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sábado, 20 de fevereiro de 2016

SD 88

C A P Í T U L O 14

 O AVIAǂO de Rayford desceu na pista de O'Hare, em Chicago, durante a hora de pico, segunda-feira à tarde. Ele e Chloe teriam de seguir em dois carros. Assim, não tiveram oportunidade de continuar a conversa. — Lembre-se, você prometeu que eu dirigiria seu carro para casa — disse Chloe. — É importante para você? — perguntou ele. — Realmente não. Eu simplesmente gosto dele. Posso? — Claro. Deixe-me apenas tirar o telefone. Quero saber quando Hattie pode jantar conosco. Você concorda, certo? — Desde que você não espere que eu cozinhe ou faça algo tipicamente doméstico. — Nem sequer pensei nisso. Ela adora comida chinesa. Vamos fazer o pedido por telefone. — Ela adora comida chinesa? — repetiu Chloe. — Você está bem familiarizado com essa mulher, não acha? Rayford meneou a cabeça. — Não se trata disso. Ou melhor, sim, provavelmente sei mais sobre ela do que deveria. Mas posso dizer a você as preferências culinárias de uma dúzia de membros da tripulação, e raramente sei alguma coisa mais sobre eles. Rayford apanhou o telefone do BMW e ligou a ignição apenas para verificar a marcação do combustível. — Você pegou o carro certo — disse ele. — Está quase cheio. Você vai chegar antes de mim. O tanque do carro de sua mãe está quase vazio. Você não vai ter problemas de ϐicar sozinha em casa por alguns minutos? Tenho de fazer algumas compras no caminho. Chloe hesitou por um instante. — É um tanto esquisito e melancólico ficar sozinha lá, não é? — disse ela. — Um pouco. Mas temos de nos acostumar. — Vocêtem razão — concordou ela rapidamente. — Eles se foram, e eu não acredito em fantasmas. Estarei bem. Mas não demore. Na sala da imprensa da ONU para a entrevista com Nicolae Carpathia, da Romênia, Buck tornou-se de repente o centro das atenções. Alguém o reconheceu e expressou surpresa e prazer por ele estar vivo. Buck tentou tranqüilizar a todos, dizendo-lhes que tudo não passara de um equıv́ oco, mas a agitação continuou quando Chaim Rosenzweig o avistou e se apressou em cumprimentá-lo, segurando a mão de Buck e agitando-a vigorosamente. — Oh! estou muito contente de encontrá-lo vivo e bem -disse ele. — Ouvi a terrıv́ el notıć ia de sua morte. O presidente Carpathia ϐicou também desapontado com a notıć ia. Ele queria encontrá-lo e havia concordado em conceder-lhe uma entrevista exclusiva. — EƵ possıv́ el ainda manter essa entrevista? — sussurrou Buck, ante as vaias e assobios dos concorrentes. — Você é capaz de qualquer coisa para conseguir um furo de reportagem — alguém se queixou. — Até mesmo providenciar uma "auto-explosão". — Talvez não seja possıv́ el, a não ser lá pelo ϐinal da noite — disse Rosenzweig. Com a mão, ele apontou para todo o ambiente, congestionado pelas câmeras de televisão, luzes, microfones e a imprensa. — Sua agenda está ocupada o dia todo, e ele terá de posar para uma foto da revista People no começo da noite. Talvez depois dessa foto. Vou conversar com ele. — Qual é sua ligação com ele? — perguntou Buck, mas o idoso senhor pôs o dedo indicador nos lábios e retornou ao seu lugar perto de Carpathia, quando a entrevista coletiva à imprensa teve início. O jovem romeno não era menos imponente e persuasivo de perto. Começou a sessão fazendo uma declaração antes da bateria de perguntas. Conduziu-se como um proϐissional experiente, embora Buck soubesse que o relacionamento daquele homem com a imprensa da Romênia e de outros paıś es da Europa que ele havia visitado não lhe proporcionara a mesma receptividade. Em vários momentos, Buck observou que Carpathia olhava para cada pessoa na sala, ao menos de relance. Nunca olhou para baixo, nunca olhou à distância e nunca olhou para cima. Comportava-se como quem nada tem a esconder nem a temer. Estava seguro de si e aparentemente não se deixava influenciar pela agitação e pela atenção que lhe dirigiam. Ele parecia ter uma visão fora do comum; ϐicou claro que podia ler os nomes nos crachás, mesmo dos que estavam mais distantes na sala. Toda vez que falava a um representante da imprensa, referia-se a ele pelo nome — Senhor X, Senhorita Y. Deu-lhes a liberdade de chamá-lo pelo nome que lhes fosse mais confortável. "Até mesmo Nick", disse sorrindo. Mas ninguém ousou fazê-lo, e continuaram a chamá-lo de "Sr. Presidente" ou "Sr. Carpathia". Carpathia falava com a mesma desenvoltura, precisão e ênfase que havia usado em seu discurso. Buck gostaria de saber se ele era sempre assim, em público e em particular. Em todos os assuntos abordados, ele demonstrava ser um mestre na arte da comunicação oral, como raramente se via. — Permitam-me iniciar dizendo que é uma honra para mim estar neste paıś e neste lugar histórico. Meu sonho, desde quando era menino em Cluj, sempre foi poder conhecer este lugar. Terminadas as amenidades, Carpathia iniciou sua fala com outro minidiscurso, mostrando novamente um incrível conhecimento da ONU e de sua missão. — Os senhores devem recordar-se — disse ele — que nas duas últimas décadas a ONU parecia estar em declıń io. O presidente Ronald Reagan agravou as controvérsias Leste-Oeste, e a ONU parecia coisa do passado com sua ênfase sobre os conϐlitos Norte-Sul. Esta organização passou por diϐiculdades ϐinanceiras, com poucos paıś es dispostos a contribuir com sua parcela. Entretanto, com o ϐim da Guerra Fria nos anos 90, seu sucessor na presidência dos Estados Unidos da América, Sr. Bush, reconheceu o que classificou de "nova ordem mundial", que ressoou fundo em meu jovem coração. A base original para a carta da ONU prometia a cooperação entre os primeiros 51 membros, incluindo as grandes potências. Carpathia continuou a discorrer sobre várias ações militares da ONU visando a manter a paz, o que vinha ocorrendo desde a guerra da Coréia nos anos 50. — Como os senhores sabem — disse ele, falando ainda sobre fatos ocorridos antes de ter nascido -, a ONU mantém sua legacia junto à Liga das Nações, que acredito seja a primeira instituição internacional mantenedora da paz no mundo. Ela foi instalada após o término da Primeira Guerra Mundial, mas, ao falhar em evitar a segunda, tornou-se anacrônica. Como resultado desse fracasso, surgiu a ONU, que deve permanecer forte para evitar uma Terceira Guerra Mundial, que acabaria em ampla, senão total, extinção da vida, como sabemos. Depois de sublinhar sua intenção de apoiar os esforços da ONU de qualquer modo possıv́ el, Carpathia foi interrompido por uma pergunta sobre os desaparecimentos de pessoas na semana anterior. Ele ϐicou repentinamente sério e solene, falando compassivamente e com grande pesar. — Muitos em meu paıś perderam pessoas de suas relações nesse horrıv́ el fenômeno. Estou certo de que muitos dos remanescentes no mundo inteiro têm suas teorias. Não desejo desconsiderar nenhuma delas, nem as pessoas que as defendem. Pedi ao Dr. Chaim Rosenzweig, de Israel, que trabalhasse com um grupo para tentar encontrar o sentido dessa grande tragédia, permitindo-nos assim tomar medidas para evitar que algo semelhante ocorra novamente. — Quando chegar o momento propıć io, pedirei ao Dr. Rosenzweig que fale por si mesmo, mas, por ora, posso dizer-lhes que a teoria que faz mais sentido para mim é, em resumo, a seguinte: O mundo vem acumulando arsenais de armas nucleares por muitos anos. Desde que os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre o Japão em 1945, e a União Soviética detonou seus próprios artefatos em 23 de setembro de 1949, a humanidade vem enfrentando o risco de um holocausto nuclear. O Dr. Rosenzweig e sua equipe de renomados estudiosos estão próximos de descobrir um fenômeno atmosférico que pode ter causado o desaparecimento instantâneo de tantas pessoas. — Que espécie de fenômeno? — perguntou Buck. Carpathia lançou um rápido olhar em seu crachá e respondeu fixando os olhos nos dele. — Não quero precipitar-me, Sr. Oreskovich — disse ele. Vários representantes da imprensa riram furtivamente, mas Carpathia não perdeu o ritmo nem se perturbou. — Ou, devo dizer, Sr. Cameron Williams, do Semanário Global. Esse comentário propiciou entusiásticos aplausos por toda a sala. Buck ficou estupefato. — O Dr. Rosenzweig acredita que alguma conϐluência de eletromagnetismo na atmosfera, combinada com uma provável mas desconhecida ou inexplicável ionização atômica de um poder nuclear e de armamentos nucleares estocados em todo o mundo, possa ter sido induzida ou acionada — talvez por uma causa natural, como um raio, ou mesmo por uma forma inteligente de vida que descobriu tal possibilidade antes de nós — causando esta ação instantânea por toda parte de nosso mundo. — Algo semelhante ao ato de alguém riscar um fósforo num ambiente cheio de vapores de gasolina? — sugeriu um jornalista. Carpathia assentiu pensativamente. — Como isso é diferente da idéia de alienıǵ enas do espaço exterior raptar todas essas pessoas? — complementou o jornalista. — Não é inteiramente diferente — admitiu Carpathia -, mas estou mais inclinado a crer na teoria natural, que urn raio reagiu com um campo subatômico. — Por que os desaparecimentos ocorreram ao acaso? Por que algumas pessoas e não outras? — Não sei — respondeu Carpathia. — O Dr. Rosenzweig me disse que eles não chegaram ainda a nenhuma conclusão. A esta altura eles estão postulando que certos nıv́ eis de eletricidade nos corpos das pessoas tornaram-nas mais suscetıv́ eis de ser afetadas. Isto incluiria todas as crianças e bebês, mesmo na condição fetal, que desapareceram. Seu eletromagnetismo não estava desenvolvido a ponto de poderem resistir a qualquer que tenha sido o fator. — O que o senhor diz das pessoas que acreditam ter sido obra de Deus, que Ele arrebatou sua Igreja? Carpathia sorriu com simpatia e respeito. — Permitam-me ser cauteloso em dizer que não critico nem criticarei nenhuma crença de pessoas sinceras. Esta é a base para a verdadeira harmonia e fraternidade, paz e respeito entre as pessoas. Não aceito esta teoria porque conheço muitas, muitas pessoas que deveriam ter ido, se é que todos os justos foram levados para o céu. Se há urn Deus, respeitosamente me convenço de que este não é o meio caprichoso pelo qual Ele agiria. Pela mesma razão, os senhores não me ouvirão expressar desrespeito àqueles que discordam. Buck ϐicou pasmo ao ouvir Carpathia dizer que tinha sido convidado para falar no próximo encontro religioso ecumênico programado para aquele mês em Nova York. — Lá, discutirei meus pontos de vista sobre o milenarismo, a escatologia, o Juıź o Final e a Segunda Vinda de Cristo. O Dr. Rosenzweig foi muito generoso ao possibilitar esse convite, e até lá penso que seria melhor não tentar falar sobre esses assuntos informalmente. — Quanto tempo o senhor ficará em Nova York? — Se o povo romeno deixar, ϐicarei aqui por todo este mês. Não me agrada afastar-me de meu povo, mas o paıś compreende que estou interessado no bem-estar do mundo inteiro, e com a tecnologia de hoje e com pessoas competentes ocupando posições de inϐluência na Romênia, sinto-me conϐiante por poder manter contato com elas e penso que meu paıś não sofrerá com minha curta ausência. Durante as apresentações dos noticiários noturnos em rede, uma nova estrela internacional acabava de nascer. Ele tinha até um apelido: Santo Nick. Além do que tinha acontecido na assembléia da ONU e na entrevista com a imprensa, Carpathia apresentou-se por alguns minutos diante de cada programa da televisão, despertando a atenção da audiência ao mencionar os nomes dos paıś es membros, convocando todos para uma reaϐirmação do compromisso pela paz no mundo. Ele evitou cautelosamente uma opinião especıϐ́ica sobre o desarmamento global. Sua mensagem era de amor, paz, compreensão, fraternidade, sem falar ostensivamente em cessação de lutas entre grupos e raças. Não havia dúvida de que, retornando a seu paıś , continuaria repisando estes pontos, mas naquele entretempo Carpathia desfrutava a trajetória mágica de sua vida. Os comentaristas recomendaram que ele fosse nomeado conselheiro adjunto do secretário-geral da ONU e que visitasse cada centro de operação das várias agências espalhadas pelo mundo. No ϐinal daquela noite, ele foi convidado a participar de cada um dos encontros internacionais marcados para dentro de poucas semanas. Ele foi visto em companhia de Jonathan Stonagal, o que não foi surpresa para Buck. E, logo depois de encerrada a entrevista à imprensa, foi poupado de outros compromissos. O Dr. Rosenzweig procurou Buck. — Tenho possibilidade de conseguir dele um horário livre no ϐinal da noite — disse ele. — Ele tem várias entrevistas, na maioria com o pessoal da televisão, e depois aparecerá ao vivo no programa da ABC, Nightline, com Wallace Theodore. Em seguida, retornará ao hotel e terá satisfação em conceder-lhe meia hora de entrevista ininterrupta. Buck disse a Steve que precisava ir ao seu apartamento, para se refrescar um pouco, ouvir os recados, correr para o escritório e atualizar-se o mais depressa possıv́ el, consultando os arquivos, para estar perfeitamente preparado para a entrevista. Steve concordou em acompanhá-lo. — Mas continuo confuso — admitiu Buck. — Se Stonagal estiver ligado de algum modo a Todd-Cothran, e sabemos que está, o que será que ele pensa a respeito do que aconteceu em Londres? — Ninguém sabe — disse Steve. — Mesmo que exista corrupção na Bolsa e na Scotland Yard, não signiϐica que Stonagal tenha qualquer interesse nela. Penso que ele desejaria estar o mais longe possível disso. — Mas, Steve, vocêtem de concordar que provavelmente Dirk Burton foi morto porque estava muito perto da ligação secreta de Todd-Cothran com o grupo internacional de Stonagal. Se eles começarem a liquidar pessoas que vêem como inimigas — mesmo amigos de seus inimigos, como Alan Tompkins e eu — onde eles vão parar? — Mas você está admitindo que Stonagal está ciente do que se passou em Londres. Ele está muito acima disso. Todd-Cothran ou o cara da Yard podem ter visto você como uma ameaça, mas Stonagal provavelmente nunca ouviu falar de você. — Você não acha que ele lê o Semanário? — Não se ofenda. Você para ele é um mosquito, mesmo que ele saiba seu nome. — Você sabe o que acontece a um mosquito quando ele leva uma pancada de uma revista, Steve? — Há um enorme rombo em seu argumento — disse Steve mais tarde quando entraram no apartamento de Buck. — Se Stonagal representa um perigo para você, o que Carpathia representa? — Como eu disse, Carpathia pode ser apenas um fantoche. . — Buck! Você acabou de ouvi-lo. Eu por acaso o endeusei? — Não. — Você ficou impressionado com ele? — Sim. — Ele parece ser um fantoche? — Não. Portanto só posso admitir que ele nada sabe sobre isso. — Vocêtem certeza de que ele se encontrou com Todd-Cothran e Stonagal em Londres antes de chegar aqui? — Isso fazia parte do negócio — disse Buck. — Planejar a viagem e envolver-se com consultores internacionais. — Você está correndo um grande risco — alertou-o Steve. — Não tenho escolha. De qualquer modo, estou disposto. Até que se prove outra coisa, vou confiar em Nicolae Carpathia. — Ufa! — desabafou Steve. — O quê? — Você está agindo exatamente às avessas do que costuma fazer. Desconϐia de uma pessoa até que ela prove o contrário. — Bem, o mundo mudou, Steve. Nada é igual ao que era na semana passada, certo? Buck apertou a tecla de sua secretária eletrônica enquanto tirava a roupa para tomar um banho. Rayford entrou na garagem de sua casa levando uma sacola de alimentos no banco a seu lado. Ele conseguiu falar com Hattie Durham, que tentou continuar a conversa, mas ele se desculpou e desligou. Ela estava entusiasmada com o convite para o jantar e conϐirmou que estaria lá quinta-feira à noite. Rayford supunha que estava chegando meia hora depois de Chloe e ϐicou impressionado ao ver que ela havia deixado a porta da garagem aberta para ele. Quando, porém, notou que a porta entre a garagem e a casa estava fechada, ficou preocupado. Ele bateu. Ninguém atendeu. Rayford abriu de novo a porta da garagem para entrar pela frente da casa, mas antes de sair, parou. Alguma coisa estava diferente na garagem. Ele acendeu as luzes internas, já que a única lâmpada do lado de fora era insuficiente. Os três carros estavam lá, mas... Rayford passou pelo jipe estacionado no fundo da garagem. As coisas de Raymie não estavam lá! Nem sua bicicleta nem seu carrinho de quatro rodas. O que significava isto? Rayford correu para a frente da casa. O vidro da anteporta de proteção contra tempestade e neve estava quebrado e ela estava aberta. A porta principal tinha sido arrombada. Não se tratava de simples arrombamento, pois a porta era enorme e pesada com fechadura de trava dupla. Toda a sua estrutura tinha sido destruıd́ a e espalhava-se em pedaços sobre o piso da entrada. Rayford correu para dentro, gritando por Chloe. Ele correu de cômodo em cômodo, orando para que nada tivesse acontecido ao único membro da famıĺia que lhe restava. Rádios, televisores, videocassetes, jóias, aparelhos de, som, videogames, a prataria e até as louças foram levados. Para seu alívio, não havia sinais de sangue ou de luta. Rayford estava ao telefone falando com a polícia quando uma ligação de espera deu o sinal. — Detesto ter de interromper — disse ele -, mas deve ser minha filha. Era ela. — Oh, papai! — disse ela, chorando. — Vocêestá bem? Entrei na garagem e dei pela falta de muitas coisas. Pensei que os ladrões poderiam voltar, por isso fechei a porta da garagem e estava indo fechar a da frente, mas, ao ver os vidros e os pedaços de madeira, corri para cá. Estou a três casas depois da nossa. — Eles não vão voltar, querida — disse ele. — Vou buscar você. — O Sr. Anderson disse que vai me levar até aı.́ Minutos depois, Chloe estava sentada no sofá, os braços cruzados sobre o estômago. Ela disse ao policial o que tinha dito a seu pai; a seguir, ele tomou o depoimento de Rayford. — Vocês não costumam ligar o alarme contra furto? Rayford meneou a cabeça em sinal negativo. — A culpa é minha. Deixei-o ligado durante anos quando não precisávamos dele, e me cansei de ser despertado no meio da noite por falsos alarmes e... hã,.. — Você chama a polıć ia, eu sei — disse o policial. — EƵ o que todo mundo faz. Mas desta vez não teria valido a pena, hein? — Agora é tarde demais — disse Rayford. — De fato, nunca pensei que precisássemos de segurança neste bairro. — Este tipo de delito aumentou cerca de 200% por aqui somente na última semana — informou o policial. — Os marginais sabem que não dispomos de tempo nem de homens suficientes para uma missão bem-sucedida. — Bem, o senhor poderia tranqüilizar minha ϐilha e dizer-lhe que eles não estão interessados em machucar ninguém e que não voltarão mais? — EƵ isso mesmo, senhorita — disse ele. — Seu pai deve consertar esta porta e ϐixá-la nos batentes; cuidarei de aumentar o sistema de segurança. Mas não espero uma nova visita, pelo menos não pelo mesmo bando. Falamos com as pessoas do outro lado da rua. Elas viram um pequeno furgão com letreiro de uma ϐirma de serviço de tapetes durante cerca de meia hora esta tarde. Eles entraram pela frente, abriram a porta da garagem e carregaram tudo, quase debaixo de seus narizes. — Ninguém viu quando arrombaram a porta de entrada? — Seus vizinhos não têm uma visão clara de sua entrada. Ninguém tem, na verdade. Serviço de profissionais. — Estou contente de Chloe não ter deparado com eles -comentou Rayford. O policial meneou a cabeça ao sair. — Vocês devem ser gratos por isso. Imagino que sua apólice de seguro lhes assegurará o retorno de seus bens. Não temos esperança de recuperá-los. Não temos tido sorte com outros casos. Rayford abraçou Chloe, que ainda tremia. — Pode me fazer um favor, papai? — O que você quiser. — Quero outra cópia daquele videoteipe, aquele do pastor. — Vou telefonar a Bruce, e vamos apanhá-lo hoje à noite. De repente ela riu. — Qual é a graça? — perguntou ele. — Tive uma idéia — disse ela, sorrindo e com lágrimas nos olhos. — Que tal se os ladrões vissem o teipe?

C A P Í T U L O 15

 UMA das primeiras mensagens na secretária eletrônica de Buck era da comissária que conheceu uma semana antes. "Sr. Williams, aqui é Hattie Durham. Estou em Nova York a serviço e me lembrei de chamá-lo para dizer 'Oi' e agradecer mais uma vez sua ajuda em fazerme contatar minha famıĺia. Vou fazer uma pausa por alguns instantes e depois continuarei falando, caso o senhor esteja ouvindo seus recados na gravadora. Seria divertido tomarmos um drinque juntos ou coisa assim, mas não se sinta obrigado. Bem, pode ser numa outra oportunidade." — Quem é? — Steve perguntou enquanto Buck hesitava perto da porta do banheiro, esperando ouvir seus recados antes de entrar debaixo do chuveiro. — Apenas uma garota — disse. — Bonita? — Mais do que bonita. Deslumbrante. — É melhor chamá-la de volta. — Não se preocupe. Vários outros recados eram sem importância. Em seguida, havia dois que tinham sido gravados naquela mesma tarde. 0 primeiro era do capitão Howard Sullivan, da Scotland Yard. "Ah! sim, Sr. Williams. Hesitei em deixar-lhe este recado em sua secretária, mas desejo falar com o senhor quando lhe convier. Como o senhor sabe, dois homens com quem o senhor se relacionava tiveram morte prematura aqui em Londres. Gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. O senhor pode ter sido ouvido por outras fontes, já que foi visto com uma das vıt́ imas pouco antes de seu fim desditoso. Por favor, telefone-me." E deixou seu número. O outro recado chegara menos de meia hora depois e era de Georges Laϐitte, um detetive da Interpol, a organização internacional da polıć ia, sediada em Lyon, França. "Sr. Williams", dizia ele num inglês com forte sotaque francês, "tão logo o senhor receba este recado, apreciaria que me chamasse do posto policial mais próximo. Eles saberão como entrar em contato conosco diretamente e terão um impresso com informações sobre o motivo por que precisamos falar com o senhor. Em seu próprio benefício, insisto em que não deve se demorar.". Buck pôs a cabeça fora do banheiro para mirar os olhos de Steve, que estava tão confuso quanto ele. — O que você é agora? — perguntou Steve. — Um suspeito? — Seria melhor não ser. Depois do que ouvi de Alan sobre Sullivan e como ele está nas mãos de Todd-Cothran, não me sinto obrigado a ir a Londres e voluntariamente colocar-me sob sua custódia. Esses recados não são imposições, são? Não devo atendê-los só pelo fato de os ter ouvido, devo? Steve encolheu os ombros. — Ninguém além de mim sabe que vocêouviu esses recados. De qualquer modo, agências internacionais não têm jurisdição aqui em nosso país. — Você acha que posso ser extraditado? — Só se eles ligarem você a uma ou outra daquelas mortes. Chloe não quis ϐicar em casa sozinha naquela noite. Ela acompanhou seu pai até a igreja, onde Bruce Barnes os encontrou e deu-lhes uma segunda cópia do videoteipe. Ele meneou a cabeça quando ouviu a respeito do assalto à casa de Rayford. — Está se tornando uma epidemia — disse. — Parece que o centro da cidade foi transferido para os bairros. Não estamo mais seguros aqui. Rayford teve de se conter para não dizer a Bruce que a substituição do teipe roubado era idéia de Chloe. Ele queria pedir a Bruce que continuasse orando, para que ela pensasse no assunto. Talvez a invasão da casa tivesse contribuıd́ o para que Chloe se sentisse vulnerável. Quem sabe ela estava chegando ao ponto de admitir que o mundo agora era mais perigoso, que não havia garantias, que seu tempo de vida seria mais curto. Mas Rayford também sabia que poderia ofendê-la, insultá-la ou afastá-la, se usasse esta situação para instigar Bruce a convencê- la. Ela dispunha de informações suϐicientes; cabia-lhe simplesmente deixar que Deus operasse sua graça no coração de sua ϐilha. Por outro lado, ele estava animado e desejoso de que Bruce soubesse o que estava acontecendo. Reconheceu, porém, que teria de esperar uma ocasião mais oportuna. Enquanto estavam fora, Rayford comprou alguns itens que precisavam ser repostos imediatamente, incluindo um aparelho de televisão e um videocassete. Ele providenciou o conserto da porta da frente e começou a preparar a papelada para obter a indenização do seguro. Mais importante, reforçou o sistema de segurança. Entretanto, sabia que nem ele nem Chloe teriam um sono tranqüilo naquela noite. Eles chegaram a casa e logo receberam um telefonema de Hattie Durham. Rayford pensou que ela deveria estar se sentindo sozinha. Ela não parecia ter um bom motivo para telefonar-lhe. Simplesmente disse-lhe que estava muito grata pelo convite para jantar e esperava ansiosamente pelo dia. Ele contou-lhe o que havia acontecido em sua casa, e ela ϐicou sinceramente aborrecida. — As coisas estão ϐicando estranhas — disse ela. — Você sabe que tenho uma irmã que trabalha numa clínica de gestantes. — Hã-hã — disse Rayford. — Você já me contou. — Eles fazem planejamento familiar e dão conselhos e orientações para gravidez avançada. — Sim. — Eles também estão preparados para fazer abortos. Hattie parecia estar esperando algum sinal de aϐirmação ou reconhecimento de que ele a estava escutando. Rayford ϐicou impaciente e permaneceu em silêncio. — De qualquer modo — disse ela -, não quero tomar seu tempo. Mas minha irmãme disse que o movimento da clínica é zero. — Bem, isso faz sentido, em virtude dos desaparecimentos de bebês em gestação. — Minha irmã não parece estar feliz com essa situação. — Hattie, imagino que todo mundo está horrorizado com isso. Os pais estão sofrendo no mundo inteiro. — Mas as mulheres que minha irmã e seus colegas estavam aconselhando queriam abortar. Rayford ensaiou uma resposta apropriada. — Sim, diante disso, talvez essas mulheres estejam gratas por não terem de praticar o aborto. — Talvez, mas minha irmã e seus chefes, bem como os demais da equipe, estão sem trabalho agora, até que as mulheres comecem a engravidar novamente. — Entendo. É uma questão de dinheiro. — Eles têm de trabalhar, por causa de suas despesas e famílias. — Mas, além de aconselhamento para abortar e prática de abortos, eles não têm mais nada para fazer? — Nada. Não é horrıv́ el? Seja lá o que for que aconteceu, isso acabou deixando minha irmã e muita gente como ela sem trabalho, e na verdade ninguém sabe ainda se terá condições de engravidar outra vez. Rayford tinha de admitir que nunca achou que Hattie fosse bem dotada em matéria de cultura, mas naquele momento ele gostaria de fixar bem os olhos nos dela. — Hattie, hã... não sei como lhe perguntar. Vocêestá dizendo que sua irmãespera que as mulheres engravidem novamente para poderem abortar e, assim, permitir que ela continue trabalhando? — Bem, naturalmente que sim. Que outra coisa ela pode fazer? Os empregos de aconselhamento em outros campos são difíceis de encontrar, você sabe. Ele meneou a cabeça, sentindo-se estúpido, por saber que ela não podia vê-lo. Que espécie de insanidade era aquela? Ele não devia estar consumindo energia discutindo com alguém que nitidamente não enxergava um palmo à frente do nariz; entretanto, não podia evitar discutir. — Sempre achei que as clínicas como essa em que sua irmãtrabalha considerassem a gravidez indesejada um transtorno. Elas não deveriam ϐicar contentes se tais problemas desaparecessem, ou mesmo muito felizes se a gravidez nunca acontecesse novamente? Mas pode haver uma pequena complicação. A raça humana deixaria de existir. Não havia mais ironia na voz de Hattie. — Mas Rayford, esse é o trabalho dela. EƵ para isso que a clıń ica existe. EƵ o mesmo que um posto de combustível ficar sem nenhum freguês que queira abastecer o carro ou usar os serviços, como óleo, lavagem, pneus. — Trata-se de um negócio de oferta e procura. — Exatamente! Você entende? Eles precisam da gravidez indesejada porque vivem disso. — Entendo. EƵ como um médico que deseja que as pessoas ϐiquem doentes ou se machuquem para que ele tenha alguma coisa para fazer? — Agora você compreendeu, Rayford. Depois que Buck fez a barba e tomou banho, Steve lhe disse: — Falei há pouco com o escritório. Os detetives de Nova York estão procurando você no escritório. Infelizmente, alguém lhes disse que mais tarde você estaria no Plaza com Carpathia. — Que mancada! — Eu sei. Talvez você tenha de enfrentar isso. — Ainda não, Steve. Deixe-me começar a entrevista com Carpathia. Depois vou tentar desfazer esse nó. — Você está esperando que Carpathia possa ajudá-lo? — Exatamente. — E se você não conseguir chegar até ele? Alguém pode apanhá-lo antes. — Vou conseguir. Ainda tenho minhas credenciais da imprensa com o nome e a identiϐicação de Oreskovich. Se os tiras estiverem esperando por mim no Plaza, é bem provável que não me reconheçam. — Veja bem, Buck. Vocêacha, a esta altura, que eles não estão cientes de sua identidade falsa? Vamos trocar nossos documentos. Se eles me barrarem por estar passando com o documento de Oreskovich, isso pode dar a você tempo suficiente para chegar até Carpathia. Buck encolheu os ombros. — Vale a tentativa — disse. — Não quero ϐicar aqui, mas pretendo ver Carpathia no programa Nightline. — Quer ir para o meu apartamento? — Eles provavelmente já estarão também procurando por mim lá. — Deixe-me ligar para Marge. Ela e o marido não moram longe daqui. — Não use meu telefone! Steve fez uma careta. — Vocêage como um espião de ϐilmes de cinema. Steve usou seu telefone celular. Marge insistiu para que fossem imediatamente para lá. Ela disse que seu marido queria ver a reprise da série M*A*S*H naquele horário, mas pediria a ele que gravasse o programa para assistir mais tarde. Enquanto entravam num táxi, Buck e Steve viram duas viaturas, sem identiϐicação da polícia, estacionadas bem em frente do prédio onde Buck morava. — Parece filme de espionagem — disse Buck. O marido de Marge não estava nem um pouco satisfeito por ficar sem sua poltrona favorita e seu ϐilme favorito, mas mostrou-se interessado quando começou o Nightline. Carpathia estava bem natural e à vontade. Ele olhava diretamente para a câmera sempre que possıv́ el e parecia estar conversando com os telespectadores individualmente. — Seu discurso hoje na ONU — começou o entrevistador Wallace Theodore -, que foi intercalado por duas entrevistas com a imprensa, parece ter eletrizado Nova York. Como grande parte delas foi levada ao ar tanto no inıć io da noite como depois nos noticiosos das emissoras, o senhor se tornou de uma hora para outra um homem popular neste país. Carpathia sorriu. — Como todas as pessoas da Europa, particularmente da Europa Oriental, estou impressionado com sua tecnologia, Eu... — Mas não é verdade, senhor, que suas raıź es estão realmente na Europa Ocidental? Embora tenha nascido na Romênia, o senhor não está ligado por hereditariedade à Itália? — Isto é verdade, como é verdade para muitos romenos nativos. Daı́a razão do nome de nosso paıś . Mas eu estava falando da tecnologia alcançada neste paıś . EƵ espantosa, mas confesso que não vim aqui para tornar-me ou ser transformado numa celebridade. Tenho uma meta, uma missão, uma mensagem, e isto nada tem a ver com minha popularidade ou... — Mas não é verdade que o senhor teve uma sessão de fotos para a revista Peoplel — Sim, mas eu... — E não é verdade também que eles já decidiram indicá-lo como o Homem Mais Atraente da atualidade? — Não sei realmente o que isso quer dizer. Submeti-me a uma entrevista que foi basicamente sobre minha infância, meus negócios e minha carreira polıt́ ica e tive a impressão de que eles costumam eleger um homem atraente para aparecer na edição de janeiro de cada ano; portanto, ainda é muito cedo para o próximo ano. — Sim, estou certo, Sr. Carpathia, de que ϐicou impressionado, como todos ϐicamos, com o jovem cantor que recebeu esse título há dois meses, mas... — Lamento dizer que não tinha conhecimento desse jovem antes de ver sua fotograϐia na capa da revista. — Mas o senhor está dizendo que não está ciente de que a revista People está quebrando uma tradição ao desbancar seu atual homem mais atraente e colocar o senhor em seu lugar na próxima edição? — Creio que eles tentaram dizer-me isso, mas não compreendo. O jovem mencionado causou danos a um hotel ou alguma coisa desse tipo, e portanto... — E portanto o senhor seria um substituto conveniente para ele. — Nada sei a esse respeito. Para ser honesto, eu poderia não ter concedido aquela entrevista sob tais circunstâncias. Não me considero atraente. Estou numa cruzada para ver as pessoas do mundo se unirem. Não procuro uma posição de poder ou autoridade. Simplesmente peço para ser ouvido. Espero que minha mensagem também seja veiculada no artigo da revista. — O senhor já desfruta uma posição de poder e autoridade, Sr. Carpathia. — Bem, nosso pequeno país pediu-me para servir, e estou disposto a isso. — Que resposta o senhor daria àqueles que dizem que o senhor quebrou o protocolo e que sua ascensão ao posto de presidente da Romênia foi parcialmente efetuada pela violência armada? — Diria que esta é a forma perfeita de atacar urn paciϐista, alguém que está comprometido com o desarmamento não somente na Romênia e nos demais paıś es da Europa, mas lambem em todo o globo. — Então o senhor nega ter causado a morte de um homem de negócios há sete anos e usado a intimidação e amigos poderosos na América para usurpar a autoridade do presidente da Romênia? — O assim chamado rival morto era um de meus amigos mais queridos, e eu lamento amargamente sua morte até hoje. Os poucos amigos americanos podem ter inϐluência aqui, mas não podem ter qualquer peso na polıt́ ica romena. O senhor deve saber que nosso último presidente pediu-me que o substituísse por motivos pessoais. — Mas isso afronta totalmente os procedimentos constitucionais de seu paıś para a sucessão do poder. — Isso foi votado pelo povo e pelo governo e ratificado por grande maioria. — Depois do acontecido. — De certo modo, sim. Mas, por outro lado, se eles não tivessem ratiϐicado, tanto pela população como pelas casas legislativas, eu teria sido o presidente de mandato mais curto na história de nossa nação. O marido de Marge resmungou: — Esse jovem romano é um azougue. — Romeno — corrigiu Marge. — Ele mesmo disse que seu sangue era inteiramente italiano — retrucou o marido. Marge piscou para Steve e Buck. Buck estava impressionado com a coordenação de pensamentos de Carpathia e seu conhecimento da língua. Theodore perguntou-lhe: — Por que a Organização das Nações Unidas? Alguém poderia lhe ter dito que o senhor obteria mais impacto e maior avanço se visitasse nosso Senado e a Câmara dos Deputados. — Eu nem mesmo sonharia com tal privilégio — disse Carpathia. — Mas o senhor percebe que não estou procurando avanço. A ONU era vista originalmente como um órgão paciϐicador. Ela deve voltar a ter essa função. — O senhor deu a entender hoje, e noto em sua voz neste momento, que tem um plano especıϐ́ico para a ONU, o qual a tornaria melhor e seria de alguma ajuda nesta fase horrenda da história. — Sim. Não considerei que me caberia sugerir tais mudanças como hóspede que sou; contudo, não tenho nenhuma hesitação neste contexto. Sou um proponente do desarmamento. Não é segredo para ninguém. Ao mesmo tempo que estou impressionado com as amplas potencialidades, planos e programas da ONU, acredito que, com uns poucos ajustes e a cooperação de seus membros, ela possa vir a ser tudo aquilo para o que foi concebida. Podemos verdadeiramente tornar-nos uma comunidade global. — O senhor pode resumir essa idéia em poucos segundos? O riso de Carpathia pareceu autêntico. — EƵ sempre perigoso — disse ele -, mas vou tentar. Como o senhor sabe, o Conselho de Segurança da ONU tem cinco membros permanentes: Estados Unidos, Federação Russa, Grã- Bretanha, França e China. Há também dez membros transitórios, dois de cada uma das cinco diferentes regiões do '• mundo, que atuam por períodos de dois anos. — Respeito a natureza vitalıć ia dos cinco paıś es originais. Proponho a escolha de outros cinco, exatamente um de cada uma das cinco diferentes regiões do mundo. A condição transitória seria abolida. Terıá mos então dez membros permanentes no Conselho de Segurança, mas o restante de meu plano é revolucionário. Presentemente, os cinco membros permanentes têm poder de veto. Votos sobre procedimentos requerem a maioria de nove membros; votos sobre a substância requerem maioria simples, incluindo os cinco membros permanentes. Proponho um sistema mais estrito. Proponho a unanimidade. — Perdão, não entendi. — Selecionar cuidadosamente os dez membros permanentes. Eles devem obter dados e informações, bem como apoio, de todos os países de suas respectivas regiões. — Isso parece um pesadelo. — Mas funcionaria, e lhe digo por quê. Pesadelo foi o que nos aconteceu na semana passada. O momento é propıć io para que os povos do mundo se levantem e insistam com seus governantes no sentido de desarmarem seus paıś es e destruıŕ em tudo, exceto 10% de seus armamentos. Esses 10% seriam, efetivamente, doados à ONU, de modo que ela pudesse voltar ao seu lugar apropriado como um organismo paciϐicador internacional, com autoridade, poder e equipamento para cumprir sua missão. Carpathia esclareceu, especialmente os telespectadores, que foi em 1965 que a ONU fez uma adendo à sua carta original para aumentar o Conselho de Segurança de 11 para 15 membros. Disse também que o poder de veto original dos membros permanentes tinha impedido os esforços militares pela paz, tais como na Coréia e durante a Guerra Fria. Onde o senhor obteve esse conhecimento enciclopédico sobre a ONU e os assuntos internacionais? Todos nós conseguimos tempo para fazer o que realmente desejamos. Esta é minha paixão. Qual é sua meta pessoal? Um papel de liderança no Mercado Comum Europeu? — A Romênia não é nem sequer membro, como o senhor sabe. Mas não, não tenho nenhuma meta de liderança, sou apenas uma voz. Devemos desarmar, devemos fortalecer a ONU, devemos mudar para uma moeda única, e devemos tornar-nos uma aldeia global. Rayford e Chloe sentaram-se em silêncio diante do novo aparelho de televisão, com a atenção presa no novo rosto e nas idéias estimulantes de Nicolae Carpathia. — Que cara! — disse Chloe ϐinalmente. — Desde que eu era menininha que não ouço um polıt́ ico dizer alguma coisa importante, e naquela época eu não entendia nem a metade do que essa gente dizia. — Ele tem alguma coisa diferente — concordou Rayford. -EƵ estimulante ver alguém que parece não visar a interesses pessoais. Chloe sorriu. — Você não está querendo compará-lo com o enganador contra o qual o videoteipe do pastor nos alertou, alguém da Europa que tentará dominar o mundo? — Claro que não — disse ele. — Não vejo nada de mal ou de egoıś mo neste homem. Alguma coisa me diz que o enganador de que falou o pastor se evidenciaria um pouco mais. — Mas — disse Chloe -, se ele for urn enganador, talvez seja um dos bons. — Ei, de que lado você está? Esse homem se parece com o anticristo para você? Ela meneou a cabeça negativamente. — Ele se parece com um sopro de ar puro para mim. Se ele começasse a forjar seu caminho para o poder, eu ϐicaria desconϐiada, mas como desconϐiar de um homem paciϐista, satisfeito de ser presidente de um país pequeno? Sua única influência é sua sabedoria, e seu poder está fundamentado em sua sinceridade e humildade. O telefone tocou. Era Hattie, ansiosa por conversar com Rayford. Ela estava bastante entusiasmada elogiando Carpathia. — Você viu aquele cara? Ele é tão atraente! Preciso conhecê-lo. Você tem algum vôo programado para Nova York? — Quarta-feira no ϐinal da manhã, e retomo na manhãseguinte. AƱ noite, vamos recebê-la aqui para o jantar, certo? — Sim, será muito bom, mas, Rayford, você se importaria se eu tentasse trabalhar nesse vôo? Ouvi a notıć ia de que a morte do redator da revista foi desmentida e ele está em Nova York. Vou ver se posso encontrá-lo e conseguir que ele me apresente a esse Carpathia. — Você acha que ele o conhece? — Buck conhece todo mundo. Ele faz todas essas grandes reportagens internacionais. Ele deve conhecê-lo. Mesmo que não o conheça, ficaria satisfeita de rever Buck. Isto foi um alıv́ io para Rayford. Hattie não teve receio de falar sobre dois jovens que ela estava nitidamente interessada em ver ou encontrar. Ele estava certo de que ela não disse isso apenas para testar seu grau de interesse por ela. Certamente ela sabia que ele não estava interessado em ninguém em razão do desaparecimento tão recente de sua esposa. Rayford perguntou a si mesmo se deveria seguir seu plano de ser honesto com ela. Talvez ele devesse apenas pedir-lhe logo de início que visse o videoteipe do pastor. — Bem, boa sorte então — disse Rayford um tanto indeciso. — Mas posso me inscrever para trabalhar em seu vôo? — Por que você não verifica se seu nome está indicado? — Rayford! — O quê? — Você não me quer em seu vôo? Por quê? Eu disse ou fiz alguma coisa? — Por que você pensa assim? — Você pensa que não sei que você rejeitou minha última solicitação? — Não foi exatamente o que fiz. Eu apenas disse... — Você pode muito bem ter feito isso. — Eu disse apenas o que já havia dito a você. Não me oponho a que você trabalhe em meus vôos, mas por que não deixa que as escalas aconteçam naturalmente? — Você sabe como são essas coisas! Se eu esperar, as possibilidades serão contra mim. Quando me candidato para trabalhar em um vôo, geralmente consigo, por causa da posição que ocupo. O que está acontecendo, Rayford? — Podemos falar sobre esse assunto quando você vier para o jantar? — Vamos falar agora. Rayford fez uma pausa, procurando as palavras. — Veja o que seus pedidos especiais causam às programações, Hattie. Todos os demais têm de ser remanejados para favorecê-la. — EƵ este o motivo? Você está preocupado com "todos os ' demais"? Ele não queria mentir. — Em parte — disse ele. — Isso nunca o incomodou antes. Vocêcostumava me incentivar a candidatar-me para os seus vôos e algumas vezes confirmava comigo para se certificar. — Eu sei. — Então, o que mudou? — Hattie, por favor. Não quero discutir esse assunto por telefone. — Então me encontre em algum lugar. — Não posso fazer isso. Não posso deixar Chloe sozinha logo após termos sofrido um assalto. — Então eu vou até aí. — Já é muito tarde. — Rayford! Você está me evitando? — Se eu estivesse evitando você, não a teria convidado para jantar. — Com sua filha em sua casa? Acho que estou sendo passada para trás. — Hattie, o que você está dizendo? — Somente que você desfrutou minha companhia em privacidade, pretendendo que alguma coisa estivesse por acontecer. — Tenho de admitir isso. — Sinto muito o que aconteceu a sua esposa, Rayford, sinto realmente. Talvez vocêesteja se sentindo culpado, apesar de nunca termos feito nada que justiϐicasse essa culpa. Mas não me ponha de lado antes que você tenha uma chance de se recuperar de sua perda e começar a viver novamente. — Não é isso. Hattie, o que é pôr de lado? Nunca tivemos um caso. Se tivéssemos, por que está tão interessada nesse sujeito da revista e no romeno? — Todo mundo está interessado em Carpathia — disse ela. — E Buck é o único meio que conheço para chegar até ele. Vocênão pode pensar que eu tenha alguma intenção a respeito de Buck. Francamente! Um redator de notícias internacionais? Pense bem, Rayford. . — Não me preocupo se vocêtiver. Estou apenas querendo saber o que isso tem a ver com nosso suposto caso. — Você quer que eu não vá a Nova York e esqueça os dois? — Absolutamente. Não estou dizendo isso. — Se alguma vez eu sentisse que teria realmente uma chance com você, tentaria segurá- lo, creia-me. Rayford ϐicou perplexo. Seus receios e suposições estavam corretos, mas agora ele se sentia defensivo. — Você nunca pensou que houvesse uma chance? — Você nunca me deu nenhum indıć io. Tudo o que eu sabia é que você me achava uma garota bonita, uma companhia agradável, mas não para ser tocada. — Há alguma verdade nisso. — Mas você nunca desejou que houvesse alguma coisa mais, Rayford? — É sobre isso que eu gostaria de falar com você, Hattie. — Você pode responder agora mesmo. Rayford suspirou. — Sim, em algumas ocasiões desejei que houvesse alguma coisa mais. — Bem, aleluia. Meu instinto falhou. Eu tinha desistido, imaginando que você fosse intocável. — Eu sou. — Agora você é claro. Posso até entender. Você está sofrendo e provavelmente sofrendo ainda mais porque considerou alguém, além de sua esposa, por um certo tempo. Mas só por causa disso eu não posso voar com você, tomar um drinque com você? Podemos voltar a ser como antes. Não haveria nada de mais, a não ser que exista alguma coisa em sua mente. — Isto não signiϐica que você não possa falar comigo ou trabalhar comigo quando nossas escalas coincidirem. Se eu não tivesse nada a tratar com você, não a teria convidado para vir aqui. — Posso entender o que está acontecendo, Rayford. Não venha me dizer que eu não conseguiria ser apenas "sua amiga". — Talvez isso e um pouco mais. — Como o quê? — Simplesmente alguma coisa sobre a qual desejo falar com você. — E se eu lhe disser que não estou interessada em compromissos sociais? Não espero que você me queira, agora que sua esposa se foi, mas também não quero ser esquecida por você. — Como você pode ser esquecida por mim se a estou convidando para jantar aqui? — Por que você nunca me convidou antes? Rayford ficou em silêncio. — E então? — insistiu ela. — Teria sido inadequado — murmurou ele. — E agora também não é inadequado nos encontrarmos? — Francamente, sim. Mas quero muito falar com você, e não é sobre evitá-la. — Você acha que a minha curiosidade vai me forçar a ir até aí, Rayford? Veja bem, vou ter de recusar. Vou estar muito ocupada. Queira aceitar minhas desculpas. Surgiu algo importante, inevitável, espero que você compreenda. — Por favor, Hattie. Nós desejamos realmente que você venha. — Rayford, não se preocupe. Há muitos vôos para Nova York. Não pretendo fazer nenhuma ginástica para trabalhar em seus vôos. Na verdade, vou me certiϐicar de que estou fora deles. — Você não tem de fazer isso. — Claro que vou fazer. Sem ressentimentos. Eu gostaria de conhecer Chloe, mas provavelmente você se sentiria obrigado a dizer a ela que um dia esteve muito inclinado por mim. — Hattie, você poderia ouvir-me por um segundo? Por favor. -Não. — Quero que você venha aqui quinta-feira à noite. Tenho, realmente, um assunto importante para dizer-lhe. — Diga o que é. — Não por telefone. — Então não vou. — Se eu disser o assunto por alto, você virá? — Depende. — Bem, tenho uma explicação a respeito dos desaparecimentos, está me ouvindo? Sei o que eles significaram e quero ajudar você a encontrar a verdade. Hattie ficou em completo silêncio por vários segundos. — Você não se tornou um fanático, certo? Rayford teve de pensar um pouco. A resposta era sim, ele certamente se tornara um fanático, mas não diria isso a ela. — Você me conhece muito bem. — Pensei que conhecesse. — Confie em mim, isto é digno de sua atenção. — Dê-me alguma pista, e vou dizer se quero ou não ouvir. — Absolutamente não — disse Rayford, surpreso com sua reação. — De jeito nenhum. Só se for pessoalmente. — Então não vou. —Hattie! — Adeus, Rayford. — Hat... Ela desligou.


C A P Í T U L O 16 


— EU NAǂO FARIA isso para ninguém mais — disse Steve Plank depois que ele e Buck agradeceram a Marge e se dirigiram a táxis separados. — Não sei por quanto tempo vou poder mantê-los entretidos e convencê-los de que sou vocêpretextando ser outra pessoa, por isso não se demore a entrar. — Não se preocupe. Steve pegou o primeiro táxi, portando na lapela as credenciais falsas de Buck em nome de George Oreskovich. Ele deveria ir diretamente ao Hotel Plaza, onde conϐirmaria a entrevista com Carpathia. A esperança de Buck era que .. Sleve fosse imediatamente interceptado e preso como sendo Buck, abrindo assim o caminho para ele entrar. Se Buck fosse abordado por autoridades, ele mostraria sua identidade como Steve Plank. Ambos sabiam que o plano era vulnerável, mas Buck estava disposto a tentar qualquer coisa para evitar ser extraditado e enquadrado pelo assassinato de Alan Tompkins e até mesmo pelo de Dirk Burton. Buck pediu a seu motorista que esperasse cerca de um minuto depois que Steve tivesse saıd́ o do outro táxi para entrar no Plaza. Ele chegou ao hotel no meio de carros da polıć ia com luzes piscando, uma perua para conduzir presos, vários carros sem emblemas de identiϐicação. Enquanto abria caminho entre os curiosos, os policiais empurravam Steve, algemado com as mãos nas costas, para fora da porta de entrada, descendo os degraus da escada. — Já lhe disse — resmungava Steve. — O nome é Oreskovich! — Sabemos quem você é, Williams! Poupe sua garganta. — Esse não é Cam Williams! — disse um repórter, apontando com o dedo e rindo. — Seus idiotas! Esse é Steve Plank. — Sim, é isso mesmo — Plank reforçou a informação. — Sou o chefe de Williams, do Semanáriol — Claro que você é — disse um policial à paisana, forçando-o a entrar num carro sem emblema de identificação. Buck se desviou do repórter que havia reconhecido Plank, mas, quando entrou no saguão do hotel e pegou um telefone de cortesia para chamar o apartamento de Rosenzweig, outro colega da imprensa, Eric Miller, virou-se para Buck e, pondo a mão sobre o fone em que falava, sussurrou: — Williams, o que está acontecendo? Os tiras acabam de prender seu chefe alegando que ele era você! — Faça-me um favor — pediu Buck. — Guarde isso só para vocêpor uma meia hora, pelo menos. Você me deve esse favor. — Não devo nada a você, Williams — disse Miller. — Mas você parece bem assustado. Dê- me sua palavra de que serei o primeiro a saber o que está acontecendo. — Tudo bem. Você será o primeiro cara da imprensa que ϐicará sabendo. Não posso prometer que não vou dizer a outra pessoa. — Quem? — Adivinhe. — Se vocêestá querendo contatar Carpathia, Cameron, pode esquecer. Ficamos tentando a noite inteira. Ele não vai dar mais nenhuma entrevista hoje. — Ele voltou? — Voltou, mas está incomunicável. Rosenzweig atendeu a ligação de Buck. — Chaim, é Cameron Williams. Posso subir? Eric Miller pôs seu fone no gancho e se aproximou de Buck. — Cameron! — disse Rosenzweig. — Não posso me comunicar com você. Primeiro, você está morto, depois você está vivo. Acabamos de receber um telefonema dizendo que você foi preso no saguão para ser questionado sobre um assassinato em Londres. Buck procurou evitar que Miller detectasse alguma coisa. — Chaim, tenho de me apressar, estou usando o nome Plank, está bem? — Vou armar o esquema com Nicolae e receber você em meu apartamento de qualquer maneira. — disse Chaim informando o número a Buck. Buck pôs o dedo nos lábios para que Miller não ϐizesse pergunta, mas não pôde se livrar dele. Disparou em direção ao elevador, mas Eric entrou junto. Um casal tentou usar o mesmo elevador. — Sinto muito, amigos — disse Buck. — Este elevador está com defeito. O casal saiu, mas Miller continuou. Buck não queria que ele visse o andar em que ia descer, por isso esperou as portas do elevador se fecharem. Em seguida, desligou-o, agarrou Miller pela camisa à altura do pescoço e jogou-o contra a parede do elevador. — Ouça, Eric, eu disse que informaria a você, em primeira mão, o que está acontecendo aqui, mas, se você der com a lıń gua nos dentes ou me seguir, vou deixá-lo a ver navios, entendeu? Miller se desvencilhou das garras de Buck e recompôs suas roupas. — Está bem, Williams! Calma! Fique tranqüilo, cara! — Sim, eu fico tranqüilo, e você fica bisbilhotando por aí. — É meu trabalho, rapaz. Não se esqueça disso. — Meu também, Eric, mas não vou atrás de ninguém. Faço eu mesmo o meu trabalho. — Você entrevistando Carpathia? Apenas me diga isso. — Não, estou arriscando minha vida para ver se uma estrela de cinema está no hotel. — Então é Carpathia mesmo? — Eu não disse isso. — Vamos, homem, deixe-me entrar nessa! Farei o que você quiser! — Vocême disse que Carpathia não estava dando nenhuma entrevista esta noite — disse Buck. — E, ele não está mais querendo dar entrevista, exceto para as redes de TV e rádio, e com isso nunca vou chegar perto dele. — O problema é seu. —Williams! Buck avançou de novo no pescoço de Miller. — Estou indo! — disse Eric. Quando Buck chegou ao andar VIP, ϐicou abismado ao constatar que Miller havia de algum modo passado à sua frente apresentando-se a um guarda uniformizado como Steve Plank. — O Sr. Rosenzweig está esperando pelo senhor, cavalheiro — disse o guarda. — Aguarde um instante! — Buck gritou, exibindo as credenciais de jornalista de Steve. — Eu sou Plank. Tire esse impostor daqui. O guarda pôs as mãos nos ombros de cada um. — Os dois devem esperar aqui enquanto chamo o detetive do hotel. Buck disse: — Chame Rosenzweig e peça-lhe que decida. O guarda encolheu os ombros e ligou para o apartamento usando um telefone portátil. Miller se inclinou, viu o número e correu em direção ao apartamento. Buck saiu atrás dele ao mesmo tempo em que o guarda desarmado gritava tentando localizar alguém pelo telefone. Buck, mais jovem e em melhor forma, alcançou Miller e atirou-o ao chão do corredor, fazendo várias portas de hóspedes alarmados se abrirem para ver o que ocorria. — Vão brigar em outro lugar — vociferou uma mulher. Buck derrubou Miller a seus pés e aplicou-lhe uma gravata por trás, imobilizando-o. — Você é um palhaço, Eric. Você realmente acha que Rosenzweig permitiria que um estranho entrasse em seu apartamento? — Consigo entrar em qualquer lugar usando apenas minha lábia, Buck, e você sabe que teria de fazer a mesma coisa. O guarda os reteve. — O Dr. Rosenzweig sairá em instantes. — Tenho apenas uma pergunta para ele — disse Miller. — Não, não tem — disse Buck. Ele se voltou para o guarda. — Ele não. — Deixem que o Sr. Rosenzweig decida — respondeu o guarda. Então, de repente, recuou, encostando-se na parede do corredor e puxando Buck e Miller com ele para desobstruir o caminho. Quatro homens de ternos escuros entraram no corredor, escoltando o inconfundıv́ el Nicolae Carpathia. — Queiram desculpar, cavalheiros — disse Carpathia. -Perdoem-me. — Oh! Sr. Carpathia. Quero dizer Presidente Carpathia -exclamou Miller. — Como? — disse Carpathia, voltando-se para ele. Os guarda-costas olharam furiosos para Miller. — Oh! olá, Sr. Williams -disse Carpathia, notando a presença de Buck. — Ou devo dizer Sr. Oreskovich? Ou, quem sabe, Sr. Plank? • O intruso deu um passo à frente. — Eric Miller, do Mensário Beira-Mar. — Conheço bem sua revista, Sr. Miller — disse Carpathia -, mas estou atrasado para uma entrevista. Se o senhor me ligar amanhã, falaremos por telefone. Combinado? Miller parecia desnorteado. Assentiu com a cabeça e retirou-se. — Parece que ouvi o senhor dizer que seu nome era Plank! -interveio o guarda, fazendo todos sorrirem, exceto Miller. — Vamos entrar, Buck — disse Carpathia, acenando para que caminhassem juntos. Buck ficou calado. — É assim que o chamam, não é? — Sim, senhor — respondeu Buck, certo de que nem mesmo Rosenzweig o sabia. Rayford ϐicou terrivelmente abalado após a conversa com Hattie Durham. As coisas não poderiam ter sido piores. Por que ele não permitiu que ela trabalhasse em seu vôo? Ela não teria sido nenhum empecilho, e ele poderia ter a chance de expor sua verdadeira e nobre intenção durante o jantar de quinta-feira à noite. Agora ele tinha estragado tudo. Como Rayford abordaria o assunto com Chloe? Seu verdadeiro motivo, quando falasse com Hattie, era que Chloe também ouvisse. Ela já não tinha visto o suϐiciente? Não deveria ele estar mais estimulado pela insistência da ϐilha em substituir o videoteipe roubado? Ele perguntou se ela gostaria de acompanhá-lo a Nova York no vôo noturno. Ela respondeu que preferia ϐicar em casa e começar a procurar uma escola local para freqüentar. Ele quis insistir, mas não ousou. Depois que Chloe se deitou, Rayford telefonou a Bruce Barnes e contou-lhe sua frustração. — Você está insistindo demais, Rayford — disse o jovem pastor. — Cheguei a pensar que agora seria mais fácil falar de nossa fé a outras pessoas, mas encontrei o mesmo tipo de resistência. — É ainda mais difícil quando se trata da própria filha. — Posso imaginar — disse Bruce. — Não, você não pode — disse Rayford. Mas está tudo bem. Chaim Rosenzweig estava hospedado numa bela e ampla suíte de vários quartos e salas. Os guarda-costas ϐicaram postados bem em frente à porta. Carpathia convidou Rosenzweig e Buck a irem à sala de estar para um encontro exclusivamente dos três. Carpathia tirou o casaco e o estendeu cuidadosamente no encosto do sofá. — Fiquem à vontade, cavalheiros — disse. — Eu não preciso estar aqui, Nicolae — sussurrou Rosenzweig. — Oh! isso é um contra-senso, doutor! Você não se importa, não é, Buck? — Absolutamente. — Você não se importa se eu o chamar de Buck? — Não, senhor, mas costumeiramente só o pessoal da... — Da sua revista, sim, eu sei. Eles lhe puseram esse apelido porque você é contra as tradições, tendências e convenções, estou certo? — Sim, mas como... — Buck, este foi o dia mais incrıv́ el da minha vida. Tenho sido tão bem recebido aqui. E as pessoas parecem tão receptivas a minhas propostas. Estou dominado pela emoção. Retornarei a meu paıś como um homem feliz e satisfeito. Mas não já. Solicitaram que eu permanecesse um pouco mais. Você sabia disso? — Ouvi dizer. — Vocênão acha surpreendente que os diversos encontros internacionais a se realizarem aqui em Nova York durante as próximas semanas serão todos sobre a cooperação universal em que estou interessado? — Sem dúvida — concordou Buck. — E fui destacado para cobrir todos eles. — Então poderemos nos conhecer melhor. — Tenho boas perspectivas a esse respeito, senhor. Fiquei entusiasmado com o que ouvi hoje na ONU. — Obrigado. — E o Dr. Rosenzweig falou-me muito sobre o senhor. — Ele também me falou sobre você. Alguém bateu à porta. Carpathia demonstrou aborrecimento. — Achei que não seríamos interrompidos. Rosenzweig levantou-se cautelosamente e foi nas pontas dos pés até a porta, mantendo uma conversação em voz baixa. Depois voltou e dirigiu-se a Buck: — Temos de sair por uns dois minutos, Cameron — sussurrou -, para que ele atenda a um importante telefonema. — Oh! não — disse Carpathia. — Atenderei mais tarde. Este encontro é prioritário para mim... — Senhor — disse Rosenzweig -, com sua licença... é o presidente. — O presidente? — Dos Estados Unidos. Buck levantou-se imediatamente para deixar a sala acompanhado de Rosenzweig, mas Carpathia insistiu para que ficassem. — Não sou tão importante a ponto de não poder partilhar tal honra com meu velho amigo e meu novo amigo. Sentem-se! Eles se sentaram, e Carpathia pressionou a tecla do telefone. — Aqui fala Nicolae Carpathia. — Sr. Carpathia, é Fitz. Gerald Fitzhugh. — Senhor Presidente, sinto-me lisonjeado em ouvi-lo. — Bem, é um prazer tê-lo entre nós! — Fico-lhe grato por sua nota de congratulação quando de minha posse na presidência, senhor, e por seu pronto reconhecimento de minha administração. — Sr. Carpathia, foi surpreendente a forma como o senhor chegou à presidência de seu país. De início, não acreditei no que aconteceu, mas suponho que nem o senhor acreditou. — É isso mesmo. Ainda estou tentando me acostumar. — Bem, acredite na experiência de um veterano que ocupa essa posição há seis anos. O senhor nunca vai se acostumar. Vai apenas criar calos nos lugares certos, se é que está me entendendo. — Sim, Senhor Presidente. — A razão de meu telefonema é esta: fui informado de que o senhor permanecerá em nosso paıś por mais algum tempo; portanto, gostaria de convidá-lo a passar uma noite ou duas em minha companhia e de Wilma. O senhor aceita? — Em Washington? — Exatamente, aqui na Casa Branca. — Seria para mim um grande privilégio. — Indicarei uma pessoa para falar com seus assessores, a ϐim de ϐixarmos o dia conveniente, mas acredito que será em breve, uma vez que o Congresso está em sessão, e estou informado de que o senhor será convidado a falar aos parlamentares. Carpathia meneou a cabeça, e Buck percebeu que ele se emocionou. — Ficarei muito honrado, senhor. — E por falar em fatos surpreendentes, seu discurso de hoje e sua entrevista desta noite... bem, foram fenomenais. Será uma honra recebê-lo. — A honra é mútua, senhor. Buck estava um pouco menos emocionado que Carpathia e Rosenzweig. Fazia muito tempo que ele deixara de admirar os presidentes dos Estados Unidos, notadamente este, que insistia em ser chamado de Fitz. Buck havia escrito uma matéria sobre Fitzhugh como o Fazedor da Notıć ia do Ano -, o primeiro trabalho de Buck e a segunda vez que Fitzhugh recebia essa homenagem. Por outro lado, Buck considerava um fato inusitado o presidente ligar para alguém que estava a seu lado naquele momento. A satisfação pelo telefonema recebido estava estampada no rosto de Carpathia, mas, após desligar, ele mudou rapidamente do assunto. Buck, quero responder a todas as suas perguntas e proporcionar-lhe o que for necessário para sua matéria. Você tem sido tão bom para Chaim que estou disposto a conϐiar-lhe um pequeno segredo, que vocêpoderá chamar de "furo jornalıśtico". Mas, antes de mais nada, você está em grande dificuldade, meu amigo. E desejo ajudá-lo, se estiver ao meu alcance. Buck não tinha a menor idéia de como Carpathia ϐicou sabendo que ele estava em apuro. Então não era preciso nem mesmo contar-lhe o problema para recorrer ao seu auxıĺio? Isso era bom demais para ser verdade. A questão era a seguinte: o que Carpathia sabia, e o que deveria saber? O romeno sentou à frente de Buck e ϐixou-o diretamente nos olhos. Isso deu a Buck uma sensação de paz e segurança tão grande que o fez sentir-se livre para dizer a ele toda a verdade. Tudo, até mesmo que seu amigo Dirk lhe contara que alguém se encontraria com Stonagal e Todd-Cothran, e que, na opinião de Buck, esse alguém era Carpathia. — Era eu mesmo — disse Carpathia. — Mas permita-me que torne isto bem claro. Não estou sabendo de nenhuma conspiração. Nem sequer ouvi falar de tal coisa. O Sr. Stonagal considerou que seria bom para mim um encontro com alguns de seus colegas e homens de inϐluência internacional. Não tenho opinião formada sobre nenhum deles, nem me sinto devedor a eles. — Vou dizer-lhe uma coisa, Williams. Acredito em sua história. Não o conheço, senão por seu trabalho e sua reputação com pessoas que respeito, como o Dr. Rosenzweig. Mas seu relato tem o timbre da verdade. Fui informado de que você está sendo procurado em Londres pela morte de um agente da Scotland Yard, e que eles têm várias testemunhas que juram ter visto vocêdesviar a atenção de Tompkins, colocar o artefato explosivo no carro e acionar a explosão do interior da taverna. — Isso é uma loucura. — Claro, se for verdade que vocês estavam lamentando a morte de um amigo em comum. — Era isso exatamente o que estávamos fazendo, Sr. Carpathia. E também tentando descobrir a verdade. Rosenzweig foi novamente atender à porta; em seguida, sussurrou ao ouvido de Carpathia. — Buck, venha cá — pediu Carpathia, levantando-se e conduzindo-o até a janela, longe de Rosenzweig. — Seu plano de entrar aqui enquanto estava sendo perseguido foi muito engenhoso, mas seu chefe foi identiϐicado e agora eles sabem que vocêestá aqui. Eles pretendem mantê-lo em custódia e extraditá-lo para a Inglaterra. — Se isso acontecer, e se a teoria de Tompkins estiver correta — disse Buck -, sou um homem morto. — Você acredita que eles o matarão? — Eles mataram Burton e Tompkins. Sou muito mais perigoso para eles por ser um jornalista em potencial. — Se essa trama for como você e seus amigos disseram, Cameron, escrever sobre essa gente, expô-los, não vai proteger você. — Eu sei. Talvez eu deva fazer isso de qualquer modo. Não vejo outra saída. — Tenho meios de livrá-lo dessa ameaça. A mente de Buck começou a girar rapidamente. Era o que ele desejava, mas estava temeroso de que Carpathia não pudesse agir com rapidez suϐiciente para evitar que ele caıś se nas mãos de Todd-Cothran e Sullivan. Será que Carpathia estava mais ligado a essas pessoas do que Buck supunha? — Senhor, preciso de sua ajuda. Mas sou um jornalista ; em primeiro lugar. Não posso ser comprado nem aceitar barganhas. — Oh! claro que não. Eu nunca lhe pediria tal coisa. Permita-me dizer-lhe o que pretendo fazer por você. Vou tomar providências para que as tragédias de Londres sejam reexaminadas e reavaliadas, isentando-o de culpa. — Como o senhor fará isso? — Faz alguma diferença, se a história for verdadeira? Buck pensou um instante. — É verdadeira. — Claro. — Mas como o senhor fará isso? O senhor tem demonstrado ser urn homem simples, Sr. Carpathia, urn homem modesto. Como pode interferir no que aconteceu em Londres? Carpathia suspirou. — Buck, eu disse a você que seu amigo Dirk estava enganado quanto a uma conspiração. É verdade. Eu não durmo com Todd-Cothran nem com Stonagal ou outros lıd́ eres internacionais que tive a honra de conhecer recentemente. Contudo, há decisões importantes e ações iminentes que terão efeitos sobre eles, e é meu privilégio ter voz ativa nesses desdobramentos. Buck perguntou a Carpathia se ele se importaria em sentarem de novo. Carpathia fez um sinal a Rosenzweig para que os deixasse a sós por alguns minutos. — Veja — disse Buck quando se sentaram -, sou jovem, mas adquiri muita experiência. Sinto que estou prestes a descobrir até que ponto o senhor está envolvido nessa história. Se não se tratar de uma conspiração, trata-se de uma ação organizada. Posso concordar e salvar minha vida, ou posso recusar e aí o senhor deixará que eu me aventure sozinho em Londres. Carpathia levantou um dos braços e balançou a cabeça. — Buck, permita-me reiterar que estamos falando de polıt́ ica e diplomacia, não de fraude ou desonestidade. — Estou ouvindo. — Primeiro — disse Carpathia -, quero falar um pouco sobre meu passado. Acredito no poder do dinheiro. Você acredita? — Não. — Você vai acreditar. Fui um homem de negócios acima da média na Romênia, quando ainda freqüentava a escola secundária. Estudei muitas lıń guas à noite, aquelas que eu precisava conhecer para ser bem-sucedido. Durante o dia, administrava meus negócios de importaçãoexportação e consegui tornar-me um homem de dinheiro. Mas o que eu entendia por riqueza era insigniϐicante diante do que se poderia fazer com ela. Aprendi do modo mais difıć il. Tomei emprestado milhões de um banco europeu e então descobri que alguém daquele banco informou ao meu maior • concorrente o que eu estava fazendo. Fui derrotado nos negócios, tornei-me inadimplente e enfrentei diϐiculdades. Então aquele mesmo banco me concedeu um reϐinanciamento e arruinou meu concorrente. Eu não tinha essa intenção nem queria prejudicar o concorrente. Ele foi usado para que o banco me amarrasse numa transação. — Esse banco pertencia a um americano influente? Carpathia não respondeu à pergunta. — O que tive de aprender, em mais de uma década, é quanto dinheiro está lá. — Lá onde? — Nos bancos do mundo todo. — Especialmente os pertencentes a Jonathan Stonagal -insinuou Buck. Carpathia ainda não quis morder a isca. — Este tipo de capital significa poder. — É exatamente contra isso que escrevo. — E é isso que vai salvar sua vida. — Sim, estou ouvindo. — Esse é o tipo de dinheiro que atrai a atenção de um homem. Ele se dispõe a fazer concessões por causa do dinheiro. Começa a vislumbrar a possibilidade de que alguém, um homem mais novo, com mais entusiasmo, vigor e idéias novas assuma o poder. — Foi o que aconteceu na Romênia? — Buck, não me insulte. O último presidente da Romênia pediu-me espontaneamente que o substituıś se, e o apoio para essa mudança foi unânime dentro do governo e quase totalmente favorável no meio do povo. A situação de todos melhorou. — O último presidente está fora do poder. — Ele tem uma grande fortuna. Buck tinha diϐiculdade para respirar. O que Carpathia estava insinuando? Buck olhou ϐixo para ele, meio atordoado, incapaz de se mover, incapaz de reagir. Carpathia continuou. — O secretário-geral Ngumo preside um paıś que está morrendo de fome. O mundo está pronto para aceitar meu plano de dez membros no Conselho de Segurança. Estas coisas vão caminhar juntas. O secretário-geral deve dedicar seu tempo aos problemas de Botsuana. Com o incentivo adequado, ele será bem-sucedido. Será um homem feliz, próspero, num paıś de pessoas prósperas. Mas primeiro ele vai apoiar meu plano para o Conselho de Segurança. Os representantes de cada um dos dez membros formarão uma mescla interessante composta de alguns embaixadores atuais e principalmente de pessoas novas com bons suportes ϐinanceiros e idéias progressistas. — O senhor está me dizendo que se tornará secretário-geral da ONU? — Eu jamais ambicionarei essa posição, mas como poderia recusar tal honra? Quem poderia virar as costas a uma responsabilidade tão grande? — Que poder o senhor exercerá perante os representantes de cada um dos dez membros permanentes do Conselho de Segurança? — Minha função será meramente a de lıd́ er colaborador. Você conhece conceito? O indivíduo lidera colaborando, e não ditando normas. — Permita-me arriscar uma suposição ousada — interveio Buck. — Todd-Cothran terá uma função em seu novo Conselho de Segurança. Carpathia aprumou-se e recostou-se no sofá, como se estivesse vislumbrando uma nova possibilidade. — Não seria interessante? — perguntou. — Por que não escolhermos um ilustre especialista em ϐinanças, desvinculado da polıt́ ica, cuja sabedoria e visão ampla permitiram que o mundo passasse a utilizar um sistema de três moedas, um homem generoso a ponto de não incluir nesse sistema a moeda de seu paıś , a libra esterlina? Ele não teria nenhum impedimento para exercer esse cargo. O mundo teria muito a ganhar com ele, você não acha? — Suponho que sim — disse Buck, sentindo-se deprimido, como se estivesse sucumbindo a olhos vistos. — A menos que... Todd-Cothran estivesse envolvido em um misterioso suicıd́ io, um carro explodido, esse tipo de coisa. Carpathia sorriu. — Eu penso que um homem que ocupa uma posição de potencial internacional como aquela desejaria ter a casa limpa exatamente agora. — E o senhor poderia realizar isso? — Buck, você está me superestimando. Estou apenas dizendo que, se você estiver certo, posso tentar impedir uma ação visivelmente antiética e ilegal contra um homem inocente - _você. Não consigo ver nada de errado nisso. Rayford Steele nao conseguiu dormir. Por alguma razão, ele estava novamente dominado pela angústia e remorso com a perda de sua esposa e seu ϐilho. Ele levantou-se e ajoelhou-se na beira da cama, enterrando o rosto no lençol do lado em que sua esposa costumava dormir. O cansaço, a tensão e a preocupação a respeito de Chloe nos últimos dias tinha sido tão grandes que a terrıv́ el perda já não lhe causava tanto sofrimento no coração, na mente e na alma. Ele acreditava ϐirmemente que sua esposa e seu ϐilho estavam no céu e que viver no céu era infinitamente melhor que viver aqui na terra. Rayford sabia que tinha obtido o perdão divino por ter zombado de sua esposa, por nunca tê-la ouvido, por ter desprezado Deus durante tantos anos. Estava grato por ter-lhe sido dada uma segunda oportunidade e porque agora tinha novos amigos e urn lugar onde estudar a Bıb́ lia. Mas isso não fazia cessar o doloroso vazio em seu coração, o anseio de abraçar sua esposa e seu ϐilho, beijá-los e dizer-lhes o quanto os amou. Ele orou para que aquela angústia diminuıś se, mas algo dentro dele desejava e sentia necessidade de que o sofrimento perdurasse. De certo modo ele se considerava merecedor desse sofrimento, embora já tivesse aprendido um pouco mais. Estava começando a compreender o perdão de Deus, e Bruce lhe havia dito que ele não precisava continuar sentindo vergonha pelos pecados que cometeu. Enquanto permanecia ajoelhado, orando e chorando, uma nova angústia invadiu todo o seu ser. Ele não via esperança para Chloe. Todas as suas tentativas de sensibilizá-la haviam falhado. Fazia pouco tempo que ela perdera a mãe e o irmão e menos tempo ainda que ele se convertera. O que mais podia ele dizer ou fazer? Bruce o incentivara a simplesmente orar, mas ele achava que só orar não bastava. Ele oraria, claro, mas sempre havia sido um homem de ação. Agora, toda ação parecia afastá-la para longe. Ele tinha receio de que, se dissesse ou fizesse qualquer coisa mais, seria responsável pela decisão dela de rejeitar Cristo de uma vez por todas. Rayford nunca se sentira tão frágil e desesperado. Ansiava ter Irene e Raymie a seu lado. Estava desesperado a respeito de Chloe. Ele ϐicou orando em silêncio, mas o tormento assomava dentro dele, fazendo-o ouvir o clamor lancinante de sua voz: "Chloe! Oh! Chloe! Chloe!" Ele chorou amargamente na escuridão silenciosa, repentinamente quebrada por um rangido, parecendo estalos no soalho de madeira, e um leve ruıd́ o de passos. Ele voltou-se bruscamente e viu Chloe. A luz fraca e difusa de seu quarto permitiu distinguir a silhueta dela trajando camisola, parada diante da porta. Ele não sabia o que a filha tinha ouvido. — Você está bem, papai? — perguntou ela com voz branda. — Sim. — Pesadelo? — Não. Sinto ter perturbado você. — Eu também sinto falta deles — disse ela com voz trêmula. Rayford aprumou-se e sentou-se com as costas apoiadas na cabeceira da cama, estendendo os braços em direção à ϐilha. Ela aproximou-se e sentou-se ao lado dele, descansando a cabeça em seu peito, envolta por seu braço. — Eu creio que algum dia vou vê-los novamente — disse ele. — Eu sei — disse ela, sem nenhum desrespeito na voz. — Eu sei que você vai vê-los.

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