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sábado, 20 de fevereiro de 2016

SD 82

C A P Í T U L O 2 


CAMERON Williams havia se levantado quando a senhora idosa sentada à frente dele chamava pelo piloto. Este já a tinha acalmado, o que a levou a olhar furtivamente para Buck. Ele passou os dedos entre os longos cabelos louros dela e forçou um sorriso tímido. — Algum problema, madame? — Com meu Harold — disse ela. Buck tinha ajudado a senhora a guardar a jaqueta de lã com desenho em ziguezague e o chapéu de feltro no porta-bagagem acima do assento quando embarcaram. Harold era um senhor de baixa estatura, garboso, calça marrom, e um suéter bege abotoado sobre a camisa e gravata. Era calvo, e Buck supôs que ele pedisse o chapéu de volta por causa do ar condicionado. — Ele está precisando de alguma coisa? — Ele desapareceu! — O que a senhora disse? — Ele sumiu! — Bem, suponho que ele tenha dado uma escapada até o sanitário, enquanto a senhora estava dormindo. — O senhor se importaria em verificar para mim? E leve um cobertor. — Como assim, madame? — Receio de que ele tenha saıd́ o por aı́ nu. Meu marido é uma pessoa muito religiosa e estaria terrivelmente envergonhado. Buck conteve um sorriso quando notou a expressão aϐlita da senhora. Para alcançar o corredor, ele teve de passar por cima de um executivo em sono profundo, que devia ter ultrapassado de longe o limite dos drinques grátis, e inclinou-se para pegar o cobertor das mãos da senhora idosa. De fato, as roupas de Harold estavam empilhadas cuidadosamente em seu assento, seus óculos e o aparelho de surdez por cima. As pernas da calça estavam penduradas na beirada do assento e tocavam seus sapatos e meias. Estranho, pensou Buck. Como alguém pode ser tão distraído? Ele se lembrou de um amigo no curso secundário que tinha uma espécie de epilepsia que de vez em quando o fazia perder a consciência quando parecia perfeitamente consciente. Ele podia tirar os sapatos e meias em público ou sair de um banheiro com as roupas abertas. — Seu marido sofre de epilepsia? —Não. — É sonâmbulo? -Não. — Volto em seguida. Os sanitários da primeira classe estavam desocupados, mas, quando Buck chegou à escada, encontrou vários outros passageiros no corredor. — Perdão — disse ele -, estou procurando uma pessoa. — Quem não está? — afirmou uma mulher. Buck forçou a passagem por várias pessoas e viu as ϐilas para os sanitários, tanto da classe turıśtica quanto da executiva. O piloto passou raspando por ele sem dizer uma palavra, e Buck foi interpelado pela chefe do serviço de bordo. — Senhor, devo pedir-lhe que retorne ao seu lugar e aperte o cinto. — Estou procurando... — Todo mundo está procurando por alguém — disse ela. -Esperamos ter alguma informação para o senhor em poucos minutos. Agora, por favor, com licença. Ela o conduziu de volta à escada. Em seguida, esgueirou-se, passando à sua frente, e subiu a escada de dois em dois degraus. A meio caminho da escada, Buck voltou-se e examinou a cena. A noite estava na metade e, quando as luzes se acenderam nos compartimentos dos passageiros, ele estremeceu. Em todo o avião, as pessoas seguravam roupas e gritavam que estava faltando alguém. De certo modo, ele sabia que não se tratava de um sonho, e sentiu o mesmo terror que havia experimentado quando achou que iria morrer em Israel. O que diria ele à esposa de Harold? A senhora não é a única? Muitas pessoas deixaram suas roupas em seus assentos? Enquanto se dirigia apressado ao seu lugar, sua mente vasculhava alguma lembrança de qualquer coisa que ele tinha lido, visto ou ouvido a respeito de uma tecnologia com poderes de tirar as roupas das pessoas e fazê-las desaparecer de um ambiente totalmente seguro. Quem quer que tenha feito isso, estaria no avião? Pretendia fazer alguma exigência? Haveria outra onda de desaparecimentos em seguida? Seria ele uma próxima vítima? Para onde, então, iria? O medo parecia impregnar o ambiente, enquanto ele subia para voltar a seu lugar passando de novo por cima do seu companheiro de poltrona, que dormia à solta. Buck se pôs em pé e curvou-se sobre o encosto do banco da frente. — Aparentemente, muitas pessoas estão faltando — disse ele à idosa senhora, enquanto ela o olhava tão confusa e assustada quanto ele mesmo. Ele sentou-se quando a comunicação interna começou e o comandante falou aos passageiros. Após dar instruções para voltarem aos seus respectivos lugares, ele explicou: — Estou solicitando ao pessoal do serviço de bordo que veriϐique os sanitários e se certiϐiquem de que todos estão acomodados em suas poltronas. Em seguida, pedirei que sejam entregues aos passageiros estrangeiros os formulários de autorização de entrada no paıś . Se alguma pessoa de seu grupo estiver ausente, apreciaria que preenchessem o formulário no nome dela e relacionassem quaisquer detalhes de que pudessem lembrar, inclusive sua data de nascimento e descrição física. E prosseguiu: — Estou certo de que todos constataram que estamos numa situação difıć il. Os formulários nos indicarão o número de pessoas que estão faltando, e terei alguma coisa a entregar às autoridades. Meu co-piloto, Sr. Smith, fará agora uma contagem dos lugares vazios. Tentarei contatar a Pan-Continental. Devo dizer-lhes, entretanto, que nossa localização no momento torna extremamente difıć il a comunicação com a terra sem longas esperas. Mesmo nesta era dos satélites, estamos sobrevoando uma área consideravelmente remota. Assim que tiver alguma informação, transmitirei aos senhores e senhoras. Enquanto isso, gostaria de contar com sua cooperação e calma. Buck observava enquanto o co-piloto saıá apressado da cabina de comando, sem o quepe e agitado. Ele descia rapidamente por um corredor e subia pelo outro, o olhar correndo de poltrona em poltrona, enquanto as aeromoças passavam os formulários. O companheiro de poltrona de Buck levantou-se, a saliva a escorrer sobre o queixo, quando a aeromoça perguntou se alguém de seu grupo estava faltando. — Faltando? Não. Não há ninguém neste grupo senão eu mesmo. Ele se prostrou novamente e continuou dormindo, alheio aos fatos. O co-piloto retornou à cabina poucos minutos depois, quando Rayford ouviu o barulho da chave na porta. Christopher abriu-a nervosamente, atirou-se em sua poltrona sem atar o cinto de segurança e pôs a cabeça entre as mãos. — O que será que está acontecendo, Ray? — perguntou. - Mais de cem pessoas desapareceram, e suas roupas foram deixadas intactas. — Tanto assim? — Sim, que diferença faria se fossem somente 50? Que droga de explicação vamos dar quando aterrissarmos com menos passageiros do que recebemos? Rayford balançou a cabeça, tentando ainda contato pelo rádio, procurando encontrar alguém, qualquer um, em Greenland ou em outra ilha qualquer no meio do trajeto. Mas estavam muito longe para captar uma estação de rádio a ϐim de obter notıć ias. Finalmente, conseguiu contatar um Concorde, da Air France, distante vários quilômetros que voava em outra direção. Rayford acenou a Christopher para que colocasse seus fones de ouvido. — Vocêtem combustıv́ el suϐiciente para voltar aos Estados Unidos? — perguntou o piloto do Concorde a Rayford. Ele olhou para Christopher, que acenou positivamente com a cabeça, e sussurrou: — Temos meio tanque. — O suficiente para chegar ao aeroporto Kennedy — disse Rayford. — Esqueça — veio a resposta. — Ninguém está pousando em Nova York. Há duas pistas ainda abertas em Chicago. É para lá que estamos indo. — Saímos de Chicago. Não podemos descer em Heathrow? — Negativo. Fechado. — Paris? — Homem, seria melhor vocêvoltar para o lugar de onde veio. Deixamos Paris uma hora atrás. Fomos informados do que aconteceu, e disseram-nos para seguir direto para Chicago. — O que está acontecendo, Concorde? — Se não sabe, por que você está assustado com o "primeiro de maio" [notıć ia de desgraça, na linguagem aeronáutica por rádio]? — Temos aqui uma situação que não posso comentar. — Hei, amigo, a notícia já correu o mundo inteiro, você não sabe? — Positivo, não sei — disse Rayford. O que houve? — Estão faltando passageiros, certo? — Positivo. Mais de cem. — Opa! Perdemos perto de 50. — A que conclusão você chegou, Concorde? — A primeira coisa que pensei é que tivesse havido uma combustão espontânea, mas, se isso houvesse ocorrido, deixaria fumaça ou resıd́ uo. Essas pessoas desapareceram materialmente. Nunca vi nada igual, a não ser na velha série Jornada nas Estrelas, onde as pessoas se desmaterializavam e rematerializavam. — Bem que gostaria de dizer a meus passageiros que seus entes queridos vão reaparecer tão depressa e completamente como desapareceram — disse Rayford. — Isto não é o pior de tudo, Pan-Continental. As pessoas desapareceram em todos os lugares. O aeroporto de Orly perdeu os controladores de tráfego aéreo e os controladores de terra. Alguns aviões perderam as tripulações de bordo. Onde o dia já clareou, há carros empilhados, numa grande colisão geral, caos por toda parte. Aviões caıŕ am em muitos lugares e nos principais aeroportos. — Então isto foi uma fatalidade? — Em toda parte, ao mesmo tempo, um pouco menos de uma hora atrás. — Cheguei até a pensar que fosse alguma coisa só neste avião. Algum gás, alguma falha técnica do aparelho. — Que teria sido um fato seletivo, você quer dizer? Rayford percebeu o sarcasmo. — Entendo o que você quer dizer, Concorde. Tenho de admitir que esta é uma situação que nunca enfrentamos. — E jamais desejaremos passar por isso novamente. Continuo dizendo a mim mesmo que foi um sonho mal. — Um pesadelo. — Positivo, mas não foi, não é mesmo? — O que você dirá aos seus passageiros, Concorde? — Não tenho idéia. E você? — A verdade. — Não posso magoá-los agora. Mas qual é a verdade? O que sabemos? — Não tenho a menor idéia. — Sábias palavras, Pan-Continental. Você sabe o que algumas pessoas estão dizendo? — Positivo — disse Rayford. — EƵ melhor que as pessoas tenham ido para o céu do que receberam raios destruidores de algum poder aqui da terra. — O que se diz é que todos os paıś es foram afetados. Espero encontrá-lo em Chicago. Até breve. — Positivo. Rayford Steele olhou para Christopher, que começou a mudar os controles para virar o enorme aparelho e retornar aos Estados Unidos. — Senhoras e senhores — disse Rayford pelo intercomunicador -, não temos condições de descer na Europa. Retornaremos a Chicago. Estamos quase na metade do percurso programado; portanto, não teremos problema com o combustıv́ el. Espero que isto possa acalmá-los de alguma maneira. Informarei a todos quando estivermos suϐicientemente perto para começar a usar os telefones. Antes disso, por favor, não tentem fazer nenhuma ligação. Quando o capitão terminou de transmitir a informação sobre o retorno aos Estados Unidos, Buck Williams ϐicou surpreso ao ouvir aplausos dos passageiros. Todos estavam chocados e aterrorizados. Muitos eram dos Estados Unidos e queriam ao menos voltar para a famıĺia e amigos a ϐim de procurar entender o que havia acontecido. Buck cutucou o executivo à sua direita. — Sinto muito, amigo, mas você precisa acordar para ouvir isto. O homem olhou para Buck com ar enfastiado e balbuciou: — Se não vamos cair, não me aborreça. Quando o Pan-Continental 747 entrou na faixa de comunicações via satélite com os Estados Unidos, o capitão Rayford Steele sintonizou uma rádio especializada em notıć ias e ϐicou sabendo que houve desaparecimento de pessoas em todos os continentes. As linhas de comunicação estavam congestionadas. Entre os desaparecidos, havia pessoas das áreas médica, técnica e de serviços, de todo o mundo. Todas as agências de defesa civil estavam trabalhando em ritmo de emergência, tentando administrar as incontáveis tragédias. Rayford lembrou-se do desastre de trem em Chicago anos antes e de como as unidades de hospitais, bombeiros e polícia puseram todo o seu pessoal a trabalhar. Ele podia imaginar o que estava acontecendo agora multiplicado milhares de vezes. Até mesmo as vozes dos noticiaristas eram cheias de terror, por mais que quisessem ocultá-lo. Todos tentavam apresentar uma explicação razoável, porém, dentro do aspecto prático, seria melhor evitar discussões e comentários sobre as perdas. O que as pessoas queriam das notıć ias eram informações simples sobre como chegar ao seu destino e entrar em contato com seus entes queridos para saber se algo aconteceu a eles. Rayford foi instruıd́ o a entrar num sistema de tráfego aéreo multiestatal que lhe permitisse aterrissar em O'Hare num momento preciso. Apenas duas pistas estavam liberadas, e cada aeronave grande do paıś parecia dirigir-se para lá. Milhares morreram em quedas de avião e colisões de carro. Equipes de emergência estavam procurando desimpedir as vias expressas e as pistas dos aeroportos, ao mesmo tempo em que se aϐligiam com a perda de pessoas queridas e companheiros de trabalho que desapareceram. Uma nota informou que muitos motoristas de táxi sumiram do estacionamento de carros no aeroporto O'Hare e que voluntários estavam sendo chamados para movimentar os carros em que foram encontradas apenas as roupas dos motoristas sobre os bancos. Carros dirigidos por pessoas que desapareceram acabaram ϐicando sem controle e, evidentemente, colidiram. As incumbências mais pesadas para o pessoal de emergência eram determinar quem havia desaparecido, estava morto ou ferido e, em seguida, comunicar o caso aos sobreviventes. Quando Rayford estava suϐicientemente próximo para se comunicar com a torre do O'Hare, ele perguntou se poderia tentar um contato por telefone com sua família, ao que foi desestimulado a fazê-lo. — Lamento, capitão, mas as linhas telefônicas estão totalmente congestionadas, e o pessoal da telefônica tão desarticulado que a única esperança é conseguir um sinal de linha e usar o telefone pressionando a tecla de repetição de discagem. Rayford manteve os passageiros informados sobre a extensão do fenômeno e apelou a todos que se mantivessem calmos. — Não há nada que possamos fazer neste avião para mudar a situação. Meu plano é deixá- los em Chicago tão rapidamente quanto possıv́ el, e espero que possam ter acesso a algumas respostas e alguma ajuda. O telefone ao alcance das mãos, encaixado atrás do banco da frente de Buck Williams, não era programado para fazer conexões modulares externas da mesma forma que os telefones domésticos. Desse modo, ninguém podia simplesmente levantar o fone, tirando-o de sua linha de conexão e sair andando com ele. Mas Buck percebeu que dentro do aparelho a conexão era padronizada e que, se pudesse de algum modo fazer a ligação sem daniϐicar o aparelho, poderia conectar o modem de seu laptop diretamente à linha. Seu telefone celular não estava funcionando naquela altitude. Na frente dele, a esposa de Harold chorava, cobrindo o rosto com as mãos. O executivo ao seu lado roncava. Depois de beber até ϐicar anestesiado logo depois da decolagem, ele tinha dito alguma coisa sobre um importante encontro na Escócia. Ficaria surpreso diante do que veria quando aterrissasse! Em volta de Buck, pessoas choravam, oravam e conversavam. As comissárias ofereciam lanches e bebidas, mas poucos aceitavam. Tendo de inıć io preferido uma poltrona junto ao corredor para ter mais espaço para as pernas, Buck estava agora satisfeito por ϐicar parcialmente escondido próximo à janela. Ele tirou do estojo do seu laptop um pequeno conjunto de ferramentas que nunca esperou que usaria e passou a trabalhar no telefone. Desapontado por não encontrar nenhuma conexão modular mesmo dentro da caixa, ele resolveu brincar de eletricista amador. Essas linhas de telefone sempre têm os ϐios da mesma cor, concluiu ele, e assim abriu seu laptop e cortou o ϐio que leva ao conector-fêmeo. Dentro do telefone, ele cortou o ϐio e descascou o revestimento plástico protetor. Certamente, os quatro ϐios internos, tanto do computador como do telefone, pareciam idênticos. Em poucos minutos, ele os havia emendado. Buck digitou uma rápida mensagem para seu editor-executivo, Steve Plank, em Nova York, informando seu destino. "Vou escrever tudo o que sei e estou certo de que esta será mais uma entre muitas outras histórias semelhantes. Mas pelo menos esta será fresquinha, feita na hora, pois está acontecendo. Se ela terá alguma utilidade, não sei. Ocorre-me a idéia, Steve, de que vocêpode estar entre os desaparecidos. Como poderia saber? Você conhece meu endereço eletrônico. Avise-me, se você ainda está entre nós." Ele salvou a mensagem e preparou seu modem para enviá-la a Nova York, enquanto trabalhava em seu próprio artigo. No topo da tela, uma barra de posição acendia a cada vinte segundos, informando que a conexão para o contato expresso estava ocupada. Buck continuou trabalhando. A chefe do serviço de bordo surpreendeu-o mergulhado em suas reflexões e emoções. — O que o senhor está fazendo? — perguntou ela, inclinando-se para ver melhor a confusão de fios ligados do laptop ao telefone embutido. — Não posso permitir que o senhor faça isso. Ele lançou um olhar no crachá onde constava o nome dela. — Ouça, bela Hattie, estamos ou não presenciando o fim do mundo como aprendemos? — Não conte com minha condescendência, senhor. Não posso deixar que o senhor se sente aqui e destrua nossa propriedade. — Não estou destruindo. Estou fazendo uma adaptação de emergência. Com isto, posso, tendo sorte, fazer uma conexão que ninguém mais conseguirá. — Não posso permitir que o senhor faça isso. — Hattie, posso dizer-lhe alguma coisa? — Só se o senhor disser que irá colocar esse telefone onde ele se encontrava. — Farei isso. — Agora. — Agora não. — Isso é tudo o que gostaria de ouvir. — Compreendo, mas, por favor, ouça-me. O homem perto de Buck ϐitou-o e depois olhou para Hattie. Ele praguejou e, em seguida, usou um travesseiro para tapar a orelha direita, pressionando a esquerda contra o encosto da poltrona. Hattie tirou do bolso um impresso de computador e localizou o nome de Buck. — Sr. Williams, espero que o senhor coopere. Não quero incomodar o piloto com isso. Buck procurou alcançar a mão dela. Ela manteve a postura, mas não retraiu a mão. — Podemos conversar apenas um minutinho? — Não vou mudar minha opinião, senhor. Agora, por favor, tenho um avião cheio de pessoas amedrontadas para cuidar. — Você não é uma delas?- ele perguntou, enquanto ainda segurava sua mão. Ela apertou os lábios e consentiu. — Você não gostaria de manter contato com alguém? Se isto funcionar, serei capaz de contatar pessoas que podem fazer ligações por você, informar à sua famıĺia que vocêestá bem, até deixar uma mensagem de retorno. Não destruı́coisa alguma e prometo colocar tudo no seu devido lugar. — O senhor pode? — Posso. — E o senhor me ajudaria? — Em qualquer coisa. Dê-me os nomes e números de telefone. Vou incluı-́ los na mensagem que estou tentando enviar a Nova York e insistir que alguém ligue para sua famıĺia e me dê o retorno. Não posso garantir que serei bem-sucedido ou, se conseguir, me darão qualquer retorno, mas vou tentar. — Ficarei grata. — E você pode me proteger de outras aeromoças excessivamente zelosas? Hattie ensaiou um sorriso. — Todas elas podem querer sua ajuda. — EƵ uma tentativa. Apenas mantenha todo mundo longe de mim e deixe-me continuar tentando. — Combinado — disse ela, mas parecia ainda preocupada. — Hattie, você está fazendo a coisa certa — disse ele. — EƵ bom numa situação como esta pensar um pouco em você mesma. É o que estou fazendo. — Mas todos estamos no mesmo barco, senhor. E eu tenho responsabilidades. — Você tem de admitir que, quando pessoas desaparecem, algumas regras saem pela janela. Rayford Steele estava sentado na cabina de comando, a face pálida. Faltava uma hora e meia para o pouso em Chicago, e ele tinha dito tudo o que sabia aos passageiros. O desaparecimento simultâneo de milhões em todo o planeta tinha resultado num caos muito além da imaginação. Ele cumprimentou todos os que ϐicaram calmos e evitaram histerismos, embora tenha recebido relatos sobre médicos a bordo que estavam distribuindo comprimidos de sedativos como se fossem bombons. Rayford tinha sido sincero, a única coisa que ele sabia ser. Considerou que tinha dado mais explicações do que daria se tivesse perdido um motor, os freios hidráulicos ou mesmo o trem de aterrissagem. Tinha sido franco com os passageiros ao dizer que aqueles que estivessem viajando sem a famıĺia poderiam descobrir, ao voltar para casa, que parte dela poderia ter sido vítima das muitas tragédias que ocorreram. Rayford pensou, mas não disse, quão grato se sentia por estar no espaço aéreo quando o fenômeno ocorreu. Que confusão devia esperá-los em terra! Aqui, num sentido literal, eles estavam acima de tudo. De alguma forma, foram afetados. Pessoas estavam faltando em toda parte. Mas, com exceção da redução da equipe de serviço causada pelo desaparecimento de três componentes da tripulação, os passageiros não sofreram da forma como poderiam, caso estivessem no trânsito ou se ele e Christopher estivessem entre os que tinham desaparecido. Ao atingir a distância padrão do aeroporto O'Hare, todo o impacto da tragédia começou a surgir diante de seus olhos. Vôos de todas as partes do paıś estavam sendo desviados para Chicago. Os pousos dos aviões estavam sendo reorganizados com base nos suprimentos de combustível. Rayford precisava estar em posição prioritária após ter voado sobre o litoral leste e depois sobre o Atlântico antes de retornar. Não era a prática de Rayford comunicar-se com o controle de terra, a não ser depois do pouso, mas agora a torre de controle do tráfego aéreo estava recomendando isto. Ele foi informado de que a visibilidade era excelente, a despeito de intermitentes fumaças de desastres em terra, mas esse pouso seria arriscado e precário porque as duas pistas abertas estavam abarrotadas de jatos. Eles se alinhavam em ambas as laterais das pistas e em toda a sua extensão. Todos os portões estavam cheios, e ninguém conseguia sair do lugar. Todas as modalidades de transporte estavam em uso, e os passageiros eram levados de ônibus dos extremos das pistas até o terminal. Mas foi dito a Rayford que seus passageiros — pelo menos a maioria deles — teriam de fazer o percurso a pé. Todos os funcionários remanescentes foram convocados para trabalhar, mas estavam ocupados orientando os aviões para seguirem para áreas de segurança. Os poucos ônibus e peruas foram reservados para os deϐicientes fıś icos, idosos e as tripulações. Rayford deu instrução para que toda a tripulação fosse a pé. Os passageiros disseram que não conseguiram usar os telefones de bordo. Hattie Durham contou a Rayford que um passageiro na primeira classe, não se sabe como, conseguiu ligar o telefone ao seu computador. Enquanto ele preparava mensagens, seu computador discava e rediscava automaticamente para Nova York. Se houve um sinal de linha, foi ele que o aproveitou para fazer suas ligações. Quando o avião começou sua descida em Chicago, Buck conseguiu encontrar uma linha livre, que possibilitou-lhe baixar as mensagens que estavam prontas para ser enviadas. Isso aconteceu exatamente quando Hattie anunciou que todos os aparelhos eletrônicos deveriam ser desligados. Com uma sagacidade que nem ele sabia que possuía, Buck num repente digitou as teclas, o que lhe permitiu recuperar e salvar todas as suas mensagens, livrando-se, assim, do corte da comunicação. No exato momento em que sua ligação poderia interferir nas comunicações do vôo com o aeroporto, a linha foi interrompida, e agora ele teria de esperar para abrir os arquivos contendo notícias de amigos, companheiros de trabalho, parentes e qualquer outra pessoa. Antes de seus últimos minutos de preparação para o pouso, Hattie apressou-se a ir até Buck. — Alguma coisa? Ele balançou a cabeça negativamente, desculpando-se. — Obrigada por tentar — disse ela. E começou a chorar, Ele segurou-lhe o pulso. — Hattie, todos nós vamos para casa hoje e chorar. Mas tenha calma e perseverança. Ajude os passageiros a descer, e poderá ao menos sentir-se bem fazendo isso. — Sr. Williams — soluçou ela -, saiba que perdemos várias pessoas idosas, mas não todas. Perdemos várias pessoas de meia-idade, mas não todas. E perdemos várias pessoas de sua idade e da minha, mas não todas. Perdemos até alguns adolescentes. Ele a ϐitava com os olhos arregalados. O que ela queria dizer?; — Senhor, perdemos todas as crianças e bebês neste avião. — Quantos havia? — Mais de doze. Todos eles! Não sobrou nenhum. O homem ao lado de Buck despertou e desviou o olhar do sol forte que entrava pela janela. — Do que vocês estão falando? — perguntou ele. — Estamos prestes a descer em Chicago — disse Hattie. -Tenho de me apressar. — Chicago? — O senhor não queira saber — disse Buck. O homem quase sentou no colo de Buck para olhar pela janela, envolvendo-o com seu hálito de embriagado. — O quê? Estamos em guerra? Rebeliões? O quê? Tendo atravessado uma massa espessa de nuvens, o avião possibilitou aos passageiros a visão da área de Chicago. Fumaça. Fogo. Carros fora da estrada e colididos uns contra os outros e contra os trilhos de segurança ao longo da estrada. Aviões despedaçados sobre o solo. Veıć ulos de emergência, com luzes piscando, procurando caminho entre os destroços. Quando apareceu o aeroporto O'Hare, ϐicou claro que ninguém conseguiria ir a lugar algum. Havia aviões em quantidade até aonde a vista alcançava, alguns destruıd́ os e em chamas, outros parados em ϐila. Pessoas caminhavam penosamente pela grama e entre veıć ulos em direção ao terminal. As vias expressas que levavam ao aeroporto se assemelhariam às que se viam durante as grandes nevascas de Chicago, só que desta vez sem neve. Guindastes e máquinas trituradoras de sucata tentavam abrir caminho para a entrada e saıd́ a de carros, mas isso levaria horas, senão dias. Uma ϐila de pessoas procurava seu caminho vagarosamente para sair dos prédios do terminal, entre carros imobilizados, em direção às rampas. Pessoas andando, andando, andando à procura de um táxi ou microônibus. Buck estava planejando como enfrentar a situação. De algum modo, ele teria de se movimentar e cair fora daquela área congestionada. Seu problema era chegar a um lugar pior: Nova York. — Senhoras e senhores — anunciou Rayford -, quero agradecer-lhes novamente sua cooperação hoje. Fomos autorizados a descer na única pista que permite o pouso de um aparelho deste porte e, em seguida, taxiar numa área aberta que ϐica a cerca de três quilômetros do terminal. Acredito que vamos ter de pedir que usem nossas rampas deslizadoras de emergência, porque não temos possibilidade de engatar a porta de saıd́ a ao portão. Os que não tiverem condições de caminhar até o terminal, por favor, ϐiquem aguardando que mandaremos alguém buscá-los. Não houve agradecimentos por terem escolhido voar pela Pan-Continental, nem o clichê: "Esperamos contar com sua preferência na próxima vez que precisarem de um serviço aéreo." Ele recomendou que todos ϐicassem sentados com os cintos atados até que se apagasse o sinal, porque intimamente sabia que aquele seria o pouso mais difıć il em vários anos. Estava consciente de que poderia fazê-lo, mas havia muito tempo que não aterrissava no meio de outras aeronaves. Rayford invejava aqueles que, na primeira classe, tinham acesso às faixas para comunicação por modem. Ele estava desesperado para falar com Irene, Chloe e Ray Jr. Por outro lado, temia não poder falar com eles novamente.

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