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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 66

MOEDAS DE PRATA

– MAIScafé, Sr. Hendrick? Capitão América franziu a testa e ajeitou a gravata. O bigode de mentira lhe dava coceira. – Sr. Hendrick? Capitão levantou o olhar e viu uma jovem garçonete segurando uma jarra de vidro de café. Ele balançou a cabeça; ela revirou os olhos e se afastou. Golias riu. Debruçou-se sobre a mesa, puxou o crachá da camisa de trabalho do Capitão. – Você não tem jeito com as mulheres mesmo, Hendrick. Quatro deles estavam sentados à mesa: Capitão, Golias, Demolidor e Luke Cage, todos disfarçados. Golias usava uma jaqueta de couro desgastada; Demolidor estava quase irreconhecível com uma camisa branca, colete e óculos coloridos estilosos. O Capitão franziu a testa. – Meu nome é Brett Hendrick – repetiu ele pela quarta vez, baixinho. – Sou supervisor de segurança em um shopping no Queens. – Isso mesmo – disse o Demolidor. – Agora, eu me chamo Cooper Peyton e sou engenheiro elétrico em Long Island. – Victor Tegler – anunciou Golias. – Assistente social, trabalhando no Harlem. Cara, sei lá, sou um garoto da costa oeste. O Demolidor deu de ombros. – Homens maiores que você começaram em associações comunitárias. – Cage? Luke Cage tirou os olhos de suas anotações. O corpo musculoso estava apertado dentro de um terno preto, e ele parecia visivelmente desconfortável. – Que tipo de nome é esse, Rockwell Dodsworth? – questionou ele. – E, pelo amor de Deus, consultor de TI em uma grande multinacional da área financeira? Pedi algo legal, tipo piloto de corrida. Produtor musical, talvez. O Demolidor franziu a testa. – Foi o que o meu contato tinha disponível. – Matt se arriscou nos arranjando essas novas identidades – concordou Capitão. – Ele pode ter a licença de advogado cassada por isso. – Ah, claro – o Demolidor quase sorriu. – É exatamente com isso que estou preocupado. – Além disso, as identidades não são importantes. É apenas um lugar para onde ir quando não estivermos fazendo coisas importantes. – Estou mergulhando nessa história de nova identidade – confessou o Demolidor. – Estou experimentando comidas novas, novos filmes favoritos. Novas bandas. Capitão analisou o aventureiro cego por um momento. Estavam na clandestinidade há duas semanas, uma época de difícil adaptação. Mas, aparentemente, a experiência dera ainda mais energia ao Demolidor. Desde que Capitão o conhecera, ele era o vigilante sério e implacável, com uma tendência niilista. Agora ele parecia alerta, decidido. Às vezes mudança é bom. – Ah, esquece – Cage esticou os braços e fez uma careta. – Só estou dolorido ainda da surra que demos no Sexteto Sinistro ontem. – Você está dolorido? – Golias deu um tapa nas costas dele. – Cara, eu tive que crescer e ficar com cinco metros e meio de altura pra conseguir derrubar o Rino. – Foi um ótimo trabalho – elogiou o Demolidor. – E nós só estamos começando, certo, Capitão? – Hum? Desculpem – Capitão América levantou o olhar. – Só estava pensando em um compromisso que tive de adiar com uma criança da Fundação Faça-Um-Desejo. Eu prometi ao garoto que jogaríamos beisebol no quintal dele hoje, mas o lugar deve estar infestado com os mata-capas do Tony. – Que merda – reclamou Golias. – São as pequenas coisas que roubaram de nós – comentou o Capitão – com essa baboseira de registro. As pequenas coisas que fazem de nós quem nós somos. – Exatamente – um sorriso maroto atravessou o rosto negro de Cage. – Hendrick. – Cala a boca, Rockwell. A garçonete chegou, trazendo a comida. Os quatro homens atacaram, como se não comessem há semanas. – Ainda não consigo acreditar no Homem-Aranha – começou Golias. – Você acha que Tony está controlando ele ou coisa parecida? Através daquele novo traje? – Tony não se rebaixaria a isso. Não satisfaria o seu ego. Ele quer que todo mundo concorde com ele, que veja transparência em todos os seus atos. – E eu conheço Peter. Ele é fácil de impressionar – o Demolidor franziu a testa. – Naquele dia em Stamford, eu percebi que ele já estava sob a influência de Tony. – Estrategicamente, foi um golpe brilhante. Ninguém guardava tão bem a identidade secreta como o Homem-Aranha. A revelação dele foi uma mensagem poderosa para todos os heróis que ainda estão em cima do muro. Os celulares do Capitão e de Golias começaram a tocar ao mesmo tempo. Capitão olhou para a tela e levantou rapidamente. – O que houve? – quis saber Cage. Golias leu em voz alta. – Incêndio em fábrica petroquímica, perto do rio. A base diz que tem trezentas ou quatrocentas pessoas presas lá dentro. Capitão interceptou a assustada garçonete. – Pode ficar com o troco. E obrigado pela ótima refeição. Ela olhou para a nota de cem dólares em sua mão. – Uau! Obrigada, Sr. Hendrick. – Pode me chamar de Brett. Capitão acenou e o resto deles o seguiu para a entrada dos fundos. Teclou um número para ligação rápida em seu telefone. – Gavião Arqueiro, qual é sua posição? – Só estou tentando treinar essas crianças. Precisa de nós? – Preciso sim. Venha e traga todo mundo com você – Capitão desligou e discou outro número. – Falcão? – A caminho. Tigresa, Manto e Adaga estão comigo. – Câmbio. Cage abriu a porta do restaurante que levava a uma pequena viela. Sentiu um cheiro forte de urina e lixo. As janelas das casas de trás estavam fechadas. – Angustiantes ligações de emergência. Fugas para vielas, trocas de trajes – Golias sorriu, tentando se livrar da jaqueta de couro. – Detesto ter que dizer, mas estou começando a gostar disso. Fumaça verde subia da fábrica petroquímica Geffen-Meyers, escura e ameaçadora na luz do crepúsculo. Capitão conseguiu sentir o cheiro a quadras de distância. O prédio da fábrica ficava de frente para a água, assim era difícil compreender os detalhes do incêndio vendo da rua. Um círculo de carros da polícia local cercava o prédio, luzes piscando. Capitão marcou rapidamente uma reunião no estacionamento do outro lado da rua. Quando todos estavam reunidos, ele puxou Wiccano e Manto para um canto. Ambos pareciam nervosos, inseguros. – Vocês vão ser os responsáveis pelo teletransporte – informou o Capitão. – Pode haver pessoas morrendo dentro da fábrica, e não conseguiremos atravessar aquela linha de policiais de outra forma. Acham que conseguem carregar todos nós entre vocês dois? Wiccano franziu a testa. – Consigo transportar a minha equipe. Talvez mais dois ou três. – Manto? Manto olhou em volta, assustado. Adaga, namorada dele, segurou sua mão. – Posso fazer isso, senhor. Capitão, Tigresa, Falcão, Wiccano e os Jovens Vingadores se materializaram dentro da fábrica primeiro. O telhado da fábrica havia desmoronado, e várias explosões aparentemente haviam furado o chão. Pequenos pontos de incêndio permaneciam, água esguichava de vários canos. Paredes parcialmente derrubadas, impedindo o acesso a certas partes do complexo; um lado inteiro do prédio havia sido exposto, sendo possível ver tudo do píer, onde um deque de carregamento estava destruído, suas colunas caindo na água. Fumaça verde se espalhava pelo ar, formando camadas tóxicas em todo o lugar. – Cara – Tigresa levou um dedo peludo até o nariz sensível. – Este lugar fede. No meio do salão, uma capa preta girou transformando-se em um ser. Capitão ficou tenso – e observou Gavião Arqueiro, Demolidor, Cage, Golias e Adaga chegarem tropeçando e tremendo de frio. – Está tudo bem – avisou Adaga. – O frio já vai passar. Capitão balançou a cabeça. Esses dois só tinham um ao outro; Manto dependia da Adaga para sobreviver. Como alguém podia pedir para dois jovens como eles se registrarem, entregarem suas vidas ao governo? – Todos presentes – confirmou Falcão. Demolidor abaixou-se para pegar algo no chão. Capitão se virou para ele. – Dólar de prata – afirmou o Demolidor. – Tem alguma coisa errada – Capitão estreitou os olhos. – Quantos funcionários o relatório dizia? – Trezentos ou quatrocentos – Golias franziu a testa, olhando para o dispositivo em sua mão. – Não estou recebendo nenhum sinal de rádio deste lugar… Golias parou, olhando para o chão. Falcão veio atrás dele, com Capitão logo em seguida. – O que é isso? Então, todos eles viram. Uma placa de parede caída dizia com letras esculpidas: GEFFEN-MEYERS UMA DIVISÃO DA STARK ENTERPRISES – Evacuação de emergência! – gritou o Capitão. – É uma armadilha… Tarde demais. Dardos tranquilizantes voaram do céu. Tigresa desviou com um salto, Falcão alçou voo. Gavião Arqueiro encaixou uma flecha no arco mais rápido do que os olhos pudessem ver. Mas os tranquilizantes só atingiram dois membros: Wiccano e Manto. – Tyrone! – gritou Adaga, que correu até Manto, pegando seu corpo que caía. Capitão olhou para cima. Nove metros acima, ele viu a silhueta de pelo menos seis helicópteros pesados da S.H.I.E.L.D. no céu, o ruído de seus motores abafado pela tecnologia de modo furtivo da Stark. Um dos helicópteros girou, e um homem armado apareceu em sua lateral, a luz da lua refletindo no cano da arma. – É claro que é uma armadilha. De que outra forma iríamos reunir todos vocês em um lugar só? Capitão se virou, levantando o escudo. A armadura brilhante do Homem de Ferro pairava sobre uma meia parede quebrada, os raios propulsores acesos mostrando todo o seu poder. E Homem-Aranha estava atrás de Tony, saltando e disparando suas teias. – Não faça isso, Bandeiroso. Capitão fez uma careta, acenando para a sua equipe recuar. Todos foram para trás dele e retrocederam até a lateral aberta da fábrica, que ficava de frente para o rio. O restante das forças de Tony Stark marchava atrás de seu líder, surgindo lentamente através da neblina verde. Miss Marvel. A musculosa Mulher-Hulk. Três membros do Quarteto Fantástico: Reed e Sue Richards e Ben Grimm, o Coisa. Viúva Negra. Adaga levantou os olhos do corpo imóvel de Manto. – O que vocês fizeram com ele? Homem-Aranha levantou a mão. – Só um pouquinho de tranquilizante, menina. Só pra garantir que ninguém vai se teletransportar de novo – Aranha levantou a cabeça, olhando para cima. – Pássaro Um, está em posição? Uma voz grosseira e abafada encheu o ar. – Com certeza. É só dar as ordens. Por favor, dê as ordens. Capitão fez uma careta. Reconheceu a voz: seu antigo “parceiro” da S.H.I.E.L.D. Agente Axton. Então, a voz de Maria Hill irrompeu. – Sr. Stark. Estamos a postos e prontos para acabar com isso… – Faremos isso do meu jeito, Comandante – informou Tony. – Ou pode abortar a missão agora mesmo. Foi possível escutar o suspiro de Hill. – Diretora Hill para todas as unidades aéreas. Não disparem. Repito, não disparem e esperem novas ordens. Todos os olhos estavam no Homem de Ferro e no Capitão América agora. Capitão endireitou os ombros e, com passos firmes, caminhou diretamente até Tony Stark. – Pegando leve, Tony? – Não viemos aqui pra prendê-lo, Capitão – Tony apontou para cima, para os helicópteros. – Convenci a S.H.I.E.L.D. a lhe dar uma última chance de anistia. – Você quer dizer rendição. Não, obrigado. – Deixa disso, Capitão – Homem-Aranha saltou e aterrissou ao lado de Tony. – Quando lutamos uns contra os outros, só os maus se dão bem. Isso vai contra todos os princípios em que você sempre acreditou. Capitão encarou o Homem-Aranha. O novo traje, com seus brilhantes olhos de metal, lhe conferiam uma aparência bem menos humana do que antes. Capitão quase conseguia visualizar o garoto se transformando por dentro, como um inseto em um casulo, em uma nova versão do Homem de Ferro. – Não venha me falar de princípios, Homem-Aranha. Vi seu pequeno show na TV. Sua Tia May ficou feliz agora que o Abutre já sabe o seu CEP? Homem-Aranha cerrou os punhos. – Por que você não pergunta aos pais e mães de Stamford se eles acham que o Capitão América ainda está do lado dos bons? Aranha deu um passo na direção do Capitão, que ficou tenso, e os dois homens se encararam por um longo momento. Em seguida, Tony entrou no meio deles, tirando lentamente o capacete para revelar seu rosto. Parecia muito cansado. – Capitão, por favor. Sei que está com raiva, e sei que isso é uma tremenda mudança na forma como sempre trabalhamos. Mas não vivemos mais em 1945 – Tony apontou para trás do Capitão, para a Resistência. – O público não quer mais máscaras e identidades secretas. Eles querem se sentir seguros quando estivermos por perto. Nós perdemos a confiança deles, o respeito. Essa é a única forma de reconquistá-los. – Você me conhece metade da minha vida adulta, Capitão. Sabe que eu não faria isso se não acreditasse de todo coração. Não quero brigar com você, nenhum de nós quer. Só peço uma coisa… deixe-me contar o meu grande plano para o século XXI. Reed Richards alongou o pescoço, cortando o ar como uma cobra. – É realmente extraordinário. Capitão notou que Sue Richards estava fitando o marido. Não parecia muito feliz. Nem Ben Grimm. – Cinco minutos – Tony levantou a mão com luva de metal. – Só me dê isso. Capitão virou-se para a sua tropa. Cage parecia muito sério. Os olhos de Tigresa estavam arregalados, quase selvagens. Golias crescera para dois metros e meio, mas estava encolhendo. Adaga ainda estava ajoelhada ao lado do parceiro caído, e os Jovens Vingadores estavam em volta do corpo adormecido de Wiccano. Demolidor estava encostado na parede, sozinho. Brincando com a moeda que acabara de encontrar. Os tenentes mais próximos do Capitão, Gavião Arqueiro e Falcão, estavam parados juntos. Ambos inclinaram a cabeça para ele: você que sabe. Ele olhou para Tony de novo. – Cinco minutos. – Só preciso disso. Devagar, Capitão estendeu a mão e apertou a de Tony. Ele sentiu o frio do metal da luva de Tony mesmo através de sua luva. O sorriso do Homem-Aranha era quase visível através da máscara. – Beleza! Não falei que isso ia dar certo? Então, Tony puxou a mão e olhou para ela. – O que diabos é isso? Uma luz azul saiu da mão de Tony, envolvendo toda a sua armadura metálica. Seu corpo começou a ter espasmos incontroláveis e ele gritou de dor. Capitão deu um passo atrás. – Um antigo embaralhador eletrônico da S.H.I.E.L.D. – explicou ele, apontando para o pequeno dispositivo na luva de Tony. – Fury me deu anos atrás. – Por… por quê? – Para o caso de você se bandear para o lado errado. Homem-Aranha se aproximou. Mas Tony acenou para ele voltar, fazendo uma careta de dor. Os outros super-heróis da equipe de Tony – Mulher-Hulk, o Coisa, Miss Marvel – se colocaram a postos, esperando um sinal. A Resistência se preparou, cercando seu líder. Homem de Ferro se contorcia no chão, lutando para recuperar o controle de sua armadura. Capitão abaixou o olhar para encará-lo. – O seu grande plano está me parecendo mais a Alemanha de 1940. O que você planeja fazer exatamente com quem não se registrar? – Você não… entende – disse Tony, sem fôlego. Seu rosto ainda estava à mostra, o capacete cintilando azul em cima de sua testa. Ele se esforçava para levantar. – Eu só entendo uma coisa. Vocês derrubaram dois dos meus garotos. Capitão deu um soco no maxilar dele, um golpe poderoso. O soco que sempre quis dar em Hitler, Mussolini, Stalin. A cabeça de Tony caiu para trás, sangue esguichando no ar. A fábrica se tornou um campo de batalha. Miss Marvel levantou no ar, lançando poderosas rajadas; Falcão alçou voo para encontrá-la, suas asas batendo alucinadamente. Gavião Arqueiro pegou seu arco, incitando os Jovens Vingadores a atacarem – mas o Coisa e Mulher-Hulk formavam uma barricada ao estilo futebol americano, bloqueando o caminho deles. Golias cresceu quase três metros, depois quatro, levantando os braços ameaçadoramente para todos que se aproximavam. Poderosas facas de luz dispararam das mãos da Adaga, soltando faíscas ao atingir o traje de metal do Homem-Aranha. Demolidor e Viúva Negra se cercavam, subindo e descendo as meias paredes em um ballet sombrio. Ele arremessou seu cassetete, errando a cabeça dela por pouco. Capitão chutou a cabeça de Tony e escutou um estalo eletrônico. As lentes da armadura do Homem de Ferro cintilaram enquanto um último curto-circuito a desarmava. E então, ele ficou imóvel. Um zunido veio de cima. – Olhem pro céu, pessoal! – Mas quando o Capitão olhou para cima, os helicópteros da S.H.I.E.L.D. estavam subindo e se afastando. Capitão franziu a testa, depois saltou para trás no momento em que Tigresa aterrissava na frente dele, retalhando o corpo musculoso da Mulher-Hulk. As duas mulheres lutavam violentamente. Tigresa mostrava sua velocidade e fúria, mas os golpes poderosos da MulherHulk estavam fazendo estrago também. Tigresa estendeu os braços, abrindo fendas na pele verde da inimiga. Mulher-Hulk uivou, pulou em cima de Tigresa. Elas rolaram… … e Capitão se viu frente a frente com Reed Richards. – Capitão – Reed estendeu a mão alongada. – Por favor… Algo chamou a atenção do Capitão. Ele estendeu a mão e tirou um pequeno transceptor da orelha de Reed, que tentou pegar de volta, mas foi muito lento. Capitão saiu correndo para o outro extremo da fábrica, ignorando os chamados de Reed. Colocou o transceptor na orelha e escutou a voz de Maria Hill: – … unidades aéreas: não invadam. Repito, não invadam, a não ser que ultrapassem o perímetro. Preparem-se para ativar o protocolo Niflhel ao meu… ao comando do Homem de Ferro. Até lá, permaneçam em suas posições. O Coisa acertou o maxilar de Hulkling com força. – Não queria brigar com você, cara! – disse o Coisa. – Por que vocês não podem simplesmente obedecer? O caos se generalizou. Falcão e Miss Marvel continuavam sua batalha aérea; Demolidor caiu, tropeçando depois de ser atingido pelo ferrão da Viúva Negra. Luke Cage havia se juntado à briga de Tigresa contra Mulher-Hulk. Gavião Arqueiro estava indo atrás do Capitão, disparando flechas a cada passo. – Estamos em maior número, Capitão – disse ele. – Mas eles têm muito mais músculos do lado deles. E helicópteros. O Capitão assentiu, sério, seguindo em direção à parede dos fundos da fábrica de produtos químicos. Acenou para cima, para Golias, que agora estava com cinco metros. Golias assentiu e gritou: – TODOS PRA ÁGUA! Então, o Coisa acertou uma das pernas do Golias, enquanto Mulher-Hulk socava a outra. Quando ele atingiu o chão de concreto, todo o prédio tremeu. Patriota saiu correndo atrás do Capitão, arremessando suas estrelas para trás, no Homem-Aranha. O lançador de teias seguia logo atrás do Patriota, mexendo rapidamente os tentáculos de metal, em um silêncio furioso e pouco característico. As estrelas ricocheteavam inofensivas em seu uniforme vermelho e dourado, produzindo sons de impacto. Capitão levantou seu escudo – e o Homem-Aranha desapareceu. – Pra… pra… – o Patriota virou-se para Capitão. – Pra onde ele foi? – Homem-Aranha está usando um novo traje projetado por Stark – os olhos do Capitão procuraram furiosamente pelo ar. – É à prova de balas, plana e tem função furtiva… – E você se esqueceu do botão porrada. Antes que Capitão pudesse reagir, Aranha apareceu – de repente, silenciosamente, no ar, a poucos centímetros dele. Capitão desviou para o lado, evitando por pouco uma rajada de teia. Mas os tentáculos do Aranha se agitaram no ar, arrancando o escudo das mãos do Supersoldado. Homem-Aranha deu um chute forte e Capitão caiu para trás no chão acidentado. Capitão rolou de costas e olhou para o Homem-Aranha. Mas o que viu foi apenas Falcão descendo. – Capitão! Cuidado! E, de repente, o Homem de Ferro já estava em cima dele. Capacete abaixado, olhos vermelhos brilhando com poder, cada centímetro do Vingador imbatível. Tony agarrou Capitão pelos ombros, levantando-o no ar. – Melhorei o tempo de reboot da minha armadura, Capitão. Impressionado? Tony o levantou sobre sua cabeça e o arremessou contra uma parede. – UGGGHHHHHHH! Brilhantes fosfenos nadaram diante dos olhos do Capitão. Ao longe, ele escutava os sons do combate à sua volta. Levantou os braços como um boxeador, protegendo o rosto ensanguentado. Mas um golpe de Homem de Ferro o atingiu no estômago, fazendo-o se dobrar de dor. Jogou-se no chão, chutando cegamente. Errou. – Está perdendo seu tempo – continuou Tony. – Essa armadura gravou todos os golpes que você deu na vida. Ela sabe qual será o seu próximo movimento antes mesmo que você saiba. Ele deu um soco no rosto do Capitão. Uma vez, duas. Capitão escutou um estalo repugnante. Sentiu gosto de sangue onde antes havia um dente. O mundo estava se esvaindo. Uma voz… Gavião Arqueiro?… disse: – Ele está matando o Capitão! Capitão escutou um estalo estranho no ouvido, seguido por um turbilhão de vozes. Primeiro, achou que estava tendo alucinações, mas então se lembrou: o transceptor da S.H.I.E.L.D. – Situação saindo do controle. – Mais três dúzias de unidades mata-capas cercando o perímetro. Em seguida, Maria Hill: – Quero todos a postos. A ordem virá de Stark. Ativar Protocolo Niflhel. Tudo que Capitão conseguia ver era o rosto cintilante do Homem de Ferro, tremulando e piscando. – Desculpe, Capitão – disse Tony. – De verdade. Atrás de Tony o céu parecia acender. Uma chuva de raios caía, fazendo um barulho ensurdecedor, arremessando Falcão e Miss Marvel para longe. Os raios atingiram a fábrica de produtos químicos, bem no meio, rachando o concreto, fazendo Cage e Gavião Arqueiro perderem o equilíbrio. Capitão protegeu os olhos da luz ofuscante. Quando conseguiu ver, a visão que teve o chocou. Uma coluna de luz se erguia do chão da fábrica, raios saindo dela em todas as direções. E no centro dos raios, com o martelo erguido, estava a forma furiosa e altiva do poderoso Thor.

QUANDOa briga começou, Sue Richards recorreu à sua artimanha de costume. Ficou invisível. Estava totalmente relutante em ir à fábrica de produtos químicos. Mas Reed a assegurou, várias vezes, que Tony tinha tudo planejado, que nada poderia dar errado. Ele disse que era importante que todos eles estivessem lá, para mostrar apoio, para provar ao Capitão América que a maioria dos heróis acreditava na Lei de Registros. Ele pediu que ela pensasse nos filhos deles, no tipo de mundo em que queria que Franklin e Valéria crescessem. E então, Reed desapareceu, levado para o aeroporta-aviões da S.H.I.E.L.D. na companhia de Tony Stark. Encontro você lá, disse ele. E, com a mesma pressa de sempre: Eu te amo. Agora Sue estava de pé, protegida atrás de uma parede de concreto quebrada, assistindo ao deus do trovão renascer e evocar raios do céu. O martelo de Thor estalava e faiscava, e começou a chover em cima da fábrica destruída. Lá em cima, os helicópteros da S.H.I.E.L.D. giravam, saindo de seu curso para evitar os raios sobrenaturais. Sue ainda estava invisível. A voz metálica de Tony soou no dispositivo em seu ouvido. – Ninguém se aproxime. Ela observou através da chuva que caía quando Mulher-Hulk, Miss Marvel e HomemAranha se afastaram da fonte dos raios. Não conseguia ver o Capitão América, mas alguns membros da resistência – Luke Cage, Adaga, Patriota e Hulkling dos Jovens Vingadores – se aproximavam lentamente do deus do trovão. Falcão desceu do céu. – Thor? – questionou ele. Thor virou os olhos escuros e cintilantes na direção dele. Tem alguma coisa diferente no Thor, pensou Sue. Ele parece… maior do que antes. Gigantesco, cheio de poder. Malévolo. – Thor, o que você está fazendo? Sou eu, cara. Falcão. Gavião Arqueiro franziu a testa, enxugando a chuva dos olhos. – Nós todos achávamos que você estava morto, cara. Thor não falou. Apenas estreitou os olhos, furioso, mostrando seu desdém divino. Uma gota de saliva surgiu no lábio dele, depois sumiu junto com a chuva. Ele levantou o martelo novamente e o arremessou, com uma velocidade incrível, em direção aos membros da Resistência que estavam reunidos. Atingiu Falcão na barriga, fazendo-o perder o equilíbrio e cair sobre Gavião Arqueiro. Tigresa conseguiu saltar a tempo de desviar do voo dos corpos deles. O martelo levantou voo como se nada o tivesse interrompido, esfolou o rosto de Golias, arrancando sangue. Estatura, a jovem vingadora que mudava de tamanho, encolheu bem a tempo de sair de seu caminho; mas Adaga não teve tanta sorte. O martelo a atingiu diretamente, fazendo-a voar em cima de Célere e Patriota. Luke Cage deu um passo à frente, gritando: – Eu pego! Sue se lembrou de que a pele de Cage era dura como aço. Mas não dura o suficiente. Cage rangeu os dentes, estufou o peito na direção do martelo voador. Atingiu-o com uma força tremenda – e ele voou para trás, para fora da fábrica. Voou por cima da água, os braços sólidos se debatendo, e mergulhou bem longe dali. Sue olhava à sua volta freneticamente, procurando Reed. Lá estava ele: do outro lado da fábrica, uma mancha azul se esticando. Observando cada movimento, como um biólogo assistindo ao nascimento de um novo tipo de micro-organismo. Às vezes, Sue odiava a curiosidade científica dele. Permitiu-se aparecer e acenou para ele. Reed a viu, tentou sorrir e acenou para que ela fosse até ele. Ela fez uma careta, assentiu e ficou invisível novamente. Sue seguiu em direção ao marido, contornando a cena de ação, mantendo uma distância segura de Thor. O deus do trovão continuava de pé, com uma postura de desdém, os olhos embrutecidos seguindo o longo arco de seu martelo no ar. Ao contornar a fábrica, Sue viu de relance vários pequenos dramas, todos iluminados por uma série de raios: Flash: No limite da fábrica, Demolidor e Viúva Negra corriam um atrás do outro pelas paredes quebradas, através de janelas estilhaçadas, aparecendo e sumindo na forte chuva. No topo de um recipiente químico, Demolidor parou e olhou para trás para Viúva Negra, a decepção estampada em seu rosto. Sue teve a impressão de ver os lábios dele formando as palavras: Você não sabe o que é liberdade. Viúva mirou cuidadosamente seus ferrões, disparando vários. Demolidor tentou se esquivar, mas foi lento demais. Os disparos o atingiram; arqueou o corpo de dor, e então caiu. Quando o alcançou, a expressão da Viúva Negra era uma mistura de desdém e arrependimento. Flash: Um raio desceu para o canto onde Wiccano e Manto estavam deitados, inconscientes. Hulkling – o fortão dos Jovens Vingadores – ficou de pé em um salto e pegou o raio antes que atingisse Wiccano. Hulkling gritou conforme o raio atravessava seu peito. Em seguida, caiu em cima do corpo imóvel de Wiccano. Ele tem poder de cura, lembrou-se Sue. Eu acho. Flash: Adaga levantou-se do chão, fazendo uma careta de dor, seu pequeno corpo molhado. – Ah, meu Deus! – exclamava ela, sua voz quase inaudível por causa da tempestade. – Isso está errado. Temos de sair daqui. Isso está muito, muito errado… Thor levantou sua forte mão e agarrou o martelo, interrompendo seu voo. Raios emanaram dele de novo, como mais um aviso dos deuses. A Adaga está certa, pensou Sue. Alguma coisa estava muito, muito errada. Olhou à sua volta, novamente à procura de Reed. Quando o mundo se tornou isso? A Resistência estava começando a se reagrupar. Patriota, Célere e Estatura estavam alinhados, protegendo os camaradas caídos. Gavião Arqueiro e Falcão trocaram palavras frenéticas, apontando para Thor. Thor apenas sibilou, levantando o martelo lentamente no ar. Tony, pensou Sue de repente. Onde está o todo-poderoso Tony Stark? Em seguida, Thor pareceu jogar seu corpo para frente, colocando todo seu peso em cima do martelo, que atingiu o chão como um bate-estacas. O chão pareceu explodir em um flash de luz que cegou a todos. Caos. Gritos. Os membros da Resistência estavam mais perto, assim foram mais duramente atingidos; mas Sue viu o corpo encolhido de Reed se debatendo no ar. Seu campo de força foi acionado quase que por instinto, amortecendo o pior do impacto, mas ela também perdeu o equilíbrio. Bateu contra uma parede, gemendo de dor… … e viu, a uns dois metros dali, Capitão América. Ensanguentado, surrado, o rosto contorcido de dor. No chão, encostado em uma parede, a chuva empoçada em volta de seu corpo forte, com o poderoso Homem de Ferro em pé sobre ele. Homem-Aranha estava agachado, logo atrás de Tony. – Capitão – pediu Tony –, por favor, não levante. Não quero mais bater em você. Capitão gemeu, colocou a mão nas costas em busca de apoio. Tentou levantar, e não conseguiu. – Seu maxilar está quase pendurado – continuou Tony. – Renda-se e prometo providenciar tratamento médico para você. A S.H.I.E.L.D. tem médicos de plantão. – S.H.I.E.L.D. – repetiu o Capitão. Soou como uma maldição. Ele fez uma careta e ficou de pé com muita dificuldade. Levantou os olhos sujos e irados para o inimigo vermelho e dourado. – Você realmente acha que vou me render – sussurrou ele – para um playboy mimado feito você? Eu deveria dizer alguma coisa, pensou Sue. Deveria impedir que continuem. Mas ela se sentia impotente, paralisada. Sue se deu conta do que aquilo se tornara: uma batalha irreconciliável entre Homem de Ferro e Capitão América, cada um deles absolutamente convencido de que sua causa era justa. Nada podia detê-los, nem deuses, nem vilões, nem mesmo seus amigos heróis. Essa batalha continuaria até que um dos dois estivesse morto. Homem-Aranha tentou interceder. – Deixa comigo, Tony – Foi em direção ao Capitão, como um cintilante inseto recémnascido. Mas Tony balançou a cabeça, deu um passo atrás. Apertou um botão em sua luva. – Homem de Ferro para todas as unidades – a voz dele soou alta no transceptor de Sue. – Ativem seus bloqueios de áudio. Então, ele se virou para o Capitão e disse: – Isso vai doer. Gritos terríveis encheram o ar, parecendo esfaquear os ouvidos de Sue. Uma agonia indescritível. Ela caiu de joelhos, segurando a própria cabeça. Sentiu o cheiro de Reed antes de vê-lo, sentiu os longos dedos dele dançando por seu rosto. Ele alcançou sua orelha e apertou um botão no transceptor. O barulho diminuiu para um gemido baixo, quase inaudível. – Foi mal – disse ele. – Não tive tempo de lhe contar sobre essa parte do plano. Que bom que você ficou visível quando foi atingida pela frequência das ondas. – Ele sorriu um sorriso cansado. – Que bom que você está bem. Ela o encarou por um momento. O familiar sorriso tímido, o pescoço alongado. O rosto dele tocando o seu. Então, ela escutou os gritos. Os membros da Resistência se contorciam no chão, gemendo de agonia. Não tinham nenhuma proteção contra o ataque auditivo de Tony. Capitão América ficou de joelhos, a boca aberta em um grito silencioso. – Você é um velho durão – disse Tony –, devo admitir. Essa frequência trava o cérebro humano. Mas olhe pra você, ainda tentando se levantar. Capitão abaixou o olhar e cuspiu. – Vai ser rápido – continuou Tony. – Feche seus olhos e acordará em nosso novo centro de detenção. – Isso é horrível – murmurou Sue. – Também não gosto disso – admitiu Reed. – Mas, pelo menos assim, não tem ossos quebrados. Outro raio. Reed virou-se para olhar para Thor, majestoso e cruel no centro da carnificina. Chuva pingava de seus cabelos louros, mal o tocando. – Thor – chamou Reed. – Pode parar. O esquadrão de limpeza da S.H.I.E.L.D. assume daqui. – Peter – disse Tony. – Os prisioneiros ficam por sua conta. Precisamos fazer uma lista deles antes… – CUIDADO! Tony levantou a cabeça – tarde demais. Golias agigantava-se sobre eles, com pelo menos seis metros de altura – Sue nunca o tinha visto tão alto. O grito de dor de Golias enchia o ar; ele não tinha nenhuma proteção contra a frequência das ondas. Mas segurava sobre a cabeça um enorme tonel químico, pingando um líquido verde. Com um uivo de agonia, ele jogou sua carga em cima do Homem de Ferro. Adaga – olhos arregalados em agonia – disparou uma saraivada de raios. O tonel atingiu o Homem de Ferro; os raios atingiram o tonel; e o tonel explodiu formando uma enorme bola de fogo. Mulher-Hulk, foi atingida pela bola de fogo, gritou e correu, sua roupa estava em chamas. Viúva Negra se apressou para ajudá-la. As chamas estavam altas, chamuscando um helicóptero da S.H.I.E.L.D. que pairava sobre a fábrica. A aeronave se inclinou, girou no céu – e atingiu Miss Marvel, que estava em pleno voo. Ela berrou, assustada, e caiu no solo. Meu Deus, pensou Sue. Será que eles mataram Tony? Lentamente, a bola de fogo diminuiu. E, no seu centro, agachado e apoiado em um joelho, apareceu a silhueta do Homem de Ferro. – Estou bem – a voz de Tony soou no transmissor de Sue. – Só um pouco queimado. E então, ela notou: os gemidos em sua orelha cessaram. A bola de fogo não matou Tony, mas desativou a frequência de ondas. A Resistência estava se levantando: Gavião Arqueiro, Falcão, Tigresa, Adaga e os Jovens Vingadores. Capitão América levantou um braço e gritou: – Atacar! Em seguida, ele tombou pra frente e caiu no chão. Mais uma vez, o mundo explodiu em trajes correndo e golpes poderosos. Homem-Aranha encarou Célere, seus tentáculos se esforçando para pegar o adolescente a toda velocidade. Falcão alçou voo, bombardeando o Coisa em um mergulho. Gavião Arqueiro tentava acertar uma flecha na Viúva Negra; ela contra-atacava lançando seus ferrões no herói, que se esquivava. Miss Marvel levantou devagar do chão da fábrica, recuou ao tentar se apoiar no braço ferido. Seus olhos estavam vermelhos de fúria. Capitão América estava deitado imóvel, de cara com o concreto. Falcão gritou para Gavião Arqueiro: – Gavião! Pegue o Capitão. Temos que tirá-lo daqui! Sue virou-se para Reed e implorou: – Reed, temos que acabar com isso! Sue teve a impressão de ver uma faísca de medo nos olhos dele. – Eu já desativei o Thor. – Como assim, desativou? Tony Stark veio andando trôpego, sua armadura estalando. A explosão o havia danificado. – Reagrupar – ordenou Tony. – Temos de… Mas Golias virou o seu enorme corpo na direção dos Vingadores reunidos. Abaixou-se, agarrou o chão embaixo de seus pés e puxou. Eles tombaram e voaram. Rajadas de poder por todo lado; Miss Marvel se debatia no ar. Homem-Aranha lançou uma teia que agarrou-se a uma viga rachada. Thor virou-se para assistir ao caos. Raios brilhavam. Falcão mergulhou do céu, carregando Gavião Arqueiro, que apontou para o corpo imóvel do Capitão. Lentamente, o deus do trovão pegou seu martelo. Golias virou-se para ele. – Prepare-se para o retorno mais breve da história, Thor. Não, pensou Sue. Oh, não… O martelo de Thor brilhou, com mais intensidade que nunca. Com um estrondo ensurdecedor, raios emanaram dele, avançando pelo ar… … e atingiu diretamente o peito de Golias. Havia sangue, raios e chuva, e o corpo de seis metros de altura de Golias caiu para trás no muro dos fundos da fábrica. Aterrissou quebrando plástico, metal e concreto. Ainda invisível, Sue rastejou até ele. Não se importava com o que Reed pensava. Não se importava se a S.H.I.E.L.D. a pegasse. Não se importava se Thor lançasse mais raios, fazendo dela outra vítima. Tocou a mão gelada de um metro de comprimento de Golias, viu fumaça saindo do buraco onde antes ficava o coração dele. Ela soube: Golias estava morto. A chuva continuava caindo com força. Mas as batalhas haviam cessado. Miss Marvel segurava o próprio braço, estremecendo de dor. Mulher-Hulk estava caída, as queimaduras cobriam metade de seu corpo. Homem de Ferro ainda estava ajoelhado, sem equilíbrio, tentando reiniciar seus sistemas criticamente danificados. A S.H.I.E.L.D. sobrevoava, assistindo com frios olhos mecânicos. Todos eles permaneciam imóveis, fitando o corpo de seis metros de um herói que ousou desafiar a Lei de Registro de Super-humanos. Sue não sentia nada. Só frio. Só conseguia pensar em uma coisa, a única que vinha à sua mente, a frase que Tony Stark pronunciara em sua famosa coletiva de imprensa: “Stamford foi meu momento de clareza”. Este, ela percebeu, é o meu. A Resistência se arrastava, traumatizada. Falcão e Gavião Arqueiro haviam conseguido chegar ao Capitão América, e o resgataram. Os Jovens Vingadores foram se juntar a eles, com Adaga logo atrás. – Retroceder… reagrupar – ordenou Falcão. – Temos que dar o fora daqui ou todos vamos… Thor se virou para ele e levantou o martelo. Seus olhos se estreitaram com uma crueldade inumana e então disparou raios novamente. A mesma força que matou Golias agora era lançada contra toda a Resistência reunida. Homem de Ferro voou para frente, sua armadura danificada balançando no ar. – Thor! – gritou ele. – NÃO… … Reed começou a ir em direção a eles, mas foi impedido por um golpe do deus… … e, então, Susan Richards, a Mulher Invisível, membro e fundadora do Quarteto Fantástico, se juntou à Resistência. Trincou os dentes, levantou os braços e ergueu o maior campo de força da sua carreira. O raio de Thor brilhou, ricocheteou no campo e parou. Os sensores e olhos do Homem de Ferro e do Homem-Aranha observando em volta, procurando algum outro inimigo. Atrás do campo de força, os membros da Resistência estavam igualmente confusos. Falcão continuava carregando o corpo imóvel do Capitão. Sue saiu de dentro do seu próprio campo de força, encarando diretamente Thor, Homem de Ferro e Homem-Aranha. Ela manteve o campo atrás de si com força total. E ficou visível. Ben Grimm, o Coisa, foi em sua direção. Fitou-a surpreso. – Suzie? Que que cê tá fazendo? As lentes de Tony Stark iam de Reed para Sue, e então de volta para Reed. Thor fixou um olhar mortal nela. Começou a levantar o martelo. Reed serpenteou pelo caminho até o deus do trovão, parando a cabeça na frente dele. – Código de desligamento de emergência! – disse ele. – Autorização Richard Wagner, 1833-1883. Os olhos do Thor ficaram sem vida; pela primeira vez sua expressão se suavizou. A energia dos raios desapareceu, e o martelo caiu dos dedos moles, estatelando-se no chão. Sue trincou os dentes; o esforço para manter esse enorme campo de força era tremendo. Ela se virou, olhando para a Resistência. – Saiam daqui – ordenou ela. – Agora! Patriota apontou para o chão, para os corpos inertes de Wiccano, Hulkling e Manto. – E eles? Nossos feridos? – eles estavam deitados no chão, fora do campo de força. – Ela está certa – disse Falcão. – É melhor irmos embora. Sue se virou, estendeu as mãos… e a Resistência começou a desaparecer. Primeiro Gavião Arqueiro e Tigresa, depois Patriota, Estatura, Célere e Adaga. No final, só restou Falcão, carregando o corpo inconsciente do líder caído. – Susan – falou Falcão. – Obrigado. Em seguida, eles também desapareceram. O poder de Sue era a invisibilidade, não o teletransporte. A Resistência teria que dar um jeito de escapar. Mas, pelo menos, ela havia lhes dado uma vantagem. Para a surpresa de Sue, ninguém deu nenhum passo em direção aos rebeldes. Viúva Negra estava ocupada fazendo curativos na Mulher-Hulk e na Miss Marvel. A S.H.I.E.L.D. parecia confusa, em conflito; seus helicópteros iam e vinham, inspecionando a cena, mas não davam nenhum passo para ajudar. Os movimentos de Tony ainda eram descoordenados. Thor estava imóvel, uma estátua embaixo da chuva. Ben e Reed, família e colegas de Sue, apenas a fitavam. Pareciam surpresos, chocados. Homem-Aranha estava agachado em cima de uma parede, olhando a fumaça que saía do corpo de Golias. Reed esticou seu braço e o serpenteou em volta da cintura de Sue. – Querida… Ela se esquivou. – Não fale comigo. Nem uma única palavra. E, então, mais uma vez, Sue Richards desapareceu.

DADOS invadiam a vida de Tony Stark por todos os lados. Relatórios médicos. Checagens de rotina dos novos prisioneiros. Declarações dos Congressistas. A voz áspera da Maria Hill solicitando uma reunião estratégica. Relatórios sobre o início das obras dos campos de treinamento no Arizona e outros lugares. Preparativos para funerais. Centenas de e-mails de repórteres, a maior parte perguntando o que tinha acontecido na região oeste de Manhattan. Ao lado de Tony, no elevador, estava Reed Richards, serpenteando a cabeça para cima e para baixo, distraído, falando consigo mesmo. Tony arrancou o capacete, cortando a enxurrada de dados. – Reed? Você está bem? A cabeça de Reed estava no teto. Fitava a luminária, seus lábios se moviam quase sem som. – Reed. – Humm? Desculpe, Tony – a cabeça de Reed voltou para o corpo, como uma tartaruga entrando em seu casco. – Eu estava refazendo aqueles cálculos da Zona Negativa na minha cabeça. Os olhos dele estavam arregalados, cansados. – Ela vai voltar. – Humm? Ah, acho que vai. Vai sim – Reed contorceu o rosto em um tique que Tony não conhecia. – Estou mais preocupado com as providências que temos que tomar para os novos prisioneiros. Wiccano é poderoso, e Demolidor pode ser um tanto sorrateiro. – Eu sei. – A transferência está marcada para mais tarde, certo? Talvez eu devesse ir para o Edifício Baxter, garantir que o portal esteja pronto. – Depois, Reed. Preciso de você aqui primeiro. – Ah. Tique. Ele está apavorado, pensou Tony. Mas não com os problemas do centro de detenção nem por conta dos cálculos abstratos. Nem pela traição de sua esposa, embora tenha sido um golpe forte para ele. Não. Ele continua vendo a mesma coisa que eu, na minha cabeça: Bill Foster, o Golias, morto por um raio no peito. As portas se abriram, diretamente no biolaboratório da Torre dos Vingadores. Tetos altos, luzes fortes, telas e monitores e tabelas médicas em todos os cantos. E super-humanos. Viúva Negra, Homem-Aranha e Miss Marvel, com o braço em uma tipoia. Ben Grimm estava no fundo, quieto, o que era raro. No meio da sala, o corpo enorme de Thor estava deitado em uma maca. Os olhos azuis claros fixos no teto; nenhum traço de inteligência neles. O martelo inerte ao seu lado. O Dr. Hank Pyn se debruçou sobre uma incisão na cabeça de Thor, franzindo a testa. Levantou o bisturi, sua mão tremia levemente. – Tony? – Homem-Aranha se aproximou, com seu traje completo. – O que aconteceu lá? Tony fez uma careta. Simpático, ele aguardou. – Eu achei que fôssemos fazer isso para que ninguém mais se machucasse – desabafou Homem-Aranha. Tony levantou a mão e virou-se para Thor. – Hank? Alguma novidade? Hank Pym levantou o olhar. Seu jaleco branco de trabalho se contrastava com os trajes coloridos que enchiam a sala. Em seu rosto havia sinais de pranto. – Novidades? Hank colocou o bisturi no lugar, foi até o monitor de TV e o ligou. Uma visão aérea da fábrica química apareceu. Helicópteros apareciam e sumiam; embaixo, os vários heróis andavam de um lado para o outro como formigas. Então, inevitavelmente, Thor levantou o martelo e deixou um buraco em Golias. – Registro da S.H.I.E.L.D. – informou Viúva Negra. – Ele está assistindo sem parar, compulsivamente. Tony franziu a testa. O próprio Hank Pym já tinha sido um super-herói, primeiro como Homem-Formiga, depois Gigante e Jaqueta Amarela. Ele foi o primeiro dos heróis com poder de mudança de tamanho, mas nos últimos anos, ele havia pendurado o traje, preferindo se concentrar em pesquisa científica. Incluindo o Protocolo Niflhel. Tony se lembrou que Golias fora assistente de laboratório de Hank. – Hank – começou Tony –, foi uma tragédia. Eu sinto muito. Sei que você e Bill eram amigos. – Amigos. Sim – Hank virou-se para Tony, acusando-o com o olhar. – E eu acabei de assistir um super-humano que eu ajudei a criar abrir um buraco bem no peito do meu amigo. Reed analisou Thor. – Fico me perguntando por que ele… Thor, quero dizer… se comportou assim. Será que ficou faltando uma consciência humana? Que precisa de um hospedeiro humano para se fundir? – Por quê? Por quê? – Hank se virou para Reed. – Talvez o problema esteja no fato de que nós não deveríamos ter criado o clone de um deus! Homem-Aranha deu um pulo alto no ar. – Clone? – pousou na parede, bem em cima do deus do trovão imóvel. – Thor é um clone? Tony fez uma careta. Fitou o grupo de heróis, observando-os conforme absorviam a revelação. Miss Marvel balançou a cabeça para ele, uma rara dúvida em seu olhar. Viúva Negra parecia perturbada. Ben Grimm estava com a enorme boca de rocha aberta. Hank Pym estremeceu, como se estivesse tentando afastar sua própria culpa. – Tony? – continuou o Homem-Aranha. – Como você pode ter clonado um deus? Hank se sentou, abaixou a cabeça. – Na primeira reunião dos Vingadores, Tony armou tudo e me pediu para pegar uma mecha de cabelo do Thor – ele deu um sorriso sem humor. – Eu era o Homem-Formiga na época. Encolhi até ficar quase microscópico. Thor achou que estivesse com piolho. – Então, isso… – Homem-Aranha estendeu a mão para pegar o martelo de Thor. – Esse não é o Mjolnir de verdade? É uma cópia… o Martelo do Clor. Tony olhou para ele, confuso. – Clor – repetiu Homem-Aranha. – Clone-Thor. Entendeu? – Não é engraçado, Peter. Homem-Aranha fez posição de sentido. Ainda segurando o martelo, estendeu a mão na direção de Tony, imitando uma saudação nazista. Então, imediatamente, ele largou o martelo. – Foi mal. Tony analisou o grupo. Todos olhavam para ele em busca de orientação, uma garantia de que aquele era o caminho certo. Mas todos estavam em estado de choque. Até mesmo Homem-Aranha, cintilando em seu traje cinético de metal. Este é um momento crucial, Tony se deu conta. Todo o movimento pelo registro pode desmoronar, aqui e agora. Tudo depende do que eu farei nos próximos minutos. – Peter – começou Tony. – Poderia me mostrar seu rosto? É um pedido, não uma ordem. Devagar, o Homem-Aranha tirou a máscara. Ele também parecia cansado, os olhos fundos, e um pouco envergonhado. – Obrigado. Agora… – Tony andou pelo laboratório, parando bem na frente de Miss Marvel. – Sei que isso não é exatamente o que vocês esperavam quando aderiram ao movimento. Carol, como está o seu braço? – Algumas pessoas estão bem piores – informou ela. – Mulher-Hulk ainda está no CTI. Mas está se recuperando. – Que bom. Fico feliz em saber. Bem, todos nós estamos pensando na mesma coisa: Bill Foster. A morte dele foi uma tragédia, um acidente horrível. O tipo de coisa que nunca, de forma alguma, deveria ter acontecido, principalmente sob nossa vigília. – Mas. MAS. Todos nós sabíamos que isso não seria fácil, e sabíamos que haveria batalhas ao longo do caminho. Vou ser direto: se alguém estava esperando que não houvesse baixas aqui e ali, estava se iludindo. Estamos falando de uma mudança brutal na vida de todos os meta-humanos da Terra. – E é disso que temos que lembrar. Bill Foster não devia ter morrido. Mas a morte dele é o preço do que estamos fazendo. Se esse processo significar que outros novecentos civis não vão morrer como efeito colateral de uma superbatalha, então… detesto dizer isso, mas… posso viver com a morte de Bill. Não vai ser fácil, não vou dormir bem esta noite. Mas posso conviver com isso. Miss Marvel assentiu, séria. Viúva Negra levantou a sobrancelha. Ben Grimm apenas se apoiou na mesa, sua expressão ainda mais rochosa do que de costume. Hank Pym encarava o clone-Thor, balançando a cabeça. – A matemática – disse Reed Richards baixinho. – A matemática funciona. – Obrigado, Reed. – Tony, eu… – Peter Parker olhou em volta, nervoso. – Quero acreditar em você. Sei que as suas intenções são boas. Mas é isso… – Ele apontou para a tela, que ainda exibia a imagem congelada do corpo morto de Golias. – É isso que vai acontecer? Toda vez que alguém não se registrar, que não seguir as regras? – Claro que não. É para isso que servem os centros de detenção. – Sei. Centros de detenção – Peter assentiu, olhou diretamente nos olhos de Tony. – Posso conhecer um desses lugares, Tony? Alguma coisa mudou no ar, no clima do ambiente. Um equilíbrio de poder, de autoridade. – Você queria a minha mente aguçada – continuou Peter. – Certo, chefe? Tony encarou Peter por um momento. Depois, abriu um sorriso carinhoso, paterno. – Claro, Peter. Eu e Reed vamos pra lá agora. Quer ir junto? Peter recolocou a máscara, as lentes vermelhas e douradas cobrindo seus olhos. E assentiu. – Hank – começou Tony. – Já fez o suficiente por aqui. Seu registro já está arquivado… Por que não tira a semana de folga? ‘Clor’ pode esperar até você voltar. Reed estendeu um braço, tocou nas costas de Hank Pym, que concordou, se levantou e se arrastou para a porta. Parecia derrotado, a sombra de um homem. – O resto de vocês pode tirar quanto tempo quiser – continuou Tony. – Mas deem notícias regularmente. As coisas vão esquentar de agora em diante, e eu vou precisar de cada um de vocês. Todos assentiram. Por enquanto, era o suficiente. – Certo – Tony fechou o capacete na frente do rosto, e acenou para Reed e Peter o seguirem. – Vamos, cavalheiros. O Projeto 42 nos espera.

ALGO obscuro estava crescendo dentro do Capitão América. Algo duro e furioso, bem no fundo de suas entranhas. Algo que nunca sentira antes; algo do qual não estava gostando nem um pouco. Não era a morte de Golias… não exatamente. Capitão já havia perdido homens antes, na guerra e nas batalhas civis. Sempre doía, mas fazia parte da vida. Da vida que escolheu, décadas atrás, quando um garoto órfão e esquelético se voluntariou para o programa de guerra do Supersoldado. Falcão estava colocando uma atadura na cabeça do Capitão. – Fique quieto – mandou Falcão. Não, Capitão se deu conta, não foi a morte. Foi a forma como Bill Foster morreu. Homens e mulheres sob o comando do Capitão morreram defendendo seu país, salvando inocentes, ou para que seus companheiros guerreiros pudessem sobreviver. De vez em quando, você também perde um homem em algum acidente trágico. Quando isso acontece, você faz um brinde triste, soca umas paredes e segue em frente. Isso era diferente. Golias tinha morrido como resultado direto das ações de Tony. Tony Stark, o homem que Capitão chamou de amigo por tantos anos. Capitão tossiu, depois fez uma careta. Tudo doía: seu rosto, seus braços, suas pernas. Tony realmente lhe maltratara. Falcão terminou de colocar a atadura e deu um passo atrás. – Você parece uma múmia que acabou de fugir da tumba – disse o homem alado. – Mas ainda lhe sobraram alguns dentes. – E tenho a intenção de usá-los – respondeu o Capitão. Ele puxou os eletrodos presos nas ataduras do peito. A ala médica do quartel-general da Resistência era muito bem equipada, principalmente no que se tratava de equipamentos para diagnóstico. Uma técnica usando jaleco branco estava parada na frente dos monitores; como todas as outras pessoas que contrataram, ela foi pessoalmente avaliada por pelo menos dois membros da Resistência. Gavião Arqueiro entrou na sala, seguido por Adaga, Estatura, Célere e Patriota. Os jovens pareciam perturbados, inseguros. Gavião também. – Como está o homem? – quis saber o Gavião Arqueiro. – Gavião, preciso da sua ajuda – Capitão se levantou, arrancou os eletrodos, ignorando os protestos da técnica. – Vamos ter que abandonar esse local. Tony não vai descansar até nos encontrar; até mesmo uma antiga base desconhecida da S.H.I.E.L.D. é arriscado demais. – Pare, Capitão – pediu o Gavião Arqueiro. – Não diga mais nada. Capitão franziu a testa. Falcão pousou atrás dele. Gavião Arqueiro olhou para baixo, mudou sua aljava de ombro. – Capitão, acho que devíamos pedir anistia. – Anistia? Você está louco? – Capitão apontou para a sala, fez uma careta quando seu braço deslocou. – Acabamos de conseguir mais quatorze reforços. Valquíria, Falcão Noturno, Fóton… Tony está perdendo aliados a cada minuto. – E quantos nós perdemos? Hulkling, Wiccano, Demolidor, Manto… – Gavião Arqueiro virou-se para Adaga, que se encolheu ao escutar o nome do parceiro. – Foi mal, gata. – Gavião – começou Falcão. – Não, não, me escute. Aqueles caras estão a caminho da tal superprisão que Reed Richards está construindo. Capitão escolheu as palavras com cuidado. – E você está disposto a deixá-los impunes por isso? Adaga fez uma careta. – Eles podem fazer o que quiser agora. Thor está do lado deles. – Aquele não era Thor – afirmou Capitão. – Era algum Frankenstein que eles construíram para o exército de super-heróis deles. Você não conhecia Thor, garota. Não pense… nem por um momento… que ele teria assassinado um homem bom como Bill Foster. Adaga recuou. Estatura colocou a mão no ombro dela. Na mesma hora, Capitão se arrependeu. Tratando mal uma garota. O que há de errado comigo? – Capitão – chamou o Gavião Arqueiro. – Eu já fui um fora da lei. Por muito tempo. É horrível. Você me ajudou a sair daquela vida… Que inferno, por um tempo, eu e você praticamente fomos os Vingadores. E uma vez você me disse: quando o outro lado tem mais homens do que nós, mais armas do que nós, numa proporção de vinte pra um, é hora de parar de lutar. – É verdade, quando você está errado – Capitão o encarou. – Quando você está certo, finca o pé no chão e não tira o time de campo. – Eu sinto muito por Bill Foster. Mas ele morreu no momento em que achou que era maior do que a lei. – Gavião Arqueiro. – Pare, Capitão. Estou indo embora. Então, o que quer que você faça, não me conte para onde você está planejando mudar a base. – Eu não lhe diria nem as horas. – Bom. Porque você tem que pensar em uma outra coisa. Quanto mais pessoas se juntarem ao seu grupo secreto, maior a possibilidade de haver um espião no grupo. Capitão não disse nada. A ideia já lhe ocorrera. Tony havia conseguido atraí-los para a fábrica de produtos químicos muito facilmente. Gavião Arqueiro deu as costas e começou a sair. – O que você vai fazer, Clint? – os punhos do Falcão estavam cerrados em fúria. – Calçar aqueles coturnos e pisar em quem quer que eles mandem? – Não – a voz do Gavião Arqueiro era suave. – Vou ser o Mocinho. Todo mundo permaneceu quieto. Patriota lançou um olhar questionador para Célere, que abriu um sorriso nervoso e deu de ombros. Célere olhou para Estatura, que desviou o olhar. Então, Estatura virou-se e foi atrás do Gavião Arqueiro. O Patriota estendeu a mão e segurou o braço dela. – Cassie? – Desculpe, Eli. Mas não quero acabar em alguma superprisão, como Wiccano e Hulkling. Eu entrei nessa vida para combater supervilões, não tiras ou outros super-heróis. Célere girou em volta dela, tocou-lhe o ombro. – Qual é, Cass… – Tommy, você sabe como isso vai acabar. – Estatura olhou rapidamente para Capitão. – Ele é só um velho com medo do futuro. – Vá – a voz do Capitão era apenas um murmúrio rouco. – Se a sua liberdade significa tão pouco pra você. A Estatura fez uma careta, abraçou rapidamente seus colegas. Depois, correu para alcançar o Gavião Arqueiro. – Eli, Tommy? E vocês? Patriota olhou para seus colegas; Célere sorriu. – Estamos dentro. – Adaga? As mãos de Adaga faiscavam, facas de luz flamejando no ar. Os olhos dela brilhavam com uma luz interna, com determinação. – Quero meu parceiro de volta – afirmou ela. Capitão assentiu, aprovando. – Bom. Todos se reuniram em volta dele: Falcão, Patriota, Célere e Adaga. Todos olhando para ele, esperando orientação, liderança. Por um momento, a coisa obscura nas entranhas do Capitão relaxou, amenizou. Esperava ser digno deles. – Temos muito trabalho a fazer, Falc, notifique todas as tropas: vamos abandonar esse esconderijo. Acho que Cage tem um esconderijo seguro no Harlem que podemos usar por um tempo. Adaga, descubra se alguém sabe de alguma coisa sobre os sistemas de segurança da Stark Enterprises. Patriota, Célere, falem com os novos recrutas. Façam uma lista dos superpoderes deles. Conforme eles se espalhavam, Capitão deu um passo. Sua perna explodiu de dor, quase caiu. – E alguém me dê um analgésico.

DOZE dias se passaram desde a coletiva de imprensa. Doze dias que tinham virado a vida de Peter Parker de cabeça para baixo. Tia May estava sendo perseguida por repórteres e foi forçada a se esconder dentro de casa. Pessoas gritavam “traidor” para Peter nas ruas. O Clarim Diário entrou na justiça contra ele, alegando violação e quebra de contrato, citando o quanto pagaram por fotos do HomemAranha no decorrer dos anos. E uma visita à antiga escola de Peter se transformou em um pesadelo quando o Doutor Octopus acabou com a sua palestra sobre física. Felizmente, nenhum aluno ou funcionário se machucou. Mas o Diretor Dillon deixou bem claro que mais nenhuma palestra de ex-alunos seria bem-vinda. Desde então, não conseguia mais dormir com facilidade. Peter acordava várias vezes por noite, com um zumbido baixinho na cabeça. Nunca havia tido enxaqueca antes, mas se perguntava se isso não seria o primeiro sintoma. Depois, veio Golias. E aquele terrível momento, que as lentes do novo traje de Peter o permitiram assistir em HD, e que ele não conseguia tirar da cabeça. Então, Homem-Aranha foi praticamente um sonâmbulo durante a viagem com Tony e Reed. A S.H.I.E.L.D. tinha cercado com caminhões e carros de polícia vários quarteirões no centro da cidade, isolando o Edifício Baxton. Quando o Aranha perguntou por que a Tony, o bilionário respondeu: – Transferência de prisioneiros. Homem-Aranha lançou suas teias nos prédios e seguiu pelas ruas vazias até aterrissar ao lado do Edifício Baxter. Tony e Reed estavam parados na porta da frente, desativando os sistemas de defesa. Quatro ou cinco helicópteros rondavam a área, além do posto de comando voador usado por Maria Hill. E a seguinte pergunta surgiu na cabeça do Homem-Aranha: quantos agentes a S.H.I.E.L.D. tem? – Acho que conseguimos, Sr. Stark. Homem-Aranha franziu a testa. Gostava de Tony, era genuinamente grato a ele; e acreditava na causa de Tony, na necessidade de proteger as pessoas inocentes contra os poderosos meta-humanos. As batalhas super-humanas tinham se tornado mais letais, mais violentas com o passar dos anos, com um aumento correspondente nas mortes civis. Se Tony conseguisse diminuir essa tendência, Aranha o seguiria para qualquer lugar. Mas Tony não lhe contara tudo. Como o fato de que havia cientistas ocupados clonando um deus morto. Será que Tony tem mechas de cabelo de todo mundo guardados em alguma geladeira, caso precise? As coisas estavam acontecendo rápido demais. Homem-Aranha mal tinha tempo de processar um choque antes que outro batesse em sua porta. E caísse aos seus pés. Como Golias. – Peter – chamou Tony. – Você vem ou não? O portal da Zona Negativa ganhou vida, luzes dançando ao longo de seu contorno metálico. Dentro, uma névoa sobrenatural resplandecia, cercada por todos os lados por estrelas e asteroides. Uma tela exibia as palavras: PORTAL DO PROJETO 42/ATIVO. – O seu traje vai protegê-lo – informou Tony. – Só coloque essa mochila gravitacional para manobras. Homem-Aranha não se importou muito com a mochila metálica. O portal estava surpreendentemente claro. Ele apontou para a entrada. – A prisão fica lá? – Centro de Detenção – corrigiu Tony. – Reed, o código de acesso, por favor? Nenhuma resposta. Aranha olhou para Reed, o viu encostado em um painel de controle, olhando para o nada. Um braço alongado para trás, mexendo distraidamente em um controle. – Reed? – Humm? – Reed levantou o olhar perdido. – Ah, sim, claro. – Ele digitou rapidamente, estendendo e retraindo os dedos para alcançar as teclas. – Enviando o código pra sua armadura, Tony. – Recebi. Você sabe o que fazer quando a S.H.I.E.L.D. chegar, né? Sem resposta, de novo. Reed esteve muito quieto durante todo o caminho. Problemas conjugais, pensou HomemAranha. Acho que deve ser isso. – A fabulosa Zona Negativa – disse o Homem-Aranha. – Nós só… atravessamos? – É só me seguir. As botas a jato de Tony acenderam. Ele levantou voo, colocou o corpo na posição horizontal e voou diretamente para o portal. Homem-Aranha observou, deu de ombros e saltou. Atravessar o portal era diferente de tudo o que já havia sentido. Primeiro os braços, depois a cabeça, então o torso e as pernas – de alguma forma, tudo parecia invertido. O processo não era doloroso, mas achou perturbador. Então estava dentro, e o portal desapareceu. Tudo à sua volta era uma expansão da Zona Negativa, vasta e brilhante, cheia de objetos de todos os tamanhos e formatos – estrelas, asteroides, planetas distantes. Parecia o espaço sideral, como se alguém o tivesse enchido de matéria e arrumado uma coluna de espelhos escondidos para distorcer as distâncias envolvidas. – Estranho, né? – Tony planava logo a frente. – Mas você se acostuma. – Era como se eu estivesse sendo… virado do avesso – comentou o Homem-Aranha. – É mais ou menos o que acontece mesmo. – Como pode ser? Como isso não mata a gente? – Uma vez eu perguntei isso ao Reed – respondeu Tony. – Ele mergulhou em uma elaborada explicação de física quântica que eu não consegui acompanhar. Então, ele parou no meio da frase com aquele sorrisinho engraçado no rosto. – Ele também não sabia. – Não, não sabia. Tony apontou para os asteroides e acelerou em direção a eles. Homem-Aranha o seguiu, ativando a mochila gravitacional pelos controles mentais de seu traje. – A S.H.I.E.L.D. está providenciando a transferência dos prisioneiros – disse Aranha. – Acho que se referindo aos caras que capturamos na fábrica. – Correto. – Então, é assim que vai ser? Qualquer um que não se registrar vai ser levado para o Edifício Baxter e trazido pra cá? – Só temporariamente. Foi Reed Richards quem descobriu a Zona Negativa; no momento, o único portal na terra é este que acabamos de atravessar, no laboratório dele. Mas a Stark Enterprises já está construindo portais em várias prisões importantes por todo o país. Quando esses portais estiverem funcionando, aqueles que violarem a Lei de Registro de Super-humano serão tratados como qualquer outro criminoso: processados pelas autoridades competentes, depois transferidos pra cá. Homem-Aranha franziu a testa. – Você se esqueceu do julgamento justo. – A LRS não prevê julgamento, Peter. – Como assim? – Você não dá um julgamento justo a uma bomba atômica. Nem a um inimigo combatente no campo de batalha – Tony apontou para frente. – Alterando curso. Siga-me. Um asteroide estava se aproximando, uma rocha irregular como tantas outras. A superfície dos prédios brilhava, refletindo a luz do corpo celeste. Homem-Aranha o fitou por um instante e começou a se sentir enjoado. – Peter, me siga. E não desvie do plano de voo… Peter? As estruturas na superfície do asteroide estavam claramente visíveis agora, projetando-se como blocos feitos pelo homem, mas havia algo de antigo neles. A configuração parecia mudar, piscando de modo assustador cada vez que mudava de forma. Homem-Aranha observava-os e sentia uma pontada de pânico cada vez que mudavam de forma. As suas entranhas e seu metencéfalo gritavam: essa arquitetura não é humana. Retorcida, assustadora. Errada. A voz de Tony pareceu distante em seu ouvido. – … desculpe. Configure as suas lentes para Filtro 18, um nível de força abaixo do máximo. Aranha mal conseguia processar as palavras. Ele fitava, com olhos arregalados, se contorcendo. – O quê? – Deixa pra lá, eu mesmo faço. A visão do Homem-Aranha embaçou, tudo ficou branco por um segundo. Ele piscou, desorientado, depois a cena clareou novamente. Os prédios pararam de mudar de forma. Eles se erguiam como uma cidade futurista, brilhando de forma majestosa contra a rocha bruta do asteroide. Bem abaixo, guardas totalmente equipados patrulhavam o perímetro do terreno e voavam em torno dos pináculos das torres mais altas. – Protocolo de segurança criado pelo Reed – explicou Tony. – Usa uma configuração arquitetônica especialmente projetada, junto com a única propriedade da Zona Negativa, para criar um ambiente virtualmente à prova de fuga. Homem-Aranha planou, olhando para os pináculos abaixo. Lembrou-se do efeito que criaram nele, apenas segundos antes, e estremeceu. – Rogue Moon * – sussurrou ele. – Um dos livros de ficção científica preferidos do Reed. Acho que foi a inspiração dele. – Os guardas estão protegidos? – Na verdade, a maioria deles é robô. Tony o levou para uma área de pouso, onde o metal cintilante do complexo se escasseava, dando lugar a rochas brutas. Três guardas robôs de aproximaram, rifles saindo de seus braços. – GUARDA BRAVO RECONHECENDO ANTHONY STARK. IDENTIFIQUE O SEGUNDO HUMANOIDE. – Homem-Aranha, nome verdadeiro Peter Parker – informou Tony. – Convidado de Anthony Stark. – CONFIRMADO. REGISTRO ARQUIVADO. – O rosto do guarda era vazio, luzes piscando por trás de um vidro preto e plano. – APRESENTE CÓDIGO DE ACESSO, POR FAVOR. – Tango Sierra Lloyd Bridges. – CÓDIGO DE ACESSO CONFIRMADO. Os guardas de afastaram. Tony acompanhou Homem-Aranha, a pé, em direção a um muro prateado aparentemente indistinto. Uma porta, com uns seis metros de altura e quase o mesmo tamanho de largura, se abriu. – Lloyd Bridges? – Um aplicativo personalizado gera novas senhas aleatoriamente a cada meia hora. O aplicativo tem um carinho especial e inesperado por atores da década de 1960… ontem era Charlie Foxtrot Adam West. – Tony riu. – Quando chegar em Sebastian Cabot, eu desligo. Atravessaram um corredor comprido, que levava a um quintal onde mudas de plantas germinavam do solo transplantado da Terra. Homem-Aranha levantou o pescoço, olhando para todos os estranhos arranha-céus à sua volta. O escopo do lugar era incrível; tetos, prédios, tudo parecia maior do que na vida real. E muito novo, muito metálico, muito antisséptico. – Você disse que a maioria dos guardas são robôs? – Tem alguns médicos e administradores humanos, para garantir que nada dê errado. Mas eu e Reed discutimos muito o assunto. Decidimos que quanto mais minimizássemos a possibilidade de erro humano, melhor esse lugar funcionaria. Tony o levou para um corredor menor e mais apertado. Levantou a mão enluvada de metal e uma pesada porta se abriu. – Aqui ficam os apartamentos. – Você quer dizer celas? – Questão de semântica. O corredor era alinhado com portas de metal grossas, com uma pequena abertura na altura dos olhos, com um vidro que só possibilitava a visão por um lado. O Homem-Aranha pulou na parede, rastejou até a primeira porta. Levantou a mão para tirar a máscara. – Cuidado – alertou Tony. – Se você tirar as suas lentes, vai ficar desorientado de novo. Funciona em todos os lugares dentro da prisão, exceto dentro das próprias celas. – Te peguei – Aranha olhou novamente para a cela, se debruçou para ver através do vidro. O interior parecia a sala de estar de um apartamento qualquer, em um lugar qualquer. Sofá, TV de tela plana, escrivaninha com um monitor de computador embutido. Um beliche montado em uma parede, e o Homem-Aranha conseguiu ver o pedacinho de uma cozinha ao fundo. A única excentricidade: uma poltrona grande com cintos para prender os pulsos e um capacete pendurado acima dela. – Tenho que admitir, é bem mais legal do que meu primeiro apartamento em Manhattan. Maior também – Aranha deu de ombros. – O que é aquela poltrona esquisita? – Sistema de realidade virtual. Permite que eles tirem pequenas férias mentais, mesmo estando presos aqui. Mas teremos de fazer modificações, claro, para vilões com habilidades de manipulação tecnológica. – Não estou vendo ninguém dentro. – O lugar começou a funcionar agora. Muito poucas celas estão ocupadas. – Tony levantou a cabeça, consultando algum arquivo de dados interno. – Ah. Veja esta aqui. Homem-Aranha desceu e foi até a próxima cela. Olhou pelo vidro. Uma cascata de areia caiu diante de seus olhos, formando um monte em cima de uma pilha de roupas no chão da cela. A areia se juntou, começou a ganhar forma e se erguer do chão. Encheu uma camiseta e uma caça jeans, tomando a forma inconfundível do antigo inimigo do Homem-Aranha: Homem-Areia. – Nós o capturamos há duas semanas – comentou Aranha. – Com o Sexteto Sinistro. – Você o pegou – respondeu Tony. – Foi um ótimo trabalho. Dentro da cela, Homem-Areia folheou uma revista, franziu a testa para o que viu. Pegou o controle remoto e se jogou no sofá, jogando grãos de areia pra todo lado. – Ele parece meio triste – disse Homem-Aranha. – Triste? Ele está na prisão – Tony virou-se para Aranha. – Pessoas como Homem-Areia são perigosos demais para terem permissão para andar por aí. Você sabe disso. – Não estou questionando, mas… vários amigos meus, amigos nossos, vão acabar aqui também. Ficarão trancados, como ele. – Todas as necessidades deles serão atendidas. Ficarão confortáveis. – Mas não vão poder sair. – Claro que vão. No momento que eles concordarem em se registrar, em revelar suas identidades para o público e em seguir as leis dos Estados Unidos da América. Em seguir o exemplo corajoso que você deu na coletiva de imprensa. Mais uma vez, Homem-Aranha sentiu um zumbido na cabeça. O som que o manteve acordado nas últimas noites. – Vamos – chamou Tony. – O transporte da S.H.I.E.L.D. já deve estar chegando. Aranha o seguiu pelos corredores, pelo pátio e pelas enormes portas de metal. Sua cabeça estava flutuando. Aqueles prédios tinham cem, talvez cento e cinquenta andares. Quantas pessoas esse lugar era capaz de hospedar? Por quanto tempo poderiam ficar ali? Quanto custou para construir? Do lado de fora, o transporte da S.H.I.E.L.D. estava pousando. Parecia uma versão aérea do Ônibus-Um, pesado e compacto com canhões de mísseis nos quatro cantos de sua lataria. Um alçapão se abriu. Dois agentes da S.H.I.E.L.D. saíram, com coletes à prova de balas e óculos protetores. O guarda robô os interceptou. – APRESENTE CÓDIGO DE ACESSO, POR FAVOR. – Echo Delta Julie Newmar – disse o agente. – CÓDIGO DE ACESSO CONFIRMADO. Tony se virou para Homem-Aranha. – Os códigos estão cada vez melhores. O agente da S.H.I.E.L.D. apontou para dentro do veículo. Dois outros agentes conduziam Manto para a área de pouso. O jovem estava vestido com seu traje completo, mas com correntes nos pulsos e tornozelos. Um capacete pesado estava enfiado em sua cabeça com um visor negro puxado para baixo a fim de cobrir seus olhos. – Amortecedor de poder– explicou Tony. – Também os protege do efeito de distorção. Wiccano e Hulkling vieram logo atrás, com capacetes similares tampando seus olhos. – Eles vão ficar em um apartamento duplo, juntos – Tony fez um gesto para o HomemAranha. – Não queremos punir ninguém, Peter. Isso é detenção. Um agente alto e encorpado surgiu da traseira do veículo escoltando Demolidor, com seu traje vermelho; ele caminhava com facilidade e confiança, apesar das correntes. Quando chegou perto de Tony e Peter, parou e virou-se diretamente para eles, apesar do capacete cobrindo seus olhos. O radar dele, pensou o Homem-Aranha. O amortecedor não deve estar bloqueando completamente. – Tony Stark em pessoa – disse Demolidor. – Está aqui para admirar sua criação? Tony não disse nada. – Impressionante – Demolidor apontou para as torres espiraladas. – A Stark Enterprises construiu, certo? O governo está realmente distribuindo contratos sem licitação. Quantos milhões você ganhou este mês? Homem-Aranha virou-se para Tony. – Milhões? Tony hesitou. Surpreso, Aranha se deu conta: muito mais que milhões. Bilhões talvez. O agente da S.H.I.E.L.D. empurrou Demolidor para que ele seguisse em frente. Mas Tony levantou a mão. – Tudo bem, agente. Eu gostaria de conversar com o Demolidor enquanto você o acompanha. Demolidor ficou cego, escondeu os olhos para Tony e Homem-Aranha. Então, foi na direção da porta. Tony foi ao lado dele, e Homem-Aranha o seguiu. – Demolidor… Matt, não é? Tanto faz – Tony levantou a mão e abriu a porta. – Quero que você entenda por que estamos fazendo isso. Posso garantir que não tenho nenhuma satisfação em caçar os meus amigos. Demolidor torceu os lábios mostrando desdém. – Eu estava em Washington, no Capitólio – continuou ele –, e eu os assisti debater todos os aspectos dessa questão. No final, tudo se resumiu a duas opções. Registro ou a proibição total de qualquer atividade de super-herói. Acho que você concordaria: nenhum de nós quer isso. – Ouviu falar da Iniciativa dos Cinquenta Estados? – Tony continuou. – É real. Está acontecendo. Vai haver cinquenta superequipes, uma em cada estado. Todos os membros serão treinados, licenciados e pagarão impostos. É o próximo passo da evolução superhumana. Já estamos treinando novos super-heróis e trabalhando para encontrar um lugar para todos que queiram se juntar a nós. – Demolidor: se você estiver interessado… se quiser ficar limpo e ir à público agora… você encabeçaria a minha lista. Você poderia até ter a sua própria equipe, ficar no comando. O que me diz? Eles chegaram às celas. O agente da S.H.I.E.L.D. pegou um cartão de acesso e disse algumas palavras na porta da cela. Ela se abriu. Homem-Aranha percebeu que a cela era idêntica à do Homem-Areia, só um pouco mais arrumada. – Senão – continuou Tony –, esta é a alternativa. E ninguém quer isso também. O Demolidor ficou parado na porta, sério e em silêncio. Finalmente, ele se virou para o grande agente da S.H.I.E.L.D. – Agente Chiang – começou o Demolidor. – Poderia entregar aquilo para ele, por favor? Tony virou-se para o agente. – Entregar para mim? – Isso mesmo – o agente Chiang colocou a mão em um compartimento em forma de bolso e pegou um pequeno disco. – Quando nós o revistamos, encontramos isso embaixo da língua dele. Testamos, é inofensivo. Mas ele disse que estava guardando para o senhor. Tony pegou o objeto. Homem-Aranha espreitou e viu o que era: uma moeda de prata de dólar comum. – Eu… eu não estou entendendo – disse Tony. O Demolidor virou-se um pouco para ele. – Agora você tem trinta e uma moedas de prata, Judas. Então, ele se virou para a cela e entrou. A porta se fechou atrás dele. O agente trancou a porta e voltou para o corredor. – Vamos – chamou Tony. Homem-Aranha se demorou mais um pouco, fitando a cela que prendia seu amigo de longa data. O zumbido na sua cabeça parecia mais alto agora, pulsando, enchendo a sua mente. Ele se virou para seguir Tony pela prisão. Passaram por filas de celas que logo seriam ocupadas, salas de exercícios e pátios esperando para serem usados. Tony parecia não ter mais o que falar; estava quieto, pensativo. E, lentamente, Homem-Aranha percebeu o que era a dor na sua cabeça. Sentido de aranha. Não aquele que ele já conhecia, um choque agudo que lhe avisava do perigo iminente. Este era mais baixo, mais firme, mais constante. Um tipo de alarme totalmente diferente. Seguiu Tony Stark para fora da superfície do asteroide, para longe da prisão chamada Projeto 42. Mas não conseguia fugir do zumbido na sua cabeça. A sensação incômoda de que as coisas estavam muito erradas e que estavam prestes a piorar.

Meu querido Reed, Antes de tudo, quero lhe informar que Johnny está melhor. Os pontos foram tirados ontem, e ele está feliz da vida se recuperando na cobertura de uma pessoa chamada “Marika”. O mesmo John de sempre. Sei que eu deveria estar feliz. Mas não estou. Estou com tanta vergonha de você, Reed. E estou com vergonha de mim mesma por ter concordado e apoiado passivamente seus planos fascistas. É por isso que estou indo embora. A mala estava sobre a cama, meio pronta. Era pequena, uma mala de mão com rodinhas: mal tinha espaço para uma muda de roupas, artigos de higiene pessoal e um traje azul gasto de super-herói. Por incrível que pareça, o traje ainda servia, mesmo depois de dois filhos e dezenas de batalhas com supervilões. Sue sorriu. Devem ser as moléculas instáveis. Ela tivera que entrar sorrateiramente na própria casa e passar por um bloqueio da S.H.I.E.L.D. Se Reed checasse as entradas, veria que ela digitou sua senha – e, claro, as câmeras gravariam a porta da frente abrindo um pouco, e depois fechando. Não mostraria ninguém entrando, óbvio, porque ninguém entrara. Pelo menos, ninguém visível. Mas Reed estava distraído. Muito, muito distraído, ainda mais do que de costume. Neste momento, no andar de cima, ele e Tony Stark estavam supervisionando a transferência dos membros da “Resistência” capturados para aquele show dos horrores que eles construíram na Zona Negativa. Uma vez dentro do prédio, Sue não viu necessidade de ficar invisível. Reed não a notaria. Atualmente, ele não tinha tempo para ninguém, exceto Tony. Sue abriu a gaveta de cima da cômoda, procurou seu antigo comunicador. Encontrou-o: um dispositivo walkie-talkie com um “4” gravado nele. Jogou-o em cima da cama, ao lado da mala – e, então, seus olhos pousaram em outra coisa, atrás da gaveta. Tirou-a dali e levou até a luz. Um modelo de foguete espacial. Não de qualquer foguete espacial: uma réplica daquele construído secretamente, que Ben Grimm pilotou para fora do deserto naquela noite fatídica. A noite em que Sue, Reed, Ben e Johnny enfrentaram um cinturão de raios cósmicos na atmosfera da terra e foram transformados no Quarteto Fantástico. Quase se esquecera desse modelo. Reed construíra para ela no primeiro aniversário de casamento deles. A pintura era meticulosa, até os detalhes prateados que enfeitavam os canos do antigo foguete. A cabine do piloto escurecida até mostrava quatro pequeninas silhuetas dentro. Ela se lembrou-se de ter pensado que aquele era possivelmente o pior presente de aniversário de casamento da história. E isso fez com que amasse ainda mais Reed. Enxugou uma lágrima. Virou-se para a babá eletrônica na mesa de cabeceira e ligou. Escutou, apenas por um minuto, as vozes de Franklin e Valéria discutindo com HERBIE, o robô babá, sobre quem escolheria o DVD que iriam assistir. Então, ela escutou um barulho passar pela porta. Desligou o monitor e ficou invisível – depois pensou melhor e voltou a aparecer. Era inútil se esconder. Se Reed já não soubesse que ela estava lá, a mala quase pronta a denunciaria. – Suzie? A pessoa que entrou pela porta era maior e mais forte do que Reed. O corpo de pedra de Ben Grimm estava parado, curvado na porta, quase em posição de defesa. Sue soltou a respiração aliviada – que parou na garganta quando viu o que ele estava segurando. Outra mala. Cheia. Por favor, entenda, querido: não estou querendo chamar atenção. Não estou tentando distraí-lo do seu importante trabalho. Estou fazendo isso porque as suas mãos, as nossas mãos, estão sujas com o sangue de Bill Foster. E você está tão cego com os seus gráficos e projeções e cenários do juízo final que não consegue sequer ver. Hoje eu violei a lei. Ajudei um grupo de criminosos procurados pela justiça a fugir. Acontece que esses criminosos são alguns dos nossos amigos mais próximos, que só caíram nas garras dessa justiça por causa do desejo de ajudar pessoas inocentes. Mas isso não parece importar. Tony e seu pelotão estúpido estão ocupados demais agora, lambendo as feridas, trancando prisioneiros e preparando seu pelotão de treinamento de super-heróis por todo o país. Se lhes restar um pingo de decência, espero que eles providenciem um funeral para o pobre Bill Foster. Mais cedo ou mais tarde, porém, eles virão atrás de mim pelo que fiz. Provavelmente, me oferecerão anistia, por causa da sua importância nos planos de Tony. Não quero colocá-lo nessa posição – mas, mais importante ainda, eu não quero essa anistia. Quero fazer o que é certo. Eles ficaram um pouco sem jeito por um momento. Um encarando o outro. – Está indo embora? – quis saber Sue. Ben apontou para a mala dela. – Você está indo embora? – Preciso, Ben. Depois de hoje – ela fez uma careta, sentiu as lágrimas encherem seus olhos novamente. – Mas e você? Eu não… você também vai se juntar ao grupo do Capitão América? – Não – ele deixou a mala cair. Bateu no chão fazendo um estrondo. O que ele carrega ali dentro? Pedras extras? Sue se perguntou. – Suzie, eu dei uma boa olhada em volta depois que a batalha acabou. Naquela fábrica. Tinha uma gosma tóxica no chão todo, cacos de vidro, pedaços de metal, não restava uma parede de pé. Tudo bem que Tony já tinha feito um belo estrago antes, como parte da armadilha. Mas eu vi o que nós fizemos, todos nós, lutando como ratos famintos naquele espaço apertado. – Não pude deixar de pensar: e se tivesse pessoas em volta? E se um único civil tivesse passado pelas barricadas, um repórter talvez, e se ele ficasse esmagado entre mim e Luke Cage? Ou embaixo daquele tanque de ácido que Falcão virou? – Eu sei – Sue passou por ele. – Escuta. Tenho um encontro marcado para… – Não, não, não. Não quero saber. Não vou escolher nenhum lado. Na minha opinião, o Capitão é tão culpado nisso quanto Tony Stark. Sue franziu a testa. – O que você está dizendo? – Estou dizendo que a lei de registro está errada, e que não posso apoiar uma lei na qual não acredito. – É isso que eu estou… – Mas ainda sou patriota, Suzie. Amo meu país. Não vou lutar contra o governo, ou deixar que o governo me rotule de criminoso. Então, só vejo uma escolha. – Vou deixar o país. Ela parou, deu um passo atrás. – Oh. – França, acho. Pelo menos, até isso acabar – ele olhou para a mesa de cabeceira e seus grandes olhos azuis ficaram embaçados. – Ei, olha aquilo. Sue seguiu o olhar dele até o modelo do foguete. Ela o pegou e entregou para ele. Eles ficaram parados por um minuto, olhando para a réplica. – Nós fomos os primeiros – ela sussurrou. – É – ele se virou para ela, um olhar estranho no rosto. – Você se arrepende, Suzie? – De quê? – De tudo. Do voo no foguete, dos poderes. De seguir o cabeção elástico por toda a criação: para o espaço, para outras dimensões, pra maldita Zona Negativa. As lutas, os dramas… Tinham outros caras interessados em você. Ela franziu a testa. – Ben… – Você se arrependeu de ter se casado com ele? De ter se acomodado? Ela abriu um sorriso triste. – Não sei se eu chamaria isso de “se acomodar”. – Isso não é resposta. Um zumbido saiu do comunicador, largado em cima da cama. Sue o pegou rapidamente. Ben levantou uma sobrancelha. – Não vou ver um desses por um bom tempo. Ela levantou o dedo, dizendo para ele ficar em silêncio. – Johnny? A voz do irmão dela soou através da estática. – Está aí, mana? – Só um minuto, Johnny – ela virou para trás. – Ben… – Tenho que ir, Suzie. Boa sorte. – Você… ah, pra você também, seu bobão. – Só me faça um favor, ok? – a expressão de Ben era muito séria. – Fique longe de Atlântida. – Mana? Não estou conseguindo te ouvir. – Johnny, só um minuto… Mas quando ela se virou para a porta, Ben já tinha ido embora. Você não terá notícias de Johnny também, Reed. Eu cuidarei dele, como sempre cuidei. Mas para onde vamos, eu não posso levar Franklin e Valéria. Então, estou deixando-os aos seus cuidados. E eu lhe imploro, amor: por favor, dê mais atenção a eles, a atenção que você tanto negou no passado. Eu também não queria que a última imagem que você tivesse de mim fosse manchada por todas as brigas que tivemos nas últimas semanas. Que bom que fizemos amor ontem à noite, e quero que saiba que foi maravilhoso. Sempre é maravilhoso. Fantástico, até. – Mana, não usamos esses comunicadores há anos. Onde estavam? – Não podia arriscar telefones celulares, Johnny. Tony Stark consegue saber de tudo através de satélites, hoje em dia – ela fez uma careta. – Mas acho que ninguém mais usa essa frequência. – Você sempre foi o cérebro da família. Bem, da nossa família – a estática aumentou, depois diminuiu. – … próximo passo? – Cadê você? Na casa da Marika ainda? – Martika. Sim, isso é… – Martika. Não, não me fale. Vamos nos encontrar daqui a meia hora… digamos, na frente do Blazer Club. Ninguém espera nos ver lá novamente. – Na cena do crime. Gosto disso. – Seja discreto. Mas nada de disfarces ridículos. Deixe o nariz postiço e os óculos em casa. – Que pena, mana. As garotas adoram. – Tenho que ir, Johnny. Até já. Eu te amo. – Você é o máximo. O comunicador ficou mudo. Ela olhou de novo para o monitor da babá eletrônica. Eu deveria ir ver as crianças, pensou ela. Uma última vez. Isso vai ser duro para eles. Mas ela sabia: se fizesse isso, não iria embora. Pegou a réplica do foguete, ergueu-o na mão. Segurou-o sobre a mala, então se virou e o guardou, cuidadosamente, dentro da gaveta. Eu vou voltar, pensou. Espero. Então, ela fechou a mala e ficou invisível. Espero não parecer uma covarde por partir assim. Espero que não me ache uma péssima esposa ou, pior ainda, uma péssima mãe. Estou fazendo isso pelo melhor dos motivos. A cruzada de Tony Stark nasceu com a melhor das intenções, sei disso. Mas também sei, no fundo do meu coração, que ela não nos levará a nada bom. Você é a pessoa mais inteligente que conheço, Reed. E eu espero, eu rezo, que a sua genialidade consiga resolver essa situação antes que um dos lados acabe massacrando o outro. Eu te amo, amor. Mais do que tudo. Conserte isso. Susan.

– PETER, estou dizendo, eu estou bem. Ninguém me ameaçou, ninguém… Peter, onde estamos indo? Peter Parker olhou para o mapa no seu celular, depois se debruçou no banco da frente. – Vire à direita – pediu ao motorista de táxi. – Não que eu adore o fato de ter policiais na frente da minha casa o tempo todo – continuou Tia May. – Mas eles têm sido muito gentis. – Eles não são policiais, Tia May. São agentes da S.H.I.E.L.D. – De qualquer forma, Sr. Espertinho. Isso não explica por que tive de arrumar as minhas coisas e sair sem que eles vissem. – Ela olhou pela janela, fazendo uma careta de quem não estava gostando. – E o que estamos fazendo no Brooklyn? O motorista se virou para eles. – Neste quarteirão, senhor? – Acho que sim. Vá mais devagar. Como muitos outros bairros de Nova York, Fort Greene mudara muito na última década. A fileira de antigos prédios de tijolo tinha sido limpa e restaurada, mostrando todo o esplendor do século XIX. – Peter… – Só um minuto, Tia May. Por favor – ele franziu a testa, olhou pela janela. – Deve ser a próxima no… para. O táxi freou. – Aqui estamos – disse o motorista. Tia May apertou o ombro de Peter, com medo. Ele virou sorrindo, e gentilmente tirou os dedos dela. Em seguida, abriu a porta e olhou à sua volta. A maior parte do quarteirão tinha calçadas de concreto e grades de metal. Mas na frente de um prédio em particular, a calçada fora substituída por elegantes lajotas antigas. Plantas cresciam em todos os lugares: dentro da cerca, contornando a calçada, alinhando os degraus que levavam à entrada principal. Uma acerácea jovem florescia de um corte quadrado no concreto, a terra amontoada ainda em torno de sua base. Ele franziu a testa, verificou de novo o endereço. Estava certo. – Peter – Tia May esforçou-se para segurar a mala. – Eu não lhe ensinei a ajudar uma dama a carregar a sua mala? Ele levantou a mala com facilidade, pagou o motorista do táxi e acompanhou Tia May até os degraus – tudo isso um pouco atordoado. Seu coração estava palpitando. Aquilo não seria fácil, e a aparência da casa fez como que tivesse a impressão de que estava entrando em uma realidade alternativa. Talvez ela não esteja em casa, pensou ele. Em seguida: Não. Ela tem que estar. Ela atendeu à porta vestindo uma calça jeans com manchas de terra e grama, uma camisa amarrada em sua linda cintura. O cabelo ruivo estava despenteado, grudado na testa pelo suor. Segurava uma pá na mão. Ela arregalou os olhos, chocada. – Ah, meu Deus! – Mary Jane – disse Peter. Eles ficaram parados por um momento constrangedor, encarando um ao outro. Passou pela mente de Peter: Será que ela vai me bater com a pá? Então, Tia May o empurrou e passou à sua frente, os braços abertos. – Querida – exclamou ela. – Quanto tempo. Ainda surpresa, Mary Jane estendeu os braços e abraçou a senhora. Mas seu olhar permaneceu em Peter. – Que bom vê-la, Tia May – disse MJ devagar. – Por que a senhora não se senta e toma um chá? Acho que eu e seu sobrinho precisamos conversar. O quintal de MJ era ainda mais impressionante do que a frente. Era amplo, coberto de verde: moitas, tomateiros, filas ordenadas de flores. Uma cocheira ficava atrás, com um telhado de telhas de vidro, que ela havia transformado em estufa. Peter olhou em volta, impressionado. – Este lugar é… realmente alguma coisa, MJ. Ela abaixou, fechando apressadamente um buraco que estava cavando. – E é em grande parte autossustentável, Tigre. As paredes são revestidas de brim reciclado, no telhado há painéis solares. O telhado do jardim ajuda a manter o lugar aquecido no inverno e previne que água tóxica escoe. Estou pensando em perfurar um poço geotérmico, mas precisa de um monte de permissões. – Não me leve a mal, MJ. Mas não parece você falando. – Um amigo ator fez algo parecido em Clinton Hill e me contou os detalhes. Mas acho que o que eu realmente precisava era de um projeto. Alguma coisa que fosse minha. Depois… Ela gaguejou. – Depois que eu deixei você no altar – terminou ele. – Você quer dizer, que o Homem-Aranha deixou – ela deu um sorriso triste. – Acho que não preciso mais manter esse segredo. – Eu teria me casado com você – afirmou ele, a voz fraca. – Quero dizer, aquele brutamontes me deixou inconsciente na hora em que nosso casamento estava marcado. Mas depois. Qualquer dia. A qualquer hora. Depois do desastre do casamento, ela fugiu da cidade e se recusou a falar com ele por duas semanas. Ele tentou de tudo para consertar as coisas: flores, presentes, bilhetes escritos à mão, vídeos com desculpas cheias de lágrimas. Quando ela finalmente concordou em conversar, ele supôs que ela finalmente o havia perdoado. Mas a resposta dela foi clara e definitiva: nunca se casaria com o Homem-Aranha. E Peter percebeu que não podia abrir mão do Homem-Aranha. Ela acenou para ele, o velho sorrisinho aparecendo em seu rosto. Cruzou o quintal até um longo banco feito de um único tronco e sentou ali, esticando suas longas pernas. A camisa subiu um pouco, revelando aquele abdômen incrível. Não era de se admirar que ela ainda fizesse trabalhos para a Vogue e para o canal VH1. Ela está linda, pensou ele. Parece que está ficando mais nova! – Então, Tigre. Não podia ligar antes? Ocupado demais aparecendo nas manchetes? Ele sentou, um pouco desajeitado, na beirada do banco. – No momento, não confio muito em telefones. – Parece que está ficando paranoico – então, ela se inclinou para frente, ficando séria de repente. – Espere. Com toda essa publicidade… alguém ameaçou Tia May? Foi por isso que a trouxe para cá? – Não. Ainda não. – Eu vi a história do Dr. Octopus no jornal. Tigre, você não pensou nessas coisas antes de revelar a sua identidade em rede nacional? – Claro que pensei! Mesmo – ele deu as costas. – E alguém me prometeu que a protegeria sempre. Mas… – Mas? Mas não tenho mais certeza se confio nessa pessoa. – Não somos mais crianças. Pare com esses joguinhos de adivinhação. – Tony. Tony Stark. – Tony Stark – ela colocou a mão nos lindos lábios. – O homem mais rico que conhecemos, o cara que agora basicamente está no controle de toda a atividade de super-heróis no país. Você acha que ele não consegue proteger a sua tia? – Não é uma questão de conseguir. É só que… – ele parou, começou a andar de um lado para o outro. – Olhe aqueles gerânios – disse MJ. – Estão começando a florescer. – Tem muita coisa estranha acontecendo, MJ. Você ficou sabendo do herói que morreu ontem? Bill Foster? – Golias, certo? – ela franziu a testa. – Apareceu no jornal, mas não deram muitos detalhes. – Isso porque o Tony não quer contar pras pessoas o que aconteceu. Que Bill foi atingido por um raio lançado pelo clone defeituoso do Thor que o pessoal do Tony criou como parte da nova equipe de heróis. MJ o encarou. – Estou chocada – exclamou ela. – Eu fico vendo – continuou Peter. – Sangue jorrando pelas costas de Bill, o enorme corpo dele tombando como um carvalho. E isso não é tudo. É só o começo. Tony também construiu uma prisão para meta-humanos… uma fortaleza estranha e antisséptica controlada por robôs. Não fica nem na Terra, fica em uma dimensão esquisita chamada Zona Negativa. Ele parou para tomar fôlego. Podia sentir que estava começando a desmoronar, a resistência caindo. Alguma coisa neste lugar, em ver MJ de novo. Nunca fora tão próximo de uma pessoa como fora dela, e agora que ela estava com ele de novo, achou que não conseguiria parar de falar. – Supostamente devem existir… Tony quer cinquenta superequipes, uma para cada estado. No momento, tudo isso é confidencial, mas vi alguns dos nomes que ele está tentando recrutar. Não dá para preencher todas as equipes sem inscrever pessoas um tanto instáveis. – Peter… – E o Capitão América! Não existe homem melhor no mundo, e eu fiquei lá vendo o Tony dar uma surra nele, acabar com ele. Não sou sensível MJ, você sabe disso, já vi coisas. Mas isso está errado. Foi… ah, merda… Ele enxugou uma lágrima e tentou sorrir. – Pólen estúpido. Você tem plantas demais aqui, sabia? E então, ela estava ali, bem na sua frente, os lindos olhos escuros encarando os seus. Desafiando-o, assim como fazia quando eram crianças. Ela cheirava a pele, terra e perfume de morango. Os lábios dela estavam levemente abertos. Ele se moveu para beijá-la, motivado por uma necessidade intensa e inconsciente. Mas ela levantou a mão, empurrando-o. – O que você vai fazer? – ela quis saber. Peter abaixou o olhar, constrangido. – Tony é um homem bom. Ele fez muito por mim, por muita gente. – Mas você acha que ele foi longe demais. – Eu vou conversar com ele. Só eu e ele, nós pensamos parecido. Ele disse isso. – Você não parece muito certo. – Não tenho mais certeza de nada. Bem, de uma coisa. Só de uma. Ele a puxou para perto, abraçou-a como a uma irmã. Enterrou a cabeça no ombro dela. – Você é a única pessoa – ele sentiu as lágrimas vindo de novo. – A única pessoa no… mundo em que eu realmente confio. Ela não disse nada. Levantou as mãos ágeis e pousou sobre os ombros dele, abraçando-o forte. – Preciso que você leve a minha tia daqui – disse ele. – Para que fique segura. – Segura de quê? – De… de nada, espero. Mas se as coisas não correrem do jeito que eu espero… se ele não vir… – Droga. Droga, Peter – MJ se afastou, foi andando até um vaso de girassóis. – Você espera que eu abra mão da minha vida e… – Eu sei. Eu sei, mas é… – … e deixe a minha casa, que eu finalmente coloquei do jeito que queria, depois de tudo que… Ela enterrou a cabeça nas mãos e começou a chorar. Peter se levantou, sem saber o que fazer. – Não posso deixar que ela seja ferida – sussurrou ele. – Não por causa do… MJ virou-se duramente para ele, olhos molhados de lágrimas. – Por causa do Homem-Aranha. Ele assentiu. – Está tudo bem aqui? – Tia May enfiou a cabeça pela porta dos fundos e fez uma careta. – Ah, entendo. Mais do velho drama. Bem, não liguem para mim. Ah, minha querida, Mary Jane. Que lindas flores você tem. Tia May esbravejou e protestou. Apontou o dedo na cara de Peter várias vezes, e em um terrível momento, ele achou que ela explodiria em um ataque de raiva, do tipo que ela não se permitia desde a morte do Tio Ben. Mas no final, ela assentiu, fechou a boca e permitiu que Mary Jane a levasse para o carro. Afinal, como ela disse, confiava nele. Peter ficou parado na calçada, observando o Mini Cooper de Mary Jane descer a rua. MJ mal lhe dirigira a palavra enquanto arrumava as malas. Mas sabia que ela também compreendia. Ele soltou um longo suspiro, se jogando para trás na jovem acerácea. Fechou os olhos, inalou o pesado cheiro de natureza. Pensou nas duas mulheres que mais amava no mundo, apertadas, juntas em um carro minúsculo, indo para um destino desconhecido. Não me diga pra onde vocês estão indo, ele implorara para Mary Jane. É melhor assim. Ficou se perguntando quando as veria de novo.


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