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sábado, 20 de fevereiro de 2016

SD 84

C A P Í T U L O 4

 BUCK pressionou um lenço ensopado de água fria sobre o lado de trás da cabeça. A ferida tinha parado de sangrar, mas latejava. Ele encontrou outra mensagem em seu e-mail e estava se preparando para responder quando recebeu uma batidinha no ombro. — Sou médico. Deixe-me fazer um curativo em seu ferimento. — Oh! está tudo bem, e eu... — Permita-me fazer isto, companheiro. Estou ϐicando louco neste lugar, sem nada para fazer, e tenho aqui minha maleta. Estou trabalhando de graça hoje. Chame isto de um Arrebatamento Especial. — Um o quê? — Bem, como vocêchamaria o que aconteceu? — perguntou o médico, tirando um frasco e gaze de sua maleta. — Isto está parecendo bastante rudimentar, mas ϐicaremos esterilizados. Aids? — Perdão, não entendi. — Veja bem, você conhece a rotina — disse o médico enquanto colocava luvas de borracha. — Você contraiu o vírus HIV ou qualquer doença semelhante? — Não. E... eu não, estou gostando de ouvir isso. Naquele instante, o médico aspergiu uma boa dose de desinfetante sobre a gaze e a colocou sobre o ferimento na cabeça de Buck. — Aiii! Calma! — Seja homem, garotão. Isto dói menos do que a infecção que teria se o ferimento não fosse curado. O médico raspou asperamente a ferida, limpando-a e fazendo escorrer o sangue novamente. — Ouça, estou fazendo uma pequena raspagem no cabelo para que o curativo não saia do lugar. Tudo bem? Os olhos de Buck marejavam. — Sim, está certo, mas o que foi que o senhor disse a respeito de Arrebatamento? — Há qualquer outra explicação que faça sentido? — disse o médico, usando um bisturi para raspar o cabelo de Buck. Uma funcionária do clube aproximou-se e pediu que transferissem a pequena cirurgia para um dos sanitários. — Prometo limpar tudo, minha cara — disse o médico. — Está quase pronto. — Bem, isto não pode ser higiênico, e temos de pensar nos outros. — Por que vocênão serve a eles uns drinques e uns petiscos, hein? Você verá que isto vai deixá-los mais aliviados num dia como este. — Não aceito que o senhor me fale dessa maneira. O médico suspirou enquanto trabalhava. — Você está certa. Qual é o seu nome? — Suzie. — Ouça, Suzie, fui indelicado e peço desculpa, está bem? Agora deixe-me terminar isto. Prometo que não farei qualquer outra cirurgia aqui em público. Suzie afastou-se meneando a cabeça. — Doutor — disse Buck -, deixe seu cartão comigo para que eu lhe agradeça apropriadamente. — Não precisa — disse o médico, guardando suas coisas. — Agora me dê sua idéia sobre isto. O que quer dizer Arrebatamento? — Outra hora. É sua vez de telefonar. Buck estava sofrendo, mas não podia deixar passar a chance de se comunicar com Nova York. Ele tentou discar diretamente, mas não conseguiu o contato. Então acoplou seu modem ao telefone e começou a rediscagem, enquanto dava uma olhada na mensagem da secretária de Steve Plank, a balzaquiana Marge Potter. Buck, seu maroto! Além de ter muito o que fazer e me preocupar com o dia de hoje, ainda tenho de procurar as famıĺias de suas garotas? Onde você conheceu essa Hattie Durham? Pode dizer a ela que localizei sua mãe no oeste, mas isso foi antes que uma enchente ou tempestade ou alguma outra coisa interrompesse as linhas telefônicas outra vez. Ela está perfeitamente saudável, mas confusa, e ϐicou muito agradecida pela notıć ia de que sua ϐilha não desapareceu. As duas irmãs de Hattie estão bem, conforme disse sua mãe. Você é bom demais por ajudar pessoas como estas, Buck. Steve disse que você vai tentar chegar aqui. Será bom reencontrá-lo. Isto tudo é tão terrıv́ el. Até agora sabemos de vários funcionários desaparecidos. De vários outros, não tivemos notícias, incluindo alguns de Chicago. Todo o pessoal da equipe principal foi localizado. Só estava faltando você. Esperei e orei para que vocêestivesse bem. Observou que isso parece ter atingido os inocentes? Todos aqueles que conhecemos e que se foram eram crianças ou pessoas muito bondosas. Por outro lado, algumas pessoas maravilhosas ainda estão aqui. Steve e eu estamos contentes de você estar entre elas. Entre em contato. Ela não mencionou se pôde contatar o pai viúvo de Buck ou seu irmão casado. Buck ϐicou intrigado, sem saber se ela omitiu a informação de propósito ou simplesmente ainda não tinha notıć ia deles. Sua sobrinha e sobrinho deviam ter sumido, se fosse verdade que nenhuma criança sobreviveu. Buck desistiu de tentar contato direto com o escritório, mas novamente foi bemsucedido fazendo a conexão pelo computador. Ele enviou seus arquivos e, num piscar de olhos, a informação de seu paradeiro. Desse modo, quando o sistema telefônico voltasse a funcionar normalmente, o Semanário Global já poderia começar a trabalhar em cima do material enviado. Ele pôs o fone no gancho e desconectou, recebendo o olhar de agradecimento do próximo na ϐila, e em seguida foi procurar o médico. Não teve sorte. Marge tinha se referido aos inocentes. O doutor admitia que tinha sido o Arrebatamento. Steve tinha ridicularizado os alienıǵ enas do espaço. Mas como se poderia excluir qualquer coisa a esta altura? Sua mente já estava ruminando idéias para a história que haveria atrás dos desaparecimentos. Seria o trabalho pelo qual ele aguardara a vida inteira! Buck entrou na ϐila para tentar comprar uma passagem para Nova York, sabendo que suas possibilidades pelos meios convencionais eram escassas. Enquanto esperava, procurava lembrar o que Chaim Rosenzweig, o "Fazedor da Notıć ia do Ano", havia falado com ele sobre o jovem Nicolae Carpathia, da Romênia. Buck tinha conversado sobre isso ligeiramente com Steve Plank, cuja opinião era que não valia a pena enxertá-lo numa reportagem já condensada. Rosenzweig ficou impressionado com Carpathia, isto era verdade. Mas por quê? Buck sentou-se no chão e só se movia quando a ϐila andava. Recorreu aos seus arquivos no computador sobre a entrevista com Rosenzweig e chamou a palavra "Carpathia". Ele se recordava de ter ϐicado sem jeito ao admitir a Rosenzweig que nunca tinha ouvido falar do homem. AƱ medida que as transcrições da entrevista se desenrolavam na tela, ele digitou a tecla "pare" e leu. Quando notou que o sinal de bateria esgotada acendeu, tirou um ϐio de extensão de sua maleta e ligou o computador numa das tomadas ao longo da parede do balcão. "Cuidado com o ϐio", gritava toda vez que alguém passava. Uma mulher atrás do balcão ordenou que ele desligasse o fio da tomada. Ele sorriu para ela. — E se eu não desligar, vocêvai me expulsar daqui? Vou ser preso? Seja tolerante comigo, pelo menos hoje! Diϐicilmente as pessoas tinham sua atenção atraıd́ a por um manıá co sentado no chão gritando com a mulher atrás do balcão. Isso raramente acontecia no Clube Pan-Continental, • mas naquele dia ninguém se surpreendia com nada. Rayford Steele desembarcou no heliporto do Hospital da Comunidade Noroeste, em Arlington Heights, onde os pilotos tiveram de descer para dar lugar a um paciente que deveria ser levado para Milwaukee. Os outros pilotos se amontoaram junto à entrada do hospital, na esperança de conseguir um táxi, mas Rayford tinha uma idéia melhor. Resolveu ir a pé. Ele estava cerca de oito quilômetros distante de casa e apostava que poderia pegar uma carona mais facilmente do que encontrar um táxi. Esperava que seu uniforme de capitãoaviador e sua boa aparência ϐizessem com que alguém se importasse com ele oferecendo-lhe uma carona. Enquanto fazia a penosa caminhada, a capa impermeável num braço e carregando a maleta na outra mão, ele tinha uma sensação vazia e desesperançada. AƱquela altura, Hattie devia ter chegado ao seu condomıń io, checando suas mensagens, tentando contato com sua famıĺia. Se ele estava certo de que Irene e Ray Jr. tinham desaparecido, onde estariam quando isso aconteceu? Encontraria alguma evidência de que tinham sumido, em vez de encontrarem a morte em algum acidente relacionado com os desaparecimentos? Rayford calculava que os desaparecimentos teriam ocorrido à noite, talvez por volta de 11 horas, no fuso horário da área central do paıś . Será que qualquer coisa os tirou de casa àquela hora da noite? Ele não poderia imaginar o que teria acontecido e tinha dúvida quanto a isso. Uma mulher de uns 40 anos parou para dar uma carona a Rayford na estrada de Algonquin. Quando ele agradeceu-lhe e disse onde morava, ela afirmou que conhecia o bairro. — Uma amiga minha mora lá. Melhor, morava. Conhece Li Ng, a garota asiática do noticiário do Canal 71 — Conheço ambos, ela e o marido — disse Rayford. — Eles moram em nossa rua. — Não mais. O noticiário de meio-dia de hoje foi dedicado a ela. A família inteira sumiu. Rayford deu um forte suspiro de desabafo. — Isto é inacreditável. A senhora perdeu alguém? : — Infelizmente, sim — respondeu ela com a voz embargada. -Cerca de uma dúzia de sobrinhas e sobrinhos. —Uau! — E o senhor? — Ainda não sei. Acabo de chegar de um vôo e não consegui localizar ninguém. — Quer que eu o espere? — Não. Tenho um carro. Se eu precisar ir a algum lugar, não tenho problema. — O'Hare está fechado, o senhor sabe — disse ela. — É verdade? Desde quando? — Eles acabam de avisar pelo rádio. As pistas estão lotadas de aviões, os terminais cheios de gente, as estradas abarrotadas de carros. Enquanto a mulher entrava em Monte Prospect, choramingando, Rayford sentiu um esgotamento como nunca havia tido antes. As poucas casas da quadra tinham as entradas repletas de carros, e pessoas se ajuntavam em grupos. Parecia que todo mundo, em toda parte, tinha perdido alguém. Ele sabia que logo seria mais um entre eles. — Posso servi-la em alguma coisa? — disse ele à mulher, enquanto ela entrava com o carro na rampa de sua casa. Ela meneou a cabeça. — Estou apenas contente de ter podido ajudar. Ore por mim, se lembrar. Não sei se vou suportar esta situação. — Não sou muito chegado à oração — admitiu Rayford. — O senhor vai ser — disse ela. — Eu também nunca fui, mas agora sou. — Então a senhora pode orar por mim — disse ele. — Vou orar. Esteja certo disso. Rayford ϐicou em pé na entrada da casa e acenou para a mulher até perdê-la de vista. O jardim e os corredores externos estavam impecáveis, como sempre, e a enorme casa, sua casatroféu, estava sepulcral. Ele abriu a porta da frente. O jornal no patamar, as cortinas cerradas na janela panorâmica e o cheiro forte de café queimado que ele sentiu indicavam o que ele temia. Irene era uma dona-de-casa metódica. Sua rotina matutina incluıá a cafeteira cronometrada para as seis horas, coando sua mistura especial de café descafeinado com um ovo. O rádio estava programado para despertá-la às seis e meia, sintonizado na estação cristãlocal. A primeira coisa que Irene fazia quando descia a escada era abrir as cortinas da frente e de trás. Com um nó na garganta, Rayford atirou o jornal na cozinha e tratou de acomodar suas coisas. Pendurou a capa e colocou a maleta no cubıć ulo. Lembrou-se de pegar o pacotinho que Irene havia enviado ao O'Hare para ele e colocou-o no bolso largo de seu uniforme, carregandoo consigo enquanto procurava por evidência de que ela havia desaparecido. Se isso fosse verdade, ele sinceramente esperava que estivesse certa. Ele queria, acima de qualquer coisa, que ela visse seu sonho realizado, que tivesse sido levada por Jesus num piscar de olhos — uma jornada empolgante e indolor para o seu cantinho no céu, como ela sempre gostava de dizer. Irene merecia isto. E Raymie. Onde estaria? Com ela? Certamente. Ele ia com a mãe à igreja, mesmo quando Rayford não a acompanhava. Parecia gostar daquilo, de pertencer à comunidade. Lia sua Bıb́ lia e a estudava. Rayford puxou o ϐio da tomada da cafeteira que tinha se desligado e ligado automaticamente durante 7 horas, queimando o café. Jogou fora aquela massa meio empedrada e deixou a cafeteira na pia. Desligou o rádio, que estava sintonizado na estação cristã transmitindo notıć ias em cadeia, num tom enfadonho, sobre a tragédia e a destruição resultante dos desaparecimentos. Ele deu uma olhada na sala de estar, na sala de jantar e na cozinha, na expectativa de ver a costumeira limpeza do lar de Irene. Seus olhos encheram-se de lágrimas; abriu as cortinas, como ela teria feito. Seria possıv́ el que ela tivesse ido a algum lugar? Visitado alguém? Deixado um recado para ele? Mas, se ela estivesse em algum lugar e ele a encontrasse, o que dizer da fé que ela professava? Seria uma prova de que este não era o Arrebatamento em que ela acreditava? Ou signiϐicaria que ela estava perdida tanto quanto ele? Se houve realmente o Arrebatamento, ele esperava que Irene tivesse sido levada, para o bem dela. Mas a dor e o vazio já o estavam dominando completamente. Rayford ligou a secretária eletrônica e ouviu as mesmas mensagens que tinha ouvido do O'Hare, mais a mensagem que ele mesmo tinha deixado. Sua própria voz pareceu-lhe estranha. Ele detectou nela um tom fatalista, como se soubesse que sua esposa e filho não a receberiam. Ele estava com medo de subir a escada para os dormitórios. Inspecionou todo o pavimento inferior da casa até a saıd́ a da garagem. Se pelo menos um dos carros estivesse faltando... E um estava! Quem sabe ela teria ido a algum lugar! Mas tão logo pensou nisso, Rayford desceu o degrau para a garagem e notou de perto que era o seu BMW que estava faltando. Aquele que ele levou ao O'Hare no dia anterior. O carro estava esperando por ele quando o tráfego voltasse ao normal. Os outros dois carros se encontravam lá, o de Irene e o que Chloe usava quando estava em casa. E todas as lembranças de Raymie também estavam lá. Seu carrinho de quatro rodas, seu trenó para deslizar na neve, sua bicicleta. Rayford teve ódio de si mesmo por haver quebrado sua promessa de passar mais tempo com Raymie. Ele teria muito tempo ainda para lamentar isso. Rayford deu uns passos e ouviu o ruıd́ o do pequeno pacote em seu bolso. Era hora de subir as escadas. Estava quase chegando a vez de Buck Williams ser atendido no balcão do Clube PanContinental quando ele encontrou a matéria que estava procurando em seu gravador. A certa altura, durante os vários dias de gravação, Buck inquiriu o Dr. Rosenzweig acerca dos vários países que tentavam assediá-lo na esperança de ter acesso à sua fórmula e tirar proveito dela. — Este tem sido um aspecto interessante — aϐirmou Rosenzweig com os olhos brilhando. — Fiquei muito lisonjeado com a visita do próprio vice-presidente dos Estados Unidos. Ele quis homenagear-me, levar-me ao presidente, fazer-me alvo de um desϐile, conferirme uma comenda, tudo isso. Diplomaticamente, ele nada falou sobre receber em troca qualquer coisa, mas eu teria uma dıv́ ida para com ele, não é verdade? Muito foi dito sobre o que, como paıś amigo de Israel, os Estados Unidos têm feito durante décadas. E isso é verdade, não é? Como poderia eu contestar? Rosenzweig continuou: — Mas eu procurava ver os prêmios e amabilidades como sendo todos para meu benefıć io e, humildemente, os recusava. Como você vê, jovem, sou muito humilde, não sou? Rosenzweig riu ruidosamente de si mesmo e contou várias outras histórias de dignitários que procuraram agradá-lo. — Foram todos sinceros? — Buck perguntou. — Algum o impressionou? — Sim! — disse Rosenzweig sem hesitação. — Vindo do mais desconcertante e surpreendente canto do mundo — Romênia. Não sei se ele foi enviado ou veio por conta própria, mas suspeito que foi a segunda hipótese, porque era o oϐicial de menor graduação que me visitou após eu ter recebido o prêmio. Esta é uma das razões por que quis vê-lo. Ele mesmo pediu a audiência. Não procurou os canais tipicamente políticos ou protocolares. — E ele era...? — Nicolae Carpathia. — Carpathia como os...? — Sim, como os montes cárpatos. Um nome melodioso, você deve admitir. Achei-o fascinante e humilde. Semelhante a mim! De novo, ele deu uma gargalhada. — Não ouvi falar dele. — Você ouvirá! Você ouvirá. — Porque ele é... — disse Buck tentando conduzir a conversa. — Carismático, impressivo, é tudo o que posso dizer. — E ele é algum tipo de diplomata em fase de ascensão a esta altura? — Ele é um dos componentes da assembléia do governo romeno. — No senado? — Não, o senado está acima da assembléia. — Certamente. — Não se sinta mal por não saber estas coisas, embora seja um jornalista internacional. Isto é algo que somente os romenos e os cientistas polıt́ icos amadores como eu sabem. EƵ o que gosto de estudar. — Em suas horas de descanso. — Precisamente. Mas eu não conhecia esse homem. Quero dizer, conheci um da Câmara dos Deputados — é como eles chamam a assembléia na Romênia — que era um paciϐicador e liderava um movimento em prol do desarmamento. Mas eu não sabia seu nome. Creio que sua meta é o desarmamento global, do qual nós, israelenses, suspeitamos. Mas naturalmente ele deve primeiro efetuar o desarmamento em seu próprio paıś , o que nem mesmo vocêverá até o ϐim de sua vida. Esse homem, por acaso, é mais ou menos da sua idade. Loiro e de olhos azuis, como os romenos originais, que vieram de Roma, antes que os mongóis se mesclassem com sua raça. — O que o senhor mais apreciou nele? — Vou contar-lhe — disse Rosenzweig. — Ele conhece minha lıń gua tão bem como a sua própria. E fala um inglês ϐluente. Vários outros idiomas também, é o que dizem. Bem-instruıd́ o, mas também amplamente autodidata. Sinceramente, gosto dele como pessoa. Muito brilhante. Muito honesto. Muito aberto. — O que ele queria do senhor? — Isto foi o que mais me agradou. Por tê-lo achado tão aberto e honesto, ϐiz-lhe esta pergunta. Ele insistiu que o chamasse de Nicolae, e então eu disse "Nicolae" (isto depois de uma hora de amabilidades recıṕ rocas), "o que você deseja de mim?" Você sabe o que ele me disse, jovem? "Dr. Rosenzweig, busco apenas sua benevolência." Que podia eu dizer? Respondi-lhe: "Nicolae, você a tem." Sou pessoalmente um pouco paciϐista, você sabe. Não irrealisticamente. Eu não mencionei isto a ele. Disse-lhe simplesmente que podia contar com minha benevolência, algo que estendo também a você. — Suponho que não é uma coisa que o senhor concede facilmente. — Porque o aprecio é que vocêtem minha benevolência. Um dia você deverá conhecer Carpathia. Vocês se apreciarão mutuamente. As metas e sonhos dele jamais poderão ser concretizados, mesmo em seu paıś , mas ele é um homem de altos ideais. Se ele se destacar, você ouvirá falar dele. E como vocêestá se destacando em sua própria esfera, ele provavelmente ouvirá falar de você ou o ouvirá, estou certo? — Espero que sim. De repente, chegou a vez de Buck ser atendido no balcão. Ele recolheu o ϐio de extensão e agradeceu à jovem senhora por agüentá-lo. — Queira desculpar-me por isso — disse ele, esperando pelo perdão que não aconteceu. — O dia de hoje foi terrível, o pior de todos, a senhora deve compreender. Aparentemente, ela não compreendeu. Tinha tido também um dia agitado. Ela o ϐitou tolerantemente e perguntou: — O que não posso fazer por você? — Oh! a senhora diz isso porque não fiz o que me pediu? — Não — respondeu ela. — Estou fazendo à mesma pergunta a todos. EƵ uma pequena brincadeira, porque, na realidade, não posso fazer nada por ninguém. Não há vôos programados para hoje. O aeroporto fechará a qualquer momento. Quem sabe dizer quanto tempo levará para acabar toda esta confusão e conseguir algum jeito de fazer o tráfego se restabelecer? Posso apenas anotar seu pedido, mas não posso receber sua bagagem, vender passagem, reservar lugar, permitir uso de telefone, reservar apartamento em hotel, enϐim todas as coisas que adoramos fazer para nossos sócios. Você é sócio, não é? — Sou sócio! — Ouro ou platina? — Senhora, sou... digamos... um sócio criptônio [um gás nobre da atmosfera]. Ele exibiu seu cartão, indicando que estava entre os 3 % de viajantes do mundo que mais usavam avião. Se qualquer vôo tivesse um lugar desde a classe mais econômica até a primeira classe, tinha de ser dado a ele, sem nenhuma despesa. — Oh! Meu Deus — disse ela -, não me diga que você é o Cameron Williams daquela revista. —Sou. — Time? Não é isso? — Não brinque. Não trabalho para o concorrente. — Oh! Eu sabia. Sabia por que eu queria ingressar no jornalismo. Fiz faculdade de jornalismo. Ouvi falar de você. O mais jovem vencedor do prêmio ou o que apresentou mais reportagens de capa com menos de 12 anos de profissão? — Foi divertido. — Ou coisa parecida. — Não posso acreditar que estamos brincando num dia como este — disse Buck. De repente, a fisionomia dela assumiu um ar sério. — Não quero nem pensar nisso. Então, o que posso fazer por você, se é que posso fazer alguma coisa? — O negócio é o seguinte — disse Buck. — Tenho de chegar a Nova York. Por favor, não me olhe desse jeito. Sei que é o pior lugar aonde se pode ir neste momento. Mas a senhora conhece muitas pessoas. A senhora conhece pilotos que fazem vôos fretados. Sabe de que aeroportos eles decolam. Digamos que eu tenha recursos ilimitados e condições de pagar qualquer preço para o que eu preciso. Quem a senhora me indicaria? Ela olhou ϐirme e pensativa para ele. — Não posso acreditar que você tenha me pedido isso. — Por quê? — Porque conheço alguém. Ele voa com esses pequenos jatos partindo de lugares como os aeroportos Waukegan e Palwaukee. Ele é do tipo que cobra o dobro numa emergência, especialmente se souber quem você é e o tamanho do seu desespero. — Não vou esconder nada dele. Dê-me a informação. Ouvir o rádio ou ver a televisão era uma coisa. Encontrar-se diante do fato era outra bem diferente. Rayford Steele não tinha a menor idéia de como se sentiria se encontrasse algo que evidenciasse que sua esposa e seu filho tinham desaparecido da face da terra. No alto da escada, na saleta que dá acesso aos quartos, ele parou junto às fotos penduradas. Irene, sempre seguindo a ordem cronológica, tinha pendurado os quadros começando pelos bisavós dele e dela. Antigos retratos em preto e branco, já um tanto descorados e trincados pelo tempo, de homens ossudos e mulheres do meio-oeste. Vinham em seguida as fotos coloridas já um pouco esmaecidas de seus avós em suas bodas de ouro. Depois seus pais, irmãos e eles mesmos. Quanto tempo passara desde que ele olhou detidamente a foto de seu casamento: ela usando um estilo de cabelo moderno na época, e ele com o cabelo cobrindo as orelhas e costeletas longas? E aquelas fotograϐias de Chloe com oito anos segurando nos braços o irmãozinho bebê! Como era confortador saber que Chloe estava viva e que a qualquer momento ele teria um contato com ela! Mas o que dizer dos outros dois? Eles desapareceram. Rayford não sabia o que esperar e pelo que orar. Imaginar que Irene e Raymie ainda estivessem aqui e que aquilo que ele via não passava de um sonho? Ele não podia esperar mais. A porta do quarto de Raymie estava um pouquinho aberta. Seu despertador estava tocando. Rayford o desligou. Sobre a cama, estava um livro que Raymie vinha lendo. Rayford, vagarosa e nervosamente, levantou os cobertores e encontrou o pijama de Raymie com o sıḿ bolo do Bulls no peito — seu time favorito de basquete — a cueca e as meias. Ele sentou-se na cama e chorou, lembrando que Irene insistia em que Raymie calçasse meias ao deitar. Rayford colocou as roupas numa pilha bem-arrumada e observou uma fotograϐia dele mesmo no criado-mudo. Na foto, Rayford aparecia sorridente dentro do terminal do aeroporto, o quepe embaixo do braço, e ao fundo um 747 do outro lado da parede envidraçada. A foto estava assinada: "Ao Raymie, com amor, papai." Embaixo desta dedicatória, ele escreveu "Rayford Steele, capitão-aviador, Linhas Aéreas Pan-Continental, O'Hare." Ele meneou a cabeça. Que tipo de pai autografa uma foto para seu filho? O corpo de Rayford parecia de chumbo. Ele teve de se esforçar para ϐicar em pé. Em seguida, teve uma tontura, lembrando-se de que não tinha comido nada havia muitas horas. Ele saiu devagar do quarto de Raymie, sem olhar para trás, e fechou a porta. No ϐim da saleta, ele parou diante da porta com painéis em relevo que dava acesso ao quarto do casal. Que lugar bonito e bem-ornamentado Irene fez, com que gosto ela decorava todos os cantos da casa! Tinha ele alguma vez dito a ela que apreciava isso? Tinha ele alguma vez apreciado isso? Não havia nenhum despertador a desligar ali. O cheiro de café é que sempre acordava Irene. Outra fotograϐia de ambos, ele olhando conϐiantemente para a câmera, ela olhando para ele. Ele não a merecia. Ele merecia isto, reconheceu — ser escarnecido por seu egocentrismo e despojado da pessoa mais importante de sua vida. Rayford aproximou-se da cama, sabendo o que ia encontrar. O travesseiro afundado no lugar da cabeça, os cobertores enrugados. Ele podia sentir o cheiro dela, embora soubesse que a cama devia estar fria. Puxou cuidadosamente os cobertores e lençóis e encontrou o medalhão de Irene, que tinha uma foto dele. Sua camisola de ϐlanela, aquela que ele criticava brincando e que ela usava somente quando ele não estava em casa, o que evidenciava sua partida. Com um nó na garganta, os olhos absortos, ele notou sua aliança perto do travesseiro, onde ela sempre apoiava a face com a mão. Era demasiado para suportar, e ele sucumbiu. Pegou a aliança e a colocou na palma da mão, sentando-se na beirada da cama, o corpo torturado pela fadiga e pela dor. Pôs a aliança no bolso de sua jaqueta e percebeu o pequeno pacote que ela havia mandado pelo correio. Abrindo-o, encontrou dois de seus doces favoritos feitos em casa encimados por um coração de chocolate. Que encanto de mulher! Pensou ele. Nunca a mereci, nunca a amei o suϔiciente! Ele pôs os doces em cima do criado-mudo; o cheiro familiar deles enchia o ar. Com os dedos enrijecidos, tirou suas roupas e deixou-as cair ao chão. Deitou-se de bruços na cama, apanhou a camisola de Irene entre os braços para poder cheirá-la e imaginá-la a seu lado. E Rayford chorou até adormecer.


C A P Í T U L O 5

 BUCK Williams entrou numa das cabinas do lavatório dos homens no Clube PanContinental para fazer uma verificação minuciosa de seus pertences. Dentro de um bolso interno de sua calça rancheira, ele carregava milhares de dólares em cheques de viagem resgatáveis em dólares, marcos ou ienes. Sua única maleta de couro continha duas mudas de roupas, seu laptop, telefone celular, gravador de ϐitas, acessórios, estojo de toalete, além de algumas peças de roupa para o inverno. Ele estava equipado para passar dez dias na Grã-Bretanha quando deixou Nova York três dias antes dos desaparecimentos apocalıṕ ticos. Era seu costume nessas viagens intercontinentais cuidar de sua roupa, lavando-a numa pia de hotel, deixando-a secar o dia todo, enquanto usava outro conjunto do vestuário, tendo ainda um de reserva. Deste modo, ele nunca ficava sobrecarregado com muita bagagem. Buck havia desviado seu trajeto fazendo uma parada em Chicago especiϐicamente para resolver uma pendência com a chefe da sucursal do Semanário Global de lá, uma mulher negra de seus 50 anos chamada Lucinda Washington. Ele teve um desentendimento com ela por ter passado por cima de sua equipe com um furo de reportagem sobre uma matéria que estava debaixo do nariz de todos. Um ás legendário da equipe dos Bears encontrara um número suϐiciente de sócios para ajudá-lo a comprar um time de futebol proϐissional. Buck farejou o assunto, foi atrás, localizou o homem, fez a reportagem e publicou-a. — Admiro você, Cameron — tinha dito Lucinda Washington, recusando-se intencionalmente a usar seu apelido. — Mas o mıń imo que vocêdevia ter feito era me pôr a par disso. — E deixar que você escalasse alguém que deveria ter tomado a iniciativa? — O esporte nem mesmo é da sua pauta de matérias, Cameron. Depois de descobrir o "Fazedor da Notıć ia do Ano" e fazer a cobertura da derrota da Rússia por Israel, como o próprio Deus diria, como pode vocêter interesse em ninharia como esta? Vocês, do tipo almofadinha, só costumam gostar de hóquei e rúgbi. — Isto era mais do que uma reportagem sobre esporte, Lucy, e... — EU... — Desculpe-me, Lucinda. E esse não é um linguajar por demais surrado? Rúgbi e hóquei? Eles gargalharam ao mesmo tempo. — Não estou nem mesmo dizendo que você deveria avisar-me que está na cidade — continuou ela. — Tudo o que peço é que ao menos me informe antes de publicar a matéria no Semanário. Meu pessoal e eu ϐicamos muito constrangidos em ser passados para trás desse modo, especialmente pelo famoso Cameron Williams, mas para que isso seja... — É por isso que você está zangada comigo? Lucinda soltou uma gargalhada outra vez. — Foi por isso que disse ao Plank que precisava de uma conversa frente a frente para continuarmos amigos. — E o que fez você pensar que eu me preocuparia com isso? — Porque você me ama — disse Lucinda. — Você não pode esconder isto. Buck sorriu, e Lucinda acrescentou: — Mas, Cameron, se eu pegá-lo nesta cidade outra vez, em meu setor, sem previamente avisar-me, vou lhe dar umas boas palmadas. — Bem, ouça, Lucinda. Deixe-me dar-lhe uma pista que não vou ter tempo de desenvolver. Fiquei sabendo que o direito de compra do time acabou indo por água abaixo. O dinheiro estava curto, e a liga rejeitará a oferta. O glorioso time de sua cidade vai se complicar. Lucinda começou a rabiscar algo furiosamente. — Você não está falando sério — disse-lhe ela, tirando o fone do gancho. — Não, não estou, mas será muito divertido ver você entrar em ação correndo como barata tonta. — Seu desprezıv́ el — berrou ela. — Outro qualquer que me dissesse isso seria jogado daqui pra fora aos pontapés. — Mas você me ama. Você não faria isso. — Esta não é uma atitude cristã — retrucou ela. — Não me venha com essa conversa de novo. — Vamos lá, Cameron. Você sabe que mudou de idéia quando viu o que Deus fez em Israel. — Admito, mas não comece a me chamar de cristão. Deísta é o máximo que posso ser. — Fique na cidade uns dias mais e venha comigo à minha igreja, e Deus vai convencê-lo. — Ele já me inϐluenciou, Lucinda. Mas Jesus é outra coisa. Os israelitas odeiam Jesus, mas reconhecem o que Deus fez por eles. — O Senhor trabalha de... — ...forma misteriosa, sim, eu sei. A propósito, viajo para Londres segunda-feira. Vou trabalhar numa dica quente fornecida por um amigo de lá. — O que é? — Esqueça. Ainda não nos conhecemos muito bem. Ela riu ruidosamente, e se separaram com um abraço amigável. Isto tinha se passado três dias antes. Buck tinha embarcado no infortunado vôo para Londres preparado para qualquer coisa. Ele estava atrás de uma dica de um ex-colega de classe em Princeton, um galés que tinha passado um tempo trabalhando no centro ϐinanceiro de Londres desde sua graduação. Dirk Burton tinha sido uma fonte conϐiável no passado, alertando-o a respeito de encontros secretos de ϐinancistas internacionais de alto nıv́ el. Durante anos, Buck havia se deleitado um pouco com a tendência de Dirk entreter-se com teorias conspirativas. — Deixe-me entender isso direito — Buck tinha perguntado a ele uma vez -, você acha que esses caras são de fato os líderes mundiais? — Eu não iria tão longe, Cameron — respondeu-lhe Dirk. -Tudo o que sei é que eles são importantes, pertencem ao setor privado, e depois que se reúnem acontecem grandes negócios. — Vocêacha que eles elegem os lıd́ eres mundiais, escolhem a dedo os ditadores, esse tipo de coisa? — Não pertenço ao rol do clube dos conspiradores, se é isso que você quer dizer. — Então de onde você tirou essa idéia, Dirk? Vamos lá, você é um cara relativamente experiente. Corretores poderosos estão por trás das cenas? Investidores e agitadores são os que controlam o dinheiro? — Tudo o que sei é que a Bolsa de Londres, a Bolsa de Tóquio, a Bolsa de Nova York — todos nós basicamente navegamos em águas calmas até que esses caras se reúnam. Aı́então as coisas acontecem. — Vocêquer dizer que, quando os ıń dices da Bolsa de Valores de Nova York oscilam forte e repentinamente por causa de uma decisão presidencial ou algum voto do Congresso, isso se deve na verdade ao seu grupo secreto? — Não, mas este é um exemplo perfeito. Se há uma oscilação no mercado por causa da saúde do presidente, imagine o que acontece nos mercados mundiais quando o verdadeiro grupo do dinheiro se reúne. — Mas como o mercado sabe que eles vão se reunir? Pensei que você era o único que sabia. — Cameron, falemos sério. Muitas pessoas não concordam comigo, e por isso simplesmente não digo nada a ninguém. Um dos nossos grandalhões faz parte desse grupo. Quando eles têm um encontro, nada acontece imediatamente. Mas alguns dias depois, uma semana, as mudanças ocorrem. — Por exemplo? — Você vai me chamar de louco, mas um amigo meu se relaciona com uma garota que trabalha para a secretária do cara desse grupo, e... — Epa! Pare! Aonde você quer chegar? — Bem, talvez a conexão seja um pouco remota, mas você sabe que a secretária do cara não vai dizer nada. De qualquer modo, o boato que corre é que esse cara é ardoroso defensor da moeda única para o mundo inteiro. Você sabe que a metade do nosso tempo é gasto em manipular taxas de câmbio e tudo mais. Os computadores estão ligados ininterruptamente para reajustar as taxas, dia e noite, o ano inteiro, com base nos caprichos dos mercados. Buck não estava convencido. — Uma moeda global? Nunca vai acontecer — conjeturou. — Como você pode dizer isso categoricamente? — Muito estranho. Impraticável. Veja o que aconteceu nos Estados Unidos quando tentaram introduzir o sistema métrico. — Devia ter acontecido. Vocês ianques são uns jecas. — O sistema métrico era necessário somente para o comércio internacional. Não para medir a área externa do Yankee Stadium ou quantos quilômetros há entre Indianápolis e Atlanta. — Eu sei, Cameron. Seu povo pensava que, se vocês fizessem mapas e marcos de distância fáceis de ler, estariam abrindo caminho para os comunistas dominarem. E agora onde estão os seus comunistas? Buck não levou a sério a maioria das idéias de Dirk Burton, senão poucos anos depois, quando Dirk o chamou no meio da noite. — Cameron — disse ele, não se lembrando do apelido dado por seus colegas e amigos -, não posso falar muito. Você pode ir atrás do que vou dizer-lhe ou esperar que aconteça e arrepender-se mais tarde de não ter aproveitado a matéria para fazer uma reportagem. Mas você está lembrado daquele negócio que eu estava dizendo sobre uma moeda universal? — Sim. Ainda estou em dúvida. — OƵtimo, mas estou lhe dizendo que a notıć ia que corre aqui é que o cara jogou a idéia na mesa na última reunião desses financistas secretos e alguma coisa está fermentando. — O que está fermentando? — Bem, haverá uma importante Conferência Monetária das Nações Unidas, e o tema será a adequação e aprimoramento da moeda. — Grande negociata. — É grande, Cameron. O cara conseguiu bater o martelo. Ele, naturalmente, estava tentando fazer com que a moeda fosse à libra esterlina. — Que surpresa haverá quando isso não acontecer. Olhe para a economia de seu país. — Mas ouça. A grande notıć ia, vazada de uma reunião secreta, é que eles concordaram com três moedas para o mundo todo, esperando chegar a uma única dentro de uma década. — De modo algum. Não vai acontecer. — Cameron, se minha informação é correta, o estágio inicial é um acordo selado. A conferência das Nações Unidas servirá apenas como uma fachada. — E a decisão já foi tomada por seus manipuladores de fantoches secretos. — É isso mesmo. — Não sei, Dirk. Você é um amigo, mas deveria estar fazendo o que eu faço. — Quem não faria? — Bem, é verdade. Certamente eu não queria fazer o que você está fazendo. — Mas não estou errado, Cameron. Teste minha informação. — Como? — Minha previsão é que a ONU vai se manifestar dentro de duas semanas, e, se eu estiver certo, comece a me tratar com um pouco de deferência, um pouco de respeito. Buck lembrou-se de que ele e Dirk, como os demais colegas, andavam se esmurrando em Princeton durante a pizza e cerveja nos fins de semana nos dormitórios. — Dirk, ouça. Isso parece interessante, e estou prestando atenção. Mas você sabe muito bem, não sabe? Brincadeira à parte, eu não desmereceria nem um tiquinho você, mesmo que estivéssemos há muito tempo afastados. — Obrigado, Cameron. Realmente isto signiϐica muito para mim. E, afora este pequeno petisco, vou lhe dar uma dica extra. Não vou apenas dizer que a resolução da ONU vai ser pelo dólar, marco e iene dentro de cinco anos, mas também vou dizer que o verdadeiro poder por trás disso é o do americano. — O que você quer dizer com isso? — O mais poderoso dos grupos internacionais secretos de homens do dinheiro. — Este cara dirige o grupo, em outras palavras? — EƵ ele quem descartou a libra esterlina como uma das moedas e tem o dólar em mente como mercadoria única no final. — Quem é ele? — Jonathan Stonagal. Buck estava esperando que Dirk citasse alguém ridıć ulo, para que explodisse em gargalhada. Mas teve de admitir, ainda que somente para si mesmo, que, se havia alguma coisa a respeito deste assunto, Stonagal seria uma escolha lógica. Stonagal, um dos homens mais ricos do mundo e de longa data muito conhecido como um poderoso corretor americano, tinha de estar envolvido, se um tema ϐinanceiro global sério estivesse em discussão. Embora já tivesse mais de 80 anos e aparentasse fragilidade em suas últimas fotos, ele não somente possuıá os maiores bancos e instituições ϐinanceiras dos Estados Unidos, mas também possuıá ou tinha grande participação em outras instituições financeiras espalhadas pelo mundo. Embora Dirk fosse um amigo, Buck sentia a necessidade de manter com ele um pouco de jogo do faz-de-conta, para torná-lo ávido de prover informações. — Dirk, preciso voltar para a cama. Gostei de tudo isto e achei muito interessante. Vou ver o que resultará desse acordo da ONU. Tentarei também acompanhar os passos de Jonathan Stonagal. Se acontecer do modo que você imagina, você será meu melhor informante. Enquanto isso, veja se descobre para mim quantos fazem parte desse grupo secreto e onde se reúnem. — Isto é fácil — disse Dirk. — Há pelo menos dez, embora outros mais às vezes compareçam às reuniões, inclusive alguns chefes de Estado. — Presidentes dos Estados Unidos? — Ocasionalmente, acredite ou não. E eles costumeiramente se reúnem na França. Não sei por quê. Numa espécie de chalé particular ou coisa parecida que dá a eles uma sensação de segurança. — Seu amigo não perde nenhuma notıć ia, seja ela procedente de um amigo, de um parente, de um subordinado de secretária ou de qualquer outra pessoa. — Ria quanto quiser, Cameron. Nosso cara no grupo, Joshua Todd-Cothran, pode não ser precisamente tão reservado como os demais. — Todd-Cothran? Ele não é o presidente da Bolsa de Londres? — Ele mesmo. — Não ser reservado? Como pode ele ter uma tamanha posição e não ser reservado? E mais, quem já ouviu falar de um britânico que não fosse reservado? — Acontece. — Boa-noite, Dirk. Naturalmente, tudo acabou se conϐirmando. A ONU tomou sua resolução. Buck descobriu que Jonathan Stonagal esteve hospedado no Hotel Plaza, em Nova York, durante os dez dias da conferência. O Sr. Todd-Cothran, de Londres, tinha sido um dos oradores mais eloqüentes, demonstrando tal ansiedade de ver a questão resolvida que se dispôs a passar a tocha ao primeiro-ministro com vistas à mudança da libra para o marco. Muitos paıś es do Terceiro Mundo lutaram contra a mudança, mas em poucos anos as três moedas espalharam-se pelo mundo. Buck tinha conversado somente com Steve Plank sobre esta dica das reuniões da ONU, mas não disse qual foi a fonte da informação. Nem ele nem Plank sentiram que valesse a pena um artigo especulativo sobre o assunto. — Muito arriscado — dissera Steve. Logo ambos desejaram que tivessem tomado a iniciativa de publicar a matéria com antecedência. — Vocêteria se tornado mais do que uma lenda, Buck. Dirk e Buck tinham ϐicado mais amigos do que nunca, e agora era raro Buck visitar Londres sem avisá-lo com antecedência. Se Dirk tivesse um fato sério, Buck pegava sua maleta e viajava. Suas viagens tinham geralmente se transformado em excursões a paıś es e climas que o surpreendiam, por isso tinha de levar roupas adequadas a várias estações. Agora, parecia, isso tudo era supérϐluo. Ele se sentia preso em Chicago depois do mais desnorteante fenômeno na história mundial, tentando chegar a Nova York. Apesar da incrıv́ el praticidade e potencialidade de seu laptop, não havia ainda substituto para a sua agenda de bolso. Buck rabiscou uma lista de coisas a fazer antes de viajar outra vez: Chamar Ken Ritos, piloto freteiro Chamar papai e Jeff Chamar Hattie Durham para dar notícias da família Chamar Lucinda Washington sobre hotel local Chamar Dirk Burton Rayford Steele acordou com o som do telefone. Ele tinha ϐicado imóvel várias horas. Era um fim de tarde, e o céu estava começando a escurecer. — Alô — disse ele, não conseguindo disfarçar o tom rouquenho e sonolento da voz. — Capitão Steele? — Era a voz ansiosa e nervosa de Hattie Durham. — Sim, Hattie. Você está bem? — Estive tentando contatá-lo durante horas! Meu telefone ϐicou mudo por muito tempo e, depois, só deu sinal de ocupado. Consegui chamar seu telefone e ouvia o sinal dos toques, mas você nunca respondia. Nada soube de minha mãe e minhas irmãs. E quanto a você? Rayford sentou-se na cama, atordoado e desorientado. — Recebi um recado de Chloe — respondeu ele. — Eu já sabia — disse Hattie. — Vocême contou em O'Hare. Sua esposa e seu ϐilho estão bem? —Não. — Não? Rayford ficou em silêncio. Que outra coisa havia para dizer? — Você tem certeza de alguma coisa? — perguntou ela. — Acho que sim — respondeu. — Suas roupas de dormir estão aqui. — Oh! não! Rayford, sinto muito! Posso fazer alguma coisa por você? — Não, obrigado. — Você precisa de companhia? — Não, obrigado. — Estou com muito medo. — Eu também, Hattie. — O que você vai fazer? — Continuar tentando localizar Chloe. Espero que ela possa vir para casa ou eu possa ir até ela. — Onde ela está? — Stanford. Paio Alto. — Minha gente está na Califórnia também — disse Hattie. -Eles tiveram todo tipo de problemas lá, até pior do que aqui. — Imagino que sim, por causa da diferença de horário -Rayford respondeu. — Mais pessoas nas estradas, este tipo de coisa. —\Estou morrendo de medo de que tenha acontecido alguma coisa ruim com minha família. — Dê-me notícia quando descobrir, Hattie, certo? — Sim, mas espero que você me ligue. Meu telefone está mudo, por isso não poderei contatá-lo. — Quero dizer a vocêque tentei chamá-la, Hattie, mas não pude. Isto é muito difıć il para mim. — Se precisar de mim, avise-me, Rayford. Talvez vocêprecise de alguém com quem falar ou que esteja a seu lado. — Farei isso. E você me informe o que souber de sua famıĺia. Ele quase desejou não ter acrescentado isto. A perda de sua esposa e ϐilho o fez perceber quão inapropriada era a relação que ele tinha estado buscando com uma mulher de 27 anos. Ele mal a conhecia e, na verdade, não se importava com o que acontecera à famıĺia dela. A sensação era a mesma de ter lido no jornal a notıć ia de uma tragédia em algum lugar remoto. Ele sabia que Hattie não era má pessoa. Na realidade, ela era encantadora e amiga. Mas não era por isso que estava interessado nela. Tinha sido meramente uma atração fıś ica, alguma coisa em que ele foi suϐicientemente esperto, feliz ou ingênuo por não ter agido precipitadamente. Ele se sentia culpado por ter considerado tal possibilidade. Agora, sua angústia apagaria tudo, menos a cortesia de simplesmente se importar com uma colega de trabalho. — Há um telefonema para mim — disse ela. — Pode esperar? — Não, vá atender. Chamo você mais tarde. — Vou ligar de volta, Rayford. — Ah! Sim, está bem. Buck Williams voltou para a fila e teve acesso a um telefone público. Desta vez, não estava tentando ligar seu computador a ele. Queria simplesmente saber quantas ligações pessoais podia fazer. Conseguiu primeiro ligar para Ken Ritz. A secretária eletrônica atendeu: "Serviço de Frete Ritz. Este é o esquema em razão da crise: Tenho Learjets tanto em Palwaukee como em Waukegan, mas perdi meu outro piloto. Posso ir a qualquer aeroporto, mas neste momento não estão permitindo pousos em nenhuma das principais pistas. Não posso ir a Milwaukee, 0'Hare, Kennedy, Logan, National, Dulles, Dallas, Atlanta. Posso descer em alguns dos aeroportos menores mais afastados, mas isto precisa ser negociado. Desculpe-me por ser tão oportunista, mas estou pedindo US$ 1,25 por quilômetro, pagamento no ato. Se houver alguém que queira voltar no mesmo vôo, posso dar-lhe um pequeno desconto. Vou checar esta gravação à noite e amanhã cedo acertaremos o embarque. Interessa-nos fazer viagens mais longas com garantia de pagamento no ato. Se sua parada for no meio da viagem, tentarei encaixá-lo no vôo. Deixe-me uma mensagem, e eu retornarei." Aquilo era uma piada. Como Ken Ritz iria localizar Buck? Sem poder contar com seu telefone celular, a única coisa em que ele poderia pensar era deixar seu número do voice mail de Nova York. "Sr. Ritz, meu nome é Buck Williams. Estou necessitado de chegar o mais perto possıv́ el da cidade de Nova York. Pagarei o preço da passagem informado com cheque de viagem, resgatável em qualquer moeda que deseje." AƱs vezes, este era um atrativo para contratantes particulares, porque eles tinham a possibilidade de beneϐiciar-se de uma diferença da moeda escolhida e poderiam, assim, conseguir um pequeno lucro no câmbio. "Estou em O'Hare e tentarei encontrar um lugar para ϐicar num dos bairros. Para poupar seu tempo, vou escolher algum lugar entre O'Hare e Waukegan. Se eu conseguir um novo número de telefone neste intervalo, lhe informarei. Enquanto isto, queira deixar uma mensagem para mim no seguinte número em Nova York." Buck ainda estava impossibilitado de contatar seu escritório diretamente, mas seu número do voice mail funcionou. Ele tomou conhecimento de novas mensagens, a maioria delas de seus colegas de trabalho procurando obter informações sobre o ocorrido e informando a perda de amigos comuns. Havia também a mensagem de saudação de Marge Potter, que foi genial ao pensar em deixar uma para ele. "Buck, se você receber este recado, telefone para seu pai em Tucson. Ele e seu irmão estão juntos, e eu detesto ter de dizer isto a você, mas eles estão tendo diϐiculdade de localizar a esposa e os ϐilhos de Jeff. Eles devem ter notıć ia quando vocêtelefonar para lá. Seu pai ficou muito contente e agradecido quando informei que você estava bem." O voice mail de Buck indicava também que ele tinha uma outra mensagem. Era aquela de Dirk Burton que, em primeiro lugar, incentivava sua viagem. Ele precisaria ouvi-la novamente quando tivesse tempo. Enquanto isso, deixou uma mensagem para Marge dizendo-lhe que, se tivesse tempo e uma linha disponıv́ el, era preciso informar a Dirk que o vôo dele nunca chegou a Heathrow. Naturalmente, a esta altura Dirk devia estar sabendo, mas era importante que ele fosse informado de que Buck não estava entre os desaparecidos e que estaria lá no devido tempo. Buck desligou e, em seguida, telefonou para seu pai. A linha estava ocupada, mas não era o mesmo tipo de ruıd́ o indicador de queda de linhas ou de defeito em todo o sistema. Nem se tratava daquela enervante gravação que ele estava acostumado a ouvir. Ele sabia que era somente uma questão de tempo conseguir completar a ligação. Jeff devia estar desnorteado sem notıć ia de sua esposa, Sharon, e das crianças. Eles tiveram suas diferenças e chegaram até a se separar antes do nascimento dos ϐilhos, mas por vários anos o casamento vinha sendo preservado. A esposa de Jeff tinha demonstrado espıŕ ito de perdão e conciliação. O próprio Jeff admitiu que ϐicou perplexo quando ela o aceitou de volta. "Chame-me de indigno, mas agradecido", disse ele uma vez a Buck. O ϐilho e a ϐilha do casal, ambos parecidos com Jeff, eram preciosos. Buck localizou o número que a bela aeromoça loira lhe tinha dado e arrependeu-se de não ter procurado contatá-la antes. Demorou um pouco para ela atender. — Hattie Durham, aqui fala Buck Williams. — Quem? — Cameron Williams, do Semanário... — Oh! Sim! Alguma notícia? — Sim, senhorita, boas notícias. — Oh! Graças a Deus! Conte-me. — Alguém do meu escritório me disse que encontraram sua mãe e que ela e suas irmãs estão ótimas. — Oh! Obrigada, obrigada, muito obrigada! Não sei por que elas não me telefonaram. Talvez tenham tentado. Meu telefone enguiça a todo o momento. — Há outros problemas na Califórnia, senhorita. As linhas caem freqüentemente. Talvez leve algum tempo para poder falar com elas. — Eu sei. Ouvi dizer. Bem, ϐico muito grata por sua atenção. E você? Conseguiu contato com sua família? — Soube que meu pai e meu irmão estão bem. Ainda não temos notıć ia de minha cunhada e seus filhos. — Oh! Qual é a idade dos filhos? — Não consigo me lembrar. Os dois têm menos de dez, mas não sei exatamente. — Oh! — A voz de Hattie parecia triste, mas reservada. — Por quê? — perguntou Buck. — Por nada. É apenas que... — O quê? — Você não pode se basear no que eu vou dizer. — Diga-me, Srta. Durham. — Bem, vocêestá lembrado do que lhe disse no avião. De acordo com as notıć ias, parece que todas as crianças desapareceram, inclusive as que estavam para nascer. — Si... sim... sei. — Não estou dizendo que os filhos de seu irmão estão... — Eu sei. — Lamento ter falado nisso. — Não se preocupe. Isto é muito estranho, não lhe parece? — Sim. Eu acabo de falar por telefone com o capitão que pilotou o avião em que você estava. Ele perdeu a esposa e o filho, mas sua filha está bem. Ela também está na Califórnia. — Qual é a idade dela? — Uns vinte, imagino. Ela está em Stanford. -Oh! — Sr. Williams, por que nome é mais conhecido? — Buck. É um apelido. — Bem, Buck, posso estar errada quanto ao que eu disse a respeito de sua sobrinha e de seu sobrinho. Espero que haja exceções e que eles estejam bem. Hattie começou a chorar. — Srta. Durham, não se preocupe. Devemos admitir que ninguém está pensando direito neste momento. — Pode me chamar de Hattie. Isto lhe soou um tanto irônico diante das circunstâncias. Ela estava se desculpando por ter sido inconveniente e, por outro lado, não queria ser muito formal. Se ele era Buck, ela era Hattie. — Acho que não devo ϐicar ocupando sua linha — disse ele. — Apenas queria passar-lhe as notícias. Pensei que talvez, a esta altura, já soubesse. — Não, e obrigada mais uma vez. Você se importaria de me telefonar outra vez quando puder ou se lembrar? Você parece ser uma pessoa gentil, e estou muito grata pelo que fez por mim. Apreciaria ouvi-lo novamente. Este é um momento assustador e solitário. Ele não podia tirar uma dedução dessa insinuação. Foi estranho. Seu pedido parecia qualquer coisa como "Venha me ver". Ela parecia absolutamente sincera, e ele estava acreditando. Uma mulher bonita, assustada, solitária, cujo mundo tinha sido abalado, tanto quanto o seu e dos que ele conhecia. Quando desligou o telefone, Buck viu a jovem no balcão acenando para ele. — Escute — disse ela em voz baixa -, eles não querem que eu faça uma comunicação pelo alto-falante, para evitar um corre-corre, mas acabamos de ouvir algo interessante. As empresas fretadoras de vôo se associaram e mudaram seu centro de comunicação para uma meia pista perto do cruzamento da estrada Mannheim. — Onde é? — Nos arredores do aeroporto. Não há tráfego para acesso aos terminais, por causa do congestionamento total. Mas, se você puder caminhar até o cruzamento, provavelmente encontrará todos aqueles caras com receptores portáteis tentando conseguir limusine ou microônibus chegando e saindo. — Posso imaginar os preços. — Não, provavelmente não pode. — Posso imaginar o tempo de espera. — O mesmo que ficar na fila para pegar um carro alugado em Orlando — disse ela. Buck nunca tinha feito isso, mas também podia imaginar o que signiϐicava. E ela estava certa. Depois de pegar uma carona, com um grupo, até o cruzamento da Mannheim, ele encontrou uma porção de gente cercando os intermediadores. Avisos intermitentes chamavam a atenção de todos. — Estamos lotando cada carro. Cem dólares por cabeça para qualquer subúrbio. Somente a vista. Nenhum deles está indo para Chicago. — Aceita cartões? — alguém gritou. — Vou repetir — disse o intermediador. — Só dinheiro vivo. Se vocês tiverem de pegar o dinheiro ou talão de cheques ao chegar em casa, acertem isso com o motorista, na base da confiança. Ele anunciou uma lista de quais empresas estavam saindo e seus destinos. Os passageiros correram para lotar os carros, permanecendo em fila no acostamento da via expressa. Buck entregou um cheque de viagem de 100 dólares ao intermediador para os subúrbios da região norte. Uma hora e meia depois, ele se juntou a vários outros numa limusine. Depois de tentar usar seu telefone celular inutilmente de novo, ele ofereceu ao motorista 50 dólares para usar o telefone dele. — Não garanto nada — disse o motorista. — Algumas vezes, funciona, outras vezes, não. Ele procurou o número da casa de Lucinda Washington na agenda de endereços em seu laptop e discou. Um jovem adolescente respondeu: — Residência da família Washington. — Cameron Williams, do Semanário Global, para falar com Lucinda. — Minha mãe não está — disse o jovem. — Ela está no escritório? Preciso de uma recomendação sobre onde me hospedar perto de Waukegan. — Ela não está em nenhum lugar — disse o jovem. -Sou o único que ϐicou. Mamãe, papai, todos se foram. Desapareceram. — Tem certeza? — Suas roupas estão aqui, bem no lugar onde eles estavam sentados. As lentes de contato de meu pai ainda estão em cima de seu roupão de banho. — Oh! Rapaz! Sinto muito. — Está tudo bem. Eu sei onde eles estão, nem posso dizer que estou surpreso. — Você sabe onde eles estão? — Se você conheceu minha mãe, também sabe onde ela está. Ela está no céu. — Sim, hã, você está bem? Há alguém para cuidar de você? — Meu tio está aqui. E um membro de nossa igreja. Provavelmente, o único que sobrou. — Então você está bem? — Estou bem. Cameron fechou o aparelho e devolveu-o ao motorista. — Tem alguma idéia de onde devo ϐicar, uma vez que estou tentando um vôo partindo de Waukegan de manhã? — A cadeia de hotéis provavelmente está lotada, mas há uns dois hotelecos ou pensões baratas onde você pode se enϐiar. Ficam perto do aeroporto. Você será o último passageiro a descer. — Bem, que fazer? Eles têm telefone nessas espeluncas? — É mais provável que tenham telefone e televisão do que água corrente.

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