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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 75

UM ANO E UM DIA


Escritor de fantasia, Scott Lynch é mais conhecido por sua série Nobres vigaristas, sobre um ladrão e um golpista em um perigoso mundo fantástico, composta pelos livros As mentiras de Locke Lamora, que foi finalista tanto do prêmio World Fantasy quanto do British Fantasy Society, Mares de sangue e República de ladrões. Também escreve um livro on-line chamado Queen of the Iron Sands no site www.scottlynch.us. Mora em New Richmond, Wisconsin, mas passa vários meses do ano em Massachusetts com sua esposa, a escritora de fantasia e ficção científica Elizabeth Bear. Neste conto ele nos leva a uma cidade despedaçada por uma guerra entre magos e sob ataque de magias mortais que caem dos céus, na qual um grupo desesperado de ladrões e fora da lei deve roubar algo impossível de ser roubado — e estão com pouco tempo para fazê-lo antes de terem que abrir mão de suas vidas.


1. Clima de mago

Estava chovendo quando Amarelle Parathis saiu logo após o pôr do sol para conseguir uma bebida, e havia uma magia estranha na chuva. Ela caía em tons pálidos de lavanda e cobre e vermelho, linhas suaves como um crepúsculo líquido, que se transformava em uma névoa luminescente na calçada morna. O ar em si parecia com bolhas de champanhe estourando contra a pele. Além das formas escuras dos telhados ao longe, estouravam raios azuis esbranquiçados e trovões retumbantes logo os seguiam. Amarelle podia jurar que tinha ouvido gritos misturados aos trovões. Os malditos magos estavam fazendo aquilo de novo. Bem, ela estava com sede e tinha um compromisso, e uma chuva esquisita não era nem de longe a pior coisa que já tinha caído nela vinda dos céus acima de Theradane. Enquanto andava, Amarelle pingava cores cintilantes que não tinham nome. Atravessou um caminho fantasmagórico através da névoa, que flutuava, como se fosse a escuridão no fundo de um oceano, em tons de rosa e laranja. Como sempre acontecia quando os magos ficavam particularmente maus, não tinha muita companhia. A rua dos Eruditos Pálidos estava deserta. Comerciantes olhavam desamparados para fora pelas janelas de suas lojas na avenida dos Sete Ângulos. Esse já tinha sido o seu tipo de noite favorito. Clima pesado para afastar as testemunhas das ruas. Trovões para encobrir o barulho de pés se arrastando pelos telhados. Agora era apenas solitária, imprevisível e perigosa. Um arco duplo de luzes prateadas marcava a ponte do canal Emaranhasa, a última entre ela e o seu destino. As luzes queimavam dentro de lâmpadas que eram sustentadas por estátuas de mármore branco algemadas e encapuzadas, marcadas pela chuva. Amarelle manteve os olhos fixos nos próprios pés enquanto cruzava a ponte. Ela sabia quais eram as placas abaixo das estátuas sem precisar pensar. As duas primeiras da esquerda, por exemplo: BOLAR KUSS TRAIDOR AGORA EU SIRVO A THERADANE PARA SEMPRE CAMIRA THOLAR ASSASSINA AGORA EU SIRVO A THERADANE PARA SEMPRE As estátuas em si não a incomodavam, nem mesmo as luzes. E daí que a cidade iluminava algumas de suas ruas e pontes com as almas inconfessas dos condenados, ligados para sempre a esculturas melodramáticas com placas idiotas? Não, o problema era o que aqueles espíritos inquietos sussurravam para os pedestres. Olhe para mim, coração pulsante, e testemunhe o preço que pago por meus juramentos quebrados. — Vá se foder, Bolar — resmungou Amarelle. — Eu não estou conspirando para derrubar o Parlamento do Conflito. Seja prudente, enquanto seu sangue ainda é quente, e observe o preço eterno da minha ganância e chacina! — Eu não tenho uma família para envenenar, Camira. Amarelle, murmurou a última estátua à esquerda, deveria ser você aqui em cima, sua puta desleal. Amarelle encarou a última inscrição exatamente do jeito que prometia a si mesma que não faria toda vez que passava por ali. SCAVIUS DA RUA DA SOMBRA LADRÃO AGORA EU SIRVO A THERADANE PARA SEMPRE — Eu nunca virei as costas para você — Amarelle sussurrou. — Eu paguei pelo santuário. Todos nós pagamos. Nós lhe imploramos que saísse do jogo com a gente, mas você não ouviu. Você estragou tudo. Você se curvou aos meus assassinos antes mesmo que meu corpo estivesse frio. — Todos nós compramos um pequeno pedaço da cidade, Scav. Esse era o plano. Você só fez do jeito mais difícil. Algum dia você vai dividir esta vigília comigo. — Parei com essas coisas. Ilumine a sua ponte e me deixe em paz. Não existia isso de ter uma conversa razoável com os mortos. Amarelle continuou a andar. Ela só vinha para esses lados quando queria uma bebida e sempre saía da ponte precisando de pelo menos duas. Trovões rolavam pelo estreito das ruas. Um prédio pegava fogo em algum lugar a leste, ardendo em um roxo artificial. Bandos de criaturas guinchantes com asas de morcego enchiam os céus entre as chamas e as nuvens baixas e reluzentes. Algumas delas se emaranhavam e lutavam, com garras nuas e lanças farpadas e jarras de barro com névoa explosiva. O objetivo das criaturas era conhecido apenas pelos deuses e feiticeiros. Malditos fossem os magos e suas rixas estúpidas. Infelizmente eles controlavam a cidade. Infelizmente Amarelle precisava da proteção deles. 

2. A barriga mobiliada da besta 

A Marca do Fogo Caído ficava no lado oeste da rua Emaranhasa. Era, mais exatamente, todo o lado oeste da rua Emaranhasa. Não havia lugar para mais nada além da catedral de ossos em espiral que tinha sido derrubada quinze séculos antes, na época em que dragões selvagens de vez em quando se ofendiam com o crescimento de Theradane e então a visitavam. Esse dragão tinha se acomodado de uma maneira tão artística quando morreu que algum empreendedor já esquecido tinha arrancado sua carne e suas escamas e montado um teto nos ossos duros como o aço ali mesmo onde caíram. Amarelle entrou pela boca do dragão, sacudiu a chuva laranja queimado de seu cabelo e observou uma fumaça luminosa se erguer do carpete onde os pingos caíram. Todos os leões de chácara que estavam recostados nas presas serrilhadas de dois metros e meio de altura acenaram para ela. A taverna tinha portas onde o dragão um dia tivera amídalas. Aquelas portas podiam sentir o cheiro de bons pagadores e se abriram suavemente para ela. O Pescoço era para refeições e o Rabo para apostas. Os Braços ofereciam quartos para dormir ou para não dormir, como os inquilinos preferissem. O negócio de Amarelle era na Goela, a caverna de bebidas sob as costelas e a coluna da besta morta, onde milhares de garrafas brilhavam em prateleiras e suportes atrás do bar principal. Grask Garra Dourada, o gerente do local, era um goblin com escamas cor de ébano em um terno elegante tecido com cédulas legítimas do Banco de Theradane. Ele tinha um de cada tipo para cada noite da semana. Hoje estava usando o de notas de cinquenta. — Amarelle Parathis, a Duquesa Invisível — gritou. — Eu consigo enxergá-la muito bem! — Essa com certeza nunca fica velha, Grask. — Hoje vou contar os copos e a prataria depois que você for embora. — Eu estou aposentada e amando — disse Amarelle. Ela tinha feito três trabalhos na Marca do Fogo Caído em seus dias na ativa. Certamente nenhum pela prataria. — A Sophara está no bar hoje? — É claro — disse Grask. —Hoje é dia 17. A mesma noite no mês em que o seu grupinho sempre se reúne e finge que foi só por acidente. Quer dizer, aqueles de vocês que não estão iluminando as ruas. Amarelle o fuzilou com o olhar. O goblin se aproximou, estendeu a mão, pegou a mão direita dela e beijou seu punho, arrependido. — Desculpe-me — disse ele —, eu não pretendia me comportar como um babaca. Sabe, você pagou a sua cota, é um cordeiro honesto vivendo sob o bombardeio, como o resto de nós. Olhe, Sophara está acenando. Beba uma por minha conta. Sophara Miris tinha olhos de cores diferentes e a pele da cor da árvore pau-rosa, um belo cabelo verde-azulado e as mãos de uma ladra de rua profissional. Quando pagou sua cota do santuário para o Parlamento do Conflito, era procurada por 312 crimes distintos em dezoito cidades. Hoje em dia era a mixologista-maga sênior da Marca do Fogo Caído e já estava com o primeiro drinque de Amarelle quase pronto. — Boa noite, sumida. Sophara rabiscou pedidos em um papel e o entregou para um dos curadores das bebidas, cujo conhecimento enciclopédico dos conteúdos e dos lugares de todas as garrafas mantinha o bar funcionando. — Você se lembra de quando éramos pessoas interessantes? — Eu acho que estar viva e em liberdade é interessante pra cacete — disse Amarelle. — A sua esposa está planejando aparecer por aqui hoje? — A qualquer momento — disse Sophara, despejando porções iguais de licor e ilusão em uma mistura de várias camadas. — O homem próspero está guardando uma cabine para nós. Estou te preparando um Ascensão e Queda dos Impérios, mas ouvi o Grask. Quer dois destes? Ou algum outro? — Você faria um Perigo no Mar para mim? — perguntou Amarelle. — Às suas ordens. Por que você não vai sentar? Eu vou para lá quando as bebidas estiverem prontas. Centenas de cabines e balcões suspensos preenchiam a Goela, cada um afastado cuidadosamente do outro e todos envoltos por cortinas para dar uma sensação de privacidade em meio ao grande espetáculo. Relâmpagos, visíveis através das claraboias entre as costelas, crepitavam acima deles enquanto Amarelle atravessava o andar. Seu pessoal tinha um lugar de costume para a sua noite habitual, e Shraplin estava guardando a mesa. Próspero Shraplin, uma concatenação de fios e engrenagens que zumbia baixinho, vestia um manto vermelho gasto com bordados em fios de prata. Seu rosto esculpido de latão tinha olhos de gemas pretas e a sombra permanente de um sorriso. Um antigo burro de carga de fundição, ele tinha tirado vantagem da velha lei de Theradane que dizia que um autômato consciente era dono de sua própria cabeça e dos pensamentos dentro dela. Durante quinze anos ele roubou cuidadosamente engrenagens e parafusos e ferrolhos e fios e pouco a pouco substituiu cada parte de si da cabeça para baixo, até que nenhum pedacinho de seu corpo original tivesse permanecido, e assim ele pôde se liberar do contrato mágico perpétuo a que estava ligado. Foi pouco depois disso que ele encontrou suas almas ladras gêmeas no grupo de Amarelle Parathis. — Está molhada, hein, chefe? — disse. — O que é que está caindo lá fora? — Água esquisita — disse Amarelle, sentando-se ao lado dele. — Bonita, até. E não me chame de chefe. — Alguns padrões ficam gravados nos meus discos ruminantes, chefe. — Shraplin derramou um pouco de lodo preto viscoso de um copo para uma entrada em seu pescoço. — O Parlamento está realmente agitado hoje. Quando cheguei aqui, estava caindo fogo roxo nos Desertos Altos. — Essa é uma vantagem de viver na nossa próspera taumatocracia — disse Amarelle, e suspirou. — Sempre tem algo interessante explodindo por perto. Ei, aqui estão nossas garotas. Sophara Miris tinha uma mão embaixo da bandeja de bebidas e a outra em volta da cintura de Brandwin Miris. Brandwin tinha uma pele de lavanda congelada que não era efeito de nenhuma magia e óculos em âmbar sobre olhos dourados. Brandwin, armeira, artesã e médica de autômatos, tivera a pena de morte decretada em três principados por fornecer os equipamentos que permitiram que o grupo da Duquesa Invisível escapasse com frequência de tediosas situações complicadas com os sistemas judiciários locais. A única coisa que ela tinha roubado pessoalmente na vida toda era o coração da ilusionista do grupo. — Shraplin, meu boneco — disse Brandwin. Tocou as pontas dos dedos nas do autômato antes de sentar. —Válvulas vivas e canos desentupidos? — Prontos para lutar e livres de ferrugem — respondeu Shraplin. — E os seus próprios processos e necessidades metabólicas? — Estão bem atendidos — disse Sophara com um sorriso afetado. — Podemos começar este encontro da Sociedade de Comiseração e Embriaguez dos Parceiros Aposentados? Aqui está algo indiferente e sanguíneo para você, Shraplin. Ela lhe entregou outro copo da gosma preta. O homem artificial não tinha nenhum uso para álcool, então mantinha atrás do bar uma reserva particular de temperamentos humanos destilados magicamente em laca de asfalto. — Um Lâmpadas Negras dos Olhos Dela para mim — disse Sophara. — Um Torre do Elefante para a linda artesã. E para você, Vossa Graça, um Perigo no Mar e um Ascensão e Queda dos Impérios. Amarelle ergueu o último, um copo grosso contendo nove camadas de licores tingidos de rosa, cada camada contendo uma paisagem que se movia. Elas variavam de colinas e campos não cultivados no fundo para grandes cidades nas camadas do meio, até um deserto assolado pela ruína na borda, com nuvens de espuma no topo. — Alguém sabe da Jade? — perguntou. — O mesmo de sempre — disse Shraplin. — Manda lembranças e pede que não esperem acordados por ela. — Lembranças e que não a esperemos acordados — resmungou Amarelle. Olhou em volta da mesa, viu olhos que não combinavam uns com os outros e olhos sombrios e pedras negras e frias fixos nela em expectativa. Como sempre. Que seja, então. Ela levantou seu copo, e eles fizeram o mesmo. — Um brinde — disse. — Nós conseguimos e estamos vivos. Nós nos colocamos na prisão para não irmos para a prisão. Para os amigos ausentes, que foram para onde nenhum de nossos tesouros ou palavras pode recompensá-los. Nós conseguimos e estamos vivos. Para as correntes que recusamos e aquelas que nos capturaram mesmo assim. Nós conseguimos e estamos vivos. Ela virou a bebida de uma vez, derramando camadas de história espumante pela sua garganta. Normalmente não fazia esse tipo de coisa a si mesma sem um jantar para amortecer o impacto, mas, que diabos, parecia que ia ser uma daquelas noites. Relâmpagos brilharam sobre as claraboias. — Você tomou algumas no caminho para cá, chefe? — perguntou Shraplin. — A Duquesa está morta — disse Amarelle, baixando seu copo vazio com firmeza. — Longa vida à Duquesa. Agora, eu tenho que passar por aquele teatrinho de pegar as minhas cartas e distribuí-las ou todos vocês preferem só empilhar seu dinheiro organizadamente no centro da mesa para mim? — Ah, querida — disse Brandwin. — Nós não vamos usar o seu baralho. Ele sabe mais truques que um cachorro treinado. — Eu vou me sabotar — disse Amarelle. Ergueu o Perigo no Mar, admirou as ondas verde-azuladas com uma crista espumosa por cima e em dois goles adicionou-o à bola de calor que estava se espalhando rápido por seu estômago. — Aí está um tipo de magia que posso admirar. Então, nós vamos jogar cartas ou ficar brincando de ver quem pisca primeiro? A próxima rodada é por minha conta! 

3. Mãos de trapaça 

– A próxima rodada é por minha conta — disse Amarelle uma hora e meia depois. A mesa estava uma bagunça de cartas, cédulas e copos vazios. — A próxima rodada está em você, chefe — disse Shraplin. — Você está três bebidas na frente do resto. — Parece justo. Que diabos eu acabei de beber, aliás? — Uma coisinha que eu chamo de Instrumento Amoral — respondeu Sophara. Seus olhos estavam brilhando. — Eu não posso fazê-lo para os fregueses. Na verdade, estou até curiosa para ver o que acontece com você. — Não fez nem cócegas — disse Amarelle, apesar de a sala ter mais bordas enevoadas do que lembrava e de suas cartas não estarem cooperando muito com seu plano de não deixá-las cair. — Isto está uma bagunça. Uma bagunça! Shraplin, você provavelmente está meio sóbrio. Quantas cartas existem em um baralho padrão? — Sessenta, chefe. — Quantas cartas estão visíveis agora em nossas mãos e na mesa? — Setenta e oito. — Isto é ridículo — disse Amarelle. — Quem não está roubando? A gente deveria estar chegando a noventa. Quem não está roubando? — Eu declaro solenemente que não tive uma mão honesta desde que começamos — disse Brandwin. — Ilusionista — respondeu Sophara, batendo com as cartas contra seu peito. — Isso já diz tudo. — Eu estou usando as minhas mãos de trapaça, chefe — disse Shraplin. Ele balançou seus dedos em arcos prateados e embaçados. — Isso é triste. — Amarelle pôs a mão atrás de sua orelha esquerda, conjurou uma septuagésima nona carta de seus cachos pretos e a adicionou ao monte na mesa. — Nós estamos mesmo ficando velhos e decrépitos. Relâmpagos vermelhos rasgaram o céu, pintando o cômodo em vibrações cinzaesbranquiçadas. Um trovão explodiu logo acima de suas cabeças. As claraboias chacoalharam em suas estruturas e até mesmo as grandes vigas de osso pareceram balançar. Alguns dos outros clientes se mexeram e resmungaram. — Esses magos que se fodam — disse Amarelle. — Com exceção dos que estão comigo agora, é claro. — Por que eu abriria uma exceção para os que estão aqui? — disse Brandwin, passando os dedos pelos cabelos de Sophara e adicionando graciosamente com a outra mão uma octogésima carta na mesa. — Tem sido horrível a semana inteira. Acho que é a Ivovandas nos Desertos Altos. Ela e algum rival que eu não identifiquei, cuspindo fogo e chuva e arremessando coisas por todo o maldito lugar. Os vendedores de guarda-chuvas têm feito sucesso com os novos modelos de couro e de malha metálica. — Alguém tem que dar um passeio até lá e pedir educadamente a eles para darem um tempo. — A cabeça brilhante de Shraplin girou devagar até que ele estivesse fitando Amarelle. —Talvez alguém famoso. Alguém empolgado e respeitado. Alguém com uma reputação perigosa. — Melhor não dizer nada e acharem que você é um tolo — disse Amarelle — do que interferir nos assuntos dos magos e fazê-los ter certeza. Quem precisa de outra rodada? A próxima ainda é por minha conta. De qualquer maneira, eu planejo ter todo o dinheiro de vocês quando dermos a noite por encerrada. 

4. O problema dos tetos de vidro

O s trovões e relâmpagos continuaram intensos pelas próximas horas. Coisas que ganiam e batiam asas quicavam no telhado de tempos em tempos. Metade dos clientes da Goela tinha ido embora, seguidos pela tentativa de persuasão de Grask Garra Dourada. — A Marca do Fogo Caído está firme há quinze séculos! — gritou ele. — Este é o lugar mais seguro de Theradane! Você realmente quer estar na rua em uma noite destas? Já conhece os nossos bons quartos nos Braços? Houve um som agudo de vidro sendo quebrado. Algo grande e molhado e morto acertou o chão perto do bar, seguido de uma cascata de fragmentos da claraboia e chuva brilhante. Grask gritou chamando um mago da casa para desfazer a bagunça enquanto o êxodo de clientes se tornava mais rápido à sua volta. — Ahhh, é tão bom não estar de serviço. Sophara bebericou sem firmeza de uma caneca com algo azul e simples. O bar a tinha impedido de lançar seus próprios feitiços nas bebidas. — Sabe — disse Amarelle, devagar —, talvez alguém realmente devesse ir lá nos Desertos Altos e dizer para aquela puta velha enfeitiçada colocar uma coleira nos bichinhos dela. O salão, através de seus olhos, tinha ficado cada vez mais e mais fora de foco à medida que a noite passava e agora definitivamente tinha evoluído para uma fase impressionista. Grask Garra Dourada era uma mancha brilhante perseguindo outras manchas brilhantes pelo andar, e até mesmo as cartas na mesa não estavam ficando paradas por tempo suficiente para Amarelle saber os seus valores. — Ei — disse ela —, Sophara, você é uma cidadã com boa posição social. Por que a gente não faz de você um membro do Parlamento para poder fazer esses idiotas pararem? — Ah, brilhante! Bem, primeiro eu teria que roubar ou inventar uma poção da juventude realmente boa — disse a ilusionista —, algo melhor que a de três-anos-em-cinco na qual estou trabalhando agora, para poder evoluir no meu treinamento por um século ou dois. Você pode achar que esse período é um pouco inconveniente para os seus objetivos. — E então você precisaria encontrar um lócus externo de poder para aumentar suas forças — completou Brandwin. — Sim — respondeu Sophara —, e colhê-lo sem nenhum outro mago do tipo perigoso perceber. Ah, e eu também teria que ficar completamente insana! Você tem que ser um maníaco obsessivo com a alma corrompida para querer passar a sua vida estendido trocando socos com outros maníacos. Ao alcançar aquele tipo de poder, não dá para sair do carrossel. Você luta para cacete só para se manter ou é mandado embora. — Splaft! — completou Brandwin. — Não é como eu imagino um parque de diversões — disse Sophara, terminando sua bebida e batendo com o copo na mesa para dar ênfase. No momento seguinte houve um estrondo horrendo de algo se quebrando. Meia tonelada de alguma coisa com asas negras e pelos emaranhados fedidos e molhados pela chuva mergulhou através da claraboia diretamente acima deles e destruiu a mesa. Um borrão confuso de movimento e barulho seguiu o estrondo e Amarelle se viu no chão com uma leve dor entre seus seios. Alguma parte obediente e teimosa da sua consciência abriu caminho até a superfície do oceano alcoólico na mente dela e se agitou em desespero até conseguir entender a sequência verdadeira de eventos que aconteceu. Shraplin, é claro — o ágil autômato a empurrara para o lado antes de pular sobre a mesa para livrar Sophara e Brandwin do perigo. — Ei — disse Amarelle, sentando-se —, você não está nem um pouco bêbado! — Fazia parte da minha trapaça, chefe. O autômato quase tinha sido rápido o bastante, quase mesmo. Sophara e Brandwin estavam a salvo, mas a perna dele ficara presa por baixo da criatura caída e da mesa. — Ah, mas você é mesmo o melhor de todos os autômatos! Seu pobre pé! — Brandwin engatinhou até ele e beijou o topo da sua cabeça de latão. — Eu tenho três de reserva em casa — disse Shraplin. — Agora já deu — resmungou Amarelle, oscilando e se pondo de pé. — Ninguém joga uma maldita gárgula nos meus amigos! — Eu acho que é um byakhee — comentou Brandwin, cutucando a besta. Ela tinha asas com membranas e uma lança saindo do que talvez tivesse sido seu pescoço. Cheirava a queijo velho lavado junto com gangrena e orvalho de cemitério. — Acho que é um vorpilax, querida — respondeu Sophara. Cambaleante, ela ajudou a esposa a puxar Shraplin de baixo da coisa. — Preste atenção na simetria bilateral. — Não importa o que seja — disse Amarelle, atrapalhando-se com seu comprido casaco preto. — Ninguém joga um desses na minha mesa de baralho ou no meu pessoal. Eu vou descobrir onde essa Ivovandas mora e falar umas poucas e boas para ela. — A pressa cria cadáveres, chefe — disse Shraplin, sacudindo bobinas e engenhocas dos restos do seu pé. — Eu só estava brincando com você mais cedo. — Malditos magos estúpidos assassinos do comércio! — Grask Garra Dourada tinha finalmente chegado, com um bando de garçons e barmen logo atrás. — Sophara! Você está ferida? E o resto de vocês? Shraplin! Isso parece caro! Me diga que não é caro! — Eu posso ser restaurado e obter um funcionamento excelente bem rápido — disse Shraplin. — Mas e se eu sugerisse que hoje é uma noite excelente para você rasgar a nossa conta? — Eu, hã, bem, se isso não vai colocá-los em perigo — respondeu o goblin, orientando garçons com panos para a poça crescente de água de chuva de cores pastel e sangue mágico cinza embaixo da besta. — Se resolver nos ofertar as bebidas — observou Sophara —, então não é roubo, e nenhum de nós quebra as regras de nosso santuário. E Shraplin está certo, Amarelle. Você não pode simplesmente reclamar com um membro do Parlamento do Conflito! Mesmo se você conseguisse atravessar os Desertos Altos no meio desta bagunça... — É claro que eu consigo — disse Amarelle, endireitando a coluna e, depois de alguns alarmes falsos, alinhando mais ou menos os ombros. — Eu não sou uma turista com músculos de maria-mole. Sou a Duquesa Invisível! Eu roubei o som do amanhecer e as lágrimas de um tubarão. Eu peguei um livro emprestado da biblioteca de Hazar e não o devolvi. Eu atravessei o Labirinto das Aranhas da Morte em Moraska DUAS VEZES... — Eu sei — disse Sophara —, eu estava lá. — ... e aí voltei e roubei todas as aranhas da morte! — Isso foi dez anos e muitas bebidas fortes atrás — comentou Sophara. — Vamos lá, minha querida, eu mesma misturei a maioria das bebidas. Não nos assuste desse jeito, Amarelle. Você está bêbada e aposentada. Vá para casa. — Essa coisa fedorenta podia ter matado todos nós — continuou Amarelle. — Bem, graças a um pouco de sorte e muito Shraplin, ela não matou. Vamos lá, Amarelle. Prometa para nós que você não vai fazer nada estúpido hoje. Você promete? 5. Tirando todas as dúvidas Os Desertos Altos, a leste da rua Emaranhasa, estavam livres de seus habitantes e cheios de surpresas desagradáveis da batalha em andamento. Amarelle se manteve abrigada, movendose da sombra de um arco para um muro de plantas, para um batente escondido, tropeçando com frequência. O mundo tinha um frágil aspecto líquido, escorrendo pelas beiradas e girando em eixos traiçoeiros. Ela não estava bêbada o bastante para esquecer que tinha que tomar muito cuidado e estava bêbada demais para perceber que deveria estar fugindo de volta pelo caminho que tinha percorrido. Os Desertos Altos já tinha sido um bairro de mansões, jardins maravilhosos e fontes públicas, mas a chegada da maga Ivovandas fez com que os antigos habitantes arrumassem as malas. As discussões do Parlamento do Conflito tinham aberto buracos nos paralelepípedos, quebrado e secado as fontes e destruído as mansões como casinhas de brinquedo desprezadas. O fogo roxo de antes ainda estava ardendo em uma alta estrutura de madeira e pedra arruinada. Amarelle contornou os rios de chumbo derretido que corriam pelas ruas e um dia haviam sido o teto da construção. Não foi difícil achar a mansão de Ivovandas, a única estrutura iluminada e bem cuidada do bairro, protegida por paredes lisas, ideogramas brilhantes e cercas vivas farfalhantes de cor verde-avermelhada com os esqueletos de vários pássaros e pequenos animais espalhados pela vegetação rasteira. Um caminho de pedras de alabastro conectadas, brilhando com luz própria, seguia por cerca de quarenta metros cheios de curvas até a porta principal dourada. Conveniente. Aquilo garantia um perímetro de segurança. Os gritos das coisas voadoras horrorosas lá no alto faziam com que fosse muito mais difícil se concentrar, mas Amarelle usou três décadas de experiência no caminho de pedras e não se decepcionou. Quatro armadilhas nas pedras ela evitou por intuição, e duas por uma ridícula sorte de bêbado. A inversão da direção da gravidade era um truque que já tinha visto antes. Deu uma pirueta (desajeitada) através da área perigosa e a magia a arremessou de cabeça no chão em vez de enviá-la descontroladamente para o céu. Ela nem chegou a sentir o chamado brilhante das esculturas de sapos de bom gosto no gramado, já que estava embriagada demais para fitá-los nos olhos e ativar seu efeito. Quando chegou à porta principal, a superfície dourada se agitou como uma poça derretida e um braço esculpido surgiu segurando uma aldrava circular. Amarelle retirou um bastão retrátil de seu casaco e usou-o para bater a aldrava contra a porta enquanto se mantinha fora do caminho. Houve um breve momento de silêncio depois que os dardos sibilaram através do espaço vazio, e então uma voz explodiu: — QUEM VEM À PORTA DA SUPREMA CRIADORA DE FEITIÇOS IVOVANDAS DO HONRADO PARLAMENTO DE THERADANE SEM SER CONVIDADO? FALE, VERME! — Eu não me ofendo com portas falando merda — disse Amarelle. — Estou agraciando sua senhora com a cortesia de uma batida na porta. Avise-a que uma cidadã de Theradane está aqui para dar a ela uma opinião franca e livre de censuras sobre como a mira dela é horrorosa. — SUA ATITUDE É COMPREENSÍVEL E MESMO ASSIM INTEIRAMENTE OFENSIVA. AGORA AROS DE FORÇA ELETRODINÂMICA SERÃO APLICADOS AOS LOBOS DO SEU CÉREBRO ATÉ QUE ELES VIREM UMA POLPA INCANDESCENTE. PARA RECEBER ESTE PRONUNCIAMENTO NA FORMA DE PICTOGRAMAS UNIVERSAIS, GRITE UMA VEZ. PARA SOLICITAR UM APAGÃO SENSORIAL EM UMA VELOCIDADE MAIOR, GRITE DUAS VEZES E AGUARDE PARA VER O QUE ACONTECE. — O meu nome é Amarelle Parathis, também conhecida como a Duquesa Invisível. As disputas estúpidas da sua senhora estão transformando uma boa e antiga cidade em uma fazenda de sacos de merda miseráveis e arruinando meus carteados. Você vai se abrir ou vou ter que achar uma janela? — AMARELLE PARATHIS — disse a porta. Um momento se passou. — SEU NOME NÃO É DESCONHECIDO. VOCÊ ADQUIRIU SANTUÁRIO DO PARLAMENTO DE THERADANE DOIS ANOS E QUATRO MESES ATRÁS. — Muito bem, porta! — disse Amarelle. — A SENHORA IRÁ RECEBÊ-LA. A mão esculpida que segurava a aldrava se retirou para dentro da superfície líquida da porta. Uma dúzia de outras mãos explodiu para fora, agarrando Amarelle pela garganta, braços, pernas e cabelos. Elas a ergueram do chão e puxaram-na para dentro da agitada superfície dourada, que se solidificou um instante depois e não deixou nenhum sinal de sua passagem. 6. O armário das mãos douradas Amarelle acordou, confortável, mas despida de todas as suas armas e vestindo o robe de seda de outra pessoa. Estava em um cômodo sem portas, em cima de uma cama de plumas que flutuava suavemente em uma piscina de ouro líquido que cobria o piso inteiro, ou talvez fosse o piso. Hastes de rubi para iluminação desciam de claraboias de vidro trabalhado e, quando Amarelle afastou as cobertas, elas se dissolveram em nuvens de vapor aromático. Algo borbulhava e se agitava embaixo da piscina dourada. Um semicírculo se ergueu de sua superfície e continuou subindo, transformando-se em uma forma humanoide alta e estreita. O líquido se esvaiu delicadamente, revelando uma mulher albina pálida como uma pomba, olhos perfeitos com partículas de ouro e um cabelo composto de milhares de borboletas douradas, todas vibrando aleatoriamente com elegância. — Boa tarde, Amarelle — disse a maga Ivovandas. Seus pés não tocavam a superfície da piscina enquanto ela se movia na direção da cama. — Acredito que tenha dormido bem. Você foi magnífica ontem à noite! — Fui, é? Eu não lembro... quero dizer, lembro de algumas partes... Eu estou usando as suas roupas? — Sim. — Eu não deveria estar de ressaca? — Eu a removi enquanto você dormia — disse Ivovandas. — Tenho uma coleção de doenças engarrafadas. Sua ressaca prometia ser lendária. Aqui haveria dragões! E por “aqui” eu quero dizer “exatamente atrás dos seus olhos”, provavelmente pelo resto da semana. Vou encontrar outra cabeça onde colocá-la, algum dia. Provavelmente vou devolvê-la para você, se falhar comigo. — O quê? Falhar com você? — Amarelle se pôs de pé com um pulo e afundou no colchão desajeitadamente. — Você me confundiu com alguém que sabe o que está acontecendo. Comece pela parte em que fui magnífica. — Eu nunca tinha sido tão extensivamente insultada! No meu próprio saguão de entrada, nada mais, nada menos, antes que nós ao menos tivéssemos chegado ao escritório. Você me concedeu uma explicação selvagem e perspicaz de todas as minhas falhas de caráter, a maioria delas imaginária, e então me deu as orientações mais firmes possíveis sobre como eu e meus colegas deveríamos conduzir nossos assuntos daqui para a frente, para a sua conveniência e a dos seus amigos. — Eu, hã, lembro de algumas dessas partes, eu acho. — Só estou curiosa sobre uma coisa, cidadã Parathis. Quando adquiriu santuário do Parlamento de Theradane, você foi avisada que ameaças pessoais aos membros desse Parlamento poderiam servir de motivo para a revogação sumária dos seus privilégios de santuário, não foi? — Eu... lembro de alguma coisa desse tipo... na papelada... provavelmente na parte de trás em algum lugar... talvez nas margens? — Você concorda que as suas declarações de ontem à noite podem ser consideradas como ameaças pessoais, certo? — Minhas declarações? Sorrindo, Ivovandas conjurou um cristal azul que zumbia e usou-o para projetar uma imagem nítida e de boa qualidade no ar ao lado da cama. Era Amarelle, com seu casaco preto, encharcada com chuva mágica fumegante, movendo as mãos em gestos firmes enquanto bradava: — E outra coisa, sua puta trovejante venenosa com cara de leite! NINGUÉM joga um vorpilax morto nos meus amigos, NINGUÉM! O que você joga nos outros membros do seu clubinho de puxa-sacos de chapéus pontudos é assunto de vocês, mas, da próxima vez que você resolver brincar com as vidas de cidadãos inocentes, é melhor trancar as suas portas, vestir o seu corselete de ferro mais resistente e contratar alguém para provar as suas comidas antes de você, deu para entender? A imagem se desfez. — Cacete — disse Amarelle —, sempre achei que era uma bêbada alegre. — Eu tenho 310 anos — disse Ivovandas — e aprendi algumas palavras novas ontem à noite! Ah, nós estávamos nos divertindo tanto, até que eu fui pessoalmente ameaçada. — Sim, parece mesmo que sim. E como você acha que nós podemos, hã, proceder sobre esse assunto? — Normalmente — começou Ivovandas —, eu redirecionaria magicamente o fluxo do seu intestino delgado para os seus pulmões, o que seria a minha maneira especial de dizer que os seus privilégios de santuário foram revogados. Mas, com essas suas habilidades e essa reputação... eu tenho um contrato perfeito para alguém assim. Por que você não se veste e me encontra no escritório? Uma força poderosa atingiu Amarelle por trás, jogando-a para fora da cama e de cabeça para dentro da piscina dourada. Ao invés de afundar, ela percebeu que estava flutuando para cima, subindo diretamente através do chão do escritório de Ivovandas, um cômodo grande e cheio de prateleiras, caixas de pergaminhos e painéis de pele de basilisco envernizados. Amarelle de repente estava usando as próprias roupas de novo. Na parede havia uma pintura a óleo do quarto do qual Amarelle tinha saído, com uma interpretação perfeita de Ivovandas flutuando sobre a piscina dourada completando-a. Enquanto Amarelle observava, a imagem pintada cresceu cada vez mais dentro da moldura, então empurrou os braços para fora dela e, com uma torção e um pulo, finalmente flutuou livre no meio do escritório. — Agora — disse Ivovandas —, para ser bem simples, existe um objeto em Theradane que eu espero que você adquira. Se os seus amigos irão te ajudar ou não, isso não é do meu interesse. Como um incentivo adicional, se você entregar essa coisa para mim de forma calma e bem-sucedida, irá amansar boa parte da, hã, oposição pública entre mim e certo colega parlamentar. — Mas os termos do meu santuário! — respondeu Amarelle. — Você recebeu parte da minha taxa! Sabe como eles funcionam. Eu não posso roubar dentro dos limites de Theradane. — Bem, você também não pode me ameaçar — disse Ivovandas. — E essa é uma questão irrelevante agora; então o que você tem a perder? — Uma eternidade não sendo um poste. — Ótimo planejamento de longo prazo — respondeu Ivovandas. — Mas acredito que, se você examinar bem a nossa situação, verá que está subindo certo rio proverbial e eu sou o único fornecedor de remos disposto a lhe vender um. Amarelle andou de um lado para outro, as mãos sombriamente enfiadas dentro dos bolsos do casaco. Ela e seu pessoal precisavam da segurança de Theradane. Eles tinham se tornado famosos demais, estragado disfarces demais, levado suvenires demais dos ricos e poderosos de muitos outros lugares. O sistema de Theradane era a mais pura simplicidade. Pague uma vasta quantia para o Parlamento do Conflito, se aposente em Theradane e não pratique nenhum dos velhos hábitos que o colocaram em apuros fora da cidade. Nunca. — Amoleça o seu coração, Amarelle. Para mim não é exatamente ilegal coagir uma mestra do crime a voltar à atividade dentro dos limites da cidade, mas não posso imaginar que meus companheiros deixariam a questão passar despercebida se eles um dia a descobrissem. Faça o que peço e eu quebrarei meu pequeno cristal azul com gratidão. Nós duas saímos sorrindo, em um equilíbrio harmonioso. — O que você quer que eu adquira para você? Ivovandas abriu um armário alto que estava encostado contra a parede da direita do cômodo. Dentro dele estava uma tapeçaria em branco cercada por todos os lados por mãos douradas sem corpos não muito diferentes daquelas que arremessaram Amarelle através da porta de entrada. As mãos ganharam vida, movendo-se rapidamente pela tapeçaria com agulhas douradas e fio preto. Linhas apareceram na superfície, linhas que logo se tornaram claras para Amarelle como sendo os distritos de Theradane e seus pontos de referência: os Desertos Altos, a Marca do Fogo Caído, os Declives da Luz Morta e centenas de outros, ponto por ponto. Quando o mapa ficou completo, uma mão costurou um último fio vermelho brilhante de verão, que reluziu em algum lugar na parte nordeste da cidade. — Rua da Prosperidade — disse Ivovandas. — No Portão da Fortuna, perto do Velho Parlamento. — Já estive lá — disse Amarelle. — O que você quer? — Rua da Prosperidade. No Portão da Fortuna. Perto do Velho Parlamento. — Eu ouvi da primeira vez — retrucou Amarelle. — Mas o que você... ah, não. Você não fez isso. Você não acabou de insinuar essa insinuação! — Eu quero que você roube a rua da Prosperidade — disse Ivovandas. — A rua inteira. Todo o seu comprimento. Cada tijolo e pedra dela. Ela deve deixar de existir. Ela deve ser removida de Theradane. — Essa rua tem quase trezentos metros de comprimento, e é no coração de um distrito tão importante e regado de dinheiro que nem mesmo vocês, lunáticos, a explodem nas suas guerrinhas, além de ser movimentada o dia inteiro! — Então seria interessante removê-la sem fazer estardalhaço — comentou Ivovandas. — Mas isso é problema seu, de qualquer maneira, e eu não suponho que deva lhe dar qualquer conselho sobre uma questão que é uma das suas poucas especialidades. — É... É... uma... RUA. — E você é Amarelle Parathis. Você não estava gritando alguma coisa ontem à noite sobre como você roubou o som do amanhecer? — No dia certo do ano — respondeu Amarelle —, no topo da montanha certa, com uma boa ajuda de alguns anões e mais flautas de cobre do que eu podia... Foda-se, foi muito complicado! — Você roubou as lágrimas de um tubarão. — Se você descobrir como identificar um tubarão melancólico, já está com meio caminho andado nesse quesito. — Aliás, o que você fez com as aranhas da morte de Moraska quando as capturou? — Eu as enviei de volta pelo correio para os vários templos dos sacerdotes-aranhas que estavam me incomodando. Vamos só dizer que o confinamento deixou as aranhas agitadas e com fome, e que a seita agora tem regras definidas sobre correspondências em forma de caixa que tenham buracos de ventilação. Além disso, enviei as caixas com o frete a cobrar. — Encantador! — gritou Ivovandas. — Bem, você me parece exatamente o tipo de mulher que poderia roubar uma rua. — Creio que a minha alternativa seja um pedestal com “Agora eu sirvo a Theradane para sempre” gravado nele. — Isso ou alguma tragédia mais privada e pessoal — respondeu Ivovandas. — Mas você entendeu basicamente as peculiaridades do tipo de escolha que tem. — Por que uma rua? — perguntou Amarelle. — Antes que eu continue, vamos ser francas, ou algo do tipo. Por que você quer que essa rua seja removida e como é que isso amansaria a luta entre você e o seu... Ah. Ah, cacete, é um lócus, não é? — Sim — confirmou Ivovandas. Seu sorriso predatório revelou dentes marcados por padrões arcanos em linhas de ouro da finura de fios de cabelo. — A rua da Prosperidade é o lócus externo de poder do mago Jarrow, meu colega menos querido. É como ele consegue os recursos para prolongar a competição tediosa de convocação de criaturas e do clima. Sem ele, eu poderia esmagá-lo em um dia e estar em casa a tempo do chá da tarde. — Perdoe-me se esse for um assunto delicado, mas eu achava que o objetivo desses loci era serem o segredo mais bem guardado que você e os seus... colegas possuem. — Jarrow foi indiscreto — disse Ivovandas. — Mas, mesmo assim, ele sabe que só o conhecimento não vale nada se ele não puder ser aliado a uma estratégia. Uma rua é uma coisa bem complicada de se descartar e a questão de como fazê-lo tinha me deixado de mãos atadas, até que você veio em meu socorro com sua cabecinha desonesta e seu ultraje embriagado. Podemos passar ao contrato? O armário das mãos douradas descosturou o mapa de Theradane e, em seu lugar, bordou vários parágrafos em um texto limpo e regular. Amarelle os observou mais de perto. Eram surpreendentemente diretos, descrevendo uma troca de uma (1) rua por um (1) cristal azul a ser destruído, mas então... — Que diabos é isso? — ela perguntou. — Um prazo? Um ano e um dia? — É a duração tradicional desse tipo de acordo — respondeu Ivovandas. — E com certeza você pode ver que ela é razoável. Prefiro ver Jarrow derrotado muito em breve, não daqui a cinco ou dez ou outro número nebuloso e mutante de anos. Preciso que você trabalhe com foco e determinação. E você precisa de um incentivo que não seja apenas a destruição se você falhar, então aqui está ele. — Um ano e um dia — disse Amarelle —, e eu tenho que entregar a rua ou dedicar a minha cidadania e o meu patrimônio terreno a um contrato permanente a seu serviço. — Seria uma vida confortável e excitante — disse Ivovandas. — Mas você pode evitá-la se for tão inteligente quanto eu espero que seja. — E se eu contasse sobre esse acordo para o mago Jarrow e visse se ele pode me oferecer algo melhor? — Uma suposição válida para uma situação complicada parecida com a minha! Eu aplaudo a sua sagacidade, mas devo lembrar que Jarrow não tem um cristal azul, nem você ou ele tem a menor ideia de onde fica o meu lócus externo. Você deve decidir por si mesma qual de nós dois seria o alvo mais fácil. Se você deseja ser conduzida pela sabedoria, irá procurar algo em seu bolso agora. Amarelle assim o fez e descobriu que uma pena e um frasco de tinta tinham aparecido ali dentro. — Uma rua — disse ela. — Por um cristal. Um ano e um dia. — Está tudo aí em pura linha preta — disse Ivovandas. — Você vai assinar? Amarelle encarou o contrato e rangeu os dentes, um hábito que sua mãe sempre a instruiu veementemente a não cultivar. Enfim ela destampou o frasco de tinta e molhou a pena. 7. Outra troca de roupa inesperada O tumulto normal causado pela briga dos magos tinha diminuído. Até mesmo Ivovandas e Jarrow pareciam estar tirando uma folga quando Amarelle saiu dos Desertos Altos sob a névoa cor de pêssego daquela tarde. Todos os relógios da cidade marcavam três horas, ecoando e desmentindo e interrompendo uns aos outros, o anúncio certo daquela hora se espalhando por mais ou menos dois minutos e meio pelo fato de que os relógios em Theradane eram tradicionalmente dessincronizados para confundir os espíritos maliciosos. Os pensamentos de Amarelle eram uma roda elétrica de ansiedade e cálculo. Ela fez sinal para um bandaviário mecânico e logo estava avançando sobre os telhados da cidade em uma cadeira de balanço amarrada por baixo das asas tensionadas de uma revoada de pardais mecânicos. Simplesmente não havia outro lugar para buscar ajuda; ela teria que se jogar em cima de seus amigos como lixo encalhado na praia. Sophara e Brandwin moravam em uma casa torta e estreita na rua Pernavil, uma casa que adquiriram por um preço excelente pelo fato de algumas vezes ter cinco andares e, outras, seis. Para onde o sexto ocasionalmente fugia era um mistério, mas, do mesmo jeito que ele se recusava educadamente a responder às questões delas sobre os seus assuntos, também fazia a cortesia de não perguntar sobre os delas. Amarelle fez o bandaviário lançá-la por uma determinada janela no terceiro andar que servia como um portal exclusivo para os amigos em casos urgentes. As senhoras estavam em casa e, por sorte, Shraplin também estava lá. Brandwin estava brigando com os pistões do pé esquerdo substituto dele, enquanto Sophara se espreguiçava em uma rede de veludo, usando óculos escuros e uma boina branca como o gelo que exalava uma névoa analgésica em forma de auréola em volta de sua cabeça. — Como é que você não está coberta de vômito e implorando pela própria morte? — perguntou Sophara. — Como é que você bebeu três vezes o seu peso em bebida alcoólica e eu é que tenho a custódia integral da ressaca? — Eu tive um benfeitor inesperado, Soph. Você consegue proteger este cômodo para uma conversa delicada? — A casa inteira é razoavelmente segura — gemeu a ilusionista, saindo da rede com pouquíssima graça e dignidade. — Agora, se você quiser que eu fabrique um silêncio maior, me dê um minuto para pegar os meus mármores. Espere um pouco... Tirou os óculos escuros e observou Amarelle friamente. Andando com cuidado pela bagunça de ferramentas especializadas e bugigangas mecânicas aninhadas no carpete, aproximou-se, farejando o ar. — Algo errado, minha querida? — perguntou Brandwin. — Shhhh — respondeu Sophara. Esfregou os olhos como se tivesse acabado de acordar, então esticou o braço, moveu a lapela esquerda do casaco de Amarelle para o lado e tirou um brilhante fio dourado da lã preta. — Você — disse ela, arqueando as sobrancelhas verde-azuladas para Amarelle — andou se encontrando com outro mago. Sophara bateu palmas uma vez e uma quietude misteriosa caiu sobre o cômodo. Até os mais leves sons da cidade lá fora tinham sido completamente banidos. — Ivovandas — respondeu Amarelle. — Eu fugi e fiz uma coisa estúpida ontem à noite. Em minha defesa, apenas gostaria de dizer que estava furiosa e que era você quem estava fazendo as bebidas. — Sua puta incômoda e infalível — disse Sophara. — Bem, esse pequeno fio teria deixado Ivovandas ouvir nossa conversa, a não ser pelo meu contrafeitiço e pelos de confusão que com certeza foram aplicados nas pedras desta casa. E onde há um truque óbvio sempre há alguma coisa espreitando por trás. Tire o resto das suas roupas. — O quê? — Agora, Amarelle! — Sophara pegou uma caixinha de joias com gravações em prata de um canto afastado na sala, abriu-a e fez movimentos apressados enquanto Amarelle tirava o casaco. — Viu como ela é direta? — Brandwin apertou um pequeno fole em um tubo pressurizado de óleo verde brilhante dentro da perna de Shraplin. — Nós nunca teríamos chegado a lugar algum se ela tivesse me esperado tomar a iniciativa. — Mantenha os olhos no seu trabalho — disse Sophara. — Eu vou olhar por nós duas e lhe dou alguns detalhes mais tarde. — Às vezes eu acho que “amigo” é só uma palavra que eu uso para as pessoas que ainda não matei — comentou Amarelle, pulando e girando para fora de suas botas, calças, cinto, colete, blusa, objetos cortantes, cordas de seda, cápsulas de fumaça e roupas de baixo. Quando a última peça foi descartada, Sophara fechou a caixinha de joias com violência e murmurou feitiços para a fechadura. Como se a ideia propositalmente só tivesse ocorrido agora, sorrindo e sem pressa, ela pegou para Amarelle um roupão de seda preta com mapas astronômicos bordados em azul e branco. — Hoje parece ser o meu dia de usar as roupas de todo mundo — resmungou ela. — Perdoe-me pelas suas coisas — disse Sophara. — Eu conseguiria fazer uma varredura nelas para descobrir outros truques, mas Ivovandas está numa categoria de peso tão acima que eu poderia levar dias. — Nunca deixe uma maga mexer nas suas roupas — disse Brandwin. — Pelo menos não até ela prometer morar com você. Agora já deve ser seguro conversar. — Eu não tenho muita certeza de como dizer isso — começou Amarelle —, mas a versão resumida é que estou temporariamente desaposentada. Ela contou a história inteira, parando somente para responder as perguntas empolgadas de Sophara sobre as defesas e decorações da mansão de Ivovandas. — Isso é uma baita coisa, chefe — disse Shraplin quando Amarelle terminou. Os relógios dentro da casa começaram a anunciar as cinco horas e não pararam por algum tempo. Os relógios da cidade ainda estavam isolados além do silêncio de Sophara. — Pensei que a gente estava ferrado quando o trabalho das lágrimas de tubarão sobrou pra gente. Mas uma rua! — Eu imagino como Jarrow descobriu que ela era um lócus. — Sophara ajustou seu chapéu analgésico, que lhe tinha feito muito bem durante o longo tempo da história de Amarelle. — Imagine como ele conseguiu cultivá-lo sem ninguém interferir! — Vamos manter o foco, sonhadora. — Brandwin massageou os as pernas da esposa. — A questão pertinente aqui é: como vamos conseguir fazer isso? — Eu vim aqui só para me aconselhar — disse Amarelle rapidamente. — Isso é tudo minha culpa e ninguém mais precisa arriscar seu santuário porque eu fiquei bêbada e fui insolente com um mago. — Deixe-me esclarecer as coisas para você, chefe — disse Shraplin. — Se você não quer que eu a siga de um lado para outro sendo útil, você tem que estar planejando esmagar a minha cabeça agora mesmo. — Amarelle, agora você não pode nos deixar fora dessa! O golpe é delicioso demais — disse Sophara. — E claramente deixar você andando por aí sozinha não é uma coisa prudente. — Eu agradeço — respondeu Amarelle —, mas me sinto responsável pela segurança de vocês. — O Parlamento do Conflito caga destruição aleatoriamente nesta cidade, chefe. — Shraplin abriu as mãos. — Quão mais inseguros nós podemos ficar? Francamente, dois anos e meio de quietude são o bastante para o meu gosto. — Sim — concordou Sophara. — Guarde os seus sentimentos delicados, Amarelle. Você sabe que nós não deixaríamos você... ah, espere. Sua sacola sensual de seios e açúcar! Você não veio aqui só pelos nossos conselhos! Você usou a sua expressão honrada para que nós nos comprometêssemos sem ter o prazer de vê-la implorar! — E vocês caíram nessa. — Amarelle sorriu. — Então está decidido, nós largamos a aposentadoria e vamos roubar uma rua. Se alguém se importar em me dizer como diabos isso vai funcionar, a caixinha de sugestões está aberta. 8. O truque barato Eles passaram os dois primeiros dias tirando medidas e em vigilância. A rua da Prosperidade tinha duzentos e noventa metros de comprimento. Nove grandes avenidas e quinze becos se ligavam a ela. Cento e seis lojas e residências davam para a rua, inclusive uma adega que servia destilados de tanta qualidade que um terceiro dia foi perdido em ressacas e reclamações. Começaram na noite do quarto dia, enquanto uma névoa morna subia preguiçosamente dos esgotos e os postes brilhavam como pérolas em meio a uma gaze cinza. Os relógios começaram a anunciar onze horas, um processo que em geral prosseguia até que fosse quase a hora de começarem a anunciar as doze. Uma mulher de pele roxa em trajes de funcionário público municipal remendava com toda a calma a placa de sinalização no cruzamento da Prosperidade com a Magdamar. Ela colocou em uma sacola a placa de madeira com “r. da Prosperidade” gravado e cumprimentou um goblin bêbado e parcialmente curioso com um toque no chapéu que estava usando. Brandwin esvaziou três cruzamentos das placas de “r. da Prosperidade” antes que os relógios se acalmassem. No cruzamento da Prosperidade com a Novededos, um trabalhador educado com cabeça de lata pintou todas as “r. da Prosperidade” visíveis com um verniz preto opaco. Duas quadras ao norte, um bandaviário que voava muito baixo carregando uma mulher de cabelos escuros bateu em uma placa de sinalização, um acidente que se repetiria seis vezes. No lendário cruzamento confuso de sete ruas onde os vários Mercados Goblin se uniam à Prosperidade, uma feiticeira disfarçada como a sombra de um gato murmurou baixinho encantamentos de anulação alfabética, limpando todas as placas relevantes até brilharem como uma ardósia. Eles tiveram que remover quarenta e seis pedras ou placas e deformar os letreiros de dezesseis lojas cujos nomes homenageavam a rua. Por fim, conseguiram derrubar um garrafão de ácido sulfúrico sobre um ponto cerimonial no chão, no qual havia “rua da Prosperidade” em letras de ferro. Quando elas viraram “ria ca Peclgilve”, eles jogaram um pouco de água em cima daquela confusão e correram de lá para se livrar das vestes, tintas e propriedades públicas roubadas. No dia seguinte, Ivovandas não estava nem um pouco impressionada. — Nada aconteceu. — Seus olhos dourados reluziram perigosamente e suas borboletas permaneceram imóveis. — Nem uma femtocentelha de diferença ou de diminuição da potência do lócus do Jarrow. Apesar de ter deixado uma boa quantidade de viajantes e turistas confusos. Você precisa roubar a rua, Amarelle, não vandalizar os adornos dela. — Eu não esperava que fosse ser tão fácil assim — disse Amarelle. — Só achei que deveríamos eliminar a abordagem mais simples antes de qualquer coisa. Nunca coloque um arquiduque na mesa quando um dois é o bastante. — O mapa não é o território. — Ivovandas fez um gesto e transportou Amarelle para o gramado da frente de sua mansão, onde as esculturas hipnóticas de sapos quase a fizeram gastar mais tempo ainda. 9. Força bruta A abordagem seguinte levou onze dias para ser planejada e organizada, incluindo dois dias perdidos para uma batalha entre os magos do Parlamento na zona ocidental da cidade que destruiu a Ponte-Templo do Deus dos Nomes Ocultos. As placas já tinham sido restauradas no cruzamento da Prosperidade com a Languinar, a transversal mais ao sul da rua da Prosperidade. O céu do amanhecer estava começando a se aproximar do limite da cidade em raios laranja e escarlate e os relógios estavam ou não anunciando sete horas. Uma caravana de carruagens de carga reforçadas conduzidas por cavalos encouraçados parou na Languinar, preparando-se para virar para o norte. As placas penduradas nas carruagens diziam: Nusbarq Desisko e Filhos Transporte de Animais Perigosos Enquanto a caravana avançava pela rua, uma mulher de vestido vermelho flamejante conduzindo um coelho mecânico atravessou descuidadamente o caminho da primeira carruagem, dando início a uma cadeia de desastres improvável mas pitoresca. Carruagem após carruagem tombou, roda atrás de roda voou de sua calota, um grupo de cavalos após outro correu relinchando por entre o tráfego quando suas rédeas de emergência se soltaram. A lateral da primeira carruagem tombada explodiu para fora e uma besta peluda saltou rosnando de dentro dos destroços. — CORRAM! — gritou alguém, que coincidentemente era a mulher de vestido vermelho. — É UM HOMEM-CHACALCOM CALCANHAR DE MOLA! Um segundo depois seu coelho mecânico explodiu, envolvendo-a em uma nuvem de vapor e faíscas. O vestido vermelho era reversível e Amarelle tinha praticado invertê-lo pelo toque. Três segundos depois ela correu da nuvem de vapor vestida em um manto preto com capuz. Shraplin, nem um pouco prejudicado pelos trinta e quatro quilos de pele, couro e garras de madeira, ativou alegremente as bobinas de absorção de choque reforçadas na perna que Brandwin tinha montado para ele. Ele foi pulando e uivando pelo meio da multidão, transformando sustos em pânico e fugas. Vinte e duas colisões não planejadas de carruagens e bandaviários ocorreram no meio minuto seguinte, travando o trânsito por dois quarteirões ao norte do acidente inicial. Amarelle não tinha tempo para contá-los enquanto corria para o norte atrás de Shraplin. Outra carruagem curiosamente defeituosa da caravana Nusbarq Desisko se abriu, expondo sua carga de colmeias do tamanho de um homem ao ar e ao barulho. Milhares de abelhas fedidas policromáticas, cintilando em todas as cores do arco-íris e temerosas pela segurança de suas rainhas, voaram para expelir néctar fedido grudento em tudo que estivesse ao alcance de seus zumbidos. Um leve toque daquele cheiro seguiu Amarelle para o norte, e ela se arrependeu de ter tomado café. Centenas de pessoas estariam queimando suas roupas antes que o dia terminasse. Por toda a extensão da rua da Prosperidade, feitiços aurais preparados com antecedência por Sophara começaram a irromper. Vozes corajosas e autoritárias mandavam o trânsito parar, os transeuntes correrem, as lojas fecharem, os cidadãos rezarem por salvação. Elas gritavam sobre o homem-chacal, basiliscos, abelhas fedidas, vespas rouba-bebê, vorpilax raivosos e a praga. Elas ordenavam que policiais e cidadãos aptos usassem barris e carruagens como barricadas improvisadas contra multidões nos principais cruzamentos, o que alguns deles fizeram. Amarelle alcançou o beco depois da via dos Novededos e encontrou o pacote que tinha escondido atrás de um caixote podre na noite anterior. Logo ela surgiu do beco com o uniforme de um policial de Theradane, a insígnia de capitão resplandecente em seu colarinho, o cassetete de aço brilhando. Ela deu ordens inúteis e contraditórias, fomentou o pânico, empurrou os donos de loja de volta para dentro e ordenou que os bares fechassem as portas. Quando encontrou policiais de verdade, ela os golpeou com os dentes sedativos escondidos na ponta de seu cassetete. Seus corpos inconscientes, facilmente confundidos com cadáveres, adicionaram uma verossimilhança empolgante à inquietação raivosa. Na ponta norte da rua da Prosperidade, uma carroça da força policial contra multidões comandada por um par de mulheres uniformizadas passou por outro acidente improvável quando entrou em contato com o fogo aceso de um vendedor de fondue descuidado. Brandwin e Sophara jogaram seus capacetes no chão e saíram correndo aos gritos, infectando dúzias de cidadãos com pânico desorientado mesmo antes de os foguetes e as caixas dentro da carroça começarem a explodir. Por mais ou menos meia hora choveram arcos branco-rosados de cinzas, fumaça sonífera e pó de pimenta escaldante em boa parte da rua da Prosperidade. Em dado momento, dois magos do Parlamento tiveram que interferir de má vontade para ajudar os policiais e as brigadas de incêndio a restaurar a ordem. Os escritórios da Nusbarq Desisko e Filhos foram encontrados vazios e seus registros desapareceram, presumivelmente levados por eles quando fugiram da cidade. O homem-chacal com calcanhar de mola nunca foi encontrado e assumiu-se que ele tenha sido adotado como bicho de estimação por algum dos magos. — Como assim, nada aconteceu? — Amarelle andava furiosamente de um lado para outro no escritório de Ivovandas no dia seguinte, depois de ter se explicado para a maga, que a tinha ouvido distraída enquanto consultava um grimório que de vez em quando gemia e ria para si mesmo. — Nós fechamos toda a extensão da rua da Prosperidade por mais de três horas! Nós roubamos a rua de todo mundo de um jeito bastante significativo! O trânsito não fluía, as barreiras contra multidões foram levantadas, nem um pingo de comércio foi feito em lugar nenhum... — Amarelle — interrompeu a maga, sem tirar os olhos de seu livro —, louvo a sua adoção de uma abordagem mais dinâmica a esse problema, mas sinto dizer que ela não deu em nada. Nem uma pequena insinuação de que os recursos arcanos de Jarrow diminuíram. Eu realmente queria que tivesse dado certo. Cuidado com os sapos hipnóticos, porque eu aumentei bastante o feitiço deles. Ela estalou os dedos e Amarelle achou-se de volta ao jardim. 10. O método tipográfico Sophara dirigiu a próxima fase da operação deles, pedindo licença de seu posto como mixologista-maga por tempo indetermidado. — Era mais para ter fácil acesso ao bar, de qualquer maneira — disse ela. — E eles lamberiam a sola dos meus saltos a qualquer momento para me ter de volta. Um mês e meio de estudos e estresse se passou. Sophara trabalhou em seus quadro, ábaco, grimório e diário de feitiços, lidando com quatro idiomas e várias formas de notação taumatúrgica que fizeram os olhos de Amarelle queimarem. — Eu digo a toda hora para não olhar para elas! — disse Sophara enquanto ajustava a boina analgésica na cabeça de Amarelle. — Você não tem a geometria óptica adequada! Você e Brandwin! São piores do que gatos. Brandwin visitou bibliotecas e arquivos cívicos. Amarelle invadiu dezessete coleções pessoais importantes. Shraplin aplicou sua percepção mecânica incansável à tarefa de varrer milhares de páginas de milhares de livros. Uma vasta pilha de anotações cresceu na casa de Brandwin e Sophara, junto com uma pilha de pergaminhos, panfletos, tomos e registros nada elegante, mas original. — Qualquer guia da cidade — entoava Amarelle, já que a fórmula tinha se tornado uma espécie de mantra. — Qualquer anotação de qualquer viajante, qualquer registro de imposto ou residência, qualquer menção a reparos, qualquer diário ou recordação. A gente já fez alguma coisa menos sensata do que isso? Como é que esperamos conseguir localizar cada referência escrita sobre a rua da Prosperidade em cada documento já criado? — Nós não podemos — disse Sophara. — Mas se meus cálculos estiverem razoavelmente corretos, e se isso de alguma maneira funcionar, nós só precisamos trocar um determinado percentual crítico desses registros, especialmente nos arquivos oficiais da cidade. Shraplin e Brandwin cortavam painéis de madeira de forma que virassem réplicas exatas das quarenta e seis placas de rua e dezesseis letreiros comerciais que eles tinham tentado roubar antes. Rasparam, jogaram areia em cima, envernizaram e gravaram, fazendo apenas uma pequena mudança em cada cópia. — Eu tenho a chave — disse Brandwin, saindo de sua sala de trabalho cheia de incenso certa noite, com um olhar turvo e arrulhando para uma pequena mariposa branca que estava empoleirada no topo do seu dedo indicador da mão esquerda. — Eu a chamo de Mariposa Adaptadora. É um feitiço muito complexo e eficiente que consigo lançar em qualquer coisa mais ou menos desse tamanho. — E o que elas vão fazer? — perguntou Amarelle. — Elas vão se tornar repetidoras de aperfeiçoamento de trabalho — respondeu Sophara. — Nós levaríamos anos para ajustar manualmente todos os registros que estamos procurando. Encantadas com o meu feitiço para guiá-las e dar poder a elas, podemos enviar essas gracinhas para fazer quase todo o trabalho para nós em apenas uma noite. — De quantas precisamos? — perguntou Shraplin. Nove noites depois, de pontos cuidadosamente selecionados por toda a cidade, soltaram 3.449 das Mariposas Adaptadoras de Sophara, cada uma tremulando para a escuridão e então para as bibliotecas, arquivos, balcões de lojas, escritórios particulares e mesinhas de cabeceira. As 2.625 Mariposas Adaptadoras que não foram comidas por morcegos ou capturadas como brinquedos por gatos localizaram um total de 617.451 referências ao nome “rua da Prosperidade” e fizeram uma mudança crucial em cada cópia física dos textos. Ao amanhecer, todas estavam mortas por exaustão. Amarelle e seu grupo substituíram quarenta e seis placas de rua e dezesseis letreiros comerciais sob a proteção da escuridão e então ergueram uma das letras de ferro cerimoniais (restauradas) que estavam fincadas na calçada. “rua da Prosperidad”, diziam as letras sobreviventes. “Prosperidad”, lia-se nas placas e nos letreiros. “rua da Prosperidad” era o nome do lugar em todos os guias, jornais particulares, contratos de aluguel, processos e em todos os registros fiscais da cidade, a não ser por alguns santuários protegidos com mágica do Parlamento do Conflito. Da noite para o dia, a rua da Prosperidade tinha sido substituída pela sua prima muito próxima rua da Prosperidad. — Amarelle — começou Ivovandas, bebericando delicadamente de um copo de ouro derretido que ela tinha aquecido em seu caldeirão ao lado da mesa —, aprecio a sua agitação frente ao fracasso de um plano tão original e com um alcance tão longo, mas realmente devo ressaltar a necessidade de abandonar essas abordagens metafísicas infrutíferas. Não roube o nome da rua, ou seus negócios, ou o seu “e” final. Roube a rua, integral e fisicamente! Amarelle grunhiu: — De volta ao jardim? — De volta ao jardim, minha querida! 11. Depois de Amarelle, o dilúvio Vinte e sete dias depois, uma das tempestades de verão naturais chegou do oeste, uma mortalha agitada de nuvens escuras procurando confusão. Como sempre, os magos do Parlamento cuidaram de seus territórios particulares e deixaram que o restante de Theradane se defendesse sozinho. Então era teoricamente plausível que o aqueduto elevado que cruzava a rua da Prosperidade logo ao norte da travessa da Enfermeira Manca escolhesse essa noite para se romper por causa do esforço. A rua da Prosperidade já estava lutando contra pilhas de entulho entupindo as suas grades de esgoto (essas pilhas estavam com uma espessura e persistência maiores que o normal graças aos feitiços de Sophara Miris) e com a própria posição similar a um vale, aos pés de vários outros bairros elevados. O jato espumado do aqueduto quebrado transformou um córrego que molharia algumas botas em um rio bem mais preocupante, com água na altura da cintura. Amarelle e seu grupo se esconderam em sombras artificiais em um telhado alto, zelando para garantir que ninguém, principalmente crianças e goblins, sofresse mais do que um encharcamento na enchente. Os hidromantes da cidade acabariam aparecendo para consertar as coisas, mas eles com certeza já estavam tendo uma noite atribulada. — Eu diria que isso ainda é um pouco metafísico, se você me perguntasse — disse Sophara. — É um tipo de abordagem híbrida — respondeu Amarelle. — Afinal de contas, como ela pode ser uma rua se foi transformada fisicamente em um canal? 12. Não –Não — disse Ivovandas. Amarelle foi devolvida ao jardim. 13. Medidas educacionais Meio ano perdido. Apesar do vandalismo, dos motins, homens-chacais, erros de escritórios e enchentes, a rua da Prosperidade era mais digna do seu nome do que nunca. Amarelle passeava pela rua, sentindo o sol do outono em seu rosto, admirando as folhas em tons pálidos de bronze das árvores-preces enquanto elas caíam em pequenas nuvens, inscritas com bênçãos caligráficas para qualquer um que cruzasse o seu caminho. Houve uma agitação na multidão ao seu redor, uma nova cacofonia de gritos e resmungos e patas de cavalo e rangidos de rodas. O tráfego se abriu ao norte para dar passagem a uma carruagem estrondosa, com o dobro da altura e da largura de qualquer outra coisa na rua. Era negra como o cu da morte, sem janelas, cortada por gravações em prata e incrustações de madrepérola. Não tinha cavalos nem cocheiro, cada uma de suas quatro rodas era uma gaiola circular de aço onde um animal carnívoro escravizado, de olhos vermelhos, corria em quatro apoios, criando um impulso para a frente. A carruagem singular gemeu em sua suspensão enquanto desviava e deu uma guinada para parar ao lado de Amarelle. Os carnívoros a olharam com malícia, sem respirar, sua carne claramente necrosada como papel de arroz cobrindo velhas feridas cheias de pus. A porta negra se abriu e uma escada se encaixou em sua base. Uma cortina de veludo ainda tremulava na entrada da carruagem, escondendo o que quer que estivesse dentro dela. Uma voz chamou, fria como clorofórmio e remorso antigo: — Você não entende um convite quando o vê, cidadã Parathis? Fugir de magos em plena luz do dia sem qualquer preparação não era uma habilidade que Amarelle tivesse conseguido cultivar, então ela entrou corajosamente na carruagem, baixando a cabeça. Ficou surpresa ao perceber que estava em um espaço cinza aquecido, com pelo menos trinta e cinco metros em um dos lados e um teto curvado pouco iluminado por luzes prateadas flutuantes. Um grande aparato mecânico estava tiquetaqueando e pulsando e se movendo no meio do cômodo, algo parecido com um planetário, mas em vez de luas e planetas, os pequenos braços seguravam imagens de homens e mulheres, as semelhanças gravadas com características exageradas e defeitos cômicos. Amarelle reconheceu uma delas como Ivovandas pelos olhos dourados e os cabelos de borboleta. Havia treze imagens, e elas se moviam em padrões complexos e interligados em volta de um modelo da cidade de Theradane. A porta da carruagem se fechou atrás dela. Não havia nenhuma sensação de movimento a não ser a dança e os giros quase hipnóticos do planetário de magos. — Meus companheiros — disse a voz gelada, que agora vinha de trás dela. — Como corpos celestes, transitando por suas órbitas, exercendo suas influências. Assim como com os corpos celestiais, não é exatamente difícil rastrear ou prever seus movimentos. Amarelle se virou e perdeu o fôlego. O homem era baixo e flexível, sua pele da cor do ébano, seu cabelo reduzido a uma penugem avermelhada. Havia uma cicatriz em seu queixo e outra em seu maxilar, cada uma delas familiar aos dedos e aos lábios dela. Só os olhos dele estavam errados. Eram os olhos de um envenenador, vazios como o vidro. — Você não tem o direito de usar essa cara, porra — disse Amarelle, lutando para não gritar. — Scavius da rua da Sombra, não é? Ou melhor, “não era”? Veio com você para Theradane, mas nós nunca recebemos a sua cota do santuário. Acabou com tudo com algum gesto dramático, se me lembro bem. — Ele ficou bêbado e perdeu tudo em uma roda de dados... — disse ela, molhando os lábios e se obrigando a dizer: — Jarrow. — É um prazer conhecê-la, Amarelle Parathis. O homem usava calças e jaqueta pretas simples. Estendeu a mão, que ela não apertou. — Perdeu tudo em uma roda de dados? Isso foi estúpido. — Eu mesma estou familiarizada com erros de bêbados — disse Amarelle. — E então ele foi e fez uma coisa ainda mais estúpida — disse Jarrow. — Ganhou o louvor dos criminosos. Transfigurado em um poste. — Por favor... escolha outra aparência. — Não. — Jarrow coçou a cabeça e balançou um dedo para ela. — Esse é um bom ponto inicial para a discussão para a qual eu realmente a trouxe aqui, Amarelle. Vamos falar sobre o tipo de comportamento que pode fazer alguém ser transfigurado em uma decoração de rua. — Estou aposentada. — É claro, garota. Olhe, há um velho ditado na minha família: “Se acontecer uma vez, é uma casualidade. Duas, é coincidência. Se forem três, é algum outro mago tentando foder você.” Você nunca passou muito tempo na rua da Prosperidade antes, não é? Seu apartamento é em Hellendal. Ao sul da rua Emaranhasa. Estou certo? — Sobre a localização do meu apartamento, é claro. — Você tem nervos de aço, Amarelle, e eu não estou aqui para prolongar isso ou envergonhá-la. Só estou sugerindo, para o ar, se você quiser assim, que seria uma pena se qualquer outro fenômeno anormal acontecesse com uma parte de Theradane que é de um valor sentimental especial para mim. É a isso que o seu dinheiro de santuário lhe dá direito. Isso sou eu sendo gentil. Você está fingindo ouvir ou está ouvindo? — Estou ouvindo. — Aqui está uma coisinha para melhorar ainda mais a sua audição. — Um saco de aniagem apareceu nas mãos de Jarrow e ele o jogou para ela. Pesava mais ou menos cinco quilos e seu conteúdo chacoalhava. — A confirmação habitual de que estou falando sério. Você sabe como isso funciona. De qualquer maneira, no melhor dos mundos a gente não vai precisar ter outra conversa como esta de novo. Em qual mundo você quer viver, Amarelle Parathis? O ar esfriou. As luzes diminuíram e recuaram para os cantos do cômodo, desaparecendo como estrelas por trás das nuvens. O estômago de Amarelle deu cambalhotas e de repente suas botas estavam na calçada, o som do trânsito todo à sua volta e as folhas das árvores-preces acariciando seu rosto. O sol estava alto e morno, e a carruagem negra não estava em nenhum lugar à vista. Amarelle sacudiu o saco, abrindo-o, e xingou quando a cabeça de Shraplin rolou para fora. As pontas dos canos que saíam de seu pescoço estavam queimadas e tortas. — Eu não sei o que dizer, chefe. — Sua voz era firme, mas fraca. — Estou envergonhado. Me atacaram ontem à noite. — Que diabos eles fizeram? — Nada tecnicamente ilegal, chefe. Eles deixaram o conteúdo da minha cabeça intacto. Agora, o resto, vamos apenas dizer que eu não espero vê-lo de novo. — Me desculpe, Shraplin. Vou levar você para Brandwin. Desculpe mesmo. — Para de pedir desculpas, chefe. — Alguma coisa zumbiu e bateu por trás dos olhos do autômato, e ele deu um gemido confuso. — Mas eu tenho que admitir: a minha admiração por aqueles magos do tipo mais poderoso está se acelerando no que você pode chamar de uma trajetória descendente. — Precisamos de mais ajuda — sussurrou Amarelle. — Se vamos enfiar o pé na jaca, acho que é a hora de juntar o grupo inteiro de novo. 14. A desaposentadoria de Squirn Língua-de-Jade Ela era alta para um goblin; não que isso significasse qualquer coisa para a maioria das outras espécies. Suas escamas pareciam vidro negro, seus olhos eram uma imersão repentina nas profundezas azuis além dos recifes continentais. Suas orelhas pontudas eram furadas, com argolas prateadas, algumas das quais guardavam penas de escrita que ficavam ao alcance da sua mão. Todos eles foram juntos para vê-la em seu claustro sombrio no Ministério de Finanças e Abastecimento de Theradane, um lugar que fedia a rotina, dignidade e a empregados que morriam em suas mesas com caixas de entrada vazias. Ela não ficou muito feliz em recebê-los. — Nós não somos mais daquele jeito! — sibilou Jade quando Amarelle terminou de contar a maior parte da história, quando estavam seguros dentro do escritório da goblin e da bolha à prova de ruídos de Sophara. — Olhe para você! Olhe para a bagunça que você fez! E olhe para mim. Como eu poderia ajudar? Sou uma funcionária pública manchada de tinta agora. Registro regulamentações e projeto gravuras para cédulas. Amarelle a encarou, mordendo o lábio. Squirn Língua-de-Jade tinha sido presa seis vezes e fugira seis vezes. Você poderia andar pelo mundo todo só passando por países que ainda a procuravam para julgamento. Traficante, negociadora, agente de suprimentos bizarros, ela também era a melhor falsificadora que Amarelle já tinha conhecido, capaz de memorizar assinaturas num piscar de olhos e reproduzi-las com qualquer uma das mãos. — Sentimos sua falta nas nossas noites de bebedeira — disse Brandwin. — Você sempre foi bem-vinda. Sempre quisemos você lá. — Eu não faço mais parte disso. — A voz de Jade era monótona e ela se segurava à sua mesa como se pudesse ser uma parede entre ela e seus antigos companheiros. —Sou como um caranguejo ermitão que puxou um escritório sobre ele. Talvez o resto de vocês só estivesse brincando uns com os outros sobre se aposentar, mas eu estava falando sério. Não tenho ido vê-los porque vocês vão querer a Squirn Língua-de-Jade, não esta pessoinha tímida que usa as roupas dela. — Nós somos como uma mão com um dedo faltando — disse Amarelle. — Temos meio ano para fazer quase 300 metros de rua desaparecer e precisamos desse seu cérebro verde escorregadio. Você mesma disse: olhe a bagunça que nós fizemos até agora! Olhe o que Jarrow fez com o Shraplin. Amarelle colocou a mão na sacola de couro. No momento seguinte, a cabeça do autômato pulou para a mesa de Língua-de-Jade e ela emitiu um estertor alto, chocada. — Há-há! A cara que você fez! — disse Shraplin. — Que tal você olhar para a sua, seu balde de asneiras? — rosnou ela. — Eu deveria enfiar você numa gaveta por me assustar desse jeito! — Agora você sabe por que precisamos ter você de volta — disse Amarelle. — Shraplin é o aviso. Nosso próximo tiro tem que ser certeiro. — Três vadias engraçadinhas e um autômato espertalhão que deu mole — disse Jade. — Vocês acham que podem simplesmente entrar aqui, apertar uns botões no meu coração e me tirar da aposentadoria? — Sim — respondeu Amarelle. — Nós continuamos não sendo o que éramos. — Ela colocou uma mão escamosa no rosto de Shraplin e então o girou como se fosse uma tampa. — Eu definitivamente não sou o que era. Mas que diabos. Talvez você esteja certa... sobre precisar de ajuda, pelo menos. — Então você vai pedir um afastamento ou algo do tipo? — perguntou Shraplin quando parou de falar “Aaaaaaaaaaarrrrrrrrgghhh!”. — Um afastamento? Você tem certeza de que não danificou o conteúdo da sua cabeça? — Língua-de-Jade olhou para todos os membros da equipe. — Meus amores, molengas, lerdinhos, se vocês querem conseguir esse negócio, a burocracia municipal de Theradane é a última coisa que vocês vão querer ignorar. 15. Negócio Honesto –Eu não lhe pedi nada durante todo esse tempo — disse Amarelle. — Nenhuma vez. Agora isso precisa mudar. — Eu não sou contrária a pequenos favores, em teoria — respondeu Ivovandas —, tendo em vista que a recompensa em potencial pelo seu sucesso final é tão tentadora. Mas você deve entender que a maioria dos meus recursos mágicos está comprometida no momento. E também não vou fazer abertamente nada que possa aumentar as suspeitas de Jarrow. Ele tem a mesma autoridade que eu para matar você imediatamente se conseguir provar a sua violação dos termos do santuário aos nossos companheiros. — Nós estamos abrindo um negócio — disse Amarelle. — O Consórcio da Recuperação dos Desertos Altos. Precisamos que você assine como nossa principal investidora. — Por quê? — Porque ninguém pode processar você. — Amarelle puxou um maço de papéis de seu casaco e o colocou na mesa de Ivovandas. — Precisamos de algumas carroças e uma dúzia de trabalhadores. Nós vamos fornecê-los. Vamos escavar mansões em ruínas nos Desertos Altos nos dias em que você e o Jarrow não estiverem explodindo um ao outro. — De novo, por quê? — Tem algumas coisas que nós temos que pegar — disse Amarelle com um sorriso —, e algumas outras que precisamos esconder. Se fizermos isso com os nossos nomes, os herdeiros de todas as famílias que saíram correndo quando você se instalou aqui e começou a atirar em outros magos vão fazer fila nos tribunais para nos impedir. Se for você que estiver mandando em tudo, eles não vão poder fazer porra nenhuma. — Vou analisar esses documentos — respondeu Ivovandas. — Eu os devolverei para você se achar que os termos são adequados. Amarelle percebeu que estava no jardim. Mas, três dias depois, os documentos apareceram em seu apartamento, assinados e autenticados. O Consórcio da Recuperação dos Desertos Altos pôs-se a trabalhar. O Parlamento do Conflito governava Theradane completamente, mas era profundamente desinteressado das questões corriqueiras como limpar as ruas e organizar a papelada. Essas coisas eles deixavam para a burocracia estranhamente quase feudal e obscura da cidade, cujos funcionários eram livres para fazerem o que quisessem desde que as cercas vivas fossem aparadas e o dano das batalhas contínuas dos magos fosse reparado. Jade trabalhou com eficiência de dentro desse edifício. Ela avançou por toda a papelada necessária, forjou ou comprou as permissões essenciais, varreu todos os atrasos e audiências para baixo do tapete e depois pisou em cima dele. Brandwin contratou a equipe, uma dúzia de homens e mulheres corpulentos. Eles eram pagos por seu trabalho com um salário mínimo, mais outro pelo perigo ocasional da proximidade das batalhas de Ivovandas e mais uma vez essa quantia para manterem o bico calado. Por uma semana ou duas eles escavaram cuidadosamente os destroços de casas que um dia haviam sido imponentes, escondendo o que quer que tirassem das ruínas embaixo das lonas de suas carroças. Depois, Brandwin e Shraplin passaram uma semana reformando um trio de carroças para se tornarem carrinhos de venda móveis. Eles estenderam saias de madeira rodeando-os até o chão, instalaram toldos dobráveis e tetos robustos, entalharam placas e as pintaram de forma atraente. Uma das carroças foi equipada com prateleiras de livros, as outras duas viraram carrinhos de comida. O labirinto de subornos e autorizações necessários para começar esse tipo de negócio conseguia ser mais intimidante do que aquele que tinha antecedido a companhia de escavação. Jade se superou, tecendo chantagens e intimidações em uma tapeçaria de rabos presos eficiente. Se as placas de autorização que estavam penduradas nos carrinhos de venda eram genuínas ou cópias perfeitas era algo completamente irrelevante. Nenhuma complicação processual resistiu ao primeiro contato com a atenção de Jade. Com quatro meses faltando, Amarelle e Sophara começaram seus próprios negócios legítimos. Amarelle vendia livros na rua da Prosperidade até meia-noite, enquanto Sophara exercia a sua feitiçaria de precisão para as multidões da manhã na rua Galban. Ela cozinhava bolos congelados de nozes na forma de unicórnios e cocatrizes, fazia frutas frescas se espremerem sozinhas em copos de suco e seus figos e tâmaras fazerem discursos rudes enquanto os fregueses tentavam comê-los e rir ao mesmo tempo. À noite, ela e Amarelle trocavam de lugar. Em alguns dias, Brandwin trabalhava no terceiro carrinho, oferecendo doces e cerveja, mas por algum tempo ela ficou concentrada em várias modificações necessárias no corpo e nos membros de Shraplin. Essas modificações permaneceram escondidas na escuridão da sua oficina: Shraplin nunca saía em público usando algo além dos seus corpos normais. Em um belo dia na rua da Prosperidade, uma brisa errante abriu um dos livros de Amarelle e virou suas páginas. Ela se moveu para fechá-lo e ficou surpresa ao encontrar uma gravura detalhada em tons de cinza do rosto de Scavius olhando para cima em sua direção na primeira página. — Amarelle — disse a ilustração —, você parece ter um lado literário inesperado. — Não posso praticar meus antigos negócios — disse ela com os dentes trincados. — A grana está acabando. — Então você está explorando novos caminhos, hein? Novos caminhos? Nem um sorrisinho? Ah, tudo bem, que seja do seu jeito. Sabe que eu tenho que apagar você. Eu não sei quem ou o que motivou a esquisitice dos últimos meses... Amarelle folheou as páginas do livro de forma vingativa. A ilustração atravessou cada uma delas e continuou a falar calmamente quando Amarelle desistiu: — ...mas a coisa mais inteligente e esperta a se fazer seria transformar os seus ossos em vidro derretido e não correr nenhum risco. Contudo, preciso de provas da sua transgressão. Não posso simplesmente ignorar as taxas de santuário. As pessoas podem acabar parando de nos dar grandes pilhas de tesouros por esse privilégio. — Meus associados e eu estamos envolvidos em um negócio tedioso e legítimo — disse Amarelle. — Eu sei. Tenho espiado por baixo das saias de vocês, por assim dizer. Muito tedioso. Apesar disso, achei que deveríamos ter uma conversinha final. Uma pequena lembrança de que você deve continuar tediosa, ou eu consigo pensar em uma história que não vai ter um final feliz. O livro se fechou sozinho com força. Amarelle expeliu o ar de seus pulmões lentamente, esfregou os olhos e voltou a trabalhar. Os dias se passaram e o trabalho continuou dentro da lei. As mulheres começaram a mover seus carrinhos de venda com mais frequência, investindo um pouco de seus lucros em pequenos cavalos mecânicos para fazer com que esse trabalho ficasse mais fácil. Faltando três meses para o contrato acabar, os carrinhos que se moviam para cima e para baixo na rua da Prosperidade começaram a cruzar o caminho de carrinhos de outros lugares da cidade em uma dança complicada que sempre acabava com um carrinho sem identificação do Consórcio da Recuperação dos Desertos Altos fazendo uma silenciosa visita noturna a uma das mansões que eles estavam escavando. Outros dois meses se passaram, e não havia um lugar da rua da Prosperidade no qual Amarelle ou Sophara ou Brandwin não tivessem se acomodado pelo menos temporariamente, nenhum comerciante de quem não tivessem passado a saber o nome, nenhum policial que não tivessem amansado com comida grátis, boa cerveja e ocasionais livros de presente. Três dias antes de o prazo do contrato terminar, uma grande explosão sacudiu a extremidade norte da rua da Prosperidade, quebrando janelas e lançando pedestres fora da calçada. Uma mansão em uma propriedade particular foi encontrada em chamas, já desmoronando para dentro de si mesma. Uma grande carruagem preta estava destroçada diante dela, suas rodas de carnívoros arrebentadas, o teto esmagado, seu interior revelando nada além de assentos bem acolchoados e um piso acarpetado. No dia seguinte, Amarelle Parathis foi educadamente convocada à mansão da maga Ivovandas. 16. Doença engarrafada –Se eu estou satisfeita? A satisfação é um paliativo — disse Ivovandas, com seus dentes de ouro intricados brilhando com as luzes refletidas neles, as borboletas se agitando furiosas. — Satisfação é um vinho suave. Satisfação é uma mínima fração do que eu sinto. Deleite e realização vibram em meu peito como acordes triunfantes! Setenta anos de desdém improdutivo desse depravado, e agora a agonia dele é minha para ser contemplada quando eu quiser. — Estou tão contente que você tenha conseguido destruí-lo — disse Amarelle. — Você conseguiu chegar em casa a tempo do seu chá, depois que terminou? A maga dourada a ignorou e continuou observando o cilindro de vidro em sua mesa. Tinha quinze centímetros de altura e seis de largura, tampado com uma rolha de vidro temperado e selado com cera da cor de sangue seco. Dentro dele estava o miserável Jarrow, encolhido a uma proporção adequada e vestido de trapos. Ele tinha voltado (ou sido forçado a voltar) à forma de um pálido homem cadavérico com uma barba preta e prateada. — Jarrow — ela suspirou. — Jarrow. Ah, as leis da proporção e da simetria voltaram ao normal entre nós dois: meu prazer constante balanceado de forma precisa com seu desconforto e fracasso prolongados. — Então, obviamente — disse Amarelle —, você considera que eu consegui roubar a rua da Prosperidade de acordo com o contrato? Jarrow bateu no vidro com raiva. — Ah, obviamente, querida Amarelle, você se absolveu de maneira esplêndida! Porém a rua ainda está lá, não é? Ainda trafegada, ainda com seu comércio. Antes que eu pegue o seu cristal azul, você se importaria em oferecer uma explicação ao meu antigo colega e a mim? — Eu ficaria encantada — respondeu Amarelle. — Depois que todas as nossas outras abordagens falharam, decidimos tentar levar os detalhes ao pé da letra. A rua da Prosperidade é composta de mais ou menos 2.900 metros quadrados de superfície de tijolo e pedra. A pergunta que nos fizemos foi: quem realmente olha para cada tijolo e cada pedra? — Certamente não o pobre Jarrow — disse Ivovandas —, ou a garrafa dele não estaria prestes a se juntar à minha coleção. — Nós decidimos roubar cada metro quadrado da rua da Prosperidade fisicamente, cada tijolo e cada pedra — disse Amarelle. — O que nos levou a três problemas. Primeiro: como fazer isso sem alguém perceber o barulho e o tumulto que o nosso trabalho faria? Segundo: como fazer isso sem alguém se opor à bagunça perigosa e irregular em que a rua se tornaria por nossa causa? Terceiro: como sustentar o trabalho físico necessário para lidar com o enorme volume e tédio dessa tarefa? Respondendo primeiro ao segundo ponto, nós usamos o Consórcio da Recuperação dos Desertos Altos. Eles coletaram cuidadosamente todos os tijolos e pedras que nós precisávamos nas mansões que vocês dois destruíram em suas brigas. Um grande buraco foi aberto embaixo de cada um dos nossos carrinhos de venda, que nós levamos para cima e para baixo de várias ruas da cidade, não só a Prosperidade, por um tempo interminável, para eliminar qualquer suspeita de que nós tivessémos como objetivo o lócus de Jarrow. Jarrow bateu com a cabeça várias vezes contra a parte de dentro da sua prisão. — Finalmente se tornou seguro começar o nosso negócio de verdade. O resto vocês com certeza já devem ter adivinhado. O trabalho foi feito por Shraplin, um autômato, cujo encontro com Jarrow o deixou com muita vontade de suportar qualquer problema ou tédio para obter sua vingança. Shraplin utilizou braços de ferramentas forjados especialmente para ele por Brandwin Miris para retirar os tijolos e pedras originais da rua e colocar em seus lugares os tijolos e pedras tirados das mansões dos Desertos Altos. À noite, os detritos que ele gerava durante o dia eram jogados nas ruínas das mesmas mansões. Sobre o motivo de ninguém nunca ter ouvido as raspagens e batidas de Shraplin embaixo de nossos carrinhos, tudo o que eu posso dizer é que a nossa ilusionista é grande adepta da produção de barreiras à prova de som que servem em qualquer lugar e a qualquer propósito. Tudo o que restava fazer — prosseguiu Amarelle, se espreguiçando e bocejando — era passar os meses necessários posicionando cuidadosamente os nossos carrinhos sobre cada metro quadrado da rua da Prosperidade. Ninguém jamais percebeu que, quando nos movíamos, os pedaços de rua abaixo de nós tinham deixado de ser sutilmente o que eram uma hora antes. Até o momento em que retiramos o último tijolo que era realmente importante e o lócus de Jarrow virou apenas uma rua qualquer. — Me ajude! — gritou Jarrow, sua voz aguda e fraca como um sussurro no vento — Me tire de perto dela! Eu posso ser ele para você! Eu posso ser o Scavius! Eu posso ser qualquer um que você quiser! — Acho que já tivemos o bastante de você. — Ivovandas deslizou a prisão dele carinhosamente para uma gaveta de sua mesa, ainda sorrindo. Ela entrelaçou seus dedos e um cristal azul familiar apareceu entre eles. — Você sofreu de maneira bastante obstinada por isto aqui — disse Ivovandas. — Eu o entrego para você agora como a minha parte da barganha, iniciada de forma justa e concluída de forma justa. Amarelle pegou o cristal reluzente e o esmagou com seu salto. — Agora acabou? — perguntou ela. — Tudo restaurado à calmaria harmoniosa? Eu sigo o meu caminho e deixo você com Jarrow para seus próximos anos de conversas? — De certa maneira — disse Ivovandas. — Apesar de ter entregado corretamente a gravação no cristal da sua visita bêbada atrevida do ano passado, acabei de conseguir outra muito mais divertida na qual você confessa a extensão dos crimes que cometeu em Theradane e cita o envolvimento de vários dos seus amigos. — Sim — disse Amarelle. — Eu estava esperando alguma coisa desse tipo. Pensei que, já que era provável que fosse traída de alguma maneira, eu poderia pelo menos conseguir uma plateia interessada primeiro. — Eu sou a plateia mais interessada! Ah, nós poderíamos fazer tão bem uma à outra! Considere, Amarelle, os limites dos meus desejos e das minhas expectativas. Eu me considero competente em identificar os loci que meus colegas usam. Com Jarrow fora do caminho, vai acontecer um reequilíbrio das alianças em nosso Parlamento. Vai haver novos testes e novos conflitos. Eu vou observar com muito, muito cuidado e espero inevitavelmente ter outro alvo para você e seus amigos obterem em meu nome. — Você quer nos usar para derrubar o Parlamento do Conflito, lócus por lócus — disse Amarelle. — Até que ele fique mais parecido com o Parlamento da Ivovandas. — Pode não acontecer durante a sua vida — disse a maga. — Mas um progresso substancial pode ser feito! Enquanto isso, vou ficar bastante contente em manter você em liberdade na cidade, aproveitando seu santuário e fazendo o que quiser. Desde que você e seus amigos me atendam quando eu chamar. Não tenha dúvida de que vou chamá-los. 17. O trabalho à frente Amarelle os encontrou depois disso na ponte Emaranhasa, sob a luz roxa agradável do sol poente. A cidade estava quieta, os Desertos Altos em paz, nenhum fogo caindo das nuvens ou coisas berrantes enfiando as garras umas nas outras. Eles se reuniram em um arco em frente à estátua de Scavius. Sophara murmurou e sinalizou com os dedos. — Estamos na bolha — disse ela. — Ninguém pode nos ouvir nem mesmo nos ver a não ser que eu... Cale a boca, Scavius. Eu sei que você pode nos escutar. Você é um caso especial. Como foi tudo, Amarelle? — Foi como a gente esperava — disse Amarelle. — Exatamente como a gente esperava. — Eu disse que esses tipos de mago são todos uns pirados traiçoeiros e vaidosos — respondeu Sophara. — Qual é a jogada dela? — Ela nos quer como trabalhadores não remunerados para poder descobrir os loci de mais colegas dela e nos mandar atrás deles. — Parece uma boa maneira de passar o tempo, chefe. — Shraplin deu corda em uma manivela em seu peito, ressincronizando algum mecanismo que estava fazendo um pouco de barulho. — Eu não ia achar ruim derrubar mais alguns daqueles babacas. Ela nos pouparia um baita trabalho se conseguisse identificar os loci para a gente. — Concordo plenamente — disse Sophara. — Agora, fique quieta. Ela passou os dedos pelos cabelos de Amarelle e, depois de algum tempo procurando cuidadosamente, puxou delicadamente um único fio de cabelo preto encaracolado. — Aí está o meu espiãozinho — disse Sophara. — Estou feliz que você tenha me trazido aquele que Ivovandas escondeu em você, Am. Eu nunca teria aprendido como fazer essas coisas serem tão sutis se não tivesse aberto e fuçado aquele outro. — Você acha que ele vai contar o bastante? — perguntou Brandwin. — Eu duvido, honestamente. — Sophara deslizou o cabelo para dentro de uma carteira e sorriu. — Mas ele vai me deixar dar uma boa olhada em tudo o que foi permitido que Amarelle visse, e isso é muito melhor do que nada. Se conseguirmos identificar os hábitos e padrões dela, a vaca vai começar a desenhar para a gente algumas pistas sobre a localização de seu próprio lócus. — Splat! — fez Brandwin. — Sim! — respondeu Sophara. — E essa definitivamente é a minha ideia de um parque de diversões. — Eu devo conseguir mandar algumas mensagens para fora da cidade — disse Língua-deJade. — Algumas pessoas que estão sedentas pelo nosso sangue odeiam o Parlamento do Conflito mais ainda. Aposto que, se nós conseguirmos fazer alguns acordos com eles antes de acabar com os magos, poderemos comprar nossa passagem de volta para o resto do mundo. O santuário de Theradane ao contrário, pelo menos em alguns lugares. — Gosto da maneira que vocês pensam — disse Amarelle. — Ivovandas como um cão farejador e, assim que nós abatermos a caça, abandonamos a cadela no rio. Ela e todos os amigos dela. Quem é que está com o vinho? Jade pegou uma garrafa, algo caro, com um tom de cornalina e bioluminescente. Eles passaram a garrafa de um para outro, e até mesmo Shraplin jogou um trago cerimonial contra seu queixo. Amarelle se virou com a garrafa pela metade e olhou para a estátua de Scavius. — Aqui está, seu babaca. Acho que não estamos tão aposentados quanto tínhamos pensado. Cinco ladrões indo para a guerra contra o Parlamento do Conflito. Insano. O tipo de probabilidade que você sempre preferiu. Você vai tentar pensar que nós melhoramos? E, se não puder, vai pelo menos manter alguns dos pedestais aquecidos? Afinal de contas, nós talvez tenhamos um futuro como postes de rua. Beba uma por nossa conta. Ela quebrou a garrafa na placa dele, e eles observaram o vinho brilhante e efervescente correr pelo mármore. Depois de alguns instantes, Sophara e Brandwin foram embora de braços dados para o norte, na direção da rua Emaranhasa. Shraplin as seguiu, e depois Jade. Amarelle permaneceu sozinha sob a luz branca do que quer que tivesse sobrado de Scavius. O que ele sussurrou para ela naquela hora, ela manteve para si. Correu para alcançar os outros. — Ei — disse Jade. — Que bom que você voltou! Você vem para a Marca do Fogo Caído com a gente? Nós vamos jogar. — Sim — respondeu Amarelle, e o ar de Theradane estava com um gosto melhor do que teve em meses. — Podem ter certeza de que nós vamos jogar! 

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