QUAL É A SUA PROFISSÃO ?
Gillian Flynn é autora dos best-sellers Garota exemplar, Lugares escuros e Objetos cortantes, que
ganhou dois prêmios Dagger. Ex-escritora e crítica da Entertainment Weekly, suas obras já foram
publicadas em 40 países. Ela mora em Chicago com a família.
No suspense tenso que se segue, ela nos mostra que, embora seja sempre bom ter ambições
profissionais, às vezes o plano de carreira pode nos conduzir a um território muito perigoso.
Eu não parei de bater punhetas porque não era boa nisso. Parei de bater punhetas porque era
a melhor.
Durante três anos, bati a melhor punheta da região. O segredo é não pensar demais. Se
você começa a se preocupar com a técnica, analisando ritmo e pressão, perde a natureza
essencial do ato. É preciso um preparo mental antecipado e, depois, tem que parar de pensar e
deixar o corpo assumir.
Basicamente, é como uma tacada de golfe.
Eu fazia homens gozar seis dias por semana, oito horas por dia, com um intervalo para
almoço, e minha agenda estava sempre lotada. Tirava duas semanas de férias por ano e nunca
trabalhava em feriados, porque punhetas em feriados são tristes para todos. Então, durante três
anos, calculo que tenha totalizado cerca de 23.546 punhetas. Portanto, não dê ouvidos àquela
cadela da Shardelle quando ela diz que eu saí porque não tinha talento.
Saí porque, quando você bate 23.546 punhetas em um período de três anos, a síndrome do
túnel do carpo se torna uma realidade.
Entrei para minha profissão honestamente. Talvez “naturalmente” seja a melhor palavra.
Não fiz muitas coisas honestas na vida. Fui criada na cidade por uma mãe caolha (a frase de
abertura das minhas memórias), e ela não era uma senhora legal. Não tinha problemas com
drogas ou álcool, mas tinha problemas com trabalho. Era a vaca mais preguiçosa que já
conheci. Duas vezes por semana, ficávamos nas ruas do centro da cidade, mendigando. Como
minha mãe odiava ser certinha, queria ser estratégica com a coisa toda. Receber o máximo de
dinheiro no mínimo de tempo possível e, em seguida, ir para casa para comer bolo e assistir
reality-shows de tribunal na TV, sentada em nosso colchão rasgado e manchado. (É o que mais
lembro da minha infância: manchas. Não saberia dizer a cor dos olhos da minha mãe, mas
posso afirmar que a mancha no carpete áspero era marrom-escura, as do teto eram alaranjado
queimado e as da parede, um amarelo xixi vibrante de ressaca.)
Minha mãe e eu nos vestíamos combinando com tudo isso. Ela tinha um belo vestido de
algodão desbotado e surrado, mas que gritava decência. Vestia-me com tudo o que não me
servia mais. Ficávamos sentadas em um banco, procurando a pessoa certa para pedir esmola.
É um plano bem simples. A primeira opção é um ônibus da igreja de outra cidade. Os locais
acabam mandando você procurar a paróquia. Quem é de fora normalmente tem que ajudar,
ainda mais se for uma senhora caolha com uma filha de aparência triste. A segunda opção são
mulheres em dupla. (Mulheres sozinhas podem se desviar rapidamente; várias são mais
difíceis de conter.) A terceira opção é uma mulher sozinha que tem aquela aparência receptiva.
Você sabe: a mesma para quem você pede informação ou a hora; é para ela que pedimos
dinheiro. Também homens jovens com barba ou violão. Não pare homens de terno: o clichê
está correto, são todos babacas. Também ignore os anéis de polegar. Não sei o que é, mas
homens com anel de polegar nunca ajudam.
Quem escolhíamos? Não os chamávamos de alvos ou presas ou vítimas. Nós os
chamávamos de Tonys, porque meu pai se chamava Tony e não conseguia dizer não a ninguém
(embora, presumo, tenha dito não a minha mãe pelo menos uma vez, quando ela lhe pediu para
ficar).
Quando você para um Tony, consegue descobrir em dois segundos de que forma mendigar.
Alguns querem que termine rápido, como um assalto. Você fala sem parar: “Precisamos de
dinheiro para comer você tem um trocado?” Outros querem deleitar-se com seu infortúnio. Só
darão o dinheiro se você lhes der algo com que se sintam melhor, e quanto mais triste for sua
história, melhor se sentirão por ajudar, e mais dinheiro você ganha. Não os culpo. A gente vai
ao cinema porque quer se divertir.
Minha mãe foi criada em uma fazenda ao sul. A mãe dela morreu no parto; seu pai
cultivava soja e lhe dava atenção quando não estava muito exausto. Ela se mudou para a
cidade por causa da faculdade, mas seu pai teve câncer, a fazenda foi vendida, o dinheiro
parou de entrar e ela teve que largar os estudos. Trabalhou como garçonete por três anos, mas,
em seguida, apareceu sua filhinha, e o pai de sua pequena foi embora, e antes que pudesse
perceber... havia se tornado um deles. Os indigentes. Ela não estava orgulhosa...
Deu para você ter uma ideia. Esse foi apenas o início da história. Podemos continuar a
partir daí. Você percebe bem rápido se a pessoa quer uma história de superação, do tipo: de
repente, eu virava uma das melhores alunas de uma escola distante (eu era, mas a verdade não
é o que importa aqui), e minha mãe precisava do dinheiro da gasolina para me levar até lá (na
verdade, eu pegava três ônibus sozinha). Se a pessoa quer uma história, dane-se o sistema: fui
acometida por uma doença rara (nomeada em homenagem a qualquer idiota que minha mãe
estivesse namorando: Síndrome de Todd-Tychon, Doença de Gregory-Fisher) e os meus
problemas de saúde nos deixaram falidas.
Minha mãe era astuta, porém preguiçosa. Eu era muito mais ambiciosa. Tinha muita
perseverança e nenhum orgulho. Aos 13 anos, eu mendigava centenas de dólares a mais que
ela por dia e, aos 16, deixei minha mãe, as manchas e a TV — e, sim, a escola — e fui viver
por conta própria. Eu saía todas as manhãs e mendigava durante seis horas. Sabia quem
abordar, por quanto tempo e exatamente o que dizer. Nunca senti vergonha. O que eu fazia era
pura negociação: recebia dinheiro em troca de fazer a pessoa se sentir bem.
Então você pode ver por que a coisa da punheta pareceu uma progressão natural na minha
carreira.
Palmas Espirituais (eu não escolhi o nome do lugar, não me culpe) ficava em um bairro
fino, a oeste do centro da cidade. Cartas de tarô e bolas de cristal na fachada, sexo softcore
ilegal nos fundos. Eu respondi a um anúncio de recepcionista. No fim das contas,
“recepcionista” significava “prostituta”. Minha chefe, Viveca, era ex-recepcionista e,
atualmente, lê o futuro na palma da mão de forma legítima. (Embora seu nome legítimo não
seja Viveca, é Jennifer, mas as pessoas não acreditam que Jennifers possam prever o futuro;
Jennifers podem sugerir um sapato para você comprar ou que mercado orgânico visitar, mas
devem manter as mãos longe do futuro de outras pessoas.) Viveca emprega algumas videntes
na frente e comanda um quartinho nos fundos. O lugar parece um consultório médico: tem
toalhas de papel, desinfetante e uma mesa de exame. As meninas complementam com lenços
drapeados sobre as luminárias e uma mistura de almofadas enfeitadas com lantejoulas —
coisas com as quais apenas mulherzinhas se preocupam. Quer dizer, se eu fosse um cara
pagando uma garota para me masturbar, não entraria no quarto e diria: “Meu Deus, sinto
cheiro de strudel fresco e noz-moscada... Rápido, pegue no meu pau!” Eu entraria no quarto e
falaria muito pouco, que é o que a maioria deles faz.
Ele é um ser singular, o homem que chega para receber uma punheta. (E aqui só fazemos
isso, ou, pelo menos, eu só faço isso — tenho uma ficha criminal por pequenos furtos, coisas
bobas que fiz aos 18, 19, 20 anos, que vai garantir que eu nunca consiga um emprego decente,
por isso, não preciso acrescentar um delito grave como prostituição.) O cara da punheta é uma
criatura muito diferente do cara que quer um boquete ou do que quer sexo. Claro, para alguns
homens, uma punheta é apenas uma passagem para o ato sexual. Mas eu tinha muitos clientes
recorrentes: eles nunca vão querer mais do que uma punheta. Não consideram que seja traição.
Ou, então, se preocupam com doenças, ou nunca tiveram coragem de pedir mais. Costumam
ser homens casados tensos e nervosos, com um emprego mediano, na maioria das vezes sem
um cargo de poder. Não estou julgando, só fazendo minha avaliação. Querem que você seja
atraente, mas não vulgar. Por exemplo, na minha vida real eu uso óculos, mas tiro quando
estou lá atrás porque é uma distração — eles pensam que você vai bancar a bibliotecária sexy,
o que os deixa tensos enquanto aguardam os primeiros acordes de uma música do ZZ Top, e,
quando não os escutam, sentem-se envergonhados por pensar que você ia bancar a
bibliotecária sexy. Com isso, eles ficam distraídos e a coisa leva mais tempo do que todos
gostariam.
Eles querem que você seja simpática e agradável, mas não fraca. Não querem se sentir
como predadores. Querem que seja uma relação de consumo. Orientada para o serviço. Então
você puxa uma conversa educada sobre o clima e o time pelo qual eles torcem. Eu costumo
tentar criar algum tipo de piada interna que possamos repetir a cada visita — uma piada
interna é como um símbolo de amizade, sem ter que se dar ao trabalho de manter uma amizade
verdadeira. Então você diz Vejo que está na época de morangos! ou Precisamos de um barco
maior (são piadas internas reais). Depois disso, já quebrou o gelo e eles não se sentem
canalhas porque somos amigos, então entramos no clima e podemos começar.
Quando as pessoas me fazem aquela pergunta que todo mundo faz: “Qual é a sua
profissão?”, eu respondo “Atendimento ao cliente”, o que é verdade. Para mim, foi um bom
dia de trabalho quando fiz um monte de gente sorrir. Sei que soa muito sério, mas é verdade.
Quer dizer, eu preferiria ser bibliotecária, mas me preocupo com a estabilidade no trabalho.
Livros podem ser temporários; paus são para sempre.
O problema era que meu pulso estava me matando. Mal completara 30 anos e já tinha o
pulso de uma octogenária e uma munhequeira atlética nada sexy para acompanhar. Eu a tirava
antes de trabalhar, mas aquele som das tiras de velcro se abrindo deixava os homens um pouco
nervosos. Um dia, Viveca me visitou nos fundos. Ela é uma mulher grande, como um polvo —
muitas contas, babados e lenços flutuando em torno dela, juntamente com o cheiro forte de
colônia. E tem o cabelo tingido da cor de ponche de frutas e insiste que é natural. (Viveca: a
filha mais nova de uma família da classe trabalhadora; tolerante com as pessoas de quem
gosta; chora ao ver comerciais; múltiplas tentativas fracassadas de virar vegetariana. Esse
é só o meu palpite.)
— Você é clarividente, nerd? — perguntou ela. Ela me chamava de nerd porque eu usava
óculos, lia livros e comia iogurte na minha pausa para o almoço. Não sou realmente uma nerd;
só gostaria de ser. Por causa da coisa de ter largado a escola, sou autodidata. (Não é um
palavrão, pode procurar.) Eu leio sempre. Eu penso. Mas me falta a educação formal. Por
isso, fico com a sensação de que sou mais esperta do que todos ao meu redor, mas que, se eu
ficasse perto de pessoas realmente inteligentes — pessoas que frequentaram a universidade,
bebem vinho e falam latim —, elas morreriam de tédio comigo. É uma maneira solitária de
viver a vida. Assim, uso o apelido como um distintivo de honra. Talvez, algum dia, eu possa
não entediar pessoas realmente inteligentes. A pergunta é: como vou encontrá-las?
— Clarividente? Não.
— E vidente? Você já teve visões?
— Não. — Eu pensei que essa história de adivinhação fosse papo furado, como minha
mãe diria. Ela realmente era de uma fazenda do interior, essa parte era verdade.
Viveca parou de remexer o colar de contas.
— Nerd, estou tentando ajudar.
Entendi. Não costumo ser lenta assim, mas meu pulso estava latejando. Aquela dor que
causa distração e você só consegue pensar em como acabar com ela. Além disso, em minha
defesa, Viveca só costuma fazer perguntas para poder falar — ela realmente não se preocupa
com as respostas.
— Sempre que encontro alguém, tenho uma visão na mesma hora — contei, em um tom de
voz suave e sábio. — De quem eles são e do que precisam. Consigo ver isso como uma cor,
uma aura em torno deles. — Era tudo verdade, exceto a última parte.
— Você vê auras. — Ela sorriu. — Já sabia disso.
Foi assim que descobri que estava sendo transferida para a parte da frente. Eu leria auras,
o que significava que não precisaria de nenhum treinamento.
— Basta dizer o que eles querem ouvir — explicou Viveca. — Vá enrolando.
E, quando as pessoas me perguntarem “Qual é a sua profissão?”, eu responderei “Sou uma
especialista em visão” ou “Trabalho com práticas terapêuticas”. O que era verdade.
Os clientes das cartomantes eram quase todos mulheres, e os clientes das punhetas,
obviamente, eram todos homens, assim, administrávamos o lugar com muita eficiência. Não
era um grande espaço: você tinha que trazer um cara para dentro, acomodá-lo no quarto dos
fundos e garantir que ele chegaria antes de a mulher ser conduzida para a sua consulta.
Ninguém quer grunhidos de orgasmos vindos dos fundos quando uma senhora está dizendo
como seu casamento está desmoronando. A desculpa do cachorrinho novo só funciona uma
vez.
A coisa toda era arriscada: os clientes de Viveca eram, em sua maioria, de classe média
alta e classe alta. Sendo dessas classes, ofendem-se com muita facilidade. Quando
entristecidas, donas de casa ricas não querem seu futuro adivinhado por uma Jennifer e
definitivamente não desejam que seja lido por uma assídua ex-profissional do sexo com um
pulso ruim. As aparências são tudo. Essas pessoas não querem saber de cortiços. São pessoas
cujo objetivo principal é viver na cidade, mas sentir que estão nos subúrbios. Nosso
escritório da frente parecia um anúncio de revista de decoração. Eu me vestia de acordo, que
era, basicamente, estilo artista descolada aprovada e embalada por J. Crew. Batas, esse era o
segredo.
As mulheres que vinham em grupos eram frívolas, finas e embriagadas, prontas para se
divertir. As que vinham sozinhas, contudo, queriam acreditar. Estavam desesperadas e não
tinham um plano de saúde que cobrisse terapia. Ou não sabiam que estavam desesperadas o
suficiente para precisar de um terapeuta. Era difícil sentir pena delas. Eu tentava, porque
ninguém quer que a mística guardiã do seu futuro revire os olhos para você. Mas, sabe como
é... Casa grande na cidade, maridos que não batem nelas e ajudam com os filhos, às vezes com
carreiras, mas sempre com clubes do livro. Ainda assim, elas se sentem tristes. É o que
sempre acabam dizendo: “Estou apenas triste.” Normalmente, isso significa ter muito tempo
livre. De verdade. Não sou uma terapeuta licenciada, mas, em geral, isso significa muito
tempo livre.
Então eu digo coisas como: “Um grande amor está prestes a surgir em sua vida.” Depois,
escolho algo para elas fazerem. É só descobrir o que vai deixá-las bem consigo mesmas.
Educar uma criança, ser voluntária na biblioteca, esterilizar alguns cães, ser mais ecológica.
Porém não falo como se fosse uma sugestão; esse é o segredo. Falo como um aviso: “Um
grande amor está prestes a surgir em sua vida... Você precisa ser cuidadosa ou ele vai ocultar
tudo o que importa para você!”
Não estou dizendo que é sempre assim tão fácil, mas costuma ser. As pessoas querem
paixão. As pessoas querem um senso de propósito. E, quando conseguem essas coisas, voltam
para você, porque você previu seu futuro, e foi bom.
Susan Burke era diferente. Ela pareceu mais inteligente no segundo em que a vi. Entrei na
sala em uma manhã chuvosa de abril, logo após um cliente de punheta. Eu ainda tinha alguns,
meus favoritos de longa data, por isso havia acabado de atender um cara rico, doce e bobo
que se intitulava Michael Audley (digo “intitulava” porque presumo que um cara rico não me
daria seu nome verdadeiro). Mike Audley: ofuscado pelo irmão jóquei; entrou para a
faculdade por seu próprio mérito; extremamente inteligente, mas não convencido; corredor
compulsivo. Esse é só o meu palpite. A única coisa que eu realmente sabia sobre Mike era que
ele amava livros. Recomendava-os com o fervor que eu sempre almejei por ser uma aspirante
a nerd: com urgência e camaradagem. Você tem que ler isso! Logo iniciamos nosso próprio
clube do livro particular (ocasionalmente pegajoso). Ele gostava muito de “histórias clássicas
do sobrenatural” e queria que eu gostasse também (“Afinal, você é uma vidente”, disse ele
com um sorriso). Então, naquele dia, discutimos os temas solidão e necessidade em A
assombração da casa da colina, ele gozou, eu me limpei um pouco e agarrei o livro
emprestado para a próxima vez: A mulher de branco. (“Você tem que ler isso! É um dos
melhores de todos os tempos.”)
Então, amassei meu cabelo para parecer mais intuitiva, ajeitei minha bata, enfiei o livro
debaixo do braço e saí correndo para a sala principal. Não muito pontual: eu estava 37
segundos atrasada. Susan Burke estava esperando; ela apertou minha mão com um movimento
nervoso para cima e para baixo, o que me fez estremecer. Deixei o livro cair e batemos nossas
cabeças tentando pegá-lo. Definitivamente não é o que você quer de uma vidente: um pouco de
“Os Três Patetas”.
Fiz um gesto para ela se sentar. Usei meu tom de voz sábio e perguntei por que ela estava
ali. É a maneira mais fácil de dizer às pessoas o que elas querem: perguntando o que elas
querem.
Susan Burke ficou em silêncio por alguns instantes. Então:
— Minha vida está desmoronando — murmurou. Era muito bonita, mas estava tão exausta
e nervosa que você não percebia a beleza até olhar com atenção. Ver os olhos azuis brilhantes
por trás dos óculos. Imaginar o cabelo louro sem graça mais solto. Estava claro que era rica.
Sua bolsa era simples demais para ser qualquer coisa além de muito cara. O vestido era sem
graça, mas bem-feito. Na verdade, talvez o vestido não fosse sem graça, mas ela o usava dessa
maneira. Inteligente, mas não criativa, pensei. Conformista. Vive com medo de dizer ou
fazer a coisa errada. Falta confiança. Provavelmente intimidada pelos pais e, agora, pelo
marido, que não tem paciência — o objetivo constante dela é chegar ao final do dia sem
uma explosão de raiva. Triste. Ela vai ser uma das tristes.
Então Susan Burke começou a chorar. Ela chorou por um minuto e meio. Eu daria dois
minutos antes de interrompê-la, mas ela parou por conta própria.
— Não sei por que estou aqui — disse ela, tirando um lenço em tom pastel da bolsa, mas
não o usou. — Isso é loucura. Fica cada vez pior.
Dei a ela meu melhor Calma, calma sem tocá-la.
— O que está acontecendo em sua vida?
Ela enxugou os olhos e olhou para mim. Piscando.
— Você não sabe?
Então ela deu um sorriso. Senso de humor. Inesperado.
— Como vamos fazer isso? — perguntou ela, encolhendo-se novamente e massageando um
local perto da nuca. — Como isso funciona?
— Eu sou uma psicóloga intuitiva — comecei. — Sabe o que isso significa?
— Você pode ler bem as pessoas.
— Sim, até certo ponto, mas meus poderes são muito mais fortes do que um simples
palpite. Todos os meus sentidos desempenham uma função. Posso sentir as vibrações das
pessoas. Posso ver auras. Sinto o cheiro de desespero, desonestidade ou depressão. É um dom
que tenho desde criança. Minha mãe era uma mulher desequilibrada e profundamente
deprimida. Uma névoa azul-escura a seguia. Quando estava perto de mim, minha pele vibrava
como se alguém estivesse tocando piano, e ela tinha cheiro de desespero, que se apresenta
para mim como cheiro de pão.
— Pão? — questionou Susan.
— Esse era o aroma dela, de uma alma desesperada. — Eu precisava escolher um novo
jeito de garota triste. Nada de plantas morrendo, muito óbvio, algo terreno. Cogumelos? Não,
deselegante.
— Pão, isso é tão estranho — disse ela.
As pessoas costumam perguntar como é seu perfume ou sua aura. É o primeiro passo para
se comprometerem com o jogo. Susan se mexeu, inquieta.
— Não quero ser rude — disse ela. — Mas... acho que isso não é para mim.
Esperei. Silêncio empático é uma das armas menos utilizadas no mundo.
— Certo — disse Susan. Ela colocou o cabelo atrás das orelhas; reparei numa aliança de
casamento larga e cravejada de diamantes, brilhando como a Via Láctea. Ela pareceu dez anos
mais jovem. Eu podia imaginá-la quando criança, uma leitora ávida, talvez; bonita, porém
tímida. Pais exigentes. Sempre tirava nota 10. — Então o que você lê em mim?
— Há algo acontecendo em sua casa.
— Eu já lhe disse isso.
Eu podia ver que ela estava desesperada para acreditar em mim.
— Não, você me disse que sua vida estava desmoronando. Estou dizendo que é algo
relacionado à sua casa. Você tem um marido, sinto muita discórdia: vejo você rodeada por um
verde doentio, como uma gema de ovo podre. Redemoinhos de um turquesa vibrante saudável
nas bordas. Isso me diz que você tinha alguma coisa boa e que deu muito errado. Sim?
Obviamente, foi um palpite fácil, mas gostei do meu arranjo de cores: parecia certo.
Ela olhou para mim. Eu estava me aproximando de algo profundo.
— Sinto em você as mesmas vibrações de minha mãe: nítidas como um toque de piano.
Você está desesperada, está sentindo uma dor insuportável. Você não tem dormido.
Mencionar insônia sempre foi arriscado, mas geralmente compensa. Pessoas que estão
sofrendo não costumam dormir bem. Os insones são extremamente gratos às pessoas que
reconhecem seu cansaço.
— Não, não, eu durmo oito horas — disse Susan.
— Não é um sono verdadeiro. Você tem sonhos inquietantes. Talvez não pesadelos, talvez
você nem lembre deles, mas acorda sentindo-se cansada, dolorida.
Viu, é possível resgatar a maioria dos palpites ruins. Essa mulher estava na casa dos 40
anos; pessoas nessa faixa etária costumam acordar sentindo dores. Sei disso por causa dos
comerciais.
— Você armazena a ansiedade no seu pescoço — continuei. — Além disso, você tem
cheiro de peônias. Uma criança. Você tem um filho?
Se ela não tivesse um filho, eu diria: “Mas você quer um.” E ela poderia negar — Eu
nunca sequer pensei em ter filhos — e eu poderia insistir, e logo ela sairia pensando nisso,
porque poucas mulheres decidem não procriar sem ter alguma dúvida. É um pensamento fácil
de semear. Só que essa aqui é inteligente.
— Sim. Bem, dois. Um filho e um enteado.
Enteado, vá com o enteado.
— Algo está errado em sua casa. É o seu enteado?
Ela se levantou, tateando a bolsa de grife.
— Quanto lhe devo?
Errei em alguma coisa. Pensei que nunca voltaria a vê-la. Mas, quatro dias depois, Susan
Burke retornou. (“As coisas podem ter auras?”, ela perguntou. “Como objetos. Ou uma
casa?”) E, depois, três dias mais tarde. (“Você acredita em espíritos malignos? Você acha que
isso existe?”) E, então, no dia seguinte.
Eu estava certa sobre ela, na maioria das vezes. Oprimida, pais exigentes, sempre tirava
nota 10, faculdade tradicional, um curso que tinha algo a ver com negócios. Fiz a pergunta:
você trabalha em quê? Ela explicou e explicou sobre redução de custos e reestruturação e
divisão de clientes, e, quando eu fiz uma careta, ficou impaciente e disse: “Eu defino e elimino
problemas.” As coisas com o marido estavam bem, exceto quando se tratava do enteado. A
família Burke havia se mudado para a cidade no ano anterior, e foi quando o garoto passou de
problema para problemático.
— Miles nunca foi um menino doce — disse ela. — Sou a única mãe que ele conheceu,
estou com o pai dele desde que o garoto tinha 6 anos. Mas ele sempre foi frio. Introvertido. É
simplesmente vazio. Eu me odeio por dizer isso. Quer dizer, tudo bem ser introvertido. Mas no
último ano, desde a mudança... ele está diferente. Ficou mais agressivo. Está com tanta raiva.
Tão sombrio. Ameaçador. Ele me assusta.
O garoto tinha 15 anos de idade e havia acabado de ser obrigado a se mudar do subúrbio
para a cidade, onde não conhecia ninguém. Além disso, ele era nerd e desajeitado. Claro que
estava com raiva. Teria sido útil dizer isso, mas não disse. Aproveitei a oportunidade.
Tenho tentado entrar para o ramo de purificação da aura doméstica. Basicamente, quando
alguém se muda para uma nova casa, chamam você. É só andar pela casa queimando sálvia,
polvilhando sal e murmurando muito. Novo começo, limpando toda a energia ruim que restou
dos proprietários anteriores. Agora, com as pessoas mudando para o centro da cidade, para as
antigas casas históricas, parece uma oportunidade de mercado esperando para acontecer. Uma
casa de cem anos de idade... é muita energia ruim deixada para trás.
— Susan, você já pensou que a casa pode estar afetando o comportamento do seu filho?
Susan inclinou-se para a frente, os olhos arregalados.
— Sim! Sim, já pensei. Isso é loucura? É por isso... por isso que eu voltei. Porque... havia
sangue na minha parede.
— Sangue?
Ela se aproximou e eu pude sentir o cheiro de hortelã mascarando o hálito azedo.
— Semana passada. Eu não quis dizer nada... Fiquei com medo de você achar que sou
louca. Mas estava lá. Escorrendo do teto até o chão. Eu... eu estou louca?
Na semana seguinte, encontrei-me com ela na casa. Dirigindo meu fiel hatchback, pensei:
ferrugem. Não sangue. Algo das paredes, do telhado. Quem sabe do que são feitas as casas
antigas? Quem sabe o que poderia vazar depois de cem anos? A questão era como jogar com
isso. Eu mesma não estava interessada em entrar em um exorcismo, droga de demonologia de
igreja. Acho também que não é o que Susan quer. Mas ela me convidou para sua casa, e
mulheres como ela não convidam mulheres como eu, a não ser que queiram algo. Conforto. Eu
analisaria “o sangue escorrendo”, encontraria uma explicação para ele e, ainda assim,
insistiria que a casa precisava de uma purificação.
Várias purificações. Ainda precisávamos falar sobre dinheiro. Doze visitas por 2.000
dólares parecia um bom preço. Distribuídas em um ano, uma por mês, isso daria tempo para o
enteado conseguir se organizar, se ajustar à nova escola, aos novos amigos. Então, ele estará
curado, eu serei a heroína e, logo depois disso, Susan estará me recomendando para todas as
suas amigas ricas e nervosas. Eu poderia ter meu próprio negócio e, quando as pessoas
perguntassem “Qual é a sua profissão?”, eu diria que sou empresária, da forma arrogante
como os empresários respondem. Talvez Susan e eu nos tornemos amigas. Talvez ela me
convide para um clube do livro. Eu ficaria sentada ao lado da lareira, mordiscando brie e
diria Sou dona de um pequeno negócio, uma empresária, se você preferir. Estacionei, saí do
carro e inspirei fundo o ar otimista da primavera.
Mas então avistei a casa de Susan. Na verdade, parei e olhei fixamente. Depois, estremeci.
Era diferente do resto.
Parecia espreitar. A única casa vitoriana restante em uma longa fila de cubículos novos, e,
talvez por isso, sua aparência fosse viva e sagaz. A fachada da mansão era toda elaborada, de
pedras esculpidas, estonteante nos detalhes: flores e filigranas, hastes delicadas e adornos
arrebatadores. Dois anjos em tamanho natural emolduravam a entrada com os braços esticados
para cima e os rostos fascinados por algo que eu não podia ver.
Observei a casa. Ela me observou de volta, através de janelas longas e malignas, tão altas
que uma criança poderia ficar de pé no peitoril. E havia uma. Vi o comprimento de seu corpo
magro: calça cinza, suéter preto, gravata marrom perfeitamente amarrada ao pescoço. Um
emaranhado de cabelos escuros cobrindo os olhos. Em seguida, um borrão súbito, ele saltou e
desapareceu por trás das pesadas cortinas de brocado.
A escadaria em direção à mansão era íngreme e longa. Meu coração estava batendo forte
quando cheguei ao topo, passando pelos anjos intimidadores, chegando à porta e tocando a
campainha. Enquanto esperava, li a frase esculpida na pedra perto dos meus pés.
mansão carterhook
construída em 1893
patrick carterhook
Estava escrita com letra vitoriana cursiva, os dois “os” encorpados dissecados por um
arabesco empenado. Tive vontade de proteger a barriga.
Susan abriu a porta com os olhos vermelhos.
— Bem-vinda à mansão Carterhook — disse, com falso esplendor. Ela percebeu que eu a
encarava. Susan nunca estava com boa aparência quando nos encontrávamos, mas nem sequer
tentou pentear o cabelo e um odor podre e acre emanava dela. (Não era “desespero” ou
“depressão”, apenas mau hálito e cecê.) Ela encolheu-se de modo hesitante e falou: — Eu
finalmente voltei à realidade.
O interior da casa era bem diferente do lado de fora. Havia sido reformado e, agora,
parecia com a casa de qualquer outra pessoa rica. Na mesma hora fiquei mais alegre. Eu
poderia purificar esse lugar: as luzes embutidas de bom gosto, os balcões de granito e os
eletrodomésticos de aço inoxidável, os revestimentos de madeira, novos e muito lisos, parede
após parede de carvalho com botox.
— Vamos começar com o filete de sangue — sugeri.
Subimos para o segundo andar. Havia mais dois acima dele. A escadaria era aberta. Olhei
para cima, através do corrimão, e vi um rosto olhando para mim do piso superior. Olhos e
cabelos negros contra a pele de porcelana de boneca antiga. Miles. Ele olhou para mim por
um breve momento, em seguida desapareceu. O garoto combinava perfeitamente com a casa
original.
Susan retirou da parede um quadro de bom gosto, para que eu pudesse vê-la por inteiro.
— Aqui, estava bem aqui. — Ela apontou do teto ao chão.
Fingi examinar de perto, mas não havia nada. Ela limpara completamente; ainda dava para
sentir o cheiro da água sanitária.
— Posso ajudá-la — prometi. — Há uma enorme sensação de dor bem aqui. Ao longo de
toda a casa, mas com certeza aqui. Posso ajudar.
— A casa range a noite inteira — disse ela. — Quer dizer, são quase gemidos. Não
deveria. Tudo aqui dentro é novo. A porta do Miles bate em momentos estranhos. E ele... ele
está ficando pior. É como se algo estivesse grudado nele. Uma escuridão que carrega nas
costas. Como um exoesqueleto. Ele fica à espreita, como um besouro. Eu mudaria de casa,
estou com medo a esse ponto, eu me mudaria, mas não temos dinheiro. Não mais. Gastamos
tanto nesta casa e, depois, quase a mesma quantia na reforma, e... de qualquer forma, meu
marido não vai deixar. Ele diz que Miles está apenas passando por uma fase difícil. E que sou
uma mulher boba e nervosa.
— Posso ajudá-la — repeti.
— Deixe-me mostrar a casa toda — retrucou ela.
Andamos pelo corredor longo e estreito. A casa era naturalmente escura. Era só se afastar
de uma janela que a escuridão aparecia. Susan acendia as luzes enquanto caminhávamos.
— Miles as desliga — disse. — Então eu volto a ligá-las. Quando peço para mantê-las
acesas, ele finge que não sabe do que estou falando. Aqui fica o nosso covil — explicou,
abrindo a porta para revelar um cômodo cavernoso com lareira e estantes de livros cobrindo
todas as paredes.
— É uma biblioteca — falei, surpresa. Eles deviam possuir um milhão de livros. Livros
grossos, impressionantes e de pessoas inteligentes. Como uma pessoa guarda um milhão de
livros em um cômodo e, em seguida, chama-o de covil?
Dei um passo para dentro, tremendo dramaticamente.
— Você sente isso? Você sente o... peso aqui?
— Eu odeio este cômodo. — Ela meneou a cabeça.
— Darei mais atenção a este lugar — falei. Ficaria ali cerca de uma hora por vez, lendo
tudo o que eu quisesse.
Voltamos para o corredor, que estava escuro de novo. Susan suspirou e começou a apertar
os interruptores. Ouvi passos no andar de cima, correndo freneticamente, indo e voltando pelo
corredor. Passamos por uma porta fechada à minha direita. Susan bateu nela:
— Jack, sou eu.
Um ruído de cadeira sendo empurrada para trás, um clique de fechadura e, em seguida, a
porta foi aberta por outra criança, muitos anos mais jovem que Miles. Ele se parecia com a
mãe. Sorriu para Susan como se não a visse há um ano.
— Oi, mamãe — disse ele, abraçando-a. — Senti sua falta.
— Este é Jack, ele tem 7 anos — disse ela, bagunçando o cabelo do filho.
— Mamãe tem um trabalho a fazer com sua amiga aqui — disse Susan, ajoelhando-se para
ficar na altura dele. — Conclua a leitura e depois prepararei um lanche.
— Tranco a porta? — perguntou Jack.
— Sim, sempre tranque a porta, querido.
Começamos a andar novamente e ouvimos o clique da fechadura atrás de nós.
— Por que trancar?
— Miles não gosta do irmão.
Ela deve ter percebido minha carranca: nenhum adolescente gosta do irmão mais novo.
— Você precisava ver o que Miles fez com a babá de quem não gostava. É uma das razões
pelas quais não temos dinheiro. Despesas médicas. — Ela se virou para mim de repente. —
Eu não deveria ter dito isso. Não era... importante. Possivelmente um acidente. Na verdade,
nem sei mais. Talvez eu esteja apenas louca.
Deu uma risada desatinada e esfregou um olho.
Caminhamos até o final do corredor, onde outra porta estava trancada.
— Eu lhe mostraria o quarto de Miles, mas não tenho a chave — disse ela abertamente. —
Além disso, tenho muito medo.
Ela forçou outra risada. Não foi convincente; não tinha energia suficiente nem para fingir
ser uma risada. Subimos até o andar seguinte, que continha uma série de quartos, pintados e
com papel de parede, com finos móveis vitorianos dispostos a esmo. Em um deles havia
apenas uma caixa de areia.
— Para o nosso gato, Wilkie — explicou Susan. — O gato mais sortudo do mundo: tem o
próprio espaço para sua merda.
— Você encontrará uma utilidade para o espaço.
— Na verdade, ele é um gato carinhoso — disse ela. — Tem quase 20 anos.
Sorri, como se aquilo fosse interessante e bom.
— Obviamente, temos mais espaço do que precisamos — disse Susan. — Pensamos que
poderíamos ter outro... talvez adotássemos, mas eu não traria outra criança para esta casa.
Então, em vez disso, moramos em um armazém bem caro. Meu marido gosta de suas
antiguidades. — Eu conseguia imaginá-lo, um marido nervoso e esnobe. Um homem que
comprava antiguidades, mas não as encontrava sozinho. Devia ter alguma decoradora elegante,
com óculos de aro de tartaruga, fazendo o trabalho. Ela provavelmente também comprara os
livros para ele. Ouvi dizer que é possível fazer isso, comprar livros a metro, transformá-los
em móveis. As pessoas são burras. Nunca vou aceitar o quão burras as pessoas são.
Subimos mais um pouco. O andar superior era apenas um grande sótão com alguns baús
antigos ao longo das paredes.
— Os baús não são idiotas? — sussurrou ela. — Ele diz que dão um pouco de
autenticidade ao local. Ele não gostou da reforma.
Então a casa havia sido um acordo: o marido queria antigo, Susan queria moderno, eles
pensaram que essa divisão interior/exterior poderia resolver as coisas. Mas a família Burke
acabou mais ressentida do que satisfeita. Milhões de dólares depois, nenhum dos dois estava
feliz. O dinheiro é desperdiçado com os ricos.
Descemos pela escada dos fundos, apertada e vertiginosa como a toca de um animal, e
chegamos a ampla e reluzente cozinha moderna.
Miles estava sentado na ilha da cozinha, esperando. Susan assustou-se quando o viu.
Ele era pequeno para sua idade. Rosto pálido, queixo pontudo e olhos negros que
brilhavam inquietamente, como os de uma aranha. Avaliando. Muito inteligente, mas odeia a
escola, pensei. Nunca recebe atenção suficiente; mesmo recebendo toda a atenção de Susan,
ainda não é o bastante. Mesquinho. Egocêntrico.
— Oi, mamãe — disse ele. Seu rosto se transformou, rachado por um sorriso pateta
brilhante. — Senti sua falta. — Doce e amoroso Jack. Ele estava fazendo uma imitação
perfeita do irmão mais novo. Miles foi abraçar Susan e, enquanto caminhava, assumiu a
postura infantil com ombros curvados de Jack. Passou os braços em volta dela, aninhando-se.
Susan ficou me olhando por cima da cabeça dele, as bochechas vermelhas e os lábios
apertados, como se sentisse um cheiro desagradável. Miles olhou para ela. — Por que você
não me abraça?
Ela lhe deu um breve abraço. Miles afastou-se como se ela estivesse queimando.
— Ouvi o que você contou a ela — disse ele. — Sobre Jack. Sobre a babá. Sobre tudo.
Você é uma vadia.
Susan se encolheu. Miles virou-se para mim.
— Eu espero que você saia e não volte. Para o seu bem. — Ele sorriu para nós duas. —
Este é um assunto de família. Não concorda, mamãe?
Em seguida, saiu batendo seus sapatos de couro pesado até a escada dos fundos,
inclinando-se para a frente. Ele realmente se curvava como se carregasse um exoesqueleto
brilhante e duro.
Susan olhou para o chão, respirou fundo e olhou para cima.
— Quero sua ajuda.
— O que seu marido diz de tudo isso?
— Nós não falamos sobre isso. Miles é seu filho. Ele o criou. Sempre que eu digo
qualquer coisa remotamente crítica, ele diz que estou louca, diz isso com bastante frequência.
Uma casa mal-assombrada. Talvez eu esteja. De qualquer forma, ele viaja o tempo todo; nem
vai saber que você esteve aqui.
— Posso ajudá-la. Podemos falar rapidamente sobre o preço?
Ela concordou com o valor, mas não com o prazo.
— Não posso esperar um ano para que Miles fique melhor; ele pode matar todos nós antes
disso. — Deu aquela risada desesperada. Concordei em ir duas vezes por semana.
Na maioria das vezes, ia durante o dia, quando as crianças estavam na escola e Susan
estava trabalhando. Eu fazia uma limpeza na casa. Queimava minha sálvia e polvilhava meu
sal grosso. Fervia lavanda e alecrim, e passava nas paredes e nos pisos. Depois me sentava na
biblioteca e lia. Além disso, dava uma bisbilhotada. Encontrei um zilhão de fotos do reluzente
e risonho Jack, algumas antigas do rabugento Miles, outras melancólicas de Susan, mas
nenhuma do marido. Senti pena de Susan. Um enteado raivoso e um marido ausente: não
admirava que ela deixasse sua mente vagar por lugares obscuros.
E, ainda assim, eu também sentia: a casa. Não necessariamente maléfica, mas... atenta. Eu
podia senti-la me analisando, isso faz sentido? Ela me povoava. Um dia, eu estava limpando o
assoalho quando senti uma dor súbita e cortante no meu dedo médio — como se tivesse sido
mordida — e, quando afastei a mão, estava sangrando. Cobri o dedo com força com um dos
meus lenços e observei o sangue sendo absorvido. Senti como se algo na casa estivesse
satisfeito.
Comecei a temer. Obriguei-me a lutar contra o medo. Foi você que inventou essa coisa
toda, disse para mim mesma. Então, pare com isso.
Depois de seis semanas, eu estava fervendo minha lavanda na cozinha, pela manhã —
Susan trabalhando, as crianças na escola —, quando senti uma presença atrás de mim. Vireime
e vi Miles em seu uniforme escolar, examinando-me, um sorriso malicioso no rosto. Ele
segurava meu livro A outra volta do parafuso.
— Você gosta de histórias de fantasmas? — Ele sorriu.
Miles havia mexido na minha bolsa.
— Por que está em casa, Miles?
— Tenho estudado você. Você é interessante. Sabe que algo ruim vai acontecer, certo?
Estou curioso.
Ele se aproximou; eu me afastei. Ele ficou parado ao lado da panela de água fervendo.
Suas bochechas ficaram coradas pelo calor.
— Eu estou tentando ajudar, Miles.
— Mas você concorda? Sente isso? O mal?
— Sinto.
Ele olhou para a panela de água. Passou o dedo pela borda, em seguida afastou-o. Estava
rosado. Ele me avaliou com seus brilhantes olhos negros de aranha.
— Sua aparência não é o que eu esperava, de perto. Pensei que você seria... sexy — Usou
a palavra com ironia, e eu sabia o que ele quis dizer: sexy como cartomante do Dia das
Bruxas. Brilho labial, cabelo volumoso e brincos de argola. — Você parece uma babá.
Dei um passo para trás, me afastando dele. Miles machucara a última babá.
— Está tentando me assustar, Miles?
Eu queria alcançar o fogão, desligar o fogo.
— Estou tentando ajudá-la — respondeu ele racionalmente. — Não quero que fique perto
dela. Se você voltar, vai morrer. Não quero dizer mais do que isso. Mas eu avisei.
Ele deu meia-volta e saiu. Quando o ouvi descer as escadas da frente, derramei a água
escaldante na pia; em seguida, corri para a sala para pegar minha bolsa, minhas chaves. Eu
precisava sair. Quando agarrei a bolsa, um calor doce e imundo inundou minhas narinas. Ele
vomitara lá dentro — por cima das chaves, da carteira e do telefone. Eu não podia suportar
tocar naquele vômito.
Susan entrou pela porta, frenética.
— Ele está aqui? Você está bem? — perguntou. — A escola ligou, disseram que Miles não
foi para a aula. Ele deve ter saído pela porta da frente e entrado direto pela dos fundos. Ele
não gosta que você esteja aqui. Ele lhe disse alguma coisa?
Um barulho alto veio do andar de cima. Uma lamentação. Subimos as escadas correndo.
No corredor, pendurada em um gancho no teto, estava uma boneca pequena e primitiva, feita
de pano. Um rosto desenhado com pincel atômico. Um laço feito de fio vermelho. O grito veio
do quarto de Miles no final do corredor. Nãããããooooo, sua puta, sua puta!
Nós ficamos do lado de fora da porta.
— Você quer falar com ele? — perguntei.
— Não.
Ela atravessou o corredor aos prantos e arrancou a boneca do teto.
— Primeiro, pensei que esta fosse eu — disse Susan, entregando-a para mim. — Mas não
tenho cabelos castanhos.
— Acho que sou eu — falei.
— Estou tão cansada de ter medo — murmurou ela.
— Eu sei.
— Você não sabe — disse ela. — Mas vai saber.
Susan foi para seu quarto. Eu fui trabalhar. Juro que trabalhei. Lavei a casa, cada
centímetro das paredes e do chão, com alecrim e lavanda. Queimei sálvia e disse minhas
palavras mágicas sem sentido, enquanto Miles gritava e Susan chorava nos quartos acima de
mim. Depois despejei na pia da cozinha tudo que estava dentro da minha bolsa e deixei a água
correr até ficar limpo.
Quando eu estava abrindo a porta do meu carro, no fim da tarde, uma mulher mais velha,
bem maquiada e de bochechas gordas, me chamou. Ela tinha um pequeno sorriso no rosto.
— Quero agradecer pelo que você está fazendo por essa família — disse ela. — Por
ajudar o pequeno Miles. Obrigada. — Então colocou os dedos sobre os lábios, fez um gesto
como se fosse trancá-los e correu para longe antes que eu pudesse dizer que não estava
fazendo absolutamente nada para ajudar essa família.
Uma semana mais tarde, eu estava no meu apartamento minúsculo (um quarto, quatorze
livros) e notei algo novo. Uma mancha, como uma piscina natural enferrujada na parede ao
lado da cama. Fez-me lembrar minha mãe. Minha antiga vida. Todas as transações — este por
isso, e isso por aquilo — e nada fez nenhuma diferença até agora. Quando a transação era
concluída, minha mente ficava vazia, esperando pela próxima. Mas Susan Burke e sua família
permaneceram em mim. Susan Burke, sua família e aquela casa.
Abri meu velho laptop e fiz uma pesquisa: Patrick Carterhook. Um zumbido, um rangido e,
finalmente, apareceu o link de um artigo do Departamento de Letras da universidade local:
Crimes vitorianos: A terrível história da família Patrick Carterhook.
O ano é 1893, o magnata das lojas de departamentos Patrick Carterhook muda-se para a esplêndida
mansão da Era Dourada, no centro da cidade, com sua adorável esposa, Margaret, e seus dois filhos, Robert e
Chester. Robert era um garoto problemático, muito dedicado a fazer bullying nos colegas de escola e machucar
os animais de estimação dos vizinhos. Aos 12 anos, ele queimou um dos armazéns do pai e permaneceu no local
para assistir à destruição. Ele atormentava sem parar seu quieto irmão mais novo. Aos 14 anos, Robert
comprovou ser incapaz de se controlar. A família Carterhook optou por mantê-lo longe da sociedade: em 1895,
eles o trancaram dentro da mansão. Ele nunca mais pôs os pés fora de casa. Robert ficou cada vez mais
violento em sua dourada e sombria prisão. Sujava os pertences da família com os próprios excrementos e
vômito. A babá foi mandada para o hospital com ferimentos inexplicáveis; ela nunca mais voltou. A cozinheira
também fugiu em uma manhã de inverno. Segundo rumores, ela havia sofrido queimaduras de terceiro grau com
água fervendo em um “acidente de cozinha”.
Ninguém sabe muito bem o que aconteceu naquela casa na noite de 7 de janeiro de 1897, mas os resultados
sangrentos são indiscutíveis. Patrick Carterhook foi encontrado morto a facadas em sua cama; seu corpo tinha
117 ferimentos por faca. A esposa de Patrick, Margaret, foi encontrada atingida por um machado — ainda em
suas costas — quando tentava fugir subindo as escadas para o sótão, e o jovem Chester, de 10 anos de idade,
foi encontrado afogado na banheira. Robert enforcou-se em uma viga de seu quarto. Aparentemente, ele havia
se vestido para a ocasião: usava um terno azul de domingo, coberto pelo sangue dos pais. Ainda estava
molhado pelo afogamento do irmão mais novo.
Abaixo da história havia uma foto antiga e embaçada da família Carterhook. Quatro rostos
formais e sérios, espiando através de camadas de babados vitorianos. Um homem magro na
casa dos 40 anos, com uma barba artisticamente desenhada; uma mulher loura, pequena, com
olhos tristes e penetrantes, tão claros que pareciam brancos. Dois meninos: o mais novo, louro
como a mãe; o mais velho tinha olhos e cabelos pretos, com um leve sorriso e a cabeça
inclinada em um ângulo de astúcia. Miles... o menino mais velho parecia-se com Miles. Não
eram exatamente iguais, mas a essência era exata: a presunção, a superioridade, a ameaça.
Miles.
Se você remover as tábuas sangrentas e as telhas manchadas de água, se você destruir as
vigas que sustentaram o corpo de Robert Carterhook e derrubar as paredes que absorveram os
gritos, consegue controlar a casa? Continuará assombrada se as entranhas — seus órgãos
internos — forem removidos? Ou será que a maldade paira no ar? Naquela noite, sonhei com
um pequeno vulto abrindo a porta do quarto de Susan, arrastando-se pelo chão enquanto ela
dormia e ficando de pé ao lado dela, com uma faca de açougueiro reluzente vinda da cozinha
de milhões de dólares. O quarto cheirava a sálvia e lavanda.
Dormi até a tarde e acordei no escuro, no meio de uma tempestade. Olhei para o teto até o
sol se pôr, em seguida me vesti e dirigi até a Mansão Carterhook. Deixei minhas ervas inúteis
para trás.
Susan abriu a porta com os olhos molhados. Seu rosto pálido brilhava na escuridão da
casa.
— Você é telepata — sussurrou. — Eu ia ligar para você. Ficou pior, não está parando. —
Ela desabou no sofá.
—Miles e Jack estão aqui?
Ela assentiu com a cabeça e apontou um dedo para cima.
— Miles me disse ontem à noite, com toda a calma, que vai nos matar — contou. — E eu
realmente me preocupo... porque... Wilkie... — Ela começou a chorar de novo. — Oh, Deus.
O gato entrou lentamente na sala. Magro e velho. Susan apontou para ele.
— Vejo o que ele fez... ao pobre Wilkie!
Olhei novamente. Na traseira do gato havia apenas um tufo de pelo desgastado. Miles
havia cortado o rabo do animal.
— Susan, você tem um laptop? Preciso mostrar uma coisa.
Ela me levou até a biblioteca, e até a mesa vitoriana que claramente pertencia ao marido.
Susan clicou em um interruptor e a lareira se acendeu. Apertou um botão e o laptop ligou.
Mostrei a Susan o site e a história da família Carterhook. Eu podia sentir sua respiração
quente no meu pescoço enquanto ela lia.
Apontei para a foto:
— Robert Carterhook não se parece com alguém?
Susan balançou a cabeça como se estivesse em transe.
— O que isso significa?
A chuva batia nas vidraças escuras. Eu ansiava por um dia ensolarado. O peso da casa era
insuportável.
— Susan, eu gosto de você. Não costumo gostar das pessoas. Quero o melhor para sua
família. E acho que não sou eu.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que você precisa de alguém para ajudá-la. Eu não posso ajudar. Há algo
errado com esta casa. Acho que você deveria sair. Não importa o que seu marido diga.
— Mas, se partirmos... Miles continuará conosco.
— Sim.
— Então... ele estará curado? Se sair desta casa?
— Susan, eu não sei.
— O que você está dizendo?
— Estou dizendo que não sou capaz de consertar isso. Não sou qualificada. Não posso
corrigir isso. Acho que você precisa partir esta noite. Ir para um hotel. Dois quartos. Tranque
a porta. E depois... vamos pensar em alguma coisa. Mas tudo o que posso realmente fazer é
ser sua amiga.
Susan ficou atordoada, apertando a garganta. Afastou-se de mim, murmurou com licença e
desapareceu pela porta. Eu esperei. Meu pulso estava latejando novamente. Olhei ao redor da
sala cheia de livros. Não haveria festas para mim. Não seria indicada para amigas ricas e
nervosas. Eu estava arruinando minha grande chance; dei-lhe uma resposta que ela não queria.
Mas me senti, pela primeira vez, decente. Não me convencendo que sou decente, apenas
decente.
Vi Susan passando apressada pela porta, em direção às escadas. Então Miles voou
imediatamente atrás dela.
— Susan! — gritei.
Levantei-me, mas não consegui motivação para sair da sala. Ouvi um murmúrio. Insistente
ou raivoso. Depois, nada. Silêncio. E nada ainda. Vá lá fora. Mas eu estava com muito medo
de sair sozinha naquele corredor escuro.
— Susan!
Um filho que aterroriza seu irmão mais novo e ameaça a madrasta. Que me disse
calmamente que eu iria morrer. Um garoto que cortou o rabo do animal de estimação da
família. Uma casa que atacava e manipulava seus habitantes. Uma casa que testemunhou quatro
mortes e queria mais. Fique calma. O corredor ainda estava escuro. Nenhum sinal de Susan.
Comecei a caminhar para a porta.
De repente, Miles apareceu, rígido e ereto em seu uniforme escolar, como sempre. Ele
estava bloqueando minha saída.
— Eu disse para você não voltar nunca mais aqui, e você voltou, você voltou várias vezes
— disse ele. Racionalmente. Como se estivesse falando com uma criança que merece uma
punição. — Sabe que vai morrer, certo?
— Onde está sua madrasta, Miles? — Afastei-me. Ele caminhou em minha direção. Era
um garoto pequeno, mas me assustava. — O que você fez com Susan?
— Você ainda não entendeu, não é? Nós morreremos hoje à noite.
— Sinto muito, Miles, eu não queria aborrecê-lo.
Ele riu, em seguida arregalou os olhos. Completamente alegre.
— Não, você me entendeu mal. Ela vai matar você. Susan vai matar nós dois. Olhe ao
redor desta sala. Você acha que está aqui por acaso? Olhe com atenção. Preste atenção nos
livros.
Eu já havia olhado para os livros. Toda vez que eu purificava esse local, analisava todos
os livros e os cobiçava. Imaginei roubar um ou dois para o meu clube do livro com...
Com Mike. Meu cliente favorito. Cada livro que eu li com Mike ao longo dos últimos anos
estava ali. A mulher de branco, A outra volta do parafuso, A assombração da casa da colina.
Eu me parabenizei quando os vi, por ser inteligente o suficiente para ter lido muitos dos livros
dessa biblioteca chique. Mas eu não era uma leitora ávida; era apenas uma prostituta idiota na
biblioteca certa. Miles pegou uma fotografia na gaveta da escrivaninha, uma foto de
casamento. O pôr do sol de verão atrás da noiva e do noivo deixou-os obscurecidos. Susan
era linda, uma versão incrível e sedutora da mulher que eu conheci. O noivo? Mal reconheci o
rosto, mas definitivamente conhecia o pau. Eu estava batendo punheta no marido de Susan
havia dois anos.
Miles me observava, olhando de soslaio, um comediante que espera o público entender a
piada.
— Ela vai matar você, e eu tenho certeza que vai me matar também — disse ele.
— O que você quer dizer?
— Ela está lá embaixo ligando para a polícia neste exato momento. Me pediu para deter
você. Quando ela voltar, vai atirar em você e contará aos policiais uma de duas histórias.
Primeira: você é uma vigarista que afirma ter poderes psíquicos para se aproveitar daqueles
emocionalmente vulneráveis. Você disse a Susan que poderia ajudar seu enteado mentalmente
instável, e ela confiou em você, mas, em vez disso, o que você tem feito é entrar na casa e
roubar. Quando ela a confrontou, você ficou violenta e atirou em mim, e ela atirou em você
para se defender.
— Eu não gosto disso. Qual é a outra opção?
— Você é legítima. Realmente acreditou que a casa estava me assombrando. Mas acabou
que não estou assombrado, sou apenas um adolescente sociopata. Você me pressionou tanto
que eu a matei. Ela e eu brigamos pela arma e ela atirou em mim em legítima defesa.
— Por que ela iria querer matá-lo?
— Ela não gosta de mim, nunca gostou. Não sou filho dela. Susan tentou me mandar para
minha mãe, mas ela nem quis saber. Depois, tentou me mandar para um colégio interno, mas
meu pai disse que não. Ela definitivamente gostaria de me ver morto. Ela é assim. É como
ganha a vida: definindo e eliminando problemas. Sendo prática de uma forma diabólica.
— Mas ela parece tão...
— Indefesa? Não, não é. Ela queria que você pensasse isso. Ela é uma bela e bemsucedida
executiva. Uma maldita chefona. Mas você precisa sentir que está caçando alguém
mais fraco do que você. Que tem a vantagem. Quero dizer, estou errado? Não é esse o seu
negócio? Manipular o manipulável?
Minha mãe e eu jogamos esse jogo por uma década: interpretar o papel de pessoas que
merecem pena. Eu não antecipei isso vindo de outra direção.
— Ela quer me matar... por causa do seu pai?
— Susan Burke tinha o casamento perfeito e você arruinou tudo. Meu pai se foi. Ele nos
deixou.
— Tenho certeza que algumas... relações ilícitas não foram o motivo para seu pai ir
embora.
— É a razão em que ela escolheu acreditar. É o problema que ela definiu e planeja
eliminar.
— Seu pai sabe... que estou aqui?
— Ainda não. Ele realmente viaja o tempo todo. Mas e quando ele descobrir que estamos
mortos e ouvir a história de Susan? Quando ela contar a ele sobre estar tão assustada e ter
encontrado o cartão de visita da paranormal em um exemplar de Rebecca, e ter
desesperadamente pedido a ela para ajudar... imagine a culpa. Seu filho está morto porque ele
quis uma punheta. Sua esposa foi forçada a defender a família e matar porque ele quis uma
punheta. O horror e a culpa, ele nunca será capaz de compensá-la. E esse é o plano.
— Foi assim que ela me encontrou? Meu cartão de visita?
— Susan encontrou o cartão. Ela achou estranho. Suspeito. Meu pai adora histórias de
fantasmas, mas é o maior cético do mundo, nunca fez uma leitura da palma da mão. A menos
que... não fosse realmente uma paranormal. Ela o seguiu, marcou um horário. E então você
veio dos fundos segurando o livro A mulher de branco, e ela soube.
— Ela contou para você.
— No começo, interpretei isso como um elogio. Depois, percebi que ela estava tentando
me distrair. Contou sobre o plano de matar você, por isso não percebi que morreria também.
— Por que não atirar em mim em um beco no meio da noite?
— Se fosse assim, meu pai não sofreria. E se ela fosse vista? Não. Susan quer matar você
aqui, onde pareça que ela é a vítima. Na verdade, é a maneira mais fácil de fazê-lo. Então ela
criou a história da casa assombrada para atraí-la. A Mansão Carterhook, tão assustadora.
— Mas a família Carterhook? Eu li sobre eles on-line.
— A família Carterhook é ficção. Quer dizer, eles existiram, eu acho, mas não morreram
como você leu.
— Eu li sobre eles!
— Você leu sobre eles porque ela escreveu sobre eles. É a internet. Sabe como é fácil
fazer um site? E depois fazer alguns links para que as pessoas o encontrem e acreditem nele e
o adicionem às suas páginas na web? É muito fácil. Especialmente para alguém como Susan.
— Aquela foto, parecia com...
— Já foi a uma feira de antiguidades? Diversas caixas repletas de fotos antigas, um dólar
cada. Não é difícil encontrar uma criança que se pareça comigo. Ainda mais se você tem uma
pessoa que está disposta a acreditar. Um otário. Como você.
— A parede sangrando?
— Ela só lhe contou. Define o estado de espírito. Ela sabia que você gostava de histórias
de fantasmas. Queria que você viesse e acreditasse. Ela adora ferrar as pessoas. Queria que
você fizesse amizade com ela, ficasse preocupada e, então, bam!, ter aquele momento de
choque quando percebe que vai morrer e teve medo da coisa errada. Seus sentidos a traíram.
Ele sorriu para mim.
— Quem cortou o rabo do gato?
— É um manês, sua boba, eles não têm rabo. Posso responder a quaisquer outras perguntas
no caminho? Prefiro não esperar aqui para morrer.
— Você quer ir comigo?
— Vamos ver: sair com você ou ficar aqui e morrer. Sim, eu gostaria de ir com você. Ela
provavelmente terminou a ligação e está no pé da escada. Eu já baixei a escada de incêndio no
meu quarto.
Os saltos de Susan batiam através da sala, em direção à escada. Dois andares abaixo e
com velocidade. Chamando meu nome.
— Por favor, me leve com você — disse ele. — Por favor. Só até meu pai voltar para
casa. Por favor, eu estou com medo.
— E Jack?
— Ela gosta de Jack. Só quer se livrar da gente.
Os passos de Susan já se ouviam no andar de baixo, subindo.
Saímos pela escada de incêndio. Foi bastante dramático.
Estávamos no meu carro, fugindo, quando percebi que não sabia aonde diabos eu estava
indo. O rosto pálido de Miles refletia os faróis dos carros que passavam como uma lua
doentia. Pingos de chuva deslizavam em sua testa, descendo pelo rosto e pingando do queixo.
— Ligue para o seu pai — falei.
— Meu pai está na África.
A chuva estava fazendo barulho contra o teto metálico. Susan Burke (a magnífica
vigarista!) infundiu-me tanto medo da casa que fiquei desatenta. Agora eu conseguia pensar:
uma mulher bem-sucedida se casa com um homem rico. Eles têm um bebê que é encantador. A
vida é boa exceto por uma coisa: o enteado esquisitão. Acreditei quando ela disse que Miles
sempre foi frio. Tenho certeza de que ela sempre foi fria com ele. Tenho certeza de que ela
tentou se livrar dele desde o início. Alguém calculista como Susan Burke não gostaria de criar
o filho esquisito de outra mulher. Susan e Mike seguiram em frente, mas logo sua crueldade
contra o primogênito do marido infecta o relacionamento. Ele se afasta dela. Sente aversão ao
seu toque. Ele vai me ver. E continua indo. Temos apenas os livros em comum; ele engana a si
mesmo pensando que é um tipo de relacionamento. As coisas com Susan continuam a se
desintegrar. Ele sai de casa e deixa Miles porque está viajando para o exterior. Assim que
voltar, tomará providências. (Isso foi puro palpite, mas o Mike que eu conheci, que ria quando
gozava, pareceu o tipo de cara que lutaria pelo filho.) Infelizmente, Susan descobriu o segredo
e me culpou pela destruição de seu casamento. Imagine a raiva, uma mulher baixa como eu
estava manuseando o marido dela. E agora estava presa a um garoto assustador a quem
odiava e a uma casa de que não gostava. Como resolver o problema? Ela começa a planejar.
Ela me atrai. Miles me avisa, do jeito dele, brincando comigo, curtindo um pouco o jogo.
Susan diz alguma coisa vaga aos vizinhos — que estou lá para ajudar o pobre Miles — de
modo que, quando a verdade vier à tona, que sou uma ex-prostituta e agora vidente, ela
parecerá uma coitada, miserável e patética. E eu vou parecer nociva. É a maneira perfeita de
cometer assassinato.
Miles olhou para mim com sua enorme cara de lua cheia e sorriu.
— Sabe que agora você é, basicamente, uma sequestradora? — perguntou.
— Acho que precisamos ir à polícia.
— Precisamos ir para Chattanooga, no Tennessee — disse ele, um tanto impaciente, como
se eu estivesse desistindo de um plano de longa data. — Bloodwillow será lá este ano.
Acontece sempre no exterior; é a primeira vez nos Estados Unidos desde 1978.
— Não sei do que você está falando.
— É a maior convenção sobrenatural do mundo. Susan disse que eu não poderia ir. Então
você pode me levar. Pensei que ficaria feliz. Você ama histórias de fantasmas. Pode pegar a
estrada se virar à esquerda no terceiro sinal.
— Eu não vou levar você para Chattanooga.
— É melhor levar. Estou no comando agora.
— Você está delirando, garotinho.
— E você é uma ladra e uma sequestradora.
— Não sou nenhuma das duas.
— Susan não ligou para a polícia porque estava prestes a matar você. — Ele riu. — Ela
ligou para a polícia porque eu disse que peguei você roubando. Ela tem dado falta de algumas
joias, sabe? — Ele deu um tapinha nos bolsos do blazer. Ouvi um tilintar metálico. — Agora
ela voltou para o andar de cima e descobriu que seu enteado perturbado foi sequestrado por
uma prostituta-ladra-vidente. Então vamos ter que ficar quietos por alguns dias. O que não é
problema, Bloodwillow só começa na quinta-feira.
— Susan queria me matar porque descobriu sobre mim e seu pai.
— Você pode dizer punheta, sabe — disse ele. — Isso não me ofende.
— Susan descobriu.
— Susan não descobriu nada. Ela é uma idiota incrivelmente inteligente. Eu descobri.
Pego os livros do meu pai o tempo todo. Eu encontrei seu cartão de visita, eu encontrei suas
anotações nas margens. Eu fui até seu local de trabalho e descobri tudo. Parte do que Susan
disse é verdade: ela acha que sou estranho. Quando nos mudamos para cá, depois de eu ter
dito que não queria, fui muito claro a respeito disso. Então comecei a fazer coisas
acontecerem na casa. Só para perturbá-la. Eu criei o site. Eu! Eu inventei a história dos
Carterhooks. Eu a fiz ir até você, só para ver se finalmente perceberia e iria embora. Ela não
percebeu: acreditou nas suas besteiras.
— Então Susan estava dizendo a verdade sobre todas as coisas assustadoras na casa. Você
realmente ameaçou matar seu irmão?
— Isso diz mais sobre ela por ter acreditado do que sobre mim por ter dito.
— Você jogou mesmo a babá das escadas?
— Por favor, ela caiu. Não sou violento, só inteligente.
— Naquele dia, o vômito na minha bolsa, o ataque que você teve no andar de cima e a
boneca pendurada?
— O vômito fui eu, porque você não estava me ouvindo. Você não ia embora. A boneca
também. E a ponta da lâmina de barbear na tábua do piso que cortou seu dedo. Na verdade, é
uma ideia inspirada na antiga tática de guerra romana. Alguma vez você já leu...
— Não. E os seus gritos? Você parecia tão furioso.
— Ah, foi real. Susan tinha cortado meu cartão de crédito e deixou-o na minha mesa. Ela
estava tentando me encurralar. Então percebi que você era meu meio de sair daquela casa
idiota. Preciso de um adulto para fazer tudo, de verdade: dirigir um carro, alugar um quarto de
hotel. Sou muito pequeno para a minha idade. Tenho 15 anos, mas pareço ter 12. Dependo de
alguém como você para me locomover. Eu só precisava que você me tirasse de casa, e você
tirou. Sabemos que não vai procurar a polícia. Suponho que alguém como você tenha uma
ficha criminal.
Miles estava certo. Pessoas como eu não procuram a polícia, nunca, porque não acaba
bem para nós.
— Vire à esquerda aqui, para pegar a estrada — disse ele.
Virei à esquerda.
Absorvi a história, virei-me e inspecionei. Espere, espere.
— Espere. Susan disse que você cortou o rabo do gato. Você me disse que era um manês...
Ele sorriu.
— Ah! Bem pensado. Então alguém está mentindo para você. Acho que vai ter que decidir
em qual história acreditar. Você quer acreditar que Susan é maluca ou que eu sou? Qual
deixaria você mais confortável? No começo, pensei que seria melhor se você pensasse que
Susan era a maluca, assim teria empatia com a minha situação e seríamos amigos. Amigos
viajantes. Mas depois pensei: talvez seja melhor se você pensar que eu sou o malvado. Desse
modo, será mais fácil entender que eu estou no comando... O que acha?
Seguimos em silêncio enquanto eu avaliava minhas opções.
Miles me interrompeu:
— Quer dizer, realmente acho que todo mundo sai ganhando. Se Susan é a maluca e quer
se livrar da gente, vamos embora.
— O que ela vai dizer ao seu pai quando ele chegar em casa?
— Isso depende de em qual história você quer acreditar.
— Seu pai realmente está na África?
— Acho que meu pai não é um fator com que você deva se preocupar em sua tomada de
decisão.
— Ok. Então, e se você for o maluco, Miles? Sua mãe vai colocar a polícia atrás da gente.
— Pare naquele estacionamento na igreja.
Olhei para ele de cima a baixo em busca de uma arma. Não queria ser um corpo jogado em
um pátio de uma igreja abandonada.
— Apenas vá, ok? — falou Miles rapidamente.
Parei no estacionamento da igreja ao lado da estrada. Miles saltou do carro, na chuva, e
correu até as escadas, parando sob a marquise. Puxou o celular do bolso da jaqueta e fez uma
ligação, de costas para mim. Ele ficou um minuto ao telefone. Então jogou o aparelho no chão,
pisando nele algumas vezes, e correu de volta para o carro. Seu cheiro era perturbadoramente
primaveril.
— Ok, acabei de ligar para minha madrasta nervosinha. Disse a ela que você me assustou,
que estou de saco cheio da casa e toda sua estranheza, desse hábito dela de trazer pessoas
desagradáveis, por isso fugi e vou ficar na casa do meu pai. Ele acabou de voltar da África e
vou ficar lá. Ela nunca liga para o meu pai.
Ele quebrou o telefone para eu não ver se ele realmente ligara para Susan ou se estava
apenas fingindo de novo.
— E o que você vai dizer ao seu pai?
— Lembre-se de que quando você tem dois pais que se odeiam, que estão sempre
trabalhando ou viajando e gostariam que você saísse de suas vidas de qualquer maneira, você
pode dizer muitas coisas. Sobra bastante espaço para trabalhar. Então você realmente não
precisa se preocupar. Volte para a estrada. Depois, há um motel a cerca de três horas daqui.
TV a cabo e um restaurante.
Voltei para a estrada. O garoto era mais astuto aos 15 anos do que eu com o dobro de sua
idade. Eu estava começando a pensar que essa coisa de ser legítimo, pensar nos outros e ser
benevolente era papo furado. Estava começando a pensar que esse garoto poderia ser um bom
parceiro. Esse pequeno adolescente precisa de um adulto para se locomover pelo mundo, e
não há nada que uma golpista possa utilizar mais do que um filho. As pessoas perguntariam
“Qual é a sua profissão?” e eu diria: “Sou mãe.” Pense quantas vezes eu poderia me safar, os
golpes que eu poderia bolar, se as pessoas pensassem que sou uma doce mãe.
Além disso, a convenção Bloodwillow parece muito legal.
Entramos no motel três horas mais tarde, como Miles havia previsto. Ficamos em quartos
separados.
— Durma bem — disse Miles. — Não saia no meio da noite, ou eu vou chamar a polícia e
voltar com a história de sequestro. Prometo que é a última vez que vou ameaçá-la, não quero
ser um babaca. Mas nós temos que chegar a Chattanooga! Vamos nos divertir muito, eu
prometo. Não posso acreditar que estou indo. É meu desejo desde que eu era criança! — Ele
fez uma dancinha estranha de comemoração e foi para o quarto.
O garoto era adorável. Também um possível sociopata, mas muito adorável. Eu tinha um
bom pressentimento sobre ele. Eu estava com um garoto inteligente, indo para um lugar onde
todo mundo queria falar sobre livros. Finalmente, sairia da cidade pela primeira vez na vida e
precisava desenvolver meu novo personagem de “mamãe”. Decidi não me preocupar: talvez
nunca descubra a verdade sobre os acontecimentos na Mansão Carterhook (que tal para uma
frase de efeito?). Mas eu estava ferrada ou não, por isso optei por acreditar que não estava.
Convenci tantas pessoas sobre tantas coisas durante a minha vida, mas esse seria o meu maior
feito: convencer a mim mesma de que estava sendo sensata. Não decente, mas sensata.
Deitei-me na cama e observei a porta do quarto ao lado. Verifiquei a fechadura. Apaguei a
luz. Olhei para o teto e para a porta do quarto ao lado.
Arrastei a cômoda para a frente da porta.
Nada com que me preocupar.

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