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sábado, 20 de fevereiro de 2016

SD 87

C A P Í T U L O 11 


RAYFORD estava contente de poder levar Chloe a um passeio de carro no sábado, depois de permanecerem conϐinados em casa remoendo suas angústias. Também ϐicou contente por ela ter concordado em acompanhá-lo à igreja. Chloe passara o dia inteiro sonolenta e calada. Havia mencionado a idéia de deixar a universidade por um semestre e assistir a algumas aulas numa faculdade local. Rayford gostou da idéia, pensando no bem-estar da ϐilha. De repente, se deu conta de que ela estava pensando no bem-estar dele e ficou emocionado. Enquanto conversavam no curto passeio, ele lembrou-lhe que, depois da viagem de um dia a Atlanta, na segunda-feira, deveriam voltar separados de O'Hare para casa. Rayford teria de pegar o carro dele que ficara no aeroporto. Ela sorriu para ele. — Acho que posso dirigir um carro sozinha, agora que tenho vinte anos. — Às vezes, trato você como uma garotinha, não é? — disse ele. — Daqui em diante, não vai ser assim — disse ela. -Entretanto, você pode compensar o tempo que me tratou como garotinha. — Sei o que você está querendo dizer. — Não, não sabe — disse ela. — Adivinhe. — Você vai dizer que posso compensar o tempo que a tratei como uma garotinha deixando que tenha idéias próprias, evitando impor-lhe as minhas. — Isto é lógico, espero. Mas você está errado, espertinho. Eu estava querendo dizer que só vou ϐicar convencida de que você me vê como adulta responsável se deixar que eu dirija seu carro do aeroporto até nossa casa na segunda-feira. — Vai ser fácil — disse Rayford, repentinamente mudando para uma entonação de voz infantil. — Isto faria você sentir-se uma garota adulta? Muito bem, papai vai fazer o que você quer. Ela deu um soco amistoso nele e sorriu. Logo a seguir, ficou séria. — É surpreendente que eu esteja encontrando motivo para me divertir nestes dias — disse Chloe. — Meu Deus, sinto-me uma pessoa horrorosa. Rayford deixou este comentário suspenso no ar enquanto dobrava uma esquina e avistava a bela e pequenina igreja. — Não leve muito em conta o meu desabafo — disse ela. -Não preciso entrar, preciso? — Não, mas eu gostaria. Ela comprimiu os lábios e meneou a cabeça, um tanto contrafeita, mas, quando ele estacionou e saiu do carro, ela o acompanhou. Bruce Barnes era baixo e levemente atarracado, cabelos encaracolados e óculos de aros metálicos. Ele se vestia com simplicidade, mas com classe, e Rayford avaliou sua idade em torno de 30 anos. Bruce surgiu de trás do púlpito com um pequeno aspirador de pó nas mãos. — Desculpem-me — disse ele -, vocês devem ser os Steeles. Sou o único que restou do conselho da igreja. Estou contando apenas com a ajuda de Loretta. — Olá — disse uma senhora idosa por trás de Rayford e Chloe. Ela estava em pé na porta de entrada que dava acesso ao escritório da igreja, olhos fundos e despenteada, como se estivesse vindo de uma guerra. Após cumprimentá-los, ela se dirigiu a uma escrivaninha na ante-sala do escritório. — Ela está organizando um pequeno programa para amanhã — disse Barnes. — A dificuldade é que não temos idéia de quantos virão. O senhor estará aqui? — Ainda não estou certo — disse Rayford. — Provavelmente, estarei. Ambos se voltaram para Chloe. Ela sorriu educadamente. — Eu, provavelmente, não virei — disse ela. — Bem, reservei um teipe para vocês — disse Barnes. — Mas gostaria de pedir mais alguns minutos de seu tempo. — Eu tenho tempo — disse Rayford. — E eu vim com ele — disse Chloe resignada. Barnes levou-os ao gabinete do pastor titular. — Não estou ocupando a mesa dele nem usando sua biblioteca — disse o jovem pastor auxiliar -, mas trabalho aqui em sua mesa de reunião. Não sei o que vai acontecer comigo ou com a igreja e, certamente, não quero ser arrogante. Não creio que Deus me chame para assumir este trabalho, mas, se Ele o fizer, quero estar preparado. — E como Ele o chamará? — perguntou Chloe, ensaiando um leve sorriso. — Por telefone? Barnes não levou em consideração o insulto dela. — Para dizer-lhes a verdade, isso não me surpreenderia. Não sei a respeito de vocês, mas Ele chamou minha atenção na última semana. Uma ligação telefônica do céu teria sido menos traumática. Chloe levantou as sobrancelhas, aparentemente disposta a ouvir a explanação de Barnes. — Amigos, Loretta sentiu o mesmo que eu senti. Ficamos abalados e devastados, porque sabemos exatamente o que aconteceu. — Ou o senhor pensa que sabe — interferiu Chloe. Rayford tentou cruzar o olhar com o dela para induzi-la a calar-se e aguardar a explicação do pastor, mas ela parecia relutante em olhar para ele. — Há toda espécie de teoria que o senhor quiser em cada noticiário de televisão no país. — Eu sei disso — confirmou Barnes. — E cada um deles atende aos próprios interesses -acrescentou ela. — Os tablóides dizem que foi uma invasão de seres do espaço, o que provaria as histórias estúpidas de que eles estão no controle por anos. O governo diz que foi obra de algum tipo de inimigo, por isso podemos gastar mais com a alta tecnologia para a nossa defesa. O senhor vai dizer que foi Deus, e assim poderá começar a restabelecer sua igreja. Bruce Barnes aprumou-se na cadeira e olhou para Chloe e em seguida para seu pai. — Vou pedir-lhes uma coisa — disse ele, voltando a olhar para ela novamente. — Vocês permitem que eu apresente meu relato rapidamente, sem interrupções ou interferências, a menos que haja algum ponto que não entendam? Chloe fixou o olhar nele, sem esboçar nenhuma reação. — Não quero ser rude, mas não quero que vocês também o sejam. Pedi alguns minutos de seu tempo. Se eu ainda tiver esse tempo, permitam-me fazer uso dele. Depois eu os deixarei à vontade. Vocês podem fazer o que quiserem com aquilo que eu lhes disser. Podem dizer que estou louco, que estou distorcendo a verdade em proveito próprio. Podem sair e nunca mais voltar. Façam a sua opção. Mas posso contar com sua atenção por alguns minutos? Rayford achou que Barnes foi brilhante. Ele colocou Chloe em seu devido lugar, não lhe deixando espaço para nenhuma observação mordaz. Ela apenas moveu a cabeça em sinal de aquiescência. Barnes agradeceu e continuou. — Posso chamá-los pelo primeiro nome? Rayford assentiu. Chloe não se moveu nem falou. — Vou chamá-los de Ray e Chloe, está bem? Sento-me aqui diante de vocês como um homem arrasado. E quanto a Loretta? Se há alguém que tem o direito de sentir-se tão mal quanto eu, esse alguém é Loretta. Ela é a única pessoa de toda sua famıĺia que ainda está aqui. Tinha seis irmãs e irmãos vivos, não sei quantas tias, tios, primos, sobrinhos e sobrinhas. A famıĺia realizou um casamento aqui no ano passado, e ela calcula que havia cem parentes na cerimônia. Todos se foram, todos eles. — Que tristeza! — disse Chloe. — Perdemos minha mãe e meu irmão, o senhor sabe. Oh! desculpe-me. Eu não queria interrompê-lo. — Está bem — disse Barnes. — Minha situação é muito parecida com a de Loretta, só que em escala menor. EƵ claro que meu sofrimento não foi menor. Permitam-me contar minha história. — Logo que ele começou a falar de detalhes aparentemente inócuos, sua voz engrossou e abrandou. — Eu estava na cama com minha esposa. Ela estava dormindo. Eu estava lendo. As crianças tinham ϐicado um pouco mais de tempo na sala, embaixo, antes de serem mandadas para a cama. Nossa ϐilha mais velha tinha cinco anos. Os outros dois eram meninos, com idades de três e um ano. Aquela situação era normal para nós — eu lendo enquanto minha esposa dormia. Além do trabalho que as crianças lhe davam, ela ainda tinha um emprego de meio expediente, e por volta das nove horas da noite o sono a dominava. — Eu estava lendo uma revista de esportes, tentando virar as páginas sem nenhum ruıd́ o, e de vez em quando ela dava um suspiro mais profundo. Em certo momento, ela perguntou quanto tempo eu ia demorar lendo. Eu sabia que deveria ler no outro quarto ou simplesmente apagar a luz e tentar dormir também. Mas disse a ela: "Não vou demorar", esperando que ela caıś se no sono e eu pudesse terminar de ler a revista. Eu sabia que, quando ela começava a respirar profundamente, a luz acesa não a incomodava mais. E, após alguns minutos, ouvi que ela estava ressonando. — Fiquei contente. Meu plano era ler até meia-noite. Eu estava apoiado num cotovelo, de costas para ela e usando um travesseiro para protegê-la da claridade da luz. Não sei quanto tempo ϐiquei lendo quando senti um movimento na cama. Imaginei que ela havia se levantado para ir ao banheiro. Esperava apenas que ela não tivesse se levantado para demonstrar seu aborrecimento por eu estar ainda com a luz acesa e que, ao voltar, não me recriminasse. Ela era miúda e leve, de modo que não estranhei o fato de não ouvir seus passos até o banheiro. Continuei absorto em minha leitura. — Passados alguns minutos que me pareceram um tanto demorados, chamei-a: "Querida, você está bem?" Não ouvi nenhum ruıd́ o. Comecei a me inquietar. Seria apenas minha imaginação que ela tivesse se levantado? Apalpei o lugar dela e constatei que não estava ali, por isso chamei-a de novo. Talvez ela estivesse veriϐicando se as crianças estavam bem, mas geralmente ela dormia um sono tão pesado que não acordava no meio da noite, a menos que um deles a chamasse. — Bem, provavelmente mais um minuto ou dois se passaram, antes que eu me voltasse e constatasse que ela não estava mais ali e havia puxado a colcha e o cobertor sobre o travesseiro. Agora vocês podem imaginar o que pensei. Achei que ela ϐicou tão frustrada comigo, por ainda estar lendo, que se cansou de esperar que eu desligasse a luz e resolveu dormir no sofá da sala. Eu era um marido razoavelmente criterioso, por isso fui até lá desculpar-me e trazê-la de volta à cama. — Vocês sabem o que aconteceu. Ela não estava no sofá. Nem no banheiro. Olhei pelo vão da porta de cada dormitório das crianças e sussurrei seu nome, pensando que talvez ela estivesse acalentando alguma delas ou sentada ao lado da cama de outra. Nada. As luzes estavam apagadas em toda a casa, exceto a lâmpada à minha cabeceira. Não quis acordar as crianças gritando por ela, por isso simplesmente acendi a luz do hall e voltei a inspecionar cada quarto. — Sinto-me envergonhado em dizer que não tinha ainda uma explicação, até que notei que meus ϐilhos mais velhos não estavam em suas camas. Meu primeiro pensamento foi que teriam ido ao quarto do bebê, como faziam às vezes, para dormir no chão. Supus, então, que minha esposa tinha levado ambos à cozinha para comerem alguma coisa. Francamente, ϐiquei um tanto perturbado por não saber o que estava acontecendo no meio da noite. — Quando constatei que o bebênão estava em seu berço, acendi a luz, coloquei a cabeça fora da porta e chamei minha esposa. Nenhuma resposta. Foi então que reparei no pequenino pijama do bebê e, assim, ϐiquei sabendo exatamente o que tinha acontecido. Aquilo me atingiu como um raio. Corri por toda a casa, levantando os cobertores de cada cama e encontrando apenas os pijamas das crianças. Eu tive medo de fazer isso, mas puxei o cobertor do lado que minha esposa dormia, e lá estavam sua camisola, seus anéis e até os grampos do cabelo sobre o travesseiro. Rayford esforçava-se para não chorar, lembrando-se da própria experiência semelhante àquela. Barnes deu um profundo suspiro e desabafou, enxugando os olhos. — Bem, comecei a telefonar para todo mundo — disse ele. — Liguei primeiro para o pastor, mas quem atendeu foi a secretária eletrônica. Mais dois outros telefonemas, e ouvi a secretária eletrônica também. Então peguei a lista de telefones da igreja e comecei a procurar pelos irmãos mais velhos, pessoas que julgava que não tinham secretárias eletrônicas, e não consegui falar com ninguém. Os telefones tocavam, tocavam, e ninguém atendia. — Eu sabia que seria improvável encontrar qualquer um deles. Por alguma razão, saı́ correndo e pulei dentro do carro, dirigindo tresloucadamente até esta igreja. Aqui estava Loretta, sentada em seu carro, com seu roupão de dormir, o cabelo cheio de rolinhos, chorando angustiada. Chegamos ao vestıb́ ulo e nos sentamos ao lado dos vasos de plantas, chorando e amparando um ao outro, sabendo exatamente o que havia sucedido. Após mais ou menos meia hora, alguns membros da igreja também apareceram. Ficamos ali consternados e perguntandonos em voz alta o que farıá mos em seguida. Então alguém se lembrou do teipe do pastor sobre o Arrebatamento. — O quê? — perguntou Chloe. — Nosso pastor titular gostava de pregar sobre a vinda de Cristo para arrebatar sua Igreja e levar com Ele os crentes, mortos e vivos, ao céu antes de um perıó do de tribulação na terra. Ele começou a dedicar-se a esse assunto há cerca de dois anos. Rayford voltou-se para Chloe. — Vocêestá lembrada de sua mãe ter falado sobre isso. Ela estava muito entusiasmada a esse respeito. — Oh! sim, me lembro. — Bem — disse Barnes -, o pastor usou aquele sermão e gravou um videoteipe em seu gabinete dirigindo-se diretamente às pessoas que foram deixadas para trás. Ele guardou o videoteipe na biblioteca da igreja com instruções para ser retirado, visto e ouvido por todos os que não desapareceram. Todos nós o vimos duas vezes na noite seguinte. Poucas pessoas quiseram argumentar com Deus, tentando dizer-nos que tinham sido realmente crentes e deveriam ter sido arrebatadas com os outros, mas todos estávamos convencidos da verdade. EƵramos pseudocristãos. Não havia um único entre nós que não soubesse o que signiϐica ser um verdadeiro cristão. Sabíamos que não o éramos e que tínhamos sido deixados para trás. Rayford teve dificuldade para falar, mas não pôde deixar de fazer uma observação. — Sr. Barnes, o senhor era um membro do conselho da igreja. —Correto. — Como o senhor foi deixado para trás? — Vou dizer-lhe, Ray, porque não tenho mais nada a esconder. Sinto vergonha de mim mesmo, e, se antes nunca tive realmente vontade ou motivação para falar aos outros sobre Cristo, eu a tenho agora com certeza. Considero-me um ser deplorável por ter entendido tarde demais o maior evento cataclıś mico da História. Fui criado na igreja. Meus pais, irmãos e irmãs eram todos cristãos. — Eu amava a igreja. Ela era minha vida, minha cultura. Eu pensava que acreditava em tudo o que havia na Bıb́ lia. A Bıb́ lia diz que, se você crer em Cristo, terá a vida eterna, por isso julguei que estava salvo. — Eu gostava especialmente das partes que falavam do perdão de Deus. Era um pecador incorrigıv́ el. Apenas me considerava perdoado porque Deus tinha feito essa promessa. Ele tinha de cumpri-la. O versıć ulo diz que, se confessarmos nossos pecados, Ele é ϐiel e justo para nos perdoar e puriϐicar. Eu conhecia outros versıć ulos que falavam em crer e receber, conϐiar e permanecer, mas nunca levei estas palavras ao pé da letra. Eu queria seguir o caminho mais fácil, o mais simples. Eu também conhecia outros versıć ulos, segundo os quais eu não devia continuar no pecado simplesmente porque Deus nos mostrou sua graça. — Eu julgava ter uma vida maravilhosa. Cheguei até a estudar em faculdade bıb́ lica. Na igreja e na escola, eu dizia as coisas certas, orava em público e até incentivava aı'́ pessoas em sua vida cristã. Mas era ainda um pecador. Eu reconhecia isso. Dizia às pessoas que não era perfeito; era apenas perdoado. — Minha esposa dizia a mesma coisa — afirmou Rayford. — A diferença — disse Bruce — é que ela era sincera. Eu mentia. Dizia à minha esposa que dava o dıź imo à igreja, que contribuıá mos com 10% de nossa renda. Minha contribuição era mıń ima. Quando a salva era passada, eu depositava ali algum dinheiro só para impressionar os outros. Toda semana, eu confessava a Deus, prometendo ser mais liberal na próxima vez. — Estimulei pessoas a proclamar sua fé e dizer a outras como se tornarem cristãs. Mas eu mesmo nunca ϐiz isso. Meu trabalho era visitar pessoas em seus lares, casas de repouso e hospitais todos os dias. Eu era bom nisso. Incentivava os enfermos, sorria para eles, conversava com eles, orava com eles, e até lia a Bıb́ lia para eles. Mas nunca ϐiz isso de coração e reservadamente. — Eu era preguiçoso. Fazia o mıń imo necessário. Quando as pessoas pensavam que eu estava visitando, talvez estivesse num cinema em outra cidade. Também era lascivo. Lia coisas que não devia, folheava revistas que aguçavam meus desejos carnais. Rayford tremeu ligeiramente. Esta última confissão mexeu com ele. — Eu tinha uma vida irregular — Barnes continuou — e persisti nela. Cada vez me afundava mais. Sabia que os verdadeiros cristãos eram conhecidos pelo que suas vidas produziam, e eu nada produzia. Mas sentia-me confortado pelo fato de haver pessoas muito piores por aí, as quais se intitulavam cristãs. — Não fui um estuprador, nem molestei crianças, nem cometi adultério, embora muitas vezes me sentisse inϐiel à minha esposa por causa da minha lascıv́ ia. Mas sempre orava e confessava meus pecados, sentindo-me como se estivesse puriϐicado. Isso deveria ter sido óbvio para mim. Quando as pessoa ficavam cientes de que eu fazia parte da equipe ministerial da Nova Esperança, eu conversava com elas sobre a serenidade do pastor e a pureza da igreja, mas tinha vergonha de falar de Cristo. Se me desaϐiassem e perguntassem se a Nova Esperança era uma daquelas igrejas que diziam que Jesus era o único caminho para Deus, eu fazia de tudo, menos negar isso. Queria que pensassem que eu me sentia bem, que; estava de acordo com tudo que se passava ali. Posso ser um cristão e mesmo um pastor, mas nunca me confundam com os excêntricos. — Vejo agora, com certeza, que Deus é um Deus perdoador, porque somos humanos e temos necessidade do perdão. Mas temos de receber seu dom, viver em Cristo e permitir que Ele viva em nós. Eu imaginava que tinha liberdade de fazer o que desejasse. Podia viver em pecado e fingir ser uma pessoa piedosa. Tinha uma bela família e ótimo ambiente de trabalho. E, por mais feliz que me sentisse a maior parte do tempo, acreditava realmente que iria para o céu quando morresse. — Raramente lia a Bıb́ lia, exceto quando preparava uma preleção ou aula. Não tinha a "mente de Cristo". Eu sabia vagamente que a palavra cristão signiϐica "com Cristo" ou "como Cristo". Com certeza eu não era um cristão, e descobri isso da pior forma possível. — Permitam-me dizer-lhes simplesmente — a decisão é de vocês. A vida é de vocês. Mas eu, Loretta e outros membros da igreja que estão desnorteados sabemos exatamente o que aconteceu há algumas noites. Jesus voltou para buscar sua verdadeira famıĺia, e fomos deixados para trás. Bruce olhou nos olhos de Chloe. — Não há nenhuma dúvida em minha mente de que testemunhamos o Arrebatamento. Meu maior medo, uma vez constatada a verdade, foi que não havia mais esperança para mim. Perdi a oportunidade única. Tinha sido um falso cristão, estabelecendo meu próprio modelo de cristianismo, que foi feito para uma vida de liberdade, mas que me custou a alma. Eu tinha ouvido dizer que, quando a Igreja fosse arrebatada, o Espıŕ ito de Deus se ausentaria da terra. A lógica era que, quando Jesus fosse para o céu após sua ressurreição, o Espıŕ ito Santo que Deus enviou à Igreja seria incorporado nos crentes. Portanto, quando eles fossem levados, o Espıŕ ito deixaria este mundo, e não haveria mais nenhuma esperança para os que ϐicassem. Vocês não podem saber o alívio que tive quando o teipe do pastor mostrou-me o contrário. — Reconhecemos quão estúpidos fomos, mas nós nesta igreja — pelo menos os que se sentiram atraıd́ os a este templo na noite em que todos os demais desapareceram — estamos sendo fervorosos tanto quanto possıv́ el. Ninguém que venha até aqui sairá sem conhecer exatamente em que cremos e o que pensamos ser necessário para termos uma relação com Deus. Chloe levantou-se e deu alguns passos, os braços cruzados sobre o peito. — EƵ uma história muito interessante — disse ela. — O que aconteceu com Loretta? Como ela perdeu a oportunidade, se toda sua enorme família era constituída de verdadeiros cristãos? — Você deve ouvir ela mesma dizer oportunamente -disse Bruce. — Mas ela me disse que foi o orgulho e o constrangimento que a afastaram de Cristo. Ela nasceu num lar muito religioso. Disse que estava no ϐim da adolescência quando pensou seriamente a respeito de sua fé pessoal. Então decidiu acompanhar a famıĺia e freqüentar a igreja, participando de suas atividades normais. Com o tempo, casou-se, tornou-se mãe e avó, e simplesmente aparentou ser uma gigante espiritual. Era respeitada por aqui. Entretanto, nunca creu em Cristo e nunca o recebeu como seu Salvador. — Então — disse Chloe -, essa história de acreditar em Cristo, recebê-lo como Salvador, viver para Ele e deixá-lo viver em você, era isso o que minha mãe queria dizer quando falava sobre salvação, ser salvo? Bruce balançou a cabeça concordando. — Do pecado, do inferno e do Juízo. — Entrementes, não estamos salvos de tudo isso. — É verdade. — O senhor realmente acredita nisso. — Acredito. — É um negócio esquisito, o senhor deve admitir. — Não para mim. Não neste momento. Rayford, sempre objetivando precisão e ordem, perguntou; — Então, o que o senhor fez? O que minha esposa fez? O que a fez ser mais cristã, ou, ah... o que, hã... — A salvou? — Bruce completou. — Sim — disse Rayford. — EƵ exatamente o que desejo saber. Se o senhor estiver certo, e eu já disse a Chloe que acho que estou percebendo isto agora, precisamos saber como conduzir esta situação daqui em diante. De que forma uma pessoa pode passar de uma condição para outra? Obviamente, não estamos salvos, porque fomos deixados para trás, e estamos aqui para enfrentar a vida sem nossos entes queridos que viveram como verdadeiros cristãos. Sendo assim, o que devemos fazer para nos tomar cristãos verdadeiros? — Vou orientá-los — disse Bruce. — E vou entregar-lhes este teipe para que vocês o levem para casa. Vou também entrar em detalhes em minha pregação no culto matinal de amanhã, às dez horas, para quem comparecer. Provavelmente, vou repetir a mesma mensagem nos próximos domingos, até sentir que a necessidade de conhecer a verdade tenha sido satisfeita. De uma coisa estou certo: por mais importantes que sejam outros sermões e lições, nada supera este assunto. Enquanto Chloe continuava encostada à parede, braços ainda cruzados, observando e escutando, Bruce voltou-se para Rayford. • — EƵ realmente muito simples. Deus tornou isto fácil, o que não signiϐica um processo de transição sobrenatural ou que possamos decidir e escolher as partes boas — como já tentei fazer. Porém, se depararmos com a verdade e agirmos em sua direção, Deus não impedirá nossa salvação. — Primeiro, temos de ver-nos como Deus nos vê. A Bıb́ lia diz que todos pecaram, que não há ninguém justo, nem sequer um. Ela também diz que não podemos ser salvos por nós mesmos. Inúmeras pessoas pensaram que estavam no caminho para Deus ou para o céu por praticar boas obras, mas essa foi provavelmente a concepção mais equivocada que já houve. Perguntem a qualquer pessoa na rua o que ela pensa que a Bıb́ lia ou a igreja diz a respeito de ganhar o céu, e nove entre dez dirão que, para ir para o céu, é preciso fazer o bem e viver uma vida reta. — EƵ o que todos devemos fazer, certamente, mas esta não é a chave para obtermos nossa salvação. Devemos fazer isso como conseqüência da nossa salvação. A Bıb́ lia diz que somos salvos não pelas boas obras que praticamos, mas, sim, pela misericórdia de Deus. Isso quer dizer que somos salvos pela graça mediante Jesus Cristo, não por nós mesmos, de sorte que não devemos vangloriar-nos de nossa bondade. — Jesus tomou sobre si nossos pecados e pagou o preço de que éramos devedores perante Deus. O pagamento é a morte, e Ele morreu em nosso lugar, porque nos amou. Quando reconhecemos perante Cristo que somos pecadores perdidos e recebemos dele a dádiva da salvação, Ele nos salva. Realiza-se assim um processo de transição. Saıḿ os das trevas para a luz, da condição de perdidos para a de buscados e achados, tornamo-nos salvos. Diz a Palavra de Deus que àqueles que o receberem Ele dará o poder de se tornarem ϐilhos de Deus. Exatamente o que Jesus é — Filho de Deus. Quando passamos a ser ϐilhos de Deus, temos o que Jesus tem: um relacionamento direto com o Pai e a vida eterna. E, pelo fato de Jesus ter pago pelo castigo que merecíamos, recebemos por meio dele o perdão de nossos pecados. Rayford estava atordoado. Ele buscou furtivamente os olhos de Chloe. Ela parecia indiferente, mas sem aquele ar antagônico. Rayford encontrou exatamente o que estava procurando. Era o que ele tinha suspeitado e ouvido aqui e ali durante anos, mas nunca foi capaz de absorver e praticar. Apesar de tudo, ele trazia dentro de si suϐicientes reservas para ponderar sobre isso, ver e ouvir o teipe e trocar idéias com Chloe. — Tenho de perguntar-lhes — disse Bruce — algo que nunca quis perguntar antes a ninguém. Quero saber se estão prontos para receber Cristo em seus corações neste momento. Eu me sentiria feliz em orar com vocês e mostrar-lhes como conversar com Deus. — Não — interveio Chloe abruptamente, olhando para seu pai como se estivesse temerosa de que ele fizesse uma tolice. — Não? — foi a reação de surpresa de Bruce. — Precisam de mais tempo? — No mıń imo — disse Chloe. — Naturalmente, não é uma decisão que se possa tomar precipitadamente. — Bem, permitam-me dizer-lhes — continuou Bruce. — É uma decisão que gostaria fosse imediata. Creio que Deus me perdoou e que tenho um trabalho a realizar aqui. Mas não sei o que vai acontecer daqui em diante, uma vez que todos os verdadeiros cristãos foram arrebatados. Eu gostaria de ter assumido esta postura há vários anos, e não depois do , acontecido. Vocês podem acreditar que eu teria preferido mil vezes estar no céu com minha famıĺia neste exato momento. — Mas, então, quem nos falaria a este respeito? — perguntou Rayford. — Oh, eu me sinto grato por essa oportunidade — atalhou Bruce. — Mas tive de pagar um alto preço para chegar a este ponto. — Compreendo — disse Rayford, podendo ver nos olhos de Bruce uma expectativa ardente de alguém que espera ansiosamente por uma decisão, um compromisso, uma conversão. Ele sentia que Rayford estava preparado para dar esse passo. Mas Rayford nunca tinha sofrido tal pressão em sua vida. E, enquanto não colocasse a questão numa balança, como se estivesse tratando com um vendedor, precisaria de tempo para pensar, um tempo para esfriar a cabeça e reϐletir. Ele tinha uma mente analıt́ ica. Quando deparou com um novo sentido de vida, embora não duvidasse de tudo o que Bruce expôs sobre os desaparecimentos, não se sentiu em condições de resolver imediatamente. — Agradeço o teipe e posso garantir que estarei aqui amanhã. Bruce olhou para Chloe. — Não conte comigo — disse ela -, mas agradeço sua atenção e vou ver o teipe. — É tudo o que posso pedir — acrescentou Bruce. — Mas permitam-me fazer-lhes uma pequena advertência. Vocês devem ter ouvido estas palavras de vez em quando durante a vida, como também sucedeu comigo. Talvez não saibam, mas preciso dizer-lhes que não estão munidos de quaisquer garantias de salvação. EƵ muito tarde para vocês desaparecerem, como aconteceu com seus queridos há poucos dias. Mas pessoas morrem diariamente em acidentes de carro, quedas de avião — oh! perdão, estou certo de que o senhor é um bom piloto -, todos os tipos de tragédias. Não vou absolutamente pressioná-los a tomar uma decisão para a qual não estão preparados. Mas permitam-me que os incentive, no caso de Deus colocar em seus corações sua verdade, a não adiarem sua decisão. O que haveria de pior do que, tendo Finalmente encontrado a Deus, morrer sem Ele por ter esperado um longo tempo para tomar uma decisão?


C A P Í T U L O 12

 BUCK hospedou-se no hotel Frankfurt Hilton, no aeroporto, com seu nome falso, sabendo que tinha de telefonar para os Estados Unidos antes que sua famıĺia e seus colegas ouvissem a notıć ia de que ele estava morto. Encontrou um telefone público na sala de espera e discou para seu pai, no Arizona. Com a diferença de fuso horário, lá deveria ser um pouco antes do meio-dia de sábado. — Estou realmente aborrecido com tudo isto, papai, mas você vai ouvir a notıć ia de que morri dentro de um carro dinamitado, um ataque terrorista, ou coisa parecida. — Que diabo está acontecendo, Cameron? — Não posso me explicar agora, papai. Quero apenas que saiba que estou bem. Estou ligando do outro lado do oceano, mas não posso dizer de onde. Estarei de volta amanhã, mas por enquanto tenho de ficar escondido. — O culto em memória de sua cunhada e seus sobrinhos será amanhãà noite — informou o Sr. Williams. — Oh! não. Papai, ϐicaria muito ostensivo se eu aparecesse. Sinto muito. Diga ao Jeff o quanto eu lamento. — Bem, vamos ter de fazer de conta que aconteceu? Quero dizer, devemos fazer um culto em sua memória também? — Não, eu não seria capaz de me ϐingir de morto por muito tempo. Logo que o pessoal do Semanário souber que estou bem, o segredo não vai durar muito. — Você vai estar em perigo quando alguém descobrir a mentira? — Provavelmente, mas, papai, não posso aparecer por enquanto. Diga isso ao Jeff por mim, tá? — Está bem. Tenha cuidado. Buck mudou para outra cabina telefônica e chamou o Semanário. Disfarçando a voz, pediu que a recepcionista ligasse com o voice mail de plantão de Steve Plank. — Steve, você sabe quem está falando. Não importa o que vocêvai ouvir nas próximas 24 horas, estou bem. Ligo amanhã e podemos nos encontrar. Por enquanto, deixe que os outros acreditem no que ouvirem. Tenho de ϐicar incógnito até achar alguém que realmente possa ajudar. Steve, ligo para você logo que puder. Chloe ϐicou calada no carro. Rayford sentia um impulso incontrolável de falar. Isso não condizia com sua natureza, mas sentia a mesma urgência que tinha percebido em Bruce Barnes. Ele queria ser racional e analıt́ ico. Queria estudar, orar, ter a certeza. Mas o que ele ouvira não era exatamente um atestado de segurança? Poderia estar mais seguro? O que tinha ele feito de errado ao criar e educar Chloe que a tornou tão prevenida, tão cautelosa, tão resistente, para que pudesse olhar a ponto de não enxergar o que parecia tão óbvio para ele? Ele havia encontrado a verdade, e Bruce estava certo. Precisavam agir nesse sentido, antes que lhes acontecesse qualquer coisa. O noticiário estava cheio de crimes, saques, indivıd́ uos tirando vantagem do caos. Pessoas eram alvejadas por armas de fogo, mutiladas, estupradas, assassinadas. As estradas e ruas estavam mais perigosas do que nunca. Os serviços de emergência tinham falta de funcionários, poucos controladores de tráfego e de vôos atendiam nos aeroportos; pilotos e tripulações pouco qualificados eram utilizados nos aviões. As pessoas conferiam os túmulos de seus antepassados : ou mortos recentes para saber se seus cadáveres tinham desaparecido, e tipos inescrupulosos ϐingiam fazer o mesmo enquanto procuravam objetos de valor que tivessem sido enterrados com os ricos. O mundo se tornara hediondo de um dia para o outro, e Rayford se preocupava com sua segurança e a de Chloe. Ele queria exibir logo o teipe e confirmar a decisão que tomara. — Podemos ver juntos? — sugeriu ele. — Na verdade, eu preferiria não ver, papai. Posso perceber aonde vocêquer chegar e não me sinto ainda confortável a tal respeito. EƵ uma coisa muito pessoal. Não é ser visto em grupo ou com a família. — Não estou tão certo disso. — Não insista comigo. Veja o teipe quando quiser, e eu farei o mesmo depois. — Você sabe que estou muito preocupado, que a amo e me importo com você, não sabe? — Claro que sim. — Você pretende ver o teipe antes da reunião da igreja amanhã? — Papai, por favor. Você está me forçando a me afastar, se continuar a me pressionar com esse assunto. Nem sei se quero ir lá amanhã. Ouvi o pastor vender sua mercadoria hoje, e ele mesmo disse que vai repetir tudo amanhã. — Bem, o que aconteceria se eu decidisse tornar-me um cristão amanhã? Gostaria que você estivesse lá. Chloe olhou bem para ele. — Não sei, papai. Não é igual a uma cerimônia de formatura ou coisa parecida. — Talvez seja. Tenho a impressão de que sua mãe e seu irmão foram promovidos, e eu não. — Credo. — Estou falando sério. Eles estavam qualificados para o céu. Eu não. — Não quero falar sobre isto agora. — Muito bem, mas deixe-me apenas dizer mais uma coisa. Se você não for amanhã, quero que veja o teipe enquanto eu estiver lá. — Oh! eu... — Porque realmente gostaria que vocêse decidisse antes de nosso vôo na segunda-feira. A viagem aérea está ficando mais perigosa, e nunca se sabe o que pode acontecer. — Papai, veja bem! Em toda a minha vida, sempre ouvi você falar com convição a respeito da segurança dos vôos. Cada vez que ocorria um desastre, alguém perguntava se você não tinha medo ou se já tinha sofrido alguma pane. Você recitava suas estatıśticas que demonstravam que a segurança do vôo é muitas vezes mais conϐiável do que uma viagem de carro. Portanto, não venha com essa história. Rayford desistiu. Ele cuidaria da própria alma e oraria por sua ϐilha, mas decididamente não insistiria mais com ela sobre a fé. Chloe foi para a cama mais cedo sábado à noite, enquanto Rayford plantou-se diante da televisão e acionou o controle remoto para assistir ao vıd́ eo. "Alô", soou a voz agradável e conϐiante do pastor que ele tinha encontrado várias vezes. Enquanto falava, o pastor sentou-se à beira da mesa no mesmo escritório que Rayford tinha acabado de visitar. "Meu nome é Vernon Billings, e sou pastor da Igreja Nova Esperança, de Monte Prospect, Illinois. Enquanto você vê este vıd́ eo, posso apenas imaginar o medo e o desespero em seu rosto, porque isto está sendo gravado para ser visto somente após o desaparecimento do povo de Deus da face da terra. "O fato de você estar me vendo e ouvindo indica que foi deixado para trás. Certamente você está assombrado, chocado, temeroso e com remorso. Gostaria que você considerasse o que tenho a dizer aqui como instruções para a vida que continuará na terra após o Arrebatamento da Igreja de Cristo. Foi o que aconteceu. Qualquer um de vocês sabe ou sabia que os que depositaram sua confiança somente em Cristo para salvação foram levados para o céu por Ele. "Permita-me mostrar-lhe com base na Bıb́ lia exatamente o que aconteceu. Vocênão vai precisar mais dessa prova, porque já terá experimentado o evento mais chocante da história. Mas, como este vídeo foi feito com antecedência e estou confiante de que serei levado, pergunte a si mesmo: Como ele sabia? Aqui está a resposta, com base em 1 Coríntios 15.51-57." A tela começou a mostrar este trecho da Escritura. Rayford parou a cena e correu a buscar a Bıb́ lia de Irene. Levou algum tempo para localizar 1 Corıń tios, e, embora as palavras fossem ligeiramente diferentes da tradução da Bíblia dela, o sentido era o mesmo. O pastor disse: "Vou ler para você o que o grande missionário e evangelista, apóstolo Paulo, escreveu aos cristãos da igreja da cidade de Corinto: Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar d'olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptıv́ eis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptıv́ el se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo." Rayford estava confuso. Pôde acompanhar alguma coisa daquilo, mas o resto era ininteligıv́ el para ele. Ele fez o teipe rodar. O pastor Billings continuou: "Permita-me parafrasear algumas palavras para que você as compreenda claramente. Quando Paulo diz que nem todos dormiremos, ele quer dizer que nem todos vamos morrer. E ele está dizendo que este ser corruptıv́ el deve revestir-se de um corpo incorruptıv́ el, que vai durar por toda a eternidade. Quando estas coisas tiverem acontecido, quando os cristãos que já morreram e aqueles que ainda estarão vivos receberem seus corpos imortais, o Arrebatamento da Igreja terá acontecido. "Todas as pessoas que creram e aceitaram a morte sacriϐicial, o sepultamento e a ressurreição de Jesus Cristo previram sua segunda vinda. Enquanto você vê este vıd́ eo, todas aquelas pessoas já terão visto o cumprimento da promessa de Cristo, quando disse: ...voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também' (João 14.3). "Creio que todas essas pessoas foram literalmente levadas da terra, deixando para trás todas as coisas materiais. Se você constatou que milhões de pessoas estão faltando e que bebês e crianças sumiram, sabe que o que estou dizendo é a verdade. Até uma certa idade, que é provavelmente diferente para cada indivıd́ uo, acreditamos que Deus não responsabilizará uma criança por uma decisão que deve ser tomada com o coração e a mente, com plena consciência de suas conseqüências. Você poderá também constatar que crianças ainda não nascidas desapareceram do útero de suas mães. Posso apenas imaginar o sofrimento e inquietação de um mundo sem suas preciosas crianças e o profundo desespero dos pais que as perderam desse modo. "A carta profética de Paulo aos corıń tios disse que isso aconteceria num piscar de olhos. Você poderá ter visto um ser amado diante de você desaparecer de repente. Não invejo você por causa desse trauma. "A Bıb́ lia diz que os corações dos homens paralisarão de medo. Isto para mim signiϐica que poderá haver ataques cardıá cos devido ao abalo emocional, pessoas que se matarão por desespero, e você sabe melhor do que eu o caos que resultará do desaparecimento de cristãos arrebatados de vários meios de transportes, e da perda de bombeiros, policiais e trabalhadores em serviços de emergência de toda sorte. "Dependendo de quando você estiver vendo este vıd́ eo, talvez já esteja ciente de uma lei marcial que deve entrar em vigor em muitos lugares, medidas de emergência para tentar impedir elementos de má ıń dole de promoverem pilhagens e disputarem os bens que foram deixados. Governos cairão, e haverá desordens internacionais. "Vocêdesejará saber a razão por que isso aconteceu. Alguns crêem que é o julgamento de Deus para um mundo cheio de impiedade. Na realidade, isto virá mais tarde. Por mais estranho que lhe pareça, este é o esforço ϐinal de Deus para alertar cada pessoa que o tem ignorado ou rejeitado. Ele está permitindo a partir deste evento que um longo perıó do de provações e tribulações tenha inıć io para você e todos os que ϐicaram. Ele transladou sua Igreja de um mundo corrupto que procura seguir seu próprio caminho, seus próprios prazeres, seus próprios fins. "Creio que o propósito de Deus com isso é permitir àqueles que ϐicaram que façam uma avaliação de si mesmos e abandonem sua busca alucinada por prazer e auto-realização, voltando-se para a Bıb́ lia, a ϐim de conhecerem a verdade e se entregarem a Cristo para se salvarem. "Quero tranqüilizar você sobre os desaparecimentos de seus amados, seus filhinhos e bebês, amigos e conhecidos. Eles não foram levados por alguma força maldosa ou por invasores do espaço. Esta poderá ser uma explicação comum. O que antes lhe parecia ridıć ulo e fantasioso pode ser agora lógico e possível, mas não é. "A Escritura também nos previne de que haverá uma grande mentira, anunciada com a ajuda da mıd́ ia e perpetrada por um lıd́ er mundial autodeclarado. O próprio Jesus profetizou sobre essa pessoa. Disse Ele: 'Vim em nome de meu Pai, e não me recebestes; se um outro vier em seu próprio nome, vós o recebereis.' "Quero também exortá-lo a precaver-se de tal lıd́ er da humanidade, que pode surgir na Europa. Ele se tornará um grande enganador. Mostrará sinais e maravilhas tão convincentes que muitos crerão que ele terá vindo da parte de Deus. Ele conseguirá um grande número de seguidores entre os que foram deixados, e muitos acreditarão que ele será um operador de milagres. "O enganador prometerá força, paz e segurança, mas a Bıb́ lia diz que ele falará contra o Altıś simo e derrotará os santos do Altıś simo. Eis por que estou alertando-o para ter cuidado com esse novo lıd́ er de grande carisma, tentando assumir o controle do mundo durante o terrıv́ el perıó do de caos e confusão. Essa pessoa é conhecida na Bıb́ lia como o anticristo. Ele vai fazer muitas promessas, mas não as cumprirá. Você deve conϐiar nas promessas do Deus Todopoderoso, por meio de seu Filho, Jesus Cristo. "Creio que a Bıb́ lia ensina que o Arrebatamento da Igreja é o prenuncio de um perıó do de sete anos de provação e tribulação, durante o qual coisas terrıv́ eis vão acontecer. Se você não tiver recebido Cristo como seu Salvador, sua alma estará em perigo. E, por causa dos eventos cataclıś micos que terão lugar durante esse perıó do, sua vida estará em risco. Se você se voltar para Cristo, talvez morra como mártir." Rayford interrompeu o vıd́ eo. Ele tinha se preparado para ouvir o pastor falar de salvação. Mas tribulação e provação? Perder seus entes queridos, enfrentar o orgulho e o egocentrismo que o impediram de ir para o céu — isto já não era o suficiente? Ainda haveria mais? E quanto a esse "grande enganador" a que o pastor se referiu? Talvez ele tivesse levado esse assunto de profecia muito longe. Mas ele não era um vendedor de panacéias. Era um homem sincero, honesto, digno de conϐiança — um homem de Deus. Se o que o pastor disse sobre os desaparecimentos era verdade — e Rayford sabia em seu ıń timo que era -, então o homem devia merecer sua atenção, seu respeito. Chegara o momento de deixar de ser um crıt́ ico, um analista sempre insatisfeito com a evidência. A prova estava diante de seus olhos: as cadeiras vazias, a cama solitária, o abismo em seu coração. Havia somente um modo de agir. Ele apertou novamente o botão para rodar o teipe. "Não faz qualquer diferença, a esta altura, saber o porquê de você ainda estar na terra. Você pode ter sido muito egoıśta, orgulhoso ou ocupado, ou talvez simplesmente não reservou tempo para examinar as palavras de Cristo dirigidas a você. A questão agora é que você tem outra oportunidade. Não a deixe escapar. "O desaparecimento dos santos e dos pequeninos, o caos que ϐicou para trás e a desventura dos corações partidos são a evidência de que o que estou dizendo é verdadeiro. Ore para que Deus o ajude. Receba a dádiva da salvação agora mesmo. E resista às mentiras e propósitos do anticristo, que certamente logo aparecerá. Lembre-se: ele vai enganar muitos. Que você não seja incluído entre eles. "Cerca de 800 anos antes de Jesus vir a este mundo pela primeira vez, Isaıá s, no Velho Testamento, profetizou que os reinos das nações entrariam em grande conϐlito e seus rostos seriam como chamas de fogo. Para mim, tais palavras anunciam a Terceira Guerra Mundial, uma guerra termonuclear que varrerá milhões de pessoas da face da terra. "A profecia bıb́ lica é a história escrita antecipadamente. Insisto em que você procure livros sobre este assunto ou pessoas especialistas nesta área, mas que por alguma razão não receberam Cristo em seus corações em tempo e foram deixadas para trás. Estude e examine tudo, para saber o que virá, a fim de estar preparado. "Você vai notar que o governo e a religião vão mudar, a guerra e a inϐlação explodirão, haverá uma hecatombe que reduzirá terrivelmente a população do globo, acompanhada de grande destruição, martıŕ ios de santos, e até mesmo um terremoto devastador. Esteja preparado. "Deus quer perdoar os seus pecados e reservar-lhe um lugar seguro no céu. Ouça Ezequiel 33.11: '...não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva.' "Se você aceitar a mensagem da salvação de Deus, o Espıŕ ito Santo de Deus entrará em sua vida e fará com que você renasça espiritualmente. Vocênão precisa ter uma compreensão teológica de tudo isso. Você pode tornar-se um ϐilho de Deus orando a Ele agora mesmo enquanto eu o conduzo nesta oração..." Rayford interrompeu novamente o teipe, congelando a imagem na tela, e viu a preocupação estampada no rosto do pastor, a compaixão que havia em seu olhar. Rayford tinha amigos e conhecidos que o tomariam por louco, talvez até mesmo sua ϐilha. Mas isto tudo soava-lhe verdadeiro e lıḿ pido como cristal. Ele não havia entendido o signiϐicado dos sete anos de tribulação nem do novo lıd́ er, o mentiroso que deveria surgir. Mas sabia que precisava de Cristo em sua vida. Precisava do perdão de seus pecados e da segurança de que um dia se reuniria com sua esposa e seu filho no céu. Rayford sentou-se com a cabeça entre as mãos, o coração martelando. Não se ouvia nenhum ruıd́ o vindo de cima, onde Chloe descansava. Ele estava a sós com seus pensamentos, a sós com Deus, cuja presença sentiu naquele instante. Levantou-se da poltrona e dobrou os joelhos sobre o carpete. Ele jamais dobrara os joelhos para orar ou adorar, mas sentia naquele momento um sopro de santidade e reverência. Pressionou de novo a tecla para fazer rodar o teipe e colocou de lado o controle remoto. Juntou as mãos em atitude de prece, erguidas à altura do peito, e apoiou nelas a cabeça, rosto voltado para o chão. "Repita as palavras desta oração", disse o pastor, e Rayford o seguiu: "Querido Pai, admito que sou um pecador. Estou arrependido dos meus pecados. Perdoa-me e salva-me. Peço-te em nome de Jesus, que morreu por mim. Confio nele agora. Creio que seu sangue sem mácula é suficiente para pagar o preço de minha salvação. Obrigado por me ouvires e me aceitares. Graças te dou por salvares minha alma." Enquanto o pastor continuava com palavras de ânimo e conforto, citando versıć ulos que prometiam que todo aquele que invocasse o nome do Senhor seria salvo, e que Deus não rejeitaria aqueles que o buscassem com sinceridade, Rayford permaneceu onde estava. Ao terminar sua mensagem, o pastor disse: "Se vocêfoi sincero em sua conϐissão, está salvo, nasceu de novo, é ϐilho de Deus." Rayford queria falar mais com Deus. Queria ser especıϐ́ico sobre seus pecados. Sabia que estava perdoado, mas, de uma forma que lhe pareceu infantil, queria que Deus soubesse que tipo de pessoa ele tinha sido. Ele confessou seu orgulho. Orgulho de sua inteligência. Orgulho de seu modo de olhar. Orgulho de sua capacidade. Confessou sua lascıv́ ia, a forma como negligenciou o relacionamento com sua esposa, como tinha procurado o próprio prazer. Como adorou o dinheiro e as coisas fúteis. Ao terminar seu desϐile de erros cometidos, sentiu-se limpo, puriϐicado. O teipe o havia apavorado com aquelas palavras sobre os terrıv́ eis anos vindouros, mas sabia que poderia enfrentá-los como um verdadeiro crente, não nas condições em que vivera antes. Sua primeira oração depois daquele momento foi em favor de Chloe. Ele se preocupava com ela e oraria em seu favor constantemente, até que estivesse seguro de que a filha teria uma nova vida a seu lado. Buck chegou ao aeroporto Kennedy, em Nova York, e ligou para Steve Plank imediatamente. — Fique aí onde está, Buck, seu renegado. Sabe quem deseja falar com você? — Nem imagino. — Nicolae Carpathia, em pessoa. — Ah! sei. — Estou falando sério, cara. Ele está aqui em companhia de seu velho amigo Chaim Rosenzweig. Pelo jeito, Chaim elogiou vocêpara ele, e, apesar de ter toda a mıd́ ia atrás de si, o homem está procurando por você. Por isso, estou indo apanhá-lo aı,́ e vocêvai me dizer em que andou metido por esse mundo afora. Para nós, você está vivo e pode fazer aquela grande entrevista que pretendia. Buck desligou e deu um soco na palma da mão de contentamento. Isto é bom demais para ser verdade, pensou. Se há um cara que está acima dos terroristas e vigaristas internacionais e acima da sujeira da Bolsa de Londres e da Scotland Yard, é esse Carpathia. Se Rosenzweig gosta dele, é porque ele deve ser o máximo. Rayford aguardava com ansiedade o momento de ir à Igreja Nova Esperança na manhã seguinte. Começou a ler o Novo Testamento e vasculhou cada canto da casa para encontrar livros ou guias de estudo bıb́ lico que Irene tinha colecionado. Embora muita coisa ainda fosse difıć il de entender, ele se sentia tão faminto e sedento por histórias da vida de Cristo que leu de uma só vez os quatro Evangelhos até quase atravessar a noite e cair de sono. Tudo o que Rayford pôde apreender por meio da leitura era que agora pertencia à famıĺia que incluıá sua esposa e seu ϐilho. Embora assustado com as predições do pastor no videoteipe sobre as coisas terrıv́ eis que ocorreriam no mundo após o Arrebatamento da Igreja, ele estava, por outro lado, eufórico e esperançoso acerca de sua nova fé. Sabia que um dia estaria com Deus e com Cristo e, mais do que nunca, desejava o mesmo para Chloe. Rayford evitou aborrecê-la. Ele estava determinado a não lhe dizer nada a respeito do que tinha decidido, a menos que ela perguntasse. E ela nada perguntou antes de ele sair para a igreja naquela manhã, mas desculpou-se por não acompanhá-lo. "Irei com você em outra oportunidade", disse ela. "Prometo. Não estou contra. Apenas não me considero preparada." Rayford lutou contra o impulso de admoestá-la a não protelar sua decisão. Ele queria também apelar para que ela visse o videoteipe; Chloe sabia que ele tinha visto, mas se manteve calada a esse respeito. Rayford havia rebobinado o teipe e deixou-o no videocassete, esperando e orando para que ela visse a gravação enquanto ele estivesse fora. Rayford chegou à igreja um pouco antes das dez horas e ficou surpreso ao ter de estacionar a três quadras do templo. O lugar estava lotado. Poucos levavam Bıb́ lias, e raramente se via alguém bem vestido. Pessoas assustadas, desesperadas ocupavam todos os bancos, incluindo a galeria. Rayford teve de se contentar em ϐicar em pé na parte de trás por não ter encontrado um único lugar. AƱs dez horas em ponto, Bruce começou a falar. Pediu a Loretta que ϐicasse à porta e cuidasse para que cada retardatário fosse bem recebido. Apesar da multidão, ele não acendeu as luzes da plataforma nem utilizou o púlpito. Apenas colocou um único microfone logo à frente da primeira fila de bancos, falando ao público sem qualquer formalidade. Bruce apresentou-se e disse: — Não vou ocupar o púlpito, porque aquele é um lugar para pessoas preparadas e chamadas por Deus para essa missão. Estou liderando esta reunião e lhes dirigindo a palavra por ter sido negligente. Normalmente, nós, nesta igreja, estarıá mos entusiasmados ao ver um público tão numeroso como este. Mas não estou aqui para dizer-lhes o quanto nos alegramos de vê-los. Sei que estão aqui procurando saber o que aconteceu a seus ϐilhos pequenos e a outros entes queridos. Creio ter a resposta. Na realidade, eu não tinha essa resposta antes, porque, se a tivesse, também não estaria aqui. Não vamos cantar hinos nem fazer avisos sobre a programação da igreja, a não ser comunicar-lhes que teremos um estudo bıb́ lico na próxima quarta-feira, às sete da noite. Não faremos levantamentos de ofertas, embora tenhamos de recomeçar a recolhê-las na próxima semana, a ϐim de fazer frente às nossas despesas. A igreja dispõe de algum dinheiro no banco, mas temos uma hipoteca a liquidar e despesas com meu sustento. Em seguida, Bruce contou a mesma história que tinha contado a Rayford e Chloe no dia anterior, e sua voz era o único som que se ouvia no templo. Muitos choravam. Ele exibiu o videoteipe, e mais de uma centena de pessoas acompanhou-o na oração feita no ϐinal da exibição. Bruce recomendou-lhes que começassem a freqüentar assiduamente a Igreja Nova Esperança. Ele acrescentou: — Sei que muitos de vocês ainda estão céticos. Talvez acreditem que o que aconteceu foi obra de Deus, mas continuam insatisfeitos e ressentidos. Se quiserem voltar à noite para desabafar e fazer perguntas, estarei aqui. Resolvi não fazer uma sessão de perguntas e respostas nesta manhã, porque muitos que se encontram aqui são recém-convertidos, e não quero misturar assuntos. Estaremos abertos a qualquer pergunta honesta. — Quero dar oportunidade a qualquer pessoa que tenha recebido Cristo nesta manhã e queira professar sua decisão diante de nós. A Bıb́ lia diz que devemos fazer isso — tornar pública nossa decisão e nossa condição. Sintam-se à vontade para vir ao microfone. Rayford foi o primeiro a se manifestar, mas, ao caminhar pelo corredor, notou que muitos o acompanhavam com o mesmo propósito. Todos queriam contar suas histórias, dizer onde se encontravam em sua jornada espiritual. A situação de muitos era igual à dele. Estiveram perto da verdade por intermédio de uma pessoa da famıĺia ou de algum amigo, mas nunca aceitaram plenamente a verdade sobre Cristo. As histórias eram comoventes, e ninguém abandonou o recinto, mesmo quando o relógio marcava mais de meio-dia e havia ainda 40 ou 50 pessoas na ϐila. Todos pareciam necessitados de falar dos seus que haviam partido. AƱs duas horas, quando todos estavam famintos e cansados, Bruce disse: — Vejo-me impelido a terminar. Hoje, eu não pretendia realizar uma cerimônia semelhante a um culto, nem mesmo cantar hinos. Mas sinto que precisamos louvar a Deus pelo que aconteceu aqui neste dia. Permitam-me ensinar-lhes um simples cântico de adoração. Bruce entoou um breve cântico extraıd́ o da Escritura, dando glória ao Pai, ao Filho e ao Espıŕ ito Santo. Quando o povo acompanhou, calmo, reverente e sincero, Rayford ϐicou muito emocionado e não conseguiu cantar. Uns após outros foram parando de cantar e apenas diziam baixinho as palavras ou as sussurravam com os lábios cerrados, com um nó na garganta, tomados pela emoção. Rayford acreditava que aquele tinha sido o momento mais forte e comovente de sua vida. Como ele desejaria ter podido compartilhá-lo com Irene, Raymie e Chloe. O público parecia relutante em sair, mesmo depois que Bruce encerrou com uma oração. Muitos permaneceram para estabelecer relacionamentos, e parecia evidente que uma nova congregação estava começando. O nome da igreja nunca fora tão apropriado. Nova Esperança. Bruce apertava a mão de cada pessoa que saıá . Ninguém se esquivava nem se apressava. Quando Rayford apertou-lhe a mão, Bruce perguntou: — Você vai estar ocupado esta tarde? Poderíamos tomar um lanche juntos? — Gostaria de ligar primeiro para minha filha, mas será um prazer. Rayford disse a Chloe onde ele estaria. Ela nada perguntou sobre a reunião na igreja, dizendo apenas: "Demorou, hein? Havia muita gente?" E ele simplesmente respondeu sim a ambas observações. Havia decidido a não dizer mais nada, a menos que ela perguntasse. Esperava e orava para que a curiosidade de Chloe a levasse ϐinalmente a se interessar pelo assunto, e, se mais tarde ele pudesse contar-lhe o que realmente havia acontecido naquele dia, talvez ela manifestasse o desejo de tomar uma atitude. No mıń imo, ela teria de reconhecer o quanto aquilo o afetou. Num pequeno restaurante perto de Arlington Heights, Bruce parecia exausto, mas feliz. Ele disse a Rayford que sentiu uma tal carga de emoções que diϐicilmente saberia o que fazer delas. — Minha aϐlição pela perda de minha famıĺia continua tão viva que mal consigo agir normalmente. Sinto ainda vergonha de minha hipocrisia. E, no entanto, desde que me arrependi de meus pecados e recebi verdadeiramente Cristo, em apenas uns poucos dias Ele me tem abençoado mais do que eu poderia imaginar. Minha casa está solitária, fria e cheia de lembranças dolorosas. Mas, apesar disso, veja o que aconteceu hoje. Foi-me dado um rebanho para pastorear, uma razão para viver. Rayford apenas sinalizava aϐirmativamente com a cabeça. Ele percebeu que Bruce precisava de alguém com quem desabafar. — Ray — disse Bruce -, as igrejas são geralmente formadas por pastores diplomados em seminários e presbıt́ eros que têm sido cristãos na maior parte de suas vidas. Nós não tivemos esse privilégio. Não sei que modelo de liderança vou implantar. Não faz sentido ter presbıt́ eros quando o pastor interino, que é tudo o que posso dizer de mim mesmo, é um cristão recémconvertido como todos os demais. Mas vamos precisar de um grupo de pessoas que se comprometam umas com as outras e sejam dedicadas aos crentes. Loretta e algumas pessoas que conheci na noite do Arrebatamento já fazem parte desse grupo, além de dois senhores idosos que freqüentaram a igreja durante anos, mas por alguma razão também perderam a chance de ser arrebatados. — Sei que isto é novidade para você, mas sinto que devo pedir-lhe que faça parte de nosso pequeno grupo. Estaremos juntos na igreja no culto matutino de domingo, na reunião ocasional no domingo à noite, no estudo bıb́ lico na quarta-feira à noite e nos reuniremos em minha casa uma ou duas noites por semana. Oraremos uns pelos outros, estabeleceremos a responsabilidade de cada um e estudaremos com um pouco mais de profundidade como estar à frente da nova congregação. Você está disposto? Rayford aprumou-se na cadeira. — Uau — disse ele. — Não sei. Sou muito novo nisto. — Todos somos. — Sim, mas você foi criado nesse meio, Bruce. Você conhece o assunto. — Só que perdi o mais importante de tudo. — Bem, vou dizer-lhe o que me atrai nisso. Estou faminto de conhecer a Bıb́ lia. E preciso de um amigo. — Eu também — disse Bruce. — Este é o risco. Com o tempo, poderemos nos desentender. — Estou disposto a assumir o risco, se você estiver -disse Rayford. — Desde que eu não exerça nenhum papel de liderança. — Combinado — disse Barnes, estendendo-lhe a mão. Rayford a apertou com força. Nenhum deles sorriu. Rayford tinha a sensação de que este era o começo de um relacionamento nascido da tragédia e da necessidade. Ele apenas esperava que desse certo. Quando Rayford ϐinalmente chegou ao lar, encontrou Chloe ansiosa por saber tudo a respeito do que se passara. Ela ϐicou assombrada diante do que o pai lhe contou e sentiu-se embaraçada ao dizer que ainda não tinha visto o videoteipe. — Mas vou vê-lo agora, papai, antes de irmos a Atlanta. Vocêestá realmente envolvido nisto, certo? Parece-me que se trata de algo que preciso investigar, mesmo que não tome nenhuma decisão favorável. Rayford tinha chegado a casa havia uns vinte minutos e vestira um pijama e um roupão, para relaxar o resto da noite, quando Chloe lhe deu um recado. — Papai, quase me esqueci. Uma tal de Hattie Durham telefonou várias vezes. Ela parecia muito agitada. Disse que trabalha com você. — Sim — disse Rayford. — Ela queria ser escalada para o meu próximo vôo, e eu não quis. Ela provavelmente descobriu e quer saber por quê. — Por que você não quis? — Esta é uma longa história. Contarei a vocêqualquer dia. Rayford dirigia-se ao telefone, quando ele tocou. Era Bruce. — Esqueci-me de conϐirmar — disse ele. — Já que você concordou em participar do grupo, a primeira responsabilidade é a reunião de hoje à noite com os desalentados e os céticos. — Você está sendo um capataz muito severo, não está? — Posso compreender. Talvez essa reunião não estivesse em seus planos. — Bruce — disse Rayford -, além do céu, não há outro lugar ao qual preferiria ir. Não posso perder essa reunião. Talvez eu leve Chloe. — Que reunião é essa? — perguntou ela quando ele desligou. — Espere um minuto — disse ele. — Deixe-me falar com Hattie e acalmar a situação. Rayford ϐicou surpreso por Hattie não mencionar o fato de não ter sido escalada para seu vôo. — Ouvi uma notıć ia desconcertante — disse ela. — Lembra-se do redator do Semanário Global que estava em nosso vôo, aquele que tinha um computador ligado ao telefone interno do avião? — Vagamente. — Seu nome era Cameron Williams, e conversei com ele umas duas vezes depois do vôo. Tentei ligar para ele do aeroporto em Nova York na noite passada, mas não consegui. — Hã-hã. — Acabo de ouvir pelo noticiário da televisão que ele foi morto na Inglaterra na explosão de uma bomba dentro de um carro. — Você não está falando sério! — Estou. Você não acha isso muito estranho? Rayford, às vezes não sei o quanto essas coisas me afetam. Eu mal conhecia essa pessoa, mas ϐiquei tão chocada que me senti arrasada quando ouvi a notícia. Sinto ter incomodado você, mas pensei que se lembrasse dele. — Não, não, você fez bem, Hattie. E imagino o quanto isso a abateu, porque aconteceu comigo também. Na verdade, tenho muita coisa a lhe contar. — É mesmo? — Poderíamos nos encontrar proximamente? — Eu me inscrevi para ser escalada num de seus vôos — disse ela. — Talvez dê certo. — Talvez — disse ele. — E, se não der certo, talvez você possa vir jantar conosco, Chloe e eu. — Eu gostaria, Rayford. Gostaria mesmo.

C A P Í T U L O 13

 BUCK Williams sentou-se perto de uma das saıd́ as do aeroporto Kennedy e leu seu próprio necrológio. "Redator de Revista Supostamente Assassinado", dizia a manchete. Cameron Williams, 30 anos, o mais jovem e importante redator no cıŕ culo das mais prestigiosas revistas semanais, morreu tragicamente após a explosão de uma bomba dentro de um carro, diante de um bar-restaurante de Londres no último sábado à noite, morrendo no acidente também um investigador da Scotland Yard. Williams, contratado há cinco anos pelo Semanário Global, recebeu o Prêmio Pulitzer como repórter da Boston Globe antes de ingressar na equipe atual de repórteres do Semanário aos 25 anos. Ele chegou rapidamente à primeira linha de redatores e, desde então, escreveu mais de três dúzias de reportagens de capa, tendo conquistado por quatro vezes no Semanário o prêmio pela reportagem "O Fazedor da Notícia do Ano". O jornalista ganhou o honroso Prêmio Ernest Hemingway como correspondente de guerra, quando escreveu uma crônica a respeito da destruição da força aérea russa sobre o território de Israel há 14 meses. De acordo com Steve Plank, editor-executivo do Semanário Global, a administração da revista se recusa a conϐirmar a notıć ia da morte de Williams "até que obtenha sólida evidência do acontecido". O pai de Williams e seu irmão casado vivem em Tucson, onde Williams perdeu sua cunhada, uma sobrinha e um sobrinho nos desaparecimentos da última semana. A Scotland Yard informa que a bomba que explodiu em Londres aparenta ter sido um ato cometido por terroristas da Irlanda do Norte, podendo signiϐicar um caso de retaliação. O capitão Howard Sullivan considerou a vıt́ ima Alan Tompkins, seu subordinado de 29 anos, "um dos homens mais eminentes e brilhantes entre os investigadores que teve o privilégio de comandar". Sullivan acrescentou que Williams e Tompkins tornaram-se amigos depois que o repórter entrevistou o investigador há vários anos para um artigo sobre o terrorismo na Inglaterra. Os dois tinham acabado de sair da taverna Armitage Arms, em Londres, quando uma bomba explodiu no veículo da Scotland Yard, que estava sendo dirigido por Tompkins. Os restos mortais de Tompkins foram identiϐicados, ao passo que somente documentos pessoais de Williams foram recuperados no local. Rayford Steele tinha um plano. Resolveu ser honesto com Chloe a respeito de sua atração por Hattie Durham e o quanto se sentia culpado. Ele sabia que iria desapontar Chloe, mesmo que o fato não a chocasse. Pretendia compartilhar sua fé com Hattie, na esperança de conseguir algum progresso em relação a Chloe, sem que ela se sentisse forçada. Chloe tinha ido com ele à igreja domingo à noite para o encontro com descrentes, como havia prometido. Mas retirou-se por volta da metade da reunião. Ela também cumpriu a promessa de ver o teipe que o pastor anterior havia gravado. Eles não conversaram nem sobre o encontro na igreja nem sobre o videoteipe. Eles não teriam muito tempo juntos até chegar a O'Hare, por isso Rayford tocou no assunto no trajeto de carro até o aeroporto, enquanto olharam pasmos para a devastação e os escombros ao longo do caminho. No caminho até o aeroporto, viram mais de uma dúzia de casas consumidas pelo fogo. A suposição de Rayford era que as famıĺias desaparecidas deixaram alguma coisa no fogão. — E você acha que foi obra de Deus? — perguntou-lhe Chloe, não em sinal de desrespeito. — Acho. — Eu pensava que Ele deveria ser um Deus de amor e ordem — observou ela. — Eu creio que Ele é. Este foi seu plano. — Houve inúmeras tragédias e mortes absurdas antes disso. — Eu também não compreendo tudo isso — disse Rayford. — Mas, como Bruce mencionou ontem à noite, vivemos num mundo decaıd́ o. Deus permitiu que Satanás assumisse quase todo o controle do mundo. — Oh! papai — disse ela. — Você pode imaginar por que saí na metade da reunião? — Suponho que foi porque as perguntas e respostas estavam atingindo você muito intimamente. — Talvez, mas toda essa história sobre Satanás, a Queda, o pecado e não sei o que mais... — Ela parou e meneou a cabeça. — Não posso aϐirmar que compreendo melhor do que você, querida, mas sei que sou um pecador e que este mundo está cheio de pecadores. — E você me considera um deles? — Se você faz parte do mundo, então é, e eu sou. Você não é? — Não propositadamente. — Você nunca é egoísta, gananciosa, ciumenta, mesquinha, rancorosa? — Procuro não ser, evitando magoar ou prejudicar qualquer pessoa. — Mas você pensa que está isenta do que a Bıb́ lia diz sobre cada um de nós ser um pecador, sobre não haver uma pessoa justa em qualquer parte deste mundo, "nenhuma sequer"? — Não sei, papai. Simplesmente não tenho nenhuma idéia. — Você sabe, com certeza, o que me preocupa. — Sim, eu sei. Você acha que o tempo é curto, que neste novo mundo perigoso vou demorar muito tempo para decidir o que fazer, e então poderá ser muito tarde. — Eu não saberia dizer melhor o que vocêdisse, Chloe. Espero apenas que você saiba que estou pensando somente em você, nada mais. — Você não tem de se preocupar comigo, papai. — O que você achou do videoteipe? Ele fez sentido para você? — Ele faz muito sentido, se alguém aceitar tudo aquilo sem questionar. Quero dizer, a pessoa tem de começar com isso como um alicerce. Então tudo passa a ϐicar mais claro. Mas, se ela não está segura a respeito de Deus, da Bıb́ lia, do pecado, do céu e do inferno, continua se perguntando o que aconteceu e por quê. — E é neste ponto que você está? — Não sei onde estou, papai. Rayford procurou evitar insistir com ela. Se tivessem tempo bastante em Atlanta durante o almoço, ele tentaria abordar o assunto referente a Hattie. O avião permaneceria apenas 45 minutos em Atlanta antes de retornar a Chicago. Rayford perguntou a si mesmo se seria correto orar para que houvesse um atraso. — Belo boné — disse Steve Plank entrando rapidamente no aeroporto Kennedy e dando uma palmada no ombro de Buck. — O que é isso? Barba de dois dias? — Nunca fui muito bom em disfarces — disse Buck. — Você não é tão famoso a ponto de precisar se esconder — disse Steve. — Você pode ficar fora de seu apartamento por algum tempo? — Sim, e provavelmente no seu. Tem certeza de que não foi seguido? — Você está ficando um tanto paranóico, não está, Buck? — Tenho motivos — disse Buck enquanto entravam num táxi. — Central Park — indicou ele ao motorista. Em seguida, contou a Steve toda a história. — O que faz você pensar que Carpathia vai ajudar? -perguntou Plank mais tarde, quando caminhavam dentro do parque. — Se a Yard e a Bolsa estiverem por trás disso, e se você considerar que Carpathia está ligado a Todd-Cothran e Stonagal, talvez esteja se perguntando por que Carpathia se voltou contra seus anjos da guarda. Eles caminhavam sob uma ponte para evitar o sol quente da primavera. — Tenho um pressentimento sobre esse cara — disse Buck, ecoando sua voz nas paredes de pedra. — Não seria surpresa para mim se viesse a saber que ele se encontrou com Stonagal e Todd-Cothran em Londres há alguns dias. Mas tenho de acreditar que ele é um fantoche. Steve mostrou um banco em que se sentaram. — Bem, encontrei Carpathia hoje de manhãem sua entrevista à imprensa — disse Steve — e só espero que você esteja certo. — Rosenzweig ϐicou impressionado com ele, e estamos falando de um velho cientista de grande intuição. — Carpathia é uma pessoa que impressiona — admitiu Steve. — É um tipo atraente como um Robert Redford jovem, e nesta manhã falou em nove lıń guas, tão ϐluentemente como se cada uma delas fosse sua língua nativa. A mídia está entusiasmada com ele. — Você diz isso como se não fizesse parte da mídia -observou Buck. Steve encolheu os ombros. — Estou manifestando minha opinião. Aprendi a ser cético, deixando que a revista People e os tablóides corram atrás das celebridades. Mas aqui está urn cara com substância, com cérebro, com alguma coisa a dizer. Gostei dele. Isto é, vi o homem apenas na audiência com a imprensa, mas ele parece ter um plano. Você vai gostar dele, apesar de ser muito mais cético do que eu. E, além do mais, ele quer vê-lo. — Fale-me sobre isso. — Eu disse a você. Ele tem uma pequena comitiva de joões-ninguém, com uma exceção. — Rosenzweig. — Correto. — Qual é a conexão com Chaim Rosenzweig? — Ninguém sabe até agora, mas Carpathia parece atrair especialistas e consultores que o mantenham atualizado para acelerar a tecnologia, a polıt́ ica, as ϐinanças e tudo mais. E você sabe, Buck, ele não é tão mais velho que você. Ouvi dizer hoje de manhã que ele tem 33 anos. — E fala nove línguas? Plank assentiu com a cabeça. — Lembra-se de quais eram? — Por que você quer saber? — Por curiosidade. Steve puxou uma agenda de seu bolso lateral. — Você quer em ordem alfabética? — Sim. — Alemão, árabe, chinês, espanhol, francês, húngaro, inglês, romeno e russo. — Diga de novo — pediu Buck, pensativo. Steve repetiu. — O que você tem em mente? — Esse cara é o político perfeito. — Não é. Conϐie em mim, não houve nenhuma tramóia. Ele conhecia bem essas lıń guas e as usou com eficácia. — Você não vê nenhuma ligação entre essas línguas, Steve? Pense um pouco. — Poupe-me o esforço. — São as seis línguas da Organização das Nações Unidas, mais as três línguas do país dele. — Você está brincando? Buck disse que não. — Então, vou me encontrar com ele logo? O vôo para Atlanta estava lotado e tumultuado, e Rayford teve de mudar continuamente de altitude para evitar variações atmosféricas. Conseguiu ver Chloe somente por alguns segundos, enquanto seu co-piloto estava no comando e o avião ligado no piloto automático. Ele passou rapidamente pelos corredores, mas não teve tempo de conversar com ninguém. Rayford teve seu desejo satisfeito em Atlanta. Outro 747 teria de voar de volta a Chicago na metade da tarde, e o único piloto disponıv́ el teve de retornar mais cedo. Chicago fez a coordenação com Atlanta, trocou os escalonamentos, e também reservou uma poltrona para Chloe. Com isso, eles teriam mais de duas horas para almoçar, tempo suϐiciente para saıŕ em do aeroporto. A taxista, uma jovem com voz cadenciada, perguntou se gostariam de contemplar "uma cena verdadeiramente incrível". — Se não ficar muito fora de mão. — Fica apenas a umas duas quadras do lugar aonde vocês estão indo — disse ela. Ela manobrou contornando vários desvios e cavaletes, passando, em seguida, por duas ruas controladas por guardas de trânsito. — Olhem lá adiante — disse ela, apontando e entrando num estacionamento de areia rodeado de muros de concreto de quase um metro de altura. — Estão vendo aquele estacionamento do outro lado da rua? — O que é aquilo? — perguntou Chloe. — Estranho, não acham? — comentou a motorista. — O que aconteceu? — perguntou Rayford. — Isto aconteceu no momento dos desaparecimentos -explicou. Eles olharam para o estacionamento de seis andares cheio de carros que colidiram de todos os lados, formando um amontoado confuso de veıć ulos tão amassados que os guindastes tinham de levantá-los e retirá-los através das brechas abertas nas paredes laterais do edifício. — O pessoal chegou ao estacionamento após uma competição que terminou tarde da noite — explicou ela. — A polıć ia diz que foi horrıv́ el. Longas ϐilas de carro tentando deixar o estacionamento, uns passando à frente dos outros enquanto alguns não saıá m do lugar, atravancando a passagem. Alguém, que se cansou de esperar, se enϐiou no meio da ϐila, o que levou outros a fazerem o mesmo, vocês compreendem. — Sim, compreendemos. Disseram que, de repente, num piscar de olhos, mais de um terço dos carros ϐicaram sem motoristas. Os carros começaram a se movimentar sozinhos nos vãos livres e bateram em outros ou na parede. Em lugares onde não havia espaço, eles subiram nos que estavam à frente. Os motoristas que não desapareceram não tinham como ir para a frente nem para trás. A confusão foi tamanha que eles deixaram seus carros e passaram por cima dos outros carros para poderem sair do estacionamento em busca de ajuda. De madrugada, dois guinchos transportaram os carros para o andar térreo. Os guindastes chegaram por volta do meio-dia e estão aí até agora. Rayford e Chloe ϐicaram fora do carro observando, meneando a cabeça. Guindastes normalmente usados para levantar vigas de ferro para o alto das construções estavam passando cabos de aço em torno dos carros para erguê-los, arrastá-los, empurrá-los um após outro, passando-os pelos rombos feitos na parede de concreto para esvaziar o estacionamento. Pelo jeito, deveria levar mais alguns dias para terminar a remoção dos veículos. — E quanto a você? — perguntou Rayford à motorista. -Perdeu alguém? — Sim, senhor. Minha mãe, minha avó, duas irmãzinhas. Mas sei onde elas estão. Estão no céu, exatamente como minha mãe sempre dizia. — Creio que você está certa — confortou-a Rayford. — Minha esposa e meu filho também se foram. — E o senhor está salvo agora? — perguntou a jovem. Rayford ϐicou chocado pela franqueza, mas sabia exatamente o que ela queria dizer. — Eu estou — disse ele. — Eu também. A pessoa tem de ser cega ou coisa parecida para não ver a luz agora. Rayford queria dar uma olhada para Chloe, mas preferiu evitar. Ele deu uma boa gorjeta à jovem motorista quando ela os deixou no restaurante. Durante o almoço, ele contou a Chloe sua história com Hattie, tal como aconteceu. Chloe ficou em silêncio por um longo tempo. Quando falou, sua voz era fraca. — Então você realmente não teve um caso com ela? -perguntou-lhe. — Felizmente, não. Nunca seria capaz de me perdoar. — Isso teria partido o coração de mamãe, com toda certeza. Ele assentiu pesarosamente. — AƱs vezes, sinto-me tão vil como se tivesse sido inϐiel a ela. Mas procurei comportar-me dignamente pelo fato de sua mãe estar tão obcecada pela religião. — Eu sei, embora tudo me pareça estranho. Isso ajudou-me a comportar-me mais corretamente na escola. Quero dizer, estou certa de que mamãe ϐicaria desapontada ao ter conhecimento de uma porção de coisas que eu disse e ϐiz enquanto estive fora — não me pergunte o quê. Mas, sabendo o quanto ela era sincera e consagrada, e por ter grandes esperanças e expectativas a meu respeito, tive forças para não cometer alguma coisa realmente estúpida. Sabia que ela estava orando por mim. Ela me dizia isso toda vez que me escrevia. — Ela escrevia a você também sobre o final dos tempos, Chloe? — Sim, sempre. — E, mesmo assim, você ainda não quer aceitar? — Quero, papai. Realmente quero. Mas tenho de ser intelectualmente honesta comigo mesma. Rayford não podia fazer outra coisa, a não ser acalmar-se. Será que ele havia sido um pseudo-intelectual naquela idade? Certamente. Ele provara todas as coisas ligadas àquela intelectualidade irritante — até recentemente, quando o acontecimento sobrenatural destruiu sua pretensão acadêmica. Mas, como a motorista de táxi disse, é preciso ser cego para não ver a luz agora, não importa o grau de instrução que imaginamos ter. — Vou convidar Hattie para jantar conosco esta semana -disse ele. Chloe semicerrou as pálpebras. — O quê? Você acha que está disponıv́ el agora? Rayford ϐicou pasmo com sua reação. Ele teve de se controlar para não dar um tapa em sua ϐilha, algo que nunca tinha feito. Ele comprimiu fortemente os dentes. — Como você pode falar assim comigo depois de tudo o que acabei de lhe contar? — reagiu ele. — Isto é um insulto. — Então era o que você esperava dessa Hattie Durham, papai. Você acha que ela não estava consciente do que se passava? Como vocêimagina que ela vai interpretar isso? Ela pode chegar aqui em pé de guerra. — Vou deixar bem claro quais são minhas intenções, e elas são totalmente honestas, mais honestas do que nunca, porque não tenho nada de valor para oferecer a ela. — Então agora você vai deixar de cortejá-la para pregar o evangelho a ela. Ele tinha vontade de discutir, mas não podia. — Eu me preocupo com Hattie como pessoa e desejo que ela conheça a verdade e seja capaz de viver de acordo com essa verdade. — E o que acontecerá se ela não aceitar? — A escolha é dela. Posso apenas fazer a minha parte. — EƵ assim que você sente a meu respeito também? Se eu não agir da forma como você quer, ficará conformado por ter feito a sua parte? — Deveria, mas evidentemente me preocupo muito mais com você do que com Hattie. — Você deveria ter pensado nisso antes de arriscar tudo para ir atrás dela. Rayford estava sendo novamente ofendido, mas absorveu a agressão por sentir que merecia. — Talvez seja por esse motivo que nunca tomei qualquer iniciativa nesse sentido — disse ele. — Pensar no quê? — Este assunto é totalmente novo para mim — disse Chloe. — Espero que você tenha refreado seus impulsos por causa de sua esposa e de seus filhos. — Quase não consegui. — Imagino. O que aconteceria se esta estratégia com Hattie tornasse vocêmais atraente para ela? E o que pode impedir que você sinta atração por ela também? Você não é mais um homem casado, se é que está convencido de que mamãe está no céu. Rayford pediu a conta e pôs o guardanapo sobre a mesa. — Talvez esteja sendo ingênuo, mas o fato de sua mãe estar no céu é exatamente como perdê-la numa morte súbita. A última coisa que se passa em minha mente é outra mulher, e certamente não seria Hattie. Ela é muito jovem e imatura, e me sinto desgostoso comigo mesmo por ter sido atraıd́ o por ela logo no inıć io. Quero questioná-la e ver o que ela diz. Será importante saber se toda esta história estava apenas em minha mente. — Você está pensando num caso para o futuro? — Chloe, amo você, mas está se portando de modo intolerável. — Eu sei. Sinto muito. Acho que me excedi. Mas, falando sério, como vocêvai saber se ela está sendo sincera? Se vocêdisser que estava interessado nela por motivos equivocados, e que já não está mais interessado, por que ela deveria ser tão vulnerável a ponto de admitir que pensou que havia possibilidades para vocês dois? Rayford encolheu os ombros. — Você pode estar certa. Mas tenho de ser honesto com ela, mesmo que ela não seja honesta comigo. Devo a ela esta satisfação. Quero que Hattie me leve a sério quando eu lhe disser qual é a necessidade dela agora. — Não sei, papai. Penso que é muito cedo para procurar levá-la a Deus. — O que é muito cedo, Chloe? Não há nenhuma garantia, não agora. Steve tirou do bolso interno do paletó dois conjuntos de credenciais para a imprensa, que permitiam a seus portadores assistir ao discurso de Nicolae Carpathia na Assembléia Geral da ONU, naquela mesma tarde. As credenciais de Buck estavam em nome de George Oreskovich. — Devo cuidar de você, ou fazer qualquer outra coisa? — Nem pensar — disse Buck. — Quanto tempo temos? — Pouco mais de uma hora — informou Steve, acenando com o braço para chamar um táxi. — E como eu disse, ele quer se encontrar com você. — Ele deve ler os jornais, você não acha? Está pensando que estou morto. — Suponho que sim. Mas ele vai se lembrar do que lhe disse esta manhã, e terei meios de assegurar a ele que tanto faz ser entrevistado por George Oreskovich como pelo famoso Cameron Williams. — Sim, Steve, mas, se ele for como outros polıt́ icos de envergadura que conheço, preocupa-se com sua imagem, prefere jornalista de alto nıv́ el. Quer você goste ou não, é o que eu sou. Como você vai marcar um encontro dele com um desconhecido? — Não sei. Talvez eu lhe diga que é realmente você mesmo. E, enquanto você estiver com ele, vou soltar a notıć ia de que sua morte foi um engano e que, neste mesmo instante, você está fazendo uma entrevista com Carpathia para uma reportagem de capa. — Uma reportagem de capa? Sua opinião mudou muito depois de ter considerado esse homem um burocrata de baixo nível de um país não-estratégico. — Eu estive na entrevista com a imprensa, Buck. Falei com ele. E posso ao menos avaliar os competidores. Se não o apresentarmos como alguém proeminente, seremos a única revista de âmbito nacional a não fazê-lo. — Como já disse, se ele for o político típico que conheço... — Pode tirar isso da sua mente, Buck. Você vai achar esse cara exatamente o oposto de um polıt́ ico tıṕ ico. Você vai me agradecer por proporcionar-lhe uma entrevista exclusiva com ele. — Pensei que a idéia fosse dele por causa de meu nome famoso — disse Buck em tom de brincadeira. — E daí? Eu poderia diminuir seu cartaz. — Sim, e ser o editor-executivo da única revista nacional que falhou na cobertura da mais empolgante cara nova a visitar os Estados Unidos. — Creia-me, Buck — acrescentou Steve durante a corrida de táxi até o edifıć io da ONU -, esta vai ser uma mudança reanimadora após a ruıń a e o desalento sobre os quais escrevemos e lemos nos últimos dias. Os dois usaram suas credenciais para entrar, mas Buck procurou esquivar-se e esconder-se da vista de seus colegas e dos concorrentes, até que se sentassem na Assembléia Geral. Steve reservou um lugar para ele bem atrás, onde não chamaria a atenção quando entrasse sorrateiramente no último minuto. Enquanto isso, Steve usaria seu telefone celular para providenciar a notıć ia do reaparecimento de Buck, com tempo de alcançar os jornais de circulação vespertina. Carpathia entrou na assembléia de uma forma digna mas sem brilho, embora estivesse cercado de meia dúzia de personalidades, incluindo Chaim Rosenzweig e um perito das ϐinanças do governo francês. Carpathia aparentava ter cerca de l,85m de altura, ombros largos, troncudo, alinhado, atlético, bronzeado e loiro. A cabeleira espessa estava bem aparada em torno das orelhas, costeletas e pescoço, e seu terno cinza-azulado com riscas brancas combinando com a gravata era perfeitamente conservador. Mesmo à distância, o homem parecia demonstrar um aspecto de humildade e determinação. Sua presença dominava o ambiente, embora ele não parecesse preocupado com sua aparência. Tinha o queixo e o nariz tipicamente romanos, e seus penetrantes olhos azuis eram profundos e encimados por espessas sobrancelhas. Buck ϐicou admirado de Carpathia não portar um caderno de anotações e imaginou que o homem deveria ter suas notas para o discurso em seu bolso interno. Ou, então, algum de seus assessores estaria com as notas. Buck estava enganado a respeito das duas possibilidades. O secretário-geral Mwangati Ngumo, de Botsuana (AƵfrica), anunciou que a assembléia tinha o privilégio de ouvir um breve pronunciamento do novo presidente da Romênia e que a apresentação formal do convidado seria feita pelo honorável Dr. Chaim Rosenzweig, com quem estavam todos familiarizados. Rosenzweig apressou-se em direção à tribuna com um vigor incompatıv́ el com sua idade, e inicialmente recebeu uma ovação mais entusiástica do que o próprio Carpathia. O popular estadista e erudito israelense disse simplesmente que tinha o imenso prazer de apresentar "a esta digna e augusta assembléia um jovem estadista que respeito e admiro como uma das personalidades mais brilhantes que conheci. Queiram, senhores, receber Sua Excelência, presidente Nicolae Carpathia, da Romênia". Carpathia ergueu-se, voltou-se para a assembléia, curvou-se humildemente, e apertou efusivamente a mão de Rosenzweig. Com maneiras corteses, ele permaneceu ao lado da tribuna até que o idoso apresentador tomasse assento. Em seguida, procurou relaxar e sorrir antes de falar de improviso. Além de não fazer uso de notas, não hesitou em nenhum momento, não cometeu nenhum erro de pronúncia nem tirou os olhos de sua audiência. Ele falou com seriedade, paixão e freqüentes sorrisos, além de humor ocasional e apropriado. Mencionou respeitosamente que estava consciente e preocupado com a ocorrência do desaparecimento de milhões de pessoas em todo o mundo, fenômeno que não tinha ainda completado uma semana, incluindo muitos que tinham estado "neste mesmo lugar". Carpathia falou num inglês perfeito, somente com um indıć io -de sotaque romeno. Não usou contrações e pronunciou as -I sıĺabas de todas as palavras. Uma vez mais, ele empregou todas as nove lıń guas em que era fluente, e cada vez traduzindo ele mesmo para o inglês. Em uma das cenas mais comoventes que Buck já tinha testemunhado, Carpathia começou por anunciar que era com humildade e emoção que visitava "pela primeira vez este lugar histórico, para o qual todas as nações voltam seus olhares. Uma após outra têm vindo de todas as partes do globo em peregrinação tão sagrada como as das Terras Santas, expondo suas faces ao calor do sol nascente. Aqui elas têm tomado sua posição para a paz num compromisso duradouro e ϐirmado em rocha sólida, objetivando espantar a insanidade da guerra e do derramamento de sangue. Estas nações, grandes e pequenas, tiveram sua cota de morte e mutilação de seus mais promissores cidadãos no apogeu de sua mocidade. "Nossos antepassados já pensavam na globalização muito antes de eu nascer", disse Carpathia. "Em 1944, ano em que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial foram estabelecidos, este grande paıś anϐitrião, os Estados Unidos da América do Norte, com a União das Nações Britânicas e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, se reuniram na famosa Conferência de Dumbarton Oaks para propor o nascimento desta organização." Exibindo sua compreensão da História e sua memória de datas e lugares, Carpathia prosseguiu: "Desde seu nascimento oϐicial em 24 de outubro de 1945, e daquela primeira sessão de vossa Assembléia Geral em Londres, em 10 de janeiro de 1946, até este dia, tribos e nações se associaram para comprometer-se com todo empenho e sinceridade a lutar pela paz, fraternidade e a comunidade global." Ele começou quase com um sussurro: "De terras distantes e próximas, elas vieram: do Afeganistão, Albânia, Argélia..." Ele continuou, sua voz alteando-se e baixando dramaticamente com a pronunciação cuidadosa do nome de cada paıś membro da ONU. Buck sentia nele uma paixão, um amor por esses paıś es e pelos ideais da ONU. Carpathia estava visivelmente comovido à medida que apelava à memória, citando paıś por paıś , num ritmo de voz audıv́ el e modulada. A cada nome mencionado de paıś es, observava-se que seus respectivos representantes se levantavam, ϐicavam em posição ereta e solene, como se estivessem renovando seus votos pela paz entre as nações. Carpathia sorria e cumprimentava à distância cada representante, e quase todos os paıś es estavam ali representados. Em razão do trauma cósmico que o mundo acabara de sofrer, eles vieram em busca de respostas, ajuda e apoio. Agora tinham novamente a oportunidade de reafirmar sua posição. Buck estava cansado e sentindo-se sujo por usar as mesmas roupas nos últimos dois dias. Mas suas preocupações eram para ele uma distante lembrança enquanto Carpathia continuava. Quando chegou à letra S em sua lista alfabética, os que ali estavam continuavam aplaudindo cada paıś mencionado. Era algo digniϐicante e forte essa demonstração de respeito, acolhimento e admiração, essa consolidação de boas-vindas à comunhão global. Os aplausos só não eram mais efusivos para não abafar a voz de Carpathia, mas eram tão espontâneos, sinceros e tocantes que Buck não podia evitar o nó na garganta. De repente, ele notou algo peculiar. Os representantes da imprensa internacional formavam um único bloco com os embaixadores e as delegações. Mesmo a objetividade da imprensa mundial tinha temporariamente se retraıd́ o da posição que sustentava em seus artigos contra o . jacobinismo, o excesso de patriotismo e a hipocrisia. Buck estava também ansioso para levantar-se, entusiasmado pelo fato de o nome de seu paıś estar perto de ser mencionado, sentindo o orgulho e a euforia aumentando em seu peito. AƱ medida que mais paıś es eram citados e seus representantes se erguiam orgulhosamente, o aplauso crescia, simplesmente por causa do considerável número de nações. Carpathia aproximava-se do ϐim da relação de membros da ONU, e em sua voz percebia-se uma crescente emoção e ênfase em cada nome de país pronunciado. Ele se empolgava cada vez que as pessoas se levantavam e aplaudiam. "Sıŕ ia, Somália, Sri Lanka, Suazilândia, Sudão, Suécia, Suriname!" Mais de cinco minutos citando nomes de paıś es, e Carpathia não omitiu um sequer. Não havia hesitado um só momento, gaguejado ou falhado na pronúncia de qualquer um dos nomes. Buck estava sentado na beira da poltrona quando o orador terminou os nomes iniciados por T, e continuou "Ucrânia! Uganda! United States of America!" Buck ϐicou em pé ao lado de Steve e dezenas de outros membros da imprensa. Alguma coisa tinha acontecido com o desaparecimento de pessoas amadas em toda a superfıć ie do planeta. O jornalismo não podia ser mais o mesmo. Oh! haveria os céticos e aqueles que adoravam a objetividade. Mas o que tinha sucedido com o amor fraternal? O que tinha havido com a dependência uns dos outros? O que tinha acontecido com a fraternidade de homens e nações? A situação mudou. Embora ninguém esperasse que a imprensa pudesse transformar-se na agência de relações públicas para uma nova estrela polıt́ ica, Carpathia certamente os havia encurralado num canto do ringue naquela tarde. No ϐinal de seu rol de quase duzentas nações, o jovem Nicolae estava no ápice do seu ardor e emoção. Com tal força e dinamismo na simples relação de nomes de todos os paıś es que ansiavam manter-se unidos uns com os outros, Carpathia tinha trazido toda a multidão a seus pés, com sua palavra e com os aplausos, bem como os representantes e a imprensa internacionais. Até os céticos Steve Plank e Buck Williams continuaram a bater palmas e a ovacionar, em nenhum momento aparentando embaraço diante da perda de sua objetividade. E havia mais. Na meia hora seguinte, Carpathia demonstrou tal conhecimento das Nações Unidas, como se ele mesmo tivesse criado e desenvolvido a organização. Para alguém que nunca tinha posto os pés no solo norte-americano e, muito menos, visitado a ONU, ele revelou espantosa compreensão de seus trabalhos internos. Durante seu pronunciamento, ele mencionou os nomes de todos os secretários-gerais, começando por Trygve Lie, da Noruega, até Ngumo, indicando seus perıó dos de atividade não apenas por anos, mas especiϐicando as datas de posse e término de mandato. Ele exibiu conhecimento e compreensão de cada um dos seis órgãos principais da ONU, suas funções, seus ocupantes atuais e seus desafios peculiares. Em seguida, Carpathia citou as 18 agências da ONU, dizendo o nome de cada uma, seus atuais diretores, e a localização de seus centros de operação. Foi uma espantosa demonstração. De repente, percebeu-se que não foi sem razão que esse homem cresceu tão rapidamente em sua nação, não foi à toa que o lıd́ er anterior sucumbiu diante dele e foi posto de lado. Não era de admirar que Nova York já havia se rendido a ele. Depois disso, Buck sabia, Nicolae Carpathia seria reconhecido por toda a América. E depois pelo mundo.

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