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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

SD 80

O PRÍNCIPE DE WESTEROS




Vencedor dos prêmios Hugo, Nebula e World Fantasy, George R. R. Martin, best-seller do New York Times, é autor da memorável série de fantasia As crônicas de gelo e fogo e foi chamado de “Tolkien norte-americano”. Nascido em Bayonne, Nova Jersey, George R. R. Martin vendeu seus primeiros manuscritos em 1971 e logo se estabeleceu como um dos escritores de ficção científica mais famosos dos anos 1970. Rapidamente se transformou num dos pilares da revista Analog, embora também vendesse textos para as revistas Amazing, Fantastic, Galaxy, para a série de antologias Orbit e para outros mercados. Uma de suas histórias para a Analog, a surpreendente novela A Song for Lyra, lhe deu seu primeiro Hugo, em 1974. No fim dos anos 1970, ele alcançou o ápice de influência como escritor de ficção científica e estava produzindo suas melhores obras no gênero, com histórias como a famosa “Sandkings”, que conquistou os prêmios Hugo e Nebula em 1980 (em 1985 ele ganhou outro Nebula com o conto “Portraits of His Children”), e “The Way of Cross and Dragon”, que lhe rendeu o Hugo no mesmo ano (tornando Martin o primeiro autor a receber dois prêmios Hugo na categoria ficção no mesmo ano) entre outras. Essas histórias seriam reunidas em Sandkings, uma das antologias mais bem-sucedidas do período. A maior parte de sua obra do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 apareceria na revista Omni. Nessa época, publicou A morte da luz, seu único romance de ficção científica, enquanto suas histórias eram reunidas em diversas coleções. No início dos anos 1980, entrou no gênero horror, publicando o romance Fevre Dream, ganhou o prêmio Bram Stoker por seu conto “The Pear-Shaped Man” e o World Fantasy pela novela de lobisomens The Skin Trade. No entanto, no final dessa década, a queda no mercado de horror e o fracasso comercial de seu ambicioso romance Armageddon Rag levaram-no para longe do mundo da literatura e para uma carreira bem-sucedida na televisão, onde por mais de uma década trabalhou como editor de histórias ou produtor em programas como a nova temporada de Além da imaginação e a série A Bela e a Fera. Em 1996, Martin fez um retorno triunfal ao mundo dos livros com a publicação do romance de fantasia de imenso sucesso A guerra dos tronos, o início de sua série As crônicas de gelo e fogo. Com uma novela independente baseada nessa obra, Blood of the Dragon, Martin venceu outro Hugo, em 1997. Os livros de As crônicas de gelo e fogo — A fúria dos reis, A tormenta de espadas, O festim dos corvos e A dança dos dragões — formam junto com A guerra dos tronos, uma das séries mais populares, aclamadas e vendidas de toda a fantasia moderna. Recentemente, os livros foram transformados em uma série de TV pela HBO, Guerra dos tronos, que se tornou um dos programas mais bem-sucedidos da televisão, e Martin se tornou uma figura reconhecida também fora das fronteiras normais do gênero, inspirando até mesmo uma sátira dele no programa Saturday Night Live. Seus livros mais recentes são A dança dos dragões, último da série As crônicas de gelo e fogo; Dreamsongs, uma coleção retrospectiva imensa em dois volumes que se estende pelo espectro inteiro de sua carreira; a coleção de novelas Starlady and Fast-Friend; Hunter’s Run, ficção científica escrita com Gardner Dozois e Daniel Abraham; e, como editor, trabalhou em diversas antologias em colaboração com Gardner Dozois, como Ruas estranhas e Dangerous Women, bem como em vários novos volumes de sua longa série antológica Wild Cards, Wild Cards: Busted Flush e Wild Cards: Inside Straight. Em 2012, Martin recebeu um Prêmio pelo Conjunto da Obra na World Fantasy Convention. O mundo de gelo e fogo, uma história abrangente de Westeros e das terras além foi lançado em 2014. Aqui ele nos leva à turbulenta terra de Westeros, lar de sua série As crônicas de gelo e fogo, para contar a história do canalha fanfarrão Daemon Targaryen, o príncipe que nunca chegou a ser rei — embora sua ambição de se tornar rei possa fazer eclodir a guerra em todo o mundo.



O PRÍNCIPE DE WESTEROS OU O IRMÃO DO REI

Considerações sobre a vida pregressa, as aventuras, transgressões e os casamentos do príncipe Daemon Targaryen, conforme anotadas pelo arquimeistre Gyldayn, da cidadela de Vilavelha aqui transcritas por George R. R. Martin 

Era neto de rei, irmão de rei, marido de uma rainha. Dois de seus filhos e três de seus netos se sentariam no Trono de Ferro, mas a única coroa envergada por Daemon Targaryen seria a coroa de Passopedra, um reino miserável que ele criara com sangue, aço, fogo de dragão, mas logo abandonara. Durante séculos a Casa Targaryen criou grandes homens e monstros. O príncipe Daemon era tanto um quanto outro. Em seus dias áureos, não havia homem mais admirado, mais adorado e mais vilipendiado em toda Westeros. Era igualmente feito de luz e escuridão. Para alguns era herói, para outros, o mais terrível dos vilões. Não é possível compreender de fato aquele trágico derramamento de sangue conhecido como Dança dos Dragões sem considerar o papel crucial desempenhado antes e durante o conflito por esse príncipe vigarista. As sementes do grande conflito foram espalhadas durante os últimos anos do longo reinado do Velho Rei, Jaehaerys I Targaryen. Do próprio Jaehaerys pouco precisa ser dito aqui, exceto que, após o falecimento de sua amada mulher, a Boa Rainha Alysanne, e de seu filho Baelon, Príncipe de Pedra do Dragão — a Mão do Rei e provável herdeiro do Trono de Ferro —, Sua Majestade era apenas a casca do homem que havia sido. Tendo perdido o príncipe Baelon, o Velho Rei teve de procurar em outro lugar um parceiro para suas atividades. Como sua nova Mão, ele convocou Sor Otto Hightower, irmão mais novo de Lorde Hightower, de Vilavelha. Sor Otto trouxe mulher e filhos com ele para a corte e serviu o rei Jaehaerys fielmente durante os anos que lhe restavam. Quando a força e a perspicácia do rei começaram a falhar, ele ficava com frequência confinado à cama. A filha de 15 anos de Sor Otto, Alicent, tornou-se sua companhia constante, levando refeições a Sua Majestade, lendo para ele, ajudando-o a se banhar e se vestir. O Velho Rei às vezes a confundia com uma de suas filhas, chamando-a pelos seus nomes; perto do fim, ficou ainda mais convicto de que era sua filha Saera, que havia voltado de além do Mar Estreito. No ano de 103 DD, o rei Jaehaerys I Targaryen morreu em seu leito enquanto a Senhora Alicent lia para ele a História inatural, do septão Barth. Sua Majestade tinha 69 anos de idade e reinara sobre os Sete Reinos desde sua ascensão ao Trono de Ferro, com a idade de 14 anos. Seus restos mortais foram cremados no Fosso dos Dragões, suas cinzas enterradas com as da Boa Rainha Alysanne embaixo da Fortaleza Vermelha. Toda Westeros enlutou-se. Até mesmo em Dorne, onde sua lei não imperava, os homens choraram e as mulheres rasgaram as vestes. Segundo seus desejos, e a decisão do Grande Conselho de 101, seu neto Viserys o sucederia, subindo ao Trono de Ferro como rei Viserys I Targaryen. Na época da ascensão, o rei Viserys contava 26 anos de idade. Por uma década, foi casado com uma prima, a Senhora Aemma, da Casa Arryn, ela própria neta do Velho Rei e da Boa Rainha Alysanne por parte de mãe, a falecida Princesa Daella († 82 DD). A Senhora Aemma sofrera vários abortos e a morte de um filho recém-nascido, mas também dera à luz uma filha saudável, Rhaenyra (nascida em 97 DD). O novo rei e sua rainha eram muito protetores com a filha, sua única prole viva. Viserys I Targaryen era de natureza generosa e amável, e era querido por seus lordes e também pelo seu povo. O reinado do Jovem Rei, como os plebeus o chamaram depois de sua ascensão, era pacífico e próspero. A generosidade de Sua Majestade era lendária, e a Fortaleza Vermelha tornou-se um lugar de louvores e esplendores. O rei Viserys e a rainha Aemma organizavam muitos banquetes e torneios, além de distribuir ouro, cargos e honras a muitos de seus favoritos. No centro da alegria, festejada e adorada por todos, estava a princesa Rhaenyra, a garotinha que os poetas da corte logo apelidaram de Encanto do Reino. Mesmo que tivesse apenas seis anos quando o pai ascendeu ao Trono de Ferro, Rhaenyra era uma criança precoce, brilhante, ousada e linda como apenas aqueles com sangue de dragão podem ser. Com sete anos, tornou-se amazona de dragões, cavalgando até o céu montada num jovem dragão que ela batizou de Syrax, nome de uma deusa da antiga Valíria. Ao oito anos, como muitas outras garotas bem-nascidas, a princesa foi alocada ao serviço de escanção... mas apenas para o seu pai, o rei. Por isso, à mesa, em torneios e na corte, o rei Viserys raramente era visto sem a filha ao lado. Enquanto isso, a parte tediosa dos atos governamentais era, em grande parte, incumbência do pequeno conselho do rei e de sua Mão. Sor Otto Hightower continuou naquele cargo, servindo o filho como havia servido o pai; um homem capaz, todos concordavam, embora muitos o considerassem orgulhoso, brusco e arrogante. Diziam que quanto mais servia, mais imperioso se tornava Sor Otto, e muitos grandes lordes e príncipes se ressentiam de suas maneiras e invejavam seu acesso ao Trono de Ferro. O maior de seus rivais era nosso príncipe canalha: Daemon Targaryen, o irmão mais novo, ambicioso e impetuoso do rei. Tão charmoso quanto destemperado, o príncipe Daemon ganhara suas esporas de cavaleiro aos 16 anos e recebera a espada Irmã Negra das mãos do Velho Rei, em reconhecimento por suas proezas. Embora tivesse se casado com a Senhora de Pedrarruna em 97 DD, durante o reinado do Velho Rei, o casamento não fora um sucesso. O príncipe Daemon achou tedioso o Vale de Arryn (“No vale, os homens fodem cabras”, ele escreveu. “Não se pode culpá-los. As cabras são mais belas que suas mulheres.”) e logo desenvolveu um desprezo por sua mulher, a quem chamava de “minha puta de bronze”, por conta da armadura rúnica de bronze usada pelos lordes da Casa Royce. Quando da ascensão do irmão ao Trono de Ferro, o príncipe pediu a anulação de seu casamento. Viserys negou o pedido, mas permitiu que Daemon retornasse à corte, onde obteve uma cadeira no pequeno conselho, servindo como mestre da moeda de 103 a 104, e mestre das leis por meio ano em 104. No entanto, a governança entediava esse príncipe guerreiro, que saiu-se melhor quando o rei Viserys o nomeou comandante da Vigilância da Cidade. Ao encontrar os vigilantes mal armados e vestidos com roupas estranhas e farrapos, Daemon equipou cada homem com adaga, espada curta e bastão, concedeu-lhes armaduras pretas (com placas peitorais para os oficiais) e lhes deu longas capas douradas que poderiam usar com orgulho. Desde então, os homens da Vigilância da Cidade ficaram conhecidos como “mantos dourados”. O príncipe Daemon assumiu com avidez o trabalho com os mantos dourados e não raro fazia rondas nos becos de Porto Real com seus homens. Ninguém podia duvidar que ele trouxera mais ordem à cidade; no entanto sua disciplina era brutal. Ele se deliciava em cortar as mãos dos batedores de carteira, castrar estupradores e fender o nariz dos ladrões, e assassinou três homens em brigas de rua durante o primeiro ano como comandante. Em pouco tempo, o príncipe ficou conhecido em todos os lugares de má fama de Porto Real. Transformou-se numa figura contumaz em tabernas (onde bebia de graça) e locais de jogatina (de onde sempre saía com mais moedas do que entrara). Apesar de ter experimentado inúmeras prostitutas nos bordéis da cidade — e diziam que tinha um prazer especial em deflorar donzelas —, uma certa dançarina lyseniana logo se tornou sua favorita. Mysaria era seu nome de guerra, embora os rivais e inimigos a chamassem de Miséria, a Minhoca Branca. Como o rei Viserys não tinha filho vivo, Daemon considerava-se o herdeiro legítimo do Trono de Ferro e cobiçava o título de Príncipe de Pedra do Dragão, que Sua Majestade se recusou a lhe conceder... mas, no final do ano de 105 DD, ficou conhecido pelos amigos como o Príncipe da Cidade e pelo populacho como Lorde da Baixada da Pulga. Apesar de o rei não desejar que Daemon o sucedesse, tinha muito afeto pelo irmão mais novo e não hesitava em perdoar seus muitos crimes. A princesa Rhaenyra também se enamorou do tio, pois Daemon era atencioso com ela. Sempre que cruzava o Mar Estreito sobre seu dragão, ele lhe trazia algum presente exótico na volta. O rei Viserys nunca reivindicou outro dragão após a morte de Balerion, tampouco gostava muito de combates, caçadas ou treinos de esgrima, enquanto o príncipe Daemon se sobressaía nessas esferas e aparentava ser tudo que seu irmão não era: esguio mas robusto, guerreiro renomado, espirituoso, ousado, mais que perigoso. Embora as origens de sua inimizade sejam muito controversas, todos os homens concordam que Sor Otto Hightower, a Mão do Rei, pouco gostava do irmão do rei. (Cogumelo, o bobo do rei, afirma que a querela teve início quando o príncipe Daemon deflorou Alicent, a jovem filha de Sor Otto, futura rainha, mas essa história indecente não encontra respaldo em nenhuma outra fonte.) Foi Sor Otto quem convenceu Viserys a retirar o príncipe Daemon do cargo de mestre da moeda e, em seguida, de mestre das leis — atitudes que logo veio a lamentar. Como comandante da Vigilância da Cidade, com dois mil homens sob o seu comando, Daemon ficou mais poderoso que nunca. “Em hipótese alguma se pode permitir que o príncipe Daemon suba ao Trono de Ferro”, a Mão escreveu ao irmão, Lorde de Vilavelha. “Ele seria um segundo Maegor, o Cruel, ou pior.” Foi desejo de Sor Otto (à época) que a princesa Rhaenyra sucedesse ao pai. “Melhor o Encanto do Reino que o Lorde da Baixada da Pulga”, ele escreveu. E não estava sozinho em sua opinião. Ainda assim, seu partido enfrentou um obstáculo formidável. Se o precedente estabelecido pelo Grande Conselho de 101 fosse seguido, um sucessor masculino deveria prevalecer sobre um feminino. Na ausência de um filho legítimo, o irmão do rei viria antes da filha do rei, como Baelon viera antes de Rhaenys, em 92 DD. Sobre o ponto de vista do rei, todas as crônicas relatam que Viserys odiava discórdias. Embora não fosse nem um pouco cego às falhas do irmão, acalentava as lembranças do garoto livre e aventureiro que Daemon fora no passado. Sempre dizia que sua filha era sua grande alegria na vida, mas um irmão é um irmão. Muitas vezes, esforçou-se para que o príncipe Daemon e Sor Otto convivessem em paz, mas a inimizade entre os dois agitava-se ao infinito por trás dos falsos sorrisos que os dois ostentavam na corte. Quando pressionado sobre a questão, o rei Viserys apenas dizia que estava certo de que a rainha logo lhe daria um filho. E, em 105 DD, ele anunciou à corte e ao pequeno conselho que a rainha Aemma estava grávida novamente. Durante aquele mesmo ano fatídico, Sor Criston Cole foi nomeado para a Guarda Real para preencher a vaga criada pela morte do lendário Sor Ryam Redwyne. Filho de um mordomo a serviço de lorde Dondarrion de Portonegro, Sor Criston era um cavaleiro jovem e atraente de 32 anos. A primeira vez que chamou a atenção da corte foi quando venceu um entrevero na Lagoa da Donzela, em honra à ascensão do rei Viserys. Nos momentos finais do combate, Sor Criston arrancou a Irmã Negra da mão do príncipe Daemon com sua Estrela da Manhã, para deleite de Sua Majestade e fúria do príncipe. Depois disso, deu à princesa Rhaenyra, com sete anos de idade, o louro de vencedor e implorou a ela um laço para usar no combate a cavalo. Nas liças, derrotou novamente o príncipe Daemon e, sem cavalo, os dois celebrados gêmeos Cargyll, Sor Arryk e Sor Erryk, da Guarda Real, antes de cair pelas mãos de lorde Lymond Mallister. Com seus olhos verdes pálidos, cabelo preto como carvão e um charme tranquilo, Cole logo se transformou no favorito de todas as senhoras da corte... entre elas, ninguém menos que a própria Rhaenyra Targaryen. Tão impressionada ficava com os encantos do homem que chamava de “meu cavaleiro branco” que Rhaenyra implorou ao pai que nomeasse Sor Criston seu escudeiro e protetor pessoal. Sua Majestade fez essa vontade, como tantas outras. Depois disso, Sor Criston sempre usava seu laço nas justas e se tornou uma presença permanente ao lado dela durante banquetes e festejos. Pouco depois de Sor Criston receber sua capa branca, o rei Viserys convidou Lyonel Strong, Lorde de Harrenhal, a juntar-se ao pequeno conselho como mestre das leis. Lorde Strong, um homem grande, parrudo e calvo, gozava de reputação formidável como lutador. Aqueles que não o conheciam o consideravam com frequência um bronco, confundindo seu silêncio e a lentidão de fala com estupidez, o que estava longe de ser verdade. Lorde Lyonel estudara na Cidadela quando jovem, adquirindo seis elos de sua corrente antes de decidir que a vida de meistre não era para ele. Letrado e estudado, seu conhecimento das leis dos Sete Reinos era profundo. Três vezes viúvo, o lorde de Harrenhal trouxe consigo para a corte duas filhas donzelas e dois filhos. As garotas tornaram-se camareiras da princesa Rhaenyra, enquanto o irmão mais velho, Sor Harwin Strong, chamado de Quebra-Ossos, tornou-se capitão dos mantos dourados. O rapaz mais novo, Larys Pé-Torto, entrou para o grupo de confessores do rei. Assim, esse era o cenário em Porto Real no fim do ano de 105 DD, quando a rainha Aemma foi levada à cama na Fortaleza de Maegor e faleceu enquanto dava à luz o filho que Viserys Targaryen desejava havia tempos. O garoto (batizado de Baelon, em homenagem ao pai do rei) sobreviveu à mãe apenas um dia, deixando rei e corte desolados... exceto talvez o príncipe Daemon, que foi visto num bordel na Rua da Seda fazendo troças ébrias com seus companheiros nobres sobre o “herdeiro por um dia”. Quando o boato se espalhou e chegou ao rei (diz a lenda que foi a meretriz que estava sentada no colo de Daemon que o informou, mas as provas sugerem que, na verdade, foi um dos companheiros de bebedeira, um capitão dos mantos dourados, ávido por uma promoção), Viserys ficou furioso. Por fim, Sua Majestade ficou farto desse irmão ingrato e de suas ambições. Assim que seu luto seguiu o curso natural, o rei rapidamente começou a resolver a questão da sucessão, há muito deixada em fogo brando. Sem considerar os precedentes estabelecidos pelo rei Jaehaerys, em 92, e pelo Grande Conselho, em 101, o rei Viserys I declarou a filha Rhaenyra sua herdeira legítima e nomeou-a Princesa de Pedra do Dragão. Em uma cerimônia luxuosa em Porto Real, centenas de lordes reverenciaram Rhaenyra quando ela sentou-se aos pés do pai na base do Trono de Ferro, jurando honrar e defender seu direito à sucessão. No entanto, o príncipe Daemon não estava entre eles. Furioso com o decreto do rei, o príncipe deixou Porto Real, renunciando à Vigilância da Cidade. Primeiro seguiu para Pedra do Dragão, levando sua amante Mysaria consigo nas costas de seu dragão Caraxes, a fera vermelha e esguia que o povo chamava de Verme Sangrento. Lá permaneceu por meio ano, tempo no qual teve um filho com Mysaria. Quando soube que sua concubina estava grávida, o príncipe Daemon presenteou-a com um ovo de dragão, mas nisso foi longe demais. O rei Viserys ordenou que devolvesse o ovo e voltasse para sua mulher legítima ou seria condenado como traidor. O príncipe obedeceu, embora de má vontade, despachando Mysaria (sem o ovo) de volta a Lys, enquanto ele voava para Pedrarruna, no Vale de Arryn, e para a companhia indesejada de sua “puta de bronze”. Mas Mysaria perdeu o filho durante uma tempestade no Mar Estreito. Quando a notícia chegou ao príncipe Daemon, ele não proferiu uma palavra de dor, porém seu coração endureceu-se contra o rei, seu irmão. Depois disso, falava do rei Viserys apenas com desdém e começou a remoer dia e noite a questão da sucessão. Embora a princesa Rhaenyra tivesse sido proclamada sucessora de seu pai, havia muitas pessoas no reino que ainda esperavam que Viserys pudesse ser pai de um herdeiro homem, pois o Jovem Rei ainda não chegara aos trinta anos. O grande meistre Runciter foi o primeiro a encorajar Sua Majestade a se casar novamente, sugerindo até mesmo uma opção adequada: a Senhora Laena Velaryon, que acabara de fazer doze anos. Uma jovem donzela fogosa, recémdesabrochada, a Senhora Laena herdara a beleza de uma Targaryen genuína, sua mãe Rhaenys, e o espírito ousado e aventureiro do pai, conhecido como Serpente do Mar. Da mesma forma que ele amava navegar, Laena amava voar e reclamou para si nada menos que a poderosa Vhagar, a maior e mais velha dos dragões de Targaryen desde a morte do Terror Negro, em 94 DD. Ao desposar a garota, Runciter enfatizou, o rei poderia sanar o desacordo que crescera entre o Trono de Ferro e a Derivamarca. E Laena certamente seria uma rainha esplêndida. Devemos comentar que Viserys I Targaryen não era o mais resoluto dos reis; sempre amável e ávido por agradar, confiava imensamente no conselho dos homens ao seu redor e fazia o que solicitavam com mais frequência do que o contrário. Nesse caso, no entanto, Sua Majestade tinha uma opinião, e nenhum argumento o desviaria de seu caminho. Ele casaria de novo, sim... mas não com uma garota de 12 anos, e não por motivos de Estado. Outra mulher havia chamado sua atenção. Anunciou sua intenção de desposar a Senhora Alicent, da Casa Hightower, a inteligente e amável filha da Mão do Rei, uma moça de 18 anos que lia para o rei Jaehaerys quando ele estava de cama, à beira da morte. Os Hightower de Vilavelha eram uma família antiga e nobre, de linhagem impecável; não poderia haver objeções à escolha do rei. Mesmo assim, houve aqueles que murmuraram que a Mão planejara aquilo, que havia levado sua filha à corte já com essa intenção em mente. Alguns duvidavam das virtudes da Senhora Alicent, sugerindo que ela entregara sua virgindade ao príncipe Daemon e mais tarde recebera também o rei Viserys em sua cama, mesmo antes da morte da rainha Aemma. No Vale, correu à boca pequena que o príncipe Daemon chicoteara quase até a morte o serviçal que lhe trouxera a notícia. Nem o Serpente do Mar ficou satisfeito. A Casa Velaryon fora ignorada novamente, sua filha Laena desdenhada como seu filho Laenor o fora no Grande Conselho de 101, e sua mulher pelo Velho Rei no passado, em 92 DD. (A Senhora Laena parecia tranquila. “Ela mostra muito mais interesse por voar que por rapazes”, seu meistre observou.) Quando o rei Viserys desposou Alicent Hightower em 106 DD, a Casa Velaryon brilhou por sua ausência. A princesa Rhaenyra serviu a madrasta no banquete, e a rainha Alicent beijou-a e a chamou de “filha”. A princesa estava entre as mulheres que despiram o rei e o levaram aos aposentos de sua noiva. A alegria e o amor reinaram na Fortaleza Vermelha naquela noite... embora do outro lado da Baía da Água Negra, lorde Corlys, o Serpente do Mar, recebesse o irmão do rei, príncipe Daemon, para um conselho de guerra. O príncipe chegara ao limite do que podia aguentar do Vale de Arryn, de Pedrarruna e da sua mulher. “A Irmã Negra foi feita para tarefas mais nobres do que matar ovelhas”, ele teria dito ao Lorde das Marés. “Tem sede de sangue.” Porém o príncipe não tinha em mente uma rebelião; ele enxergava outro caminho até o poder. Passopedra, uma cadeia de ilhas rochosas entre Dorne e as Terras Disputadas de Essos, servira por muito tempo como abrigo de fora da lei, exilados, saqueadores e piratas. Por si, as ilhas eram de pouco valor, mas, por sua localização, controlavam as rotas marítimas que se dirigiam ao Mar Estreito e dele partiam, e os navios mercantes que passavam por aquelas águas não raro eram presas de seus habitantes. Ainda assim, por séculos esses incidentes vinham sendo apenas uma perturbação. No entanto, dez anos antes, as Cidades Livres de Lys, Myr e Tyrosh deixaram de lado sua antiga inimizade para se unir numa guerra contra Volantis. Após derrotar os volantinos, as três cidades vitoriosas firmaram uma “aliança eterna” e formaram um novo e forte poder: o Triarcado, mais conhecido em Westeros como o Reino das Três Filhas ou, de um jeito mais rude, as Três Putas (esse “reino” não tinha rei, sendo governado por um conselho de 33 magísteres). Assim que Volantis retirou-se das Terras Disputadas, as Três Filhas voltaram os olhos para o ocidente. Seus exércitos varreram Passopedra sob o comando do príncipealmirante myriano Craghas Drahar, que ganhou o apelido de Craghas Cria-Caranguejo por prender centenas de piratas na beira da praia para se afogarem na maré alta. No início, a anexação de Passopedra pelo Triarcado teve a aprovação dos lordes de Westeros. A ordem substituiu o caos, e, mesmo que as Três Filhas exigissem um pedágio de qualquer navio que passasse por suas águas, parecia um preço pequeno a pagar. No entanto, a avareza de Craghas Cria-Caranguejo e seus pares na conquista logo acabou com a boa vontade: o pedágio foi aumentado duas vezes e se tornou tão dispendioso que os mercadores, que antes pagavam com prazer, agora buscavam escapar das galés do Triarcado como no passado faziam com os piratas. Drahar e seus coalmirantes de Lys e Tyrosh pareciam concorrer uns com os outros para ver quem conseguia demonstrar a maior avareza. Os lysenianos tornaram-se especialmente odiados, pois reivindicavam mais que moedas dos navios passantes, confiscando mulheres, garotas e garotos atraentes para servirem em seus jardins de prazer e casas de tolerância (entre os escravizados dessa época estava a Senhora Johanna Swann, sobrinha de 15 anos do Lorde de Stonehelm. Quando seu tio, um infame ganancioso, recusou-se a pagar o resgate, ela foi vendida a uma casa de tolerância, onde cresceu para se transformar na celebrada cortesã conhecida como Cisne Negro e em governante de Lys em tudo, menos no nome. Infelizmente sua história, por mais fascinante que seja, não tem lugar em nossa presente narrativa.) De todos os lordes de Westeros, nenhum sofreu tanto com essas práticas quanto Corlys Velaryon, Lorde das Marés, cujas frotas fizeram dele mais rico e poderoso que qualquer homem nos Sete Reinos. O Serpente do Mar estava determinado a pôr um ponto final no domínio do Triarcado sobre Passopedra, e encontrou em Daemon Targaryen um parceiro disposto, ávido pelo ouro e pela glória que a vitória na guerra lhe traria. Faltaram ao casamento do rei e montaram planos em Maré Alta, na ilha de Derivamarca. Lorde Velaryon comandaria a frota, o príncipe Daemon, o exército. Eles perderiam em número para as forças das Três Filhas... mas o príncipe também levaria à batalha seu dragão Caraxes, o Verme Sangrento, e seu fogo. Os combates começaram em 106 DD. O príncipe Daemon teve pouca dificuldade em montar um exército de aventureiros pobres e segundos filhos, e conquistou muitas vitórias durante os primeiros dois anos de conflito. Em 108 DD, quando por fim enfrentou Craghas Cria-Caranguejo, ele o matou sozinho e cortou sua cabeça com a Irmã Negra. O rei Viserys, sem dúvida contente por se livrar do irmão importuno, apoiou seus esforços com aportes regulares de dinheiro e, em 109 DD, Daemon Targaryen e seu exército de mercenários e degoladores controlavam uma das ilhas, e o Serpente do Mar adquirira firme domínio das águas entre elas. Durante esse breve momento de vitória, o príncipe Daemon declarou-se rei de Passopedra e do Mar Estreito, e lorde Corlys encaixou-lhe uma coroa na cabeça... mas seu “reino” estava longe de estar seguro. No ano seguinte, o Reino das Três Filhas despachou uma nova força invasora sob o comando de um capitão tyroshiano sorrateiro chamado Racallio Ryndoon, certamente um dos canalhas mais curiosos e excêntricos nos anais da História, e Dorne entrou na guerra em aliança com o Triarcado. As batalhas voltaram a acontecer. O rei Viserys e sua corte permaneceram imperturbáveis. “Deixe Daemon brincar de guerra”, foi o comentário atribuído a Sua Majestade. “Isso o mantém longe de problemas.” Viserys era um homem de paz e, durante esses anos em Porto Real, aconteceram séries infinitas de banquetes, bailes e torneios, em que bobos e cantores anunciavam o nascimento de cada pequeno príncipe ou princesa Targaryen. A rainha Alicent logo se mostrou tão fértil quanto bonita. Em 107 DD, deu ao rei um filho saudável, batizando-o de Aegon, como o Conquistador. Dois anos depois, deu à luz uma filha para o rei, Helaena; em 110 DD, deu à luz o segundo filho de Sua Majestade, Aemond, que diziam ter metade do tamanho do irmão mais velho mas era duas vezes mais violento. Ainda assim, a princesa Rhaenyra continuava a sentar-se aos pés do Trono de Ferro quando seu pai estava na corte, e Sua Majestade também começou a levá-la às reuniões do pequeno conselho. Embora muitos lordes e cavaleiros buscassem sua aceitação, a princesa tinha olhos apenas para Sor Criston Cole, seu jovem e galante escudeiro juramentado. “Sor Criston protege a princesa dos inimigos, mas quem protege a princesa de Sor Criston?”, perguntou certa vez a rainha Alicent na corte. A amizade entre a rainha e a enteada provou ter vida curta, pois Rhaenyra e Alicent aspiravam ao posto de primeira-dama do reino... e, embora a rainha tivesse dado ao rei não um, mas dois herdeiros homens, Viserys não fizera nada para mudar a ordem de sucessão. A Princesa de Pedra do Dragão permaneceu sua herdeira, com metade dos lordes de Westeros jurando defender seus direitos. Aqueles que indagavam “E a ordem do Grande Conselho de 101?” tinham suas palavras jogadas ao vento. A questão fora decidida, ao menos no que importava ao rei Viserys; não era uma questão que Sua Majestade fizesse questão de revisitar. De qualquer forma, as questões persistiam, principalmente vindas da própria rainha Alicent. O mais ruidoso entre seus apoiadores era seu pai, Sor Otto Hightower, a Mão do Rei. Pressionado demais sobre a questão, o rei Viserys rompeu, em 109 DD, as correntes do cargo de Sor Otto e nomeou em seu lugar o taciturno Lorde de Harrenhal, Lyonel Strong. “Esta Mão não me intimidará”, Sua Majestade proclamou. Mesmo depois de Sor Otto ter retornado a Vilavelha, um “partido da rainha” continuou ativo na corte, um grupo de lordes poderosos simpáticos à rainha Alicent e apoiadores dos direitos de seus filhos. Contra eles, havia o “partido da princesa”. O rei Viserys amava a mulher e a filha e odiava conflitos e desavenças. Esforçava-se todos os dias para manter a paz entre as mulheres e agradar as duas com presentes, ouro e honras. Enquanto viveu, governou e manteve o equilíbrio, os banquetes e torneios continuaram como antes e a paz prevaleceu em todo o reino... embora houvesse alguns, mais atentos, que observavam os dragões de um partido mordendo e cuspindo fogo nos dragões do outro partido sempre que tinham a chance de passar uns perto dos outros. Em 111 DD, um grande torneio foi realizado em Porto Real, no quinto aniversário de casamento do rei com a rainha Alicent. No banquete de abertura, a rainha usava um vestido verde, enquanto a princesa envergava dramaticamente as cores vermelha e preta de Targaryen, o que foi observado; depois disso, tornou-se costume referir-se aos “verdes” e “pretos” quando se falava do partido da rainha e do partido da princesa, respectivamente. No torneio em si, os pretos levaram a melhor quando Sor Criston Cole, defendendo a princesa Rhaenyra, derrubou dos cavalos todos os campeões da rainha, inclusive dois de seus primos e seu irmão mais novo, Sor Gwayne Hightower. Ainda assim, havia um participante que não vestia verde nem tampouco preto, mas sim dourado e prata. O príncipe Daemon havia, por fim, retornado à corte. Usando uma coroa e vestido como Rei do Mar Estreito, apareceu sem ser anunciado nos céus de Porto Real, montado em seu dragão, circulando três vezes sobre as arenas do torneio... mas, quando finalmente desceu à terra, ajoelhou-se diante do irmão e ofereceu sua coroa como símbolo de amor e lealdade. Viserys devolveu a coroa e beijou Daemon nas bochechas, dando as boasvindas ao lar, e os lordes e plebeus ergueram vivas tonitruantes, pois os filhos do príncipe Baelon Targaryen estavam reconciliados. Entre aqueles que comemoraram com mais animação estava a princesa Rhaenyra, que ficou entusiasmada com o retorno de seu tio favorito e implorou para que ele ficasse por um tempo. O príncipe Daemon permaneceu em Porto Real por meio ano, e chegou até a reassumir seu assento no pequeno conselho, mas nem a idade nem o exílio haviam mudado sua natureza. Daemon logo juntou-se aos antigos companheiros dos mantos dourados e voltou aos estabelecimentos da Rua da Seda, onde era um cliente apreciado. Mesmo tratando a rainha Alicent com toda a cortesia devida à sua posição, não havia carinho entre eles, e diziam que o príncipe era notavelmente frio com os filhos da rainha, especialmente com os sobrinhos Aegon e Aemond, cujo nascimento o deixara ainda mais abaixo na ordem de sucessão. A princesa Rhaenyra era diferente. Daemon passava longas horas na companhia dela, deixando-a fascinada com as histórias de suas jornadas e batalhas. Deu-lhe pérolas, seda e livros, e uma tiara de jade que, pelo que contavam, pertencera no passado à Imperatriz de Leng, lia poemas para ela, jantava com ela, a entretinha imitando os verdes da corte, os “lambe-botas” bajuladores da rainha Alicent e de seus filhos. Ele elogiava sua beleza, declarando que era a senhora mais linda em todos os Sete Reinos. Tio e sobrinha começaram a voar juntos quase diariamente, Syrax perseguindo Caraxes até Pedra do Dragão e vice-versa. Aqui, nossas fontes divergem. O grande meistre Runciter diz apenas que os irmãos brigaram de novo, e o príncipe Daemon partiu de Porto Real para voltar a Passopedra e suas guerras. Sobre a causa da querela ele não se pronuncia. Outros afirmam que fora por insistência da rainha Alicent que Viserys despachara Daemon. Porém o septão Eustace e Cogumelo contam outra história... ou melhor, duas histórias. Eustace, o menos lascivo dos dois, escreve que o príncipe Daemon seduziu sua sobrinha, a princesa, e tirou sua virgindade. Quando os amantes foram descobertos na cama e levados diante do rei, Rhaenyra insistiu que estava apaixonada pelo tio e implorou ao pai que deixasse que ela se casasse com ele. No entanto, o rei Viserys não quis ouvi-la e lembrou à filha que o príncipe Daemon já era casado. Em sua ira, confinou a filha em seus aposentos, ordenou ao irmão que partisse e determinou que os dois nunca falassem sobre o acontecido. A história contada por Cogumelo é muito mais depravada. De acordo com o anão, era Sor Criston Cole que a princesa desejava, não o príncipe Daemon, mas Sor Criston era um verdadeiro cavaleiro, nobre, casto e atento aos seus votos, e, embora estivesse na companhia dela dia e noite, sequer a havia beijado, nem mesmo dissera que a amava. “Quando olha para você, vê a garotinha que era, não a mulher que se tornou”, Daemon disse à sobrinha, “mas eu posso ensinar-lhe como fazê-lo vê-la como uma mulher.” Ele começou dando lições de beijos, comenta Cogumelo. Daí, o príncipe continuou para mostrar à sobrinha como melhor tocar um homem para lhe dar prazer — um exercício que às vezes envolvia o próprio Cogumelo e seu membro supostamente enorme. Daemon ensinou a garota a se despir com sedução, sugou suas tetas para deixá-las mais sensíveis e voou com ela nas costas do dragão até rochedos desertos na Baía da Água Negra, onde podiam divertir-se nus sem serem observados e a princesa podia praticar a arte de dar prazer a um homem com a boca. À noite, ele a tirava dos aposentos vestida como pajem e a levava aos bordéis na Rua da Seda, onde a princesa podia observar homens e mulheres no ato de amor e aprender as “artes femininas” com as meretrizes de Porto Real. Por quanto tempo essas lições continuaram, Cogumelo não diz, mas, divergindo do septão Eustace, ele insiste que a princesa Rhaenyra permaneceu virgem, pois desejava preservar sua inocência como um presente ao amado. Mas quando, por fim, ela se aproximou de seu “cavaleiro branco”, usando tudo o que aprendera, Sor Criston ficou horrorizado e a rejeitou. É óbvio que a história toda veio à tona, em grande parte graças ao próprio Cogumelo. O rei Viserys, num primeiro momento, recusou-se a acreditar no boato, até que o próprio príncipe Daemon confirmou que a história era verdade. “Entregue a garota para que eu a despose”, aparentemente ele disse ao irmão. “Quem mais a aceitaria agora?” Em vez disso, o rei Viserys mandou-o para o exílio para nunca retornar aos Sete Reinos, sob pena de morte. (Lorde Strong, a Mão do Rei, argumentou que o príncipe deveria ser executado imediatamente como traidor, mas o septão Eustace fez ver a Sua Majestade que ninguém é mais amaldiçoado do que aquele que comete assassinato de parentes.) Das consequências, os fatos seguintes são certos: Daemon Targaryen voltou a Passopedra e retomou a luta por aquelas rochas inférteis varridas por tempestades. O grande meistre Runciter e Sor Harrold Westerling, Lorde Comandante da Guarda Real, morreram em 112 DD. Sor Criston Cole foi nomeado Lorde Comandante da Guarda Real no lugar de Sor Harrold, e os arquimeistres da Cidadela enviaram o meistre Mellos para a Fortaleza Vermelha para assumir a corrente e as obrigações de grande meistre. No mais, Porto Real voltou à sua tranquilidade costumeira por quase dois anos... até 113 DD, quando a princesa Rhaenyra fez 16 anos, tomou posse da Pedra do Dragão como sua residência e casou-se. Muito antes de qualquer homem ter tido motivo para duvidar de sua inocência, a questão da escolha de um consorte adequado para Rhaenyra foi uma preocupação para o rei Viserys e seu conselho. Grandes lordes e cavaleiros ousados voejavam ao redor dela como mariposas ao redor de uma chama, rivalizando por seus favores. Quando Rhaenyra visitou o Tridente, em 112, os filhos de lorde Bracken e de lorde Blackwood travaram um duelo por ela, e um filho mais jovem da Casa Frey ousou pedir abertamente sua mão (Tolo Frey, ele foi chamado posteriormente). No ocidente, Sor Jason Lannister e seu gêmeo, Sor Tyland, competiram por ela durante um banquete no Rochedo Casterly. Os filhos de Lorde Tully de Correrrio, Lorde Tyrel de Jardim de Cima, Lorde Oakheart de Carvalho Velho e Lorde Tarly de Monte do Chifre fizeram a corte à princesa, como fez o filho mais velho da Mão, Sor Harwin Strong. Quebra-Ossos, como era chamado, era herdeiro de Harrenhal e diziam que era o homem mais forte dos Sete Reinos. Viserys chegou ao ponto de prometer Rhaenyra em casamento ao Príncipe de Dorne, como maneira de trazer os dorneses ao reino. A rainha Alicent tinha seu candidato: seu filho mais velho, príncipe Aegon, o meio-irmão de Rhaenyra. Mas Aegon era um garoto, a princesa era dez anos mais velha. Além disso, os dois meios-irmãos nunca se deram bem. “Mais um motivo para uni-los em casamento”, a rainha argumentava. Viserys não concordava. “O garoto é do sangue de Alicent”, disse ele a lorde Strong. “Ela o quer no trono.” A melhor escolha, o rei e o pequeno conselho finalmente concordaram, seria o primo de Rhaenyra, Laenor Velaryon. Embora o Grande Conselho de 101 tivesse votado contra, o garoto Velaryon ainda era neto do príncipe Aemond Targaryen, de lembrança santificada, e bisneto do Velho Rei, com sangue de dragão nos dois lados de sua linhagem. Essa combinação uniria e fortaleceria a linhagem real e recobraria para o Trono de Ferro a amizade do Serpente do Mar, junto com sua frota poderosa. Uma objeção foi levantada: Laenor Velaryon estava com 19 anos ainda e nunca mostrara interesse por mulheres. Em vez disso, ele se cercava de belos acompanhantes da sua idade e, ao que constava, preferia sua companhia. No entanto, o grande meistre Mellos dispensou essa preocupação peremptoriamente. “E daí?”, ele supostamente disse. “Não gosto muito de peixe, mas, quando servem peixe, eu como.” Assim, o arranjo foi decidido. No entanto, o rei e o conselho deixaram de consultar a princesa, e Rhaenyra provou ser mesmo filha de seu pai, com uma ideia muito própria de quem ela desejava desposar. A princesa sabia muito mais sobre Laenor Velaryon e não desejava ser sua noiva. “Meus meiosirmãos seriam mais do gosto dele”, ela disse ao rei (e a princesa sempre tomava o cuidado de referir-se aos filhos da rainha Alicent como meios-irmãos, nunca como irmãos). E, apesar de Sua Majestade tê-la chamado à razão, implorado, gritado com ela, e tê-la chamado de filha ingrata, nenhuma palavra dele pôde demovê-la... até que o rei trouxe à tona a questão da sucessão. O rei fazia, o rei podia desfazer, Viserys enfatizou. Ela se casaria conforme suas ordens ou ele faria seu meio-irmão Aegon seu sucessor no lugar dela. Nesse ponto, a obstinação da princesa cedeu. O septão Eustace diz que ela caiu de joelhos aos pés do pai e implorou perdão; Cogumelo, que ela cuspiu no rosto do pai. Os dois concordam que, no fim, ela consentiu em se casar. E aqui novamente nossas fontes divergem. Naquela noite, segundo relata o Septão Eustace, Sor Criston Cole esgueirou-se para dentro dos aposentos da princesa para confessar seu amor por ela. Disse a Rhaenyra que tinha um navio esperando na baía e implorou para que ela fugisse com ele através do Mar Estreito. Eles se casariam em Pentos ou Tyrosh, na Velha Volantis, onde a ordem do pai não valia, e ninguém se importaria que ele tivesse traído seus votos como membro da Guarda Real. Sua perícia com a espada Estrela da Manhã era tal que ele não duvidava que poderiam encontrar algum príncipe-mercador que contratasse seus serviços. Porém Rhaenyra recusou-o. A moça tinha sangue de dragão, ela relembrou, e aquilo significava mais do que viver a vida como mulher de um mercenário comum. E, se ele podia deixar de lado os votos da Guarda Real, por que os votos de casamento significariam alguma coisa? Cogumelo conta uma história bem diferente. Na sua versão, foi a princesa Rhaenyra que procurou Sor Criston, não ele a ela. Ela o encontrou sozinho na Torre da Espada Branca, trancou a porta e deixou cair a capa para revelar sua nudez por baixo dela. “Guardei minha virgindade para você”, ela lhe disse. “Receba-a agora como prova do meu amor. Pouco significará para meu noivo e, talvez, se descobrir que não sou casta, ele me recuse.” Ainda assim, mesmo com toda sua beleza, suas súplicas caíram em ouvido mouco, pois Sor Criston era um homem honrado e fiel a seus votos. Desdenhada e furibunda, a princesa abotoou a capa e saiu noite afora... encontrando por acaso Sor Harwin Strong, que voltava de uma noite de celebração nos prostíbulos da cidade. Quebra-Ossos havia muito desejava a princesa e não tinha os escrúpulos de Sor Criston. Portanto, fora ele quem roubara a inocência de Rhaenyra, derramando o sangue da virgindade com sua espada de virilidade... de acordo com Cogumelo, que alega tê-los flagrado na cama ao raiar do dia. Seja lá o que tiver acontecido, daquele dia em diante o amor que Sor Criston Cole nutria por Rhaenyra Targaryen transformou-se em ódio, e o homem que até então fora a companhia constante e o campeão da princesa tornou-se o mais cruel de seus inimigos. Não muito tempo depois, Rhaenyra içou velas para a Derivamarca, acompanhada por suas damas de companhia (duas delas filhas da Mão e irmãs de Sor Harwin), pelo bobo Cogumelo e seu novo campeão, o Quebra-Ossos. Em 114 DD, Rhaenyra Targaryen, Princesa de Pedra do Dragão, foi desposada por Sor Laenor Velaryon (feito cavaleiro uma quinzena antes do casamento, pois era necessário que o príncipe consorte fosse cavaleiro). A noiva tinha 17, o noivo 20, e todos concordaram que formavam um belo casal. O matrimônio foi celebrado com sete dias de banquetes e torneios. Entre os presentes estavam os filhos de rainha Alicent, cinco Irmãos Juramentados da Guarda Real, Quebra-Ossos e o favorito do noivo, Sor Joffrey Lonmouth, conhecido como Cavaleiro dos Beijos. Quando Rhaenyra concedeu sua cinta-liga a Sor Harwin, seu marido gargalhou e deu uma das suas a Sor Joffrey. Sor Criston Cole, por sua vez, dedicou-se à rainha Alicent. Sua Majestade ficou contente em lhe conceder seus favores. Vestindo o símbolo da rainha, o jovem Lorde Comandante da Guarda Real derrotou todos os desafiantes, lutando com uma fúria terrível. Ele deixou Quebra-Ossos com uma clavícula quebrada e um cotovelo estilhaçado (fazendo com que Cogumelo o batizasse de Ossos-Quebrados depois disso), mas foi o Cavaleiro dos Beijos que sentiu a extensão completa de sua ira. A arma favorita de Cole era a Estrela da Manhã, e os golpes com os quais cobriu o campeão de Sor Laenor romperam seu elmo e deixaram-no desacordado na lama. Carregado do campo ensopado de sangue, Sor Joffrey morreu sem recobrar a consciência seis dias depois. Cogumelo nos conta que Sor Laenor passou cada hora desses dias à beira do leito do outro e chorou copiosamente quando este faleceu. Foi o rei Viserys quem ficou mais furioso; uma celebração alegre transformara-se numa ocasião de dor e recriminação. No entanto, disseram que a rainha Alicent não compartilhava desse desagrado; logo depois, ela pediu que Sor Criston Cole fosse nomeado seu protetor pessoal. A frieza entre a mulher e a filha do rei era óbvia para qualquer um; mesmo os enviados das Cidades Livres fizeram observações desse fato em cartas enviadas a Pentos, Braavos e à Velha Volantis. Depois disso, Sor Laenor voltou à Derivamarca, deixando em muitos a dúvida sobre se o casamento fora de fato consumado. A princesa permaneceu na corte, cercada por amigos e admiradores. Sor Criston Cole não estava entre eles, tendo se bandeado totalmente para o partido da rainha, os verdes, mas o temível Quebra-Ossos (ou Ossos-Quebrados, como dizia Cogumelo) preencheu sua vaga, tornando-se o principal dos pretos, sempre ao lado de Rhaenyra em banquetes, bailes e caçadas. O marido não fazia objeção. Sor Laenor preferia os confortos de Maré Alta, onde logo encontrou um novo favorito, um conhecido cavaleiro chamado Sor Qarl Correy. Depois disso, embora se unisse à mulher para eventos importantes da corte nos quais sua presença era esperada, Sor Laenor passava a maior parte dos dias longe da princesa. O septão Eustace diz que dividiram a cama não mais que uma dúzia de vezes. Cogumelo concorda, mas adiciona que Qarl Correy não raro compartilhava aquela cama também. Ele nos conta que a princesa assistia aos homens se divertirem e, às vezes, os dois a incluíam em seus prazeres. Ainda assim, Cogumelo se contradiz, pois em outras passagens alega que a princesa deixava o marido com o amante nessas noites e buscava conforto nos braços de Harwin Strong. Seja lá qual for a verdade dessas histórias, logo se anunciou que a princesa estava grávida. Nascido nos últimos dias de 114 DD, o garoto era um rapagão grande, robusto, com cabelos castanhos, olhos castanhos e nariz achatado (Sor Laenor tinha nariz aquilino, cabelos louros platinados e olhos púrpura que atestavam seu sangue valiriano). O desejo de Laenor de dar ao filho o nome de Joffrey foi vetado por seu pai, lorde Corlys. Em vez disso, a criança recebeu um nome tradicional da Casa Velaryon: Jacaerys (amigos e irmãos o chamariam de Jace). A corte ainda comemorava o nascimento do filho da princesa quando sua madrasta, a rainha Alicent, também entrou em trabalho de parto, dando à luz o terceiro filho de Viserys, Daeron... cujas cores, diferentes das de Jace, confirmavam seu sangue de dragão. Por ordem real, os infantes Jacaerys Velaryon e Daeron Targaryen dividiram a ama de leite até o desmame. Diziam que o rei esperava impedir qualquer inimizade entre os dois garotos ao criá-los como irmãos de leite. Neste caso, suas esperanças mostraram-se tristemente vãs. Um ano depois, em 115 DD, houve um contratempo trágico, daqueles que moldam o destino dos reinos: a “puta de bronze” de Pedrarruna, Senhora Rhea Royce, caiu do cavalo enquanto caçava com falcão e bateu com o crânio numa pedra. Demorou nove dias antes de finalmente sentir-se bem o bastante para deixar a cama... apenas para despencar e falecer uma hora depois de se levantar. Um corvo foi devidamente enviado à Ponta da Tempestade, e lorde Baratheon despachou um mensageiro de barco para Pedrassangrenta, onde o príncipe Daemon ainda lutava para defender seu reino esquálido contra os homens do Triarcado e seus aliados dorneses. Daemon logo voou para o Vale. “Para dar descanso a minha mulher”, ele disse, embora provavelmente fosse na esperança de reivindicar suas terras, seus castelos e rendimentos. Falhou nessa empresa; Pedrarruna passara para as mãos do sobrinho da Senhora Rhea e, quando Daemon fez um apelo ao Ninho da Águia, não apenas sua reivindicação foi negada, mas a Senhora Jeyne alertou-o de que sua presença no Vale não era bem-vinda. Na sequência, ao voar de volta a Passopedra, o príncipe Daemon pousou na Derivamarca para uma visita de cortesia ao seu parceiro de outrora nas conquistas, o Serpente do Mar, e à princesa Rhaenys. Maré Alta era um dos poucos lugares nos Sete Reinos onde o irmão do rei podia confiar que não seria rejeitado. Lá, seus olhos pousaram sobre a filha de lorde Corlys, Laena, uma donzela de 22 anos, alta, esguia e extremamente adorável (mesmo Cogumelo foi arrebatado por sua beleza, escrevendo que “era ainda mais bela que seu irmão”), com uma grande cabeleira de cachos de um dourado prateado que caía até abaixo da cintura. Laena era prometida desde os 12 anos a um dos filhos do lorde dos mares de Braavos... mas o pai morrera antes que eles pudessem se casar e o filho logo se mostrou perdulário e tolo, desperdiçando a riqueza e a força de sua família antes de chegar à Derivamarca. Por falta de meios polidos para livrar-se do embaraço, mas sem disposição de realizar o matrimônio, lorde Corlys postergava repetidamente a união. O príncipe Daemon apaixonou-se por Laena, os trovadores teriam nos feito acreditar. Homens com tendências mais céticas creem que o príncipe viu nela uma maneira de fundar a própria dinastia. No passado visto como herdeiro do irmão, descera demais na linha de sucessão, e nem os verdes, tampouco os pretos tinham lugar para ele... mas a Casa Velaryon era poderosa o bastante para desafiar os dois partidos sem sofrer retaliações. Cansado de Passopedra e finalmente livre de sua “puta de bronze”, Daemon Targaryen pediu a lorde Corlys a mão de sua filha em casamento. O braavosi exilado continuava sendo um impedimento, mas não por muito tempo; Daemon zombou do homem de forma tão grosseira que o rapaz não teve escolha senão desafiá-lo a defender suas palavras com aço. Armado com a Irmã Negra, o príncipe liquidou rapidamente seu rival e casou-se com a Senhora Laena Velaryon quinze dias depois, abandonando seu reino miserável em Passopedra. (Cinco outros homens seguiram-no como reis do Mar Estreito, até a breve e sangrenta história daquele bárbaro “reino” de mercenários terminar de uma vez por todas.) O príncipe Daemon sabia que seu irmão não ficaria contente quando tivesse notícias de seu novo casamento. Prudente, o príncipe e sua nova mulher partiram para longe de Westeros logo após o casamento, cruzando o Mar Estreito em seus dragões. Alguns disseram que voaram para Valíria, desafiando a maldição que pairava sobre aquela terra desolada e fumegante para procurar os segredos dos lordes dos dragões da antiga Cidade Franca. A verdade era menos romântica. O príncipe Daemon e a Senhora Laena voaram primeiro para Pentos, onde foram recebidos com festa pelo príncipe da cidade. Os pentosianos temiam o poder crescente do Triarcado ao sul e viram em Daemon um aliado valioso contra as Três Filhas. De lá, o príncipe e sua mulher partiram para a Velha Volantis, onde receberam uma recepção calorosa semelhante. Então voaram até Rhoyne, e depois para Qohor e Norvos. Nessas cidades, bem distantes dos infortúnios de Westeros e do poder do Triarcado, sua recepção foi menos entusiástica. No entanto, em todos os lugares a que chegavam, multidões imensas apareciam para ver Vhagar e Caraxes. Os cavaleiros de dragões voltaram a Pentos, onde a Senhora Laena soube que estava esperando um filho. Evitando mais fugas, o príncipe Daemon e sua mulher estabeleceram-se numa casa fora das muralhas da cidade, como convidados de um magíster pentosiano, até a época do nascimento do bebê. Enquanto isso, de volta a Westeros, a princesa Rhaenyra dera à luz o segundo filho no fim do ano de 115 DD. A criança recebeu o nome de Lucerys (chamado de Luke). O septão Eustace nos conta que Sor Laenor e Sor Harwin ficaram ao lado do leito de Rhaenyra para o nascimento. Como seu irmão Jace, Luke tinha olhos e cabelos castanhos num rosto saudável, em vez dos cabelos louros platinados dos príncipes Targaryen, e era um rapaz grande e vigoroso. O rei Viserys ficou encantado com ele quando a criança foi apresentada à corte. Esses sentimentos não eram partilhados pela rainha. “Continue tentando”, a rainha Alicent disse a Sor Laenor. “Talvez você consiga, cedo ou tarde, que um pareça com você.” E a rivalidade entre verdes e pretos ficou ainda maior, chegando finalmente ao ponto em que a rainha e a princesa mal conseguiam suportar a presença uma da outra. Depois disso, a rainha Alicent se mantinha na Fortaleza Vermelha ou em Porto Real, enquanto a princesa passava seus dias em Pedra do Dragão com seu campeão, Sor Harwin Strong. Dizem que seu marido, Sor Laenor, a visitava “com frequência”. Em 116 DD, na Cidade Livre de Pentos, a Senhora Laena deu à luz filhas gêmeas, os primeiros rebentos legítimos de Daemon Targaryen. O príncipe batizou as garotas de Baela (em homenagem a seu pai) e Rhaena (em homenagem à mãe da mulher). Quando tinham seis meses de idade, as garotas partiram de barco junto com a mãe para a Derivamarca, enquanto Daemon seguiu voando com os dois dragões. De Maré Alta ele enviou um corvo para Porto Real, informando ao rei o nascimento das sobrinhas e implorando para que ele o deixasse apresentá-las à corte para receber as bênçãos reais. Embora a Mão e o conselho tenham se oposto fervorosamente, Viserys consentiu, pois o rei ainda amava o irmão, que fora sua companhia na juventude. “Daemon é pai agora”, ele falou ao grande meistre Mellos. “Ele deve ter mudado.” Assim, os filhos de Baelon Targaryen reconciliaram-se pela segunda vez. Em 117 DD, em Pedra do Dragão, a princesa Rhaenyra pariu mais um filho. Por fim, Sor Laenor foi autorizado a batizar um filho com o nome do amigo falecido, Sor Joffrey Lonmouth. Joffrey Velaryon era grande e tinha o rosto corado e saudável dos irmãos e, como eles, cabelos e olhos castanhos, além de feições que alguns na corte chamaram de comuns. Novamente começaram os boatos. Entre os verdes, era ponto pacífico que o pai dos filhos de Rhaenyra não era seu marido, Laenor, mas seu campeão, Harwin Strong. Qual fosse a verdade dessas alegações, nunca houve dúvida de que o rei Viserys ainda queria sua filha em seu lugar no Trono de Ferro, e seus filhos sucedessem a ela. Por decreto real, cada um dos garotos Velaryon foi presenteado com um ovo de dragão enquanto estava no berço. Aqueles que duvidavam da paternidade dos filhos de Rhaenyra sussurravam que os ovos nunca chocariam, mas o nascimento de três jovens dragões deu fim a essa conversa. Os dragões foram chamados Vermax, Arrax e Tyraxes. E o septão Eustace nos diz que Sua Majestade sentou Jace em seu colo no Trono de Ferro diante da corte e ouviram-no dizer: “Um dia este será seu trono, rapaz”. Parir cobrou seu preço da princesa; Rhaenyra nunca perdeu o peso que ganhara durante as gravidezes e, quando o filho mais novo nasceu, ela havia ficado corpulenta, de cintura crescida, a beleza de sua meninice uma lembrança esmaecida, embora tivesse pouco mais de vinte anos. De acordo com Cogumelo, isso apenas serviu para agravar o ressentimento que Rhaenyra sentia pela madrasta, a rainha Alicent, que continuava esguia e graciosa com quase o dobro de sua idade. Os pecados dos pais não raro são visitados pelos filhos, dizem os sábios; e assim também os pecados das mães. A inimizade entre a rainha Alicent e a princesa Rhaenyra foi transmitida aos filhos, e os três rapazes da rainha, príncipes Aegon, Aemond e Daeron, cresceram para ser rivais encarniçados dos sobrinhos Velaryon, ressentidos deles por terem roubado o que lhes era de direito ao nascer: o Trono de Ferro. Apesar de todos os seis garotos comparecerem aos mesmos banquetes, bailes e festividades, e às vezes treinarem juntos no pátio com o mesmo mestre de armas e estudarem juntos com os mesmos meistres, essa proximidade forçada apenas serviu para alimentar a antipatia mútua em vez de aproximá-los como irmãos. Ao passo que a princesa Rhaenyra detestava sua madrasta, a rainha Alicent, ela apegou-se cada vez mais e mais à sua tia, a Senhora Laena. Com Derivamarca e Pedra do Dragão tão próximas, Daemon e Laena visitavam a princesa com frequência, e Syrax, a dragão da princesa, botou muitos ovos. Em 118 DD, com a bênção do rei Viserys, Rhaenyra anunciou o noivado de seus dois filhos mais velhos com as filhas do príncipe Daemon e de Senhora Laena. Jacaerys tinha 4 e Lucerys tinha 3; as garotas, 2. E, em 119 DD, quando Laena descobriu que estava grávida novamente, Rhaenyra voou para a Derivamarca para ajudá-la durante o parto. E foi assim que a princesa estava ao lado de sua tia no terceiro dia daquele ano amaldiçoado de 120 DD, o Ano da Primavera Vermelha. Um dia e uma noite de trabalho de parto deixaram Laena Velaryon pálida e fraca, mas por fim ela deu à luz o filho tão desejado do príncipe Daemon, porém o bebê nasceu deformado e morreu uma hora depois. Nem a mãe sobreviveu muito a ele. O parto cansativo drenara todas as forças dela e a tristeza a enfraqueceu ainda mais, deixando-a indefesa antes do início da febre puerperal. Como sua situação piorava a olhos vistos, apesar dos melhores esforços do jovem meistre da Derivamarca, o príncipe Daemon voou para Pedra do Dragão e trouxe o meistre da princesa Rhaenyra, um homem mais velho e mais experiente, renomado por sua capacidade como curandeiro. Infelizmente, o meistre Gerardys chegou tarde demais. Após três dias de delírio, a Senhora Laena entregou-se à desdita. Tinha 27 anos. Dizem que, durante a hora final, levantou-se da cama e saiu dos aposentos na intenção de chegar a Vhagar para que pudesse voar uma última vez antes de morrer. Contudo, suas forças falharam nos degraus da torre, e de lá ela despencou e morreu. O marido, príncipe Daemon, carregou-a de volta para a cama. Depois disso, a princesa Rhaenyra se pôs em vigília com ele junto ao cadáver e confortou-o em sua dor. Essa morte foi a primeira tragédia de 120 DD, mas não seria a última. Pois esse devia ser o ano em que muitas das tensões e dos ciúmes que se aqueciam e assolavam havia muito os Sete Reinos finalmente ferveriam, um ano em que muitos e mais ainda teriam motivos para chorar, sofrer e rasgar as vestes... embora nenhum mais que o Serpente do Mar, lorde Corlys Velaryon, e sua nobre mulher, a princesa Rhaenys, que poderia ter sido rainha. O Lorde das Marés e sua senhora ainda estava enlutados pela morte de sua amada filha quando a Impiedosa voltou e carregou seu filho. Sor Laenor Velaryon, marido da princesa Rhaenyra e suposto pai de seus filhos, foi assassinado enquanto visitava uma feira na Vila das Especiarias, apunhalado até a morte por seu amigo e companheiro Sor Qarl Correy. Os dois homens brigaram com alarde antes de as lâminas serem sacadas, mercadores da feira disseram a lorde Velaryon quando este chegou para recolher o corpo do filho. Correy fugiu, ferindo vários homens que tentaram impedi-lo. Alguns comentaram que um navio estava à sua espera na costa. Nunca mais foi visto. As circunstâncias do assassinato permanecem um mistério até hoje. O grande meistre Mellos escreve apenas que Sor Laenor foi morto por um de seus conhecidos cavaleiros após uma briga. O septão Eustace nos fornece o nome do assassino e declara que ciúme foi o motivo do homicídio: Laenor Velaryon havia se cansado da companhia de Qarl e enamorou-se de um novo favorito, um jovem e belo acompanhante de 1,85 metro. Cogumelo, como sempre, entrega a teoria mais sinistra, sugerindo que o príncipe Daemon pagou a Qarl Correy para livrar-se do marido da princesa Rhaenyra, providenciou o navio para levá-lo embora, em seguida cortou sua garganta e jogou-o no mar. Um cavaleiro famoso, relativamente jovem, Correy era conhecido por ter gostos de lorde e posses de camponês e, além disso, era dado a apostas extravagantes, o que empresta certa credibilidade à versão do bobo. Ainda assim, não existe nem existiu a mínima prova, nem na época nem atualmente, embora o Serpente do Mar tivesse oferecido um prêmio de dez mil dragões de ouro para qualquer homem que pudesse levá-lo a Sor Qarl Correy ou entregar o homicida à vingança do pai da vítima. E esse não é o fim das tragédias que marcariam aquele ano terrível. A próxima ocorreu em Maré Alta, após o funeral de Sor Laenor, quando o rei e a corte faziam a jornada à Derivamarca para a pira funerária, muitos nas costas de dragões. (Tantos eram os dragões presentes que o septão Eustace escreveu que Derivamarca havia se transformado na nova Valíria.) A crueldade das crianças é conhecida por todos. O príncipe Aegon Targaryen estava com treze anos, a princesa Helaena com doze, o príncipe Aemond com dez e o príncipe Daeron com seis. Aegon e Helaena montavam dragões. Helaena voava em Dreamfyre, a dragão que antes carregava Rhaena, a “noiva negra” de Maegor, o Cruel, enquanto diziam que Sunfyre, o dragão de seu irmão Aegon, era o dragão mais bonito de que se tinha notícia na terra. Mesmo o príncipe Daeron tinha uma dragão linda, azul, chamada Tessarion, embora ele ainda não voasse nela. Apenas o filho do meio, príncipe Aemond, permanecia sem dragão, mas Sua Majestade tinha esperanças de retificar esse fato, e apresentou a opinião de que, talvez, a corte pudesse passar uma temporada em Pedra do Dragão após os funerais. Era possível encontrar uma porção de ovos embaixo do Monte do Dragão, e vários recém-chocados também. O príncipe Aemond poderia escolher, “se o rapaz for ousado o bastante”. Mesmo tendo dez anos, não faltava ousadia a Aemond Targaryen. A expressão de escárnio do rei doeu, e ele decidiu não esperar pela Pedra do Dragão. O que ele quereria com um recém-chocado miúdo ou um ovo estúpido? Bem ali, em Maré Alta, estava um dragão digno dele: Vhagar, a mais velha, a maior, a mais terrível dragão do mundo. Mesmo para um filho da Casa Targaryen, sempre havia perigo em se aproximar de um dragão estranho, especialmente um dragão velho e mal-humorado que havia perdido recentemente seu dono. O pai e a mãe nunca deixariam que ele se aproximasse de Vhagar, Aemond sabia. Então ele cuidou para que eles não soubessem, deslizando da cama de madrugada enquanto ainda dormiam e se esgueirando até o grande pátio externo, onde Vhagar e os outros dragões eram alimentados e abrigados. O príncipe esperava montar Vhagar em segredo, mas, quando rastejou para cima do dragão, a voz de outro rapaz soou: “Fique longe dela!” A voz era do mais jovem de seus sobrinhos, Joffrey Velaryon, um garoto de três anos. Um cavaleiro precoce, Joff se esgueirou para fora da cama para ver seu jovem dragão, Tyraxes. Com medo de que o menino chamasse a atenção, o príncipe Aemond lhe deu um tapa, gritou para que ele ficasse quieto e empurrou-o para trás de uma pilha de esterco de dragão. Quando Joff começou a berrar, Aemond correu até Vhagar e montou nas costas dela. Mais tarde diria que ficou com tanto medo de ser flagrado que esqueceu o medo de ser queimado até a morte e comido. Chamemos de ousadia, de loucura, chamemos de sorte, vontade dos deuses ou capricho dos dragões. Quem pode saber o que vai na mente de uma fera como essa? Sabemos apenas o seguinte: Vhagar rugiu, sacudiu-se para se erguer, balançou-se violentamente, em seguida rompeu as correntes e voou. E o jovem príncipe Aemond Targaryen tornou-se um cavaleiro de dragões, voando em círculo duas vezes ao redor das torres de Maré Alta antes de pousar. No entanto, quando pousou, os filhos de Rhaenyra estavam à sua espera. Joffrey correu até os irmãos quando Aemond ganhou o céu, e Jace e Luke vieram acudir ao seu chamado. Os príncipes Velaryon eram mais novos — Jace estava com seis, Luke cinco, Joff três —, mas eram três e se armaram com espadas de madeira do pátio de treinamento. Atacaram o primo com fúria. Aemond revidou, quebrando o nariz de Luke com um soco, em seguida arrancou a espada das mãos de Joff e quebrou-a na nuca de Jace, deixando-o de joelhos. Quando os garotos mais novos se afastaram dele cambaleando, ensanguentados e feridos, o príncipe começou a zombar deles, chamando-os de Strong. Jace já tinha idade suficiente para entender o insulto. Ele voou sobre Aemond novamente, mas o mais velho começou a espancá-lo com selvageria... até Luke, vindo em auxílio do irmão, sacar uma adaga e golpear o rosto de Aemond, arrancando-lhe o olho direito. Quando os cavalariços chegaram para separar os briguentos, o príncipe se retorcia no chão, uivando de dor, e Vhagar também estava rugindo. Depois do acontecido, o rei Viserys tentou selar a paz, exigindo que cada um dos garotos apresentasse um pedido formal de desculpas aos rivais do outro lado, mas essas cortesias não apaziguaram as mães. A rainha Alicent exigiu que um dos olhos de Lucerys fosse arrancado pelo olho que custara a Aemond. Rhaenyra não aceitou nada disso, mas insistiu que o príncipe Aemond fosse questionado “severamente” até revelar onde ouvira seus filhos serem chamados de “Strong”. Chamá-los assim, claro, era equivalente a dizer que eram bastardos, sem direitos de sucessão... e que ela mesma seria culpada de alta traição. Quando pressionado pelo rei, Aemond disse que seu irmão Aegon lhe dissera que os garotos eram Strong, e o príncipe Aegon disse apenas: “Todo mundo sabe. É só olhar para eles.” O rei Viserys finalmente pôs fim à discussão, declarando que não aceitaria ouvir mais nada daquilo. Nenhum olho seria arrancado, ele decretou... mas ninguém — “homem, mulher ou criança, nobre, plebeu ou realeza” — deveria novamente zombar dos netos como se fossem “Strong”, sob pena de a língua ser arrancada com pinças quentes. Sua Majestade ordenou ainda que sua mulher e sua filha trocassem beijos e votos de amor e afeição, mas os falsos sorrisos e as palavras vazias enganaram apenas o rei, ninguém mais. Quanto aos garotos, o príncipe Aemond disse mais tarde que perdera um olho e ganhara um dragão naquele dia, e acreditava ser aquela uma troca justa. Para impedir mais conflitos e colocar um ponto final nesses “rumores vis e calúnias baixas”, o rei Viserys decretou ainda que a rainha Alicent e seus filhos voltariam com ele para a corte, enquanto a princesa Rhaenyra ficaria confinada com os filhos na Pedra do Dragão. Dali em diante, Sor Erryk Cargyll, da Guarda Real, serviria como escudeiro juramentado, enquanto Quebra-Ossos retornaria para Harrenhal. Essas ordens não agradaram ninguém, escreve o septão Eustace. Cogumelo contesta: um homem ao menos estava empolgado com os decretos, pois Pedra do Dragão e Derivamarca ficavam bem próximas uma da outra e essa proximidade traria a Daemon Targaryen uma grande oportunidade de confortar a sobrinha, a princesa Rhaenyra, sem que o rei soubesse. Embora Viserys ainda fosse reinar por mais nove anos, as sementes sangrentas da Dança dos Dragões já haviam sido plantadas, e 120 DD foi o ano em que começaram a brotar. Os próximos a perecer foram os mais velhos dos Strong. Lyonel Strong, Lorde de Harrenhal e Mão do Rei, acompanhou seu filho e herdeiro, Sor Harwin em seu retorno ao grande castelo semiarruinado às margens do lago. Logo após sua chegada, um incêndio irrompeu na torre onde estavam dormindo e pai e filho morreram, junto com três de seus acompanhantes e uma dúzia de serviçais. A causa do incêndio nunca foi descoberta. Alguns a atribuem a um simples infortúnio, enquanto outros murmuram que aquele posto de Harren, o Negro, estava amaldiçoado e traria apenas desgraça a qualquer homem que o ocupasse. Muitos suspeitaram que as chamas foram ateadas intencionalmente. Cogumelo insinua que o Serpente do Mar estava por trás disso, como ato de vingança contra o homem que traíra seu filho. O septão Eustace, numa hipótese mais plausível, suspeita do príncipe Daemon, que teria assim derrubado um rival nas afeições da princesa Rhaenyra. Outros alimentaram a ideia de que Larys Pé-Torto teria sido o responsável: com o pai e o irmão mais velho mortos, Larys Strong se tornaria o Lorde de Harrenhal. A possibilidade mais perturbadora foi apresentada por ninguém menos que o grande meistre Mellos, que pondera que o próprio rei teria dado a ordem. Se Viserys tivesse aceitado que os rumores sobre a paternidade dos filhos de Rhaenyra eram verdadeiros, poderia ter querido derrubar o homem que desonrara sua filha, temendo que ele revelasse a ilegitimidade de seus filhos. Se assim fosse, a morte de Lyonel Strong foi um acidente infeliz, pois a decisão do lorde de acompanhar seu filho de volta a Harrenhal não fora prevista. Lorde Strong era a Mão do Rei, e Viserys confiava em sua força e seus conselhos. Sua Majestade chegara à idade de 43 anos, e havia ficado bastante corpulento. Não tinha mais o vigor da juventude e sofria de gota, juntas doloridas, dores nas costas e um peso no peito que ia e voltava, deixando-o não raro com o rosto enrubescido e o fôlego curto. A liderança do reino era uma tarefa acachapante; o rei precisava de qualquer Mão forte e capaz para suportar alguns de seus fardos. Por um momento, considerou trazer a princesa Rhaenyra. Quem melhor para governar com ele do que a filha que desejava como sua sucessora no Trono de Ferro? Mas isso significaria trazer a princesa e seus filhos de volta a Porto Real, onde mais conflitos com a rainha e seus próprios rebentos seriam inevitáveis. Ele considerou o irmão também, até se lembrar da passagem anterior do príncipe Daemon no pequeno conselho. O grande meistre Mellos sugeriu trazer algum homem mais jovem e apresentou vários nomes, mas Sua Majestade optou pela familiaridade e chamou de volta à corte Sor Otto Hightower, o pai da rainha, que outrora ocupara o cargo tanto sob Viserys quanto sob o Velho Rei. Ainda assim, mal Sor Otto chegara à Fortaleza Vermelha para assumir o posto de Mão, receberam na corte a notícia de que a princesa Rhaenyra havia se casado novamente, tomando como marido seu tio, Daemon Targaryen. A princesa estava com 23 anos, o príncipe Daemon com 39. Rei, corte e plebeus ficaram todos indignados com as notícias. Não havia nem meio ano que a mulher de Daemon e o marido de Rhaenyra haviam falecido. “Casar-se de novo tão cedo era um insulto às lembranças”, Sua Majestade declarou em fúria. O casamento fora realizado na Pedra do Dragão, repentina e secretamente. O septão Eustace comenta que Rhaenyra sabia que o pai nunca aprovaria o matrimônio, então se casou às pressas para que ele não pudesse impedir o casamento. Cogumelo nos dá um motivo diferente: a princesa estava grávida novamente, e não desejava dar à luz um bastardo. E, portanto, aquele terrível ano de 120 DD terminou como começara, com uma mulher em trabalho de parto. A gravidez da princesa Rhaenyra teve um resultado mais feliz que a da Senhora Laena. Quando o ano terminou, ela pariu um filho pequeno, porém robusto, um principezinho pálido com olhos púrpura e cabelo platinado. Deu-lhe o nome de Aegon. O Príncipe Daemon teve por fim um filho vivo de seu próprio sangue... e esse novo príncipe, diferentemente de seus três meios-irmãos, era um Targaryen legítimo. Em Porto Real, a rainha Alicent era a mais furibunda quando soube que o bebê se chamaria Aegon, tomando esse fato como uma ofensa ao seu Aegon... o que certamente era. (Doravante nos referiremos ao filho da rainha Alicent como Aegon, o Mais Velho, e ao filho da princesa Rhaenyra como Aegon, o Mais Novo.) Sem dúvida, o ano de 122 DD deveria ter sido feliz para a Casa Targaryen. A princesa Rhaenyra entrou novamente em trabalho de parto e deu ao tio Daemon um segundo filho, que recebeu o nome de Viserys, em homenagem ao avô. A criança era menor e menos robusta que seu irmão Aegon e seus meios-irmãos Velaryon, mas provou ser mais precoce... embora, de forma um tanto agourenta, o ovo de dragão posto em seu berço nunca tenha chocado. Os verdes assumiram que era um mau presságio e não se furtavam em anunciá-lo. Mais tarde, no mesmo ano, Porto Real também celebrou um casamento. Seguindo a antiga tradição da Casa Targaryen, o rei Viserys casou seu filho Aegon, o Mais Velho, com sua filha Helaena. O noivo estava com 15 anos de idade, um rapaz preguiçoso e um tanto ressentido, de acordo com o septão Eustace, mas tinha um apetite mais que saudável, era um glutão à mesa, dado a tomar grandes tragos de cerveja e vinho forte e beliscar e bolinar qualquer garota serviçal que estivesse ao seu alcance. A noiva, sua irmã, tinha apenas 13 anos. Apesar de ser mais gorducha e menos atraente que a maioria dos Targaryen, Helaena era uma garota agradável e feliz, e todos concordavam que ela se tornaria uma ótima mãe. E assim aconteceu rapidamente. Quase um ano depois, em 123 DD, a princesa de 14 anos deu à luz gêmeos, um garoto que batizou como Jaehaerys e uma garota chamada Jaehaera. O príncipe Aegon tinha herdeiros próprios agora, os verdes proclamavam com júbilo na corte. Um ovo de dragão foi posto no berço de cada criança, e dois dragõezinhos vieram logo. Ainda assim, nem tudo estava bem com os gêmeos recém-nascidos. Jaehaera era pequenina e demorava a crescer. Não chorava, não sorria, não fazia nada que os bebês costumavam fazer. O irmão, embora maior e mais robusto, também era menos perfeito do que se esperava de um príncipe Targaryen, trazendo seis dedos na mão esquerda e seis dedos em cada pé. Uma mulher e filhos pouco fizeram para refrear os apetites carnais do príncipe Aegon, o Mais Velho, que foi pai de dois filhos bastardos no mesmo ano dos gêmeos legítimos: um menino de uma moça cuja virgindade ele comprara na Rua da Seda e uma menina com uma das camareiras de sua mãe. E, em 127 DD, a princesa Helaena deu à luz o segundo filho, que recebeu um ovo de dragão e o nome Maelor. Os outros filhos da rainha Alicent também cresceram. O príncipe Aemond, apesar da perda do olho, tornou-se um espadachim competente e perigoso sob a tutela de Sor Criston Cole, mas continuou sendo um garoto violento e voluntarioso, de temperamento forte e vingativo. Seu irmão menor, príncipe Daeron, era o mais popular dos filhos da rainha, tão inteligente quanto cortês, e também o mais atraente. Quando fez 12 anos, em 126 DD, Daeron foi enviado à Vilavelha para servir como escanção e acompanhante do lorde Hightower. Naquele mesmo ano, além da Baía da Água Negra, o Serpente do Mar foi acometido por uma febre repentina. Quando foi levado ao leito, cercado pelos meistres, surgiu a questão sobre quem deveria sucedê-lo como Lorde das Marés e Mestre da Derivamarca, caso a doença o fizesse perecer. Com seu filho legítimo morto, pela lei seus títulos e suas terras passariam ao neto Jacaerys, mas, como Jace presumivelmente ascenderia ao Trono de Ferro após sua mãe, a princesa Rhaenyra pediu ao sogro que nomeasse no lugar dele o segundo filho, Lucerys. No entanto, lorde Corlys também tinha meia dúzia de sobrinhos, e o mais velho deles, Sor Vaemond Velaryon, alegou que a herança deveria, por direito, passar para ele, sob o argumento de que os filhos de Rhaenyra eram bastardos da lavra de Harwin Strong. A princesa não demorou a retrucar a essa acusação. Despachou o príncipe Daemon para capturar Sor Vaemond, arrancar sua cabeça e alimentar seu dragão com a carcaça. Mas mesmo essa atitude não encerrou a questão. Os irmãos mais jovens de Sor Vaemond fugiram para Porto Real com mulheres e filhos e lá clamaram por justiça e dirigiram suas reivindicações ao rei e à rainha. O rei Viserys havia engordado muito, ficando com o rosto ainda mais vermelho, e mal tinha forças para galgar os degraus até o Trono de Ferro. Sua Majestade ouviu-os em um silêncio pétreo, em seguida ordenou que a língua de todos fosse arrancada. “Vocês foram alertados”, ele declarou enquanto eles eram arrastados para longe. “Não vou mais tolerar ouvir nenhuma dessas mentiras.” Em seguida, quando estava descendo do trono, Sua Majestade tropeçou e apoiou-se no trono para se equilibrar, rasgando a mão esquerda até o osso em uma lâmina denteada do trono. Embora o grande meistre Mellos tivesse lavado o corte com vinho fervido e atado a mão com faixas de linho embebidas em unguentos curativos, o rei logo teve febre e muitos temeram que ele pudesse morrer. Apenas a chegada da princesa Rhaenyra da Pedra do Dragão mudou a maré, pois com ela veio seu curandeiro, meistre Gerardys, que agiu rapidamente para amputar dois dedos da mão de Sua Majestade e salvar sua vida. Mesmo muito enfraquecido com a provação, o rei Viserys logo reassumiu o governo. Para celebrar sua recuperação, foi realizado um banquete no primeiro dia de 127 DD. A princesa e a rainha receberam ordens para comparecer com todos os filhos. Em uma demonstração de amizade, as mulheres vestiam a cor uma da outra e muitas declarações de carinho foram feitas, para grande prazer do rei. O príncipe Daemon ergueu uma taça a Sor Otto Hightower e agradeceu-lhe por seus serviços leais como Mão, e Sor Otto, por sua vez, falou da coragem do príncipe, enquanto os filhos de Alicent e de Rhaenyra cumprimentavam-se com beijos e partilhavam o pão juntos à mesa. Ou assim as crônicas da corte registram. No entanto, tarde daquela noite, após o rei Viserys ter se retirado (pois Sua Majestade ainda se cansava facilmente), Cogumelo nos conta que Aemond Caolho se ergueu para fazer um brinde aos primos Velaryon, falando em admiração fingida de seus cabelos castanhos, dos olhos castanhos... e da força. “Nunca vi pessoas tão fortes quanto meus belos primos, fortes como os Strong”, ele terminou. “Então vamos beber a esses três garotos fortes como os Strong”. O bobo relata que, ainda mais tarde, Aegon, o Mais Velho, ofendeu-se quando Jacaerys pediu que sua mulher, Helaena, lhe concedesse uma dança. Palavras raivosas foram trocadas, e os dois príncipes teriam trocado sopapos se não fosse pela intervenção da Guarda Real. Não sabemos se o rei Viserys foi informado desses incidentes, mas a princesa Rhaenyra e seus filhos voltaram ao lar, em Pedra do Dragão, na manhã seguinte. Depois de perder os dedos, Viserys I nunca mais sentou-se no Trono de Ferro. Depois do acidente, ele evitava a sala do trono, preferindo manter a corte no solar e, mais tarde, em seus aposentos, cercado por meistres, septões e pelo fiel bobo Cogumelo, o único homem que ainda conseguia fazê-lo rir (segundo Cogumelo). Sua Majestade recuperou um pouco de seu antigo vigor quando o grande meistre Mellos faleceu e foi substituído pelo grande meistre Gerardys, cujas poções e tinturas provaram-se mais eficazes do que as sangrias que Mellos preferia. No entanto, essa recuperação mostrou-se curta, e a gota, as dores no peito e a respiração ofegante continuaram a perturbar o rei. Com o declínio de sua saúde, Viserys deixou ainda mais o governo do reino aos cuidados da Mão e do pequeno conselho. Quando os Sete Reinos receberam o 129 o ano após a Conquista de Aegon com fogueiras, banquetes e bacanais, o Rei Viserys I Targaryen estava ainda mais fraco. As dores no peito ficaram tão graves que ele não conseguia mais subir um lance de escadas e precisava ser carregado na Fortaleza Vermelha em uma cadeira. Na segunda lua do ano, Sua Majestade perdeu todo o apetite e passou a governar o reino do leito... quando se sentia forte o bastante para governar. Enquanto isso, em Pedra do Dragão, a princesa Rhaenyra engravidou novamente. Ela também ficou de cama, com o marido, o príncipe canalha, ao seu lado. No terceiro dia da terceira lua de 129 DD, a princesa Helaena levou os três filhos para uma visita ao rei em seus aposentos. Os gêmeos Jaehaerys e Jaehaera estavam com seis anos de idade, seu irmão Maelor com apenas dois. Sua Majestade deu ao bebê seu anel de pérola para que ele brincasse e contou aos gêmeos a história de como seu tataravô e inspirador de seus nomes, Jaehaerys, o Velho Rei, voara em seu dragão para o norte, até a Muralha, para derrotar uma vasta horda de selvagens, gigantes e troca-peles. As crianças ouviram com atenção. Depois disso, o rei mandou-os embora, alegando cansaço. Então Viserys da Casa Targaryen, o Primeiro com seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares, dos Primeiros Homens, Lorde dos Sete Reinos e Protetor do Reino, fechou os olhos e dormiu. Nunca mais acordou. Sua Majestade estava com 52 anos de idade e reinou sobre grande parte de Westeros por 26 anos. A história dos feitos ousados, crimes horríveis e da morte heroica do príncipe Daemon Targaryen na carnificina que se seguiu é bem conhecida de todos, então terminaremos nossa história por aqui. Depois disso, a tempestade irrompeu, e os dragões dançaram e morreram . 

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