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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 59

27 de março de 1791

 Assim que atravessei a porta da frente do chalé, silenciosamente, um espectro esvoaçou pelo corredor. Pigarreei e a figura parou, virou-se e pôs a mão na boca. Era Hélène, flagrada voltando ao seu quarto após sair do cômodo de Jacques. —Desculpe-me se a assustei —sussurrei. —Ah, mademoiselle. —Toda essa dissimulação é de fato necessária? Ela ruborizou. —Não quero que o Sr. Weatherall saiba. Abri a boca para discutir, mas parei, virando-me para a porta em vez disso. —Bem, adeus, pelo menos por um tempo. —Aonde vai, mademoiselle? —A Paris. Há algo que preciso fazer. —E vai partir no meio da noite, sem se despedir? —Preciso fazer isso, é... OSr. Weatherall. Ele não quer... Ela atravessou o cômodo na ponta dos pés, veio até mim e puxou meu rosto, beijando-me com força nas bochechas. —Tenha cuidado, por favor, Élise. Por favor, volte para nós. Que pitoresco. Estou embarcando em uma jornada para supostamente vingar minha família, mas na verdade o chalé é minha família. Por um segundo, cogito ficar. Não seria melhor viver no exílio com aqueles que eu amava a morrer em busca de vingança? Mas não. Havia uma bola de ódio em minhas entranhas e eu precisava me livrar dela. —Voltarei —prometi a ela. —Obrigada, Hélène. Você sabe... sabe que a quero muito bem. —Eu também. —Ela sorriu, eu me virei e parti. ii O que eu sentia enquanto incitava Scratch para Châteaufort, cavalgando para longe do chalé, não era exatamente felicidade. Era o regozijo pela atitude e pelo senso de propósito. Primeiro, eu tinha uma tarefa a realizar e, ao chegar nas primeiras horas da manhã, encontrei comida e uma taberna ainda aberta. Lá, eu disse a qualquer um que tivesse a curiosidade de perguntar que meu nome era Élise de la Serre e que eu morava em Versalhes, mas que agora estava a caminho de Paris. Na manhã seguinte parti e cheguei a Paris, atravessando a Pont Marie para a Île SaintLouis, indo para... casa? Mais ou menos. Pelo menos, meu château. Como estaria? Eu nem mesmo conseguia me lembrar se fui uma zeladora diligente da última vez em que estive lá. Ao chegar, tive minha resposta. Não, não fui uma zeladora diligente, apenas sedenta, a julgar pelas muitas garrafas de vinho jogadas pelo lugar. Reprimi um calafrio, pensando nas horas sombrias que havia passado naquela casa. Deixei os resquícios do passado tal como estavam. Em seguida escrevi a Monsieur Lafrenière uma carta solicitando um encontro no Hôtel Voysin dentro de dois dias. Depois de entregá-la pessoalmente no endereço que ele havia me informado, voltei ao château, onde montei armadilhas de fio, para o caso de me procurarem ali, depois me acomodei no escritório da governanta para esperar.

29 de março de 1791

Fui ao Hôtel Voysin, em Le Marais, onde pedi para me encontrar com Lafrenière. Quem apareceria? Esta era a grande dúvida. Lafrenière, o amigo? Lafrenière, o traidor? Ou alguém inteiramente diferente? E se eu tivesse caído em uma armadilha? Ou será que eu tinha feito a única coisa possível para evitar uma vida inteira escondendo-me dos homens que queriam me ver morta? Opátio do Hôtel Voysin era cinza-escuro. A construção se erguia de todos os lados, e outrora fora grandiosa, a aparência tão aristocrática quanto aqueles que frequentavam o local; porém, assim como os aristocratas foram destruídos pela Revolução —e a cada dia perdiam mais direitos por causa da Assembleia —, o Voysin também parecia intimidado pelos acontecimentos dos últimos dois anos: as janelas onde luzes teriam ardido estavam apagadas, algumas quebradas e cobertas por tábuas. Os jardins, que antigamente teriam sido podados e cuidados por jardineiros que cumprimentavam tirando o chapéu, jaziam desertos e abandonados à ruína, de modo que a hera trepava à vontade pelas paredes, suas gavinhas procurando o caminho para as janelas vazias do primeiro andar. Enquanto isso, o mato crescia entre as pedras e lajes do calçamento do pátio deserto que, enquanto eu entrava, ecoava o barulho de minhas botas. Reprimi uma inquietação, vendo todas aquelas janelas escurecidas dando para o pátio que um dia fora movimentado. Qualquer uma delas poderia proporcionar um esconderijo para um agressor. —Olá? —chamei. —Olá, Monsieur Lafrenière? Prendi a respiração, pensando: Isso não está certo. Isso não está nada certo. Considerando-me uma idiota por ter marcado um encontro ali e perguntando-me se cogitar uma armadilha era o mesmo que estar preparada para encontrar uma. O Sr. Weatherall tinha razão. Mas é claro que tinha, e eu mesma sabia disso o tempo todo. Era uma armadilha. Às minhas costas, ouvi um barulho e virei-me, vendo um homem surgir das sombras. Semicerrei os olhos, flexionando os dedos, preparada. —Quem é você? —questionei. Ele avançou rapidamente e percebi que não era Lafrenière, ao mesmo tempo vi o luar faiscar em uma lâmina que ele tirou da cintura. E talvez eu desembainhasse minha espada a tempo. Afinal, eu era rápida. E talvez eu não desembainhasse minha espada a tempo. Afinal, ele era rápido também. Independentemente de como fosse, não importava. A dúvida foi solucionada pela lâmina de um terceiro, uma figura que aparentemente surgira do nada. Vi o que eu sabia ser uma lâmina oculta cortar a escuridão, em seguida meu pretenso assassino caiu, e atrás dele estava Arno. Por um segundo só consegui ficar parada e boquiaberta, porque este Arno estava completamente diferente daquele que eu conhecia. Não só usava o manto dos Assassinos e uma lâmina oculta como o menino tinha desaparecido. Em seu lugar, havia um homem. Precisei de um instante para me recuperar e então, quando me ocorreu que jamais enviariam um único assassino para dar cabo de mim, que haveria outros, vi o homem assomando por trás de Arno —e todos aqueles meses de treino de tiro ao alvo no chalé compensaram no momento em que disparei acima do ombro dele, criando um terceiro olho no assassino e fazendo-o cair morto nas pedras do pátio. ii Recarregando a arma, eu disse: —Oque está havendo? Onde está Monsieur Lafrenière? —Está morto —respondeu Arno. Ele disse aquilo em um tom que não me agradou muito, como se houvesse muito mais naquela história do que ele deixava transparecer. Olhei-o incisivamente. —Oquê? Mas antes que Arno pudesse responder, veio o som de um ricochete e uma bala de mosquete bateu em uma parede próxima, provocando uma chuva de lascas de pedra em cima de nós. Havia atiradores nas janelas do alto. Arno estendeu uma das mãos em minha direção, e a parte de mim que ainda o odiava queria se livrar dele, dizer que eu podia me virar muito bem sozinha, obrigada; mas as palavras do Sr. Weatherall faiscavam em minha cabeça, a noção de que, independentemente de qualquer coisa, Arno estava ali por mim, e afinal era só isso que realmente importava. E deixei que ele me tocasse. —Explicarei depois —continuou ele —, vá! E quando outra rajada de balas de mosquete choveu das janelas, corremos para os portões do pátio e saímos nos jardins. À nossa frente havia um labirinto, malcuidado e tomado de mato, mas ainda era um labirinto. O manto de Arno se abria enquanto corria, o capuz puxado para trás, vi as feições bonitas, e fui alegremente transportada a uma época mais feliz, antes dos segredos que ameaçavam nos sobrepujar. — Lembra-se daquele verão em Versalhes, quando tínhamos 10 anos? — berrei enquanto corríamos. —Lembro-me de ficar perdido naquele maldito labirinto de sebe durante seis horas enquanto você comia minha parte da sobremesa —respondeu ele. — Então é melhor não ficar para trás desta vez — alertei e, apesar de tudo, não consegui deixar de ouvir o tom de alegria em minha voz. Só Arno era capaz de causar aquilo em mim. Apenas ele era capaz de trazer tal luz à minha vida. E creio que se um dia houve um momento em que eu verdadeiramente o “perdoei”, em meu coração e minha mente, foi nesse dia. iii Agora tínhamos chegado ao meio do labirinto. Nosso prêmio foi outro matador aguardando por nós. Ele se preparou, olhando nervosamente de um para outro, e fiquei feliz por ele porque Arno iria para o túmulo pensando que eu havia me unido aos Assassinos. Ele poderia encontrar seu criador flutuando em uma nuvem de honradez. Em minha narrativa, ele era o bandido. Na dele, ele era o herói. Recuei e deixei que Arno enfrentasse o duelo, aproveitando a oportunidade para admirar sua habilidade com a espada. Em todos aqueles anos em que adquiri minhas próprias habilidades, ele sempre demonstrara maior disciplina nos testes de álgebra do preceptor, e dentre os dois eu sempre fui, de longe, a espadachim mais experiente. Mas ele me alcançou, e alcançou depressa. Ele notou meu olhar impressionado e exibiu um sorriso que teria derretido meu coração, se é que precisava ser derretido. Saímos do labirinto e chegamos ao boulevard, que fervilhava com a vida noturna. Uma coisa que notei logo depois da Revolução foi que o povo passou a comemorar mais do que nunca; vivia cada dia como se fosse o último. Sendo assim, a rua estava viva, com atores, acrobatas, malabaristas e titereiros por todos os lados, e a via repleta de espectadores, alguns já bêbados, outros a caminho da embriaguez. A maioria com sorrisos largos estampados nos rostos felizes. Víamos muitas barbas e vários bigodes reluzindo de cerveja e vinho — os homens agora deixavam os pelos na cara crescerem para mostrar seu apoio à Revolução — bem como as características “boinas da liberdade” vermelhas. E era por isso que os três homens vindo em nossa direção se destacavam. Ao meu lado, Arno sentiu-me tensa, prestes a pegar a espada, mas conteve minha mão com um aperto gentil em meu braço. Qualquer outra pessoa teria perdido um ou dois dedos por tentar me conter. Arno, eu estava preparada para perdoar. —Encontre-me amanhã para o café. Aí explicarei tudo.

1º de abril de 1791 

A place des Vosges, a maior e mais antiga praça da cidade, não ficava longe de onde eu havia deixado Arno e, depois de uma noite em casa, voltei no dia seguinte, em puro nervosismo, curiosidade e empolgação mal contida, transbordando com a noção de que, apesar do revés de Lafrenière, eu tinha chegado a algum lugar. Tinha avançado. Cheguei à praça sob uma das imensas arcadas abobadadas que faziam parte das construções de tijolos aparentes por seu perímetro. Algo me fez parar e fiquei confusa por um momento, perguntando-me o que havia de diferente ali. Afinal, os edifícios eram os mesmos, o pilar decorado ainda estava ali. Mas faltava alguma coisa. Então percebi. A estátua no meio da praça — o bronze equestre de Luís XIII. Não encontrava-se mais lá. Eu tinha ouvido falar que os revolucionários estavam derretendo as estátuas. Eis ali a prova. Mas Arno estava lá, com seu manto. À luz fria do dia, examinei-o de novo, tentando entender em que aspecto o menino amadurecera para o homem: ele tinha agora uma expressão mais decidida, talvez? Os ombros encontravam-se mais aprumados, o queixo erguido, os olhos de granito simultaneamente ferozes e belos. Arno sempre foi um menino bonito. As mulheres de Versalhes comentavam isso. As meninas mais jovens ficavam vermelhas e davam risadinhas sob suas mãos enluvadas sempre que ele passava; pelo simples fato de sua beleza se sobrepor a quaisquer dúvidas que elas normalmente teriam sobre sua posição social como nosso mero tutelado. Eu costumava amar a sensação calorosa e superior de saber que “ele era meu”. Mas agora — agora havia algo de quase heroico nele. Senti uma pontada de culpa, perguntando-me se, ao encobrir a verdadeira natureza de sua ascendência, de algum modo acabamos evitando que ele atingisse seu potencial mais cedo. E lá veio mais outra pontada de culpa, desta vez por papai. Se eu tivesse sido menos egoísta e tivesse trazido Arno para nós, como um dia jurei fazer, talvez este novo homem engendrado agora estivesse a serviço de nossa causa e não da oposição. Mas daí, enquanto estávamos sentados tomando café e havia alguma semelhança da vida parisiense normal transcorrendo ao redor, o fato de eu ser uma Templária e ele um Assassino não parecia importar muito. Não fosse pelo manto de seu Credo, poderíamos ser dois amantes desfrutando juntos de nossa bebida matinal. E quando ele sorriu, foi o sorriso do velho Arno que apareceu, o menino com quem cresci e por quem me apaixonei, e durante alguns instantes foi tentador me esquecer de tudo e deleitar-me naquele banho quente de nostalgia, deixando os conflitos e o dever de lado. —E então... —disse eu, finalmente. —Então. —Parece que você esteve ocupado. — Localizando o homem que matou seu pai, sim — emendou ele, desviando os olhos, de forma que mais uma vez perguntei-me se havia algo oculto ali. — Boa sorte — desejei. — Ele matou a maioria de meus aliados e intimidou os restantes a se calarem. Pode muito bem ser um fantasma. —Eu o vi. —Oquê? Quando? —Ontem à noite. Pouco antes de encontrar você. — Ele se levantou. —Venha. Vou explicar tudo. Enquanto caminhávamos, pressionei-o para saber mais informações e Arno relatou os acontecimentos da noite anterior. Na realidade, o que ele viu foi uma misteriosa figura de manto. Não havia nome acompanhando tal aparição. Mesmo assim, a capacidade de Arno de saber de tanta coisa era quase sobrenatural. —Mas como diabos você conseguiu isso? —perguntei. — Tenho possibilidades singulares de investigação abertas a mim — respondeu ele misteriosamente. Lancei-lhe um olhar de viés e lembrei-me do que meu pai dissera sobre os supostos “talentos” de Arno. Eu supunha que ele estivesse falando de “habilidades”, mas talvez não. Talvez fosse outra coisa —algo tão singular que só os Assassinos conseguiam farejar. —Muito bem, então, guarde seus segredos. Apenas me diga onde encontrá-lo. —Não sei se esta é uma boa ideia —protestou ele. —Não confia em mim? —Você mesma disse isso. Ele perseguiu seus aliados e assumiu sua Ordem. Ele quer você morta, Élise. Eu gargalhei. —E daí? Você quer me proteger? É isso? —Quero ajudá-la. —Ele agora estava sério. —A Irmandade tem recursos, efetivos... —A piedade não é uma virtude, Arno —falei incisivamente. —E eu não confio nos Assassinos. —Você confia em mim? —questionou ele, o olhar penetrante. Desviei o rosto para o outro lado, sem saber a resposta de fato —não, sabendo que eu queria confiar em Arno e de fato estava desesperada para tanto, mas sabendo que ele agora era um Assassino. — Não mudei tanto assim, Élise — implorou ele —, sou o mesmo menino que distraía a cozinheira enquanto você roubava a geleia... O mesmo que a ajudou a pular aquele muro para o pomar infestado de cães... Havia outra coisa também. Outra coisa na qual se pensar. Conforme o Sr. Weatherall já observara, eu estava praticamente sozinha: eu contra eles. Mas e se eu tivesse o apoio dos Assassinos? Eu não teria de perguntar o que meu pai faria. Já sabia que ele estaria preparado para uma trégua com os Assassinos. Concordei com a cabeça e falei. —Leve-me à sua Irmandade. Ouvirei a oferta deles. Ele se revelou perplexo. —Oferta pode ser uma palavra meio forte...

2 de abril de 1791 

O Conselho dos Assassinos por acaso se reunia em um salão na Île de la Cité, à sombra da Notre Dame. —Tem certeza de que esta é uma boa ideia? —perguntei a Arno enquanto entrávamos em uma sala cercada por arcos abobadados de pedra. Em um canto havia uma grande porta de madeira com uma maçaneta em aro de aço, guardada por um Assassino corpulento e barbado cujos olhos brilhavam sob as profundezas escuras de seu capuz. Sem dizer uma palavra sequer, ele assentiu para Arno, que retribuiu o cumprimento, e tive de reprimir uma onda de ilusão ao ver Arno daquela maneira: Arno, um homem; Arno, um Assassino. — Temos um inimigo em comum — disse ele enquanto a porta era aberta e passávamos para um corredor iluminado por archotes acesos nas paredes. —OConselho compreenderá isto. Além do mais, Mirabeau era amigo de seu pai, não? Assenti. —Não exatamente amigo, mas meu pai confiava nele. Vamos. Primeiro, porém, Arno pegou uma venda no bolso, insistindo que eu a pusesse. Só para contrariá-lo, contei os passos e as guinadas, confiante de que seria capaz de encontrar a saída do labirinto caso necessário. Quando a jornada se deu por encerrada, apreendi meu novo ambiente, sentindo estar em uma câmara subterrânea úmida, parecida com a de cima, mas agora povoada. À minha volta, eu ouvia vozes. No início foi difícil situá-las, e pensei que estivessem vindo de galerias no alto, só então percebi que os membros do Conselho estavam distribuídos junto às paredes, as vozes se elevando como se gotejassem da pedra enquanto se arrastavam, desconfiados e resmungando entre si. —Isso é...? —Oque ele está fazendo? Senti uma figura diante de nós, que falou com uma voz áspera, uma espécie de Sr. Weatherall francês. —Mas que diabos você fez desta vez, beberrão? —questionou ele. Meu coração martelava e minha respiração era laboriosa. E se aquela infração estivesse sendo demasiada? Um passo longo demais? O que eu ouviria? Mais gritos de “Mate a meretriz ruiva”? Não seria a primeira vez e, afinal, Arno permitiu que ficasse com minha pistola e minha espada — mas de que adiantaria, considerando que eu estava vendada e que enfrentaria vários adversários? Vários adversários Assassinos? Mas não. Arno tinha me salvado de uma armadilha. Ele jamais me entregaria a outra. Eu confiava nele. Confiava tanto quanto o amava. E quando ele se dirigiu ao homem que bloqueava nosso caminho, a voz dele saiu calma e firme, um bálsamo para meus nervos. —Os Templários querem vê-la morta —disse ele. —E então você resolveu trazê-la para cá? —questionou a voz autoritária, em dúvida. Seria Bellec? Mas Arno não teve tempo de responder. Houve outra nova entrada à câmara do Conselho. Outra voz que exigiu saber: —Bem, quem temos aqui? —Meu nome é... —comecei, mas o recém-chegado me interrompeu. —Ah, pelo amor de Deus, tire esta venda. É ridículo. Eu a tirei e os olhei, o Conselho dos Assassinos que, justamente como eu pensava, estava posicionado ao longo das paredes de pedra daquele santuário subterrâneo e escuro, o brilho alaranjado das chamas bruxuleando em seus mantos e os rostos indecifráveis sob capuzes. Meus olhos pousaram em Bellec. De nariz aquilino e desconfiado, ele me olhava com franco desdém, a linguagem corporal protetora em relação a Arno. O outro homem julguei ser o Grão-Mestre, Honoré Gabriel Riqueti, conde de Mirabeau. Como presidente da Assembleia, ele tinha sido um herói da revolução, mas ultimamente vinha sendo uma voz moderada em comparação a outros que clamavam por mudanças mais radicais. Diziam que ele era ridicularizado por sua aparência, mas embora fosse um cavalheiro corpulento de cara redonda, com uma pele tremendamente feia, tinha olhos gentis e confiáveis, e gostei dele de imediato. Aprumei os ombros. — Meu nome é Élise de la Serre — anunciei a todos no cômodo. — Meu pai era François de la Serre, Grão-Mestre da Ordem dos Templários. Vim pedir ajuda. Cabeças se inclinaram quando os membros do Conselho começaram a cochichar, até que o recém-chegado —certamente Mirabeau —os silenciou, erguendo um dedo. —Continue —instruiu ele. Outros membros do Conselho protestaram. —Repetiremos este debate mais uma vez? —Mas Mirabeau os silenciou novamente. — Sim — disse-lhes ele —, assim o faremos. Se não conseguem ver a vantagem de a filha de François de la Serre nos dever um favor, perco as esperanças por nosso futuro. Continue, mademoiselle. —Lá vamos nós —cuspiu o homem que presumi ser Bellec. Foi a ele a quem dirigi meus comentários seguintes: — O senhor não está entre os homens em quem eu normalmente apostaria, monsieur, mas meu pai está morto, assim como meus aliados na Ordem. Se devo recorrer aos Assassinos para ter minha vingança, assim será. — “Apostar” uma balela. Isto é um truque para nos fazer baixar a guarda. Devemos matá-la agora e enviar sua cabeça como aviso —disse Bellec depois de bufar. —Bellec... —alertou Arno. — Basta — gritou Mirabeau. — Francamente, é melhor que esta discussão seja conduzida em particular. Pode nos dar licença, Mademoiselle de la Serre? Fiz uma breve mesura. —Certamente. —Arno, talvez deva acompanhá-la. Sei que vocês têm muito o que conversar. ii Saímos, voltando pela ponte e caminhando pelas vias movimentadas, até que nos vimos de volta à place de Vosges. —Bem —falei enquanto andávamos —, não era bem isso que eu esperava. —Dê tempo a eles. Mirabeau os convencerá. Andamos mais e meus pensamentos foram de Mirabeau, o Grão-Mestre dos Assassinos, ao homem que subvertera minha própria Ordem. —Acredita realmente que podemos encontrá-lo? —perguntei. — A sorte dele não pode durar para sempre. François Thomas Germain acreditava que Lafrenière era... Eu o detive. —François Thomas Germain? —Sim —disse Arno —, o prateiro que me levou a Lafrenière. Uma onda de empolgação fria me invadiu. — Arno — falei, ofegante —, François Thomas Germain era o lugar-tenente de meu pai. —Um Templário? — Ex-Templário. Foi expulso quando eu era mais nova, algo a ver com concepções heréticas e Jacques de Molay. Não tenho muita certeza. Mas ele devia estar morto. Morreu anos atrás. Germain. Jacques de Molay. Afastei tais ideias para voltar a elas depois, talvez com a ajuda do Sr. Weatherall. —Este Germain é extraordinariamente ativo para um cadáver —dizia Arno. Assenti. —Gostaria muito de fazer algumas perguntas a ele. —Eu também. A oficina dele fica na rue Saint-Antoine. Não é longe daqui. Com uma determinação renovada, seguimos apressados por uma travessa arborizada que se abria em uma praça, galhardetes pendurados acima de nossas cabeças, os toldos de lojas e cafeterias tremulando na leve brisa de verão. A rua ainda trazia parte das cicatrizes dos tumultos: uma carroça virada, uma pequena pilha de barris quebrados, uma série de marcas de queimadura nas pedras do calçamento e, naturalmente, bandeiras tricolores no alto, algumas trazendo as marcas da batalha. Tirando isto, porém, parecia tranquila, tal como antigamente, com as pessoas passando de um lado a outro, cuidando de suas vidinhas cotidianas e, por um momento, foi difícil imaginar que aquele fora o lugar de acontecimentos cataclísmicos que mudavam nosso país. Arno me guiou por ruas calçadas de pedras até chegarmos ao portão de um pátio. Dali vimos uma casa grandiosa, na qual ele disse localizar-se a oficina. Era onde encontraríamos o prateiro. Germain. O homem que havia encomendado a morte de meu pai. — Da última vez que vim aqui havia guardas — disse Arno, e parou, com uma expressão preocupada. —Agora não há nenhum —comentei. — Não. Mas muita coisa aconteceu desde a última vez que vim. Talvez os guardas tenham sido retirados. —Ou talvez tenha sido outra coisa. De repente ficamos silenciosos e cautelosos. Minha mão foi à espada e fiquei feliz ao sentir a pistola em meu cinto. —Tem alguém em casa? —gritou ele pelo pátio vazio. Não houve resposta. Embora a rua atrás de nós estivesse ruidosa, a mansão agourenta à nossa frente ostentava apenas silêncio e o encarar fixo das janelas. A porta se abriu a um toque de Arno. Com um olhar para mim, entramos e descobrimos que o hall de entrada estava deserto. Subimos a escadaria, Arno na frente, até a oficina. Pela aparência despojada, o lugar tinha sido abandonado recentemente. Ali dentro estava a maior parte do equipamento do ofício de um prateiro —pelo menos, até onde eu podia ver —, mas nenhum sinal dele. Começamos a vasculhar em volta, no início cautelosamente, folheando alguns papéis, afastando objetos em prateleiras, não muito certos de o que procurávamos, apenas procurando, na esperança de encontrar alguma confirmação da teoria de que aquele prateiro aparentemente inocente de fato era Germain, o Templário de alta posição. Porque se fosse ele, significava que aquele prateiro aparentemente inocente tinha sido o homem responsável pela morte de meu pai, e que estava se esforçando ao máximo para destruir também todos os outros aspectos de minha vida. Cerrei os punhos quando pensei nisso. Meu coração endureceu ao pensar na dor que aquele homem havia trazido à família de la Serre. Nunca a ideia de vingança me pareceu mais real do que naquele momento. Veio um barulho da porta aberta. O menor dos ruídos — um mero farfalhar de tecido —entretanto, alto o bastante para alertar sentidos aguçados. Arno também ouviu e, em uníssono, giramos em direção à entrada. —Não me diga que isso é uma armadilha —arfou ele. —Isso é uma armadilha —respondi. iii Arno e eu nos olhamos e sacamos a espada quando quatro homens carrancudos passavam pela porta, assumiram posição para barrar nossa saída e nos olharam com ódio. Com os chapéus amassados e as botas arranhadas, pareciam ter tido o cuidado de aparentar revolucionários temíveis, que talvez não fossem abordados na rua, mas havia mais na mente deles do que a liberdade, a libertação ou... Bem, eles tinham a morte na mente. Eles se dividiram, dois para mim e dois para Arno. Um dos sujeitos ficou de frente para mim, encarando-me, os olhos encovados em uma testa alta, um lenço vermelho amarrado no pescoço. Tinha uma faca em uma das mãos e puxou a espada das costas com a outra, girando em uma breve exibição, desenhando um oito e apontando as armas para mim. Seu companheiro fez o mesmo, erguendo o dorso da mão um pouco além da lâmina da espada. Se fossem revolucionários, dispostos a roubar ou a me atacar de outra maneira, agora estariam rindo, subestimando-me nos poucos e breves momentos antes de sua morte rápida. Mas não eram. Eram matadores Templários. E chegara aos ouvidos deles que Élise de la Serre não era uma presa fácil; que ela lhes daria trabalho. Aquele que segurava a espada no alto avançou primeiro, lançando-a em um ziguezague tático para minha cintura, ao mesmo tempo em que jogava o peso do corpo no pé de apoio. O aço tiniu quando aparei a lâmina e dancei um pouco para a esquerda, prevendo corretamente que o Lenço-Vermelho faria seu ataque simultaneamente. De fato ele o fez, e consegui receber a espada com um golpe de baixo, mantendo os dois homens ao largo por pelo menos mais um instante, dando-lhes tempo para pensar, deixando que soubessem que o que lhes disseram estava certo: eu era treinada; tinha sido treinada pelo melhor. E estava mais forte do que nunca. À minha direita, ouvi as espadas de Arno e de seus dois adversários, e em seguida veio um grito que não era de Arno. O Espada-Reta cometeu seu primeiro erro: desviou o olhar para ver qual destino recaíra sobre seu companheiro e, embora tivesse sido um lapso momentâneo de concentração, aquele meio segundo em que ele desviou a atenção de mim bastou para que eu pudesse lhe cobrar o preço. Eu o tinha na ponta da espada, então avancei, ataquei por baixo de sua guarda e golpeei para cima, abrindo o pescoço dele com um girar do pulso. O Lenço-Vermelho era bom. Sabia que a morte do companheiro lhe dava uma oportunidade e arremeteu para a frente com a espada em um golpe reto e ofensivo que, caso tivesse feito contato, teria no mínimo tirado meu equilíbrio. Mas ele não conseguiu. Foi um pouco afobado e desesperado demais para tirar proveito do que pensara ser uma abertura, e eu já esperava seu ataque daquele lado, tinha me abaixado sobre um joelho e erguido minha lâmina, que ainda cintilava com o sangue fresco do Espada-Reta, e que agora estava incrustada abaixo da axila do Lenço-Vermelho, entre duas camadas de uma grossa armadura de couro. Ao mesmo tempo veio um segundo grito à minha esquerda e ouvi um baque quando o quarto corpo bateu no chão e a batalha se deu por encerrada; Arno e eu os únicos a continuar de pé. Recuperamos o fôlego, nossos ombros estremecendo por causa do arfar enquanto os últimos gorgolejos de nossos pretensos matadores minguavam ao ofegar seco da morte. Olhamos para os cadáveres, depois, um para o outro e decidimos mutuamente voltar a dar a busca na oficina. iv —Não há nada aqui —falei depois de um tempinho. —Ele devia saber que seu blefe não se sustentaria —disse Arno. —Então perdemos novamente. —Talvez não. Vamos continuar procurando. Ele testou uma porta que estava trancada e parecia prestes a abandoná-la quando lhe abri um sorriso e a arrombei com um pontapé. Então fomos saudados por outra câmara ligeiramente menor, esta cheia de símbolos que logo reconheci: cruzes templárias trabalhadas em prata, cálices e jarros lindamente ornados. Sem dúvida aquela era uma sala de reunião dos Templários. Em uma plataforma elevada em uma extremidade do cômodo, havia uma cadeira decorada com entalhes complexos, onde o Grão-Mestre se sentaria. E de cada lado havia duas cadeiras, para seus lugares-tenentes. No meio da sala havia um pedestal com cruzes entalhadas, e disposto em cima dele um conjunto de documentos, os quais peguei, com a sensação de que me eram familiares mas também estranhos, como se estivessem deslocados ali naquela câmara adjacente à oficina de um prateiro, e não no château da família De la Serre. Um deles continha várias ordens. Eu já tinha visto ordens semelhantes, naturalmente, assinadas por meu pai, mas aquela — aquele documento estava assinado por Germain. Lacrado com uma cruz Templária em cera vermelha. —É ele. Germain agora é o Grão-Mestre. Como isso aconteceu? Arno meneou a cabeça, indo à janela enquanto falava. —Filho de uma puta. Precisamos contar a Mirabeau. Assim que... Ele não terminou sua frase. Ouvimos o barulho de tiros lá fora e de vidro se espatifando enquanto balas de mosquete zuniam pelas janelas, batendo no teto, provocando uma chuva de lascas de pedra. Procuramos cobertura, Arno junto da janela, eu, perto da porta, justamente quando veio mais uma saraivada de tiros. —Vá —disse ele. —Vá à casa de Mirabeau. Eu cuidarei disso. Assenti e saí, partindo para procurar o Grão-Mestre Assassino Mirabeau. v Estava escurecendo quando cheguei à mansão de Mirabeau. Ali, a primeira coisa que me ocorreu foi a escassez de criados. A casa possuía uma estranha sensação de silêncio — por isso levei um ou dois segundos para reconhecer o modo como minha própria casa ficara na esteira da morte de minha mãe. A segunda coisa que me ocorreu — e é claro que agora sei que as duas estavam relacionadas —foi o estranho comportamento do mordomo de Mirabeau. Ele exibia uma expressão estranha, como se suas feições não se encaixassem bem no rosto; isto e o fato de ele não ter me acompanhado aos aposentos de Mirabeau. Ao me lembrar de minha chegada à Boar’s Head Inn, na Fleet Street, aquela não seria a primeira vez que alguém me tomava por uma dama da noite, mas não pensei que o mordomo desleixado fosse assim tão burro. Não, havia algo errado. Saquei a espada e entrei silenciosamente no quarto. Estava às escuras, com as cortinas fechadas. As velas em um candelabro eram quase toquinhos, o fogo ardia fraco na lareira; em uma mesa, estavam os restos do que parecia a ceia, e na cama, o que parecia um Mirabeau adormecido. —Monsieur? —chamei. Não houve resposta, nenhuma reação de Mirabeau, cujo peito largo, que deveria estar subindo e descendo devido à respiração durante o sono, continuava imóvel. Aproximei-me. É claro. Ele estava morto. — Élise, o que é isso? — A voz de Arno à porta me assustou e dei meia-volta. Ele parecia exausto do que, obviamente, tinha sito uma luta breve, mas, tirando isso, estava bem. Uma repentina sensação de culpa descabida cresceu dentro de mim. —Eu o encontrei assim... Eu não... Ele me olhou por um segundo a mais do que o necessário. —É claro que não. Mas devo informar isto ao Conselho. Eles saberão... —Não —vociferei. —Eles já não confiam em mim. Serei a suspeita deles, a primeira e única. —Tem razão —disse ele, assentindo. —Você tem razão. —Oque faremos? — Vamos descobrir o que aconteceu — rebateu ele, decidido. Então se virou, examinando a madeira que cercava a entrada bem atrás de si. —Não parece que a porta foi arrombada —acrescentou. —Então o assassino era esperado? —Um convidado, talvez? Ou um criado? Minha mente foi ao mordomo. Mas se o mordomo tinha feito aquilo, por que ainda estava na casa? Minha suposição era de que o mordomo trabalhava sob uma ignorância obstinada. Algo captou a atenção de Arno e ele pegou o objeto, aproximando-o a fim de examiná- lo. De início, parecia um broche decorativo, mas ele o estendeu, a expressão séria, transparecendo algo significativo. — O que é isso? — perguntei, mas eu sabia o que era, é claro. Tinha recebido um deles em minha iniciação. vi Arno o entregou a mim. —É... a arma que matou seu pai. Peguei-o para examinar, vendo a insígnia familiar no centro do desenho, depois examinando o broche em si. Nele havia uma minúscula canaleta, de modo que o veneno pudesse correr por dentro da lâmina e sair de duas aberturas mínimas mais abaixo. Engenhoso. Letal. E de projeto templário. Quem quer que encontrasse aquilo —um dos compatriotas Assassinos de Mirabeau, por exemplo — teria suposto que o Grão-Mestre tinha sido morto por um Templário. Talvez até supusesse que eu tivesse assassinado Mirabeau. —Este é um distintivo dos Templários —confirmei a Arno. Ele assentiu. —Não viu mais ninguém quando chegou? —Só o mordomo. Ele abriu a porta para mim, mas não subiu. Arno agora fazia uma busca pelo quarto, seu olhar se deslocando pelo cômodo como se examinando sistematicamente cada área. Com uma exclamação curta, ele correu a um armário, ajoelhou-se e passou a mão por baixo, pegando uma taça manchada, ainda com a borra seca de vinho. Ele a cheirou e se retraiu. —Veneno. —Deixe-me ver —pedi, e levei a taça ao nariz. Em seguida voltei minha atenção ao corpo de Mirabeau, abrindo seus olhos com as pontas dos dedos a fim de verificar as pupilas, escancarando-lhe a boca para examinar a língua, empurrando a pele. —Acônito —falei —, difícil de se detectar, a não ser que você saiba o que procura. —Essa planta é popular entre os Templários? —Entre os que querem se safar de um assassinato —expliquei para ele, ignorando a insinuação. —É quase impossível de se detectar, e o cheiro e os sintomas se assemelham à morte por causas naturais. É útil quando você precisa se livrar de alguém sem vigiá-lo. —E como alguém pode ter adquirido isto? — Cresce com facilidade em um jardim, mas como os sintomas ocorreram tão subitamente, deve ter sido processado. —Ou foi comprado de um boticário. —Veneno templário, broche templário... é incriminador. Ele me lançou um olhar sugestivo e, em troca, ganhou uma testa franzida. —Bravo, você entendeu —falei secamente. —Meu plano astuto era eliminar o único Assassino que não queria me ver morta, depois ficar por aqui, esperando ser descoberta. —Não o único Assassino. —Tem razão. Peço desculpas. Mas você sabe que isto não é do meu feitio. —Acredito em você. Mas o restante da Irmandade... —Então vamos encontrar o verdadeiro assassino antes que eles tomem conhecimento disso. vii Uma curiosa guinada nos acontecimentos. Arno soube por um boticário que o veneno havia sido adquirido por um sujeito que usava o manto dos Assassinos. Dali, surgiu um rastro de pistas que Arno seguiu — as quais nos trouxeram até aqui, à igreja SainteChapelle, na Île de la Cité. Uma tempestade se formava quando chegamos à igreja grandiosa, em mais de um sentido. Vi que Arno ficou abalado com a ideia de existir um traidor nas fileiras Assassinas. É melhor se acostumar a isso, pensei com tristeza. —Orastro termina aqui —observou ele pensativamente. —Tem certeza? Ele olhava para o alto dos campanários da igreja imensa, onde havia uma figura escura. Em silhueta contra o céu, seu manto flutuava ao vento enquanto ele nos olhava lá embaixo. —Sim, infelizmente —disse ele. Preparei-me para entrar em batalha mais uma vez, porém, segurando minha mão, Arno me impediu. —Não, devo fazer isto eu mesmo. Voltei-me contra ele. —Não seja ridículo, não vou deixar que faça isso sozinho. — Élise, por favor. Depois que seu pai morreu, os Assassinos... me deram um propósito. Algo em que acreditar. E ver tal propósito ser traído... preciso corrigir eu mesmo. Preciso saber por quê. Eu era capaz de entender. Melhor do que ninguém, eu consegui entender e, com um beijo, permiti que ele fosse. —Volte para mim —falei. viii Estiquei o pescoço para olhar o teto da igreja, mas vi apenas pedra e o céu colérico para além dela. A figura tinha sumido. Mesmo assim, continuei olhando, até que instantes depois vi duas figuras lutando em um ressalto. Minha mão foi à boca. Um grito por Arno, que teria sido inútil de qualquer modo, secou em minha garganta. No instante seguinte, as figuras tombavam, caindo pela frente do edifício, quase sombreadas pela forte chuva. Por meio segundo pensei que fossem bater no chão e morrer ali, bem diante de mim, mas a queda foi obstruída por uma saliência mais abaixo. De minha posição, ouvi o impacto dos corpos e os gritos de dor. Perguntei-me se um deles teria sobrevivido à queda e tive minha resposta quando ambos se recompuseram lenta e dolorosamente, continuando a lutar, no início com incerteza, porém depois com uma ferocidade cada vez maior, as lâminas ocultas faiscando como raios no escuro. Agora eu os ouvia gritar um com o outro, Arno exclamando: — Pelo amor de Deus, Bellec, uma nova era está chegando. Não vamos superar este conflito interminável? É claro, era Bellec, o segundo em comando dos Assassinos. Sendo assim... ele era o homem por trás da morte de Mirabeau. — Será que tudo que ensinei a você ricocheteou neste crânio blindado? — rugiu Bellec. —Estamos lutando pela liberdade da alma humana. Liderando a revolução contra a tirania dos Templários. — Estranho como é curta a estrada da revolução contra a tirania para o assassinato indiscriminado, não? —gritou Arno. —Bah. Você é um merdinha teimoso, não? —Pergunte a qualquer um —retorquiu Arno, e deu um salto para a frente, a lâmina formando um oito. Bellec saltou para trás. — Abra os olhos — gritou ele —, se os Templários querem a paz, é apenas para se aproximar o suficiente para meter a faca em seu pescoço. —Você está errado —argumentou Arno. —Você não viu o mesmo que eu. Vi Templários aniquilarem aldeias inteiras, só pela oportunidade de matar um Assassino. Diga-me, rapaz, em sua vasta experiência... o que você viu? —Vi o Grão-Mestre da Ordem dos Templários assumir um órfão assustado e criá-lo como o próprio filho. — Eu tinha esperanças por você — gritou Bellec, agora fervilhando. — Pensei que fosse capaz de raciocinar por si mesmo. —E sou, Bellec. Só não penso como você. Os dois, ainda em combate, estavam emoldurados por um vitral enorme da igreja muitíssimo acima de mim. Fustigados pela chuva, iluminados e coloridos por trás, eles lutaram por um segundo, como se vacilando à beira de um precipício, como se pudessem cair de um lado, da sacada para a pedra escorregadia do pátio da igreja; ou de outro, dentro da própria construção. A única dúvida era para que lado cairiam. Houve um estrondo, o vitral se espatifando, mantos batendo e sendo rasgados pelos cacos de vidro, e eles caíram mais uma vez, desta vez para dentro da igreja. Corri pelo pátio até o portão, empurrando-o e vendo-os ali dentro. —Arno —chamei. Ele se levantou e balançou a cabeça, como se tentando desanuviá- la, espalhando cacos no chão de pedra. Não havia sinal de Bellec. — Estou bem — gritou ele para mim, ouvindo-me sacudir o portão enquanto eu o testava mais uma vez, tentando alcançá-lo. —Fique aí. E antes que eu pudesse protestar, ele partiu, e me esforcei para ouvi-lo se aventurando na escuridão da igreja. Em seguida a voz de Bellec veio de... não consegui distinguir sua origem. Mas estava perto. — Eu devia ter deixado você apodrecer na Bastilha. — A voz dele era um sussurro ecoando na pedra úmida. —Diga-me, algum dia realmente acreditou no Credo ou sempre foi um traidor amante de uma Templária desde o começo? Ele estava provocando Arno. Provocava das sombras. — Isto não precisa ser assim, Bellec — gritou Arno, olhando em volta, procurando enxergar nos nichos e recessos escuros. A resposta chegou, e mais uma vez foi difícil situar sua origem. A voz parecia emanar da pedra da igreja. —É você que está provocando isso. Se criasse juízo, poderíamos levar a Irmandade a uma altura que não vemos há duzentos anos. Arno balançou a cabeça, cheio de ironia. — Sim, matar todos que discordam de você é um jeito brilhante de começar sua ascensão das cinzas. Houve um barulho acima de mim e vi Bellec um segundo antes de Arno. — Cuidado — gritei quando o Assassino mais velho investiu das sombras com a lâmina oculta estendida. Arno se virou, viu Bellec e rolou para o lado. Depois se pôs de pé, pronto para receber um ataque, e por um momento os dois guerreiros ficaram cara a cara. Os dois encontravam-se ensanguentados e feridos da batalha, os mantos rasgados, quase em farrapos em determinados pontos, mas ainda dispostos à luta. Ambos estavam determinados para que aquilo acabasse ali, agora. De sua posição, Bellec podia me ver ao portão, e senti seus olhos em mim antes de se voltarem para Arno. —E então —começou ele, a voz cheia de escárnio, tomada de desdém —, agora vemos a essência disso. Não foi Mirabeau quem envenenou você. Foi ela. Bellec formara um vínculo com Arno, mas não fazia ideia do vínculo que já existia entre mim e seu pupilo, e foi por isso que eu não duvidei de Arno. —Bellec... —alertou Arno. — Mirabeau está morto. Ela é a última peça desta insensatez. Um dia você vai me agradecer por isso. Ele pretendia me matar? Ou matar Arno? Ou a nós dois? Eu não sabia. Só o que sabia era que a igreja ressoava com o barulho de aço encontrando aço enquanto as lâminas ocultas se chocavam mais uma vez e eles dançavam em volta um do outro. O que o Sr. Weatherall me dissera todos aqueles anos atrás era verdade: a maioria das lutas de espada era decidida nos primeiros segundos do confronto. Mas aqueles dois combatentes não eram como a maioria dos espadachins. Eram Assassinos treinados. Mestre e discípulo. E a luta continuou, aço contra aço, os mantos se balançando, ambos atacando e se defendendo, golpeando e aparando golpes, abaixando-se e rodopiando; a luta prosseguiu até que ambos estavam recurvados de cansaço e Arno conseguiu recorrer a reservas ocultas de suas forças e prevaleceu, derrotando o inimigo com um grito de desafio e um último golpe da lâmina oculta na barriga de seu mentor. E Bellec enfim arriou na pedra do chão da igreja, com as mãos na barriga. Seus olhos pousaram em Arno. —Faça —implorou ele, agora perto da morte. —Se tem um grama de convicção em si e não é apenas um poltrão iludido pelo amor, você me matará agora. Porque eu não vou parar. Eu vou matá-la. Para salvar a Irmandade eu veria Paris arder. —Eu sei —disse Arno, e deu o coup de grâce. ix Mais tarde, Arno me contou o que viu. Ele teve uma visão, segundo dissera, com um olhar de soslaio, como se querendo conferir se eu o estava levando a sério, e então pensei no que meu pai falava a respeito de Arno, sobre suas crenças de que o rapaz fosse dono de dons especiais, algo não muito... corriqueiro. E lá estavam os tais dons em ação. Uma visão na qual Arno distinguiu dois homens, um usando o manto Assassino, o outro, um brutamontes Templário, ambos lutando na rua. O Templário parecia triunfar, mas um segundo Assassino entrou na refrega e matou o Templário. Oprimeiro Assassino era Charles Dorian, pai de Arno. Osegundo era Bellec. Bellec salvou a vida de seu pai. A partir deste incidente, Bellec reconheceu um relógio de bolso que Arno costumava carregar, e então, quando na Bastilha, notou exatamente quem Arno era. Arno também teve uma segunda visão, provavelmente ocorrida antes de ele matar mais alguém. Esta mostrava Mirabeau e Bellec conversando em algum momento do passado, Mirabeau dizendo a Bellec: “Um dia Élise de la Serre será a Grã-Mestre. Será de grande benefício se ela tiver uma dívida para conosco.” Bellec dizia em resposta, “Seria benefício ainda maior matá-la antes que ela se torne uma ameaça real”. “Seu protegido a afiança”, dissera Mirabeau. “Não confia nele?” “Com a minha vida”, respondeu Bellec. “É na menina que não confio. Nada do que eu disser o convencerá?” “Receio que não.” E Bellec — com relutância, contou Arno, vendo que seu mentor não tinha prazer nenhum, satisfação maquiavélica nenhuma em matar o Grão-Mestre; que, para ele, aquilo era um mal necessário, gostando ou não — colocou veneno nas taças, entregando uma delas a Mirabeau. “Santé.” A ironia é que eles beberam à saúde um do outro. Mais tarde, Mirabeau estava morto e Bellec estava plantando o broche Templário, para então partir em seguida. Pouco depois disso, é claro, eu entrei em cena. Conseguimos encontrar o culpado e assim evitar que eu fosse acusada do crime. Será que fiz o bastante para agradar a eles? Eu não acreditava nisso.

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