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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 58

26 de março de 1791

Esta manhã o Sr. Weatherall e Jacques chegaram do ponto em Châteaufort muitas horas depois do combinado —tão tarde que já tinha começado a me preocupar. Durante algum tempo, falamos sobre transferir o ponto. Mais cedo ou mais tarde alguém apareceria. Pelo menos era o que dizia o Sr. Weatherall. A questão sobre o remanejamento do ponto tornou-se mais uma arma na guerra travada constantemente por nós dois, o puxa aqui, puxa dali se eu deveria ficar (ele: sim) ou se eu deveria partir (eu: sim). Eu estava forte agora, tinha voltado à plena forma física e em momentos particulares fervilhava de frustração devido à minha inatividade; imaginava meus inimigos anônimos gabando-se da vitória e erguendo brindes irônicos em meu nome. — Esta é a antiga Élise — alertara o Sr. Weatherall —, e com isso me refiro à jovem Élise. Aquela que velejou a Londres e incitou uma rixa com que ainda temos de lidar. É claro que ele tinha razão; eu queria ser uma Élise mais velha e mais calma, uma líder digna. Meu pai jamais tivera pressa para nada. Por outro lado, meus pensamentos voltavam à questão de fazer alguma coisa. Afinal, ao passo que uma cabeça mais sensata teria esperado para concluir sua educação como uma boa bonequinha, a jovem Élise entrara em ação, tomando uma carruagem a Calais e dando início à sua vida. Ofato era que ficar sentada ali, sem fazer nada, deixava-me agitada e furiosa. Deixava-me ainda maisfuriosa. E já havia fúria suficiente em mim. No fim, fui obrigada a agir em função dos acontecimentos desta manhã, quando o Sr. Weatherall despertou minha ansiedade chegando tarde de sua visita ao ponto. Corri ao pátio para recebê-lo enquanto Jacques guardava a carroça. —Oque houve com vocês? —perguntei, ajudando-o a descer. —Vou lhe dizer uma coisa —ele franziu o cenho —, é uma sorte maldita que o jovem amigo deteste o fedor do queijo. —disse ele meneando a cabeça para Jacques. —Oque quer dizer? — Porque aconteceu algo estranho enquanto ele esperava por mim em frente à fromagerie. Ou, eu deveria dizer, ele viu algo muito estranho. Um jovem zanzando por lá. Estávamos a meio caminho para o chalé, onde eu pretendia preparar um café para o Sr. Weatherall e deixar que ele me contasse tudo, mas daí parei. —Como disse? —Estou lhe dizendo, um malandrinho, zanzando simplesmente. Acontece que o tal malandro de fato estava só zanzando. Que estranho, ironizei, um jovem malandro zanzando por uma praça da cidade, mas o Sr. Weatherall me admoestou com um murmúrio irritado: —Não era qualquer malandro, mas um especialmente intrometido. Aproximou-se do jovem Jacques enquanto ele aguardava do lado de fora. Este menino lhe fez perguntas, quis saber se tinha visto um homem de muletas entrando na fromagerie naquela manhã. Jacques é um bom sujeito e disse ao rapaz que não tinha visto ninguém com aquelas características o dia todo, mas que ficaria de olho para ele. “Ótimo”, disse o patife, “ficarei por perto, não irei longe. Você pode até ganhar uma moeda se me contar alguma coisa útil.” O faroleiro não tinha mais do que 10 anos de idade, pelos cálculos de Jacques. De onde você acha que ele tiraria o dinheiro para pagar a um informante?” Dei de ombros. — De quem quer que esteja pagando a ele, não é isso? O garoto estava trabalhando para os mesmos Templários que tramam contra nós, ou não me chamo Freddie Weatherall. Eles queriam encontrar o ponto, Élise. Procuram por você e, quando pensarem ter localizado o ponto, passarão a monitorá-lo a partir de então. —Você falou com o menino? — De maneira alguma. O que pensa que sou, algum maldito idiota? Assim que Jacques entrou na loja e contou-me o que aconteceu, saímos pela porta dos fundos e tomamos a rota mais longa para casa, tomando o cuidado para não sermos seguidos. —E foram? Ele negou com a cabeça. —Mas é só uma questão de tempo. —Como sabe? —argumentei. —Há muitos “se” nessa história. Se o malandro estava mesmo trabalhando para os Templários, e não apenas desejando roubar você ou lhe pedir dinheiro, ou mesmo querendo apenas dar um chute em suas muletas para se divertir; se ele viu atividade suficiente para despertar a desconfiança deles; se eles concluíram que aquele é o nosso ponto. —Creio que concluíram —disse ele em voz baixa. —Como pode saber? — Por causa disto. — Ele franziu o cenho, enfiou a mão no casaco e me entregou a carta. ii Mademoiselle Grã-Mestre Permaneço leal à senhora e a seu pai. Devemos nos encontrar a fim de que eu possa lhe contar a verdade sobre a morte de seu pai e sobre os acontecimentos desde então. Escreva-me prontamente. Lafrenière Meu coração martelava. —Devo responder —falei rapidamente. OSr. Weatherall balançou a cabeça, exasperado. —O diabo que fará isto —vociferou —, é uma armadilha. É um meio de nos atrair. Estarão esperando por uma resposta. Se esta for mesmo uma carta de Lafrenière, então sou um macaco amestrado. É uma armadilha. E se respondermos, cairemos diretamente nela. —Se respondermos daqui, sim. Ele sacudiu a cabeça. —Você não vai sair. —Preciso saber —insisti, agitando a carta. Ele coçou a cabeça, tentando raciocinar. —Você não irá a lugar nenhum sozinha. Soltei uma risada breve. —Bem, quem mais pode me acompanhar? Você? Quando ele baixou a cabeça, me contive. —Ah, Deus —falei baixinho. —Ah, meu Deus, peço desculpas, Sr. Weatherall. Não era minha intenção... Ele balançava a cabeça com tristeza. —Não, não, tem razão, Élise, você tem razão. Sou um protetor incapaz de proteger. Aproximei-me dele, ajoelhei-me junto de sua cadeira e o abracei. Houve uma longa pausa, um silêncio no cômodo da frente do chalé, salvo pelas ocasionais fungadelas do Sr. Weatherall. —Não quero que você vá —disse ele por fim. —Preciso ir —respondi. —Não pode lutar com eles, Élise. —Ele limpava as lágrimas com ferocidade. —Agora são fortes demais, poderosos demais. Não pode se impor contra eles sozinha. Eu o abracei de novo. — Nem tampouco posso continuar fugindo. Você sabe tão bem quanto eu que se descobriram nosso ponto, deste modo concluirão que estamos na vizinhança. Traçarão um círculo em um mapa com o ponto em seu centro e começarão a busca. E a Maison Royale, onde Élise de la Serre concluiu seus estudos, é um lugar tão bom para se começar quanto qualquer outro. “Você sabe tão bem quanto eu que teremos de sair daqui, você e eu. Precisamos ir a outro lugar, onde faremos tentativas infrutíferas de angariar apoio e continuaremos a esperar que nosso ponto seja descoberto antes de uma nova mudança. Ir embora daqui é a única opção.” Ele meneou a cabeça. — Não, Élise. Vou pensar em alguma coisa. Então apenas me escute, sou seu conselheiro e recomendo que permaneça aqui enquanto formulamos uma reação para este último desenrolar indesejado. Como isto soa para você? É digno de um conselheiro recomendar que tire esta ideia da cabeça? Odiei o gosto da mentira em meus lábios quando prometi ficar. Perguntei-me se ele tinha ideia de que, enquanto a casa estivesse dormindo, eu me esgueiraria para fora. De fato, assim que a tinta deste texto estiver seca, colocarei o diário em meu embornal e partirei. Isso destruirá o coração dele. Peço perdão por isto, Sr. Weatherall. 

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