C A P Í T U L O 20
Rayford e Chloe Steele esperaram até as 13h30, e então resolveram ir para o hotel. A
caminho da saıd́ a do Clube Pan-Continental, Rayford parou para deixar um recado para Hattie,
caso ela chegasse.
— Acabamos de receber outra mensagem para ela — informou a moça do balcão. — Uma
secretária falando em nome de Cameron Williams informou que ele a encontraria aqui, se ela o
chamasse logo ao chegar.
— Quando chegou o recado? — perguntou Rayford.
— Logo depois das 13 horas.
— Talvez devêssemos esperar mais alguns minutos. Rayford e Chloe estavam sentados
perto da entrada quando Hattie chegou apressada. Rayford sorriu para ela, mas ela
imediatamente diminuiu os passos, como se os tivesse encontrado por acaso.
— Oh! Olá — disse ela, mostrando sua identiϐicação no balcão e recebendo seu recado.
Rayford deixou que ela fizesse seu jogo de cena. Ele merecia isso.
— Na verdade, eu não devia ter vindo vê-los — disse ela depois de ser apresentada a
Chloe. — Mas, já que estou aqui, devo retornar esta ligação. EƵ do articulista de quem lhe falei.
Ele me apresentou a Nicolae Carpathia esta manhã.
— Não me diga.
Hattie meneou a cabeça afirmativamente, sorrindo.
— E o Sr. Carpathia me deu seu cartão. Você sabia que ele vai ser apontado o Homem
Mais Atraente da revista Peoplel
— Eu ouvi isso, sim. Bem, estou impressionado. Uma manhã cheia para você, hein? E
como está o Sr. Williams?
— Muito bem, porém muito ocupado. Acho melhor telefonar para ele. Com licença.
Buck estava na escada rolante dentro do terminal quando seu telefone tocou.
— Até que enfim — disse Hattie.
— Sinto muito, Srta. Durham.
— Oh! por favor — disse ela. — Uma pessoa que me deixa no centro de Manhattan numa
corrida de táxi cara pode bem me chamar pelo primeiro nome. Eu insisto.
— E eu insisto em pagar essa corrida.
— Estou apenas brincando, Buck. Vou agora me encontrar com esse capitão-aviador e sua
filha, por isso não se sinta obrigado a estar presente.
— Já estou aqui — disse ele.
— Oh!
— Mas tudo bem. Tenho muito que fazer. Foi bom ter visto vocênovamente. Na próxima
vez que vier a Nova York...
— Buck, não quero que você se sinta obrigado a ser meu cicerone.
— Mas não me sinto obrigado.
— Claro que sim. Você é uma pessoa maravilhosa, mas é óbvio que não temos aϐinidade.
Obrigada por me encontrar e especialmente por me apresentar ao Sr. Carpathia.
— Hattie, preciso de um favor. Seria possıv́ el me apresentar ao piloto? Quero entrevistá-
lo. Ele vai pernoitar aqui?
— Vou perguntar a ele. Você vai também conhecer a filha dele. Ela é uma boneca.
— Talvez eu a entreviste também.
— Sim, é uma boa aproximação.
— Apenas pergunte a ele, Hattie, por favor,
Rayford estava imaginando que talvez Hattie tivesse um encontro com Buck Williams
naquela noite. A coisa certa a fazer seria convidá-la para um jantar no hotel. Agora ela estava
acenando para que ele fosse até o telefone público.
— Rayford, Buck Williams deseja encontrar-se com você. Ele está fazendo uma
reportagem e quer entrevistá-lo.
— Verdade? Eu? — respondeu ele. — Sobre o quê?
— Não sei. Não perguntei. Suponho que seja sobre o vôo ou os desaparecimentos. Ele
estava naquele vôo quando aconteceu.
— Diga-lhe que vou vê-lo, com certeza. Na verdade, por que não pedir a ele que se junte a
nós três para um jantar, se vocês estiverem livres.
Hattie olhou bem para ele como se estivesse sendo enganada em alguma coisa.
— Vamos lá, Hattie. Vocêe eu conversaremos esta tarde e, depois, iremos todos jantar às
seis no Carlisle.
Ela voltou ao telefone e perguntou a Buck:
— Onde você está agora? — Ela fez uma pausa. — Não acredito! — Hattie olhou para
fora, riu e acenou. Cobrindo o bocal do telefone, voltou-se para Rayford. — Lá está ele, bem ali
com o telefone celular!
— Bem, por que os dois não desligam para que vocêfaça as apresentações? — perguntou
Rayford.
Hattie e Buck desligaram, e Buck, ao entrar, guardou seu telefone na maleta.
— Ele está conosco — disse Rayford à recepcionista na mesa à entrada. Em seguida,
apertou a mão de Buck. — Então o senhor é o redator do Semanário Global que estava em meu
avião.
— Sou eu mesmo — respondeu Buck.
— A respeito do que o senhor deseja me entrevistar?
— Quero saber sua opinião sobre os desaparecimentos. Estou fazendo uma reportagem de
capa sobre as explicações ou teorias que estão por trás do acontecido, e seria bom conhecer seu
ponto de vista como um profissional e como alguém que estava bem no meio do tumulto quando
o fato aconteceu.
Que oportunidade! pensou Rayford. — Com prazer — disse. -O senhor pode nos
acompanhar num jantar?
— Certamente — disse Buck. — E esta é sua filha?
Buck estava impressionado. Ele adorou o nome de Chloe, seus olhos, seu sorriso. Ela olhou
diretamente nos olhos dele, e deram-se um forte aperto de mão, algo que ele apreciava numa
mulher. Muitas mulheres acham que é mais feminino estender uma mão frouxa, hesitante. Que
garota bonita! Pensou ele. Ele sentiu vontade de dizer ao capitão Steele que, a partir do dia
seguinte, não seria mais um articulista, mas, sim, editor-executivo. Mas receou que isso pudesse
ser interpretado como presunção, e não uma simples informação, por isso nada falou.
— Olhe — disse Hattie -, o capitão e eu precisamos de uns poucos minutos, então por que
vocês dois não se conhecem melhor e nos reunimos de novo mais tarde? Vocêdispõe de tempo,
Buck?
Agora sim, pensou. — Certamente — disse ele, olhando para Chloe e seu pai. — Está bem
para vocês dois?
O capitão pareceu vacilar, mas sua ϐilha olhou para ele com uma expressão esperançosa.
Ela era evidentemente amadurecida para tomar decisões, mas, por outro lado, não queria fazer
o que parecesse inadequado aos olhos de seu pai.
— Está bem — disse o capitão Steele com alguma hesitação. — Esperamos aqui.
— Vou guardar minha valise, e vamos dar uma volta pelo terminal — disse Buck. — Se
você desejar, Chloe.
Ela sorriu e meneou a cabeça assentindo.
Fazia bastante tempo que Buck não se sentia desajeitado e tıḿ ido com uma garota.
Enquanto ele e Chloe caminhavam e conversavam, ele não sabia para que lado olhar e o que
fazer com as mãos. Deveria pô-las nos bolsos ou deixá-las soltas? Braços parados ou balançando?
Ela preferiria sentar-se, andar no meio das pessoas ou ver as vitrinas das lojas?
Ele perguntou a respeito dela, em que lugar freqüentou a faculdade e em que estava
interessada proϐissionalmente. Chloe contou o que houve com sua mãe e seu irmão, e ele se
mostrou sério e compassivo. Buck ϐicou impressionado ainda com a desenvoltura, articulação
verbal e maturidade que ela demonstrava. Esta era uma garota em quem ele poderia ter
interesse, mas ela devia ser pelo menos dez anos mais nova do que ele.
Chloe quis saber sobre a vida e a carreira de Buck. Ele respondeu às suas perguntas e
acrescentou um pouco mais. Somente quando ela perguntou-lhe se havia perdido algum
conhecido nos desaparecimentos, ele falou de sua famıĺia em Tucson e seus amigos na
Inglaterra. Naturalmente, nada comentou a respeito das conexões de Stonagal e Todd-Cothran.
Quando a conversa se acalmou, Chloe o surpreendeu olhando ϐixamente para ela. Ele
instantaneamente desviou o olhar para longe. Quando ele se voltou para Chloe, ela o estava
ϐitando. Ambos sorriram timidamente. Isto é uma loucura, pensou ele. Buck esteve a ponto de
perguntar se ela namorava alguém, mas não conseguiu.
As perguntas dela correspondiam mais a um feitio de uma pessoa jovem a um proϐissional
veterano sobre sua carreira. Ela teve inveja de suas viagens e experiência. Ele não a
entusiasmou com isso, assegurando-lhe que ela se cansaria desse tipo de vida.
— Você já foi casado? — perguntou ela.
Ele gostou da pergunta. Ficou feliz em dizer a ela que não, que nunca teve realmente
algum caso bastante sério para levá-lo ao noivado e casamento.
— E quanto a você? — perguntou ele, sentindo que a conversa era agora um jogo
equilibrado. — Quantas vezes você já se casou?
Ela riu e respondeu-lhe:
— Tive somente um namorado ϐirme. Quando eu era caloura na faculdade, ele estava no
último ano. Eu pensava que fosse amor, mas, quando se formou, nunca mais ouvi falar dele.
— Literalmente?
— Ele viajou para o exterior, enviou-me uma lembrança barata, e esse foi o ϐim de tudo.
Agora está casado.
— Pior para ele.
— Obrigada. Buck sentia-se mais impetuoso.
— O que ele era, cego? — Chloe não respondeu. Ele se esmurrou mentalmente e procurou
recompor-se. — Quero dizer, alguns indivíduos não sabem o que têm nas mãos.
Ela continuava em silêncio, e ele se sentia um idiota. Como se explica que eu seja tão bemsucedido
em algumas coisas e um desajeitado em outras? ele refletiu.
Chloe parou em frente de uma confeitaria.
— Você se acha um doce? — perguntou Chloe.
— Por quê? Eu pareço um?
— Como eu podia saber que aquilo estava acontecendo? -perguntou ela. — Compre-me
um doce, e eu deixarei que essa ansiedade tenha uma morte natural.
— Morte por velhice, você quer dizer — acrescentou ele.
— Essa agora foi boa.
Rayford foi tão sincero, honesto e direto com Hattie, como jamais tinha sido. Eles
sentaram-se frente a frente em cadeiras bem almofadadas a um canto de uma sala grande e
barulhenta, o que impedia que outros ouvissem sua conversa.
— Hattie — começou ele -, não estou aqui para debater opiniões nem para uma simples
troca de idéias. Há coisas que preciso dizer a você e peço-lhe que simplesmente ouça.
— Não posso dizer nada? Porque pode haver coisas que eu também quero que você saiba.
— EƵ claro que deixarei que você me diga o que desejar, mas esta primeira parte, minha
parte, eu não quero que seja um diálogo. Eu preciso expressar algumas coisas e gostaria que
você tivesse uma visão completa do quadro antes de reagir, certo?
Ela encolheu os ombros.
— Acho que não tenho escolha.
— Você teve uma escolha, Hattie. Você não foi forçada a vir.
— Na verdade, eu não queria vir. Eu lhe disse isso e você deixou-me aquela mensagem,
pedindo que eu viesse.
Rayford ficou frustrado.
— Vocêpercebe aonde eu não queria chegar? — disse ele. — ' Como posso me desculpar,
quando tudo o que você quer é discutir se deveria ou não estar aqui?
— Você quer desculpar-se, Rayford? Não vou impedi-lo. Hattie estava sendo sarcástica,
mas ele conseguiu que ela ouvisse.
— Sim, quero. Agora, você me permite? Ela assentiu com a cabeça.
— Quero expor a você o que experimentei, explicar tudo direitinho, assumir todas as
incriminações que me couberem, e depois explicar o que insinuei por telefone naquela noite.
— A respeito do que você descobriu sobre aqueles desaparecimentos.
Ele levantou a mão.
— Não se antecipe a mim.
— Desculpe — disse ela, colocando a mão na boca. — Mas por que você não espera que eu
tome conhecimento quando responder às perguntas de Buck hoje à noite?
Rayford revirou os olhos.
— Eu estava apenas cogitando — acrescentou ela. — Apenas uma sugestão para que você
não tenha de repetir depois.
— Obrigado — disse ele -, mas vou lhe dizer por quê. Isto é tão importante e tão pessoal
que preciso dizer a você em particular. E não me importo de repetir várias vezes. Se minha
intuição estiver certa, você não vai se importar de ouvir isso várias vezes.
Hattie ergueu as sobrancelhas como se estivesse surpresa, acrescentando, porém:
— Sou toda ouvidos. Não vou mais interrompê-lo. Rayford inclinou-se para a frente
apoiando os cotovelos nos joelhos, gesticulando às vezes enquanto falava.
— Hattie, devo a você um grande pedido de desculpa e peço que me perdoe. Fomos
amigos. Desfrutamos mutuamente esse companheirismo. Eu gostava de estar perto de você e
passar alguns momentos a seu lado. Achava vocêbonita e atraente, e acho que percebeu que eu
estava interessado em relacionar-me com você.
Ela parecia surpresa, mas Rayford admitia que, se não fosse pelo compromisso de ϐicar em
silêncio, ela teria dito que ele possuıá um jeito pouco insinuante de mostrar interesse. Ele
continuou.
— Provavelmente, a única razão de eu nunca ter persistido em alguma coisa mais
avançada com relação a vocêfoi porque eu era completamente inexperiente nessas coisas. Mas
seria somente uma questão de tempo. Se eu tivesse notado que você estava disposta, eu teria
possivelmente feito alguma coisa errada.
Ela enrugou a testa e pareceu ofendida.
— Sim — disse ele -, teria sido errado. Eu era casado, não inteiramente feliz ou bemsucedido,
mas por falha minha. Além disso, eu tinha feito um voto, um compromisso, e, por mais
que eu justiϐicasse meu interesse por você, teria sido um erro. O olhar de Hattie dava a entender
que ela não concordava.
— De qualquer modo, eu enganei você. Não fui totalmente honesto. Mas agora tenho de
dizer-lhe que me sinto aliviado por não ter feito alguma coisa... Hã, estúpida. Não teria sido
correto para você. Sei que não sou seu juiz nem julgador, e não tenho nada a ver com seus
princípios de moralidade. Mas não teria havido nenhum futuro para nós.
— Deixando de lado nossa diferença de idade, o fato é que o único interesse real que eu
tinha em vocêera fıś ico. Vocêtem o direito de me odiar por isso, e eu não vou culpá-la. Eu não
a amava. Você tem de concordar que aquele não teria sido o tipo de vida que merece.
Ela assentiu com a cabeça, aparentando tristeza e desapontamento. Ele sorriu.
— Vou permitir que você interrompa seu silêncio por pouco tempo — disse Rayford. —
Preciso saber se você ao menos me perdoa.
— Algumas vezes eu me indago se a honestidade é sempre a melhor polıt́ ica — disse
Hattie. — Eu até concordaria, se vocêtivesse dito que o desaparecimento de sua esposa o fez
sentir-se culpado pelo que estava acontecendo. Sei que não houve nada sério entre nós, mas esta
teria sido uma maneira mais suave de se justificar.
— Mais suave, porém falsa. Hattie, estou sendo inteiramente sincero. Eu preferia mil
vezes ter sido mais gentil e delicado para evitar que vocêϐicasse ressentida comigo, mas apenas
não posso mais ser falso. Não fui sincero durante anos.
— E agora você é?
— A ponto de tornar esta conversa desinteressante para você — disse ele.
Ela assentiu novamente.
— Por que eu desejaria fazer isso? — prosseguiu Rayford. Todo mundo gosta de ser
apreciado. Eu podia ter atribuıd́ o a culpa à minha esposa ou outra pessoa. Mas quero viver em
paz comigo mesmo. Quero ser capaz de convencer você, quando eu começar a falar sobre
coisas bem mais importantes, sem ter outros motivos em vista.
Os lábios de Hattie tremiam. Ela os apertou e olhou para baixo, enquanto uma lágrima
deslizava em sua face. Olhar para ela com simpatia era tudo o que Rayford podia fazer para não
ter de abraçá-la. Não haveria nada de sensual nesse gesto, mas ele não queria ser mal
interpretado.
— Hattie — disse ele. — Sinto muito, muito mesmo. Perdoe-me. Ela assentiu movendo a
cabeça, mas incapaz de falar. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu recompor-se.
— Agora, depois de tudo isso — disse Rayford -, tenho de convencê-la de algum modo de
que me preocupo com você como amiga e como pessoa.
Hattie levantou ambas as mãos, esforçando-se para não chorar. Sacudiu a cabeça, como
se não estivesse preparada para ouvir mais nada.
— Não, não diga nada — pediu ela. — Não agora.
— Hattie, eu tenho de dizer.
— Por favor, me dê um minuto.
— Fique à vontade, mas não fuja de mim agora — insistiu ele. — Eu não seria um
verdadeiro amigo para você, se não lhe dissesse o que encontrei, o que aprendi, o que estou
descobrindo cada vez mais a cada dia.
Hattie escondeu o rosto nas mãos e chorou.
— Eu não queria fazer isso. Não queria dar a você essa satisfação!
Rayford falou tão ternamente quanto podia.
— Agora, você está me ofendendo — disse ele. — Se você não extraiu nada desta
conversa, deve saber que suas lágrimas não me dão nenhuma satisfação. Cada uma delas é uma
punhalada para mim. Sou o responsável. Eu estava errado.
— Dê-me um minuto — disse ela, afastando-se apressadamente.
Rayford remexeu sua maleta para encontrar a Bıb́ lia de Irene e rapidamente localizou
algumas passagens. Ele tinha decidido não falar com Hattie com a Bıb́ lia aberta. Não queria que
ela se sentisse constrangida ou intimidada, apesar de ter adquirido uma grande coragem e
determinação.
— Você vai achar muito interessante a teoria de meu pai sobre os desaparecimentos —
disse Chloe a Buck.
— Vou? — perguntou ele.
Ela meneou levemente a cabeça conϐirmando, e ele notou um pedacinho de chocolate no
canto da boca de Chloe.
— Permita-me — disse ele estendendo a mão.
Ela levantou o queixo, e ele retirou o chocolate com o dedo polegar. E agora o que ele
devia fazer? Limpar o dedo com um guardanapo? Impulsivamente, ele lambeu o polegar.
— Seu louco! — reagiu ela. — E se eu tiver uma doença contagiosa?
— Então agora nós dois estamos doentes — e riram. Buck sentiu o rosto arder, algo que
não lhe acontecia há muito tempo, e por isso tratou de mudar de assunto.
— Vocêfala da teoria de seu pai como se talvez não fosse também a sua. Vocês divergem
neste ponto?
— Ele pensa que sim, porque discuto com ele, e isso lhe tem causado aborrecimento. Eu
só não quero parecer muito fácil de ser persuadida, mas, se tivesse de ser honesta, eu diria que
estou muito perto. Veja, ele pensa que...
Buck levantou a mão.
— Oh! perdão, não me diga. Quero ouvir isso dele em primeira mão e gravar na ϐita
cassete.
— Oh! desculpe-me.
— Está tudo bem. Não quis deixá-la embaraçada, mas é exatamente como gosto de
trabalhar. Apreciaria muito também conhecer sua teoria. Pretendemos ainda conhecer as idéias
de alguns garotos colegiais, mas seria improvável usar duas pessoas da mesma famıĺia.
Naturalmente, você acaba de me dizer que está basicamente de acordo com seu pai, por isso
seria melhor esperar e ouvir ambos ao mesmo tempo. Ela ficou em silêncio de repente e parecia
séria.
— Sinto muito, Chloe, eu não quis insinuar que não estou interessado em sua teoria.
— Não é isso — disse ela. — Mas você simplesmente me enquadrou entre eles.
— Enquadrei você?
— Como uma garota colegial.
— Oh! não ϐiz isso, ϐiz? Minha falta, perdoe-me. Sei disso muito bem. Os alunos
universitários não são garotos. E eu não a vejo como garota, embora você seja um bocado mais
jovem do que eu.
— Colegiais! Há muito tempo não ouço esta expressão.
— Estou revelando minha idade, não estou?
— Qual é a sua idade, Buck?
— Trinta e meio, a caminho dos 31 — disse ele piscando o olho.
— Pergunto, qual é a sua idade? — ela gritou, como se estivesse falando com um ancião
surdo. Buck explodiu numa gargalhada.
— Vou comprar outro doce para você, garotinha, mas não quero tirar seu apetite.
— EƵ melhor não fazer isso. Meu pai adora boa comida, especialmente quando ele tem
convidados. Ele é um bom anfitrião.
— Está bem, Chloe.
— Posso dizer-lhe algo, sem que você pense que sou estranha? — perguntou ela.
— Agora é muito tarde — disse ele.
Ela fez uma carranca e deu-lhe um soco de brincadeira.
— Eu estava apenas querendo dizer que gosto do modo como você pronuncia meu nome.
— Não sabia que havia um outro modo de pronunciá-lo — disse ele.
— Oh! há sim. Mesmo os meus amigos escorregam ao pronunciá-lo em uma sıĺaba só,
como Clói.
— Chloe — repetiu Buck.
— É isso — disse ela. — Exatamente. Duas sílabas, O longo, E longo.
— Gosto de seu nome — falou Buck imitando a voz rouca de um ancião. — EƵ um nome
apropriado para uma pessoa jovem. Quantos anos você tem, menina?
— Vinte e meio, a caminho dos 21.
— Oh! meu Deus — exclamou ele, ainda distorcendo a voz -, estou diante de uma menor
de idade!
Enquanto caminhavam de volta ao Clube Pan-Continental, Chloe disse:
— Se você prometer não fazer estardalhaço por causa da minha idade, não vou fazer o
mesmo com a sua.
— Você se comporta como uma pessoa de mais idade — reagiu ele com um sorriso
aflorando aos lábios.
— Vou tomar isso como um elogio — disse ela com um sorriso comedido, como quem não
está consciente da sinceridade dessa alusão.
— Estou falando sério — retornou ele. — Poucas pessoas de sua idade têm essa
versatilidade e desenvoltura de se expressar.
— Agora tenho certeza de que foi um elogio.
— Você capta as coisas rapidamente.
— É verdade que você entrevistou Nicolae Carpathia? Ele confirmou meneando a cabeça.
— Somos quase amigos.
— Você está brincando!
— Bem, não é tanto assim. Mas nos damos muito bem.
— Fale-me sobre ele. E Buck falou.
Hattie retornou levemente refeita, mas ainda com os olhos inchados, e sentou-se
novamente como se estivesse preparada para continuar a ouvir aϐirmações constrangedoras.
Rayford reiterou que estava sendo sincero em seus pedidos de desculpa, e ela completou:
— Vamos simplesmente esquecer tudo isso, está bem?
— Preciso saber se você me perdoou — insistiu ele.
— Você parece estar realmente dependendo de meu perdão, Rayford. Isso vai permitir
que você se sinta "libertado", com a consciência tranqüila?
— Talvez sim — disse ele. — Acima de tudo, eu ϐicaria sabendo que você acredita na
minha sinceridade.
— Eu acredito — disse Hattie. — Isso não vai tornar as coisas mais agradáveis nem mais
fáceis, mas, se ϐizer você sentir-se melhor, acredito de fato em sua sinceridade. E não vou
guardar ressentimentos, o que significa que você está perdoado.
— Bem, vou aceitar até onde puder — acrescentou ele. -Agora, quero ser muito honesto
com você.
— Hã, oh! ainda tem mais? Ou você se refere àquilo que quis me ensinar sobre o que
aconteceu na semana passada?
— Sim, exatamente, mas preciso dizer-lhe que Chloe me aconselhou a não falar sobre esse
assunto neste momento.
— A mesma conversa como a, hã, outra, você quer dizer.
— Isso mesmo.
— Sua filha é uma garota esperta — disse ela. — Vamos nos entender bem.
— Você não tem muito mais idade do que ela.
— Uma observação fora de propósito, Rayford. Se você está pretendendo usar o tipo de
abordagem "Você tem idade para ser minha filha", deveria ter pensado nisto antes.
— Não, a menos que eu tivesse sido seu pai quando tinha 15 anos — disse Rayford. — De
qualquer forma, Chloe está convencida de que vocênão estaria disposta ou preparada para ouvir
neste momento.
— Por quê? Isso requer alguma reação? Tenho de aceitar suas idéias ou algo assim?
— EƵ o que espero, porém minha resposta é não. Se for alguma coisa que você não possa
aceitar imediatamente, compreendo. Mas admito que vocêperceberá a premência de assumir
uma posição.
Rayford sentia-se como Bruce Barnes, quando este lhe expôs a verdade no dia em que se
conheceram. Estava cheio de entusiasmo e persuasão, sentindo que as orações que fez para
receber coragem e agir coerentemente tinham sido respondidas à medida que falava. Ele
contou a Hattie sua história com Deus, dizendo que fora educado num lar cristão, que todos
freqüentavam a igreja e que ele e Irene participaram de várias igrejas durante seu casamento.
Chegou a dizer que a preocupação de Irene com os acontecimentos do ϐinal dos tempos levou-o
a considerar a necessidade pessoal de buscar companhia fora do lar.
Rayford podia perceber pelo olhar de Hattie que ela sabia aonde ele queria chegar, que ele
passara a concordar com Irene, aceitando as mesmas crenças dela. Hattie ϐicou imóvel na
cadeira enquanto ele relatava o que tinha encontrado naquela manhãem que chegou a sua casa
depois da aterrissagem em O'Hare.
Ele contou-lhe a respeito do telefonema para a igreja, do encontro com Bruce, do relato
que este lhe fez, do videoteipe, de seus estudos, das profecias da Bıb́ lia, dos pregadores em
Israel, os quais, de forma lıḿ pida e irretorquıv́ el, correspondiam às duas testemunhas
mencionadas no Apocalipse.
Rayford contou-lhe como tinha repetido as palavras da oração do pastor ao ver o
videoteipe e como se sentia agora tão responsável por Chloe, desejoso de que ela também
reencontrasse Deus. Hattie mantinha os olhos fixos nele.
Nada transparecia nos gestos ou na expressão dela que o animasse, mas ele continuou. Não
pediu que ela orasse com ele. Simplesmente disse que não iria mais justiϐicar as coisas em que
acreditava.
— Vocêpode constatar, ao menos, que uma pessoa que aceita esta verdade deve passá-la
adiante. Essa pessoa não seria considerada amiga, se não agisse assim.
Hattie não lhe dava nem mesmo a satisfação de um sinal de reconhecimento e respeito,
ainda que fosse um simples mover da cabeça.
Depois de quase meia hora, ele esgotou seu novo conhecimento e concluiu:
— Hattie, quero que você pense e medite no que lhe falei, veja o videoteipe, fale com
Bruce, se quiser. Não posso fazer você acreditar. Ilido o que posso fazer é alertá-la sobre aquilo
que passei a aceitar como verdade. Preocupo-me com você e não gostaria, nem teria minha
consciência em paz, que vocêperdesse a oportunidade simplesmente porque ninguém lhe falou
a este respeito.
Finalmente, Hattie aprumou-se na cadeira e suspirou.
— Bem, isto é fascinante, Rayford. EƵ, realmente. Gostei de ouvir sua exposição. Pareceume
estranho e diferente, porque nunca soube que essas coisas estavam na Bıb́ lia. Minha famıĺia
freqüentou a igreja quando eu era criança, especialmente em celebrações ou quando era
convidada, mas nunca tinha ouvido essas coisas. Vou pensar no assunto. Tenho de fazê-lo de
algum modo. Depois de ouvir um relato como esse, é difıć il afastá-lo da mente por um bom
tempo. É isso o que você vai dizer a Buck Williams no jantar?
— Palavra por palavra. Ela riu furtivamente.
— Fico pensando se algum desses aspectos vai figurar em sua revista.
— Provavelmente serão publicadas ao lado de alienıǵ enas do espaço, guerra
bacteriológica e raios mortíferos — pressentiu Rayford.
C A P Í T U L O 21
QUANDO Buck e Chloe se reencontraram com Hattie e Rayford, perceberam que Hattie
havia chorado. Buck considerou que não deveria aproximar-se para perguntar o que tinha
havido, e ela em nenhum momento lhe acenou com essa possibilidade.
Buck estava entusiasmado com a oportunidade de entrevistar Rayford Steele, mas suas
emoções eram confusas. As reações do capitão, que havia pilotado o avião em que ele era
passageiro quando ocorreram os desaparecimentos, acrescentariam aspectos dramáticos à sua
reportagem. Porém, mais do que isso, ele desejava estar perto de Chloe. Buck retornaria ao
escritório, em seguida iria para seu apartamento para mudar de roupa e os encontraria mais
tarde no Carlisle. No escritório, ele recebeu um telefonema de Stanton Bailey perguntando
quando poderia ir a Chicago para providenciar a substituição de Lucinda Washington.
— Devo ir logo, mas não quero perder o desenrolar dos acontecimentos na ONU.
— Tudo o que vai acontecer lá amanhãcedo vocêjá ouviu de Plank — disse Bailey. — Eu
soube que as coisas já estão começando a ser decididas. Plank vai assumir sua nova função
amanhã cedo, negar o interesse de Carpathia, reiterar o que vai se realizar, e todos nós
ficaremos na expectativa de alguém morder a isca. Não acredito que isso vai acontecer.
— Eu desejaria que sim — disse Buck, na esperança de ainda poder confiar em Carpathia e
ansioso para ver o que o homem faria em relação a Stonagal e Todd-Cothran.
— Eu também — disse Bailey -, mas quais são as probabilidades? Ele é o homem para este
momento, mas seus planos de desarmamento global e de reorganização são muito ambiciosos.
Isso nunca vai acontecer.
— Eu sei, mas se o senhor estivesse decidindo, não se empenharia em conseguir?
— Sim — disse Bailey suspirando. — Provavelmente me empenharia. Estou muito
cansado de guerra e violência. E eu até apoiaria a mudança para essa Nova Babilônia.
— Talvez os delegados junto à ONU serão bastante atilados para perceber que o mundo
está pronto para Carpathia — disse Buck.
— Não seria bom demais para ser verdade? — perguntou Bailey. — Não aposte nessa
certeza, não ϐique ansioso nem faça qualquer outra coisa que não tenha a obrigação de fazer,
quando as possibilidades estão contra você.
Buck informou ao seu novo chefe que voaria a Chicago na manhã seguinte e retornaria a
Nova York domingo à noite.
— Vou sondar o terreno, descobrir quem está à altura dessa posição em Chicago, ou se
vamos ter de procurar candidatos fora.
— Eu preferiria estar por dentro disso — disse Bailey. — Mas é meu estilo deixar que você
tome essas decisões.
Buck telefonou para Linhas Aéreas Pan-Continental e foi informado de que o vôo de
Rayford Steele sairia às oito da manhã. Ele disse à funcionária encarregada das reservas que a
companheira de viagem de Rayford era Chloe Steele.
— Sim — disse ela. — A Srta. Steele tem um bilhete de cortesia na primeira classe. Há
uma poltrona vaga ao lado dela. O senhor também é um convidado da tripulação?
—Não.
Ele fez uma reserva na classe econômica por conta da revista e pagaria por fora a
diferença para viajar na primeira classe ao lado de Chloe. Ele não diria nada durante o jantar
naquela noite sobre a viagem a Chicago.
Fazia muito tempo que Buck não usava gravata, mas agora tratava-se, afinal de contas, do
restaurante do Hotel Carlisle. Ele não seria admitido no recinto sem gravata. Felizmente, foram
levados a uma mesa privativa numa saleta, onde ele podia esconder sua valise, evitando desta
forma ser visto como deselegante. Seus companheiros de mesa supunham que ele precisava da
maleta para guardar seus equipamentos, desconhecendo que ele carregava também uma muda
completa de roupa.
Chloe estava radiante, aparentando ter cinco anos mais e trajava urn vestido de alto estilo
para noite. Estava evidente que ela e Hattie tinham passado parte da tarde num salão de
beleza.
Rayford notou que sua ϐilha estava deslumbrante naquela noite e se pôs a considerar o que
o redator da revista pensava dela. Claramente esse Williams era um tanto velho para ela.
Rayford passou as horas livres antes do jantar dormindo e depois orou para que tivesse a
mesma coragem e clareza que tivera com Hattie. Não fazia idéia do que ela pensava, exceto
que ele tinha sido "fascinante" por contar tudo a ela. Ele não sabia ao certo se aquilo era
sarcasmo ou condescendência. Só esperava ter dito tudo o que era necessário. Seria bom que ela
passasse algum tempo a sós com Chloe. Rayford esperava que Chloe não fosse tão antagônica e
relutante a ponto de se aliar a Hattie contra ele.
No restaurante, Williams aparentava olhar insistentemente para Chloe sem dar atenção a
Hattie. Rayford considerou essa atitude uma indelicadeza, mas que não parecia incomodar
Hattie. Talvez ela tivesse real interesse em Buck e não queria demonstrar. Rayford nada
comentou sobre o novo visual de Hattie para a noite, mas aquilo era intencional. Ela estava
belíssima como sempre, mas ele evitava trilhar novamente o mesmo caminho.
Durante o jantar, Rayford manteve uma conversa amena. Buck pediu-lhe que o avisasse
quando estivesse pronto para a entrevista. Após a sobremesa, Rayford dirigiu-se reservadamente
ao garçom.
— Gostaríamos de passar outra hora ou pouco mais aqui, se não houver problema.
— Senhor, temos uma extensa lista de reservas...
— Não quero que esta mesa lhe dê prejuıź o — disse Rayford, colocando uma boa gorjeta
extra na mão do garçom — e peça-nos que deixemos a mesa quando se tornar necessário.
O garçom lançou um rápido olhar para a nota e enfiou-a no bolso.
— Estou certo de que o senhor não será incomodado — disse ele. E os copos continuaram
sendo abastecidos de água.
Rayford gostou de responder às perguntas iniciais de Williams sobre sua atividade, seu
treinamento, seus antecedentes familiares e sua educação e formação em geral, mas estava
ansioso para falar de sua nova missão na vida. E finalmente veio a pergunta.
Buck tentou concentrar-se nas respostas do capitão, mas estava ao mesmo tempo
procurando impressionar Chloe. Toda a imprensa e os leitores do Semanário Global sabiam que
ele era o melhor entrevistador do mundo. Além do mais, sua capacidade de peneirar
rapidamente o conteúdo de informações e tornar o artigo interessante e agradável de ler
também colaborou para que ele ficasse famoso.
Buck fez algumas rápidas perguntas preliminares e gostou das respostas do capitão. Steele
parecia honesto e sincero, muito vivo e eloqüente. Ele observou que Chloe era muito parecida
com Rayford.
— Agora estou pronto — disse ele — para perguntar sua idéia sobre o que aconteceu
naquele fatídico vôo para Londres. O senhor tem uma teoria?
O capitão hesitou e sorriu como que se concentrando.
— Tenho mais do que uma teoria — disse ele. — Você pode pensar que isto parece uma
coisa absurda, uma insanidade vinda de uma pessoa de mente voltada para a área técnica, como
a minha, mas acredito ter encontrado a verdade e sei exatamente o que aconteceu.
Buck sabia que isso teria um destaque especial na revista.
— Aprecio um homem que conhece sua mente — disse. — Aqui está sua oportunidade de
apresentá-la ao mundo.
Chloe escolheu aquele momento para tocar suavemente o braço de Buck e pedir que ele a
desculpasse por ter de retirar-se por um momento.
— Eu a acompanho — disse Hattie. Buck sorriu, acompanhando-as com os olhos ao se
afastarem.
— O que está acontecendo? — perguntou. — Uma conspiração? Elas foram instruıd́ as a
me deixar a sós com o senhor, ou já conhecem a história e não querem ouvir a reprise?
Rayford sentiu-se frustrado intimamente, quase a ponto de enraivecer. Esta era a segunda
vez em poucas horas que Chloe se afastava dele num momento crucial.
— Asseguro-lhe que não é este o caso — disse ele, forçando um sorriso. Não podia retardar
a entrevista e esperar pelo retorno delas. A pergunta tinha sido feita, ele se sentia pronto,
portanto atirou-se de corpo e alma ao assunto, dizendo coisas que poderiam enquadrá-lo na
categoria dos loucos ou excêntricos. Da mesma forma que procedera com Hattie, ele resumiu a
história de sua vida espiritual irregular e, em pouco mais de meia hora, pôs Williams a par de
tudo, contando cada detalhe que considerava relevante. Nesse ínterim, as jovens retornaram.
Buck permaneceu sentado sem interromper, enquanto aquele proϐissional lúcido e sincero
expunha uma teoria que, apenas três semanas antes, ele teria considerado absurda. Pareciam
palavras que ouvira na igreja e de amigos, mas seu entrevistado sempre tinha um capıt́ ulo e um
versıć ulo da Bıb́ lia para dar consistência às suas aϐirmações. E quanto àqueles dois pregadores
em Jerusalém representando as duas testemunhas profetizadas no Apocalipse? Buck estava
espantado. Resolveu interromper.
— Este é um ponto interessante. O senhor está sabendo da última notıć ia? — perguntou
Buck, passando, em seguida, a relatar o que vira na televisão durante alguns minutos em seu
apartamento. — Milhares de pessoas parecem estar fazendo uma espécie de peregrinação ao
Muro das Lamentações. Elas fazem uma ϐila de vários quilômetros tentando entrar no recinto e
ouvir a pregação. Muitos estão se convertendo e saindo para testemunhar ou pregar a
mensagem ouvida.
As autoridades são impotentes para conter a multidão, a despeito da forte oposição dos
judeus ortodoxos. Aqueles que se opõem aos pregadores são silenciados ou paralisados de algum
modo, sem qualquer intervenção fıś ica, e muitos dos soldados da guarda mantida pelos
ortodoxos estão se juntando aos pregadores.
— EƵ espantoso — respondeu o piloto. — Porém mais espantoso ainda é que tudo isso foi
profetizado na Bíblia.
Buck estava ansioso, um tanto agoniado, tentando recompor-se. Não estava seguro daquilo
que ouvia, mas as palavras de Steele pareciam-lhe consistentes. Talvez o homem estivesse
procurando associar a profecia bıb́ lica ao que estava acontecendo em Israel, mas ninguém tinha
outra explicação. O que Steele havia lido para ele no Apocalipse parecia claro.
Talvez aquilo estivesse errado. Talvez se tratasse de uma linguagem complicada e difıć il
de entender. Entretanto, era a única teoria que se relacionava mais de perto com os incidentes
e com alguma lógica. Que outra coisa poderia provocar em Buck constantes calafrios pelo
corpo?
Buck concentrou-se na pessoa do capitão Steele, com o pulso disparado, sem olhar para os
lados. Ele se sentia paralisado. Imaginava que as duas jovens pudessem estar ouvindo o pulsar de
seu coração. Seria tudo isso possıv́ el? Poderia ser verdadeiro? Tinha ele testemunhado a clara
intervenção divina na destruição da força aérea russa para poder compreender agora um
fenômeno como este? Podia ele apenas balançar a cabeça num gesto de descrédito e varrer
tudo isso de sua mente? Poderia dormir para refrescar as idéias e voltar ao seu sentido normal
pela manhã? Uma conversa com Bailey e Plank teria o condão de sacudi-lo e recolocá-lo no
trilho, levando-o a livrar-se dessa tolice?
Ele sentia que não. Alguma coisa mais reclamava atenção. Ele queria acreditar em algo
que juntasse todas as peças e formasse um sentido. Mas Buck também queria acreditar em
Nicolae Carpathia. Talvez Buck estivesse enfrentando um momento assustador que o tomava
vulnerável a pessoas sensıv́ eis. Ele não era assim, mas, então, quem era ele nesses dias? Quem
poderia esperar ser a mesma pessoa em tempos como os que estavam sendo vividos?
Buck não queria deixar passar a oportunidade de falar abertamente de si mesmo. Queria
perguntar a Rayford a respeito de sua cunhada, sobrinho e sobrinha. Mas tratava-se de um
assunto pessoal, que não se relacionava com a reportagem que estava montando. Essa matéria
não visava a uma indagação pessoal em busca da verdade. Sua missão era meramente colher
fatos que fariam parte de uma reportagem mais ampla.
Em nenhum momento Buck chegou a pensar em escolher uma teoria favorita e defendê-la
como se fosse sancionada pelo Semanário Global. Ele deveria juntar todas as teorias, desde as
plausıv́ eis até as mais bizarras. Os leitores se incumbiriam de acrescentar suas idéias na seção
de Cartas, ou tomariam uma decisão com base na credibilidade das fontes de informação. O
piloto da companhia aérea seria visto como um homem de visão e convincente, a menos que
Buck o fizesse parecer urn lunático.
Pela primeira vez, até onde podia se lembrar, Buck Williams ficou sem ter o que dizer.
Rayford estava certo de que não tinha sido convincente em impressionar o repórter. Ele
esperava apenas que o redator fosse bastante esperto para compreender, citar suas palavras
corretamente e representar seus pontos de vista de modo a inϐluenciar os leitores a aceitarem o
cristianismo. Pareceu-lhe claro que o próprio Williams não se deixou inϐluenciar. Se Rayford
tivesse de adivinhar, diria que Williams estava tentando esconder um sorriso de zombaria — ou
então estava se divertindo ou surpreso demais a ponto de não ter conseguido esboçar uma
reação.
Rayford teve de lembrar a si mesmo que seu propósito básico era convencer Chloe, em
primeiro lugar, e depois talvez inϐluenciar o público leitor, se a revista fosse ϐiel ao transcrever
suas idéias. Se Cameron Williams pensasse que Rayford estava totalmente fora da realidade,
poderia simplesmente deixar de fora seu depoimento, com todas as suas idéias absurdas.
Buck não conϐiava em si mesmo para reagir com coerência. Ele ainda estava com
calafrios e, ao mesmo tempo, sentia a roupa grudar em seu corpo suado. O que estava
acontecendo com ele? Dirigiu-se a Rayford com voz pausada, quase sussurrando:
— Quero agradecer-lhe o seu tempo e o jantar. Voltarei a contatá-lo antes de usar
qualquer de suas declarações.
Isso, evidentemente, não fazia sentido. Ele lançou mão desse expediente unicamente
como oportunidade de fazer novo contato com o piloto. Ele poderia ter uma porção de
perguntas pessoais sobre o assunto, mas jamais permitiu que as pessoas entrevistadas revissem
suas palavras antes da publicação. Sempre conϐiou em seu gravador e em sua memória e nunca
foi acusado de deturpar as declarações de urn entrevistado.
Buck olhou novamente para o capitão e notou uma estranha aparência em seu rosto. Ele
parecia... o quê? Desapontado? Sim, e em seguida resignado.
Repentinamente, Buck se lembrou das qualiϐicações da pessoa com quem estava lidando.
Tratava-se de um homem inteligente e culto. Certamente ele deveria saber que os
entrevistadores jamais retornam a suas fontes para conϐirmar declarações. O capitão tinha o
direito de pensar que estava diante de urn jornalista principiante.
Uma mancada típica de urn "foca", Buck, ele mesmo se repreendeu. Você acaba de
subestimar sua fonte.
Enquanto guardava seu equipamento, Buck percebeu que Chloe estava chorando.
Lágrimas escorriam em suas faces. O que havia com essas jovens? Hattie Durham tinha chorado
quando ela e o capitão terminaram sua conversa naquela tarde. Agora Chloe.
Buck podia imaginar o que se passava, ao menos em relação a Chloe. Se ela estava
chorando por ter ϐicado comovida com a sinceridade e convicção de seu pai, não era de
surpreender. Buck sentia um nó na garganta, e pela primeira vez, desde que encostou o rosto no
chão, de medo, em Israel durante o ataque russo, ele tinha necessidade de um lugar reservado
para chorar.
— Posso perguntar mais uma coisa, fora da gravação? -indagou ele. — Posso perguntar o
que o senhor e Hattie estavam conversando esta tarde no clube?
— Buck! — Hattie desabafou colérica. — Não é da sua...
— Se o senhor não quiser responder, vou compreender -disse Buck. — Eu estava apenas
curioso.
— Bem, grande parte da conversa foi pessoal — disse Rayford.
— Entendo.
— Mas, Hattie — ponderou o capitão -, não vejo nenhum mal em dizer-lhe que o resto de
nossa conversa foi o que tratamos aqui. Certo?
Ela encolheu os ombros.
— Ainda fora da gravação, Hattie — disse Buck. — Você se importa se eu perguntar sua
reação a tudo isso?
— Por que fora da gravação? — explodiu Hattie. — A opinião de um piloto é mais
importante do que a de uma comissária?
— Vou ligar o gravador, já que vocêquer — disse ele. — Não sabia que vocêdesejava ter
seu depoimento gravado.
— Não quero — disse ela. — Eu queria apenas que alguém me convidasse a depor. Agora é
tarde.
— E não se importa de dizer o que acha.
— Não... bem, vou dizer a você. Acho que Rayford é sincero e ponderado. Se ele está certo
ou não, não tenho nenhuma idéia. Esse assunto está além do meu entendimento e é muito
estranho. Mas estou convencida de que ele acredita nisso. Se ele deve acreditar ou não, com sua
formação e tudo mais, não sei. Talvez ele esteja muito impressionado porque perdeu sua família.
Buck assentiu, concluindo que estava mais perto de aceitar a teoria de Rayford do que ela.
Olhou para Chloe, esperando que ela estivesse mais calma e pudesse ser ouvida. Ela ainda
esfregava os olhos com um lenço.
— Por favor, não me faça perguntas agora — disse ela.
Rayford não se surpreendeu com a resposta de Hattie, mas ϐicou profundamente
desapontado com Chloe. Estava convencido de que ela não quis deixá-lo em situação
embaraçosa por ter de dizer que ele foi grotesco. Eu devia estar agradecido, pensava. Pelo
menos, sua ϐilha ainda se sensibilizava com os sentimentos dele. Talvez devesse ser mais
compreensivo com ela, mas decidiu que não podia permitir mais que aquelas amenidades se
tornassem prioritárias. Lutaria pela fé até que ela tomasse sua decisão. Naquela noite, contudo,
estava claro que ela ouvira o suficiente. Não a pressionaria. Só esperava poder dormir, a despeito
de seu remorso sobre a condição emocional da filha. Ele a amava muito.
— Sr. Williams — disse ele, levantando-se e estendendo-lhe a mão -, foi um prazer. O
pastor de Illinois, de quem lhe falei, está bem informado sobre este assunto e sabe mais do que
eu a respeito do anticristo e outras coisas. Creio que vale a pena ligar para ele e conhecer mais
coisas. Bruce Barnes, Igreja Nova Esperança, Monte Prospect.
— Vou guardar essas informações na mente — disse Buck. Rayford estava convencido de
que Williams apenas quis ser gentil.
Falar com esse Barnes seria uma grande idéia, pensou Buck. Talvez ele tivesse tempo no
dia seguinte, em Chicago. Deste modo, poderia inteirar-se de tudo por si mesmo, sem misturar o
aspecto profissional com interesses próprios.
Os quatro caminharam lentamente até o saguão. — Vou lhes dar meu boa-noite — disse
Hattie. — Embarco no primeiro vôo amanhã.
Ela agradeceu a Rayford o jantar, sussurrou alguma coisa ao ouvido de Chloe — que
parecia algo sem resposta — e agradeceu a Buck sua hospitalidade naquela manhã.
—Talvez eu telefone para o Sr. Carpathia nesses próximos dias — disse ela.
Buck resistiu ao impulso de dizer-lhe o que sabia sobre o futuro iminente de Carpathia. Ele
duvidava de que o homem tivesse tempo para ela.
Chloe parecia como se desejasse acompanhar Hattie até os elevadores e, por outro lado,
queria também dizer alguma coisa a Buck. Ele ficou pasmo quando ela disse:
— Dê-nos um minuto, pode ser, papai? Subo em seguida. Buck sentiu-se lisonjeado por
Chloe ter permanecido no andar para dizer adeus pessoalmente, mas ela estava ainda
emocionada. Sua voz estava trêmula quando lhe disse formalmente dos bons momentos que
tiveram naquele dia. Ele tentou prolongar a conversa.
— Seu pai é uma pessoa de muita sensibilidade — comentou ele.
— Eu sei — disse ela. — Em especial nestes últimos dias.
— Posso ver que você pode concordar com ele sobre grande parte daquele assunto.
— Você pode ver?
— Claro! Eu mesmo tenho muito que pensar sobre isso. Você tem dado um bocado de
trabalho para ele, hein?
— Dava. Agora, não.
— Não? Por quê?
— Você pode perceber o quanto isso signiϐica para ele. Buck concordou movendo a
cabeça. Chloe estava a ponto de se emocionar de novo. Ele estendeu-lhe a mão.
— Foi maravilhoso passar alguns momentos com você — disse ele.
Ela riu meio inibida, como que constrangida sobre o que acabara de pensar.
— O que foi? — insistiu ele.
— Oh! nada. Uma coisa tola.
— Vamos, o que foi?
— Bem, sinto-me uma idiota — disse ela. — Acabo de conhecê-lo e já estou sentindo
saudade. Se for a Chicago, ligue para mim.
— EƵ uma promessa — disse Buck. — Não sei quando, mas, digamos, mais depressa do que
você imagina.
C A P Í T U L O 22
BUCK não dormiu bem, em parte porque estava entusiasmado pela surpresa da manhã
seguinte. Só esperava que Chloe ϐicasse feliz ao vê-lo. Sua mente girava à procura de respostas.
Se tudo o que Rayford Steele havia postulado fosse verdade, por que Buck levara uma vida
inteira para conhecê-la? Buck sabia instintivamente que, se parte do que ouvira fosse
verdadeiro, o todo também seria. Será que ele tentara encontrar a verdade o tempo todo, mal
sabendo o que procurava?
No entanto, mesmo o capitão Steele — um piloto organizado, de mente analıt́ ica — havia
perdido a oportunidade, apesar de alegar ter vivido sob o mesmo teto com uma pessoa
defensora de uma causa, devotada e quase fanática. Buck estava tão inquieto que se levantou e
pôs-se a caminhar de um lado para o outro. Por mais estranho que parecesse, não se sentia
aborrecido nem feliz. Sentia-se simplesmente oprimido. Até poucos dias antes, nada daquilo
fazia o mıń imo sentido para ele, e agora, pela primeira vez desde a experiência em Israel, não
conseguia separar-se de sua reportagem.
O ataque à Terra Santa tinha sido um divisor de águas em sua vida. Ele havia contemplado
a morte de frente e teve de reconhecer que alguma coisa do outro mundo — isso mesmo,
sobrenatural, alguma coisa vinda diretamente do Deus Todo-poderoso — foi lançada sobre
aquelas colinas empoeiradas em forma de fogo no céu. E ele tinha aprendido, sem sombra de
dúvida, pela primeira vez na vida, que coisas inexplicáveis não podiam ser dissecadas nem
avaliadas cientificamente com imparcialidade sob uma perspectiva acadêmica.
Buck tinha sempre se orgulhado de isolar-se dos fatos, por incluir o elemento humano, o
dia-a-dia das pessoas em suas reportagens, quando outros resistiam a tal vulnerabilidade. Esta
habilidade permitia que os leitores se identiϐicassem com ele, provassem, sentissem e
cheirassem o que lhes era mais importante. Mas sempre tinha sido capaz, mesmo depois de
uma proximidade com a morte, de permitir que o leitor vivesse o episódio sem revelar a
profunda angústia que sentia no peito sobre a existência de Deus. Agora aquela separação
parecia impossıv́ el. Como podia ele escrever a reportagem mais importante de sua vida, aquela
que já estava perto de esquadrinhar sua alma, sem revelar subconscientemente seu conϐlito
pessoal?
Buck percebeu que, no decorrer de pouquıś simas horas, já começara a pender para o outro
lado. Não estava ainda preparado para orar, para tentar falar com um Deus que ele rejeitara
havia muito tempo. Nem sequer tinha orado quando se tornou convencido da existência de Deus
naquela noite em Israel. O que havia de errado com ele? Todas as pessoas no mundo, ao menos
aquelas intelectualmente honestas consigo mesmas, tinham de admitir que havia um Deus
depois daquela noite. Coincidências assombrosas tinham ocorrido antes, mas aquela desaϐiava
toda a lógica.
Vencer os poderosos russos foi uma façanha, por certo, totalmente inesperada. Mas a
história de Israel estava repleta de lutas legendárias. Por outro lado, não defender-se e não
sofrer nenhuma baixa? Isso estava além de toda compreensão — a não ser que tivesse havido a
intervenção direta de Deus.
Por que — Buck questionava — aquilo não tinha causado um impacto maior em seu
ıń timo? Sozinho e no escuro, ele chegou à dolorosa constatação de que separara, havia muito
tempo, as necessidades humanas mais básicas em categorias e as classiϐicara como
insigniϐicantes. E o que dizer a respeito de si mesmo, da criatura desumana e desprezıv́ el em
que se transformara, que nem mesmo a contundente evidência do milagre de Israel — porque
só poderia ter sido um milagre — foi capaz de abrandar a receptividade de seu espıŕ ito perante
Deus?
Não se passaram muitos meses, e veio o grande desaparecimento de milhões de criaturas
em todos os cantos do mundo. Dezenas de passageiros sumiram do avião em que ele viajava. De
que mais ele precisava? Buck parecia estar vivendo o personagem de um ϐilme de ϐicção. Sem
dúvida alguma, ele tinha sobrevivido ao evento mais cataclıś mico da História. Constatou que
não havia tido um segundo para pensar nas últimas duas semanas. Não fosse pelas tragédias
pessoais que havia testemunhado, ele teria acreditado em sua teoria de que o universo ϐicara
fora de controle.
Ele desejava encontrar esse Bruce Barnes, sem mesmo pretender entrevistá-lo para um
artigo. Buck estava agora fazendo uma busca pessoal, procurando satisfazer às profundas
carências de seu ser. Por longos anos, ele tinha rejeitado a idéia de um Deus pessoal ou que
tivesse necessidade desse Deus — se houvesse um. Ele teria de acostumar-se a essa idéia. O
capitão Steele aϐirmara que todos somos pecadores. Buck era realista a tal respeito. Ele sabia
que sua vida jamais se nivelaria à de um professor de Escola Dominical. Mas tinha sempre
esperado que, se algum dia se colocasse diante de Deus, seu lado bom superaria o mau e que, em
termos relativos, ele era tão bom ou melhor do que muita gente.
Agora, se Rayford Steele e todos os versıć ulos de sua Bıb́ lia devessem ser aceitos, não fazia
diferença se Buck fosse bom ou mau ou onde ele se situava em relação a outras pessoas. Uma
expressão antiga o intrigava e estava freqüentemente em sua cabeça: "Não há nenhum justo,
nem um sequer." Ele nunca se considerou justo, neste sentido bıb́ lico. Podia ele avançar um
pouco mais e admitir sua necessidade de Deus, de seu perdão, de Cristo?
Seria possível? Poderia ele estar na iminência de tornar-se um cristão nascido de novo? Ele
se sentiu um tanto aliviado quando Rayford Steele usou essa expressão. Buck tinha lido e até
mesmo escrito sobre "esses tipos" de pessoa; porém, apesar de ter uma vasta cultura sobre
assuntos do mundo, ele nunca alcançou exatamente o sentido da expressão. Ele havia sempre
considerado o termo "nascido de novo" equivalente a "militante da ala direitista" ou
"fundamentalista". Daqui para a frente, se resolvesse dar um passo que nunca sonhara dar, se não
pudesse mais, de certo modo, dissociar-se dessa verdade que se tornara intelectualmente
incontestável, chamaria a si uma tarefa: ensinar ao mundo o signiϐicado verdadeiro dessa curta
expressão.
Buck ϐinalmente cochilou no sofá da sala de estar, apesar da lâmpada acesa perto de seu
rosto. Ele dormiu profundamente umas duas horas, mas acordou a tempo de chegar ao
aeroporto. A expectativa de surpreender Chloe e viajar com ela deu-lhe forças para superar sua
fadiga. Mas ainda mais empolgante era a possibilidade de encontrar em Chicago outro homem
com respostas, um homem em quem conϐiava simplesmente pela recomendação de um piloto
que parecia expor a verdade com autoridade. Seria interessante dizer a Rayford Steele algum
dia quanto aquela entrevista aparentemente inócua tinha signiϐicado para ele. Buck, porém,
admitia que Steele já havia sentido isso. Talvez fosse por esse motivo que Steele parecia tão
apaixonado pelo assunto.
Se aquele acontecimento indicava que em breve se iniciaria o perıó do de tribulação
profetizado na Bıb́ lia, e não havia nenhuma dúvida a respeito, Rayford considerava em sua
mente se haveria alguma alegria nisto. Bruce parecia achar que não haveria, apesar dos poucos
convertidos que sua igreja pudesse ter o privilégio de conseguir. Até aquele momento, Rayford
sentia-se um fracassado. Embora estivesse certo de que Deus lhe dera as palavras e a coragem
para expor a verdade, ele sentia que havia cometido um erro ao comunicar a mensagem a
Hattie.
Talvez ela estivesse certa. Talvez ele tivesse sido egoıśta. Talvez ele estivesse querendo
aliviar de seus ombros o peso da culpa que sentia. Mas ele sabia mais. Diante de Deus,
acreditava que seus motivos eram puros. Entretanto, ϐicou evidente que ele só conseguira
convencer Hattie de estar sendo sincero e de ter algo em que acreditar, nada mais. Até que
ponto isso era bom? Se Hattie não tivesse aceitado o que ele lhe dissera, teria de assumir que ele
acreditava em uma fantasia, ou então teria de admitir que desprezava a verdade. O que ele
transmitira a ela não deixava espaço para outra opção.
E quanto a seu desempenho durante a entrevista com Cameron Williams? Naqueles
momentos, Rayford sentira-se confortável, expondo com clareza, calma e racionalidade.
Reconhecia que estava tratando de temas revolucionários, dissonantes, mas sentia que Deus o
havia capacitado a falar com lucidez. No entanto, se não conseguiu despertar nenhuma reação
no repórter além de uma atenção especial, que tipo de testemunha podia ser ele? Do fundo da
sua alma, Rayford desejava ser mais eϐicaz. Acreditava que tinha desperdiçado sua vida antes
disto e dispunha agora somente de um curto perıó do para compensar o tempo perdido. Seria
eternamente grato por sua salvação, mas agora desejava compartilhá-la, trazendo mais pessoas
a Cristo. A entrevista foi uma oportunidade extraordinária, mas no ıń timo sentia que não tinha
se saído bem. Valeria a pena orar para conseguir outra chance? Rayford acreditava que não seria
mais Cameron Williams. O repórter não telefonaria para Bruce Barnes, e as palavras de Rayford
jamais seriam vistas nas páginas do Semanário Global.
Enquanto Rayford se barbeava, tomava banho e se vestia, ouviu Chloe arrumando a mala.
Ela havia ϐicado nitidamente embaraçada por causa dele na noite anterior. Provavelmente,
chegou a desculpar-se com o Sr. Williams pelas divagações absurdas de seu pai. Pelo menos, ao
subir, ela deu uma batidinha na porta do quarto dele para dizer boa noite. Já era alguma coisa,
não era?
Toda vez que pensava em Chloe, Rayford sentia um aperto no peito, um grande vazio e
angústia. Ele podia conviver com suas outras falhas, se fosse o caso, mas seus joelhos quase se
dobraram enquanto orava silenciosamente por Chloe. Não posso perdê-la, pensou, acreditando
que seria capaz de trocar a própria salvação pela salvação da filha, se fosse necessário.
Com esta disposição, ele sentiu que Deus lhe falava, mostrando-lhe que esse era
precisamente o preço exigido para ganhar almas e guiá-las a Cristo. Essa tinha sido a atitude de
Jesus, que tomou sobre si a punição que cabia a homens e mulheres, a ϐim de que pudessem ser
salvos.
Rayford reuniu novas forças enquanto orava por Chloe, ainda lutando com o temor
incômodo do fracasso. "Deus, preciso de ânimo", disse ele sussurrando. "Preciso saber se não a
afastei de mim para sempre." Chloe lhe dera boa noite, mas ele também a ouviu chorando ao
deitar-se.
Ele surgiu diante dela trajando uniforme e sorriu quando a viu à frente da porta, vestida
com simplicidade para viajar.
— Está pronta, doçura? — perguntou ele, tentando iniciar uma conversa.
Ela aϐirmou com um gesto, esboçou um sorriso e, em seguida, deu-lhe um abraço longo e
apertado, pressionando o rosto contra o peito dele. Obrigado, orou ele em silêncio, sem saber se
devia dizer alguma coisa. Seria aquele o momento? Teria coragem de pressioná-la?
Rayford sentiu de novo a presença de Deus, como se Ele estivesse dizendo diretamente à
sua alma: Paciência. Não insista. Não insista. Manter-se em silêncio parecia muito difıć il. Chloe
também não disse nada. Eles comeram um desjejum leve e partiram para o aeroporto.
Chloe foi a primeira passageira a entrar no avião.
— Vou tentar vê-la durante o vôo — disse Rayford antes de se dirigir à cabina de
comando.
— Não se preocupe, se não puder — disse ela. — Eu compreendo.
Buck esperou até que todos os passageiros estivessem a bordo. Quando se aproximou de
sua poltrona ao lado de Chloe, ela estava virada para a janela, braços cruzados, o queixo apoiado
na mão. Não dava para perceber se ela estava com os olhos abertos. Buck esperava que ela se
voltasse e olhasse para ele ao sentar-se, e não pôde evitar um sorriso antevendo sua reação,
mas, por outro lado, estava ligeiramente preocupado que ela fosse menos expansiva do que
esperava.
Ele sentou-se e aguardou, mas ela não se voltou. Estaria dormindo? Olhando ϐixamente
para alguma coisa? Meditando? Orando? Talvez estivesse chorando Buck esperava que não. Ele
já se preocupava muito com ela e não queria vê-la sofrendo.
E agora ele estava diante de um problema. Enquanto espreitava, à espera de que Chloe
mudasse de posição para vê-lo, ele se sentiu extremamente fatigado. Seus músculos e juntas
doıá m, os olhos ardiam. A cabeça pesava como chumbo. Não queria de jeito nenhum cair no
sono para que ela não o visse a seu lado.
Buck fez um gesto chamando a atenção da aeromoça.
— Um café, por favor — pediu ele sussurrando. O efeito temporário da cafeıń a permitiria
que ele ficasse acordado por mais algum tempo.
Ao notar que Chloe não se mexia nem mesmo para dar atenção às instruções de
segurança, Buck ϐicou impaciente. No entanto, não queria chamar a atenção para si. Ele queria
ser descoberto. E esperou.
Ela devia ter ϐicado cansada naquela posição, porque se ajeitou um pouco na poltrona e
esticou as pernas, usando os pés para empurrar a frasqueira para debaixo da poltrona da frente.
Tomou o último gole de suco e colocou o copo sobre a bandeja entre ambos. Ela avistou as botas
de couro de pelica de Buck, as mesmas que ele usara na véspera. Seu olhar foi subindo até
encontrar o rosto sorridente e ansioso de Buck.
A reação de Chloe mais do que compensou a espera. Ela fechou as mãos e juntou-as de
encontro aos lábios, os olhos marejados. Em seguida, segurou a mão dele entre as suas.
— Oh! Buck — ela sussurrou. — Oh! Buck.
— Que bom revê-la — disse ele.
Chloe soltou rapidamente a mão de Buck e recolheu as suas.
— Não quero agir como uma escolar — disse ela -, mas vocêalguma vez já recebeu uma
resposta direta de oração?
Buck olhou para ela fixamente.
— Pensei que seu pai fosse o único que ora em sua família.
— EƵ ele — disse Chloe. — Mas eu tentei minha primeira oração depois de anos, e Deus a
respondeu.
— Você orou para que eu me sentasse aqui a seu lado?
— Oh! não, jamais teria sonhado com uma coisa impossível. Como você conseguiu, Buck?
Ele contou-lhe.
— Não foi difıć il, uma vez que eu sabia a hora de seu vôo, e eu disse que estaria viajando
com você para que ficássemos juntos.
— Mas por quê? Aonde você vai?
— Você não sabe para onde este avião está indo? San José, na Califórnia, espero.
Ela riu.
— Mas prossiga, Chloe. Termine sua história da oração. Eu nunca tive resposta a uma
oração.
— É uma longa história.
— Acho que temos tempo.
Ela segurou novamente a mão dele.
— Buck, isto é muito especial. EƵ a coisa mais linda que alguém já fez por mim durante
muito tempo.
— Você disse que ia sentir falta de mim, mas não estou aqui somente por sua causa. Tenho
negócios em Chicago.
Ela deu uma risadinha e continuou:
— Eu não estava falando de você, Buck, embora esteja muito contente de tê-lo aqui.
Estava falando a respeito de Deus fazendo uma coisa linda para mim.
Buck não pôde esconder seu desapontamento.
— Eu sabia — disse ele.
Então ela contou-lhe sua história.
— Você pode ter notado que eu estava muito perturbada ontem à noite. Fiquei muito
comovida com a história de meu pai. Quero dizer, eu já tinha ouvido antes. Mas, de repente, ele
pareceu tão amoroso, tão interessado nas pessoas. Vocêpôde perceber quão importante foi para
ele e quão sério ele estava?
— Quem não percebeu?
— Se eu não soubesse, Buck, teria pensado que ele estava tentando convertê-lo, em vez
de apenas responder às suas perguntas.
— Acho que ele estava.
— Ele ofendeu você?
— Não, absolutamente, Chloe. Para dizer a verdade, ele me comoveu, mexeu com meus
sentimentos.
Chloe silenciou e meneou a cabeça. Quando ϐinalmente falou, estava quase sussurrando, e
Buck teve de inclinar-se para ouvi-la. Ele gostava do som de sua voz.
— Buck — disse ela — também fiquei comovida, e não foi por causa de meu pai.
— Muito esquisito — disse ele. — Passei a metade da noite pensando nisso.
— Não vai demorar muito para um de nós aceitar, vai? -perguntou ela. Buck não
respondeu, mas ele sabia o que ela quis dizer.
— Quando eu vou ter a resposta a uma oração? — ele instigou.
— Oh! logo. Eu estava sentada naquele restaurante ouvindo meu pai despejando suas
experiências e sentimentos em cima de você e, repentinamente, percebi por que ele queria
minha companhia quando disse a mesma coisa a Hattie. Eu lhe causei tantos problemas antes
que ele se afastou de mim. Agora que ele tem o conhecimento e a real necessidade de me
convencer, está com receio de falar diretamente comigo. Ele queria que eu ouvisse por meios
indiretos. E foi o que aconteceu. Não ouvi como ele começou, porque Hattie e eu estávamos no
toalete, mas, na verdade, eu já tinha ouvido antes. Quando retornei, me senti arrasada.
— Não se tratava de novidade para mim. Foi novidade' quando ouvi diretamente de Bruce
Barnes e vi aquele videoteipe, mas meu pai logo manifestou insistência e conϐiança. Buck, não
há outra explicação para aqueles dois homens em Jerusalém, há? Só podem ser as duas
testemunhas mencionadas na Bíblia. Buck assentiu com a cabeça.
— Papai e Deus estavam procurando convencer-me a abraçar a fé, mas eu ainda não me
sentia preparada. Eu estava chorando porque amo muito meu pai e porque é a verdade. Tudo
isso é verdade, Buck, você sabia?
— Acho que sim, Chloe.
— Mas ainda não tive oportunidade de contar a meu pai. Eu não sabia o que estava no
meu caminho. Sempre fui independente e obstinada. Sei que ele ϐicou frustrado comigo, talvez
desapontado, e tudo o que pude fazer foi chorar. Eu tive de pensar, tentar orar, suportar aquela
crise emocional. Hattie não ajudou em nada. Ela não aceita e talvez jamais aceitará. Tudo o
que lhe interessa é banal, como tentar planejar um casamento de nós dois.
Buck sorriu e procurou parecer insultado.
— E isso é banal?
— Bem, comparado ao que estamos tratando neste momento, tenho de dizer que sim.
— Neste ponto você está certa — disse Buck. Ela riu.
— Eu sabia que alguma coisa estava errada com papai, por isso ϐiquei conversando com
você durante uns três minutos antes de subir.
— Menos do que isso, provavelmente.
— Quando cheguei à nossa suıt́ e, ele já estava na cama. Disse-lhe boa noite apenas para
ter a certeza de que ele não estava aborrecido comigo. Ele não estava. E então ϐiquei me
revirando na cama, ainda não preparada para dar o último passo, chorando por causa da
angústia de meu pai por minha causa e por ele me amar tanto.
— Isso aconteceu enquanto eu estava acordado, provavelmente — disse Buck.
— Mas — continuou Chloe — esta não é normalmente minha conduta. Mesmo quando
concordo, sou difícil de dar o braço a torcer. Você me entende?
Buck fez um sinal afirmativo.
— Estou passando pela mesma experiência.
— Já me convenci — disse ela -, mas ainda estou lutando. Considero-me uma intelectual.
Tenho amigos crıt́ icos a quem tenho de dar explicações. Quem vai acreditar nisso? Todos vão
julgar que perdi a cabeça.
— Creia-me, eu compreendo — disse Buck, surpreso com as semelhanças entre ambos.
— Foi por isso que ϐiquei tolhida — disse ela. — Eu não estava indo a lugar algum. Tentei
incentivar meu pai deixando de ser tão distante, mas posso dizer que ele me viu sofrendo,
embora não creia que ele tivesse idéia de que eu estava muito perto de tomar uma decisão.
Embarquei neste avião, desesperada por ϐicar sozinha, e comecei a cogitar se Deus responde às
orações antes de nos tornarmos... Hã, você sabe, antes de sermos realmente um...
— Cristão nascido de novo — interveio Buck.
— Exatamente. Não sei por que isso é tão difícil para eu dizer. Talvez alguém que conheça
melhor o assunto possa me dizer com certeza, mas orei e penso que Deus respondeu. Diga-me
uma coisa, Buck, com base em seus conhecimentos e razão. Se existe um Deus e se isto tudo for
verdadeiro, será que ele não gostaria que tomássemos conhecimento? Eu me explico: Deus não
deseja diϐicultar nossa compreensão e Ele não deixaria, ou, melhor dizendo, não poderia deixar,
uma oração desesperada sem resposta, poderia?
— Penso que não.
— Eu também. Por isso, acho que foi um bom teste, um teste razoável, e que minha
oração foi aceita. Estou convencida de que Deus respondeu.
— E eu fui a resposta.
— E você foi a resposta.
— Chloe, você orou para que exatamente?
— Ah! bom, a oração em si não foi grande coisa, até ser respondida. Eu simplesmente disse
a Deus que precisava aprender um pouco mais. Eu sentia que tudo o que tinha ouvido e tudo o
que soube por meio de meu pai não era suϐiciente. Apenas orei com real sinceridade e disse que
gostaria que Deus me mostrasse que Ele se importava comigo, que Ele sabia o que estava
acontecendo, e que Ele queria que eu soubesse que Ele estava presente.
Buck sentiu uma estranha emoção — que, se ele tentasse expressá-la, sua voz sairia
rouca, truncada, e ele seria incapaz de completar uma sentença. Ele comprimiu a boca com a
mão procurando recompor-se. Chloe olhava fixamente para ele.
— E você sente que eu fui a resposta daquela oração? — disse ele por fim.
— Não tenho nenhuma dúvida. Veja, como eu disse, nem mesmo poderia imaginar que
uma oração o colocasse aqui ao meu lado neste grande dia de minha vida. Não estava nem
mesmo certa de voltar a vê-lo. Mas é como se Deus soubesse melhor do que eu que não havia
mais ninguém que eu desejasse encontrar hoje além de você.
Buck estava sensibilizado, emocionado, sem palavras. Ele também havia desejado revê-la.
Não fosse assim, poderia ter embarcado no vôo de Hattie, mais cedo, ou em qualquer outro
dentre as dezenas que fariam o mesmo trajeto Nova York-Chicago naquela manhã. Buck apenas
olhou para ela.
— E então, o que você vai fazer agora, Chloe? Parece-me que Deus atendeu ao seu
desaϐio. Não foi exatamente um desaϐio, mas você pediu e Ele atendeu. Signiϐica que você está
agora obrigada a corresponder.
— Não tenho outra escolha — concordou ela. — E quero corresponder. De tudo o que foi
possıv́ el reunir das explicações de Bruce Barnes, do videoteipe e de papai, não precisamos ter
alguém nos conduzindo, nem estar numa igreja ou em qualquer outro lugar. Assim como eu orei
para ter um sinal mais claro, posso orar a este respeito.
— Seu pai deixou tudo muito claro ontem à noite.
— Você quer se aliar a mim? — perguntou ela.
Buck hesitou.
— Não desejo ofendê-la, Chloe, mas não estou preparado.
— Do que mais você precisa?... Oh! sinto muito, Buck. Estou fazendo exatamente o que
meu pai fez no dia em que se tornou cristão. Ele mal podia ajudar a si mesmo, e eu fui tão
horrível com ele. Mas, se você não está preparado, tudo bem.
— Não preciso ser forçado — disse Buck. — Como você, sinto que estou bem na porta da
entrada. Mas estou muito cauteloso. Quero falar com esse Barnes ainda hoje. Tenho de dizer a
você, entretanto, que as minhas dúvidas remanescentes mal podem comparar-se ao que está
acontecendo com você.
— Você sabe, Buck — disse Chloe -, prometo que esta será a última coisa que digo sobre
isso, mas estou pensando do mesmo modo que papai. Tenho urgência de dizer-lhe para não
demorar muito, porque nunca se sabe o que pode acontecer.
— Entendo — disse ele. — Vou ter de admitir que este avião não vai cair porque ainda
sinto a necessidade de falar com Barnes, mas você sabe aonde quer chegar.
Chloe voltou-se e olhou por cima do ombro.
— Há dois lugares vagos bem ali — disse ela. Ela parou uma aeromoça que passava.
— Você pode dar um recado ao meu pai?
— Certamente. Ele é o capitão ou o co-piloto?
— Capitão. Por favor, diga-lhe que sua filha tem uma notícia extremamente boa para ele.
— Notícia extremamente boa — repetiu a aeromoça.
Rayford estava pilotando o avião manualmente como passatempo quando a chefe do
serviço de bordo entregou-lhe a mensagem. Ele não tinha a menor idéia do que aquilo
signiϐicava, mas pareceu-lhe tão inusitado que Chloe tomasse a iniciativa de fazer a
comunicação naqueles termos que ele ficou intrigado.
Ele pediu ao co-piloto que assumisse o comando da aeronave, livrou-se dos cintos de
segurança, dirigiu-se à primeira classe e surpreendeu-se ao ver Cameron Williams. Ele esperava
que Williams não ϐizesse parte da notıć a extremamente boa de Chloe. Na expectativa de que o
repórter estivesse a caminho de cumprir sua promessa de encontrar-se com Bruce Barnes,
Rayford também esperava que Chloe não estivesse para anunciar o inıć io de um precipitado e
duvidoso romance.
Ele e Buck apertaram-se as mãos, e Rayford expressou uma agradável, porém cautelosa
surpresa. Chloe enlaçou seu pescoço com ambos os braços e o puxou suavemente para um lugar
em que pudessem conversar em voz baixa.
— Papai, você poderia sentar-se ali por uns dois minutos para conversarmos?
Buck percebeu certo desapontamento nos olhos do capitão Steele. Ele queria dizer ao
piloto por que estava feliz por viajar a Chicago. Sentar-se perto de Chloe tinha sido somente um
prêmio extra. Ele observou do outro lado, mais atrás, Steele e a ϐilha entregues a uma animada
conversa e, em seguida, orando juntos. Buck indagava-se se haveria algum regulamento na
aviação contra isso. Ele sabia que Rayford não podia ϐicar ali na companhia da ϐilha por muito
tempo.
Em poucos minutos, Chloe levantou-se, e ambos se abraçaram. Pareciam inundados de
emoção. Um casal de meia-idade no lado oposto do corredor inclinou-se e ϐicou olhando de
sobrancelhas erguidas. O capitão percebeu, aprumou-se e caminhou em direção à cabina de
comando.
— Minha ϐilha — disse ele desajeitadamente, apontando para Chloe, que sorria entre
lágrimas. — Ela é minha filha.
O casal trocou olhares, e a mulher falou:
— Muito bem. E eu sou a rainha da Inglaterra — enquanto Buck soltava uma estrepitosa
gargalhada.
C A P Í T U L O 23
BUCK telefonou para a Igreja Nova Esperança marcando um encontro com Bruce Barnes
para o começo da noite e passou a maior parte da tarde na sucursal do Semanário Global em
Chicago. A notıć ia de que ele seria o novo chefe da sucursal correra de boca em boca, e ele foi
cumprimentado com certa frieza pela ex-assistente de Lucinda Washington, uma jovem difıć il
de lidar. Ela lhe disse em termos inequívocos:
— Plank nada fez para substituir Lucinda, por isso entendi que deveria ocupar seu lugar.
A atitude e presunção dela forçaram Buck a responder:
— É improvável, mas você será a primeira a saber. Eu não mudaria de sala por enquanto.
Os demais da equipe ainda lamentavam o desaparecimento de Lucinda e se mostraram
satisfeitos com a visita de Buck. Steve Plank raramente vinha a Chicago e não tinha visitado a
sucursal desde o desaparecimento de Lucinda.
Buck instalou-se no antigo escritório de Lucinda, entrevistando os funcionários-chave com
intervalos de 20 minutos. Distribuiu o trabalho entre eles e perguntou-lhes quais eram suas
teorias a respeito do que acontecera. A pergunta ϐinal era: "Onde você acha que Lucinda
Washington está agora?" Mais da metade deles pediram que suas respostas não fossem citadas,
mas expressaram de modo geral que, "se existisse um céu, era lá que ela estava".
Próximo do ϐinal do dia, Buck foi informado de que a televisão estava transmitindo
importantes notıć ias diretamente da ONU. Ele convidou a equipe a ir a sua sala e assistirem
juntos ao noticiário. "Na mais dramática e inusitada mudança jamais ocorrida em uma
organização internacional", disse o apresentador, “o presidente romeno Nicolae Carpathia foi
guindado, com relutância, à liderança da ONU por quase unanimidade de votos”. Carpathia, que
insistia em mudanças radicais na direção e jurisdição do organismo, condição indispensável para
que pudesse aceitar o cargo, tornou-se há poucos momentos secretário-geral.
"Até o ϐinal desta manhã, seu assessor de imprensa e porta-voz, Steve Plank, ex-editorexecutivo
do Semanário Global, tinha negado o interesse de Carpathia pelo cargo e esboçou
numerosas exigências sobre as quais o romeno insistia antes mesmo de considerar o novo cargo.
Plank disse que o pedido para a eleição de Carpathia partiu do seu próprio antecessor,
secretário-geral Mwangati Ngumo, de Botsuana. Perguntamos a Ngumo por que renunciava ao
cargo."
O rosto de Ngumo tomava toda a tela, olhos tristonhos, expressão cuidadosamente
disfarçada. "Fazia muito tempo que eu estava cônscio de que minha lealdade dividida entre meu
paıś e a Organização das Nações Unidas me levara a ser menos eϐicaz em ambas as funções.
Tive de escolher, e sou, antes de mais nada, um botsuano. Tenho agora a oportunidade de tornar
próspero meu paıś , devido à generosidade de nossos amigos em Israel. Este é o momento certo,
e o novo secretário é mais do que preparado. Vou cooperar com ele ao máximo."
"O senhor teria deixado o cargo se o Sr. Carpathia recusasse a posição?"
Ngumo hesitou. "Sim", disse ele, "eu teria. Talvez não hoje, nem com muita conϐiança no
futuro da ONU, mas, finalmente, sim."
O repórter da televisão continuou: “Em questão de horas, todas as exigências que
Carpathia deϐiniu numa entrevista à imprensa nesta manhã transformaram-se em matéria
oϐicial, votadas e ratiϐicadas pelos membros do organismo”. Dentro de urn ano, a sede da ONU
será transferida para Nova Babilônia. A composição do Conselho de Segurança passará a ter dez
membros permanentes dentro de um mês, e uma coletiva à imprensa está sendo esperada para
segunda-feira pela manhã, durante a qual Carpathia apresentará várias pessoas de sua escolha
para atuarem como delegados junto à organização.
"Não há nenhuma garantia, naturalmente, de que mesmo os paıś es membros sejam
unânimes na decisão pretendida de destruıŕ em 90% de seus arsenais bélicos e entregar à ONU os
restantes 10%. Mas vários embaixadores expressaram sua conϐiança 'de equipar e armar uma
instituição internacional de paciϐicação, tendo em sua direção paciϐistas e ativistas radicais
comprometidos com o desarmamento. O próprio Carpathia , foi citado ao aϐirmar: 'A ONU não
vai precisar de um poder militar, se cada paıś abrir mão de seus armamentos, e espero pelo dia
em que a própria ONU seja desarmada.'
"Como resultado das reuniões de hoje, foi anunciado também um pacto de paz pelo
perıó do de sete anos entre os membros da ONU e Israel, garantindo as fronteiras desse paıś e
prometendo paz na região. Em troca dessa garantia, Israel permitirá à ONU que franqueie
seletivamente o uso da fórmula de seu fertilizante, desenvolvida pelo ganhador do prêmio Nobel,
Dr. Chaim Rosenzweig, que transformou as estéreis areias do deserto em terras cultiváveis e
transformou Israel em importante país exportador."
Buck olhava atentamente quando a emissora focalizou o entusiasmo de Rosenzweig e o
endosso inequıv́ oco de Carpathia. As notıć ias também davam conta de que Carpathia havia
solicitado a vários grupos internacionais, presentes em Nova York com o objetivo de se reunir no
próximo fim de • semana, que elaborassem propostas, resoluções e acordos. "Insisto em que eles
se esforcem para apresentar rapidamente um plano que contribua para a paz mundial e para a
união global."
Um repórter perguntou a Carpathia se incluıá esse plano uma única religião universal e,
possivelmente, um único governo. Sua resposta: "Penso em um processo mais estimulante do
que uma união entre as religiões do mundo. Alguns dos piores exemplos de discórdias e lutas têm
surgido entre grupos cuja missão fundamental é o amor entre as pessoas. Cada devoto de uma
religião autêntica deve acolher com alegria este potencial. O tempo do ódio já passou. Os que
amam a humanidade estão se unindo."
O âncora do noticiário continuou: "Entre os fatos que se desenrolaram hoje, há rumores
sobre a organização de grupos que defendem um governo mundial único. Foi perguntado a
Carpathia se ele aspirava a uma posição de liderança em tal organização."
Carpathia olhou diretamente para a câmera do pool da rede de emissoras e, com os olhos
úmidos e voz embargada, disse: "Fiquei muito comovido ao ser solicitado a servir como
secretário-geral da ONU. Não aspiro a qualquer outra coisa. Embora a idéia de um governo
universal único ressoe profundamente em mim, posso somente dizer que há candidatos muito
mais qualiϐicados para liderar tal organização. Seria para mim um privilégio servir de qualquer
forma, sempre que solicitado, e, embora não me veja ainda no papel de lıd́ er, vou empregar os
recursos da ONU nesse sentido, se assim desejarem."
Macio, pensou Buck, com as idéias desϐilando na cabeça. Enquanto os comentaristas e
líderes mundiais defendiam a moeda universal, uma língua única até e mesmo a generosidade de
Carpathia ao expressar seu apoio à reconstrução do templo em Jerusalém, a equipe da sucursal
do Semanário Global em Chicago parecia em clima de festa. "Esta é a primeira vez depois de
muitos anos que me sinto otimista acerca da sociedade", disse um repórter.
Outro acrescentou: "Esta é a primeira vez que sorrio desde os desaparecimentos. Creio
que devemos ser objetivos e céticos, mas como é possıv́ el não gostar disso? Serão precisos anos
para realizar o que ele pretende, mas algum dia, de algum modo, vamos conhecer a paz
mundial. Sem armas, sem guerras, sem disputas de fronteiras nem intolerância lingüıśtica ou
religiosa. Caramba! Quem acreditava que chegaríamos a este ponto?"
Buck recebeu um telefonema de Steve Plank.
— Você está vendo o que está se passando? — perguntou Plank.
— Quem não está?
— Empolgante, não acha?
— Sensacional.
— Ouça, Carpathia quer você aqui na segunda-feira de manhã.
— Para quê?
— Ele gosta de você, homem. Não perca esta chance. Antes da entrevista com a
imprensa, ele vai reunir-se com seu pessoal de primeiro escalão e com os dez delegados
permanentes do Conselho de Segurança.
— E ele me quer lá?
— Sim. E você pode imaginar quem são alguns de seu primeiro escalão.
— Diga-me.
— Bem, um deles é óbvio. -Stonagal.
— Claro.
— E, quanto a Todd-Cothran, acredito que vai ser um novo embaixador do Reino Unido.
— Talvez não — disse Steve. — Outro britânico está lá. Não sei seu nome, mas ele
também está neste grupo financeiro internacional que Stonagal comanda.
— Você acha que Carpathia pediu a Stonagal a indicação de outro seu protegido, no caso
de Carpathia querer queimar Todd-Cothran?
— Pode ser, mas ninguém ousa pedir alguma coisa a Stonagal.
— Nem mesmo Carpathia?
— Nem mesmo Carpathia. Ele conhece quem o levou ao poder. Mas ele é honesto e
sincero, Buck. Nicolae não vai fazer nada ilegal nem secreto nem mesmo muito polıt́ ico. Ele é
puro. Puro como a neve. E então, você pode vir?
— Creio que sim. Quantos da imprensa vão estar aí?
— Você está preparado para ouvir? Somente você.
— Você está brincando.
— Falo sério. Ele gosta de você, Buck. — Qual é a jogada?
— Não há jogada nenhuma. Ele não pediu nada, nem mesmo uma reportagem favorável.
Ele sabe que vocêprecisa ser objetivo e equilibrado. A mıd́ ia em geral tomará conhecimento de
tudo na entrevista coletiva, mais tarde.
— Evidentemente não posso perder essa oportunidade — disse Buck, certo de que suas
palavras não eram convincentes.
— Qual é o problema, Buck? Isto faz parte da História! Este é o mundo da forma que
sempre desejamos e esperamos.
— Espero que você esteja certo.
— Eu estou certo. Há alguma coisa mais que Carpathia deseja.
— Então há uma jogada.
— Não, nada que dependa de uma jogada. Se você não pode fazer, não pode, e pronto.
Você será bem-vindo do mesmo modo na segunda de manhã. Mas ele quer ver novamente
aquela sua amiga aeromoça.
— Steve, ninguém mais usa o termo aeromoça. Elas são comissárias de bordo.
— Que seja. Traga-a com você, se for possível.
— Por que ele não pede diretamente a ela? O que sou agora, um alcoviteiro?
— Vamos, Buck. Não é nada disso. Uma pessoa solitária numa posição como a dele? Ele
não pode sair por aí atrás de namoros. Você a apresentou, lembra-se? Ele confia em você.
Ele deve conϔiar mesmo, pensou Buck, já que está me convidando para uma reunião antes
da entrevista à imprensa. — Vou pedir a ela — disse. — Não prometo nada.
— Não me decepcione, companheiro.
Rayford Steele estava tão feliz como no dia em que tomou a decisão de aceitar Cristo. Ver
Chloe sorrir, ver sua fome de ler a Bıb́ lia de Irene, ser capaz de orar com ela e trocar idéias era
mais do que ele tinha sonhado.
— Uma coisa que precisamos fazer — disse ele — é vocêter uma Bıb́ lia só sua. Você vai
acabar gastando esta.
— Quero participar daquele núcleo dirigente — disse ela. -Desejo aprender tudo com
Bruce, desde o início. A única parte que me incomoda é que parece que as coisas vão piorar.
No ϐim da tarde, eles apareceram na igreja para falar com Bruce, que pôde constatar
pessoalmente a conversão de Chloe.
— Estou emocionado por recebê-la em nossa família — disse ele -, mas você tem razão. O
povo de Deus está vivendo dias tenebrosos. Todos estão. Tenho pensado e orado sobre o que
podemos fazer como igreja no espaço de tempo que nos resta, de agora até o Glorioso
Aparecimento.
Chloe quis saber o que isso signiϐicava, e Bruce mostrou-lhe na Bıb́ lia por que acreditava
que Cristo retornaria em sete anos, no final da Tribulação.
— Muitos cristãos serão martirizados ou morrerão em conseqüência de guerras, fome,
pragas ou terremotos — disse ele.
Chloe sorriu.
— Não é nada divertido — disse ela -, mas acho que eu devia ter pensado nisso antes desta
minha decisão. Você vai ter diϐiculdade de convencer as pessoas a juntar-se à causa de Cristo
diante dessa perspectiva sombria.
Bruce fez uma careta.
— Sim, mas a alternativa é pior. Todos nós perdemos a primeira oportunidade.
Poderıá mos estar no céu neste momento, se tivéssemos ouvido nossos amados que se foram. Eu
não gostaria de ter uma morte horrıv́ el durante este perıó do, mas é muito melhor do que ϐicar
perdido para sempre. Todos os outros também correm o risco de ter uma morte horrıv́ el. A
única diferença é que podemos ter outro tipo de morte.
— Como mártires.
— Exatamente.
Rayford apenas ouvia, consciente do quanto este mundo tinha mudado em tão curto
tempo. Não ia tão longe assim a época em que tinha sido urn piloto respeitado, no auge de sua
carreira, vivendo uma vida falsa, vazia. Agora aqui estava ele, conversando secretamente no
escritório de uma pequena igreja com sua ϐilha e um jovem pastor, tentando determinar como
teriam de viver sete anos de tribulação após o Arrebatamento da Igreja.
— Temos nosso núcleo dirigente — disse Bruce -, e Chloe, você é bem-vinda ao nosso
meio, se estiver seriamente comprometida com sua fé.
— Qual é a opção? — perguntou ela. — Se o que você estiver dizendo for verdadeiro, não
vai adiantar lutar contra os acontecimentos.
— Vocêtem razão. Mas eu estava pensando também num grupo menor dentro do núcleo
dirigente. Estou procurando pessoas de inteligência e coragem acima do normal. Não quero
depreciar a sinceridade e dedicação dos demais na igreja, especialmente aqueles da equipe de
liderança. Mas alguns deles são tıḿ idos, alguns são velhos, muitos são fracos. Tenho orado sobre
um tipo de cıŕ culo fechado, composto de pessoas que queiram fazer mais do que apenas
sobreviver.
— O que você está pretendendo? — perguntou Rayford. -Passar para a ofensiva?
— Alguma coisa parecida. Penso em um lugar escondido aqui, onde poderıá mos estudar e
compreender o que está-se passando, para evitar que sejamos enganados. EƵ maravilhoso orar
pelas testemunhas que surgiram em Israel, e é muito bom saber que há outros grupos de crentes
por todo o mundo. Mas você não sente o desejo de entrar nessa batalha?
Rayford estava curioso, mas não seguro. Chloe estava mais entusiasmada.
— Uma causa — disse ela. — Um ideal que nos impulsione a viver e morrer por ele.
—Sim!
— Um grupo, uma equipe, um comando — disse Chloe.
— Você chegou ao ponto. Um comando.
Os olhos de Chloe brilhavam ante essa perspectiva. Rayford ϐicou feliz ao ver o entusiasmo
juvenil e a ansiedade da filha de comprometer-se com uma causa em questão de horas.
— E como você denominaria esse período? — perguntou ela.
— A Tribulação — disse Bruce.
— Portanto, seu grupo menor dentro do núcleo, uma espécie de Boinas Verdes, passaria a
ser o Comando Tribulação.
— Comando Tribulação — conϐirmou Bruce, levantando-se para escrever no bloco de
anotações. — Gostei. Mas não se iluda, não será nem um pouco divertido. Vai ser a causa mais
perigosa a que alguém poderia associar-se. Teremos de estudar, nos preparar e evangelizar.
Quando se tornar claro quem é o anticristo, o falso profeta, a falsa religião, teremos de nos opor
a eles, falar contra eles. Seremos marcados.
Os cristãos que se contentarem em esconder-se em porões com suas Bıb́ lias poderão
escapar de muita coisa, menos dos terremotos e das guerras, mas nós estaremos expostos a
tudo.
— Virá um tempo, Chloe, em que os seguidores do anticristo deverão ter o sinal da besta.
Há todos os tipos de teorias sobre a forma que esse sinal terá, desde uma tatuagem até um
carimbo ou selo na testa, que poderá ser detectado somente com luz infravermelha. Mas,
certamente, nos recusaremos a receber essa marca. Esse nosso ato de desaϐio também terá
uma marca própria. Seremos os desguarnecidos, os destituıd́ os de proteção por não
pertencermos à maioria. Você ainda deseja fazer parte do Comando Tribulação?
Rayford assentiu e sorriu diante da resposta firme de Chloe.
— Não quero ficar de fora de jeito nenhum.
Duas horas depois que os Steeles tinham saído, Buck Williams estacionou seu carro alugado
em frente da Igreja Nova Esperança, em Monte Prospect, Illinois. Ele tinha uma sensação de
expectativa mesclada com medo. Quem seria esse Bruce Barnes? Com quem se pareceria? E
seria ele capaz de identificar um não-cristão por um simples olhar?
Buck ficou sentado no carro, a cabeça entre as mãos.
Ele tinha uma mente analıt́ ica, sabia disso, para tomar uma decisão precipitada. Mesmo
sua decisão de sair de casa antes de procurar estudar e tornar-se um jornalista tinha sido
planejada durante anos. Para sua famıĺia, a notıć ia soou como uma grande surpresa, mas para o
jovem Cameron Williams cada passo seguinte tinha um sentido lógico, fazia parte de seu plano a
longo prazo.
A situação de Buck naquele momento não fazia parte de qualquer plano. Nada do que
havia acontecido desde aquele nefasto vôo a Heathrow tinha se encaixado em seu esquema
predefinido.
Ele sempre gostou dos acasos da vida, mas administrava-os por meio da lógica e
manipulava-os com racionalidade. O bombardeio em Israel o havia chocado; e mesmo naquela
circunstância ele agira com racionalidade. Ele possuıá uma carreira, uma posição, um papel.
Fora designado para um trabalho em Israel, e, embora não cogitasse tornar-se um
correspondente de guerra da noite para o dia, ele se preparara da mesma forma que havia
organizado sua vida.
Mas nada o havia preparado para os desaparecimentos ou as mortes violentas de seus
amigos. Embora estivesse preparado para a recente promoção, ela tampouco fazia parte de seu
plano. Agora esse artigo sobre as teorias aproximava-o de chamas que ele nunca conhecera e
que estavam ardendo em sua alma. Ele sentia-se abandonado, desprotegido, vulnerável, e no
entanto este encontro com Bruce Barnes tinha sido idéia sua. Não havia dúvida de que o
capitão-aviador foi ' quem lhe deu a sugestão, mas poderia tê-la rejeitado sem nenhum remorso.
Esta viagem não tinha acontecido para que ' ele passasse umas poucas horas em companhia da
bela Chloe, e não havia pressa de visitar a sucursal de Chicago. Ele estava ali, e sabia disso, para
encontrar-se com Bruce. Buck sentia-se fisicamente exausto ao dirigir-se à igreja.
Foi uma agradável surpresa para Buck descobrir que ele e Bruce Barnes tinham quase a
mesma idade. Bruce aparentava ser inteligente e sincero, exibindo a mesma autoridade e
entusiasmo de Rayford Steele. Fazia muito tempo que Buck não entrava numa igreja. Esta
parecia simples, razoavelmente nova e moderna, bem arrumada e eϐiciente. Eles se reuniram
numa sala modesta.
— Seus amigos, os Steeles, disseram-me que o senhor me telefonaria antes de vir — disse
Barnes.
Buck ϐicou perplexo com sua franqueza. No mundo em que Buck vivia, ele teria guardado
para si aquela observação rıś pida para ser usada no momento propıć io. Mas ele notou que o
pastor não estava interessado em nenhum artifıć io. Nada havia a esconder. Em essência, Buck
estava ali para receber informações, e Bruce, interessado em provê-las.
— Quero dizer-lhe de inıć io — advertiu Bruce — que estou ciente de seu trabalho e
respeito seu talento. Mas, para ser franco, não disponho mais de tempo para amenidades e
conversas superϐiciais que costumavam caracterizar meu trabalho. Vivemos momentos de
perigo. Tenho uma mensagem e uma resposta para pessoas que as buscam com real interesse.
Digo a todos previamente que não vou me desculpar por aquilo que tenho a lhes dizer. Se esta é
uma regra básica a que o senhor está habituado, tenho todo o tempo de que necessitar.
— Bem, senhor — disse Buck, um tanto vacilante pela emoção e humildade que percebeu
na própria voz -, aprecio suas observações. Não sei quanto tempo será necessário, porque não
estou aqui a negócio. Talvez ϐizesse sentido conhecer o ponto de vista de um pastor para minha
reportagem, mas as pessoas podem deduzir o que os pastores pensam, especialmente depois que
ouvi o depoimento de algumas pessoas que entrevistei.
— Como o capitão Steele. Buck acenou que sim.
— Estou aqui por interesse próprio e tenho de confessar-lhe francamente que não sei em
que ponto estou nesta questão. Até pouco tempo atrás, eu jamais poria os pés num lugar como
este nem sonharia com qualquer coisa intelectualmente compensadora que pudesse extrair
daqui. Sei que, como jornalista, eu não devia estar dizendo estas coisas, mas, como o senhor está
sendo honesto, vou colocar-me na mesma condição.
— Fiquei muito impressionado com o capitão Steele. EƵ uma pessoa talentosa, raciocina
com clareza, e está profundamente imbuıd́ o de suas convicções. O senhor parece ser uma
pessoa inteligente, e... Não sei. Estou ouvindo, é tudo o que posso dizer.
Bruce começou contando a Buck a história de sua vida, que foi criado num lar cristão,
estudou em um seminário, casou-se com uma cristã, tornou-se pastor, e assim por diante. Ele
esclareceu que conhecia a história de Cristo e o caminho para o perdão e para um
relacionamento com Deus.
— Eu pensava que tinha o melhor de ambos os mundos. Mas a Escritura diz claramente
que não podemos servir a dois senhores. Não podemos ter os dois ao mesmo tempo. Descobri a
verdade de uma forma muito cruel.
Ao falar sobre a perda de sua famıĺia, dos amigos e de todos os que lhe eram caros, ele
chorou:
— A dor é muito grande até hoje, como no dia em que aconteceu — disse ele.
Em seguida, Bruce esboçou, como Rayford tinha feito, o plano de salvação do começo ao
ϐim. Buck ϐicou nervoso, angustiado. Ele precisava de uma pausa. E interrompeu para perguntar
se Bruce queria ouvir um pouco mais sobre ele.
— Certamente — anuiu Bruce.
Buck contou sua história, concentrando-se principalmente no conϐlito Rússia-Israel e nos
difíceis 14 meses que se seguiram.
— Posso ver — interrompeu Bruce — que Deus está tentando atrair sua atenção.
— Bem, Ele conseguiu — disse Buck. — Tenho apenas de avisá-lo que não sou uma pessoa
fácil de ser convencida. Tudo isso é interessante e me parece mais plausıv́ el do que nunca, mas
não é do meu feitio aceitar repentinamente uma idéia.
— Ninguém pode forçá-lo ou impor-lhe qualquer coisa, Sr. Williams, mas devo também
reiterar que vivemos momentos perigosos. Não sabemos quanto tempo temos para ponderações
como estas.
— O senhor me faz lembrar Chloe Steele.
— E ela faz lembrar o pai — disse Bruce sorrindo.
— E ele, imagino, faz-me lembrar o senhor. Posso entender por que os senhores
consideram isto tão urgente, mas como digo...
— Compreendo — disse Bruce. — Se o senhor dispõe de tempo neste momento, permitame
tomar um rumo diferente. Sei que o senhor é uma pessoa inteligente, por isso deve obter
todas as informações de que necessita antes de se despedir de mim.
Buck respirou mais aliviado. Ele receava que Bruce estivesse prestes a fazer a pergunta
que o forçaria a orar da forma como fizeram Rayford e Chloe. Ele admitia que isso seria parte do
processo que assinalaria o inıć io da inter-relação entre ele e Deus — a quem nunca se dirigira.
Mas ele não estava pronto. Ao menos pensava que não estava. E não queria ser forçado.
— Vou retornar a Nova York somente segunda-feira pela manhã— disse ele -, por isso vou
tomar tanto tempo quanto for possível do senhor esta noite.
— Não quero parecer mórbido, Sr. Williams, mas não tenho mais responsabilidades
familiares. Tenho uma reunião com um grupo de cooperadores amanhã, e o domingo é dedicado
à igreja. O senhor está convidado a comparecer. Mas tenho bastante energia para ir até meianoite,
se o senhor quiser.
— Estou disposto a ouvi-lo. Bruce dedicou várias horas mais dando a Buck um breve curso
sobre profecias e os últimos dias. Buck ouvira muitas informações sobre o Arrebatamento e as
duas testemunhas e tinha colhido informações esparsas sobre o anticristo. Mas Buck sentiu o
sangue gelar nas veias quando Bruce falou sobre a grande religião única que se instalaria, o
mentiroso, o pretenso paciϐicador que traria derramamento de sangue por meio da guerra, o
anticristo que dividiria o mundo em dez reinos. Ele ϐicou em silêncio, evitando bombardear
Bruce com perguntas ou comentários. Ele apenas fazia anotações tão rapidamente como podia.
Ousaria ele dizer a esse homem simples e sincero que acreditava que Nicolae Carpathia
poderia ser exatamente o homem de quem as Escrituras falavam? Poderia isso ser coincidência?
Seus dedos começaram a tremer quando Bruce lhe falou da profecia de um pacto de sete anos
entre o anticristo e Israel, da reconstrução do templo, e mesmo de a Babilônia tornar-se a sede
de uma nova ordem mundial.
Finalmente, quando chegou a meia-noite, Buck estava tomado de pavor, que se apoderava
de todas as ϐibras de seu ser. Bruce Barnes não poderia ter tomado conhecimento dos planos de
Nicolae Carpathia antes de serem anunciados nos noticiários da tarde. Até certo ponto, ele
pensava em acusar Bruce de ter baseado tudo o que estava dizendo nas notıć ias transmitidas
pela televisão, mas, mesmo que o tivesse feito, aqui estava, preto no branco, registrado na
Bíblia.
— O senhor viu as notícias de hoje? — perguntou Buck.
— Hoje não — disse Bruce. — Estive em reuniões desde o meio-dia e ouvi apenas alguma
coisa antes de o senhor chegar aqui.
Buck contou o que havia acontecido na ONU. Bruce empalideceu.
— Foi por isso que ouvi todos aqueles cliques em minha secretária eletrônica — disse
Bruce. — Desliguei a campainha do telefone, portanto eu só sabia que alguém estava
telefonando quando ouvia o clique da secretária eletrônica. As pessoas estão ligando para me dar
a informação. Fazem isso com freqüência. Costumo falar sobre o que a Bıb́ lia diz que pode
acontecer, e, quando acontece, as pessoas ligam para dar a notıć ia ou deixam a mensagem na
secretária eletrônica.
— O senhor acha que Carpathia é esse anticristo?
— Acho que não há outra conclusão.
— Mas eu realmente acreditei nesse homem.
— E por que não? A maioria de nós acreditou. Modesto, interessado no bem-estar das
pessoas, humilde, desinteressado de poder e liderança. Mas o anticristo é um enganador. E ele
tem o poder de controlar as mentes dos homens. Ele pode fazer as pessoas verem mentiras
como sendo verdades.
Buck contou a Bruce a respeito do convite para a reunião antes da entrevista à imprensa.
— O senhor não deve ir — disse Bruce.
— Eu não posso deixar de ir — disse Buck. — Esta é a oportunidade da minha vida.
— Sinto muito — disse Bruce. — Não tenho autoridade sobre o senhor, mas permita-me
rogar-lhe, adverti-lo sobre o que está para acontecer. O anticristo vai solidiϐicar seu poder com
uma demonstração de força.
— Ele já tem.
— Sim, mas parece que todos esses acordos a longo prazo que ele admitiu levarão meses
ou anos para serem efetivados. Agora ele tem de mostrar parte dessa força. O que pode ele fazer
para afirmar-se tão solidamente para que ninguém se lhe oponha?
— Não sei.
— Ele indubitavelmente tem motivos ocultos para desejá-lo nessa reunião.
— Não sou útil para ele.
— Seria, se ele o controlasse.
— Mas ele não me controla.
— Se ele for o maligno de quem a Bıb́ lia fala, tem o poder de fazer quase tudo. Quero
alertá-lo para não ir lá sem proteção.
— Um guarda-costas?
— Pelo menos. Mas, se Carpathia for o anticristo, você deseja enfrentá-lo sem Deus?
Buck se apavorou. Esta conversa era muito estranha para ele não admitir que Bruce
estava usando qualquer argumento para que ele se convertesse. Não havia dúvida de que se
tratava de uma questão sincera e lógica, entretanto Buck sentia-se pressionado.
— Sei qual é sua intenção — disse ele lentamente — mas acho que não vou ser
hipnotizado ou algo assim.
— Sr. Williams, faça o que bem entender, mas estou suplicando. Se o senhor for àquele
encontro sem Deus em sua vida, estará em perigo mortal e espiritual.
Ele mencionou a Buck sua conversa com os Steeles e como eles três em unıś sono
idealizaram o Comando Tribulação.
— Trata-se de um grupo composto de pessoas seriamente dispostas, que se oporão
corajosamente ao anticristo. Eu espero que a identidade desse grupo não se torne evidente logo
no início.
O Comando Tribulação mexeu com alguma coisa no ıń timo de Buck. A idéia levou-o de
volta aos seus primeiros dias como escritor, quando acreditava ter o poder de mudar o mundo.
Ele ϐicava até altas horas da noite tramando com seus colegas como demonstrar coragem e
audácia para se oporem à opressão, ao governo discricionário, à intolerância, Ele tinha perdido
aquele fogo, aquele arroubo, ao longo dos anos, quando era elogiado por seus escritos. Ainda
desejava fazer as coisas certas, mas tinha perdido a paixão pela ϐilosoϐia "um por todos e todos
por um", à medida que seu talento e fama começaram a ultrapassar os de seus colegas.
O idealista, o dissidente que havia nele, gravitava em torno dessas idéias, mas ele se
conteve para não se convencer a tornar-se um discıṕ ulo de Cristo só por causa de um pequeno e
sugestivo clube ao qual podia juntar-se.
— O senhor acha que posso participar da reunião desse grupo amanhã? — perguntou.
— Penso que não — ponderou Bruce. — Penso que o senhor o acharia interessante e,
pessoalmente, creio que o grupo poderia ajudar a convencê-lo, mas ele está limitado à nossa
equipe de lıd́ eres. Na verdade, vou reportar-lhes amanhã o que estamos conversando nesta
noite, portanto seria uma reprise para o senhor.
— E domingo?
— O senhor será bem-vindo, mas devo dizer que o assunto será o mesmo que venho
reiterando a cada domingo. O senhor já ouviu a exposição de Rayford Steele e a ouviu
novamente de mim. Se o fato de ouvir uma vez mais pode ajudá-lo, então venha e observe
quantos são os que buscam e encontram. Se a freqüência for como nos últimos dois domingos,
haverá espaço somente para pessoas em pé.
Buck levantou-se e espreguiçou-se. Ele havia prendido Bruce até bem depois da meianoite
e desculpou-se.
— Não precisa desculpar-se — disse Bruce -, faz parte de meu trabalho.
— O senhor sabe onde posso obter uma Bíblia?
— Tenho uma que o senhor pode levar — respondeu Bruce.
No dia seguinte, o núcleo dirigente recebeu entusiasticamente e com muita emoção a
mais nova participante, Chloe Steele. Eles dedicaram boa parte do dia estudando as notıć ias e
tentando determinar a probabilidade de Nicolae Carpathia ser o anticristo. Nenhum deles pôde
deduzir outra coisa.
Bruce relatou a história de Buck Williams, sem usar seu nome ou mencionar sua ligação
com Rayford e Chloe. Chloe chorava em silêncio, enquanto o grupo orava por sua segurança e
por sua alma.

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