C A P Í T U L O 1
Era a vez de Rayford Steele ter uma pausa para descanso. Pendurou os audiofones no
pescoço e vasculhou sua maleta à procura da Bıb́ lia de sua esposa, admirado diante da rapidez
com que sua vida mudara. Quantas horas ele perdera durante momentos ociosos iguais a este,
dedicando toda a atenção a jornais e revistas que não tinham nada a dizer? Depois de tudo o que
acontecera, só um livro poderia despertar seu interesse.
O Boeing 747 estava ligado no piloto automático, tendo partido de Baltimore rumo ao
aeroporto O'Hare de Chicago, onde deveria pousar às dezesseis horas de sexta-feira, mas Nick, o
novo co-piloto de Rayford, olhava ϐirme para a frente, como se estivesse pilotando a aeronave.
Não quer mais conversar comigo, pensou Rayford. Sabia o que estava por vir e me mandou ϔicar
quieto antes de eu abrir a boca.
"Você não vai se ofender se eu ficar aqui lendo por alguns instantes?" perguntou Rayford.
O jovem co-piloto virou-se e retirou o audiofone do ouvido. "O que você disse?"
Rayford repetiu, apontando para a Bıb́ lia. Pertencera à sua esposa que ele não via há mais
de duas semanas e que provavelmente não veria nos próximos sete anos.
— "Desde que eu não tenha de ouvir sua leitura."
— "Já disse em alto e bom som, Nick. Vocêacha que não me preocupo com o que pensa a
meu respeito, não é isso?”
— "Como?"
Inclinando-se, Rayford aproximou-se dele e falou mais alto. — "O que vocêpensa de mim
teria sido imensamente importante algumas semanas atrás", ele disse. "Mas...”
— "Ah, sim, eu sei, e daı?́ Entendi, Steele, está bem? Vocêe muitas outras pessoas pensam
que foi Jesus. Não entro nessa. Iluda-se sozinho, mas me deixe fora disso."
Rayford ergueu as sobrancelhas e deu de ombros. — "Você não me respeitaria se eu não
tivesse tentado."
— "Não tenha tanta certeza disso."
Mas quando Rayford se virou para se dedicar à leitura, foi o Chicago Tribune despontando
de dentro de sua maleta que lhe chamou a atenção.
O Tribune, como todos os jornais do mundo, estampava na primeira página: “Durante uma
reunião particular na Organização das Nações Unidas, pouco antes da entrevista coletiva à
imprensa de Nicolae Carpathia, aconteceu um terrıv́ el assassinato/suicıd́ io. O novo secretáriogeral
da ONU Nicolae Carpathia acaba de dar posse aos dez novos membros do novo Conselho de
Segurança, parecendo ter cometido um erro ao empossar dois homens para a mesma posição de
embaixador dos Grandes Estados Britânicos na ONU.”
De acordo com testemunhas, o bilionário Jonathan Stonagal, amigo e consultor ϐinanceiro
de Carpathia, dominou de surpresa um guarda de segurança, apoderou-se de sua arma e atirou
em sua própria cabeça, tendo o projétil
Atravessado e atingido mortalmente um dos novos embaixadores britânicos.
A Organização das Nações Unidas permaneceu fechada durante o dia, e Carpathia
lamentou a perda trágica de seus dois caros amigos e fiéis conselheiros.
Por mais bizarro que pudesse parecer, Rayford Steele era uma das únicas quatro pessoas
do planeta que sabia a verdade acerca de Nicolae Carpathia — que ele mentia, fazia lavagem
cerebral por hipnose e era o próprio Anticristo. Outras pessoas poderiam suspeitar que Carpathia
fosse um enganador, mas só Rayford, sua ϐilha, seu pastor e seu novo amigo jornalista Buck
Williams tinham certeza disto.
Buck tinha sido um dos dezessete presentes naquela sala de reunião da ONU. E ele
testemunhara algo totalmente diferente — não um assassinato/suicıd́ io, mas um duplo
assassinato. De acordo com Buck, o próprio Carpathia apossou-se da arma do guarda de
segurança, obrigou seu velho amigo Jonathan Stonagal a ajoelhar-se e, em seguida, assassinou
Stonagal e o embaixador britânico com um único tiro.
Carpathia promoveu os assassinatos e depois, enquanto as testemunhas permaneciam
sentadas e paralisadas pelo horror da cena, contou-lhes calmamente o que elas tinham visto —
a mesma história que os jornais estavam relatando. Todas as testemunhas naquela sala, menos
uma, conϐirmaram a história. A maioria sentiu um arrepio, mas acreditou. Até mesmo Steve
Plank, ex-chefe de Buck, e agora secretário de imprensa de Carpathia. Até mesmo Hattie
Durham, ex-chefe do serviço de bordo de Rayford, que se tornara assistente pessoal de
Carpathia. Todas, exceto Buck Williams.
Rayford duvidou quando Buck contou sua versão no escritório de Bruce Barnes duas noites
antes. — "Vocêfoi o único da sala que presenciou o fato desta maneira?" indagou, pondo à prova
o articulista.
— "Capitão Steele", respondeu Buck, "todos nós presenciamos o fato da mesma maneira.
Mas a seguir Carpathia descreveu calmamente o que ele desejava que tivéssemos visto, e todos,
menos eu, imediatamente aceitaram-no como verdadeiro. Não entendo como ele consegue
explicar que o sucessor do homem morto estava presente quando aconteceu o assassinato e
chegou a prestar juramento de posse. Mas agora não há evidências de que estive lá. EƵ como se
Carpathia me tivesse apagado da memória dos presentes. Pessoas que conheço juram que eu
não estava lá, e elas não estão brincando.”
Chloe e Bruce Barnes olharam-se mutuamente e depois para Buck. Buck ϐinalmente
tornara-se crente, pouco antes de entrar na reunião da ONU. — "Estou absolutamente
convencido de que se tivesse entrado naquela sala sem Deus", disse Buck, "também teria sido
submetido a uma lavagem cerebral."
"E se agora você contar ao mundo a verdade..."
— "Senhor, fui removido para Chicago porque meu chefe acredita que não compareci à
reunião. Steve Plank perguntou-me por que não aceitei seu convite. Ainda não conversei com
Hattie, mas o senhor sabe que ela não se lembrará de que estive lá."
— "A dúvida maior", disse Bruce Barnes, "é o que Carpathia pensa sobre o que se passa em
sua cabeça, Buck. Será que ele imagina ter apagado a história verdadeira de sua mente? Se ele
souber que não, você corre grande perigo".
Agora, enquanto Rayford lia a notıć ia bizarra no jornal, notou que Nick estava mudando o
piloto automático para manual. "Início da descida", disse Nick. "Quer assumir o comando?"
"Claro", respondeu Rayford. Nick poderia aterrissar a aeronave, mas Rayford sentia-se
responsável. Ele era o capitão. Teria de dar conta dos passageiros. E apesar de a aeronave poder
aterrissar sozinha, ele não queria perder a emoção de pilotá-la. Poucas coisas faziam-no
lembrar da vida como ela fora algumas semanas antes; aterrissar um 747 era uma delas.
Buck Williams passou o dia à procura de um apartamento para morar e de um carro para
comprar. Em Manhattan nunca sentira necessidade de ter veıć ulo próprio. Encontrou um lindo
condomıń io, onde se anunciavam apartamentos com telefone, localizado no meio do caminho
entre a sucursal do Semanário Global de Chicago e a Igreja Nova Esperança de Mount Prospect.
Buck tentou convencer-se de que o motivo principal que o levara a procurar moradia na zona
oeste da cidade foi por causa da igreja, e não por causa de Chloe, a ϐilha de Rayford Steele. Por
ser dez anos mais velho do que ela, Buck sabia que, por maior que fosse sua atração por Chloe,
ela apenas o considerava uma espécie de conselheiro bem mais velho e experiente.
Buck protelou sua ida ao escritório. A bem da verdade, só deveria comparecer na segundafeira,
e não lhe agradava a idéia de enfrentar Verna Zee. Quando foi incumbido de encontrar uma
substituta para a experiente Lucinda Washington, chefe da sucursal de Chicago que havia
desaparecido, informaram-lhe que a destemida Verna se antecipara, mudando-se
imediatamente para a sala de sua ex-chefe. Agora Buck tinha sido rebaixado de cargo e Verna,
promovida. De repente ela passou a ser sua chefe.
Porém, Buck não queria passar o ϐim de semana amoϐinando-se com a reunião, nem
desejava parecer ansioso demais para ter um novo encontro com Chloe. Resolveu, então, dar
uma chegada até o escritório pouco antes do encerramento do expediente. Será que Verna o
faria pagar por seus anos de glória que o levaram a conquistar prêmio como articulista de
reportagem de capa? Ou faria pior ainda, destruindo-o com ares de bondade?
Ao atravessar o corredor em direção ao escritório, Buck percebeu os olhares e sorrisos dos
subalternos. Evidentemente todos já sabiam o que acontecera. Solidarizavam-se com ele,
atônitos em razão de sua falta de bom senso. Como Buck Williams poderia ter deixado de
comparecer a uma reunião que certamente seria a mais importante da história contemporânea,
apesar do ϐim trágico que resultou em duas mortes? Mas todos também estavam cientes da
capacidade de Buck. Muitos, sem dúvida, ainda consideravam um privilégio trabalhar com ele.
Sem causar surpresa a ninguém, Verna já se mudara para a sala principal. Buck piscou
para Alice, uma jovem de cabelos espetados, secretária de Verna, e espiou dentro da sala. Dava
a impressão que Verna trabalhava ali havia anos. Já mudara os móveis de lugar e pendurara seus
próprios quadros e placas de homenagem, demonstrando claramente que ocupava um cargo
importante e adorava desempenhá-lo.
Uma pilha de papéis entulhava a mesa de Verna, e a tela do computador estava acesa,
mas ela lançava um olhar perdido em direção à janela. Buck enϐiou a cabeça no vão da porta e
pigarreou. Viu que ela o reconheceu e se recompôs rapidamente. "Cameron", disse em tom de
voz seco, ainda sentada. "Esperava que você só viesse na segunda-feira."
"Estou apenas fazendo um reconhecimento do local", ele disse. "Pode me chamar de
Buck."
"Vou chamá-lo de Cameron, se você não se importar, e..."
"Eu me importo. Por favor, pode me chamar de..."
"Vou chamá-lo de Cameron mesmo que você não queira. Você informou a alguém que
viria?"
"Como assim?"
"Você marcou horário?"
"Horário?"
"Comigo. Tenho uma agenda lotada, você sabe."
"E não há nenhum espaço para mim?"
"Então você está pedindo para que eu marque um horário?"
"Se não for incômodo. Gostaria de saber onde vou aportar e que tipo de incumbências você
tem em mente para mim, que tipo de..."
"Esses assuntos poderão ser discutidos quando nos reunirmos", disse Verna. "Alice! Veja se
tenho um horário livre em vinte minutos, por favor!"
"Tem", gritou Alice. "E terei satisfação em mostrar o cubıć ulo do Sr. Williams enquanto
ele aguarda, se você..."
"Prefiro eu mesma fazer isso, Alice. Obrigada. Você poderia fechar a porta de minha sala?"
Alice olhou para Buck com ar de desculpa enquanto se levantava para fechar a porta. Ele
achou que ela revirou os olhos em sinal de enfado. "Você pode me chamar de Buck", cochichou.
"Obrigada", respondeu ela timidamente, indicando uma cadeira perto de sua mesa.
"Vou ter de esperar aqui, como se estivesse aguardando o diretor?"
Ela assentiu com a cabeça. "Alguém procurou por você pouco antes de sua chegada. Ela
não disse quem era. Informei que você só estaria aqui na segunda-feira."
"Não deixou recado?"
"Não."
"Então, onde fica meu cubículo?"
Alice olhou de relance para a porta fechada, como se temesse que Verna pudesse vê-la.
Levantou-se e apontou por cima de várias divisórias em direção a um canto no fundo, sem
janelas.
"Era ali que ficava o bule de café na última vez em que estive aqui", disse Buck.
"E continua lá", disse Alice com uma risadinha. O interfone tocou. "Pois não, senhora."
"Se vocês precisam conversar, poderiam falar mais baixo enquanto estou trabalhando?"
"Desculpe!" Desta vez Alice revirou os olhos de verdade.
"Vou dar uma espiada", cochichou Buck, levantando-se.
"Por favor, não faça isso. Vai me criar problemas com a manda-chuva."
Buck balançou a cabeça e voltou a sentar-se. Pensou nos lugares por onde andara, nas
pessoas com quem se encontrara, nos perigos que enfrentara em sua carreira. E agora estava
cochichando com uma secretária para que ela não tivesse problemas com uma pretensa chefe
que nunca foi capaz sequer de escrever uma comunicação interna.
Buck suspirou. Pelo menos estava em Chicago, cercado de pessoas que se importavam
com ele de verdade.
Apesar de Rayford Steele e Chloe partilharem de uma nova fé, ele ainda estava sujeito a
profundas alterações de humor. Enquanto atravessava o aeroporto de O'Hare, passou
abruptamente e em silêncio por Nick e sentiu uma grande tristeza. Como sentia falta de Irene e
Raymie! Não tinha dúvida nenhuma de que ambos estavam no céu. Talvez estivessem
pranteando por ele. O mundo mudara de forma tão dramática desde os desaparecimentos que
poucas pessoas haviam readquirido o senso de equilıb́ rio. Sentia-se agradecido por ter Bruce
dando-lhe assistência, por Chloe, e agora por Buck estar a seu lado trabalhando ϐirme na missão
que se propuseram levar adiante, mas às vezes a simples idéia de enfrentar o futuro parecia um
fardo muito grande.
Foi por isso que sentiu um grande alıv́ io ao ver o rosto sorridente de Chloe aguardando por
ele no ϐim do corredor. Em duas décadas de trabalho como piloto, adquirira o hábito de
misturar-se aos passageiros que recebiam as boas-vindas no terminal. Quase todos os pilotos
simplesmente desembarcavam da aeronave e dirigiam-se sozinhos para casa.
Chloe e Rayford passaram a entender um ao outro como nunca acontecera antes.
Rapidamente tornaram-se amigos e conϐidentes. Apesar de não concordarem em tudo,
permaneciam juntos nos momentos de tristeza e dor, unidos pela nova fé e companheiros na
missão à qual deram o nome de Força Tribulação.
Rayford abraçou a filha. "Há algo errado?"
"Não, mas Bruce esteve à sua procura; Convocou uma reunião de emergência do núcleo
para o inıć io desta noite. Não sei do que se trata, mas Bruce gostaria que levássemos Buck à
reunião."
"Como você veio até aqui?"
"De táxi. Sabia que você tinha deixado seu carro aqui."
"Onde Buck poderia estar?"
"Ele saiu hoje à procura de um carro e de um apartamento. É difícil saber onde ele está."
"Você telefonou para o Semanário"
"Falei com Alice, a secretária, no início da tarde. Bruce só deverá comparecer na segundafeira,
mas poderemos ligar novamente pelo telefone do carro. Isto é, você pode. Você é quem
deve telefonar para ele, não acha? Não é melhor?"
Rayford conteve um sorriso.
Sentada à sua mesa, Alice inclinou-se para frente com a cabeça erguida, ϐitando Buck e
segurando-se para não cair na gargalhada enquanto ele lhe contava algumas anedotas em voz
baixa. Ele se perguntava o tempo todo como poderia encaixar todos os seus pertences que
estavam em sua sala espaçosa no escritório de Manhattan naquele cubıć ulo onde o pessoal se
servia de café. O telefone tocou e Buck ouviu a conversa dos dois lados da linha por meio do
viva-voz. Da outra extremidade do corredor, a recepcionista disse: "Alice, Buck Williams ainda
está aí?"
"Bem na minha frente."
"Ligação para ele."
Era Rayford Steele, telefonando do carro. "AƱs sete e meia da noite?" disse Buck. "Claro,
estarei lá. O quê? Ah, sim, diga a ela que retribuo o abraço. Nos encontraremos na igreja hoje à
noite."
Buck estava desligando quando Verna apareceu na porta e olhou-o com expressão de
desagrado.
"Algum problema?" ele indagou.
"Em breve você terá um telefone", ela disse. "Vamos, entre."
Assim que Buck se acomodou na cadeira, Verna informou-lhe suavemente que ele não
mais viajaria para o exterior trabalhando em reportagens de capa ou em matérias de impacto
para o Semanário Global. "Aqui em Chicago exercemos um papel importante na revista, porém
limitado", ela disse. "Interpretamos as notıć ias nacionais e internacionais a partir de um ponto
de vista local e regional, e submetemos nossas reportagens a Nova York."
Buck empertigou-se na cadeira. "Quer dizer que estou sendo designado para a Bolsa de
Mercadorias de Chicago?”
"Não me venha com gozações, Cameron. Nunca vai conseguir. Você trabalhará em
qualquer matéria que necessite de cobertura no decorrer da semana. Sua tarefa será canalizar o
assunto ao editor-chefe e a mim, e eu decidirei se a matéria tem conteúdo e qualidade para ser
transmitida a Nova York."
Buck suspirou. "Não perguntei ao chefão o que eu deveria fazer com meus trabalhos em
andamento; Acho que nem você sabe."
"De agora em diante seu contato com Stanton Bailey será também por meu intermédio.
Entendido?"
"Você está me perguntando se entendo ou se concordo?"
"Nem uma coisa nem outra. Estou perguntando se aceita."
"Acho que não", respondeu Buck, sentindo uma onda de calor subindo pelo pescoço e o
pulso acelerando. Não queria entrar em discussão acalorada com Verna. Mas também não
pretendia permanecer calado diante de alguém que não pertencia ao ramo jornalıśtico e que
jamais deveria sentar-se na cadeira de Lucinda Washington e exercer liderança sobre ele.
"Discutirei o assunto com o Sr. Bailey", ela disse. "Como vocêpode imaginar, tenho todos
os tipos de recursos à minha disposição para lidar com empregados insubordinados."
"Posso imaginar. Por que você não liga agora para ele?"
"Para quê?"
"Para esclarecer qual é a minha função. Aceitei ser rebaixado de cargo e transferido. Você
sabe tanto quanto eu que se meu trabalho for restrito a matérias de natureza regional, meus
contatos e experiência irão por água abaixo."
"E seu talento também, você gostaria de dizer."
"Deduza o que quiser. Mas antes de você liquidar-me de vez, saiba que trabalhei dezenas
de horas em minha reportagem de capa sobre a teoria dos desaparecimentos... ora, por que
estou lhe falando disso?"
"Porque sou sua chefe e porque diϐicilmente um articulista da sucursal de Chicago
trabalharia em uma reportagem de capa."
"Nem mesmo um articulista que já trabalhou em muitas? Desaϐio vocêa ligar para Bailey.
A última vez que ele comentou algo sobre meu trabalho foi para dizer que seria um sucesso."
"Ah, é? Na última vez que conversei com ele, tomei conhecimento da última conversa
entre vocês."
"Aquilo foi um mal-entendido."
"Foi uma mentira. Você disse que esteve em um lugar, mas todo mundo jurou que você
não esteve. Se eu fosse ele, teria demitido você."
"Se você tivesse autoridade para me demitir, eu pediria demissão."
"Quer demitir-se?"
"Vou lhe dizer o que quero, Verna. Quero..."
"Exijo que todos os meus subordinados me chamem de Srta. Zee."
"Você não tem subordinados neste escritório", disse Buck. "E você não..."
"Você está se aproximando muito da linha de fogo, Cameron."
"Você não receia que Srta. Zee seja um tratamento muito juvenil?"
Ela levantou-se. "Acompanhe-me." Irritada, passou por ele, saiu abruptamente da sala e
caminhou pelo longo corredor com passos firmes.
Buck parou diante da mesa de Alice. "Obrigado por tudo, Alice", disse rapidamente. "Tenho
uma boa quantidade de bugigangas que estão sendo despachadas para cá e gostaria que vocêas
enviasse para meu novo apartamento."
Alice começou a assentir com a cabeça, mas seu sorriso gelou quando Verna gritou no final
do corredor. "Rápido, Cameron!"
Buck virou-se lentamente. "Voltarei a falar com você, Alice." Caminhou devagar
propositadamente só para irritar Verna. Algumas pessoas dentro de seus cubıć ulos observaram a
cena, fingindo não ter visto nada, mas sorrindo furtivamente.
Verna marchou até o canto destinado a servir café e apontou para uma pequena mesa, um
telefone e um arquivo. Buck sorriu com desdém.
"Você terá um computador dentro de uma semana ou pouco mais", ela disse.
"Peça que o entreguem em meu apartamento."
"Isso está fora de cogitação."
"Não, Verna, o que está fora de cogitação é você tentar desabafar toda a sua frustração em
alguém que conhece as coisas em um piscar de olhos. Você sabe tanto quanto eu que ninguém
com um mıń imo de dignidade suportaria isto. Se eu tiver de trabalhar na região de Chicago, vou
trabalhar em casa com um computador, um modem e um fax. Se vocêestá pretendendo me ver
neste escritório novamente por uma razão ou outra, é melhor telefonar para Stanton Bailey
imediatamente."
Verna parecia preparada para não arredar pé, portanto Buck tomou a iniciativa de dirigirse
para a sala dela. Verna o seguiu. Ele passou por Alice, que parecia tomada pelo pânico, e
aguardou diante da mesa de Verna até ela chegar. "Você mesma vai discar ou quer que eu
disque?" ele ordenou.
Rayford e Chloe lancharam a caminho de casa e encontraram um recado telefônico
urgente do comandante de Rayford. "Ligue para mim assim que chegar." Com o quepe debaixo
do braço e trajando ainda sua capa impermeável de uniforme, Rayford discou o número que
sabia de cor. "O que houve, Earl?"
"Obrigado por retornar minha ligação imediatamente, Ray. Vocêe eu nos conhecemos há
muito tempo."
"Tempo suficiente para que você vá direto ao assunto, Earl. O que foi que eu fiz?"
"Este não é um telefonema oϐicial, está bem? Não se trata de uma reprimenda, nem de
uma admoestação, nem de outra coisa qualquer. Trata-se de uma conversa de amigo para
amigo."
"Se é de amigo para amigo, Earl, devo me tranqüilizar?"
"Não, mas deixe-me dizer-lhe uma coisa, rapaz, você andou fazendo proselitismo."
"Fazendo o quê?"
"Falando de Deus no trabalho, homem."
"Earl, eu paro de falar quando alguém retruca, e você sabe que não deixo esse assunto
interferir no trabalho. A propósito, qual é sua opinião a respeito dos desaparecimentos?"
"Já esgotamos esse assunto, Ray. Estou apenas lhe dizendo que Nicky Edwards vai fazer
um relatório sobre você, e eu gostaria de dizer a ele que já conversamos sobre isso e que você
concordou em parar de falar no assunto."
"Fazer um relatório sobre mim? Por acaso transgredi alguma regra, infringi um
regulamento ou cometi um crime?"
"Não sei que nome ele dará a isso, mas você já foi advertido, certo?"
"Entendi que esse telefonema não era oficial."
"E não é, Ray. Você quer que seja? Quer que eu lhe telefone amanhãe o arraste até aqui
para uma reunião e redija um memorando para seu prontuário, ou prefere que eu contorne a
situação, que lhes diga que foi um mal-entendido, que você já esfriou a cabeça e que o assunto
não voltará à baila novamente?"
Rayford permaneceu calado.
"Vamos, Ray, isto não é um bicho-de-sete-cabeças. Não quero que você pense muito no
assunto."
"Mas terei de pensar, Earl. Gostei de você ter-me alertado, mas ainda não me sinto
preparado para fazer concessões."
"Não faça isso comigo, Ray."
"Não tem nada a ver com você, Earl. Tem a ver comigo."
"Ah, sim, mas eu é que terei de encontrar um substituto qualiϐicado para pilotar o 747 e o
757."
"Você não está falando sério! Eu poderia perder o emprego por causa disso?"
"Aposto que sim."
"Ainda preciso pensar mais um pouco."
"Você está piorando as coisas, Ray. Preste atenção, mesmo que você recupere o bom
senso e o assunto seja esquecido, será necessário reinscrever-se logo para pilotar o 757. A
empresa estará adquirindo mais seis aeronaves dentro um mês ou pouco mais, e haverá falta de
pilotos aqui. Você vai querer fazer parte da lista. Mais dinheiro, você sabe."
"Isso já não é o mais importante para mim, Earl."
"Eu sei."
"Mas a idéia de pilotar o 757 é atraente. Voltarei a falar com você."
"Não me faça esperar muito, Ray."
"Telefonarei para o Sr. Bailey se eu quiser", disse Verna, "mas você deve saber que já é
tarde para ligar para Nova York."
"Ele está sempre lá, você sabe disso. Disque para sua linha direta que ϐica ligada após o
expediente."
"Não tenho o número."
"Vou escrevê-lo para você. Provavelmente ele está entrevistando um substituto para
mim."
"Vou ligar para o Sr. Bailey, Cameron, e permitirei que você lhe diga o que pensa. Antes,
porém, preciso conversar com ele, e me reservo o direito de lhe contar o quanto vocêtem sido
insubordinado e desrespeitoso. Por favor, espere lá fora."
Alice estava juntando suas coisas para encerrar o expediente quando Buck surgiu com um
olhar travesso. Os outros funcionários já estavam saindo do escritório em direção ao
estacionamento ou à estação do metrô. "Você ouviu tudo?" cochichou Buck.
"Eu ouço tudo", ela disse em voz baixa. "Você conhece estes novos aparelhos viva-voz,
esses que a pessoa não precisa aguardar até que a outra termine de falar?"
Ele assentiu com a cabeça.
"Esses aparelhos também não acusam se alguém estiver ouvindo. Basta desligar a tecla de
comunicação, deste jeito, e se algo bater sem querer no botão viva-voz — epa! — vocêpoderá
ouvir a conversa sem que ninguém saiba. Não é uma boa?"
Do aparelho viva-voz na mesa dela ouviu-se o som do telefone tocando em Nova York.
"Stanton. Quem é?"
"Lamento, senhor, precisar aborrecê-lo a esta hora..."
"Se você sabe o número é porque tem algo importante a me dizer. Vamos, quem é?"
"Verna Zee, de Chicago."
"Ah, sim, Verna, o que houve?"
"Tenho um problema aqui. Cameron Williams."
"Ah, sim, eu pretendia dizer a você para deixá-lo em paz. Williams está trabalhando em
duas grandes matérias para mim. Você arrumou um belo lugar onde ele possa trabalhar, ou
devemos deixá-lo trabalhar em seu próprio apartamento?"
"Temos um lugar para ele aqui, senhor, mas Cameron foi grosseiro e insubordinado comigo
hoje e..."
"Ouça, Verna, não quero que você se preocupe com Williams. Ele está determinado a
buscar explicação para algo que nem imagino, mas deixe que vá em frente. Ele ainda é uma
estrela aqui e vai fazer mais ou menos a mesma coisa que tem feito. Receberá menos dinheiro,
terá um cargo com menos prestıǵ io e não voltará a trabalhar em Nova York, mas suas tarefas
partirão daqui. Você não precisa preocupar-se com ele, está certo? Na verdade, acho que seria
melhor para ambos se ele não trabalhasse no escritório."
"Mas, senhor..."
"Tem algo mais a dizer, Verna?"
"Bem, gostaria que o senhor me tivesse dito isso antes. Preciso de seu apoio. Ele agiu de
maneira imprópria comigo e..."
"E daí? Ele avançou sobre você, chegou a atacá-la ou fez algo parecido?"
Buck e Alice cobriram a boca com as mãos para não caıŕ em na gargalhada. "Não, senhor,
mas deixou claro que não vai subordinar-se a mim."
"Sinto muito, Verna, mas ele não vai mesmo, está bem? Não vou desperdiçar Cameron
Williams em trabalhos regionais. Com isso não estou dizendo que não aprecie cada linha de
texto que vem de seu escritório, entenda bem."
"Mas, senhor...”
"Lamento muito, Verna, há mais alguma coisa? Não estou sendo claro ou temos outro
problema? Diga-lhe apenas para pedir o equipamento necessário, debitar as despesas na conta
da sucursal de Chicago e receber as ordens diretamente daqui. Entendido?"
"Mas ele deveria pedir desc..."
"Verna, você realmente precisa que eu atue como mediador de um conϐlito de
personalidades, estando a quilômetros de distância? Se você não pode resolver a questão
sozinha..."
"Posso, senhor, e resolverei. Obrigada. Lamento tê-lo aborrecido."
O interfone tocou. "Alice, mande-o entrar."
"Sim, senhora, e depois posso..."
"Sim, pode ir embora."
Buck percebeu que Alice arrumava suas coisas lentamente, como quem quer continuar
ouvindo a conversa. Entrou rapidamente na sala de Verna, esperando poder conversar por
telefone com Stanton Bailey.
"Ele não precisa falar com você. Deixou claro que não devo envolver-me em suas
embromações. Estou ordenando que você trabalhe em seu apartamento."
Buck sentiu vontade de dizer que seria difıć il deixar passar em branco os comentários
sarcásticos que ela proferira a seu respeito, mas já estava se sentindo culpado por ter escutado
sua conversa às escondidas. Um sentimento novo. Culpa.
"Tentarei ficar fora de seu caminho", ele disse.
"Será um prazer."
Quando Buck chegou ao estacionamento, Alice estava à sua espera. "Aquilo foi ótimo", ela
disse.
"Você deveria envergonhar-se." Ele deu um largo sorriso.
"Você também escutou."
"Escutei sim. Tchau."
"Vou perder o trem das seis e meia", ela disse, "mas valeu a pena."
"Posso levá-la até a estação. Mostre-me onde fica a estação."
Alice aguardou enquanto ele abria a porta do carro. "Belo carro."
"Novinho em folha", ele respondeu. Era exatamente como se sentia.
Rayford e Chloe chegaram adiantados à Igreja Nova Esperança. Bruce estava lá,
terminando de comer um sanduıć he. Ele aparentava ter bem mais do que seus trinta e poucos
anos. Depois de cumprimentá-los, ajeitou os óculos no lugar e recostou-se na cadeira. "Vocês
localizaram Buck?" indagou.
"Ele disse que viria", respondeu Rayford. "Qual é o assunto urgente?"
"Você ouviu as notícias hoje?"
"Por alto. É algo significativo?"
"Acho que sim. Vamos aguardar a chegada de Buck."
"Enquanto isso, deixe-me contar o que aconteceu comigo hoje", disse Rayford.
Quando ele terminou, Bruce estava sorrindo. "Aposto que isso nunca constou de seu
prontuário antes."
Rayford balançou a cabeça e mudou de assunto. "Parece" muito estranho Buck fazer parte
do núcleo, principalmente por ele ser tão novato no assunto.
"Somos todos novatos, não?" disse Chloe.
"Verdade."
Bruce levantou a cabeça e sorriu. Rayford e Chloe viraram-se e avistaram Buck na porta
de entrada.
C A P Í T U L O 2
Buck não sabia como reagir quando Rayford Steele o cumprimentou efusivamente.
Gostava do calor humano e da franqueza de seus três novos amigos, mas algo o aborrecia e ele
mantinha uma certa distância. Ainda não se sentia à vontade com esse tipo de afeição. E qual
seria o tema da reunião? A Força Tribulação estava programada para reunir-se regularmente,
portanto uma reunião especialmente convocada deveria ter um significado importante.
Chloe olhava para ele com ar esperançoso quando o cumprimentou. Mesmo assim, não o
abraçou como Steele e Bruce Barnes haviam feito. A conduta discreta de Chloe era por sua
causa, naturalmente. Eles mal se conheciam, mas houvera uma reação da parte de ambos. Já
tinham deixado transparecer os sinais do inıć io de um relacionamento. Em um bilhete a Chloe,
Buck admitira que sentia atração por ela. Mas ele precisava agir com cautela. Ambos eram
novos na fé e somente agora estavam aprendendo o que o futuro lhes traria. Só um tolo iniciaria
um relacionamento em tempos como este.
E ele não era exatamente isso—um tolo? Como pôde ter levado tanto tempo para
conhecer Cristo apesar de ter sido um aluno brilhante, um jornalista internacional e um pretenso
intelectual?
E o que estava acontecendo com ele agora? Sentia-se culpado por ter ouvido seus chefes
discutindo a seu respeito por telefone. No passado, jamais teria dado a mínima importância a um
fato como esse. As artimanhas, os esquemas e as mentiras que ele preparara e contara para
conseguir uma reportagem dariam para escrever um livro. E agora, seria ele tão bom jornalista
como sempre foi, tendo Deus em sua vida parecendo alϐinetar sua consciência mesmo diante de
coisas insignificantes?
Rayford percebeu o desconforto de Buck e a hesitação de Chloe. Porém o que mais o
impressionou foi a mudança quase instantânea no semblante de Bruce. Bruce sorrira diante da
história contada por Rayford a respeito de seu problema no emprego, e sorriu quando Buck
chegou. De repente, contudo, o rosto de Bruce anuviou-se. Seu sorriso desapareceu e ele estava
tendo dificuldade de recompor-se.
Rayford era inexperiente nesse tipo de sensibilidade. Antes do desaparecimento da esposa
e do ϐilho, fazia anos que não chorava. Sempre considerou que as emoções eram sinal de
fraqueza e falta de virilidade. No entanto, após os desaparecimentos, viu muitos homens chorar.
Estava convencido de que os sumiços por todo o mundo tinham sido ocasionados por Cristo ao
arrebatar sua igreja, mas para aqueles que foram deixados para trás o evento foi catastrófico.
Mesmo para ele e Chloe, que se tornaram crentes em razão disso, o horror de perder os
membros da famıĺia foi terrıv́ el. Houve dias em que Rayford se sentiu tão angustiado e saudoso
da esposa e do ϐilho que teve dúvidas se conseguiria prosseguir. Como pôde ser tão cego? Que
fracasso ele havia sido como marido e como pai!
Bruce, porém, era um sábio conselheiro. Também perdeu esposa e ϐilhos, e ele, acima de
tudo, deveria estar preparado para a vinda de Cristo. Com o apoio de Bruce e a ajuda das duas
outras pessoas presentes naquela sala, Rayford sabia que poderia prosseguir. Contudo, havia algo
mais na mente de Rayford do que uma simples luta pela sobrevivência. Estava começando a
acreditar que ele — e todos os presentes — precisariam tomar uma atitude, talvez arriscando
suas próprias vidas.
Se houve um momento de dúvida ou hesitação quanto a isso, elas desapareceram quando
Bruce Barnes ϐinalmente conseguiu falar. O jovem pastor cerrou os lábios para evitar que
tremessem. Seus olhos estavam marejados de lágrimas.
"Eu, hã, preciso falar com vocês", ele começou, inclinando-se para frente e parando para
se recompor. "Diante de todas as notıć ias vindas de Nova York nestes últimos dias, resolvi deixar
a televisão ligada na CNN o tempo todo. Rayford, você disse que não ouviu a última. E você,
Chloe?" Ela balançou a cabeça negativamente. "Buck, suponho que vocêtenha acesso imediato
a todos os pronunciamentos de Carpathia."
"Não o de hoje", disse Buck. "Só fui ao escritório no fim do dia, e não ouvi nada."
O rosto de Bruce pareceu anuviar-se novamente, e ele deu um sorriso apologético. "As
notıć ias são devastadoras, mas este não é o problema principal", ele disse. "Estou sentindo uma
enorme responsabilidade por vocês. Estou tentando dirigir esta igreja, vocês sabem, mas isso
parece muito insigniϐicante quando comparado a meu estudo a respeito da profecia. Tenho
passado a maior parte de meus dias e noites debruçado sobre a Bıb́ lia e comentários correlatos,
e sinto a pressão de Deus sobre mim."
"A pressão de Deus?" repetiu Rayford. Bruce rompeu em prantos. Chloe estendeu o braço
sobre a mesa e colocou sua mão sobre a dele. Rayford e Buck também tocaram em Bruce.
"EƵ difıć il demais", disse Bruce, lutando para se fazer compreendido. "E sei que isso não
acontece só comigo. Acontece com vocês e com todos os que freqüentam esta igreja. Todos nós
estamos sofrendo muito, todos nós perdemos entes queridos, e todos nós não enxergamos a
verdade."
"Mas agora a encontramos", disse Chloe, "e Deus usou o senhor para isso."
"Sei. EƵ que sinto tantas emoções conϐlitantes que passo a me perguntar o que virá a seguir.
Minha casa é tão grande e está tão fria e solitária sem minha famıĺia que às vezes nem vou para
lá à noite. Há ocasiões em que estudo até cair de sono, e vou para casa de manhãsó para tomar
uma ducha, trocar de roupa e voltar para cá."
Pouco à vontade, Rayford olhava para um ponto distante. Por ter sido ele quem tentara
aproximar seus amigos, gostaria agora que alguém mudasse o rumo da conversa, derivasse o
assunto para o tema principal da reunião. Mas Bruce era uma pessoa diferente. Tinha seus
próprios métodos de comunicação e momento apropriado para falar.
Bruce pegou um lenço de papel enquanto os outros três permaneciam em silêncio. Quando
falou novamente, sua voz ainda estava rouca. "Sinto um peso enorme sobre mim", disse. "Uma
das coisas que nunca foram meu ponto forte era ler a Bıb́ lia diariamente. Eu ϐingia ser um
crente, um pretenso obreiro cristão dedicado, mas não dava muita importância à Bıb́ lia. Agora
não consigo extrair o máximo que ela tem a me oferecer.”
Buck identiϐicava-se com Bruce. Desejava saber cada coisa que Deus havia tentado
comunicar-lhe durante anos. Esse foi um dos motivos, além de Chloe, de não ter se importado
ao ser transferido para Chicago. Desejava freqüentar esta igreja e ouvir Bruce explicar a Bıb́ lia
sempre que as portas estivessem abertas. Desejava mergulhar nos conhecimentos e
ensinamentos de Bruce como membro deste pequenino núcleo.
Buck ainda tinha o emprego e estava escrevendo uma matéria importante, mas sua
principal ocupação era conhecer a Deus e ouvir sua mensagem. O resto não passava de um meio
para atingir um fim.
Bruce ergueu a cabeça. "Agora entendo o que o povo queria dizer com a expressão
“regozijar-se na Palavra”. AƱs vezes, passo horas sorvendo-a, chorando e orando. Perco a noção
do tempo e esqueço até de me alimentar. Outras, dobro os joelhos, clamando a Deus por mais
esclarecimento. E o que mais me espanta é que Ele está fazendo exatamente isso."
Buck percebeu que Rayford e Chloe movimentavam a cabeça aϐirmativamente. Era mais
novato que ambos no assunto, mas sentia o mesmo interesse ardente pela Bıb́ lia. Mas aonde
Bruce estaria querendo chegar? Estaria dizendo que Deus lhe revelara algo?
Bruce deu um longo suspiro e levantou-se. Caminhou até um dos cantos da mesa e sentouse
ali, olhando ϐirme para os três. "Necessito de suas orações", disse. "Deus está me mostrando
coisas, incutindo verdades dentro de mim que mal consigo refreá-las. E se as tornar públicas,
serei ridicularizado e possivelmente estarei em perigo."
"Claro que oraremos", disse Rayford. "Mas o que isso tem a ver com as notícias de hoje?"
"Tem tudo a ver com as notıć ias, Rayford." Bruce balançou a cabeça. "Vocênão enxerga?
Sabemos que Nicolae Carpathia é o Anticristo. Digamos que por uma questão de argumentação
a história de Buck sobre o poder hipnótico sobrenatural de Carpathia e o assassinato desses dois
homens seja ridıć ula. Mesmo assim, há plenas evidências de que Carpathia se encaixa nas
descrições proféticas. Ele é enganador. EƵ sedutor. O povo está se unindo para apoiá-lo. Foi
levado ao poder aparentemente contra sua vontade. Ele está forçando a idéia de um governo
mundial único, uma moeda única, um tratado com Israel, transferir a sede da ONU para
Babilônia. Isso basta como prova. Como pode um homem fomentar todas essas coisas e não ser
o Anticristo?"
"Sabíamos que isso aconteceria", disse Buck. "Ele tornou público todos os seus planos?"
"Todos hoje."
Buck deu um leve assobio. "O que Carpathia disse?"
"Deu a notıć ia por intermédio do secretário de imprensa, seu ex-chefe, Buck. Como é o
nome dele?"
"Plank."
"Correto. Steve Plank. Organizaram uma entrevista coletiva à imprensa para que ele
informasse aos meios de comunicação que Carpathia estaria fora de circulação durante alguns
dias, dirigindo reuniões estratégicas de alto nível."
"E ele disse do que se tratavam as reuniões?"
"Disse que Carpathia, apesar de não estar almejando a posição de lıd́ er, sentiu-se na
obrigação de tomar rápidas providências para unir o mundo em direção à paz. Organizou
equipes de trabalho para implementar o desarmamento das nações do mundo e para conϐirmar
que isso foi feito. Ordenou que os 10 por cento da produção armamentista de cada paıś que não
estão sendo destruıd́ os sejam embarcados para Babilônia, à qual ele deu o novo nome de Nova
Babilônia. A comunidade ϐinanceira internacional, cujos representantes já estão em Nova York
para as reuniões, foi encarregada de estabelecer uma única moeda."
"Eu jamais teria acreditado nisso." Buck franziu as sobrancelhas. "Tempos atrás um amigo
tentou me alertar."
"E isso não é tudo", prosseguiu Bruce. "Vocês acham que foi coincidência o fato de os
lıd́ eres das principais religiões estarem em Nova York quando Carpathia chegou na semana
passada? Como isso poderia ter acontecido, a não ser para que a profecia fosse cumprida?
Carpathia está persuadindo esses lıd́ eres a se unirem, concordarem em um tipo de esforço em
conjunto quanto à tolerância, respeitando suas crenças em comum."
"Crenças em comum?" estranhou Chloe. "Algumas dessas religiões têm tantas diferenças
que jamais chegariam a um acordo."
"Mas eles estão concordando", disse Bruce. "Aparentemente Carpathia está negociando.
Não sei o que está oferecendo, mas espera-se um pronunciamento dos líderes religiosos até o fim
da semana. Acho que teremos uma religião mundial única."
"Quem se deixaria seduzir por isso?"
"A Bíblia menciona que muitos."
A mente de Rayford girava. Sentia diϐiculdade em concentrar-se desde o dia dos
desaparecimentos. Em certas ocasiões ele ainda se perguntava se tudo aquilo não havia sido um
terrıv́ el pesadelo, do qual acordaria para em seguida mudar a sua maneira de viver. Seria ele o
Scrooge (personagem do livro Canção de Natal, de Charles Dickens, n.t.), que precisou ter um
sonho tão horrıv́ el para ver o mal que havia praticado? Ou seria George Bailey, personagem
interpretado por James Stewart no ϐilme It's a Wonderful Life, que conseguiu ter seus desejos
realizados e depois se arrependeu?
Rayford sabia de duas pessoas — Buck e Hattie — que conheceram pessoalmente o
Anticristo! O quanto isso era bizarro! Quando ele se permitiu reϐletir sobre o assunto, sentiu um
calafrio de terror dentro de si. A batalha cósmica entre Deus e Satanás abatera-se sobre sua
própria vida. Em um piscar de olhos, ele, que sempre fora um pai cético e negligente, um
marido lascivo e galanteador, passou a ser um crente fanático em Cristo.
"Por que as notıć ias de hoje o transtornaram tanto, Bruce?" indagou Rayford. "Penso que
nenhum de nós duvidou da história de Buck nem perdeu tempo em questionar se Carpathia era o
Anticristo."
"Não sei, Rayford." Bruce voltou a sentar-se na cadeira. "Tudo o que sei é que quanto mais
me aproximo de Deus, quanto mais me aprofundo no estudo da Bıb́ lia, mais pesada ϐica a carga
sobre meus ombros. O mundo precisa saber que está sendo enganado. Sinto urgência em falar de
Cristo em qualquer lugar, não apenas aqui. O povo desta igreja está assustado e sedento de Deus.
Estamos tentando satisfazer suas necessidades, porém vejo mais sofrimentos pela frente.”
"A notıć ia que chegou a meus ouvidos hoje foi o comunicado que o próximo principal
objetivo de Carpathia é o que ele chama de 'um entendimento' entre a comunidade global e
Israel, bem como o que ele chama de 'um acordo especial' entre a ONU e os Estados Unidos."
Buck endireitou-se na cadeira. "O que você deduz disso?"
"Não sei qual é o papel dos Estados Unidos porque, por mais que eu estude, não vejo a
América envolvida neste perıó do da história. Porém todos nós sabemos que haverá o
'entendimento' com Israel. Não sei de que forma acontecerá ou que benefıć ios trará à Terra
Santa, mas este é claramente o tratado dos sete anos."
Chloe ergueu a cabeça. "E isso sinaliza o início do período de sete anos de tribulação."
"Exatamente." Bruce olhou para o grupo. "Se esse comunicado disser qualquer coisa sobre
uma promessa de Carpathia de que Israel será protegido ao longo dos próximos sete anos, isso
oficialmente anuncia a Tribulação."
Buck fazia anotações. "Então os desaparecimentos, o Arrebatamento, não deram inıć io ao
período de sete anos?"
"Não", respondeu Bruce. "Parte de mim esperava que acontecesse algo para retardar o
tratado com Israel. A Bıb́ lia não menciona que isso venha a acontecer imediatamente. Mas
assim que acontecer, o cronômetro começará a funcionar."
"Começará a funcionar marcando o tempo em que Cristo estabelecerá seu reino na terra,
certo?" perguntou Buck. Rayford estava impressionado por Buck ter aprendido tanto em tão
curto espaço de tempo.
Bruce assentiu. "Certo. E esse é o motivo desta reunião. Preciso dizer-lhes uma coisa. Vou
realizar uma reunião de duas horas, aqui neste escritório, uma vez por semana, das vinte às
vinte e duas horas. Só para nós."
"Estarei viajando um bocado", disse Buck
"Eu também", complementou Rayford.
Bruce levantou a mão. "Não posso obrigá-los a comparecer, mas devo insistir. Sempre que
estiverem na cidade, venham aqui. Em nossos estudos vamos descrever em linhas gerais o que
Deus revelou nas Escrituras. Alguns fatos vocês já conhecem por meu intermédio. Mas se o
tratado com Israel acontecer nos próximos dias, não teremos tempo a perder. Precisamos
organizar novas igrejas, novos grupos de crentes. Quero viajar para Israel e ouvir as duas
testemunhas no Muro das Lamentações. A Bıb́ lia fala do surgimento de 144.000 judeus que
viajarão ao redor do mundo. Haverá um grande número de almas que aceitarão a Cristo, talvez
mais de um bilhão."
"Isso parece fantástico", disse Chloe. "Devemos ficar emocionados."
"E u estou emocionado", disse Bruce. "Porém haverá pouco tempo para regozijo ou
descanso. Lembra-se do que o livro de Apocalipse fala dos sete Julgamentos Selados?" Ela
concordou com um movimento de cabeça. "Começarão imediatamente, se estou certo. Haverá
um perıó do de dezoito meses de paz, mas nos três meses seguintes, o restante dos Julgamentos
Selados cairá sobre a terra. Um quarto da população mundial será extinta. Não quero parecer
piegas, mas olhem ao redor desta sala e digam-me o que esse fato significa para vocês."
Rayford não precisou olhar ao redor da sala. Estava sentado ao lado das três pessoas mais
próximas a ele no mundo. Será que em menos de dois anos perderia outro ente querido?
Buck fechou seu livro de anotações. Não ia deixar registrado que alguém naquela sala
poderia morrer brevemente. Lembrou-se de seu primeiro dia de aula na faculdade quando o
professor lhe pediu para olhar para a direita e depois para a esquerda. "Um de vocês três não
estará aqui depois de um ano." Aquilo foi quase engraçado quando comparado à situação atual.
"Não queremos simplesmente sobreviver", disse Buck. "Queremos agir."
"Eu sei", disse Bruce. "Acho que estou sofrendo por antecipação. Vai ser uma caminhada
longa e difícil. Estaremos todos atarefados e assoberbados, mas devemos traçar nossos planos."
"Eu estava pensando em voltar para a faculdade", disse Chloe pensativa. "Não para
Stanford, mas para uma outra aqui por perto. Agora me pergunto, valerá a pena?"
"Vocêpoderá freqüentar uma faculdade aqui neste lugar", disse Bruce. "Todas as noites às
oito horas. E há mais uma coisa."
"Eu sabia", disse Buck.
"Precisaremos de um abrigo."
"Um abrigo?" indagou Chloe.
"No subsolo", respondeu Bruce. "Durante o perıó do de paz poderemos construir um sem
levantar suspeitas. Quando acontecer o Julgamento, não teremos condição de levar esse plano
adiante."
"Do que você está falando?" perguntou Buck.
"Estou falando de conseguir uma escavadeira e preparar um lugar para nos refugiar. A
guerra está chegando — fome, pragas e morte."
Rayford levantou a mão. "Achei que não íamos fugir e nos esconder."
"E não vamos", disse Bruce. "Mas se não traçarmos planos, se não tivermos um lugar para
nos abrigar, reorganizar os grupos, escapar da irradiação e de doenças, morreremos tentando
provar que somos corajosos."
Buck estava impressionado pelo fato de Bruce ter um plano, um plano real. Bruce disse
que encomendaria um enorme tanque d’água para ser entregue ali. Ficaria instalado ao lado do
estacionamento durante semanas, e as pessoas pensariam que se tratava apenas de um tanque
para armazenar água. Depois, ele providenciaria uma escavadeira para abrir uma cratera com
tamanho suficiente para alojar o tanque.
Nesse ıń terim, os quatro componentes do grupo perfurariam as paredes do tanque,
passariam ϐios elétricos e condutores de água pelos buracos e preparariam o local para servir de
esconderijo. Depois de algum tempo, Bruce mandaria retirar o tanque dali. Se alguém visse o
tanque ser retirado imaginaria que ele não tinha o tamanho ideal ou estava com defeito. Quem
não viu imaginaria que foi originalmente instalado debaixo da terra.
A Força Tribulação faria uma conexão entre o abrigo no subsolo e a igreja por meio de
uma passagem secreta, mas só a usariam em caso de necessidade. Todas as reuniões seriam
realizadas no escritório de Bruce.
A reunião daquela noite terminou com uma oração. Os três novos crentes oraram por
Bruce e por sua responsabilidade como líder.
Buck insistiu para que Bruce fosse para casa e dormisse um pouco. Na saıd́ a, Buck virou-se
para Chloe. "Vou lhe mostrar meu carro novo, mas agora já não parece ter sido um bom
negócio."
"Entendo o que você quer dizer." Ela sorriu. "É bonito. Você gostaria de jantar conosco?"
"Não estou com fome. Na verdade, estou precisando começar a me instalar no novo
apartamento."
"Já está mobiliado?" ela perguntou. "Caso contrário, você poderia ϐicar conosco até
comprar alguns móveis. Temos muito espaço em casa."
Ele pensou na ironia do convite. "Obrigado. O apartamento está mobiliado."
Rayford apareceu, vindo do fundo da sala. "Onde você vai morar, Buck?"
Buck descreveu o condomıń io que ϐicava na metade do caminho entre a igreja e o
Semanário.
"Não é muito longe."
"Não. Convidarei vocês para me visitarem assim que estiver instalado."
Rayford abriu a porta do carro, do lado do motorista, e Chloe esperou que ele abrisse a
outra porta. Os três permaneceram de pé em silêncio e pouco à vontade sob a parca iluminação
das lâmpadas da rua. "Bem", disse Buck, "é melhor eu seguir meu caminho." Rayford entrou no
carro. Chloe permaneceu fora. "Até logo."
Chloe fez um leve aceno e Buck foi embora. Ele se sentia um idiota. Como deveria ter
agido? Sabia que ela estava aguardando, esperando algum sinal de que ele estava interessado. E
ele estava. Só que tinha diϐiculdade em demonstrar. Não sabia se era por causa do pai dela ou
por causa das muitas coisas que estavam acontecendo na vida de todos eles.
Buck pensou no comentário de Chloe ao dizer que não valeria a pena cursar a faculdade.
Aquilo também se aplicava a um caso amoroso, ele pensou. Por certo, ele estava sozinho. Por
certo, tinham muitas coisas em comum. Por certo, sentia atração por ela, e estava claro que
essa atração era recıṕ roca. Mas o fato de demonstrar interesse por uma mulher naquele
momento não pareceria um pouco trivial, considerando tudo o que Bruce acabara de dizer?
Buck já aprendera a amar a Deus. Essa deveria ser sua paixão até a volta de Cristo. Seria
certo, ou pelo menos prudente, concentrar sua atenção em Chloe Steele ao mesmo tempo?
Tentaria afastá-la de seus pensamentos.
As chances eram poucas.
"Você gosta dele, não?" perguntou Rayford ao saírem do estacionamento.
"Ele é uma boa pessoa."
"Estou falando de Buck."
"Sei de quem vocêestá falando. Ele é uma boa pessoa, porém mal toma conhecimento de
minha existência."
"Ele está com a cabeça cheia."
"Recebo mais atenção da parte de Bruce, e ele tem a cabeça mais cheia do que qualquer
um de nós."
"Depois que Buck se instalar em seu apartamento ele nos telefonará."
"Telefonará?" disse Chloe. "Você parece o personagem Pa [pai] de Little House on the
Prairie [seriado da TV sobre uma família de colonos]."
"Desculpe-me."
"De qualquer forma, penso que Buck Williams não quer mais saber de telefonemas."
O apartamento de Buck parecia vazio sem seus pertences ali. Desvencilhou-se dos sapatos
e ligou para seu voice mail (sistema eletrônico de comunicação com mensagens gravadas) em
Nova York. Queria deixar um recado para Marge Potter, sua ex-secretária, perguntando quando
chegariam as caixas despachadas de Nova York. Marge se adiantara a ele. O primeiro dos três
recados era dela. "Não sabia para onde despachar suas coisas, portanto enviei-as ontem à noite
para a sucursal de Chicago. Devem chegar na segunda-feira de manhã."
O segundo recado era do chefão, Stanton Bailey. "Ligue para mim na segunda-feira,
Cameron. Quero receber sua matéria até o final da próxima semana e precisamos conversar."
O terceiro era de seu antigo editor-executivo, Steve Plank, agora porta-voz de Nicolae
Carpathia. "Buck, ligue para mim assim que puder. Carpathia deseja conversar com você."
Buck fungou, deu uma risadinha e apagou os recados. Deixou gravado um agradecimento
para Marge e uma conϐirmação de recebimento de recado para Bailey. Anotou o número do
telefone de Steve e decidiu esperar para retornar sua ligação. Carpathia deseja conversar com
você. Uma maneira casual de dizer O inimigo de Deus está à sua procura. Buck não tinha certeza
se Carpathia sabia que a lavagem cerebral não surtira efeito em relação a ele. O que aquele
homem faria, ou tentaria fazer, se soubesse que a memória de Buck estava perfeita? E se
imaginasse que Buck sabia que ele era um assassino, um mentiroso, uma besta?
Sentado diante do aparelho de TV, Rayford ouvia as análises dos comentaristas a respeito
dos comunicados vindos da Organização das Nações Unidas. A maioria apoiava a transferência
da ONU para as ruıń as da Babilônia, localizada ao sul de Bagdá. Um dos comentaristas disse: "Se
Carpathia estiver sendo sincero quanto ao desarmamento mundial e armazenar os 10 por cento
restantes do equipamento bélico, preϐiro que o local escolhido seja no Oriente Médio, nas
cercanias de Teerã, e não em uma ilha perto de Nova York. Gostaria também que o edifıć io da
ONU, depois de desativado, fosse transformado em museu, por ser o edifıć io mais horroroso que
este país já construiu."
Os mais experientes prenunciaram frustração e fracasso nos resultados das negociações
entre os lıd́ eres religiosos e os especialistas ϐinanceiros. Um deles disse: "Não é possıv́ el haver
uma única religião mundial, por mais sedutora que possa parecer, e uma moeda única mundial,
mesmo que seja destinada a facilitar seu manuseio. Estes serão os primeiros problemas
principais de Carpathia, e talvez, a partir de então, as massas abrirão os olhos em relação a ele.
A lua-de-mel terminará logo."
"Aceita uma xıć ara de chá, papai?" gritou Chloe da cozinha. Ele recusou com um
agradecimento e ela apareceu logo em seguida trazendo uma para si mesma. Sentou-se do
outro lado do sofá e ajeitou os pés por baixo do roupão, sem tirar os chinelos. Seus cabelos
recém-lavados estavam envoltos em uma toalha.
"Marcou algum encontro para este ϐim de semana?" indagou Rayford no intervalo para os
comerciais.
"Não seja engraçadinho".
"Não foi essa a minha intenção. O que haveria de estranho em alguém convidá-la para
sair?"
"A única pessoa que eu gostaria que me convidasse parece ter mudado de idéia a meu
respeito."
"Bobagem! Não posso nem imaginar quanta coisa se passa na mente de Buck."
"Pensei que eu estivesse presente na mente dele, papai. Agora fico aqui sentada como uma
colegial, cheia de dúvidas e esperançosa. EƵ uma situação insuportável. Mas por que eu deveria
me importar? Mal o conheço. Apenas o admiro, e é só."
"Você o admira?"
"Claro! Quem não o admiraria? Ele é inteligente, desembaraçado, talentoso."
"Famoso."
"Ah, sim, um pouco". Mas não vou me atirar nos braços dele. Apenas pensei que estivesse
interessado, é tudo. Em “seu bilhete, disse que sentia atração por mim."
"Como você reagiu a isso?"
"A ele, você quer dizer?"
Rayford assentiu.
"Não ϐiz nada. O que deveria ter feito? Também senti atração por ele, mas não quis
afugentá-lo."
"Talvez ele pense que afugentou você. Talvez pense que foi muito impetuoso, rápido
demais. Mas você não sentiu o mesmo impulso?"
"De certa forma sim, mas só intimamente. Achei que se eu fosse sincera e me tornasse
amiga dele, as coisas aconteceriam naturalmente."
Rayford deu de ombros. "Talvez ele necessite de mais incentivo."
"Ele não receberá nenhum incentivo de minha parte. Não é meu estilo. Você sabe disso."
"Sei, querida", disse Rayford, "mas você mudou muito nestes últimos tempos."
"Sim, mas meu estilo não mudou." Ao dizer isso, ela sorriu. "Papai, o que devo fazer? Não
quero desistir dele, mas você não percebeu que a situação mudou? Ele deveria ter-me
convidado para jantar fora, mas nem sequer aceitou nosso convite."
"Nosso convite? Eu fiz algum convite?"
"Bem, achei que não seria certo convidá-lo para sair comigo."
"Eu sei. Mas talvez ele não desejasse a minha companhia."
"Se Buck sentisse por mim o mesmo que sinto por ele, teria aceito. Na verdade, ele é
quem deveria ter feito o convite e deixado vocêfora disso. Quero dizer... não me interprete mal,
papai."
"Sei o que você quis dizer. Acho que está tirando conclusões muito precipitadas. Espere
mais um dia. Você verá que diferença faz uma boa noite de sono."
O intervalo para os comerciais terminou e Chloe passou a bebericar seu chá. Rayford
sentia-se privilegiado por Chloe conversar com ele sobre assuntos como esse. Ao que se
lembrava, ela não chegou a conversar muito com Irene sobre rapazes. Ele sabia que era o único
porto seguro para a ϐilha nesse perıó do tempestuoso e apreciava ouvir suas conϐidencias. "Se
vocêquiser conversar mais, posso desligar a TV", ele disse. "Não há nenhum fato novo além dos
que Bruce nos contou."
"Não", ela disse, levantando-se. "Francamente, estou farta de mim mesma. Ficar sentada
aqui falando sobre minha vida amorosa, ou carência de amor, parece muito infantil nesta época
em que estamos vivendo, você não acha? Parece que só há uma coisa para preencher meu
tempo se eu não voltar para a faculdade. De inıć io, quero memorizar os livros de Ezequiel,
Daniel e Apocalipse."
Rayford riu. "Você está brincando!"
"Claro! Mas sabe o que quero dizer, papai? Nunca imaginei que a Bıb́ lia viesse a despertar
algum interesse em mim, mas agora passei a estudá-la como se não houvesse amanhã."
Rayford permaneceu em silêncio e percebeu que Chloe estava surpresa diante de sua
própria ironia não-intencional. "Eu também", ele disse. "Já aprendi sobre a profecia do ϐinal dos
tempos muito mais do que pensei que pudesse aprender. Estamos vivendo esse momento, aqui,
agora. E não haverá muitos amanhãs, não é mesmo?"
"Certamente não muitos para perder tempo lamentando a respeito de um homem."
"Ele é um homem muito interessante, Chio."
"Você está querendo dar uma ajuda. Vamos esquecê-lo, está bem?"
Rayford sorriu. "Se eu não mencionar o nome dele, você o esquecerá? Devemos dispensá-lo
da Força Tribulação?"
Chloe balançou a cabeça. "A propósito, há quanto tempo você não me chama de Chio?”
"Você gostava quando eu a chamava assim."
"É verdade. Quando eu tinha nove anos. Boa-noite, papai."
"Boa-noite, querida. Eu amo você."
Chloe começou a se dirigir para a cozinha, mas parou e virou-se rapidamente, curvando-se
para abraçá-lo e tomando cuidado para não derramar o chá da xıć ara. "Eu também amo você,
papai. Mais do que nunca e de todo o meu coração."
Buck Williams deitou-se de bruços em sua nova cama pela primeira vez. Era uma
sensação estranha. O belo apartamento fazia parte de um ótimo edifıć io, mas a pacata Chicago
não se assemelhava em nada a Nova York. Tudo era muito quieto. Ele havia comprado algumas
frutas frescas, mas deixou-as de lado. Viu as notıć ias na TV e depois ouviu um pouco de música
suave. Decidiu ler o Novo Testamento até pegar no sono.
Buck absorveu tudo o que pôde de Bruce Barnes acerca dos próximos acontecimentos,
porém achou mais interessante ler os Evangelhos do que o Velho Testamento ou as profecias do
Apocalipse. Jesus havia sido um revolucionário. Buck sentia-se fascinado com seu caráter, sua
personalidade, sua missão como homem. O Jesus que ele sempre imaginou ou pensou conhecer
era um impostor. O Jesus da Bíblia era radical, um homem de paradoxos.
Buck colocou a Bıb́ lia na mesa de cabeceira e deitou-se de costas, protegendo os olhos da
luz com o braço. Se você quiser ser rico, desfaça-se de seu dinheiro, ele disse a si mesmo. Este é
ponto mais importante. Se você quiser ser exaltado, humilhe-se. A vingança parece lógica, mas é
errada. Ame seus inimigos, ore por quem o despreza. Estranho.
Seus pensamentos desviaram-se para Chloe. O que ele estava fazendo. Ela não era cega.
Era jovem, mas não tola. Ele não poderia seduzi-la e depois mudar de idéia, sem ser grosseiro.
Será que estava mudando de idéia? Queria realmente esquecê-la? Claro que não. Ela era uma
pessoa maravilhosa, divertida. Era uma colega crente e sua compatriota. Poderia ser uma boa
amiga, independentemente de qualquer coisa.
Então a situação havia chegado a esse ponto? Diria a ela que seriam apenas bons amigos?
Era isso o que ele queria? Deus, o que devo fazer? ele orou silenciosamente. Para ser franco,
estou adorando estar apaixonado. Adoraria iniciar um relacionamento com Chloe. Será que ela é
muito jovem? A época não é apropriada para pensar nisso? Sei que tu tens muito trabalho
destinado a nós. E o que acontecerá se estivermos apaixonados? Devemos nos casar? E
deveríamos ter ϔilhos, se tu estarás voltando em sete anos? Se já existiu uma época em que
deveríamos pensar muito a respeito de trazer filhos ao mundo, essa época é agora.
Buck afastou o braço dos olhos e desviou-os da luz. E agora? Deus responderia à sua oração
em voz alta? Por certo que não. Sentou-se à beira da cama, segurando a cabeça com as mãos.
O que estaria acontecendo com ele? Tudo o que queria saber era se deveria continuar a
cortejar Chloe. Começou orando por isso, e de repente estava pensando em casamento e ϐilhos.
Loucura. Talvez Deus trabalhe dessa maneira, ele pensou. Conduz a pessoa a tirar conclusões
lógicas ou ilógicas.
Baseado nisso, achou que seria melhor não dar esperanças a Chloe. Ela estava interessada,
ele sabia. Se ele demonstras-se o mesmo interesse, a situação derivaria para uma única direção.
No mundo caótico em que estavam vivendo, acabariam trazendo aϐlição um ao outro. Seria
justo?
Isso não fazia sentido. Como ele poderia permitir que alguma coisa se intrometesse em
sua devoção a Deus?
Apesar disso, ele não conseguia esquecê-la, tratá-la apenas como uma irmã. Não, ele
deveria fazer a coisa certa. Conversaria com Chloe sobre o assunto. Por certo, ela merecia uma
explicação. Marcariam um encontro informal e conversariam. Ele seria franco com ela. Se
omitisse seus próprios sentimentos, poderia conhecê-la melhor. Isso a faria sentir-se bem, não?
Mas será que teria coragem de dizer-lhe o que realmente pensava? Que nenhum dos dois
deveria levar adiante um relacionamento amoroso em uma época como aquela?
Ele não sabia. Porém estava certo de uma coisa: se não resolvesse a situação
imediatamente, talvez nunca mais o ϐizesse. Olhou para o relógio. Passava um pouco das dez e
meia. Será que ela ainda estava acordada? Discou para a casa dos Steeles.
Rayford estava subindo a escada quando o telefone tocou. Ouviu Chloe se mexer na cama,
mas a luz de seu quarto estava apagada. "Vou atender, querida", ele disse. Correu até a sua
mesa de cabeceira e atendeu.
"Sr. Steele, é Buck."
"Oi, Buck, pare de me chamar de senhor. Você está me fazendo sentir um velho."
"E você não é?"
"Engraçadinho. Pode me chamar de Ray. O que posso fazer por você?"
"Gostaria de saber se Chloe ainda está acordada."
"Acho que não, mas vou verificar."
"Não, está tudo bem", disse Buck. "Só diga a ela para me ligar quando puder, está bem?"
Ele informou seu novo número a Rayford.
"Papai!" disse Chloe alguns minutos depois. "Você sabia que eu estava acordada!"
"Vocênão disse nada quando falei que ia atender. Eu não tinha certeza. Vocênão acha que
foi melhor assim? Deixar que ele aguarde até amanhã?"
"Oh, papai!" ela disse. "Não sei. Você imagina o que ele queria?"
"Não tenho a mínima idéia."
"Oh, detesto isso!"
"Estou adorando."
"Claro!”
C A P Í T U L O 3
No sábado de manhã Buck foi de carro até a Igreja Nova Esperança, na expectativa de
encontrar Bruce Barnes em seu escritório. A secretária lhe disse que Bruce estava terminando
de preparar um sermão, mas iria recebê-lo. "Vocêfaz parte do grupo de amigos de Bruce, não?"
indagou ela.
Buck assentiu. Achava que sim. Isso deveria ser honra? Sentia-se muito inexperiente como
novo seguidor de Cristo, parecendo um bebê. Quem poderia prever tal transformação nele? E
quem teria imaginado que haveria o Arrebatamento? Buck balançou a cabeça. Só os milhões de
pessoas que estavam preparados, concluiu ele.
Ao saber que Buck o aguardava, Bruce imediatamente abriu a porta e cumprimentou-o
com um abraço. Aquele gesto também era novidade para Buck — abraços efusivos,
principalmente entre homens. Bruce parecia perturbado. "Outra noite longa?" indagou Buck.
Bruce concordou com um movimento de cabeça. "Mas deleitando-me no estudo da
Palavra. Estou recuperando o tempo perdido, você sabe. Tive esses recursos na mão durante
anos e nunca os utilizei. Estou me preparando para dizer à congregação, provavelmente na
próxima semana, que recebi um chamado de Deus para viajar. Os crentes desta igreja vão
precisar se unir para suprir a falta de um líder.”
"Você acha que eles se sentirão abandonados?"
"Exatamente. Mas não vou deixar a igreja. Estarei presente sempre que possıv́ el.
Conforme contei ontem a vocêe aos Steeles, trata-se de um peso que Deus colocou sobre meus
ombros. Sinto-me feliz por isso, estou aprendendo muito. Mas também estou assustado. Sei que
não estarei à altura se não contar com o poder do Espıŕ ito Santo. Talvez seja outro preço que
devo pagar por ter ignorado a verdade. Mas você não veio até aqui para ouvir minhas lamúrias."
"Tenho apenas dois assuntos breves, e depois você poderá voltar aos seus estudos.
Primeiro, tenho tentado afastar esses pensamentos de minha mente nos últimos dias, mas estou
com remorso pelo que fiz a Hattie Durham. Lembra-se dela? A comissária de vôo de Rayford..."
"A mulher que vocêapresentou a Carpathia? Claro. Aquela com quem Rayford quase teve
um caso."
"Sim. Penso que ele também sente remorso."
"Quanto a ele, não sei, Buck, mas lembro que você tentou alertar Hattie sobre Carpathia."
"Eu disse que ela poderia se transformar em um joguete de Carpathia, mas ao mesmo
tempo não tinha idéia de quem ele era."
"Hattie foi para Nova York porque quis. A escolha foi dela."
"Mas, Bruce, se eu não tivesse feito as apresentações, ele não teria pedido para vê-la
novamente."
Bruce encostou-se no espaldar da cadeira e cruzou os braços. "Você quer salvá-la das
garras de Carpathia, é isso?"
"Claro."
"Não vejo como vocêpode fazer isso sem arriscar sua vida. Sem dúvida, ela já se encantou
com a nova posição. Passou de comissária de bordo para assistente pessoal do homem mais
poderoso do mundo."
"Assistente pessoal e talvez algo mais."
Bruce movimentou a cabeça aϐirmativamente. "EƵ bem provável. Não posso imaginar que
ele a tenha escolhido só por causa de seu talento proϐissional. E daı,́ o que vocêpretende fazer?
Telefonar a Hattie e dizer-lhe que seu novo chefe é o Anticristo e que ela deve abandoná-lo?"
"É por isso que estou aqui. Não sei o que fazer", disse Buck.
"E você acha que eu sei?"
"Pensei que sim."
Bruce deu um sorriso desanimado. "Agora entendo o que o meu ex-pastor, Vem Billings,
sentia ao dizer que as pessoas acham que o pastor da igreja deve ter respostas para tudo."
"Não vou receber nenhum conselho?"
"Minha resposta poderá parecer banal, Buck, mas vocêtem de fazer o que acha que deve
ser feito."
"Sério?"
"Se você já orou e sente realmente que Deus deseja que converse com Hattie, vá em
frente. Mas você pode imaginar as conseqüências. A próxima pessoa a saber disso será
Carpathia. Lembre-se do que ele já fez a você."
"Esta é a questão", disse Buck. Preciso arrumar um jeito de descobrir o que Carpathia sabe
quanto a isso. Será que ele pensa que conseguiu apagar de minha memória que estive presente
naquela reunião, como fez com as outras pessoas? Ou será que ele sabe que me lembro de tudo e
foi por isso que tentou prejudicar-me, depreciando-me, transferindo-me para outro local de
trabalho, etc. etc?
"E você sabe qual é a minha maior preocupação?" perguntou Bruce. "Minha intuição diz
que, se Carpathia souber que agora você é crente e que não foi atingido pela lavagem cerebral,
ele vai matá-lo. Se ele souber que ainda exerce domıń io sobre você, como faz com todas as
pessoas que não têm Cristo no coração, tentará usá-lo."
Buck recostou-se na cadeira e olhou para o teto. "Achei interessante o que vocêdisse. Isso
me leva ao segundo assunto que desejo conversar com você.”
Rayford passou a manhã ao telefone ϐinalizando os trâmites para habilitar-se a pilotar o
Boeing 757. Na segunda-feira de manhã voaria de O'Hare a Dallas, como simples passageiro,
para treinar decolagens e aterrissagens em pistas militares a alguns quilômetros de distância do
aeroporto Dallas-Fort Worth.
"Sinto muito, Chloe", ele disse quando ϐinalmente desligou o telefone. "Esqueci que você
queria retornar a ligação de Buck hoje de manhã."
"Apenas uma correção", ela disse. "Eu queria retornar a ligação dele ontem à noite. Ou
melhor, queria falar com Buck quando ele ligou."
Rayford levantou as duas mãos em sinal de resignação. "O erro foi meu. A culpa foi minha.
O telefone é todo seu."
"Não, obrigada."
Rayford olhou para a ϐilha com a testa franzida. "O quê? Agora você vai punir Buck por
minha causa? Ligue para ele!"
"Não, penso que foi melhor assim. Eu queria conversar com ele ontem à noite, mas
provavelmente você estava certo. Eu teria aparentado muita ansiedade, muita precipitação. E
ele disse que eu deveria retornar sua ligação de acordo com minha conveniência. Bem, ligar
para ele logo cedo não seria conveniente. EƵ melhor eu me encontrar com ele na igreja amanhã,
certo?"
Rayford balançou a cabeça. "Agora você resolveu fazer jogo com ele? Você estava
preocupada em parecer uma colegial correndo atrás dele e agora está agindo como tal."
Chloe pareceu magoada. "Oh, obrigada, papai. Lembre-se de que a idéia de fazê-lo esperar
foi sua."
"Eu disse esperar apenas uma noite. Não me envolva nisso para que a situação não ϐique
desagradável."
"Bem, Buck, esta é a sua oportunidade de pôr Hattie à prova", disse Bruce Barnes. "O que
você acha que Carpathia deseja?"
Buck balançou a cabeça. "Não tenho idéia."
"Você confia nesse tal de Steve Plank?"
"Ah, sim, conϐio. Trabalhei muitos anos com Steve. O que mais me assusta é que ele me
deu as boas-vindas na reunião que precedeu a entrevista coletiva de Carpathia à imprensa,
indicou-me um lugar para sentar e mencionou o nome de várias pessoas presentes. E, mais
tarde, perguntou-me por que não compareci à reunião. Contou-me que Carpathia ϐicou um
pouco irritado com minha ausência."
"E você o conhece tão bem a ponto de saber se ele está sendo sincero?"
"Francamente, Bruce, ele é o principal motivo para eu acreditar que Carpathia seja o
cumprimento das profecias que estamos estudando. Steve é um jornalista inϐlexıv́ el da faculdade
dos velhos tempos. O fato de ele se deixar convencer a abandonar o jornalismo legıt́ imo para ser
o porta-voz de um polıt́ ico de fama mundial mostra o poder de persuasão de Carpathia. Até eu
abandonei aquela função. Mas chegar ao ponto de assistir àquela carnificina e depois esquecer-se
de que estive presente, é um tanto..."
"Estranho."
"Exatamente. Apesar disso, vou lhe contar um fato mais extraordinário ainda. Havia algo
em mim forçando-me a acreditar em Carpathia quando ele explicou o que acontecera. Em
minha mente começaram a formar cenas de Stonagal atirando em si mesmo e assassinando
Todd-Cothran em seguida."
Bruce balançou a cabeça. "Confesso que quando ouvi sua história pela primeira vez, pensei
que você estivesse maluco."
"Eu teria concordado com você, se não fosse um detalhe."
"Que detalhe?"
"Todas as pessoas da sala que presenciaram o fato e lembram-se da cena de uma só
maneira. Eu me lembro de uma maneira completamente diferente. Se Steve me tivesse dito
que não vi o que aconteceu realmente, talvez eu tivesse pensado que havia ϐicado maluco e me
rendesse. Mas ele me disse que não estive lá! Bruce, ninguém se lembra de que estive lá! Bem,
você pode achar que estou sendo contraditório, mas isso é tolice. Voltei para meu escritório e
registrei todos os detalhes no computador antes que o pessoal da imprensa ouvisse a versão de
Carpathia. Se não estive lá, como poderia saber que os corpos de Stonagal e Todd-Cothran
foram retirados dentro de sacos?"
"Vocênão precisa me persuadir, Buck. Estou do seu lado. A questão agora é a seguinte: O
que Carpathia deseja? Será que ao conversar em particular com você, ele vai lhe revelar a
verdade sobre si mesmo? ou vai ameaçar você? ou vai lhe dizer que sabe que você conhece a
verdade?"
"Com que finalidade?"
"Para intimidar você. Para usar você."
"Talvez. Talvez ele queira descobrir a verdade, tentar saber se conseguiu fazer uma
lavagem cerebral em mim."
"É uma situação muito perigosa, e isso é tudo o que tenho a lhe dizer."
"Espero que isso não seja tudo o que você tem a me dizer, Bruce. Gostaria de ser
aconselhado um pouco mais."
"Orarei em seu favor", disse Bruce. "Mas no momento não sei o que lhe dizer."
"Bem, pelo menos preciso retornar a ligação de Steve. Não sei se Carpathia quer conversar
comigo por telefone ou pessoalmente."
"Você não pode aguardar até segunda-feira?"
"Claro. Posso dizer a ele que entendi que deveria lhe telefonar durante o horário de
expediente, mas não posso garantir que ele não me ligue nesse meio tempo."
"Ele tem seu novo número?"
"Não. Steve costuma ligar para meu voice mail em Nova York."
"Assim será possível retardar mais um pouco."
Buck deu de ombros e assentiu com a cabeça. "Se é isso o que você acha que devo fazer."
"Desde quando passei a ser seu conselheiro?"
"Desde que se tornou meu pastor."
Depois de terminar seus afazeres naquela manhã, Rayford percebeu o quanto havia
magoado Chloe em razão dos gestos e respostas sucintas da filha. "Vamos conversar", ele disse.
"Sobre o quê?"
"Sobre como você me pegou de calças curtas. Nunca fui muito bom nessa questão de ser
pai, e agora estou tendo problemas em tratá-la como uma pessoa adulta. Lamento ter chamado
você de colegial. Trate Buck como você acha que é o correto, e não faça caso de mim, certo?"
Chloe sorriu. "Eu já estava fazendo isso. Não preciso mais de sua permissão."
"Então estou perdoado?"
"Não se preocupe comigo, papai. Não posso ϐicar zangada com você por muito tempo.
Acho que precisamos um do outro. A propósito, já liguei para Buck."
"Verdade?"
Ela assentiu com a cabeça. "Ninguém atendeu. Acho que ele não estava esperando minha
ligação ao lado do telefone."
"Você deixou recado?"
"A secretária eletrônica ainda não está ligada, acho. Vou vê-lo na igreja amanhã."
"Vai dizer a ele que telefonou?"
Chloe sorriu com ar brincalhão. "Provavelmente não."
Buck passou o restante do dia trabalhando em sua reportagem de capa para o Semanário
Global acerca das teorias existentes sobre os desaparecimentos. Estava gostando desse trabalho,
apostando que seria sua melhor matéria até então. As explicações variavam desde um ataque
em estilo sensacionalista feito pelo fantasma de Hitler, OVNIs e seres extraterrestres até a idéia
de que houve uma espécie de puriϐicação evolucionária cósmica, uma redução na população
mundial, permanecendo apenas os melhores.
No meio da matéria, Buck incluiu o que acreditava ser a verdade, mas não em forma de
editorial. Como sempre, a matéria seria uma análise direta do assunto, escrita por um terceiro.
Ninguém, a não ser seus novos amigos, saberia que ele concordava com a história do piloto, do
pastor e de diversas outras pessoas que entrevistou, ou seja, que os desaparecimentos
aconteceram porque Cristo arrebatou sua igreja.
O mais interessante para Buck foi a interpretação do evento por parte de outros lıd́ eres
religiosos. Uma grande parte dos católicos estava confusa porque, apesar de muitos terem ficado
para trás, alguns desapareceram — inclusive o novo papa que havia sido investido poucos meses
antes dos desaparecimentos. Ele criara polêmica na igreja com uma nova doutrina que mais
parecia coincidir com a "heresia" de Martinho Lutero do que com a ortodoxia histórica à qual os
católicos estavam acostumados. Quando o papa desapareceu, alguns estudiosos católicos
concluıŕ am que o evento foi verdadeiramente um ato de Deus. "Aqueles que se opuseram às
doutrinas ortodoxas da Igreja Mãe foram separados de todos nós", dissera a Buck Peter Cardinal
Mathews, um importante arcebispo de Cincinnati. "A Bıb́ lia relata que os últimos dias serão
semelhantes aos da época de Noé. E vocêhá de se lembrar que na época de Noé as pessoas boas
ficaram e as más pereceram."
"Então", concluiu Buck, "o fato de ainda estarmos aqui prova que somos bons?"
"Eu não generalizaria a esse ponto", respondeu o arcebispo Mathews, "mas diria que sim, e
esta é a minha posição."
"E o que dizer de todas as pessoas maravilhosas que desapareceram?"
"Talvez não tenham sido tão maravilhosas assim."
"E quanto às crianças e bebês?"
O arcebispo demonstrou um certo desconforto. "Isso eu deixo para Deus", ele disse. "Devo
acreditar que talvez ele estivesse protegendo os inocentes."
"Do quê?"
"Não tenho certeza. Não aceito os livros apócrifos ao pé da letra, mas existem profecias
lúgubres do que ainda está por vir."
"Então o senhor não afasta a idéia de que as crianças e os bebês que desapareceram foram
separados do mal?"
"Não. Muitos dos pequeninos que desapareceram foram batizados por mim, portanto sei
que estão em Cristo e com Deus."
"E mesmo assim desapareceram."
"Desapareceram."
"E nós ficamos."
"Devemos encontrar consolo nisso."
"Poucas pessoas encontram consolo nisso, Excelência."
"Entendo seu ponto de vista. Estamos atravessando um tempo muito difıć il. Eu mesmo
estou lamentando a perda de uma irmã e de uma tia. Mas elas abandonaram a igreja.”
"Abandonaram?"
"Opuseram-se à doutrina. Mulheres maravilhosas, muito bondosas. E fervorosas, devo
acrescentar. Mas temo que tenham sido separadas como o joio do trigo. Apesar disso, nós, os
que ϐicamos, devemos estar conϐiantes em nossa posição em relação a Deus como nunca
estivemos."
Buck foi bastante corajoso para pedir ao arcebispo que comentasse certas passagens da
Bıb́ lia, principalmente Efésios 2.8-9: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não
vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie."
"Agora você vê", disse o arcebispo, "este é precisamente o meu ponto de vista. Ao longo
dos séculos, as pessoas têm extraıd́ o versıć ulos como esse do contexto, tentando estabelecer
doutrinas em cima deles."
"Mas há outras passagens iguais a essa", disse Buck.
"Entendo que sim, mas diga-me uma coisa, você não é católico, é?”
"Não, senhor."
"Bem, então veja, você não entende a amplitude da igreja histórica."
"Desculpe-me, mas se sua hipótese estiver correta, por que tantos não-católicos ainda
permanecem aqui?"
"Só Deus sabe", respondeu o arcebispo Mathews. "Ele conhece os corações das pessoas. Ele
conhece muito mais do que nós."
"Com certeza", disse Buck.
Evidentemente Buck deixou seus comentários e opiniões pessoais fora do artigo, mas
conseguiu aprofundar-se no estudo da Bıb́ lia e na tentativa do arcebispo de explicar a doutrina
da graça. Buck planejava enviar o artigo aos escritórios do Semanário Global em Nova York na
segunda-feira.
Enquanto trabalhava, Buck mantinha-se alerta ao telefone. Poucas pessoas conheciam seu
novo número. Apenas os Steeles, Bruce e Alice, a secretária de Verna Zee. Ainda estava
aguardando a secretária eletrônica, o computador, o fax e os demais equipamentos de
escritório, juntamente com os arquivos, que deveriam chegar à sucursal de Chicago na segundafeira.
Então ele se sentiria mais à vontade e equipado para trabalhar no outro quarto.
Buck aguardava notıć ias de Chloe. Pensou ter deixado um recado com Rayford para que
ela ligasse quando achasse conveniente. Talvez ela fosse do tipo que não telefona para rapazes,
mesmo quando lhe deixavam recados. Por outro lado, Chloe ainda não chegara aos vinte e um
anos, e ele reconhecia não ter nenhuma idéia a respeito dos costumes dessa geração. Talvez ela
o considerasse um irmão mais velho ou até mesmo um pai, e rejeitasse a idéia de que ele
pudesse estar interessado nela. Isso não combinava com a maneira como ela se comportara na
noite anterior, mas ele também não havia incentivado nada.
Simplesmente queria agir corretamente, conversar com ela para esclarecer que a época
não era apropriada para ambos e que poderiam tornar-se bons amigos e compatriotas por uma
causa comum. Mas percebeu que seria tolice. E se ela não tivesse imaginado nada mais além
disso? Ele teria de dar explicações para algo que não existia.
Talvez Chloe tivesse ligado enquanto ele esteve com Bruce naquela manhã. Resolveu
telefonar para ela, convidá-la para conhecer seu novo apartamento quando tivesse um tempo
disponıv́ el. Então, poderiam conversar. Ele improvisaria uma situação na tentativa de saber
quais seriam suas expectativas. Ela poderia recusá-lo com delicadeza ou ignorar um assunto que
não precisava ser levantado.
Rayford atendeu o telefone. "Chloe!" gritou. "Buck Williams para você!"
Buck ouviu a voz dela ao fundo. "Por favor, diga que ligarei para ele em seguida. Ou
melhor, diga que nos veremos na igreja amanhã."
"Já ouvi", disse Buck. "Ótimo. Vejo vocês amanhã."
Aparentemente ela não quer gastar tempo e energia preocupando-se conosco, concluiu
Buck. Discou para seu voice mail em Nova York. O único recado era de Steve Plank.
"Buck, qual é o problema? De quanto tempo vocêprecisa para se instalar? Devo ligar para
a sucursal de Chicago? Deixei recados, mas o velho Bailey me disse que você está trabalhando
em casa.”
"Você recebeu meu recado de que Carpathia quer vê-lo? As pessoas não têm o hábito de
fazê-lo esperar, meu amigo. Estou embromando o homem, dizendo que você está em trânsito,
cuidando da mudança, essas coisas. Mas ele espera poder vê-lo neste ϐim de semana.
Sinceramente não sei o que ele quer, a não ser que esteja empolgado com você. Não está
zangado por você ter recusado seu convite para aquela reunião, se é isso que o preocupa.”
"Para lhe dizer a verdade, Buck, o jornalista que existe dentro de você gostaria e deveria
ter estado lá. Mas você deve ter ϐicado tão confuso quanto eu. Um suicıd́ io violento diante de
nossos olhos não é coisa fácil de esquecer.”
"Ligue para mim para que eu possa marcar a reunião entre vocês. Bailey me disse que
vocêestá dando os toques ϐinais no artigo sobre as teorias dos desaparecimentos. Se vocêpuder
encontrar-se logo com Carpathia, poderá incluir suas idéias. Ele não faz segredo disso, mas uma
ou duas citações exclusivas não fariam mal a ninguém, certo? Você sabe onde me localizar a
qualquer hora do dia ou da noite."
Buck gravou o recado. O que deveria fazer? Parecia que Carpathia desejava ter uma
reunião particular com ele. Alguns dias antes, Buck teria pulado para agarrar essa oportunidade.
Não seria ótimo entrevistar uma personalidade de projeção mundial na véspera de divulgar sua
mais importante reportagem de capa? Todavia, Buck era um novo crente, convencido de que
Carpathia era o Anticristo. Buck presenciara o poder daquele homem. E estava apenas iniciando
em sua nova fé. Não tinha muitos conhecimentos acerca do Anticristo. Seria ele onisciente
como Deus? Poderia ler os pensamentos de Buck?
Carpathia obviamente podia manipular as pessoas e fazer lavagens cerebrais. Mas isso
signiϐicava que ele também conhecia o que se passava na mente humana? Buck seria capaz de
resistir a Carpathia só pelo fato de ter o Espıŕ ito de Cristo dentro de si? Buck gostaria que
houvesse uma explicação mais pormenorizada na Bıb́ lia quanto aos poderes do Anticristo. Então
saberia como lidar com o assunto.
No mıń imo, Carpathia deveria estar curioso a respeito de Buck. Quando Buck saiu
furtivamente da sala de reuniões onde foram cometidos os assassinatos, deve ter perguntado a si
mesmo se houve alguma falha em seus próprios controles sobre a mente. Caso contrário, por
que apagar da memória de todas as outras pessoas não apenas os assassinatos, substituindo-os
pela cena de um suicıd́ io estranho, mas também apagar a lembrança de que Buck esteve
presente?
Claramente Nicolae tentara proteger-se fazendo com que todos esquecessem que Buck
compareceu à reunião. Se esse artifıć io teve a ϐinalidade de fazer Buck duvidar de sua própria
sanidade, não funcionou. Deus esteve com Buck naquele dia. Buck tinha certeza do que viu, e
nada poderia fazê-lo mudar de idéia. Não havia nada mais a conjeturar, nenhum remorso por
imaginar que pudesse estar enganado. De uma coisa ele estava certo; não contaria a Carpathia o
que sabia. Se Carpathia constatasse que Buck não havia sido ludibriado, não teria outro recurso a
não ser eliminá-lo. Se Buck conseguisse fazer Carpathia pensar que teve êxito, isso daria a ele ou
à Força Tribulação uma pequena vantagem na guerra contra as forças do mal. O que eles fariam
com essa vantagem, Buck não podia imaginar.
Porém, uma coisa ele sabia. Não retornaria a ligação de Steve Plank até segunda-feira.
Rayford estava feliz porque ele e Chloe haviam decidido ir logo cedo para a igreja. O
templo lotava todas as semanas. Rayford sorriu ao ver a ϐilha. Chloe estava com uma aparência
linda, a melhor que ele vira desde que ela retornara da faculdade. Pensou em brincar com ela,
perguntar se estava vestida para agradar a Buck Williams ou a Deus, mas desistiu.
Rayford conseguiu uma das últimas vagas no estacionamento e viu ϐileiras de carros ao
redor do quarteirão, aguardando lugar para estacionar na rua. As pessoas estavam aϐlitas,
apavoradas. Andavam à procura de esperança, de respostas, de Deus. Estavam sentindo a
presença de Deus naquela igreja, e aos poucos a notícia se espalhava.
Quase todas as pessoas que ouviam as palavras sinceras e comovidas de Bruce Barnes
deixavam o templo com a certeza de que os desaparecimentos haviam sido obra de Deus. A
igreja fora arrebatada e todas elas foram deixadas para trás. A mensagem de Bruce
centralizava-se no que a Bıb́ lia chama de "glorioso aparecimento", ou seja, a volta de Jesus sete
anos após o inıć io da Tribulação. Até então, ele dizia, três quartos do restante da população
mundial seriam extintos, na maioria os crentes em Cristo. A exortação de Bruce não se dirigia
aos tıḿ idos. Era um desaϐio aos crentes, àqueles que acreditavam na maior e mais dramática
invasão de Deus na vida do homem desde a encarnação de Jesus Cristo como um ser mortal.
Bruce já havia dito aos Steeles e a Buck que um quarto da população da terra morreria
durante o segundo, o terceiro e o quarto julgamentos do Livro Selado com Sete Selos. Ele citou
Apocalipse 6.8, onde o apóstolo João escreveu: "E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu
cavaleiro, sendo este chamado Morte: e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade
sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio
das feras da terra."
Contudo, o que viria a seguir seria ainda pior.
Um minuto ou dois depois que Rayford e Chloe estavam acomodados em seus lugares, ele
sentiu um leve tapa no ombro. Ambos viraram-se para trás. Buck Williams estava sentado bem
atrás deles na quarta ϐileira de bancos e batera no ombro de ambos ao mesmo tempo. "Oi,
fujões", ele disse. Rayford levantou-se e abraçou Buck. Com aquele gesto, Rayford compreendeu
o quanto havia mudado em questão de semanas. Chloe foi cordial e apertou a mão de Buck.
Quando se sentaram novamente, Buck inclinou-se para frente e cochichou: "Chloe, liguei
para você porque gostaria de saber..."
Mas a música já havia começado.
Buck levantou-se para cantar junto com os demais ϐiéis. Muitos pareciam conhecer as
músicas e a letras. Ele acompanhava as palavras projetadas na parede e tentava captar as
melodias. Os corinhos eram simples e fáceis de memorizar, mas Buck ainda não os conhecia.
Muitas daquelas pessoas, ele pensou, haviam sido freqüentadoras assıd́ uas da igreja — muito
mais do que ele. Por que não compreenderam a verdade?
Depois de alguns corinhos, um Bruce Barnes desajeitado dirigiu-se apressado ao púlpito —
não ao púlpito principal da plataforma, mas a um menor no mesmo nıv́ el da congregação.
Carregava uma Bıb́ lia, dois livros grandes e um maço de papéis que ele tinha diϐiculdade em
manusear. Bruce deu um sorriso tímido.
"Bom dia", ele principiou. "Penso que seria apropriado dar-lhes uma pequena explicação.
Geralmente cantamos mais corinhos, mas hoje não temos tempo para isso. Geralmente
apresento-me com a gravata alinhada, a camisa bem vestida e o paletó abotoado. Isso parece
não ter muita importância nesta manhã. Geralmente recolhemos as ofertas. Estejam certos de
que ainda necessitamos das ofertas, e os senhores poderão deixá-las nos cestos colocados perto
da porta quando saírem do templo ao meio-dia, se é que sairão daqui tão cedo.”
"Quero aproveitar o tempo desta manhãporque tenho urgência em falar com os senhores,
muito mais do que nas últimas semanas. Não quero que se preocupem comigo. Não me tornei
um velho maluco, nem um cultista nem outra coisa qualquer além do que tenho sido a partir do
momento em que me dei conta de que não fui incluído no Arrebatamento.”
"Contei a meus conselheiros mais próximos que a mão de Deus pesou sobre mim nesta
semana, e eles estão orando comigo para que eu seja prudente e perspicaz e para que eu não aja
precipitadamente disparando fogo contra alguma nova e estranha doutrina. Nesta semana tenho
lido, orado e estudado mais do que nunca, e estou ansioso para lhes contar o que Deus me disse.”
"Deus falou comigo de forma audıv́ el? Não. Gostaria que tivesse sido assim. Se isso tivesse
acontecido, provavelmente eu não estaria aqui hoje. Porém, Deus quis que eu o aceitasse pela
fé, sem que Ele precisasse provar sua existência de alguma maneira mais dramática do que
simplesmente enviar seu Filho para morrer por mim. Ele nos deixou a sua Palavra e ela contém
tudo o que necessitamos saber."
Buck sentiu um nó na garganta ao observar a maneira como seu novo amigo pedia,
suplicava e persuadia sua platéia a ouvir, compreender e se entregar a Deus e acatar o propósito
que Ele tinha para cada um ali presente. Bruce contou sua história mais uma vez, descrevendo a
falsa vida piedosa que levara durante anos e como se sentira miserável e deixado para trás, sem
a esposa e os ϐilhos queridos, quando Deus veio buscar seu povo. Buck ouvira essa história mais
de uma vez e, mesmo assim, sempre se comovia. Algumas pessoas soluçavam alto. Aquelas que
ainda não conheciam a história de Bruce, ouviram uma versão abreviada. "Não quero nunca
parar de contar o que Cristo fez por mim", ele disse. "Contem suas histórias. As pessoas poderão
identiϐicar-se com seu sofrimento, suas perdas, sua solidão. Jamais me envergonharei do
evangelho de Cristo. A Bıb́ lia diz que a Cruz escandaliza. Se os senhores estão escandalizados,
estou fazendo meu trabalho. Se os senhores se sentem atraıd́ os a Cristo, o Espıŕ ito Santo está
fazendo sua obra.”
"Não fomos incluıd́ os no Arrebatamento, e agora vivemos uma época que em breve
passará a ser o perıó do mais perigoso da história. Os evangelistas costumavam advertir seus
ouvintes que eles poderiam ser atropelados por um carro ou morrer queimados e que, portanto,
deveriam aceitar a Cristo imediatamente. Eu estou dizendo que se os senhores forem
atropelados por um carro ou morrerem queimados, essas poderão ser as maneiras mais
misericordiosas de morrer. Estejam preparados para o tempo que se aproxima. Estejam
preparados. Vou lhes dizer como deverão se preparar.”
"O tema de meu sermão de hoje é “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, e quero
concentrar-me no primeiro, o cavaleiro do cavalo branco. Se os senhores sempre pensaram que
os Quatro Cavaleiros do Apocalipse faziam parte da linha de defesa dos brutamontes da Notre
Dame, Deus tem uma lição para lhes ensinar hoje."
Buck nunca vira Bruce demonstrar tanta sinceridade, tanta inspiração. Enquanto falava,
ele consultava suas anotações, os livros de referência, a Bíblia. Começou a transpirar e enxugava
constantemente o suor da testa com um lenço. Interrompeu o sermão para admitir que
considerava esse gesto uma gafe. Parecia a Buck que os todos congregados sorriam para Bruce
procurando incentivá-lo a prosseguir. A maioria fazia anotações. Quase todos acompanhavam o
sermão, lendo os trechos em suas Bíblias ou nas que estavam à disposição nos bancos.
Bruce explicou que o livro de Apocalipse, o relato de João a respeito do que Deus lhe
revelou sobre os últimos dias, fala sobre o que acontecerá depois que Cristo arrebatar sua igreja.
"Alguém aqui duvida que estes são os últimos dias?" ele bradou. "Milhões desapareceram, e o
que virá em seguida? O que virá?"
Bruce explicou que a Bıb́ lia prediz em primeiro lugar um tratado entre um lıd́ er mundial e
Israel. "Alguns acreditam que o perıó do de sete anos de tribulação já começou, e que começou
com o Arrebatamento. Já estamos passando por provações e tribulações desde o
desaparecimento de milhões de pessoas, inclusive de nossos amigos e entes queridos, não? Mas
isso não é nada comparado à tribulação que virá.”
"Durante estes sete anos, Deus efetuará três julgamentos consecutivos: o livro selado com
sete selos, ao qual damos o nome de Julgamentos Selados; as sete trombetas; e as sete taças".
Esses julgamentos, creio eu, têm a ϐinalidade de nos soltar de qualquer ϐio de segurança que
porventura tenhamos deixado para trás. Se o Arrebatamento não chegou a chamar nossa
atenção, os julgamentos chamarão. E se os julgamentos não chamarem, morreremos apartados
de Deus. Por mais horrıv́ eis que esses julgamentos venham a ser, exorto os senhores para que os
considerem como advertências ϐinais vindas de um Deus amoroso que não deseja que nenhuma
alma pereça.
"Quando o livro for aberto e os selos dilacerados, revelando os julgamentos, os primeiros
quatro serão representados pelos cavaleiros — os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Se os
senhores já leram sobre isso, provavelmente consideraram-no apenas simbólico, como eu
também. Será que ainda há alguém aqui que considere a doutrina profética da Bıb́ lia um mero
simbolismo?"
Bruce fez uma pausa dramática. "Acho que não. Prestem atenção a esta doutrina. Os
Julgamentos Selados durarão vinte e um meses a partir da assinatura do tratado com Israel. Nas
próximas semanas falarei sobre os quatorze julgamentos restantes que durarão até o ϐinal do
período dos sete anos, mas por ora vamos nos concentrar nos primeiros quatro dos sete selos."
Enquanto Bruce prosseguia, Buck sentia-se estarrecido porque o último orador que ele
ouvira falar de modo tão fascinante foi Nicolae Carpathia. Mas a marca deixada por Carpathia
fora coreografada, manipulada. Bruce só estava tentando impressionar as pessoas com a
verdade da Palavra de Deus. Será que ele diria à congregação que sabia quem era o Anticristo?
De certa maneira, Buck esperava que sim. Mas aquilo poderia ser considerado uma calúnia,
apontar publicamente alguém como o arquiinimigo do Deus Todo-Poderoso.
Ou será que Bruce simplesmente repetiria as palavras da Bıb́ lia e deixaria que as pessoas
tirassem suas próprias conclusões? Já existiam fortes rumores sobre um iminente acordo entre
Carpathia — ou pelo menos entre a ONU sob a liderança de Carpathia — e Israel. Se Bruce
vaticinasse um pacto que seria confirmado nos próximos dias, quem poderia duvidar dele?
Rayford estava mais do que fascinado. Estava extasiado. Parecia que Bruce conseguia ler
sua mente. Pouco tempo atrás ele teria zombado de tal doutrina, de uma interpretação literal
sobre uma passagem tão claramente poética e metafórica. Mas o que Bruce disse fazia sentido.
Havia poucas semanas que aquele jovem começara a pregar. Não era vocacionado nem
treinado para isso. Porém, tratava-se mais de uma aula do que de uma pregação, e o
entusiasmo de Bruce, a forma pela qual ele mergulhava de corpo e alma no assunto, atraıá a
atenção de todos.
"Nesta manhãnão tenho tempo para falar do segundo, do terceiro e do quarto cavaleiros",
disse Bruce, "a não ser para dizer que o cavaleiro do cavalo vermelho signiϐica guerra, o do
cavalo preto signiϐica fome, e o do cavalo amarelo signiϐica morte. Não temos coisas boas pela
frente", ele disse com uma expressão de desagrado, e algumas pessoas deram uma risadinha
nervosa. "Mas eu preveni os senhores de que estas palavras não seriam dirigidas aos fracos de
coração."
Apressando-se para atingir o ponto que desejava e concluir o sermão, Bruce leu Apocalipse
6.1-2: "Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos, e ouvi um dos quatro seres viventes,
dizendo, como se fosse voz de trovão: Vem. Vi, então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro
com um arco; foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer."
Bruce deu um passo para trás de forma dramática e começou a arrumar suas coisas. "Não
se preocupem", ele disse, "ainda não concluı.́" Para surpresa de Rayford, as pessoas começaram
a aplaudir. Bruce disse: "Vocês estão batendo palmas porque querem que eu conclua ou porque
querem que eu prossiga o estudo todas as tardes?"
A congregação aplaudia cada vez mais. Rayford não entendeu o que estava acontecendo.
Aplaudiu também enquanto Chloe e Buck faziam o mesmo. Eles estavam sorvendo aqueles
ensinamentos e queriam mais. Bruce claramente mantinha-se em sintonia com o que Deus
estava lhe mostrando. Disse reiteradas vezes que essa verdade não era novidade, que os
comentários por ele citados existiam havia décadas e que a doutrina do ϐinal dos tempos era
muito, muito mais antiga que isso. Aqueles que relegaram esse tipo de ensinamento aos
intelectuais, aos fundamentalistas e aos evangélicos de mente tacanha, foram deixados para
trás. Em um piscar de olhos concluiu-se que era correto levar a Bıb́ lia a sério! Se nada mais
servisse para convencer o povo, a perda de tantas pessoas por ocasião do Arrebatamento
serviria.
Bruce permaneceu de pé apenas com a Bıb́ lia na mão. "Agora quero dizer-lhes que
acredito no que a Bíblia menciona a respeito do cavaleiro do cavalo branco, o primeiro cavaleiro
do Apocalipse. Não vou apresentar minha opinião. Não vou tirar nenhuma conclusão.
Simplesmente deixarei que Deus os ajude a traçar quaisquer paralelos que necessitem ser
traçados. Vou lhes dizer apenas uma coisa antecipadamente: Para mim, este relato escrito há
milênios parece tão recente como o jornal de amanhã.”
C A P Í T U L O 4
Sentado no banco atrás de Rayford e Chloe Steele, Buck olhou de relance para seu relógio.
Passara-se mais de uma hora desde que ele olhou a última vez para o relógio. Seu estômago
dizia que ele estava com fome, ou pelo menos que já era hora de comer alguma coisa. Sua
mente dizia que ele poderia permanecer ali o dia inteiro ouvindo Bruce Barnes explicar, com
base na Bıb́ lia, o que estava acontecendo hoje e o que aconteceria amanhã. Seu coração dizia
que ele estava à beira de um precipıć io. Buck sabia aonde Bruce queria chegar com seus
ensinamentos, com sua imagem retórica do livro de Apocalipse. Além de saber quem era o
cavaleiro do cavalo branco, Buck o conhecia pessoalmente. Já experimentara o poder do
Anticristo.
Buck havia passado tempo suϐiciente com Bruce e os Steeles, analisando as passagens
bıb́ licas, para ter a plena certeza de que Nicolae Carpathia personalizava o inimigo de Deus.
Mesmo assim, não poderia precipitar-se e fortalecer a mensagem de Bruce, contando sua
própria história. Nem Bruce poderia revelar que Buck sabia quem era o Anticristo ou que
alguém daquela igreja o conhecera.
Durante anos Buck sempre gostou de citar nomes de pessoas famosas para dar a entender
que era ıń timo delas. Freqüentou a alta-roda por tanto tempo que era comum ouvi-lo dizer:
"Encontrei-me com ele", "Entrevistei-a", "Conheço-o bem", "Estive com ela em Paris",
"Hospedei-me na casa deles".
Porém aqueles modos egocêntricos deixaram de existir após os desaparecimentos e suas
experiências ao deparar-se frente a frente com eventos sobrenaturais. Em outros tempos, Buck
Williams teria tido satisfação em poder dizer que conhecia pessoalmente não só a personalidade
lıd́ er do mundo, mas também o próprio Anticristo profetizado nas Escrituras. Agora, ele
simplesmente permanecia atento e concentrado no que seu amigo pregava.
"Permitam-me um esclarecimento", Bruce estava dizendo. "Acredito que, com as
imagens retóricas desses cavaleiros, Deus não tenha tido o propósito de caracterizar um
indivıd́ uo, mas sim as condições do mundo. Sabemos que essas imagens não se referem a povos
especıϐ́icos, porque, por exemplo, o quarto cavaleiro é chamado Morte. "Ah, mas e o primeiro
cavaleiro? Observem que é o Cordeiro quem abre o primeiro selo e revela esse cavaleiro. O
Cordeiro é Jesus Cristo, o Filho de Deus, que morreu por nossos pecados, ressuscitou e
recentemente arrebatou sua igreja.”
"Na Bıb́ lia, o primeiro de uma série é sempre importante — o primogênito, o primeiro dia
da semana, o primeiro mandamento. O primeiro cavaleiro, o primeiro dos quatro cavalos dos
primeiros sete julgamentos, é importante! Ele puxa a ϐila. Ele é o elemento principal para
compreendermos o restante dos cavaleiros, o restante dos Julgamentos Selados, ou seja, o
restante de todos os julgamentos.”
"Quem é o primeiro cavaleiro? Evidentemente representa o Anticristo e seu reino. Seu
propósito é 'vencer o vencedor'. Ele tem um arco na mão, sıḿ bolo de combate agressivo, mas
não há menção de uma ϐlecha. Então, como ele vencerá? Outras passagens bıb́ licas indicam que
ele é um 'rei voluntarioso' e que triunfará por meio de diplomacia. Ele anunciará uma falsa paz,
prometendo a união mundial. Será vitorioso? Sim! Ele tem uma coroa."
Tudo isso era novidade tanto para Rayford como para Chloe. Porém, desde que aceitaram
a Cristo, eles haviam mergulhado tanto nesse estudo junto com Bruce que Rayford já previa
todos detalhes. Parecia que estava se tornando um especialista na matéria, e não se lembrava
de ter captado um assunto com tanta rapidez. Sempre foi um bom aluno, principalmente em
ciências e matemática. Aprendeu rapidamente suas funções na aviação. Mas o assunto atual
referia-se ao universo. Referia-se à vida. Referia-se ao mundo real. Explicava o que acontecera à
sua esposa e ϐilho, o que ele e sua ϐilha sofreriam e o que aconteceria no dia seguinte e nos anos
subseqüentes.
Rayford admirava Bruce. Esse jovem compreendera instantaneamente que sua maneira
falsa de agir como cristão o fez fracassar no momento mais importante da história da
humanidade. Arrependeu-se imediatamente e passou a dedicar-se à tarefa de salvar o maior
número possível de pessoas. Bruce Barnes entregara-se de corpo e alma à causa.
Em outras circunstâncias, Rayford teria se preocupado com Bruce, temendo que ele
estivesse se desgastando, exaurindo suas forças. Mas Bruce parecia estar energizado, satisfeito.
Com certeza precisaria dormir mais, porém no momento a verdade da Palavra de Deus
transbordava e ele estava ansioso por compartilhá-la. Se as demais pessoas fossem como
Rayford, não poderiam pensar em outra coisa a não ser ficar ali e aprender.
"Nas próximas semanas falaremos dos outros três cavaleiros do Apocalipse", Bruce estava
dizendo, "mas antes vou dizer algo em que os senhores devem reϐletir. O cavaleiro do cavalo
branco é o Anticristo, que vem como um impostor prometendo paz e união ao mundo. O livro de
Daniel no Velho Testamento — capıt́ ulo 9, versıć ulos 24 a 27 — diz que ele assinará um tratado
com Israel.”
"Ele parecerá amigo e protetor desse povo, mas no ϐinal o vencerá e o destruirá. Devo
encerrar o estudo desta semana, mas depois explicaremos mais por que isso acontece e quais
serão os efeitos posteriores. Vou encerrar dizendo por que os senhores podem estar certos de
que eu não sou o Anticristo."
Esta frase chamou a atenção dos congregados, inclusive a de Rayford. Todos riram
constrangidos.
"Não estou insinuando que os senhores suspeitem de mim", disse Bruce, provocando mais
risadas. "No entanto, devemos partir do ponto de que todo lıd́ er é suspeito. Lembrem-se,
contudo, que os senhores nunca ouvirão promessas de paz partindo deste púlpito. A Bıb́ lia diz
claramente que teremos talvez um ano e meio de paz após o pacto com Israel. Porém, ao longo
do tempo, prevejo o oposto da paz. Os outros três cavaleiros estão chegando e trarão guerra,
fome, pragas e morte. Esta não é uma mensagem agradável de ouvir nem algo aconchegante no
qual vocês possam se apegar nesta semana. Nossa única esperança está em Cristo e, mesmo
assim, sofreremos. Até a próxima semana."
Rayford percebeu uma sensação de desassossego entre os presentes enquanto Bruce
encerrava com uma oração. Parecia que todos sentiam o mesmo que Rayford sentia. Ele queria
ouvir mais e tinha mil perguntas. Normalmente a organista começava a tocar perto do ϐinal da
oração de Bruce, e ele imediatamente dirigia-se para os fundos da igreja onde cumprimentava
as pessoas que saıá m. Mas nesse dia enquanto Bruce começava a atravessar o corredor foi
parado por pessoas que o abraçavam, agradeciam e faziam perguntas.
Rayford e Chloe estavam sentados em uma das ϐileiras da frente. Ele percebeu que Buck
estava conversando com Chloe e, ao mesmo tempo, ouviu as perguntas que as pessoas faziam a
Bruce.
"Você está dizendo que Nicolae Carpathia é o Anticristo?" perguntou alguém.
"Você me ouviu dizer isso?" disse Bruce.
"Não, mas ϐicou claro. Já estão divulgando notıć ias sobre seus planos e uma espécie de
acordo com Israel."
"Continue lendo e estudando", disse Bruce.
"Mas não pode ser Carpathia, não? Você acha que ele é um mentiroso?"
"O que você acha que ele é?" perguntou Bruce.
"Um salvador."
"Quase um messias?" pressionou Bruce.
"Sim!"
"Há apenas um Salvador, um Messias."
"Sei disso espiritualmente, mas estou dizendo politicamente. Não me diga que Carpathia
não é o que parece ser."
"Só posso lhe dizer o que está nas Escrituras", disse Bruce, "e insisto para que vocêouça as
notícias com atenção. Devemos ser espertos como serpentes e simples como pombas."
"É assim que eu descreveria Carpathia", disse uma mulher.
"Tome cuidado", disse Bruce, "ao conferir atributos de Cristo a alguém que não se
assemelha a Ele."
No ϐinal do culto Buck segurou o braço de Chloe, mas ela não reagiu como ele esperava.
Virou-se lentamente para saber o que ele queria, sem demonstrar aquele ar de expectativa de
sexta-feira à noite. Ele a magoara de alguma maneira. "Tenho certeza de que vocêgostaria de
saber por que lhe telefonei", ele começou.
"Achei que você me contaria quando tivesse oportunidade."
"Eu só queria saber se vocêgostaria de conhecer meu novo apartamento." Ele informou o
endereço. "Que tal você passar por lá amanhã perto da hora do almoço para conhecê-lo?
Poderemos almoçar juntos."
"Não sei", disse Chloe. "Acho que não poderei almoçar, mas se passar por perto, chegarei
até lá."
"Está bem." Buck estava desolado. Aparentemente não era difıć il desapontá-la. O difıć il
seria amolecer seu coração.
Enquanto Chloe se misturava aos congregados, Rayford cumprimentou Buck com um
aperto de mão. "Como vai, meu amigo?"
"Tudo bem", respondeu Buck. "Ainda tentando me organizar."
Uma pergunta martelava a mente de Rayford. Ele olhou para o teto e depois para Buck.
Nesse ângulo de visão, avistou centenas de pessoas andando de um lado para o outro,
aguardando um momento para conversar a sós com Bruce Barnes. "Buck, preciso lhe perguntar
algo. Você está arrependido de ter apresentado Hattie Durham a Carpathia?"
Buck cerrou os lábios e fechou os olhos, passando o dedo na testa. "Todos os dias", ele
sussurrou. "Estive conversando com Bruce sobre isso."
Rayford fez um movimento com a cabeça e ajoelhou-se em um dos bancos, de frente para
Buck. Buck sentou-se. "Foi o que pensei", disse Rayford. "Tenho muito dó dela. Fomos amigos,
você sabe. Colegas de trabalho, mas amigos também."
"Imagino", disse Buck.
"Nunca tivemos um caso ou qualquer coisa parecida", Rayford assegurou. "Mas me
preocupo com o que possa acontecer a ela."
"Ouvi dizer que ela tirou uma licença de trinta dias da Pan-Con."
"Ah, sim", disse Rayford, "mas foi só para disfarçar. Vocêsabe que Carpathia vai querer tê-
la por perto e ele arrumará dinheiro para pagar muito mais do que ela ganha na empresa aérea."
"Sem dúvida."
"Ela se apaixonou pelo trabalho, para não dizer que se apaixonou por ele. E quem sabe até
onde irá esse relacionamento?"
"Como Bruce diz, não penso que ele a contratou por causa de sua capacidade intelectual",
disse Buck.
Rayford assentiu com a cabeça. Ambos concordavam. Hattie Durham passaria a ser um
dos passatempos de Carpathia. Se um dia houve alguma esperança de sua alma ser salva, agora
seria remota, uma vez que ela estava diariamente na companhia dele.
"Lamento por ela", prosseguiu Rayford, "e apesar de nossa amizade não me sinto à vontade
para adverti-la. Ela foi a primeira pessoa a quem tentei falar de Cristo. Não se interessou. Antes
disso demonstrei mais interesse por ela do que devia, e naturalmente ela agora não tem um
conceito positivo a meu respeito."
Buck inclinou-se para frente. "Talvez eu tenha uma oportunidade de conversar em breve
com Hattie."
"E o que você vai lhe dizer?" indagou Rayford. "Pelo que sabemos os dois já são ıń timos.
Ela vai contar tudo a ele. Se ela lhe disser que você se tornou crente e que vai tentar salvá-la,
ele constatará que a lavagem cerebral coletiva não surtiu efeito em sua mente."
Buck concordou com a cabeça. "Tenho pensado nisso. Mas sinto-me responsável por
Hattie estar lá. Eu sou o responsável por ela estar lá. Podemos orar por ela, mas vou me sentir
um inútil se não ϐizer algo concreto para tirá-la de lá. Precisaremos trazê-la para cá, onde
poderá conhecer a verdade."
"Tenho dúvidas se ela já não se mudou para Nova York", disse Rayford. "Talvez possamos
descobrir um motivo para Chloe telefonar para seu apartamento em Des Plaines."
Depois que eles despediram um do outro e caminharam para fora do templo, Rayford
começou a se perguntar até que ponto deveria incentivar o relacionamento entre Chloe e Buck.
Gostava muito de Buck, mas conhecia muito pouco a seu respeito. Acreditava e conϐiava nele,
considerava-o um irmão. Ele era um jovem inteligente e perspicaz. Porém, a idéia de que sua
ϐilha começasse a namorar ou viesse a se apaixonar por um homem que conhecia pessoalmente
o Anticristo... ia além de sua compreensão. Rayford teria de ser franco com ambos, se o
relacionamento entre eles fosse adiante.
Contudo, ao se encontrar com Chloe no carro, ele se deu conta de que não havia motivos
para preocupações, pelo menos por ora.
"Não me diga que você convidou Buck para almoçar conosco", ela disse.
"Nem pensei nisso. Por quê?"
"Ele está me tratando como uma irmã, e mesmo assim quer que eu vá conhecer seu
apartamento amanhã."
Rayford teve vontade de dizer "E daı?́" e perguntar à ϐilha se ela não estaria exagerando ao
interpretar as palavras e ações de um homem que mal conhecia. Na opinião de Chloe, Buck
deveria estar loucamente apaixonado por ela e sem saber como se expressar. Rayford não disse
nada.
"Você tem razão", ela disse. "Estou com idéia fixa."
"Eu não disse uma só palavra."
"Posso ler seus pensamentos", ela disse. "De qualquer forma, estou furiosa comigo mesma.
Não dou a menor atenção a um recado deixado para mim, e depois ϐico pensando o tempo todo
em um sujeito que deixei escapar por entre os dedos. Não tem importância. Quem vai se
preocupar com isso?"
"Pelo jeito, você."
"Mas eu não deveria. As coisas antigas já passaram e tudo se fez novo", ela disse.
"Preocupar-se com rapazes deϐinitivamente deve ser uma coisa antiga. Por ora não há tempo
para banalidades."
"Aja de acordo com seu coração."
"EƵ exatamente o que não quero fazer. Se eu agir de acordo com meu coração, vou visitar
Buck hoje à tarde para esclarecer nossa situação."
"E você não vai?"
Ela balançou a cabeça negativamente.
"Então você me faria um favor? Tentaria localizar Hattie Durham para mim?"
"Por quê?"
"Na verdade, estou curioso para saber se ela já se mudou para Nova York."
"E por que ela não teria se mudado ainda? Carpathia a contratou, não é verdade?"
"Não sei. Ela tirou trinta dias de licença. Gostaria que você ligasse para o apartamento
dela. Se a secretária eletrônica estiver ligada, é sinal que ela ainda não se decidiu."
"E por que você não liga para ela?"
"Acho que já me intrometi demais em sua vida."
A caminho de casa, Buck parou para comprar comida pronta em uma lanchonete chinesa
e almoçou sozinho, olhando pela janela. Ligou a TV em um jogo de beisebol mas não prestou
atenção, deixando o volume baixo. Tinha a mente confusa. Aprontara o artigo para ser
transmitido a Nova York e estava ansioso para saber a reação de Stanton Bailey. Também
aguardava seus arquivos e equipamentos de escritório, que deveriam chegar na sucursal de
Chicago na manhã do dia seguinte. Seria bom ter tudo na mão para organizar-se.
Também não conseguia parar de pensar na mensagem de Bruce. Não tanto no conteúdo
da mensagem, mas no sofrimento de Bruce. Precisava conhecer Bruce melhor. Talvez isso fosse
a cura para a sua solidão — e a de Bruce. Se Buck se sentia tão sozinho, a solidão deveria ser
muito maior para um homem que teve mulher e ϐilhos. Buck estava acostumado a uma vida
solitária, mas tinha uma roda de amigos em Nova York. Em Chicago, a não ser que alguém do
escritório ou da Força Tribulação ligasse, o telefone permanecia mudo.
Com certeza ele não estava sabendo lidar com Chloe. Quando foi removido, pensou que a
mudança de Nova York para Chicago seria positiva — teria condições de se encontrar mais
vezes com Chloe, freqüentaria uma boa igreja, receberia um bom treinamento, teria um grupo
de amigos. Pensou também que estava agindo certo por não ter se apressado em correr atrás
dela. A época não era apropriada. Quem se preocuparia em ter um caso amoroso no ϐinal dos
tempos?
Buck sabia — ou pelo menos acreditava — que Chloe não estava brincando com ele. Ela
estava se esforçando para continuar a atrair sua atenção. Fosse de propósito ou não, estava
funcionando, e ele sentiu-se um tolo por dar tanta importância a isso.
Apesar de qualquer coisa que tivesse acontecido, por mais que ela estivesse ϐingindo, e
qualquer que fosse o motivo, ele lhe devia uma explicação. Poderia vir a se arrepender por
continuar a tratá-la como uma amiga, mas não enxergava outra saıd́ a. Para o bem de ambos,
deveriam continuar amigos e aguardar um tempo para ver o que aconteceria. Na opinião dele,
Chloe também pensava assim.
Buck tirou o fone do gancho, mas quando o colocou no ouvido, escutou um som estranho e,
em seguida, uma gravação. "Há um recado para você. Aperte o botão dois para ouvi-lo."
Um recado? Não requisitei um voice mail. Buck apertou o botão. Era Steve Plank.
"Buck, onde você se meteu, homem? Se você não está querendo retornar as ligações de
seu voice mail, vou parar de deixar recados lá. Sei que você não tem registro lá, mas se pensa
que Nicolae Carpathia é alguém com quem se pode brincar, pergunte a si mesmo como
consegui seu número de telefone. Como jornalista, você vai querer ter esses recursos. Agora,
Buck, de amigo para amigo, sei que costuma veriϐicar seus recados com freqüência e sabe que
Carpathia deseja conversar com você. Por que não me ligou? Você está me prejudicando. Eu
disse a ele que consegui localizá-lo e que você viria até aqui para vê-lo. Disse a ele que não
entendi por que vocênão aceitou seu convite para a reunião de posse, mas que o conheço como
a um irmão e que você não se rebelaria contra ele.”
"Agora ele quer ver você. Não sei do que se trata nem mesmo se vou participar. Não sei se
faz parte do protocolo, mas com certeza você poderá pedir-lhe algumas citações para seu
artigo. EƵ só vir até aqui. Você poderá entregar pessoalmente seu artigo ao Semanário,
cumprimentar sua velha amiga Srta. Durham e descobrir o que Nicolae deseja. Há uma
passagem de primeira classe aguardando por vocêem O'Hare sob o nome de McGillicuddy para
o vôo das nove horas de amanhã. Haverá uma limusine à sua disposição no aeroporto e você
almoçará com Carpathia. Faça isso, Buck. Talvez ele queira agradecer o fato de você ter-lhe
apresentado Hattie. Parece que estão se dando bem.
"Agora, Buck, se você não me ligar, vou achar que você virá. Não me decepcione."
"E então, o que você conseguiu?" perguntou Rayford.
Chloe imitou a voz da gravação. "'O número para o qual você ligou está desativado. O novo
número é...'"
"É qual?"
Ela entregou-lhe um pedaço de papel. O código de área era de Nova York. Rayford
suspirou. "Você tem o novo número de Buck?"
"Está preso na parede perto do telefone."
Buck ligou para Bruce Barnes. "Detesto ter de lhe perguntar isto, Bruce, mas poderıá mos
marcar uma reunião para esta noite?"
"Estou tentando dormir um pouco", respondeu Bruce.
"Você está precisando de um bom sono. Marcaremos a reunião para outra hora."
"Não, não vou dormir tanto assim. Você quer marcar uma reunião para nós quatro ou só
para nós dois?"
"Só nós dois."
"Que tal eu ir ao seu apartamento? Estou cansado do escritório e da casa vazia."
Eles marcaram para as dezenove horas, e Buck decidiu que tiraria o fone do gancho depois
de fazer mais uma ligação. Não queria correr o risco de conversar com Plank, ou pior, com
Carpathia, até ter conversado e orado sobre esse assunto com Bruce. Steve havia dito que
achava que Buck voaria para Nova York a não ser que houvesse algo em contrário, mas com
certeza ligaria novamente para confirmar. E Carpathia era totalmente imprevisível.
Buck telefonou para Alice, a secretária da sucursal de Chicago. "Preciso de um favor".
"Às ordens", ela disse.
Ele contou que voaria para Nova York na manhãseguinte, mas não queria que Verna Zee
soubesse. "Também não quero aguardar minhas coisas por muito tempo, portanto gostaria de
deixar uma cópia da chave de meu apartamento com vocêantes de seguir para o aeroporto. Se
você não se importar, poderia trazer tudo para cá e trancar a porta. Eu lhe ϐicaria muito
agradecido."
"Sem problemas. De qualquer maneira, terei de passar aı́por perto por volta da hora do
almoço. Vou buscar meu noivo no aeroporto. Verna não precisa saber que estarei levando suas
coisas."
"Você gostaria de ir até Dallas comigo amanhã cedo, Chio?" perguntou Rayford.
"Acho que não. Você vai ficar o dia todo dentro do 757, certo?"
Rayford assentiu com a cabeça.
"Vou ficar por aqui. Talvez aceite o convite de Buck para conhecer seu apartamento."
Rayford balançou a cabeça. "Não consigo acompanhar seu raciocıń io. Agora você quer ir
até lá para ver o sujeito que a trata como uma irmã?"
"Não vou até lá para vê-lo", ela disse. "Vou conhecer seu apartamento."
"Ah", disse Rayford. "Falha minha."
"Você está com fome?" perguntou Buck antes de Bruce atravessar a porta naquela noite.
"Um pouco", respondeu Bruce.
"Vamos jantar fora", sugeriu Buck. "Você poderá conhecer o apartamento quando
voltarmos."
Escolheram um canto mais tranqüilo de uma pizzaria barulhenta, e Buck pôs Bruce a par
das últimas novidades de Steve Plank. "Você está pensando em ir?" indagou Bruce.
"Não sei o que pensar e, se você me conhecesse melhor, saberia o quanto isso é esquisito
para mim. Evidentemente, meus instintos como jornalista dizem sim — vá, sem fazer
perguntas. Quem não iria? Mas eu sei quem esse sujeito é, e a última vez que o vi ele baleou dois
homens."
"Eu gostaria muito que você também pedisse a opinião de Rayford e Chloe."
"Sei disso", disse Buck, "mas quero pedir-lhe que não conte nada a ninguém sobre esse
assunto. Se eu resolver ir, prefiro que eles não saibam."
"Buck, se você for, vai precisar de muitas orações."
"Você poderá contar-lhes depois que eu partir. Devo almoçar com Carpathia ao meio-dia
ou um pouco mais tarde, horário de Nova York. Diga-lhes que estou em uma viagem
importante."
"Se é isso que vocêquer, tudo bem. Mas vocêprecisa se dar conta de que não é assim que
vejo a atuação do grupo."
"Eu sei e concordo. Mas eles poderão considerar a minha ida como algo temerário, e
talvez seja. Se eu for, não quero desapontá-los até ter uma oportunidade de me explicar."
"E por que não fazer isso antes?"
Buck empinou a cabeça e deu de ombros. "Porque ainda não consegui explicar a mim
mesmo."
"Parece que você está resolvido a ir."
"Acho que devo."
"Você quer que eu apóie sua decisão?"
"Na verdade, não. Você apoiaria?"
"Estou tão perdido quanto você, Buck. Não consigo enxergar nada positivo nisso. Ele é um
homem perigoso e um assassino. Poderá fazê-lo desaparecer sem deixar provas. Já fez isso
diante de uma sala cheia de testemunhas. Por outro lado, por quanto tempo vocêpoderá evitar
esse encontro? Dois dias depois de vocêter-se mudado, ele consegue ter acesso ao seu número
que ainda não consta da lista. Ele pode encontrá-lo e, se você se esquivar, poderá deixá-lo
furioso."
"Eu sei. Poderei dizer-lhe que estive ocupado com a mudança e a arrumação do novo
apartamento..."
"E você esteve."
"Estive, e depois me apresento no dia marcado, usando sua passagem e imaginando o que
ele deseja."
"Ele tentará ler seus pensamentos, descobrir o que você se lembra daquele dia."
"Não sei o que vou dizer. Também não sabia o que fazer na reunião de posse. Percebi a
presença do Maligno naquela sala, mas tinha a certeza de que Deus estava comigo. Eu não sabia
o que dizer ou como reagir, mas, quando penso nisso, Deus me conduziu perfeitamente para
permanecer em silêncio e deixar que Carpathia tirasse suas próprias conclusões."
"Agora você também poderá depender de Deus, Buck. Mas deve elaborar algum tipo de
plano, o que falar ou o que não falar, esse tipo de coisa."
"Em outras palavras, ficar sem dormir esta noite?"
Bruce sorriu. "Não sei se existem muitas probabilidades para isso."
"Nem eu."
Buck levou Bruce para conhecer seu apartamento. Naquele momento, decidiu ir para
Nova York na manhã seguinte.
"Por que você não telefona para seu amigo...", Bruce começou a dizer.
"Plank?"
"Sim, Plank, e diga-lhe que você irá. Assim poderá parar de se preocupar com a ligação
dele e deixar a linha aberta para mim ou qualquer outra pessoa que queira conversar com você."
Buck assentiu com a cabeça. "Boa idéia."
Depois de deixar um recado para Steve, Buck não recebeu mais nenhuma ligação naquela
noite. Pensou em telefonar para Chloe dizendo para ela não vir na manhã seguinte, mas não
queria ter de contar-lhe o motivo nem inventar uma história. De qualquer forma, ele estava
convencido de que ela não viria. Com certeza, ela não parecera interessada naquela manhã.
Buck teve um sono agitado. Na manhã seguinte, entregou a chave de seu apartamento a
Alice. Felizmente, ao sair do estacionamento, não viu Verna que estava chegando. Ela também
não chegou a vê-lo.
Buck não tinha nenhum documento de identidade com o nome de McGillicuddy. Ao pegar
um envelope em O'Hare sobrescritado com esse nome, constatou que nem mesmo a jovem do
balcão sabia que havia uma passagem dentro.
Apresentou-se para o check-in uma hora e meia antes do embarque. "Sr. McGillicuddy",
disse o homem de meia-idade que o atendeu, "o senhor poderá ser o primeiro a embarcar, se
quiser."
"Obrigado", disse Buck.
Ele sabia que os passageiros de primeira classe, os que voavam com freqüência, os idosos e
as pessoas com crianças pequenas tinham prioridade para embarcar. Mas quando Buck dirigiuse
para a sala de espera, o homem perguntou: "O senhor não deseja embarcar imediatamente?"
"Como assim?" perguntou Buck. "Agora?"
"Sim, senhor."
Buck olhou ao redor, perguntando a si mesmo se não ouvira o chamado para embarcar.
Havia ainda poucas pessoas na fila, e ninguém estava se dirigindo para a aeronave.
"O senhor tem o privilégio de embarcar no momento em que desejar, mas não se sinta
obrigado a isso. A escolha é sua."
Buck deu de ombros. "Claro. Vou embarcar imediatamente."
Somente a comissária de vôo estava na aeronave. O compartimento da classe econômica
ainda estava sendo limpo. Não obstante, a comissária ofereceu-lhe champanhe, suco ou
refrigerante e entregou-lhe o cardápio do desjejum.
Buck nunca foi apreciador de bebida alcoólica, portanto recusou o champanhe. Também
não estava disposto a comer nada. A comissária disse: "O senhor tem certeza? Há uma garrafa a
seu lado." Ela olhou para a prancheta que tinha nas mãos. "'Cortesia de N.C"
"De qualquer maneira, obrigado." Buck balançou a cabeça. Será que não havia um
paradeiro para tudo o que Carpathia podia — ou queria — fazer?
"Não vai querer levar a garrafa?"
"Não, senhora. Obrigado. "A senhora gostaria de ficar com ela?"
A comissária lançou-lhe um olhar de perplexidade. "O senhor está brincando? EƵ Dom
Pérignon!"
"Sinta-se à vontade para levá-la."
"Sério?"
"Claro."
"Bem, o senhor assinaria esta papeleta indicando que aceitou o champanhe para que eu
não tenha problemas por tê-lo levado?" Buck assinou. O que aconteceria em seguida?
"Senhor?" disse a comissária. "Qual é o seu nome?"
"Desculpe-me", disse Buck. "Estava distraıd́ o." Pegou a papeleta, anulou sua assinatura
verdadeira e rabiscou "B. McGillicuddy."
Normalmente os passageiros da classe econômica lançavam olhares furtivos para os da
primeira classe, mas agora até mesmo os da primeira classe fizeram o mesmo em relação a ele.
Buck tentou não demonstrar ostentação, mas evidentemente estava recebendo tratamento
preferencial. Já estava acomodado a bordo quando os demais passageiros chegaram. Durante o
vôo, as comissárias rodearam-no o tempo todo, completando seu copo e perguntando se ele
precisava de mais alguma coisa. A quem Carpathia pagara por esse tratamento, e quanto?
No aeroporto Kennedy, Buck não precisou procurar por alguém carregando um cartaz
com seu nome. Um motorista uniformizado caminhou em sua direção assim que ele apareceu
no terminal, pegou sua maleta e perguntou se havia outras malas.
"Não."
"Ótimo, senhor. Acompanhe-me até o carro, por favor."
Buck era um homem acostumado a viajar pelo mundo todo e já havia sido tratado como
rei e como pobretão ao longo dos anos. Mesmo assim, sentiu-se desconfortável diante do atual
tratamento. Atravessou o aeroporto acompanhando submissamente o motorista até avistar
uma enorme limusine preta na beira da calçada. O motorista abriu a porta e Buck entrou, saindo
da luz do sol para a escuridão no interior da limusine.
Ele não havia mencionado seu nome ao motorista e este também não perguntou. Buck
entendeu que tudo fazia parte da hospitalidade de Carpathia. E se ele tivesse sido confundido
com outra pessoa? E se isso fosse um tremendo engano?
Enquanto acostumava sua vista ao ambiente escuro de vidro fume, Buck notou um
homem de terno escuro olhando para ele, sentado de costas para o motorista. "Você é
funcionário da ONU", perguntou Buck, "ou trabalha diretamente para o Sr. Carpathia?"
O homem não respondeu. Nem se moveu. Buck inclinou-se para frente. "Desculpe-me a
insistência", ele disse. "Você..."
O homem colocou o dedo nos lábios em sinal de silêncio. Tudo bem, pensou Buck. Não
preciso saber. Porém, ele estava curioso para saber se a reunião com Carpathia seria na ONU ou
em um restaurante. E seria muito bom saber também se Steve Plank estaria presente.
"Eu poderia falar com o motorista?" perguntou Buck. Nenhuma resposta. "Por favor,
motorista."
No entanto, havia uma divisória de vidro transparente entre o assento da frente e o
restante do chassi. O homem que parecia um guarda-costas continuava olhando e Buck
perguntou a si mesmo se esta seria sua última viagem de carro. Estranhamente, ele não sentiu a
mesma apreensão que o dominara na última vez. Não sabia se tudo isso procedia de Deus, ou se
ele estava sendo ingênuo. Pelo que entendia, poderia estar a caminho de sua própria execução.
O único registro de sua viagem era uma assinatura que ele mesmo havia anulado na papeleta da
comissária de bordo.
Rayford Steele sentou-se na cabina de um Boeing 757 na pista militar escura de Dallas —
Fort Worth. Um examinador autorizado, sentado no banco do primeiro-piloto, já havia
esclarecido que estava ali só para tomar notas. Rayford deveria fazer a conferência preliminar
de todos os itens do vôo, comunicar-se com a torre, aguardar ordens, decolar, seguir as
instruções da torre sobre a rota e aterrissar. Não lhe disseram quantas vezes deveria repetir a
seqüência toda nem se haveria necessidade de algo mais.
"Lembre-se", disse o examinador, "não estou aqui para lhe ensinar nada nem para tirá-lo
de alguma enrascada. Não respondo a perguntas nem mexo nos controles."
A conferência preliminar ocorreu sem nenhum problema. Taxiar o 757 era diferente do
pesado e desajeitado 747, mas Rayford conseguiu. Depois de receber autorização da torre, ele
acelerou para poder levantar vôo e sentiu a propulsão violenta da maravilha da aerodinâmica.
Quando a aeronave movimentou-se ruidosamente pela pista como um cavalo de corridas,
Rayford disse ao examinador: "Este é um Porsche em matéria de aeronaves, não?"
O examinador nem se dignou a olhar para ele, quanto menos responder à sua pergunta.
A decolagem foi enérgica e verdadeira, e Rayford lembrou-se de seus tempos de militar
quando pilotou aeronaves de guerra potentes, porém muito menores. "Ou quem sabe um
Jaguar?" perguntou ao examinador, que desta vez se dignou a dar um leve sorriso e um
movimento afirmativo com a cabeça.
A aterrissagem de Rayford foi perfeita. O examinador aguardou até que ele taxiasse na
posição correta e desligasse os motores. Então disse: "Vamos repetir mais duas vezes e você
poderá pilotar por conta própria."
A limusine em que Buck Williams viajava ϐicou presa no trânsito congestionado. Buck
gostaria de ter trazido algo para ler. Por que tanto mistério? Ele não compreendia o motivo
desse tratamento nem antes nem depois do vôo. A única vez que alguém lhe sugeriu para usar
um pseudônimo foi quando uma revista concorrente lhe fez uma oferta considerada irrecusável
por seus proprietários, e eles não queriam que o Semanário Global soubesse que Buck sequer
estaria considerando a idéia de mudar de emprego.
Buck avistou a sede da Organização das Nações Unidas à distância, mas só soube que este
não seria seu destino quando o motorista passou à toda velocidade pela frente do edifıć io. Ele
esperava ser conduzido a um belo local para o almoço. Apesar de ter recusado o desjejum,
gostava mais da idéia de almoçar do que morrer.
Quando Rayford foi conduzido à caminhonete de cortesia da Pan-Con de volta ao
aeroporto Dallas — Fort Worth, o examinador entregou-lhe um envelope comercial. "Então,
passei no exame?" perguntou Rayford.
"Você só saberá daqui mais ou menos uma semana", respondeu o examinador.
E agora, o que seria isto? perguntou Rayford a si mesmo, entrando na caminhonete e
abrindo o envelope. Dentro havia uma única folha de papel com o timbre da Organização das
Nações Unidas e escrito em alto relevo: Hattie Durham, Assistente Pessoal do SecretárioGeral.
A mensagem escrita à mão dizia simplesmente:
Capitão Steele,
Suponho que você saiba que o Air Force One novinho em folha é um 757.
Sua amiga,
Hattie Durham
C A P Í T U L O 5
Buck começou a sentir-se mais conϐiante por não estar em perigo mortal. Havia muitas
pessoas envolvidas em sua viagem de Chicago a Nova York e agora para o centro da cidade. Por
outro lado, se Nicolae Carpathia conseguira esconder um assassinato diante de mais uma dezena
de testemunhas, certamente poderia eliminar um articulista de revista.
A limusine seguiu em direção às docas, onde parou em um estacionamento circular diante
do exclusivo Manhattan Harbor Yacht Club. Quando o porteiro se aproximou, o motorista
abaixou o vidro da porta dianteira direita e fez um sinal com o dedo para ele, como se o
estivesse advertindo a permanecer afastado do carro. Em seguida, o segurança desceu, segurou
a porta aberta e Buck também desceu do carro. "Siga-me, por favor", disse o segurança.
Buck teria se sentido à vontade no Yacht Club se não estivesse acompanhando um homem
de terno e que visivelmente o fazia passar por uma longa ϐila de clientes à espera de uma mesa
vaga. O maitre olhou de relance e fez um movimento afirmativo com a cabeça enquanto Buck
acompanhava o homem até a entrada do restaurante. Ali o homem parou e cochichou: "O
senhor almoçará com o cavalheiro que está no reservado perto da janela."
Buck olhou. Alguém acenava energicamente para ele, atraindo a atenção dos presentes.
Como o sol batia nas costas da pessoa, Buck avistou apenas a silhueta de um homem de estatura
pequena, ombros curvados para frente e cabelos ralos despenteados. "Voltarei para buscá-lo à
uma e meia em ponto", disse o segurança. "Não saia do restaurante sem mim."
"Mas..."
O segurança afastou-se rapidamente e Buck olhou para o maitre, que não lhe deu atenção.
Sem perder o autocontrole, Buck passou pelas inúmeras mesas e caminhou em direção ao
reservado perto da janela, onde foi cumprimentado efusivamente por seu velho amigo Chaim
Rosenzweig. O homem conhecia as boas maneiras de falar baixo em público, mas seu
entusiasmo foi imenso.
"Cameron!" o israelense gritou com um forte sotaque. "Que bom ver você! Sente-se, sentese!
Este não é um lugar lindo? Só para os melhores amigos do secretário-geral."
"Ele nos fará companhia, senhor?"
Rosenzweig pareceu surpreso. "Não, não! Muito ocupado. Sem tempo para isso.
Hospedando chefes de estado, embaixadores, todos querem estar perto dele. Eu mesmo mal
consigo conversar com ele mais do que cinco minutos por dia!"
"Quanto tempo o senhor ϐicará em Nova York?" perguntou Buck, pegando o cardápio que
lhe fora oferecido e permitindo que o garçom estendesse o guardanapo em seu colo.
"Pouco tempo. No final desta semana Nicolae e eu vamos finalizar os preparativos para sua
visita a Israel. Será um dia glorioso!"
"Fale-me sobre isso, doutor."
"Vou falar! Vou falar! Mas antes precisamos esclarecer algo!" De repente o homem ϐicou
sério e falou em tom de voz sombrio. Estendeu o braço sobre a mesa e cobriu a mão de Buck
com a sua. "Cameron, sou seu amigo. Vocêprecisa ser franco comigo. Por que não compareceu
a uma reunião tão importante? Sou um cientista, sim, mas também considero-me uma espécie
de diplomata. Esforcei-me bastante por trás dos bastidores com Nicolae e com seu amigo, o Sr.
Plank, para que você fosse convidado. Não entendi."
"Nem eu", disse Buck. O que mais poderia dizer? Rosenzweig, idealizador da fórmula que
fez os desertos de Israel ϐlorescerem como um jardim, era seu amigo desde que Buck o
enquadrou na categoria de "Fazedor da Notıć ia do Ano" no Semanário Global pouco mais de um
ano atrás. Rosenzweig foi um dos primeiros a mencionar o nome de Nicolae Carpathia a Buck.
Carpathia era um polıt́ ico de baixo escalão da Romênia que solicitara uma reunião particular
com Rosenzweig após a fórmula ter adquirido fama.
Chefes de estado de todo o mundo haviam tentado aproximar-se servilmente de Israel
para ter acesso à fórmula. Inúmeros paıś es enviaram diplomatas com a ϐinalidade de bajular
Rosenzweig depois de não terem obtido sucesso com o primeiro-ministro de Israel.
Curiosamente, Carpathia foi um dos que mais impressionou Rosenzweig. Carpathia organizou a
visita e viajou por conta própria, e na ocasião parecia não ter poderes para fazer acordos, apesar
de Rosenzweig estar disposto a isso. Carpathia só precisava da boa vontade de Rosenzweig. E
conseguiu. Agora, Buck entendeu, estava tudo acertado.
"Onde você estava?" indagou o Dr. Rosenzweig.
"Esta é uma pergunta de natureza existencial", respondeu Buck. "Onde cada um de nós
está?"
Rosenzweig piscou os olhos sem entender nada, e Buck sentiu-se um tolo. Estava usando
uma linguagem incoerente, mas não sabia mais o que falar. Não poderia dizer ao homem: Eu
estava lá! Vi o mesmo que o senhor viu, mas Carpathia fez uma lavagem cerebral em todos vocês
porque ele é o Anticristo!
Rosenzweig era um homem inteligente, esperto e adorava uma intriga. "Então, você não
quer me contar. Tudo bem. Quem perdeu foi vocêpor não ter comparecido. Evidentemente, foi
poupado de uma cena de horror, mas foi sem dúvida uma reunião histórica. Peça o salmão. Você
vai achar delicioso."
Buck sempre teve o hábito de não aceitar a recomendação de pratos em restaurantes.
Provavelmente essa era uma das razões de seu apelido. Percebeu o quanto estava confuso ao
pedir o prato sugerido por Rosenzweig. Mas estava realmente delicioso.
"Agora permita que eu lhe faça uma pergunta, Dr. Rosenzweig."
"Por favor! Por favor, Chaim."
"Como poderei me dirigir dessa maneira a um ganhador do Prêmio Nobel?"
"Por favor, será uma honra para mim. Por favor!"
"Está bem, Chaim", disse Buck, sentindo-se um tanto desconfortável. "Por que estou aqui?
Qual é a finalidade?"
O velho homem pegou o guardanapo, limpou toda a barba com ele, enrolou-o em formato
de bola e atirou-o no prato. Empurrou o prato de lado, endireitou-se na cadeira e cruzou as
pernas. Buck já vira muita gente demonstrar profundo interesse por um determinado assunto,
mas não com a avidez de Chaim Rosenzweig.
"Então, o jornalista que existe dentro de você veio à tona, heim? Vou começar dizendo que
hoje é o seu dia de sorte. Nicolae tem em mente conceder-lhe uma honra tão grande que não
posso lhe contar."
"Mas o senhor vai me contar, não?"
"Vou lhe contar só o que estou autorizado, e nada mais. O resto ϐicará por conta de
Nicolae." Rosenzweig olhou para seu relógio de vinte dólares, de pulseira de plástico, que não
combinava com seu status internacional. "OƵtimo. Temos tempo. Ele destinou trinta minutos
para sua visita, portanto não se esqueça disso. Sei que são amigos e que você talvez queira
desculpar-se por não ter comparecido à reunião, porém lembre-se de que Nicolae tem muito a
lhe oferecer e pouco tempo para conversar. Ele viaja no ϐinal da tarde para Washington onde
terá uma reunião com o presidente. A propósito, o presidente ofereceu-se para se reunirem em
Nova York, mas Nicolae, em sua humildade, não aceitou de jeito nenhum."
"Você considera Carpathia uma pessoa humilde?"
"Talvez tão humilde quanto qualquer lıd́ er que já conheci, Cameron. Evidentemente,
conheço muitos homens públicos e também de vida privada que são humildes e têm o direito de
ser! Mas os polıt́ icos, chefes de estado e lıd́ eres mundiais, em sua maioria, são todos cheios de si.
Grande parte deles tem muito do que orgulhar-se e, de certa forma, suas realizações são
movidas por seus próprios egos. Mas nunca vi um homem como Nicolae."
"Ele tem personalidade marcante", admitiu Buck.
"Isso é o mıń imo que se pode falar dele", insistiu o Dr. Rosenzweig. "Pense um pouco,
Cameron. Ele não procurou essas posições. Começou em cargo de baixo escalão no governo da
Romênia e tornou-se presidente daquele paıś quando não havia sequer uma eleição programada.
E passou incólume por isso!"
Aposto que sim, pensou Buck.
"E quando foi convidado a falar na Organização das Nações Unidas pouco menos de um
mês atrás, sentiu-se temeroso e tão despreparado que quase recusou. Mas vocêesteve lá! Ouviu
o discurso. Eu o teria nomeado primeiro-ministro de Israel se soubesse que ele aceitaria o cargo.
Logo em seguida, o secretário-geral afastou-se do cargo e insistiu para que Nicolae o
substituıś se. E ele foi eleito por unanimidade, entusiasticamente, e contou com o apoio dos
chefes de estado de quase todos os países.”
"Cameron, ele tem uma idéia atrás da outra! EƵ um diplomata por excelência. Fala tantos
idiomas que raramente necessita de intérpretes, mesmo quando conversa com lıd́ eres polıt́ icos
de algumas das distantes tribos da América do Sul e AƵfrica! Outro dia ele pronunciou algumas
frases compreensíveis apenas por um aborígine da Austrália!"
"Permita-me interrompê-lo por alguns instantes, Chaim", disse Buck. "Evidentemente,
você sabe que em troca de ter-se afastado do cargo de secretário-geral da ONU, Mwangati
Ngumo recebeu a promessa de que teria acesso à sua fórmula para ser usada em Botsuana. Essa
não foi uma atitude tão altruísta como pareceu, e..."
"EƵ claro. Nicolae me contou. Mas isso não fez parte de nenhum acordo. Foi um gesto de
sua gratidão pessoal pelo que o presidente Ngumo fez pela Organização das Nações Unidas ao
longo dos anos”.
"Mas como ele pode demonstrar gratidão pessoal cedendo a fórmula que pertence ao
senhor! Ninguém mais teve acesso a ela, e..."
"Eu fiquei muito feliz por oferecê-la."
"Ficou?" A mente de Buck girava rapidamente. Haveria limites para o poder persuasivo de
Carpathia?
O velho homem descruzou as pernas e inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na
mesa. "Cameron, todas as peças se encaixam. Este é um dos motivos de sua presença aqui. O
acordo com o ex-secretário-geral foi uma experiência, um exemplo."
"Estou ouvindo, doutor."
"Ainda é muito cedo para dizer, é claro, mas se a fórmula funcionar tão bem quanto
funcionou em Israel, Botsuana imediatamente se transformará em um dos paıś es mais férteis da
AƵfrica, talvez do mundo. O presidente Ngumo já viu seu prestıǵ io crescer dentro de seu paıś .
Todos concordam que ele foi afastado de suas funções na ONU e que o mundo melhorou após a
posse do novo líder."
Buck deu de ombros, mas aparentemente Rosenzweig não percebeu. "E então Carpathia
planeja fazer isso mais vezes, ceder sua fórmula por conveniência?"
"Não, não! Vocênão está entendendo. Sim, eu convenci o governo de Israel a ceder o uso
da fórmula ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas."
"Ora, Chaim! Para quê? Para conseguir os bilhões de dólares que Israel não mais necessita?
Não faz sentido! A fórmula transformou vocês em uma das nações mais ricas do mundo em
razão de sua magnitude e solucionou inúmeros problemas, mas só deu certo em razão da
exclusividade! Por que você acha que os russos atacaram seu paıś ? Eles não precisam de suas
terras! Lá não há petróleo a ser explorado! Eles queriam a fórmula! Imagine se todos os recantos
daquela imensa nação fossem férteis!"
O Dr. Rosenzweig ergueu a mão. "Entendo, Cameron. Mas o dinheiro não tem nada a ver
com isso. Não necessito de dinheiro. Israel não necessita de dinheiro."
"Então, o que Carpathia podia oferecer que valesse a pena comercializar?"
"Você sabe quais têm sido as orações de Israel desde o inıć io de sua existência, Cameron?
Não estou falando de seu renascimento em 1948. Desde o inıć io dos tempos como o povo
escolhido de Deus, pelo que temos orado?"
O sangue de Buck gelou nas veias, e ele não conseguia sair do lugar, apesar de não
concordar com isso. Rosenzweig respondeu a sua pergunta. "Shalom”. Paz. “Ore pela paz de
Israel”. Somos um paıś frágil, vulnerável. Sabemos que o Deus Todo-Poderoso nos protegeu de
maneira sobrenatural do ataque violento dos russos. Você sabia que houve tantas mortes em
suas tropas que os corpos precisaram ser enterrados em uma vala comum, uma cratera aberta
em nosso solo precioso por uma de suas bombas, e que Deus não permitiu que nada nos
acontecesse? Tivemos de enterrar alguns corpos e ossos dos russos. E os escombros de suas
armas de destruição eram tão volumosos que foram utilizados por nós como matéria prima e
transformados em mercadorias negociáveis. Cameron," complementou ele em tom de voz
agourento, "grande parte dos aviões deles espatifou-se — bem, todos, é claro. Esses aviões ainda
tinham tanto combustıv́ el que, de acordo com nossos cálculos, poderemos utilizá-lo por mais
cinco a oito anos. Agora você entende por que a paz é tão importante para nós?"
"Chaim, você mesmo disse que o Deus Todo-Poderoso protegeu seu povo. Não poderia
haver outra explicação para o que aconteceu na noite daquela invasão. Com Deus ao lado, por
que vocês precisam permutar proteção com Carpathia?"
"Cameron, Cameron", respondeu Rosenzweig melancolicamente, "a história tem provado
que Deus é caprichoso quando se trata de nosso bem-estar. Desde a época em que os ϐilhos de
Israel vaguearam quarenta anos pelo deserto até a Guerra dos Seis Dias e até a recente invasão
russa, não conseguimos compreendê-lo. Ele nos favorece quando a situação convém ao seu
plano eterno, o que não conseguimos compreender. Oramos, buscamos a presença de Deus,
tentamos agradá-lo. Mas, ao mesmo tempo, acreditamos que ele ajuda aqueles que se ajudam.
E você sabe, é claro, que é esse o motivo de você estar aqui."
"Não sei de nada", disse Buck.
"Bem, este é em parte o motivo de sua presença aqui. Você compreende que tal acordo
precisa ser muito bem elaborado..."
"De que acordo estamos falando?"
"Lamento, Cameron, pensei que você estivesse acompanhando meu raciocıń io. Não pense
que foi fácil para mim, apesar do prestıǵ io que gozo em meu paıś , convencer as autoridades a
concederem licença para a fórmula, mesmo para um homem tão sedutor quanto Nicolae."
"Claro que não."
"E vocêtem razão. Algumas reuniões atravessaram a noite, e cada vez que eu imaginava
ter convencido alguém, surgia outro. Precisei convencer um a um. Muitas vezes desanimei e
quase desisti. Mas ϐinalmente, ϐinalmente, após muitas condições, fui autorizado a fazer um
acordo com a Organização das Nações Unidas."
"Com Carpathia, você quer dizer.”
"Claro. Foi o que eu disse. Ele agora é a Organização das Nações Unidas."
"Você disse bem."
"Parte do acordo diz que passo a ser membro de seu grupo principal de colaboradores, um
conselheiro. Vou assessorar o comitê que decide onde a fórmula será licenciada."
"Não haverá dinheiro mudando de mãos?"
"Nenhum."
"E Israel receberá proteção da Organização das Nações Unidas contra seus paıś es
vizinhos?"
"Oh, o assunto é muito mais complexo, Cameron. Veja, agora a fórmula está ligada à
polıt́ ica de desarmamento global de Nicolae. Qualquer nação suspeita de resistir à destruição de
90 por cento de seu armamento ou suspeita de não entregar os 10 por cento restantes a Nicolae
—ou melhor, à ONU—jamais receberá permissão sequer para ser considerada candidata à
licença de uso. Nicolae garantiu que ele — e estarei presente para me certiϐicar disso — será
muito criterioso ao conceder autorizações para nossos vizinhos mais próximos e inimigos em
potencial."
"Deve haver mais do que isso."
"Oh, sim, mas o ponto crucial é este, Cameron. Assim que o mundo estiver desarmado,
Israel não terá de se preocupar em proteger suas fronteiras."
"Isso é ingênuo."
"Não tão ingênuo quanto possa parecer, porque de uma coisa eu tenho certeza—Nicolae
não é nem um pouco ingênuo. Prevendo que algumas nações possam ajuntar, esconder ou
produzir novos armamentos, o acordo entre o estado soberano de Israel e o Conselho de
Segurança da Organização das Nações Unidas — com o aval de Nicolae Carpathia — faz uma
promessa solene. Qualquer nação que ameaçar Israel será extinta imediatamente, usando-se
para isso o armamento acumulado pela ONU. Cada paıś doando 10 por cento, você poderá
imaginar o potencial de fogo."
"O que não posso imaginar, Chaim, é o fato de um reconhecido paciϐista, um convicto
proponente do desarmamento global durante toda a sua carreira polıt́ ica, ameaçar extinguir
países da face da terra."
"Isso é apenas de uma questão de semântica, Cameron", disse Rosenzweig. "Nicolae é um
homem pragmático. Evidentemente, ele possui uma boa dose de idealismo, mas sabe que a
melhor maneira de manter a paz é ter os recursos para implementá-la."
"E esse acordo durará por...?"
"Pelo tempo que desejarmos. Propusemos dez anos, mas Nicolae disse que não precisará
da licença de uso da fórmula por tanto tempo. Disse que pedirá apenas sete anos, e depois todos
os direitos da fórmula retornarão para nós. Quanta generosidade! E se quisermos renovar o
acordo a cada sete anos, teremos liberdade para isso."
Você não vai precisar de nenhum tratado de paz daqui a sete anos, pensou Buck. "E então,
o que isso tem a ver comigo?" perguntou.
"Esta é a melhor parte", disse Rosenzweig. "Pelo menos para mim, porque lhe favorece.
Não é segredo que Nicolae está ciente de sua posição como o jornalista mais talentoso do
mundo. E para provar que não guarda nenhum rancor por vocêter desdenhado seu convite, ele
lhe pedirá que vá a Israel para a assinatura do tratado."
Buck balançou a cabeça.
"Sei que isso é demais para você", disse Rosenzweig.
A aeronave de Rayford pousou no solo de O'Hare à uma hora da tarde, horário de Chicago.
Ele telefonou para casa e a secretária eletrônica estava ligada. "Oi, Chloe", ele disse, "voltei
antes do que imaginei. Só queria que você soubesse que estarei em casa dentro de uma hora e..."
Chloe pegou o telefone. Ela parecia mal-humorada. "Oi, papai", resmungou.
"Você está indisposta?"
"Não. Apenas aborrecida. Papai, você sabia que Buck Williams está morando com uma
moça?"
"O quê!?"
"EƵ verdade. E estão comprometidos! Eu a vi. Ela estava levando caixas para seu
apartamento. Uma moça magrinha, de cabelos espetados e saia curta."
"Talvez você tenha errado o número do apartamento."
"O número estava certo.”
"Você está tirando conclusões precipitadas."
"Papai, ouça-me. Fiquei tão furiosa que rodei uma volta de carro, depois sentei-me em um
estacionamento e chorei. Por volta do meio-dia, resolvi visitá-lo no escritório do Semanário
Global, e ela estava lá, descendo do carro. Eu perguntei 'Você trabalha aqui?' e ela respondeu
'Sim, posso ajudá-la?' Então eu disse 'Acho que a vi hoje cedo', e ela disse 'Talvez. Estive com
meu noivo. Há alguém aqui que você deseja ver?' Virei as costas e fui embora, papai."
"E depois você falou com Buck?"
"Você está brincando? Talvez nunca mais fale com ele. Espere um minuto. Alguém está
batendo na porta."
Instantes depois, Chloe voltou a falar com o pai. "Não posso acreditar. Se ele acha que isso
fará alguma diferença..."
"O quê?"
"Flores! E, é claro, vindas de um anônimo. Ele deve ter-me visto no carro por ali e
percebeu como me senti. Se você quiser estas ϐlores, vai encontrá-las na lata do lixo quando
chegar."
Poucos minutos depois das duas horas da tarde em Nova York, Buck e Chaim Rosenzweig
aguardavam na suntuosa sala de espera do secretário-geral da Organização das Nações Unidas.
Chaim discorria alegremente sobre um assunto qualquer, e Buck ϐingia prestar atenção. Ele
orava silenciosamente, sem saber se o mau pressentimento que sentia era psicológico por saber
que Nicolae Carpathia estava por perto ou se aquele homem realmente emitia alguma espécie
de aura demonıá ca, perceptıv́ el aos seguidores de Cristo. Buck sentia-se fortalecido por saber
que Bruce estava orando por ele naquele momento e reϐletia sobre o fato de não ter avisado
Rayford e Chloe a respeito de sua viagem. Sua passagem de volta estava marcada para as cinco
horas da tarde, portanto ele chegaria a tempo de assistir à primeira parte dos estudos das oito
horas que Bruce planejara, os quais Buck aguardava com ansiedade. Antes do inıć io dos estudos,
poderia convidar Chloe para um jantar a dois, depois de encerradas as atividades na igreja.
"Então, o que você acha disso?" perguntou o Dr. Rosenzweig.
"Desculpe-me, doutor", respondeu Buck. "Minha mente estava em outro lugar."
"Não há motivos para nervosismo, Cameron. Nicolae ϐicou aborrecido, sim, mas ele só
reservou coisas boas para você."
Buck deu de ombros e assentiu com a cabeça.
"Eu estava dizendo que meu caro amigo, o rabino Tsion Ben-Judá, concluiu seu estudo de
três anos e não me surpreenderei se ele ganhar o Prêmio Nobel.”
"Por seu estudo de três anos?"
"Você não estava prestando atenção, não é mesmo, meu amigo?"
"Desculpe-me."
"Você deverá ser mais atento quando falar com Nicolae, prometa-me."
"Prometo. Perdoe-me."
"Tudo bem. Mas ouça, o rabino Ben-Judá foi designado pelo Instituto Hebraico de
Pesquisas Bíblicas para fazer um estudo de três anos."
"Estudo sobre o quê?"
"Algo relacionado com as profecias a respeito do Messias para que nós, os judeus, o
reconheçamos quando ele vier."
Buck estava perplexo. O Messias já viera, e os judeus que foram deixados para trás não o
identiϐicaram. Quando ele veio pela primeira vez, a maioria não o reconheceu. O que Buck
deveria dizer a seu amigo? Se ele se declarasse um "santo da Tribulação", como Bruce gostava
de se referir aos novos crentes após o Arrebatamento, quais seriam as conseqüências em relação
a si mesmo? Rosenzweig era conϐidente de Carpathia. Buck gostaria de dizer que um estudo
autêntico das profecias messiânicas só poderia conduzir a Jesus. Porém, disse apenas: "Quais são
as principais profecias que apontam para o Messias?"
"Para lhe dizer a verdade", disse o Dr. Rosenzweig, "não sei. Só passei a ser um judeu
praticante depois que Deus destruiu a Força Aérea Russa, e não posso aϐirmar se agora sou um
devoto. Sempre considerei as profecias messiânicas da mesma forma que considero o restante
do Torá. Simbólicas. O rabino do templo que eu freqüentava de vez em quando em Tel-Aviv
dizia que não era importante saber se Deus era um ser literal ou apenas um conceito. Isso
condiz com meu ponto de vista humanıśtico do mundo. Os religiosos, judeus ou não, raramente
me impressionaram mais do que um ateu de bom coração.”
"O Dr. Ben-Judá foi meu aluno vinte e cinco anos atrás. Ele sempre foi um judeu destemido,
um ortodoxo sem idéias fundamentalistas. Tornou-se rabino, mas não em razão do que lhe
ensinei, disso tenho certeza. Sempre gostei dele. Recentemente ele me contou que terminou o
estudo, mencionando que foi a coisa mais satisfatória e gratiϐicante que já fez." Rosenzweig fez
uma pausa. "Imagino que você está curioso para saber por que estou lhe contando isto."
"Francamente, sim."
"Estou trabalhando por trás dos bastidores para que o rabino Ben-Judá seja incluıd́ o no
grupo de assessores de Carpathia."
"Como o quê?"
"Como conselheiro espiritual." "Ele está procurando um?"
"Nem ele sabe disso!" Rosenzweig soltou uma gargalhada e deu uma palmada no joelho.
"Mas até agora ele tem conϐiado em meu julgamento. EƵ por isso que você está aqui." Buck
ergueu uma sobrancelha. "Imaginei que fosse porque Carpathia pensa que sou o melhor
jornalista do mundo." O Dr. Rosenzweig inclinou-se para frente e sussurrou em tom de
conspiração: "E por que você acha que ele acredita nisso?"
Rayford teve diϐiculdade em localizar Chloe pelo telefone do carro, mas ϐinalmente
conseguiu. "Queria saber se você está disposta a jantar fora com seu velho pai", ele sugeriu,
imaginando que a filha precisava divertir-se um pouco.
"Não sei", ela disse. "Obrigada pelo convite, papai, mas você não acha que devemos ir à
reunião das oito horas de Bruce?"
"Eu gostaria muito."
"EƵ melhor jantarmos em casa. Eu estou bem. Acabei de falar com Bruce por telefone.
Queria saber se Buck vai chegar hoje à noite."
"E?"
"Ele não tem certeza. Espera que sim. Eu espero que não."
"Chloe!"
"Estou com medo do que vou dizer, papai. Não é de admirar que ele tenha sido tão frio
comigo por causa daquela, daquela, sei lá o que ela é dele. Mas as flores! Com que finalidade?"
"Você nem sabe se foi ele quem mandou."
"Ora, papai! Se não foram enviadas por você, foram enviadas por Buck."
Rayford riu. "Por que não tive essa idéia?"
"Eu teria preferido."
Hattie Durham aproximou-se de Buck e Chaim Rosenzweig, e ambos levantaram-se. "Sr.
Williams!" ela disse, abraçando-o. "Não o vejo desde que comecei a trabalhar aqui."
Sim, você me viu, pensou Buck. Apenas não se lembra.
"O secretário-geral e o Sr. Plank vão atendê-lo agora", ela disse a Buck e virou-se para o
Dr. Rosenzweig. "Doutor, o secretário-geral pede que o senhor esteja preparado para participar
da reunião daqui a vinte e cinco minutos."
"Pois não", disse o Dr. Rosenzweig. Piscando para Buck, ele deu um leve aperto em seu
ombro.
Buck acompanhou Hattie, passando por várias mesas e um corredor em declive revestido
de mogno. Percebeu que nunca a vira sem uniforme. Nesse dia, ela trajava um elegante
conjunto que lhe dava a aparência de mulher ϐina, rica e soϐisticada, realçando sua
extraordinária beleza. Até sua linguagem parecia mais erudita. Aparentemente, a companhia de
Carpathia ajudou a melhorar sua presença.
Hattie deu uma leve batida na porta da sala, entreabriu-a e enϐiou a cabeça pela fresta.
"Sr. Secretário-Geral e Sr. Plank", anunciou, "Cameron Williams do Semanário Global.
Escancarou a porta e saiu discretamente, enquanto Nicolae Carpathia adiantava-se para
cumprimentar Buck com as duas mãos. Buck pareceu estranhamente calmo diante do sorriso
daquele homem. "Buck!" ele disse. Posso chamá-lo assim?"
"O senhor sempre me chamou de Buck."
"Vamos! Vamos! Sente-se! Você e Steve já se conhecem, é claro."
Buck impressionou-se mais com a aparência de Steve do que com a de Carpathia. Nicolae
sempre se vestiu formalmente, combinando muito bem os acessórios, paletó abotoado, tudo no
lugar. Mas Steve, apesar de sua posição de editor-executivo de uma das revistas mais famosas
do mundo, nem sempre se vestiu da maneira adequada a um jornalista. Sempre usou os
obrigatórios suspensórios surrados e camisas de mangas compridas, é claro, mas geralmente
com o laço da gravata afrouxado e as mangas da camisa enroladas, parecendo um hippie de
meia-idade ou um aluno das escolas da Ivy League.
Nesse dia, contudo, Steve parecia um clone de Carpathia. Segurava uma pasta ϐina de
couro preto e, no todo, parecia ter saıd́ o da capa da edição 500 da revista Fortune. Até mesmo
seu cabelo tinha um leve estilo europeu — cortado a navalha e muito bem penteado e
engomado, escova e secador. Usava óculos de armação moderna, terno escuro quase preto,
camisa branca com as pontas da gola presas por um pino e gravata que provavelmente custou
mais do que ele costumava pagar por um paletó esporte. Os sapatos eram de couro macio,
talvez italianos, e se Buck não estava enganado, havia um novo anel de brilhante na mão direita
de Steve.
Carpathia pegou uma das cadeiras da mesa de reunião, colocou-a ao lado das duas que
estavam diante de sua mesa e sentou-se perto de Buck e de Steve. Extraído de um manual do
bom administrador, pensou Buck. Derrube a barreira entre o superior e o subordinado.
Não obstante, apesar dessa tentativa, ϐicou claro que a reunião tinha a ϐinalidade de
impressionar Buck. E impressionou. Hattie e Steve já haviam mudado o suϐiciente para se
tornarem praticamente irreconhecıv́ eis. Ao olhar para as feições ϐirmes, ossudas e penetrantes
de Carpathia, sorriso aparentemente sincero e apaziguador, Buck desejou de todo o coração que
aquele homem fosse o que aparentava ser e não o que era realmente.
Em nenhum momento Buck se esqueceu ou perdeu de vista o fato de que estava na
presença da personalidade mais sagaz, mais matreira da história. Ele só queria conhecer alguém
tão sedutor quanto Carpathia, mas que fosse autêntico.
Buck sentia pena de Steve, porém não foi consultado antes de ele sair do Semanário Global
para trabalhar com Carpathia. Agora, por mais que Buck desejasse falar ao amigo sobre sua
nova fé, não podia conϐiar em ninguém. A menos que Carpathia tivesse poderes sobrenaturais
para conhecer todas as coisas, Buck esperava e orava para que aquele homem não percebesse
que ele era um agente inimigo dentro de seu território. "Vou começar com uma expressão
idiomática engraçada", disse Carpathia, "e depois pediremos que Steve saia da sala para termos
uma conversa franca, só entre você e mim, que tal?"
Buck assentiu.
"Há uma expressão que só ouvi dizer depois de ter chegado a este paıś : 'o elefante na sala'.
Você já ouviu esta expressão, Buck?"
"O senhor se refere a pessoas que se encontram e evitam falar do assunto do momento,
como, por exemplo, o fato de uma delas ter acabado de saber que está com uma doença
terminal?"
"Exatamente. Então, vamos começar falando do elefante na sala e encerrar este assunto.
Depois poderemos discutir outras questões. Tudo bem?"
Buck assentiu novamente, sentindo sua pulsação acelerar.
"Confesso que ϐiquei confuso e um pouco magoado por vocênão ter comparecido à reunião
de posse dos novos embaixadores. No entanto, da maneira como tudo terminou, o episódio teria
sido tão traumático para você quanto foi para todos nós que lá estávamos."
Buck não queria de maneira nenhuma ser sarcástico naquele momento. Também não
queria e não ia desculpar-se. Como poderia dizer que lamentava o fato de não ter comparecido
a uma reunião em que esteve?
"Gostaria de ter comparecido e não queria perder a reunião de jeito nenhum", disse Buck.
Carpathia o ϐitava com olhar penetrante, e permaneceu em silêncio como se estivesse
aguardando o restante da história. "Francamente", prosseguiu Buck, "aquele dia foi nebuloso
para mim e quase não me lembro de nada." Nebuloso com detalhes tão vividos que ele jamais
esqueceria.
Carpathia pareceu descontrair-se. Abandonou sua postura formal, inclinou-se para frente,
com os cotovelos apoiados nos joelhos, e desviou o olhar de Buck para Steve e depois para Buck
novamente, demonstrando irritação. "Tudo bem", disse, "aparentemente não há nenhuma
desculpa, nenhuma explicação."
Buck olhou de relance para Steve, que parecia estar tentando se comunicar com os olhos e
fazer um sinal com a cabeça, como se estivesse dizendo: Fale alguma coisa, Buck! Peça
desculpas! Explique-se!
"O que posso dizer? Aquele foi um dia horrıv́ el para mim", disse Buck. Esta breve
explicação foi a que mais se aproximou do que os dois interlocutores queriam ouvir. Buck sabia
que Steve era inocente. Steve acreditava piamente que Buck não esteve na reunião. Carpathia,
evidentemente, tinha planejado e coreografado a charada toda. Agia com perfeição ao mostrarse
aborrecido por não ter recebido uma desculpa ou uma explicação, pensou Buck. Carpathia
estava claramente tentando captar alguma evidência de que Buck sabia o que acontecera. Tudo
o que Buck podia fazer era ϐingir-se de bobo, ser evasivo e orar para que Deus impedisse que
Carpathia enxergasse a verdade, ou seja, que Buck era um homem crente e que estava
protegido do poder de Carpathia.
"Tudo bem", disse Carpathia, endireitando-se na cadeira e se recompondo. "O dia foi
horrível para todos nós. Lamento a perda de dois compatriotas, um deles amigo de muitos anos."
Buck sentiu o estômago revirar. "Agora quero conversar com Buck, o jornalista, e pediremos ao
amigo Steve que tenha a bondade de retirar-se."
Steve levantou-se e bateu de leve no ombro de Buck, saindo da sala em silêncio. Buck
compreendeu dolorosamente que a partir daquele momento só ele e Deus estariam sentados
lado a lado com Carpathia.
Mas o "lado a lado" não durou muito. De repente, Nicolae levantou-se e dirigiu-se para a
cadeira de espaldar alto atrás de sua mesa. Pouco antes de sentar-se, apertou o botão do
interfone. Buck ouviu a porta abrir atrás de si.
"Com licença", sussurrou Hattie Durham, pegando a terceira cadeira que estava diante da
mesa e colocando-a de volta no lugar. Antes de sair, ajeitou a cadeira que Steve usara. Sem
nenhum ruıd́ o, saiu discretamente da sala. Buck achou aquilo muito estranho. A reunião toda
parecia ter sido cuidadosamente planejada, desde o anúncio formal de sua presença até a
encenação de quem participaria e onde se sentaria. Agora que a sala voltara a ser o que era
antes de Buck entrar, e com Carpathia protegido atrás de sua imensa mesa, toda a simulação de
igualdade de poder havia desaparecido.
Não obstante, Carpathia ainda mantinha todo o seu poder de sedução. Cruzou as mãos e
ϐitou Buck, sorrindo. "Cameron Williams", ele disse vagarosamente. "Qual é a sensação de ser o
jornalista mais famoso da época?"
Que tipo de pergunta era aquela? Exatamente por não fazer perguntas é que Buck era um
jornalista respeitado. "Neste momento sou apenas um reles jornalista rebaixado de cargo", ele
disse.
"E despretensioso", disse Carpathia, com um sorriso. "Em poucos instantes vou lhe mostrar
que, apesar de seu prestıǵ io ter caıd́ o no Semanário Global, não caiu perante o restante do
mundo nem perante mim, com certeza. Eu deveria estar mais aborrecido do que seu editor pelo
fato de você não ter comparecido à reunião, mas, mesmo assim, ele se irritou. Vamos deixar
tudo para trás e prosseguir. Um erro não anula uma vida inteira de sucessos."
Carpathia fez uma pausa como se esperasse que Buck reagisse. Buck estava preferindo
cada vez mais permanecer em silêncio. Parecia ser a maneira certa de lidar com Carpathia, e
certamente foi a maneira pela qual Deus o guiara na fatıd́ ica reunião quando Carpathia
perguntou a cada um o que tinha visto. Buck acreditava que o silêncio salvou sua vida.
"A propósito", prosseguiu Carpathia quando ϐicou claro que Buck não tinha nada a dizer,
"você trouxe sua reportagem de capa sobre as teorias por trás dos desaparecimentos?"
Buck não conseguiu esconder sua surpresa. "Para ser franco, sim."
Carpathia deu de ombros. "Steve me falou sobre a reportagem. Adoraria vê-la."
"Receio não poder mostrá-la a ninguém antes de entregar a matéria ϐinal ao Semanário
Global."
"Com certeza eles já viram o rascunho."
"Claro."
"Steve disse que você gostaria de incluir uma ou duas citações minhas."
"Francamente, a menos que o senhor tenha alguma novidade, acho que suas opiniões já
foram tão amplamente divulgadas que não despertariam mais interesse em nossos leitores."
Carpathia pareceu magoado.
"Quero dizer", prosseguiu Buck, "o senhor ainda se apega à idéia de uma reação nuclear
acompanhada de forças naturais, certo? Aquele relâmpago deve ter acionado uma espécie de
interação espontânea entre todo o estoque de armas nucleares, e..."
"Você sabe que seu amigo, o Dr. Rosenzweig, também aceita esta teoria."
"Entendo que sim, senhor."
"Mas não será mencionada em seu artigo?"
"Claro que sim. Achei que estávamos discutindo se eu precisava de uma nova citação sua.
A não ser que seu ponto de vista tenha mudado, eu não preciso."
Carpathia olhou para seu relógio. "Como vocêsabe, tenho uma agenda lotada. Correu tudo
bem com sua viagem? Foi bem tratado? Almoço bom? O Dr. Rosenzweig adiantou-lhe parte do
assunto?"
Buck assentiu após cada pergunta.
"Presumindo que ele lhe tenha falado a respeito do tratado da ONU com Israel e que a
assinatura será daqui a uma semana em Jerusalém, gostaria de fazer-lhe um convite pessoal
para estar lá."
"Duvido que o Semanário enviaria um simples articulista da sucursal de Chicago para um
evento internacional de tal magnitude."
"Não estou convidando vocêpara fazer parte do grupo de milhares de jornalistas do mundo
inteiro que solicitarão credenciais assim que a notıć ia for divulgada. Meu convite é para que
vocêfaça parte de minha delegação, sente-se à mesa comigo. Será um privilégio que nenhuma
outra pessoa dos meios de comunicação do mundo inteiro terá."
"A polıt́ ica do Semanário Global diz que seus jornalistas não podem aceitar favores que
venham..."
"Buck, Buck", disse Carpathia. "Lamento cortá-lo, mas ϐicarei muito surpreso se você
continuar a ser funcionário do Semanário Global daqui a uma semana. Muito surpreso."
Buck levantou as sobrancelhas e olhou para Carpathia com ceticismo. "O senhor tem
conhecimento de algo que não sei?" Assim que proferiu essas palavras Buck se deu conta de que
havia perguntado involuntariamente o motivo principal daquela reunião.
Carpathia riu. "Não sei de nenhum plano do Semanário para despedi-lo. Acho que o castigo
para seu malfadado novo cargo já foi o suϐiciente. E, apesar de vocêter recusado minha oferta
de emprego anterior, creio que tenho uma oportunidade a lhe oferecer que mudará sua cabeça."
Não conte com isso, pensou Buck, e disse: "Estou ouvindo."

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