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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 72

PROVENIÊNCIA

Ex-piloto, fabricante de caixões e negociante, David W. Ball viajou para mais de sessenta países em seis continentes, cruzou o deserto do Saara quatro vezes no decorrer da pesquisa para seu romance Empires of Sand e explorou os Andes em uma Kombi. Outras viagens de pesquisa levaram-no até a China, Istambul, Argélia e Malta. David foi taxista na cidade de Nova York, instalou equipamentos de telecomunicações na República de Camarões, reformou antigas casas vitorianas em Denver e trabalhou na bomba de gasolina em um posto na cordilheira Teton. Entre suas obras, estão os épicos amplamente embasados em pesquisas históricas Ironfire e Empires of Sand, além do contemporâneo China Run. Mora com a família em uma pequena fazenda no Colorado, onde, depois de um hiato de quase uma década, voltou a escrever, criando contos fantásticos. Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê, mas o desejo de possuir a beleza, especialmente quando ela vale uma grande soma de dinheiro, pode fazer com que a gente se depare com algumas pessoas bem repugnantes mesmo...


PROVENIÊNCIA


A carta chegou à Galeria Wolff, em Nova York, com os costumeiros catálogos e anúncios. Estava marcada como “pessoal”, então a secretária de Max deixou-a fechada sobre a mesa dele. Max abriu o envelope com sua mão boa e tirou dali um bilhete com uma bela caligrafia. “Prezado Sr. Max Wolff”, dizia, “Ouvi dizer que o senhor tem grande conhecimento sobre pinturas e que consegue vendê-las às vezes. Tenho um quadro que não sei ao certo se é valioso, mas achei que o senhor poderia dar uma olhada e, se concordar, podemos fazer negócio. Na surdina, é claro. Se estiver interessado, queira, por favor, enviar um bilhete para a caixa postal abaixo citada. Atenciosamente, L.M.” Max olhou a foto. Piscou, não acreditando no que via. Sentiu uma plenitude no peito, uma onda de prazer, choque e tristeza. Colocou de lado o amontoado de papéis em cima de sua escrivaninha e pôs a foto em cima do mata-borrão. Abriu uma gaveta, tateou em busca da lupa e depois se curvou, aproximando-se da escrivaninha. A fotografia tinha sido tirada com iluminação ruim e por um amador, mas isso não fazia nenhuma diferença. Max conhecia essa pintura, assim como qualquer estudante de história da arte haveria de conhecê-la. Tratava-se de uma criação bela e maldita, a obra de um homem insano. E estava desaparecida desde a Segunda Guerra Mundial. Max endireitou-se, com os olhos lacrimejando. Sentiu-se zonzo e apalpou o colete em busca de um de seus comprimidos. Max não ouviu a secretária dar boa-noite, nem se deu conta de que o crepúsculo dera lugar à escuridão, enquanto sua mente fervilhava com a extensão da história do quadro, dos nazistas e dos agentes da Stasi, de traficantes de armas e cardeais católicos. Soube claramente qual deveria ser a próxima parada em sua longa e turbulenta jornada. Com a mão boa tremendo, Max Wolff tirou o telefone do gancho. Em uma manhã de domingo, duas semanas depois, Max esperava por um cliente em um estúdio particular bem ao lado do santuário da Igreja do Salvador Ressuscitado, em Colorado Springs. Estava sentado em uma cadeira com um estofamento tão exagerado que quase engolia sua figura diminuta. Apesar das paredes com isolamento acústico, era possível ouvir o som trovejante e sentir o prédio estremecer enquanto quatro mil almas fervorosas no santuário ao lado batiam os pés, batiam palmas, riam e cantavam, à medida que o serviço religioso elevava-se em um crescendo. O reverendo Joe Cooley Barber estava no negócio de salvação de almas, e era um negociante enérgico. Com carisma, boa aparência e uma voz feita para ser usada em um microfone, havia criado um império que se espalhava por cinquenta e sete países em seis continentes. Seu programa, Fiéis de Domingo, uma mistura casual de parábolas e evangelho, era transmitido simultaneamente em sessenta e oito idiomas. Ele publicara dezessete livros, todos best-sellers. Sua divisão de mídia vendia CDs, vídeos e camisetas, e todos os produtos tinham um holograma do Salvador Ressuscitado para desencorajar falsificações. Empregava quase mil pessoas e tinha quase tantos contadores e pessoas com MBA trabalhando para ele quanto havia em seu coro: precisamente 229, um número que escolhera de uma revelação que tivera em um ponto baixo em sua vida, quando, bêbado, empobrecido e desesperado, derrubou sua Bíblia, que caiu aberta na página 229 do Novo Testamento. Naquela página, leu o segundo versículo da terceira epístola de João: “Prospere e esteja bem na medida em que sua alma prospera.” Joe Cooley optou por atribuir à palavra “prosperar” seu significado moderno, e dessa passagem nasceu o refrão que é sua marca registrada: “Deus nos quer ricos.” Não era o primeiro pregador da prosperidade, mas era o melhor (Joe Cooley gostava de dizer que era “mais para seda do que para Satã”), e vivia conforme o que pregava: tinha um avião a jato Gulfstream, uma pequena frota de carros, dentre eles um Aston Martin e um Bentley, além da propriedade que ele gostava de descrever como “uma modesta fazendinha de cavalos em Kentucky”, onde criava puros-sangues. “Eu não sou um sacerdote do fim dos tempos”, dizia. “Sou um sacerdote dos melhores tempos.” Com tamanho sucesso, veio a polêmica. Para cada dólar que recebia do ministério, Joe Cooley Barber recebia cinco dólares em corporações em paraísos fiscais, todas camufladas por trás de uma rede de propriedade impenetrável. Em meio a alegações de que meros trinta centavos de cada dólar iam para o trabalho missionário, meia dúzia de investigações haviam sido iniciadas pela Receita Federal, pelo Departamento de Justiça e por diversos comitês do Congresso. Desafiador, Joe Cooley Barber gostava de destacar que nada jamais havia sido provado contra ele. “Sou apenas um simples humanitário temente a Deus”, dizia. Ele havia alimentado dezenas de milhares de almas famintas por toda a Ásia e África. Milhões de comprimidos contra a malária salvaram as vidas de bebês em Bangladesh e Botsuana. Missões anuais ensinavam técnicas modernas de agricultura no Malaui e na Tanzânia, provendo tratores e sementes para ajudar as massas a se ajudarem. Ele construía igrejas em Zâmbia e abria novas escolas no Zaire. “Uma praga de vagabundos”, era a forma como ele descrevia, na intimidade, os promotores públicos e políticos que o perseguiam. Ainda assim, saboreava a atenção deles e prosperava com ela. Quanto mais reclamavam, mais o dinheiro entrava. “Seus dólares pavimentaram a estrada para a sua salvação”, pregava Joe Cooley para as câmeras de TV. “Seus dólares são o julgamento de Deus sobre o nosso ministério.” – Max, meu amigo! — disse Joe Cooley, limpando o suor da testa enquanto irrompia com graça sala adentro meia hora depois. — Desculpe-me por tê-lo feito esperar. — Imagine — disse Max. — Você tem uma produção e tanto aqui. Nunca tinha visto seu trabalho antes. Joe Cooley abriu um grande sorriso. — Você é judeu? — Não. — Então por que não vem aqui toda semana? — Seria uma viagem muito longa. Talvez se você me emprestasse o jatinho... — Não precisa disso! — Joe Cooley entrou em seu banheiro particular para se refrescar. — Estou tão perto de você quanto o controle da sua televisão. — Saiu do banheiro secando as mãos. — Mas agora vamos aos negócios. Eu mal pude acreditar quando você me telefonou. — Abaixou um pouco o tom de voz: — Será que é possível? Um Caravaggio? Max assentiu. — Existem possivelmente noventa pinturas dele no mundo. Eu pensei em você no instante em que essa caiu em minhas mãos. — Imagino que isso seja por debaixo dos panos, não? — Com certeza, é uma pintura para a sua coleção particular — disse Max. — Se você quiser, é claro. — Vamos para o estúdio — disse o sacerdote, estendendo a mão para ajudar Max a levantar-se. O marchand pegou sua bengala. A mão direita estava retorcida; seus dedos, nodosos e debilitados. Ele jogou a alça da sua maleta por cima do ombro e pegou um grande portfólio de couro. Joe Cooley arregalou os olhos. — Não me diga que você está com ela bem aí nessa pasta — falou. — Que coragem! — Que nada — disse Max. — A pintura está bem embrulhada e seus homens estiveram comigo o caminho inteiro. Além do mais, não chamo muito a atenção das pessoas. Uma vez cruzei Manhattan carregando cinco milhões de dólares nesta maleta. O máximo que tentaram fazer foi me ajudar a atravessar a rua. — Eu não tenho tanta confiança assim — disse Joe Cooley —, mas entendo o que quer dizer. Max tinha setenta e poucos anos e pouco mais de 1,50m de altura. Ele sempre usava um chapéu Fedora cinza. Anos estudando, investigando registros históricos e vendo obras de arte haviam feito com que sua vista ficasse ruim a ponto de as grossas lentes de seus óculos distorcerem suas feições. Ele parecia um bondoso velho contador. Apesar de tudo isso, Joe Cooley sabia que ele era um negociador durão com um senso afiado de negócios. Max tinha uma galeria de arte altamente respeitada e era um cliente assíduo da Christie’s e da Sotheby’s. No entanto, seus negócios mais lucrativos eram realizados no submundo do comércio, um mundo em que os homens que evitavam publicidade compravam e vendiam arte, ou usavam-na em vez de dinheiro vivo como forma de alavancar grandes compras de drogas ou de armas. Max conseguia encontrar os quadros e arranjar os acordos. Eles subiram em um carrinho de golfe para cruzarem o complexo. O Salvador Ressuscitado ocupava uma área de setenta acres próximo ao Jardim dos Deuses. Além da igreja, havia os escritórios da fundação, o estúdio de transmissão, uma faculdade cristã e um museu. Enquanto o carrinho movia-se rapidamente, levando-os em meio a jardins cheios de estátuas e passando por fontes decorativas, Joe Cooley ia respondendo aos acenos e aos cumprimentos gritados por paroquianos que estavam aproveitando o dia ensolarado. O museu era o orgulho e a alegria de Joe Cooley Barber. Ele amava coisas belas, coisas que gritavam a glória de Deus. Ele acreditava que não havia homenagem maior ao TodoPoderoso do que colecionar imagens que O glorificavam e que glorificavam Sua palavra sagrada. As galerias desse museu estavam repletas de arte religiosa de todas as eras: vitrais, ícones gregos, manuscritos ilustrados e antigos pergaminhos cristãos, um Giotto, vários Rembrandts, um Rubens e um El Greco. Então havia as próprias pinturas a óleo de Joe Cooley, a maioria ilustrando histórias bíblicas sobre prosperidade, de Jó e Salomão. Para Max, esses quadros sobressaíam como se fossem pústulas nas paredes da galeria, mas estavam entre as obras em exposição mais populares. Entraram no refúgio de Joe Cooley, uma combinação de escritório e sala de estudos, com janelas com vista para os jardins. Além de uma grande mesa de conferência, havia bancadas, cavaletes e estantes de livros cheias de tomos raros da Bíblia e volumes de livros em belíssimas encadernações de couro. Max colocou o portfólio sobre a mesa, soltou os botões de pressão e retirou o estojo interno dele. A pintura estava acomodada em um fundo de algodão macio branco. Max puxou o pano para trás, ergueu com gentileza a pintura e colocou-a no cavalete. Foi andando até a parede e acendeu a luz em um interruptor, banhando a obra com uma luz suave. O jovem pastor Davi, com a espada em uma das mãos, estava erguendo a cabeça ensanguentada de Golias, o guerreiro filisteu. O rosto de Golias estava paralisado na morte, com os olhos e a boca abertos, um talho na testa, o sangue escorrendo de seu pescoço decepado. Joe Cooley Barber ficou com o olhar fixo na peça, atônito. — É menor do que imaginei — disse baixinho. — E mais sombria. Max retirou vários fichários grossos de dentro de sua maleta. — Eu trouxe a documentação sobre a origem da pintura, claro — disse Max, colocando os fichários em cima da mesa e extraindo deles pastas que pareciam conter recortes de jornais e de revistas, livros e anotações escritas à mão. Joe Cooley sabia que Max não precisava das anotações; elas eram para ele. — Meu amigo, o professor, começa a falar — disse ele. — É melhor tomarmos um drinque. Uísque? Vinho? — Apenas água. O pastor serviu uísque para si e água para Max, e puxou uma cadeira para sentar-se. — As obras dele podem ser um tanto quanto repulsivas... Decapitações, como esta. Assassinatos, traições, martírios, tudo captado no instante da perfeita revelação. Esse era o seu dom, capturar esse momento. Ele pintou essa cena pelo menos quatro vezes no decorrer de sua carreira, cada uma delas representando uma progressão em sua maturidade, expressa nas duas faces — disse Max. — Esta provavelmente é a segunda versão, em que há orgulho na expressão de Davi, mas também profunda humildade, o triunfo do reino do céu sobre as forças de Satã. Max passou a mão aleijada apenas um pouco acima da tela, seguindo, com amor, as linhas de Caravaggio, visualizando o artista trabalhando. — Era tão seguro de si que quase não usava esboços, como outros artistas. Pintava diretamente da vida. Ele deixava pentimenti, marcas pungentes na pintura... pode-se ver traços disso aqui e aqui. Uma genialidade tão grande, está vendo?... e tudo isso era feito com tamanha rapidez que alguns diziam que a obra dele fluía como se vinda da mão de Deus. E a luz! Veja como a cor da carne vira sombra, o sangue vermelho fica preto, a luz dá lugar à escuridão e à morte. Tamanha maestria da luz... ou das trevas, dependendo do ponto de vista. — Da luz, é claro — disse Joe Cooley Barber. — Eu nunca tinha visto você assim tão estimulado por causa de uma pintura. Max abriu um sorriso tímido. — Não há muitas pinturas como esta, nem muitos pintores como ele. A obra dele era nova e brilhante, mas tão crua que frequentemente chocava seus patronos na Igreja, que reclamavam de vulgaridade e sacrilégio. Ele usava prostitutas como modelos e trajou a Virgem Maria com um vestido decotado. A elite governante da Igreja achava-o intolerável. Eles preferiam perfeição em seus santos. — O mesmo acontece com o Senado dos Estados Unidos — murmurou Joe Cooley, sorvendo seu uísque. — A vida dele era tão crua quanto a sua obra. Era uma alma torturada. Alguns acham que a loucura dele vinha do envenenamento por chumbo, de suas pinturas; outros acham que ele era só atormentado por seu próprio gênio. Qualquer que fosse a causa, vivia intensamente, entre duelos e bebidas. Tinha relações sexuais com meretrizes e jogava e vivia sendo arrastado para dentro e para fora de tribunais. Ele agrediu um garçom por mau atendimento e esfaqueou um advogado por causa de uma prostituta. Matou um oficial, foi torturado e conseguiu fugir. Outro homem teria padecido na cadeia por qualquer uma dessas coisas, mas, embora Caravaggio tivesse detratores na Igreja, ele também tinha poderosos defensores, entre eles, este. Max havia marcado uma página em um livro de história da arte e abriu-o no retrato de um clérigo com aparência ascética. — Este é Scipione Borghese, um dos sobrinhos do papa Paulo V, o papa que ordenou que Galileu abandonasse as noções hereges sobre o nosso sistema solar. Paulo elevou Borghese à posição de cardeal-sobrinho, uma posição de imenso poder. Ele era brilhante, impiedoso e desprovido de princípios. Além de ser o líder de facto do governo do Vaticano, ele tinha múltiplos escritórios e títulos que o fizeram rico além da conta. Intimidava os homens e ameaçava suas almas. Criava impostos e adquiria imóveis, vilas inteiras, por meio de extorsão e editos papais. Ele tinha uma ampla coleção de pornografia, e sua homossexualidade escandalizava a Igreja. Joe Cooley não foi capaz de suprimir uma risadinha de escárnio e deleite. — De alguma forma, aquela Igreja sempre soube criar e nutrir verdadeiros patifes — disse. — Sim, porém, apesar de todos os seus defeitos, era um grande patrono das artes. Ele usou sua riqueza para construir um magnífico palacete para exibir as obras de Rafael, Ticiano, Bernini e Caravaggio, que, por um tempo, foi seu favorito. — Ele partilhava dos mesmos gostos que eu — disse Joe Cooley. — Exceto pelos meninos, é claro. Tudo pela glória de Deus. Max voltou-se para outro arquivo. — Quanto à nossa pintura aqui, a Igreja foi sua primeira dona — disse ele. — Ou, mais precisamente, foi a primeira a roubá-la. Borghese havia começado a colecionar obras de arte de forma agressiva e estava aprendendo a fazer uso das ferramentas de seu poder. Giuseppe Cesari era um artista proeminente que tinha uma importante coleção de mais de mil pinturas, incluindo diversas obras de Caravaggio, que havia trabalhado no estúdio dele quando jovem. Borghese ficou sabendo que Cesari também tinha uma coleção de arcabuzes. Cesari era inofensivo, as armas de fogo eram apenas um hobby, mas eram ilegais. Borghese fez com que Cesari fosse preso e suas posses, confiscadas. Ele foi sentenciado à morte. Essa sentença acabou sendo suspensa, mas não até que Cesari concordasse em doar suas pinturas para a Câmara Apostólica. Vários meses depois, o papa deu o lote inteiro ao cardeal-sobrinho. Mais ou menos na mesma época, Caravaggio matou um homem que achava que havia trapaceado no tênis e fugiu para Roma com sua cabeça a prêmio. Passou o resto de sua vida fugindo, com a esperança de que Borghese pudesse lhe arranjar um perdão papal. Enquanto era fugitivo, fez algumas de suas melhores obras. Em Malta, pintou para os Cavaleiros de São João, tornandose um cavaleiro, até que a ordem prendeu-o por entrar em brigas. Fugiu, mas, em Nápoles, foi atacado e ferido, provavelmente por assassinos pagos pelos cavaleiros. Retornou a Roma. Seu perdão fora concedido, mas morreu de febre antes de ouvi-lo — Max balançou a cabeça. — Caravaggio tinha apenas trinta e oito anos de idade. Imagine o que ele poderia ter feito se vivesse mais vinte anos. Max deslizou um livro-razão pela mesa. — Quanto à nossa pintura, Borghese só se desfez dela porque tinha outra versão da obra, que fora enviada do exílio por Caravaggio. Incluiu esta como parte do suborno a um conde polonês chamado Krasinski. Havia outras três pinturas incluídas: uma de Annibale Carracci, uma de Reni e uma de Lanfranco, além de um requintado relicário adornado com pedras preciosas. Nós cruzamos a lista com os livros contábeis da casa do conde Krasinski. Por ocasião de sua morte, o conde deixou em testamento os itens para seu irmão, que havia acabado de ser nomeado bispo de Stawicki. Como você pode ver aqui, os itens estão incluídos em um inventário da igreja local datado de 1685. — Max pescou um papel da pilha. — Está redigido em polonês, claro, mas circulei os itens para você ver. As pinturas e o relicário permaneceram em segurança e no anonimato naquela igreja durante quase trezentos anos, sobrevivendo a incêndios e insurreições. Na maior parte desse tempo, Caravaggio era um homem que havia sido esquecido, totalmente esquecido pela história até o século XXI, quando eruditos começaram a apreciar o gigante que ele fora. Joe Cooley levantou-se. — Hora de mais um drinque. Tem certeza de que não vai querer algo mais forte? — Apenas um pouco mais de água. Ainda tenho muito o que falar sobre a pintura. Max abriu um arquivo abarrotado de documentos amarelados e de recortes de jornal. Em cima deles estava uma fotografia em preto e branco de um oficial alemão. Max deslizou a foto até o outro lado da mesa. — Membro da SS — comentou Joe Cooley. — Belo diabo. Max assentiu. — Walter Beck. Essa fotografia foi tirada logo depois de ele ter sido promovido a coronel, um ano antes do fim da guerra. Joe Cooley analisou o rosto longo e anguloso e os olhos inteligentes de Beck. — Um perfeito oficial alemão — disse ele. — Um canalha frio, ao que parece. Max puxou um recorte da pasta, uma cópia de um anúncio de nascimento dos jornais de Berlim. — Era o filho mais velho de Otto Beck, um proeminente marchand. A galeria dele era uma das mais antigas de Berlim e começou com o avô de Otto como uma loja de suprimentos para artistas, vendendo tintas a óleo, cavaletes e telas. Os artistas eram sempre pobres, então a galeria de Beck às vezes trocava suprimentos pelas obras deles. O pai de Otto começou a vender as pinturas. Os negócios prosperaram e, por volta de 1900, a galeria de Beck ocupava um grande edifício de dois andares. A família morava no andar superior, enquanto o restante do prédio era devotado a uma galeria de arte e a oficinas em que os artesãos de Beck restauravam e faziam reparos em pinturas. Artistas, colecionadores e curadores levavam para lá pinturas danificadas de toda a Europa. Walter trabalhou para o pai durante alguns anos. Tinha uma cabeça boa para os negócios, mas nenhum amor especial pela arte. Era jovem e ambicioso e foi envolvido na febre socialista da década de 1930. Juntou-se ao Partido Nazista. Seu pai desaprovava, mas Walter não se importava. Ele captava muito bem o clima político e entendia Hitler. Subiu rapida e seguidamente de escalão, e seu treinamento na galeria de seu pai colocou-o em boa posição na Sonderauftrag Linz. — Fale a minha língua, Max. — Sonderauftrag Linz quer dizer “Operação Especial Linz”, um projeto secreto de Hitler. Ele era um artista frustrado, é claro, e achava que a maior parte das obras de arte da Europa eram suas por direito. Ficou obcecado com a construção de um museu em Linz, uma cidade que ele reconstruiria e transformaria na capital cultural da Europa depois da guerra. Antes da guerra, seus agentes fizeram uma jornada por museus, galerias e coleções particulares por toda a Europa, compilando extensas listas das obras de arte mais importantes. O resultado foi um guia para o que os exércitos de Hitler haveriam de confiscar e de pilhar, no instante em que as forças alemãs invadissem uma área. Beck ajudou na compilação daquele guia, e foi assim que ficou sabendo onde estava escondida a nossa pintura aqui. Ele deveria ter passado a guerra em Paris, onde estavam todas as melhores obras de arte, mas era um homem arrogante e cometeu o erro de entrar em atrito com o próprio Alfred Rosenberg. Rosenberg era o ideólogo dos nazistas, um dos homens mais poderosos da Alemanha, e Beck foi realocado na frente oriental. Ele era um excelente oficial, mas excepcionalmente cruel até mesmo pelos padrões da SS. Rússia, Tchecoslováquia, Polônia... Beck conseguiu se tornar um dos criminosos de guerra mais procurados. Havia mais recortes amarelados de jornais e revistas, a maior parte deles em idiomas que Joe Cooley não reconhecia, do Leste Europeu, pensou, e alguns em hebraico. A maioria continha a mesma fotografia. Ele não conseguia entender o que estava escrito nas legendas, mas estava olhando para um homem caçado. A coluna alemã fez uma parada em uma cadeia de montanhas perto do antigo vilarejo de Stawicki. Havia cinco veículos de transporte de tropas, dois tanques e diversos veículos menores, um desordenado remanescente do exército alemão que se juntara na fuga. O coronel SS Walter Beck saiu de um carro aberto com um binóculo de campo na mão. Estirou as pernas e depois, com calma, mirou os binóculos na estrada atrás deles. Os russos não estavam à vista. Graças às minas dispostas pelos homens de Beck, provavelmente levariam mais algumas horas, o que lhe daria tempo para cuidar de tudo. Beck sabia que a guerra estava perdida, que não havia esperanças de ganhá-la, e sabia também que em breve seria caçado pelos homens que não esqueceriam o que ele fez. Render-se significaria sua execução. Teria que fugir, mas primeiro precisava certificar-se de que os caçadores nunca o encontrariam. Voltou sua atenção para o vilarejo. Olhando de fora, parecia que a guerra o havia, de alguma forma, poupado. Podia ver o campanário da velha igreja e, além, a torre do relógio da prefeitura do vilarejo; tudo parecia estar em paz. Podia enviar seus homens para que encontrassem o que estava procurando, mas os habitantes do vilarejo haviam, fazia muito tempo, escondido seus preciosos tesouros com cuidado. Não tinha tempo para brincar de esconde-esconde. — Tragam o sacerdote do vilarejo, assim como o prefeito e a família dele — disse Beck para um tenente. — Agora mesmo, Standartenführer. — E vinte e cinco aldeões também — acrescentou Beck. Quando o oficial saiu em um caminhão, um de seus assistentes arrumou-lhe uma mesa e uma cadeira portáteis. Beck sentou-se com uma garrafa de vinho e voltou o rosto em direção ao sol, desfrutando seu brilho aquecedor. O caminhão logo serpenteou de volta pela estrada, parando perto de Beck, que sorvia seu vinho enquanto soldados ladravam ordens, incitando os habitantes a saírem do caminhão. Havia apenas mulheres, crianças e velhos ali. O sacerdote e o prefeito, assim como sua esposa, sua filha e sua neta, foram trazidos perante o coronel. O prefeito era um homem corpulento, com bochechas avermelhadas, e o sacerdote era velho, esguio e zangado. — Eu devo protestar — começou a dizer o prefeito. — Nós somos não combat... Um soldado acertou-o no estômago com a coronha de seu rifle. O prefeito caiu de joelhos e curvou-se ao meio, ofegante e sentindo ânsia de vômito. — Não há necessidade alguma de sofrimento — disse Beck — se fizerem o que eu disser. Eu estou meramente exigindo alguns itens da sua igreja. — Nossa igreja já foi pilhada de tudo — disse o sacerdote. — Não restou nada de valor lá. — Muito pelo contrário — disse Beck. — Carracci e Caravaggio. Reni. Lanfranco. — Abriu um sorriso. — A minha informação está correta? Todos presentes que o conde Krasinski deu a seu irmão, o bispo. Uma breve mudança na expressão do sacerdote foi toda a confirmação de que Beck precisava. — Excelência — disse o prefeito sem pensar, com o rosto vermelho, brilhante —, aquelas pinturas foram todas tomadas antes da guerra, e foram levadas para a cidade de Gdynia. Sim, para Gdyn... — Ele não conseguia recuperar o fôlego. — Ajude-me aqui, padre — disse Beck ao sacerdote. — O senhor deve se lembrar. Atrás de uma parede falsa na cripta, ou debaixo de uma pilha cuidadosamente disposta de escombros? Sem dúvida, uma busca fará com que essas pinturas apareçam. Eu suspeito que, muito provavelmente, deva estar perto do relicário. — Sorveu seu vinho. — Que, a propósito, devo solicitar também, embora vocês possam ficar com seu conteúdo: um dedo de São Barnabé, creio eu, não? Ou uma costela de Santa Edwiges ou cabelo de Casimiro, ou o dedo do pé de João Sarkander? Perdoem-me, não consigo me lembrar dos detalhes, mas não sonharia em retirar de vocês relíquias tão preciosas de sua devoção. — Olhou para seu relógio de pulso. — Receio ter muito pouco tempo. Os bolcheviques estão nos pressionando. — Nós não podemos dar aquilo que não possuímos — disse o sacerdote. — Muito bem. Beck pôs-se de pé, deixou suas luvas de couro caírem sobre a mesa, soltou o fecho do coldre e sacou sua pistola Luger. Escolheu um velho na multidão e atirou. Uma mulher prostrou-se de joelhos ao lado dele, gritando com pesar enquanto o corpo do velho se contorcia na morte. Beck atirou nela também. Os moradores da vila gritaram. Os soldados puseram-se com rapidez em volta deles, as armas em prontidão. — Bem, padre? — perguntou Beck. — O que você está disposto a sacrificar para proteger algumas pinturas? Qual será o preço para conservar em sua igreja tinta a óleo, telas e algumas bugigangas? Uma dúzia de vidas? Todo mundo aqui? Ou vai martirizar um vilarejo inteiro? O sacerdote cerrou os olhos, fez o sinal da cruz em si mesmo e abaixou a cabeça, reverente, em uma prece. Beck ergueu sua pistola Luger e encostou-a na têmpora do padre. O sacerdote encolheu-se de medo ao toque do metal quente, mas continuou rezando. Beck considerou a possibilidade de que apenas o sacerdote soubesse onde se encontrava o que queria. Colocou sua pistola de volta no coldre e voltou-se para o prefeito, que ainda estava de joelhos. — Você não me apresentou à sua família — disse, dando um passo em direção à jovem que estava em pé atrás do prefeito. — Sua adorável filha, eu presumo? As bochechas gordas do prefeito tremiam de medo. Sua filha ficou ofegante e recuou, agarrando seu bebê. Beck esticou a mão para pegar a criança e tirou-a do colo da mãe. O bebê começou a chorar. — Por favor, não — suplicou ela baixinho, com as lágrimas escorrendo por suas faces. Beck arrulhou para o bebê. — Que criança adorável! — disse. — Você deve estar muito orgulhosa. Jogando a criança para cima e para baixo, ele foi andando até a beirada da escarpa, cujo desfiladeiro era marcado por rochas irregulares. Voltou a lançar o bebê no ar, como um tio faria. O choro cresceu um tom. A mãe soltou um gemido e caiu no chão. — Padre, conte a eles — implorou ela ao sacerdote. Beck jogou a criança mais alto, seus berros ainda mais agudos. Uma mulher desmaiou; outra soltou um grito. — Sim, padre — disse Beck enquanto a criança voava no ar. — Diga-me. O sacerdote rezava. Beck jogou o bebê para cima de novo, com mais força. A criança choramingava, com raiva. — Eu lhe imploro — pediu a filha do prefeito, rastejando na direção de Beck, de quatro. — Não machuque o meu bebê. Um soldado colocou-se no caminho dela. A criança voou mais alto, e depois, mais alto ainda, e tanto a mãe quanto a criança choravam de um jeito histérico. — Jerzy, por favor! Pelo amor de Deus, dê a ele o que ele quer! — suplicou a mulher do prefeito ao marido. Beck quase errou, mal segurando o bebê com uma das mãos. O bebezinho sacudia-se e chutava o ar enquanto era segurado por ele, uivando com raiva. — Isso é realmente bem difícil — disse Beck. — Acho que não conseguirei segurá-lo da próxima vez. — Ele começou a jogar o bebê no ar de novo, mas, para o prefeito, a situação havia chegado ao limite. — Sim! Vamos mostrar a você. — Não! — gritou o sacerdote. — Fique calado! O prefeito ignorou-o, apelando para Beck. — Se fizermos o que quer, você irá deixar o nosso vilarejo em paz? Deixará todos nós irmos embora? — Eu não quero nada de vocês além disso. Vocês têm a minha palavra. Uma dúzia de soldados acompanhou o prefeito e o sacerdote de volta ao vilarejo em um dos caminhões. Beck devolveu a criança aos cuidados da mãe e voltou a sentar-se, banhandose ao sol. Quarenta minutos depois, no mesmo momento em que o tenente reportava ter avistado a vanguarda dos russos, o caminhão voltou aos solavancos pela estrada sulcada, trazendo sua preciosa carga. O sacerdote ficou observando, com tristeza, enquanto Beck examinava o relicário, uma caixa de joias de marfim e ouro que reluzia com rubis e pérolas, e depois cada uma das pinturas, tudo precisamente como esperava. Quando tudo havia sido carregado em segurança, Beck acomodou-se no assento traseiro do seu carro. — Vocês estão livres — disse ao prefeito. — Seria melhor que se escondessem, e rápido, antes que seus novos senhores russos cheguem. Ouvi dizer que eles não têm nenhum amor pelos polacos. Os motores da coluna rugiram e ganharam vida, enquanto os habitantes do vilarejo reuniam seus mortos e começavam a descer a colina. O tenente de Beck aproximou-se dele. — Ao seu comando, Standartenführer, estou pronto para executar suas ordens. As armas dos Panzers alemães estavam com as miras apontadas para o vilarejo, para seguirem a ordem de terra arrasada do alto comando alemão. — Seria imperdoável destruir um vilarejo tão pitoresco quanto este — disse Beck. — Séculos de história não deveriam virar escombros. Vamos deixar o vilarejo de Stawicki para os russos. — Acenou na direção dos habitantes do vilarejo, que partiam. — Somente os nossos amigos ali — disse. — Nada além disso. Enquanto o carro de Beck se afastava, a lona lateral de um dos caminhões desceu. Com um grande rugido, as metralhadoras dentro dele abriram fogo. Meia hora depois, a gritaria tinha parado e tanto a poeira quanto a fumaça haviam assentado. No campo diante do vilarejo havia apenas o som da coluna russa que se aproximava quebrando o silêncio. Joe Cooley Barber pegou de cima da mesa a fotografia de um memorial de pedra na frente da igreja de Stawicki, erguido em memória dos habitantes do vilarejo mortos durante a guerra. — Meu Deus! — exclamou baixinho. — Pensei que eles só fizessem isso com os judeus. — Joe Cooley pegou a seguir um recorte de um jornal sul-americano com a foto de Beck. — Então Beck fugiu com a pintura para a América do Sul? — Não foi tão simples assim. Demorei um tempo e precisei de muitíssimas fontes para juntar os pedaços da história. Relatórios do exército dos Estados Unidos, documentos da CIA, relatos de jornalistas, esse tipo de coisa. E, depois, estes aqui. Max folheou uma pilha de cópias de registros em microfilme, em preto e branco e quase ilegíveis. — Na década de 1970, nós encontramos, ou melhor os agentes da Stasi, a polícia secreta alemã oriental, encontraram uma coleção de papéis enterrados em um porão em Berlim, no que era o setor soviético. Esses documentos fizeram parte dos arquivos secretos da Stasi até depois da queda do muro de Berlim, quando foram liberados junto com milhares de outros documentos. Havia um diário, mantido pelo irmão mais novo de Walter Beck, Heinrich, que simplesmente era jovem o bastante para não ter se alistado. Este daqui é uma cópia. — Está em alemão — disse Joe Cooley. — Será que ninguém escreve em inglês? — Há uma tradução no verso. Os negócios sempre foram bons na galeria de Beck. Depois da Primeira Guerra Mundial, velhos alemães orgulhosos venderam as heranças de suas famílias para aguentarem a inflação destruidora. Na década de 1930, não vendiam somente pintura, mas também prataria e joias, e o comércio desses itens cresceu junto com os nazistas. Até mesmo judeus podiam vender seus bens valiosos na galeria de Beck, pelo menos até a Noite dos Cristais, em 1938, quando se tornou perigoso demais lidar com eles. Otto Beck não trapaceava nos negócios com os judeus, mas sabia que, com frequência, se beneficiava da perseguição a eles. Por volta de 1940, era época de guerra novamente, e os negócios prosperaram como nunca antes, visto que oficiais que retornavam de diversas frentes traziam espólios em forma de obras de arte a serem vendidas — pinturas e tapeçarias —, ouro e prata. A galeria de Beck pagava preços altos. Limusines chegavam e partiam, transportando um fluxo constante de ministros do governo e oficiais do Estado-Maior. Os marchands do próprio Hitler faziam compras ali. Goering era um cliente assíduo. Otto Beck vendia o que eles queriam enquanto, em particular, zombava dos gostos dos nazistas em termos de arte. “Matisse e Van Gogh, Kandinsky e Klee... mein Gott, o mundo a ser tomado e o Führer prefere caçadores e bolinhos”, disse ele a seu jovem filho. Heinrich não se importava com as armas nem com os jogos de guerra que fascinavam a maioria dos garotos de sua idade. Ele amava a arte que se movimentava pela galeria de Beck. Acompanhou o pai em uma viagem de negócios a Paris quando tinha apenas oito anos de idade, e Otto Beck não conseguia tirá-lo do Louvre. Desde que alcançara idade suficiente para segurar um pincel, Heinrich devotava todo seu tempo livre à pintura. Era um artista cuidadoso e se revelou um talento, se não mesmo brilhante. Um dos funcionários de seu pai lhe disse que poderia melhorar sua técnica copiando as obras que admirava. Os barrocos eram os prediletos de Heinrich. Depois de meia dúzia de tentativas, ele produziu um extraordinário Velázquez; exceto pela tinta fresca e pela craquelure, as rachaduras que surgem com o tempo nas pinturas, até mesmo os restauradores mais entendidos que trabalhavam para seu pai mal conseguiam dizer qual era a obra do mestre e qual era a do garoto. Se a guerra não tivesse intervindo, Heinrich Beck bem que poderia ter se tornado um artista bem-sucedido. Aprendeu todos os aspectos dos negócios do pai, ajudando os artesãos a repararem os sinais da guerra nas pinturas que passavam pela galeria: marcas de botas e arranhões fundos, perfeitos buracos de bala e bordas irregulares deixadas por facas que arrancavam telas de valor inestimável de molduras antigas, tudo isso um mudo testemunho de uma guerra que ele não vira. Quando as bombas dos Aliados começaram a trazer a guerra mais para perto dele, Otto levou a família e seu acervo para o porão. As oficinas estavam cheias até o teto com pilhas de molduras e telas, e a família dormia em beliches em um pequeno aposento. As pesadas vigas do chão retumbavam e estremeciam por causa das bombas ao longe, mas os negócios seguiam em frente. A clientela da galeria ficava cada vez mais desesperada a cada semana que passava, tentando financiar fugas, comprar novas identidades ou simplesmente sobreviver. Rios de obras de arte, prataria e dinheiro vivo fluíram para dentro e para fora da galeria de Beck durante o inverno de 1944-45. “A guerra está chegando perto de nós”, dizia uma das entradas do diário. “Nossa casa cheira a tinta a óleo, comida de mãe e medo.” Tarde da noite na primavera de 1945, Heinrich ergueu o olhar de sua mesa de trabalho e viu um homem parado, em pé, nas sombras. Soube de imediato de quem se tratava: — Walter! Otto surgiu dos fundos, onde estivera trabalhando na contabilidade. Haviam visto Walter apenas uma vez desde o início da guerra, em 1941, enquanto o alto comando nazista se preparava para abrir a frente oriental. Naquela época, ele usava o preto da SS; agora, vestia roupas civis. Walter estava esquelético e sua face, endurecida, além de cheirar a cigarro e álcool. — Walter? — disse Otto. — Você está bem? — Tenho algumas coisas para você guardar em segurança para mim. — Aonde você está indo? — perguntou Otto Beck ao filho. Walter não disse nada, dando um passo para o lado para dar passagem a dois homens que carregavam um engradado de madeira. — Fiz uma pergunta a você, Walter — disse Otto, irritado. Otto Beck era o chefe de sua casa e, SS ou não, Walter era seu filho. — Aonde você está...? Walter deu um tapa violento no pai, derrubando-o no chão. — Arschloch! — disse ele rangendo os dentes. — Mantenha este engradado em segurança. Está entendendo? Otto estava atônito demais para responder. Heinrich assentiu pelo pai. — Sim, eu ouvi o que você disse — falou com uma vozinha fina. — Vamos cuidar disso. Juro. Walter virou-se e começou a subir os degraus. Com destemor, Heinrich foi atrás dele. — Walter, espere! Você é um general agora? O que foi que fez na guerra? Alguma vez levou um tiro? Você sabe quão perto daqui estão os russos? Você está com fome? Walter Beck saiu na noite e, abaixando a cabeça, entrou em um carro que esperava por ele. Partiu em alta velocidade enquanto as outras perguntas de Heinrich morriam em seus lábios. A boca de Otto Beck sangrava, sua bochecha estava machucada. Heinrich ajudou-o a sentar-se em uma cadeira e foi correndo buscar água e um pano. Otto dispensou-o, com os olhos grudados nas escadas vazias, a mente voltada para sua esposa, que dormia. — Não conte a ela que ele esteve aqui — disse Otto. Otto Beck nunca mais falou de Walter de novo. O engradado estava escondido abaixo do porão, junto com as pinturas mais valiosas de Otto, em um cofre-forte que era revestido de metal para mantê-lo seco. Esse engradado continuou lá até depois da guerra, bem depois de os russos terem vindo procurar por Walter. As represálias russas contra antigos membros da SS eram terríveis, especialmente para aqueles como Walter Beck, que haviam ganho suas reputações no leste. Um dia, tropas russas entraram no prédio destruindo tudo. Otto teve apenas o tempo suficiente para enfiar seu filho no porão inferior e fechar o alçapão. Os russos espancaram Otto até a morte e atiraram em sua esposa. Eles desmantelaram a loja, mas estavam bêbados e não eram muito bons no que faziam, e nunca encontraram o alçapão, debaixo do qual Heinrich tremia com seus tesouros. Durante três meses, eles fizeram xixi em cima de telas de valor inestimável e beberam vodca, enquanto Heinrich escondia-se debaixo do chão, ouvindo o som da balalaica e vivendo de geleia e pão velho, além de um cantil de água que tinha gosto de óleo diesel, saindo de lá apenas quando os russos estavam dormindo, ou quando estavam lá fora, patrulhando. — Meu Deus! — disse Joe Cooley. — Como é que um menino vive assim, passando por uma coisa dessas? — Ele era mais sortudo do que a maioria — disse Max. — Estava vivo. Depois que os russos foram embora, Heinrich retomou os negócios de seu pai sob a nova realidade da vida em Berlim Oriental. Conforme os anos foram se passando, e Heinrich não recebia nenhuma notícia de Walter, presumiu que seu irmão estava morto ou que era prisioneiro dos soviéticos, o que dava na mesma. No entanto, um dia veio à galeria um homem com uma carta de Walter, instruindo Heinrich a entregar o engradado ao portador. — Heinrich manteve seu diário apenas por mais alguns meses depois disso — disse Max. — O último registro dele no diário foi feito apenas dois dias antes de a Stasi atacar a galeria. É possível que seus agentos estivessem cientes dos negócios dele no mercado negro. Não temos mais nenhuma notícia a respeito de Heinrich. Ele desapareceu. Max fez uma pausa, bebendo um gole de sua água. Depois tirou os óculos e esfregou os olhos. — Walter também desapareceu, mas ele teve muita ajuda, de algumas fontes bem surpreendentes. Ele pegou o próximo documento, um relatório do Exército dos Estados Unidos que deixara de ser secreto, e prosseguiu com a história. Walter Beck foi capturado por forças norte-americanas enquanto seguia seu caminho em direção ao norte da Itália. Seus documentos identificavam-no como Horst Schmidt, um capelão da Wehrmacht. Seu interrogatório por um tenente do Exército havia apenas começado quando Beck, desesperadamente doente, desmaiou devido a um conveniente, porém severo, caso de gripe, e foi carregado, inconsciente, até a enfermaria. Depois que se recuperou, um erro na documentação enviou-o direto para um campo de prisioneiros de guerra sem mais questionamentos. Ele nunca teve que deixar seu braço desnudo, o que teria traído sua identidade. Depois da libertação geral dos prisioneiros, passou os três anos seguintes trabalhando em um bosque de oliveiras em uma fazenda de propriedade de um amigo da SS, parte de uma rede devotada a ajudar ex-nazistas a fugirem da detenção. Um dia, recebeu um pacote com documentos de identidade da Cruz Vermelha e uma autorização para entrar na Argentina, fornecida graças aos esforços de Alois Hudal, um bispo austríaco que trabalhava no Vaticano. Em maio de 1948, embarcou em um cargueiro com destino a Buenos Aires, onde foi acolhido por uma comunidade de alemães fugitivos vivendo entre católicos argentinos. A ele foi dado um emprego de trabalhador braçal em uma fábrica de selas, mas apresentações feitas por seus contatos logo o levaram a trabalhar para o governo de Perón, que precisava de oficiais como Beck para treinar os militares. Beck também foi procurado pela CIA norteamericana, que lhe pagava para fornecer um fluxo de boatos e fofocas sobre homens que ele tinha conhecido em seu lar ancestral, no que agora era a Berlim Oriental; em troca disso, manteriam sua identidade em segredo. Logo Beck estava vivendo com opulência, feliz em servir a ambos os senhores. Casou-se com uma herdeira e achava que seu futuro estava garantido. Depois de uma década, mais ou menos, as coisas começaram a se desgastar. Os norteamericanos ficaram entediados com as fofocas e o dinheiro deles secou. E então uma equipe israelense sequestrou Adolf Eichmann, que vivia bem perto de Beck. A Argentina não era mais um lugar seguro. Beck precisava de dinheiro. Deixou sua esposa sem se despedir e passou para a clandestinidade, escondendo-se em um porão que pertencia a um diplomata argentino simpatizante. Usou sua rede para enviar um homem até a galeria de seu pai em Berlim, para coletar o engradado que havia deixado lá em 1945. O engradado seguiu viagem até a Argentina em uma remessa diplomática, um método custoso, porém comum, usado pelos nazistas para transportarem contrabando da Europa. Beck mandou quebrar o relicário, derreter o ouro e montar as joias, que foram vendidas. Ele também se desfez de várias de suas pinturas, obras de arte moderna de Picasso e Chagall, altamente negociáveis na época. Seguiu para o Paraguai, cujo presidente, Alfredo Stroessner, havia há muito tempo providenciado outro refúgio seguro para nazistas. Beck viveu em Assunção por quase uma década, fazendo pagamentos regulares para ter proteção, porém ficando cada vez mais desconfortável enquanto a corrupção do governo de Stroessner crescia e saía do controle. Homens de pouca honra pessoal acabariam por vendê-lo por uma miséria aos judeus, que não haviam esquecido a guerra distante. Também vivia no Paraguai Josef Mengele, um dos mais famosos e visados nazistas vivos. Um dia, Beck notou dois jovens observando-o em uma cafeteria. Eles pareciam não conhecer um ao outro; um deles estava em uma bicicleta, o outro, lendo um jornal, mas, na sua crescente paranoia, poderiam muito bem estar usando estrelas de Davi. Eles seguiram-no, mas Beck os despistou. Ele não voltou para casa, mas, sim, recolheu seus pertences de valor do esconderijo e pegou um voo para La Paz. – Isso nos leva a Victor Maslov — disse Max e sacou uma espessa pilha de recortes de jornais de um arquivo. — Apareceu em destaque em uma série de artigos no New York Times sobre contrabandistas internacionais de armas. Victor Maslov havia subido na vida com dificuldade, do nada, começando a trabalhar para um primo que tinha adquirido um bombardeiro norte-americano da Segunda Guerra Mundial e o convertera para usá-lo como cargueiro. O primo não era um homem de negócios, mas Maslov era. Aprendeu a pilotar e logo estava transportando no avião artigos do mercado negro para a Croácia e a Iugoslávia, para a Grécia e a Hungria. A princípio, ele lidava na maior parte com trigo e farinha, depois, cerveja e uísque, disposto a fazer perigosas aterrissagens noturnas enquanto estabelecia uma rede de parceiros na Europa e na África. Logo tinha mais dois aviões, passando a vender armas leves junto com o uísque, e por fim abandonando o uísque por completo, não vendendo nada além de armas. Conforme os conflitos regionais aumentavam, o mesmo acontecia com seus recursos. Com o tempo, a frota dele passou a contar com um avião Ilyushin-76 grande o bastante para transportar tanques. Comprava as armas dos Estados Unidos e da Europa e as revendia para todos os cantos do mundo, meticuloso com a identificação dos usuários finais de que precisava para manter seus negócios legítimos de acordo com as leis internacionais. Seu mundo era um mundo de assassinos e déspotas, e não se sobrevivia nele sem ser impiedoso e esperto. Nos lugares em que agia, homens morriam, vítimas das armas que ele vendia ou mortos pelas operações ocultas de sua empresa. Era um mestre do mundo cinza do comércio internacional de armas, protegido por interesses poderosos em todos os continentes. Governos o condenavam ao mesmo tempo que faziam negócios com ele. A imprensa o chamou de Mercador da Morte. Revistas de notícias semanais publicavam várias páginas em cores da destruição causada pelas armas dele, às vezes na mesma edição em que publicavam artigos sobre sua vida particular. Um dos solteiros mais cobiçados do mundo, tinha casas em Los Angeles e Paris, gostava de jogos de azar com altos riscos e tinha um gosto impecável em termos de roupas e mulheres. Maslov tinha uma paixão genuína: amava a arte. Ele a colecionava, estudava e era tocado por ela. Autodidata, passava um bom tempo em galerias e museus pelo mundo todo. Suas aquisições vinham de casas de leilões e marchands bem estabelecidos, assim como de fontes menos legítimas. Não apenas ele realmente amava a arte como às vezes a usava como moeda quando os controles financeiros de um governo apresentavam obstáculos para uma transação específica. Em 1981, Maslov esteve na Bolívia para negociar um grande acordo de vendas de armas com o general Luis Garcı́a Meza, o brutal novo presidente do país. Uma bizarra aliança de personagens havia levado Meza ao poder em 1980, incluindo o cartel de drogas de Roberto Suarez e um grupo de nazistas e jovens neofascistas liderados por Klaus Barbie, um membro da Gestapo conhecido como o Açougueiro de Lyon. Maslov não gostava de lidar com clientes financiados pelas drogas porque atraíam a atenção da Agência de Controle de Drogas dos Estados Unidos, a DEA, que ele temia mais do que os senhores das drogas, que pelo menos agiam com ética. A agência havia feito uso de meios vis para derrubar mais de um de seus concorrentes. Ficara feliz com o infortúnio deles, mas não tinha nenhum desejo de se juntar a eles. Maslov estava no Palacio Quemado, em La Paz, ao fim de uma difícil negociação no decorrer da qual havia avaliado Meza como sendo um tolo indigno de confiança que não iria permanecer no poder por mais de seis meses. Meza havia feito um grande pedido, mas queria mais armamento do que podia pagar, especificamente armas semiautomáticas e lançadores de granadas. Ainda faltavam a ele 8 milhões de dólares do preço pedido por Maslov. Meza tinha pouca moeda forte e oferecera drogas em vez de dinheiro, parecendo genuinamente surpreso quando Maslov riu de sua ideia, chegando a gargalhar diante da sugestão de que estendesse o crédito do boliviano. Exasperado, havia pedido licença e deixara Meza em conferência com seus conselheiros. Foi então que, por puro acaso, notou o Caravaggio. Quase passou batido pela pintura escura em um canto também escuro, apoiada casualmente junto com meia dúzia de outras pinturas em uma parede dominada por retratos espalhafatosos com molduras douradas de ditadores e generais bolivianos que, por sua vez, pareciam diminutas perto de uma pintura de mais de seis metros de Simón Bolı́var montado em seu cavalo, vitorioso no campo de batalha. A pintura não estava assinada, mas Maslov reconheceu o artista quase com a mesma certeza de que reconheceria o próprio rosto no espelho. Vários quadros apoiados na parede eram valiosos, mas apenas um realmente importava para ele. Maslov voltou à reunião. — Como deve saber, Vossa Excelência, sou um tipo de entusiasta das artes. Vejo que quatro ou cinco daquelas peças poderiam me interessar. Talvez pudéssemos fazer um acordo que resolveria suas dificuldades com o fluxo de dinheiro vivo? — Nós não podemos fazer nada com aquelas pinturas, pelo menos não ainda. Elas pertencem a um novo apoiador de nossa causa. Um amigo de Barbie, um tal de coronel Beck. Estamos em um impasse. Receio que a estimativa dele do valor das peças seja um tanto quanto inflada. — Se não estiver passando dos limites, o que o coronel Beck quer? — O que todos querem — disse Meza com desprezo. — Um passaporte diplomático e dinheiro. Ele diz que as pinturas valem oito milhões. Nosso especialista estimou o valor delas em não mais que quatro milhões. Maslov conhecia o especialista deles, o diretor do Museu Nacional, um homem que passara a vida toda adquirindo retratos de generais e seus cavalos. Ele tinha que ser um tremendo de um tolo para ter deixado isso passar. Mas foi o que fizera. — Seu especialista está errado — disse Maslov. — Talvez, mas isso não vem ao caso. Nós convocamos um especialista de Paris para arbitrar a diferença. Maslov deu de ombros. — Faça o que desejar, mas lhe darei os oito milhões de Beck. No entanto, partirei hoje à noite. A oferta só é válida se concluirmos o acordo agora, neste instante. Se fizermos isso, você terá suas armas, todo o seu pedido, antes do fim da semana. Meza mal conseguia esconder sua surpresa, mas viu ali uma oportunidade de aumentar a aposta. — Infelizmente, meu amigo, as coisas não são feitas assim com tanta facilidade. A oferta é muito generosa, mas as pinturas não são um presente. O coronel Beck quer dinheiro vivo para fechar o negócio. — Quanto? Beck havia pedido a ele dois milhões. — Três milhões — disse Meza. — Por que você não joga o cara na prisão e fica com o dinheiro? — Os amigos alemães dele continuam a nos apoiar. Não podemos nos indispor com eles. Além do mais, esses não são os últimos bens dele. Nós podemos precisar dele de novo. — Muito bem — disse Maslov. — Eu mesmo vou pagar ao coronel. — Mas... — Meza tentou, em vão, encontrar palavras, derrotado pela manobra habilidosa de Maslov. — Eu insisto — disse Maslov, levantando-se para sair. — Temos um acordo? Naquela noite, Caravaggio, Velázquez, Picasso, Braque e alguns outros acompanharam Victor Maslov até Los Angeles. Da aeronave, deu um telefonema para o general Torrelio, o ministro do Interior que estava procurando causar a queda da ditadura do jovem Meza. Maslov não traía um cliente com frequência, mas sabia que era melhor não apoiar um perdedor. O general Torrelio ficou deleitado em receber detalhes da remessa iminente e prontamente transferiu dois milhões para Maslov como o preço com desconto pelas armas. Maslov sabia que o dinheiro vinha da Agência de Controle de Drogas dos Estados Unidos, o que tornava a vitória ainda mais doce. Uma semana depois, o carregamento das armas prometidas chegou a uma pista de pouso perto de La Paz. Os homens de Torrelio emboscaram as tropas de Meza e tomaram posse da carga que Maslov havia vendido para Meza. Era o início do fim daquela ditadura. Um coronel boliviano entregou uma mensagem a Walter Beck, organizando um encontro no qual ele seria pago pelas pinturas e receberia seu novo passaporte. Beck compareceu pontualmente, seguro, com base no conhecimento de que os generais bolivianos não traíam seus benfeitores. Dezoito horas depois, Walter Beck, inconsciente, foi levado para fora de um avião em Tel Aviv e jogado na traseira de uma van surrada. Seus captores não se deram ao trabalho de repetir o espetáculo de um tribunal de Eichmann. Beck acordou nu no deserto de Negev, em uma cela minúscula e escura com chão de terra e uma fenda servindo de janela. Ele ensanguentou as mãos socando as paredes, clamando por ajuda de homens que não o ouviam. Estava infernalmente quente. — Água! — gritava. — Animais! Na Bolívia, os rumores eram de que os israelenses haviam sequestrado Beck. Os israelenses negaram que tivessem feito isso. É claro que todo mundo presumiu que eles estavam mentindo. Max fechou a pasta que continha as informações referentes a Walter Beck e Victor Maslov. — É praticamente só isso — disse ele. — Praticamente só isso — repetiu Joe Cooley. — Mas existe a pergunta óbvia: como foi que um homem como Victor Maslov se separou de uma pintura como essa? Como foi que ela chegou até você? — Um ladrãozinho, um homem chamado Lonnie. Um dos clientes mais interessantes com quem trabalhei em trinta anos. Ele me mandou uma carta. Max achou ainda mais um recorte de revista, e esse tinha sua própria foto. — Você se lembra disso? O dom de Max era sua capacidade de avaliar as pessoas. Ele tinha errado algumas vezes, mas isso não acontecia com frequência, e a apreensão que sentira em relação ao fato de Lonnie Mack estar entrando em contato com ele do nada, como um disfarce para alguma trapaça ou fraude, se dissipara no instante em que os dois se encontraram. No fim do encontro, Max estava tão certo quanto podia de que o artigo de Lonnie Mack era genuíno. Às vezes as coisas funcionavam assim no mundo da arte: um Rembrandt descoberto em uma venda de objetos antigos, um Braque no sótão da tia Sally. E então, um homem como Lonnie, um ladrãozinho que encontrou por acaso um tremendo veio de ouro. Lonnie era magro, nervoso e educado, e estava preocupado se poderia confiar em Max, a princípio dizendo que fora um amigo quem, na verdade, havia roubado a pintura, mas rapidamente desistindo de fingir. — Então posso confiar em você? Quer dizer, mesmo que a pintura tenha sido roubada? Quer dizer, não que eu tenha feito isso, nem nada. Eu só conheço alguém... Max acenou com as mãos. — Por favor, Sr. Mack. Conte-me. Se eu não puder ajudá-lo, vou dizer-lhe isso também. Há muitas possibilidades quanto a algo assim, inclusive devolvê-la ao dono, ou à empresa de seguros do dono, para receber uma recompensa. O que pode ser feito de forma anônima. — É mesmo? — Os olhos de Lonnie acenderam-se ao ouvir isso. — Ok, então. Veja bem, eu sou um homem dos cupins, sabe? — Como assim? — Cupins, sabe? Insetos. — Ah... — Max ergueu as sobrancelhas. Não entendeu o que o homem queria dizer com isso. — Meu irmão, Frank, tem uma empresa. Nós matamos cupins de madeira seca. Eles causam o maior estrago, sabia? Destruiriam esse lugar em cerca de uma semana. A única forma de se livrar deles é com gás. — Gás? — É. Fluoreto sulfúrico. Nós a envolvemos com encerados, a casa toda. Leva três dias. Sou eu que lido com os sistemas de alarme, para que a gente possa limpar a casa e fechá-la. Bem, eu sempre digo aos proprietários para mudarem os códigos de seus alarmes depois que terminarmos o serviço, mas fiz um curso, sabe? Consigo mexer na caixa do alarme de forma a conseguir entrar na casa, até mesmo depois de terem mudado os códigos. Verifico a casa e vejo o que existe lá dentro que possa ser levado depois. Nós matamos os cupins com o gás, tiramos os encerados e pronto. Então, umas poucas semanas ou meses depois disso, volto lá e me sirvo. Nunca sou ganancioso demais nem nada, apenas pego coisas de que é fácil me livrar. — Isso não é arriscado? — Não, essa é a parte fácil. Na saída, ativo o alarme, e então simplesmente quebro uma janela ou uma porta. O alarme é disparado, a polícia aparece e pronto! Eles pensam que foi obra de algum arrombador. Max estava se divertindo. — Então foi assim que você topou com essa pintura? Matando... cupins? Lonnie assentiu, com entusiasmo. — Que lugar, sabe? Algum tipo de homem de negócios internacional ou algo do gênero. Não cheguei a conhecê-lo. Sempre viajando, diziam, um cara realmente importante. Só conheci o homem dele, esse cara que disse ser um curador. Eu não sabia o que era isso até que ele me explicou: ele cuidava das coisas. Rapaz, como aquele lugar tinha coisas! Estátuas de mármore, como em um museu, e de bronze nos corredores, pinturas por toda parte, além de móveis antigos. Para falar a verdade, não gostei muito daquilo não, sabe? Achei que os cupins poderiam até melhorar as coisas, mas não se diz algo assim a um cliente. Demos uma olhada e... rapaz, como havia cupins lá! Dá para saber pelas fezes deles. Eles deixam aquelas pilhas, sabe? Se você vir aquelas pilhas, é sua casa vindo abaixo. Ele ficou preocupado com as pinturas. Disse a ele que era provavelmente uma das molduras que tinha trazido os cupins para dentro da casa, para começo de conversa, de Bora-Bora ou de algum outro lugar, e que o gás causaria danos a eles e a mais nada além de comida e cachorros e coisas do gênero. Mas ele disse que não podia se arriscar, então se deu ao trabalho de tirar as pinturas de suas molduras. Chamou uma empresa de carros-fortes, e foi então que dei sorte. Meus rapazes estavam arrumando tudo, sabe, colocando os encerados por toda parte, com plástico e tudo, e esses caras estavam encaixotando as pinturas, uma frescura só. Grande perda de tempo, mas não é o meu dinheiro, não é? Devia haver uma centena de engradados, espalhados por todo lado, mas eu não estava nem aí para isso, só estava notando que tinham um bom conjunto de bules e panelas de cobre na cozinha. Terminaram e assinaram a papelada deles, os carros-fortes partiram e eu tive que verificar se todo mundo tinha saído. Veja bem, é o meu trabalho e eu tenho que ser bem cuidadoso para que ninguém seja atingido pelo gás. E foi então que vi um engradado que eles esqueceram de levar. Estava meio que coberto por um pouco do nosso plástico e eles não o viram, sabe? Lonnie Mack prosseguiu: — Eu nem mesmo sabia o que havia dentro dele, mas sabia que poderia pegá-lo e ninguém ia ficar sabendo, porque eles assinaram a papelada e tal, e, se algum dia percebessem, imaginariam que foram os caras dos carros-fortes, e alguma empresa de seguros pagaria por isso. Eu não gosto muito de empresas de seguro, sabe? Então eu o peguei. Ele deu de ombros antes de continuar: — Foi fácil assim, mas tenho que dizer que fiquei bem desapontado quando abri o engradado. Coisas que valiam uma fortuna naquela casa, e tudo que eu consegui pegar foi uma pintura velha. Uma pintura bem nojenta, para falar a verdade. Uma criança erguendo a cabeça de um cara, sangue por toda parte. Definitivamente não era uma coisa para se pendurar ao lado da TV, sabe? Simplesmente pensei em jogá-la fora, ou até mesmo em levá-la de volta e deixá- la no corredor, e ninguém nunca ficaria sabendo do que houve. Que diabos, não podia fazer nada com uma pintura! A única pintura que eu já tinha pego foi uma de veludo. Eles disseram que ela tinha sido feita para o Elvis Presley, sabe? Ou por ele, talvez. Seja como for, consegui oitocentas pratas por ela, então fiquei bem feliz. Então não sabia o que mais fazer e só preguei um prego e coloquei-a no barraco. Então, um dia, a Della... ela é minha namorada, trabalha em um salão de beleza, e, tipo, cinco anos depois ela trouxe para casa uma daquelas revistas que os clientes ficam olhando enquanto esperam para serem atendidos e havia nela uma história sobre uma pintura perdida. A pintura era bem parecida com a minha, só que estava pendurada na Itália, ou algo do gênero. Eu sabia que a minha era velha também, então... simplesmente achei que ela poderia ser a verdadeira mesmo. Então a levei para casa e mostrei-a a Della, e nós a colocamos acima da mesa de jantar. — Então foi assim que você me encontrou — disse Max. Em trinta anos, houve apenas uma mácula na Galeria Wolff. A história havia sido sensacional, envolvendo clientes famosos e alegando que Wolff tinha vendido uma pintura roubada no mercado negro. Max havia feito aquilo muitas vezes, mas não no caso citado no artigo. Essa história não tinha dado em nada além de um processo por difamação, que Max ganhou, e da publicidade, que não tinha sido totalmente negativa. A história havia sido publicada na mesma edição daquela sobre o Caravaggio perdido. — Isso mesmo — assentiu Lonnie, orgulhoso. — Eu li o artigo. Então, Sr. Max Wolff, o senhor acha que pode me ajudar? Joe Cooley riu alto. — Imagine isso — disse ele. — Um Caravaggio pendurado em um trailer. Ao lado do molho de tomate! Max sorriu. — Para falar a verdade, acho que o próprio Caravaggio poderia ter aprovado isso. Ele fechou o arquivo e deu uns tapinhas de leve nele. — Então, aí está. Na verdade, uma origem um tanto quanto simples. Uma maldição colhida de uma danação, disse um dos eruditos. Um espelho de seu criador, talvez. — Deu de ombros. — Ou apenas uma bela pintura. Então me diga: está satisfeito? — Fiquei satisfeito, meu amigo Max, no instante em que você me disse que eu poderia comprar essa pintura! — disse ele. — Mas estou curioso. Por que você veio até mim? Por que não devolver a pintura a Maslov? — Uma questão simples de economia. Eu conheço Victor Maslov razoavelmente bem. Ele me pagaria uma recompensa por encontrar e devolver a obra. Uma quantia generosa, sem sombra de dúvida, mas uma mera recompensa. Você, por outro lado, haveria de me pagar mais, ainda assim apenas uma fração de seu verdadeiro valor, mas muito mais, e é claro que você nunca vai exibir a pintura ao público, não mais do que o próprio Victor poderia fazê-lo. Se você a expusesse, acabaria se deparando com uma embaraçosa e infindável sucessão de processos, enquanto os antigos donos dela tentariam recuperar o que uma vez lhes pertencera. Sem publicidade, sem problemas. A pintura vai satisfazer a sua vaidade... perdoe-me, mas não é verdade? Você cuidará da pintura e deixará a questão de sua propriedade para seus herdeiros. E, quanto ao Victor, ele é um homem realista. Sempre o tratei com correção. Eu o valorizo como cliente, mas não devo nada a ele. Ele perdeu uma pintura, eu encontrei uma pintura. Não sou nem o ladrão nem um investigador do Victor. Sou um simples marchand. Joe Cooley Barber riu. — Simples, de fato — disse ele, balançando a cabeça em negativa. — Está bom o bastante para mim. — Eu acho que vou tomar uma taça de vinho agora — disse Max. Joe Cooley encheu uma taça com vinho para ele e serviu a si mesmo um uísque duplo. Pegou o telefone e ligou para seu agente de negócios, que ligou para o banqueiro dele. Nova York, Bahamas, Ilhas Cayman; o dinheiro movia-se na velocidade da luz enquanto Max sorvia devagar seu vinho, perdido em pensamentos. Quando recebeu a confirmação de seu banqueiro, ele levantou-se e Joe Cooley ajudou-o com suas coisas. — Tudo certo então — disse Max. — Tudo certo — repetiu Joe Cooley Barber. — O bom Senhor está sorrindo, porque essa pintura perturbada por fim encontrou um lar em um lugar abençoado. Uma nova entrada dourada na origem dela. O jatinho particular levantou voo, dando a Max uma gloriosa visão do sol se pondo sobre o pico Pikes. Ele sentiu uma grande calma e dormiu em paz no voo. Assim que chegou a seu estúdio em Manhattan, telefonou para Lonnie Mack, que recebeu, em êxtase, a notícia de que iria ganhar meio milhão de dólares por uma pintura que ele quase tinha jogado no lixo. — Você terá o dinheiro amanhã — falou Max. — Mas devo lembrá-lo de que não deve dizer nem uma palavra sobre isso a ninguém. — Você está de brincadeira? — disse Lonnie, magoado, com sua euforia por um breve momento esfriada pela cautela de Max. — Nunca falo sobre os meus trabalhos. — É claro que não — respondeu Max. — Só estou sendo cauteloso. Diga-me onde você gostaria de se encontrar comigo. Em algum lugar seguro. Você escolhe o lugar. Lonnie pensou por um instante e depois deu-lhe um endereço. Max ouviu-o pulando de alegria quando desligaram. Max deu ainda mais um telefonema. — Victor? Max. Muito bem, obrigado. Tenho notícias maravilhosas. Recuperei a sua pintura. Sim, o Caravaggio. Max sorriu com a reação de Maslov. De todos os seus clientes, Victor Maslov era o que mais amava sua arte. — Sim, estou bem certo disso. Ela está em bom estado, considerando-se que ficou pendurada em um canto de um armazém durante alguns anos. Ela estava com algumas manchas de espaguete, mas não sofreu nenhum dano duradouro. Foi limpa no meu estúdio. Parece nova. Estou olhando nos olhos de Davi agorinha mesmo. — Tocou de leve na bochecha do pastor. — Que obra poderosa, meu amigo. O triunfo do bem sobre o mal. Max deu a Maslov breves detalhes sobre como ele havia recuperado a pintura. — Sim — ele riu. — Fácil assim. Foi um golpe de sorte, apenas isso. Ele é um bom menino, Victor. Prometi-lhe meio milhão, uma quantia modesta, acho, mesmo que ele tenha roubado a pintura. Sim, bom. Você cuida disso para mim? Só um instante, perdi o papel. — Deu tapinhas em seus bolsos, e depois se deu conta de que o papel ainda estava sobre a mesa. Leu o endereço. — Sim, isso mesmo. — Temos a questão da sua recompensa por ter encontrado e estar me devolvendo a pintura — disse Maslov. — Eu estava pensando em cinco milhões. — Por favor, Victor. Você é um bom cliente, mas essa quantia é generosa demais. — A pintura vale muito mais do que isso para mim. Achei que ela estivesse perdida para sempre. Pensei que meu curador a tivesse pegado. — Victor riu. — Esse tempo todo, o homem dos cupins. Max sabia que o curador de Victor havia morrido em um acidente de automóvel não muito tempo depois do roubo. — Ficarei feliz em aceitar seu dinheiro assim que a pintura estiver de volta e em segurança em suas mãos — disse Max. — Por ora, você só precisa mandar alguém vir buscá- la. — Ele não conseguiu resistir a dar uma alfinetada de leve em Maslov. — Alguém competente, por favor. Não aguentaria vê-la perdida de novo. No dia seguinte, conforme prometido, Lonnie Mack recebeu seu dinheiro vivo, belas pilhas de notas arrumadinhas em uma maleta de alumínio entregue por um homem que não conhecia. Lonnie nunca tinha visto tanto dinheiro assim antes. Levou a maleta com o dinheiro para casa, para junto de Della, com uma garrafa de champanhe caro, e eles começaram a planejar uma viagem a Las Vegas. Naquela noite, os noticiários dos canais de TV locais deram destaque à história de uma explosão violenta em um estacionamento de trailers, resultado de um aparente vazamento de gás. Helicópteros dos noticiários captaram gravações dramáticas das chamas e da fumaça da explosão, que destruiu uma dúzia de lares e deixou não se sabia ainda quantos mortos. Essa era a parte dos negócios de que Max menos gostava. Não se poderia permitir que Lonnie inventasse histórias para a imprensa, não mais do que se poderia permitir que aparecesse à sua porta dentro de um ano procurando por mais dinheiro. Acompanhado por dois guarda-costas, o novo curador de Victor Maslov pegou o Caravaggio pessoalmente, praticamente borbulhando ao vê-lo. Poucos dias depois, Victor transferiu para Max a quantia da recompensa por encontrar e devolver o quadro, menos o dinheiro que havia subido pelos ares na fumaça junto com Lonnie. Agora Max só tinha que decidir o que fazer com o Caravaggio original, que ainda estava em seu escritório. Éclaro que havia uns poucos detalhes sobre a origem da pintura que Max deixara de fora do que contara a Joe Cooley, particularmente no tocante a Heinrich Beck, o jovem irmão de Walter. O diário dele havia terminado com uma incursão da Stasi, mas a história dele não acabava aí. Os russos que mataram os pais dele haviam alojado soldados em casas particulares durante vários meses, enquanto ele permanecia escondido no porão. Emergia apenas à noite para procurar comida e água, em raros momentos seguros. Debaixo do alçapão que seu pai tinha construído, Heinrich preencheu aqueles meses solitários com pinturas. Embora estivesse cercado de belas obras de arte, ele não tinha nenhuma tela nova em que trabalhar, então pintava em cima das obras de que menos gostava, tentando trabalhar com novas ideias, e depois raspava a tinta das telas para começar de novo. Ele também trabalhava em suas reproduções, aprendendo a copiar pinceladas, uso de cores e profundidades. Ficava satisfeito ao ver como suas cópias eram boas, e com o quanto ele aprendia com o processo. Entre os originais, é claro, estavam aquelas pinturas do engradado de seu irmão. Quanto mais Heinrich estudava o Caravaggio, mais ele o admirava. Fez seis cópias dele ao todo, mas guardou apenas duas, reutilizando as outras telas. Ele sabia que aquelas duas telas eram as melhores que já tinha feito. Os russos acabaram, por fim, abandonando a galeria e ele saiu de sua toca-esconderijo. A vida na Berlim do pós-guerra era difícil, mas Heinrich era um sobrevivente. Continuava sendo fácil trabalhar com arte, e arte ainda era uma moeda corrente melhor se a pessoa tivesse o know-how e os contatos certos, e é claro que Heinrich tinha ambos. Ele ainda conservava muitas e muitas pinturas dos porões que sobreviveram com ele, e começou a negociá-las. Por um bom tempo, seus negócios foram conduzidos na maior parte em segredo, comprando de pessoas sem nome e vendendo a pessoas sem rosto, prestando serviços a alemães que haviam ficado recentemente humildes, que negavam o passado e curvavam-se agora aos senhores russos, enquanto começavam a se preparar para aprender as novas sutilezas da putrefata corrupção dos bolcheviques. Não demorou muito para que ocorresse a Heinrich a ideia de vender suas cópias também. Isso era fácil, especialmente entre as novas classes da elite, que tinham dinheiro, mas não sabiam nada de arte. Heinrich sabia que seu pai teria ficado pasmo com isso, mas seu pai estava morto e ele, não, e essa verdade compunha a única regra que importava. Ele pintou novas cópias, negociou-as, deu propinas e sobreviveu enquanto a lembrança da guerra começava a se dissipar, Berlim começava a ser reconstruída e as notícias nas rádios sobre a Guerra Fria ganhavam força. O bilhete gélido de Walter exigindo que entregasse o engradado ao emissário estimulou Heinrich a fazer o que fez. Ele teve uma reação impulsiva, movido pela raiva, pela vergonha pelo que Walter havia feito com o nome da família, por causa dos pais mortos devido ao passado de Walter, por um bilhete que meramente exigia obediência, que não lhe perguntava nada sobre ele ou os pais deles. Heinrich enviou ao irmão uma das cópias, certo de que Walter nunca perceberia a diferença. A incursão da Stasi havia lhe mostrado o quanto ele estivera errado. Tinham vindo à noite, depois que a galeria foi fechada e ele ficou sozinho. Não eram apenas agentes da Stasi, mas também antigos membros da SS, e sabiam o que estavam procurando. Perguntaram a ele onde estava escondida a pintura original. Quanto mais negava qualquer conhecimento sobre seu paradeiro, mais batiam nele. — Você é um tolo — disse um deles. — Seu irmão deixou uma marca em todas as pinturas dele. Não havia essa marca naquela que você enviou. Heinrich não abriu mão da pintura. Decidiu que morreria antes de fazer uma coisa dessas. Eles quase o obrigaram a fazer isso, batendo nele com selvageria. Eles se serviram de outras obras e fizeram uma fortuna com elas, carregando telas na traseira do caminhão deles, levando tudo que podiam carregar. Antes de irem embora, um dos homens desamarrou seus braços e comprimiu um deles sobre a mesa de trabalho. — Seu irmão disse que era para não matarmos você — falou o homem, enquanto Heinrich lutava com ferocidade. — No entanto, disse para que nos certificássemos de que você nunca mais o enganaria. Usando um martelo-pilão, outro homem esmagou cuidadosamente os ossos da mão direita de Heinrich e, depois, cada um de seus dedos, um por um. Heinrich Beck nunca escreveu mais nenhuma palavra em seu diário, e nunca mais pintou na vida. Demorou dois anos, mas por fim conseguiu comprar o passaporte de um alemão morto, chamado Max Wolff, e,por meio de propinas, comprar sua saída de Berlim Oriental, com o Caravaggio e a única cópia deste que lhe restara, enrolados junto com algumas de suas próprias pinturas. O agente da alfândega dos Estados Unidos olhou de relance para algumas das telas e dispensou-as, dando-lhe passagem, com um aceno, como se fossem o trabalho amador de um estudante de segunda linha. Agora Max considerava o que fazer com o original. Ele era um homem velho, seu tempo estava se esgotando. Talvez devesse pensar em um legado. Considerou a ideia de doá-la ao vilarejo de Stawicki, onde a pintura havia passado mais de três séculos, mas isso parecia tão... pouco lucrativo. Pesquisou suas antigas mensagens telefônicas e encontrou uma de um colecionador chinês que ficara rico recentemente e estava procurando obras de arte de valor. Algo importante, dissera o homem. Algo espetacular. Ele ia criar um museu. 

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