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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 26

Trecho do diário de Arno Dorian

12 de setembro de 1794
 Nosso relacionamento foi criado no fogo da morte —a morte de meu pai. Por quanto tempo tivemos uma relação normal e convencional? Meia hora? Eu estava no Palácio de Versalhes com meu pai, que tinha negócios a tratar ali. Ele me pediu para esperar enquanto comparecia ao seu compromisso e, sentado de pernas penduradas, olhando os membros bem-nascidos da corte passando de um lado a outro, quem me aparece senão Élise de la Serre? O sorriso que eu viria a amar, o cabelo ruivo até então nada especial para mim e a beleza sobre a qual meus olhos adultos um dia se deixariam morar foram invisíveis a meus olhos jovens. Afinal, eu tinha apenas 8 anos e os meninos dessa idade, bem, eles não têm muito tempo para meninas dessa faixa etária, a não ser que a menina de 8 anos seja muito especial. E assim foi com Élise. Havia algo de diferente nela. Era uma menina. Mas mesmo nos primeiros segundos ao conhecê-la, entendi que não era igual a nenhuma outra que eu já tinha visto. Pique-pega. A brincadeira preferida dela. Quantas vezes brincamos como crianças e como adultos? De certo modo, jamais paramos. Corremos pelas superfícies espelhadas dos pisos de mármore do palácio —por entre pernas, por corredores, passando por colunas e pilares. Mesmo agora o palácio ainda me parece imenso, os pés direitos incrivelmente altos, os corredores estendendo-se quase até onde a vista alcança, janelas enormes em arco com vista para degraus de pedra e jardins estendendo-se para além. Mas naquela época? Para mim, naquela época, era impossivelmente vasto. Entretanto, embora fosse um lugar estranho e gigantesco, e embora cada passo que eu desse me afastasse mais das instruções de meu pai, eu não consegui resistir à sedução da minha nova companheira de brincadeiras. As meninas que eu conhecia não eram assim. Mantinham os calcanhares unidos e os lábios franzidos de desdém diante de todas as coisas de meninos; andavam alguns passos atrás, como versões de bonecas russas das mães; não corriam aos risos pelos salões do Palácio de Versalhes, ignorando quaisquer protestos que surgissem, correndo apenas pela alegria de correr e pelo amor por brincar. Pergunto-me, será que eu já estava apaixonado? E justamente quando começava a me preocupar sobre jamais encontrar o caminho de volta a meu pai, minhas preocupações tornaram-se irrelevantes. Um grito se elevou. Ouvi o barulho de pés apressados. Vi soldados com mosquetes e então, por acaso, dei com o local onde meu pai conheceu seu assassino e ajoelhei-me junto a ele quando soltou seu último suspiro. Quando enfim levantei os olhos do corpo inerte dele, foi para ver meu salvador, meu novo guardião: François de la Serre.

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