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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 61

Trechos do diário de Arno Dorian

12 de setembro de 1794

Creio que aqui devo assumir a história. Devo assumi-la dizendo que, quando a encontrei no Templo no dia seguinte, ela estava pálida e abatida, e agora sei o porquê. Há mais de cem anos, o Temple du Marais teve como modelo o Panteão Romano. Elevando-se por trás de uma fachada em arco, com sua própria versão do afamado domo, tinha paredes altas. Oúnico trânsito de entrada e saída era das ocasionais carroças de feno que passavam por um portão traseiro. De imediato, Élise queria que nos separássemos, mas eu não tinha certeza; havia algo nos olhos dela, como se faltasse alguma coisa, como se uma parte dela de algum modo estivesse ausente. E, de alguma maneira, eu creio, estava certo. Tomei aquilo então como uma amostra de determinação e foco e não li nada em seus diários que sugerisse algo além em larga escala. Élise podia estar determinada a alcançar Germain, mas não acho que ela acreditasse que seria assassinada, apenas que mataria Germain naquele dia ou que morreria ao fazê- lo. E talvez ela permitisse que a serenidade da alma tragasse seu medo, esquecendo-se de que, às vezes, embora você seja determinado, embora suas habilidades em combate sejam avançadas, é o medo que o mantém vivo. Pouco antes de nos dividirmos para encontrar uma entrada para o santuário interno do Templo, ela havia fixado um olhar sugestivo e dissera: —Se você tiver uma chance de eliminar Germain, aproveite-a. ii E assim o fiz. Encontrei-o dentro do Templo, sombrio em meio às pedras cinzentas e úmidas, uma figura solitária entre os pilares dentro da igreja. E ali tive minha chance. No entanto, ele era veloz demais para mim. Sacou uma espada de poderes misteriosos. Aquela espada era o tipo de coisa da qual eu riria antigamente e alegaria ser um truque. Hoje em dia, é claro, sei que não devo zombar do que não compreendo e, de qualquer modo, enquanto Germain brandia o estranho objeto cintilante, ele parecia criar e desencadear grandes raios de energia, como se os convertendo do ar ao redor. Parecia brilhar e faiscar. Não, não havia motivo para rir daquela espada. Ela se manifestou novamente, faiscando e lançando um raio de energia que parecia saltar para mim, como se tivesse vontade própria. — Então o assassino pródigo retornou — disse Germain. — Desconfiei quando La Touche parou de enviar sua receita de impostos. Você se tornou um espinho em meu sapato. Saí de meu esconderijo de trás de uma coluna, minha lâmina oculta estendida e brilhando fracamente à meia-luz. — Devo supor que Robespierre também foi executado? — disse ele enquanto nos posicionávamos. Abri um sorriso, concordando. — Não importa — ele sorriu —, seu Reinado de Terror serviu a seu propósito. O metal foi aquecido e modelado. Resfriá-lo só estabelecerá sua forma. Disparei para a frente e golpeei a espada, não com o intuito de desviá-la, mas de danificá-la, sabendo que se eu pudesse desarmá-lo de algum modo, viraria a batalha a meu favor. — Por que tanta insistência? — provocou ele. — É vingança? Bellec o doutrinou a ponto de você agir em nome dele mesmo tardiamente? Ou será amor? A filha do Monsieur de la Serre mexeu com sua cabeça? Minha lâmina oculta desceu com força na haste da espada e a arma pareceu soltar um brilho colérico e ferido, como se estivesse machucada. Mesmo assim, Germain, agora de pé, de algum modo conseguiu invocar seu poder de novo, desta vez de uma forma que até eu tive dificuldades para acreditar. Com uma explosão de energia que me atirou para trás e deixou uma marca de queimadura no chão, o Grão-Mestre simplesmente desapareceu. Bem do fundo, nos recessos do Templo, veio um estrondo que pareceu ondular pelas paredes de pedra, e me levantei para seguir naquela direção, tropeçando pelos degraus úmidos até chegar à cripta. A minha esquerda, Élise saiu da penumbra das catacumbas. Esperta. Se tivesse chegado um pouco antes, teríamos interceptado Germain dos dois lados. (Tais momentos, percebo agora — alguns segundos aqui, alguns segundos acolá. Todos peculiaridades mínimas e dolorosas no tempo que acabaram por decidir o destino de Élise.) — O que houve aqui? — disse ela, examinando o que costumava ser o portão da cripta, mas que agora estava escurecido e retorcido. Balancei a cabeça. —Germain tem uma espécie de arma... Nunca vi nada parecido. Ele escapou de mim. Ela mal olhou para o meu lado. —Ele não passou por mim. Deve estar aqui embaixo. Lancei um olhar de dúvida. Mesmo assim, com nossas espadas em riste, descemos os poucos degraus restantes à cripta. Vazia. Mas tinha de haver uma porta secreta. Comecei a procurar às apalpadelas e as pontas de meus dedos encontraram uma alavanca entre a pedra, a qual puxei; recuei quando uma porta deslizou com um som agudo como o de um triturar e uma grande câmara se estendeu adiante, ladeada de pilares e sarcófagos Templários. Dentro dela, estava Germain. De costas para nós, e percebi que sua espada de algum modo havia recuperado o poder e que ele nos aguardava, quando, do meu lado, Élise saltou com um grito de fúria. —Élise! E assim que Élise se lançou em cima dele, Germain girou o corpo, brandindo a espada reluzente, fazendo com que um raio de energia feito uma serpente saísse dela, nos obrigando a nos jogar de lado para nos proteger. Ele riu. —Ah, temos Mademoiselle de la Serre também. Este é um reencontro e tanto. —Continue escondida —sussurrei para Élise —, deixe que ele fale. Ela assentiu e se agachou atrás de um sarcófago, gesticulando para mim e falando com Germain ao mesmo tempo. — Você pensou que este dia jamais chegaria — disse ela —, que seu crime ficaria impune pelo fato de François de la Serre não ter tido filhos homens para se vingar? —Vingança? —Ele riu. —Sua visão é tão estreita quanto a de seu pai. Ela rebateu gritando: —Veja só quem fala. Que amplitude de visão teve sua tomada de poder? — Poder? Não, não, não, você é mais inteligente do que isso. Nunca se tratou de poder. Sempre foi pelo controle. Seu pai não lhe ensinou nada? A Ordem tornou-se complacente. Durante séculos concentramos a atenção nas armadilhas do poder: os títulos de nobreza, os cargos da Igreja e do Estado. Apanhados na mesma mentira que elaboramos para conduzir as massas. —Eu vou matar você —disse ela. —Você não está me ouvindo. Matar-me não impedirá nada. Quando nossos irmãos Templários virem as antigas instituições em ruínas, eles se adaptarão. Daí recuarão para as sombras, e nós, enfim, seremos os Mestres Secretos que deveríamos ser. Então venha... Mate-me, se puder. A menos que por milagre você consiga materializar um novo rei e seja capaz de deter a revolução em andamento, isso não fará diferença. Disparei de meu canto, aparecendo no lado cego de Germain e sem sorte para não dar cabo dele com minha lâmina; em vez disso, sua espada estalou furiosamente e um globo de energia branca azulada veio disparando dela na velocidade de uma bala de canhão, infligindo dano semelhante à câmara à nossa volta. Em um momento fui engolfado pela poeira enquanto a alvenaria caía ao redor — e no instante seguinte eu estava preso embaixo de um pilar caído. —Arno —chamou Élise. —Estou preso. O que quer que fosse aquela grande bola de energia, Germain não tinha pleno controle sobre ela. Ele agora se recompunha, tossindo e de olhos semicerrados para a poeira em turbilhão, cambaleando na alvenaria espalhada pelo piso de pedra enquanto se esforçava para se manter de pé. Recurvado, ele se ergueu e se perguntou se deveria acabar conosco, mas evidentemente optou pelo contrário e, em vez disso, girou e fugiu para as profundezas da câmara, sua espada cuspindo as faíscas furiosas de um ferreiro. Observei enquanto os olhos desesperados de Élise saíram de mim, momentaneamente impotente e necessitando de ajuda, e pousaram na figura de Germain, que se retirava. Ela voltou a olhar para mim. —Ele está fugindo —disse ela, os olhos ardendo de frustração e, quando voltou a me olhar, pude ver a indecisão estampada por todo o rosto. Havia duas opções. Ficar e deixar Germain escapar, ou ir atrás dele. Nunca houve dúvida nenhuma, de fato, sobre a opção que ela escolheria. —Eu posso pegá-lo —disse ela, decidindo. —Não pode —alertei. —Não sozinha. Espere por mim. Élise. Mas ela desapareceu. Com um uivo de esforço, libertei-me da pedra, coloquei-me de pé com dificuldade e parti atrás dela. E se eu tivesse chegado alguns segundos antes (conforme eu já tinha dito —cada passo do caminho para a morte dela fora decidido por meros segundos), poderia ter revertido a batalha, porque Germain se defendia furiosamente, o esforço estampado em suas feições cruéis; e talvez a espada dele —aquela coisa que eu concluíra ser quase viva —de algum modo sentisse que seu dono estava à beira da derrota... porque logo após uma forte explosão de som, luz e um imenso estouro indiscriminado de energia, ela se espatifou. A força me abalou, mas meu primeiro pensamento foi para Élise. Ela e Germain estavam bem no centro da explosão. Através da poeira, vi o cabelo ruivo; Élise jazia amarfanhada sob uma coluna. Corri até lá, fiquei de joelhos, tomei sua cabeça em minhas mãos. Havia uma luz intensa nos olhos dela. Élise me viu, eu acho, no segundo antes de morrer. Ela me viu e a luz entrou em seus olhos pela última vez —e foi extinta. iii Durante algum tempo ignorei a tosse de Germain e baixei a cabeça de Élise na pedra gentilmente, fechando seus olhos. Daí me levantei, atravessando a câmara tomada de destroços até onde ele estava prostrado, o sangue borbulhando da boca, olhando para mim, quase morto. Ajoelhei-me. Sem tirar os olhos dele, cravei a lâmina em seu corpo e concluí o trabalho. Tive uma visão quando Germain morreu. (E deixe-me interromper para imaginar o olhar enviesado de Élise quando lhe falei das visões. Nem de crença, nem de dúvida.) Esta visão foi diferente das outras. De algum modo, eu estava presente nela, de uma forma que jamais tinha visto. Flagrei-me na oficina de Germain, observando-o; ele exibia a aparência que um dia tivera, com as roupas de um prateiro, sentado, preparando um broche. Enquanto eu o olhava, ele segurou as têmporas e começou a murmurar sozinho, como se atacado por algo em sua cabeça. Oque era?, perguntei-me, quando veio uma voz de trás de mim, assustando-me. —Bravo. Você eliminou o vilão. Foi assim que representou sua pequena peça moral em sua mente, não foi? Ainda na visão, eu me virei para a origem da voz, encontrando outro Germain —este muito mais velho, o Germain que eu conhecia —de pé atrás de mim. —Ah, não estou realmente aqui —explicou ele —, nem tampouco estou realmente lá. No momento sangro no chão do Templo. Mas parece que o pai da compreensão julgou adequado nos dar este tempo para conversar. De repente a cena se alterou e estávamos na câmara secreta sob o Templo, onde ocorrera a luta, mas ela estava incólume e não havia sinal de Élise, nenhum entulho pelo chão. Oque eu via eram cenas de uma época anterior, enquanto o Germain mais jovem se aproximava do altar onde estavam os textos de Jacques de Molay. —Ah —veio a voz do guia-Germain atrás de mim. —Particularmente uma de minhas favoritas. Eu não compreendia as visões que assombravam minha mente, entenda bem. Imagens de grandes torres douradas, cidades brilhando, brancas como prata. Pensei que fosse enlouquecer. E então encontrei este lugar... A câmara de Jacques de Molay. Por seus escritos, eu compreendi. —Compreendeu o quê? —Que de algum modo, ao longo dos séculos, eu estava ligado ao Grão-Mestre Jacques de Molay. Que fui escolhido para purificar a Ordem da decadência e da corrupção que se estabelecera como uma podridão. Para limpar o mundo e restaurá-lo à verdade que o pai da compreensão pretendia. E mais uma vez a cena se alterou. Desta feita me vi em uma sala, onde Templários de alta posição julgavam Germain e o baniam da Ordem. — Os profetas não são valorizados em sua época — explicou ele atrás de mim. — O exílio e a desonra obrigaram-me a reexaminar minhas estratégias, a encontrar novas possibilidades para a realização de meu propósito. Mais uma vez, a cena se alterou e me vi sendo tomado de assalto por imagens do Terror, a guilhotina erguendo-se e caindo como o bater inexorável de um relógio. —Não importando o custo disso? —perguntei. —Uma nova ordem nunca chega sem que a antiga seja destruída. E se os homens são feitos para temerem a liberdade desenfreada, tanto melhor. Um breve sabor do caos os lembrará de por que anseiam pela obediência. E então a cena se distorceu novamente e de novo estávamos na câmara. Desta vez, instantes antes da explosão que havia roubado a vida dela, e vi no rosto de Élise o esforço para dar o golpe derradeiro da batalha, e tive esperanças de que ela soubesse que o pai havia sido vingado, e que isto lhe trouxesse alguma paz. — Parece que nos separamos aqui — disse Germain. — Pense nisto: a marcha do progresso é lenta, mas inevitável como uma geleira. Só o que você fez aqui foi adiar o inevitável. Uma morte não pode deter a maré. Talvez o rebanho da humanidade não vá ser conduzido de volta ao lugar correto por minhas mãos... Mas será pelas mãos de alguém. Pense nisso quando se lembrar dela. Eu pensaria. Algo me perturbava nas semanas depois da morte de Élise. Como era possível que eu a conhecesse melhor do que qualquer um, que tivesse passado mais tempo com ela do que qualquer outro e que isso de nada valesse no fim, porque na realidade eu não a conhecia? A garota, sim, mas não a mulher que se tornou. Vendo-a crescer, eu nunca tive verdadeiramente a oportunidade de admirar o florescimento da beleza de Élise. E, agora, jamais admirarei. Acabou-se o futuro que tínhamos juntos. Meu coração dói por ela. Meu peito está pesado. Choro pelo amor perdido, pelos dias passados do ontem, pelos amanhãs que jamais existirão. Choro por Élise que, apesar de todos os defeitos, foi a melhor pessoa que conheci. Logo depois de sua morte, um homem chamado Ruddock procurou-me em Versalhes. Cheirando a um perfume que não conseguia mascarar um odor corporal quase dominador, trouxe uma carta com a inscrição: a ser aberta na eventualidade de minha morte. Olacre estava rompido. —Você a leu? —perguntei. —De fato, senhor. Com o coração pesado, como me foi instruído. —Era para ser aberta na eventualidade da morte dela —disse, sentindo-me um tanto traído pela emoção que abalava minha voz. — É bem verdade. Depois de receber a carta, coloquei-a em uma cômoda, na esperança de nunca mais vê-la, para ser franco com o senhor. Olhei-o fixamente. —Diga-me a verdade, você a leu antes de ela morrer? Porque, se leu, podia ter feito algo a respeito de sua morte. Ruddock abriu um sorriso superficial e um pouco triste. —E poderia eu? Penso que não, Sr. Dorian. Soldados costumam escrever tais cartas antes da batalha, senhor. O simples fato de que eles pensam na própria mortalidade não cria um adiamento. Ele lera, eu sabia. Havia lido antes que ela morresse. Franzi o cenho, abri o papel e comecei a ler comigo mesmo as palavras de Élise. Ruddock Perdoe-me pela falta de amabilidades mas receio ter resolvido meus sentimentos por você e são os seguintes: não gosto muito de você. Lamento por isso e imagino que o considere algo rude de se anunciar, mas se estiver lendo esta carta, ou ignorou minhas instruções ou eu estou morta e, de qualquer modo, nenhum de nós deve se preocupar com questões de etiqueta. Ora, apesar de meus sentimentos por você, aprecio suas tentativas de me recompensar por seus atos e fico comovida por sua lealdade. É por este motivo que eu lhe pediria para mostrar esta carta a meu amado Arno Dorian, ele mesmo um Assassino, e confiar que ele a tomará como testemunho de seuscaminhos divergentes. Porém, como duvido muito que uma Templária falecida venha ser o bastante para que você agrade a Irmandade, tenho algomais para você também. Arno, eu peço que você passe ascartas de que estou prestes a falar aMonsieur Ruddock, a fim de que ele possa usá-las para cair nas graças dos Assassinos, na esperança de ser aceito de volta ao Credo. Monsieur Ruddock estará ciente de que este feito exemplifica minha confiança nele e minha crença de que essa tarefa será concluída antestarde do que nunca, e por este motivo não exigirei monitoramento algum. Arno, o restante da carta é para você. Rezo para que eu retorne de meu confronto com Germain e possa recuperar esta carta com Ruddock, rasgá-la e não pensar mais em seu conteúdo. Mas, se estiver lendo, significa primeiramente que minha confiança em Ruddock teve suasrecompensase, em segundo lugar, que estou morta. Há muito que tenho de lhe contar do além-túmulo e, para este fim, lego a você meus diários, cujo mais recente você encontrará em meu embornal, os anteriores guardadosem um esconderijo com ascartas de que falo. Se você, quando examinar o baú, chegar à triste conclusão de que não valorizei as cartas que enviou a mim, por favor, entenda que o motivo pode ser encontrado nas páginas de meus diários. Você também encontrará um colar, dado amim por Jennifer Scott. Faltava a página seguinte. —Onde está o restante? —exigi saber. Ruddock ergueu as mãos, para me acalmar. — Ah, ora essa. A segunda página inclui uma mensagem especial relacionada com a localização das cartas que Mademoiselle diz poderem provar minha redenção. E, ora, hummm, perdoe-me pela aparente grosseria, mas me parece que se eu lhe entregar esta carta não terei “moeda de troca” e nenhuma garantia de que você simplesmente não pegaria as cartas e as usaria para favorecer sua própria posição na Irmandade. Olhei-o, gesticulando com a carta. —Élise pede-me que confie em você e eu lhe peço para fazer o mesmo por mim. Tem a minha palavra de honra de que as cartas serão suas. —Então, basta para mim. —Ele fez uma mesura e me entregou a segunda página da carta. Li até que cheguei ao fim... ...agora, naturalmente, estou deitada no Cimetière des Innocents e estou com meus pais, perto daqueles a quem amo. Porém, a quem amo mais do que tudo, Arno, é você. Espero que entenda o quanto eu o amo. E espero que você me ame também. E por me dar a honra de conhecer tal emoção satisfatória, agradeço a você. Sua amada, Élise —Ela não diz onde estão as cartas? —perguntou esperançoso Ruddock. —Diz —disse a ele. —E onde estão, senhor? Olhei-o, vi-o pelos olhos de Élise e pude ver que havia algumas coisas importantes demais para que fossem deixadas a alguém de confiabilidade tão recente. —Você leu; já sabe. —Ela chamou de Le Palais de laMisère. Isto significa algo para o senhor? —Sim, obrigado, Ruddock, significa algo. Sei aonde ir. Por favor, deixe seu endereço atual comigo. Entrarei em contato assim que recuperar as cartas. Saiba que, por gratidão a você pelo que fez, endossarei qualquer esforço seu para cair nas graças dos Assassinos. Ele se ergueu um pouco e endireitou os ombros. —Agradeço por isto... irmão. iv Havia um jovem em uma carroça na estrada. Estava sentado com uma perna erguida e de braços cruzados, semicerrando os olhos para mim por baixo da aba larga do chapéu de palha, pontilhado pelo sol que abriu caminho por um dossel de galhos folhosos no alto. Ele esperava —esperava, ao que parecia, por mim. —É Arno Dorian, Monsieur? —perguntou ele, sentando-se direito. —Sou. Seus olhos dispararam. —Tem uma lâmina oculta? —Pensa que sou um Assassino? —Osenhor é? Com um estalo ela surgiu, cintilando ao sol. Com a mesma rapidez, eu a retraí. Ojovem assentiu. —Meu nome é Jacques. Élise era minha amiga, uma boa senhora para minha esposa Hélène e a confidente mais íntima de... um homem que também mora conosco. —Um italiano? —perguntei, testando-o. —Não, senhor. —Ele sorriu. —Um inglês que atende pelo nome de Sr. Weatherall. Sorri para ele. —Creio que é melhor você me levar a ele, não? Em sua carroça, Jacques seguiu na frente e tomamos um caminho que nos levou pela margem de um rio. Na outra margem, havia um gramado bem-cuidado que subia a uma ala da Maison Royale, e olhei para lá com uma mescla de tristeza e espanto — tristeza porque a mera visão me lembrava dela. Espanto porque não era nada do que eu imaginava pelo retrato satânico que ela pintou em suas cartas todos aqueles anos. Continuamos, como se fôssemos para a escola, o que de fato fazíamos. Élise havia mencionado um chalé. E demos em uma construção baixa de base larga em uma clareira, com dois anexos em ruínas não muito longe dali. De pé em um degrau da varanda, estava um homem de muletas. As muletas eram novas, naturalmente, mas reconheci um pouco a barba branca de tê- lo visto pelo château quando eu era menino. Ele era alguém que pertencia à “outra” vida de Élise, sua vida de François e Julie. Não alguém com quem eu me preocupasse na época. Nem ele comigo. Entretanto, é claro, escrevo esta entrada tendo lido os diários de Élise e agora posso apreciar a posição que ele tinha na vida dela, e mais uma vez me admiro do pouco que eu sabia de Élise; mais uma vez lamento a oportunidade de ter descoberto a “verdadeira” Élise, a Élise sem segredos a guardar e um destino a cumprir. Às vezes penso que, com tudo o que tinha nos ombros, estávamos condenados desde o início, ela e eu. — Olá, filho — resmungou ele para mim da varanda. — Já faz muito tempo. Mal o reconheço. —Olá, Sr. Weatherall —respondi, desmontando e amarrando meu cavalo. Aproximei-me dele e, se eu soubesse na época o que sei agora, eu o teria cumprimentado à moda francesa com um abraço e teríamos partilhado a solidariedade do luto, nós, os dois homens mais próximos de Élise; mas não o fiz, ele era apenas um rosto do passado. Dentro do chalé a decoração era simples, a mobília, espartana. O Sr. Weatherall apoiou-se em suas muletas e me conduziu a uma mesa, solicitando café a uma menina que supus ser Hélène, a quem sorri e recebi uma mesura em troca. Mais uma vez, importei-me menos com ela do que teria feito se tivesse lido os diários. Eu estava dando os primeiros passos na outra vida de Élise, sentindo-me um intruso, como se não devesse estar ali. Jacques entrou também, tirando um chapéu imaginário e cumprimentado Hélène com um beijo. O clima na cozinha era agitado. Aconchegante. Não admirava que Élise gostasse dali. —Eu era esperado? —perguntei, assentindo para Jacques. OSr. Weatherall se acomodou antes de assentir pensativamente. —Élise escreveu dizendo que Arno Dorian poderia vir pegar seu baú. E então, alguns dias atrás, Madame Levene trouxe a notícia de que ela havia sido morta. Ergui uma sobrancelha. —Ela escreveu ao senhor? E não suspeitou de que havia algo errado? —Filho, posso ter madeira sob as axilas, mas não pense que a tenho na cabeça. Oque eu suspeitei era de que ela ainda estivesse zangada comigo, e não que fizesse planos. —Ela estava zangada com o senhor? — Tivemos uma discussão. Separamo-nos em termos ruins. Os termos ruins do gênero não-estamos-nos-falando. —Entendo. Eu mesmo estive na extremidade receptora do mau gênio de Élise várias vezes. Nunca é muito agradável. Nós nos olhamos, os sorrisos aparecendo. O Sr. Weatherall meteu o queixo no peito enquanto assentia com a recordação agridoce. —Ah, sim, decerto. Uma vontade e tanto aquela ali tinha. —Ele me olhou. —Imagino que tenha sido isso que a matou, não? —Oque soube a respeito disso? —Que a nobre Élise de la Serre de algum modo se envolveu em uma altercação com o renomado prateiro François Thomas Germain e que as espadas foram sacadas e os dois travaram uma batalha que terminou com a morte de ambos nas mãos um do outro. Foi assim que você viu, não? Concordei com a cabeça. —Ela foi atrás dele. Podia ter mostrado mais cautela. Ele meneou a cabeça. —Ela nunca foi de demonstrar cautela. Impôs uma boa batalha a ele, não foi? —Ela lutou como um tigre, Sr. Weatherall, valorizou muito seu parceiro de luta. Ohomem mais velho soltou uma risada curta e sem humor. — Houve um tempo em que também fui parceiro de luta de François Thomas Germain, entenda. Sim, pode fazer essa cara. O traiçoeiro Germain afiou as próprias habilidades com uma lâmina de madeira brandida por Freddie Weatherall. Na época em que era impensável que um Templário se voltasse contra outro Templário. — Impensável? Por quê? Os Templários eram menos ambiciosos quando o senhor era jovem? O processo de apunhalar pelas costas em nome do progresso era menos desenvolvido? — Não — o Sr. Weatherall sorriu —, apenas éramos mais jovens e um pouco mais idealistas quando se tratava de nossos companheiros. v Talvez tivéssemos mais a dizer um ao outro se um dia nos reencontrássemos. Na ocasião, éramos dois homens cuja intimidade com Élise tinha muito pouco em comum, e quando a conversa enfim murchou e secou como uma folha de outono, pedi para ver o baú. Ele o mostrou a mim e o carreguei à mesa da cozinha e o baixei, passando as mãos pelo monograma EDLS, depois o abri. Dentro dele, como Élise dissera, estavam as cartas, seus diários e o colar. — Algo mais — disse o Sr. Weatherall e saiu, voltando alguns minutos depois com uma espada curta. —A primeira espada de Élise —explicou ele, colocando-a no baú com um olhar desdenhoso, como se eu devesse reconhecer de imediato. Como se eu tivesse muito a aprender sobre Élise. E, claramente, eu tinha. E agora entendo isso, e percebo que devo ter parecido um tanto arrogante em minha visita, como se essas pessoas não fossem dignas de Élise, quando na realidade era bem o contrário. Fui encher meus alforjes com os pertences dela, pronto para transportá-los de volta a Versalhes, saindo em uma clareira em uma noite silenciosa e enluarada e indo a meu cavalo. Parei na clareira, com a fivela de uma bolsa na mão, quando senti um cheiro. Algo inconfundível. Era perfume. vi Pensando que estávamos de partida, minha égua resfolegou e pisoteou, mas eu a acalmei, acariciando seu pescoço e cheirando o ar ao mesmo tempo. Lambi um dedo, ergui-o e verifiquei que o vento vinha de trás de mim. Examinei o perímetro da clareira. Talvez fosse uma das meninas da escola que havia descido aqui por algum motivo. Talvez fosse a mãe de Jacques... Ou talvez eu tenha reconhecido o aroma e soubesse exatamente de quem era. Dei com ele atrás de uma árvore, o cabelo branco quase luminoso ao luar. —Oque está fazendo aqui? —perguntei-lhe. Ruddock. Ele fez uma careta. — Ah, bem, veja só, eu... Bem, pode-se dizer que eu estava apenas protegendo meu prêmio. Meneei a cabeça, irritado. —Então, afinal, não confia em mim? —Ora, você confia em mim? Élise confiava em mim? Algum de nós confia no outro, nós que temos uma vida em sociedades secretas? —Venha —falei —, entre. vii —Quem é esse? Os ocupantes do chalé, tendo ido para a cama minutos antes, reapareceram: Hélène de camisola, Jacques só de calções, o Sr. Weatherall ainda inteiramente vestido. —Seu nome é Ruddock. Não creio que já tenha visto uma transformação tão extraordinária como a que aconteceu com o Sr. Weatherall. Seu rosto se avermelhou, a fúria atravessando-o enquanto seu olhar frio caía em Ruddock. —OSr. Ruddockpretende pegar suas cartas e depois irá embora —continuei. —Você não me disse que as cartas eram dele —disse Weatherall com um rosnado. Lancei-lhe um olhar, pensando que eu estava ficando cansado de Weatherall e que o quanto antes meus assuntos estivessem concluídos, melhor. —Percebo que há animosidade entre vocês. OSr. Weatherall apenas olhou feio; Ruddock sorriu com afetação. —Élise o afiançava —eu disse ao Sr. Weatherall. —Ele é, segundo consta, um homem transformado, e foi perdoado por seus maus feitos do passado. —Por favor —implorou-me Ruddock, com os olhos disparando, claramente nervoso pelo trovão que rolava pelo rosto do Sr. Weatherall —, basta me entregar as cartas e eu irei embora. —Você terá suas cartas, se é o que quer —disse o Sr. Weatherall, avançando ao baú —, mas, acredite em mim, se não fosse o desejo de Élise, você as estaria pegando com a garganta. — Eu a amava à minha própria maneira — protestou Ruddock. — Ela salvou minha vida duas vezes. Perto do baú, o Sr. Weatherall parou. —Ela salvou sua vida duas vezes? Ruddock torcia as mãos. —Salvou; salvou-me da forca e antes disso dos Carroll. Ainda parado perto do baú, o Sr. Weatherall assentiu pensativamente. —Sim, lembro-me de que ela o salvou da forca. Mas os Carroll... Uma sombra de culpa passou pelo rosto de Ruddock. —Bem, ela me disse na época que os Carroll vinham atrás de mim. —Você os conhecia, os Carroll? —perguntou o Sr. Weatherall com inocência. Ruddock engoliu em seco. —Eu sabia deles, naturalmente. —E você fugiu? Ele se empertigou. —Como teria feito qualquer um em minha situação. — Exatamente — disse o Sr. Weatherall, assentindo. — Você agiu corretamente, perdendo toda a diversão. Ainda resta o fato, porém, de que eles não iam matá-lo. —Então suponho que teríamos de dizer que Élise salvou minha vida uma única vez. Creio que isto não importa e, afinal, uma vez é o bastante. —A não ser que eles fossem matar você. Ruddock soltou um riso nervoso, seus olhos adejando pela sala. —Bem, o senhor mesmo disse que eles não iam. — Mas, e se fossem? — pressionou o Sr. Weatherall. Perguntei-me onde raios ele queria chegar. —Eles não iam —disse Ruddock com um tom sedutor na voz. —Como sabe? —Como disse? O suor brilhava na testa de Ruddock e o sorriso em sua cara era torto e apreensivo. Seu olhar encontrou o meu como se procurasse apoio, mas não encontrou nenhum. Eu apenas observava. Observava atentamente. —Veja bem —continuou o Sr. Weatherall —, creio que você estava trabalhando para os Carroll na época e pensou que eles estavam prestes a silenciá-lo... o que poderiam muito bem ter feito. Creio que ou você nos deu falsas informações sobre o Rei dos Mendigos, ou ele trabalhava para os Carroll quando o contratou para matar Julie de la Serre. É o que eu penso. Ruddock balançava a cabeça. Tentou uma expressão de indiferença e ironia, tentou aparentar uma indignação “isto é um ultraje”, e acabou conformando-se com o pânico. —Não —disse ele —, agora isso já vai longe demais. Eu trabalho sozinho. —Mas tem a ambição de se reintegrar aos Assassinos? —incitei-o. Ele balançou a cabeça furiosamente. —Não, fui curado de tudo isso. E sabe quem finalmente me curou? Ora, a fragrante Élise. Ela odiava as suas ordens, sabia? Dois carrapatos lutando pelo controle do gato, era como chamava vocês. Inúteis e iludidos, era como Élise os chamava, e tinha razão. Ela me falou que eu ficaria melhor sem vocês e estava certa. —Ele nos olhou com desprezo. — Templários? Assassinos? Eu os desdenho, são um bando de velhas indignas se bicando por dogmas antigos. — Então não tem interesse em voltar a fazer parte dos Assassinos, e assim não tem interesse nas cartas? —perguntei-lhe. —Nenhum —insistiu ele. —E o que está fazendo aqui? —eu disse. O conhecimento de que o buraco que ele cavara estava fundo demais faiscou por seu rosto e ele, girando o corpo, em um só movimento sacou as pistolas. Antes que eu pudesse reagir, ele agarrou Hélène, apontou uma das pistolas para sua cabeça e cobriu a sala com a outra. —Os Carroll mandam lembranças —respondeu ele. viii Enquanto um novo tipo de tensão cobria a sala, Hélène choramingava. A carne de sua têmpora empalideceu onde o cano da pistola apontava com força e ela olhava suplicante por cima do braço de Ruddock para onde Jacques estava, tenso e pronto para atacar, controlando o ímpeto de ir até lá, libertar Hélène e matar Ruddock com a necessidade de não o assustar e fazer com que atirasse nela. — Talvez — falei depois de um silêncio — você queira nos dizer quem são esses Carroll. — A família Carroll de Londres — disse Ruddock, com um olho em Jacques, ainda tenso, seu rosto em nós. — No início eles tinham esperanças de influenciar o caminho dos Templários franceses, mas Élise os aborreceu matando sua filha, o que conferiu a tudo uma dimensão um tanto “pessoal”. “E naturalmente fizeram o que faria qualquer bom genitor com muito dinheiro e uma rede de matadores a sua disposição, encomendaram a vingança. Não só contra ela, mas seu protetor... ah, tenho certeza de que eles pagarão muito bem por estas cartas, na barganha.” —Élise tinha razão —disse o Sr. Weatherall consigo mesmo. —Ela jamais acreditou que os Corvos tivessem tentado matar sua mãe. E tinha razão. — Tinha — disse Ruddock quase com tristeza, como se desejasse que ela também estivesse ali. Eu também a queria ali. Teria gostado de vê-la dilacerando Ruddock. —Assim, acabou —falei simplesmente a Ruddock. —Você sabe tão bem quanto nós que não pode matar o Sr. Weatherall e sair daqui vivo. —Veremos —ordenou. —Agora abra a porta e se afaste. Fiquei onde estava até que ele me lançou um olhar de alerta ao mesmo tempo em que arrancava um grito de dor de Hélène com o cano da pistola. Assim, abri a porta e andei alguns passos de lado. —Posso lhe propor um negócio —disse Ruddock, empurrando Hélène e voltando ao retângulo da entrada. Jacques, ainda tenso e morto de vontade de pegar Ruddock; o Sr. Weatherall, furioso mas raciocinando; e eu, observando e esperando, os dedos flexionando-se na lâmina oculta. —A vida dele pela dela —continuou Ruddock, apontando o Sr. Weatherall. —Você me permite matá-lo agora e solto a mulher quando eu estiver livre. A expressão do Sr. Weatherall era muito, muito sombria. A fúria parecia rolar dele como ondas. —Prefiro tirar a própria vida a permitir que você a tome. —A decisão é sua. De qualquer modo, seu cadáver estará no chão quando eu partir. —E o que vai acontecer com a menina? —Ela viverá —disse ele —, eu a levarei comigo, depois a soltarei quando estiver livre e tiver certeza de que você não está tentando me enganar. —Como vamos saber que não vai matá-la? —Por que eu faria isso? —Sr. Weatherall —comecei. —Não podemos deixar que ele leve Hélène. Nós não... OSr. Weatherall me interrompeu. — Com licença, Sr. Dorian, deixe-me ouvir isso do Ruddock aqui. Quero ouvir a mentira de sua boca, porque o butim não é só pelo protetor de Élise, não é mesmo, Ruddock? É pelo protetor e sua dama de companhia, não é mesmo, Ruddock? Você não pretende soltar Hélène. Os ombros de Ruddock se ergueram e caíram enquanto sua respiração ficava pesada, suas opções se estreitando a cada segundo. —Não sairei daqui de mãos abanando —disse ele —para que me cacem e me matem em outra ocasião. —Que alternativa temos? Ou morrem algumas pessoas e uma delas é você, ou você vai embora e passa o resto da vida como um homem marcado. —Vou levar as cartas —disse ele por fim. —Entregue-me as cartas e soltarei a garota quando eu estiver livre. —Você não levará Hélène —comuniquei. —Pode levar as cartas, mas Hélène jamais sairá deste chalé. Pergunto-me se ele viu a ironia de que, se ele não tivesse me seguido, se tivesse esperado em Versalhes, eu teria levado as cartas a ele. —Você irá atrás de mim —disse ele, hesitante. —Assim que eu a soltar. — Não irei — avisei. — Tem minha palavra de honra. Pode ficar com as cartas e ir embora. Ele parecia se decidir. —Dê-me as cartas —exigiu ele. OSr. Weatherall pegou o maço de cartas no baú e entregou a ele. —Você — disse Ruddock a Jacques —, o apaixonadinho. Coloque as cartas em meu cavalo e leve-o, depois o enxote ao monte do Assassino. Seja rápido e volte logo, ou ela morrerá. Jacques olhou de mim para o Sr. Weatherall. Nós dois assentimos e ele disparou para o luar. Os segundos se passaram e esperamos, Hélène agora em silêncio, observando-nos por sobre o braço de Ruddock enquanto este apontava a pistola para mim, sem prestar muita atenção no Sr. Weatherall, pensando que ele não representava ameaça alguma. Jacques voltou, entrando com os olhos postos em Hélène, esperando para pegá-la. —Muito bem, está tudo pronto? —perguntou Ruddock. Vi o plano de Ruddock faiscar pelos olhos. Vi-o com tanta a clareza que era melhor que tivesse dito em voz alta. Seu plano era matar-me com o primeiro tiro, Jacques com o segundo, cuidar de Hélène e Weatherall com a lâmina. Talvez o Sr. Weatherall também o tivesse visto. Talvez o Sr. Weatherall estivesse planejando o que faria o tempo todo. Qualquer que fosse a verdade, não sei, mas no mesmo momento em que Ruddock empurrou Hélène e girou a arma para mim, a mão do Sr. Weatherall apareceu de dentro do baú, a bainha da espada curta de Élise voou para longe e a espada logo estava em seus dedos. E era tão maior que uma faca de arremesso que pensei que ele não encontraria seu alvo, mas naturalmente suas habilidades de arremesso de facas estavam no auge e eu me abaixei ao mesmo tempo, em que a espada girou, ouvindo o disparo e a bala passar zunindo por minha orelha como um único som, recuperando o equilíbrio e ejetando a lâmina oculta, pronto para saltar e cravá-la em Ruddock antes que ele soltasse o segundo tiro. Mas Ruddock tinha uma espada na cara, seus olhos rodando para lados contrários enquanto a cabeça era jogada para trás e ele cambaleava, seu segundo tiro batendo no teto, depois ele caiu, morto antes de atingir o chão. A expressão do Sr. Weatherall era de uma satisfação cruel, como se ele tivesse colocado um fantasma para descansar. Hélène correu a Jacques e por algum tempo ficamos parados, nós quatro, olhandonos e para o corpo prostrado de Ruddock, mal acreditando que tudo acabara e que tínhamos sobrevivido. E então, depois de levarmos Ruddock para fora a fim de enterrá-lo no dia seguinte, peguei meu cavalo e continuei a carregar os alforjes. Senti a mão de Hélène em meu braço e olhei em seus olhos, injetados de chorar, mas nem por isso menos sinceros. —Sr. Dorian, adoraríamos que ficasse —disse ela. —Pode ficar no quarto de Élise. * * * Permaneci ali desde então, fora de vista e, talvez até, no que diz respeito aos Assassinos, fora dos pensamentos. Li os diários de Élise, é claro, e percebi que, embora não nos conhecêssemos o bastante em nossa vida adulta, eu ainda a conhecia melhor do que qualquer outra pessoa, porque éramos iguais, ela e eu, espíritos irmãos partilhando experiências mútuas, nossos caminhos pela vida praticamente idênticos. A não ser, como eu já mencionei, por Élise ter chegado lá primeiro, e foi ela que chegou à conclusão de que podia haver unidade entre Assassinos e Templários. Por fim, de seu diário escorregou uma carta. Eu a li... Querido Arno, Se estiver lendo esta carta, ou minha confiança em Ruddock se justificou, ou sua cobiça prevaleceu. Seja como for, você tem meus diários. Creio que, depois de sua leitura, você possame compreender um pouco mais e ser mais simpático às decisões que tive de tomar. Espero que possa ver agora que partilhei suas esperanças por uma trégua entre Assassinos e Templários, e para este fim tenho um último pedido a você, meu querido. Peço que leve estes princípios a seus irmãos no Credo e os evangelize em meu nome. E quando eles lhe disserem que suas ideias são fantasiosas e ingênuas, lembre-lhes de como você e eu provamos que as diferenças de doutrina podem ser superadas. Por favor, faça isto por mim, Arno. E pense em mim. Como pensarei em você até que nos reencontremos mais uma vez. Sua amada, Élise “Por favor, faça isso por mim, Arno.” Sentado aqui agora, pergunto-me se eu tenho forças para tanto. Pergunto-me se um dia serei forte como Élise foi. Espero que sim.

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