C A P Í T U L O 16
O dia de Rayford — e o seu futuro, assim ele imaginava — estavam traçados. Ele
compareceria à solenidade de gala, e depois voltaria de táxi para o Aeroporto Internacional Ben
Gurion em Lod, localizado a quase quinze quilômetros a sudeste de Tel-Aviv. Na hora em que ele
chegasse, a tripulação já teria deixado o 757 em ordem, e ele começaria a fazer a inspeção dos
equipamentos de segurança antes da decolagem. No itinerário constava um vôo à tarde para
Bagdá e, em seguida, outro sem escalas para Nova York. Um vôo em direção ao oeste naquela
hora do dia era imprudente e contrariava os itinerários convencionais, mas nessa viagem, e
talvez pelo resto da carreira de Rayford, Carpathia é quem dava as ordens.
Rayford passaria a noite em Nova York antes de voltar para casa e decidir se seria viável
trabalhar naquele emprego morando em Chicago. Talvez ele e Chloe se mudassem para Nova
York. O fato de trabalhar como piloto do Air Force One para o presidente não passava de uma
artimanha. Na verdade, estaria prestando serviços a Nicolae Carpathia aonde quer que ele fosse
e, por algum motivo, Rayford sentia-se compelido a sublimar seus sonhos, seus desejos, sua
vontade e sua lógica. Deus lhe dera essa incumbência por algum motivo, e desde que não
precisasse viver uma mentira, ele a aceitaria, pelo menos por ora.
Rayford aprendera com Bruce e com seus próprios estudos da profecia que chegaria o dia
em que o Anticristo deixaria de ser um enganador. Ele mostraria suas garras e governaria o
mundo com pulso de ferro. Esmagaria seus inimigos e mataria qualquer um que fosse inϐiel a seu
regime. Com isso, todos os seguidores de Cristo correriam o risco de ser martirizados. Rayford
previa o dia em que abandonaria o emprego de Carpathia e se tornaria um fugitivo,
simplesmente para sobreviver e ajudar os outros crentes a fazerem o mesmo.
Buck viu um agente do Serviço Secreto norte-americano caminhando em sua direção.
“Cameron Williams?”
“Quem é você?”
“Sou do Serviço Secreto, e você sabe disto. Posso ver seu documento de identidade, por
favor?”
“Já fui inspecionado mais de cem vezes — disse Buck, pegando suas credenciais.”
“Eu sei. — O agente examinou o documento de identidade de Buck. — Fitz quer vê-lo, e
eu preciso ter a certeza de estar levando o homem certo até ele.”
“O presidente quer ver-me?”
O agente fechou a carteira de documentos de Buck e devolveu-a, fazendo um movimento
afirmativo com a cabeça. — Acompanhe-me.
Num pequeno escritório nos fundos do Edifıć io Knesset, mais de duas dezenas de
proϐissionais da imprensa lutavam para conseguir posicionar-se perto da porta, aguardando para
assediar o presidente Gerald Fitzhugh assim que ele saıś se para a cerimônia. Dois outros agentes
— com identiϐicação na lapela, fones de ouvido e mãos cruzadas na frente do corpo —
postavam-se guardando a porta de entrada do escritório.
— Quando ele vai sair? — perguntou alguém.
Os agentes não responderam. A imprensa não era problema deles, exceto manter o pessoal
afastado quando necessário. Os agentes sabiam mais do que o secretário de imprensa quando o
presidente se locomovia de um lugar para outro, mas isso certamente não era da conta de mais
ninguém.
Buck aguardava com prazer o momento de ver o presidente outra vez. Vários anos
haviam transcorrido desde que ele escrevera a reportagem sobre Fitzhugh como o "Fazedor de
Notıć ia do Ano". Naquele ano, Fitz foi reeleito e também homenageado pela segunda vez pelo
Semanário Global. Buck parecia ter caıd́ o nas graças do presidente, que era uma versão mais
jovem de Lyndon Johnson. Fitzhugh tinha apenas cinqüenta e dois anos quando foi eleito pela
primeira vez e agora estava chegando aos cinqüenta e nove. Ele era um homem robusto, de
aparência jovem, exuberante e rude. Usava linguagem indecorosa liberalmente e, apesar de
Buck nunca ter estado em sua presença quando Fitz estava zangado, suas explosões de raiva
eram legendárias entre seus assessores.
O temperamento explosivo do presidente deixou de ser novidade para Buck naquela
manhã de segunda-feira.
Enquanto o acompanhante de Buck o fazia passar por entre a multidão de jornalistas e
fotógrafos diante da porta, os agentes reconheceram seu colega e afastaram-se para que Buck
pudesse entrar. Os membros da associação de imprensa norte-americana protestaram diante do
livre acesso de Buck.
“Como ele conseguiu.”
“Isso sempre acontece!”
“O que vale não é o que a gente sabe nem quanto a gente se mata de trabalhar! EƵ quem a
gente conhece!”
“O rico fica mais rico!”
Buck desejava que eles tivessem razão. Queria ter uma conversa exclusiva com o
presidente, um furo de reportagem, mas estava completamente sem saber o que fazia ali.
O agente secreto acompanhante de Buck apresentou-o a um assessor presidencial, que o
segurou ϐirme pela manga e o arrastou até um canto da sala, onde o presidente estava sentado
na beira de uma enorme cadeira. O paletó de seu terno estava aberto, a gravata afrouxada e ele
conversava em voz baixa com dois conselheiros.
“Sr. Presidente, Cameron Williams, do Semanário Global — anunciou o assessor
presidencial.”
“Peço a licença de vocês por alguns minutos — disse Fitzhugh. O assessor e os dois
conselheiros começaram a dirigir-se para a porta. O presidente segurou um dos conselheiros
pelo braço — Você não, Rob! Você trabalha para mim há tanto tempo e ainda não conseguiu
entender? Preciso de você aqui. Quando peço licença por alguns minutos, não estou incluindo
você.”
“Perdão, senhor.”
“ E pare de se desculpar.”
“Perdão.”
Assim que disse isso, Rob se deu conta de que não deveria ter pedido perdão por ter pedido
perdão. “Perdão, bem, perdão. Está bem.”
Fitzhugh revirou os olhos. “Dá para alguém pegar uma cadeira para Williams? O jeito aqui
é gritar. Temos só alguns minutos.”
“Onze — disse Rob em tom de desculpa.”
“Ótimo. Onze.”
Buck estendeu a mão. “Sr. Presidente — ele disse. Fitzhugh apertou a mão de Buck com
força, sem fitá-lo nos olhos.”
“Sente-se aqui, Williams.”— Fitzhugh tinha o rosto vermelho, e o suor começava a brotar
em sua testa. “Antes de tudo, esta conversa é totalmente confidencial, está certo?”
“Como o senhor quiser.”
“Não, não é como eu quiser! Já ouvi isso antes e me dei mal.”
“Não comigo, senhor.”
“Não, não com você, mas lembro que uma vez eu lhe contei algo e, em seguida, disse que
era conϐidencial, e vocême veio com uma conversa mole sobre quando o assunto é conϐidencial
e quando não é, de acordo com a lei.”
“ Se bem me lembro, senhor, cortei algumas coisas.”
“Assim você disse.”
“Tecnicamente, não se pode dizer que um assunto é conϐidencial depois de revelado. Só
antes de ser revelado.”
“Ah, sim, penso que já me disseram isso algumas vezes. Então, vamos deixar claro que
tudo isto é confidencial desde o início, certo?”
“Certíssimo, senhor.”
“Williams, quero saber o que está acontecendo com Carpathia. Vocêtem passado algum
tempo com ele. Já o entrevistou. Dizem que ele está tentando contratá-lo. Você conhece o
homem?”
“Não muito bem, senhor.”
“Para dizer a verdade, estou ϐicando furioso com esse homem, mas ele é o sujeito mais
popular do mundo depois de Jesus Cristo, portanto quem sou eu para reclamar?”
Buck ficou confuso com a verdade contida naquela frase.
“Pensei que o senhor fosse o maior defensor dele — os Estados Unidos mostrando o
caminho para ele, essas coisas.”
“E sou! Quero dizer, era. Convidei-o para ir à Casa Branca! Ele falou na sessão conjunta.
Aprecio suas idéias. Eu não era um paciϐista até ouvi-lo falar sobre a paz, e pelo amor de Deus,
acho que ele tem condições de conseguir. Mas as pesquisas dizem que ele ganharia de mim pelo
dobro de votos se concorresse à presidência neste instante! Só que ele não quer. Ele quer que eu
permaneça na presidência e seja seu subordinado!”
“Ele lhe disse isso?”
“Não seja ingênuo, Williams. Eu não o teria trazido até aqui se soubesse que vocêia levar
tudo ao pé da letra. Mas, veja, ele me enrolou com o caso do Air Force One, e agora você viu o
que aconteceu? Ele pintou as palavras Global Community One por cima do nome da aeronave e
vai emitir um pronunciamento hoje à tarde agradecendo aos cidadãos dos Estados Unidos o
presente recebido. Pensei em chamá-lo de mentiroso frente a frente e tentar desfazer esse malentendido.
“Isso jamais daria certo, senhor — interveio o subserviente Rob. — Quero dizer, sei que o
senhor não perguntou, mas o pronunciamento que será divulgado dá a entender que ele tentou
recusar, o senhor insistiu e ele aceitou com relutância”.
O presidente virou-se para Buck. “Vocêentendeu, Williams? Vêo que ele faz? Agora estou
me encrencando mais ainda ao contar esta história a você. Você já consta da folha de
pagamento dele e vai lhe contar tudo, não é mesmo?”
Buck gostaria de dizer-lhe o que vira, o que realmente sabia sobre Carpathia, quem a
Bíblia provava que ele era. “Não posso dizer que sou um admirador de Carpathia — disse Buck.”
“E você é um admirador de Fitzhugh? Não vou perguntar-lhe em quem você votou”
“Não me importo de dizer. A primeira vez em que o senhor se candidatou, votei em seu
oponente. Na segunda vez, votei no senhor.”
“Conquistei sua simpatia?”
“Conquistou.”
“Então, qual é o seu problema com Carpathia? Ele é muito afável, muito persuasivo,
inspira muita conϐiança. Acho que ele consegue enganar quase todo mundo na maior parte do
tempo.”
“Acho que esse é um dos meus problemas — disse Buck. Não sei ao certo que estratagema
ele está usando, mas parece que funciona. Ele consegue o que quer e quando quer, e aparenta
ser um herói relutante.”
“EƵ isso aı!́ — disse o presidente, batendo no joelho de Buck com tanta força que chegou a
doer. — Esse também é o meu problema! — O presidente proferiu um palavrão. E, em seguida,
mais um. Dali em diante, passou a incluir palavras obscenas em cada frase que proferia. Buck
temia que o presidente pudesse sofrer um enfarte naquele momento.”
“Preciso pôr um ϐim nisto — vociferou o presidente. — Está me incomodando muito. Hoje
ele vai aparecer como um santo, fazendo-me passar por um grande tolo. Os Estados Unidos
sempre foram exemplo de liderança para o mundo, mas agora parecemos um de seus fantoches.
Sou um indivıd́ uo forte, um lıd́ er forte e decidido. E de uma hora para outra ele me faz parecer
um simples bajulador seu. — O presidente respirou fundo. — Williams, vocêsabe a encrenca que
arrumamos com o pessoal das forças armadas?”
“Posso imaginar.”
“Vou lhe contar. Fincaram o pé e não posso discutir com eles! Nosso serviço de
informações está dizendo que eles já começaram a recolher e esconder os principais
armamentos, porque são contra minha aprovação ao plano de destruir noventa por cento e
entregar, nesta semana, os dez por cento restantes à ONU ou a essa tal de Comunidade Global.
Eu gostaria de acreditar que os motivos de Carpathia são puros e que este é o último passo rumo
à verdadeira paz, mas são as pequenas coisas que me fazem duvidar. Como o caso do avião.
Adquirimos um novo avião e precisávamos de um novo piloto. Não me importo quem vai pilotá-
lo, desde que seja qualiϐicado. Temos uma lista de pilotos em quem conϐiamos, mas de repente
há só um nome na lista que é aceito pelo Grande Potentado do Mundo, e esse piloto vai
conseguir o posto. Agora eu não devia mais preocupar-me, porque cedi o avião e a tripulação a
Carpathia! — O presidente proferiu mais um palavrão.”
“Bem, não sei o que dizer, mas é uma pena o senhor não dispor dos serviços do novo piloto.
Eu o conheço e ele é o melhor.”
“OƵtimo. Vocênão acha que eu gostaria de ter o melhor piloto de meu paıś ? Claro! E eu não
estava exagerando no tıt́ ulo que dei a Carpathia. Existe uma resolução na ONU, perdão,
Comunidade Global, que deve ser votada brevemente pelo Conselho de Segurança. Essa
resolução concede um "tıt́ ulo mais apropriado" para o secretário-geral, uma vez que ele em
breve será o comandante-em-chefe das forças militares remanescentes do mundo e o chefe
ϐinanceiro do banco global. O pior é que essa resolução partiu de nosso próprio embaixador, e eu
não sabia de nada até o fato ser ventilado no comitê. O único recurso de que disponho é insistir
para que o embaixador vote contra sua própria proposta, que a retire ou que abandone o cargo.
Com que cara eu ϐicaria se despedisse um indivıd́ uo só porque ele quer dar um tıt́ ulo mais
sugestivo ao chefe da Comunidade Global, que o mundo inteiro adora?”
O presidente não estava dando oportunidade a Buck de responder, o que não era nada mau,
porque ele não sabia o que dizer.
Fitzhugh inclinou-se para frente e cochichou: “E essa história dos meios de comunicação!
Concordamos com ele que nossas leis de conϐlito de interesse eram um pouco restritivas, bem
como as de quase todos os paıś es do mundo. Não querıá mos impedir a ONU ou essa tal
Comunidade Global de ter o direito de divulgar os fatos de maneira mais ampla quando estamos
tão perto de alcançar a paz mundial. Fizemos uma pequena concessão a ele, e veja o que
recebemos em troca. Ele adquiriu todos os jornais, revistas e redes de rádio e TV antes que
tivéssemos tempo de mudar de idéia! Onde ele está conseguindo o dinheiro, Williams? Vocêsabe
me dizer?”
Cameron teve uma crise de consciência. Havia dado a entender a Carpathia que não
revelaria o caso da herança de Stonagal. Mas desde quando as promessas a um demônio deviam
ser mantidas? Não seria o mesmo que mentir a um estranho quando ele pergunta onde estão
seus entes queridos?
“Eu não posso dizer — disse Buck. Ele não sentia nenhuma lealdade a Carpathia, porém
não podia correr o risco de Carpathia vir a saber que ele divulgara um segredo tão importante
como esse. Buck teria de contar com sua própria habilidade — pelo menos enquanto pudesse.”
“Você sabe o que nosso serviço de informações está nos dizendo? — prosseguiu Fitzhugh.
— Que o plano a ser posto em prática é fazer com que os dirigentes dos paıś es representados
pelos dez membros do Conselho de Segurança sejam subordinados a seus embaixadores. Com
isso, haveria dez embaixadores, os reis do mundo, sob o domínio de Carpathia.”
Buck franziu a testa. “Em outras palavras, o senhor, o presidente do México e o primeiroministro
do Canadá seriam subordinados ao embaixador da América do Norte na ONU?”
“Isso mesmo, Williams. Mas você precisa esquecer a Organização das Nações Unidas.
Agora é Comunidade Global.”
“Eu me enganei.”
“Está certo, é um engano, mas não seu.”
“Senhor, existe alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?”
O presidente Fitzhugh olhou para o teto e passou a mão pelo rosto suado. “Não sei. Eu só
queria desabafar, acho, e pensei que talvez você pudesse dar-me alguns subsídios. Qualquer coisa
que ajudasse a frear um pouco esse indivıd́ uo. Deve haver uma fresta em algum lugar de sua
armadura.”
“Eu gostaria de poder ajudar mais — disse Buck, dando-se conta de repente de que não
estava dizendo a verdade. O que ele não daria para expor Nicolae Carpathia como um assassino
mentiroso, o Anticristo hipnotizador! E apesar de Buck ser contra ele, nenhuma pessoa sem
Cristo entenderia ou concordaria. Além disso, aparentemente a Bıb́ lia não mencionava que os
seguidores de Cristo seriam capazes de fazer alguma coisa a mais, a não ser opor-se a ele. A
trajetória do Anticristo foi predita séculos antes, e o drama seria encenado até o fim.”
Nicolae Carpathia estava deglutindo o presidente dos Estados Unidos e quem atravessasse
seu caminho. Alcançaria o poder derradeiro, e depois a verdadeira batalha começaria, a guerra
entre o céu e o inferno. A derradeira guerra fria transformar-se-ia em batalha para a morte.
Buck sentia-se confortado por saber que o ϐim estava previsto desde o inıć io... mesmo que ele só
tivesse tomado conhecimento poucas semanas antes.
O assessor que anunciara Buck ao presidente Fitzhugh interrompeu educadamente.
“Com licença, Sr. Presidente. O secretário-geral deseja conversar com o senhor cinco
minutos antes do início da cerimônia.”
Fitzhugh proferiu outro palavrão. “Vamos parar por aqui, Williams. Foi bom desabafar-me
com você e agradeço seu sigilo.”
“Certamente, senhor. Ah, seria muito melhor para todos nós se Carpathia não me visse
aqui. Ele vai perguntar sobre o que conversamos.”
“Está bem. Ouça, Rob, vá até lá e diga ao pessoal de Carpathia que esta sala não é
apropriada e que vou encontrar-me com ele em um minuto onde ele determinar. E peça a
Pudge para vir aqui.”
Aparentemente Pudge era o apelido do primeiro agente que acompanhara Buck. O apelido
Pudge [pessoa atarracada ou gorducha] não combinava com aquele jovem esguio. “Pudge, dê
um jeito de Williams sair daqui sem que o pessoal de Carpathia o veja.”
O presidente apertou o laço da gravata e abotoou o paletó. Em seguida, foi levado a uma
outra sala para a reunião com Carpathia. Buck foi protegido por Pudge, o agente do Serviço
Secreto, até o ponto em que não haveria mais o risco de ser visto. Depois, caminhou até o local
onde seria apresentado como parte da delegação norte-americana.
As credenciais de Rayford davam-lhe permissão para sentar-se quase de frente para
autoridades norte-americanas. Ele era um dos únicos a saber que as testemunhas diante do
Muro das Lamentações estavam certas — que essa era a comemoração de um pacto profano.
Ele sabia, mas não podia fazer nada. Ninguém podia desviar o rumo da história.
Bruce Barnes lhe ensinara muito bem esta lição.
Rayford já estava começando a sentir a falta de Bruce. Passara a gostar das reuniões
noturnas na igreja e das experiências que estava adquirindo. A intuição de Bruce estava certa. A
Terra Santa era o lugar ideal para estar naquele momento. Se era esse o local de onde surgiriam
os primeiros 144.000 judeus convertidos, Bruce gostaria de estar ali.
De acordo com o que Bruce ensinara diretamente da Bıb́ lia a Rayford, Chloe e Buck, os
convertidos viriam de todas as partes do globo terrestre, o que redundaria na mais incrıv́ el
colheita de almas — talvez um bilhão. O número de 144.000 seria composto de judeus, 12.000
de cada uma das 12 tribos de Israel, procedentes de todas as partes do mundo, agregando
novamente os judeus que se dispersaram ao longo da história. Imaginem só, pensava Rayford, os
judeus evangelizando em sua própria terra e em seu próprio idioma, levando milhões de pessoas
a Jesus, o Messias.
A despeito de todas as catástrofes e aborrecimentos que estavam por vir, haveria muitas
vitórias pujantes, e Rayford as aguardava com ansiedade. Contudo, ele não se sentia nada
satisfeito diante de uma provável dispersão do Comando Tribulação. Quem poderia saber para
onde Buck iria, se fosse verdade que Carpathia adquirira todos os meios de comunicação? E se o
relacionamento entre Buck e Chloe fosse adiante, eles provavelmente teriam de viver juntos em
algum lugar bem distante.
Rayford virou-se na cadeira e examinou o grande número de pessoas presentes. Centenas
de assentos já estavam tomados. A segurança era intensa e cerrada. Na hora marcada para o
inıć io da cerimônia, Rayford viu as luzes vermelhas das câmeras de TV acenderem-se. O som da
música intensiϐicou-se. Os jornalistas começaram a falar baixo, bem perto de seus microfones, e
os convidados silenciaram-se. Empertigado em sua cadeira e com o quepe no colo, Rayford
perguntou a si mesmo se Chloe o veria pela TV em sua casa em Chicago. Lá já passava da meianoite
e ela estaria mais ansiosa para ver Buck do que ver o pai. Buck poderia ser facilmente
localizado. Estaria posicionado na plataforma bem atrás da cadeira de um dos signatários do
pacto, o Dr. Chaim Rosenzweig.
Os dignitários—membros veteranos do Knesset, embaixadores do mundo inteiro,
estadistas e ex-presidentes dos Estados Unidos, líderes israelenses foram anunciados sob aplausos
moderados.
A seguir, foi a vez do segundo grupo, aqueles que ϐicariam de pé atrás das cadeiras. Buck
foi apresentado como "Sr. Cameron 'Buck' Williams, ex-articulista sênior e atual articulista para
assuntos do Oriente Médio do Semanário Global, dos Estados Unidos da América do Norte".
Rayford sorriu quando Buck esboçou uma reação de indiferença. Evidentemente todos
gostariam de saber quem ele era e por que era considerado um dignitário.
Os aplausos mais calorosos foram reservados para as cinco últimas personalidades: o
rabino-chefe de Israel; o botânico israelense Chaim Rosenzweig, vencedor do Prêmio Nobel; o
primeiro-ministro de Israel; o presidente dos Estados Unidos e o secretário-geral da Comunidade
Global.
Quando Carpathia foi anunciado e entrou com seu caracterıśtico ar de modesta conϐiança
em si próprio, o público o aplaudiu de pé. Rayford levantou-se com relutância, pôs o quepe
debaixo do braço e ϐingiu aplaudir, sem produzir nenhum som. Para ele, era difıć il aparecer
diante de tanta gente aplaudindo o inimigo de Cristo.
Chaim Rosenzweig virou-se e olhou para Buck, que lhe deu um sorriso. Buck gostaria de
livrar seu amigo de meter-se naquela desgraça, mas o momento não era apropriado. Tudo o que
ele podia fazer era deixar o amigo deleitar-se com o momento, porque dali em diante não
haveria muitos momentos para deleites.
“Este é um grande dia, Cameron — cochichou Chaim, esticando o braço e segurando firme
a mão de Buck com as suas. Deu um tapinha na mão de Buck como se ele fosse seu filho.”
Por um breve instante, Buck quase chegou a desejar que Deus não o pudesse ver. Os flashes
das máquinas fotográϐicas espocavam de todos os lados, registrando para a posteridade os
dignitários dando apoio a esse tratado histórico. Naquele ambiente, Buck era o único que
conhecia a verdadeira identidade de Carpathia, que sabia que a assinatura do tratado daria o
início oficial ao período da Tribulação.
De repente, Buck lembrou-se de que no bolso inferior de seu paletó havia um crachá do
Semanário Global, cujo verso era revestido com velcro. No momento em que Buck o pegou para
colocá-lo sobre o bolso superior do paletó, o velcro grudou na aba do bolso inferior. Quando Buck
tentou puxar com força o crachá, o paletó enroscou-se no cinto. Assim que ele o soltou, a aba do
bolso ϐicou presa em sua camisa. Quando ϐinalmente ele conseguiu alisar o paletó e desgrudar o
crachá com as duas mãos, já tinha sido fotografado mais de uma dezena de vezes, parecendo
um contorcionista.
Depois que os aplausos cessaram e o público voltou a acomodar-se nas cadeiras, Carpathia
levantou-se com o microfone na mão. “Este é um dia histórico — começou a dizer com um
sorriso. — Apesar de todas as providências terem sido tomadas em tempo recorde, foi sem
dúvida um esforço hercúleo conseguir reunir todos os recursos necessários para que tudo isto
acontecesse. Hoje estamos homenageando várias pessoas. Em primeiro lugar, meu caro amigo
e mentor, a quem considero um pai, o brilhante Dr. Chaim Rosenzweig, de Israel!”
O público reagiu com entusiasmo, e Chaim levantou-se com diϐiculdade, fazendo um
pequeno aceno e sorrindo como um garoto. Buck gostaria de dar-lhe um tapinha no ombro,
cumprimentá-lo por sua façanha, mas lamentava a sorte de seu amigo. Rosenzweig estava
sendo manipulado. Ele era uma pequena parte de uma trama desonesta que transformaria o
mundo num lugar inseguro para ele e seus entes queridos.
Carpathia exaltou as qualidades do rabino-chefe, do primeiro-ministro de Israel e,
ϐinalmente, do "Ilustrıś simo Senhor Gerald Fitzhugh, presidente dos Estados Unidos da América
do Norte, o melhor amigo de Israel até hoje".
Mais aplausos ensurdecedores. Fitzhugh levantou-se um pouco da cadeira em sinal de
agradecimento. Quando as palmas começaram a cessar, Carpathia incentivou o público a
aplaudir mais ainda. Colocou o microfone debaixo do braço e recuou para aplaudir o presidente
com veemência.
Fitzhugh parecia embaraçado, quase aturdido. Olhou para Carpathia, sem saber o que
fazer. Carpathia estampava um sorriso radiante, demonstrando emoção diante de seu amigo
presidente. Encolheu os ombros e entregou o microfone a Fitzhugh. A princıṕ io, o presidente não
esboçou nenhuma reação, dando a entender que não pegaria o microfone. Finalmente, aceitou-o
para delírio da platéia.
Buck estava atônito diante da habilidade de Carpathia para controlar aquele grande
número de pessoas. Evidentemente tratava-se de uma atitude ensaiada. E o que faria Fitzhugh?
A única reação apropriada seria agradecer os aplausos e distribuir elogios a seus bons amigos
israelenses. Apesar de Fitzhugh estar começando a conscientizar-se do plano maligno de Nicolae
Carpathia, tinha de reconhecer o importante papel daquele homem no processo de paz.
Fitzhugh levantou-se, arrastando a cadeira com grande ruıd́ o. Em seguida, empurrou-a
desajeitadamente na direção de seu secretário de estado. O presidente teve de esperar que o
público parasse de aplaudir, o que parecia não ter ϐim. Carpathia aproximou-se rapidamente de
Fitzhugh e ergueu a mão do presidente, como fazem os árbitros com os vencedores de uma luta
de boxe. Os aplausos por parte dos israelenses foram mais ensurdecedores ainda.
Finalmente, Carpathia afastou-se e deixou o presidente Fitzhugh sozinho no centro da
plataforma, forçando-o a pronunciar algumas palavras. Assim que Fitzhugh começou a falar,
Buck percebeu que Carpathia estava entrando em ação. Apesar de não esperar ser testemunha
de um assassinato, como acontecera em Nova York, Buck convenceu-se imediatamente de que
Carpathia tinha, de alguma forma, provocado uma situação sinistra. Ao dirigir-se àquela
entusiasmada platéia, o presidente Fitzhugh não passava daquela pessoa frustrada com quem
Buck se encontrara poucos minutos antes.
Enquanto o presidente falava, Buck começou a sentir um calor no pescoço e os joelhos
bambos. Inclinou-se para frente e segurou ϐirme o espaldar da cadeira de Rosenzweig, tentando
em vão parar de tremer. Sentiu claramente a presença do demônio, e a náusea quase tomou
conta dele.
— A última coisa que desejo fazer num momento como este — estava dizendo o
presidente Fitzhugh — é apagar o brilho do acontecimento que estamos presenciando.
Contudo, com a permissão dos senhores e de nosso grande lıd́ er da Comunidade Global,
nome este habilmente escolhido, eu gostaria de abordar rapidamente dois pontos importantes.
Primeiro, é um privilégio ver o que Nicolae Carpathia realizou em apenas algumas semanas.
Estou certo de que todos concordam comigo que, graças a ele, o mundo se tornou um lugar
onde existe mais amor e paz.
Carpathia fez um gesto de pegar o microfone de volta, mas o presidente Fitzhugh ofereceu
resistência. “Com licença, senhor, mas agora quem está com a palavra sou eu! — A platéia caiu
na gargalhada. — Já disse antes e vou repetir, a idéia do secretário-geral para o desarmamento
global foi uma tacada de gênio. Eu apoio essa idéia sem reservas e sinto-me orgulhoso por estar
abrindo o caminho para a rápida destruição de 90 por cento de nosso armamento e doar os 10
por cento restantes à Comunidade Global, sob a direção do Sr. Carpathia.”
Buck sentiu uma leve tontura e esforçou-se para manter o equilíbrio.
“Como expressão tangıv́ el de meu apoio pessoal e de nosso paıś , também presenteamos a
Comunidade Global com o recém-lançado Air Force One. Financiamos sua nova pintura e novo
nome, e ele pode ser visto no Aeroporto Internacional Ben Gurion. Agora, entrego o microfone
ao homem do destino, ao lıd́ er cujo atual tıt́ ulo não faz justiça à extensão de sua inϐluência, ao
meu amigo pessoal e compatriota, Nicolae Carpathia!”
Nicolae ϐingiu aceitar o microfone com relutância e demonstrou embaraço pelo fato de
receber tantas atenções. Parecia confuso, como se não soubesse o que fazer diante do
recalcitrante presidente dos Estados Unidos que exagerara em suas palavras.
Quando ϐinalmente os aplausos cessaram, Carpathia voltou a falar com seu tom de voz
humilde. “Peço desculpas pelos rasgados elogios de meu amigo, que tem sido muito bondoso e
generoso, e a quem a Comunidade Global deve imensos favores.”
Rayford mantinha os olhos ϐixos em Buck, que aparentemente não estava bem. Buck
parecia prestes a perder os sentidos, e Rayford perguntou a si mesmo se seria o calor ou os
repugnantes discursos de admiração mútua que estavam deixando Buck pálido e com o
estômago embrulhado.
Os dignitários israelenses—com exceção de Rosenzweig, é claro—demonstravam um
certo desconforto diante de toda aquela conversa sobre desarmamento e destruição de armas.
Durante décadas seu paıś sempre fora muito bem defendido por um exército poderoso, e se não
fosse o pacto com a Comunidade Global, o povo israelense não concordaria com o plano de
desarmamento de Carpathia.
O restante da cerimônia tornou-se enfadonho após o assombroso—e, na opinião de
Rayford, preocupante – o discurso do presidente. Fitzhugh parecia mais fascinado por Carpathia
a cada vez que se encontravam. Porém, seu ponto de vista espelhava a opinião de quase toda a
população mundial. No momento mais importante da história mundial, estava cada vez mais
fácil acreditar que Nicolae Carpathia era uma dádiva de Deus, com exceção daqueles que
estudavam as profecias bíblicas e conseguiam ler nas entre linhas.
Buck recuperou o controle enquanto os outros lıd́ eres faziam discursos inócuos e
matraqueavam sobre a importância história do documento que estava prestes a ser assinado.
Surgiram várias canetas luxuosas de todos os lados, enquanto a máquinas fotográϐicas e as
câmeras de TV, ϐilme e vıd́ eo focalizavam os signatários. As canetas eram passadas de mão em
mão para as posudas autoridades que assinavam o tratado. Com apertos de mão, abraços e
beijos no rosto, o tratado foi celebrado.
E os signatários do tratado — todos, exceto um — ignoravam suas conseqüências e não
sabiam que fizeram parte de uma aliança profana.
O pacto acabara de ser celebrado. O povo escolhido de Deus, que planejava reconstruir o
templo e restabelecer o sistema de sacrifıć ios até a volta de seu Messias, tinha assinado um
acordo com o demônio.
Apenas dois homens na plataforma sabiam que esse pacto assinalava o inıćio do final dos
tempos. Um era diabolicamente conϐiante, o outro tremia só em pensar no que estava por
acontecer.
Diante do famoso Muro, as duas testemunhas proferiam a verdade em tom de lamento. O
som de seus gritos alcançava a Colina do Templo e mais além, enquanto elas proclamavam: —
E assim começa a última terrível semana do Senhor!
A "semana" dos sete anos começara.
A Tribulação.
C A P Í T U L O 17
Rayford sentou-se numa cabina telefônica no interior do Aeroporto Ben Gurion. Tinha
chegado muito cedo e teria de aguardar a delegação de Carpathia por mais de uma hora. Sua
tripulação estava ocupada, cuidando do Global Community One, e ele dispunha de tempo para
fazer uma ligação internacional e falar com Chloe.
“Eu vi você, papai! — ela disse, rindo. — O pessoal da TV tentou mostrar na tela o nome
dos participantes à medida que eram focalizados. O seu nome apareceu quase correto.
Escreveram Raymond Steel, sem a letra e no final, e que você era o piloto do Air Force One”.
Rayford sorriu, animado ao ouvir a voz da ϐilha. “Quase. E a imprensa ainda não sabe por
que ninguém confia nela.”
“Eles não sabiam o que fazer com Buck — disse Chloe. — Nos primeiros minutos em que
ele foi focalizado, não apareceu nenhum nome na tela. Depois, alguém deve ter ouvido o nome
dele no momento das apresentações, que apareceu como "Duke Wilson, ex-articulista,
Newsweek”.
“Perfeito — disse Rayford.”
“Buck está muito entusiasmado com esse rabino que vai falar na CNN Internacional dentro
de algumas horas. Você vai ter a oportunidade de assistir ao programa?”
“Vamos assistir no avião.”
“Numa distância tão grande e naquela altura?”
“Você precisa conhecer a tecnologia, Chio. A recepção será melhor do que se fosse via
cabo, em casa. De qualquer forma, se não for melhor, vai ser igual.”
Buck sentia uma imensa tristeza. Chaim Rosenzweig o abraçara pelo menos três vezes
após a cerimônia, dizendo exultante que aquele dia havia sido um dos mais felizes de sua vida.
Insistiu para que Buck os acompanhasse no vôo até Bagdá. — De uma forma ou de outra você
estará trabalhando para Nicolae dentro de um mês — disse Chaim. — Ninguém vai notar esse
conflito de interesses.
— Eu vou, principalmente daqui a um mês, quando ele for proprietário da revista para a
qual eu trabalho.
— Não seja negativo, especialmente hoje — disse Chaim. — Venha conosco. Aprecie o
momento e encante-se com ele. Eu conheço os planos. A Nova Babilônia será magnífica.
Buck sentia vontade de chorar por seu amigo. Quando tudo isso se abateria sobre Chaim?
Será que ele morreria antes de ter percebido que foi enganado e usado? Talvez esse ϐim fosse o
melhor. Porém, Buck também temia pela alma de Chaim. — O senhor vai ver o Dr. Ben-Judá
ao vivo pela TV hoje?
— Claro! Não poderia perder! Ele é meu amigo desde os tempos da Universidade Hebraica.
Entendo que o programa poderá ser visto no avião para Bagdá. Outro motivo para você ir
conosco.
Buck balançou a cabeça. — Vou ver daqui mesmo. Logo que seu amigo expuser o que
descobriu, o senhor e eu poderemos conversar sobre as ramificações.
“Ah, não sou um homem religioso, Cameron. Você sabe disto. Provavelmente não me
surpreenderei com o que Tsion disser hoje. Ele é um estudioso competente e um pesquisador
meticuloso, realmente brilhante, e um orador talentoso. Às vezes, ele me faz lembrar Nicolae.”
Por favor, pensou Buck. Tudo menos isso! — O que o senhor acha que ele vai dizer? —
perguntou.
“Assim como a maioria dos judeus ortodoxos, ele chegará à conclusão de que o Messias
ainda vai chegar. Como vocêsabe, existem alguns poucos grupos marginalizados que acreditam
que o Messias já veio, mas os tais que disseram ser o Messias não estão mais em Israel. Alguns já
morreram. Alguns mudaram para outros paıś es. Nenhum deles trouxe a justiça e a paz que o
Torá prediz. Portanto, como todos nós, Tsion vai falar das profecias e incentivar-nos a continuar
aguardando e observando. Será estimulante e animador, como acredito que tenha sido o ponto
principal da pesquisa desde o inıć io. Talvez ele fale sobre como apressar a chegada do Messias.
Alguns grupos mudaram para as antigas habitações judaicas, acreditando que tinham o sagrado
direito de proceder assim, e que isso seria importante para o cumprimento de algumas
profecias, abrindo o caminho para a vinda do Messias. Outros ϐicaram tão aborrecidos com a
profanação da Colina do Templo pelos muçulmanos que reabriram sinagogas nos arredores, o
mais perto possível do local primitivo do templo.”
“O senhor deve saber que existem gentios que também acreditam que o Messias já veio
— disse Buck, escolhendo as palavras com cuidado.”
Chaim estava olhando por cima do ombro de Buck para ter certeza de que não ficaria para
trás quando os membros da delegação se dirigissem de volta para seus hotéis e depois para o
aeroporto Ben Gurion rumo a Bagdá. “Sim, sim, eu sei, Cameron. Mas já estou quase
acreditando que o Messias não é uma pessoa, e sim uma ideologia.”
Depois de dizer isso, ele começou a afastar-se, e Buck sentiu uma aϐlição dentro do peito.
Segurou o amigo pelo braço. “— Doutor, o Messias é muito mais do que uma ideologia!”
Rosenzweig parou e olhou ϐirme para o rosto de Buck. “Cameron, podemos discutir este
assunto, mas se você quiser levar tudo ao pé da letra, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Se o
Messias for uma pessoa, se ele vier trazer a paz, a justiça e a esperança ao mundo, concordo
com aqueles que acreditam que ele já está aqui.”
“O senhor acredita nisso?”
“Sim, você não?”
“O senhor acredita no Messias?”
“Eu disse se, Cameron. Um grande se.”
“Se o Messias é verdadeiro e se ele está para chegar, é isso? — perguntou Buck com
insistência, enquanto seu amigo se afastava.”
“Você não entende, Cameron? Nicolae é o cumprimento da maior parte das profecias.
Talvez de todas, mas não domino este assunto. Agora preciso ir. Vamos nos encontrar na
Babilônia?”
“Não, eu já lhe disse...”
Rosenzweig parou e virou-se. “Pensei que você estivesse querendo encontrar seu próprio
caminho a fim de não precisar aceitar favores em troca de uma entrevista.”
“EƵ verdade, mas mudei de idéia. Não vou. Se eu resolver trabalhar para uma publicação de
propriedade de Carpathia, imagino que em breve vou fazer uma viagem à Nova Babilônia.”
“E o que vai fazer agora? Voltar para os Estados Unidos? Vamos nos encontrar lá?”
“Não sei. Talvez.”
“Cameron! Dê-me um sorriso neste dia histórico!”
Buck não conseguiu sorrir. Caminhou de volta para o Hotel Rei Davi, onde o recepcionista
perguntou se ele ainda queria saber informações sobre os vôos comerciais para Bagdá. – Não,
obrigado. — ele disse.
“Está bem. Um recado para o senhor.”
O envelope continha o endereço do Dr. Tsion Ben-Judá. Buck caminhou apressadamente
até seu quarto e abriu o envelope. O recado dizia o seguinte: "Peço desculpas por tê-lo deixado
sozinho ontem à noite. Não estava em condições de conversar. Vocême concederia a honra de
almoçar comigo e acompanhar-me até o estúdio da CNN? Aguardo seu telefonema."
Buck olhou para o relógio. Com certeza já era tarde demais. Fez a ligação e foi informado
pela governanta que o rabino havia saıd́ o vinte minutos antes. Buck bateu com força no guardaroupa.
Que privilégio ele perdera só por ter resolvido voltar a pé ao hotel em vez de pegar um
táxi! Talvez ainda houvesse tempo de pegar um táxi até o estúdio e encontrar-se lá com Tsion
após o almoço. Mas será que o rabino queria falar com ele antes de o programa ir ao ar? Seria
isso?
Buck tirou o fone do gancho e o recepcionista atendeu. “Vocêpode conseguir-me um táxi,
por favor?”
“Certamente, mas há uma ligação para o senhor. Posso transferir?”
“Sim, e não chame o táxi até eu voltar a falar com você.”
“Sim, senhor. Coloque o fone no gancho, por favor. Vou transferir a ligação.”
Era Tsion. “Dr. Ben-Judá! Que bom que o senhor ligou! Acabei de chegar!”
“Eu estive na cerimônia da assinatura, Buck — disse Tsion com seu forte sotaque hebraico
— mas não quis ficar em evidência nem dar entrevistas.”
“O seu convite para o almoço ainda está de pé?”
“Está.’
“Quando e onde devo encontrá-lo?”
“Que tal agora, na frente de seu hotel?”
“Já estou indo.”
Obrigado, Senhor, agradeceu Buck enquanto descia correndo as escadas. Concede-me a
oportunidade de dizer a esse homem que Tu és o Messias.
No carro, o rabino segurou ϐirme a mão de Buck com as duas mãos e puxou-o para perto
de si. “Buck, compartilhamos uma experiência incrıv́ el. Sinto que somos amigos. Mas agora
estou nervoso por ter de revelar minhas descobertas ao mundo, e preciso conversar com você
durante o almoço. Podemos?”
O rabino pediu a seu motorista que os levasse a um pequeno café numa região
movimentada de Jerusalém. Tsion, carregando debaixo do braço um enorme ϐichário preto de
três furos, falou baixo em hebraico com o garçom, que os levou até uma mesa perto de uma
janela cheia de plantas. Quando o garçom trouxe os cardápios, Ben-Judá olhou para seu relógio,
dispensou os cardápios e falou novamente em seu idioma nativo. Buck supôs que ele estivesse
pedindo pratos para duas pessoas.
“Você ainda precisa do crachá para identificar-se como repórter da revista?”
Buck tirou rapidamente o crachá do bolso.
“Desta vez saiu muito mais fácil, não?”
Enquanto ambos caıá m na gargalhada, o garçom trouxe um pão de fôrma quente nãofatiado,
manteiga, um queijo redondo, molho parecido com maionese, uma tigela de maçãs
verdes e pepinos frescos.
“Você permite? — disse Ben-Judá, apontando para o prato.”
“Por favor.”
O rabino cortou o pão em fatias bem grossas, lambuzou-as com manteiga e molho,
adicionou fatias de pepino e queijo. Depois colocou fatias de maçãao lado e empurrou o prato na
direção de Buck.
Buck aguardou enquanto o rabino preparava seu próprio prato.
“Por favor, não espere por mim. Coma enquanto o pão ainda está quente.”
Buck curvou levemente a cabeça, orando pela alma de Tsion Ben-Judá. Ele ergueu os olhos
e elogiou o prato escolhido.
“Você é um homem de oração — observou Tsion enquanto continuava a preparar seu
prato.”
“Sou. — Buck continuou a orar silenciosamente, perguntando a si mesmo se aquele seria o
momento ideal para uma palavra oportuna. Será que este homem poderia ser inϐluenciado,
faltando apenas uma hora para ele revelar o resultado de sua pesquisa ao mundo? Buck sentiu-se
um tolo. O rabino estava sorrindo.”
“O que foi, Tsion?”
“Eu estava me lembrando do último americano com quem ϐiz uma refeição aqui. Ele
estava fazendo uma excursão e pediram-me que eu lhe ϐizesse companhia. Ele era uma espécie
de lıd́ er religioso, e aqui temos o costume de receber bem os turistas, você sabe. — Buck
assentiu.”
“Cometi o erro de perguntar-lhe se gostaria de experimentar um de meus pratos favoritos,
sanduıć he de legumes com queijo. Não sei se ele não me entendeu bem por causa de meu
sotaque ou se o prato não lhe agradava. Ele recusou educadamente e pediu uma comida mais
familiar, pão sıŕ io e camarão, se bem me lembro. Porém, pedi ao garçom, em meu idioma, que
trouxesse uma porção extra do que eu estava comendo, só por uma questão de zelo, como
costumo dizer. Não demorou muito, o homem empurrou seu prato e começou a experimentar a
comida que eu havia pedido.”
Buck riu. “E agora o senhor simplesmente faz o pedido para os seus convidados.”
“Exatamente.”
Antes de começar a comer, o rabino também orou silenciosamente.
“Não tomei o café da manhã — disse Buck, levantando o pão, como se estivesse
brindando.”
Tsion Ben-Judá deu um sorriso radiante. “ Perfeito! — ele disse. — Há um provérbio
internacional que diz que a fome é o melhor tempero.
Buck concordou. Precisou tomar cuidado para não exagerar na comida, algo que
raramente lhe acontecia. “Tsion — ele ϐinalmente perguntou — você precisa de companhia
antes de aparecer na TV ou existe um assunto específico que queira conversar?”
“Um assunto especıϐ́ico — disse o rabino, olhando para o relógio. — A propósito, meu
cabelo está penteado?”
“ Sim. Provavelmente vão eliminar a marca do chapéu na hora da maquiagem.”
“ Maquiagem? Eu tinha me esquecido dessa parte. Foi por isso que me pediram para
chegar bem antes da hora.”
Ben-Judá consultou seu relógio, empurrou o prato para o lado e colocou o ϐichário sobre a
mesa. Ele continha uma pilha de cerca de dez centıḿ etros de páginas manuscritas. “Tenho
muito mais material em meu escritório — ele disse — mas aqui estão a essência, a conclusão e
o resultado de meus três anos de exaustivo... e desgastante... trabalho com um grupo de jovens
estudantes, cuja ajuda foi inestimável para mim.”
“O senhor não está imaginando ler isso em voz alta em uma hora, está?”
“Não, não! — disse Ben-Judá, rindo. — Isto é o que poderıá mos chamar de recurso extra.
Se eu me esquecer, terei material para recorrer. Em qualquer situação, há sempre alguma coisa
a dizer. Talvez lhe interesse saber que decorei o que vou dizer na TV.”
“Durante uma hora?”
“Há três anos, isso poderia ter-me amedrontado. Agora sei que posso falar por muito mais
tempo, sem precisar das anotações. Porém, devo ater-me ao meu plano de compensar o tempo.
Se eu me desviar do assunto, nunca conseguirei terminar.”
“E mesmo assim o senhor carrega suas anotações.”
“Tenho conϐiança em mim, Buck, mas não sou nenhum tolo. Passei grande parte de minha
vida falando em público, mas cerca da metade do tempo em hebraico. Em razão da audiência
internacional, evidentemente a CNN prefere que eu fale em inglês. Isso torna as coisas um pouco
mais difíceis para mim, e não quero me perder.”
“Tenho certeza de que o senhor se sairá bem.”
“Você acabou de justiϐicar o objetivo desta conversa! — disse o rabino, sorridente. — O
convite que lhe fiz para o almoço já rendeu frutos.”
“Então o senhor só estava precisando de uma pequena torcida.”
O rabino fez uma pausa, como se estivesse pensando no signiϐicado da palavra torcida.
Apesar de ser um termo não muito conhecido fora dos Estados Unidos, Buck supôs que seria fácil
entendê-lo. “Sim — disse Ben-Judá. — Torcida. E quero fazer-lhe uma pergunta. Se for muito
pessoal, você não precisa responder.”
Buck abriu as mãos com as palmas para cima, indicando que não haveria problema.
“Ontem à noite você quis saber quais eram as minhas conclusões a respeito do Messias, e
eu lhe pedi que aguardasse até o mundo inteiro tomar conhecimento. Agora, permita-me fazer
a mesma pergunta a você.”
Louvado seja o Senhor, pensou Buck. “Quanto tempo ainda nos resta?”
“Cerca de vinte minutos. Se a resposta for muito longa, poderemos continuar a conversa
no carro, a caminho do estúdio. Talvez até na sala de maquiagem.”
O rabino achou graça no que disse, mas Buck já estava formulando sua história. “O senhor
já sabe que estive num kibutz quando os russos atacaram Israel.”
Ben-Judá assentiu. “Foi nesse dia que você deixou de ser agnóstico.”
“Correto. Bem, eu estava dentro de um avião, a caminho de Londres, no dia dos
desaparecimentos.”
“Não diga!”
Buck prosseguiu contando a história de sua jornada espiritual. Só terminou quando o rabino
saiu da sala de maquiagem e sentou-se nervosamente nos bastidores. “Falei muito? — perguntou
Buck. — Entendo que seria exigir demais que o senhor prestasse atenção, ou ϐingisse prestar
atenção, quando deveria estar concentrado em sua apresentação.”
“Não, Buck — disse o rabino, com a voz embargada pela emoção. — Eu costumo fazer
isso à noite, enquanto descanso. Se eu tentasse forçar a concentração na última hora, poria tudo
a perder.”
Só isso? Pensou Buck. Nenhuma resposta? Nenhum agradecimento? Nenhum adjetivo
depreciativo?
Finalmente, após um longo silêncio, Tsion voltou a falar. “Buck, agradeço imensamente o
que você me contou.”
Uma jovem com um estojo de pilhas preso à cintura, fones de ouvido e microfone,
aproximou-se. “Dr. Ben-Judá — ela disse. — O estúdio já está preparado para a checagem de
som. Estaremos no ar em noventa segundos.”
“Estou pronto. — Ben-Judá não saiu do lugar.”
A jovem hesitou, sem saber o que fazer, e saiu do recinto. Aparentemente não estava
acostumada a esse tipo de atitude. Geralmente os convidados a acompanhavam nervosamente
até o estúdio.
Tsion Ben-Judá levantou-se com o ϐichário debaixo do braço, abriu a porta e ϐicou
segurando a maçaneta com a mão que estava livre. “Agora, Buck Williams, gostaria que você
me fizesse um favor enquanto aguarda aqui.”
“Claro.”
“Sendo um homem de oração, você poderia orar para que Deus coloque as palavras em
minha boca?”
Buck fez um gesto de incentivo com a mão fechada para seu novo amigo e balançou a
cabeça afirmativamente.
“Quer assumir o comando? — perguntou Rayford a seu co-piloto. — Eu gostaria de assistir
a esse programa especial da CNN.”
“Positivo. Você está falando da história do rabino?”
“Correto.”
O co-piloto balançou a cabeça negativamente. “Isso me faria pegar no sono.”
Rayford saiu da cabina de comando, mas ficou desapontado ao ver que o aparelho de TV da
cabina principal não estava ligado. Dirigiu-se para a parte traseira do avião onde alguns
dignitários e a imprensa estavam reunidos ao redor de outro aparelho de TV. Porém, antes de
Rayford atravessar a sala de reuniões do secretário-geral, Carpathia notou sua presença. —
Capitão Steele! Por favor! Fique conosco por alguns minutos!
“Obrigado, senhor, mas eu gostaria de ver o...
“O programa do Messias, sim, claro! Liguem a TV! Alguém ligou o aparelho e o sintonizou
na CNN. — Vocês sabem — anunciou Carpathia em voz alta para que todos pudessem ouvir —
que o nosso capitão acredita que Jesus foi o Messias?”
“Francamente — disse Chaim Rosenzweig — como um judeu não-religioso, penso que
Nicolae está cumprindo muito mais as profecias do que Jesus.”
Rayford fez uma expressão de desagrado. Que blasfêmia! Ele sabia que Buck gostava de
Rosenzweig e o admirava, mas que maneira de falar! “Sem querer ofendê-lo, senhor, duvido que
os judeus, em sua maioria, acreditem num Messias... mesmo achando que ele ainda virá...
nascido em outro lugar, fora da Terra Santa.”
“Ah, bem, vocês estão vendo? — disse Rosenzweig. — Não sou um estudioso do assunto. —
No entanto, este homem — ele prosseguiu, apontando para a tela da TV no momento em que
Tsion Ben-Judá estava sendo apresentado — é um erudito em assuntos religiosos. Após três anos
de intensas pesquisas, ele deve ser capaz de descrever as qualificações do Messias.”
Aposto que sim, pensou Rayford, de pé num canto da sala e encostado na parede para não
impedir a passagem de outras pessoas. Carpathia tirou o paletó, e uma comissária de bordo
imediatamente o pendurou. Ele afrouxou o nó da gravata, enrolou as mangas da camisa e
sentou-se diante da TV, segurando um copo de água mineral gasosa com uma rodela de limão.
Evidentemente Carpathia estava considerando tudo isso uma boa diversão, pensou Rayford.
Um locutor em of deixou claro que "as idéias e os pontos de vista expressos nesta
transmissão não reϐletem necessariamente as opiniões da CNN nem de suas retransmissoras
afiliadas".
Rayford achou que o Dr. Ben-Judá era um excelente comunicador. Ele olhava diretamente
para a câmera e, apesar de seu sotaque acentuado, falava de modo pausado e claro, o suϐiciente
para ser facilmente compreendido. Acima de tudo, Rayford notou que ele era um homem
entusiasmado e apaixonado pelo assunto ao qual se dedicava. Não era bem o que Rayford
esperava. Ele tinha imaginado um rabino idoso com longa barba branca, debruçado sobre alguns
manuscritos embolorados, analisando-os minuciosamente com uma lupa.
No entanto, após uma breve apresentação de si mesmo e do processo pelo qual ele e sua
equipe ϐizeram a pesquisa, Ben-Judá começou sua explanação com uma promessa. “Cheguei à
conclusão de que podemos conhecer, sem sombra de dúvida, a identidade de nosso Messias.
Nossa Bıb́ lia apresenta claras profecias, pré-requisitos e prognósticos que apenas uma pessoa da
raça humana poderia cumprir. Acompanhem meu raciocıń io e vejam se os senhores chegam à
mesma conclusão que eu, e assim veremos se o Messias é um ser real, se ele já veio ou se ainda
virá.”
O rabino Ben-Judá contou que ele e sua equipe passaram quase todo o primeiro ano da
pesquisa conϐirmando a veracidade dos estudos do falecido Alfred Edersheim, um professor de
lıń guas e conferencista de Grinϐield sobre a Septuaginta [Versão bıb́ lica dos Setenta sábios:
tradução do Velho Testamento do hebraico para o grego]. Edersheim postulou que havia 456
passagens messiânicas nas Escrituras, amparadas por mais de 558 referências procedentes dos
mais antigos escritos rabínicos.
“Bem — prosseguia o rabino — prometo não aborrecer os senhores com estatıśticas, mas
permitam-me dizer que muitas daquelas passagens proféticas são repetitivas e algumas,
obscuras. No entanto, com base em nosso estudo meticuloso, acreditamos que haja pelo menos
109 profecias separadas e distintas, as quais o Messias deve cumprir. Para tanto, faz-se
necessário que o Messias seja um homem fora do comum e leve uma vida inusitada, o que
elimina todos os impostores. Não tenho tempo nesta hora de que disponho para explicar todas as
109 profecias, é claro, mas vou abordar algumas mais óbvias e especıϐ́icas. Consultamos um
matemático e lhe perguntamos qual seria a probabilidade de 20 das 109 profecias serem
cumpridas por um único homem. A resposta foi a seguinte: uma em um quatrilhão e cento e
vinte e cinco trilhões!
A seguir, o Dr. Ben-Judá forneceu o que Rayford considerou um exemplo brilhante de como
identiϐicar facilmente alguém por meio de apenas algumas caracterıśticas. — A despeito dos
bilhões de pessoas que ainda povoam este planeta, os senhores podem enviar-me um cartão
postal pelo correio, contendo apenas algumas indicações, e eu serei a única pessoa a recebê-lo.
Se enviarem o cartão para Israel, os senhores estarão eliminando todos os outros paıś es do
mundo. Se o cartão indicar Jerusalém, as possibilidades serão mais restritas ainda. Os senhores
estarão reduzindo as possibilidades a uma pequena fração se o cartão for enviado a uma
determinada rua, a um determinado número, a um determinado apartamento. E, se o cartão
contiver meu nome completo, serei distinguido no meio de bilhões de pessoas. Creio que as
profecias a respeito do Messias fazem o mesmo. Elas eliminam, eliminam, eliminam até que
uma única pessoa seja capaz de cumpri-las.
O Dr. Ben-Judá falava de maneira tão cativante que todos os passageiros do avião pararam
de falar, de movimentar-se e até de mexer-se nas poltronas. Até Nicolae Carpathia, que
bebericava sua água mineral fazendo o gelo tilintar no copo, quase não se mexia. Para Rayford,
parecia que Carpathia estava constrangido diante da atenção que Ben-Judá conseguira atrair.
Tentando não incomodar ninguém, Rayford pediu licença e voltou rapidamente para a
cabina de comando. Pousou a mão no ombro do co-piloto e curvou-se para falar com ele. O copiloto
retirou o fone do ouvido esquerdo.
“Quero que esta aeronave aterrisse cinco minutos após o horário marcado.”
“Programamos cerca de dois minutos, Capitão, e até agora estamos dentro dos limites.”
“Faça os ajustes necessários para que minhas ordens sejam cumpridas.”
“Positivo. — Em seguida, o co-piloto começou a falar pelo rádio. — Global Community One
chamando torre de Bagdá.”
“Torre de Bagdá, prossiga, One.”
“Estamos reduzindo a velocidade em alguns nós e programando aterrissar cinco minutos
após a hora marcada.”
“Positivo, Global. Algum problema?”
“ Negativo. Apenas fazendo uma experiência com a nova aeronave.”
O co-piloto olhou de relance para Rayford, querendo saber se estava tudo bem. Rayford fez
um sinal de positivo com o polegar e voltou rapidamente para assistir ao programa na televisão.
Buck orava sem tirar os olhos da TV. Os funcionários estavam reunidos em volta dos
monitores. Não havia a costumeira algazarra nos bastidores. Todos estavam com os olhos ϐixos
na tela. Para acalmar o nervosismo, Buck pegou seu bloco e sua caneta e tentou tomar nota de
tudo. Era quase impossıv́ el acompanhar o rabino, que discorria sobre as profecias, uma atrás da
outra.
“O Messias não se restringe a apenas algumas caracterıśticas de identiϐicação — dizia
Ben-Judá. — Nós, os judeus, estamos aguardando por ele, orando por ele, ansiando por sua
chegada há séculos e, mesmo assim, paramos de estudar as várias indicações legıt́ imas contidas
em nossas Escrituras. Ignoramos muitas delas e escolhemos outras, a ponto de estarmos agora à
procura de um líder político que corrija os erros, traga justiça e prometa a paz.”
Chaim Rosenzweig aproximou-se de Carpathia, bateu de leve em suas costas e lançou um
sorriso para os presentes. Ninguém lhe deu atenção, principalmente Carpathia.
“Alguns acreditam que o Messias restaurará as construções, deixando-as como eram nos
gloriosos dias de Salomão — prosseguia o rabino Ben-Judá. — Outros acreditam que o Messias
fará novas todas as coisas, anunciando um novo reino diferente de todos os que já vimos. Até
mesmo as próprias profecias nos dizem o que o Messias fará. Vamos examinar algumas delas
durante o tempo restante.”
Buck estava tendo um vislumbre do que aconteceria no futuro. Jesus era o Messias, o
escolhido, o cumprimento da Palavra de Deus; se não fosse, ele não poderia suportar o que
diziam as profecias. Se é que havia um único homem capaz de cumprir as profecias, tinha de ser
Jesus. Aparentemente, o rabino ia usar o Novo Testamento para tentar convencer sua primeira e
principal audiência, os judeus. Portanto, as profecias de centenas de anos antes do nascimento
de Cristo teriam de ser suϐicientemente claras para atingir o alvo... se era esse o verdadeiro
objetivo de Tsion.
O Dr. Ben-Judá estava sentado na extremidade da mesa onde ele espalhara as centenas de
páginas de sua pesquisa. A câmera focalizava, ora de longe, ora de perto, seus traços
expressivos. — A primeira e genuıń a qualiϐicação do Messias, aceita por nossos estudiosos desde
o inıć io, é que ele devia nascer da semente de uma mulher, e não da semente de um homem
como todos os outros seres humanos. Sabemos agora que as mulheres não possuem "semente".
O homem fornece a semente para fertilizar o óvulo da mulher. Portanto, trata-se de um
nascimento sobrenatural, conforme predito em Isaıá s 7.14: "Portanto o Senhor mesmo vos dará
um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um ϐilho e lhe chamará Emanuel." O nosso
Messias deve nascer de uma mulher e não de um homem porque ele deve ser ıń tegro. Todos os
outros seres humanos nascem da semente de seu pai, e a semente pecaminosa de Adão é
passada a eles. Não acontece o mesmo com o Messias, nascido de uma virgem. O nosso Messias
deve pertencer a uma linhagem extremamente rara. A mulher que o gerar deve pertencer a
uma linhagem que inclua muitos pais de Israel. O próprio Deus eliminou bilhões de pessoas dessa
linhagem seleta para que a identidade do Messias fosse inequıv́ oca. Primeiro, Deus eliminou dois
terços da população mundial quando escolheu Abraão, que era descendente de Sem, um dos três
ϐilhos de Noé. Dos dois ϐilhos de Abraão, Deus escolheu apenas Isaque, eliminando metade da
descendência de Abraão. Um dos dois ϐilhos de Isaque, Jacó, recebeu a bênção mas passou-a a
apenas um de seus doze ϐilhos, Judá. Com isso, foram eliminados milhões de outros ϐilhos em
Israel. Anos depois, o profeta Isaıá s destacou o rei Davi como outro ascendente do Messias que
havia de vir, predizendo que ele seria uma "raiz de Jessé". O pai de Davi, Jessé, era ϐilho de Judá.
O Messias, de acordo com o profeta Miquéias, deve nascer em Belém. – O rabino consultou suas
anotações e leu: — "E tu, Belém Efrata, pequena demais para ϐigurar como grupo de milhares
de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos,
desde os dias da eternidade."
Chaim Rosenzweig, o único no avião que estava nervoso, movimentava-se sem parar.
Rayford percebeu que aquele homem idoso estava sendo ridıć ulo e esperava que ele não
demonstrasse. Mas ele demonstrou. — Nicolae — disse Chaim — você nasceu em Belém e
mudou-se para Cluj, não foi? Ha, ha!
Os outros pediram que ele se calasse, mas Carpathia endireitou-se na cadeira, como se
acabasse de perceber algo. — Sei aonde esse homem vai chegar! — ele disse. — Vocês não
estão entendendo? Está tão na cara como o nariz dele.
Eu entendo, pensou Rayford. Já devia estar evidente para outras pessoas, além de
Carpathia.
“Ele vai dizer que o Messias é ele próprio! — gritou Carpathia.— Provavelmente nasceu
em Belém, e sabe-se lá a que linhagem ele pertence. EƵ raro uma pessoa aceitar ser ϐilho
ilegıt́ imo, mas talvez sua história seja esta. Esse indivıd́ uo pode dizer que sua mãe nunca esteve
com um homem antes de ele nascer, e vejam só, os judeus têm um Messias!”
“Ora! — disse Rosenzweig. — Você está falando de um amigo meu a quem prezo muito.
Ele nunca diria tal coisa.”
“Preste atenção e veja — disse Carpathia.”
Uma comissária de bordo curvou-se e sussurrou no ouvido de Carpathia. — Ligação para o
senhor, Sr. Secretário-Geral.
“Quem é?”
“Uma funcionária chamando de Nova York.”
“Quem?”
“Sra. Durham.”
“Anote o recado.”
Carpathia virou-se para a tela da TV enquanto o rabino Ben-Judá prosseguia. — Quando
criança, o Messias irá para o Egito, porque o profeta Oséias 11.1 diz que Deus o chamará do
Egito. Isaıá s 9.1,2 menciona que o Messias evangelizará a maior parte do tempo na Galiléia.
Uma das profecias de que nós, os judeus, não gostamos e tendemos a ignorar é que o Messias
será rejeitado por seu próprio povo. Isaıá s profetizou que ele seria "desprezado e o mais
rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os
homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso" (Is 53.3).
O rabino olhou para seu relógio. “Meu tempo está se esgotando — ele disse — portanto,
desejo abordar rapidamente mais algumas profecias e contar-lhes a que conclusão cheguei.
Isaıá s e Malaquias predizem que o Messias será precedido de um mensageiro. O salmista disse
que o Messias seria traıd́ o por um amigo. Zacarias disse que o Messias seria traıd́ o por trinta
moedas de prata. E complementa dizendo que o povo verá aquele a quem eles perfuraram. O
salmista profetizou que eles "estão me olhando e me encarando. Repartem entre si as minhas
vestes e sobre a minha túnica lançam sortes" (Salmo 22.17,18). E posteriormente o salmista
profetizou que "ele preserva todos os meus ossos; nem um deles será quebrado" (Salmo 34.20).
Isaıá s diz que "designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua
morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca" (Is 53.9). Os
Salmos dizem que ele ressuscitaria. Se eu tivesse mais tempo, poderia falar de outras dezenas
de profecias das Escrituras hebraicas que indicam as qualiϐicações do Messias. No ϐinal deste
programa, deixarei um número de telefone para que os senhores possam solicitar o material
impresso deste nosso estudo. Mediante este estudo os senhores ϐicarão plenamente convencidos
de que apenas uma única pessoa poderia qualiϐicar-se para ser o Ungido de Jeová. Permitam-me
encerrar dizendo que estes três anos de pesquisas sobre os escritos sagrados de Moisés e dos
profetas foram os mais gratiϐicantes de minha vida. Recorri a livros históricos e outros escritos
sagrados, inclusive o Novo Testamento dos gentios, vasculhando cada registro que pude
encontrar para saber se alguém chegou a preencher todas os requisitos messiânicos. Será que
houve alguém nascido de uma virgem em Belém, descendente do rei Davi e vindo da linhagem
de Abraão, levado para o Egito, chamado de volta para evangelizar na Galiléia, precedido de um
mensageiro, rejeitado pelo próprio povo de Deus, traıd́ o por trinta moedas de prata, perfurado
sem que nenhum osso fosse quebrado, enterrado com o rico e ressuscitado? De acordo com
Daniel, o maior de todos os profetas hebreus, decorreriam exatamente 483 anos entre o decreto
para a reconstrução do muro e da cidade de Jerusalém em "tempos difıć eis" antes que o Messias
removesse os pecados do povo.
Ben-Judá olhava diretamente para a câmera. “Exatamente 483 anos após a reconstrução
de Jerusalém e de seus muros, Jesus Cristo de Nazaré ofereceu-se para a nação de Israel. Para
regozijo do povo, ele entrou na cidade montado num jumentinho, como o profeta Zacarias havia
predito: "Alegra-te muito, ó ϐilha de Sião; exulta, ó ϐilha de Jerusalém: eis aı́te vem o teu Rei,
justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta."
Buck levantou-se rapidamente do sofá nos bastidores e ϐicou de pé olhando para o monitor.
Havia outras pessoas reunidas ali, mas ele não se conteve e gritou: “Sim! Prossiga, Tsion!
Amém!” Buck ouviu os telefones tocando lá embaixo no saguão, antes mesmo que o rabino
tivesse informado o número.
“Jesus Cristo é o Messias! — concluiu o rabino. — Não pode haver outra opção. Cheguei a
esta conclusão mas tive receio de manifestar-me, e quase perdi a oportunidade. Jesus veio para
arrebatar sua igreja, para levar seus escolhidos para o céu, conforme ele disse que faria. Eu não
fui um dos escolhidos porque vacilei. Porém, desde então, eu o aceitei como meu Salvador. Ele
vai voltar dentro de sete anos! Estejam preparados!”
Repentinamente o estúdio da TV começou a fervilhar. Rabinos ortodoxos telefonavam,
israelenses irados esmurravam as portas e os técnicos do estúdio aguardavam um sinal para
tirar o programa do ar.
“Este o número do telefone para os senhores obterem mais informações! — dizia o rabino.
— Se eles não mostrarem o número na tela, vou repeti-lo para os senhores! — Enquanto o
rabino repetia o número, os diretores gesticulavam para que os operadores de câmera
interrompessem a transmissão. — Yeshua ben Yosef, Jesus ϐilho de José, é Yeshua Hamashiac! —
gritou o rabino rapidamente. – Jesus é o Messias! — E a imagem sumiu da tela.”
O rabino Ben-Judá pegou suas anotações e, assustado, procurou por Buck.
“Estou aqui, irmão! — disse Buck, entrando correndo no estúdio. — Onde está o carro?”
“Escondido lá nos fundos, e até agora meu motorista não sabe por quê!”
Os executivos irromperam no estúdio. “Espere! As pessoas precisam falar com o senhor!”
O rabino hesitou, olhando para Buck. “ E se estiverem querendo encontrar Cristo?”
“Poderão telefonar! — disse Buck. — Vou tirar o senhor daqui.”
Ambos atravessaram correndo a porta dos fundos e deram de encontro com o funcionário
do estacionamento. Nenhum sinal do Mercedes. De repente, do outro lado da rua, o motorista
pulou para fora do carro, acenando e gritando. Buck e Tsion correram em sua direção.
— O ϐinal foi decepcionante — concluiu Carpathia. — Eu preferia que o rabino tivesse dito
que ele era o Messias. Não ouvi nenhuma novidade. Muita gente acredita nesse mito. Um
importante rabino se converteu. Grande coisa!
Grande coisa, sim, pensou Rayford, caminhando em direção à cabina de comando para a
aterrissagem.
Buck sentia-se pouco à vontade na pequena casa de Tsion Ben-Judá, cuja esposa o abraçou
chorando e depois sentou-se em outra sala com as crianças, soluçando alto. “Eu apoio você,
Tsion — ela gritou — mas nossa vida está arruinada!”
Tsion atendeu o telefone e fez um sinal a Buck para que ele pegasse a extensão no outro
cômodo. A Sra. Ben-Judá tentava acalmar-se enquanto Buck ouvia a conversa.
“Sim, sou eu, o rabino Ben-Judá.”
“Aqui fala Eli. Conversei com você ontem à noite.”
“Claro! Como obteve meu número?”
“Liguei para aquele número que você mencionou no programa, e a aluna que atendeu
informou o número de sua residência. Eu me identifiquei e consegui convencê-la.”
“Agradeço sua ligação.”
“Compartilho sua alegria, Tsion, meu irmão em Jesus Cristo. Muitas pessoas o aceitaram
depois de ouvir nossa pregação aqui em Jerusalém. Organizamos uma reunião de novos crentes
no Estádio Teddy Kollek. Você gostaria de comparecer e fazer uso da palavra?”
“Sinceramente, irmão Eli, temo por minha segurança e pela de minha família.”
“Não tenha medo. Moisés e eu deixaremos claro que qualquer pessoa que o ameace terá
de haver-se conosco. Penso que não deixamos nenhuma dúvida quanto a isso.”
C A P Í T U L O
18
Dezoito meses depois
Fazia muito frio em Chicago. Rayford Steele pegou seu casaco grosso de lã do guardaroupa.
Detestava ter de carregá-lo pelo aeroporto, mas precisava dele para ir de casa até o
carro e do carro até o terminal. Fazia meses que ele não se olhava no espelho enquanto se vestia
para trabalhar. Rayford costumava colocar na mala seu uniforme de capitão do Global
Community One, com seus vistosos galões e botões dourados sobre o tecido azul-marinho. Na
verdade, o uniforme seria elegante, ligeiramente formal e pomposo, se não ϐizesse Rayford
lembrar-se de que estava trabalhando para o demônio.
O cansaço pelo fato de morar em Chicago e ter de iniciar o vôo em Nova York estampavase
no rosto de Rayford. — Estou preocupada com você, papai — dissera Chloe mais de uma vez.
Ela chegara a oferecer-se para morar com o pai em Nova York, principalmente após Buck ter
sido transferido para lá alguns meses antes. Rayford sabia que Chloe e Buck sentiam muita falta
um do outro, mas tinha seus próprios motivos para prolongar ao máximo sua permanência em
Chicago. Um dos motivos era Amanda White.
“Se Buck não se apressar, eu me casarei antes de você. Ele já pegou na sua mão?”
Chloe corou. “Por que vocêquer saber? Isso tudo é novidade para ele, papai. Ele nunca se
apaixonou antes.”
“E você?”
“Eu achava que sim, até conhecer Buck. Temos conversado sobre o futuro e muitas outras
coisas. Só que ele ainda não me pediu em casamento.”
Rayford colocou o quepe e ϐicou de pé diante do espelho, com o casaco jogado sobre o
ombro. Fez uma careta, suspirou e balançou a cabeça. “Vamos fechar esta casa dentro de duas
semanas a partir de amanhã– ele disse. — Daı,́ ou vocêvai comigo para a Nova Babilônia ou vai
viver por conta própria. Buck bem que poderia facilitar nossa vida sendo um pouco mais
decidido.”
“Não vou pressioná-lo, papai. O fato de estarmos vivendo longe um do outro tem sido um
bom teste. E detesto a idéia de deixar Bruce sozinho na Igreja Nova Esperança.”
“Bruce não tem tido tempo de sentir-se sozinho. A igreja está cada vez mais repleta e o
abrigo subterrâneo logo deixará de ser segredo. Vai precisar ser maior do que o templo.”
Bruce Barnes também estava viajando muito. Tinha organizado um programa de igrejas
domésticas, pequenos grupos que se reuniam em todos os bairros e por todo o paıś , antes que
tais reuniões fossem declaradas ilegais, o que não demoraria muito. Bruce viajara pelo mundo
todo, multiplicando seu ministério de pequenos grupos. Começou em Israel e viu o trabalho das
duas testemunhas e do rabino Tsion Ben-Judá expandir-se a ponto de lotar os maiores estádios
do mundo.
Os 144.000 evangelistas judeus tinham representantes em todos os paıś es, geralmente
inϐiltrados em faculdades e universidades. Milhões e milhões haviam-se convertido, mas assim
como a fé crescera, também crescera o índice de criminalidade e violência.
Já havia uma pressão dos dirigentes da Comunidade Global americana em Washington para
transformar todas as igrejas em ramiϐicações oϐiciais daquilo que agora se chamava Fé Mundial
Enigma Babilônia. A religião mundial era dirigida pelo novo Papa Pedro, o antigo Peter
Mathews, dos Estados Unidos, que introduziu um sistema que ele chamava de "uma nova era de
tolerância e unidade" entre as principais religiões. Os maiores inimigos da Enigma Babilônia, que
se apossara do Vaticano e de suas instalações, eram os milhões de pessoas que acreditavam que
Jesus era o único caminho até Deus.
Dizer arbitrariamente, escreveu o Sumo Pontıϐ́ice Pedro em uma declaração oϐicial da
Enigma Babilônia, que a Bíblia judaica e protestante, que contém apenas o Velho e o Novo
Testamentos, é a única regra de fé e prática, representa o ponto mais alto da intolerância e da
desunião. Isso é um insulto a tudo o que temos realizado, e os seguidores dessa falsa doutrina são
considerados hereges.
O Sumo Pontıϐ́ice Pedro havia incluıd́ o na mesma categoria os judeus ortodoxos e os
cristãos recém-convertidos. Ele enfrentou problemas tanto com o templo recém-construıd́ o e
seu retorno ao sistema de sacrifıć ios quanto com os milhões e milhões de convertidos a Cristo. E
ironicamente, o supremo pontıϐ́ice precisou enfrentar oposições ao novo templo. Eli e Moisés, as
testemunhas agora conhecidas mundialmente e que ninguém ousava contrariar, geralmente
falavam contra o templo. Porém sua lógica era um anátema à Enigma Babilônia.
“Israel reconstruiu o templo para apressar a volta do Messias do povo judeu — diziam Eli e
Moisés — sem dar-se conta de que o templo foi destruıd́ o pelo verdadeiro Messias, que já veio!
Israel construiu o templo da rejeição! Não é de admirar que um número tão pequeno dos
144.000 evangelistas judeus procede de Israel! A grande maioria do povo de Israel é incrédula e
sofrerá por causa disso!”
As testemunhas ϐicaram indignadas no dia em que o templo foi consagrado e apresentado
ao mundo. Centenas de milhares de pessoas começaram a aϐluir para Jerusalém a ϐim de
conhecer o templo; quase o mesmo número de pessoas iniciou peregrinações rumo à Nova
Babilônia para conhecer a nova e exuberante sede da Comunidade Global que Nicolae Carpathia
projetara.
Eli e Moisés provocaram indignação em muita gente, inclusive no visitante Carpathia, no
dia da comemoração da reabertura do templo. Pela primeira vez eles não pregaram no Muro
das Lamentações nem em um estádio gigantesco. Naquele dia eles aguardaram até que o
templo estivesse repleto. Milhares de pessoas, que não conseguiram entrar, permaneceram de
pé, lado a lado, na Colina do Templo. Moisés e Eli abriram o caminho à força para chegar ao
Portão Dourado do templo, provocando temor na multidão. Foram ridicularizados, vaiados e
achincalhados, mas ninguém se atreveu a aproximar-se deles, e muito menos tentar agredi-los.
Nicolae Carpathia esteve ao lado dos dignitários naquele dia. Ele insultou os intrusos, mas
Eli e Moisés obrigaram-no a silenciar. Sem a ajuda de microfones, as duas testemunhas gritaram
bem alto no pátio do templo para que todos pudessem ouvir: — Nicolae! Um dia, você mesmo
vai corromper e profanar este templo!
— Que absurdo! — respondera Carpathia. — Será que não existe uma autoridade militar
em Israel com poderes para fazer calar esses dois?
O primeiro-ministro israelense, que agora era subordinado ao embaixador dos Estados
Unidos e da AƵsia para a Comunidade Global, foi pego de surpresa diante de um microfone e de
uma filmadora. – Fomos transformados em uma sociedade desarmada, graças ao senhor.
— Esses dois também estão desarmados! — vociferara Carpathia. — Reprima-os!
Porém, Eli e Moisés continuaram a gritar. — Deus não habita em templos construıd́ os por
mãos humanas! O corpo dos crentes é o templo do Espírito Santo!
Carpathia, que tinha visitado Israel apenas para dar apoio a seus amigos e homenageá-los
pelo novo templo, perguntou à multidão: — Vocês querem ouvir-me ou ouvir esses dois?
A multidão respondeu aos gritos: — Queremos ouvir o senhor Potentado! O senhor!
“Não existe outro potentado, a não ser o próprio Deus!” exclamou Eli.
E Moisés complementou: “Seus sacrifıć ios de sangue se transformarão em água, e a água
que vocês recolherem se transformarão em sangue.”
Buck havia estado lá naquele dia como editor do Semanário Comunidade Global, o novo
nome do Semanário Global. Ele recusou o pedido de Carpathia para publicar um editorial sobre
as duas testemunhas, às quais Nicolae dava o nome de intrusos, e convenceu o potentado da
Comunidade Global que a imprensa toda daria cobertura aos fatos da atualidade. O sangue
derramado de uma novilha sacriϐicada transformara-se em água. E a água recolhida em outra
cerimônia transformara-se em sangue dentro do balde. Os israelenses culpavam as duas
testemunhas de denegrirem sua comemoração.
Buck detestava o dinheiro que estava ganhando. Nem mesmo um salário tão alto como
aquele teve o poder de facilitar sua vida. Ele tinha sido forçado a mudar novamente para Nova
York. Muitos dos antigos funcionários do Semanário Global tinham sido demitidos, inclusive
Stanton Bailey, Marge Potter e até Jim Borland. Steve Plank era agora o editor do Global
Community East Coast Daily Times, um jornal formado da fusão do New York Times, Washington
Post e Boston Globe. Apesar de Steve não admitir, Buck acreditava que o brilho do
relacionamento entre Steve e o potentado já se havia apagado.
O único fator positivo na nova posição ocupada por Buck era que agora ele tinha condições
de isolar-se da terrıv́ el onda de criminalidade que quebrara todos os recordes na América do
Norte. Carpathia usara isso para desviar a atenção pública e inϐluenciar o povo a aceitar a idéia
de que o embaixador norte-americano para a Comunidade Global devia derrubar o atual
presidente. Gerald Fitzhugh e seu vice-presidente ocupavam agora o antigo Edifıć io do Poder
Executivo em Washington, incumbidos de fazer cumprir nos Estados Unidos o plano do
potentado Carpathia para o desarmamento mundial.
O único ato de resistência da parte de Buck a Carpathia era não tomar conhecimento dos
boatos sobre a trama de Fitzhugh com o exército de opor-se ao regime da Comunidade Global
por meio da força. Buck era inteiramente a favor disso e havia estudado secretamente a
possibilidade de criar um site anti-Comunidade Global na Internet. Ele levaria a idéia adiante
tão logo encontrasse uma forma de criar o site sem que rastreassem seu apartamento de
cobertura na Quinta Avenida.
Pelo menos Buck conseguira convencer o potentado Carpathia de que sua mudança para a
Nova Babilônia seria um erro. Aϐinal de contas, Nova York ainda era a capital do mundo
editorial. Ele já estava sofrendo porque o pai de Chloe havia sido forçado a mudar-se para a Nova
Babilônia.
A nova cidade era suntuosa, mas o clima do Iraque era insuportável, a menos que quem
morasse ali não saıś se de casa durante as vinte e quatro horas do dia. A despeito da popularidade
incomparável de Carpathia e de sua ênfase ao novo governo mundial e à nova religião mundial, o
Oriente Médio ainda não se livrara de grande parte de sua antiga cultura, e uma mulher
ocidental sentir-se-ia completamente deslocada naquela região do mundo.
Buck emocionara-se ao ver a aϐinidade que existia entre Rayford e Amanda. Isso havia
eliminado a pressão sobre Buck e Chloe, sobre o futuro de ambos, que se preocupavam por ter
de deixar Rayford sozinho, se resolvessem casar. Mas será que Rayford achava que uma mulher
norte-americana poderia viver na Nova Babilônia? E por quanto tempo eles morariam lá antes
que o potentado começasse a desferir seus ataques contra os cristãos? De acordo com Bruce
Barnes, os dias de perseguição estavam próximos.
Buck sentia falta de Bruce, muito mais do que podia imaginar. Tentou vê-lo todas as vezes
que esteve em Chicago para encontrar-se com Chloe. Todas as vezes que Bruce viajava a Nova
York ou que ambos se encontravam por acaso em alguma cidade do exterior, Bruce arrumava
tempo para uma sessão particular de estudos. Bruce estava rapidamente tornando-se um dos
principais estudiosos das profecias entre os recém-convertidos. Ele dizia que o ano ou o ano e
meio de paz estava prestes a terminar. Assim que os próximos três cavaleiros do Apocalipse
aparecessem, os outros dezessete julgamentos aconteceriam em rápida sucessão, conduzindo
ao glorioso aparecimento de Cristo sete anos após a assinatura do pacto entre Israel e o
Anticristo.
Bruce tornara-se famoso, até mesmo popular. Porém, um grande número de crentes
estava se cansando de suas advertências sinistras.
Rayford ia ausentar-se da cidade até a véspera do dia em que ele, Chloe e os compradores
fechassem o negócio da venda da casa. Ele sorriu da idéia que os compradores tiveram de
hipotecar a casa por trinta anos. Alguém sairia perdedor em tal transação.
Após a partida de Rayford, Chloe ϐicou encarregada de vender objetos supérϐluos,
armazenar os móveis e providenciar uma empresa de mudanças para levar seus pertences a um
apartamento na mesma cidade e os pertences do pai ao Iraque.
Nos dois últimos meses, Amanda sempre levava Rayford de carro até o Aeroporto O'Hare
para essas longas viagens, mas, por ter assumido um novo cargo recentemente, ela não podia
mais fazer isso. Naquele dia, Chloe levaria Rayford até o novo escritório de Amanda, onde ela
era a chefe de compras de uma loja de confecções. Depois que ambos se despedissem, Chloe
levaria Rayford até o aeroporto e ficaria com o carro.
“Como vão as coisas entre vocês? — perguntou Chloe no carro.”
“Estamos perto.”
“Sei que vocês estão perto. Está na cara. Perto do quê? é a pergunta.”
“Perto — ele respondeu.”
No percurso até o aeroporto, os pensamentos de Rayford voltaram-se para Amanda. A
princıṕ io, nem ele nem Chloe sabiam como agir com ela. Amanda, uma mulher alta e bonita,
dois anos mais velha que Rayford, usava cabelos com mechas mais claras e trajava-se
impecavelmente. Uma semana após Rayford ter retornado de sua primeira viagem ao Oriente
Médio como piloto do Global Community One, Bruce apresentou Amanda aos Steeles após um
culto matinal de domingo. Rayford estava cansado e nada feliz com sua decisão de sair da PanCon
por ter de trabalhar para Nicolae Carpathia, e não sentia nenhuma disposição de conversar.
A Sra. White, contudo, pareceu ser uma pessoa um pouco distraıd́ a na opinião de Rayford e
Chloe. Para ela, eles não passavam de nomes relacionados a uma antiga conhecida, Irene
Steele, que lhe causara uma indelével impressão. Naquele domingo, Amanda insistiu em levá-los
para almoçar e fez questão de pagar a conta. Rayford não estava muito disposto para conversar,
mas Amanda não fez caso disso. Tinha muita coisa para contar.
“Eu quis conhecer o senhor, capitão Steele, porque...”
“Rayford, por favor.”
“Bem, se capitão for muito formal, por enquanto vou chamá-lo de Sr. Steele. Rayford soa
muito familiar para mim, embora Irene se referisse assim ao senhor. Ela era uma mulher
encantadora, afável, dedicada e muito apaixonada pelo senhor. Foi ela a responsável por eu terme
tornado cristã antes do Arrebatamento, e foi também por causa dela — e dos
desaparecimentos, é claro — que aceitei a Cristo. Depois, esqueci completamente o nome dela,
e não vi mais nenhuma das outras senhoras que freqüentavam o estudo bıb́ lico. Isso me deu uma
sensação de solidão. Sei que Bruce lhes contou que perdi minha famıĺia. A situação está sendo
muito difıć il para mim. Bruce tem sido uma dádiva de Deus em minha vida. Será que vocês
aprenderam com ele tanto quanto eu? Claro que sim. Vocês têm estado com ele há algumas
semanas.”
Finalmente Amanda passou a falar mais devagar e contou a história da perda de sua
famıĺia. “-Durante toda a nossa vida freqüentamos uma igreja apática. Um dia, meu marido foi
convidado para visitar a igreja de um amigo. Voltou para casa e insistiu que fôssemos conhecer
pelo menos os cultos de domingo realizados naquela igreja. Não me importo de contar que senti
um certo desconforto ali. Eles falavam o tempo todo a respeito da salvação. Bem, eu não dei
importância ao assunto e fui a única de minha famıĺia que não foi salva. Para ser franca, para
mim aquilo tudo parecia coisa de gente pobre. Eu não sabia que era tão orgulhosa. As pessoas
que não conhecem a Deus nunca se dão conta disso, não é mesmo? Eu ϐingia gostar de
freqüentar a igreja com minha famıĺia, mas não convencia ninguém. Eles continuaram a
incentivar-me a participar do estudo bıb́ lico feminino, e ϐinalmente concordei. Eu tinha certeza
de que ia encontrar um grupo de senhoras de meia-idade, mal vestidas, dizendo-se pecadoras
que foram salvas mediante a graça.”
De uma ou outra maneira, Amanda White conseguiu terminar sua refeição enquanto
falava. Mas, ao chegar a esta parte de sua história, seu rosto anuviou-se e ela pediu licença para
ausentar-se por alguns minutos. Chloe revirou os olhos. “— Papai! De que planeta vocêacha que
ela veio?”
Rayford deu uma risadinha. “— Quero muito ouvir as impressões dela sobre sua mãe — ele
disse. — Ela parece estar "salva" agora, não é mesmo?”
“ Sim, mas ela não se parece em nada com gente pobre. Amanda retornou e desculpou-se,
dizendo que "estava determinada a desabafar". Rayford deu um sorriso de incentivo para ela
enquanto Chloe fazia caretas atrás de Amanda, tentando fazer graça para o pai.”
“— Não vou aborrecê-los mais com minha história — ela disse. — Sou uma executiva e
não gosto de imiscuir-me na vida dos outros. Eu só queria passar alguns momentos com vocês
para falar sobre o que a Sra. Steele representou em minha vida. Conversei apenas uma vez com
ela, e muito rapidamente, após uma reunião. Fiquei satisfeita por ter tido a oportunidade de
dizer-lhe a boa impressão que ela me causou. Se vocês estiverem interessados, poderei falar
sobre isso. Porém, se já falei demais, é só vocês me dizerem, e eu os deixarei partir sabendo que
a Sra. Steele foi uma mulher maravilhosa.”
Rayford chegou pensar em dizer que eles tinham tido uma semana exaustiva e precisavam
voltar para casa, mas não quis ser grosseiro. Chloe também não concordaria com isso, portanto
ele disse: “— Oh, sem dúvida gostarıá mos muito de ouvir. — E complementou: — A verdade é
que adoro falar sobre Irene.”
“Não sei como pude me esquecer do nome dela, porque ele me causou uma forte
impressão. Ela tinha cerca de quarenta anos, certo?”
Rayford assentiu.
“— Bem, prosseguindo minha história, tirei uma manhãde folga e fui até a casa onde as
senhoras da igreja estavam se reunindo naquela semana. Todas me pareceram normais e
maravilhosas. Sua esposa atraiu minha atenção imediatamente. Ela era uma pessoa radiante.
Sorria e conversava com todas as senhoras presentes. Cumprimentou-me e perguntou quem eu
era. Durante o estudo bıb́ lico, a oração e as discussões em grupo, ela me causou muito boa
impressão. Que mais posso dizer?”
Muita coisa, pensou Rayford. Mas ele não queria fazer muitas perguntas àquela mulher.
Qual seria o motivo de tão boa impressão? Ele gostou quando Chloe começou a falar.
“— Fico contente por ouvir isso, Sra. White, porque só passei a pensar nesses termos a
respeito de minha mãe depois que saı́ de casa. Eu achava que ela era muito religiosa, muito
austera, muito rigorosa. Só depois que nos distanciamos uma da outra é que me dei conta do
quanto eu a amava. Ela se preocupava muito comigo.”
“— Bem — disse Amanda — a história dela me comoveu, porém o que mais me
impressionou foi seu modo de ser, sua tranqüilidade. Não sei se vocês tinham conhecimento
disto, mas ela nem sempre foi cristã. Sua história era igual à minha. Ela disse que sua famıĺia
freqüentou a igreja durante anos, mas de maneira superϐicial. Quando ela encontrou a Igreja
Nova Esperança, encontrou Cristo. Seu rosto tinha uma expressão de paz, bondade e serenidade
como nunca vi em outra pessoa. Ela demonstrava conϐiança, porém era humilde. Era bem
falante, sem ser agressiva ou presunçosa. Gostei dela imediatamente. Emocionou-se ao falar de
sua famıĺia, e disse que o marido e a ϐilha estavam em primeiro lugar em sua lista de orações.
Ela amava muito vocês. Disse que seu maior medo era que vocês não fossem para o céu junto
com ela e seu filho. Não me recordo de seu nome.”
“Rayford Júnior — disse Chloe. — Ela o chamava de Raymie.”
“-Após a reunião eu a procurei e lhe disse que minha famıĺia era o oposto. Todos eles
estavam preocupados por irem para o céu sem mim. Ela me ensinou como aceitar a Cristo. Eu
lhe disse que não estava preparada. Ela me advertiu para não adiar minha decisão e disse que
oraria por mim. Naquela noite minha famıĺia desapareceu enquanto estávamos dormindo. Quase
todas as pessoas de nossa nova igreja desapareceram, inclusive todas as senhoras do estudo
bíblico. Finalmente localizei Bruce e perguntei se ele conhecia Irene Steele.”
Rayford e Chloe voltaram para casa um pouco envergonhados de si mesmos. “— Foi bom
— disse Rayford. — Estou satisfeito por termos passado aqueles momentos juntos.”
“— Eu só não deveria ter agido de modo tão deselegante — disse Chloe. — Apesar de ter
conversado muito pouco com a mamãe, aquela mulher parecia conhecê-la muito bem.”
Durante quase um ano após aquele dia, Rayford viu Amanda White apenas nos domingos e,
de vez em quando, numa reunião no meio da semana, na qual havia a participação de várias
pessoas, além das quatro que compunham o cıŕ culo fechado de estudos bıb́ licos. Ela era sempre
cordial e meiga, porém o que mais impressionava Rayford era sua humildade. Orava
incessantemente pelas pessoas e trabalhava na igreja o tempo todo. Estudava, aprendia e
conversava a respeito de sua posição em relação a Deus.
Enquanto Rayford a observava à distância, ela passou a chamar cada vez mais sua
atenção. Num domingo, ele disse a Chloe: “— Nunca retribuıḿ os o convite de Amanda White
para almoçar conosco.”
“ Você está querendo convidá-la para vir à nossa casa? — perguntou Chloe.
“Gostaria de convidá-la para sairmos juntos.”
“Como assim?”
“Você ouviu o que eu disse.”
“Papai! Você está falando em marcar um encontro?”
“Um encontro de dois casais. Com vocêe Buck. Chloe riu, e depois desculpou-se — Não há
graça nenhuma. Apenas fiquei surpresa.”
“Não faça um cavalo de batalha por causa disso. Eu só gostaria de convidá-la.”
“ Não faça você um cavalo de batalha por causa disso.”
Buck não se surpreendeu quando Chloe lhe contou que seu pai queria marcar um encontro
com Amanda White e eles dois. — Eu gostaria de saber quando ele teve essa idéia. — De
marcar um encontro? — perguntou Chloe.
“ De marcar um encontro com Amanda White.”
“Você percebeu alguma coisa? Nunca me disse nada.”
“Eu não quis correr o risco de vocêplantar uma idéia na cabeça de seu pai, que não tivesse
partido dele.”
“Isso raramente acontece.”
“De qualquer forma, acho que será bom para ambos — disse Buck. Ele precisa de uma
companhia de sua idade e, se algo acontecer depois, melhor ainda.”
“Por quê?”
“Porque ele não vai querer ϐicar sozinho se decidirmos levar a sério o nosso
relacionamento.”
“Parece que já decidimos — disse Chloe, segurando a mão de Buck.”
“Eu só não sei quando vai ser e em que lugar, depois de tudo o que está acontecendo.”
Buck esperava que Chloe lhe desse uma pista, que estava disposta a acompanhá-lo a
qualquer lugar, que estava preparada para o casamento ou que precisava de um pouco mais de
tempo. O tempo estava se esgotando para eles, mas mesmo assim Buck hesitou.
“Já estou preparada, aguardando por ele — disse Chloe a Rayford. — Mas não vou dizer
nem uma palavra.”
“Por que não? — perguntou Rayford. — Os homens precisam que as mulheres dêem algum
sinal.”
“Ele já recebeu todos os sinais possíveis.”
“Então você já pegou na mão dele?”
“Papai!”
“Aposto que já o beijou.”
“Sem comentários.”
“Para mim isso significa sim.”
“Conforme eu disse, ele já recebeu todos os sinais possíveis.’”
Na verdade, Buck jamais esqueceria a primeira vez que beijou Chloe. Aconteceu na noite
em que ele viajou para Nova York de carro, cerca de um ano antes. Carpathia adquirira o
Semanário e todos os demais meios de comunicação importantes, e Buck tinha um número cada
vez mais reduzido de opções em sua carreira. Ele poderia tentar escrever clandestinamente via
Internet, mas precisava ganhar dinheiro para sobreviver. E Bruce, que passava cada vez menos
tempo na igreja em razão de seu trabalho de evangelização pelo mundo inteiro, havia
incentivado Buck a permanecer no Semanário Global, mesmo depois que o nome foi mudado
para Semanário Comunidade Global. — Eu gostaria que pudéssemos trocar a palavra Semanário
po r Combalido — disse Buck. — [Jogo de palavras — Weekly (Semanário) e Weakly
(Combalido), n.t.].
Buck resignara-se a fazer o melhor que podia para o reino de Deus, da mesma forma que o
pai de Chloe. Contudo, ele ainda escondia o fato de ser crente. Sua liberdade de ação e de
expressar opiniões cairia por terra se a verdade fosse conhecida por Carpathia.
Naquela última noite em Chicago, Buck e Chloe estavam no apartamento dele
empacotando seus objetos pessoais. O plano era partir de carro às nove horas daquela mesma
noite e seguir direto para Nova York de uma só estirada. Enquanto trabalhavam, eles falaram do
quanto detestavam viver afastados, da saudade que sentiam e combinaram com que freqüência
telefonariam e enviariam e-mails um ao outro.
“Eu gostaria que você me acompanhasse — disse Buck num determinado momento.”
“Ah, sim, seria bom — ela disse.”
“Algum dia.”
“Algum dia quando?”
Buck não mordeu a isca. Carregou uma caixa até o carro e voltou, passando por Chloe
enquanto ela fechava outra caixa com fita adesiva. Lágrimas corriam pelo rosto dela.
“O que foi? — ele perguntou, parando para limpar suas lágrimas com os dedos. — Não
comece a me provocar.”
“Você nunca sentirá a minha falta como eu sinto a sua — ela disse, tentando continuar a
trabalhar enquanto ele parecia estar indeciso, com a mão no rosto dela.”
“— Pare com isso — ele disse em voz baixa. — Olhe para mim.”
Chloe passou a ϐita na caixa, levantou-se e ϐitou-o. Ele abraçou-a e puxou-a para perto de
si. Ela encostou a cabeça em seu peito, sem abraçá-lo. Eles já haviam se abraçado antes,
caminhado de mãos dadas, e às vezes, de braço dado. Já haviam manifestado seus sentimentos
um para o outro sem mencionar amor. E haviam concordado que não chorariam nem diriam
palavras tristes no momento da partida.
“Vamos nos ver com freqüência — ele disse. — Vocêvai encontrar-se com seu pai quando
ele estiver em Nova York. E eu terei motivos para vir aqui.”
“Que motivos? O escritório de Chicago está encerrando suas atividades.”
“ Este motivo — ele disse, abraçando-a com força. E ela começou a chorar.”
“Sinto muito — ela disse. — Vai ser muito difícil para mim.”
“Eu sei.”
“Não, não sabe, Buck. Você não pode dizer que gosta de mim tanto quanto eu gosto de
você.”
Buck já planejara o primeiro beijo. Numa de suas despedidas à noite, ele simplesmente
encostaria seus lábios nos dela, diria adeus e iria embora sem dizer mais nada. Ele não queria
ver a reação dela ou beijá-la novamente em seguida. Teria de ser um gesto signiϐicativo e
especial, porém rápido e simples, algo que eles pudessem consolidar posteriormente.
Porém agora Buck queria que ela soubesse o que ele sentia. Estava zangado consigo
mesmo por ser um escritor tão talentoso e tão incompetente para dizer frente a frente o que ela
significava para ele.
Buck afastou-se um pouco e segurou o rosto de Chloe. A princıṕ io ela resistiu e tentou
novamente esconder o rosto em seu peito, porém ele a forçou erguer a cabeça. — Nunca mais
repita isso — ele disse. — Mas, Buck, é verdade.
Ele abaixou a cabeça até seus olhos ϐicarem bem perto dos dela. — Vocême ouviu? Nunca
mais repita isso. Não chegue a essa conclusão nem pense nisso. Não é possıv́ el que você goste
mais de mim do que eu de você. Você é a minha vida. Eu a amo, Chloe. Você não sabe?
Ele percebeu que ela recuou um pouco ao ouvir sua primeira declaração de amor. As
lágrimas que rolavam em seu rosto pingaram nas mãos dele, e ela começou a dizer: — Como eu
poderia...? — Mas ele curvou-se e encostou os lábios nos dela, abafando suas palavras. Desta vez
não foi um simples toque de lábios. Ela levantou os braços, passou-os por volta do pescoço dele e
segurou-o firme enquanto se beijavam.
De repente, ela afastou-se um pouco e murmurou: — Será que você só disse isso porque
está partindo e... — Mas ele a fez calar novamente com outro beijo.
Alguns momentos depois ele encostou a ponta de seu nariz na ponta do dela e disse:
“ Nunca mais duvide de meu amor por você. Prometa.”
“Mas, Buck...”
“Prometa.”
“ Prometo. E eu também o amo, Buck”
Rayford não sabia ao certo quando o respeito e a admiração que sentia por Amanda White
transformara-se em amor. Gostava cada vez mais dela e adorava sua companhia. Sentiam-se
tão descontraıd́ os quando estavam juntos que tocavam um no outro enquanto conversavam,
andavam de mãos dadas, abraçavam-se. Rayford constatou que a amizade estava se
transformando em algo mais sério quando começou a achar falta de Amanda após ϐicar fora um
único dia, e sentir vontade de telefonar-lhe sempre que se ausentava por mais tempo.
Na verdade, foi ela quem tomou a iniciativa de beijá-lo. Duas vezes após ele ter estado fora
de Chicago durante vários dias, Amanda cumprimentou-o com um abraço e um beijo de leve no
rosto. Ele gostou, mas ϐicou embaraçado. Na terceira vez que ele retornou de outra viagem
semelhante, ela simplesmente o abraçou sem beijá-lo.
O momento que ele escolhera tinha sido perfeito. Rayford decidiu que se desta vez ela
tentasse beijá-lo no rosto, ele a beijaria na boca. Ele havia trazido um presente para ela de
Paris, um colar muito caro. Ao ver que ela não tentou beijá-lo, ele a abraçou longamente e
disse: — Olhe para mim.
Rayford e Amanda sentaram-se lado a lado na sala de espera, enquanto os passageiros e a
tripulação passavam por eles no corredor. Havia um incômodo braço de poltrona entre os dois.
Ambos trajavam roupas grossas, ela com um casaco de peles e Rayford com o casaco de
uniforme sobre o braço. Tirando um estojo de jóia de um pacote que estava dentro de sua
maleta de viagem, ele disse: — Isto é para você.
Amanda, sabendo onde ele estivera, fez um estardalhaço quando viu o pacote, o nome da
loja o estojo. Finalmente resolveu abri-lo e prendeu a respiração. Era um colar maravilhoso de
ouro com brilhantes. — Rayford! — ela exclamou. — Não sei o que dizer.
“Não diga nada. — Ele a tomou nos braços e a beijou. O pacote que estava na mão dela
quase foi esmagado.”
“Continuo sem saber o que dizer — ela prosseguiu, com um brilho nos olhos. Ele a beijou
novamente.”
Agora, duas semanas antes de mudar-se para a Nova Babilônia, Rayford falou com Buck
pelo telefone mais vezes do que Chloe. Enquanto ela estava esquentando o carro, ele esgueirouse
para dar o último telefonema.
“Está tudo certo? — ele perguntou a Buck.”
“Tudo. Estarei lá.”
“Ótimo.”
No carro, Rayford perguntou a Chloe: “Em que pé está o seu apartamento?”
“Prometeram que será liberado — ela disse — mas estou um pouco preocupada porque
eles estão me enrolando com a papelada.
“Vocêvai ϐicar bem aqui, sabendo que estarei morando na Nova Babilônia e Buck em Nova
York?”
“Não foi minha primeira opção, mas não estou interessada em morar perto de Carpathia,
muito menos no Iraque.”
“Qual é a opinião de Buck?”
“Não consegui falar com ele por telefone hoje. Ele deve estar ocupado, trabalhando em
outro lugar. Sei que ele quer encontrar-se com Fitzhugh em Washington o mais breve possível.”
“Ah, sim, talvez ele esteja lá.”
Chloe parou o carro na loja de roupas em Des Plaines, onde Amanda trabalhava, e
aguardou enquanto Rayford entrou para despedir-se.
“Ele está aqui? — perguntou Rayford à secretária de Amanda.”
“Ele está, e ela também está — respondeu a secretária. — Ela está no escritório, e ele
naquela sala ali. — A secretária apontou para uma pequena sala perto da de Amanda.
— Assim que eu entrar lá, vocêpoderia fazer o favor de correr até o carro e dizer a minha
filha que há uma ligação para ela?”
“ Claro.”
Rayford bateu na porta e entrou no escritório de Amanda.
“Não estou nem um pouco animada hoje, Ray — ela disse.”
“Tentei forçar um sorriso o dia todo, mas não consegui.”
“Talvez eu saiba como fazer você sorrir — ele disse, levantando-a da cadeira e beijandoa.”
“Você sabe que Buck está aqui? — ela perguntou.”
“Sei. Será uma bela surpresa para Chloe.”
“Você vai fazer-me uma surpresa como esta algum dia?”
“Talvez eu lhe faça uma surpresa neste momento — ele disse. — Você está gostando de
seu trabalho?”
“Detesto-o. Eu o abandonaria imediatamente se o homem que eu amo me pedisse para
acompanhá-lo.”
“Ele acabou de chegar — disse Rayford, retirando uma pequena caixa do bolso do paletó e
encostando-a nas costas de Amanda.”
Ela levou um susto. “— O que é isto?”
“ O quê? Isto? Não sei. Por que você não me diz o que é?”
Buck ouviu a voz de Rayford e sabia que Chloe não demoraria a chegar. Apagou a luz e
voltou a sentar-se na cadeira atrás da mesa. Dentro de alguns minutos ele ouviu a voz de Chloe.
“ Aqui? — ela perguntou.”
“Sim, senhora — disse a secretária. — Linha um.”
A porta abriu-se lentamente, e Chloe acendeu a luz, dando um pulo ao deparar-se com
Buck. Gritou e correu até ele. Assim que ele se levantou, ela atirou-se em seus braços e ele a
abraçou, rodando-a no ar.
“ Silêncio! — ele disse. — Aqui é um estabelecimento comercial!”
“O papai sabia disto? Claro que sim! Ele tinha de saber.”
“Ele sabia — respondeu Buck. — Surpresa?”
“Claro! O que você está fazendo nesta cidade? Quanto tempo vai ϐicar? O que vamos
fazer?”
“Vim só para vê-la. Parto hoje à noite para Washington. Vamos jantar depois de deixarmos
seu pai no aeroporto.”
“Então você veio só para me ver.”
“Eu lhe disse há muito tempo para nunca duvidar de meu amor por você.”
“Eu sei.”
Ele virou-se, sentou-a na cadeira, ajoelhou-se diante dela e tirou uma caixa de alianças do
bolso.
“Oh, Ray! — disse Amanda, olhando para a aliança em seu dedo. — Eu o amo. E adorarei
ser sua durante os poucos anos que ainda nos restam.”
“Há uma outra coisa — ele disse.”
“O quê?”
“Buck e eu já conversamos. Neste momento ele está na sala ao lado, pedindo Chloe em
casamento, e gostarıá mos de saber se vocês duas aceitariam uma cerimônia dupla oϐiciada por
Bruce.”
Rayford aguardou a reação de Amanda. Ela e Chloe eram amigas, mas não íntimas.
“Seria maravilhoso! Mas Chloe poderá não gostar, portanto é melhor deixar a critério dela
para não haver ressentimentos. Se ela preferir uma cerimônia individual, tudo bem. Mas eu
adorei a idéia. Quando?”
“Na véspera do dia em que fecharmos a casa. Você dá duas semanas de aviso prévio e
“muda-se comigo para a Nova Babilônia.
“Rayford Steele! — ela disse. — Você demora um pouco para esquentar, mas ferve
rapidamente. Vou escrever minha carta de demissão antes que seu avião levante vôo.
“Você entendeu por que a papelada do apartamento nunca ϐicou pronta? — perguntou
Buck.”
Chloe assentiu.
“Porque o negócio não seria fechado. Se você me aceitar como marido, quero que se mude
comigo para Nova York.”
“Rayford — disse Amanda. — Nunca pensei que seria feliz novamente. Mas sou.”
“Uma cerimônia dupla? — perguntou Chloe limpando as lágrimas. — Eu adoraria. Mas
você acha que Amanda concordaria?”

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