C A P Í T U L O 4
BUCK pressionou um lenço ensopado de água fria sobre o lado de trás da cabeça. A ferida
tinha parado de sangrar, mas latejava. Ele encontrou outra mensagem em seu e-mail e estava
se preparando para responder quando recebeu uma batidinha no ombro.
— Sou médico. Deixe-me fazer um curativo em seu ferimento.
— Oh! está tudo bem, e eu...
— Permita-me fazer isto, companheiro. Estou ϐicando louco neste lugar, sem nada para
fazer, e tenho aqui minha maleta. Estou trabalhando de graça hoje. Chame isto de um
Arrebatamento Especial.
— Um o quê?
— Bem, como vocêchamaria o que aconteceu? — perguntou o médico, tirando um frasco
e gaze de sua maleta. — Isto está parecendo bastante rudimentar, mas ϐicaremos esterilizados.
Aids?
— Perdão, não entendi.
— Veja bem, você conhece a rotina — disse o médico enquanto colocava luvas de
borracha. — Você contraiu o vírus HIV ou qualquer doença semelhante?
— Não. E... eu não, estou gostando de ouvir isso. Naquele instante, o médico aspergiu uma
boa dose de desinfetante sobre a gaze e a colocou sobre o ferimento na cabeça de Buck.
— Aiii! Calma!
— Seja homem, garotão. Isto dói menos do que a infecção que teria se o ferimento não
fosse curado.
O médico raspou asperamente a ferida, limpando-a e fazendo escorrer o sangue
novamente.
— Ouça, estou fazendo uma pequena raspagem no cabelo para que o curativo não saia do
lugar. Tudo bem?
Os olhos de Buck marejavam.
— Sim, está certo, mas o que foi que o senhor disse a respeito de Arrebatamento?
— Há qualquer outra explicação que faça sentido? — disse o médico, usando um bisturi
para raspar o cabelo de Buck. Uma funcionária do clube aproximou-se e pediu que transferissem
a pequena cirurgia para um dos sanitários.
— Prometo limpar tudo, minha cara — disse o médico. — Está quase pronto.
— Bem, isto não pode ser higiênico, e temos de pensar nos outros.
— Por que vocênão serve a eles uns drinques e uns petiscos, hein? Você verá que isto vai
deixá-los mais aliviados num dia como este.
— Não aceito que o senhor me fale dessa maneira. O médico suspirou enquanto
trabalhava.
— Você está certa. Qual é o seu nome?
— Suzie.
— Ouça, Suzie, fui indelicado e peço desculpa, está bem? Agora deixe-me terminar isto.
Prometo que não farei qualquer outra cirurgia aqui em público.
Suzie afastou-se meneando a cabeça.
— Doutor — disse Buck -, deixe seu cartão comigo para que eu lhe agradeça
apropriadamente.
— Não precisa — disse o médico, guardando suas coisas.
— Agora me dê sua idéia sobre isto. O que quer dizer Arrebatamento?
— Outra hora. É sua vez de telefonar.
Buck estava sofrendo, mas não podia deixar passar a chance de se comunicar com Nova
York. Ele tentou discar diretamente, mas não conseguiu o contato. Então acoplou seu modem ao
telefone e começou a rediscagem, enquanto dava uma olhada na mensagem da secretária de
Steve Plank, a balzaquiana Marge Potter.
Buck, seu maroto! Além de ter muito o que fazer e me preocupar com o dia de hoje, ainda
tenho de procurar as famıĺias de suas garotas? Onde você conheceu essa Hattie Durham? Pode
dizer a ela que localizei sua mãe no oeste, mas isso foi antes que uma enchente ou tempestade
ou alguma outra coisa interrompesse as linhas telefônicas outra vez. Ela está perfeitamente
saudável, mas confusa, e ϐicou muito agradecida pela notıć ia de que sua ϐilha não desapareceu.
As duas irmãs de Hattie estão bem, conforme disse sua mãe.
Você é bom demais por ajudar pessoas como estas, Buck. Steve disse que você vai tentar
chegar aqui. Será bom reencontrá-lo. Isto tudo é tão terrıv́ el. Até agora sabemos de vários
funcionários desaparecidos. De vários outros, não tivemos notícias, incluindo alguns de Chicago.
Todo o pessoal da equipe principal foi localizado. Só estava faltando você. Esperei e orei
para que vocêestivesse bem. Observou que isso parece ter atingido os inocentes? Todos aqueles
que conhecemos e que se foram eram crianças ou pessoas muito bondosas. Por outro lado,
algumas pessoas maravilhosas ainda estão aqui. Steve e eu estamos contentes de você estar
entre elas. Entre em contato.
Ela não mencionou se pôde contatar o pai viúvo de Buck ou seu irmão casado. Buck ϐicou
intrigado, sem saber se ela omitiu a informação de propósito ou simplesmente ainda não tinha
notıć ia deles. Sua sobrinha e sobrinho deviam ter sumido, se fosse verdade que nenhuma criança
sobreviveu. Buck desistiu de tentar contato direto com o escritório, mas novamente foi bemsucedido
fazendo a conexão pelo computador. Ele enviou seus arquivos e, num piscar de olhos, a
informação de seu paradeiro. Desse modo, quando o sistema telefônico voltasse a funcionar
normalmente, o Semanário Global já poderia começar a trabalhar em cima do material enviado.
Ele pôs o fone no gancho e desconectou, recebendo o olhar de agradecimento do próximo
na ϐila, e em seguida foi procurar o médico. Não teve sorte. Marge tinha se referido aos
inocentes. O doutor admitia que tinha sido o Arrebatamento. Steve tinha ridicularizado os
alienıǵ enas do espaço. Mas como se poderia excluir qualquer coisa a esta altura? Sua mente já
estava ruminando idéias para a história que haveria atrás dos desaparecimentos. Seria o
trabalho pelo qual ele aguardara a vida inteira!
Buck entrou na ϐila para tentar comprar uma passagem para Nova York, sabendo que suas
possibilidades pelos meios convencionais eram escassas. Enquanto esperava, procurava lembrar
o que Chaim Rosenzweig, o "Fazedor da Notıć ia do Ano", havia falado com ele sobre o jovem
Nicolae Carpathia, da Romênia. Buck tinha conversado sobre isso ligeiramente com Steve
Plank, cuja opinião era que não valia a pena enxertá-lo numa reportagem já condensada.
Rosenzweig ficou impressionado com Carpathia, isto era verdade. Mas por quê?
Buck sentou-se no chão e só se movia quando a ϐila andava. Recorreu aos seus arquivos no
computador sobre a entrevista com Rosenzweig e chamou a palavra "Carpathia". Ele se
recordava de ter ϐicado sem jeito ao admitir a Rosenzweig que nunca tinha ouvido falar do
homem. AƱ medida que as transcrições da entrevista se desenrolavam na tela, ele digitou a tecla
"pare" e leu. Quando notou que o sinal de bateria esgotada acendeu, tirou um ϐio de extensão de
sua maleta e ligou o computador numa das tomadas ao longo da parede do balcão. "Cuidado
com o ϐio", gritava toda vez que alguém passava. Uma mulher atrás do balcão ordenou que ele
desligasse o fio da tomada.
Ele sorriu para ela.
— E se eu não desligar, vocêvai me expulsar daqui? Vou ser preso? Seja tolerante comigo,
pelo menos hoje!
Diϐicilmente as pessoas tinham sua atenção atraıd́ a por um manıá co sentado no chão
gritando com a mulher atrás do balcão. Isso raramente acontecia no Clube Pan-Continental, •
mas naquele dia ninguém se surpreendia com nada.
Rayford Steele desembarcou no heliporto do Hospital da Comunidade Noroeste, em
Arlington Heights, onde os pilotos tiveram de descer para dar lugar a um paciente que deveria
ser levado para Milwaukee. Os outros pilotos se amontoaram junto à entrada do hospital, na
esperança de conseguir um táxi, mas Rayford tinha uma idéia melhor. Resolveu ir a pé.
Ele estava cerca de oito quilômetros distante de casa e apostava que poderia pegar uma
carona mais facilmente do que encontrar um táxi. Esperava que seu uniforme de capitãoaviador
e sua boa aparência ϐizessem com que alguém se importasse com ele oferecendo-lhe
uma carona.
Enquanto fazia a penosa caminhada, a capa impermeável num braço e carregando a
maleta na outra mão, ele tinha uma sensação vazia e desesperançada. AƱquela altura, Hattie
devia ter chegado ao seu condomıń io, checando suas mensagens, tentando contato com sua
famıĺia. Se ele estava certo de que Irene e Ray Jr. tinham desaparecido, onde estariam quando
isso aconteceu? Encontraria alguma evidência de que tinham sumido, em vez de encontrarem a
morte em algum acidente relacionado com os desaparecimentos?
Rayford calculava que os desaparecimentos teriam ocorrido à noite, talvez por volta de 11
horas, no fuso horário da área central do paıś . Será que qualquer coisa os tirou de casa àquela
hora da noite? Ele não poderia imaginar o que teria acontecido e tinha dúvida quanto a isso.
Uma mulher de uns 40 anos parou para dar uma carona a Rayford na estrada de Algonquin.
Quando ele agradeceu-lhe e disse onde morava, ela afirmou que conhecia o bairro.
— Uma amiga minha mora lá. Melhor, morava. Conhece Li Ng, a garota asiática do
noticiário do Canal 71
— Conheço ambos, ela e o marido — disse Rayford. — Eles moram em nossa rua.
— Não mais. O noticiário de meio-dia de hoje foi dedicado a ela. A família inteira sumiu.
Rayford deu um forte suspiro de desabafo.
— Isto é inacreditável. A senhora perdeu alguém? :
— Infelizmente, sim — respondeu ela com a voz embargada. -Cerca de uma dúzia de
sobrinhas e sobrinhos.
—Uau!
— E o senhor?
— Ainda não sei. Acabo de chegar de um vôo e não consegui localizar ninguém.
— Quer que eu o espere?
— Não. Tenho um carro. Se eu precisar ir a algum lugar, não tenho problema.
— O'Hare está fechado, o senhor sabe — disse ela.
— É verdade? Desde quando?
— Eles acabam de avisar pelo rádio. As pistas estão lotadas de aviões, os terminais cheios
de gente, as estradas abarrotadas de carros.
Enquanto a mulher entrava em Monte Prospect, choramingando, Rayford sentiu um
esgotamento como nunca havia tido antes. As poucas casas da quadra tinham as entradas
repletas de carros, e pessoas se ajuntavam em grupos. Parecia que todo mundo, em toda parte,
tinha perdido alguém. Ele sabia que logo seria mais um entre eles.
— Posso servi-la em alguma coisa? — disse ele à mulher, enquanto ela entrava com o
carro na rampa de sua casa.
Ela meneou a cabeça.
— Estou apenas contente de ter podido ajudar. Ore por mim, se lembrar. Não sei se vou
suportar esta situação.
— Não sou muito chegado à oração — admitiu Rayford.
— O senhor vai ser — disse ela. — Eu também nunca fui, mas agora sou.
— Então a senhora pode orar por mim — disse ele.
— Vou orar. Esteja certo disso.
Rayford ϐicou em pé na entrada da casa e acenou para a mulher até perdê-la de vista. O
jardim e os corredores externos estavam impecáveis, como sempre, e a enorme casa, sua casatroféu,
estava sepulcral. Ele abriu a porta da frente. O jornal no patamar, as cortinas cerradas na
janela panorâmica e o cheiro forte de café queimado que ele sentiu indicavam o que ele temia.
Irene era uma dona-de-casa metódica. Sua rotina matutina incluıá a cafeteira
cronometrada para as seis horas, coando sua mistura especial de café descafeinado com um ovo.
O rádio estava programado para despertá-la às seis e meia, sintonizado na estação cristãlocal.
A primeira coisa que Irene fazia quando descia a escada era abrir as cortinas da frente e de trás.
Com um nó na garganta, Rayford atirou o jornal na cozinha e tratou de acomodar suas
coisas. Pendurou a capa e colocou a maleta no cubıć ulo. Lembrou-se de pegar o pacotinho que
Irene havia enviado ao O'Hare para ele e colocou-o no bolso largo de seu uniforme, carregandoo
consigo enquanto procurava por evidência de que ela havia desaparecido. Se isso fosse
verdade, ele sinceramente esperava que estivesse certa. Ele queria, acima de qualquer coisa,
que ela visse seu sonho realizado, que tivesse sido levada por Jesus num piscar de olhos — uma
jornada empolgante e indolor para o seu cantinho no céu, como ela sempre gostava de dizer.
Irene merecia isto.
E Raymie. Onde estaria? Com ela? Certamente. Ele ia com a mãe à igreja, mesmo quando
Rayford não a acompanhava. Parecia gostar daquilo, de pertencer à comunidade. Lia sua Bıb́ lia
e a estudava.
Rayford puxou o ϐio da tomada da cafeteira que tinha se desligado e ligado
automaticamente durante 7 horas, queimando o café. Jogou fora aquela massa meio empedrada
e deixou a cafeteira na pia. Desligou o rádio, que estava sintonizado na estação cristã
transmitindo notıć ias em cadeia, num tom enfadonho, sobre a tragédia e a destruição resultante
dos desaparecimentos.
Ele deu uma olhada na sala de estar, na sala de jantar e na cozinha, na expectativa de ver
a costumeira limpeza do lar de Irene. Seus olhos encheram-se de lágrimas; abriu as cortinas,
como ela teria feito. Seria possıv́ el que ela tivesse ido a algum lugar? Visitado alguém? Deixado
um recado para ele? Mas, se ela estivesse em algum lugar e ele a encontrasse, o que dizer da fé
que ela professava? Seria uma prova de que este não era o Arrebatamento em que ela
acreditava? Ou signiϐicaria que ela estava perdida tanto quanto ele? Se houve realmente o
Arrebatamento, ele esperava que Irene tivesse sido levada, para o bem dela. Mas a dor e o vazio
já o estavam dominando completamente.
Rayford ligou a secretária eletrônica e ouviu as mesmas mensagens que tinha ouvido do
O'Hare, mais a mensagem que ele mesmo tinha deixado. Sua própria voz pareceu-lhe estranha.
Ele detectou nela um tom fatalista, como se soubesse que sua esposa e filho não a receberiam.
Ele estava com medo de subir a escada para os dormitórios. Inspecionou todo o pavimento
inferior da casa até a saıd́ a da garagem. Se pelo menos um dos carros estivesse faltando... E um
estava! Quem sabe ela teria ido a algum lugar! Mas tão logo pensou nisso, Rayford desceu o
degrau para a garagem e notou de perto que era o seu BMW que estava faltando. Aquele que ele
levou ao O'Hare no dia anterior. O carro estava esperando por ele quando o tráfego voltasse ao
normal.
Os outros dois carros se encontravam lá, o de Irene e o que Chloe usava quando estava em
casa. E todas as lembranças de Raymie também estavam lá. Seu carrinho de quatro rodas, seu
trenó para deslizar na neve, sua bicicleta. Rayford teve ódio de si mesmo por haver quebrado
sua promessa de passar mais tempo com Raymie. Ele teria muito tempo ainda para lamentar
isso.
Rayford deu uns passos e ouviu o ruıd́ o do pequeno pacote em seu bolso. Era hora de subir
as escadas.
Estava quase chegando a vez de Buck Williams ser atendido no balcão do Clube PanContinental
quando ele encontrou a matéria que estava procurando em seu gravador. A certa
altura, durante os vários dias de gravação, Buck inquiriu o Dr. Rosenzweig acerca dos vários
países que tentavam assediá-lo na esperança de ter acesso à sua fórmula e tirar proveito dela.
— Este tem sido um aspecto interessante — aϐirmou Rosenzweig com os olhos brilhando.
— Fiquei muito lisonjeado com a visita do próprio vice-presidente dos Estados Unidos.
Ele quis homenagear-me, levar-me ao presidente, fazer-me alvo de um desϐile, conferirme
uma comenda, tudo isso. Diplomaticamente, ele nada falou sobre receber em troca qualquer
coisa, mas eu teria uma dıv́ ida para com ele, não é verdade? Muito foi dito sobre o que, como
paıś amigo de Israel, os Estados Unidos têm feito durante décadas. E isso é verdade, não é?
Como poderia eu contestar? Rosenzweig continuou:
— Mas eu procurava ver os prêmios e amabilidades como sendo todos para meu benefıć io
e, humildemente, os recusava. Como você vê, jovem, sou muito humilde, não sou?
Rosenzweig riu ruidosamente de si mesmo e contou várias outras histórias de dignitários
que procuraram agradá-lo.
— Foram todos sinceros? — Buck perguntou. — Algum o impressionou?
— Sim! — disse Rosenzweig sem hesitação. — Vindo do mais desconcertante e
surpreendente canto do mundo — Romênia. Não sei se ele foi enviado ou veio por conta própria,
mas suspeito que foi a segunda hipótese, porque era o oϐicial de menor graduação que me visitou
após eu ter recebido o prêmio. Esta é uma das razões por que quis vê-lo. Ele mesmo pediu a
audiência. Não procurou os canais tipicamente políticos ou protocolares.
— E ele era...?
— Nicolae Carpathia.
— Carpathia como os...?
— Sim, como os montes cárpatos. Um nome melodioso, você deve admitir. Achei-o
fascinante e humilde. Semelhante a mim!
De novo, ele deu uma gargalhada.
— Não ouvi falar dele.
— Você ouvirá! Você ouvirá.
— Porque ele é... — disse Buck tentando conduzir a conversa.
— Carismático, impressivo, é tudo o que posso dizer.
— E ele é algum tipo de diplomata em fase de ascensão a esta altura?
— Ele é um dos componentes da assembléia do governo romeno.
— No senado?
— Não, o senado está acima da assembléia.
— Certamente.
— Não se sinta mal por não saber estas coisas, embora seja um jornalista internacional.
Isto é algo que somente os romenos e os cientistas polıt́ icos amadores como eu sabem. EƵ o que
gosto de estudar.
— Em suas horas de descanso.
— Precisamente. Mas eu não conhecia esse homem. Quero dizer, conheci um da Câmara
dos Deputados — é como eles chamam a assembléia na Romênia — que era um paciϐicador e
liderava um movimento em prol do desarmamento.
Mas eu não sabia seu nome. Creio que sua meta é o desarmamento global, do qual nós,
israelenses, suspeitamos. Mas naturalmente ele deve primeiro efetuar o desarmamento em seu
próprio paıś , o que nem mesmo vocêverá até o ϐim de sua vida. Esse homem, por acaso, é mais
ou menos da sua idade. Loiro e de olhos azuis, como os romenos originais, que vieram de Roma,
antes que os mongóis se mesclassem com sua raça.
— O que o senhor mais apreciou nele?
— Vou contar-lhe — disse Rosenzweig. — Ele conhece minha lıń gua tão bem como a sua
própria. E fala um inglês ϐluente. Vários outros idiomas também, é o que dizem. Bem-instruıd́ o,
mas também amplamente autodidata. Sinceramente, gosto dele como pessoa. Muito brilhante.
Muito honesto. Muito aberto.
— O que ele queria do senhor?
— Isto foi o que mais me agradou. Por tê-lo achado tão aberto e honesto, ϐiz-lhe esta
pergunta. Ele insistiu que o chamasse de Nicolae, e então eu disse "Nicolae" (isto depois de uma
hora de amabilidades recıṕ rocas), "o que você deseja de mim?" Você sabe o que ele me disse,
jovem? "Dr. Rosenzweig, busco apenas sua benevolência." Que podia eu dizer? Respondi-lhe:
"Nicolae, você a tem." Sou pessoalmente um pouco paciϐista, você sabe. Não irrealisticamente.
Eu não mencionei isto a ele. Disse-lhe simplesmente que podia contar com minha benevolência,
algo que estendo também a você.
— Suponho que não é uma coisa que o senhor concede facilmente.
— Porque o aprecio é que vocêtem minha benevolência. Um dia você deverá conhecer
Carpathia. Vocês se apreciarão mutuamente. As metas e sonhos dele jamais poderão ser
concretizados, mesmo em seu paıś , mas ele é um homem de altos ideais. Se ele se destacar,
você ouvirá falar dele.
E como vocêestá se destacando em sua própria esfera, ele provavelmente ouvirá falar de
você ou o ouvirá, estou certo?
— Espero que sim.
De repente, chegou a vez de Buck ser atendido no balcão. Ele recolheu o ϐio de extensão e
agradeceu à jovem senhora por agüentá-lo.
— Queira desculpar-me por isso — disse ele, esperando pelo perdão que não aconteceu. —
O dia de hoje foi terrível, o pior de todos, a senhora deve compreender.
Aparentemente, ela não compreendeu. Tinha tido também um dia agitado. Ela o ϐitou
tolerantemente e perguntou:
— O que não posso fazer por você?
— Oh! a senhora diz isso porque não fiz o que me pediu?
— Não — respondeu ela. — Estou fazendo à mesma pergunta a todos. EƵ uma pequena
brincadeira, porque, na realidade, não posso fazer nada por ninguém. Não há vôos programados
para hoje. O aeroporto fechará a qualquer momento. Quem sabe dizer quanto tempo levará para
acabar toda esta confusão e conseguir algum jeito de fazer o tráfego se restabelecer? Posso
apenas anotar seu pedido, mas não posso receber sua bagagem, vender passagem, reservar
lugar, permitir uso de telefone, reservar apartamento em hotel, enϐim todas as coisas que
adoramos fazer para nossos sócios. Você é sócio, não é?
— Sou sócio!
— Ouro ou platina?
— Senhora, sou... digamos... um sócio criptônio [um gás nobre da atmosfera].
Ele exibiu seu cartão, indicando que estava entre os 3 % de viajantes do mundo que mais
usavam avião. Se qualquer vôo tivesse um lugar desde a classe mais econômica até a primeira
classe, tinha de ser dado a ele, sem nenhuma despesa.
— Oh! Meu Deus — disse ela -, não me diga que você é o Cameron Williams daquela
revista.
—Sou.
— Time? Não é isso?
— Não brinque. Não trabalho para o concorrente.
— Oh! Eu sabia. Sabia por que eu queria ingressar no jornalismo. Fiz faculdade de
jornalismo. Ouvi falar de você. O mais jovem vencedor do prêmio ou o que apresentou mais
reportagens de capa com menos de 12 anos de profissão?
— Foi divertido.
— Ou coisa parecida.
— Não posso acreditar que estamos brincando num dia como este — disse Buck.
De repente, a fisionomia dela assumiu um ar sério.
— Não quero nem pensar nisso. Então, o que posso fazer por você, se é que posso fazer
alguma coisa?
— O negócio é o seguinte — disse Buck. — Tenho de chegar a Nova York. Por favor, não
me olhe desse jeito. Sei que é o pior lugar aonde se pode ir neste momento. Mas a senhora
conhece muitas pessoas. A senhora conhece pilotos que fazem vôos fretados. Sabe de que
aeroportos eles decolam. Digamos que eu tenha recursos ilimitados e condições de pagar
qualquer preço para o que eu preciso. Quem a senhora me indicaria? Ela olhou ϐirme e pensativa
para ele.
— Não posso acreditar que você tenha me pedido isso.
— Por quê?
— Porque conheço alguém. Ele voa com esses pequenos jatos partindo de lugares como os
aeroportos Waukegan e Palwaukee. Ele é do tipo que cobra o dobro numa emergência,
especialmente se souber quem você é e o tamanho do seu desespero.
— Não vou esconder nada dele. Dê-me a informação.
Ouvir o rádio ou ver a televisão era uma coisa. Encontrar-se diante do fato era outra bem
diferente. Rayford Steele não tinha a menor idéia de como se sentiria se encontrasse algo que
evidenciasse que sua esposa e seu filho tinham desaparecido da face da terra.
No alto da escada, na saleta que dá acesso aos quartos, ele parou junto às fotos penduradas.
Irene, sempre seguindo a ordem cronológica, tinha pendurado os quadros começando pelos
bisavós dele e dela. Antigos retratos em preto e branco, já um tanto descorados e trincados pelo
tempo, de homens ossudos e mulheres do meio-oeste. Vinham em seguida as fotos coloridas já
um pouco esmaecidas de seus avós em suas bodas de ouro. Depois seus pais, irmãos e eles
mesmos. Quanto tempo passara desde que ele olhou detidamente a foto de seu casamento: ela
usando um estilo de cabelo moderno na época, e ele com o cabelo cobrindo as orelhas e
costeletas longas?
E aquelas fotograϐias de Chloe com oito anos segurando nos braços o irmãozinho bebê!
Como era confortador saber que Chloe estava viva e que a qualquer momento ele teria um
contato com ela! Mas o que dizer dos outros dois? Eles desapareceram. Rayford não sabia o que
esperar e pelo que orar. Imaginar que Irene e Raymie ainda estivessem aqui e que aquilo que ele
via não passava de um sonho?
Ele não podia esperar mais. A porta do quarto de Raymie estava um pouquinho aberta. Seu
despertador estava tocando. Rayford o desligou. Sobre a cama, estava um livro que Raymie
vinha lendo. Rayford, vagarosa e nervosamente, levantou os cobertores e encontrou o pijama de
Raymie com o sıḿ bolo do Bulls no peito — seu time favorito de basquete — a cueca e as meias.
Ele sentou-se na cama e chorou, lembrando que Irene insistia em que Raymie calçasse meias ao
deitar.
Rayford colocou as roupas numa pilha bem-arrumada e observou uma fotograϐia dele
mesmo no criado-mudo. Na foto, Rayford aparecia sorridente dentro do terminal do aeroporto, o
quepe embaixo do braço, e ao fundo um 747 do outro lado da parede envidraçada. A foto estava
assinada: "Ao Raymie, com amor, papai." Embaixo desta dedicatória, ele escreveu "Rayford
Steele, capitão-aviador, Linhas Aéreas Pan-Continental, O'Hare." Ele meneou a cabeça. Que
tipo de pai autografa uma foto para seu filho?
O corpo de Rayford parecia de chumbo. Ele teve de se esforçar para ϐicar em pé. Em
seguida, teve uma tontura, lembrando-se de que não tinha comido nada havia muitas horas. Ele
saiu devagar do quarto de Raymie, sem olhar para trás, e fechou a porta.
No ϐim da saleta, ele parou diante da porta com painéis em relevo que dava acesso ao
quarto do casal. Que lugar bonito e bem-ornamentado Irene fez, com que gosto ela decorava
todos os cantos da casa! Tinha ele alguma vez dito a ela que apreciava isso? Tinha ele alguma
vez apreciado isso?
Não havia nenhum despertador a desligar ali. O cheiro de café é que sempre acordava
Irene. Outra fotograϐia de ambos, ele olhando conϐiantemente para a câmera, ela olhando para
ele. Ele não a merecia. Ele merecia isto, reconheceu — ser escarnecido por seu egocentrismo e
despojado da pessoa mais importante de sua vida.
Rayford aproximou-se da cama, sabendo o que ia encontrar. O travesseiro afundado no
lugar da cabeça, os cobertores enrugados. Ele podia sentir o cheiro dela, embora soubesse que a
cama devia estar fria. Puxou cuidadosamente os cobertores e lençóis e encontrou o medalhão
de Irene, que tinha uma foto dele. Sua camisola de ϐlanela, aquela que ele criticava brincando e
que ela usava somente quando ele não estava em casa, o que evidenciava sua partida.
Com um nó na garganta, os olhos absortos, ele notou sua aliança perto do travesseiro, onde
ela sempre apoiava a face com a mão. Era demasiado para suportar, e ele sucumbiu. Pegou a
aliança e a colocou na palma da mão, sentando-se na beirada da cama, o corpo torturado pela
fadiga e pela dor. Pôs a aliança no bolso de sua jaqueta e percebeu o pequeno pacote que ela
havia mandado pelo correio. Abrindo-o, encontrou dois de seus doces favoritos feitos em casa
encimados por um coração de chocolate.
Que encanto de mulher! Pensou ele. Nunca a mereci, nunca a amei o suϔiciente! Ele pôs os
doces em cima do criado-mudo; o cheiro familiar deles enchia o ar. Com os dedos enrijecidos,
tirou suas roupas e deixou-as cair ao chão. Deitou-se de bruços na cama, apanhou a camisola de
Irene entre os braços para poder cheirá-la e imaginá-la a seu lado.
E Rayford chorou até adormecer.
C A P Í T U L O 5
BUCK Williams entrou numa das cabinas do lavatório dos homens no Clube PanContinental
para fazer uma verificação minuciosa de seus pertences. Dentro de um bolso interno
de sua calça rancheira, ele carregava milhares de dólares em cheques de viagem resgatáveis
em dólares, marcos ou ienes. Sua única maleta de couro continha duas mudas de roupas, seu
laptop, telefone celular, gravador de ϐitas, acessórios, estojo de toalete, além de algumas peças
de roupa para o inverno.
Ele estava equipado para passar dez dias na Grã-Bretanha quando deixou Nova York três
dias antes dos desaparecimentos apocalıṕ ticos. Era seu costume nessas viagens
intercontinentais cuidar de sua roupa, lavando-a numa pia de hotel, deixando-a secar o dia todo,
enquanto usava outro conjunto do vestuário, tendo ainda um de reserva. Deste modo, ele nunca
ficava sobrecarregado com muita bagagem.
Buck havia desviado seu trajeto fazendo uma parada em Chicago especiϐicamente para
resolver uma pendência com a chefe da sucursal do Semanário Global de lá, uma mulher negra
de seus 50 anos chamada Lucinda Washington.
Ele teve um desentendimento com ela por ter passado por cima de sua equipe com um
furo de reportagem sobre uma matéria que estava debaixo do nariz de todos. Um ás legendário
da equipe dos Bears encontrara um número suϐiciente de sócios para ajudá-lo a comprar um
time de futebol proϐissional. Buck farejou o assunto, foi atrás, localizou o homem, fez a
reportagem e publicou-a.
— Admiro você, Cameron — tinha dito Lucinda Washington, recusando-se
intencionalmente a usar seu apelido. — Mas o mıń imo que vocêdevia ter feito era me pôr a par
disso.
— E deixar que você escalasse alguém que deveria ter tomado a iniciativa?
— O esporte nem mesmo é da sua pauta de matérias, Cameron. Depois de descobrir o
"Fazedor da Notıć ia do Ano" e fazer a cobertura da derrota da Rússia por Israel, como o próprio
Deus diria, como pode vocêter interesse em ninharia como esta? Vocês, do tipo almofadinha, só
costumam gostar de hóquei e rúgbi.
— Isto era mais do que uma reportagem sobre esporte, Lucy, e...
— EU...
— Desculpe-me, Lucinda. E esse não é um linguajar por demais surrado? Rúgbi e hóquei?
Eles gargalharam ao mesmo tempo.
— Não estou nem mesmo dizendo que você deveria avisar-me que está na cidade —
continuou ela. — Tudo o que peço é que ao menos me informe antes de publicar a matéria no
Semanário. Meu pessoal e eu ϐicamos muito constrangidos em ser passados para trás desse
modo, especialmente pelo famoso Cameron Williams, mas para que isso seja...
— É por isso que você está zangada comigo? Lucinda soltou uma gargalhada outra vez.
— Foi por isso que disse ao Plank que precisava de uma conversa frente a frente para
continuarmos amigos.
— E o que fez você pensar que eu me preocuparia com isso?
— Porque você me ama — disse Lucinda. — Você não pode esconder isto.
Buck sorriu, e Lucinda acrescentou:
— Mas, Cameron, se eu pegá-lo nesta cidade outra vez, em meu setor, sem previamente
avisar-me, vou lhe dar umas boas palmadas.
— Bem, ouça, Lucinda. Deixe-me dar-lhe uma pista que não vou ter tempo de
desenvolver. Fiquei sabendo que o direito de compra do time acabou indo por água abaixo. O
dinheiro estava curto, e a liga rejeitará a oferta. O glorioso time de sua cidade vai se complicar.
Lucinda começou a rabiscar algo furiosamente.
— Você não está falando sério — disse-lhe ela, tirando o fone do gancho.
— Não, não estou, mas será muito divertido ver você entrar em ação correndo como
barata tonta.
— Seu desprezıv́ el — berrou ela. — Outro qualquer que me dissesse isso seria jogado daqui
pra fora aos pontapés.
— Mas você me ama. Você não faria isso.
— Esta não é uma atitude cristã — retrucou ela.
— Não me venha com essa conversa de novo.
— Vamos lá, Cameron. Você sabe que mudou de idéia quando viu o que Deus fez em
Israel.
— Admito, mas não comece a me chamar de cristão. Deísta é o máximo que posso ser.
— Fique na cidade uns dias mais e venha comigo à minha igreja, e Deus vai convencê-lo.
— Ele já me inϐluenciou, Lucinda. Mas Jesus é outra coisa. Os israelitas odeiam Jesus, mas
reconhecem o que Deus fez por eles.
— O Senhor trabalha de...
— ...forma misteriosa, sim, eu sei. A propósito, viajo para Londres segunda-feira. Vou
trabalhar numa dica quente fornecida por um amigo de lá.
— O que é?
— Esqueça. Ainda não nos conhecemos muito bem. Ela riu ruidosamente, e se separaram
com um abraço amigável. Isto tinha se passado três dias antes.
Buck tinha embarcado no infortunado vôo para Londres preparado para qualquer coisa. Ele
estava atrás de uma dica de um ex-colega de classe em Princeton, um galés que tinha passado
um tempo trabalhando no centro ϐinanceiro de Londres desde sua graduação. Dirk Burton tinha
sido uma fonte conϐiável no passado, alertando-o a respeito de encontros secretos de ϐinancistas
internacionais de alto nıv́ el. Durante anos, Buck havia se deleitado um pouco com a tendência
de Dirk entreter-se com teorias conspirativas.
— Deixe-me entender isso direito — Buck tinha perguntado a ele uma vez -, você acha
que esses caras são de fato os líderes mundiais?
— Eu não iria tão longe, Cameron — respondeu-lhe Dirk. -Tudo o que sei é que eles são
importantes, pertencem ao setor privado, e depois que se reúnem acontecem grandes negócios.
— Vocêacha que eles elegem os lıd́ eres mundiais, escolhem a dedo os ditadores, esse tipo
de coisa?
— Não pertenço ao rol do clube dos conspiradores, se é isso que você quer dizer.
— Então de onde você tirou essa idéia, Dirk? Vamos lá, você é um cara relativamente
experiente. Corretores poderosos estão por trás das cenas? Investidores e agitadores são os que
controlam o dinheiro?
— Tudo o que sei é que a Bolsa de Londres, a Bolsa de Tóquio, a Bolsa de Nova York —
todos nós basicamente navegamos em águas calmas até que esses caras se reúnam. Aı́então as
coisas acontecem.
— Vocêquer dizer que, quando os ıń dices da Bolsa de Valores de Nova York oscilam forte
e repentinamente por causa de uma decisão presidencial ou algum voto do Congresso, isso se
deve na verdade ao seu grupo secreto?
— Não, mas este é um exemplo perfeito. Se há uma oscilação no mercado por causa da
saúde do presidente, imagine o que acontece nos mercados mundiais quando o verdadeiro grupo
do dinheiro se reúne.
— Mas como o mercado sabe que eles vão se reunir? Pensei que você era o único que
sabia.
— Cameron, falemos sério. Muitas pessoas não concordam comigo, e por isso
simplesmente não digo nada a ninguém. Um dos nossos grandalhões faz parte desse grupo.
Quando eles têm um encontro, nada acontece imediatamente. Mas alguns dias depois, uma
semana, as mudanças ocorrem.
— Por exemplo?
— Você vai me chamar de louco, mas um amigo meu se relaciona com uma garota que
trabalha para a secretária do cara desse grupo, e...
— Epa! Pare! Aonde você quer chegar?
— Bem, talvez a conexão seja um pouco remota, mas você sabe que a secretária do cara
não vai dizer nada. De qualquer modo, o boato que corre é que esse cara é ardoroso defensor da
moeda única para o mundo inteiro. Você sabe que a metade do nosso tempo é gasto em
manipular taxas de câmbio e tudo mais. Os computadores estão ligados ininterruptamente para
reajustar as taxas, dia e noite, o ano inteiro, com base nos caprichos dos mercados.
Buck não estava convencido.
— Uma moeda global? Nunca vai acontecer — conjeturou.
— Como você pode dizer isso categoricamente?
— Muito estranho. Impraticável. Veja o que aconteceu nos Estados Unidos quando
tentaram introduzir o sistema métrico.
— Devia ter acontecido. Vocês ianques são uns jecas.
— O sistema métrico era necessário somente para o comércio internacional. Não para
medir a área externa do Yankee Stadium ou quantos quilômetros há entre Indianápolis e
Atlanta.
— Eu sei, Cameron. Seu povo pensava que, se vocês fizessem mapas e marcos de distância
fáceis de ler, estariam abrindo caminho para os comunistas dominarem. E agora onde estão os
seus comunistas?
Buck não levou a sério a maioria das idéias de Dirk Burton, senão poucos anos depois,
quando Dirk o chamou no meio da noite.
— Cameron — disse ele, não se lembrando do apelido dado por seus colegas e amigos -,
não posso falar muito. Você pode ir atrás do que vou dizer-lhe ou esperar que aconteça e
arrepender-se mais tarde de não ter aproveitado a matéria para fazer uma reportagem. Mas
você está lembrado daquele negócio que eu estava dizendo sobre uma moeda universal?
— Sim. Ainda estou em dúvida.
— OƵtimo, mas estou lhe dizendo que a notıć ia que corre aqui é que o cara jogou a idéia na
mesa na última reunião desses financistas secretos e alguma coisa está fermentando.
— O que está fermentando?
— Bem, haverá uma importante Conferência Monetária das Nações Unidas, e o tema será
a adequação e aprimoramento da moeda.
— Grande negociata.
— É grande, Cameron. O cara conseguiu bater o martelo. Ele, naturalmente, estava
tentando fazer com que a moeda fosse à libra esterlina.
— Que surpresa haverá quando isso não acontecer. Olhe para a economia de seu país.
— Mas ouça. A grande notıć ia, vazada de uma reunião secreta, é que eles concordaram
com três moedas para o mundo todo, esperando chegar a uma única dentro de uma década.
— De modo algum. Não vai acontecer.
— Cameron, se minha informação é correta, o estágio inicial é um acordo selado. A
conferência das Nações Unidas servirá apenas como uma fachada.
— E a decisão já foi tomada por seus manipuladores de fantoches secretos.
— É isso mesmo.
— Não sei, Dirk. Você é um amigo, mas deveria estar fazendo o que eu faço.
— Quem não faria?
— Bem, é verdade. Certamente eu não queria fazer o que você está fazendo.
— Mas não estou errado, Cameron. Teste minha informação.
— Como?
— Minha previsão é que a ONU vai se manifestar dentro de duas semanas, e, se eu estiver
certo, comece a me tratar com um pouco de deferência, um pouco de respeito.
Buck lembrou-se de que ele e Dirk, como os demais colegas, andavam se esmurrando em
Princeton durante a pizza e cerveja nos fins de semana nos dormitórios.
— Dirk, ouça. Isso parece interessante, e estou prestando atenção. Mas você sabe muito
bem, não sabe? Brincadeira à parte, eu não desmereceria nem um tiquinho você, mesmo que
estivéssemos há muito tempo afastados.
— Obrigado, Cameron. Realmente isto signiϐica muito para mim. E, afora este pequeno
petisco, vou lhe dar uma dica extra. Não vou apenas dizer que a resolução da ONU vai ser pelo
dólar, marco e iene dentro de cinco anos, mas também vou dizer que o verdadeiro poder por
trás disso é o do americano.
— O que você quer dizer com isso?
— O mais poderoso dos grupos internacionais secretos de homens do dinheiro.
— Este cara dirige o grupo, em outras palavras?
— EƵ ele quem descartou a libra esterlina como uma das moedas e tem o dólar em mente
como mercadoria única no final.
— Quem é ele?
— Jonathan Stonagal.
Buck estava esperando que Dirk citasse alguém ridıć ulo, para que explodisse em
gargalhada. Mas teve de admitir, ainda
que somente para si mesmo, que, se havia alguma coisa a respeito deste assunto, Stonagal
seria uma escolha lógica. Stonagal, um dos homens mais ricos do mundo e de longa data muito
conhecido como um poderoso corretor americano, tinha de estar envolvido, se um tema
ϐinanceiro global sério estivesse em discussão. Embora já tivesse mais de 80 anos e aparentasse
fragilidade em suas últimas fotos, ele não somente possuıá os maiores bancos e instituições
ϐinanceiras dos Estados Unidos, mas também possuıá ou tinha grande participação em outras
instituições financeiras espalhadas pelo mundo.
Embora Dirk fosse um amigo, Buck sentia a necessidade de manter com ele um pouco de
jogo do faz-de-conta, para torná-lo ávido de prover informações.
— Dirk, preciso voltar para a cama. Gostei de tudo isto e achei muito interessante. Vou
ver o que resultará desse acordo da ONU. Tentarei também acompanhar os passos de Jonathan
Stonagal. Se acontecer do modo que você imagina, você será meu melhor informante. Enquanto
isso, veja se descobre para mim quantos fazem parte desse grupo secreto e onde se reúnem.
— Isto é fácil — disse Dirk. — Há pelo menos dez, embora outros mais às vezes
compareçam às reuniões, inclusive alguns chefes de Estado.
— Presidentes dos Estados Unidos?
— Ocasionalmente, acredite ou não. E eles costumeiramente se reúnem na França. Não
sei por quê. Numa espécie de chalé particular ou coisa parecida que dá a eles uma sensação de
segurança.
— Seu amigo não perde nenhuma notıć ia, seja ela procedente de um amigo, de um
parente, de um subordinado de secretária ou de qualquer outra pessoa.
— Ria quanto quiser, Cameron. Nosso cara no grupo, Joshua Todd-Cothran, pode não ser
precisamente tão reservado como os demais.
— Todd-Cothran? Ele não é o presidente da Bolsa de Londres?
— Ele mesmo.
— Não ser reservado? Como pode ele ter uma tamanha posição e não ser reservado? E
mais, quem já ouviu falar de um britânico que não fosse reservado?
— Acontece.
— Boa-noite, Dirk.
Naturalmente, tudo acabou se conϐirmando. A ONU tomou sua resolução. Buck descobriu
que Jonathan Stonagal esteve hospedado no Hotel Plaza, em Nova York, durante os dez dias da
conferência. O Sr. Todd-Cothran, de Londres, tinha sido um dos oradores mais eloqüentes,
demonstrando tal ansiedade de ver a questão resolvida que se dispôs a passar a tocha ao
primeiro-ministro com vistas à mudança da libra para o marco.
Muitos paıś es do Terceiro Mundo lutaram contra a mudança, mas em poucos anos as três
moedas espalharam-se pelo mundo. Buck tinha conversado somente com Steve Plank sobre
esta dica das reuniões da ONU, mas não disse qual foi a fonte da informação. Nem ele nem Plank
sentiram que valesse a pena um artigo especulativo sobre o assunto.
— Muito arriscado — dissera Steve. Logo ambos desejaram que tivessem tomado a
iniciativa de publicar a matéria com antecedência. — Vocêteria se tornado mais do que uma
lenda, Buck.
Dirk e Buck tinham ϐicado mais amigos do que nunca, e agora era raro Buck visitar
Londres sem avisá-lo com antecedência. Se Dirk tivesse um fato sério, Buck pegava sua maleta
e viajava. Suas viagens tinham geralmente se transformado em excursões a paıś es e climas que
o surpreendiam, por isso tinha de levar roupas adequadas a várias estações. Agora, parecia, isso
tudo era supérϐluo. Ele se sentia preso em Chicago depois do mais desnorteante fenômeno na
história mundial, tentando
chegar a Nova York.
Apesar da incrıv́ el praticidade e potencialidade de seu laptop, não havia ainda substituto
para a sua agenda de bolso. Buck rabiscou uma lista de coisas a fazer antes de viajar outra vez:
Chamar Ken Ritos, piloto freteiro
Chamar papai e Jeff
Chamar Hattie Durham para dar notícias da família
Chamar Lucinda Washington sobre hotel local
Chamar Dirk Burton
Rayford Steele acordou com o som do telefone. Ele tinha ϐicado imóvel várias horas. Era
um fim de tarde, e o céu estava começando a escurecer.
— Alô — disse ele, não conseguindo disfarçar o tom rouquenho e sonolento da voz.
— Capitão Steele? — Era a voz ansiosa e nervosa de Hattie Durham.
— Sim, Hattie. Você está bem?
— Estive tentando contatá-lo durante horas! Meu telefone ϐicou mudo por muito tempo e,
depois, só deu sinal de ocupado. Consegui chamar seu telefone e ouvia o sinal dos toques, mas
você nunca respondia. Nada soube de minha mãe e minhas irmãs. E quanto a você?
Rayford sentou-se na cama, atordoado e desorientado.
— Recebi um recado de Chloe — respondeu ele.
— Eu já sabia — disse Hattie. — Vocême contou em O'Hare. Sua esposa e seu ϐilho estão
bem?
—Não.
— Não?
Rayford ficou em silêncio. Que outra coisa havia para dizer?
— Você tem certeza de alguma coisa? — perguntou ela.
— Acho que sim — respondeu. — Suas roupas de dormir estão aqui.
— Oh! não! Rayford, sinto muito! Posso fazer alguma coisa por você?
— Não, obrigado.
— Você precisa de companhia?
— Não, obrigado.
— Estou com muito medo.
— Eu também, Hattie.
— O que você vai fazer?
— Continuar tentando localizar Chloe. Espero que ela possa vir para casa ou eu possa ir
até ela.
— Onde ela está?
— Stanford. Paio Alto.
— Minha gente está na Califórnia também — disse Hattie. -Eles tiveram todo tipo de
problemas lá, até pior do que aqui.
— Imagino que sim, por causa da diferença de horário -Rayford respondeu. — Mais
pessoas nas estradas, este tipo de coisa.
—\Estou morrendo de medo de que tenha acontecido alguma coisa ruim com minha
família.
— Dê-me notícia quando descobrir, Hattie, certo?
— Sim, mas espero que você me ligue. Meu telefone está mudo, por isso não poderei
contatá-lo.
— Quero dizer a vocêque tentei chamá-la, Hattie, mas não pude. Isto é muito difıć il para
mim.
— Se precisar de mim, avise-me, Rayford. Talvez vocêprecise de alguém com quem falar
ou que esteja a seu lado.
— Farei isso. E você me informe o que souber de sua famıĺia. Ele quase desejou não ter
acrescentado isto. A perda de sua esposa e ϐilho o fez perceber quão inapropriada era a relação
que ele tinha estado buscando com uma mulher de 27 anos. Ele mal a conhecia e, na verdade,
não se importava com o que acontecera à famıĺia dela. A sensação era a mesma de ter lido no
jornal a notıć ia de uma tragédia em algum lugar remoto. Ele sabia que Hattie não era má
pessoa. Na realidade, ela era encantadora e amiga. Mas não era por isso que estava interessado
nela. Tinha sido meramente uma atração fıś ica, alguma coisa em que ele foi suϐicientemente
esperto, feliz ou ingênuo por não ter agido precipitadamente. Ele se sentia culpado por ter
considerado tal possibilidade. Agora, sua angústia apagaria tudo, menos a cortesia de
simplesmente se importar com uma colega de trabalho.
— Há um telefonema para mim — disse ela. — Pode esperar?
— Não, vá atender. Chamo você mais tarde.
— Vou ligar de volta, Rayford.
— Ah! Sim, está bem.
Buck Williams voltou para a fila e teve acesso a um telefone público. Desta vez, não estava
tentando ligar seu computador a ele. Queria simplesmente saber quantas ligações pessoais podia
fazer. Conseguiu primeiro ligar para Ken Ritz. A secretária eletrônica atendeu:
"Serviço de Frete Ritz. Este é o esquema em razão da crise: Tenho Learjets tanto em
Palwaukee como em Waukegan, mas perdi meu outro piloto. Posso ir a qualquer aeroporto, mas
neste momento não estão permitindo pousos em nenhuma das principais pistas. Não posso ir a
Milwaukee, 0'Hare, Kennedy, Logan, National, Dulles, Dallas, Atlanta. Posso descer em alguns
dos aeroportos menores mais afastados, mas isto precisa ser negociado. Desculpe-me por ser tão
oportunista, mas estou pedindo US$ 1,25 por quilômetro, pagamento no ato. Se houver alguém
que queira voltar no mesmo vôo, posso dar-lhe um pequeno desconto. Vou checar esta gravação
à noite e amanhã cedo acertaremos o embarque. Interessa-nos fazer viagens mais longas com
garantia de pagamento no ato. Se sua parada for no meio da viagem, tentarei encaixá-lo no vôo.
Deixe-me uma mensagem, e eu retornarei."
Aquilo era uma piada. Como Ken Ritz iria localizar Buck? Sem poder contar com seu
telefone celular, a única coisa em que ele poderia pensar era deixar seu número do voice mail de
Nova York. "Sr. Ritz, meu nome é Buck Williams. Estou necessitado de chegar o mais perto
possıv́ el da cidade de Nova York. Pagarei o preço da passagem informado com cheque de
viagem, resgatável em qualquer moeda que deseje." AƱs vezes, este era um atrativo para
contratantes particulares, porque eles tinham a possibilidade de beneϐiciar-se de uma diferença
da moeda escolhida e poderiam, assim, conseguir um pequeno lucro no câmbio. "Estou em
O'Hare e tentarei encontrar um lugar para ϐicar num dos bairros. Para poupar seu tempo, vou
escolher algum lugar entre O'Hare e Waukegan. Se eu conseguir um novo número de telefone
neste intervalo, lhe informarei. Enquanto isto, queira deixar uma mensagem para mim no
seguinte número em Nova York."
Buck ainda estava impossibilitado de contatar seu escritório diretamente, mas seu número
do voice mail funcionou. Ele tomou conhecimento de novas mensagens, a maioria delas de seus
colegas de trabalho procurando obter informações sobre o ocorrido e informando a perda de
amigos comuns. Havia também a mensagem de saudação de Marge Potter, que foi genial ao
pensar em deixar uma para ele. "Buck, se você receber este recado, telefone para seu pai em
Tucson. Ele e seu irmão estão juntos, e eu detesto ter de dizer isto a você, mas eles estão tendo
diϐiculdade de localizar a esposa e os ϐilhos de Jeff. Eles devem ter notıć ia quando vocêtelefonar
para lá. Seu pai ficou muito contente e agradecido quando informei que você estava bem."
O voice mail de Buck indicava também que ele tinha uma outra mensagem. Era aquela de
Dirk Burton que, em primeiro lugar, incentivava sua viagem. Ele precisaria ouvi-la novamente
quando tivesse tempo. Enquanto isso, deixou uma mensagem para Marge dizendo-lhe que, se
tivesse tempo e uma linha disponıv́ el, era preciso informar a Dirk que o vôo dele nunca chegou a
Heathrow. Naturalmente, a esta altura Dirk devia estar sabendo, mas era importante que ele
fosse informado de que Buck não estava entre os desaparecidos e que estaria lá no devido
tempo.
Buck desligou e, em seguida, telefonou para seu pai. A linha estava ocupada, mas não era o
mesmo tipo de ruıd́ o indicador de queda de linhas ou de defeito em todo o sistema. Nem se
tratava daquela enervante gravação que ele estava acostumado a ouvir. Ele sabia que era
somente uma questão de tempo conseguir completar a ligação. Jeff devia estar desnorteado sem
notıć ia de sua esposa, Sharon, e das crianças. Eles tiveram suas diferenças e chegaram até a se
separar antes do nascimento dos ϐilhos, mas por vários anos o casamento vinha sendo
preservado. A esposa de Jeff tinha demonstrado espıŕ ito de perdão e conciliação. O próprio Jeff
admitiu que ϐicou perplexo quando ela o aceitou de volta. "Chame-me de indigno, mas
agradecido", disse ele uma vez a Buck. O ϐilho e a ϐilha do casal, ambos parecidos com Jeff, eram
preciosos.
Buck localizou o número que a bela aeromoça loira lhe tinha dado e arrependeu-se de não
ter procurado contatá-la antes. Demorou um pouco para ela atender.
— Hattie Durham, aqui fala Buck Williams.
— Quem?
— Cameron Williams, do Semanário...
— Oh! Sim! Alguma notícia?
— Sim, senhorita, boas notícias.
— Oh! Graças a Deus! Conte-me.
— Alguém do meu escritório me disse que encontraram sua mãe e que ela e suas irmãs
estão ótimas.
— Oh! Obrigada, obrigada, muito obrigada! Não sei por que elas não me telefonaram.
Talvez tenham tentado. Meu telefone enguiça a todo o momento.
— Há outros problemas na Califórnia, senhorita. As linhas caem freqüentemente. Talvez
leve algum tempo para poder falar com elas.
— Eu sei. Ouvi dizer. Bem, ϐico muito grata por sua atenção. E você? Conseguiu contato
com sua família?
— Soube que meu pai e meu irmão estão bem. Ainda não temos notıć ia de minha cunhada
e seus filhos.
— Oh! Qual é a idade dos filhos?
— Não consigo me lembrar. Os dois têm menos de dez, mas não sei exatamente.
— Oh! — A voz de Hattie parecia triste, mas reservada.
— Por quê? — perguntou Buck.
— Por nada. É apenas que...
— O quê?
— Você não pode se basear no que eu vou dizer.
— Diga-me, Srta. Durham.
— Bem, vocêestá lembrado do que lhe disse no avião. De acordo com as notıć ias, parece
que todas as crianças desapareceram, inclusive as que estavam para nascer.
— Si... sim... sei.
— Não estou dizendo que os filhos de seu irmão estão...
— Eu sei.
— Lamento ter falado nisso.
— Não se preocupe. Isto é muito estranho, não lhe parece?
— Sim. Eu acabo de falar por telefone com o capitão que pilotou o avião em que você
estava. Ele perdeu a esposa e o filho, mas sua filha está bem. Ela também está na Califórnia.
— Qual é a idade dela?
— Uns vinte, imagino. Ela está em Stanford. -Oh!
— Sr. Williams, por que nome é mais conhecido?
— Buck. É um apelido.
— Bem, Buck, posso estar errada quanto ao que eu disse a respeito de sua sobrinha e de
seu sobrinho. Espero que haja exceções e que eles estejam bem.
Hattie começou a chorar.
— Srta. Durham, não se preocupe. Devemos admitir que ninguém está pensando direito
neste momento.
— Pode me chamar de Hattie.
Isto lhe soou um tanto irônico diante das circunstâncias. Ela estava se desculpando por ter
sido inconveniente e, por outro lado, não queria ser muito formal. Se ele era Buck, ela era
Hattie.
— Acho que não devo ϐicar ocupando sua linha — disse ele. — Apenas queria passar-lhe as
notícias. Pensei que talvez, a esta altura, já soubesse.
— Não, e obrigada mais uma vez. Você se importaria de me telefonar outra vez quando
puder ou se lembrar? Você parece ser uma pessoa gentil, e estou muito grata pelo que fez por
mim. Apreciaria ouvi-lo novamente. Este é um momento assustador e solitário.
Ele não podia tirar uma dedução dessa insinuação. Foi estranho. Seu pedido parecia
qualquer coisa como "Venha me ver". Ela parecia absolutamente sincera, e ele estava
acreditando. Uma mulher bonita, assustada, solitária, cujo mundo tinha sido abalado, tanto
quanto o seu e dos que ele conhecia.
Quando desligou o telefone, Buck viu a jovem no balcão acenando para ele.
— Escute — disse ela em voz baixa -, eles não querem que eu faça uma comunicação pelo
alto-falante, para evitar um corre-corre, mas acabamos de ouvir algo interessante. As empresas
fretadoras de vôo se associaram e mudaram seu centro de comunicação para uma meia pista
perto do cruzamento da estrada Mannheim.
— Onde é?
— Nos arredores do aeroporto. Não há tráfego para acesso aos terminais, por causa do
congestionamento total. Mas, se você puder caminhar até o cruzamento, provavelmente
encontrará todos aqueles caras com receptores portáteis tentando conseguir limusine ou
microônibus chegando e saindo.
— Posso imaginar os preços.
— Não, provavelmente não pode.
— Posso imaginar o tempo de espera.
— O mesmo que ficar na fila para pegar um carro alugado em Orlando — disse ela.
Buck nunca tinha feito isso, mas também podia imaginar o que signiϐicava. E ela estava
certa. Depois de pegar uma carona, com um grupo, até o cruzamento da Mannheim, ele
encontrou uma porção de gente cercando os intermediadores. Avisos intermitentes chamavam
a atenção de todos.
— Estamos lotando cada carro. Cem dólares por cabeça para qualquer subúrbio. Somente
a vista. Nenhum deles está indo para Chicago.
— Aceita cartões? — alguém gritou.
— Vou repetir — disse o intermediador. — Só dinheiro vivo. Se vocês tiverem de pegar o
dinheiro ou talão de cheques ao chegar em casa, acertem isso com o motorista, na base da
confiança.
Ele anunciou uma lista de quais empresas estavam saindo e seus destinos. Os passageiros
correram para lotar os carros, permanecendo em fila no acostamento da via expressa.
Buck entregou um cheque de viagem de 100 dólares ao intermediador para os subúrbios da
região norte. Uma hora e meia depois, ele se juntou a vários outros numa limusine. Depois de
tentar usar seu telefone celular inutilmente de novo, ele ofereceu ao motorista 50 dólares para
usar o telefone dele.
— Não garanto nada — disse o motorista. — Algumas vezes, funciona, outras vezes, não.
Ele procurou o número da casa de Lucinda Washington na agenda de endereços em seu
laptop e discou. Um jovem adolescente respondeu:
— Residência da família Washington.
— Cameron Williams, do Semanário Global, para falar com Lucinda.
— Minha mãe não está — disse o jovem.
— Ela está no escritório? Preciso de uma recomendação sobre onde me hospedar perto de
Waukegan.
— Ela não está em nenhum lugar — disse o jovem. -Sou o único que ϐicou. Mamãe, papai,
todos se foram. Desapareceram.
— Tem certeza?
— Suas roupas estão aqui, bem no lugar onde eles estavam sentados. As lentes de contato
de meu pai ainda estão em cima de seu roupão de banho.
— Oh! Rapaz! Sinto muito.
— Está tudo bem. Eu sei onde eles estão, nem posso dizer que estou surpreso.
— Você sabe onde eles estão?
— Se você conheceu minha mãe, também sabe onde ela está. Ela está no céu.
— Sim, hã, você está bem? Há alguém para cuidar de você?
— Meu tio está aqui. E um membro de nossa igreja. Provavelmente, o único que sobrou.
— Então você está bem?
— Estou bem.
Cameron fechou o aparelho e devolveu-o ao motorista.
— Tem alguma idéia de onde devo ϐicar, uma vez que estou tentando um vôo partindo de
Waukegan de manhã?
— A cadeia de hotéis provavelmente está lotada, mas há uns dois hotelecos ou pensões
baratas onde você pode se enϐiar. Ficam perto do aeroporto. Você será o último passageiro a
descer.
— Bem, que fazer? Eles têm telefone nessas espeluncas?
— É mais provável que tenham telefone e televisão do que água corrente.

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