o Homem-Aranha, ainda estou um pouco preocupada com os
números.
Cascavel, uma ex-vilã regenerada, com um traje justo, preto e roxo, ficou de pé.
– Posso ajudar nisso – ela apontou para a porta mais distante, em frente à cadeira do
Capitão.
– Escaravelho Dourado? Saqueador?
A porta se abriu e dois homens entraram. Escaravelho Dourado usava um traje todo
vermelho e dourado, com um capacete que lembrava a mandíbula do inseto. O traje do
Saqueador era das antigas: macacão justo azul e branco com gola alta e máscara que cobria
metade do rosto.
Ambos eram supervilões. Não regenerados como Cascavel e Áspide. Criminosos
procurados.
Capitão suspirou tomando fôlego.
Escaravelho Dourado falou diretamente para o Capitão.
– Não são só vocês que estão com medo de ser presos, Capitão. A comunidade
supercriminosa está mais preocupada que ninguém com os planos de Stark.
– Sério – Saqueador olhou nervosamente para a mesa cheia de heróis. – Só passamos por
aqui para avisar que estamos disponíveis se precisarem. Justo, já que o Homem de Ferro tem
vilões do lado dele, eu…
Uma saraivada ensurdecedora de tiros soou. Capitão ficou de pé a tempo de escutar
Escaravelho Dourado e Saqueador gritarem de dor. Eles caíram para trás, em espasmos, seus
corpos pareciam uma peneira, crivados de balas.
Todos ficaram de pé sobressaltados. Tocha Humana ficou em chamas; Homem-Aranha
saltou para a parede, olhando em volta freneticamente. As mãos de Adaga brilhavam com
poder de luz.
Justiceiro estava parado calmamente, sua cadeira caída atrás dele. Ambos os rifles
semiautomáticos fumegavam em suas mãos.
Homem-Aranha virou na direção dele.
Justiceiro arqueou uma sobrancelha.
– O quê?
A coisa obscura dentro do Capitão fervilhou de novo. Ele contornou a mesa e acertou um
soco na cara do Justiceiro. O Vigilante gemeu, largou as armas e caiu contra a parede.
Capitão o fitou, com raiva. Justiceiro enxugou o sangue de seu rosto e, lentamente,
levantou o olhar. O Capitão estava tenso, pronto para bloquear o próximo golpe.
Mas Justiceiro apenas ficou parado, encostado na parede. Ele parecia confuso, como um
cão que não sabia por que tinha sido castigado.
– Seu assassino maldito – murmurou Capitão.
– Eles eram… do mal, Capitão – Justiceiro se esforçou para ficar de pé. – Ladrões.
Assassinos…
– Cale-se!
Capitão deu um chute na mandíbula do Justiceiro. Sangue espirrou na parede. Antes que
Justiceiro pudesse reagir, Capitão estendeu a mão e o puxou para mais perto. O
Supersoldado pressionou seu escudo contra a garganta do Justiceiro, tirando apenas no
último segundo antes de quebrar seu pescoço.
De repente, todos estavam em ação. Alguns heróis correram para os corpos mortos dos
vilões; outros rodeavam Capitão e Justiceiro. E outros saíram da sala em busca de ajuda
médica. O holograma continuava em cima da mesa, esquecido em meio ao caos.
– Capitão – chamou Falcão.
Mas Capitão América mal o escutou. O mundo se estreitara, se tornando um minúsculo
túnel de batalha. Nada de Lei de Registro, prisão secreta, Resistência e Thunderbolts ou
Projeto dos Cinquenta Estados. Apenas Capitão – o Supersoldado – e seu inimigo. Um
assassino em massa com uma camiseta de caveira, encostado na parede, sangrando e ferido,
bem à sua frente.
Só eu, pensou Capitão, e meu maior erro.
Ainda assim, Justiceiro não moveu um dedo contra ele.
Capitão se preparou para dar outro soco.
– Lute, seu covarde!
Justiceiro balançou a cabeça, recuando.
– Não… – Ele cuspiu sangue. – Não contra você.
Capitão o encarou por um longo momento. Então, abaixou o punho.
– Tirem-no daqui – ordenou Capitão. – E joguem as armas dele no incinerador.
Tigresa acenou. Patriota se juntou a ela, e eles pegaram Justiceiro, cada um por um braço.
Justiceiro não moveu um dedo contra eles.
– Vamos… é… – Cage fez um gesto. – Vamos chamar os médicos. Pedir para que retirem
esses corpos.
Patriota se aproximou do Homem-Aranha.
– Por que será que ele não revidou contra o Capitão?
– Os dois são soldados. Provavelmente, Capitão foi a razão para Justiceiro ter se alistado.
Mesmo cara, guerras diferentes.
Capitão se virou para eles, fitando o Homem-Aranha com olhos furiosos.
– Errado – contradisse ele. – Justiceiro é louco.
Homem-Aranha assentiu, um pouco rápido demais.
– Eu sei, Capitão, sei que ele é.
Capitão virou de costas, os punhos fechados. Fechou os olhos com força, enchendo sua
visão com névoa vermelha. À sua volta, podia escutar macas sendo empurradas, aparelhos
ligados.
– Isso não muda nada. A contagem regressiva para o pré-ataque começa agora – o Capitão
virou-se novamente para encarar o grupo. Equipe Liberdade, encontre-me em dez minutos
para uma reunião estratégica. O resto de vocês: prepare-se.
Ele fitou os rostos reunidos. Todos pareciam alarmados, mais duvidosos do que antes. Os
olhos de Adaga estavam mais arregalados do que nunca; Fóton parecia arrependida de ter se
juntado ao grupo. Cage colocara os óculos escuros, encarando Capitão com os lábios
comprimidos.
Falcão não estava olhando para ele.
Eles não são um exército, Capitão se deu conta. São indivíduos, acostumados a trabalhar
sozinhos ou em pequenos grupos. E hoje eles vão enfrentar toda a força da Stark Enterprises, da
S.H.I.E.L.D. e do governo dos Estados Unidos.
Mas teria que ser o suficiente. Muita coisa depende disso. Nossa própria liberdade e a de
nossos amigos. O futuro do nosso próprio modo de vida.
Esta noite, de uma forma ou de outra, o futuro seria decidido.
OS músculos do Homem-Aranha estalavam; seu pescoço doía. Uma
névoa ainda enchia sua cabeça, resquício das granadas do Polichinelo. Seu sentido de aranha
disparando quase constantemente, avisando-o do perigo em cada esquina.
Mas em algum momento no caminho para o Edifício Baxter, ele percebeu que se sentia
bem. Havia bastante tempo que não se sentia tão bem. Talvez fosse o traje, a leveza do velho
vermelho e azul. O uniforme que ele mesmo costurou, poucos dias depois de a aranha
radioativa ter picado o adolescente Peter Parker.
Ou talvez, pensou ele, seja porque finalmente estou do lado certo.
– Vamos logo, enquanto somos jovens, Parker? Pelo menos alguns de nós…
Ele seguiu Johnny Storm pelo painel de acesso escondido, instalado ao longo da parede do
corredor.
– Pega leve, Palito de Fósforo. Metade dessa “Equipe Liberdade” já…
Ele congelou, o gracejo morrendo em seus lábios.
A sala escondida – Quincunx – era uma esfera praticamente perfeita, com uns quatro
metros de diâmetro, e grande o suficiente para comportar quatro ou cinco pessoas. As
paredes, chão e teto eram inteiramente formados por placas brancas triangulares,
arrumadas em uma sequência perfeita. Como dois domos geodésicos unidos, um em cima do
outro, para formar uma bola gigante.
– Um icosaedro – exclamou Homem-Aranha. – É um icosaedro.
– É meeeeeesmo, Aranha.
Luz azul e branca iluminava o ambiente, cintilando fracamente dos painéis triangulares.
Havia apenas um único banco de madeira no centro do lugar.
– Como eu já disse – falou Johnny. – Nunca nem ouvi falar desse lugar.
– Ou você não estava escutando quando Reed falou.
Johnny sorriu.
– É possível também.
Homem-Aranha saltou, pousando na junção entre duas placas da “parede” da sala. Suas
mãos enluvadas tocaram e grudaram instantaneamente às placas com seu adesivo natural de
aranha. A sala o deixava desorientado; era difícil saber onde, ou como, ficar.
Um brilho chamou sua atenção. A placa embaixo de sua mão acendeu com um menu:
ESPERANDO COMANDOS
ENTRE COM SENHA/DIGITAL/RETINA
O mesmo menu piscou em outras três placas, as que estavam sob sua outra mão e suas
botas. Ele apontou para os pés de Johnny; a mesma coisa tinha acontecido onde ele estava.
Johnny tirou uma luva e esticou a mão. Quando tocou a placa da parede, uma tela se
acendeu rapidamente, depois mudou para:
ID CONFIRMADA: JONATHAN STORM
ACESSO PERMITIDO
A placa se abriu, revelando uma série de dispositivos e fios. Johnny deu de ombros, acenou
para que o Homem-Aranha olhasse.
– De acordo com os planos roubados pelo senhor “Atira À Queima-Roupa”, essa sala
controla todo o acesso aos laboratórios e ao portal da Zona Negativa – Homem-Aranha
esticou a mão para os dispositivos. – Vamos ver o que este aqui faz.
Johnny colocou os dedos nos ouvidos, jocosamente. Aranha revirou os olhos e acionou o
dispositivo. Uma tela se acendeu no painel anexo.
VOCÊ ACABOU DE DESATIVAR O ROBÔ BABÁ H.E.R.B.I.E.
DESEJA PROSSEGUIR? S/N
Homem-Aranha e Johnny deram de ombros. Johnny clicou em SIM.
Do outro lado da sala, já no nível do teto, outra placa se abriu. Homem-Aranha franziu a
testa, saltou para pousar na parede curvada. Mais uma vez, outra placa acendeu ao lado da
que estava aberta.
CONTROLES ADIOCIONAIS DE BABÁ DISPONÍVEIS.
DESEJA CONTINUAR? S/N
Homem-Aranha olhou para Johnny.
– Não entendo essas coisas. Como uma pessoa normal consegue operar esses controles?
Vou ter que pular pela sala toda.
Johnny franziu a testa por um momento, então estalou o dedo. Uma pequena chama se
acendeu, como se saísse de um isqueiro.
– Não foi feito pra uma pessoa normal. Foi feito pro Reed – Johnny apontou para o
pequeno banco. – Os membros deles são elásticos, lembra? Ele pode se sentar ali, esticar o
pescoço por toda a sala pra ler as telas, e trabalhar com um controle em cada braço alongado.
E talvez até com os dedos dos pés. Ou…
– Vamos parar nos dedos dos pés. Mas sim, isso faz sentido. – Homem-Aranha fechou a
placa aberta, saltou de volta ao chão. – Falando de Reed…
– Ele está em Washington, com certeza, atualizando o comitê do Congresso.
Johnny estendeu a mão, tocou em outra placa.
DEIXANDO A SALA BLOQUEAR CONTROLES
DESEJA CONTINUAR? S/N
Johnny suspirou.
– Vai demorar um pouco pra gente entender.
– Então é melhor começar logo – Homem-Aranha estendeu a mão para uma placa aberta e
começou a mexer nos fios. – Cada minuto que perdemos, aumenta a chance de toda a
Resistência cumprir uma longa pena na Prisão 42.
Capitão estava uma pilha de nervos. Cada passo da operação estava por um fio. Sue
Richards conseguira deixar o grupo todo invisível tempo suficiente para passar pelos guardas
da S.H.I.E.L.D. do lado de fora do Edifício Baxter. E foram capazes de entrar e subir sem
serem detectados graças às informações roubadas pelo Justiceiro.
Mas houve alguns momentos críticos. Os poderes de Sue conseguiam manter um grupo de
heróis invisível, mas não conseguia mantê-los quietos. Um espirro de Adaga quase os
denunciara.
Agora estavam espremidos em um corredor, quase duas dúzias de super-heróis renegados
tentando ser discretos. Era quase engraçado. Sue mantinha as mãos na cabeça, de onde
escorria suor por causa da tensão de manter um campo de invisibilidade tão amplo.
Capitão se aproximou dela.
– Só mais um pouco, Sue.
Ela assentiu.
Dois agentes da S.H.I.E.L.D. faziam guarda na porta do laboratório de Reed. Capitão
acenou para Cage e Adaga, e os dois se moveram. Adaga disparou adagas de luz em um dos
agentes, estilhaçando sua arma e o atordoando. Cage deu um pesado passo para frente e
golpeou o estômago do segundo agente. Ele se curvou de dor, deixando a arma cair. Cage
finalizou com um decisivo golpe na cabeça.
O Capitão correu e pegou o agente antes que ele caísse no chão. Tirou a luva do homem
inconsciente e levantou sua mão até a placa na porta, que se abriu.
Cage sorriu.
– Entramos, baby.
Capitão assentiu, acenou para que o grupo o seguisse.
O laboratório de Reed estava tão cavernoso quanto sempre esteve – e ainda mais
bagunçado. Quadros brancos, equipamentos e papéis estavam espalhados por todo o lugar.
Líquidos borbulhavam de tubos de ensaio, restos de experimentos esquecidos.
Sue vacilou.
– Capitão?
– Pode desativar o campo, Sue.
Ela desmoronou em cima de uma mesa, exausta. A Resistência apareceu.
O Capitão franziu a testa. Alguma coisa estava errada ali; tudo estava sendo fácil demais.
Apenas dois agentes da S.H.I.E.L.D. para proteger o único portal da Zona Negativa na Terra?
Falcão passou pelo Capitão ao lado de T’Challa, o Pantera Negra. Como governante da
nação africana de Wakanda, Pantera já havia trabalhado com o Quarteto Fantástico diversas
vezes e conhecia seus sistemas.
– Obrigado por vir, T’Challa. Sei que é interesse de Wakanda se manter neutro.
– Esqueça isso, amigo – T’Challa baixou a máscara que escondia o rosto, revelando traços
nobres. – Se eu tivesse atendido ao seu primeiro chamado, talvez nosso amigo Bill Foster
estivesse vivo. Como minha esposa bem me lembrou.
Ele abriu um sorriso triste para os outros heróis que estavam na sala. Tempestade, a deusa
do clima dos X-Men e esposa recém-casada de T’Challa, abriu os braços, concordando com o
marido com uma pequena explosão de raios.
Falcão acompanhou Pantera até o portal da Zona Negativa, que estava escuro e tranquilo.
Capitão se juntou a eles.
– O que você acha, T’Challa?
Pantera franziu a testa, digitou algo em um teclado embaixo da tela escura.
– Está desligado – informou ele. – Nenhum sistema ativo, nenhuma energia passando por
ele.
Falcão se virou para Capitão.
– Alguma coisa está errada. As informações do Justiceiro diziam que ele ficava ativo o
tempo todo.
– É verdade. A não ser quando estamos esperando invasores.
Capitão virou-se na direção da voz. Uma parede inteira zuniu e começou a se abrir,
revelando uma grande sala. Luzes se acenderam iluminando o laboratório normalmente
escuro.
Na outra sala estava a Mulher-Hulk. Miss Marvel. Gavião Arqueiro. Estatura, com mais de
dois metros de altura e cheia de determinação. Senhor Fantástico.
Os Thunderbolts estavam com eles: quatro supervilões, cada um deles era uma arma viva.
Mercenário, o mestre da pontaria. Lady Letal, assassina cibernética. Venom, um criminoso
insignificante possuído por um alienígena, sua língua comprida pingando ácido. Treinador, o
técnico dos supervilões.
Novos aliados também. Magnum. Capitão Marvel, o recém-ressuscitado guerreiro
alienígena. Mulher-Aranha. Doutor Samson. O Sentinela, flutuando e brilhando com poder
sobrenatural. Hermes, o deus grego de velocidade incrível. Até Henry Pym estava vestido
como Jaqueta Amarela, sua última identidade como herói.
E mais: novos recrutas, diretamente dos campos de treinamento da Iniciativa. Trajes azuis,
vermelhos e amarelos; um mar de novos rostos jovens, voadores e cibernéticos, mutantes,
alienígenas e lutadores comuns. Jovens e velhos, pretos e brancos, marrons e também de
outras cores, raças nunca antes vistas na Terra.
Liderados, como sempre, pela armadura cintilante vermelha e dourada. Ele deu um passo à
frente.
– Tony – disse Capitão.
Capitão acenou com o escudo para que a Resistência recuasse. Todos se posicionaram atrás
dele, encarando os recém-chegados.
A voz do Homem de Ferro estava calma.
– Você caiu em outra armadilha, Capitão. Desta vez, temos alguns aliados extras nos
ajudando.
Capitão lançou um olhar furioso para os Thunderbolts.
– Vocês devem estar muito orgulhosos.
Mercenário arregalou os olhos e abriu um sorriso cruel. Venom passou sua língua
comprida e faminta pela boca grotesca.
– Tínhamos um espião infiltrado no seu grupo o tempo todo – continuou Tony. – Agora,
seria uma boa hora para se entregar.
– Se está falando de Tigresa, já sei.
Tigresa olhou para o Capitão.
– Como?
Capitão virou-se para fitá-la, com uma mistura de sentimentos.
– Você exagerou um pouco na sua interpretação lá no nosso quartel-general. Mas me fez
um favor.
Tigresa encarou Capitão, um indício de arrependimento no olhar. Então, ela saltou, leve
como uma pluma, para o outro lado da sala, para ficar ao lado do Homem de Ferro.
– Sou uma Vingadora – afirmou ela.
– Isso não importa – interrompeu Tony. – Mesmo que algumas das informações que
recebemos do Capitão sejam falsas, ainda temos todas as cartas. Esse pequeno movimento de
“ocupação” acabou. Agora.
Capitão América olhou para trás, para sua tropa. Cage e Falcão pareciam furiosos, prontos
para a batalha. Fóton, Arraia, Patriota, Adaga, Célere, Áspide, Cascavel e os outros: todos
pareciam realmente unidos naquele momento. Toda a hesitação desaparecera. Ele sabia que
lutariam por ele até o fim.
Eles não serão suficientes. Mas talvez não seja necessário.
Capitão deu um passo à frente, encarando cheio de raiva as lentes cintilantes que cobriam
os olhos do Homem de Ferro. Sentiu-se forte, feroz, imbatível. Como Davi contra Golias,
como George Washington na sua travessia pelo rio. Podia ouvir a cavalaria se aproximando,
os fuzileiros prestes a invadir a praia.
Os sons da liberdade.
– Seja razoável – ponderou Tony. – Para cada homem seu, temos dois. Como espera nos
derrotar?
Capitão se manteve firme. Não se mexeu, nem piscou.
– Um passo de cada vez – lentamente, um sorriso sombrio se abriu em seu rosto. – Um
tijolo de cada vez.
A Mulher Invisível entrou na sala Quincunx. Johnny e HomemAranha
viraram em direção à porta, procurando freneticamente. Homem-Aranha saltava,
olhava para cima, para baixo, em volta.
– Mana? – chamou Johnny.
Sue se permitiu ficar visível.
– Isso. Escutem, estamos encrencados.
– Não brinca – Johnny apontou para os painéis abertos, perto do nível dos olhos, na
parede oposta. – O sistema de arquivos de Reed é tão enrolado quanto os membros dele.
Homem-Aranha apontou para uma tela mostrando uma confusão de diagramas de
circuitos eletrônicos.
– Além disso, esse velho emulador de Atari trava toda hora comigo. Nunca vou conseguir
realizar o meu sonho de infância de ser campeão mundial de Centipede.
Sue analisou a variedade de painéis. Seis painéis adjacentes tinham se acendido até formar
uma tela contínua, mostrando um esquema da prisão da Zona Negativa. Pequenos ícones de
informação flutuavam em cima de cada cela individual; ela tocou uma, e apareceu a etiqueta
DEMOLIDOR. Várias placas ao redor estavam abertas, revelando um arco-íris de fios
multicoloridos, tomadas e microcircuitos.
Johnny apontou para o esquema.
– Conseguimos acessar remotamente o computador central da prisão. Até conseguimos
separar as celas com heróis daquelas com vilões.
– Sério – Homem-Aranha colocou a mão no ombro do Johnny, de forma arrogante. – Nós
fizemos um ótimo trabalho.
Johnny o ignorou.
– Mas não aceita nenhum dos nossos comandos. Conseguimos ver as celas e quem está
dentro de cada uma, mas não podemos fazer nada.
Sue estendeu a mão para um painel aberto e moveu um interruptor.
– Isso deve nos levar ao chaveiro virtual do Reed.
Johnny virou a cabeça para ela.
– Você já tinha estado aqui antes?
– Claro. Eu e Reed gostávamos de vir aqui para… – ela parou, deu um sorriso maroto e
virou de costas. – Esquece.
– Não acredito. Não acredito.
Homem-Aranha escalou a parede da sala, esticando o pescoço para ver a tela.
– Não se incomode comigo. Só uma mosquinha na parede.
Sue suspirou. Era como ter dois irmãos mais novos.
Acessou outro painel aberto e moveu outro interruptor. Uma das telas piscou, mudando
para uma longa lista de palavras.
ATTILAN PLAYGROUND
GAMMA GAMMA KREE
INITIATVE RUSCH
FIVE FIREFLY FILLION
DOUBLE DUTCH ALEC
BALLMER WOZNIAK BETA
Sue continuava descendo a tela e xingando.
– Mana? O que é isso tudo?
– É a lista de senhas do Reed. Uma delas é a que precisamos – ela franziu a testa. – Mas não
sei qual delas.
Johnny deu um tapa na testa.
– É o que dá o Reed trabalhar sozinho, último nível de segurança. Tem centenas de senhas
aqui, e só ele sabe qual delas o sistema vai aceitar.
ECHO MACK BENDIS
ALPHA ALONSO ALPHA BETA
LARRY MAC NIVEN
TERA BYTE GEO
HESTER PRIN PHILIP
Homem-Aranha balançou a cabeça, olhos fixos na tela.
– Estou me sentido disléxico.
– Isso é sério, rapazes. Tony Stark nos pegou novamente em uma armadilha, lá no
laboratório. Ele e Capitão estão lá fazendo aquela coisa, de ficar um rondando o outro como
pistoleiros.
Homem-Aranha suspirou.
– Isso não acabou bem da última vez.
– Consegui fugir antes que Reed me visse. Ele não está fora da cidade… Pelo visto, outra
coisa que ele não me disse.
OCTO DECA MEGA
MILLER SIN MILLAR
HAWKING NEGATIVE Z
SIERRA CHARLIE PEGGY LIPTON
RUNCITER TAVERNER ELDRITCH
Homem-Aranha deu um salto no ar, assustando Sue e Johnny.
– Aquela ali! – gritou ele.
Sue franziu a testa.
– O quê? Qual?
Ele apontou com um dedo enluvado para a tela.
– Aquela ali! É essa!
Johnny olhou para ele.
– Peggy Lipton?
– Atores de TV da década de sessenta. Confie em mim!
Sue voltou para a tela principal, o esquema da prisão. Abriu um teclado virtual e começou a
digitar.
Percebeu que estava prendendo a respiração. Capitão e os outros estavam à mercê de Tony
naquele momento. Se a senha não funcionasse…
A tela piscou uma vez, e por um terrível momento, Sue pensou que não conseguiria mais
acessar o sistema. Então, o esquema reapareceu, com as palavras transparentes sobrepostas:
ACESSO PERMITIDO
– Conseguimos! – Johnny bateu palmas. – Eu tinha certeza de que nós conseguiríamos.
– De novo com essa história de nós?
Sue os ignorou. Esticou o braço e começou a tocar na tela, clicando nas celas individuais.
Uma a uma, elas ficaram verdes. Ela clicou e deu um zoom no esquema, girando a prisão,
verificando a etiqueta de casa cela cuidadosamente.
– Agora o portal – disse ela. – E aí estaremos…
Um alarme alto disparou, assustando-a. Em toda a sala, a luz ficou fraca. Sue olhou em
volta e viu: todas as telas, com exceção daquela em que ela trabalhava, exibiam em vermelho a
palavra ALERTA.
– Acho que a Equipe Liberdade acaba de se tornar pública – disse Homem-Aranha.
– Isso não importa – Sue se virou para eles. – Preciso ficar aqui, terminar de ativar a
sequência do portal. Vocês dois vão para o laboratório ajudar o Capitão.
– Mana…
– Acredite em mim, Johnny. Vocês estarão correndo mais perigo do que eu.
Ela se voltou para a tela, retomando sua tarefa. Um menu de comando identificado como
PORTAL ZONA NEGATIVA apareceu à sua frente.
Johnny deu um beijo na cabeça dela.
– Vamos lá, Aranha. Vamos bancar os heróis.
– Isso – Sue fez uma careta, estremecendo enquanto o alarme continuava. – E quando
virem Reed, deem um tapa na cara dele por mim.
Tony Stark vencera. Suas forças se espalharam lentamente, cercando a autodenominada
Resistência. As forças do Capitão se mantinham firmes, sem se mover. Mas não havia dúvida:
eles estavam presos no laboratório de Reed.
Cada passo dessa operação tinha sido planejado, treinado, verificado e checado novamente.
Os Vingadores experientes formavam a linha de frente; os Thunderbolts davam apoio, suas
tendências assassinas controladas pelas nanomáquinas correndo em suas veias. Um pequeno
exército de recrutas da Iniciativa estava posicionado ao redor, formando um círculo. E se, por
um acaso, algum rebelde conseguisse escapar, os helicópteros da S.H.I.E.L.D. estavam
sobrevoando o edifício, esperando para capturá-los.
Não havia para onde correr, não restava qualquer saída para os rebeldes. Ainda assim, ali
estava o Capitão América, fitando-o cheio de ira no olhar. Olhos como gelo negro. O sorriso
de um cadáver.
Tony queria muito, muito mesmo, atingi-lo.
Tony levantou sua viseira, forçando-se permanecer calmo.
– Se você sabia sobre Tigresa – disse ele devagar –, por que permitiu que ela continuasse
trabalhando com vocês?
– Se eu revelasse que sabia, vocês teriam agido contra nós antes.
– Mas ela trouxe vocês até aqui. Ela nos contou todo o plano.
Capitão fixou os olhos negros em Tigresa.
– Não todo.
– Pelo amor de Deus, o que vocês querem? – A raiva fervilhava; Tony sentiu que estava se
descontrolando. – Eu fiz tudo pra ajudar vocês. Ofereci anistia, mais de uma vez. Convenci o
governo dos Estados Unidos a não prender todos nós! Você sabe o que podia ter acontecido
aqui?
Todos os olhares estavam fixos em Tony. Reed Richards abrira caminho até a frente do
grupo.
– O que vocês querem? – repetiu Tony. – Que todo mundo deixe vocês fazerem o que
quiserem, e danem-se as consequências? Exatamente que guerra vocês acham que estão
lutando?
O olhar furioso do Capitão estava fixo nele, e o sorriso desapareceu de seu rosto.
– Só existe uma guerra.
– Com licença – o pescoço alongado de Reed precipitou-se para encarar Capitão e Tony. –
Cadê a Susan? Eu a vi antes.
– Agora não, Ree…
Um rangido tomou conta do ambiente. Tony olhou em volta, procurando a fonte. Luzes
piscavam, alertas soavam. Uma grande tela se acendeu com as palavras: PORTAL PROJETO
42/ATIVO.
– O portal! – exclamou Tony.
Um pequeno grupo de recrutas da Iniciativa estava ao lado do portal; eles se afastaram,
assistindo enquanto o caos giratório da Zona Negativa surgia. Reed Richards esticou seu
corpo de borracha até o portal.
– Reed! – chamou Tony. – Desligue isso.
Reed observou o portal por um momento. Então a cabeça dele balançou, como se o elástico
tivesse chegado ao limite, e voltou. Esticou o torso até um painel de controle do outro lado do
laboratório.
Mulher-Hulk, Gavião Arqueiro e Magnum: um a um, os Vingadores se viraram para Tony,
olhares questionadores no rosto.
Os rebeldes começaram a se agitar, a flexionar os músculos. Um sorriso cruel apareceu no
rosto de Luke Cage.
– Recrutas da Iniciativa – ordenou Tony. – Mantenham suas posições.
Tony virou-se para Capitão. O rosto do Supersoldado parecia feito de pedra, pronto para a
batalha.
– Qual é o seu plano? – Tony gesticulou desdenhosamente. – Fugir pra Zona Negativa?
– Não exatamente.
Estatura cresceu até atingir três metros de altura e apontou para o portal.
– Olhe, Sr. Stark!
Dentro do portal, contornados por uma névoa antimatéria, vários pontos coloridos
apareceram. Formas humanas e humanoides, todas crescendo a cada segundo, conforme se
aproximavam. Alguns voavam com poderes próprios, outros com minúsculos jatos de
foguetes. Todos em formação, se movendo rapidamente em direção à abertura do portal.
Wiccano. Hulkling. Demolidor. Manto. Valquíria. Gavião Noturno. Hércules. E dezenas atrás
deles.
– As celas – sussurrou Tony.
– Isso deve deixar a luta mais equilibrada – disse o Capitão.
A forma vermelha e implacável do Demolidor se aproximava. As asas do Gavião Noturno
batiam freneticamente, fazendo-o avançar pela matéria escura do espaço da Zona Negativa.
A forma furiosa e negra do Manto vinha à frente dos outros, quase enchendo o portal.
Luke Cage cerrou o punho e socou a palma da mão.
Em seguida, Manto atravessou o portal, sua capa rodopiava pelo ar. Demolidor veio logo
atrás. E depois, os outros. Hércules, o deus grego da lenda, riu quando suas enormes pernas
tocaram o chão do laboratório.
Os rebeldes avaliaram suas chances. O laboratório transformou-se em caos.
Falcão alçou voo. Gavião Arqueiro seguiu correndo, puxando seu arco e mirando para cima
com mãos trêmulas.
– Vamos lá, Falcão – chamou Gavião Arqueiro. – A cruzada do Capitão… acabou, cara.
– Não está me parecendo – disse Falcão.
Abaixo, Wiccano e Hulkling abraçaram Célere e Patriota rapidamente. Em seguida, se
viraram para Estatura, sua ex-colega de equipe. Ela arregalou os olhos, em pânico, e olhou em
volta. Então, Komodo, Casca-Grossa e Arsenal – seus colegas de treinamento – apressaramse
para ficar ao seu lado. Arsenal soltou um potente golpe de energia, e todos se juntaram à
luta.
– Não os machuque – pediu Estatura.
Viúva Negra correu para interceptar o Demolidor. Ele lançou seu cassetete nela e deu um
salto sobre uma cabine de piloto desmontada. Ela foi atrás, ferrões cintilando, olhar
assassino.
Adaga saltou, como num passo de balé, sobre a batalha, pousando bem ao lado de seu
parceiro, que retornava. Sem sequer se olharem, tomaram posição defensiva, um de costas
para o outro. Adaga lançou raios de luz nos recrutas, deixando-os atordoados. Manto
envolveu-os nas profundezas de sua capa.
– Vingadores! – disse Tony. – Não entrem em pânico. Sigam os protocolos…
Ele se virou, um pouco tarde demais. O punho do Capitão atingiu seu rosto exposto,
fazendo-o girar. Tony caiu contra um monitor de computador, estilhaçando-o em uma chuva
de faíscas.
Tony balançou a cabeça, sangue voando de sua mandíbula. Levantou a mão, disparou seu
raio repulsor. Capitão pulou para trás, desviando-se no ar…
… e, em seguida, a porta explodiu se abrindo do lado de fora. Fumaça entrou vinda do
corredor externo, contornando as armaduras dos agentes da S.H.I.E.L.D. Maria Hill vinha à
frente deles, liderando-os até a sala de batalha.
Ainda grogue, Tony estendeu a mão para ela.
– Maria… não. Deixe o meu pessoal…
Mas Hill não estava escutando. Ela fez sinais urgentes com as mãos, posicionando
cuidadosamente seus agentes em volta das batalhas que eram disputadas por toda a sala.
Áspide e Cascavel lutavam, duas contra um, com o poderoso Magnum, em seu traje preto.
Fóton correu para se juntar a Cage e ao Pantera, disparando raios de luz no grupo dos
recrutas pouco treinados. Eles gritaram e se espalharam.
Tony lançou um olhar rápido para o Capitão – exatamente quando um emaranhado de
membros e carne caiu no chão entre eles. Tony deu um pulo para trás, assustado. Quase não
reconheceu os dois deuses, Hércules e Hermes, agarrados e lutando enquanto rolavam pelo
chão. A luta deles era selvagem, mortal, pontuada por gritos de triunfo e uivos de agonia. Eles
riam também.
Os deuses passaram, batendo juntos contra a parede. Quando Tony desviou o olhar,
Capitão já tinha desaparecido.
Rebeldes continuavam a jorrar pelo portal da Zona Negativa. Um mar de fantasias,
vermelhos, azuis, dourados e prateados. Humanos, alienígenas, ciborgues, mutantes. Todos
muito, muito furiosos.
Maria Hill ignorou todos eles. Dirigiu-se diretamente para Reed Richards, que estava
lutando como uma linda rebelde chamada Áspide. O corpo de Reed estava enrolado ao corpo
de Áspide, tirando o seu ar. Ela arfava, atirando lâminas de veneno enquanto ele esticava os
braços e a cabeça esquivando-se.
Com o rosto contorcido de dor, Tony abaixou o capacete e voou na direção deles.
Ao comando de Hill, meia dúzia de agentes da S.H.I.E.L.D. cercou Áspide. Reed Richards
arregalou os olhos; ele se desenrolou rapidamente, lançando fora o próprio corpo como um
elástico – exatamente no momento em que os agentes de Hill abriram fogo contra Áspide
com balas tranquilizadoras. Áspide tropeçou, disparou uma lâmina final e caiu.
– Maria – chamou Tony.
Hill não respondeu. Seus agentes agarraram um assustado Reed Richards, puxando-o
pelos ombros maleáveis até onde ela estava.
– Doutor Richards – disse Hill. – Mostre-me como recuperar o controle das defesas do
prédio.
Reed olhou à sua volta, estupefato. Seus olhos iam do portal da Zona Negativa para as
várias pequenas batalhas espalhando o caos pelo seu laboratório.
– O que eu fiz? – sussurrou ele.
– Doutor Richards. Precisamos fechar aquele portal – ela puxou uma Magnum, encostou o
cano na cabeça de Reed. – Agora.
Reed virou-se para olhar para ela, depois para a arma. Como se eles fossem insetos
invadindo sua experiência selada e estéril.
– Não há necessidade disso – interveio Tony, flutuando logo acima dela. – Reed é nosso
aliado.
Hill abaixou o braço, fitando-o com raiva.
– Reed – Tony planou até pousar. – Ela está certa.
Reed encarou Tony com indiferença por um momento, depois assentiu. Estendeu um
longo braço e apontou para um console, do outro lado da sala.
Tony disparou no ar, observando a batalha. Entre Reed e o console estava a Mulher-Hulk
lutando com a selvagem Valquíria. A espada de Valquíria feriu o ombro da Mulher-Hulk, que
uivou de dor e socou a cabeça da guerreira com as duas mãos.
Tony desviou pelo ar e atirou em Valquíria com os dois repulsores. Val caiu. Mulher-Hulk
contorceu o rosto de dor, mas levantou o braço bom para agradecer a Tony.
Os agentes da S.H.I.E.L.D. passaram por cima de Valquíria, que estava abatida, parando
para atirar um dardo tranquilizante nela, por precaução. Reed levou-os para uma pequena
tela de computador com um teclado acoplado. Por um milagre, ainda estava intacto.
Tony se aproximou do grupo, pousando ao lado deles.
– É este – informou Reed. – Posso desativar o portal daqui.
– Então, faça isso – ordenou Hill.
Tony olhou novamente para a batalha. Estatura e Jaqueta Amarela lutavam juntos,
resistindo ao ataque dos quatro Jovens Vingadores. Uma luta aérea odiosa ocorria no centro
do laboratório, onde o teto era mais alto: Arraia e Falcão Noturno dos rebeldes, ajudados pela
deusa do clima Tempestade, desviavam para evitar as poderosas rajadas de força da Miss
Marvel.
– Tranque esta sala também – ordenou Tony. – Não me importo com quantos criminosos
eles conseguiram libertar da Zona. Se conseguirmos prendê-los no laboratório, vamos acabar
vencendo.
Reed assentiu. Seus dedos se esticaram e digitaram no teclado.
Tony cerrou os dentes. A situação ainda pode ser controlada, pensou ele. Não vai degringolar.
Não pode – não depois de tudo que sacrificamos. E tudo que eu sacrifiquei.
– Reed?
Reed estava com a testa franzida, olhando para a tela.
– Mais alguém está controlando isso. Da sala Quincunx… – ele parou, fitando a tela.
Hill levantou as mãos.
– O quê?
– O padrão dos toques no teclado… eu reconheço.
Com as mãos tremendo, Reed abriu uma janela de bate-papo e digitou apenas uma palavra:
SUE?
Uma rajada de força passou por eles, abrindo um buraco na parede. A janela de bate-papo
mostrava uma resposta breve:
VÁ PRO INFERNO
QUERIDO
– Reed! – Tony segurou-o pelos ombros. – Você pode fazer isso. Você precisa fazer isso.
Reed o encarou por um longo momento. Tony pensou ter visto Reed começar a assentir…
… e, em seguida, alguma coisa bateu nas costas de Tony, fazendo um ruído surdo e
molhado. Antes que pudesse reagir, uma poderosa força o tirou do chão. Ele girou no ar,
botas ativadas na máxima potência – e se viu enroscado em uma teia de aranha grudenta.
– Estou de volta, Cabeça de Lata. E trouxe comigo meu abridor de latas.
Homem-Aranha acertou um soco no capacete de Tony. O Homem de Ferro uivou de dor.
Uma dúzia de alertas disparou na armadura, mas o capacete permaneceu fechado.
Tony estendeu a mão e disparou um raio repulsor no Homem-Aranha. Ele subiu pela
parede do laboratório, desviou – bendito sentido de aranha! –, mas um pouco do raio atingiu a
parte superior de seu torso. Seu uniforme vermelho e azul rasgou, expondo a carne
queimada embaixo.
Tony girou no ar, ainda preso em uma teia de aranha. Disparou raios repulsores do
tamanho de agulhas, lançando-os um a um, lenta, mas eficazmente.
– Devia ter mantido o traje novo, Peter.
– Não podia, chefe. Muito sangue nele.
– LABORATÓRIO CENTRAL DO EDIFÍCIO BAXTER – a voz aguda do computador tomou
conta do ambiente. – SISTEMAS DE SEGURANÇA ATIVADOS. SESSENTA SEGUNDOS PARA
TRANCAR.
– Reed! – gritou Tony. – Mande essa coisa calar a boca. Não precisamos avisá-los…
Homem-Aranha saltou na direção de Tony, os dois punhos unidos. Atingindo-o no peito,
soltando um som estridente, e se afastando com um veloz salto. Tony cambaleou para trás,
ativando os repulsores, mas Aranha estava se movendo rápido demais para ser atingido. O
Homem de Ferro desabou, em meio a um grupo de recrutas da Iniciativa, que se espalharam.
Tony colocou-se de pé – e percebeu que o padrão de luta havia mudado. As forças da
Resistência agora estavam unidas, de costas para a grande janela na câmara lateral. Eles
tinham conseguido formar uma barricada contra as forças de Tony: os Vingadores, os
Thunderbolts e os recrutas da Iniciativa. Além dos agentes da S.H.I.E.L.D.
Os rebeldes não estavam apenas lutando. Estavam lado a lado, em linha reta. Até as forças
aéreas tinham se juntado a eles; Falcão flutuava com Arraia, Falcão Noturno e Tempestade
estavam logo acima da linha rebelde, dando golpes e investidas para impedir que os recrutas
voadores se aproximassem. Tudo com um único objetivo: proteger alguma coisa, ou alguém,
que estava perto da janela.
Em seguida, Homem-Aranha estava em cima de Tony novamente, socando e disparando
teias.
Tony ativou o raio peitoral, configurando-o para a mais alta potência. Aranha voou para
trás, gritando de dor.
– TRINTA SEGUNDOS PARA TRANCAR.
O pensamento atingiu Tony como um balde de água fria: Peter foi uma isca para que eu não
percebesse o que estava acontecendo…
Ele levantou voo. Atingiu Arraia com força, com ambos os raios repulsores e com o raio
peitoral, abrindo um buraco no bloqueio aéreo rebelde.
… ali.
Tony lançou-se sobre a linha, desviando dos raios de Tempestade e dos braços de Falcão.
Então, ele congelou com o que viu:
Capitão América estava parado na frente da grande janela de vidro, golpeando-a com seu
escudo. Ao lado dele, Adaga disparava facas de luz, enfraquecendo o vidro em alguns pontos.
Cage socava em um único lugar, com muita força, sucessivamente. Hércules se jogava contra
o vidro, seu corpo musculoso batendo e voltando, de novo, de novo e de novo.
Johnny Storm se juntara a eles também. Ele disparou bolas de chamas, amaciando o vidro,
chamas amarelas e brancas faiscavam de sua superfície.
Lá fora, além da janela, já havia anoitecido. Milhares de luzinhas iluminavam os arranhacéus
de Manhattan, acesas na fria noite de outono.
Oh, não, pensou Tony. Não, não, não, não…
– QUINZE SEGUNDOS PARA TRANCAR.
– É agora ou nunca – Capitão levantou seu escudo e gritou para os outros: – Liberdade!
– Capitão! – gritou Tony. – Por favor…
Tarde demais. Adagas de luz cintilavam, os punhos fortalecidos nas ruas socavam. Bolas de
fogo ardiam; os músculos de um deus se flexionavam e relaxavam. Capitão América atacou
com seu escudo desferindo o último e decisivo golpe.
O vidro estilhaçou, caindo para fora em milhares de cacos. Capitão América e os outros se
jogaram junto com eles, para o ar.
O ar frio entrou na sala. Com um grito rebelde, o resto da Resistência seguiu seu líder. Eles
correram, pularam e voaram para a noite escura.
Homem-Aranha foi o último, sua teia ancorada do teto. Antes de soltar a linha, e lançar-se
para o céu, ele se virou para Tony e, com o outro braço, fez uma saudação nazista.
Tony pairou, chocado e horrorizado. Noite em Times Square, pensou ele. Tem milhares de
pessoas nas ruas. Milhares de transeuntes inocentes, pessoas que ele jurou proteger. E agora nós
levamos a nossa batalha diretamente para a vida delas.
Fechou os punhos. Isso é ruim, muito ruim. Isso não é mais uma luta fechada; se tornou
pública. O que eu mais tentei evitar, acima de tudo.
– ALERTA: BRECHA NO PERÍMETRO EXTERIOR.
Hill correu embaixo de Tony, fitando a janela estilhaçada, gritando ordens no comunicador
de ombro. Reed esticou-se até ficar ao lado dela, os olhos arregalados em choque. O resto das
forças em treinamento se juntou a eles, olhando para seu líder.
Miss Marvel, forte e leal como sempre, voou até parar bem na frente de Tony.
– Ordens?
Ele passou os olhos pelo lindo corpo dela, depois para suas forças reunidas. Mulher-Hulk e
Viúva Negra, determinadas e certas; Gavião Arqueiro e Reed, divididos por causa dos velhos
amigos. Estatura, Hermes e os garotos recrutas da Iniciativa apenas começando suas
carreiras. Os mortais Thunderbolts, desdenhando e resmungando, armas humanas
controladas pela tecnologia da S.H.I.E.L.D.
Tony virou-se, e então, fitou o céu noturno. Os helicópteros da S.H.I.E.L.D. voavam
baixos, zunindo e girando, aguardando ordens.
Ele estendeu o braço para frente e voou pela janela. Depois, voltou, falando no volume
máximo do autofalante.
– ACABEM COM ELES – ordenou.
– HERÓIS voadores, agarrem um amigo– gritou o Capitão. – Agora!
Um andar atrás do outro do Edifício Baxter passava em uma rapidez assustadora. As luzes
da Times Square se aproximavam, colorindo os heróis em queda com uma surreal paleta de
tonalidades brilhantes.
O Tocha Humana se acendeu. Levantando voo para segurar Sue e Adaga. As asas do Falcão
Noturno batiam furiosamente enquanto ele agarrava Demolidor, Valquíria e Cage.
Tempestade pegou seu marido, e Homem-Aranha atirou teias na parede do Edifício Baxter
para desacelerar a própria queda.
Falcão mergulhou e agarrou Capitão pelos braços.
– Como nos velhos tempos, certo, Capitão?
– Não exatamente – Capitão lançou-lhe um olhar agradecido.
– Consegue me dar mais altitude?
Falcão levantou a cabeça e subiu, carregando seu parceiro junto. Capitão sentiu o ar
noturno em seu rosto, revigorando-o. Olhou para baixo.
O caos da Times Square se estendia em uma fina fatia, carros contornando um triângulo
central com barracas de comidas, áreas de recrutamento militar e de descanso para os
pedestres. Times Square estava cheia de pessoas: trabalhadores e turistas, artistas de rua e
cambistas vendendo ingressos de teatro, todos iluminados pelas luzes da rua e pelos painéis
brilhantes. Pareciam formigas correndo para longe do bombardeio de vidro e dos corpos que
despencavam do Edifício Baxter.
Agentes da S.H.I.E.L.D. treinados para conter tumultos correram para Times Square,
acenando com bastões e arrebanhando a multidão para o sul, contornando mesas de metal
que cercavam barraquinhas de cachorro-quente e de almôndegas. Tiras locais se espalharam
pelas ruas, limpando as principais rotas de carros. Veículos oficiais gritavam para bloquear as
interseções.
Se eles nos deixarem ir embora, pensou Capitão, isso vai acabar logo. Mas se Tony mandar as
tropas dele atrás de nós no solo…
– RELES MORTAIS! – Hércules gritou enquanto passava pelo Capitão e pelo Falcão, em
queda livre. – ABRI CAMINHO PARA O FILHO DE ZEUS!
Rindo, Hércules atingiu a calçada fazendo um estrondo; O pavimento se abriu, pessoas se
espalharam; água jorrou de um hidrante rachado.
Droga, pensou Capitão.
Dois ou três de cada vez, a Resistência pousou no chão da Times Square. Primeiro o Tocha,
com Sue e Adaga a reboque. Tempestade e Pantera. Homem-Aranha se juntou a eles,
disparando teia para conter o vazamento do hidrante.
Capitão acenou, e Falcão voltou para o Edifício Baxter. O buraco ainda era visível na lateral
do laboratório de Reed. Algumas pessoas com trajes coloridos olhavam pelo buraco, mas
Capitão não conseguia distingui-los à distância. Quatro helicópteros da S.H.I.E.L.D. voavam
do lado de fora.
E lá embaixo…
Uma figura cruel com traje azul-escuro e branco saía pela portaria principal do Edifício
Baxter, seus traços iluminados pelos anúncios de teatro da Broadway. O Mercenário.
Treinador, com seu rosto de demônio, vinha logo atrás dele, em seguida Lady Letal. E Venom,
com seu traje escuro inspirado no Homem-Aranha, sua língua inumana lambendo os lábios,
sedento.
Os Thunderbolts. O exército mercenário de Tony Stark, sua própria tropa de supervilões
supostamente controlados. Soltos entre os cidadãos em pânico da cidade de Nova York.
Atrás dos Thunderbolts, heróis saíam em hordas do Edifício Baxter. Mulher-Hulk, Viúva
Negra, Doutor Samsom. Com uma sensação penetrante, Capitão soube: esta batalha ainda
não terminou.
Os Thunderbolts sussurraram rapidamente entre si. Lady Letal apontou seu dedo longo e
estranhamente afiado, e os outros se viraram para olhar. Capitão também olhou e focalizou
o alvo deles: Arraia descia oscilando para um pouso difícil na área azul de pedestres. Ele
carregava Áspide, que lutava para se segurar. Ela escorregou e machucou a perna na
aterrissagem.
– Planar não é voar – disse Capitão.
Falcão olhou para ele.
– O quê?
Abaixo, os Thunderbolts saíram correndo. Serpentearam entre os carros, indo
diretamente até os desorientados Arraia e Áspide. Capitão ficou tenso.
– Lá – ele apontou para os vilões. – Leve-me até lá.
Falcão agarrou Capitão com força e mergulhou. Os outdoors gigantes da Times Square
iluminando sua descida: shows da Broadway, redes de fast-food, equipamentos eletrônicos.
Um documentário chamado: Por dentro de Stamford: Anatomia de uma Tragédia.
– Qual é o plano? – quis saber Falcão.
– Posso cuidar disso sozinho. Vá ajudar os outros.
– Você vai encarar os quatro? São vilões da pesada!
– Preciso que você se certifique de que nosso pessoal está bem. Se eu precisar de ajuda,
grito.
Falcão soltou um suspiro, audível apesar das rajadas de vento. Ele mergulhou de uma
altura de três metros e meio. Capitão olhou para baixo a tempo de ver Venom envolver seu
maleável corpo alienígena em volta de Arraia, fazendo-o cair. Lady Letal e Treinador
agarraram Áspide, ainda desnorteada, levantando-a diante de Mercenário, que estava parado,
lambendo os lábios.
Capitão bateu no braço de Falcão, que assentiu e o soltou.
Capitão mergulhou, despencando sobre os carros que desviavam em pânico. Mais tarde,
ele se lembraria: naquele breve momento, caindo pelo ar em direção aos seus inimigos, ele se
sentiu mais vivo que nunca.
E então, ele caiu com força, atingindo o pescoço de Lady Letal. Áspide aproveitou a
oportunidade, disparando uma carga bioelétrica no Treinador. Ele gritou e cambaleou para
trás.
Mas Mercenário já estava em ação. O assassino, cuja especialidade era usar qualquer
objeto como arma, arrancou a pasta de um assustado executivo. O homem começou a
protestar, mas quando viu o olhar do Mercenário, saiu correndo.
Mercenário abriu a pasta em uma velocidade incrível. Pegou quatro canetas comuns e
disparou-as como mísseis, em direção ao Capitão e Áspide. Capitão mal conseguiu levantar o
escudo para se defender.
Um som gorgolejante o alertou para a situação de Arraia: a língua comprida de Venom
envolvia seu pescoço, sufocando-o lentamente. Capitão apontou, e Áspide assentiu. Ela
estendeu os braços, lançando uma forte descarga de energia diretamente em Venom. O
alienígena estremeceu, contorceu-se em espasmos e soltou sua presa.
Arraia correu até Capitão.
– Valeu – agradeceu ele.
– Nunca abandonaria membros da Resistência precisando de mim – respondeu Capitão.
Áspide sorriu.
– Achei que você se mandaria com Falcão… e o Tocha…
– Vocês todos são a minha tropa. Agora vá ajudar os outros.
Áspide lançou-lhe um último olhar agradecido e saiu correndo. Em seguida, uma luz
chamou a atenção do Capitão. Instintivamente, ele levantou o escudo a tempo de bloquear
um raio do Treinador. Deu um chute para trás, atingindo Lady Letal no estômago um
instante antes de as garras cibernéticas dela agarrarem seu pescoço.
Capitão estava completamente atento aos acontecimentos naquele instante. À sua volta,
pequenas lutas acontecendo: Resistência versus Iniciativa, heróis versus heróis. Alguns
agentes da S.H.I.E.L.D. corriam pela área de pedestres, brandindo suas armas. Civis
apontavam em pânico, correndo para se protegerem. Carros desviavam e batiam em postes,
cantando pneus.
Lady Letal estendeu suas longas garras, arranhando todo o peito do Capitão. Sangue
jorrou.
– Que belo líder rebelde! – zombou ela.
Capitão cambaleou para trás e percebeu: perdi a vantagem.
Antes que pudesse se recuperar, Venom deu um soco no seu estômago.
– Isssssso – Capitão podia sentir seu hálito quente, nojento e alienígena.
– Essa é a lenda viva da Segunda Guerra Mundial? – Mercenário deu um chute alto,
atingindo o rosto do Capitão com sua bota. – Com quem ele estava lutando, Bing Crosby?
A cabeça do Capitão caiu para trás. O mundo flutuava diante dos seus olhos. Tudo à sua
volta girava, trajes multicoloridos lutavam em um balé desesperado. Acima, as luzes de Times
Square oscilavam e piscavam…
… e ele sorriu.
Lady Letal segurou sua cabeça com firmeza, agarrando-a por trás com seus dedos
estranhamente compridos.
– Qual é a graça, Capitão?
Capitão sorriu, mostrando os dentes cobertos de sangue.
– Só estava pensando que meu amigo lá em cima…
Uma figura majestosa desceu do céu noturno. Atrás dele, um dirigível high-tech se abriu…
e dezenas de guerreiros tatuados de pele azul começaram a sair.
– … vai chutar o traseiro de vocês.
O Príncipe Namor descia como flecha, com os punhos fechados. Acenou para trás, para
que seus guerreiros o seguissem.
– IMPERIUS REX!
Novamente, Capitão sorriu.
Agora a Resistência tinha uma chance.
Sue Richards levantou o olhar e viu o arco gracioso da descida de Namor. Sua figura
imponente atingiu Mercenário, primeiro com os punhos, derrubando o assassino no chão. Os
guerreiros de Atlântida vinham atrás, quatro ou cinco cercando Venom, Treinador e Lady
Letal.
Espontaneamente, um pensamento lhe ocorreu: Pelo menos há um homem na minha vida
com quem posso contar.
Ela estava parada, invisível, encostada em uma pequena alcova perto da entrada principal
do Edifício Baxter. Ben estivera ali muitas vezes, depois das reuniões do Quarteto Fantástico,
fumando aqueles charutos fedidos. Antes de ele parar de fumar, claro.
– Homem de Ferro para todas as unidades – Sue olhou para cima e viu a armadura cintilante
de Tony sobrevoando a luta. – Continuem a evacuação da área e restrinjam a batalha ao centro
da cidade. Não quero morte de civis. Repito: NADA DE MORTES CIVIS!
A batalha havia sido retomada rapidamente, ali embaixo, na rua. Do outro lado da
Broadway, Luke Cage e Cascavel lutavam com Magnum, enquanto Miss Marvel, do ar,
disparava flechas de força em Cage. Falcão saltou e mergulhou em cima do Gavião Arqueiro,
que estava parado com seu arco em punho, gritando para seu inimigo. Hércules permanecia
indiferente aos ferrões da Viúva Negra, sorrindo ao ver Mulher-Hulk entrar na briga.
Sue procurou Reed. Conseguiu ver seu corpo esticado com quatro metros e meio de
comprimento, um quarteirão ao norte, envolvendo Patriota e cercado pelas tropas atlantes.
Johnny voava, desviando e disparando bolas de fogo no Capitão Marvel, os dois emoldurados
por um anúncio de lingerie de nove metros.
Uma chuva de vidro caiu sobre Sue – mais escombros do andar de cima. Um grupo de civis
estava encolhido na frente do prédio; Sue ativou seu campo de força, protegendo-os, e a si
mesma, do novo bombardeio. Então, ela escutou um grunhido familiar do outro lado da
Times Square. Abaixou seu campo de invisibilidade.
– Ben!
O Coisa sorriu, aquele sorriso torto que ela aprendera a amar. Ele parou para dar um tapa
na Mulher-Hulk com as costas da mão, lançando-a para longe de Hércules. O deus grego
virou e fitou Ben com um olhar decepcionado.
Ben atravessou a rua com seus passos pesados, os braços abertos.
– Você não achou mesmo que eu ia ficar de fora só comendo croissants, achou? – ele deu
um abraço apertado em Sue. – Temos pessoas para proteger!
Então, ele arregalou os olhos, alarmado. Sue levantou a cabeça e viu…
… uma luz…
… o rosto demoníaco e dissecado do Treinador…
… sua arma de energia, uma luz vermelha piscando…
– SUSAN!
E então, o ar ficou azul. Reed Richards se lançou na frente do tiro do Treinador, que o
atingiu em cheio nas costas. Ele gritou de dor e ficou todo mole, tendo espasmos como uma
lâmina de borracha no ar.
– Reed! – Sue se soltou do Coisa, correndo desesperadamente.
Reed estava desmaiado na calçada, os longos membros estendidos pela rua. O tráfico já
tinha sido praticamente todo desviado; Ben levantou a mão para um ônibus, que freou até
parar, cantando os pneus. Então, ele se inclinou sobre o corpo fumegante de Reed.
– Ih, cara – exclamou Ben.
Sue correu e se agachou para tocar o marido. Era difícil localizar o coração de Reed em seu
corpo alongado, mas ela tinha prática. Apalpou o peito dele, evitando o buraco fumegante em
seu uniforme. Sentiu os batimentos embaixo da palma de sua mão: bu-bump, bu-bump.
Respirou aliviada. Em seguida, virou-se para encarar Treinador, que estava encostado na
parede do Edifício Baxter, recarregando sua arma. Os últimos pedestres haviam fugido após o
tiro; ele estava sozinho.
– Eu pego ele, Suzie.
– Não, Ben – disse Sue. – Ele é meu.
Treinador levantou o olhar, fitou-a com desdém; e então, percebeu o que estava
acontecendo. Arregalou os olhos com medo.
Ela ativou o campo, achatando Treinador contra a calçada. Esmagou-o uma vez, duas
vezes, e de novo, com uma força tremenda.
Quando ela acabou, Treinador estava caído, desmaiado dentro de uma depressão circular
de dois metros, cercado por concreto rachado. Acima, em um anúncio de um musical infantil,
um leão de desenho animado os fitava indiferente.
Ben encarou-a.
– Uau.
Sue se ajoelhou, segurou o corpo alongado de Reed. Um som franco e dolorido saiu de seus
lábios.
Ela levantou o olhar, fazendo uma careta ao ver o caos à sua volta. Heróis voadores
lutavam no ar; batalhas ferozes continuavam acontecendo no solo, eles lutavam com punhos,
armas e rajadas de força. Por todas as direções, as legiões de atlantes de Namor se
espalhavam, ajudando os rebeldes.
A maré estava mudando.
Hércules levantou Doutor Samson no ar, arremessando-o em cima de um ônibus. Turistas
saíram pela porta em pânico, pouco antes de um enorme cientista de cabelo verde bater nas
janelas do veículo. O ônibus tombou, quase atingindo uma velha senhora.
Ben se abaixou para ajudar Reed, mas Sue estendeu a mão.
– Vá ajudar as pessoas – mandou ela. – Estou com ele.
Ben fitou-a, em dúvida. Depois, virou-se bruscamente quando Doutor Samson levantou o
ônibus e o lançou na direção de Hércules, que ria.
Ben tocou rapidamente o ombro dela, e saiu correndo.
Sue passou os braços por baixo do corpo flácido de Reed e o levantou. Seus membros
esticados caíam em ângulos nada naturais. Ele murmurava coisas incompreensíveis
enquanto ela o carregava atravessando o caos. Uma gota de sangue escorreu do lábio dele.
– Burro – sussurrava ela, tentando não chorar. – Que homem burro!
LÁ embaixo, a Times Square era um verdadeiro palco de pancadaria.
Tempestade atirava raios de luz em Miss Marvel, que se esquivava, abrindo talhos no asfalto
a cada golpe. Mulher-Hulk jogou Hulkling em cima de um banco público, estilhaçando-o.
Hércules parecia uma equipe de demolição de um homem só.
Tony Stark sobrevoava, observando o caos. Estava tudo saindo do controle. Capitão,
pensou ele. Por que você está fazendo isso?
– Stark.
A voz soava como uma pontada de dor de cabeça em seu ouvido.
– Fala, Maria.
– Tenho oito batalhões prontos para entrar em ação.
Ele olhou para cima. Mais helicópteros se aproximavam, zunindo furiosamente no ar.
Abaixo, O Centro de Comando Móvel da S.H.I.E.L.D. mergulhava. Era Maria.
– Negativo. Eu posso conter isso.
– Acho que já passamos bastante desse estágio, Stark. Agora existem terroristas
estrangeiros ajudando fugitivos em solo americano. O que dá à S.H.I.E.L.D. autoridade total.
– Que estrangeiro… – ele parou, virou para olhar para baixo. Os guerreiros atlantes
tinham se espalhado por toda a Times Square, armados com lanças e armas de energia.
Alguns deles se intrometeram em uma batalha envolvendo Manto, Adaga, Gavião Arqueiro e
Mulher-Hulk; outro grupo lutava com agentes da S.H.I.E.L.D. no lado leste da avenida. Mais
oito ou nove guerreiros estavam parados triunfantes sobre os corpos dos Thunderbolts.
– Fique em alerta, Maria.
– Stark…
– Que droga! Será que você não pode me dar um minuto?
Tony acionou suas botas a jato na potência máxima e levantou voo. Fez o Centro de
Comando Móvel tremer ao passar por ele, depois passou ziguezagueando entre os
helicópteros da S.H.I.E.L.D. Quando o horizonte estava limpo, mergulhou por entre os
helicópteros e girou para olhar para baixo. Precisava ter uma visão geral da situação.
Como sempre, a vista de Manhattan à noite o deixou sem fôlego. Faróis descendo as
avenidas, milhares de pessoas – milhões – andando pelas ruas. Todas essas vidas, todas essas
almas. Tão gloriosas, mas tão indefesas…
Tony balançou a cabeça. Quando foi a última vez que eu dormi?
De repente, um brilho intenso chamou a sua atenção, junto com um som de colisão. Os
raios de força da Miss Marvel; não dava para saber quem havia recebido o impacto –
Hércules, talvez, ou Mulher-Hulk. Mesmo na altura em que estava, sem ativar suas lentes de
aumento, podia ver os danos que estavam sendo feitos. Não apenas na Times Square, mas ao
redor. Explosões, raios, corpos voando nos prédios. Capacetes pretos da S.H.I.E.L.D.
formavam um perímetro em volta da área de três quarteirões, mas muitos civis estavam
presos dentro da zona de combate.
Uma figura voadora acenou – Sentinela? – e uma enorme explosão levantou fumaça do
meio da Times Square.
O pânico tomou conta de Tony, intensa e repentinamente. Não, pensou ele. Não pode ser
como em Stamford. Nunca mais.
Apontou seus sensores para baixo e ativou o protocolo móvel de caça-capa. Imagens
pipocavam diante de suas lentes: Homem-Aranha e Demolidor enfrentando Viúva Negra e
Capitão Marvel. Cage e Mulher-Hulk, lutando como boxeadores. Falcão em um combate
aéreo com Miss Marvel. Gavião Arqueiro na frente de uma barraca de comida, lutando com…
… Capitão América.
– Alvo – disse ele baixinho. E mergulhou.
Acabe com o cabeça da equipe, pensou ele, e toda a Resistência irá se entregar.
Times Square cresceu à sua vista, inacreditavelmente rápido. Mais imagens de pequenas
lutas: Fóton versus Tigresa. Adaga encurralada contra um muro por Estatura e Jaqueta
Amarela. Hermes movendo-se furiosamente em volta do Tocha Humana.
Capitão América arremessou Gavião Arqueiro por cima de seu ombro. Flechas caíram;
Gavião bateu contra uma mesa de metal, fazendo um estalo. Capitão fitou o corpo
inconsciente do Gavião, começou a falar…
… e, então, Tony atacou.
Mas Capitão levantou o escudo, tão rápido que a armadura de Tony sequer foi capaz de
detectar. O punho de Tony bateu no escudo, que absorveu a maior parte do impacto. Capitão
empurrou seu escudo para frente com força e Tony foi arremessado para trás, voando no ar.
Caiu bem à frente do muro do centro de recrutamento das Forças Armadas dos Estados
Unidos: uma bandeira americana de mais de três metros de altura, bem iluminada, brilhando
na área de descanso dos pedestres.
Tony caiu agachado, encarando o inimigo de frente. A bandeira gigante nas suas costas.
– Eu e você de novo, Capitão.
Capitão encarou-o furiosamente.
– Mas as cosias estão um pouco diferentes agora, Tony.
– Você tem razão. Desta vez, não vou ser derrubado por nenhuma máquina velha da
S.H.I.E.L.D.
Saltou para cima do Capitão, os raios repulsores ativados. Capitão levantou novamente o
escudo, desviando os raios. Mas Tony estava em cima dele, empurrando-o para trás. O
Homem de Ferro levantou o punho coberto por metal e atingiu o maxilar do Capitão.
Capitão uivou, empurrando Tony para longe dele.
– E desta vez tenho mais aliados.
– Está falando daqueles mercenários de Atlântida?
Tony levantou as mãos, ativando novamente os repulsores…
… e então alguma coisa pousou em suas costas, leve como uma pluma.
– Olá, papai. Sentiu a minha falta?
Homem-Aranha. De novo.
Tony girou, encarando furiosamente o escalador de paredes com olhos acesos, brilhando.
Levantou voo, inclinou-se de um lado para o outro, tentando fazê-lo cair.
Embaixo, a van de uma equipe de televisão se aproximava. Uma repórter bem penteada
saiu, gritando instruções frenéticas para um fotógrafo e para os técnicos.
Homem-Aranha agarrou os ombros do Homem de Ferro, um em cada mão.
– Não quer ir mais alto, Tony?
– Se está tentando deixar a minha armadura toda pegajosa, esqueça isso. Posso neutralizar
a sua teia agora.
– Achei que consertaria essa falha – Homem-Aranha pressionou os polegares nas
articulações dos ombros da armadura de Tony. – Mas algumas coisas são mais difíceis de
consertar.
Tony só percebeu o que o escalador de paredes ia fazer quando já era tarde demais. Virouse
abruptamente no ar, mas Homem-Aranha se segurou firme.
– Microcontroladores da sua armadura – disse Homem-Aranha.
– Coisinhas tão delicadas. Lembra que você me disse que estava tendo problemas com eles?
Quando éramos melhores amigos?
Homem-Aranha apertou. Os microcontroladores colocados nas articulações dos ombros de
Tony, estalaram – primeiro um, depois o outro.
– Não conseguiu resolver isso, né?
Os braços de Tony se levantaram, rígidos, e ele caiu do céu. Homem-Aranha saltou pouco
antes do impacto. Tony caiu no chão desajeitadamente, batendo com a placa do peitoral.
Ele arfou, tentando respirar.
Indistintamente, ele percebeu que civis estavam se juntando em volta deles, gravando
vídeos com seus celulares. Pelo menos oito ou nove, suas silhuetas contornadas pela
bandeira gigante.
– Sabe quem podia ter te ajudado com esses microcontroladores? Bill Foster – HomemAranha
debruçou-se sobre ele, as lentes brancas que cobriam seus olhos encheram o campo
de visão de Tony. – Que pena.
Tony se esforçou para ficar de joelhos. Os controladores estavam reiniciando, portanto,
ele estava vulnerável naquele momento.
– P-parsifal – disse ele.
– O que, chefe?
– Parsifal!
Um relâmpago enorme caiu, abrindo o asfalto entre Tony e Homem-Aranha. Aranha
saltou, momentaneamente desorientado. Em seguida, uma mão grande e forte o agarrou
pela cintura e o levantou no ar.
O Todo-Poderoso Thor estava parado como um deus vingativo, balançando a sua presa
entre dois dedos enormes. Seu martelo brilhava na outra mão. Aproximou-se do HomemAranha
e sussurrou:
– LUTAI!
Então, arremessou o Homem-Aranha para o alto, propositalmente sobre o centro de
recrutamento. Aranha se debateu no ar, e caiu atrás do prédio baixo.
Thor foi correndo atrás dele, fazendo o chão tremer a cada passo. Estendeu uma das mãos
para apoiar-se enquanto fazia a curva para contornar o centro de recrutamento, e a parte
com a enorme bandeira – um conjunto de lâmpadas de LEDs vermelhas e brancas – faiscou e
se despedaçou na mão dele.
Dois agentes da S.H.I.E.L.D. olharam para Thor e apertaram os comunicadores em seus
ombros para pedir ajuda. Um pequeno grupo de civis os seguia, com seus celulares-câmeras
levantados para captar toda a ação. Então, todos eles desapareceram atrás das faíscas do
muro do centro de recrutamento.
Do outro lado da Times Square, o corpo de Hércules era lançado contra um prédio
comercial. Cacos de vidro caíram como chuva; uma pequena explosão irrompeu no ponto do
impacto.
A armadura de Tony deu um estalo quando o microcontrolador do ombro esquerdo
finalmente travou. Ele levantou, olhou em volta. Isso é ruim, pensou. Danos de milhões de
dólares. E a Resistência vai lutar até que seu último membro caia.
E, então, pela primeira vez, ele sentiu um tipo diferente de desespero. A mais profunda e
íntima tristeza. Foi longe demais, ele se deu conta. Tudo isso. Não tem como voltarmos atrás,
como desfazermos as feridas, apertarmos as mãos em mútua admiração. Não nos uniremos mais
contra Galactus ou Doutor Doom. Não agora. E nem nunca mais.
Acabou.
Tony olhou para cima e viu Capitão América avançando sobre ele. Sangue no rosto, fogo
nos olhos. Aproximando-se para a última batalha, uma luta final de escudo e aço. Dois
gladiadores que envelheceram antes do tempo, preparando-se para o último assalto no
ringue. Dois homens que já foram amigos.
Tony tentou agachar posicionando-se para a batalha, mas seu braço direito ainda estava
solto. Então, levantou a mão esquerda, ativou os repulsores e preparou-se para enfrentar seu
destino.
Homem-Aranha aterrissou agachado no meio da Broadway. Girou, procurando carros;
mas as autoridades locais tinham finalmente conseguido limpar a rua. Levantou a mão para
disparar teias…
… mas antes que as conseguisse disparar, Thor estava novamente em cima dele, jogando
seu próprio corpo sobre Peter como um lutador. Aranha caiu na rua, sem ar, o corpanzil
musculoso de Thor esmagando-o no asfalto.
Não é o Thor, ele se lembrou. É o clone do Thor. Clor.
Homem-Aranha esticou os braços para trás, pressionando as palmas da mãos contra o
asfalto. Contraiu os músculos e empurrou. Thor saiu de cima dele, e ele se afastou rolando.
Thor levantou o martelo, invocando um raio.
– VIL INIMIGO – disse ele.
Aranha ficou de pé em um salto, desviando dos raios. Cambaleou para trás, quase caindo
em cima de uma curiosa vestida com um terno de trabalho.
– Saia de perto! – gritou ele. – Aquele não é o deus do trovão verdadeiro, mas duas vezes
pior.
– O TROVÃO. É… MEU.
Homem-Aranha parou, analisando Thor por um momento. O clone agora parecia mais
lento, confuso. Aranha em sua direção cautelosamente, pronto para desviar a qualquer
segundo.
– Sabe, Clor… posso te chamar de Clor? Isso é engraçado, sabe? – Peter deu mais um
passo. – Tony tentou fazer de mim uma versão júnior dele mesmo, e não deu certo. Então,
ele criou você. Seu super-herói particular, feito exatamente de acordo com suas
especificações.
O martelo de Thor brilhou. Mas ele não se mexeu.
– O problema é que você também não funcionou muito bem, da primeira vez – HomemAranha
continuava analisando-o. – Sabe o que eu acho, Clor? Acho que eles melhoraram você
depois do episódio da fábrica, te deram o poder da fala, por exemplo. Um passo na direção
certa, mas a sua linguagem ainda pode melhorar.
Uma equipe de televisão de aproximou. Um cinegrafista abriu caminho, posicionando-se
perigosamente perto da batalha.
– Mas acho que talvez eles tenham colocado algum sistema de segurança, também. Acho
que te colocaram uma coleira. Aposto que Tony Stark não iria te deixar solto de novo, a não
ser que ele tivesse certeza de que você não iria começar a massacrar as pessoas.
Thor virou-se para o Homem-Aranha, o martelo levantado. Recuou para arremessá-lo – e
então, seu olhar se voltou para os civis abaixo. Ele se conteve, abaixando o braço.
– Sabe – continuou Homem-Aranha –, eu estava preocupado em te substituir. Não você, o
Thor de verdade. Quando o Tony me convidou pra participar dos Vingadores, eu não sabia se
eu estava à altura pra competir com um deus. Porque eu conhecia Thor. Lutei com ele, cara.
E sabe de uma coisa, impostor?
Homem-Aranha se contraiu e saltou no ar.
– Tu não és Thor!
O clone virou, mas Homem-Aranha já estava em cima dele. Lançou teias que grudaram no
rosto do Thor. O deus do trovão uivou, agarrando os olhos.
Homem-Aranha agarrou o enorme braço que segurava o martelo com suas duas mãos, e o
girou para trás. Thor caiu no chão fazendo um enorme estrondo. Aranha saltou no ar e
acertou o pescoço do clone com os dois punhos.
Um choque elétrico percorreu o corpo do Homem-Aranha. Ele gritou, puxou as mãos e
observou. O pescoço de Thor estava aberto, revelando uma mistura bizarra de tecido
humano, fios elétricos e circuitos faiscando. Os braços do clone se debatiam, sacudindo para
todos os lados.
Homem-Aranha saltou e arrancou o martelo da mão retorcida de Thor.
– E este – disse Aranha – também não é o Mjolnir.
Aranha bateu no pescoço de “Thor” com o martelo. O clone começou a ter espasmos,
arqueou as costas e soltou um uivo metálico. O peito se abriu, revelando sob as faíscas, uma
unidade de força central.
Homem-Aranha deu outro golpe com o martelo diretamente na unidade de força. Puxou a
mão a tempo, quando um curto-circuito grandioso se espalhava pelo corpo mutilado e em
espasmos de Thor.
Thor piscou uma vez, duas vezes. Depois ficou imóvel.
Uma multidão se reuniu em volta dele, olhando perplexa e horrorizada. Aranha se virou
para eles e eles recuaram, quase como se fossem um único organismo. Olhou para baixo e viu
a mancha de sangue e óleo de máquina em suas luvas e peito.
À sua volta, as batalhas continuavam. Cage e o Coisa lutavam contra Mulher-Hulk e
Magnum. Demolidor e Viúva Negra perseguiam um ao outro, subindo e descendo de postes e
bancos, com movimentos letais e precisos. Acima, meia dúzia de fantasiados cambaleavam
pelo ar, raios de força iluminando a noite.
Aranha caiu para trás apoiando-se em uma parede, momentaneamente exausto. Com Thor
acabado, sentiu-se estranhamente calmo, sozinho em um momento particular e importante.
Eu provei para eles, ele se deu conta, que sou tão bom quanto qualquer um deles. Independente do
que Tony Stark, Capitão América ou qualquer um pense.
Fosse qual fosse o resultado desta batalha, haveria um preço alto a se pagar. Se Capitão
vencesse, Peter seria um fugitivo procurado. Se Tony vencesse, ele teria de enfrentar as
consequências. De qualquer forma, o futuro parecia sombrio.
Mas neste momento, o Homem-Aranha era vitorioso. Ele vencera.
Hoje eu sou um Vingador.
Capitão jogou o escudo com força, esmagando o capacete de Tony. A cabeça do playboy
estalou, virando para o lado. Ele soltou um grito de dor abafado.
Mais um golpe, e o capacete de Tony rachou. A viseira se abriu, revelando cortes na pele e
feridas ensanguentadas. Em outra ocasião, Capitão teria sentido pena dele. Mas não hoje.
– Seu playboy arrogante – murmurou Capitão. – Você sempre teve tudo. Nasceu em berço
de ouro.
– Uggggh!
– Eu não. Sou apenas um lutador, um soldado. Um homem treinado para aproveitar
qualquer chance, para encontrar qualquer rachadura na armadura no inimigo.
Tony não disse nada.
Capitão fez uma pausa, apontou para mostrar a confusão à sua volta.
– Está vendo aqueles guerreiros de Atlântida? Eles são a minha cavalaria, Tony. Eles vão
transformar suas forças em comida para peixe.
– A S.H.I.E.L.D. tem… tranquilizantes. Feitos especialmente… para tritões.
Ao norte, os helicópteros da S.H.I.E.L.D. estavam pousando. Agentes saíam pelas portas,
pulando os últimos metros de altura, sem sequer esperar que as aeronaves tocassem o chão.
– Aí, lutaremos com ainda mais afinco.
Tony levantou as mãos trêmulas e arrancou a viseira. Seu rosto sangrava por uma dúzia de
cortes; o lábio estava aberto. Um dos olhos estava quase fechado de tão inchado. Mas
enquanto Capitão o observava, um tipo de paz pareceu tomar conta de seu rosto.
– O que você está esperando? – grunhiu Tony. – Acabe logo comigo.
Capitão parou por um segundo. Então, fechou o punho preparando o soco…
… e uma mão o conteve, agarrando-o pelo ombro, por trás.
– Solte ele, cara!
Capitão girou, batendo com o escudo no atacante.
– Uhhh!
O atacante caiu para trás em cima de uma mesa, batendo a cabeça em uma das pernas de
metal. Capitão ficou de pé em um pulo, depois parou ao ver o que o confrontou.
Um homem usando um agasalho esportivo e óculos. Cabelo curto grisalho, o rosto com
algumas cicatrizes. Mas não era um herói, não era um vilão; nem um Vingador, nem um
membro da resistência. Era apenas um homem comum.
O homem esfregou a cabeça.
– O que você tá fazendo?
Atrás dele, um grupo de outros transeuntes estava parado na frente do painel luminoso
que exibia a bandeira americana. Um executivo com a gravata frouxa. Uma garota alta com
cabelo despenteado. Um homem negro de óculos escuros. Uma mulher japonesa com rosto
anguloso, um bombeiro louro uniformizado. Uma executiva elegante com um terninho feito
sob medida e saltos altos.
Capitão franziu a testa.
– Eu…
O bombeiro apontou.
– Peguem ele!
Em seguida, estavam todos em cima do Capitão, agarrando-o, derrubando-o no chão. Ele
arregalou os olhos, chocado; não conseguiu sequer revidar. Eles subiram em cima dele,
agarrando-o, arrastando-o até a calçada.
Tony Stark tentava se levantar. Capitão podia sentir o olho bom de Tony em cima dele,
assistindo à cena.
– O que você acha que está fazendo? – questionou a mulher asiática.
– Me soltem! – Capitão tentava se soltar, ainda atordoado. – Por favor, não quero
machucar vocês…
– Machucar a gente? – o rosto da executiva parecia chocado. – Você está tentando fazer
graça?
O bombeiro puxou Capitão pelos pés, com força, e gesticulou mostrando o que acontecia
ao redor.
Capitão observou a cena. Heróis lutando contra heróis; agentes da S.H.I.E.L.D. e
guerreiros atlantes trocando tiros; civis correndo em pânico em busca de abrigo. Fogo
queimava em uma dúzia de lugares, de canos de gás, latas de lixos, janelas de escritórios. Ao
norte, metade de um prédio havia caído, bloqueando a rua inteira e metade da calçada.
– As pessoas estão preocupadas com seus empregos, seus futuros, suas famílias – o
homem negro tirou os óculos, fitou Capitão com raiva. – Acha que precisam se preocupar
com isso?
Capitão abriu a boca para responder. E parou, sem palavras.
Lembrou-se das palavras de Tony, da coletiva de imprensa: momento de clareza.
– Oh, meu Deus – sussurrou Capitão.
Falcão passou voando baixo.
– Capitão! – chamou ele. – Aguenta firme, eu vou…
– Não!
– O quê?
Falcão abriu as asas, pousou na frente do painel que exibia a bandeira americana. Os civis
deram um passo atrás, soltando o Capitão.
Tony Stark conseguiu ficar de pé, cambaleando. Cuspiu um dente, mas não fez nada.
– Eles estão certos, Falcão – Capitão abaixou seu escudo, e baixou a cabeça. – Nós
deveríamos… deveríamos lutar pelas pessoas. Mas não estamos mais fazendo isso. – Ele
mostrou à sua volta. – Estamos apenas lutando.
O Tocha Humana surgiu de repente no meio deles.
– O que você está fazendo, Capitão? Quer que eles prendam todo mundo?
– Estamos acabando com eles! – Falcão apontou para uma tropa de agentes da S.H.I.E.L.D.,
de joelhos diante dos guerreiros atlantes. – Podemos ganhar essa!
Capitão virou-se, passou os olhos pelos civis que o atacaram. Seus rostos mostravam
medo, mas também determinação. Eles sabiam que a causa deles era justa.
– Podemos ganhar – repetiu o Capitão. – Tudo, menos a discussão.
Ele levantou o escudo devagar, jogou-o para Falcão. Ele o pegou, surpreso, e o observou
por um longo momento. Depois, virou-se para fitar o Capitão, com um olhar terrível de
traição e acusação. Jogou o escudo no chão e levantou voo.
O escudo rolou pela rua, passando por Cage. Ele não se moveu, apenas balançou a cabeça
quando o viu passar. Gavião Arqueiro correu atrás do escudo para pegá-lo, mas não
conseguiu.
Tigresa o pegou, olhou através de sua superfície brilhante para o Capitão América. Havia
algo em seus olhos que podia ser interpretado como compreensão.
Maria Hill avançou, acompanhada por um guarda da S.H.I.E.L.D. Ao sinal dela, os agentes
miraram no Capitão América. Mas Tony Stark levantou a mão.
Ao seu redor, os heróis estavam reunidos. Pausaram suas batalhas, olhavam para seus
líderes em busca de orientação. Outra tropa da S.H.I.E.L.D. se aproximou, seguida de perto
por dois carros da polícia local.
Namor sobrevoou a cena, parou no ar e olhou momentaneamente para os olhos do
Capitão. Em seguida, balançou a cabeça, levantou a mão e soltou um assobio baixo. Em toda a
Times Square, guerreiros atlantes começaram a se retirar das batalhas.
Lentamente, Capitão levantou a mão e arrancou a máscara. Revelando feridas, cortes e
cicatrizes de décadas.
– Steven Rogers – disse ele. – Forças Armadas dos Estados Unidos, dispensado com honra.
Número de Série RA25-262-771.
Maria Hill se aproximou, seu corpo coberto por couro escuro em contraste com as estrelas
e a parede listrada do centro de recrutamento.
Capitão estendeu as mãos.
– Eu me entrego.
Hill tirou os óculos escuros… era a primeira vez que Capitão a via sem ação.
– Eu… ãh, ele deve ser processado pelas autoridades locais primeiro.
Tony assentiu. Seu rosto estava inchado, indecifrável.
Dois guardas da cidade de Nova York se aproximaram, com os olhos arregalados. O mais
alto pegou as algemas e as colocou nos pulsos do Capitão.
Homem-Aranha se aproximou pendurado em suas teias. Estava gritando alguma coisa,
chamando o Capitão. Mas ele não podia escutá-lo.
Os outros membros da Resistência olharam em volta, fitando os Vingadores e os agentes
da S.H.I.E.L.D., nervosamente. Cage parecia exausto; Johnny Storm estava perplexo. Miss
Marvel pairava logo acima, ao lado do Sentinela. Uma a uma, as batalhas cessaram, os
poderes se apagaram.
Chamas brilhavam ao redor; o som das sirenes dos carros de resgate tomava conta do ar.
Todos pareciam atordoados, paralisados. Ninguém queria dar o próximo passo, dar o
próximo golpe.
O tira apontou para o seu carro. Capitão seguiu em direção à porta aberta, abaixando a
cabeça.
– Não avancem, soldados – Capitão parou, apenas o tempo suficiente para registrar os
olhares chocados e traídos de seus seguidores. – Isso é uma ordem.
A porta se fechou atrás dele, e a Guerra acabou.

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