C A P Í T U L O 3
HATTIE Durham e os remanescentes da tripulação incentivaram os passageiros a ler
atentamente os folhetos de instruções de segurança que se encontravam nas bolsas das
poltronas. A maioria dos passageiros temia ser incapaz de pular e deslizar nas rampas,
principalmente se tivessem de carregar suas bagagens de mão. Foram instruıd́ os a tirar os
sapatos, pular e deslizar sentados na rampa. Em seguida, os comissários atirariam seus sapatos e
as bagagens de mão. Ninguém deveria esperar no terminal para retirar as malas. Foi prometido
que elas seriam entregues na residência de cada passageiro. Não se podia garantir quando.
Buck Williams deu a Hattie seu cartão e anotou o número do telefone dela, "caso eu
consiga contatar seus familiares antes de você".
— O senhor trabalha no Semanário Global? — perguntou ela. — Eu não poderia imaginar.
— E você estava querendo impedir que eu mexesse no telefone.
Ela pareceu ensaiar um sorriso.
— Sinto muito — disse Buck -, não foi fácil. Você estava desempenhando a sua função.
Tendo sido sempre um viajante prático, Buck nunca despachara bagagens. Jamais ϐizera
isso, mesmo nos vôos internacionais. Quando abriu o compartimento de bagagem para retirar
sua maleta de couro, encontrou em cima dela o chapéu é a jaqueta do senhor idoso. A esposa de
Harold estava olhando fixamente para Buck, olhos inchados, queixo apoiado na mão.
— Madame — disse ele suavemente -, a senhora deseja estas roupas?
A triste senhora recebeu com gratidão o chapéu e a jaqueta e apertou-os contra o peito
como se nunca mais fosse soltá-los. Ela disse alguma coisa que Buck não pôde ouvir. Ele pediu
que ela repetisse.
— Não tenho condições de saltar deste avião — disse ela.
— Fique aqui — respondeu ele. — Alguém virá ajudá-la.
— Mas terei de pular e deslizar naquela coisa?
— Não, madame. Estou certo de que eles providenciarão outro meio para a senhora
descer.
Buck guardou seu laptop e o estojo no meio de suas roupas. Fechou a maleta com o zıṕ er e
se apressou para ϐicar à frente da ϐila, ansioso por mostrar aos outros como era fácil. Primeiro,
atirou seus sapatos, vendo-os saltar e escorregar até a pista. Em seguida, apertou sua maleta
contra o peito, deu um rápido passo e saltou com as pernas à frente.
Um tanto entusiasmado, ele escorregou de costas apoiando-se nos ombros, e não nas
nádegas. Com isto, suas pernas levantaram-se, fazendo com que as pontas dos pés tocassem sua
cabeça. Ele ganhou velocidade e bateu com as nádegas na rampa por causa do peso deslocado
para frente. Em razão da força centrıṕ eta, seus pés bateram com força no chão e seu torso
levantou-se, provocando uma cambalhota que evitou que ele batesse com o rosto no concreto.
No último lance, ainda agarrado à maleta e querendo salvar a vida, ele enϐiou a cabeça entre as
pernas e esfolou a parte posterior do crânio em lugar do nariz. Apressou-se a dizer "Não foi
nada", mas, ao passar a mão pela cabeça, ela estava coberta de sangue. Não era um ferimento
grave, apenas uma escoriação. Ele rapidamente recuperou seus sapatos e começou a caminhar
aos trotes em direção ao terminal, mais por vergonha do que por necessidade. Sabia que não
havia mais pressa, assim que chegasse ao terminal.
Rayford, Christopher e Hattie foram os três últimos a deixar o 747. Antes do desembarque,
quiseram certiϐicar-se de que todas as pessoas aptas ϐisicamente escorregaram pela rampa e
que os idosos e deϐicientes foram transportados de ônibus. O motorista do ônibus insistiu que a
tripulação pegasse uma carona com os últimos passageiros, mas Rayford recusou.
— Não devo passar à frente de meus passageiros enquanto caminham para o terminal —
disse ele. — Como isto seria visto?
Christopher disse:
— Faça como quiser, capitão. Você se importaria se eu aceitasse o oferecimento?
Rayford olhou para ele com olhos penetrantes.
— Você está falando sério?
— Não ganho o suficiente para passar por isto.
— A empresa não é culpada pelo que houve. Chris, você não está falando sério.
— Claro que não. Mas, quando você chegar ao terminal, há de se arrepender por não ter
ido de ônibus.
— Vou relatar isto.
— Milhões de pessoas desaparecem na atmosfera, e eu devo ϐicar preocupado por você
relatar que peguei um ônibus, em vez de andar a pé? Até logo, Steele.
Rayford meneou a cabeça e voltou-se para Hattie:
— Vejo você mais tarde. Se puder sair do terminal, não espere por mim.
— Você está brincando? Se você for a pé, eu também irei.
— Você não precisa fazer isto.
— Depois daquela repreensão ao Smith? É claro que irei a pé.
— Ele é co-piloto. Devemos ser os últimos a deixar o avião e os primeiros a nos
apresentarmos como voluntários numa emergência.
— Bem, faça-me um favor e me considere parte de sua tripulação também. Só porque não
posso pilotar essa coisa, não quer dizer que eu não sinta uma certa responsabilidade. E não me
trate como uma garota.
— Jamais faria isto. Mexi com seus brios?
Hattie puxava sua mala sobre rodinhas, e Rayford carregava sua maleta de couro. Era
uma longa caminhada, e várias vezes eles acenaram negativamente a ofertas de carona de
unidades que se apressavam a apanhar os que desembarcavam. Ao longo da caminhada,
passaram por outros passageiros de seu vôo. Muitos agradeceram a Rayford; ele não estava
certo do motivo. Talvez por ter evitado o pânico. Mas eles pareciam tão aterrorizados e
traumatizados quanto ele.
Tapavam os ouvidos por causa do ruıd́ o estridente dos aviões que pousavam. Rayford
tentou calcular quanto tempo levaria para aquela pista fechar também. Ele não podia imaginar
que a outra faixa aberta também pudesse receber muitos aviões. Teriam alguns de tentar
descer em rodovias ou em campos abertos? E a que distância das grandes cidades encontrariam
pistas rodoviárias desimpedidas, sem pontes e com extensão suϐiciente em linha reta? Ele
estremecia só de pensar.
Por toda parte viam-se ambulâncias e outros veıć ulos de emergência tentando chegar a
locais de desastres fatais.
Finalmente, no terminal, Rayford encontrou multidões em ϐilas diante de cabinas de
telefone. Em muitas delas, pessoas irritadas, aguardando a sua vez, esbravejavam por causa da
lentidão dos usuários que, sem se importarem, discavam novamente. As lanchonetes e
restaurantes do aeroporto estavam desabastecidas ou com pouca comida, e todos os jornais e
revistas se esgotaram. Das lojas cujos empregados desapareceram, saqueadores saıá m com
mercadorias.
Rayford queria, mais do que qualquer coisa, sentar-se e conversar com alguém sobre o que
fazer naquela circunstância. Mas todos que ele via — amigos, conhecidos ou estranhos —
estavam ocupados tentando resolver seus problemas. O'Hare assemelhava-se a uma enorme
prisão com recursos cada vez mais escassos e o congestionamento aumentando. Ninguém
dormia. Todo mundo corria desatinado por todos os lados, procurando achar alguma ligação
com o mundo lá fora, contatar seus familiares e sair do aeroporto.
Nos balcões de passagens e em outras dependências, Rayford encontrou a mesma
confusão. Hattie disse que iria tentar dar seus telefonemas de uma sala de espera para
embarque e que o encontraria mais tarde para ver se poderiam compartilhar de um transporte
para os bairros. Ele sabia que seria difıć il achar alguma condução para qualquer lugar, não tinha
nenhuma disposição de andar 32 quilômetros. Todos os hotéis na região já se encontravam
completamente lotados. Que fazer?
Finalmente, um supervisor solicitou a atenção dos pilotos na central do subsolo. "Temos
algumas linhas telefônicas funcionando, cerca de cinco", disse ele. “Não podemos garantir que
vocês conseguirão completar as ligações, mas esta é sua melhor oportunidade”. Essas linha não
passam pelo tronco central daqui; portanto, vocês não dependerão dos telefones públicos
instalados no terminal. Reduzam ao mıń imo necessário seus telefonemas. Por outro lado, há um
número limitado de vôos de helicópteros disponıv́ eis para hospitais e postos policiais nos bairros,
mas, naturalmente, as emergências médicas terão prioridade. Entrem naquela fila
para ligações telefônicas e conduções para os bairros. Até este momento, não temos
informações de cancelamento de vôos, exceto para os remanescentes de hoje. “EƵ sua
responsabilidade retornar aqui para seu próximo vôo ou telefonar, a ϐim de saber como está a
posição.”
Rayford entrou na ϐila, começando a sentir a tensão de ter voado tanto tempo e saber tão
pouco. Pior ainda: ele tinha uma idéia melhor do que a maioria sobre o que havia acontecido. Se
estava certo, e se fosse verdade, ninguém atenderia quando ele ligasse para sua casa. Enquanto
estava ali, um monitor de televisão à sua frente transmitia imagens do caos. De todas as partes
do mundo, viam-se mães angustiadas, famıĺias estéricas, relatos de morte e destruição. Dezenas
de histórias incluıá m testemunhas que tinham visto seus entes queridos e amigos
desaparecerem diante de seus olhos.
Mais chocante para Rayford foi uma mulher em via de dar à luz, a caminho da sala de
parto, que se tornou repentinamente estéril. Os médicos retiraram a placenta. Seu marido havia
ϐilmado o desaparecimento do feto. Enquanto ϐilmava sua grande barriga e o rosto banhado de
suor, ele fazia perguntas. Como ela se sentia? "Como você acha que me sinto, Earl? Desligue
isso." O que ela estava esperando? "Que você chegue bem perto para que eu lhe dêum murro."
Ela estava consciente de que, não demoraria muito, eles seriam pais? "Assim que eu sair daqui,
vou me divorciar."
Então ouviu-se um grito e o ruıd́ o da queda da câmera, vozes aterrorizadas, enfermeiras
correndo e o médico. A televisão reproduziu as imagens, colocando-as em câmara lenta,
mostrando a barriga da mulher murchando até quase voltar ao normal, como se tivesse
instantaneamente dado à luz. "Agora, observem novamente", dizia o locutor, num tom de voz
meio cantado, "e mantenham seu olhar no lado esquerdo da tela, onde aparece uma enfermeira
lendo um relatório do coração do feto emitido pelo monitor. Ali, estão vendo?" A ação parou
quando a barriga da parturiente murchou de vez. "O uniforme da enfermeira parece estar ainda
em posição, como se uma pessoa invisıv́ el o estivesse vestindo. Ela sumiu. Vejam agora meio
segundo depois." A fita rodou mais um pouco e parou. "O uniforme, as meias e outras peças estão
empilhados em cima de seus sapatos."
As emissoras de televisão de todas as localidades do mundo informavam ocorrências
estranhas, especialmente em áreas de horários diferentes, onde o acontecimento se deu durante
o dia ou ao anoitecer. A televisão mostrou via satélite o vıd́ eo de um noivo desaparecendo
enquanto colocava a aliança no dedo de sua noiva. Numa cerimônia fúnebre realizada em
determinada residência na Austrália, quase todos os presentes desapareceram durante o serviço
religioso, incluindo o cadáver, enquanto em outro velório, no mesmo instante, somente uns
poucos desapareceram, permanecendo o cadáver. Os necrotérios também relataram o
desaparecimento de corpos. Num enterro, três dos seis que carregavam o caixão o largaram, e
ele caiu no chão. Os três desapareceram. Quando levantaram o caixão, os circunstantes
perceberam que ele estava vazio.
Rayford era o segundo na ϐila para telefonar, mas o que ele presenciou em seguida na tela
convenceu-o de que não veria mais sua esposa. Numa escola secundária cristã, durante um jogo
de futebol nas instalações de uma missão, na Indonésia, a maioria dos espectadores e todos —
menos um — dos jogadores desapareceram no meio do jogo, deixando seus sapatos e uniformes
no chão. O repórter da televisão anunciou que o único jogador que restou, com remorso,
suicidou-se.
Mas Rayford sabia que era mais do que remorso. De todos os demais, aquele jogador, um
estudante de uma escola cristã, teria sabido a verdade imediatamente. O Arrebatamento teve
lugar. Jesus Cristo tinha retornado para os seus, e aquele jovem não era um deles. Quando
Rayford sentou-se para telefonar, lágrimas banhavam suas faces. Alguém disse: "Você tem
quatro minutos", e ele sabia que esse tempo era mais do que ele precisava. A secretária
eletrônica de sua residência atendeu imediatamente, e ele se comoveu ao ouvir a voz animada
de sua esposa. "Sua ligação é importante para nós", dizia ela. "Por favor, deixe seu recado após
ouvir o sinal."
Rayford apertou umas teclas para ouvir os recados porventura gravados. Havia três ou
quatro gravações sem importância, e ele surpreendeu-se quando ouviu a voz de Chloe. "Mamãe?
Papai? Vocês estão aı?́ Vocês viram o que está acontecendo? Liguem para mim logo que
puderem. Perdemos pelo menos dez estudantes e dois professores, e todos os ϐilhos pequenos dos
estudantes casados desapareceram. Raymie está bem? Liguem para mim!" Bem, ao menos ele
sabia que Chloe ainda estava por aqui. Tudo o que ele queria era abraçá-la.
Rayford voltou a chamar e deixou um recado em sua secretária. "Irene? Ray? Se
estiverem aı,́ atendam. Se receberem este recado, estou no O'Hare tentando chegar aı.́ Caso eu
não consiga um helicóptero, pode demorar um pouco. Espero que estejam em casa."
— Vamos com isso, capitão — disse alguém. — Todo mundo tem um telefonema a fazer.
Rayford balançou a cabeça e rapidamente discou para o dormitório de sua ϐilha em
Stanford. Recebeu a irritante mensagem de que sua ligação não poderia ser completada.
Rayford pegou seus pertences e deu uma espiada em sua caixa de correio. Ao lado de uma
porção de bobagens, estava um pequeno pacote embrulhado num papel resistente almofadado
vindo de sua casa. Recentemente, Irene passara a enviar-lhe pequenas surpresas, inspirada por
um livro sobre casamento que ela o incentivava a ler. Ele enϐiou o pacote em sua maleta e foi à
procura de Hattie Durham. Engraçado, ele não sentia qualquer atração emotiva em relação a
Hattie naquele momento. Mas tinha o compromisso de fazê-la chegar ao seu lar.
Quando parou no meio de uma multidão junto ao elevador, ouviu um aviso de que havia
um helicóptero com capacidade para oito pilotos que faria um vôo a Monte Prospect, Arlington
Heights e Des Plaines. Rayford correu para o heliporto.
— Tem lugar para um com destino a Monte Prospect?
— Sim.
— E para outra pessoa com destino a Des Plaines?
— Talvez, se ele chegar aqui em dois minutos.
— Não é ele. Trata-se de uma comissária de vôo.
— Somente pilotos. Lamento.
— E se tiver lugar?
— Bem, pode ser, mas onde ela está? '
— Vou comunicar-me com ela pelo pager.
— Não estão permitindo o envio de pager a ninguém.
— Aguarde só um segundo. Não saiam sem mim. O piloto do helicóptero olhou para o
relógio.
— Três minutos — disse ele. — Estarei saindo à 1 hora. Rayford deixou sua bagagem no
chão, na esperança de retardar a decolagem do helicóptero no caso de um pequeno atraso.
Arremeteu escada acima e pelo corredor. Achar Hattie seria impossıv́ el. Ele lançou mão de um
telefone de cortesia.
— Sinto muito, estamos impossibilitados de enviar pagers a quem quer que seja neste
momento.
— Esta é uma emergência, e sou capitão-aviador da Pan-Continental.
— Qual é o recado?
— Que Hattie Durham encontre seu parceiro em K-l7.
— Vou tentar.
— Por favor.
Rayford ϐicou na ponta dos pés para ver se Hattie estava chegando, mas ϐinalmente foi ela
que o localizou.
— Eu era a quarta na ϐila do telefone na sala de espera — disse ela, aparecendo ao seu
lado. — Conseguiu alguma coisa?
— Consegui para nós um vôo de helicóptero, se corrermos — respondeu ele.
Enquanto desciam a escada rapidamente disse ela:
— Não foi horrível o que aconteceu com Chris?
— O que houve com ele?
— Você não sabe?
Rayford queria parar e dizer a ela que fosse mais objetiva. Esse comportamento era
caracterıśtico de pessoas da idade dela. Os jovens adoram enrolar a conversa. Ele gostava de ir
direto ao assunto.
— Diga logo! — exclamou ele, com um tom mais exaltado do que pretendia.
Quando irromperam pela porta afora e chegaram ao piso de macadame, as lâminas do
helicóptero chicoteavam e eriçavam seus cabelos e os ensurdeciam. A maleta de Rayford já
tinha sido colocada a bordo, e restava apenas um lugar vago. O piloto apontou para Hattie e
balançou a cabeça num gesto negativo. Rayford agarrou-a pelos cotovelos e puxou-a para
dentro enquanto entrava no aparelho.
— Ela só não seguirá neste vôo se o problema for excesso de peso!
— Quanto você pesa, boneca? — perguntou o piloto.
— 52 quilos.
— Com esse peso, podemos ir! — disse ele a Rayford. — Mas, se ela não usar o cinto, não
me responsabilizo!
— Vamos embora! — gritou Rayford.
Ele ajustou o cinto em si mesmo, e Hattie sentou-se em seu colo. Rayford pôs os braços
em torno da cintura dela e agarrou seus pulsos juntando-os. Ele pensava quão irônico era o fato
de ter sonhado com isto durante semanas, e agora não havia nenhum prazer, nenhuma
excitação, nada absolutamente sensual. Ele se sentia miserável. Contente por ser capaz de tirá-
la de lá, mas miserável.
Hattie parecia embaraçada e desconfortável, e Rayford notou que ela olhava de soslaio e
envergonhada para os outros sete pilotos no helicóptero. Nenhum deles parecia interessado em
olhar para ela. Essa tragédia estava ainda muito recente e havia muitos cujos paradeiros eram
ignorados. Rayford pensou ter ouvido, ou interpretou pelo movimento dos lábios, um deles dizer
"Christopher Smith", mas não havia meio de poder ouvir dentro daquele aparelho barulhento.
Ele pôs a boca bem perto do ouvido de Hattie.
— Agora, o que houve com Chris? — perguntou. Ela voltou-se e falou ao seu ouvido.
— Eles o levavam numa maca atrás de nós enquanto eu estava saindo da sala de
embarque. Sangue por toda parte!
— O que aconteceu?
— Não sei, mas ele parecia não estar bem!
— Como assim?
— Acho que estava morto! Quer dizer, eles estavam procurando reanimá-lo, mas creio
que não conseguiram.
Rayford balançou a cabeça. O que mais Hattie contaria?
— Ele foi atingido ou alguma coisa? Aquele ônibus bateu? Isto está parecendo ironia!
— Não sei — disse ela. — O sangue parecia estar saindo de sua mão ou de seu peito ou de
ambos.
Rayford tocou o ombro do piloto.
— Você sabe qualquer coisa sobre o co-piloto Christopher Smith?
— Aquele da Pan-Continental? — perguntou o piloto.
—Sim!
— O que se suicidou? Rayford tremeu.
— Acho que não! Houve um suicídio?
— Muitos, suponho, mas a maioria entre passageiros. O único membro de tripulação de
quem ouvi falar era um tal de Smith, da Pan. Cortou os pulsos.
Rayford espreitou rapidamente os outros no helicóptero para ver se reconhecia algum. Não
reconheceu, mas um deles estava balançando a cabeça tristemente, após ter ouvido a resposta
em voz alta do piloto. Ele inclinou-se para a frente.
— Chris Smith! Você o conhece?
— Meu co-piloto!
— Sinto muito.
— O que você ouviu?
— Não posso saber até que ponto isto é conϐiável, mas ouvi comentários de que ele
descobriu que seus filhos tinham desaparecido e que sua esposa havia morrido num acidente!
Pela primeira vez, a monstruosidade da situação tocou Rayford pessoalmente. Ele não
conhecia bem Smith. Lembrava-se vagamente de que Chris tinha dois ϐilhos. Parece que
estavam no inıć io da adolescência, de idades muito próximas. Ele não chegou a conhecer a
esposa de Chris. Mas suicıd́ io! Seria aquela uma opção para Rayford? Não, não com Chloe ainda
aqui. Mas, e se ele descobrisse que Irene e o jovem Ray se foram e que Chloe tinha morrido? Que
motivo ele teria para viver?
De qualquer maneira, Rayford não estava vivendo para eles, pelo menos nos últimos
meses. Ele andou ϐlertando mentalmente com a garota que estava em seu colo, embora nunca
tivesse chegado a ponto de tocá-la, mesmo quando ela muitas vezes o tocava. Desejaria ele
continuar a viver se Hattie Durham passasse a ser a única pessoa com quem tivesse de
preocupar-se? E por que se preocupava com ela? Hattie era bonita, sensual e talentosa, mas
jovem demais. Eles tinham pouco em comum. Estaria ele agora amando Irene só por estar
convencido de que ela desaparecera?
Não havia afeição ao abraçar Hattie Durham exatamente agora, nem ela sentia emoção.
Ambos estavam assustados mortalmente, e ϐlerte era a última coisa em suas mentes. A ironia
não abandonara Rayford. Ele se lembrava de que a última coisa com que sonhara acordado —
antes da notıć ia dada por Hattie no avião — era tentar uma intimidade com ela. Como poderia
saber que ela estaria em seu colo horas depois e que seu interesse por ela seria o mesmo que por
uma estranha?
A primeira parada era no Departamento de Polıć ia de Des Plaines, onde Hattie
desembarcaria. Rayford aconselhou-a a pedir que um carro da polıć ia a levasse para casa, se
houvesse algum disponıv́ el. Muitos tinham sido solicitados para servir em áreas mais
congestionadas; portanto, isso era improvável.
— Estou a apenas um quilômetro e meio de casa — gritou Hattie por causa do ronco do
motor do helicóptero, enquanto Rayford a ajudou a descer. — Posso andar até lá!
Em seguida, emocionada, Hattie envolveu o pescoço de Rayford com os seus braços, e ele
sentiu que ela tiritava de medo.
— Espero que todos de sua famıĺia estejam bem! — disse ela. — Ligue para mim dandome
notícias, promete?
Ele meneou a cabeça afirmativamente.
— Promete — insistiu ela.
— Sim, claro!
Quando o helicóptero levantou vôo, ele a viu procurando o estacionamento. Não
localizando nenhum carro da polıć ia, ela saiu apressadamente puxando sua mala com rodinhas.
Quando o helicóptero começou a dar a volta em direção a Monte Prospect, Hattie andava a
passos rápidos, quase correndo, para o seu condomínio.
Buck Williams foi o primeiro passageiro do vôo a
chegar ao terminal em O'Hare. Ele encontrou uma
grande confusão. Ninguém que esperava na fila para
telefonar iria tolerar sua tentativa de conectar seu
modem ao telefone. Como seu celular não estava
funcionando, ele dirigiu-se ao clube exclusivo da PanContinental.
Ali também havia congestionamento, mas, apesar da perda de funcionários,
incluindo o desaparecimento de vários deles enquanto trabalhavam, o local aparentava estar em
ordem. Ali também havia pessoas em ϐila esperando telefonar, mas, quando um aparelho ϐicava
disponıv́ el, ele percebia que alguns tentavam passar um fax ou conectar diretamente pelo
modem. Enquanto esperava, Buck se pôs a trabalhar de novo em seu computador, reϐixando o ϐio
d o modem interno ao conector-fêmea. Em seguida, localizou as mensagens que havia
rapidamente baixado antes da aterrissagem.
A primeira era de Steve Plank, seu editor-executivo, endereçada a todo o pessoal de
campo:
Fiquem onde estão. Não tentem vir a Nova York. EƵ impossıv́ el. Liguem para cá quando
puderem. Chequem seu voice mail e seu e-mail regularmente. Mantenham contato quando
possível. Temos pessoal suficiente para ficar de plantão e queremos relatos pessoais, em cima do
fato, tanto quanto possam transmitir. Não estamos certos sobre transporte e linhas de
comunicação entre nós e nossas gráϐicas, nem com seus empregados. Se possıv́ el, imprimiremos
em tempo.
Apenas um lembrete: Comecem a pensar a respeito das causas. Militar? Cósmica?
Científica? Espiritual? Mas, por enquanto, estamos tratando principalmente do que aconteceu.
Tenham cuidado e mantenham contato.
A segunda mensagem era também de Steve e exclusiva para Buck.
Buck, ignore o memorando para o pessoal em geral. Venha a Nova York logo que puder e a
qualquer custo. Cuide das questões de famıĺia, naturalmente, e arquive qualquer experiência ou
reflexão pessoal, como os outros estão fazendo. Porém, você deve sair na frente para descobrir o
que está por trás do fenômeno. As idéias são como egos -todo mundo tem um.
Se chegaremos a algumas conclusões não sei, mas pelo menos vamos catalogar as
possibilidades razoáveis. Você pode adivinhar por que preciso de você aqui para fazer isso; tenho,
na verdade, um motivo superior. Penso, às vezes, que, devido à posição em que estou, sou o
único que pode saber dessas coisas; mas três diferentes chefes do departamento editorial
apresentaram idéias de reportagens acerca de um encontro de vários grupos internacionais em
Nova York este mês. O editor de polıt́ ica planeja cobrir uma conferência de nacionalistas judeus
em Manhattan, que tem alguma coisa a ver com uma nova ordem de governo no mundo. O que
eles querem dizer com isto, não sei, e o próprio editor também não sabe. O editor de religião
deixou alguma coisa em minha caixa de entrada sobre uma conferência de judeus ortodoxos
vindos também para um encontro. Não são somente de Israel, mas, ao que parece, de todos os
lugares, e eles não querem mais saber de discutir a respeito dos Rolos do Mar Morto. Estão
ainda aturdidos com o desmantelamento da Rússia e seus aliados — que imagino que vocêainda
pensa ter sido sobrenatural, mas acredite, gosto de você mesmo assim. O editor de religião
pensa que eles estão atrás de ajuda para reconstruir o templo. Isto talvez não seja um fato
muito importante ou relacionado em outro departamento — a não ser o de religião -, mas ϐiquei
surpreso ao saber de outro encontro de um grupo de judeus no mesmo local e quase na mesma
data para tratar de um assunto inteiramente polıt́ ico. A outra conferência religiosa na cidade é
entre líderes de todas as principais religiões, incluindo aqueles do tipo Nova Era, falando também
sobre uma ordem religiosa universal. Eles devem também reunir-se com os judeus nacionalistas,
não é verdade? Preciso de seu cérebro neste caso. Não sei o que fazer, se é que alguma coisa
pode ser feita.
Sei que todo mundo se preocupa com os desaparecimentos. Mas precisamos ϐicar de olho
no resto do mundo. Você sabe que a Organização das Nações Unidas pretende realizar uma
conferência monetária internacional, tentando avaliar como vamos fazer com este negócio de
três moedas. Pessoalmente, sou favorável, mas estou um tanto desconfiado da idéia de usar uma
moeda que não seja o dólar. Vocêpode se imaginar negociando em ienes ou marcos aqui? Acho
que ainda sou provinciano.
Todo mundo está muito entusiasmado com esse tal de Carpathia, o romeno que
impressionou tanto seu amigo Rosenzweig. Ele deixou todo mundo em apuros no senado de seu
paıś por ter sido convidado para falar na ONU dentro das duas próximas semanas. Ninguém sabe
como ele conseguiu esse convite, mas sua popularidade internacional me lembra bastante
Walesa ou mesmo Gorbachev. Lembra-se deles? Ah!
Hei, amigo, mande notıć ia, se não desapareceu. Pelo que soube até este momento, perdi
uma sobrinha e dois sobrinhos, uma cunhada de quem não gostava e, possivelmente, um casal de
parentes distantes. Vocêacha que eles voltarão? Bem, guarde pra vocêaté que saibamos o que
está por trás disso. Se eu tivesse de adivinhar, diria que estou antevendo alguma terrıv́ el
redenção divina. Ou seja, não é que essas pessoas desaparecidas estejam mortas. O que vai
acontecer no mundo com a indústria do seguro de vida? Não estou disposto a acreditar em
tablóides. Saiba apenas que eles estão dizendo que os alienıǵ enas do espaço ϐinalmente nos
pegaram.
Venha pra cá, Buck.

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