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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 37

2 de abril de 1788

Odia começou com pânico. —Achamos que não seria adequado você levar uma dama de companhia —disse o Sr. Carroll. O trio terrível estava no hall de entrada de sua casa em Mayfair, olhando para mim e para Hélène enquanto nos preparávamos para partir rumo a nossa missão secreta. —Está tudo muito bem para mim —falei, e embora naturalmente ainda sentisse uma palpitação dos nervos diante da ideia de ir sozinha, haveria pelo menos a vantagem de não precisar me preocupar com o destino dela. — Não — disse o Sr. Weatherall, avançando um passo. Ele balançou a cabeça enfaticamente. —Ela pode inventar uma história sobre a família ter ganhado uma fortuna. Não quero que ela vá para lá sozinha. Já é bem ruim que eu não possa ir com ela. A Sra. Carroll externou suas dúvidas. —É mais uma coisa da qual ela precisa se lembrar. Mais uma coisa com a qual lidar. —Sra. Carroll —resmungou o Sr. Weatherall —, com todo respeito, isto é conversa fiada. Élise tem representado o papel de uma dama nobre por toda sua vida. Ela ficará bem. Hélène e eu aguardávamos pacientemente enquanto nosso futuro era decidido por nós. Diferentes em quase todos os aspectos, ambas tínhamos em comum o fato de deixarmos nossos destinos nas mãos alheias. Estávamos acostumadas a isso. E quando eles finalmente terminaram, nossos pertences foram amarrados ao teto de uma carruagem e nos foi providenciado um cocheiro, associado aos Carroll, que nos garantiram ser confiável. Ele nos levou pela cidade, até Bloomsbury, a um endereço na Queen Square. ii — Antigamente chamava-se Queen Anne’s Square — disse-nos o cocheiro —, agora é apenas Queen Square. Ele acompanhou a mim e a Hélène até o alto da escada e puxou a sineta. Enquanto aguardávamos, avaliei a praça, vendo duas filas elegantes de mansões brancas, lado a lado, muito inglesas. Havia campos ao norte e, próximo dali, uma igreja. Crianças brincavam na rua, correndo na frente de carroças e carruagens, a rua pulsava de vida. Ouvimos passos e em seguida um forte raspar de ferrolhos. Procurei demonstrar confiança. Parecer a pessoa que eu devia ser. E qual era mesmo? —A Srta. Yvonne Albertine e sua criada, Hélène —anunciou o cocheiro ao mordomo que tinha aberto a porta —, em visita à Srta. Jennifer Scott. Em contraste à vida e ao barulho às nossas costas, a casa parecia escura e agourenta, e reprimi uma forte sensação de não querer entrar ali. —A Srta. Scott a espera, mademoiselle —disse o mordomo, inexpressivo. Entramos em um salão, escuro, revestido de madeira e com portas fechadas que levavam a outros cômodos. A única luz vinha das janelas em um patamar no alto, e a casa estava em silêncio, quase mortalmente silenciosa. Por cerca de um segundo esforcei-me para me recordar o que aquela atmosfera me lembrava, aí me dei conta: parecia nosso château em Versalhes nos dias posteriores à morte de minha mãe. A mesma sensação de tempo congelado, de vida levada aos sussurros e passos silenciosos. Fui avisada de que assim seria: que Mademoiselle Jennifer Scott, uma solteirona na casa dos 70 anos, era um tanto... excêntrica. Que tinha aversão a pessoas, e não só a estranhos ou qualquer tipo específico de gente, mas a pessoas. Mantinha uma equipe mínima de criados na casa da Queen Square e por algum motivo — um motivo que os Carroll ainda não tinham me revelado — era muito importante para os Templários ingleses. Nosso cocheiro pediu licença, e em seguida Hélène foi levada, talvez para simplesmente ficar plantada de qualquer jeito em um canto da cozinha e ser encarada pelos criados, a coitada. Depois, quando restávamos apenas o mordomo e eu, fui levada à sala de visitas. Entramos em um salão com cortinas fechadas, plantas em vasos altos posicionados diante das janelas, deliberadamente, presumi, para limitar a visão de quem estivesse dentro ou fora da casa. Mais uma vez, estava sombrio e escuro no cômodo. Sentada em frente a uma lareira vacilante estava a dona da casa, Mademoiselle Jennifer Scott. — A Srta. Albertine irá vê-la, senhorita — disse o mordomo, e saiu sem receber resposta, fechando a porta delicadamente e me deixando a sós com aquela dama estranha que não gostava de gente. O que mais eu sabia a respeito dela? Que o pai era o pirata Assassino Edward Kenway, e que o irmão era o renomado Grão-Mestre Templário Haytham Kenway. Supus que fossem os retratos deles em uma parede, dois cavalheiros de aparência semelhante, um usando o manto de um Assassino e o outro, traje militar —este supus ser Haytham. A própria Jennifer Scott tinha passado anos no continente, vítima da rixa entre Assassinos e Templários. Embora ninguém parecesse saber exatamente o que lhe acontecera lá, não havia dúvida de que fora marcada por suas experiências. Agora eu estava a sós na sala com ela. Fiquei parada ali por alguns instantes, observando-a perante as chamas da lareira com o queixo apoiado na mão, preocupada. Eu me perguntava se devia pigarrear para lhe chamar a atenção, ou se talvez devesse simplesmente me aproximar e me apresentar, quando o fogo veio em meu resgate. Crepitou e estalou, sobressaltando-a, de forma que ela pareceu se dar conta de onde estava, erguendo o queixo lentamente da mão e fitando-me por sobre a armação dos óculos. Disseram-me que ela costumava ser uma beldade e, de fato, o fantasma de tal beleza perdurava, em feições que continuavam primorosas e em um cabelo preto ligeiramente desgrenhado e raiado de fios cinzentos e grossos, tal como uma bruxa. Seus olhos eram impiedosos, inteligentes e indagadores. Postei-me obedientemente imóvel e permiti que ela me examinasse. —Aproxime-se, criança —disse ela por fim, indicando uma poltrona do outro lado. Sentei-me e mais uma vez fui submetida a um escrutínio demorado. —Seu nome é Yvonne Albertine? —Sim, Mademoiselle Scott. —Pode me chamar de Jennifer. —Obrigada, Mademoiselle Jennifer. Ela franziu os lábios. —Não, somente Jennifer. —Como desejar. — Conheci sua avó e seu pai — disse ela, e depois acenou —, bem, não “conheci” exatamente, mas os encontrei uma vez em um château perto de Troyes, em sua terra natal. Assenti. Os Carroll tinham me avisado que Jennifer Scott provavelmente ficaria desconfiada e talvez se dispusesse a me testar. Eis o teste, sem dúvida. — O nome de seu pai? — perguntou Mademoiselle Scott, como se estivesse com dificuldade para se lembrar. —Lucio —informei. Ela ergueu um dedo. —É isso mesmo. É isso mesmo. E sua avó? —Monica. —Claro, claro. Uma boa gente. E como estão passando? —Faleceram, lamento dizer. Minha avó, alguns anos atrás; papai em meados do ano passado. Esta visita... o motivo de minha presença aqui... foi um dos últimos desejos dele, que eu a procurasse. —Ah, sim? —Receio que as coisas tenham terminado mal entre meu pai e o Sr. Kenway, senhora. A expressão dela continuava impassível. —Refresque minha memória, criança. —Meu pai feriu seu irmão. —Claro, claro —assentiu ela—, ele cravou uma espada em Haytham, não foi? Como poderia me esquecer? A senhora não se esqueceu. Sorri com pesar. — Talvez o maior arrependimento dele. Ele disse que, pouco antes de perder a consciência, seu irmão insistiu em pedir clemência a ele e a vovó. Ela assentiu com veemência, as mãos entrelaçadas. —Eu me recordo, sim, recordo-me. Um problema terrível. —Meu pai ficou arrependido até o momento de sua morte. Ela sorriu. —Que pena que ele não pôde fazer a jornada para me dizer isto pessoalmente. Eu o teria livrado de tais preocupações. Muitas vezes eu mesma quis apunhalar Haytham. Ela olhou fixamente para as chamas saltitantes, a voz vagando enquanto as lembranças se afirmavam. —Opequeno atrevido. Eu devia tê-lo matado quando éramos crianças. —Não pode estar falando seriamente... Ela riu com ironia. — Não, suponho que não. E não creio que o que aconteceu tenha sido culpa de Haytham. Não inteiramente. — Ela respirou fundo, tateou em busca da bengala pousada no braço da poltrona e se levantou. — Venha, você deve estar cansada depois de sua viagem de Dover. Mostrarei seu quarto. Infelizmente, não sou adepta da socialização, em especial quando se trata de minha refeição noturna, portanto você jantará só, mas quem sabe amanhã possamos caminhar pelo jardim, para nos conhecermos melhor? Levantei-me e fiz uma reverência. —Eu gostaria muito —falei. Ela me lançou mais um olhar enquanto seguíamos para os aposentos no andar de cima. —Você é muito parecida com seu pai, sabia? Ela se referia a Lucio, obviamente. E eu fiquei imaginando como ele devia ser, e se eu realmente me assemelhava a ele, afinal, uma coisa percebi a respeito de Jennifer Scott assim que pousei os olhos nela: aquela senhora não era nada boba. —Obrigada, minha senhora. iii Mais tarde, depois de uma refeição que fiz sozinha, servida por Hélène, retirei-me para o quarto a fim de me preparar para dormir. A verdade era que eu detestava ser paparicada por Hélène. Há muito eu traçara limites para impedi-la de me despir e me vestir, mas ela alegava precisar realizar alguma tarefa, só para fazer valer todas as horas que passava ouvindo o falatório tedioso do porão; sendo assim, permiti que despisse minhas roupas e buscasse uma tina de água quente para minha higiene. À noite, eu deixava que escovasse meu cabelo, algo do qual eu passara a desfrutar muito. —Como está indo tudo, senhora? —perguntou ela, penteando-me agora, falando em francês, mas ainda em voz baixa. — Vai tudo muito bem, creio eu. Você por acaso chegou a falar com Mademoiselle Scott? —Não, senhorita, eu a vi de passagem e foi só isso. —Bem, não perdeu grande coisa. Ela certamente é uma personagem estranha. —Um vinho de outra pipa? Aquela era uma das expressões do Sr. Weatherall. Sorrimos uma para a outra pelo reflexo do espelho. —Sim —confirmei —, certamente ela é vinho de outra pipa. —Posso saber o que o senhor e a senhora Carroll querem com ela? Suspirei. —Mesmo que eu soubesse, seria melhor que você ignorasse. —A senhorita não sabe? —Ainda não. Oque me lembra de perguntar, que horas são? —Quase dez horas, Mademoiselle Élise. Lancei um olhar feio, sibilando: —É Mademoiselle Yvonne. Ela ficou vermelha. —Desculpe, Mademoiselle Yvonne. —Apenas não cometa este erro de novo. —Desculpe, Mademoiselle Yvonne. —E agora devo pedir que me deixe sozinha. iv Quando ela saiu, fui a meu baú armazenado embaixo da cama e o puxei, ajoelhei-me e abri os fechos. Hélène o havia esvaziado, mas não estava ciente do fundo falso. Por baixo de uma placa de tecido, havia um fecho oculto, e quando o ativei o painel se abriu, revelando o conteúdo. Ali havia uma luneta e um pequeno dispositivo de sinalização. Encaixei a vela no sinalizador, peguei a luneta e fui à janela, onde abri as cortinas o suficiente para ver a Queen Square. Ele estava do outro lado da rua. Parecendo aos olhos do mundo um mero condutor de coche à espera de uma corrida, o Sr. Weatherall estava sentado no alto de uma carruagem de duas rodas, a metade inferior do rosto coberta por um cachecol. Dei o sinal predeterminado. Ele usou a mão para mascarar a luz da carruagem, dando sua resposta, e então, com olhadelas para ambos os lados, desenrolou o cachecol. Levei a luneta ao olho, de modo a enxergá-lo com clareza e, lendo seus lábios, decifrei: “Olá, Élise”; daí ele também levou uma luneta ao próprio olho. —Olá —murmurei em resposta. Assim foi nossa conversa silenciosa. —Como vai? —Entrei. —Ótimo. — Tenha cuidado, por favor, Élise — disse ele. E se fosse possível conferir preocupação e emoção verdadeiras a uma conversa por leitura labial travada na calada da noite, o Sr. Weatherall teria sido bem-sucedido. — Terei — respondo. Depois me recolhi para dormir, confusa quanto ao meu propósito naquele lugar estranho. 

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