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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 17

VIOLÊNCIA GRATUITA


– ROBÔS? – MAX DILLON SE RECLINOU na cama de armação de plástico, examinou Jameson pela parede de vidro de sua cela com isolamento elétrico e abanou a cabeça. – Não sei nada sobre robô nenhum. Estava só cuidando da minha vida na Times Square quando aquela Gargântua verde puxou briga comigo. – Ah, vá, Dillon – Jameson vociferou. – Para com esses joguinhos. Você nem tentou esconder seu envolvimento no roubo dos diamantes. Vocês de uniforme sempre gostam de ficar sob os holofotes. – Repensando, acrescentou: – E Gargântua era um homem, sua tomada analfabeta. Dillon abriu as mãos. – Certo, então eu arranjei uns brinquedinhos novos e queria me divertir com eles. Mas seu namoradinho, Homem-Aranha, e os amigos dele acabaram com todos; até onde eu sei a história acaba aí. Tô sentado aqui desde então, lembra? Foi o que eu disse para o Aranha quando ele passou aqui alguns dias atrás. Jameson deu um passo à frente. – Homem-Aranha entrou na prisão? E depois saiu? – Ao pensar um pouco, ele só via problema no fato de ele ter saído. – Por que ele queria ver você? – Pelo mesmo motivo que você. Queria saber quem tava construindo os robôs. E eu lá vou saber alguma coisa sobre construir robôs? Eu só… hmm, peguei emprestado. – E reprogramou – Jameson acrescentou. – Reprogramei nada, não. Eles são elétricos, lembra? Passei a corrente em torno deles. Fiz os bichos se moverem como eu queria. Como brincar com uma marionete. Precisei treinar um pouco, mas aprendi rápido. – Você nunca fez isso antes? Como foi pensar nisso agora? – Aquele neandertal teria problemas para usar um abridor de latas. Dillon encolheu os ombros. – Sei lá. Passou pela minha cabeça. – Quando? – Alguns meses atrás. Acho que decidi que queria aprender habilidades novas. Preciso me atualizar nesse mercado competitivo de supervilões. – E foi assim que você roubou os robôs da Cyberstellar? – De quem? – Ah, não se faça ainda mais de bobo. Não me diga que não sabe o nome do lugar de onde afanou os robôs. – E não espere que eu vá me incriminar na frente de um jornalista – ele disse, depois de pensar um pouco. – Eles só podem me acusar de verdade por usar os bichos, não por roubar. Mas Jameson sentiu algo por trás da resposta dele. Sua confiança vivaz havia desaparecido, como se o interrogatório de Jameson o tivesse deixado confuso em relação a alguma coisa. Como se ele também tivesse dúvidas sobre o que havia acontecido. – Certo – continuou o dono do jornal. – Então vamos supor que você… achou um monte de sondas espaciais robóticas em algum lugar. E decidiu que seriam ótimas para testar seus novos poderes de marionete. Daí, tocou sua flautinha mágica, só que dessa vez você é o rato, e levou todos para casa. Então pensou: ei, por que não destruir o Distrito dos Diamantes e pegar um presentinho para minha mãe? Dillon levantou da cama com um pulo. – Ei, você não sabe nada sobre a minha mãe! – E nem quero saber. Senta! Eu te fiz uma pergunta. Foi isso que aconteceu? – Se é o que você diz – Dillon disse, depois de uma pausa, franzindo a testa para si mesmo. Ele começou a andar de um lado para o outro da cela. – Claro. – Você não parece convencido. – Ei, eu tava lá. Eu sei, tá? – Então, como você sabia onde encontrar os robôs? Como sabia que a Cyberstellar estava construindo aquelas coisas? E de onde tirou a ideia de que máquinas para catar pedras em Vênus seriam boas para catar pedras preciosas na rua 47? Dillon estava parecendo cada vez mais confuso. – Eu só… ouço coisas. No vento, sabe como é. – Alguém apontou a direção certa? Homem-Aranha talvez? Ele estava balançando a cabeça, mas mais para si mesmo do que para Jameson. – Alguém deve ter… não, não… talvez eu tenha visto na TV. Ou lido em algum lugar. Só sabia que queria aqueles bichos – ele acrescentou, quase na defensiva. – Porque você tinha esses poderes novos e queria alguma coisa em que usar. – Isso, isso. Alguma coisa bem poderosa. – Por que esperar tanto tempo? – Como assim? – Você falou que faz meses que desenvolveu esses poderes novos. Por que demorou tanto tempo? – Bem, eu precisava praticar, certo? Até ficar bom. – Antes você falou que aprendeu rápido. Demorou ou não demorou? – Então, eu… – O que você fez nesses meses? Dillon estava andando de um lado para o outro, cada vez mais nervoso. – Fiquei praticando – ele disse, com a voz fraca. – Só praticando? Nada mais? – Claro que não. Um cara precisa comer… – Então você passou meses só comendo e praticando. Nunca pensei que você era tão disciplinado, Dillon. – Eu fiz outras coisas! – ele insistiu. – Eu saí. Estou na flor da idade, faço sucesso com as mulheres. Jameson abriu um sorriso largo. – Ah, é? – Aah, é. Dillon riu e Jameson riu junto. – Passou muito tempo com mulheres, então? – Claro. Elas também adoram. Esses poderes não servem só para abrir cofres, sabia? Jameson não queria mesmo saber, mas continuou com a gargalhada sacana mesmo assim. – Pegou umas garotas bonitas, então, hein? – Ah, as mais bonitas. – Pode descrever? Dillon se deteve. – Então… elas… sabe. Mulheres. Loiras… ruivas… o de sempre. – Você não lembra, não é? – Claro que lembro. Eu só… elas se misturam, sabe? – Impaciente, ele caminhou mais rápido de um lado para o outro. – É por ficar aqui. Privação sensorial, como eles dizem. Mexe com a cabeça da pessoa. Jameson recuou. – Bom, acho que isso explica então. – Claro. É por isso que eu não lembro. – Não foi isso que eu quis dizer. Dillon o encarou. – O quê, então? – Só uma coisa que descobri estudando sua ficha na prisão. Os guardas notaram várias vezes em que você parecia desligado por um tempo, como se em transe ou algo assim. Ele respondeu com escárnio: – Transes. Como eles vão saber? Eu só ficava com a cuca entediada. – Uma coisa interessante sobre os transes – Jameson continuou. – Parece que muitos deles aconteceram nas mesmas horas em que alguma empresa de alta tecnologia estava sendo destruída. Um aconteceu na mesma hora em que Homem-Aranha estava lutando com alguns robôs em Midtown. E todas as outras lutas de robôs com Homem-Aranha, assim como os outros roubos, aconteceram enquanto você dormia. Dillon parecia confuso. – É uma grande coincidência – ele disse, dando de ombros. – É? – Escuta, o que você está querendo dizer? – Sinceramente? Não faço ideia. Mas é um padrão, e padrões costumam significar alguma coisa. E, se você anda apagando e esquecendo coisas, talvez haja alguma relação. – Eu não ando apagando. Só… os últimos meses não foram tão memoráveis. – Exceto por essa grande ideia nova que você teve para usar seu poder, e treiná-la muito. – Isso. Tomou bastante tempo. – E quando você teve a ideia exatamente? Dillon ponderou por um momento. – Exatamente? Sei lá. Faz um tempo. – Quando? O que estava acontecendo? Como estava o clima? Que esporte estava passando na TV? – Não lembro, OK? Só passou pela minha cabeça… feito um raio – ele disse, com ironia. E então, franziu a testa. – É, espera um pouco… teve uma coisa… eu estava na Broadway e… – Ele riu. – É isso. Começou onde tudo terminou. – O quê começou? Dillon hesitou. – Não sei direito. Só… aquilo. – Mas aquilo aconteceu na Broadway. – Isso. – O que você estava fazendo? – Bom, eu precisava ir, não é? Eu sou Electro! Não vou ficar parado enquanto outra pessoa rouba meu… Ele parou, fazendo uma careta súbita, e virou de costas. – Dillon? – Jameson chamou. – Enquanto outra pessoa rouba seu o quê? Dillon! Jameson se empertigou e estava prestes a chamar um médico quando Dillon voltou a se endireitar. Ele caminhou devagar até a cama, deu meia-volta e se sentou. – Nada. Não há mais por que gastar seu tempo com isso. É uma tentativa fútil de mentir, e estou cansado de você encontrando lacunas na minha história. Então é melhor eu contar a verdade de uma vez. Sua voz havia mudado, ficando mais fria, mais decidida. Jameson deu um passo à frente, aproximando-se do vidro e franzindo a testa. – Sobre a Broadway? – Esquece a Broadway. Eu inventei isso tudo. Foi o primeiro nome que me veio à cabeça. – Então que verdade você vai me contar? – A identidade da pessoa que me deu a ideia de ampliar os meus poderes. De quem planejou os roubos e o uso dos robôs. Foi Homem-Aranha, Sr. Jameson. Estamos trabalhando juntos em segredo há meses, elaborando nossos planos. A batalha no Distrito dos Diamantes foi encenada. Homem-Aranha fingiu lutar contra mim e contra os robôs, e fingiu ser derrotado. Nosso plano era que eu recuperasse os diamantes e os repartisse com ele. Não tínhamos previsto a chegada dos Vingadores. Os robôs de Vênus se mostraram muito mais destrutivos do que havíamos imaginado, por conseguinte atraindo maior atenção dos superheróis. Por conseguinte? Jameson ficou olhando fixamente por um tempo. – E você está disposto a testemunhar isso em tribunal? – Claro. Homem-Aranha me abandonou. Quando veio aqui, era para me falar que eu tinha fracassado e que estava pondo fim à nossa parceria. Quando o senhor chegou, tentei proteger Homem-Aranha por uma questão de lealdade. Mas agora reconheço que essa lealdade foi em vão. Se eu virar testemunha contra ele, posso pedir uma redução da sentença. Jameson deu mais um passo à frente, ficando cara a cara com o vidro. – Você sabe quem o Homem-Aranha é? – Sim. – Dillon sorriu com frieza. – Não vou falar ainda para o senhor. Não até ter meu acordo. Mas, quando tiver, não vejo mal em dar a história exclusiva para o senhor. Seu coração estava acelerado agora. Era tudo que Jameson queria: a prova de suas convicções sobre o escalador de paredes, a justificativa da posição que ele havia assumido diante da opinião pública. Era disso que seus sonhos eram feitos. E, no entanto, ele não acreditou em uma palavra do que ouviu. Ele queria desesperadamente engolir a história toda, mas havia um fedor nela que era forte demais para ignorar. Dillon estava prestes a dizer uma coisa e então… mudou. Não só a história, mas todo o comportamento. Até sua gramática havia melhorado. E o que ele estava alegando simplesmente não se encaixava com os fatos. Jameson tinha visto com os próprios olhos: Dillon não estava evasivo antes; estava confuso, preocupado. E então alguma coisa tomou conta dele. – E os outros ataques de robô? – ele perguntou devagar. – Os outros roubos? – Homem-Aranha está por trás dos roubos. Ele encenou os ataques para desviar as suspeitas. – E como você explica que eles sempre aconteciam enquanto você entrava em transe? – Coincidência. – Ele examinou Jameson. – Todos esses tais transes correspondem a algum roubo ou ataque? – Não que a gente saiba. – Pronto. Só deixo minha mente viajar de tempos em tempos. Como vivo fazendo isso, é inevitável que às vezes aconteça ao mesmo tempo que algo lá fora. Mas normalmente não. É só uma coincidência. Jameson tinha sido repórter por tempo suficiente para saber diferenciar uma coincidência de um padrão real. Electro estava mentindo. E se estava mentindo sobre isso, Jameson não tinha escolha a não ser desconfiar de que ele também estivesse mentindo sobre o envolvimento do Homem-Aranha. Era terrível admitir. Tudo o que ele queria era acusar o escalador de paredes de um crime que colasse. Mas a história de Dillon simplesmente nunca colaria. E havia mais do que a história questionável de uma só pessoa. Mais coisas que se somavam ao padrão. Electro tinha uma conexão com os roubos de equipamentos cibernéticos, e esses roubos faziam parte de algo maior, e HomemAranha estava sendo usado para distrair a atenção desse algo. E Jameson vinha caindo na isca dessa distração por causa do seu ódio contra Homem-Aranha. Ele tinha sido manipulado feito um amador porque estavam brincando com seus preconceitos. A única maneira de chegar à verdade era admitir que estava errado. A respeito do Homem-Aranha. Quase não valia a pena. Poxa, era duro só de pensar. Seu cérebro não foi projetado para processar esse conceito. Ou talvez, ele se corrigiu, só esteja sem prática. – Sabe o que eu acho? – ele disse. – Acho que você é um mentiroso. Acho que tudo o que você me falou nos últimos dois minutos não passa de uma mentira. Agora, nem sei direito se você é quem diz que é. Não me peça para explicar isso, porque ainda não descobri tudo. Mas eu vou descobrir. Pode confiar. Porque ninguém faz J. Jonah Jameson de bobo. – Não duas vezes, pelo menos. No entanto, Dillon estava olhando para outra coisa. Sua atenção parecia ter se desviado no meio do discurso de Jameson, como se estivesse ouvindo um som distante. Mas, mesmo com o olhar fixo no vazio, ele disse: – Nada disso é relevante agora. – Ele fez uma pausa. – Sabe o que eu acho de você? O homem na cela focou o olhar em Jameson e sorriu. – Acho que J. Jonah Jameson seria um ótimo refém. Foi então que Jonah ouviu os alarmes – e os estampidos. E os tiros. E os gritos. Ele se colocou de pé e correu até a porta do outro lado do corredor. – Guarda! O que está acontecendo? Me tira daqui! Guarda! Mas o guarda estava muito ocupado com uma… coisa. Uma enorme monstruosidade de metal descia pelo corredor em alta velocidade na direção dele. Uma forte garra metálica avançou com um estalo, com suas pinças envolvendo o guarda… Jameson desviou o olhar, com ânsia de vômito, e correu para o outro lado. Mas a única direção possível era a cela de Electro, que o observava com um sorriso frio e arrogante. Jameson se virou para trás quando o enorme robô arrancou a porta das dobradiças e dobrou o batente para o lado com suas garras para forçar sua entrada. Ruidosamente, caminhou na direção de Jameson, que fechou os olhos, pensando em Marla. – Leve-o vivo – Dillon disse, e Jameson sentiu cabos frios de metal em torno de seu corpo, puxando-o para cima. Ele abriu os olhos novamente quando o robô o pousou nas suas costas e o manteve ali. As garras bateram contra a estrutura de vidro, seguraram-na e a arrancaram. Dillon permaneceu parado, sem se esquivar, como se não se importasse de ser atingido pelos estilhaços. Ele teve sorte; foi atingido por poucos cacos que lhe causaram cortes pequenos. Ele nem pareceu sentir. – Recarregar – Dillon disse, com a voz dura e imponente, ao subir pelas garras do robô, que haviam se movido para sustentá-lo de maneira quase dócil. Depois de se agachar nas costas do robô, logo à frente de Jameson, ele se segurou em um tipo de alça que o robô havia expelido. Faíscas saltaram entre ela e seus dedos emitindo estalidos sonoros enquanto ele as segurava. Jameson pôde ver os pelos castanho-avermelhados curtos de Dillon se arrepiarem enquanto ele se recarregava. Quase podia sentir os pelos do próprio bigode se enrijecerem pelo campo estático em torno do vilão. Quando outros guardas entraram na sala e sacaram suas armas, Dillon ergueu a mão e soltou raios que atravessaram seus corpos. A ânsia de vômito de Jameson voltou quando sentiu o cheiro de carne queimada. – Excelente – disse Dillon, com a voz analítica, conforme o robô avançava em direção à porta pisando nos corpos dos guardas. – Você… você os matou! Como se não fossem nada! – Uma avaliação correta. – Seu louco assassino! Aqueles homens só estavam fazendo o trabalho deles! Eles tinham famílias para sustentar! – Tudo isso será irrelevante em breve. Jameson cerrou os punhos, querendo se livrar daquele bandido desprezível e puni-lo pela sua falta de humanidade. Mas ele sabia que tocar naquele fio vivo de eletricidade colocaria um fim na sua ilustre carreira, e Dillon não teria reservas em deixar que ele fosse eletrocutado, assim como não tivera ao matar aqueles guardas. Por isso, guardou a raiva para depois. Você ainda vai pagar por isso! Eles estavam se aproximando dos sons de uma batalha e Jameson pôde ouvir balas, lâminas giratórias e outros passos metálicos. Poeira e fumaça enchiam o ar. – No entanto – Dillon continuou –, você tem uma função a representar agora. Mesmo que carregado eletricamente, um corpo ainda é vulnerável a balas. Sem nenhuma ordem (pelo menos, não verbal), o robô virou e continuou a andar na mesma direção, mas sua traseira havia se tornado a parte da frente. Dillon se virou para olhar para a frente e lançou uma olhadela para os tentáculos que seguravam Jameson. Eles diminuíram a força e o soltaram. Os olhos dele se arregalaram. – Você está me soltando? – Não. Estou livrando os tentáculos para o combate. – De repente, para sua surpresa, Jameson se sentiu empurrado para olhar à frente. Não, era mais do que isso: era como se seus músculos o virassem, mas não era ele quem os comandava. Eles se contorceram como se… como se uma corrente estivesse passando através deles. Electro estava controlando as correntes nos nervos de Jameson como fazia com os fios e servidores dos robôs! Ele tinha sido reduzido a um fantoche! Electro o forçou a se sentar e segurar uma alça em cima do robô; por sorte, nenhuma carga passava por ela. Ele viu que o robô tinha braços nas costas – ou na nova dianteira – muito parecidos com os da outra extremidade. Ele estava começando a reconhecer que esses robôs tinham um design muito semelhante ao das sondas de Vênus, mas eram maiores, mais perigosos, mais cruéis. Eram ferramentas científicas poderosas cooptadas para o crime. Eram máquinas mortíferas. Então, eles viraram na última esquina e avistaram uma luta entre guardas e robôs. Alguns dos defensores armados se voltaram na direção deles. – Avise os guardas da sua presença – Dillon ameaçou. – Não atirem! Não atirem! Sou eu! J. Jonah Jameson! Essa aberração me pegou como refém! Cuidado com os raios dele! Humpf! – De repente, seus dentes se cerraram dolorosamente, abafando seus gritos. – Agora basta – Dillon disse. Para o alívio de Jameson, os guardas não estavam atirando. – Fale para os seus homens abaixarem as armas se quiserem que o refém sobreviva – Dillon gritou. Relutantes, os guardas obedeceram, talvez reconhecendo que não estavam conseguindo vencer os robôs. Jameson quase ficou aliviado por não conseguir falar, porque senão, sua consciência o teria pressionado a dizer algo nobre e altruísta como: “Não se preocupem comigo, acabem com ele!”. A ameaça que aquele psicopata representava diante de um exército de robôs era terrível, e valia muito bem o sacrifício de um homem para ser evitada. Mas essa decisão havia sido tirada das suas mãos, para o seu alívio. Ele não era um herói. Não queria estar ali no centro da ação, arriscando a vida. Ele não conseguia lidar com esse tipo de risco. Não como… Não. Nem diga isso. Os Vingadores, o QF, nem o Homem-Fuleiro! Ninguém a não ser… Homem-Aranha, onde diabos você está quando eu preciso de você? E desta vez, você vai se dar ao trabalho de me salvar? • • • • Homem-Aranha levou algum tempo para encontrar um barquinho adequado que ele pudesse confiscar – certo, roubar – sem que ninguém visse. Ele não gostava de recorrer a roubo, mas não via outra opção. Precisava chegar à prisão e descobrir o que Jameson estava planejando, com quem iria se encontrar. O Consertador tinha muitas relações no submundo e poderia ter colocado Jameson em contato com quase qualquer um dos figurões que residiam atualmente na Ryker’s. Ou talvez JJJ simplesmente tivesse feito as pazes com Smythe, uma trégua para se livrar de mim. Ódios em comum já criaram aliados muito mais estranhos do que eles. Quando se aproximou da ilha, desligou o motor e remou o resto do trajeto depois de jogar um pouco de teia em volta dos remos para silenciá-los. Era difícil encontrar um ponto de desembarque isolado, pois a costa era baixa e propositalmente aberta para dificultar infiltrações como aquela. Ele pensou em desembarcar sob a única ponte que ligava a ilha ao continente. Mas notou outro som além do rumorejar da água: o som de sirenes na ilha. Desistindo de entrar furtivamente, voltou a ligar o motor e chegou lá o mais rápido que pôde. Em terra firme, correu na direção da alta cerca da prisão, descobrindo que alguma coisa havia feito um grande buraco nelas e passado por ele, deixando um rastro de guardas – e até mesmo presidiários – mortos ou feridos atrás dela. Ou delas. Ele via dois dos culpados agora – robôs como aqueles do Distrito dos Diamantes, só que maiores e mais malignos. Eles estavam parados ao lado de um buraco aberto na parede da ala especial, em guarda, como que protegendo quem estava lá dentro. Ahh, não. Isso me cheira mal. Coragem, Aranha. Você já enfrentou coisa pior. Chega de duvidar de si mesmo. É só se concentrar e acabar logo com isso. Ele disparou uma teia para o alto de um dos faróis ao longo da cerca e saltou, deixando que a contração da teia o ajudasse a passar por sobre o arame farpado. Pousou dentro do terreno e correu na direção do buraco na parede. Um dos robôs de guarda o avistou e avançou para detê-lo. O sentido-aranha formigou e ele saltou para fugir de uma rajada de fogo disparada contra ele. Aranha pousou na lateral do prédio da prisão e escalou a parede para se aproximar enquanto o robô erguia a parte frontal para mirar nele e lançar outra rajada do lança-chamas. Mas o Aranha viu o acendedor de arco voltaico e o atingiu com uma rajada precisa de fluido de teia. O líquido inflamável saiu, mas sem nada para acender, espirrou inofensivo no chão. O robô flexionou as patas e saltou na direção dele, estendendo as garras perigosas. O herói subiu pela parede para desviar, mas um tentáculo de aço se ergueu e acertou seu tornozelo, puxando-o para baixo com o peso de seu pouso. Aranha precisou soltar a parede para não ter a perna arrancada. O cabo o lançou para trás contra o chão, mas ele girou no ar e pousou com as mãos e o pé livre, absorvendo o impacto. Rolou e agarrou o cabo com as duas mãos, puxando-o e retorcendo-o até quebrar as peças hidráulicas internas que faziam com que o cabo se flexionasse todo. O cabo ao redor do seu tornozelo ficou mole. Mas logo em seguida, o zumbido de perigo se intensificou e outro cabo se enrolou em torno do seu torso, prendendo seus braços. Um som metálico e agudo chamou a atenção de Aranha para uma lâmina de serra girando na direção da sua cabeça. Ele desviou por sob ela, mas não conseguiu se mover muito por causa do cabo que o segurava, prendendo seus braços e comprimindo seus pulmões. A lâmina estava se reorientando para passar outra vez. Contudo, o Homem-Aranha sabia do que era capaz. Reunindo suas forças, tensionou os braços e o peito contra o cabo que o prendia até se libertar. Ele caiu para longe, passando milímetros sob a serra. Segurou o braço da lâmina quando ela passou por ele e o braço o ergueu do chão, balançando-o no ar de um lado para o outro. Ele se segurou – claro que se segurou, ele era o Homem-Aranha – e deu um soco na carapaça do robô, estendendo o braço para despedaçar os cabos hidráulicos e elétricos. A lâmina caiu em silêncio. Mas o formigamento o avisou outra vez; dessa vez, não só o sentido-aranha, mas também o arrepiar dos seus pelos o avisaram de uma carga que se acumulava. Ele saltou para desviar de uma descarga elétrica disparada em sua direção. O arco voltaico atingiu os restos do braço da serra, passando pelos fios expostos e fazendo com que o robô desse um choque em si mesmo. Aranha assistiu da parede em que pousou, torcendo para que o choque acabasse com o robô. No entanto, embora a máquina estivesse cambaleante, com um lado enfraquecido, ele ainda estava de pé. E o segundo robô estava ao alcance, lançando uma rajada de fogo na direção dele. Saltou até uma árvore ali perto e a chama o seguiu, incendiando os galhos. Ele continuou enquanto conseguiu suportar o calor que subia, na esperança de pegar os robôs desprevenidos. Lança-chamas e eletricidade no lugar de lasers, ele pensou. Eles não parecem coisa da Cyberstellar. Alguém construiu versões piratas, usando equipamentos mais baratos. Devem ter começado antes mesmo do roubo de diamantes, copiando os planos antes de perderem os robôs e então modificando-os para deixá-los mais mortais. Mas a casca desses não é tão dura quanto a das sondas de Vênus. Essa é a minha vantagem. O segundo robô estava andando de um lado para o outro embaixo da árvore, procurando por ele. Mas o Aranha estava começando a assar lá em cima, então pulou em cima das costas do robô e mirou no acendedor de arco voltaico, como da outra vez. Mas o robô virou o braço de lança-chamas antes que ele tivesse a chance de atirar. Eles se adaptam. Ele também se adaptou, caindo para o lado e para baixo do robô, na esperança de que houvesse um ponto vulnerável ali. Contudo, ao chegar à parte de baixo, espinhos afiados começaram a avançar contra ele. Um chegou perto, e ele sentiu um choque elétrico. O robô começou a se abaixar e o Aranha saltou, desviando por entre as duas pernas do oponente. Uma delas o chutou e fez um corte em seu joelho esquerdo, fazendo-o cambalear. A perna preparou outro chute e Aranha a agarrou, puxando-a sem dó nem piedade até arrancá-la na articulação. Vingança. Ele se levantou com dificuldade e saiu mancando, sentindo pontadas de dor no joelho. E então seu formigar de perigo se intensificou. Ao se virar para o buraco na parede da prisão, viu outros robôs surgindo. Que ótimo. Mas sabia que poderia acabar com eles. E sabia que deviam estar ajudando alguém a fugir, alguém perigoso; por isso, precisava acabar com eles. Fracassar não era uma possibilidade. Seu sentido-aranha parecia estar funcionando bem agora, então não havia porque duvidar dele. E então ele viu algo que pôs fim às suas outras dúvidas. Saindo da prisão, sentado nas costas do maior robô, montando-o como um general em seu cavalo… Jameson! E sentado atrás dele estava ninguém mais, ninguém menos, do que Electro. Ainda com o uniforme da prisão, claro, mas Aranha já conhecia o rosto de Max Dillon fazia tempo. Claro! Tudo se encaixa agora. De tão fixado que estava em Jameson, Aranha quase ignorou o formigar do seu sentido-aranha anunciando uma rajada de lança-chamas do robô manco. Ele desviou bem a tempo, embora pudesse sentir que seu uniforme estava pegando fogo. Ele caiu e rolou, e então se levantou com dificuldade quando dois outros robôs avançaram na direção dele. – Homem-Aranha! – ele ouviu Jameson gritar entre dentes, como se em um acesso de fúria. – Bom, o que você estava esperando, carrancudo? Que eu não seria uma mosca na sua sopa quando você mostrasse sua verdadeira cara? – Ele podia apostar que o editor em JJJ ficaria ainda mais enfurecido com a metáfora boba. – Seu… idiota! – Enquanto disparava uma teia contra Jameson, ele viu o braço do dono do Clarim apontar na direção dele. Um robô avançou e deteve a teia com sua garra. O braço de Jameson fez um rápido movimento para o lado e a garra puxou, fazendo com que Aranha caísse. (Na verdade, os pés dele continuaram presos à grama em que estava em pé, mas o próprio gramado cedeu.) Outro gesto, e uma rajada de chama estourou na direção dele. Aranha disparou mais um fio de teia e desviou, saltando no ar. JJJ apontou para Electro, que lançou um raio contra Aranha. O herói disparou uma rede de teia no ar à sua frente para servir como escudo isolante. Ele pulou sobre o telhado da ala da prisão e se protegeu sob a beirada. Viu robôs escalando a parede atrás dele, seguindo aonde Jameson apontava. Apesar de estar em desvantagem, Homem-Aranha se sentiu mais confiante do que nunca. Ele estava certo desde o começo! Um divertido Jonah finalmente tinha mostrado a cara e agora era a grande chance do Aranha derrotar seu inimigo mais antigo de uma vez por todas! – Eu sabia, Jonah! – ele berrou. – Desde o começo, sabia que você era uma ameaça! – Você é… mais burro do que eu pensava! – Jameson respondeu aos berros, embora parecesse estar com dificuldade para falar (sempre havia uma primeira vez). – Electro! Ataque… Imediatamente, em resposta ao comando do seu mestre, Electro disparou Imediatamente, em resposta ao comando do seu mestre, Electro disparou outro raio. Sem dificuldade, Aranha deu um salto para desviar, sentindo-se leve como uma pena. Ele pousou em cima de um dos robôs que escalava a parede, fazendo-o se soltar e levando-o até o chão, onde bateu com força e caiu de costas. Aranha arrancou uma das patas e a lançou contra a montaria de Jameson. – De quem foi a ideia de se aliar ao Electro, carrancudo? Foi da Marla? Ela descobriu como ele conseguiria controlar os robôs? – ele disse, enquanto arrancava outra perna e acertava o corpo do robô com ela. – É o trabalho dela que estou destruindo? – Pega… Electro! Ele é… Aranha girou quase que casualmente para desviar do próximo raio, deixando que ele fizesse churrasquinho do robô quebrado. Quando o robô se desligou, Aranha arrancou um de seus espinhos ventrais, saltou para cima do próximo robô na parede (que agora descia na direção dele), e enfiou o espinho no olho de câmera. O robô lançou faíscas pelo ar, e Aranha usou o espinho de novo para enfiar onde pensou ser o tanque do seu lança-chamas, causando um vazamento. Ele saltou para o lado antes que as alças elétricas descarregassem, botando fogo no combustível que vazava e causando uma explosão interna. O robô não conseguiu mais se segurar e caiu com estrondo no chão. – Posso fazer isso o dia todo, Jonah – ele provocou, ficando em pé na lateral do prédio com as mãos nos quadris. – Você devia saber a essa altura que seus ataques contra mim nunca dão certo! Você devia continuar blogando… essa sim é uma nova tecnologia que você consegue… – Atrás de você, seu idiota!! Dois cabos surgiram por trás e se enrolaram em torno dele, prendendo-o no lugar. Ele ouviu o crepitar de um acendedor de arco voltaico. Espantado e em desespero, empurrou a parede no mesmo instante em que as chamas se soltaram. Suas pernas ficaram sob a chama por uma fração de segundo, e ele gritou de dor e espanto. Um espanto parecido com o de notar que seu sentido-aranha não o tinha avisado. Ele tentou puxar os cabos, mas eles resistiram, puxando-o de volta. Contorcendo-se desesperadamente para evitar o fogo infernal, disparou teia na parede oposta e a puxou com as duas mãos. Com uma potente explosão de força, arrancou o robô da parede e desceu, atirando o robô ao chão. O lança-chamas se enterrou. Mas ele ouviu outro robô vindo por trás, mais uma vez sem nenhum formigar de perigo. Ele arrancou os cabos e correu para longe. – Jameson! O que você fez com o meu… – Ele se deteve ao lembrar: tinha sido Jameson quem o avisou. Quem salvou a minha vida. – Não sou eu, seu paspalho! – Jameson se debatia para sair. – Elec… Electro está por trás disso! Controlando… meus músculos! Me machucando! Mas… sem controle suficiente – ele disse, com um sorriso desafiador. – Quanto mais ele controla… os músculos… dos robôs… menos controla… minha voz! – Como se alguma coisa conseguisse calar sua boca! – Aranha gritou quando outros robôs surgiram atrás dele. – Chega… de palhaçada! Não temos tempo… para ficar brigando! Isso é… maior do que eu e você… Homem-Aranha! – Outras chamas ressoaram, outras pinças estalaram, outras serras zumbiram, mas a voz de Jameson ficou mais sonora, mais forte, aquele bramido grave treinado por décadas de berros com os repórteres em meio ao alvoroço da redação. – Electro está construindo os robôs… um exército de assassinos! Ele está nos jogando um contra o outro! Para nos distrair! E nós caímos feito duas moscas na teia! Está me ouvindo, HomemAranha? Estamos deixando essa aberração nos fazer de bobos! Lutando um contra o outro por nada! Você achou que fui eu, eu achei que fosse você, mas estávamos errados! Está me ouvindo? Nós estávamos errados! Aquelas palavras atordoaram Homem-Aranha mais do que qualquer golpe de pinça de robô. J. Jonah Jameson… admitindo que estava errado? O choque fez toda a sua visão de mundo desabar, colocando tudo em dúvida. Ele tinha tanta certeza sobre a todas as coisas, mas agora… Agora sei que meu sentido-aranha estava mentindo para mim. Tia May tinha razão. Tudo agora estava começando a ficar mais claro. Fazia muito mais sentido. Os Jamesons, o Consertador e Electro mancomunados? Tia May e MJ sendo cópias androides? Como ele poderia ter acreditado nisso tudo? Assim como em qualquer teoria paranoica de conspiração, quanto menos ele conseguia encontrar evidências que a apoiassem, mais precisava exagerar o alcance da conspiração para justificar a tese. Agora ele via como tudo estava saindo do controle. Como tinha ficado desesperado e fanático, tudo porque não conseguia se permitir ver uma possibilidade muito mais óbvia: que ele simplesmente estava errado desde o princípio. Talvez fosse Jameson quem tivesse começado. Jameson que havia cometido um erro ao postar aquelas fotos dos alunos de Peter. Isso tinha deixado Peter tão furioso que havia se decidido a acreditar que Jameson era seu inimigo, independente do que mostravam as evidências. Além disso, ver aquelas fotos o fizera se sentir tão culpado que ele não conseguia mais admitir seus erros. No entanto, por mais errado que Jameson pudesse estar no começo, Peter tinha reagido da pior maneira possível. Ele havia se transformado em J. Jonah Jameson! E precisou da mente clara de Jameson para apelar ao seu bom senso! Em que ele havia se permitido se transformar? Um cabo pegou seu punho, trazendo-o de volta para o presente. Agora, ele percebeu, o maior erro seria esquecer de lutar por sua vida. Ainda mais porque não podia mais confiar em seu sentido-aranha. É isso que está acontecendo aqui, ele pensou enquanto arrancava aquele cabo e desviava de uma lâmina. Alguma coisa está estragando meu sentido-aranha. Me dando falsos positivos para me fazer desconfiar de Jameson. Me dizendo que tia May e MJ eram ameaças sempre que tentavam me fazer encarar a realidade. E, agora, me impedindo de sentir o perigo! Será que Electro pode estar fazendo isso? Brincando com os meus sentidos como brinca com o corpo de Jonah e dos robôs? Mas como? Descobrir isso, porém, teria de esperar. Se seu sentido de perigo era agora uma arma do adversário, ele estava em muita desvantagem para continuar a lutar. Ele precisava bater em retirada. Mas não sem Jameson. Por sorte, só havia um robô entre ele e JJJ agora. Ele começou a tecer um Por sorte, só havia um robô entre ele e JJJ agora. Ele começou a tecer um escudo, prendendo-o ao punho com cordas de teia. Pulou sobre as costas do robô, pisando com força, e tomou impulso antes que a máquina conseguisse puxá-lo para baixo. Usou o escudo para deter os raios de Electro, soltando balas de teia por trás da sua proteção. Dillon foi obrigado a desviar seus esforços para queimar as teias, dando ao Aranha a chance de que precisava. O braço de serra giratório avançou contra ele enquanto descia, mas ele o atingiu com um gosma de teia e o chutou para o lado. Agarrando Jonah, disse: – Vou tirar você daqui. – E disparou uma teia para o alto da prisão. Pouco antes de saltar para longe, disparou um rastreador-aranha que grudou em uma das patas do robô, perto do seu corpo. O dono do jornal se segurou por sua preciosa vida enquanto Aranha o levava para o alto do telhado, para longe da confusão. – Acho que mereço uma explicação – Aranha disse. Jameson tomou fôlego com esforço, parecendo aliviado por estar livre do controle elétrico do vilão. – Dessa vez – ele disse –, eu não vou discutir.

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