HOMEM - FORMIGA : INIMIGO NATURAL .
“O mundo bajula o elefante e pisa em cima da formiga.”
Provérbio hindu
WILLIE DUGAN rastejava por um túnel escuro – enquanto fugia da Prisão Estadual
Attica no norte do estado de Nova York, onde ficara enfiado por nove anos –
quando Keith, um dos caras que fugia com ele, disse:
– Tô preso, velho.
– Quê?
Willie tinha ouvido muito bem – só não quis acreditar.
– Eu falei que tô preso – disse Keith. – Não consigo me mexer.
– Tenta, cara – disse Willie.
– Eu tô tentando, brother. Não consigo. Não dá, não dá.
Willie tentou empurrá-lo para frente, mas o túnel era tão apertado que ele
não conseguiu fazer muita força. Só podia ter acontecido alguma coisa no teto;
devia ter afundado. Keith era grandalhão – talvez mais de um e oitenta de
altura, uns cem quilos –, mas não era gordo. Deveria passar facilmente pelo túnel.
– Você tem que continuar – disse Willie. – Cava o chão, abra mais espaço.
– Tô tentando, brother. Mas o chão parece feito de aço aqui.
– Tenta mais.
Willie contou até dez mentalmente, tentando não entrar em pânico nem
pensar nas piores possibilidades. E então ele disse:
– Tá certo, tenta de novo.
– Ainda não consigo, Willie. – Keith parecia prestes a chorar. – Desculpa,
brother, desculpa.
– Só cala essa boca e tenta – Willie retrucou.
– Não dá. Não dá, velho, não dá.
– Tenta, cacete. – Willie juntou todas as suas forças para empurrar. – Anda,
vai, cava! – era o que ele dizia, mas Keith não desentalava.
Agora as piores possibilidades começavam a se insinuar para Willie. Não
havia muito ar no túnel, principalmente com Keith sorvendo-o aos montes, então
havia a chance de Willie morrer sufocado. Ou pior: e se o encontrassem vivo ali e
o arrastassem de volta para a prisão? Ele ia parar na solitária por ter organizado
a fuga, e nunca mais teria chance de sair.
Aquele era o momento, sua única chance – era tudo ou nada. Se ele não
escapasse naquela noite, seria o fim da linha; ele morreria de velhice na prisão, a
não ser que arranjasse um modo de se matar.
É, se o trouxessem de volta, o suicídio seria definitivamente a única saída.
Willie tentou empurrar Keith de novo. Foi quando sentiu algo atingir sua
cabeça – um pedaço do teto do túnel.
Keith disse as palavras que bem poderiam ser os próprios pensamentos de
Willie:
– Tá cedendo, tá cedendo!
Seria assim que Willie ia morrer? Seria essa a última piada de Deus? Se o
mandassem escolher entre ser enterrado vivo e voltar para a cadeia, Willie teria
escolhido a primeira. Mas não planejava ter que escolher entre alguma dessas
opções.
Não havia gasto nove anos nesse túnel – todo o planejamento, todo o
trabalho – para terminar daquele jeito. Ele usou toda sua força para empurrar
Keith para frente.
– Vai! Mais rápido! – gritou ele.
O túnel desmoronava; devia ter mais de dois centímetros de terra em cima da
cabeça dele. Willie não fazia ideia de quanto faltava rastejar para que saíssem
dali. Se estivessem a um minuto da saída, talvez tivessem chance. Talvez. O túnel
estava desmoronando tão rápido que dava para ouvir, como o começo de uma
avalanche. E então veio o baque, atrás dele, onde Keith estivera entalado
momentos antes. Seriam enterrados se ficassem ali, mas Willie não estava
pensando nisso. Ele só pensava em ir para frente, em sair da escuridão.
– Mais rápido! – ele gritou novamente. – Anda!
Ouviram mais um baque atrás deles. Todo o túnel começou a desabar. Era
terra para todo lado – por cima de todo seu corpo, dentro de sua boca, nos seus
olhos. E então ele sentiu o solo abaixo de si começar a inclinar para cima.
Ele continuou cavando. Se ainda podia cavar, isso significava que ainda estava
vivo.
E então, enquanto o túnel desabava, ele sentiu algo diferente – grama,
grama de verdade. O buraco tinha pouco mais de um metro de extensão, uma
versão maior de um buraco de marmota. Suas mãos escorregaram no orvalho
algumas vezes, mas ele finalmente conseguiu içar-se para cima, saindo do túnel.
Ignorando a ardência nos olhos, viu uma luz: vinha de um poste de iluminação a
uns cinquenta metros dali. Não parou para pensar no quão perto estivera da
morte. Embora seu corpo estivesse duro feito pedra e ele mal enxergasse o que
havia na frente, sabia que não podia perder tempo. Viu Keith e os outros três
caras se dispersando à frente, e tomou a rota pré-planejada: correu pela estrada
por cerca de quatrocentos metros, depois pegou a esquerda numa rua estreita e a
direita dois quarteirões depois. Finalmente parou numa esquina e ficou
esperando.
Dois minutos depois, viu os faróis de um carro que se aproximava, bem na
hora combinada. Após o quase desastre no túnel, estava tudo dando certo. Tinha
bastante dinheiro guardado – dinheiro com o qual poderia se manter pelo resto da
vida. Faltavam umas cinco horas para a hora de acordar, quando os guardas
descobririam sobre a fuga. Tempo suficiente para ir ao Canadá, usar um
passaporte canadense falso e voar até Belize, depois para o Kuwait, e então
àquela ilha no sul do Pacífico.
Ele poderia fazer tudo isso, mas não faria. Tinha gasto energia demais ao
longo dos nove anos em que sonhara com esse dia. A liberdade era incrível, mas
havia uma coisa que acertaria tudo, que o faria verdadeiramente feliz.
Sim, era hora da vingança.
ANTHONY HAWKINS, vinte e dois anos, usando um gorro preto com abertura para os
olhos, entrou no bar na 3
a
avenida com a rua 128, sacou a arma – uma Glock
nove-milímetros, a mesma que usara em todo seu festival de assaltos pela cidade
de Nova York –, apontou para o senhor de idade atrás do balcão e disse:
– Passa tudo aí.
– Deixa disso, garoto – disse o cara, sotaque espanhol, fala arrastada. – Você
não vai ficar rico me roubando.
Anthony reparou na câmera, apontada direto para ele no canto perto da
porta. Atirou uma vez, errou. Atirou de novo, dessa vez acertou, estilhaçando a
câmera.
Uma mulher nos fundos – ele não sabia que tinha mais gente na loja – gritou.
Anthony, nervoso, berrou em direção ao corredor:
– Ei, você, sai daí agora!
A senhora oriental, assustada, chorando, foi até a frente da loja com os
braços erguidos. Então Anthony viu o velho pegar alguma coisa atrás do balcão –
uma arma, talvez.
Anthony apontou a Glock para ele e gritou:
– O caixa! Faz a limpa agora mesmo, ou mato vocês dois, eu juro!
E então ele ouviu:
– Larga a arma, Anthony!
A voz era alta e clara, mas de onde tinha vindo? Ainda apontando a arma
para o senhor atrás do balcão, Anthony virou o olhar para a porta. Esperava ver
um policial, mas não havia ninguém ali.
– Quem disse isso? – ele berrou. Depois voltou-se para o velho. – Tem mais
alguém na loja?
– Não, eu juro – respondeu o idoso.
– Tá, mas tem alguém falando comigo – disse Anthony. – E a pessoa sabe o
meu nome.
– Deixe-os em paz, Anthony – disse a voz. – Abaixe a arma, deixe o homem
chamar a polícia, e não vai se machucar. É sua melhor opção no momento. Na
verdade, sua única opção.
A voz pareceu mais próxima dessa vez, poucos metros distante, mas ainda
não havia ninguém por perto. Que diabos? Anthony estava assustado, sua arma
tremia.
– Que tá acontecendo? – ele perguntou. – Tem alguém aí? Tá escondido em
algum lugar?
– Vou pedir pela última vez. – A voz falou ainda mais perto. – Abaixe a arma,
e então vai poder voltar pra prisão e cumprir a pena que merece. Se você não
baixar a arma, vai voltar pra prisão mesmo assim, mas depois de passar umas
semanas no hospital.
Então assim que é ficar louco?, pensou Anthony. Estava escutando vozes. Que
diabos estava acontecendo, afinal? Seria trancado de novo – mas dessa vez não
seria em uma cadeia, mas num hospício.
– Cala a boca! – ele gritou, talvez para si mesmo.
O senhor e a senhora asiática fitavam Anthony como se ele fosse mesmo
O senhor e a senhora asiática fitavam Anthony como se ele fosse mesmo
louco.
– Estão olhando o quê? – Anthony perguntou.
Foi quando seu gorro saiu da cabeça, como se alguém o arrancasse, mas não
havia ninguém ali. Anthony, chocado e confuso, disse:
– Mas como…
Antes que pudesse completar o protesto, sentiu uma dor no rosto, como se
tivesse levado um soco repentino. E então tombou de costas na prateleira, e as
latas de comida caíram por cima dele e se espalharam pelo chão.
Acabou derrubando a arma. E quando tentou alcançá-la, ela escorregou para
longe de sua mão, indo parar perto da entrada da loja – como se alguém a tivesse
chutado. Mas não tinha ninguém ali.
Então não eram mais só as vozes. Agora as coisas estavam começando a se
mexer sozinhas, e ele havia imaginado que tinha levado aquele soco na cara? Mas
se foi apenas imaginação, como é que doeu daquele jeito? E, caramba, porque seu
nariz estava sangrando?
– Olha, eu te dei uma chance – disse a voz –, mas você preferiu fazer do jeito
mais difícil, então esse é o jeito mais difícil.
– Quem… quem disse isso? – Anthony perguntou com a voz trêmula. Então
sua cabeça voou para a direita, como se alguém acabasse de lhe atingir com um
disparo de arma de pressão à queima-roupa em sua bochecha esquerda.
– Ei, olha aqui – disse a voz. O som parecia vir de perto de sua barriga.
Anthony olhou para baixo, e alguma coisa acertou-lhe o queixo. Sua cabeça
tombou para cima das latas mais uma vez.
– Eu disse aqui – a voz repetiu, dessa vez a poucos centímetros de seu rosto.
E então alguma coisa acertou-lhe a testa, ele se sentiu tonto e toda a loja
começou a girar.
– Foi você quem pediu – disse a voz.
Anthony quis dizer que não tinha pedido nada, mas não conseguia mover os
lábios.
Toda vez que o rapaz tentava se levantar, alguma coisa o atingia e ele
tornava a cair. Foi quando ouviu as sirenes, cada vez mais altas.
– Eu adoraria ficar – disse a voz –, mas tenho outro encontro no centro.
Ao sair da loja, Scott Lang – da sua perspectiva de um homem de quatro
centímetros de altura – viu as viaturas da polícia parando no meio-fio. Enquanto
os policiais saíam às pressas, Scott disparou pela calçada, que, de sua mínima
perspectiva, era do tamanho de uma grande praça. E então ele saltou do meio-fio,
que foi como pular da janela do segundo andar. Pousou em pé e continuou,
passando por entre dois colossais carros estacionados.
Scott prometera a Hank Pym que não abusaria da tecnologia do HomemFormiga
– o que significava não usá-la por motivos triviais, como escapar do
trânsito. Mas uma vez ou outra, quando estava com pressa, por que não?
Quando um táxi se aproximou, Scott saltou no para-choque e segurou-se com
suas mãos e pés superfortes. Saltar de carro em carro como Homem-Formiga era
o jeito mais rápido de se chegar a qualquer lugar. Ele se agarrou ao teto do táxi,
que começou a virar à direita na rua 125; em seguida saltou para o para-brisa de
outro carro – uma picape branca. Deu de cara com o enorme rosto irritado do
motorista, que pensou que ele fosse um mero inseto que pousara à sua frente. Era
sempre muito perigoso para Scott permanecer tão perto do olhar de outra pessoa
por tanto tempo – a pessoa poderia notar que ele não era um inseto, mas sim uma
miniatura de homem metido num traje vermelho e cinza. Ouviu um chiado muito
alto, virou-se e viu a imensa lâmina do limpador vindo na sua direção. Pouco antes
do impacto ele saltou e pousou no teto da picape.
Scott seguiu na picape até a 116
a
, e então pulou num carro que ia para o
leste pela Rodovia FDR. Trânsito livre. O carro o levou pelo centro até o East
Village. Então, pulando sobre os tetos de carros, caminhões e ônibus, ele seguiu
até o Starbucks da Astor com a Lafayette.
Apesar de ter feito a viagem em tempo recorde, continuava atrasado. Não
dava para voltar ao seu tamanho normal em público, então ele correu para a
cafeteria, desviando dos sapatos, tênis e botas que via pela frente como se
estivesse numa partida de Frogger. Havia uma fila no banheiro dos fregueses,
então ele disparou por debaixo da porta do banheiro onde havia uma placa
dizendo “Somente funcionários”. Trazia consigo uma muda de roupa previamente
encolhida numa bolsa acoplada ao traje do Homem-Formiga. Vestiu a calça jeans,
as botas e a camisa de flanela, depois ativou o gás expansor Pym. Logo estava de
volta ao tamanho natural. Uma barista do Starbucks – uma jovem asiática –
entrou no banheiro e congelou.
– Como você entrou aqui? – ela perguntou.
– Hã, a porta estava destrancada – Scott disse.
– Os clientes não podem usar esse banheiro – ela disse.
– Desculpe, não vai acontecer novamente – Scott respondeu.
Scott saiu correndo e seguiu para seu encontro.
EM UMA MESA logo na entrada, perto da janela que dava a Astor, a paquera de Scott
disse:
– Meu nome é Anne, com “e”, mas meus amigos me chamam de Annie.
Scott a conhecera pelo Tinder – é, hoje em dia os super-heróis também
andam namorando pela internet. De que outro jeito um ocupado pai solteiro
conseguiria conhecer alguém na cidade grande? Scott havia curtido as fotos de
Anne – ela parecia moderna, com jeito de quem parece não se esforçar para isso,
tinha cabelo escuro, franja, usava óculos grandões e estilosos da Warby Parker – e
os dois pareciam estar em situações de vida similares. Ela havia acabado de se
divorciar, tinha um filho de doze anos – dois anos mais novo que a filha de Scott,
Cassie – e escrevera no perfil que procurava por “algo leve, porém significativo”,
algo que basicamente resumia o ideal que Scott tinha de relacionamento perfeito.
Fazia poucos meses que a última relação de Scott – com Regina, a hipnoterapeuta
maníaco-depressiva – terminara, e só agora ele voltava à ativa, tentando
conhecer gente nova.
Scott ficou contente por Anne se parecer bastante com o que vira nas fotos, o
que nem sempre acontece quando se trata de namoro pela internet. Desde o
divórcio, Scott saíra com mulheres que afirmavam ter a mesma idade que ele, mas
no fim das contas eram mais velhas que sua mãe. O encontro acabou tomando um
rumo desagradável quando Anne passou os primeiros dez minutos falando das
dificuldades do divórcio e de como odiava o ex-marido, e os dez minutos seguintes
explicando os negócios que ela “algum dia” pretendia começar – design de joias,
mercado imobiliário, Reiki – e claro, contou também que queria escrever um livro
sobre a separação por ter “tantas histórias malucas pra contar”. Mas atualmente,
apesar de todos esses planos grandiosos, a moça não estava fazendo muito – a
não ser odiar o marido.
Scott quase não disse nada sobre si mesmo. Ficou tentando inventar uma boa
desculpa pra ir embora, mas ela não havia tomado nem metade do café gelado.
Achou que seria grosseiro inventar uma história e sair naquele momento, mas
seria muito fácil. Estava com a roupa do Homem-Formiga por baixo das outras, o
que lhe daria a fuga perfeita para encontros ruins como aquele: bastaria ativar as
partículas Pym do traje e puff, praticamente desapareceria.
– Tá, maiores medos – disse ela.
– Como? – Scott perguntou.
– Quais são seus maiores medos? – ela perguntou. – Você primeiro.
Scott não estava nem um pouco a fim de entrar naquela brincadeira – só
queria ir pra casa ficar com a filha. Mas pelo menos não estavam mais falando do
divórcio de Anne.
– Humm, pergunta difícil – disse ele. – Acho que você não espera ouvir as
respostas óbvias como, da morte, de um holocausto nuclear, invasão alienígena.
– Você tem medo dessas coisas?
– Não, na verdade não.
Scott sorriu, mas ela continuou séria. Aparentemente, não entendeu o
sarcasmo – segunda tentativa. Ele deu um belo gole do seu café, torcendo para
que o gesto a encorajasse a tomar o dela mais rápido, mas a bebida continuava
parada no mesmo nível, como uma ampulheta entupida.
– Então, você tem medo do quê? – ela perguntou.
– Tá, de fracassar – Scott respondeu. – Tenho medo de fracassar.
– Humm, boa – ela disse. – Como naqueles sonhos em que a gente tá no
colégio e tem uma prova importante e temos medo de não passar. Odeio esses
sonhos.
– Estava pensando em algo mais psicológico – Scott explicou. – Tipo, fracassar
enquanto homem, fracassar enquanto pai.
– Ah – disse ela, e então, iluminando-se: – Sabe qual é o meu maior medo?
– Pode falar – disse Scott.
– Meu maior medo é que o próximo cara com quem eu me case seja
igualzinho ao meu ex.
E lá foi ela voltar a falar do divórcio de novo.
– Jura? – disse Scott. – É esse o seu maior medo?
– Você mencionou o lado psicológico – disse ela. – Bom, eu acredito que as
pessoas acabam agindo conforme padrões antigos. Saem com as mesmas pessoas,
cometem os mesmos erros repetidas vezes. Quer dizer, tomemos você, por
exemplo. O que eu sei sobre você? Sei que o seu nome é Scott, que você tem uma
filha e que é bonitinho, mas o que eu sei mesmo? Tá entendendo? Você pode estar
escondendo alguma coisa, ter um segredo sombrio. Quer dizer, ninguém conta
tudo no primeiro encontro, né? Então pode ser que tenha, sei lá, tipo uma bomba,
uma revelação, uma coisa que você só vai contar lá pelo quinto encontro… e nesse
ponto eu já vou estar superenvolvida emocionalmente, e vou ficar possessa por
não ter sacado mais cedo. Sinais de alerta, é disso que eu estou falando. Tenho
medo de não captar os sinais de alerta. E você?
Scott tinha se distraído. Bonitinho? Que história é essa?
– Desculpa, qual foi a pergunta?
– Qual é o seu maior segredo? – Anne perguntou.
Essa tinha sido a pergunta?
– Hã, uau, que pergunta difícil – disse Scott. Ele tinha um uniforme por baixo
das roupas que lhe dava a habilidade de encolher e ficar do tamanho de uma
formiga, além de ganhar força sobre-humana. Pode-se dizer que isso é um baita
dum segredo.
– Anda – disse ela. – Eu sei quando um cara tem segredos. Você com certeza
tem um passado. Dá pra ver nos seus olhos.
Oh, não… será que ela era telepata? Depois do casinho que teve com a Emma
Frost dos X-Men no ano anterior, ele fizera um trato consigo mesmo: chega de
mutantes, chega de mulheres saidinhas, moderninhas. Queria uma pessoa normal,
sem drama. Querer isso em Nova York? – Era melhor esperar sentado, filhão.
– Tá, já percebi que estou te deixando desconfortável – disse a moça. – Vou
colocar de outro jeito. O que você esconde? Qual é seu maior arrependimento?
Essa era fácil: sua vida passada de crimes. Ultimamente, andava sendo muito
bem-sucedido em deixar essa parte complicada do passado para trás, tentando se
redimir lutando ao lado dos mocinhos. Mas ainda se sentia culpado por algumas
das coisas que fez quando era mais jovem, e preferia não ficar revirando essas
lembranças – principalmente num primeiro encontro.
– Hã, que tal você responder essa primeiro? – ele pediu.
– Tá bom – ela disse. – Uma vez eu roubei dinheiro de um morador de rua.
– Tá me zoando – disse Scott, tentando imaginar essa mãe neurótica
roubando dinheiro de alguém na rua. Pela primeira vez naquele encontro ele se
viu intrigado.
– Não – disse ela. – Estou falando sério. Aconteceu em Amherst, sabe, onde
fica a UMass? Foi lá que fiz faculdade. Enfim, eu tava bêbada com as minhas
amigas, e uma delas me desafiou a pegar um dólar da canequinha do cara. Então
eu roubei e fugi e fiquei me sentindo megaculpada. Procurei o cara no dia
seguinte, mas não encontrei. Pensei que fosse acabar encontrando depois, mas
nada, nunca mais o vi. Até hoje eu carrego esse dólar comigo pra todo lugar, só
para o caso de trombar com ele.
– Uau, isso é, hum, bem incomum – disse Scott.
– E você?
– Não, nunca roubei um morador de rua. Espero poder riscar essa da minha
listinha de metas qualquer dia.
A moça não deu risada, sequer sorriu. O sarcasmo realmente não era o forte
dela. Terceira tentativa.
– Você já roubou alguma coisa? – ela perguntou.
Há momentos na vida em que a honestidade não é uma opção.
Então ele entrou no jogo:
– Todo mundo já roubou.
– Nem todo mundo. Com certeza a Madre Teresa nunca roubou nada.
– Não sei, não – disse Scott. – Quando ela tinha uns seis anos deve ter havido
um pote de biscoitos que ela estava proibida de tocar, e aposto que ela roubou e
comeu um dos biscoitos.
– Biscoitos não contam – Anne rebateu.
– Acho que roubar biscoito deveria contar sim. – Scott sorriu. – Posso ser
sincero com você?
– Adoro honestidade – disse ela.
Claro que adorava. Todo mundo adora honestidade até que ouve uma coisa
que não queria ouvir.
– Acho que esse encontro não tá rolando – disse ele.
– Ah, não? – Ela pareceu chateada.
– Fala sério. – ele disse. – Você não acha mesmo que tá rolando, acha?
– Bom – disse ela. – Não sei muito bem.
– Não dá pra se conectar com alguém se você já começa procurando esses
sinais de alerta. A conexão simplesmente acontece.
– Você tem razão. Me desculpe – disse ela. – Eu sempre faço isso, pressiono
demais. Quer dizer, nem sempre e nem tanto assim. E nem um pouquinho de
pressão. Não sei bem o que estou dizendo. Não costumo ter muitos encontros…
acho que o problema é esse. Na verdade, não tive nenhum desde que me
divorciei, então talvez isso seja parte do…
– É totalmente compreensível – Scott interrompeu. – Além disso, sugiro que
não fale tanto do seu divórcio. Quer dizer, assim logo de cara. Pra ser sincero, é
um pouco broxante.
– Eu falo mesmo muito sobre o divórcio, né? – disse ela. – E acabei de falar de
– Eu falo mesmo muito sobre o divórcio, né? – disse ela. – E acabei de falar de
novo. Não sei por que faço isso. Quer dizer, eu já superei totalmente o meu
divórcio. Aí, falei de novo. Ai meu Deus, não consigo parar. Estraguei o encontro
todo, não é? É só tensão nervosa. Tô tomando Xanax. Sei que por isso eu devia
ficar menos neurótica, mas normalmente eu sou ainda mais neurótica do que isso.
Meu ex que dizia isso. Ai, Deus, falei outra vez. Podemos começar de novo?
– Claro – disse Scott. – Vamos começar de novo.
– Meu nome é Anne, com “e”, mas meus amigos me chamam de Annie.
Scott riu.
– Viu? – ele disse. – Isso sim foi bem natural.
Talvez ela estivesse certa quanto ao fato da tensão nervosa impedir que ela
conseguisse mostrar o que tinha de bom, porque agora ela parecia estar bem mais
calma. Os dois começaram a ter uma conversa de verdade. Partilharam histórias
sobre os filhos, falaram de filmes e peças que andaram assistindo, exposições que
foram conferir. Scott não estava mais monitorando o nível de café do copo dela –
estava se divertindo.
– Bom, parece que o começo foi meio atrapalhado – disse ele –, mas posso ser
sincero sobre mais uma coisinha?
– Ai, de novo, não – disse a moça.
– Tô começando a gostar bastante de você.
Ela ficou um pouco corada e disse:
– Que fofo.
Scott estendeu a mão por sobre a mesa e segurou a dela. Uau, essa foi de
zero a mil. O encontro passara de um marasmo total para um dos melhores que
ele já teve desde que se separara da ex. Já começava a pensar no encontro
seguinte – queria sugerir que marcassem algo naquela mesma semana. Ele podia
levá-la ao seu restaurante mexicano favorito no West Village.
Foi quando ele reparou na formiga cruzando a mesa, perto das mãos
entrelaçadas deles. Não ficou surpreso. Por motivos que ele não entendia muito
bem, as formigas ficavam atraídas por ele quando ele estava com a roupa do
Homem-Formiga, mesmo quando não estava encolhido. E nos últimos tempos as
formigas andavam atraídas por ele mesmo quando ele deixava a roupa em casa,
trancada num cofre. Não sabia direito como ou por que as formigas queriam ficar
perto dele. Talvez por ele ter sido exposto a tantas Partículas Pym – o
componente principal do gás encolhedor que lhe permitia virar o Homem-Formiga
– o gás tenha causado um efeito permanente nele. Ou quem sabe as formigas
fossem simplesmente capazes de sentir uma natureza amigável para com elas na
essência de Scott. O cara vivia se surpreendendo com a inteligência desses
insetinhos. Não entendia como a sociedade como um todo desprezava as
formigas, associando-as com sujeira e infestação, e as considerava um incômodo.
Anne reparou na formiga, fez careta e disse:
– Ai, meu Deus, isso é nojento! A Starbucks é uma grande corporação;
deveriam ter padrões de higiene mais altos.
Então ela pegou um guardanapo e ergueu a mão para esmagar o inseto.
Scott agarrou-a pelo pulso antes que ela pudesse matar a formiga e disse:
– Jamais faça isso.
– Quê? – Anne parecia confusa.
– Matar uma formiga por querer. – Scott disse. – Quer dizer, pisar numa
formiga por acidente na rua é uma coisa, algumas tragédias não podem ser
evitadas, mas quando você faz de propósito, é o mesmo que assassinato.
– Tá brincando comigo, né? – ela perguntou.
– Parece que eu tô brincando?
– Me solta, por favor.
Scott soltou o pulso da moça. Bem, lá se foi o grande encontro.
Ele sabia que sua reação pareceria bizarra para ela, até maluca, mas não
pôde evitar a pergunta:
– O que você tem contra formigas?
– Como?
– Você estava prestes a assassinar essa formiga – ele disse.
– Assassinar?
– Matar, extinguir… Como queira.
– É só uma formiga.
– É isso que você diria se eu pegasse o seu cachorro ou gato e tentasse matar?
É só um gato? É só um cachorro?
– Por favor, diga que isso é brincadeira – ela disse.
Scott, agora mais chateado, disse:
– Então você estava mentindo quando colocou no seu perfil que adora animais
e acredita em… como você colocou? Ah, certo, “bondade para com os outros”. É
assim que você expressa a sua bondade? Tipo, roubando o dinheiro do morador de
rua… Certo, você era só uma garota embriagada. Mas agora você é uma adulta,
uma mãe. Qual desculpa você vai dar dessa vez?
– Se isso for brincadeira, não tem graça – ela disse.
– Parece que estou de brincadeira?
– Tá criando todo esse caso por causa de uma formiga idiota.
– As formigas não são idiotas!
O Starbucks inteiro parou para olhar.
– Não são?
– As formigas têm cérebros maiores, em proporção ao seu peso, do que os
humanos.
Scott não sabia se isso era verdade, mas disse com confiança.
– Que bom pra elas – disse Anne. – E quem se importa com as formigas?
– Eu preferiria ler um livro sobre formigas do que sobre o seu divórcio – Scott
disse.
Alguns clientes no balcão olhavam para o casal, querendo saber do que se
tratava a discussão. Mais formigas invadiram a mesa. Elas captaram a tensão e o
perigo iminente, e vieram ajudar Scott e sua camarada formiga.
Anne também reparou nas formigas e se levantou, vestindo a jaqueta.
– Você tem problemas sérios, sabia? – ela disse.
– Você quase mata uma formiga inocente, e eu que tenho problemas?
– Formiga inocente? Chega. Desisto. Oficialmente, esse foi o pior encontro de
todos os tempos.
– Nisso você tem razão.
– Vou pra casa.
– Tá, beleza, vê se não vai matar nenhuma formiga lá, também.
A moça estava prestes a sair, mas voltou e olhou para Scott, dizendo:
– Viu só? Eu tenho razão quanto aos padrões – ela disse. – Obrigada. Muito
obrigada por se revelar logo no primeiro encontro. Me poupou muito tempo.
E depois apertou o passo em direção à saída.
– Nunca mais machuque uma formiga.
– Seu maluco! – ela gritou.
– Sua assassina! – ele gritou de volta.
VOLTANDOPARACASANO trem das seis da tarde, Scott se deu conta de que havia pegado
pesado demais. É, foi errado da parte da Anne tentar matar aquela formiga, mas
provavelmente dezenas de milhares de formigas são mortas todos os dias só em
Manhattan, pisadas e exterminadas por pesticidas. Scott não podia salvar todas
elas. Entretanto, ver uma formiga morrer – ou quase morrer – sempre o tirava do
sério, e às vezes ele perdia o controle.
Quando saiu na rua 77, mandou uma mensagem de texto para ela:
Desculpe estourar daquele jeito. Foi errado da minha parte.
Alguns minutos depois, mandou mais uma:
Realmente gostei de ter te conhecido!!
A quem ele queria enganar? Ela provavelmente estava achando que ele era
totalmente psicótico/maluco – não havia como contornar a situação. Tinha
certeza de que nunca mais iria ouvir falar dela. No máximo, essas mensagens de
desculpas provavelmente o fariam parecer ainda mais instável.
Bem, essa ele teria que deixar para trás – acrescentar à experiência. De todo
modo, ele obviamente não estava pronto para começar outro namoro. Da
próxima vez, tentaria manter suas emoções pró-formigas sob controle.
Enquanto caminhava, mandou uma mensagem para Cassie perguntando se ela
já tinha jantado. Scott ainda não tinha, então comprou comida chinesa – carne
apimentada para ele e o favorito de Cassie, chow fan de camarão – e seguiu para
o prédio em que morava, na rua 78 leste entre a Primeira e a York.
Scott se mudara do East Village para o Upper East Side havia muitos meses,
antes de Cassie começar o primeiro ano do ensino médio no Colégio Eleanor
Roosevelt. “El-Ro” era uma das melhores escolas de ciências da cidade e, como
Scott, Cassie era fissurada em tecnologia. Adorava computadores, vídeo games e
aprender sobre o cérebro. Scott não fizera faculdade, então queria que Cassie
seguisse um bom caminho e não se desviasse dele. Ela queria ser neurologista, o
que para Scott era uma ótima ideia; com sorte ela juntaria bastante dinheiro para
sustentá-lo em sua velhice.
Outro ótimo aspecto da escola: ficava a poucos quarteirões do apartamento,
e a localização também era conveniente para Scott. Estava trabalhando como
técnico de cabo para a NetWorld, uma empresa de rede de computadores do
centro. Era um emprego legal e discreto que o mantinha afastado de encrenca – e
longe dos holofotes. E ultimamente, esses eram seus principais objetivos.
A mãe de Cassie – ex-mulher de Scott, Peggy – mudara-se para Portland, no
Oregon, para cuidar da mãe, que sofria de Alzheimer. Scott já se sentia
tremendamente culpado pelo tempo que não pudera passar com Cassie enquanto
estava na cadeia, e mais ainda por tê-la feito passar pelo divórcio. Sentia-se
grato pelo tempo que podia passar com ela agora. Tinha que lhe garantir isso – a
menina era durona e estava indo muito bem na escola, mas ele queria oferecer
um lar estável e se dedicar a ser um bom pai para ela.
Scott arrumou a mesa e chamou Cassie, que estava no quarto. Como sempre,
teve que gritar algumas vezes para chamar a atenção dela, mas logo ela veio e
juntou-se a ele à mesa. Tinha cabelos loiros compridos e uma beleza natural.
Meio moleca, meio nerd, não curtia muito coisas de menina, tipo fazer compras ou
usar um monte de maquiagem. Não gostava muito de esportes também, o que
não era problema para Scott. Uma das atividades favoritas dos dois era
desmontar computadores e outros eletrônicos, para depois remontar os aparelhos
novamente. Adoravam jogar vídeo game juntos, construir cidades malucas no
Minecraft e montar modelos intricados de aviões e naves espaciais. Contudo, nos
últimos tempos, desde que entrara no ensino médio, Cassie não andava passando
muito tempo com o pai, e consumia muitas horas do tempo livre em casa, no
Skype ou no Facetime, conversando com amigos. Comportamento normal de
adolescente, claro, mas Scott começava a sentir falta de sua garotinha.
– E aí, como foi seu dia? – perguntou Scott quando começaram a comer.
– Bom – respondeu ela, olhando para o celular. Começou a digitar outra
mensagem.
– Vamos lá – Scott disse. – Dá isso aqui.
– Ah, pai, fala sério…
– O celular. Agora.
Cassie revirou os olhos e passou o aparelho para Scott. Ele tinha uma regra
para o jantar: se alguém manda uma mensagem à mesa, o outro tem que ler o
texto em voz alta.
– Obrigado, e nada de fazer essa cara – disse Scott. Ele leu a mensagem em
voz alta: – Acho que estou apaixonada pelo Tucker McKenzie.
Cassie corou.
– Tá, quem é esse Tucker McKenzie? – Scott perguntou.
– É só uma pessoa – Cassie disse. – Pode devolver meu celular?
Ainda segurando o telefone, Scott disse:
– Uma pessoa. Beleza, isso deu para perceber. E essa pessoa estuda na sua
escola?
– Que diferença isso faz?
– Ele não estuda na sua escola?
– Estuda, sim, na minha escola… ai meu Deus… pode me devolver o celular?
– Ele faz alguma das suas matérias?
– Não, tá bom? Ele está no segundo ano.
– Segundo ano? – Scott ficou horrorizado. Um garoto do segundo ano já é
quase um homem. – Não é um pouco velho demais pra você, Cassie?
– Ele é só um ano mais velho que eu, pai.
– É complicado namorar uma pessoa um ano mais velha que você,
principalmente na escola.
– Complicado o quê? – ela perguntou.
– Namorar.
– Hã?
– Namorar.
– Não sei o que é isso.
– Não sabe o que significa namorar?
– As pessoas não namoram mais, pai.
– Ah, não? Então namorar é só um conceito que eu imaginei? Então estive
alucinando a minha vida toda?
– Me refiro a pessoas pessoas. Tipo pessoas-que-tão-no-ensino-médio.
– Ah, pessoas de verdade – disse Scott. – Agora eu entendi. – Teve a
impressão de que a filha não captava o sarcasmo dele, assim como Anne. Por um
momento ele imaginou se o problema não seria com ele. – Então como é que as
pessoas de verdade do ensino médio chamam o ato de namorar?
– Sei lá. Nada.
– Chamam de nada?
– É só, tipo, ficar junto.
– Tá bom, então, se você e esse Tucker McKenzie começarem a ficar, quero
conhecê-lo, tá? Aliás, não confio muito nesse nome, Tucker McKenzie. Parece
muito nome de cafajeste.
– É só um nome – disse ela –, como qualquer outro. E não vamos começar a
ficar. Não vamos começar nada.
Scott olhou fixamente para ela.
Finalmente, ela disse:
– Tá bom, pai.
Scott sorriu. Era uma sensação boa: ser pai, estabelecer limites. Todos
aqueles livros sobre pais solteiros que leu começavam a valer a pena.
Então Cassie disse:
– E você?
– Eu?
– Como foi o seu encontro? – ela disse, fazendo encontro soar como uma
bobagem que só pais divorciados fariam.
– Como sabia que eu estava num encontro?
– Você tá usando uma camisa melhor do que de costume e sapato, e não Nike
Air. Só falta segurar uma placa.
Scott teve que sorrir.
– Acho que não rolou uma conexão – disse ele, lembrando-se de quando Anne
o chamou de maluco.
– Ah, bem – disse Cassie –, ela não devia valer a pena, então.
Após o jantar, Cassie foi para o quarto e fechou a porta, Scott ouviu o som da
trava. Uma plaquinha na porta dizia: “Abandone toda esperança, tu que aqui
entras”. Scott aceitava que a filha agora era uma adolescente e às vezes
precisava de espaço, passar tempo sozinha. Ficava muito contente por sua
rebeldia manifestar-se apenas numa citação de Inferno na porta do quarto, em
vez de drogas e sexo. Mas quanto tempo levaria para a rebelião total começar?
Seria Dante apenas o começo?
Scott arrumou tudo, lavou a louça, levou o lixo para fora. O mais difícil de ser
pai solteiro era ter que fazer tudo – todas as atividades de pai, todos os afazeres
da casa – sozinho. Mas havia vantagens. Scott e Peggy brigavam o tempo todo
por causa das tarefas domésticas, e era gostoso ter noites relaxantes em casa.
Colocou jazz para tocar, folheou uma Time Out New York, assistiu a um programa
de detetives da BBC no Netflix. Às dez da noite, pôs no noticiário.
Não falaram nada sobre o assalto frustrado na lojinha – nem mesmo no Nova
York 1, o canal de notícias local que nunca parava. Provavelmente já devia ter
algum artigo on-line especulando se o Homem-Formiga estaria envolvido na
confusão – mas visto que ninguém tinha sido morto nem ferido seriamente, não
era uma grande notícia.
Scott estava habituado à falta de atenção. Ao contrário de outros superheróis,
que se concentravam em salvar o mundo, Scott costumava correr atrás dos
criminosos menores, derrotando delinquentes antes que pudessem roubar,
estuprar ou matar de novo. Seu objetivo era acabar com o crime de baixo para
cima – prender um criminoso por vez, tornar as ruas mais seguras e melhorar a
qualidade de vida para o cidadão comum. Ajudar o povo não colocava Scott nas
manchetes chamativas, mas lhe dava uma grande satisfação.
Ele passou para a CNN, onde Tony Stark dava uma coletiva, respondendo
perguntas da imprensa sobre o último plano da Hidra que ele detonara. Tony
estava em forma: metido, arrogante, indiferente, mas mesmo assim cativante.
Scott o conhecia fazia anos; Tony o ajudara a escapar de algumas enrascadas.
Ninguém podia negar uma ajudinha ocasional do Homem de Ferro. Mas embora
Scott não pudesse voar para o espaço e enfrentar tanques de guerra, podia fazer
coisas que Tony e outros super-heróis não podiam. Certa vez, salvara a vida de
Tony durante uma missão com o Capitão no Afeganistão – Tony tinha ficado
preso na armadura. Scott encolheu e o salvou.
Tony parecia ter amnésia com relação a esse dia – obviamente não queria
reconhecer que Scott havia salvado sua vida –, mas ele não se importava. Scott
adorava o que fazia, mas não se alimentava da fama, não curtia ter seu nome
exposto em prédios e manchetes. Tony, assim como o Capitão e o Aranha,
chamava atenção; já Scott preferia espreitar, despercebido, ao fundo, e
certamente não precisava dos holofotes. Seu objetivo principal era ser um grande
homem, um bom pai. Se formassem uma banda de rock, Tony seria o vocalista, o
Aranha ficaria na guitarra. O Capitão seria o baterista, e Scott tocaria baixo. Ou
talvez nem o baixo. Seria o cara com o chocalho.
– Já pensou em desistir de tudo? – um repórter perguntou a Tony.
– Eu pararia amanhã, se pudesse – respondeu Tony. – Mas se eu não pegar
todos os bandidos, quem vai pegar?
Scott riu e disse:
– Manda ver, Tony, manda ver.
Em seguida desligou a TV e foi bater na porta do quarto de Cassie.
– Hora de dormir em dez minutos – disse, depois puxou a cama da parede. O
apartamento era pequeno, até mesmo para os padrões de Nova York, mas era
tudo que ele podia pagar. Além disso, Scott estava acostumado a viver na
simplicidade.
Mais tarde, deitado na cama, lendo um livro de autoajuda – 100 motivos pelos
quais sua filha adolescente te odeia tanto –, Scott adormeceu com o livro aberto no
peito, apenas para acordar assustado quando alguém tocou a campainha.
Ele viu a hora no celular. 00:14. Fazia uma hora que tinha adormecido. Quem
Ele viu a hora no celular. 00:14. Fazia uma hora que tinha adormecido. Quem
estaria na porta a uma hora dessas? Deviam ser moleques bêbados, ou alguém
tocando no apartamento errado.
A campainha tocou de novo, por mais tempo dessa vez, então Scott foi até o
interfone e disse:
– Sim?
– Scott Lang?
Era um homem. Parecia sério, formal. O nome de Scott não estava escrito no
interfone lá embaixo, então ele soube que não era um trote.
– Talvez – respondeu. – O que deseja?
– FBI – o homem disse. – Precisamos falar com você agora mesmo.
HOUVE UM TEMPO na vida de Scott que, se agentes do FBI aparecessem no
apartamento dele tarde da noite, ele entraria em pânico – talvez tentaria
escapar pela saída de incêndio ou pelo telhado. Mesmo ali, a situação acendia um
instinto de lutar ou fugir. Contudo, o pânico cedeu quando ele se lembrou de que
não tinha feito nada de errado, não infringira nenhuma lei – bom, pelo menos nos
últimos tempos – e não tinha nada a temer.
– Desço em um minuto – Scott disse ao interfone.
Ele vestiu a calça jeans, uma camiseta e chinelos, e desceu. Podia ter mandado
o cara subir, mas não tinha certeza de que era mesmo do FBI. A segurança de
Cassie vinha sempre em primeiro lugar.
Dois homens esperavam no vestíbulo. Um deles, alto, ombros largos, cabelo
raspado, usando terno preto, tinha visual que gritava agente do FBI. O outro
cara, atarracado, careca, de óculos, parecia mais um contador.
Quando Scott abriu a porta interior, o cara de terno mostrou o distintivo do
FBI. Scott sabia como era um distintivo de verdade – e sim, aquele era.
– Agente Warren. Esse é o agente James. Podemos subir, por favor? É
importante.
Scott já começava a achar toda aquela situação um tanto quanto enfadonha:
agentes do FBI com algo importante para tratar? Aquilo não tinha como ser bom.
– Já é tarde da noite. Minha filha tá dormindo.
– Desculpe, mas preferimos falar disso lá em cima, se não se importar.
Bom, pelo menos ninguém tinha lido os direitos dele. Por outro lado, não
tinham vindo lhe fazer uma visita. Será que tinha algo a ver com o incidente no
mercadinho, ou com sua identidade enquanto Homem-Formiga? Ele desejou que
tudo aquilo fosse um sonho e que ainda estivesse na cama, dormindo, com o livro
no peito.
Ele levou os agentes até o apartamento. O lugar era tão pequeno que foi
difícil chegar ao sofá com a cama aberta, então ele se sentou com os agentes num
cantinho que chamava de sala de jantar. Havia apenas duas cadeiras, então Scott
sentou-se num banco.
– Olha, eu adoro surpresas – disse ele –, mas acho que isso é um pouco
demais, não acham?
Os agentes permaneceram estoicos.
– Você e sua família podem estar em grande perigo – disse Warren.
Scott não esperava por essa. Não sabia pelo que esperava, mas certamente
não por essa.
– Tá – disse. – Em perigo como?
– Willie Dugan escapou da prisão sete meses atrás.
Isso não era novidade para Scott. Dugan era um antigo, digamos, sócio dele.
Fizeram vários roubos juntos, depois se separaram. Scott fora forçado a
testemunhar contra Dugan no julgamento, nove anos antes.
– Ouvi dizer – disse ele. – E daí?
– Você era amigo de Dugan, não era? – perguntou James.
– Eu não diria que éramos amigos. Conhecidos, sim. Se acham que faço
alguma ideia de onde ele está escondido, não faço. Na verdade, já me
perguntaram isso várias vezes.
– Aconteceram algumas coisas recentemente – disse Warren.
– Encontraram ele? – Scott perguntou.
– Não, infelizmente não – respondeu James.
– Não estou entendendo. O que isso tem a ver com eu e minha família
estarmos em perigo?
– E quanto a Nicky Soto? – perguntou James.
Nicky também estava no bando, junto com Dugan.
– É, eu conheço – disse Scott. – Bom, eu conhecia.
– E Miguel Santana?
– Também – disse Scott.
– Robert Billings? – Warren perguntou.
– Não, desse eu não lembro – disse Scott.
– Ele tinha um apelido, Dólar – Warren disse.
Ah, ele. Scott ouvira histórias sobre Dólar Billings, mas nunca chegara a
conhecer o cara pessoalmente.
– Podem, por favor, me dizer o que está acontecendo aqui? – Scott pediu.
– Soto, Santana e Billings foram todos mortos, assassinados, ao longo dos
últimos meses – disse Warren. – E achamos que você deve ser o próximo na lista
de Dugan.
– Opa, calma aí – disse Scott. – Assassinados? Por quem?
– Dugan, nós achamos – disse Warren. – Ou sócios dele.
– Vocês acham? – disse Scott.
– É mais provável que estejam relacionados com Dugan – disse James. – É
nosso principal suspeito. Temos o relato da testemunha de um dos assassinatos, e
evidências nas outras mortes indicam que Dugan estava envolvido.
– Sem contar o fato de que as três vítimas foram afiliadas de algum modo a
Dugan – disse Warren.
– Duas testemunharam contra ele – disse James. – O terceiro cara, Billings,
Dugan tinha meio que uma questão pessoal contra ele. Tinha a ver com mulher.
– Uau. Não acredito que Nicky e Miguel estão mortos – disse Scott. – Quer
dizer, faz anos que não os vejo, e sei que fizeram coisa errada, mas estavam
tentando consertar a vida. – Scott deixou a informação ser assimilada por um
tempo, depois continuou: – Mas entendo o que estão querendo dizer. Deixa eu
adivinhar. Acham que sou o próximo na lista de Dugan porque eu testemunhei
contra ele, é isso?
Warren e James não disseram nada.
– Bom, não sou – disse Scott.
– Por que diz isso? – perguntou James.
– Porque conheço Willie, e sei que ele não faria isso.
– Pensei que tivesse dito que não o conhecia – disse Warren.
– Não falo com ele faz anos – disse Scott –, mas eu o conheço. Sei como ele
pensa.
– Bom, temos informações que nos dizem que você está errado. Ele está
vindo atrás de você.
Scott se perguntou se o agente poderia ter razão. Ele achava que conhecia
Dugan – mas a verdade era que não falava com o homem há dez anos, desde o
último trabalho que fizeram juntos. Era possível, até provável, que Dugan tivesse
mudado. Afinal, passara todo aquele tempo na prisão, e tempo de prisão mudava
todo mundo – geralmente pra pior.
– Que tipo de informação? – Scott perguntou.
– Não importa – disse Warren.
– Importa pra mim – Scott rebateu.
– Interrogamos uma testemunha que tinha informações acerca dos planos de
Dugan. Seu nome apareceu – disse James.
– Em que contexto? – Scott perguntou.
– Sinto muito, mas isso é tudo que podemos contar pra você agora – disse
Warren. – Para sua segurança. Diremos o que você precisa saber, e mais nada.
– E quanto à minha filha e minha ex-mulher? – Scott perguntou. – Por que
acham que elas podem estar correndo perigo também?
– Antes de Santana ser morto, a família dele recebeu ameaças anônimas –
disse James.
– E essas ameaças podem ter sido feitas por Dugan ou pessoas associadas a
ele – Warren acrescentou.
– Opa, espera um minuto. Dugan escapou da prisão faz quase um ano, certo?
Então enquanto ele tá solto, acontecem três assassinatos, de caras que
testemunharam contra ele ou deram alguma mancada. E vocês levaram esse
tempo todo pra ligar uma coisa à outra?
– As vítimas moravam em partes diferentes do país – disse Warren. –
Califórnia, Texas, Flórida.
– Existem bancos de dados hoje em dia – ironizou Scott. – Chama-se
tecnologia.
Os agentes, principalmente Warren, não pareceram muito contentes de ouvir
Scott, um ex-trambiqueiro, passando um sermão neles.
– Olha, a gente não veio aqui se explicar para você – disse Warren. – Viemos
proteger você e a sua família.
– Obrigado – disse Scott –, mas posso proteger minha família sozinho.
Nessas horas Scott tinha vontade de poder gritar “Eu sou o Homem-Formiga,
seus babacas! Não preciso de proteção”. Mantivera a identidade do HomemFormiga
em segredo principalmente para proteger Cassie. Como super-herói, ele
tinha uma lista de inimigos que poderiam desejar vingança – e mais uma vez,
embora não se preocupasse com a própria segurança, manter Cassie fora de
perigo era sua prioridade. Ironicamente, a menina era uma das poucas pessoas
que sabiam do segredo. Confiava muito nela.
– Receio que você não tenha escolha – disse Warren.
– Não tenho escolha? – Scott perguntou. – O que vão fazer, me obrigar?
– Na verdade, vamos – disse Warren.
– Recebemos ordem de proteção para sua família até que não haja mais
ameaça – disse James.
Scott riu, mesmo sabendo que aquilo não era uma pegadinha. Vocês devem
estar brincando, certo? Pensou ele. Ordem de proteção pra um super-herói? Tony
Stark e a galera iam tirar sarro dele por causa disso por anos. Ele queria manter
Cassie a salvo, claro, mas e se não houvesse mesmo perigo? Uma ordem de
proteção causaria uma baita perturbação na vida da garota, e ele não queria
fazê-la passar por isso a não ser que fosse absolutamente necessário.
– Como sabem que Dugan está em Nova York? – ele perguntou. – E se sabem
que está, por que não podem simplesmente capturá-lo?
– A ordem de proteção começa imediatamente – disse Warren, levantandose.
Scott também se levantou.
– Isso é pra vocês livrarem o rabo de vocês, né? Deram mancada, não ligaram
os pontos a tempo, e alguns caras do passado de Dugan foram pro saco. Agora,
com provas extremamente circunstanciais, vão obrigar que eu e minha família
aceitemos guarda-costas?
– Os oficiais que vão proteger você estão lá fora neste momento – disse
Warren. – Carlos Torres vai acompanhá-lo ao trabalho, e Roger Shelly vai levar
sua filha à escola. Amanhã no fim da tarde os agentes serão trocados por outros,
para o turno da noite.
– Olha, falando sério – disse Scott –, isso é desperdício de dinheiro do
contribuinte.
– Sua ex-mulher, Peggy Lang, está neste momento sendo colocada sob
custódia preventiva também – disse James.
– Epa, minha ex-mulher nem mora em Nova York. Ela mora no…
– Oregon – disse James.
– Viu, a gente até que sabe usar o banco de dados – disse Warren, emanando
sarcasmo.
– Não há motivos para envolvê-la – disse Scott.
– Ela já foi envolvida – disse Warren. – Tem agentes na casa dela neste
momento.
– Fala sério, que maluquice! – disse Scott. – Fico agradecido por vocês dois
terem vindo aqui me colocar a par de tudo, mas eu estou bem, e a minha família
também vai ficar bem. Não precisamos de proteção nenhuma.
– Acho que você não entendeu – disse Warren. – Você não tem escolha.
– Na verdade, você tá tendo um desconto – disse James. – A alternativa seria
você, sua filha e sua ex-mulher entrarem pro Programa de Proteção de
Testemunhas.
– Pense nisso como se estivéssemos te fazendo um favor – piscou Warren.
– Eu estou falando, vocês não estão entendendo – insistiu Scott. – Willie
Dugan não vai me machucar.
Tarde demais; os agentes já estavam saindo do apartamento.
Scott xingou. Deu um soco tão forte na parede que Cassie saiu do quarto.
Com os olhinhos apertados, ela perguntou:
– O que estava acontecendo?
– Nada – disse Scott. – Volte a dormir.
– Eu acabei de escutar vozes aqui?
– Não – Scott disse. – Deve ter sido um sonho.
Cassie não pareceu se convencer, mas murmurou um boa noite e voltou para
o quarto.
Scott foi direto para o iPad e pesquisou Willie Dugan no Google. Lera
Scott foi direto para o iPad e pesquisou Willie Dugan no Google. Lera
basicamente o que os agentes haviam contado, sobre o assassinato de Robert
Billings na Flórida, dois dias antes, do qual Dugan era o principal suspeito.
Concluiu que os federais haviam entrado no caso por conta dos assassinatos terem
acontecido em vários estados. Talvez questões de jurisdição tivessem impedido a
polícia de ligar os fatos antes.
Scott entendia por que os federais achavam que Dugan ia tentar matá-lo. O
cara já tinha matado três pessoas – duas que testemunharam contra ele. Se aquilo
fosse verdade, não dava para entender por que ele esperara tanto tempo. Por
que Scott não foi o primeiro da lista?
Os dois haviam sido, se não amigos, bons camaradas, até que o Dr. Henry
Pym deu a Scott o traje do Homem-Formiga – sob a condição de que ele usasse a
tecnologia para o bem. Scott decidira deixar para trás sua vida de crimes, mas não
soube muito bem como contar a novidade ao antigo sócio.
Scott, Dugan e mais uns caras estavam num hotel em Kentucky, a cerca de
uma hora de Louisville. Estavam numa viagem de “negócios”, fazendo pesquisa
para assaltar um banco, quando o prédio começou a pegar fogo. Scott e os outros
caras saíram, mas Willie ficou preso lá dentro.
Os bombeiros chegaram e tentaram entrar à força, mas a fumaça estava tão
densa que tiveram de recuar. Dugan estava aterrorizado, gritando por sua vida.
Então Scott correu para o carro e abriu o porta-malas, onde guardava o uniforme
do Homem-Formiga. Até aquele momento, o havia usado poucas vezes – não era
exatamente um perito em transitar com ele. Mas se quisesse salvar a vida de
Dugan, não tinha tempo a perder. Então ele encolheu, subiu pela escada de
incêndio e passou pelos bombeiros, que tinham desistido de enfrentar as chamas,
e entrou no quarto de Willie no segundo andar do hotel. O cara estava quase
perdendo a consciência, tão fora de si que nem viu Scott voltar ao tamanho
normal. Ele quebrou a janela do banheiro, arrastou Willie para fora e largou-o
para os bombeiros lá embaixo. Em seguida Scott encolheu e escapou. O fogo se
espalhou, e todo o prédio foi consumido pelas chamas.
Alguns dias depois, Scott anunciou a Willie que estava saindo do grupo. Willie
foi totalmente contra a ideia. As habilidades técnicas de Scott os ajudavam a
burlar sistemas de alarme e abrir cofres, e ele receava que Scott pirasse e
testemunhasse contra ele. Scott prometeu que jamais entregaria o sócio à polícia
– promessa que, no fim das contas, não pôde cumprir.
Ao longo dos anos seguintes, Scott perdera contato com Dugan. Focara a
atenção em criar a filha e combater o crime. Estava se redimindo, tornando-se um
homem melhor, e esperava que Dugan tivesse feito mudanças similares em sua
vida. E então ouviu no noticiário que o cara fora preso por cometer homicídio
duplo em Yonkers, Nova York. Depois de discutir por causa de uma mulher, ele
atirou em dois homens – no melhor estilo execução – no estacionamento de um
prédio residencial.
Scott sabia que Dugan era um gênio do crime que realizava dezenas de
roubos planejados.
Mas o Dugan que ele conhecia não era violento, nunca matara ninguém. Scott
nunca o vira discutir nem entrar numa briga. Era do tipo tranquilão, caladão. Ou
alguma coisa acontecera para transformar o cara num assassino de sangue frio ou
ele simplesmente escondera esse lado de Scott.
Este fora chamado para testemunhar no julgamento. As provas contra Dugan
eram irrefutáveis – relatos de testemunhas, amostras de DNA, imagens de
câmeras de segurança de um dos assassinatos –, por isso Scott quis fazer de tudo
para ajudar a colocar o ex-parceiro atrás das grades. Sentia a responsabilidade
pessoal de ajudar a mandá-lo para a prisão perpétua, para não poder matar de
novo. A culpa era imensa: se ele não tivesse salvado Dugan do incêndio, as
pessoas que ele matara ainda estariam vivas.
Logicamente, Scott sabia que não era o responsável, mas isso não mudava o
que ele sentia.
Durante o julgamento, Dugan nem fez contato visual com Scott. Nem
durante o testemunho e nem quando entrava ou saía do tribunal – nunca. Scott
sabia que era de propósito, que Dugan estava tentando comunicar alguma coisa,
mas qual seria a mensagem?
Ele foi condenado por dois homicídios de primeiro grau. O juiz entregou uma
série de sentenças compostas que, somadas, resultaram em prisão perpétua. Mas
Scott tinha a esquisita impressão de que ainda ouviria falar de Willie Dugan.
Então não foi surpresa quando descobriu, no ano anterior, que Dugan e
diversos presos haviam passado nove anos cavando diligentemente um túnel e
escaparam de Attica, uma das mais famosas prisões de segurança máxima do país.
Se havia alguém paciente e determinado o bastante para perpetrar uma fuga tão
complicada e bem organizada quanto aquela, esse alguém era Willie Dugan. O
cara era um perito, um gênio, e uma das pessoas mais determinadas que Scott
conhecera. Não era do tipo que resolvia as coisas na mão – era de planejar.
Motivo pelo qual também não foi surpresa para Scott saber que os caras que
escaparam junto foram capturados dentro de um dia, enquanto Dugan
permanecia desaparecido. Ele sempre tinha um plano, e costumava estar sempre
alguns passos na frente da polícia. Era um homem paciente, talvez o mais
paciente que Scott já vira. Não corria riscos. Não apostava, a não ser que tivesse
certeza absoluta de que as chances estivessem a seu favor.
Scott sabia que Dugan gostava de jogar um jogo demorado – provavelmente
devia ter algum plano grandioso na cabeça. Será que esse plano incluía matar
Scott e sua família como o grand finale da maratona de assassinatos? Essa era a
maior das perguntas.
Sem chance de conseguir dormir naquele momento – Scott estava com a
cabeça muito cheia. Zanzou pelo apartamento, cutucou um pedaço de pizza que
sobrou na geladeira, de uns dias antes. Uma das coisas na qual ele ainda não
mandava bem era a de sempre comprar comida. Mordiscou a pizza até perceber
como estava com gosto de passada, e então jogou o resto no lixo.
Desceu para verificar a situação. Não foi difícil avistar os federais – tinha
que ser um Charger preto do outro lado da rua com vidro fumê. Encontrava-se
oficialmente sob medida preventiva. Estava mesmo acontecendo.
De volta ao apartamento, seu celular vibrou, anunciando a chegada de uma
mensagem de texto. Era da ex:
QUE DIABOS TÁ ACONTECENDO??!!
Estava fula da vida – era de se esperar. Por acaso haveria alguma ex-mulher
no mundo que não perderia a cabeça se tivesse que ficar sob medida preventiva
por causa do ex-marido?
Para tentar acalmá-la, Scott respondeu:
Vou resolver tudo, não se preocupe, prometo.
Ela atirou de volta:
Acho bom mesmo, SENÃO…
Scott não gostou nada da ameaça. O que significava esse “senão”? Ela poderia
ficar vingativa e revelar para os federais que Scott era o Homem-Formiga? Peggy
amava Cassie, e Scott não acreditava que ela faria algo que pudesse colocar a
filha em perigo. Dito isso, o passado criminoso de Scott havia sido um problemão
no relacionamento do casal, e ele teve que trabalhar duro para convencê-la de
que tinha passado de vez para o lado dos mocinhos. A última coisa que ele queria
no momento era que ela tivesse mais informações que pudesse usar contra ele.
Na pior das hipóteses, ela poderia argumentar que ele não era adequado
enquanto pai e que ela deveria ter a guarda de Cassie. Scott tinha se esforçado
tanto para oferecer estabilidade para a filha, e a última coisa que queria fazer
era botar a menina no meio de mais uma disputa por guarda. E se Peggy ficasse
determinada a levar Cassie para o Oregon, o juiz poderia facilmente legislar a
favor dela visto que, a) as cortes geralmente decidem a favor da mãe em casos de
guarda de filhos, e b) Scott havia sido um criminoso com uma ficha corrida bem
longa.
A chegada dos federais não causara nele uma reação de lutar ou fugir das
mais intensas, mas esse assunto sim. Cassie não era apenas filha de Scott. Era sua
melhor amiga – e o motivo principal pelo qual ele resolvera mudar de vida. A
ideia de perdê-la era inimaginável. Ele sabia que ela estava muito melhor com ele
em Nova York.
Scott respondeu:
Confia em mim Relaxa Vai ficar tudo bem
E deixou por isso mesmo.
Ele sabia por experiência própria que ir contra a Peggy seria sempre um erro.
A melhor estratégia era recuar e manter a paz.
Ela não respondeu mais, então talvez estivesse esperando as coisas se
acalmarem. Talvez a polícia conseguisse pegar Dugan, e essa confusão toda
terminaria. A ordem de proteção seria retirada, e todos poderiam seguir com suas
vidas.
Scott deitou-se na cama, mas não conseguiu dormir. Teve uma estranha
sensação de que antes que as coisas melhorassem, iam ficar muito, muito piores.
GERALMENTE, QUANDO TOCAVA O DESPERTADOR de Cassie Lang, ela resmungava, clicava no
soneca e ficava na cama o máximo possível. Mas naquele dia ela mal podia
esperar para chegar à escola e ver Tucker McKenzie. Certamente o veria no
almoço ou antes de humanidades, porque havia alguma aula do segundo ano no
mesmo andar. Ela só falara com ele duas vezes até o momento: uma vez quando
se cruzaram perto dos armários e ele disse “oi” para ela, que disse “oi” de volta, e
outra vez, quando ela o viu, depois da aula, em frente a uma pizzaria na avenida
York e ele disse “e aí, beleza?”, e ela ficou tão empolgada por ele ter reparado
nela que gaguejou um “ah, hum-hum, oi”. Mas ela sabia que seria apenas questão
de tempo até que os dois começassem a ficar.
Ela vestiu suas calças jeans favoritas e aquele top novo superlegal da Uniqlo,
mas o top não ficou tão legal como quando ela o experimentou na loja, então ela
trocou pelo roxo da H&M. Não gostou muito de como ficou esse também, mas
não tinha mais nada para vestir. As coisas ficaram assim desde que a mãe se
mudou para Portland, Oregon, e ela acabou indo viver integralmente com o pai.
Da última vez que foram fazer compras, ele lhe dera duzentos dólares, que é
quase nada em Manhattan. Ela compreendia que os dois viviam com orçamento
apertado, e que era difícil pagar pelas coisas sendo pai solteiro, mas mesmo assim
era um saco não encontrar nada legal pra vestir. O pai tinha um monte de
qualidades, mas não entendia como era importante para ela ir bem-vestida à
escola.
No banheiro, a menina checou o visual de corpo inteiro e concluiu que não
estava tão ruim assim. Meio gatinha, até – principalmente depois que passou
maquiagem, inclusive a sombra nova que comprara no dia anterior. Torceu para
que a maquiagem a fizesse parecer mais velha também, como uma garota do
segundo ano. Ela tinha certeza de que faria.
Foi até a geladeira pegar algo para o café da manhã, uma tigela prática de
cereal, quando escutou:
– Cassie.
Ela se virou, assustada. O pai estava parado ao lado de um cara de cabelo
grisalho que ela nunca tinha visto. O cara nem parecia muito velho – só tinha
cabelo grisalho mesmo.
– O que está fazendo em casa? – ela perguntou. O pai costumava sair para
trabalhar antes de ela acordar.
– A gente precisa conversar – disse Scott.
Será que fiz algo errado?, pensou Cassie. O pai andava sendo estranhamente
rígido a respeito de coisas como mandar mensagem durante o jantar, mas havia
mesmo algo para se conversar? E o que teria a ver com o cara esquisito de cabelo
grisalho? Será que era algum tipo de castigo?
– Que foi que eu fiz? – Cassie perguntou.
– Você não fez nada. Mas aconteceu uma coisa. Nada de ruim, mas, bom… o
Roger aqui vai te levar para a escola.
– Roger? – Cassie perguntou.
– Meu nome é Roger – disse o homem.
– É, isso eu entendi – disse Cassie. Depois, para o pai: – Mas por que ele vai
me levar pra escola? O que tá acontecendo? Isso é pegadinha?
O pai respirou fundo, depois disse:
– Tá acontecendo uma coisa, Cassie.
A menina mal escutou quando o pai pôs-se a falar que era apenas temporário,
mas que talvez houvesse um cara querendo acertar as contas com ele, e que
aquilo era apenas precaução, e que logo acabaria. Ela só conseguia pensar mesmo
no mico que seria chegar à escola com aquele cara esquisito junto dela.
Ela interrompeu seja lá o que o pai estava dizendo:
– Eu vou pra escola sozinha hoje.
– Sinto muito – disse o pai. – Você tem que ir. Nós dois temos. Também não
tô gostando da situação, mas pelo visto a gente não tem escolha.
– Não preciso de proteção nenhuma – disse Cassie.
– É pro seu próprio bem – o cara, Roger, falou.
– Isso é tudo culpa sua – Cassie disse ao pai. – É por causa do seu passado, né?
Por causa dos bandidos todos com quem você andava?
– É, tem um pouco a ver com isso – disse o pai. – Tá, tem super a ver com isso.
– Viu? – Cassie perdeu o controle. – Foi por isso que a mamãe foi embora.
Porque você sempre estraga tudo. E acha que só porq…
Cassie quase disse “só porque você é o Homem-Formiga”, mas antes que
saísse, o pai a cortou:
– Tá bom, já chega. Termine o café e vá pra escola com o Roger, e a gente
conversa sobre isso mais tarde. Entendido?
– Não – disse Cassie. – Não está entendido, não.
Mas ela sabia que não tinha por que continuar discutindo – quando o pai
falava sério, não tinha conversa, era fim de papo –, então ela voltou para o
cereal. Mas tinha perdido a fome. Depois de umas colheradas, foi para a sala,
pegou a mochila e saiu do apartamento sem olhar nem para o pai nem para
Roger.
O policial a seguiu escadas abaixo e prédio afora, apressando-se para
alcançá-la.
– Minha escola fica só a três quarteirões daqui. Isso é tão ridículo – disse ela.
Roger disse que compreendia, e que a intenção dele era ser o menos
inconveniente possível. Cassie nem dava ouvidos e começou a reparar nas pessoas
ao redor. Pessoas, no caso, que estudavam na mesma escola. Ai meu Deus, aquele
ali do outro lado da rua é o Ryan, junto com a Nikki e a Carly, e na frente dele
estavam Charles e Justin.
– Isso é tão constrangedor – Cassie disse.
– Eu tenho uma filha também, então entendo – disse Roger. – A minha está
com treze anos.
– Por acaso algum estranho que ela nunca tinha visto na vida a levou pra
escola no primeiro ano?
– Hã, não.
– Então como é que você entende?
O homem tentou se explicar, mas Cassie o ignorou. Andava de cabeça baixa,
torcendo para não ser vista.
Quando entraram no quarteirão da escola, ela disse:
– Tá bom, daqui pra frente posso ir sozinha.
– Desculpa, mas tenho que ficar perto de você o dia todo – disse Roger.
Cassie parou de andar.
– Peraí, o dia todo? Pensei que só fosse me levar pra escola. Você não pode
entrar na escola comigo. Não vão deixar.
– A escola já sabe de toda a situação – disse o policial. – Não se preocupe, vou
ser bem discreto.
– Discreto? Vai me seguir pela escola o dia todo e acha que vai ser discreto?
– Faço isso o tempo todo – disse ele. – Bom, não o tempo todo, mas boa parte
do tempo, e sei como ficar fora do caminho, ok?
– Vou pra casa – disse Cassie, e seguiu de volta ao apartamento.
Andando ao lado da menina, Roger dizia:
– Olha, vamos lá, confia em mim. Você tá achando que vai ser muito pior do
que vai ser.
Cassie olhou feio para ele.
– Não foi isso que eu quis dizer – disse Roger. – Só quis dizer que não vai ser
tão ruim assim. E se você faltar na escola vai perder a matéria e se prejudicar.
Cassie lembrou-se de que tinha uma prova importante de cálculo naquele dia
e não podia perder – além disso, estava louca para ver Tucker.
– Tanto faz – disse ela, e deu meia-volta.
Esperava que Roger estivesse certo, que o dia não fosse tão ruim quanto ela
imaginava. Quando entrou no prédio da rua 76, fingiu que era um dia normal e
que Roger não estava bem atrás dela. Ficou olhando direto para a frente,
tentando não reparar nos olhares estranhos que ele sabia que todos lançavam em
sua direção.
Pelo menos Roger não entrou na sala de aula.
Mas Zoe, amiga de Cassie, reparou, porque perguntou:
– Quem é aquele cara?
– Que cara? – Cassie perguntou, tentando se fazer de boba. – Ah, aquele. É
só, tipo, um supervisor da escola, uma coisa assim.
Aquilo não fazia o menor sentido, mas ela não conseguiu inventar uma
explicação melhor.
– Um o quê da escola? – Zoe perguntou.
– Ah, ele tipo monitora o alunos às vezes e… não é nada, deixa pra lá.
Zoe não forçou, mas todo mundo na escola acabaria perguntando sobre o
Roger – principalmente se a situação se prolongasse por dias, semanas ou até
meses. E se o cara fosse ter que ficar seguindo ela pra todo canto durante todo o
ensino médio? Ela podia também inventar uma história, dizer para as pessoas que
ele era, tipo, do Serviço Secreto. Podia inventar que o pai estava para se
candidatar ao governo estadual de Nova York, e por isso ela precisava de
proteção. Mas será que alguém acreditaria nisso? Seria muito fácil procurar por
“candidatos a governador” no Google e descobrir que era tudo mentira.
Eca, ela odiava o Google – ela odiava tudo! E por qualquer ângulo que olhava,
estava ferrada.
Roger acompanhou Cassie à primeira aula, teatro, mas nem foi tão ruim. Os
corredores estavam sempre lotados, e Roger não ficou muito perto, então as
pessoas pareciam nem notar.
Então Cassie notou que Tucker e alguns amigos dele – inclusive Nikki e Carly
– olhavam para ela e riam. Ela torceu para ser apenas impressão. Talvez não
estivessem mesmo rindo dela. Talvez estivessem rindo de outra coisa.
Só que mais tarde, antes da aula de Química, aconteceu de novo. Tucker e
alguns amigos – outros amigos – meio que lançaram um sorriso irônico para ela e
foram embora.
Cassie – com Roger em sua cola feito uma sombra irritante – encontrou Zoe
perto dos armários e disse:
– Por que as pessoas estão olhando estranho pra mim? Você disse pra eles
alguma coisa sobre você-sabe-o-quê?
– Não. Nem sei o que dizer. Você não me contou nada.
Cassie sentiu-se mal por acusar a amiga.
– Desculpa. É que isso é tão esquisito. O Tucker e esse monte de gente ficam
olhando pra mim de um jeito esquisito, como se soubessem de alguma coisa, mas
não sei o que pode ser.
– Ai, meu Deus – disse Zoe. – Acho que sei o que é.
– O quê?
– Tem certeza que quer saber?
– Tenho, me conta.
Zoe pegou o celular, abriu o Instagram e mostrou a tela a Cassie. Era uma
postagem de Nikki com um print da mensagem que Cassie mandara na noite
anterior.
Cassie Lang: Acho que estou apaixonada pelo Tucker McKenzie
– Ai meu Deus – disse Cassie. – Não acredito que a Nikki fez isso comigo.
Que humilhação…
– Quando eu li, pensei que você e o Tucker já estavam juntos – disse Zoe.
– Não estamos, não – Cassie disse. – Mandei a mensagem ontem à noite, tipo
superconfiando. Por que ela fez isso comigo?
– Porque ela tá com ciúme; quer o Tucker só pra ela – Zoe disse. – Pelo
menos, é o que eu acho.
Tocou o sinal indicando o período seguinte.
Enquanto Cassie seguia para a sala, Roger chegou perto dela e perguntou se
havia algo errado.
– Não é da sua conta – Cassie disse.
– Eu vi você olhando para o celular daquela menina – disse ele. – Você
recebeu algum e-mail ou mensagem de um endereço desconhecido? Se for isso,
preciso saber.
– Era só um post do Instagram, tá? – disse Cassie. – Não tem nada a ver com
você nem com o meu pai. Eu tenho uma vida também, sabia?
Cassie saiu pisando duro e foi para a sala de aula.
No almoço, ela e Zoe foram até o Beanocchio, onde costumavam almoçar, na
York, sabendo que Nikki também estaria lá. Ela estava numa mesa nos fundos
com algumas outras meninas, e todas sorriram e deram risinhos quando viram
Cassie se aproximando.
– Por que você fez isso? – Cassie perguntou.
– Fiz o quê? – Nikki se fez de tonta.
As outras meninas ficaram só escutando.
– Qual é, foi só uma brincadeira – disse Nikki. – Por que você está levando
tão a sério assim?
– Apaga – disse Cassie.
– Apagar o quê?
– Você sabe o quê.
– Ah, aquilo – Nikki continuou. – Foi você que mandou. Achei que fosse, tipo,
de conhecimento público.
– Não acredito que você fez isso comigo.
– Não foi nada de mais.
– Por favor, apaga.
– O Instagram é meu. Eu faço o que eu quiser.
Cassie não entendia por que Nikki estava sendo tão maldosa. Achava que
eram amigas. Será que Nikki só queria se mostrar para as outras garotas,
querendo dar uma de boa?
– Vou contar pro diretor – disse Cassie. – Isso é cyberbullying.
As meninas riram.
– Ah, fala sério! Eu só tava brincando – disse Nikki. – Quer que eu apague?
Tá bom. – A menina pegou o celular, tocou algumas vezes na tela e disse: –
Pronto, apaguei. Mas o estrago já foi feito. Agora o Tucker nunca vai gostar de
você.
– Como você é tosca – disse Cassie.
– Tucker McKenzie não acha isso – rebateu a outra. – E por que aquele cara
fica te seguindo pra todo lado, hein? É, tipo, bizarro.
Cassie não entrava numa briga desde quando tinha uns oito anos e uma
menina no parquinho tentou empurrá-la do escorregador, mas teve muita
vontade de ir pra cima de Nikki ali mesmo. Não como uma garotinha, dando tapas
e puxando cabelo: Cassie quis jogá-la no chão e meter um soco na cara dela. Não
podia fazer isso, claro, acabaria sendo suspensa. E claro, havia um agente do FBI
a poucos metros dali, de olho nela.
Então ela apenas saiu do café e ficou sem almoçar. Foi andando de volta à
escola, com Roger seguindo-a o tempo todo.
Passou o resto do dia com a cabeça nas nuvens, tentando se esquecer do quão
miserável se sentia. Os professores a chamaram para dizer alguma coisa durante
a aula umas duas vezes, e ela estava perdida – não fazia ideia do que estavam
falando – e todo mundo riu. Mal podia esperar que o dia acabasse.
Finalmente o dia terminou, e ela correu para casa. Roger teve que verificar o
apartamento para ter certeza de que o cara que estava atrás do pai dela não
estava escondido ali – como se o cara fosse um Houdini ou coisa do gênero, e
pudesse entrar e sair de um apartamento trancado sem ninguém reparar.
Roger voltou para o corredor e deixou o apartamento todinho para Cassie.
Foi ótimo ficar sozinha, sozinha de verdade. Definitivamente, aquele havia sido o
pior dia na escola, e ela nem queria pensar em como seria o seguinte. Graças a
Nikki, Cassie tinha pagado de otária para Tucker McKenzie.
Deu vontade de abandonar a escola. Já era vergonhoso demais ter um
agente do FBI seguindo-a por todo canto, mas encarar Tucker de novo seria pior
ainda. Como era ruim vê-lo rindo dela.
Cassie reparou que quase não comera nada o dia todo – apenas poucas
colheradas de cereal de manhã. Não havia comida no apartamento, como de
costume, e o pai ainda não tinha chegado a casa. Devia estar em outro de seus
encontros arranjados no Tinder. Era tão injusto que sua vida tenha ficado tão
zoada enquanto o pai podia ter encontros e levar uma vida normal tendo sido ele
o causador daquela bagunça toda. Não só a palhaçada do FBI, mas tudo. O
passado maluco, o divórcio… e que tal o Homem-Formiga? Não era o pai de todo
mundo que podia encolher e ficar do tamanho de uma formiga pra combater o
crime. Cassie e a mãe vinham guardando esse segredo fazia um ano, o que não
parecia nada justo. Ela era uma adolescente. Era ela quem tinha que ter direito a
segredos.
Então Cassie teve uma grande ideia. Era tão incrível e perfeita que não soube
por que não tinha pensado nela ainda.
Ela foi até o armário do corredor, afastou umas caixas, livros e outras coisas e
lá estava o cofre onde o pai guardava o traje do Homem-Formiga. Um dia, alguns
anos antes, Cassie vira o pai abrir o cofre. Lembrava-se da combinação, quase
toda: 34 direita, 28 ou talvez 27 esquerda, 11 direita. Tentou com 27, mas… não,
não abriu. Tentou de novo com 28 e nada aconteceu. O pai trocara a combinação?
Isso seria péssimo.
Depois de tentar 27 e 28 de novo, a garota estava prestes a desistir e
arrumar de volta as caixas, mas então tentou com 24 no primeiro número e 27 no
segundo. Não sabia por que tentara isso – foi meio inconsciente –, mas quando
voltou o disco para o 11, ouviu um clique e abriu o cofre.
Lá estava ele, o traje vermelho e cinza do Homem-Formiga e uma espécie de
capacete prateado com o que pareciam ser antenas. Scott mostrara o traje à filha
certa vez, mas nunca explicou como ele funcionava, como se fazia para encolher e
ficar do tamanho de uma formiga. Ele dissera também que podia se comunicar
com as formigas enquanto usava o uniforme, o que pareceu loucura para ela,
impossível até. Será que tinha sido mentira do pai?
Ela o examinou com minúcia. Era feito de um material resistente, tipo uma
mistura esquisita de metal e tecido – definitivamente não era algo que se usa no
Halloween. O capacete era forte, mas muito fino, e tinha um mecanismo que o
fazia diminuir e praticamente desaparecer no colarinho do traje. Cassie imaginou
que isso servia para que o pai pudesse usar o traje por debaixo das roupas. A
parte de baixo do capacete lembrava o interior de um computador. Cassie e o pai
já haviam desmontado e montado de novo diversos computadores – era meio que
um hobby para eles – e o capacete, obviamente, era a placa-mãe. Cassie provou o
capacete, mas era um pouco grande demais. O pai era um pouco mais alto; quando
ela ergueu o traje, ficou claro que não serviria nela.
Não dava para entender de onde vinha a energia. O capacete não tinha
bateria nem fonte elétrica, mas tinha que tirar força de algum lugar. Ela não
fazia ideia de como ligar, também, porque não tinha botão liga/desliga. Havia uns
tubinhos, no entanto – os que continham o gás com as partículas Pym. O pai nunca
explicara como elas funcionavam – dizia sempre que seria “perigoso demais”
contar, seja lá o que isso significava –, mas ela sabia que as partículas encolhiam
as coisas. Uma coisa de que Cassie tinha certeza: o traje não era uma piada. Tinha
uma tecnologia séria e complexa, o que significava que tudo que o pai lhe contara
sobre o Homem-Formiga podia mesmo ser verdade.
Cassie ouviu passos na porta de entrada; alguém se aproximava pelo
corredor. Ela guardou o traje de volta no cofre o mais rápido que pôde. Poderia
ser um dos agentes do FBI zanzando de um lado para o outro, ou talvez um
vizinho. Mas então Cassie ouviu a chave girando na fechadura. Agachada, a
garota empurrou as caixas de volta para dentro do armário, bloqueando o cofre, e
tinha acabado de se levantar quando o pai entrou.
– Oi – disse Cassie, tentando agir naturalmente.
O pai devia tê-la visto agachada – parecia meio desconfiado.
– Oi, que tá fazendo?
– Nada – disse Cassie. – Tava, hã, procurando minhas luvas.
– Luvas? Tá uns vinte graus hoje.
Cassie queria ter pensado numa desculpa melhor. Luvas em maio foi bem
burro.
– É pra um trabalho da escola – disse Cassie.
– Trabalho?
– Estamos mexendo com gelo, num freezer, na aula de Ciências, então preciso
levar as luvas.
Isso fez ainda menos sentido, mas obviamente soou razoável o bastante para
o pai, que disse:
– Ah, entendi. Como foi seu dia?
– Não tão ruim – respondeu Cassie.
– Que bom – disse Scott. – Fiquei preocupado. Desculpa de novo por te
envolver em tudo isso.
– Sem problema.
Cassie deu um beijo no rosto do pai. Depois foi para o quarto e fechou a
porta.
Foi difícil acreditar que poucos minutos antes ela estivera tão receosa do
futuro. Agora que tinha um plano incrível para se vingar da Nikki, mal podia
esperar para ir à escola no dia seguinte.
Estou precisando de indicação de babá, você pode me ajudar, Baixinho?
Ouvi dizer que você arranjou uma ótima.
A mensagem era de Tony Stark.
Scott estava no trabalho, no depósito de cabos do escritório da NetWorld no
centro, com Carlos Torres, o agente que, supostamente, estava tomando conta
dele. Obviamente, Tony ouvira falar da ordem de proteção através das diversas
fontes que tinha e naturalmente estava rolando de rir da situação.
Scott respondeu:
Haha
Em seguida acrescentou:
Se essa história toda de Homem de Ferro não der certo, talvez
devesse fazer comédia stand-up
Tony respondeu:
Se você continuar me dando material bom assim, vou acabar fazendo isso
mesmo
Scott teve que sorrir. Tony vinha provocando Scott há anos por causa de sua
estatura, digamos, menor no mundo dos super-heróis, mas mesmo não gostando
muito das brincadeiras, tinha se acostumado a elas. Como poderia ficar chateado
com Tony depois do cara tê-lo ajudado tantas vezes? Tony chegara a arranjar um
emprego para ele nas Indústrias Stark quando Scott resolvera andar na linha e
ninguém queria contratar um ex-criminoso que tinha ficado preso um bom tempo
por assalto à mão armada. Tá, beleza, Tony tinha feito isso como um favor a
Hank Pym por serem velhos amigos. Mas de certo modo, Tony salvara a vida de
Scott, dando-lhe a base de que precisava para seguir um caminho legal e ser um
bom pai para Cassie. Os dois eram mais do que colegas Vingadores – eram
amigos.
Mas a razão principal pela qual Scott não conseguia ficar chateado com as
cutucadas de Tony era porque concordava com ele. Tinha mesmo a sensação de
que o FBI estava cuidando dele como uma babá, acompanhando-o pela cidade.
Afinal, como Homem-Formiga, ele podia se garantir contra praticamente
qualquer um. Concordava que Cassie precisava de proteção – melhor prevenir do
que remediar –, mas a ideia de que Willie Dugan representava uma ameaça séria
para ele era ridícula. Scott tentava manter em mente que se encontrava nessa
situação em parte porque o FBI não sabia que ele era o Homem-Formiga. Não se
tratava apenas da segurança dele, mas também da de sua família, então tinha
que segurar as pontas e engolir as piadinhas de Tony. Mas isso não mudava a
maneira como se sentia.
Ocorreu a Scott, contudo, que ele não precisava ficar aguentando o fato de
sua família estar sob medida preventiva e esperando que Dugan aparecesse.
Outra opção era partir para a ofensiva: vestir o traje do Homem-Formiga no
meio da noite, escapulir e rastrear o cara. Poderia confrontá-lo, onde quer que
estivesse escondido, e intimidá-lo, convencendo-o a ficar longe de Scott e sua
família.
No entanto, havia alguns problemas com essa ideia. Para começar, teria que
encontrar Dugan. O FBI vinha conduzindo uma caçada em âmbito nacional atrás
do cara e não tinha conseguido localizá-lo, então, como Scott poderia fazer isso
sozinho? Até onde ele sabia, Dugan estava em algum lugar perto de Nova York.
Scott poderia pedir ajuda a Tony, ao Aranha e até ao Capitão, mas um bandido
foragido da cadeia não era um motivo lá muito adequado para envolver o
armamento pesado. Não era o mundo todo que estava em perigo – apenas a
família de Scott, pelo visto. Com sorte a situação se resolveria muito em breve, e
sem a participação do Homem-Formiga.
Scott estava se preparando para ir com sua equipe fazer a instalação de uma
rede no centro quando seu chefe – Jeff, presidente da empresa – pediu que ele
fosse até sua sala.
Havia uma rígida divisão na empresa entre os caras de colarinho branco, do
setor de vendas e marketing, e os de colarinho azul, da instalação de cabos. Scott
não travara nem uma única conversa com Jeff desde que fora contratado pela
empresa há cerca de dois anos – com exceção de um “oi” que trocavam no
elevador ou no banheiro masculino.
A sala de Jeff tinha paredes de vidro e ficava bem de frente às fileiras de
cubículos. Jeff fechou a porta. Não pediu para que Scott se sentasse. Scott chegou
a pensar que estava prestes a ser demitido, mas ele sabia que era Juan do
Recursos Humanos, apelidado de “o assassino”, que era responsável pelas
demissões.
– Olha – disse Jeff, apontando para Carlos, que esperava atrás do vidro. –
Sei que esse cara é do FBI, que não devo perguntar o que tá acontecendo, e nem
vou. Não preciso saber o que não preciso saber, se é que me entende.
Scott não entendeu muito bem do que Jeff estava falando.
– Eu acho que entendo.
– O que eu quero dizer – Jeff prosseguiu – é que não quero confusão aqui,
entende?
– Não vai ter confusão nenhuma – disse Scott.
– Que bom – Jeff disse. – Porque eu sabia do seu passado quando te aceitei
aqui, mas você prometeu que o passado ficaria no passado.
– É verdade… eu te prometi isso.
– Bom, mas não tá parecendo que você tá cumprindo a promessa – reclamou
Jeff.
– Isso não é o que você tá pensando – Scott disse. – Eles só estão sendo
exageradamente cautelosos a respeito de uma situação que não tem nada, nada
mesmo a ver comigo. Tenho certeza de que daqui uns dias tudo isso vai ter
acabado.
Scott esforçou-se ao máximo para dizer isso com confiança e convicção, mas
sabia que não estava convencendo nem a si mesmo.
– Bom, espero que sim… pro seu bem – disse Jeff. Ele deu as costas a Scott e
continuou: – Pode ir, agora.
O cara podia ter dito algo como “está dispensado”. Scott odiava sentir-se
impotente, não tendo escolha a não ser engolir toda essa bobagem e desrespeito.
Como Homem-Formiga, estava habituado a certa falta de respeito da parte de
seus colegas, mas sempre era na brincadeira. No trabalho era diferente, sendo
tratado de jeito tão frio e insensível pelo chefe. Porém, visto que precisava do
emprego, não tinha escolha a não ser engolir aquele sapo.
O bom era que podia virar o Homem-Formiga. Isso sempre o fazia sentir-se
poderoso, o polo oposto de como se sentia no trabalho. Era ótimo também para
aliviar o estresse.
No meio tempo, ele fazia a coisa certa. Manteve as emoções sob controle;
não surtou, não ergueu a voz e nem disse nada de que se arrependeria. Em vez
disso, disse:
– Obrigado, tenha um ótimo dia.
E obedientemente saiu da sala. Dera um duro danado para construir uma
carreira honesta. Não ia botar tudo a perder com uma ou outra palavra
descuidada.
Scott seguiu com o restante do dia, tentando manter o foco. A estratégia deu
certo – ele conseguiu esquecer o desrespeito de Jeff e toda a situação da ordem
de proteção. Quando terminou seu expediente, às seis, ele mal podia esperar para
chegar em casa e passar uma noite normal com Cassie. Comprou comida chinesa
para o jantar. Se ela terminasse a lição de casa cedo, quem sabe os dois poderiam
sentar-se juntos no sofá e assistir a algum filme no Netflix.
Quando entrou no apartamento, Scott ficou surpreso ao ver Cassie ajoelhada
perto do armário, como se procurasse por alguma coisa. A garota rapidamente se
levantou e disse:
– Oi.
Ele perguntou o que ela estava fazendo, e ela respondeu que estava à
procura de umas luvas, o que não fez muito sentido, visto que era um dia lindo de
maio.
Então ela afirmou que as luvas serviriam pra algum trabalho de Ciências,
envolvendo gelo. Scott percebeu que havia algo de errado com a filha, e sabia que
devia ter a ver com o FBI. Como adolescente, muitas coisas a deixavam
incomodada, e nesse dia esse tipo de sentimento devia ter se intensificado. Scott
sentiu-se péssimo, pensando que a filha devia ter tido um dia esquisito na escola
com o agente federal a seguindo para todo canto. Ele pediu desculpas por tê-la
envolvido naquela situação. A garota respondeu que não tinha problema. Depois
o beijou no rosto, foi para o quarto e fechou a porta.
Scott sentiu orgulho de ter uma filha tão tranquila e bem-ajustada. Apesar de
tudo que ele a fizera passar em seus catorze anos de vida, era incrível como a
garota lidara bem com tudo.
Assistiram a um filme depois do jantar, o último do Tom Hanks, e então
foram para a cama. De manhã, como de costume, ele levantou primeiro. Deixou
um recadinho na mesa da cozinha. “Tenha um ótimo dia.” Depois partiu para o
trabalho com Carlos na escolta.
Era outra linda manhã de primavera. Conforme caminhava em direção ao
metrô, Scott reparou no monte de formigas no chão, principalmente perto de
árvores e postes de iluminação, hidrantes, latões de lixo e outros objetos. Talvez
fosse por conta do dia perfeito – as formigas gostam de clima bom, assim como os
humanos –, mas, pensando bem, houvera uma porção de dias bonitos nos últimos
tempos.
Scott chegou ao trabalho. Fazia meia hora que começara suas atividades
quando Carlos veio e sussurrou em seu ouvido.
– Temos um problema.
Foram para um canto, para escapar dos ouvidos dos outros funcionários.
– Que foi? Tem a ver com Dugan? – perguntou Scott.
– Não estamos localizando sua filha.
Scott sentiu náusea, raiva e medo – principalmente medo.
– Como assim não a estão localizando?
Carlos explicou que Roger, o outro agente, ficou esperando para acompanhar
Cassie à escola. Mas a garota não saiu do prédio de manhã, e ninguém conseguiu
encontrá-la.
– Como assim? Ela estava no meu apartamento hoje de manhã.
Enquanto dizia isso, Scott reparou que na verdade não a tinha visto.
– Ela não está no apartamento. Nós checamos – Carlos explicou.
– Isso não faz sentido – disse Scott. – Vocês ficam plantados na frente do
prédio o tempo todo.
– Eu só queria te informar do que está acontecendo – comentou Carlos.
– Ah, bom, obrigado pela ótima informação – disse Scott, já a caminho da
saída.
Jeff não ia ficar nada contente por Scott ter que deixar o trabalho mais cedo,
mas ele não ligava. O problema tinha a ver com Cassie, e a segurança dela era o
que mais importava.
Dentro do táxi, Carlos tentou garantir que aquilo muito provavelmente não
estava conectado com Willie Dugan. Contudo, Scott temia o pior. Podia ter
calculado mal a situação desde o início. Talvez tivesse sido arrogância da parte
dele ter menosprezado a possível ameaça que Dugan representaria para sua
família, enquanto o FBI acreditava que o perigo era real. Afinal de contas, Scott
não tivera contato com o ex-sócio em quase uma década, então como poderia
saber mesmo quais seriam as intenções deste? Aparentemente Dugan já tinha
matado três pessoas até o momento; por que não matar mais algumas?
Quando o táxi chegou à rua 78, Scott saiu correndo para o prédio. Roger, o
agente do FBI que devia bancar o guarda-costas de Cassie, estava junto de
George, o ríspido zelador greco-americano com seus cinquenta e poucos anos.
Roger terminava uma ligação no celular.
– Tá bom… certo… eu ligo de vol…
– Você devia estar protegendo ela – Scott interrompeu.
– Ele chegou – Roger disse ao celular, depois encerrou a chamada. – Tá, fica
calmo.
– Minha filha sumiu, e você quer que eu fique calmo?
– Tem certeza de que ela estava no apartamento hoje de manhã?
– São vocês que estão vigiando o lugar!
– Ela não deixou o recinto – disse Roger. – Nós teríamos visto.
– Talvez ela esteja no prédio, em algum lugar – disse Scott. – Já foram ver
nos outros apartamentos, no porão?
– Verificamos tudo – disse George. – Ela não tá aqui.
Scott não gostou do tom do zelador. Ele parecia irritado e cansado, do jeito
que agia quando tinha que consertar um vaso sanitário. Para ele, a filha
desaparecida de alguém era apenas um inconveniente que complicava seu dia.
– Vão ter que verificar de novo – disse Scott. – E a cobertura? Já procuraram
na cobertura?
– A porta que dá pra cobertura é parafusada por dentro – disse George. –
Ninguém saiu por lá.
– Procurem na cobertura – Scott insistiu.
George entrou relutante no prédio.
Carlos juntou-se a Scott e Roger.
– E a escola? – perguntou Scott.
– Ela não está lá, acabei de checar – disse Roger.
– Temos que checar de novo – disse Scott.
– Ei, aonde você…
Scott nem esperou que o policial terminasse. Pôs-se a correr em direção à
escola de Cassie.
– Espera – Carlos gritou, indo atrás dele. – Você não pode ir sozinho.
Scott estava farto dessa história de medida preventiva. Queria poder lidar
com a questão sozinho, levar a briga até Dugan em vez de ficar esperando que a
briga viesse até ele. No fim das contas, se Dugan estivesse mesmo envolvido com
isso – se o cara machucasse Cassie –, Scott jamais se perdoaria.
Ele entrou direto na sala da direção e falou com a primeira pessoa que viu,
uma loira de uns vinte anos.
– Minha filha, Cassie Lang, veio à escola hoje?
– Não faço atendimento – disse a moça.
– Quem atende?
– A Bárbara. Ela não está na mesa dela.
– Quando ela volta?
– Senhor, você vai ter que esperar.
– Não posso esperar. Não tem como você ver isso?
– Senhor…
Carlos entrou, ofegante por conta da corrida. Mostrando o distintivo, disse:
– FBI. Faça o que ele pede.
A moça foi até uma mesa, pegou a lista de chamada do dia e disse: – Não, ela
está ausente hoje.
Scott soltou um palavrão. Deu meia-volta e chutou uma mesa, derrubando
uma planta; o vaso estilhaçou no chão.
O diretor entrou apressado e perguntou:
– Que tá acontecendo aqui?
Scott já conhecia o diretor, um careca atarracado – Michael alguma coisa.
Deixou que Carlos explicasse que Cassie tinha desaparecido.
– Como sabem que ela sumiu? – perguntou Michael.
Scott estava impaciente demais para lidar com esse tipo de pergunta. Ele
disse:
– Como vocês sabem que ela não veio hoje? Talvez haja um engano. Tem
como chamar o professor dela?
A loira foi fazer uma ligação. Scott notou várias formiguinhas, em fileira,
marchando pelo piso. O que não era incomum, claro.
Ou será que era?
Olhou para a parede, perto da porta, e viu mais algumas ali também.
– Com certeza há uma explicação – disse Michael. – Então isso tem a ver com
a questão da medida preventiva? Outro agente conversou comigo ontem.
– Não temos certeza de que há relação – explicou Carlos.
Scott olhou para o corredor e viu uma garota sendo levada por uma
professora à enfermaria. A menina tinha uma toalha cheia de sangue apertada
contra o nariz.
– Espero que esteja tudo bem – disse Michael. – Desculpe, esta manhã está
sendo uma loucura, e o dia está só começando.
– Por que loucura? – Scott perguntou.
– Houve um incidente na aula de Educação Física – Michael disse.
– Que tipo de incidente?
Michael lançou um olhar como se perguntasse “que diferença isso faz?”. Em
seguida disse:
– Aparentemente houve algum tipo de acidente.
A loira da secretaria se aproximou.
– Acabei de verificar com o professor-base dela. Ela não veio mesmo à escola
hoje.
Uma ideia começava a cutucar Scott, uma possível explicação para tudo
aquilo, mas ele preferiu nem pensar nela. Ainda não, pelo menos.
Ao sair correndo da escola, ouviu Carlos perguntando:
– Ei, aonde você vai agora?
Scott retornou ao seu prédio.
Roger estava na entrada.
– Ela tá lá?
Scott passou voando por ele.
– O prédio também está sob monitoramento – disse Roger –, então tem que
haver alguma explicação.
Subindo, saltando dois degraus por vez, Scott passou por George, que estava
irritado e suado, e disse:
– Não tá na cobertura, como eu tinha dito.
Scott ignorou-o. Foi para seu apartamento, direto até o armário.
As caixas pareciam intocadas, e o cofre estava trancado. Talvez ele tivesse se
enganado. Afinal, como Cassie poderia ter descoberto como abrir o cofre? Havia
sido fabricado na Alemanha, era um dos cofres caseiros mais seguros do mercado,
e ele nunca dissera a combinação a ninguém. Talvez aquilo não tivesse nada a ver
com o traje do Homem-Formiga. Talvez Cassie tivesse dito a verdade no dia
anterior, e estivera de fato procurando as luvas no armário.
Mas ele abriu o cofre… e, com toda certeza, o traje havia sumido.
– Cassie, não – disse ele. – Não acredito. Por quê? Por quê?
Ele logo imaginou o pior – Cassie se machucando ou morta – e a culpa seria
dele. Esforçava-se tanto para ser um pai responsável, e acabara dando à filha
acesso ao uniforme que podia encolhê-la até ficar do tamanho de uma formiga.
Que espécie de pai ele era? Será que merecia mesmo ser pai?
Poderia ficar se culpando mais tarde – no momento, tudo o que importava era
encontrar Cassie. Se a menina vestira o traje e descobrira como operá-lo, isso
explicaria o modo como ela passou despercebida pelos agentes do FBI. Mas Cassie
não tinha prática com o traje. Poderia estar encolhida naquele momento, solta por
aí, em algum lugar, na escola ou na cidade. E poderia sofrer um acidente fatal.
Ele estava para voltar à escola quando notou algumas formigas na parede,
perto do armário. Seria possível que Cassie estivesse em algum lugar ali no
apartamento?
Scott estava completamente aterrorizado, de joelhos, engatinhando para
todo canto em busca da filha encolhida, quando escutou:
– O que é isso?
Roger tinha entrado.
Scott chegou a pensar em contar a verdade. Afinal, o motivo principal pelo
qual ele mantinha em segredo sua identidade era a proteção da filha. Mas agora
que ela podia estar em perigo, talvez fosse melhor tirar vantagem de toda a
ajuda que pudesse conseguir para encontrá-la.
Estava prestes a pôr tudo para fora, contar para Roger sobre o HomemFormiga,
mas conteve-se. Ocorreu-lhe que, se Cassie estivesse mesmo do
tamanho de uma unha, seria muito difícil para o FBI, ou para qualquer um,
rastreá-la mais rapidamente do que ele conseguiria.
– Estou só procurando minhas, hum, chaves – Scott respondeu.
– Ah – Roger disse. – Eu ajudo.
– Não, – Scott soltou. Depois, mais calmo, disse: – Quer dizer, posso
encontrar sozinho, obrigado. Na verdade, eu queria ficar um pouco sozinho, pode
ser?
– Claro, eu entendo – disse Roger. – E só pra te avisar: mandamos um
comunicado para o departamento e para todos os federais da área. Vamos
localizar a Cassie em breve, prometo.
Ah tá, espero que todos estejam usando lupas, pensou Scott.
– Fico muito grato – disse. – Tenho certeza de que ela tá escondida em algum
lugar. Sabe, pra fazer graça.
– Com certeza é isso – disse Roger.
Quando este saiu, Scott voltou a engatinhar pelo apartamento, dizendo:
– Cassie? Cassie, onde diabos você está?
QUANDOCASSIEOUVIU A PORTA da frente se fechar – indicando que o pai havia saído para
trabalhar –, ela foi correndo até o armário, abriu o cofre e pegou o traje do
Homem-Formiga. Arrumou tudo no armário para parecer que ninguém mexera e
fechou a porta.
Como esperava, o traje não servia nela, mas ela teve uma ideia. Se o gás Pym
encolhia as pessoas, não poderia encolher objetos como o próprio traje? Valia a
pena tentar.
Cassie abriu o tubinho e apertou uma barrinha de metal. Não aconteceu
nada. Tentou de novo, com mais força, e o traje subitamente encolheu para o
tamanho de uma roupa de Barbie. Uau, muito legal, mas acabou ficando difícil de
encontrar novamente a barrinha. Encontrou, com a unha, e puxou na direção
contrária. O traje expandiu-se, mas continuava pequeno demais para ela. Foi
preciso tentar muitas vezes, mas finalmente ela conseguiu que o traje e o
capacete coubessem perfeitamente nela.
O capacete tinha antenas e uma abertura para a boca, e aberturas para
enxergar que lembravam os grandes olhos de uma formiga. Uau, seria ótimo para
usar no Halloween. Ela tinha ido a uma festa, certa vez, na qual um garoto estava
vestido de Homem-Formiga. E se ela fosse à próxima festa de Halloween com o
traje verdadeiro? Poderia fazer uma aposta: “Aposto mil dólares que posso
encolher e ficar do tamanho de uma formiga”, e então encolheria mesmo. Poderia
fazer fortuna com esse esquema, o suficiente para comprar as roupas que
quisesse. Nada de H&M – iria fazer compras na avenida Madison.
Estava pronta para encolher, mas com um pouco de medo. Não achava que o
traje pudesse machucar seu corpo, ou seu pai já estaria morto àquela altura, mas
sempre tinha medo de coisas que nunca tinha feito na vida. Lembrou-se de que
tivera medo de andar na tirolesa naquela vez, dois verões atrás, mas acabou
andando e não foi tão ruim; na verdade, foi bem divertido. Então fez o que
sempre fazia quando tinha medo: fechou os olhos e fez contagem regressiva,
começando no dez. O coração acelerou quando ela disse “um” e empurrou a
alavanca.
Não aconteceu nada.
Ela não entendeu. Tentou mais algumas vezes; mesmo assim, nada aconteceu.
Para o traje funcionar talvez fosse preciso fazer outra coisa. Não havia um botão
de ligar nem nada do tipo.
– Isso seria fácil demais, né, pai? – ela disse em voz alta.
Não parecia haver nenhum mecanismo de ativação no capacete também.
Havia algo como uma malha na área do queixo. Ela soprou ali, mas nada
aconteceu.
Tentou lembrar-se de como o pai usava o traje. Ela o viu encolhendo somente
algumas vezes, e em todas elas ficou tão impressionada ao vê-lo subitamente
ficar minúsculo que não prestara atenção a mais nada.
O pai lhe contou sobre sua identidade secreta há apenas um ano, mais ou
menos. A mãe tinha ido morar no Oregon, e Cassie ficou triste, chorando muito. O
pai sentou-se junto dela e disse:
– Cassie, para mim é muito importante ser um bom pai pra você. Na verdade, é
a coisa mais importante da minha vida. Minha razão de viver. E parte de ser um
bom pai é ter confiança, e parte de ter confiança é ser honesto, então quero ser
honesto com você sobre tudo.
Ela achou que o pai fosse pedir desculpas por alguma coisa, do mesmo modo
que sempre pedia à mãe dela por todas as coisas ruins que fizera no passado. Em
vez disso, ele falou que tinha de contar um “grande segredo” que vinha
escondendo dela.
Foi quando contou sobre o Homem-Formiga e o Dr. Pym. Contou que tinha a
habilidade de encolher e ficar pequeno como uma formiga, mas mantendo sua
força proporcional, e que podia se comunicar com outras formigas, e que às vezes
embarcava em missões junto de outros super-heróis para lutar contra o mal em
Nova York e ao redor do mundo.
Claro que ela não acreditou nele. Achou que fosse só uma historinha boba
para fazê-la sentir-se melhor, como quando os pais inventam para os filhos que
existe uma fada do dente. Mas então ele disse que ia mostrar, e vestiu o traje.
Ela continuava achando que era mentira, mas ainda assim queria acreditar
naquela mentira. Que garota não ia querer acreditar que o pai é um super-herói?
– Tá, pronto – disse ele. – Afaste-se. E quando eu encolher, não entre em pânico.
Vou continuar falando com você com a mesma voz, e posso voltar ao tamanho
normal a qualquer momento. Você tá bem? Promete que não vai se assustar?
Ela ainda achava que era tudo palhaçada. Ele diria “oops, não funcionou hoje,
quem sabe na próxima vez?”, mas estaria tudo bem, mesmo assim, porque ela
sabia que era tudo invenção. Não esperava que nada acontecesse de fato.
Mas então ele fez – bem na frente dela. Ativou o gás Pym – dessa parte ela
se lembrava – e no instante seguinte foi como se ele tivesse desaparecido.
– Cassie, eu tô aqui. Acena pra mim.
Então ela o avistou no chão, do tamanho de uma formiga.
– Ai meu Deus – ela disse, e se agachou diante dele para poder ver melhor.
Era o pai dela mesmo. E, sim, estava acenando para ela.
Mas naquele momento, enquanto tentava descobrir como ativar o traje do
Homem-Formiga, começou a se sentir ridícula. Afinal, por que queria fazer
aquilo? Seu pai ficaria tão furioso com ela se descobrisse. Valia a pena tudo aquilo
só para se vingar de Nikki? Seria muito bom fazer isso, mas não faria Tucker
McKenzie se esquecer do que vira no Instagram – e não o faria querer ficar com
ela, que é o que ela realmente queria.
Estava prestes a desistir, guardar o traje, quando sentiu algo como uma
alavanca na manga do traje acima da mão esquerda. Havia outra na direita
também. Ela empurrou a da esquerda para cima e sentiu um zumbido no corpo,
tipo um leve choque elétrico – parecido com quando estava de blusa de lã e
tocava uma maçaneta de metal num dia frio. Ela testou o outro lado, e aconteceu
a mesma coisa. Foi esquisito e interessante, mas eram apenas leves choques; não
parecia estar acontecendo nada. Provavelmente, só tinha a ver com o material de
que o traje era feito.
Então, só por via das dúvidas, a garota empurrou as duas alavancas ao mesmo
tempo enquanto soltava o gás Pym e, definitivamente, algo aconteceu porque
subitamente ela só conseguia enxergar uma coisa cinza enorme e peluda.
Estendeu a mão e tocou a coisa; parecia um dente-de-leão macio. Peraí, aquela
coisa cinza era uma bola de poeira?
Cassie olhou para a esquerda e viu mais coisas cinza por cima de algo que se
parecia com um amplo campo azul. Conhecia aquele campo azul: era o carpete.
– Ai meu Deus, isso é tão legal – ela disse.
Deu um passo à frente, e suas pernas estavam normais. Agitou as mãos –
normais também. Tudo nela parecia estar normal. Bom, tirando o fato de que
estava do tamanho de uma formiga.
Então ela tentou correr. Grande erro. Num instante, passou voando por cima
do carpete inteiro e colidiu contra alguma coisa, talvez a mesa de cabeceira.
Porém, não se machucou – fosse lá qual fosse o material do traje, com certeza era
muito resistente.
Cassie tentou correr de novo, e dessa vez entrou num borrão de branco –
provavelmente uma parede. Continuou correndo por um tempo, trombando nas
coisas e quicando como se fosse uma bola dentro de uma máquina de fliperama
gigante. Deu-se conta de que era como esquiar ou andar de patins: no começo
mandaria muito mal, mas acabaria pegando o jeito. Aquilo era muito mais
divertido do que qualquer brinquedo em que ela já andara em qualquer parque de
diversões que estivera, ou do que qualquer vídeo game que jogara. Como é que o
pai nunca lhe contara como era incrível ser o Homem-Formiga?
A menina riu e, embora a risada tenha soado como de costume, imaginou se
as pessoas poderiam ouvi-la, se poderiam ouvir sua voz. Havia uma série de
coisas que ela precisava aprender sobre o traje, e com certeza era muito mais
divertido do que ir à escola.
Imaginou o que aconteceria se ela pulasse.
Péssima ideia.
Ela saltou o que achou que seria meio metro do chão, mas acabou se
catapultando no ar e bateu a cabeça no teto. No entanto, novamente não doeu
nada, e foi muito mais divertido do que assustador.
Depois de muitos minutos correndo e saltando pelo apartamento, Cassie já se
sentia capaz de controlar seus movimentos. Além disso, estranhamente, ela
conseguia ver os objetos claramente quando os focava, como um telescópio
quando aumenta a imagem. Não sabia como conseguia fazer isso, por não estar
apertando nenhum botão nem alavanca. Parecia que estava fazendo tudo só com
a mente.
Ela podia ter ficado o dia todo no apartamento e se divertido pra caramba,
explorando suas habilidades, mas havia um motivo para ter vestido o traje do
Homem-Formiga. Não podia perder mais tempo.
Cassie passou por debaixo da porta – o que foi incrível; ela nem precisou da
chave – e parou em frente à escada. Contou:
– Um, dois, três… – e pulou.
Foi perfeito… bem, quase perfeito. Ela alcançou seu destino no fim da escada,
no quarto andar… mas quicou na parede, bateu no teto e cambaleou para os
degraus seguintes. Gritou como se estivesse numa montanha russa até pousar no
segundo andar. Não sofreu nada, mas resolveu descer os degraus um por um até o
térreo.
Passou por baixo da porta do vestíbulo, depois por cima de uma cópia do The
New York Times e saiu. Na rua, viu pernas logo à frente. Quando olhou para cima
e aproximou a imagem, viu Roger, o agente do FBI, que esperava para levá-la à
escola.
Para testar a voz, disse:
– Oi! Oi!
Mas Roger não reagiu. Pelo visto não tinha escutado nada.
Para fazer graça, Cassie pulou bem em frente ao rosto dele e disse:
– Até mais, bobão!
Ela ria muito, mas ele não fazia ideia. Deve ter pensado que era uma mosca
ou pernilongo, porque lhe deu um tapa que a fez voar e murmurou:
– Sai daqui… – ela pode ouvi-lo perfeitamente… e em seguida caiu em cima
de uma lata de lixo.
– Ei, isso não foi legal! – disse ela. Depois pulou para a calçada e seguiu para
a 1
a
avenida.
Foi quando viu todas as formigas.
Já tinha visto imagens ampliadas de formigas em livros e na internet, mas
nada poderia tê-la preparado para aqueles insetos gigantes. Pareciam
alienígenas. Alienígenas assustadores.
– Ai meu Deus, que nojo – ela disse. – Por favor… por favor, fiquem longe de
mim, tá?
Ela realmente estava falando com formigas, e esperando que a entendessem?
As formigas começaram a surgir de todos os cantos, como um exército
invasor. Ela estava prestes a dar meia-volta e fugir, mas foi cercada – estavam
avançando para cima dela.
Contudo, logo ficou claro que as formigas não tinham intenção de machucá-la.
Ela não captava uma vibração de ameaça, e achava até que tinha se acostumado
um pouco com a aparência dos insetos assim de perto, porque já não estavam mais
tão assustadoras. Na verdade, elas é que pareciam estar com medo dela, ou, ao
menos, admiradas. Formaram fileiras ao redor de Cassie, observando-a do mesmo
modo como as pessoas ficam paradas vendo o presidente, ou alguém famoso,
passando num desfile. Ela sentiu lealdade, respeito, até mesmo amor da parte
delas.
E outra coisa esquisita: vendo-as daquele jeito, tão de perto, dava para
reparar que eram diferentes entre si. Cassie sempre pensara que toda formiga
tinha a mesma aparência, mas agora podia ver que do mesmo modo que os
humanos têm traços diferentes que os distinguem uns dos outros, as formigas
também tinham. Tamanhos diversos de olhos, antenas, pernas, a cor, até mesmo
expressões faciais. Havia formigas crianças, adolescentes, adultas e mais idosas,
com cara de avô sabe-tudo. E havia também uma sensação de comunidade, ordem
– como com os humanos.
Cassie passou lentamente por entre as formigas, sentindo-se tão diferente de
como se sentia na escola, principalmente nos últimos tempos. Lembrou-se de como
Nikki e as amigas riram dela no dia anterior, na hora do almoço. Às vezes, na
escola, ela achava que ninguém realmente se importava com ela. Tá, tudo bem,
tinha alguns bons amigos – mas até Nikki, que achava que era sua melhor amiga,
se virara contra ela. Se não dá pra confiar na melhor amiga, a gente vai confiar
em quem?
Mas, por mais estranho que fosse, Cassie confiava naquelas formigas – mais
do que confiaria em qualquer humano, a não ser seu pai. Sentia que elas a
respeitavam; sabia que poderia sempre contar com elas. As formigas a faziam
sentir-se confiante, importante.
Ela mal podia esperar para chegar à escola e botar o plano em ação.
Cassie meio que trotou pela rua, com receio de ir rápido demais. A 1
a
avenida
não estava tão longe, e ela preferiu evitar o tráfego. Teve que passar por cima
de folhas, galhos, chiclete, papel de bala, cuspe, cocô de cachorro – ainda tinha
olfato humano, isso era certo – e mais coisas igualmente nojentas. Algumas coisas
ficavam tão esquisitas vistas de perto que não dava nem para ter certeza do que
eram. Ainda não tinha visto nenhum outro inseto, e com certeza não estava com a
menor pressa de encontrar uma barata – seria superassustador! Passou, sim, por
um cachorro preso à coleira, algo que foi incrivelmente fantástico. Era um poodle
miniatura do tamanho de cinco elefantes.
Tentava desviar das pessoas e manter-se longe dos pés imensos quando
ganhou a calçada na 1
a
avenida. Tinha medo de que alguém pisasse nela, mas
imaginava o que aconteceria se alguém pisasse. Não achava que seria esmagada –
se fosse o caso, o pai já teria sido esmagado umas mil vezes.
De repente, como esperado, uma bota gigante – daquelas de camurça
marrom – veio para cima dela, e tudo ficou escuro por um segundo. Ela se sentiu
encurralada, como se estivesse num quartinho e as luzes fossem apagadas
subitamente. Parte do sapato pressionava a cabeça dela, mas, incrivelmente, não
doía nada. Então, como se nada tivesse acontecido, a pessoa seguiu adiante e
Cassie ficou numa boa.
Uau. Se ela estava tão forte assim que um homem de uns noventa quilos
pisando em cima dela não lhe causava nada, quão forte estava?
Ora, por que não descobrir? Na esquina seguinte, a menina parou em frente a
um latão de lixo de metal que, claro, para ela estava gigantesco. Estendeu uma
das mãozinhas e empurrou o metal. Foi como tentar derrubar um prédio.
Contudo, como esperado, a lata tombou na rua e espalhou todo o lixo.
A sensação era maravilhosa. Ela se sentiu como se fosse a pessoa, ou inseto –
tanto faz, oras! – mais forte do mundo. Não era de se admirar que aquelas
formigas estivessem alinhadas, demonstrando tanto respeito.
Cassie passou correndo por debaixo das portas do Colégio Eleanor Roosevelt.
Viu mais algumas formigas aqui e acolá, observando-a com curiosidade, talvez
assombro, conforme seguia adiante. Ela focalizou um relógio e viu que eram umas
nove e pouco. Ou seja, hora da aula de Educação Física. Seria perfeito!
O ginásio de esportes ficava no segundo andar. Subir os degraus, ela
percebeu, era mais complicado do que descer. Ela foi pulando um por um, o que
era bem cansativo. Tinha de haver um jeito mais fácil de subir escadas – talvez
pelas paredes, como faziam as formigas –, mas não havia tempo para testes.
Cassie chegou ao segundo andar e correu pelo corredor na direção do ginásio,
Cassie chegou ao segundo andar e correu pelo corredor na direção do ginásio,
mais uma vez desviando de sapatos e outros objetos. Foi quando viu o Sr. Griffin,
seu professor de Matemática, conversando com outro professor. Cassie parou e
escutou um pouco da conversa. Não falavam sobre nada de interessante, só a
respeito de um programa de TV que os dois estavam acompanhando, mas seria
tão legal seguir os professores o tempo todo, e os colegas também, para escutar
tudo o que diziam quando ela não estava perto. Era como ser invisível, mas muito
melhor.
Teria sido incrível encontrar Tucker McKenzie, espiá-lo o dia todo e descobrir
o que ele realmente pensava dela. Mas ela sabia que não tinha muito tempo.
Roger já devia ter sacado que ela tinha sumido, e não tardaria muito em chamar o
pai dela. Era preciso voltar para casa e guardar o traje do Homem-Formiga de
volta no cofre antes que o pai percebesse que ela o tinha pegado.
No ginásio, todas as meninas estavam em fileira para treinar lance livre de
basquete. Cassie era péssima no esporte – que bom que estava matando essa
aula. Ela avistou Nikki na fila, falando com Keely, umas de suas amigas.
– Sei lá. Não quero – disse Nikki.
– Ah, para com isso, vai ser tão legal – disse Keely.
– É, talvez, não sei – disse Nikki.
– Você vai mudar de ideia – Keely retrucou.
Cassie não tinha a menor ideia do que as duas estavam falando. Adoraria ter
ficado para escutar o restante da conversa, esperar até que dissessem algo
interessante, mas não queria perder mais tempo. Então ela pulou nas costas de
Nikki, na altura da cintura – que lhe pareceu gigantesca, claro. Então, agarrando
os shorts da menina com as duas mãos, Cassie saltou como quem salta de
paraquedas só que de uma montanha, o tempo todo sem soltar o elástico. Como
esperado, o shorts caiu, e Nikki ficou só de calcinha na frente de todo mundo.
A menina ficou confusa e chocada. E só piorou a situação quando gritou, então
todas as meninas ao redor olharam para ela e caíram no riso. Cassie ria muito
também. Ela saltou fora do elástico assim que Nikki puxou o shorts para cima.
– Ai meu Deus, por que fez isso comigo? – Nikki perguntou à Keely.
– Quê? – disse Keely. – Não fiz nada!
A professora de Educação Física, a Sra. Jill, que era sempre muito rígida e
meio malvada, se aproximou e disse:
– O que está acontecendo aqui?
– A Keely puxou meu short pra baixo – disse Nikki.
– Não puxei, não – protestou Keely.
Nikki e Keely continuaram discutindo, e Jill avisou que as deixaria no banco
de castigo até o final da aula se não se comportassem. Enquanto isso, Cassie e as
outras meninas continuavam rindo. Uma pena Tucker McKenzie não estar ali –
teria sido ainda mais perfeito.
A Sra. Jill soprou o apito, e o treino de basquete continuou. E então Cassie
teve outra ideia. Havia um monte de bolas de basquete num canto, não muito
longe da cesta na qual Nikki praticava. Cassie passou para trás de uma das bolas,
que para ela tinha o tamanho de uma roda gigante; quando Nikki se aproximou
da cesta e estava prestes a fazer um lance, Cassie jogou a bola nela. A ideia era
só assustar a menina e fazê-la errar o arremesso, mas ainda havia muito que
aprender no controle da força e dos movimentos do Homem-Formiga, ou MeninaFormiga,
ou seja lá quem ela fosse. Ela arremessou a bola muito mais forte do que
pretendia, e atingiu o nariz de Nikki. Foi tão forte que deu pra ouvir um crunch
bem alto.
Nikki começou a gritar e chorar, jorrando sangue pelo nariz no piso do
ginásio. A professora não viu o que aconteceu, mas supôs que Keely estava
envolvida e gritou com ela, mandando-a para a diretoria. Instruiu também outro
aluno, Julien, a ir chamar a enfermeira. Só depois foi dar atenção a Nikki, e
tentar acalmá-la. Mandou as demais alunas saírem da quadra e irem para o
refeitório.
Cassie sentiu-se péssima. Não queria de fato machucar Nikki – só dar um
sustinho nela.
– Ai meu Deus, me desculpa! – disse, e então viu algo que parecia ser uma
imensa bola de sangue vindo em sua direção. Saiu do caminho antes que a
alcançasse – aquilo teria sido muito nojento.
E então ela entrou em pânico. Por todo o tempo, desde que tivera a ideia de
pegar emprestado o traje do Homem-Formiga, tinha ficado tão empolgada vendo
o mundo da perspectiva de uma formiga e descobrindo todos aqueles poderes
legais, que jamais havia pensado sobre as possíveis consequências. Tinha acabado
de machucar Nikki, provavelmente quebrado o nariz da menina, mas e se tivesse
feito coisa ainda pior? Ela só quis, então, voltar para casa e guardar o traje antes
que alguém descobrisse – ou que causasse ainda mais problemas.
A menina disparou pelo piso da quadra, passando pela enfermeira, que corria
para prestar socorro a Nikki, e seguiu pelo corredor, andando dessa vez pela
parede, para ficar fora do caminho da multidão de alunos. No final do corredor,
viu Tucker McKenzie e parou.
Reconheceu primeiro os tênis do garoto, os Nikes com as cores dos Knicks,
laranja e azul, e então olhou para o rosto dele. Mesmo daquele ângulo esquisito,
o menino era incrivelmente bonito. E estava obviamente falando sobre o que
tinha acontecido na quadra.
– Quem fez aquilo? – ele perguntou.
– Ninguém sabe – o outro menino respondeu.
– Disseram que a bola simplesmente voou e acertou nela sozinha – disse
outro.
– Cara, isso é tão louco.
Cassie focalizou o rosto de Tucker. Não era de se admirar que estivesse tão a
fim dele. Era o menino mais gato que já vira na vida.
De repente o Nike veio parar em cima dela, e ela ficou presa num vão
embaixo da sola. Estava presa mais uma vez, como numa cela escura. No entanto,
não sentiu medo, apenas frustração.
– Anda, sai daqui, Tucker – disse Cassie. – Preciso ir embora.
Finalmente, talvez um minuto depois, Tucker saiu andando, provavelmente
indo para a sua próxima aula. Cassie desceu as escadas, correu para a entrada do
colégio, derrapou ao virar no corredor e saiu.
Foi correndo pela 1
a
avenida, evitando obstáculos, como anteriormente, e
então viu o pai – e Roger logo atrás dele – correndo para a escola. Será que o pai
tinha descoberto que o traje do Homem-Formiga estava sumido? Com certeza ela
receberia um belo castigo – o maior que já recebera.
Cassie atravessou a rua, notando mais formigas ao redor, e finalmente
chegou ao prédio. Pulou as escadas, degrau por degrau, o mais rápido que pôde.
Seu pai a estava procurando na escola, e quando descobrisse que ela não fora à
aula, voltaria para casa. Era preciso retornar ao tamanho normal e guardar o
traje antes de ele voltar. Finalmente, ela chegou ao quinto andar. E viu George, o
zelador, vindo em sua direção.
O cara parecia irritado com alguma coisa. Ele parou de andar e olhou para
baixo, fitando-a diretamente. Foi a primeira vez, desde que encolhera, que um
humano olhava direto para ela, e ter aquele rostão encarando-a foi
aterrorizante. Então ele fez uma careta e disse:
– Malditos insetos.
Em seguida seu imenso sapato preto voou rápido para cima de Cassie. O
zelador queria esmagá-la.
Ela escapou do sapato – que pareceu fazer todo o piso tremer – por um
segundo. Teve receio de que o homem percebesse, caso olhasse bem para ela, que
de fato não era um inseto. Cassie correu e deslizou por debaixo da porta do
apartamento em busca de segurança.
Bom, nem tanta segurança assim. Ainda tinha que voltar ao tamanho normal.
Ela pressionou as alavanquinhas das mangas simultaneamente, pensando que esse
poderia ser o truque, mas não aconteceu nada. Tentou movê-las na direção
oposta, mas nada de novo.
– Por favor – disse. – Anda…
Estava começando a entrar em pânico, com medo de nunca mais poder voltar
ao tamanho normal.
Cassie manejou as alavancas para todos os lados, mas mesmo assim nada
aconteceu – nem mesmo aquela sensação esquisita, aquele zumbido de antes. Ela
só queria tirar aquele uniforme, mas teve medo de fazer isso estando daquele
tamanho. Quis ser forte, não chorar, mas seus lábios começaram a tremer e
algumas lágrimas rolaram pelas bochechas.
A porta da frente se abriu, e seu pai entrou. Parecia gigantesco, mas ela já
estava se acostumando a ver as pessoas desse ângulo.
– Pai! – ela gritou. – Pai, eu tô aqui! Paiê!
Ele não podia escutá-la, é claro. A menina sentiu como se estivesse num
daqueles sonhos angustiantes em que a gente quer fazer alguma coisa ou chegar
a algum lugar, mas continua se distraindo, ou não tem velocidade ou força
suficiente, e a única coisa que se quer fazer nunca se consegue. Só que aquilo não
era sonho – era um pesadelo completo.
O pai foi direto para o armário, checou o cofre, isso quer dizer que ele deve
ter descoberto de alguma forma que ela havia pegado o traje. E isso era uma
coisa boa, ela refletiu, porque então ele tentaria encontrá-la. Dito e feito: ele
ficou de joelhos e saiu engatinhando.
– Pai, aqui embaixo! Aqui! – ela gritava.
E então Roger entrou no apartamento. O pai inventou uma desculpa, disse
que estava procurando suas chaves, e conseguiu fazer com que ele o deixasse
sozinho.
– Cassie? Cassie, cadê você, filha?
Ela nunca tinha visto o pai assim tão preocupado.
– Aqui, pai! – A menina pulava, acenando com os braços. – Aqui!
– Cassie. Achei.
Ele estendeu sua mão gigante, e a menina pulou sobre ela. Então ele a trouxe
para perto do rosto. Seus olhos brilhavam, furiosos.
É, o castigo seria dos grandes.
Imenso.
SCOTT FICOU EMOCIONADO, bravo e morto de medo. Emocionado por ter encontrado
Cassie, bravo por ela o ter colocado naquele inferno matinal, e morto de medo de
não conseguir devolver a filha ao tamanho normal.
– Pelo amor de Deus, Cassie – ele disse, vendo a miniatura da filha na palma
de sua mão. – Por que você fez isso, hein? Por quê?
Não esperava que ela respondesse. Era bastante difícil aprender a modular a
voz no traje do Homem-Formiga; já era impressionante ela ter descoberto como
fazer para encolher e ter se virado por aí. Era uma menina esperta, mas também
muito ousada – uma combinação perigosa.
– Deixa pra lá – disse ele. – Com certeza tem um motivo, mas não me
importa agora. Só quero te ajudar, tá me entendendo?
Mal dava para ver a cabeça dela, mas conseguiu ver que ela assentiu.
– Que bom. Agora, vou te colocar de volta no chão, e quero que faça
exatamente o que eu mandar, tá?
Ela assentiu novamente.
Scott pousou a mão no chão, e a menina pulou. Aquela era sua filhinha, a
coisa mais importante da sua vida, e estava menor que uma borracha de lápis.
Como pai, ele nunca havia se sentido tão impotente.
– Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Mas o fato era que ele não tinha a menor certeza disso. Nunca tivera que
explicar a ninguém como usar o traje do Homem-Formiga, e aprendera tudo com
apenas uma única pessoa, Hank Pym. Cassie era adolescente, ainda estava
crescendo, e era menina. Ele não tinha ideia de como essas variáveis afetariam a
tecnologia.
– Certo. – A voz dele tremia, não podia evitar. – Você tem que ativar o gás
expansor. O que quero que faça é tocar essas alavancas de controle na manga.
Você já as encontrou, tenho certeza, mas agora você precisa mantê-las abaixadas
e contar até cinco, e, ao mesmo tempo, pender a cabeça pra baixo, colar o queixo
no peito. Tá, vamos contar até cinco. Um, dois…
Alguma coisa bateu em Scott como um soco aplicado bem embaixo do queixo.
Ele foi catapultado para trás e colidiu contra a porta do armário. Demorou alguns
segundos para ele se orientar e perceber que tinha sido atingido pelo capacete do
Homem-Formiga, quando Cassie retornou ao tamanho normal.
Scott, meio tonto, conseguiu levantar-se.
– Cassie, você tá bem? Fala alguma coisa. Por favor – ele disse, agarrando a
filha pelos braços.
– Tá… tá tudo bem, pai.
Dava para ver que estava assustada. O jeito que dissera “pai” o tocara.
Sempre tocava; sempre tocaria.
– Graças a Deus! – Ele abraçou a menina o mais forte que pôde sem machucá-
la e disse: – Você não tem ideia de como fiquei preocupado.
– De-desculpa. Nunca mais vou fazer isso. Eu juro, pai.
Ele tirou o capacete da cabeça dela e deu-lhe uma chacoalhada.
– Tá bem mesmo? Como se sente?
– Totalmente normal. Assim, quero dizer fisicamente.
– Tem certeza? Todos os órgãos do seu corpo, inclusive o cérebro, se
– Tem certeza? Todos os órgãos do seu corpo, inclusive o cérebro, se
encolheram e se expandiram novamente. Vai saber que efeito isso pode causar
em você.
– Eu sei, mas tô superbem, juro.
– Onde você nasceu?
– Quê?
– Em qual cidade você nasceu?
– São Francisco.
– Qual era o nome do seu primeiro cachorro?
– Duncan. Já disse, pai, eu estou bem.
– Espero que sim. Espero mesmo que sim.
– Com que você tá tão preocupado, afinal? – Cassie perguntou. – Você faz
isso o tempo todo, não faz?
– É, mas eu sou adulto. Você ainda tá crescendo. Não faço ideia do efeito que
isso pode ter em você. É território desconhecido, e é perigoso, e não é algo que
você podia ter feito sozinha.
– Tô me sentindo normal. Só meio boba, acho.
Agora que sabia que ela estava bem, e aparentemente ilesa, a raiva de Scott
começou a se mostrar.
– Por que você fez isso? – disse Scott. – O traje não é um brinquedo, Cassie.
Quantas vezes eu já te disse isso? Pensei que podia confiar em você.
– Mas você pode.
– Posso mesmo? Não foi o que você me mostrou hoje. E se eu não tivesse te
encontrado? E se outra pessoa te encontrasse? E se você se machucasse ou
morresse? Chegou a pensar nisso?
– Na verdade, não – ela disse.
– Viu, esse é o problema. Você não pode viver desse jeito! Não pode correr
riscos. Quem corre riscos acaba morto.
Scott sabia que estava sendo hipócrita, claro. Durante boa parte de sua vida
ele correra muitos riscos, viciado em adrenalina.
Mas com ele era uma coisa. Com a filha, a história era outra.
– Eu só queria pregar uma peça numa pessoa – disse Cassie.
– Uma peça? Que tipo de peça?
– Eu sei que vai parecer muito idiota, mas eu tava com raiva e… bom, nem
pensei que fosse funcionar.
– Então a peça era pra mim?
– Não, pra uma menina da escola.
Scott lembrou de ter visto formigas na escola e a menina com o nariz
quebrado entrando na enfermaria.
– Peraí – disse –, você machucou alguém?
– Foi sem querer. Eu só quis jogar uma bola de basquete na Nikki e…
– E se alguém tivesse te visto? Você estava pequena, mas não invisível.
– Ninguém me viu.
– Acredite em mim, sempre tem alguém que vê as coisas. Principalmente hoje
em dia. Então agora todo mundo acha que uma bola de basquete, por conta
própria, acertou a Nikki no nariz? E se alguém tiver filmado com o celular? O
vídeo pode estar no Instagram ou no YouTube agora, viralizando.
– Ninguém filmou. Acham que foi uma menina que fez isso, a Keely.
– E o que vai acontecer quando a Keely negar? Isso aqui não é brincadeira.
Tem sérias consequências, principalmente agora que estamos sob ordem de
proteção.
– Não foi só culpa minha – disse Cassie.
– Como assim? Como você…
– Se não fosse você, nada disso estaria acontecendo. É você que tem esse
maldito traje de Homem-Formiga, é você que tá sob ordem de proteção. Você,
com todos os seus segredos… que eu tenho que ficar guardando pra você.
Cassie estava chorando. Scott odiava vê-la assim tão chateada. Além disso, a
menina tinha um pouco de razão.
– Tá, você tá certa – disse ele. – Eu fiquei com medo, só isso. Você é tudo pra
mim. Não sei o que faria sem você.
– Eu… eu nunca mais vou fazer isso. – agora ela soluçava. – Eu juro. Eu juro.
Scott a abraçou, prometendo que tudo ficaria bem, e que deixariam esse
incidente para trás.
Então, quando ela já estava se acalmando, ele disse:
– E aí… como se sentiu sendo o Homem-Formiga?
– É incrível – ela disse.
– Não é? – disse Scott.
– Quer dizer, você me contava sobre como as coisas ficavam legais, assim, por
essa perspectiva, mas até eu ver com meus próprios olhos não dava pra ter ideia.
E a força…
– É, foi assim também quando me tornei Homem-Formiga pela primeira vez –
disse Scott, lembrando-se do dia em que Hank Pym o mostrara como usar o
uniforme. – Ainda estou impressionado com o jeito como você aprendeu a se
mover, andar por aí. Levei uma semana pra me acostumar.
– Sei lá, acho que pra mim foi muito natural – disse Cassie. – Hã, aliás, é
Menina-Formiga, não Homem-Formiga.
Scott sorriu. Cassie continuou descrevendo como aprendera a correr e a pular,
subir e descer escadas, e a experiência de ter observado o comportamento das
formigas. Scott fazia algumas piadas, sobre como aprendera a falar usando o som
normal da voz, mesmo encolhido, e como aprendera, com o tempo, a se comunicar
com as formigas. Mesmo chateado com a filha por ela ter roubado o traje e se
colocado em perigo, ele tinha de admitir que foi revigorante conversar sobre as
experiências. Além de Hank Pym, Scott nunca conversara com ninguém que
tivesse vivenciado aquilo, e o fato de poder falar disso com a própria filha era
ainda mais empolgante. Ele sempre se sentia mais próximo dela quando mexiam
com tecnologia juntos, construindo ou desmontando algo – mas recentemente,
depois que ela entrou na adolescência, os dois não passavam mais muito tempo
juntos. Foi bom ter mais uma coisa que os ligasse.
– Posso usar de novo algum dia, pai? – ela pediu.
– Talvez, quando tiver 21. E vai ter que pensar em algum jeito de se
desculpar com essa Nikki.
– Como? – Cassie perguntou. – Não posso falar a verdade.
– Não, mas pode compensá-la karmicamente – disse Scott. – Pode mandar um
cartão desejando melhoras, ajudá-la com a matéria, fazer algo de bom pra ela.
– Mas pai, ela andou sendo tão má comigo ultimamente. Foi por isso que eu
quis me vingar.
– Bom, você vai ter que achar outro jeito de resolver essas divergências –
disse Scott. – Ah, e você está de castigo. Não vai sair com nenhuma amiga. Só
pode sair do apartamento pra ir à escola, e depois vai voltar direto pra casa.
– Isso não é justo.
– Depois do que fez hoje, tô pegando leve até demais. E pode levar o celular
para a escola, por segurança, mas nada de celular em casa por uma semana.
– Sem celular? – Cassie estava chocada. – Que maluquice! Não posso viver
sem meu celular.
– Por milhares de anos os humanos conseguiram sobreviver sem iPhones, acho
que você também vai conseguir.
Enquanto ajudava a filha a tirar o resto do traje, Scott reparou que ela
estava chateada. O que significava que ele a havia tocado. Estava pegando a
manha dessa história de ser pai solteiro; talvez aqueles livros de autoajuda
estivessem começando a dar resultado. Cassie precisava ser amada, mas com
disciplina, e Scott estava conseguindo oferecer ambos.
Ele guardou o traje no cofre e dirigiu-se a Cassie:
– Vou mudar a combinação, então nem pense em tentar abrir de novo.
– Não se preocupe, não vou.
– Acredito em você – disse Scott. – Agora temos que dar a Roger e a todos
que estão te procurando uma explicação para o que aconteceu hoje de manhã. A
polícia toda está atrás de você.
– Ai meu Deus – disse Cassie.
– Tenho uma ideia. Vem cá.
Scott e Cassie saíram, foram até a entrada do prédio, onde estavam Roger,
Carlos e George, conversando. Roger e Carlos ficaram claramente aliviados ao
vê-la.
– Onde ela estava? – perguntou Roger.
– No telhado – disse Scott.
– Mas eu chequei o telhado – disse George. – Não havia ninguém lá.
– Ela tava escondida – Scott disse.
– Não é possível que ela estivesse no telhado – George insistiu. – A porta é
trancada, por dentro.
– Você deve ter se enganado, porque foi lá que eu acabei de encontrá-la –
disse Scott.
– Eu não me enga… – começou George.
– Agora não importa – interrompeu-o Roger. – Ela está em segurança, é isso
o que importa – ele disse para Carlos. – Mande cancelarem as buscas.
Carlos foi fazer a ligação.
Roger se virou para Cassie:
– Por que fez isso, Cassie? Queria deixar todo mundo preocupado?
Antes que ela pudesse responder, Scott interveio:
– Ela ficou chateada com esse negócio de proteção.
– Eu entendo – disse Roger –, mas a gente está aqui para ajudar vocês dois.
Vocês vão colocar todos nós em perigo se não nos deixarem fazer nosso trabalho.
Queremos que vocês tenham privacidade, mas se tivermos que ficar dentro do
apartamento, vamos ficar.
– Isso não será necessário – disse Scott. – Cassie e eu tivemos uma longa
conversa sobre o que aconteceu, e ela me garantiu que não vai acontecer de novo.
Não é mesmo, Cassie?
– Sim, tá certo – disse a menina. – Eu prometo.
Roger olhou fixamente para Scott, depois para Cassie, por um bom tempo. E
então disse:
– Então tá. Bom, acho que é melhor irmos pra escola, não? Antes tarde do que
nunca.
– Vou pegar a mochila – disse Cassie, e correu para dentro do prédio.
Carlos retornou e disse para Roger:
– Resolvido. – Em seguida perguntou para Scott: – E aí, quer voltar pro
escritório?
– Vamos lá – disse Scott.
Estava ansioso para retomar a rotina e se esquecer daquela manhã louca e
frenética. Ele reparou que as formigas que vira antes tinham sumido. Obviamente
deviam ter ficado intrigadas com a presença de uma pessoa nova, uma garota,
usando o traje do Homem-Formiga. Mas agora que a confusão havia terminado,
elas também poderiam retornar à suas rotinas atarefadas.
Carlos tinha estacionado do outro lado da rua. Quando foi entrar no carro,
Scott viu uma mulher muito atraente, com traços do Mediterrâneo – cabelos
escuros compridos, de tailleur justo –, caminhando pela calçada em sua direção. Os
dois se notaram ao mesmo tempo e sorriram. Atração mútua? Bom, pelo menos
Scott achou que sim. Pena que ele tinha um acompanhante do FBI, senão teria
dito oi, tentado puxar papo.
Quando saíram, o celular de Carlos tocou; ele atendeu pelo Bluetooth,
dizendo:
– Alô?
Scott percebeu, pela expressão muito séria do agente, que ele estava
recebendo algum tipo de informação importante.
Scott olhou para trás, procurando a mulher, desejou ter dito algo para ela.
Carlos dizia à pessoa com quem conversava no celular:
– Sim… ok… tudo bem… certo, obrigado.
E então ele desligou o celular e disse:
– Era sobre o Willie Dugan.
– Pegaram ele? – Scott perguntou.
– Melhor que isso. – Carlos disse. – Ele está morto.
CARLOS EXPLICOU QUE O CORPO de Willie Dugan tinha sido encontrado num armazém
abandonado em Breaux Bridge, Louisiana.
– Boa notícia para você – disse. – Pelo visto a sua vida vai voltar ao normal,
amigo.
– Louisiana? – Scott ficou surpreso. – O que Dugan tinha ido fazer lá?
– Quem sabe, e quem liga? Só fico feliz por ele estar fora de circulação, você
não está?
– Como ele morreu?
– Não recebi os detalhes ainda. A notícia deve ter chegado há uns dez
minutos, mas com certeza logo vamos ouvir mais. Com alguma sorte, já no fim do
dia a ordem de proteção vai ser cancelada e você e sua família poderão seguir
normalmente com suas vidas.
O fim da ordem de proteção era, sem dúvida, uma ótima notícia, mas alguma
coisa nela fez com que Scott se sentisse inquieto. No celular, ele pesquisou
informações sobre Dugan. Não havia nada na internet sobre a morte dele, o que
fazia sentido, já que tudo havia acabado de acontecer. Logo a história estaria no
noticiário. Scott mal podia esperar para saber mais detalhes.
– Que foi? – perguntou Carlos. – Pensei que fosse ficar animado.
– Mecanismo de defesa – disse Scott. – Não gosto de ficar muito empolgado
ou triste a respeito de nada até saber todos os fatos. Me poupa de ficar chateado
quando as coisas não saem do jeito que eu gostaria.
– Ah, entendi. Mas às vezes você precisa se soltar, ser otimista. O Dugan
morreu, amigo. Aleluia.
Carlos levou Scott diretamente ao posto de trabalho na avenida Park South.
Uma startup de tecnologia de São Francisco estava abrindo escritórios em Nova
York, e Scott e sua equipe da NetWorld estavam instalando toda a rede e os
cabos para o escritório de um andar inteiro. Era um trabalho tão complicado,
coordenar a instalação de uma rede para 150 usuários, que ele praticamente se
esquecia do oficial que o seguia. Assim como, bem, uma formiguinha, Scott foi
absorvido pelo trabalho e pela rotina diária.
No fim do expediente, Carlos aproximou-se dele e disse:
– Pronto para ir?
– E quanto ao Dugan? – Scott perguntou.
– Houve um problema – disse Carlos. – Bom, uma mancadinha, por assim
dizer. O corpo de Dugan ainda não foi identificado. Mas fica tranquilo, é ele sim.
Os dois atravessavam o escritório, seguindo por um corredor entre os
cubículos vazios.
– Não entendo – Scott disse. – Como isso é possível?
Havia alguns funcionários por perto. Scott reparou que Carlos não queria
conversar sobre aquele assunto ali.
Mas quando estavam no carro, a caminho da Upper East Side, Carlos disse:
– Algumas coisas ainda não vieram a público, então isso deve ficar entre nós,
certo?
– Claro – disse Scott. – O que tá acontecendo?
– Com certeza foi assassinato – Carlos disse. – Talvez tenha sido alguém do
próprio grupo do Dugan que o pegou, mas ele fez algum inimigo por aí. O corpo
dele foi encontrado dentro de um contêiner com uma espécie de ácido. É por isso
que vai demorar um pouco pra identificar.
– E por que estão tão confiantes de que é ele mesmo? – Scott perguntou.
– Os policiais encontraram as roupas e os documentos dele no local – disse
Carlos. – E também havia digitais dele em um carro roubado que encontraram lá
perto.
– Mesmo assim, como sabem que é ele?
– Olha, não estou envolvido diretamente na investigação, então não tenho
como responder tudo – Carlos disse. – Só sei o que me disseram: era Dugan que
estava no contêiner.
Scott não se convenceu. Havia muitas pontas soltas.
– Estou vendo que você continua com esse seu mecanismo de defesa – disse
Carlos. – Não se preocupe, logo tudo vai acabar. Vai ficar tudo bem, amigo.
Quando chegaram ao prédio de Scott, os agentes Warren e James estavam
na entrada, conversando com Roger, o outro agente. Quando viram Scott e Carlos
chegando, pararam de falar.
– O que estão fazendo aqui de novo? – perguntou Scott.
– Não é meu departamento – disse Carlos. – Minha função é te proteger. Eu
não me preocuparia. Deve ser apenas um acompanhamento de rotina.
Scott abordou os homens com um sorriso forçado.
– Sejam bem-vindos, pessoal. Quanto tempo!
– Temos que conversar – disse Warren.
Ele soou muito sério, não como se tivesse vindo fazer um “acompanhamento
de rotina”.
No apartamento, Scott viu que a porta do quarto de Cassie estava fechada.
Deu para ouvir uma batida suave de música vindo de dentro dele.
– Já ficou sabendo da novidade? – perguntou Warren.
– Alguma coisa, sim – disse Scott. – Você podia me aprofundar.
– O que já sabe?
Scott não queria mencionar nada do que Carlos lhe contara
confidencialmente, então rebateu:
– Porque você não começa?
– Willie Dugan foi encontrado morto na Louisiana – disse o agente James.
– E vocês têm certeza de que é Dugan mesmo? – perguntou Scott.
– Que tal você nos dizer isso? – pediu James.
– Dizer o quê? – Scott disse. – Vocês que estão me atualizando.
James e Warren trocaram olhares.
E então Warren perguntou:
– Recentemente você andou tendo contato com Willie Dugan?
– É sério que você vai vir com essa para cima de mim, de novo? – Scott
protestou.
As caras de pudim dos agentes indicavam que sim.
– Não – disse Scott. – Há anos não tenho contato nenhum com ele, já disse
isso. Não faço ideia do que ele foi fazer na Louisiana, ou de quem o matou, se
essa for a próxima pergunta.
– Quem disse que ele foi morto? – Warren perguntou. – Eu só disse que ele
morreu.
– Seu colega me contou, tá? – disse Scott. – Ele não me deu mais nenhum
detalhe, mas o caso já deve estar no noticiário, também. E não gosto nada de
vocês aparecerem aqui me acusando quando, obviamente, eu não tenho
absolutamente nada a ver com isso.
Imperturbável, Warren perguntou:
– Teve contato com algum dos associados de Dugan?
– Quê? – Scott perguntou.
– Teve? – Warren insistiu.
– Claro que não – Scott respondeu.
– Espero que esteja falando a verdade – disse Warren. – Lembre-se de que
você tem uma filha que depende de você.
Scott entendeu a insinuação, mas perguntou:
– O que isso quer dizer?
– Que seria uma pena você ter que voltar para a prisão por mais um longo
tempo – Warren disse.
Scott, furioso por dentro, conseguiu manter-se calmo por fora.
– Pra que eu iria querer entrar em contato com alguém? – perguntou.
– Parece óbvio para mim – disse Warren. – Dugan tem um ressentimento
contra você, você acha que ele vai vir atrás de você, então você resolve
surpreendê-lo. Você já foi criminoso, tem uma ficha longa, deve ter contatos.
Pode ter contratado alguém pra rastreá-lo e dar um jeito nele. Do jeito que
aconteceu, com certeza foi assassinato por vingança.
– Quero um advogado – disse Scott.
– Só gente culpada precisa de advogado – disse Warren.
– Não, gente inocente que está sendo assediada também precisa – Scott
disse.
Warren abriu um sorriso falso, depois acenou para James. Os dois seguiram
até a porta. No entanto, quando se aproximou de Scott, ele parou. Olhando bem
nos olhos de Scott, ele disse:
– Eu sei quando alguém está escondendo alguma coisa, quando alguém tem
um segredo… e você é alguém que tem. Não sei o que é, mas, pode acreditar, eu
vou descobrir. – Após uma pausa, ele acrescentou: – Nos falamos depois – e saiu
do apartamento.
Ansioso por mais novidades, Scott ligou a TV no noticiário. Como esperado, a
descoberta do corpo na Louisiana já era manchete principal na CNN, mas não
houvera maiores desenvolvimentos, pelo que Scott viu. A polícia acreditava que
Willie Dugan tinha sido assassinado, talvez por um membro da própria equipe. O
detetive principal do caso concedeu uma breve entrevista coletiva, na qual
afirmou que a investigação estava em “andamento”, mas não deu novas
informações.
Scott estava preocupado; não ficava nada feliz quando tinha mais perguntas
do que respostas. Se Dugan tivesse sido morto por um membro da equipe, por que
o cara teria tanto trabalho para se desfazer do corpo – tornando difícil ou até
impossível fazer a identificação –, para depois deixar roupas e um carro cheio de
digitais? Se o objetivo era acobertar o assassinato, por que não se livrou de tudo?
Era possível que a pessoa que cometera o crime não fosse lá muito brilhante.
Afinal, a maioria dos criminosos que Scott encontrara na vida não era dos mais
espertos mesmo, motivo pelo qual acabavam todos indo parar na cadeia. Scott
torceu para que fosse esse o caso dessa vez, e que Dugan estivesse mesmo morto,
mas preferia não apostar muito nisso ainda.
Cassie saiu do quarto e perguntou:
– O que tá acontecendo? O que você estava falando com aqueles caras do
FBI?
Scott desligou a TV. Torceu para que ela não tivesse ouvido a conversa,
principalmente a parte em que o agente Warren o ameaçou de ser mandado de
volta à prisão. Não queria ver a filha triste ou preocupada.
– Ah, na verdade, são boas notícias – disse Scott. – Acham que a ordem de
proteção vai ser anulada logo.
– Uau, jura? – disse Cassie. – Que maravilha! Era só disso que vocês estavam
falando?
Cassie provavelmente não escutara nada da conversa, mas era uma menina
esperta, com boa intuição.
– Só – Scott disse.
Scott era um mentiroso terrível. Teve a sensação de que Cassie soube que ele
estava escondendo alguma coisa.
Se sabia, ela preferiu não pressionar.
– Que coisa boa – disse. – Aquele Roger não era má pessoa, mas vai ser um
alívio poder ficar sozinha de novo.
Scott conseguiu esquecer-se de Dugan por um tempinho e aproveitou uma
noite relaxante em casa com a filha. Estava pra lá de empolgado por ela não
demonstrar nenhum efeito adverso resultante de sua experiência dentro do traje
do Homem-Formiga. Parecia completamente normal: saudável, contente e cheia
de energia.
Ao longo do dia, Scott recebera algumas mensagens da ex, Peggy. Ela
continuava, compreensivelmente, incomodada com toda a questão da ordem de
proteção. Ele escrevera para ela dizendo que acreditava que a ordem seria em
breve anulada, mas não dera maiores detalhes.
Por volta da meia-noite, ela ligou.
– Por que o policial continua em frente à minha casa? – perguntou.
Preparando-se psicologicamente, Scott respondeu:
– Desculpe, pensei que a uma hora dessas já estaria tudo acabado.
– Não aguento mais. Eles me seguem pra todo lugar!
– Eu sei – disse Scott. – Mas não vai durar muito tempo.
– Por que isso continua? Eu vi no noticiário… Dugan morreu, né?
– Presumem que sim – Scott disse. – Mas o FBI parece ter certeza de que é
ele mesmo.
– E se não for? Isso vai durar pra sempre?
– Não – Scott disse.
Peggy respirou fundo.
– Posso falar com a Cassie, por favor? – pediu. – Eu liguei para ela, mas o
celular está desligado.
– Ela foi dormir mais cedo hoje – disse Scott.
– Sinto tanta falta dela – Peggy disse. – Como ela está?
De jeito nenhum Scott podia contar que Cassie vestira o traje do HomemFormiga
e se encolhera. Era certo que Peggy usaria isso como prova de que ele
não estava fazendo um bom trabalho como pai.
– Tivemos um probleminha aqui, uma questão de indisciplina, mas já passou.
– Ela está bem? – Peggy pareceu entrar em pânico.
– Sim – Scott disse. – Melhor do que nunca. Acho que tem um namoradinho.
– Tucker McKenzie – Peggy disse, sem hesitação.
– Tá sabendo dele? – Scott perguntou.
– Claro que tô sabendo dele. Tem coisas que uma garota conta pra mãe e não
conta pro pai, sabia?
Scott não gostou nada disso.
– De que coisas exatamente você tá falando? – perguntou.
– Eles ainda nem se beijaram, se é isso que você tá pensando. Mas sua filha está
crescendo, Scott. Você vai ter que aceitar isso.
– Quem, minha filha, a Rapunzel? – Scott brincou.
Peggy não riu. Fazia muito tempo que não ria de suas piadas.
– Sinto que estou perdendo todos esses momentos – disse Peggy. – Digo, por
não estar por perto.
– Você vai ver a Cassie nas próximas férias. Só faltam alguns meses. E outra,
você está onde devia estar, com a sua mãe. Por falar nisso, como ela está?
– Não muito bem, eu acho. Tem dias que ela não me reconhece. Bom, quase
todos.
– Que pena ouvir isso – Scott disse. – Se tiver algo que eu possa fazer, me
avise.
– Obrigado, fico muito agradecida – Peggy disse. – E me perdoe por ter ficado
tão brava. Tive um dia difícil aqui com a minha mãe e tudo mais, e foi errado
descontar em você. Queria te agradecer… por cuidar tão bem da Cassie enquanto
não estou aí. Sei que você quer o melhor pra ela. Nós duas temos sorte de ter você
nas nossas vidas. Não sei o que faríamos sem você.
Scott não entendeu de onde viera essa ternura repentina, mas ficou contente
por ela ter parado de atacá-lo por causa da ordem de proteção.
– Legal você dizer isso – ele comentou.
– É a verdade – disse Peggy. – Sei que não tenho dado muito apoio a ela
ultimamente, mas ela tem sorte de ter um pai como você. Você se saiu bem melhor
que o combinado, Scott, e não tem com que se preocupar. Nunca vou contar a
ninguém sobre você-sabe-o-quê. Vai ser sempre um segredo.
Scott sabia que “você-sabe-o-que” referia-se à sua identidade como o
Homem-Formiga.
– Obrigado – disse ele. – Isso é muito importante pra mim.
Foi revigorante – ter uma conversa normal e amigável com a ex-mulher. Não
seria ótimo se fosse sempre assim? Se não houvesse amargura, intenções
escondidas e agressividade subjacente acoplados em toda interação? Quem sabe
ainda não estariam casados.
– Você é um bom homem – disse ela. – Isso é uma coisa da qual nunca duvidei.
Na manhã seguinte, Scott preparou o café da manhã favorito de Cassie:
rabanada. Mais tarde, após se assegurar que Roger sabia que Cassie estava
mesmo no apartamento, Scott e Carlos saíram para mais um dia de trabalho.
Scott estava se acostumando a ter Carlos por perto. Por anos, sua vida girara
em torno de Cassie e do trabalho – como Homem-Formiga e no das nove às cinco
–, por isso ele nunca teve muito tempo para fazer novas amizades. Carlos era um
cara legal do Bronx, e trabalhava no FBI fazia vinte anos. Muito bem casado, pai
de dois filhos – um menino que acabara de se formar em Fordham e uma menina
um pouco mais velha que Cassie.
No carro, falavam casualmente sobre as mudanças ocorridas em Manhattan
ao longo das últimas duas décadas. Carlos contou que a efervescência de Nova
York havia quase desaparecido, e agora parecia haver apenas as mesmas
drogarias e bancos em cada esquina.
– Como você veio parar em Nova York? – perguntou o policial.
Passavam pela 2
a
avenida, num tráfego lento que chegava perto da ponte Ed
Koch.
– Gosto de cidade grande – disse Scott. – E sempre quis morar em Manhattan.
Em parte, isso era verdade. Gostava mesmo de cidades grandes, mas
provavelmente teria optado por viver em São Francisco, ou pelo menos no norte
da metrópole. Viera para Nova York porque Tony lhe oferecera trabalho. E outra,
fazia muito mais sentido para o Homem-Formiga estar em Manhattan, o centro
de tudo.
– Mas por que o Upper East Side, amigo? – perguntou Carlos. – Você não é
nenhum almofadinha engravatado. Vejo você morando bem mais longe. Brooklyn,
quem sabe Washington Heights. Mas o Upper East Side?
– Eu morava no centro, Lower East Side, rua Ludlow, mas a Cassie entrou no
colégio aqui perto, e eu quis facilitar a vida dela. Ela teve uma vida difícil. Você
sabe do meu passado, e depois teve um monte de mudanças, com o divórcio. Só
quero dar um pouco de estabilidade pra ela, finalmente. Acho isso importante.
– Legal, amigo. Você ama muito a sua filha, isso eu respeito. Comigo é a
mesma coisa. Pode fazer o que quiser comigo, mas se mexer com a minha filha,
vai enfrentar um demônio. Essa coisa da proteção tem sido uma chatice pra vocês,
mas eu ouvi por aí que os caras do laboratório têm uma amostra de DNA e devem
fazer um anúncio oficial sobre a morte de Dugan ainda hoje.
– Puxa, que notícia boa – disse Scott.
Cruzaram a ponte, e o tráfego começou a fluir melhor. Scott logo chegaria ao
Cruzaram a ponte, e o tráfego começou a fluir melhor. Scott logo chegaria ao
escritório, o que era ótimo porque ele queria que Jeff visse que a ordem de
proteção não estava afetando seu trabalho – ou pelo menos seu horário de
chegada.
– Ei, tive uma ideia – disse Carlos. – Quando tudo isso aqui acabar, a gente
devia sair qualquer dia, tomar umas cervejas, ver um jogo. Ou eu te convido para
ir ao Bronx, te levar a uns lugares no meu bairro. Pra você ver como vive um
verdadeiro nova-iorquino.
Dez anos antes, Scott era um criminoso, trabalhava ao lado de Willie Dugan,
e agora estava planejando cair na farra com um agente federal? Sem contar que,
claro, ele era o Homem-Formiga. Como as coisas mudaram.
– É, seria uma boa – ele disse.
Após mais um longo e cansativo dia de trabalho, Carlos levou Scott para casa.
Enquanto saíam do carro, ele avistou a morena que vira no dia anterior. Ela vinha
em sua direção, e sorriu quando percebeu que ele a notara.
Sem querer perder outra chance de falar com ela, Scott disse a Carlos:
– Ei, posso ter um pouco de privacidade aqui?
– Claro que sim – respondeu Carlos. – Buena suerte, irmão. – E atravessou a
rua.
– Ei, com licença – Scott disse à mulher.
Ela parou perto dele, ainda mais bonita de perto. Usava calça jeans casual e
uma jaqueta de couro preto fino, e usava o cabelo preso em rabo de cavalo
naquele dia.
– Acho que vi você esses dias – disse Scott.
– Não se preocupe, não foi sua imaginação – ela disse.
– Uau, você se lembra? – ele perguntou.
– Foi ontem. Se eu já tivesse esquecido, acho que estaria com algum problema
de memória, não é?
– Nunca se sabe – disse ele. – Às vezes você vê uma pessoa e depois vê de
novo e não faz a conexão. Você vê alguém no trabalho e, dez minutos depois, vê
de novo na rua e pensa “quem é esse cara? Não te conheço?”. Acontece comigo o
tempo todo.
– Mas não aconteceu dessa vez, certo? – ela perguntou.
Ela era engraçada. Scott soube naquele mesmo instante que gostaria dela.
– Não, dessa vez, não – ele disse. – Meu nome é Scott.
– Jennifer.
– Jennifer – Scott repetiu – sempre gostei muito desse nome.
– Ah é?
– Não – Scott disse. – Estou mentindo totalmente.
A moça riu. Depois do encontro infernal com Anne, era bom conhecer uma
mulher com quem ele parecia realmente conectar-se logo de cara.
– Mas é um nome bonito – ele elogiou.
– Obrigada – ela disse. – Já Scott, acho horrível.
Ela ficou tanto tempo de cara fechada que Scott chegou a pensar que ela
tinha falado sério.
E então ela riu, e disse:
– Te peguei!
– Eu admito, pegou mesmo – disse Scott, rindo. – E aí, você mora aqui por
perto?
– Moro, sim. Acabei de me mudar de Hoboken. E você?
– Eu morava no centro, mudei pra cá há alguns meses. Moro logo ali. – Ele
apontou para o prédio. Carlos estava na entrada, lendo alguma coisa no celular.
– Legal – disse ela. – E, hã, quem é esse seu amigo?
– Quem? – Scott ficou genuinamente perdido por alguns segundos. – Ah, ele.
É meu, hã, meu motorista.
– Motorista? – ela repetiu.
Scott, com sua roupa de trabalho – jeans e boné – não parecia exatamente o
tipo de pessoa que tem um motorista.
– É – disse ele –, não tenho muita grana, mas sempre quis ter motorista,
então contratei o Carlos. Alguns sonhos a gente tem que realizar, certo?
Scott acenou para Carlos, que acenou de volta. Jennifer acenou para ele
também.
– Então – disse Scott –, quer tomar um café?
– Agora?
– É – Scott disse. Se você não tiver outra coisa pra fazer, a gente podia ir
jantar ali na esquina.
– Hã, bom… – Ela hesitou, olhando para o celular.
– Ou pode ser outro dia – disse Scott. – A gente podia trocar telefones. Ou se
você achar que não tem nada a ver, a gente só segue cada um com a sua vida.
Jennifer sorriu, depois disse:
– Na verdade, acho que tenho tempo pra tomar um café agora.
– Legal! – disse Scott. – Vamos lá.
Eles foram até o Cozinha Verde, restaurante numa esquina da 1
a
avenida, e
sentaram-se numa das cabines ao fundo. Scott, de frente para a rua, viu Carlos
zanzando em frente à entrada do lugar. Essa coisa de ser protegido estava
realmente atrapalhando a vida de solteiro de Scott, mas ele se orgulhou de ter
improvisado a história do motorista. Deu até uma impressionada.
Eles pediram cafés e conversaram sobre trabalho. Ela era fotógrafa
freelancer e também designer gráfica. Scott contou que trabalhava com rede de
computadores.
– Como foi parar nessa área? – ela perguntou.
– Sempre gostei de construir coisas – disse ele. – Comecei com o normal:
modelos de avião e carro, quando era criança. E quando enjoava, adorava
desmontar computadores e montar de novo.
– Que barato! – Ela parecia genuinamente impressionada.
– É uma coisa que posso fazer com a minha filha. Ela tem catorze anos,
acabou de se mudar para aquele colégio no outro quarteirão.
– Você tem uma filha adolescente?
– Por acaso você vai elogiar minha aparência jovem e bonita? – brincou Scott,
piscando.
Ela riu e disse:
– Eu também tenho uma filha, na verdade. Também tem catorze e mora
metade do tempo com o pai. E estuda naquela mesma escola.
– El-Ro?
– Como?
– Eleanor Roosevelt? É o nome da escola.
– Ah, sim, certo. É, essa mesma.
– Uau, isso é muito legal! – disse Scott. – Digo, que legal que temos filhas da
mesma idade. Me pergunto se elas se conhecem. Minha filha se chama Cassie.
Qual é o nome da sua? Vou perguntar se ela a conhece.
– Ah, a minha filha ainda não começou lá – disse Jennifer. – Ainda estuda em
Hoboken, mas vai começar aqui na semana que vem. O nome dela é Rebecca.
– Uau, legal – disse Scott. – Vou pedir a Cassie que a procure.
Além de descobrir que ambos tinham filhas da mesma idade, Scott ficou muito
empolgado ao ouvir que Jennifer tinha um ex-marido – que bom que se
encontravam em situações similares. Se dessem certo, seria perfeito. Moravam no
mesmo bairro, poderiam encontrar-se o tempo todo. Ela parecia ser muito
divertida e interessante; se as filhas se dessem bem e ficassem amigas, seria
melhor ainda.
Foi quando Scott viu uma formiga andando em cima do guardanapo da moça.
Mas será que a vida dele seria sempre assim? Justo quando as coisas começavam
a ir bem, quando havia potencial para que uma coisa boa e estável acontecesse
para ele, surgia alguma coisa que atrapalhava tudo. Geralmente, essa coisa era
uma formiga.
– Então, quando você resolveu que seria fotógrafa? – Scott perguntou,
tentando distrair Jennifer, para que ela não notasse a formiga. Peraí, formiga,
não; formigas. Sim, agora havia duas delas. A outra zanzava perto da colher de
Jennifer.
Enquanto a moça falava, contando de uma aula de fotografia que assistira na
faculdade, Scott tentou enviar às formigas uma mensagem para que fossem
embora e lhe dessem um pouco de espaço. Isso nunca funcionara sem ele estar
usando o traje do Homem-Formiga, e não funcionou dessa vez também. Pior
ainda, uma terceira formiga apareceu na mesa. Era apenas questão de tempo até
que toda formiga que morava em cada canto e rachadura do restaurante passasse
ali para dar um oi. Em geral, Scott adorava isso, mas não quando estava tentando
dar em cima de uma mulher.
– Adoro fotografar – Jennifer dizia. – Acho que sempre tive essa coisa pelo
visual. – Então ela viu as formigas na mesa e soltou um: – Ah, meu Deus!
Lá vamos nós de novo, pensou Scott. Se ela quisesse matar as formigas, ele
teria que defender suas amiguinhas – e então ela ficaria fula da vida, acharia que
ele era louco e sairia pisando duro do restaurante, e assim terminaria mais um
grande encontro.
Mas a moça não pirou. Na verdade, seu rosto iluminou-se, e ela disse:
– Olha, que legal!
Surpreso pela reação dela, Scott perguntou:
– Não tá com nojo?– Não, acho as formigas um barato. Você não?
– Acho, acho sim. Mas conheço um monte de gente que não acha.
– Eu sei, que loucura – ela disse. – Não entendo. Por que as pessoas são tão
contra-formigas? Não faz o menor sentido. Sempre amei formigas. Quando era
criança, ficava observando umas colônias que havia no jardim por horas. O
comportamento delas, como são organizadas, é incrível. E elas não fazem ideia de
que nós existimos. Faz a gente pensar se não tem algo maior lá fora, olhando pra
cá. Como se nós fôssemos formigas para civilizações de outros níveis, ou vidas,
como quiser, que são mais complexas que as nossas, só que a gente não faz ideia.
Acho que as formigas podem ensinar muito sobre fé. Puxa, tô tagarelando aqui,
né? Desculpa. Mas você entende o que eu tô dizendo? Você deve tá pensando
“nossa, que mulher louca! Por que eu fui convidá-la pra tomar café? Como é que
eu saio daqui sem ofendê-la?”.
– Então ver formigas num restaurante não te incomoda nem um pouco? –
Scott perguntou. – Digo, você não acha que elas são sinal de falta de limpeza?
– Quê? Não – ela disse, como se a sugestão fosse um disparate. – Estamos em
Nova York. As formigas são mais limpas do que muita gente que anda de metrô.
– Aposto que isso é verdade – disse Scott. E sorriu. Gostava dos olhos de
Jennifer. Eram azuis-acinzentados. Quis dizer algo sobre eles, mas tinha acabado
de conhecê-la, e temia soar meio cafona. O que poderia dizer? Seus olhos, eles são
tão lindos? Não queria bancar esse tipo de cara.
– Seus olhos, eles são tão lindos – disse.
No mesmo instante, Scott se arrependeu de ter dito.
– Obrigada. Eu estava pensando a mesma coisa.
– Jura? Tá dizendo isso só pra me agradar.
– Não, é verdade.
– O que gosta neles?
– A cor. Acho que nunca vi esse tom de azul… são muito intrigantes. E adoro a
profundidade. Tem gente com um olhar que parece unidimensional. Você olha pra
pessoa e não precisa de mais informação. Mas os seus têm camadas, contam uma
história. Quando te olho nos olhos, vejo um garotinho com um grande segredo.
Ficaram se olhando mais um pouco.
E então ela disse:
– Interessante isso, não é?
– Que nós dois gostamos dos olhos um do outro?
– Não, que as formigas parecem estar zanzando só pela nossa mesa. Olha, ali
tem outra. – Ela apontou para a parede perto de Scott, onde passava uma das
grandes. – E outra ali. – Havia uma menorzinha numa tigela atrás da caneca de
café.
Receando que o garçom, ou alguém mais no restaurante, visse as formigas e
resolvesse matá-las, Scott sacou seu guardanapo. Ainda que ele não pudesse
comunicar-se com elas sem o traje, as formigas eram capazes de perceber perigo
sozinhas. Sabiam também que Scott era um amigo, então todas as formigas da
mesa e arredores subiram sábia e obedientemente no guardanapo dele.
– Uau, parece que elas gostam de você – disse a moça. – Acho que nunca vi
nada igual.
– Ah, não é nada de mais.
Scott liberou as formiguinhas a salvo no chão, onde com sorte elas evitariam
quaisquer armadilhas ou rastro de inseticida e voltariam seguras para seus ninhos.
– Ah, saco. – Jennifer olhou para seu iPhone. – Era pra eu ter ido encontrar
minha filha na casa de uma amiga no centro; ela tá esperando por mim. Tenho
que pegar um táxi.
Scott imaginou se isso seria apenas desculpa para fugir do encontro. Ele
mesmo usara diversas encarnações da história do “familiar com problema
urgente” quando as coisas não pareciam ir a lugar algum num encontro. Talvez
ele a tivesse lido demais durante o comentário dela sobre o olhar. Talvez a
conversa sobre as formigas a tivesse espantado, no fim das contas.
– Estava me divertindo muito; queria não ter que ir – disse ela. – Mas não
quero deixar minha filha esperando.
– Entendo totalmente. Sei como são as adolescentes.
Ela abriu a bolsa e disse:
– Preciso deixar um dinheirinho…
– Nada disso. Essa é por minha conta – Scott disse.
Jennifer agradeceu. Quando saíram, Scott reparou em Carlos, do outro lado
da rua, mas a moça pareceu não reparar nele.
– Obrigada de novo – disse ela.
– Eu que agradeço – disse Scott, aproximando-se para dar-lhe um beijinho no
rosto.
Sentiu um frio na barriga; seu coração bateu mais forte. Scott tinha lutado
junto dos maiores super-heróis do mundo, enfrentado os mais perigosos vilões, e –
quando usava o traje do Homem-Formiga – era, relativamente, o mais forte de
todos eles. Contudo, convidar uma mulher para sair ainda o deixava tremendo
feito vara verde.
Juntando uma bela porção de coragem, ele disse:
– Então… a gente podia, hã, sair de novo qualquer dia… Sei lá, jantar fora ou
ir ao cinema. Mas, claro, se você estiver a fim. Não precisa responder agora.
Digo, tudo bem se você não…
– Não, eu adoraria – disse ela.
Uau, pensou ele.
– Legal, me dá seu telefone, então – disse.
Jennifer disse seu número, e Scott passou o dele.
– Ótimo, anotado – ele disse.
– A gente se vê – disse ela. – E mande um oi pro seu motorista.
Scott sorriu, vendo-a andar até o quarteirão seguinte. Cara, que mulher.
Então ele deu meia-volta e foi para casa, na direção oposta.
Carlos insistiu em acompanhar Scott até o apartamento para garantir que
estava tudo tranquilo e seguro. Cassie estava no quarto, fazendo lição de casa, e
nada parecia estar fora do lugar.
– Acho que dou conta de tudo daqui por diante – disse Scott.
– Legal – disse Carlos. – Já sabe como funciona. Se você ou Cassie tiverem
que ir a algum lugar, mande mensagem pro Jimmy, o agente que vai passar a
noite por aqui. Isso se a ordem de proteção não tiver sido anulada até lá.
Carlos e Scott se cumprimentaram.
– De verdade, fico muito agradecido por tudo o que fizeram por nós – disse
Scott –, e obrigado por me dar um pouco de espaço agora há pouco.
– Ei, os caras tem que se ajudar, certo, hombre? Além disso, faz tempo que
não sou mais solteiro. Estou revivendo aquela época através de você.
Depois de fazer o jantar – ok, ele só esquentou uma pizza congelada no
micro-ondas junto com umas cenouras e ervilhas também congeladas, mas mesmo
assim era uma refeição –, Scott mandou uma mensagem para Jennifer:
Me diverti muito, obrigado por ser tão espontânea!
Vamos sair nesse fim de semana, jantar ou pegar um cinema.
Mal posso esperar!
Nem se lembrava da última vez em que ficara tão empolgado com uma
potencial namorada.
Enquanto limpava tudo e lavava a louça, viu as formigas de sempre zanzando
ao redor da pia e da geladeira. De sempre, porque ele passara a reconhecer a
maioria delas; como Homem-Formiga, havia se comunicado com as formigas que
moravam no apartamento. Sabia que a maioria vivia numa colônia dentro da
parede atrás da pia da cozinha dele, e que consideravam seu apartamento um
porto seguro no edifício – o que, para as formigas, era todo um mundo –, cheio de
venenos e inimigos. Entre esses inimigos estavam outros insetos da cidade –
baratas, traças etc. –, mas muitos desses insetos eram sábios o bastante para
evitar as formigas, sentindo o poder do coletivo dos insetinhos. Quando outros
insetos apareciam ocasionalmente no apartamento, Scott era bonzinho com eles,
capturava-os e os libertava lá fora, às vezes até os alimentava. Sim, ele sabia que
dar de comer a baratas era algo que fazia a sociedade virar a cara. Contudo,
desde que se tornara o Homem-Formiga, aprendera a admirar e respeitar todos
os insetos.
Ele verificou o telefone; nada de resposta de Jennifer. Seria ótimo se eles
saíssem de novo e se dessem bem, e isso evoluísse para um relacionamento de
verdade. Scott ficava mais feliz quando tinha uma relação estável, o que não lhe
acontecera desde os primeiros anos de casamento. A quem queria enganar? Desde
os primeiros meses de casamento. E seria ótimo se Cassie tivesse um exemplo
positivo de mulher na vida – mesmo sendo uma madrasta.
Mais tarde, na mesma noite, Scott estava sentado na beirada do sofá-cama,
olhando para o telefone, quando escutou:
– Ei, não vou ter que ler essa mensagem em voz alta, né?
Cassie estava perto do quarto dela e tinha acabado de escovar os dentes.
Scott sorriu, percebendo que estava bancando o adolescente da casa.
– Haha, me pegou – ele disse. – Boa noite, lindinha.
– Boa noite, pai.
A menina lhe deu um beijo na bochecha e foi para o quarto.
Scott assistiu ao noticiário – nada sobre Willie Dugan, nem uma possível
identificação oficial de seu corpo. O noticiário internacional informou que o
Capitão e Natasha, a Viúva Negra, tinham acabado de desmantelar um esquema
da Hidra na Tailândia. Sempre que Scott ouvia falar dos feitos de outros superheróis,
não deixava de sentir uma pontadinha de inveja, como um atleta
assistindo a uma partida da qual não podia participar. Compreendia que tinha um
lugar todo seu na ordem das coisas, mas às vezes odiava ter que ficar de canto.
Queria participar da ação, das jogadas maiores.
Na TV, um repórter explicava, no local, como a cidade tinha sido liberada.
Mostraram uma foto de Natasha, fonte extra de angústia para Scott. Os dois
tiveram um discreto lance durante uma missão na França alguns anos antes.
Natasha deixara bem claro logo de cara que não seria nada muito sério, e Scott
achou que lidaria bem com isso. Mas vamos encarar, ela era muito para o
caminhão dele – era muito para o caminhão de qualquer um. Porém, que o
chamem de romântico inveterado, ele não conseguiu evitar de se apegar
emocionalmente. Então, sim, ele ficou chateado quando ela foi embora uma bela
amanhã sem deixar nem um bilhete. Mas Scott sabia que seria melhor assim. Nem
sabia muito bem se estava mesmo a fim de Natasha ou da ideia de Natasha –
uma mulher livre, sem filhos, sem raízes. Podia fazer as malas e ir aonde quisesse.
Era parte do que fazia Scott se sentir diferente da maioria dos super-heróis. Era
pai antes de ser herói, e embora invejasse caras como Tony ou o Capitão, sabia
que esse estilo de vida não era para ele. O papel de pai era o seu principal, e ele
não abriria mão disso por nada.
– Tchau-tchau, Natasha – disse, e desligou a TV.
É, ele não precisava de mais uma mulher complicada e fria na vida dele,
mesmo uma tão gostosa como aquela.
Já Jennifer, a fotógrafa – Scott já estava quase adormecendo –, essa sim
tinha tudo a ver com ele.
De manhã, Scott ainda não tinha recebido resposta de Jennifer. Achou que
não era nada de mais; tem gente que não responde logo de cara. Porém quando
chegou o meio-dia e ela ainda não tinha dito nada, ele começou a se perguntar se
algum dia ela responderia.
E ela tinha parecido sincera quando disse que também queria vê-lo de novo,
mas talvez a história de ter que buscar a filha fora mesmo só uma desculpa.
Talvez Scott não tivesse entendido muito bem o interesse dela pelas formigas e a
assustado. Ou quem sabe foi o fato de ter um motorista que causou
estranhamento, principalmente com o Carlos zanzando, à espreita, na entrada do
restaurante. Algumas mulheres ficam um pouco inseguras no fim de um encontro,
e dizem que aceitam um novo encontro apenas por não acharem legal dizer que
não.
No almoço, numa padaria perto do escritório, Carlos perguntou a Scott em
que pé ele estava com a moça do dia anterior.
– Nada ainda – disse Scott, checando o celular. Não havia resposta alguma de
Jennifer, mas uma mensagem de Peggy perguntando se havia alguma novidade
com relação a Dugan.
– Fica frio, amigo – disse o agente. – Que bom que você mora em Nova York,
e não no Kansas.
– Não entendi o que quis dizer.
– Só estou dizendo pra você ficar tranquilo. Tem mais um monte de moças
por aí. Já, já você encontra outra pessoa.
– Mas tem um monte de mulher no Kansas também.
– Eu sei. Foi só uma piada – Carlos riu.
– Se era piada, tinha que ter dito Sibéria ou Antártica. Um lugar onde não
tem mulher nenhuma mesmo. Não Kansas.
– Uau – Carlos disse. – Gostou mesmo dessa garota, hein?
– Quê? – disse Scott, depois se deu conta do que acabara de dizer. – Foi mal,
velho. Não quis ser chato com você. É, acho que ela grudou um pouco na minha
cabeça. Tinha alguma coisa nela, sabe? Mas, claro, você tem razão. Não estou no
Kansas.
– Antártica, você quis dizer – retrucou o agente, sorrindo.
Scott foi absorvido pelo trabalho na maior parte do dia, tentando concluir as
instalações finais do escritório e colocar o último grupo de usuários na internet.
Nem estava mais pensando em Jennifer, mas mesmo assim, por impulso, mandou
outra mensagem:
Espero que seu dia esteja ótimo!
Assim que clicou para enviar, se arrependeu. Se ela não estava a fim de sair
com ele de novo, mandar outra mensagem não a faria mudar de ideia. E se ela
quisesse mesmo sair com ele de novo e apenas não tivesse conseguido responder à
mensagem, essa outra não acrescentaria nada.
– Deixa pra lá – Scott disse consigo mesmo. – Tá tudo bem.
Mas então veio uma resposta:
NÚMERO INVÁLIDO
Hmm – que esquisito. Scott não tinha recebido essa resposta quando mandou
a primeira mensagem. Então, a não ser que houvesse um problema na rede de
celulares – muito improvável, nesse caso –, Jennifer tinha cancelado seu serviço
de celular.
Havia mais uma possibilidade: podia ter bloqueado o número dele. Só que ele
não achava que dissera ou fizera algo que a ofendesse tanto a ponto de obrigá-la
a bloqueá-lo. Ou será que havia? Juntar formigas num guardanapo e levá-las ao
chão num restaurante era o tipo de comportamento que a maioria das pessoas
consideraria anormal. Porém Scott julgara que Jennifer seria uma das exceções,
que entenderia, mas pelo visto tinha julgado-a mal.
Enfim, não havia nada a fazer. Ele retomou o trabalho na instalação. Então
Carlos entrou.
– Temos que ir – disse. Agarrou Scott como um agente do Serviço Secreto
agarraria o presidente e tirou-o da rota do perigo.
Conforme Carlos arrastava Scott pelo escritório, os funcionários paravam
para ver. Scott estava tão confuso quanto todos eles.
– Que foi? Que tá fazendo?
Carlos não respondeu. Parecia tenso, e não fazia contato visual de jeito
algum.
– Para com isso, você tá me assustando – disse Scott. – Que foi? Pode me
falar? Que aconteceu? É o Dugan?
Carlos esperou até que ficassem sozinhos no elevador que levava ao saguão
de entrada. Então disse:
– É a Cassie.
– O que foi? – O coração de Scott começou a pular. – Ela não foi à aula de
novo?
Estava pronto para ficar bravo com ela. Será que tinha conseguido abrir o
cofre e vestido o traje do Homem-Formiga de novo? Ele trocara a combinação,
então não imaginava como ela teria conseguido, mas era uma menina esperta – às
vezes, esperta demais.
Carlos desviou o olhar, como se procurasse pelas palavras certas, depois
mirou Scott bem nos olhos e disse:
– Ela foi raptada, Scott.
CASSIE AFINAL CONCLUIU que não gostava de Tucker McKenzie. Tá, ele era
incrivelmente gato e interessante, mas tinha um monte de garotos incrivelmente
gatos e interessantes, e não importava quão gato e interessante era um garoto se
ele ia dar uma de completo idiota e ficar todo esquisito e convencido perto dos
amigos só por causa de uma coisa que viu no Instagram.
Então no dia seguinte ao que acertou o nariz de Nikki com uma bola de
basquete, Cassie resolveu ignorar Tucker. Às vezes, no corredor, após a aula de
teatro, quando o via, ele dizia “oi” ou “e aí?”, e ela respondia com um “oi” ou “e
aí?” em resposta. Mas dessa vez, quando passou por ele e Tucker disse “oi” agindo
como se toda aquela história do Instagram não tivesse acontecido, ela o ignorou,
sequer fez contato visual e continuou andando.
Mas estranhamente, ignorá-lo parecia deixá-lo ainda mais interessado. No
dia seguinte, Cassie estava saindo do Gotham Pizza, na York, com suas amigas, e
Tucker estava lá com os dele. Ele nunca dissera nada a ela antes, nem mesmo
reparava nela quando estava com os amigos. Dessa vez, contudo, ele a chamou:
– Oi, Cassie, ei, peraí.
As amigas de Cassie continuaram a caminho da escola, e os amigos de Tucker
também se afastaram. Os dois ficaram sozinhos, frente a frente pela primeira
vez.
– Você tá, tipo, brava comigo ou algo assim? – ele perguntou.
Fazendo-se de boba, Cassie disse:
– Do que você tá falando?
– Sei lá – disse Tucker. – Você anda, sei lá, fria comigo, só isso. Quero dizer,
nos últimos dias.
Cassie tentava não pensar em quão incrivelmente gato Tucker era – com
aquele sorriso e o cabelo castanho ondulado – e no quanto queria beijá-lo.
– Eu só queria dizer – disse ele –, sobre aquilo que você postou no
Instagram…
– Eu não postei nada – Cassie disse. – Foi a Nikki, e foi errado da parte dela
fazer aquilo, porque era só uma mensagem, que mandei pra ela, e sim, eu escrevi,
mas não vou mais ficar com vergonha disso. Foi só uma mensagem boba, e daí? Eu
tava sentindo uma coisa na época, uma coisa que me deu de repente, e eu fui
contar pra uma amiga. Pelo menos eu achava que era amiga. E não ligo para o que
você nem ninguém pensam. Ninguém tem o direito de rir de mim como se fosse
piada. Já foi humilhante demais ver uma coisa que eu não queria que ninguém
visse lá pra todo mundo ver.
– Uau, calma – disse Tucker. – Assim eu não te alcanço.
Cassie falou rápido demais mesmo – fazia muito isso quando ficava nervosa.
– Foi mal – disse –, mas enfim. Isso não importa mais.
– Só pro seu governo – disse Tucker –, eu nunca ri de você. Eu nem sabia
dessa parada do Instagram; fui descobrir só hoje, e fiquei lisonjeado.
– Ficou mesmo? – disse Cassie. – Mas não entendi. Quando te vi no outro dia,
você tava rolando de rir.
– Devia ser de outra coisa, uma coisa engraçada de verdade. Eu não acho que
postar mensagens dos outros seja legal.
Será possível que Cassie tinha se enganado? Andara tão chateada, sentindo-
Será possível que Cassie tinha se enganado? Andara tão chateada, sentindose
humilhada, que poderia ter se apressado em tirar conclusões a respeito de
Tucker. Ótimo – já estava se sentindo péssima por ter vestido o traje do HomemFormiga
e acidentalmente quebrado o nariz de Nikki; agora teria mais uma coisa
para deixá-la chateada.
– Ah, uau – Cassie disse. – Eu não tinha a menor ideia.
– Tudo bem – Tucker disse. – Ei, tá a fim de ir ao Carl Schurz qualquer dia?
Até semana que vem eu não posso porque tenho aula preparatória pro vestibular,
e treino de lacrosse, mas na outra seria uma boa. Tipo, se você quiser, claro.
Carl Schurz era um parque da cidade. Cassie estava dormindo e sonhando, ou
Tucker McKenzie tinha acabado de convidá-la pra sair?
– Peraí, isso não é parte da piada? – disse ela. – Se eu disser sim, você vai
começar a rir de mim.
– Eu juro que não vou rir – ele disse.
Foi tão bonitinho; ele parecia nervoso, como se estivesse com receio de que
ela o rejeitasse.
– Tá, então sim – disse Cassie. – Eu adoraria.
Os dois voltaram juntos à escola – juntos mesmo. Ela fantasiara sobre andar
para qualquer lugar ao lado de Tucker tantas vezes, e agora estava acontecendo.
A fantasia era realidade.
– Posso te perguntar uma coisa? – disse Tucker.
Será que ele ia pedir para segurar sua mão?
– Claro – disse a menina, torcendo para a mão não estar muito suada.
– Quem é aquele velho seguindo a gente?
– Que velho? – Cassie ficou confusa.
– Acho que o vi perto da escola também – Tucker disse.
Cassie olhou para Roger, seguindo-os meio quarteirão atrás. A menina tinha
ficado tão absorta que se esquecera de Roger.
– Ah, ele – Cassie disse. – Se eu te contar, promete guardar segredo?
– Claro.
– Bom, você vai achar superesquisito, mas ele é um agente do FBI, um agente
federal, que tem que me seguir a todo lugar por um motivo que eu não sei, e
mesmo se soubesse não poderia contar pra você.
Eca. Cassie disse tudo aquilo rápido demais, de novo, provavelmente
bancando a bobona – não conseguia evitar.
– É sério? – disse Tucker. – Ele é mesmo do FBI?
– Eu nunca mentiria pra você – Cassie disse.
– Isso é tão legal – ele disse.
– Que eu nunca mentiria pra você ou que ele é do FBI? – ela perguntou.
– Os dois – ele disse.
Na escola, Cassie quis muito não ter que se despedir de Tucker. Queria que já
estivessem no parque, e que não houvesse mais ninguém ao redor.
– A gente se vê – ele disse.
Cassie foi para a aula seguinte, teatro, mas nem sabia por que se dava ao
trabalho. Tinha certeza de que não conseguiria prestar atenção em nada que não
tivesse a ver com Tucker McKenzie, e em como aquele estava sendo,
definitivamente, o melhor dia de sua vida.
No dia seguinte, Nikki estava de volta à escola pela primeira vez desde que
tinha quebrado o nariz com a bolada. Tinha uma bandagem enorme em torno do
nariz. Cassie se sentiu muito mal. Lembrou-se do que o pai lhe dissera, que era
preciso encontrar um jeito de expiar seus pecados cometidos contra Nikki. Bom,
ele não tinha dito “expiar” nem “pecados”, mas algo semelhante, em essência. O
pai sempre dizia que, na vida, a gente recebe aquilo que dá, o que era meio
irritante. Principalmente porque ele tinha razão.
Cassie não conseguiu reunir coragem para dizer algo a Nikki durante a
primeira aula, mas depois, foi até a menina no corredor e disse:
– Oi. Ouvi falar do seu nariz. Sinto muito.
– Sente por quê? – retrucou Nikki. – Não foi culpa sua.
Cassie imaginou a cena: uma garota encolhida, do tamanho de uma formiga,
arremessando uma bola de basquete na cara da inimiga.
– É, eu sei disso – disse. – Quis dizer que sinto muito que tenha acontecido
isso com você. Tá doendo ainda?
– Quando aconteceu doeu pra caramba – disse Nikki. – Ontem ainda doía
muito, mas o médico me deu alguns remédios, e melhora bastante quando eu
tomo. Hoje tá doendo um pouco, mas pelo menos não parece que a minha cabeça
vai explodir.
– Que saco – disse Cassie. – Talvez eu possa te ajudar a fazer a lição de
cálculo qualquer dia.
– Como assim?
– Tipo, depois da aula, ou no fim de semana, posso te ajudar na matéria.
Quer dizer, eu sei que você odeia Matemática, e disse que seus pais estavam até
pensando em te arranjar um professor particular. E como eu não tenho dificuldade
nessa matéria, achei… ah, seria legal te ajudar, só isso.
Elas estavam no final do corredor, perto das escadas. Crianças passavam por
elas, rindo e conversando sem sequer notá-las.
– Não tô entendendo – disse Nikki. – Por que tá sendo legal comigo?
– Por nada. Porque sim.
– Mas não tem por que ser legal. Eu é que devia ser legal. Quando tava no
hospital, vendo o que tinha acontecido com o meu nariz, pensei em como fui mala
com você. E foi estranho porque pensei que talvez eu merecesse levar a bolada e
quebrar o nariz.
– Não merecia, não – disse Cassie. – Foi só um acidente.
– Não, não foi acidente. Aconteceu sozinho. Sei que parece loucura, mas a
bola simplesmente voou do chão e me acertou no nariz, sozinha. Ninguém jogou.
– Mas não foi a Keely que te acertou com a bola? – disse Cassie. – Pelo menos
é o que todo mundo diz.
– Não, quem disse que aconteceu isso foi a Sra. Jill. Então claro que o diretor
e o coordenador acreditaram, porque ela é professora. Mas é mentira dela. Ela
não viu nada. A própria Keely disse que não jogou a bola em mim, mas o diretor
diz que eu tô falando isso pra proteger a Keely, o que é uma supermentira. Se ela
tivesse jogado a bola em mim, eu teria dito que ela jogou, porque ia querer que
ela pagasse por isso, mas ela não jogou, a bola voou sozinha. Sei que parece
loucura, porque eu mesma me sinto louca quando falo, mas foi isso que aconteceu,
e é tão, mas tão frustrante ninguém acreditar em mim. Todo mundo acha que eu
fiquei louca. Até meus pais acham que eu fiquei louca.
Nikki chorava, as lágrimas rolando por cima das bandagens do nariz.
– Eu não acho que você ficou louca – disse Cassie.
– Todo mundo acha que fiquei louca. Todo mundo que tava lá e todo mundo
que não tava.
– Eu acredito no que você contou.
– Jura? Não tá falando só por falar?
– Não. Eu te conheço. Se você diz que aconteceu é porque aconteceu.
– Mas como aconteceu? Que loucura.
– Quem liga?
Nikki olhou para Cassie por alguns segundos, como se tentasse sacar se ela
estava falando sério. Então a abraçou e disse:
– Uau, obrigada. Você é incrível.
Cassie também ficou feliz. Era muito bom ter a melhor amiga de volta.
– Ei, quer ir fazer compras na rua 86 depois da aula? – Nikki perguntou.
– Eu adoraria, mas hoje não posso.
Nikki olhou para trás, para o final do corredor, onde Roger a espreitava, e
depois retornou.
– Qual é a daquele cara, afinal?
– Ah, não é ninguém.
– Zoe disse que você disse a ela que ele é tipo um supervisor da escola. –
Nikki parecia confusa. – Ele fica te seguindo todo dia? O que um supervisor faz?
– É, ele só monitora o desempenho dos alunos, sabe, tipo um monitor de
desempenho escolar – disse Cassie, sabendo que não fazia o menor sentido. E
acrescentou: – Tipo, é que nem uma pesquisa escolar. Sabe, pesquisa do
Ministério da Educação. Nada de mais. Ih, uau, eu tenho que pegar um negócio no
meu armário antes do próximo período. Te mando mensagem depois.
Cassie conseguira escapar dessa vez. Mas sabia que seria difícil manter Roger
e a história toda da ordem de proteção em segredo perante Nikki e todo mundo
por mais tempo, principalmente por já ter contado, em parte, para Tucker.
Esse foi o melhor dia de aula que Cassie teve em muito tempo. Foi ótimo se
dar bem com Nikki de novo, não ter aquela sensação de vingança na cabeça.
Agora que a amiga estava sendo tão legal e boa, Cassie mal se lembrava de por
que quisera mexer com ela no outro dia, quando usava o traje do HomemFormiga.
Voltando atrás, tinha sido um comportamento tão imaturo, nada digno
de alguém da idade dela, principalmente por não haver motivo, já que Tucker na
verdade não estava tirando sarro dela. A postagem de Nikki no Instagram devia,
na verdade, ter ajudado Cassie, porque foi graças a isso que o garoto descobriu
que ela gostava dele, algo que talvez nunca soubesse de outro modo.
Cassie estava tão feliz que até mesmo o fato de Roger segui-la para todo
canto não parecia mais tão embaraçoso ou ridículo. Ela viu Tucker algumas vezes
– na primeira vez, ele estava com amigos, perto do armário, e não a viu. Depois
ela o encontrou no corredor em que costumavam se cruzar, e em vez do “oi” que
geralmente trocavam, tiveram toda uma conversa. Bom, talvez não uma
conversa, mas se falaram por uns trinta segundos, e ele disse que tinha gostado
da blusa que ela estava usando, o que foi incrível porque ela resolvera usá-la – a
blusinha da Uniqlo – especificamente porque esperava vê-lo e esperava também
que ele notasse a blusa e comentasse, foi como um sonho realizado.
Foi difícil se focar em qualquer coisa durante o resto do dia, porque ela
estava tão absorta, revendo cada segundo, cada detalhe da conversa com Tucker.
Algumas vezes os professores a chamavam, mas ela estava distraída e não
respondia. Um professor, o Dave, de Química, foi conversar com ela depois da
aula. Perguntou se havia algo a incomodando nos últimos dias, ou se a “situação”
na qual ela se encontrava – a ordem de proteção, no caso – vinha atrapalhando
seu desempenho escolar. Ela disse que não, que estava tudo bem, e que estaria
mais concentrada no dia seguinte. O fato era que ela só conseguia pensar em
Tucker McKenzie e no que ele queria dizer para ela, o que ela queria dizer para
ele, e o mais importante: em como tudo isso a fazia se sentir.
Ao sair da escola, um pouco depois das três da tarde, ela esperava encontrar
Tucker por acaso. Bom, não seria tanto por acaso – ela sabia que muito
provavelmente ele estaria lá fora na entrada –, mas não o viu. Ela seguiu pelo
quarteirão e entrou na 1
a
avenida, torcendo para ele estar por ali, mas viu
apenas dois homens vindo apressados em sua direção.
No começo ela não notou nada de muito esquisito neles. Eles vinham
rapidamente em sua direção, com expressões muito sérias, mas ali era em Nova
York. Havia uma tonelada de gente na cidade e uma tonelada de coisas estranhas
acontecendo o tempo todo. Talvez os caras só estivessem com pressa e não
viessem de fato para cima dela, queriam apenas passar por ela.
Então Cassie viu que os dois homens estavam armados, mas nem teve tempo
de ter medo ou entrar em choque – além disso, a cena toda lhe pareceu
totalmente surreal. Foi somente quando um dos homens, o mais alto, atirou – não
em Cassie, mas em alguém atrás dela – que o pânico a dominou, mas nesse ponto
já era tarde demais para reagir, porque o cara mais baixo já a tinha agarrado e a
forçava a entrar no banco de trás de um carro. Uma mulher, alguém na rua, gritou
algo como “olha ali!”, e Cassie pensou em Roger, ai meu Deus, Roger!, mas logo o
cara mais alto entrou no carro, sentou-se ao lado dela e bateu a porta, e o carro
saiu às pressas.
Antes que ela pudesse gritar por socorro, o baixinho colocou alguma coisa em
seu rosto, uma toalha ou um trapo. Estava úmido, e tinha um cheiro forte e
adocicado. Ela lutou e gritou sob o pano, pedindo que a soltassem, mas o homem
não tirou o pano da boca e do nariz dela, e Cassie foi ficando meio tonta. Então
ela pensou: Ah, não, é como num filme, o que tem no pano vai me fazer desmaiar.
Foi ficando cada vez mais zonza, talvez em parte por causa do pânico; estava
demorando mais do que nos filmes, mas estava acontecendo, estava acontecendo
mesmo, mas por quê? Por que justo ela? Sabia que tinha a ver com o pai, com a
causa daquela ordem de proteção idiota. Ela se lembrou da vez em que perguntou
ao pai por que ele queria ser o Homem-Formiga, tipo o que ele ganhava com isso,
e ele dissera: “Tem pessoas boas e más no mundo, e as pessoas más merecem ser
punidas”. Bom, talvez ela fosse uma pessoa má e estava sendo punida pelo que
fizera a Nikki, por ter quebrado o nariz dela, e foi ficando ainda mais zonza por
causa daquele troço, sabia que seus pensamentos não faziam muito sentido, mas
continuou pensando por quê? Por quê? E quando tentou gritar por socorro
novamente, nem conseguiu fazer a boca se mexer.
E então ficou tudo escuro.

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