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sábado, 20 de fevereiro de 2016

SD 89

C A P Í T U L O 17

 APÓS alguns minutos, Chloe deu a Rayford indício de que havia ouvido seu choro. — Não se preocupe comigo, papai. Eu vou chegar lá. Chegar aonde? Estaria ela dizendo que sua decisão era apenas uma questão de tempo ou simplesmente que estava superando sua tristeza? Rayford queria muito dizer-lhe que estava preocupado, mas ela sabia disso. A presença de Chloe ali trouxe-lhe conforto, mas, quando ela retornou a seu quarto, ele sentiu-se de novo desesperadamente só. Ele não conseguia dormir. Desceu a escada nas pontas dos pés e ligou o televisor novo. De Israel, veio uma notıć ia muito estranha. A tela mostrava um grupo de pessoas em frente do famoso Muro das Lamentações cercando dois homens que pareciam estar gritando. "Ninguém conhece os dois homens", disse o repórter que cobria a notıć ia, "que se referem um ao outro como Eli e Moisés. Eles estão aqui diante do Muro das Lamentações desde antes do alvorecer pregando num estilo que lembra claramente os antigos evangelistas norteamericanos. Como seria de esperar, os judeus ortodoxos estão alvoroçados, acusando-os de profanar o lugar santo ao proclamar que Jesus Cristo do Novo Testamento é o cumprimento da profecia de um messias, de acordo com a Torá. "Até aqui, não houve nenhuma violência, embora os ânimos estejam acirrados, e as autoridades acompanham de perto este incidente. A polıć ia e o Exército israelenses normalmente se mostram relutantes em intervir nesta área, deixando que os fanáticos religiosos resolvam seus problemas neste lugar. Esta é a situação mais explosiva na Terra Santa desde a destruição da força aérea russa, e esta próspera nação tem estado desde esse último episódio preocupada basicamente com as ameaças externas. "De Jerusalém, Dan Bennett, em reportagem exclusiva." Se não fosse pelo adiantado da hora, Rayford teria telefonado a Bruce Barnes. Ele sentouse diante da televisão sentindo-se parte da família de crentes, à qual aparentemente pertenciam aqueles dois homens em Jerusalém. Isto era exatamente o que havia aprendido, que Jesus era o Messias do Velho Testamento. Bruce havia dito a ele e aos demais participantes do núcleo dirigente da Igreja Nova Esperança que surgiriam brevemente 144 mil judeus que creriam em Cristo e começariam a evangelizar pelo mundo. Seriam aqueles os dois primeiros? A apresentadora-âncora voltou ao noticiário nacional. "Nova York está ainda alvoroçada acompanhando hoje as várias aparições do novo presidente romeno Nicolae Carpathia. O líder de 33 anos causou boa impressão à mídia numa pequena entrevista jornalística esta manhã, seguida de um vigoroso pronunciamento perante a Assembléia Geral da ONU, tendo sido aplaudido de pé por todo o auditório, inclusive a imprensa. Ao que se anunciou, ele posou numa sessão de fotos para a reportagem de capa da revista People, comentando-se que ele será o primeiro Homem Mais Atraente a aparecer na revista menos de um ano após o último indicado. "Os assessores de Carpathia anunciaram que ele resolveu estender sua programação para incluir pronunciamentos em vários encontros internacionais em Nova York, durante as próximas duas semanas, e que ele foi convidado pelo presidente Fitzhugh a falar numa sessão conjunta do Congresso, bem como passar uma noite na Casa Branca. "Numa entrevista à imprensa esta tarde, o presidente manifestou seu apoio ao novo líder." A imagem do presidente ocupou toda a tela. "Nesta hora difıć il da história universal, é fundamental que os amantes da paz e da união entre os povos dêem um passo à frente para relembrar-nos que somos parte de uma comunidade global. Qualquer amigo da paz é um amigo dos Estados Unidos, e o Sr. Carpathia é um amigo da paz." A rede de televisão transmitiu uma pergunta feita ao presidente: "Presidente, o que o senhor acha das idéias de Carpathia para a ONU?" "Permitam-me apenas dizer isto: Creio que jamais ouvi, dentro ou fora da ONU, uma pessoa mostrar uma total compreensão da história, da organização e da direção daquela casa. Ele cumpriu seu dever e tem um plano. Eu ouvi com atenção. Espero que os respectivos embaixadores e o secretário-geral Ngumo tenham igualmente ouvido. Ninguém deve entender uma visão nova como uma ameaça. Estou certo de que cada lıd́ er no mundo concorda com minha opinião de que precisamos de toda ajuda possível nesta hora." A apresentadora-âncora continuou: "Ainda de Nova York, chega-nos esta noite a notıć ia de que um redator do Semanário Global foi inocentado de todas as acusações e suspeita na morte de um investigador da Scotland Yard. Cameron Williams, principal redator do Semanário, ganhador de vários prêmios, tinha sido dado como vıt́ ima na explosão de um carro que tirou a vida do investigador Alan Tompkins, que era lambem um conhecido de Williams. "Os restos de Tompkins foram identiϐicados, e o passaporte o carteira de identidade de Williams foram encontrados entre os destroços após a explosão. A notıć ia da morte de Williams foi veiculada pelos jornais de todo o paıś , mas ele reapareceu em Nova York no ϐinal desta tarde e foi visto na entrevista à imprensa na ONU, logo depois do pronunciamento de Nicolae Carpathia. "No início da noite, Williams foi considerado fugitivo internacional, procurado pela Scotland Yard e pela Interpol para um interrogatório relacionado com a citada morte por explosão. Ambas as agências anunciaram que ele tinha sido isentado de todas as acusações e considerado um homem de sorte por ter escapado ileso. Nas notícias de esportes, as equipes da Liga Principal de Beisebol em treinamento para a temporada enfrentam a assustadora tarefa de substituir numerosos atletas perdidos nos desaparecimentos cósmicos..." Rayford ainda estava sem sono. Ele preparou um café e, em seguida, telefonou para a linha "24-horas", que informa os vôos e as designações dos tripulantes. Ele teve uma idéia. — Pode dizer-me se ainda existe a possibilidade de Hattie Durham ser escalada para meu vôo a JFK quarta-feira? -perguntou. — Vou ver se posso — foi a resposta. — Deixe-me ver... hã-hã... negativo! Não é possıv́ el. Ela já está escalada para Nova York. O vôo dela é às oito da manhã, e o seu, às dez. Buck Williams tinha retornado ao seu apartamento depois da meia-noite, após ter sido informado por Nicolae Carpathia que suas preocupações haviam terminado. Carpathia tinha telefonado a Jonathan Stonagal, pressionando a tecla viva-voz para permitir que Buck ouvisse a conversa. O mesmo procedimento foi usado por Stonagal ao fazer a ligação no meio da noite para Londres que livrou Williams. Buck ouviu a voz rouca de Todd-Cothran concordando em ligar para a Yard e a Interpol. — Mas meu pacote está garantido? — perguntou Todd-Cothran. — Claro — disse Stonagal. O mais desconcertante para Buck era que Stonagal fez um trabalho sujo, pelo menos neste caso. Buck lançou um olhar acusador a Carpathia, apesar de seu alívio e gratidão. — Sr. Williams — disse Carpathia -, eu estava conϐiante de ' que Jonathan poderia dar um jeito nisso, mas sei tanto quanto você sobre os detalhes. — Mas isto prova que Dirk estava certo! Stonagal está conspirando com Todd-Cothran, e o senhor sabia disso! E Stonagal prometeu a ele que seu pacote estava garantido, seja lá o que for que isso signifique. — Buck, asseguro-lhe que nada sabia a este respeito até vocême dizer. Não tinha nenhum conhecimento prévio. — Mas agora já sabe. O senhor aceita, em sã consciência, que Stonagal o ajude a promover-se na política internacional? — Confie em mim, vou tratar das duas coisas. — Mas deve haver muitos mais! E quanto aos outros pretensos dignitários que o senhor conheceu? — Buck, esteja certo de que não há nenhum lugar à minha volta para insinceridade e injustiça. Vou cuidar delas no devido tempo. — E enquanto isso não acontece? — O que você aconselharia? Aparentemente, não estou em posição de agir neste momento. Eles parecem ter a intenção de projetar-me, mas, antes disso, nada posso fazer, a não ser o que sua mıd́ ia chama "colocar a boca no trombone". Até que ponto posso conviver com essa situação, antes de saber aonde chegam os tentáculos dessa gente? Até pouco tempo atrás, você não teria considerado a Scotland Yard um organismo digno de toda a confiança? Buck acenou com a cabeça concordando, mas sentia-se desprezível. — Sei o que o senhor quer dizer, mas odeio isso. Eles sabem que o senhor está a par de tudo. — Isto pode funcionar a meu favor. Eles podem pensar que estou do lado deles, que estou cada vez mais dependente deles. — E o senhor não está? — Apenas temporariamente. Você tem minha palavra. Vou tratar disso. Por ora, estou contente de ter livrado você de uma situação delicadíssima. — Estou contente também, Sr. Carpathia. Há alguma coisa que posso fazer pelo senhor? O romeno sorriu. — Bem, preciso de um assessor de imprensa. — Estava receoso de que o senhor dissesse isso. Não sou o homem indicado. — Claro que não. Eu nem sonharia com tal coisa. E, em tom jocoso, Buck sugeriu: — O que o senhor acha do homem que encontrou no corredor? Carpathia revelou uma vez mais sua prodigiosa memória. — Aquele senhor Eric Miller? — Ele mesmo. O senhor gostaria dele. — Já pedi a ele que me telefonasse amanhã. Posso dizer-lhe que você o recomendou? Buck meneou a cabeça. — Eu estava brincando. Ele contou a Carpathia o que tinha acontecido no saguão do hotel, no elevador e no corredor, antes de Miller apresentar-se. Nicolae não achou graça naquilo. — Vou quebrar a cabeça e ver se posso indicar outro candidato para o senhor — assegurou Buck. — Bem, o senhor também me prometeu um furo de reportagem. — EƵ verdade. EƵ uma informação nova, mas não deve ser anunciada até que eu esteja apto a torná-la realidade. — Entendo. — Israel é particularmente vulnerável, como era antes de a Rússia tentar invadi-lo. Eles tiveram sorte aquela vez, mas o restante do mundo inveja sua prosperidade. Precisam de proteção. A ONU pode proporcionar-lhes isso. Em troca da fórmula quıḿ ica que fez o deserto reverdecer, o mundo ϐicará satisfeito e propenso a garantir-lhes a paz. Se as demais nações se desarmarem e entregarem 10% de seus armamentos à ONU, somente a ONU terá de assinar o acordo de paz com Israel. Seu primeiro-ministro deu ao Dr. Rosenzweig a liberdade de negociar tal acordo, porque ele é o verdadeiro proprietário da fórmula. Eles estão, naturalmente, insistindo nas garantias de proteção durante, no mıń imo, sete anos. Buck sentou-se abanando a cabeça. — O senhor vai ganhar o "Prêmio Nobel da Paz", o tıt́ ulo de "Homem do Ano", da revista Time, e o nosso "Fazedor da Notícia do Ano". — Estas certamente não são minhas metas. Buck despediu-se de Carpathia acreditando tanto nessas palavras como jamais acreditara em qualquer outra coisa. Aqui estava um homem desvinculado do dinheiro que podia comprar homens de posição inferior. Em seu apartamento, Buck encontrou outro recado de Hattie Durham. Ele tinha de telefonar para a garota. Bruce Barnes convocou o núcleo dirigente para uma reunião de emergência na Igreja Nova Esperança na terça-feira à tarde. Rayford foi até lá, esperando que isso valesse seu tempo e que Chloe não se importasse de ϐicar em casa sozinha. Os dois estavam traumatizados desde o assalto. Bruce reuniu todos em redor de sua mesa no escritório. Pediu em oração que ele fosse lúcido e objetivo, a despeito de sua agitação, e em seguida pediu que todos abrissem a Bıb́ lia no livro de Apocalipse. Os olhos de Bruce estavam brilhantes, e sua voz revelava a mesma paixão e emoção de quando ligara para convocar a reunião. Rayford estava curioso por saber o que o havia entusiasmado tanto. Tinha perguntado a Bruce por telefone, mas ele insistiu que ia contar-lhes pessoalmente. — Não quero retê-los aqui por muito tempo — disse ele -, mas descobri algo muito importante que desejo transmitir a vocês. Quero que todos sejam cautelosos, agindo com a prudência das serpentes e a simplicidade das pombas, como ensina a Bíblia. — Como vocês sabem, venho estudando o Apocalipse e lendo vários comentários sobre os eventos dos últimos dias. Bem, encontrei hoje nos arquivos do pastor um de seus sermões sobre o tema. Estive lendo a Bíblia e os livros que tratam do assunto, e eis o que descobri. Bruce levantou a primeira folha de um bloco e mostrou uma escala de datas e respectivos eventos que ele havia anotado. — Vou separar um tempo nas próximas semanas para doutriná-los criteriosamente, mas pareceu-me, e a muitas pessoas versadas no assunto que viveram antes de nós, que este perıó do da história que estamos atravessando vai durar sete anos. Os primeiros 21 meses abrangem o que a Bıb́ lia chama de os sete Julgamentos Selados, ou os Julgamentos do Livro Selado com Sete Selos. Em seguida, vem outro perıó do de 21 meses, no qual veremos os sete Julgamentos das Trombetas. Nos últimos 42 meses destes sete anos de tribulação, se permanecermos vivos, sofreremos as provações mais severas, os sete Julgamentos das Taças. Esta última metade dos sete anos é chamada a Grande Tribulação. Se permanecermos vivos até o seu ϐinal, seremos recompensados pela visão do Aparecimento Glorioso de Cristo. Loretta levantou a mão. — Por que você mencionou duas vezes a expressão "se permanecermos vivos"? Que são esses julgamentos? — Eles se tornarão progressivamente piores, e, se eu estiver lendo corretamente, serão cada vez mais difıć eis de suportar. Se morrermos, estaremos no céu com Cristo e com nossos amados familiares, irmãos e amigos que abraçaram a salvação. Mas poderemos sofrer mortes horrıv́ eis. Se, por acaso, atravessarmos esses sete anos de provação, especialmente a segunda metade, o Aparecimento Glorioso será para nós ainda mais glorioso. Cristo voltará para estabelecer seu reino de mil anos na terra. — O Milênio. — Exatamente. Bem, temos bastante tempo pela frente e, naturalmente, podemos estar apenas no inıć io do primeiro perıó do de 21 meses. Repetindo: se eu estiver lendo corretamente, o anticristo brevemente chegará ao poder, prometendo paz e tentando unir o mundo. — O que há de errado em unir o mundo? — perguntou alguém. — Num tempo como este, parece que precisamos nos aproximar. — Pode não haver nada de errado em tentar unir o mundo, exceto que o anticristo será um grande enganador, e, quando seus verdadeiros propósitos forem revelados, ele sofrerá oposição. Isso causará uma grande guerra, provavelmente a Terceira Guerra Mundial. — Daqui a quanto tempo? — Receio que seja logo. Precisamos observar com atenção o novo líder mundial. — O que você acha do jovem da Europa que é tão popular nos Estados Unidos? — Estou impressionado com ele — respondeu Bruce. — Terei de ser cauteloso e estudar o que ele diz e faz. Ele parece muito humilde e retraıd́ o para enquadrar-se nas caracterıśticas daquele que vai dominar o mundo. — Mas estamos no momento certo para que alguém faça exatamente isso — comentou um dos participantes mais idosos. — Pessoalmente, gostaria que esse indivıd́ uo fosse nosso presidente. Vários outros concordaram. — Precisamos estar de olho nele — acrescentou Bruce. — Mas, por ora, permitam-me apenas resumir brevemente o Livro Selado com Sete Selos de Apocalipse 5, e em seguida poderão ir. Por um lado, não pretendo transmitir a vocês uma sensação de medo, mas todos sabemos que estamos ainda aqui porque negligenciamos a salvação antes do Arrebatamento. Sei que estamos todos gratos por termos uma segunda oportunidade, mas não podemos evitar as provações que virão. Bruce explicou que os primeiros quatro selos do livro foram apresentados como homens sobre quatro cavalos: um cavalo branco, um vermelho, urn preto e um amarelo. — O cavaleiro do cavalo branco é aparentemente o anticristo, que inicia com urn a três meses de diplomacia enquanto se organiza e promete paz. O cavalo vermelho significa guerra. O anticristo terá a oposição de três governantes do Sul, e milhões serão mortos. — Na Terceira Guerra Mundial? — Esta é minha suposição. — E isso ocorreria dentro dos próximos seis meses. — Penso que sim. E imediatamente depois desse perıó do, que terá lugar somente por três a seis meses por causa do arsenal disponível de armas nucleares, a Bíblia prediz inflação e fome - o cavalo preto. Enquanto o rico aumenta sua riqueza, o pobre morre de fome. Outros milhões morrerão nessas condições. — Assim, se sobrevivermos à guerra, precisaremos estocar alimento? Bruce assentiu com a cabeça. — Eu estocaria. — Devemos trabalhar juntos. — Boa idéia, porque as coisas vão piorar. Essa fome mortal pode perdurar por um tempo curto, como dois ou três meses antes da chegada do quarto Selo do Julgamento, o quarto cavaleiro montado num cavalo amarelo — sıḿ bolo da morte. Além da fome após a guerra, uma praga se espalhará pelo mundo inteiro. Antes do quinto Selo do Julgamento, um quarto da atual população mundial terá sido morta. — Qual é o quinto Selo do Julgamento? — Bem — disse Bruce -, você o reconhecerá porque já falamos dele antes. Lembram-se de eu ter falado de 144 mil testemunhas judaicas que tentariam evangelizar o mundo, ganhando pessoas para Cristo? Muitos de seus convertidos, talvez milhões, serão martirizados pelo lıd́ er mundial e pela prostituta, que é o nome dado à religião mundial que nega a pessoa de Cristo. Rayford anotava tudo pressurosamente. Ele se recordava de que três semanas antes considerava tais pensamentos uma insensatez. Como podia ter perdido isso? Deus havia tentado advertir seu povo colocando sua Palavra por escrito durante séculos. Apesar de toda sua educação e inteligência, ele reconhecia ter sido um tolo. Agora ele não tinha condição de assimilar todas aquelas informações, mas tornava-se cada vez mais claro que haveria muito sofrimento para quem sobrevivesse até o Aparecimento Glorioso de Cristo. — O sexto Selo do Julgamento — continuou Bruce — é o ato de Deus derramando sua ira contra os que martirizaram seus santos. Isto virá em forma de um tremor de terra mundial tão devastador que nem os mais aperfeiçoados aparelhos serão capazes de medi-lo. Essa hecatombe será tão terrıv́ el que as pessoas rogarão que as pedras caiam sobre elas para cessar seu sofrimento. Vários dos presentes começaram a chorar. — O sétimo selo — continuou Bruce — anuncia os Julgamentos das Trombetas, que terá lugar na segunda quarta parte deste período de sete anos. — O segundo período de 21 meses — esclareceu Rayford. — Exatamente. Não desejo falar desse perıó do esta noite, mas quero adverti-los que ele será progressivamente pior. Gostaria de prover-lhes um pequeno estıḿ ulo. Vocês estão lembrados de que falamos brevemente de duas testemunhas, e eu disse que estudaria isso com mais cuidado? Apocalipse 11.3-14 esclarece que as duas testemunhas especiais de Deus, tom poder sobrenatural para operar milagres, profetizarão durante 1.260 dias, vestidas de pano de saco. Quaisquer pessoas que tentarem causar-lhes danos serão devoradas pelo fogo que sai de suas bocas. Nenhuma chuva cairá durante o tempo em que profetizarem. Elas terão poder para transformar água em sangue e promover o aparecimento de pragas, tantas vezes quanto quiserem. — Satanás as matará no ϐim de três anos e meio, e seus corpos ϐicarão estendidos na rua da cidade em que Cristo foi cruciϐicado. As pessoas que elas atormentaram celebrarão suas mortes, não permitindo que seus corpos sejam sepultados. Mas, depois de três dias e meio, se levantarão dentre os mortos e subirão ao céu numa nuvem, enquanto seus inimigos ϐicarão observando. Deus enviará outro grande terremoto, um décimo da cidade cairá, e sete mil pessoas morrerão. As restantes ficarão aterrorizadas e darão glória a Deus. Rayford lançou um olhar em volta do escritório e viu as pessoas murmurando umas às outras. Todos eles tinham visto a notıć ia de dois homens "manıá cos" pregando a respeito de Jesus no Muro das Lamentações, em Jerusalém. — São eles? — alguém perguntou. — Quem mais poderia ser? — disse Bruce. — Não chove em Jerusalém desde os desaparecimentos. Não se sabe de onde esses homens vieram. Eles têm o poder miraculoso de santos como Elias e Moisés, e chamam um ao outro de Eli e Moisés. Neste momento, os homens ainda estão pregando. — As testemunhas. — Sim, as testemunhas. Se qualquer um de nós ainda abrigava quaisquer dúvidas ou temores, ou sentia-se inseguro sobre o que está acontecendo, essas testemunhas devem acalmá-lo totalmente. Creio que essas testemunhas verão centenas de milhares de convertidos, os 144 mil, que anunciarão Cristo ao mundo. Estamos do seu lado. Temos de fazer nossa parte. Buck localizou Hattie Durham em casa na terça-feira à noite. — Então, você está vindo a Nova York? — perguntou ele. — Sim, e adoraria ver você e talvez ter um encontro com uma pessoa muito importante. — Você está dizendo um outro além de mim? — Um bonitão — disse ela. — Você já esteve com Nicolae Carpathia? —Claro. — Eu sabia! Conversei com alguém outro dia e disse-lhe que gostaria de encontrar esse homem. — Não prometo nada, mas vou ver o que posso fazer. Onde podemos nos encontrar? — Meu vôo chega por volta das 11, e tenho um compromisso às 13 horas no Clube da PanContinental. Mas, se não retornar em tempo para esse compromisso, não há problema. Só vou retornar a Chicago na manhã seguinte, e nem mesmo garanti ao cara que o encontraria às 13 horas. — Outro cara? — perguntou Buck. — Você tem um fim de semana bem agitado. — Não é nada disso — respondeu Hattie. — EƵ um piloto que quer conversar comigo sobre alguma coisa, e não estou certa de que tenho interesse em ouvir. Se eu voltar e tiver tempo, muito bem. Mas não me comprometi com ele. Por que não nos encontramos no clube e vemos aonde podemos ir depois? — Vou tentar marcar um encontro com Mr. Carpathia, provavelmente em seu hotel. Já era tarde na terça-feira à noite quando Chloe mudou de idéia e concordou em ir a Nova York com seu pai. — Posso perceber que você não está preparado para sair sem mim — disse ela, abraçando-o e sorrindo. — Fico contente por ser necessária. — A bem da verdade — disse ele — vou insistir num encontro com Hattie e gostaria que você estivesse presente. — Para proteção dela ou sua? — Não estou achando graça. Deixei um recado insistindo em que ela me encontre no Clube Pan-Continental, no aeroporto Kennedy, às 13 horas. Se ela vai ou não, não sei. De qualquer modo, você e eu teremos algum tempo juntos. — Papai, tempo juntos é tudo o que temos tido. Acho que você já deve estar cansado de mim a esta altura. — Isso nunca vai acontecer, Chloe. Logo cedo na quarta-feira, Buck foi convocado a comparecer ao escritório de Stanton Bailey, redator-chefe do Semanário Global. Em todos os seus anos de trabalhos premiados, ele tinha estado lá apenas duas vezes. Uma vez, para celebrar seu prêmio Hemingway como correspondente de guerra; outra vez, por ocasião do Natal, quando ganhou uma excursão como prêmio. Buck passou antes na sala de Steve para vê-lo, quando soube por Marge que ele já estava com o redator-chefe. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. — O que está acontecendo? — perguntou ele. — Você sabe que não posso comentar nada — disse Marge. — Apenas vá até lá. A imaginação de Buck ia de um pólo a outro quando chegou ao vestıb́ ulo que dava para o conjunto de salas da diretoria. Ele não havia sido informado de que Plank também tinha sido convocado. O que signiϐicava aquilo? Estariam os dois em diϐiculdade por causa daquela trapaça em que se meteram segunda-feira à noite? O Sr. Bailey teria de algum modo descoberto detalhes do negócio em Londres e como Buck tinha escapado? E naturalmente esperava que essa reunião terminasse em tempo para seu encontro com Hattie Durham. A recepcionista de Bailey indicou-lhe a entrada para a sala, onde a secretária ergueu ligeiramente a cabeça franzindo a testa e indicou-lhe a porta. — Você não vai me anunciar? — brincou ele. Ela sorriu afetadamente e voltou ao seu trabalho. Buck bateu delicadamente e abriu a porta devagar. Plank estava sentado de costas para Buck e não se mexeu. Bailey não se levantou, mas acenou indicando-lhe a cadeira. — Sente-se ali ao lado de seu chefe — disse Bailey, o que Buck interpretou como uma interessante escolha de palavras. Evidentemente, Steve era seu chefe, mas não costumava exigir que o chamassem dessa forma. Buck sentou-se e disse: — Eu o chamo de Steve. Steve inclinou ligeiramente a cabeça em resposta e continuou olhando para Bailey. — Duas coisas, Williams — começou Bailey, -, antes de tratarmos de negócios. Vocêestá isento de qualquer coisa que aconteceu no exterior, certo? Buck concordou com a cabeça e disse: — Sim, senhor. Não deveria haver nenhuma dúvida. — Bem, certamente não deveria, mas vocêteve sorte. Suponho que foi muita esperteza sua dar a entender que a pessoa que o perseguia conseguiu pegá-lo, mas você também nos enganou por algum tempo, como já sabe. — Sinto muito. Não havia outra maneira. — E vocêse livrou do acidente, dando a eles munição para usar contra você, se quisessem incriminá-lo por alguma razão. — Eu sei. Isso me causou surpresa. — Mas conseguiu que alguém cuidasse disso. — Certo. — Como? — Perdão, senhor... — Que parte do "como" você não entendeu? Como você se livrou disso? Temos informação de que houve testemunhas que disseram que você era culpado. — Deve ter havido outros que sabiam a verdade. Tompkins era meu amigo. Eu não tinha nenhum motivo para matá-lo, mesmo que tivesse, não teria meios. Nunca tive a menor idéia de como montar uma bomba nem de como transportá-la ou detoná-la. — Você deve ter pago alguém para fazer isso. — Mas não paguei. Não ando nesses cıŕ culos e, se andasse, não teria mandado alguém matar. — Bem, a cobertura da imprensa é um tanto vaga e não nos compromete. Diz apenas que houve um mal-entendido. — Foi realmente isso. — Claro que foi. Cameron, quis vê-lo esta manhã porque acabo de aceitar um dos mais desagradáveis pedidos de demissão que já recebi. Buck ficou em silêncio, com a cabeça girando. — Steve me disse que será uma novidade para você; portanto, vou direto ao assunto. Ele está se demitindo para aceitar o cargo de assessor internacional de imprensa de Nicolae Carpathia. Recebeu uma proposta que não podemos nem de longe cobrir, e, embora eu não ache prudente ou conveniente, ele acha que sim, e a vida é dele. O que você acha disso? Buck não conseguiu se conter. — Acho isso uma droga. Steve, aonde você quer chegar? Vai se mudar para a Romênia? — Meu centro de operação vai ser aqui, Buck. No Plaza. — Beleza. Steve, esse cargo não serve para você. Você não é um relações-públicas. — Carpathia não é um lıd́ er polıt́ ico comum. Diga-me se não esteve aos pés dele, badalando-o, na segunda-feira. — Estive, mas... — Mas coisa nenhuma. Esta é a oportunidade de toda uma vida. Buck meneou a cabeça. — Não posso acreditar. Sabia que Carpathia estava procurando alguém, mas... Steve riu. — Diga a verdade, Buck. Ele ofereceu a posição primeiro a você, não foi? — Não. — Ele me disse que sim. — Bem, ele não me convidou. Na realidade, recomendei Miller, do Mensário Beira-Mar. Plank encolheu-se e olhou rapidamente para Bailey. — É verdade? — Sim, por que não? Ele faz mais o tipo. — Buck — esclareceu Steve -, o corpo de Eric Miller desapareceu na Staten Island ontem à noite. Ele caiu da balsa durante a travessia e se afogou. — Bem — disse Bailey sumariamente -, chega de notıć ias desagradáveis. Steve recomendou você para substituí-lo. Buck ainda estava tentando absorver a notícia sobre Miller, mas ouviu a proposta. — Oh! por favor — disse -, o senhor não está falando sério. — Vocênão deseja ocupar esse cargo? — perguntou Bailey. -Moldar a revista, determinar a cobertura, continuar escrevendo suas grandes reportagens? Claro que sim. Nessa posição, seu salário será quase dobrado, e, se isto é o que pode fazê-lo concordar, eu lhe garanto. — Não é isso — disse Buck. — Sou muito jovem para preencher essa função agora. — Se você acreditasse nisso, não seria tão bom em sua função atual. — Sim, mas este é o sentimento da equipe. — O que há com essa gente? — bradou Bailey. — Eles acham que sou muito velho e que Steve é complacente. Outros acham que ele é muito exigente. Esse pessoal reclamaria até mesmo de um santo. Você me entende. Então, como ficamos? — Eu nunca poderia substituir Steve, senhor. Sinto muito. O pessoal pode ter se queixado, mas sabia que ele era o homem certo nessa posição. — E assim seria você. — Mas eles nunca me dariam apoio. Estariam aqui me solapando e se queixando desde o primeiro dia. — Eu não permitiria isso. Agora, Buck, esta proposta não vai ϐicar sobre a mesa indefinidamente. Quero que você aceite para que eu possa fazer a comunicação imediatamente. Buck encolheu os ombros e olhou para o chão. — Posso ter um dia para pensar? — Vinte e quatro horas. Nesse ıń terim, não diga uma só palavra a quem quer que seja. Plank, alguém mais sabe sobre você? — Somente Marge. — Podemos conϐiar nela. Ela jamais dirá uma palavra. Tivemos um caso durante três anos, e ela nunca abriu a boca. Steve e Buck pareciam perplexos. — Bem — disse Bailey -, vocês nunca souberam de nada, certo? — Não — responderam em uníssono. — Viram como ela é urn "túmulo"? — disse Bailey, aguardando a reação dos dois. — Estou brincando, rapazes. Estou brincando! E ficou rindo enquanto eles saíam do escritório.

C A P Í T U L O 18

 BUCK acompanhou Steve a sua sala. — Você ouviu a notıć ia sobre aqueles dois malucos no Muro, das Lamentações? — perguntou Steve. — Não estou interessado nessa história — retrucou Buck. — Sim, ouvi, e não quero trabalhar nessa reportagem. O que isso representa? — Esta será sua função, Buck. Marge será sua secretária. — Você não pode pensar que eu queira seu lugar. De inıć io, não posso dar-me ao luxo de perder você, a única pessoa aqui com a cabeça no lugar. — Incluindo você? — Incluindo eu, principalmente. Você deve ter interferido na escolha de Bailey, para que ele pense que sou alguma coisa alem de um barril de pólvora em sua equipe. — Sua equipe. — Você acha que devo substituí-lo. — Não tenho dúvida. Não sugeri ninguém mais, e Bailey não tinha outros candidatos. — Ele teria os candidatos que quisesse, se apenas anunciasse a vaga. Quem não desejaria essa posição, exceto eu? — Se é uma posição invejável, por que você não quer? — Eu teria a sensação de estar sentado numa cadeira que é sua. — Então peça a sua própria cadeira. — Você sabe o que quero dizer, Steve. Não serei o mesmo sem você. Não sou o homem para o cargo. — Olhe a coisa por este lado, Buck. Se vocênão aceitar, não terá nenhuma idéia de quem vai ser seu novo chefe. Há alguém nesta equipe com quem você desejaria trabalhar? — Sim, você. — Impossıv́ el. Vou ϐicar aqui até amanhã. Agora, falando sério, você gostaria de ter Juan como chefe? — Você não o recomendaria. — Não vou recomendar ninguém além de você. Bem, se você não aceitar o cargo, vai selar seu destino. Vai acabar trabalhando para um colega que tem ressentimentos a seu respeito. Quantos trabalhos "quentes" você acha que ele vai atribuir a você? — Se eu for perseguido, vou ameaçar ir para a Time ou para outro lugar. Bailey não permitiria que isso acontecesse. — Se você recusar uma promoção, ele até pode fazer que isso aconteça. Dar as costas ao progresso não é um bom sinal em qualquer carreira. — Eu apenas quero escrever. — Diga-me sinceramente quantas vezes você pensou em cheϐiar este departamento editorial melhor do que eu. — Muitas. — Pois aqui está sua chance. — Bailey jamais iria tolerar que eu designasse a mim mesmo para as melhores reportagens. — Faça disso uma condição para aceitar. Se ele não gostar, a decisão será dele, não sua. Pela primeira vez, Buck permitiu que uma réstia de luz entrasse em sua mente no tocante à possibilidade de ocupar o posto de editor-executivo. — Ainda não consigo acreditar que vocêvai nos deixar para ser um assessor de imprensa, Steve. Mesmo que seja para • trabalhar com Nicolae Carpathia. — Você sabe o que está reservado para ele, Buck? — Um pouco. — Há um oceano de poder, inϐluência e dinheiro atrás dele, que vai colocá-lo no mais elevado posto mundial de poder tão rapidamente que fará a cabeça de muita gente girar. — Ouça o que diz seu coração. Você nasceu para ser jornalista. — Já ouvi, Buck. Eu não aceitaria trabalhar como assessor de imprensa nem para o presidente dos Estados Unidos nem para o secretário-geral da ONU. — Você acha que ele vai ser maior do que todos. — O mundo está pronto para Carpathia, Buck. Você esteve lá segunda-feira. Você viu. Você ouviu. Alguma vez conheceu alguém como ele? —Não. — E jamais conhecerá outro igual. Se você me perguntasse, eu diria que a Romênia é muito pequena para ele. A Europa é muito pequena para ele. A ONU é muito pequena para ele. — O que ele vai ser, Steve, rei do mundo? Steve riu. — Este não será o tıt́ ulo, mas não o menospreze. A melhor parte de tudo é que ele não está consciente de seu potencial. Ele não está à procura dessas funções. Elas foram oferecidas por causa de seu intelecto, seu poder, sua paixão. — Você sabe, naturalmente, que Stonagal está por trás dele. — Sei, claro. Mas ele brevemente vai suplantar Stonagal em inϐluência por causa de seu carisma. Stonagal não pode aparecer muito, por isso nunca terá as massas atrás dele. Quando Nicolae chegar ao poder, ele terá, em essência, jurisdição sobre Stonagal. — Não seria sensacional? — Sei que vai acontecer mais cedo do que alguém pode imaginar, Buck. — Exceto você, naturalmente. — EƵ exatamente o que sinto. Você sabe que sempre tive bons instintos. Estou certo de estar assistindo de perto a uma das maiores ascensões ao poder da história da humanidade. Talvez a maior de todas. E estarei lá ajudando a acontecer. — O que você acha dos meus instintos, Steve? Steve apertou os lábios. — Além de suas redações e reportagens, seus instintos são os que mais ambiciono. — Então ϐique tranqüilo. Meu sentimento, em essência, é o mesmo que o seu. E, embora não possa jamais ser assessor de imprensa de qualquer pessoa, chego a invejá-lo. Você está em posição privilegiada para desfrutar pelo resto da vida. Steve sorriu. — Vamos manter contato. Você sempre terá acesso, a mim e a Nicolae. — Não posso pretender mais do que isso. Marge interrompeu pelo interfone, sem antes dar o sinal. — Ligue sua TV agora, Steve, ou a TV de outra pessoa. Steve sorriu para Buck e ligou na estação mais importante. Ela estava transmitindo ao vivo de Jerusalém, onde dois homens tentaram atacar os pregadores no Muro das Lamentações. O repórter Dan Bennett aparecia na tela. "Foi uma confrontação muito feia e perigosa para aqueles dois que estão sendo chamados de profetas hereges, conhecidos como Moisés e Eli", relatou Bennett. "Sabemos seus nomes porque eles se referem um ao outro desta forma, mas não tivemos condições de localizar alguém que saiba alguma coisa mais sobre eles. Não conhecemos seus sobrenomes, nem suas cidades de origem, nem familiares ou amigos. Eles falam um de cada vez — ou pregam, como vocês preferirem — durante horas, continuando a aϐirmar que Jesus Cristo é o Messias. Eles proclamam repetidamente que os desaparecimentos ocorridos em todo o mundo na última semana, incluindo muitos aqui em Israel, evidenciam o Arrebatamento da Igreja de Cristo. "Um entrevistador perguntou-lhes por que eles não tinham desaparecido, se sabiam tanto. Um deles, Moisés, respondeu, e vou repetir aqui: 'De onde viemos e para onde vamos, vocês não podem saber.' Seu companheiro, aϐirmou: 'Na casa de meu Pai há muitas morada, aparentemente uma citação atribuída a Cristo no Novo Testamento." Steve e Buck trocaram olhares. "Cercados pelos zelotes, ou fanáticos, na maior parte do dia, os pregadores foram ϐinalmente atacados há poucos momentos por dois homens de aproximadamente 25 anos. Observe a gravação à medida que nossas câmeras focalizavam a ação. Vocês podem vê-los atrás da multidão, tentando abrir caminho. Ambos estão usando vestes longas com capuzes e barba. Vocês podem ver que eles exibem armas à medida que surgem no meio da multidão. "Um deles tem uma arma automática, como uma metralhadora curta, e o outro, um sabre-baioneta, que parece ler sido tirada de um riϐle militar israelense. O que está portando o sabre-baioneta coloca-se à frente, exibindo sua arma para Moisés. Eli, atrás de Moisés, dobra imediatamente os joelhos, o rosto voltado para o céu. Moisés pára de falar e simplesmente olha para o homem, que parece drogado. Ele ϐica estendido no solo enquanto o homem com a metralhadora aponta a arma para os pregadores e parece acionar o gatilho. "Não houve nenhum som de tiro quando a metralhadora foi acionada, e o agressor parece tropeçar em seu parceiro, ϐicando ambos inertes no chão. O grupo de espectadores afastou-se e correu para abrigar-se, mas olhem de novo com atenção enquanto voltamos as imagens. Aquele que está com a metralhadora parece ter caído espontaneamente, sem nenhuma ação visível. "Enquanto falamos, os dois agressores estão estendidos aos pés dos pregadores, que continuam a pregar. Espectadores ' irados exigem que os agressores sejam socorridos, e Moisés está falando em hebraico. Vamos ouvir e traduzir simultaneamente enquanto prosseguimos. "Ele está dizendo: 'Homens de Sião, carreguem seus mortos! Removam de nossa frente estes chacais que não têm poder sobre nós!' "Uns poucos da multidão se aproximam com esse propósito, enquanto os soldados israelenses se ajuntam na entrada que dá acesso ao Muro. Os zelotes acenam a eles para que se afastem. Eli está falando: 'Vocês que ajudam os caıd́ os não correm perigo, a menos que se oponham aos ungidos do Altıś simo, referindo-se aparentemente a si mesmo e ao seu companheiro. Os agressores estendidos no chão estão sendo virados de costas, e os que os socorrem estão chorando, gritando e afastando-se. 'Mortos! Ambos estão mortos!, exclamam eles, e agora a multidão parece desejar que os soldados entrem no recinto. Eles estão abrindo espaço para que os soldados avancem. Os soldados estão, naturalmente, fortemente armados. Se vão tentar prender os estranhos, não sabemos, mas, pelo que vimos, os dois pregadores nem atacaram nem se defenderam contra os homens estendidos no chão. "Moisés está novamente falando: 'Levem daqui seus mortos, mas não se aproximem de nós, diz o Senhor Deus dos Exércitos!' Isto ele disse com tal sonoridade e autoridade que os soldados rapidamente levaram os corpos embora. Voltaremos a dar qualquer notıć ia sobre os dois homens que tentaram atacar os pregadores aqui no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Neste momento, os pregadores continuam proclamando em voz alta: 'Jesus de Nazaré, nascido em Belém, Rei dos Judeus, o escolhido, regente de todas as nações.' "De Israel, falou Dan Bennet." Marge e mais alguns funcionários foram até a sala de Steve durante a transmissão. — Que dupla de doidos! — comentou alguém. — Qual das duplas? — perguntou Buck. — Você não vai dizer que os pregadores, quem quer que eles sejam, não os advertiram. — O que está acontecendo por lá? — outro perguntou. — Tudo o que sei — disse Buck — é que ali acontecem coisas que ninguém pode explicar. Steve ergueu as sobrancelhas. — Se você acredita no parto virginal de Maria, sabe que o que acabou de dizer é uma realidade há muitos séculos. Buck levantou-se. — Tenho de ir até o aeroporto Kennedy — disse. — O que você vai decidir a respeito do convite para a nova função? — Tenho 24 horas, lembra-se? — Não use todo esse tempo. Se você responder muito depressa, vai parecer ansioso; se demorar, indeciso. Buck sabia que Steve estava com a razão. Ele teria de aceitar a promoção para protegerse de outros pretendentes. Não queria ϐicar obcecado com isso o dia inteiro. Buck estava contente pela distração reconfortante de rever Hattie Durham. Sua única dúvida agora era se poderia reconhecê-la. Eles se conheceram sob circunstâncias extremamente traumáticas. Rayford e Chloe chegaram a Nova York poucos minutos depois do meio-dia de quarta-feira e foram diretamente ao Clube Pan-Continental para esperar por Hattie Durham. — Estou apostando que ela não vai aparecer — disse Chloe. — Por quê? — Porque, no lugar dela, eu não apareceria. — Você não é ela, graças a Deus. — Oh! não a diminua, papai. O que faz você sentir-se melhor que os outros? Rayford sentia-se horrıv́ el. Chloe estava certa. Por que deveria ele desvalorizar Hattie simplesmente por ela às vezes parecer incompreensıv́ el? Isso não o aborrecia quando ele a via somente como um passatempo fıś ico. E agora, só pelo fato de ela ter sido grosseira ao telefone e nunca ter conϐirmado seu último convite para se encontrarem hoje, ele a tinha qualiϐicado como menos desejável ou menos digna. — Não me sinto melhor que ninguém — admitiu ele. — Mas por que vocênão apareceria, se fosse ela? — Porque eu teria idéia do que você faria. Você irá dizer-lhe que não tem mais os mesmos sentimentos por ela, mas que agora se preocupa com a alma dela. — Você está fazendo com que isso pareça trivial. — Por que deveria impressioná-la dizendo que se preocupa com sua alma, quando ela pensa que você costumava interessar-se por ela como pessoa? — É exatamente isto, Chloe. Nunca estive interessado nela como pessoa. — Ela não sabe disso. Pelo fato de vocêter sido tão sério e cuidadoso, ela achava que você era melhor do que a maioria dos homens, que simplesmente seriam mais objetivos e agressivos. Estou certa de que ela se sente desconfortável a respeito de mamãe e, provavelmente, compreende que você está psicologicamente impedido de começar um novo relacionamento. Mas você não pode estragar o dia dessa moça atribuindo-lhe qualquer culpa. — Mas, de qualquer modo, foi culpa dela. — Não, não foi, papai. Ela estava disponıv́ el, e você não, apesar de ter sinalizado que era um homem livre. Neste tipo de jogo, hoje em dia, ambos têm chances iguais. Ele meneou a cabeça. — Talvez seja esta a razão por que nunca fui bom nesse jogo. — Estou contente, pela memória de mamãe, por você nunca ter sido. — Então, você acha que não devo deixá-la ressentida como está, ou falar com ela sobre Deus? — Você já a deixou ressentida, papai. Ela imaginou o que você ia dizer, e você o confirmou. É por este motivo que digo que ela não virá. Ela ainda está magoada. Provavelmente furiosa. — Oh! ela estava furiosa, tem razão. — Então o que faz você pensar que ela vai aceitar sua conversa fiada sobre o céu? — Não é conversa ϐiada! De qualquer modo, isso não prova que agora me preocupo com ela de um modo genuíno e decente? Chloe levantou-se para pegar um refrigerante. Quando voltou e sentou-se mais perto do pai, ela colocou a mão em seu ombro. — Não quero parecer uma sabichona — disse ela. — Sei que vocêtem mais que o dobro da minha idade, mas permita-me dar-lhe uma idéia de como uma mulher pensa, especialmente uma como Hattie. Está bem? — Sou todo ouvidos. — Ela tem algum antecedente religioso? — Creio que não. — Você nunca lhe perguntou? Ela nunca disse? — Nenhum de nós jamais deu atenção a esse assunto. — Você nunca se queixou a ela da obsessão de mamãe, como você às vezes fazia comigo? — Sim, cheguei a pensar nessa possibilidade. Naturalmente, estava tentando usar isso para provar que sua mãe e eu não estávamos nos entendendo. — Mas Hattie não disse alguma coisa sobre suas idéias a respeito de Deus? Rayford procurava se lembrar. — Você sabe, acho que ela disse alguma coisa como se estivesse apoiando as idéias de Irene ou se simpatizando com elas. — Isto faz sentido. Mesmo que tivesse desejado ϐicar entre vocês dois, ela queria estar segura de que você é quem ergueria uma parede entre você e mamãe, não ela. — Não estou entendendo. — De qualquer modo, este não é o ponto aonde quero chegar. O que estou querendo dizer é que vocênão pode esperar que alguém que nem sequer freqüenta igreja seja receptiva acerca do céu e de Deus. Eu estou encontrando diϐiculdade de lidar com esse assunto, apesar de amar você e saber que ele se tornou a coisa mais importante de sua vida. Você não pode pretender que ela tenha qualquer interesse, especialmente se isso for interpretado por ela como uma espécie de prêmio de consolação. — Por? — Por perder sua atenção. — Mas agora minha atenção é mais pura, mais genuína! — Para você, talvez. Para ela, isso vai se tornar muito menos atrativo do que a possibilidade de ter alguém que possa amá-la e estar presente em sua vida. — Isso é o que Deus vai fazer por ela. — Para você, estas palavras passaram a ser verdadeiras. Estou simplesmente lhe dizendo, papai, que ela não vai querer ouvi-las neste momento. — E se ela aparecer aqui? Não devo tocar no assunto? — Não sei. Se ela vier, pode signiϐicar que ela ainda está esperando que haja uma chance com você. Há? — Não. — Então você tem o dever de tornar isso claro. Mas não seja tão enfático, nem queira aproveitar esta oportunidade para vender a ela... — Pare de falar sobre minha fé como algo que estou querendo vender ou atirar a ela. — Perdão. Estou apenas tentando refletir como isso vai soar para ela. Agora Rayford não tinha nenhuma idéia sobre o que dizer ou fazer em relação a Hattie. Ele tinha receio de que sua ϐilha estivesse certa. O que Chloe acabara de dizer o fez ver com clareza o que se passava na mente dela. Bruce Barnes tinha dito a ele que em sua maioria as pessoas são cegas e surdas para a verdade até encontrá-la; agora ele entendia tudo. Como poderia ele contestar? Era exatamente o que tinha acontecido com ele. Hattie correu ao encontro de Buck quando ele chegou ao clube por volta das 11 horas. Sua expectativa de quaisquer possibilidades em relação a Hattie se dissiparam quando a primeira coisa que ela disse foi: — E então, vou encontrar-me com Nicolae Carpathia? Quando Buck prometera tentar apresentá-la a Nicolae, ele não tinha a intenção de levar adiante a idéia. Agora, depois de ouvir Steve exagerar a respeito da grandiosidade de Carpathia, ele considerava perda de tempo perguntar-lhe se podia apresentar uma amiga, uma fã. Ele ligou para o Dr. Rosenzweig. — Doutor, eu me sinto um tanto idiota por fazer-lhe este pedido, e talvez seja melhor o senhor dizer não, que ele está muito ocupado. Sei que ele está sobrecarregado e esta garota não é uma pessoa importante que ele precise conhecer. — É uma garota? — Bem, uma jovem. Ela é aeromoça. — Você quer que ele conheça uma aeromoça? Buck não sabia o que dizer. Essa reação era exatamente o que ele temia. Enquanto hesitava, ouviu Rosenzweig cobrir o fone com a mão e chamar por Carpathia. — Doutor, não! Não peça isso a ele! — gemeu Buck. Mas Rosenzweig pediu e retomou a conversa com Buck: — Nicolae diz que qualquer amigo seu é amigo dele. Ele dispõe de pouquıś simo tempo, apenas alguns minutos, agora, imediatamente. Buck e Hattie saıŕ am depressa em direção ao Plaza num táxi. Buck percebeu imediatamente quão desajeitado se sentia e quão envergonhado estava com esse incidente. Apesar da boa reputação que desfrutava com Rosenzweig e Carpathia como jornalista internacional, seu conceito ϐicaria para sempre manchado. Ele seria conhecido como o oportunista que arrastou uma fã para apertar a mão de Nicolae. Buck não conseguia esconder seu desconforto e, no elevador, ele disse sem pensar: — Ele realmente tem apenas um segundo, por isso não podemos nos alongar. Hattie olhou para ele. — Sei como lidar com pessoas importantes, você sabe — disse ela. — Eu muitas vezes as atendo nos vôos. — Claro que sei. — Quero dizer, você se sente embaraçado por minha causa ou... — Não é nada disso, Hattie. — Se você acha que não vou saber como me comportar... — Sinto muito. Estou apenas pensando na agenda dele. — Bem, neste momento estamos dentro de sua agenda, não estamos? Ele suspirou. — Suponho que sim. Por que, oh! por que eu me envolvo nessas coisas? No vestıb́ ulo, Hattie parou diante de um espelho e apurou sua imagem. Um guarda-costas abriu a porta, acenou para Buck e mediu Hattie da cabeça aos pés. Ela não deu atenção a ele e esticou o pescoço para localizar Carpathia. O Dr. Rosenzweig surgiu na sala de estar. — Cameron — disse ele -, venha até aqui, por favor. Buck desculpou-se com Hattie, que não parecia nem um pouco à vontade. Rosenzweig puxou-o de lado e sussurrou: — Nicolae quer saber se você pode falar com ele primeiro. Lá vou eu, pensou Buck, lançando a Hattie urn rápido olhar, como que se desculpando, e assinalando com o dedo para indicar que não demoraria. Carpathia vai pedir minha cabeça por tomar seu tempo. Ele encontrou Nicolae em pé a um metro do televisor assistindo ao noticiário. Seus braços estavam cruzados, o queixo apoiado numa das mãos. Ele olhou rapidamente para Buck, que esperava à porta, fazendo-lhe sinal para entrar. Buck fechou a porta, sentindo-se como um aluno do curso primário entrando na sala do diretor. Mas Nicolae não fez referência a Hattie. — Você viu o que está acontecendo em Jerusalém? — indagou. Buck sinalizou positivamente. — A coisa mais estranha que já vi. — Não para mim — retrucou Buck. — Não? — Eu estava em Tel-Aviv quando a Rússia atacou o paıś . Carpathia estava com os olhos pregados na tela enquanto a emissora reprisava as cenas do ataque contra os pregadores e a queda ao chão dos pretensos assassinos. — Sim — resmungou. — Deve ter sido algo parecido com isso. Algo inexplicável. Ataques cardíacos, dizem. — Como? — Os agressores morreram de ataque cardíaco. — Não estou sabendo. — Sim. E a metralhadora não foi disparada. Estava perfeita e com toda a carga de munição. Nicolae parecia aterrorizar-se diante das imagens. Ele continuou olhando enquanto falava. — Gostaria de saber sua reação à minha escolha do assessor de imprensa. — Fiquei atordoado. — Foi o que imaginei. Veja isto. Os pregadores em nenhum momento tocaram neles. Qual é a probabilidade? Eles estavam apavorados diante da morte, foi isso? A pergunta era retórica. Buck não respondeu. — Hã, hã, hã— exclamou Carpathia -, é sem dúvida muito estranho. Acredito que Plank pode desempenhar bem seu novo trabalho, concorda? — Certamente. Espero que o senhor saiba que mutilou o Semanário. — Ah! Eu o fortaleci. Que melhor meio de ter a pessoa que desejo no topo? Buck estremeceu, aliviando-se quando Carpathia finalmente desviou a atenção da TV. — Isto me faz sentir exatamente como Jonathan Stonagal manobrando pessoas e posições — disse Carpathia, rindo, e Buck ficou satisfeito ao notar que ele estava brincando. — O senhor soube o que aconteceu a Eric Miller? — perguntou Buck. — Seu amigo do Mensário Beira-Mar? Não. O quê? — Afogou-se na noite passada. Carpathia mostrou-se chocado. — Não me diga! Que coisa terrível! — Ouça, Sr. Carpathia. — Buck, por favor. Queira chamar-me de Nicolae. — Não sei se me sentiria à vontade chamando-o desse modo. Eu queria desculpar-me por trazer esta jovem para conhecê-lo. Ela é apenas uma aeromoça, e... — Ninguém é insigniϐicante — disse ele, segurando o braço de Buck. — Todos têm o mesmo valor, independentemente de sua posição. Carpathia conduziu Buck até a porta, insistindo em que ele a apresentasse. Hattie foi moderada e reservada, embora tenha dado uma risadinha quando ele a beijou em ambas as faces. Ele fez perguntas sobre ela, sua famıĺia, seu trabalho. Buck indagava-se se Carpathia tinha feito algum curso sobre como fazer amigos e influenciar pessoas. — Cameron — sussurrou o Dr. Rosenzweig. — Telefone. Buck atendeu em outra sala. Era Marge. — Imaginei que vocêpudesse estar aı́— disse ela. — Acabo de receber um telefonema de Carolyn Miller, esposa de Eric. Ela está muito transtornada e quer falar com você. — Não posso ligar para ela daqui, Marge. — Bem, telefone para ela logo que tiver um minuto. — O que está acontecendo? — Não tenho nenhuma idéia, mas ela parecia estar desesperada. Aqui está o número do telefone. Quando Buck reapareceu, Carpathia e Hattie despediam-se. Ele beijou-lhe a mão. — Estou encantado — disse ele. — Obrigado, Sr. Williams. E Srta. Durham, será um prazer para mim se nossos caminhos se cruzarem novamente. Buck a conduziu para fora e notou que ela estava tomada de emoção. — Ele é uma pessoa diferente, hein? — disse ele. — Ele me deu seu número de telefone! — disse ela, com voz estridente. — O número de seu telefone? Hattie mostrou a Buck o cartão de visita que Nicolae tinha dado a ela. Lá estava seu tıt́ ulo como presidente da República da Romênia, mas seu endereço não era o de Bucareste, como seria de esperar. Era do Hotel Plaza, número da suıt́ e, telefone, etc. Buck ϐicou sem fala. Carpathia tinha escrito a lápis outro número de telefone, não do Plaza, mas também de Nova York. Buck memorizou o número. — Podemos comer alguma coisa no Clube Pan-Continental -disse Hattie. — Eu na verdade não quero ver esse piloto, mas penso que vou encontrá-lo, somente para me vangloriar de ter conhecido pessoalmente Nicolae. — Oh! agora é Nicolae, hein? — controlava-se Buck, ainda agitado e confuso por causa do cartão de visita de Carpathia. -Tentando deixar alguém enciumado? — Mais ou menos — disse ela. — Dê-me um minutinho, por favor — disse Buck -, preciso dar um telefonema antes de retornarmos. Hattie esperou no saguão enquanto Buck se desviava de pessoas que lotavam todo o espaço até encontrar uma cabina telefônica disponıv́ el e ligar para Carolyn Miller. Ela parecia arrasada, como se tivesse chorado por muito tempo e sem dormir, o que deveria ser verdade. — Oh! Sr. Williams, agradeço seu telefonema. — Pois não, senhora, sinto muito sua perda. Eu... — Está lembrado de que nos conhecemos? — Desculpe-me. Por favor, ajude-me a lembrar. — No iate presidencial, no verão de dois anos atrás. — Ah! sim, certamente! Perdoe-me. — Sr. Williams, meu marido telefonou-me na noite passada, antes de entrar na balsa. Ele me disse que tinha em vista uma grande reportagem no Plaza quando se encontrou com o senhor. — É verdade. — Ele me contou uma história maluca a respeito de uma briga que teve com o senhor ou algo parecido sobre uma entrevista com esse presidente romeno que falou na... — EƵ verdade também. Não foi nada sério. Apenas um desentendimento. Não ϐicou nenhum ressentimento. — Foi o que entendi. Mas essa foi a última conversa que tive com ele, e isso está me deixando louca. O senhor sabe como estava fria a noite passada? — Um frio cortante, como me recordo — disse Buck, confuso com a brusca mudança de assunto. — Frio, senhor. Muito frio para estar do lado de fora da balsa, o senhor não acha? — Sim, madame. — E mesmo que estivesse do lado de fora, ele era um bom nadador. Foi campeão na escola secundária. — Com todo o respeito, madame, mas isso deve ter sido... o que... uns trinta anos atrás? — Mas ele era ainda bom nadador. Acredite em mim. Eu sei. — O que está querendo dizer, Sra. Miller? — Não sei! — exclamou ela, chorando. — Eu apenas tinha esperança de que o senhor pudesse esclarecer alguma coisa. Quero dizer, ele caiu da balsa e se afogou? Isso não faz sentido! — Para mim também não, madame, e gostaria de poder ajudar. Mas não posso. — Eu sei — disse ela. — Eu estava apenas com esperança de que pudesse. — Madame, alguém está com a senhora, cuidando da senhora? — Sim, estou amparada. Minha família está aqui. — Estarei com meus pensamentos voltados para a senhora. — Obrigada. Buck avistou Hattie quieta, séria, pensativa. Ela parecia bastante paciente. Ele ligou para um amigo da companhia telefônica. — Alex! Faça-me um favor. Vocêainda pode informar a quem pertence um telefone, se eu lhe der o número? — Contanto que não diga a ninguém mais, vou consultar. — Você me conhece, homem. — Diga o número. Buck recitou o número que havia guardado na memória ao ver o cartão de visita que Carpathia dera a Hattie. Alex voltou com a informação em poucos segundos, lendo os dados na tela do computador. — Nova York, ONU, escritórios administrativos, escritório do secretário-geral, não listado, linha conϐidencial, fora do painel de comando das telefonistas e da mesa da secretária. Está bem? — Ótimo, Alex. Fico lhe devendo mais esta. Buck estava perdido. Ele não conseguia fazer com que as coisas encaixassem. Correu até Hattie. — Vou precisar de mais um minuto — disse a ela. — Você se incomoda? — Não. Desde que eu possa estar de volta às 13 horas. Sem levar em conta o tempo que o piloto pode esperar. Ele veio com sua filha. Buck retornou à cabina telefônica, contente por não ter interesse em competir com Carpathia ou com esse piloto para, ganhar o afeto de Hattie Durham. Ele telefonou para Steve. Marge atendeu, e Buck falou rapidamente com ela. — Ei, sou eu. Preciso falar com Plank imediatamente. — Bem, tenha um bom dia — disse ela, e em seguida pôs Steve na linha. — Steve — disse Buck apressado -, seu garoto acaba de cometer seu primeiro erro. — Do que você está falando, Buck? — Seu primeiro trabalho deverá ser anunciar Carpathia como o novo secretário-geral? Silêncio. — Steve? E então? — Você é um bom repórter, Buck. O melhor. Como isso vazou? Buck falou-lhe do cartão de visita. — Caramba! Isso não parece ser coisa de Nicolae. Não posso imaginar que tenha sido um descuido. Deve ter sido intencional. — Talvez ele esteja supondo que essa senhorita Durham seja bastante astuta para não se apressar — disse Buck — ou que ela não me mostraria o cartão. Mas como ele sabe que ela não vai ligar para esse número logo de cara e procurar por ele? — Contanto que ela espere até amanhã, Buck, tudo bem. — Amanhã? — Você não pode utilizar esta informação, entendeu? Você não está gravando, está? — Steve! A quem você pensa que vou falar sobre isto? Você já está trabalhando para Carpathia? Você ainda é meu chefe. Se você não quiser que eu faça alguma coisa, basta me dizer. Lembra-se? — Bem, vou lhe contar. O deserto Kalahari compreende uma parte importante de Botsuana, de onde o secretário-geral Ngumo é oriundo. Ele retorna a seu paıś amanhã como herói, tendo se tornado o primeiro líder a ter acesso à fórmula do fertilizante israelense. — E como ele pôde fazer isso? — Por sua brilhante diplomacia. — E ele não pode pretender cuidar dos deveres da ONU e de seu paıś ao mesmo tempo durante este momento estratégico importante na história de Botsuana, certo, Steve? — E por que deveria, quando alguém está tão perfeitamente preparado para assumir a posição? Nós estivemos lá segunda-feira, Buck. Quem vai se opor a isso? — Você não vai? — Acho que foi uma jogada de mestre. — Você vai ser um perfeito assessor de imprensa, Steve. E eu decidi aceitar seu velho posto. — Bom para você! Agora, você vai ficar de bico calado até amanhã, entendido? — Prometo. Mas você pode me dizer uma coisa mais? — Se eu puder, Buck. — Em que Eric Miller estava metido? Ou que golpe ele estava farejando? A voz de Steve ficou mais fraca, num tom quase sussurrado. — Tudo o que sei sobre Eric Miller — disse — é que ele chegou muito perto do parapeito da balsa da companhia de navegação Staten Island.

C A P Í T U L O 19

 Rayford observava Chloe enquanto ela caminhava descuidada pelo Clube Pan-Continental e, em seguida, olhou através da vidraça. Ele sentia-se um inútil. Durante dias, tinha dito a si mesmo para não forçá-la, não fatigá-la. Ele a conhecia. Ela era como ele; escaparia para outro lado, se ele insistisse muito. Chloe havia até mesmo tentado persuadi-lo a afastar-se de Hattie Durham, se ela aparecesse. O que havia com ele? Nada era como antes nem seria de novo. Se Bruce Barnes estivesse certo, o desaparecimento do povo de Deus tinha sido apenas o começo do perıó do mais cataclísmico da história do mundo. E aqui estou eu, refletia Rayford, preocupado em melindrar as pessoas. Serei responsável por "não melindrar" minha filha e ela acabar se perdendo. Rayford sentia-se desconfortável também por ter se aproximado tanto de Hattie. Ele teve de reconhecer o próprio erro por cobiçá-la e lamentava tê-la enganado ou fazê-la sonhar. Mas ele também não podia mais tratá-la com luvas de pelica. O que mais o atemorizava era que transparecia, segundo aquilo que Bruce estava ensinando, que muitas pessoas seriam enganadas durante esses dias. Quem quer que se apresentasse proclamando paz e união teria de ser considerado suspeito. Não haveria paz. Não haveria união. Este momento era o começo do ϐim, e tudo seria o caos dali por diante. O caos faria com que os paciϐicadores e oradores de fala mansa fossem apenas mais atraentes. E, àqueles que não quisessem admitir que Deus estava por trás dos desaparecimentos, qualquer outra explicação lhes daria uma consciência tranqüila. Não havia mais tempo para conversas amenas, para convencimento brando. Rayford tinha de levar as pessoas a conhecerem a Bıb́ lia e seus ensinos proféticos. Ele se sentia muito limitado em seus conhecimentos. Tinha sido sempre um leitor erudito, mas este assunto de Apocalipse, Daniel e Ezequiel era novo e estranho para ele. Espantosamente, aquilo fazia sentido. Ele havia começado a levar a Bıb́ lia de Irene a todos os lugares aonde ia, lendo-a sempre que possıv́ el. Enquanto o co-piloto lia revistas nas horas de folga, Rayford pegava sua Bíblia e lia atentamente. — O que está havendo? — perguntaram-lhe mais de uma vez. Sem nenhuma vergonha ou constrangimento, ele dizia que estava procurando respostas e orientação que não tivera antes. Mas e quanto à sua filha e sua amiga? Ele tinha sido muito cortês. Rayford olhou o relógio. Faltavam ainda alguns minutos para as 13 horas. Seus olhos cruzaram com os de Chloe à distância, e ele fez um sinal de que ia dar um telefonema. Ligou para Bruce Barnes e contou-lhe o que estava pensando. — Você está certo, Rayford. Também estive reϐletindo sobre isso há alguns dias, preocupado com o que as pessoas pensariam de mim, não desejando que ninguém ϐicasse indiferente. Isto não faz mais sentido, não é? — Não, não faz. Bruce, preciso de apoio. Vou começar a ser detestável, infelizmente. Se Chloe quiser caçoar ou procurar outro rumo, vou forçá-la a tomar uma decisão. Ela terá de saber exatamente o que está fazendo. Terá de enfrentar o que encontramos na Bıb́ lia, reϐletir e resolver isso de vez. Quero dizer, somente os dois pregadores em Israel são suϐicientes para darme a confiança de que essas coisas estão acontecendo exatamente como a Bíblia diz. — Você teve oportunidade de ver o noticiário hoje de manhã? — Vi de passagem aqui no terminal. Eles continuam reprisando o ataque. — Rayford, veja o que está passando na TV agora mesmo. — O quê? — Vou desligar, Ray. Veja o que aconteceu aos agressores e se isso não conϐirma todas as coisas que lemos sobre as duas testemunhas. — Bruce... — Vá procurar uma TV, Rayford. E comece a testemunhar por si mesmo, com conϐiança total. Bruce desligou abruptamente. Rayford o conhecia suϐicientemente bem, apesar de seu breve relacionamento, para entender que a reação do pastor deveria deixá-lo intrigado, e não ofendido. Ele correu para a frente de um televisor e ϐicou atordoado ao ouvir o relato da morte dos dois agressores. Tirou da maleta a Bıb́ lia de Irene e leu a passagem de Apocalipse, da qual Bruce tinha falado. Os homens em Jerusalém eram as duas testemunhas, pregando o evangelho de Cristo. Foram atacados e não precisaram sequer reagir. Os agressores caıŕ am mortos, e nenhum mal aconteceu às testemunhas. Naquele momento, Rayford observava pela TV a multidão se aproximando e se amontoando na área em frente ao Muro das Lamentações para ouvir as testemunhas. As pessoas se ajoelhavam, choravam, algumas com o rosto em terra. Eram essas as mesmas pessoas que antes acharam que os pregadores estavam profanando o lugar santo. Agora pareciam acreditar no que as testemunhas diziam. Ou era somente por medo? Rayford sabia mais do que isso. Sabia que os primeiros dos 144 mil judeus evangelistas estavam se convertendo a Cristo diante dos espectadores. Sem tirar os olhos da tela, ele orou em silêncio: Senhor, enche-me de coragem, de poder, de tudo quanto preciso para ser uma testemunha. Não quero nunca mais sentir medo ou dúvida. Não quero esperar mais. Não quero preocupar-me se estou ou não ofendendo as pessoas. Dá-me a capacidade de persuasão enraizada em tua Palavra. Sei que é o teu Espírito que fala aos corações das pessoas, mas usa-me. Quero ser usado na conversão de Chloe. Quero ser um instrumento para a conversão de Hattie. Por favor, Senhor, ajuda-me. Buck Williams sentia-se nu sem a sua valise de repórter. Ele estaria pronto para trabalhar somente quando tivesse seu telefone celular, seu gravador e seu novo laptop. Ele pediu ao taxista que parasse em frente ao prédio do Semanário Global, para que pudesse apanhar sua valise. Hattie ϐicou esperando no táxi, mas preveniu-o de que não gostaria de perder seu encontro no aeroporto. Buck lhe disse de fora do táxi que demoraria apenas um minuto. — Entendi que você não estava interessada em encontrar esse cara. — Bem, mas agora estou, entendeu? Seja por desforra ou mágoa ou o que quer que seja, não é sempre que a gente pode dizer a um capitão-aviador que conheceu alguém que ele não conhece. — Você está falando de Nicolae Carpathia ou de mim? — Que engraçadinho! De qualquer modo, ele conheceu você. — Você está falando do capitão-aviador daquele vôo em que nos conhecemos? — Sim... agora, ande depressa! — Talvez eu queira encontrá-lo. —Vá! Buck ligou para Marge da recepção. — Você poderia pegar minha valise e encontrar-me no elevador? Tenho um táxi me esperando aqui. — Está bem — disse ela -, mas tanto Steve como o velho cavalheiro estão esperando por você. E agora? Ele se perguntou. Buck olhou para o relógio, desejando que o elevador fosse mais rápido. Assim é a vida nos arranha-céus. Ele recebeu a valise das mãos de Marge, foi rapidamente à sala de Steve e perguntou: — O que há de novo? Estou com pressa. — O chefão quer vê-lo. — Qual é o assunto? — perguntou Buck, enquanto caminhavam pelo corredor. — Eric Miller, imagino. Talvez mais. Vocêsabe que Bailey não se abalou com meu pedido de demissão. Ele só concordou porque pensou que você agarraria a promoção com unhas e dentes e por você conhecer tudo o que se passa aqui e o que está sendo planejado para as próximas semanas. No escritório de Bailey, o chefe foi direto ao ponto. — Quero fazer algumas perguntas incisivas a vocês dois e ouvir respostas diretas e rápidas. Muitos assuntos estão surgindo precisamente agora, e devemos estar à frente de cada um deles. Antes de mais nada, Plank, correm rumores de que Mwangati Ngumo está convocando a imprensa no ϐinal desta tarde, e todo mundo acha que ele vai renunciar ao cargo de secretáriogeral. — É mesmo? — perguntou Plank. — Não se faça de bobo comigo — resmungou Bailey. — Não é preciso ser um gênio para imaginar o que está acontecendo aqui. Se ele estiver se afastando, seu novo chefe sabe disso. Vocêse esquece de que eu dirigia o departamento africano quando Botsuana se tornou membro associado do Mercado Comum Europeu. Jonathan Stonagal tinha as mãos em cima disso tudo, e todo mundo sabe que ele é um dos anjos protetores de Carpathia. Qual é a relação? Buck notou a palidez no rosto de Plank. Bailey sabia mais do que os dois esperavam. Pela primeira vez em anos, Steve pareceu nervoso, quase em pânico. — Vou contar a você o que sei — disse Steve, mas Buck imaginava que havia mais coisa que ele não contaria. -Minha primeira tarefa amanhãcedo será negar o interesse de Carpathia pelo cargo. Ele vai dizer que tem muitas idéias revolucionárias e que insiste em aprovação quase unânime da parte dos membros atuais. Eles terão de concordar com suas idéias de reorganização, de mudança de prioridades, e outras coisas mais. —Quais? — Não tenho liberdade de... Bailey levantou-se. Seu rosto estava vermelho. — Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Plank. Gosto de você. Você tem sido a meu ver uma superestrela. Vendi sua imagem aos outros diretores quando ninguém reconhecia suas qualiϐicações. Você me vendeu a imagem deste principiante aqui, e ele nos pareceu bom em tudo. Paguei a você salários de seis dıǵ itos, mesmo antes de vocêmerecê-los, porque sabia que urn dia isso valeria a pena. E valeu. Agora, estou lhe dizendo que nada do que você revelar aqui vai passar destas paredes, por isso não quero que você esconda nada de mim. — Vocês, meninos, pensam que, porque estou há dois ou três anos ausente do campo, já não tenho mais meus contatos, não tenho meu ouvido encostado ao chão. Bem, deixem-me dizer-lhes, meu telefone não pára de tocar desde que vocês saıŕ am daqui esta manhã, dando-me a impressão de que algo grandioso está para acontecer. O que é? — Quem ligou para o senhor? — perguntou Plank. — Bem, logo de inıć io, recebi um telefonema de uma pessoa que conhece o vicepresidente da Romênia. Foi pedido a ele que se preparasse para dirigir os assuntos do dia-a-dia daquele paıś por um perıó do indeterminado. Ele não vai se tornar o novo presidente, porque o paıś acaba de eleger um, mas isso indica, a meu ver, que Carpathia espera ϐicar aqui por um bom tempo. — Depois, pessoas que conheço na AƵfrica me disseram que Ngumo levou vantagem sobre os demais e conseguiu acesso à fórmula de Israel, mas ele não está muito feliz porque o acordo requer seu afastamento da ONU. Ele vai deixar o cargo, mas haverá problemas se tudo não correr conforme prometido. — Em seguida, recebi uma ligação do diretor de redação do Mensário Beira-Mar querendo extrair de mim por que você, Cameron, e aquele sujeito que se afogou na noite passada estavam trabalhando na mesma matéria sobre Carpathia e se eu acho que você também vai morrer misteriosamente. Respondi que, até onde eu sabia, você estava trabalhando numa reportagem de capa sobre Carpathia e que estávamos convictos de seu sucesso. Ele disse que seu funcionário pretendia usar um método ligeiramente diferente, ou seja, enquanto os outros estivessem trabalhando de um lado, ele trabalharia do outro. Miller estava escrevendo um artigo sobre o signiϐicado dos desaparecimentos, o mesmo assunto que vocêplanejava publicar daqui a uma ou duas semanas. Que ligação isso tem com Carpathia e por que o rapaz foi apagado, não sei. Você sabe? Buck meneou a cabeça. — Vejo os dois casos como peças totalmente diferentes. Perguntei a Carpathia o que ele pensava dos desaparecimentos, e todos ouviram a resposta. Eu não sabia em que Miller estava trabalhando, nem imaginava que ele pudesse de algum modo estar ligando Carpathia com os desaparecimentos. Bailey sentou-se. — Para dizer a verdade, logo que recebi o telefonema do diretor do Mensário, imaginei que ele estivesse telefonando para obter referências sobre você, Cameron. E ϐiquei pensando: se eu perder esses dois "metidos" na mesma semana, vou antecipar minha aposentadoria. Podemos resolver aquele assunto antes que Plank me diga o que mais ele sabe? — Que assunto? — perguntou Buck. — Você está pensando em sair? —Não. — Está aceitando a promoção? — Estou. — Ótimo! Agora, Steve. Que mais Carpathia pretende antes de aceitar o posto na ONU? Plank hesitou parecendo estar considerando se devia dizer o que sabia. — Vocême deve esta resposta — disse Bailey. — Não tenho a intenção de usá-la. Desejo apenas saber. Cameron e eu temos de decidir qual reportagem entrará primeiro em pauta. Quero que ele tome conta daquela que mais me interessa, aquela sobre o que existe por trás dos desaparecimentos. Penso, às vezes, que nos tornamos muito arrogantes como revista noticiosa e nos esquecemos de que há pessoas morrendo de medo querendo encontrar uma explicação para tudo isso. Steve, você pode conϐiar em mim. Já lhe disse que não vou contar nada a ninguém nem comprometê-lo. Apenas me diga o que sabe. O que pretende Carpathia? Ele vai aceitar esse cargo? Steve apertou os lábios e começou a falar com relutância. — Ele quer organizar um novo Conselho de Segurança, que incluirá algumas de suas idéias para embaixadores. — Como Todd-Cothran da Inglaterra? — perguntou Buck. — Provavelmente, mas por tempo limitado. Ele não está totalmente satisfeito com esse relacionamento, como você deve saber. Buck repentinamente percebeu que Steve estava a par de tudo. — E? — pressionou Bailey. — Carpathia quer que Ngumo insista que será ele quem o substituirá, com o voto da grande maioria dos representantes, e duas outras coisas que, francamente, não acredito que ele consiga. Militarmente, ele quer um compromisso de desarmamento dos paıś es membros, a destruição de 90% de seus arsenais de guerra e a doação dos 10% remanescentes para a ONU. — Com o propósito de manter a paz — disse Bailey. — Parece ingênuo, mas tem lógica. Você está certo, ele provavelmente não vai conseguir isso. Que mais? — Talvez o ponto mais controvertido e menos provável. A logıśtica por si é incrıv́ el, o custo, o... tudo. — O quê? — Ele quer transferir a ONU. — Transferir? Steve meneou a cabeça num gesto de afirmação; — Para onde? — Parece estúpido. — Todas as coisas parecem estúpidas nestes dias — disse — Bailey. — Ele quer transferi-la para Babilônia. — Você não está falando sério. — Ele está. — Ouvi dizer que a cidade está sendo reconstruıd́ a há anos. Milhões de dólares investidos para transformá-la em quê? Na Nova Babilônia? — Bilhões. — Você acha que alguém vai concordar com isso? — Depende do apoio que ele receber — Steve riu furtivamente. — Ele estará hoje no Show da Noite. — Ele vai ficar mais popular do que nunca! — E está se reunindo neste momento com os dirigentes de todos os grupos internacionais que estão na cidade para outros encontros. — O que ele quer com eles? — O assunto continua confidencial, certo? — perguntou Steve. — Claro. — Ele está pedindo apoio para os objetivos que deseja atingir. O tratado de sete anos de paz com Israel em troca de sua habilidade como intermediário da fórmula do fertilizante para o deserto. A mudança para a Nova Babilônia. O estabelecimento de uma religião única para o mundo, provavelmente com sede na Itália. — Ele não vai conseguir grande coisas com os judeus nessa questão. — Os judeus são uma exceção. Ele vai ajudá-los a reconstruir o templo durante os anos em que vigorar o tratado de paz. Ele acha que os judeus merecem um tratamento especial. — E eles merecem mesmo — reforçou Bailey. — O homem é brilhante. Nunca vi alguém com idéias tão revolucionárias e que agisse tão depressa. — Vocês não estão um tanto inseguros a respeito desse homem? — perguntou Buck. — Parece-me que as pessoas que chegam muito perto acabam eliminadas. — Inseguros? — perguntou Bailey. — Bem, acho que ele é um pouco ingênuo, e eu ϐicaria muito surpreso se ele conseguisse tudo o que está pretendendo. Mas, por outro lado, é um polıt́ ico. Ele não vai impor sua vontade como se fosse um ultimato, e pode ainda aceitar a posição mesmo que não obtenha tudo o que deseja. Pode parecer que ele tratou Ngumo sem consideração, mas penso que ele tem em mente os melhores interesses para favorecer Botsuana. Carpathia será melhor que Ngumo como executivo da ONU. E ele está certo. Se o que aconteceu em Israel acontecer em Botsuana, Ngumo precisa ϐicar perto de casa para administrar a prosperidade. Inseguro? Não. Estou tão impressionado com o homem tanto quanto vocês dois. Ele é o que precisamos neste momento. Não há nada errado em buscar união e convergência num tempo de crise. — E quanto a Eric Miller? — Buck quis saber. — Acho que estão dando muito destaque a essa história. Não sabemos se sua morte foi simplesmente o que pareceu e apenas coincidiu com o desentendimento entre vocês sobre a entrevista com Carpathia. De qualquer modo, Carpathia não sabia o que Miller queria, sabia? — Acho que não — respondeu Buck, mas ele notou que Steve não abriu a boca. A voz de Marge foi ouvida no interfone. — Cameron, há um recado urgente de Hattie Durham. Ela diz que não pode mais esperar. — Oh! não — disse Buck. — Marge, peça-lhe mil desculpas. Diga-lhe que tive uma reunião inesperada e que vou ligar para ela ou dar um jeito de encontrá-la mais tarde. Bailey demonstrou aborrecimento. — É isso o que posso esperar de você no horário de trabalho, Cameron? — Na verdade, apresentei-a a Carpathia esta manhãe quero que ela me apresente a um capitão de uma companhia aérea que está na cidade hoje, com o propósito de cobrir parte daquela reportagem sobre o que as pessoas pensam que aconteceu na última semana. — Não vou questionar sobre isso, Cameron — disse Bailey. — Vamos apresentar a grande reportagem de Carpathia na próxima edição e depois prosseguir com as teorias a respeito dos desaparecimentos. Se você me perguntar, essa poderia ser a reportagem mais comentada que já ϐizemos. Penso que vamos bater a Time e todas as demais com nossa cobertura do evento. A propósito, gostei da sua matéria. Não sei se vamos ter alguma coisa realmente nova ou diferente sobre Carpathia, mas precisamos dar a esse importante assunto o melhor que pudermos. Francamente, gosto da sua idéia de apresentar todas as teorias. Você deve incluir a sua. — Gostaria de ter uma — disse Buck. — Estou em dúvida como todo mundo. O que estou descobrindo, entretanto, é que as pessoas que têm uma teoria acreditam nela obstinadamente. — Bem, tenho a minha — disse Bailey. E é quase fantástico como ela se aproxima e se encaixa no assunto Carpathia, Rosenzweig ou qualquer outro. Tenho parentes que acreditam nessa história dos alienıǵ enas do espaço. Tenho um tio que acha que foi Jesus, mas ele também acha que Jesus se esqueceu dele. Ah! Penso que foi um acontecimento natural, algum tipo de fenômeno em que toda nossa alta tecnologia interagiu com as forças da natureza. Na verdade, nós mesmos não temos uma idéia mágica a este respeito. Agora, vamos lá, Cameron. Qual é a sua posição neste caso? — Estou na posição perfeita para o meu trabalho jornalıśtico — disse ele. — Não tenho a mínima idéia. — O que as pessoas estão dizendo? — O habitual. Um médico no aeroporto O'Hare me disse que estava certo de que se tratava do Arrebatamento. Outras pessoas têm dito o mesmo. O senhor sabe que a chefe do nosso escritório em Chicago... — Lucinda Washington? Está na hora de você providenciar alguém para preencher sua vaga. Você deve ir lá, estudar o terreno, fazer contatos. Mas você estava dizendo...? — O filho de Lucinda acredita que ela e o restante da família foram levados para o céu. — Então, como ele foi deixado para trás? — Não sei explicar — respondeu Buck. — Alguns cristãos são melhores do que outros ou algo assim. Este é um dos mistérios que vou procurar esclarecer antes de encerrar a reportagem. Esta aeromoça que acabou de ligar... não estou certo do que ela pensa, mas o piloto com quem ela vai se encontrar hoje contou-lhe que tem uma explicação. — Um piloto de aviação — Bailey repetiu. — Seria interessante. Contanto que sua idéia não seja a mesma de outros cientistas. Bem, prossiga com seu trabalho. Steve, vamos fazer o anúncio hoje. Desejo-lhe boa sorte, e não se preocupe. Nada do que foi dito aqui será publicado na revista, a menos que possamos obter as informações de outras fontes. Estamos concordes com isso, não estamos, Williams? — Sim, senhor — confirmou Buck. Steve não parecia tão certo disso. Buck correu até o elevador e ligou para a o serviço de informações para obter o número do Clube Pan-Continental. Ele pediu que contatassem Hattie por meio de seu pager, mas, como não puderam localizá-la, ele supôs que ela ainda não havia chegado ou tinha saıd́ o com seu amigo capitão-aviador. Buck deixou um recado para que ela ligasse para o seu celular e, em seguida, pegou um táxi e dirigiu-se ao clube. na expectativa de encontrá-la. Sua mente estava zumbindo. Ele concordava com Stanton Bailey de que a grande reportagem era o que estava por trás dos desaparecimentos, mas agora também estava começando a suspeitar de Nicolae Carpathia. Talvez não devesse considerá-lo suspeito. Talvez devesse concentrar a atenção em Jonathan Stonagal. Carpathia devia ser bastante esperto para perceber que sua ascensão ao poder ajudaria Stonagal a ser desleal com seus concorrentes. No entanto, Carpathia tinha aϐiançado que iria "negociar" com ambos, Stonagal e Todd-Cothran, sabendo perfeitamente que eles estavam por trás de negócios ilícitos. Isto fazia de Carpathia um inocente? Buck sinceramente esperava que sim. Ele nunca desejou conϐiar tanto numa pessoa. Nos últimos dias, desde os desaparecimentos, ele raramente teve um segundo para pensar em si mesmo. A perda de sua cunhada, sobrinho e sobrinha pesava em seu coração quase constantemente e algo o levava a indagar se não havia alguma verdade nesta história do Arrebatamento. Se alguém neste mundo tinha de ser levado para o céu, eles eram bons candidatos. Mas Buck sabia mais do que isso. Ele foi educado nas escolas da Ivy League. Deixou de freqüentar a igreja depois de conseguir livrar-se da repressão familiar que ameaçava levá-lo à loucura em sua juventude. Ele nunca se considerou religioso, embora orasse de vez em quando pedindo ajuda e livramento. Havia construıd́ o sua vida em torno de desaϐios, empolgações e — ele não podia negar — realizações pessoais. Gostava do status que alcançara por ter seu nome mencionado no inıć io de cada artigo ou reportagem, dos temas que desenvolvia ou redigia, de suas idéias publicadas por uma revista de âmbito nacional. Contudo, havia momentos de solidão em sua vida, especialmente agora com a saıd́ a de Steve. Buck havia namorado e considerado a possibilidade de um relacionamento sério, mas sempre se achou muito instável para uma mulher que desejasse estabilidade. Desde o evento claramente sobrenatural que havia testemunhado em Israel, com a destruição da força aérea russa, ele sabia que o mundo estava mudando. As coisas nunca mais seriam as mesmas de antes. Ele não estava aceitando a teoria dos desaparecimentos praticados por seres alienıǵ enas do espaço, e, embora essa teoria pudesse muito bem ser atribuıd́ a a alguma incrıv́ el reação energética cósmica, quem ou o que estava por trás disso? O incidente no Muro das Lamentações era outro inexplicável indício do sobrenatural. Buck estava mais intrigado com os "porquês" da história, como ele gostava de pensar, do que com o surgimento de Nicolae Carpathia. Fascinado que estava pelo homem, Buck esperava, acima de tudo, que ele não fosse outro polıt́ ico frustrante. Ele era o melhor dentre os que já tinha visto, mas a morte de Dirk, de Alan, de Eric e a ameaça sofrida por ele mesmo seriam totalmente alheias a Carpathia? Ele esperava que sim. Desejava acreditar numa pessoa que surge uma só vez em cada geração que pudesse compreender os anseios do mundo. Poderia Carpathia ser outro Lincoln, Roosevelt ou Kennedy? Por impulso, enquanto o táxi tentava furar o incrıv́ el tráfego na região do aeroporto JFK, Buck ligou o modem do laptop em seu telefone celular e chamou à tela um serviço noticioso. Procurou rapidamente os trabalhos principais de Eric Miller nos últimos dois anos e ϐicou atordoado ao descobrir que ele tinha escrito sobre a reconstrução e progresso da Babilônia. O tıt́ ulo da série de Miller era "Nova Babilônia, o UƵltimo Sonho de Stonagal". Uma rápida olhada no artigo mostrou que a maior parte do ϐinanciamento vinha dos bancos de Stonagal espalhados pelo mundo. E naturalmente havia uma citação atribuıd́ a a Stonagal: "Apenas coincidência. Não tenho idéia dos pormenores dos financiamentos concedidos por nossas várias instituições." Buck percebeu que o ponto determinante de Nicolae Carpathia nada tinha a ver com Mwangati Ngumo ou Israel, ou mesmo com o novo Conselho de Segurança. No entender de Buck, a prova deϐinitiva para Carpathia era o que ele faria em relação a Jonathan Stonagal, uma vez empossado como secretário-geral da ONU. Porque, se os demais membros da ONU se submetessem às condições de Nicolae, ele se tornaria, do dia para a noite, o lıd́ er mais poderoso do mundo. Ele teria a capacidade de impor seus desejos militarmente, se cada membro se desarmasse e a ONU se tornasse todo-poderosa. O mundo ϐicaria desesperado pela ação de um lıd́ er em quem conϐiara implicitamente ao concordar com tal sistema. E o único lıd́ er digno do manto do poder seria aquele que jamais toleraria um assassino que forjava mortes nos bastidores, como Jonathan Stonagal.

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