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sábado, 30 de janeiro de 2016

SD 16

NA CENA DO CRIME 

–ENTÃOPETERAINDANÃO VOLTOU? Mary Jane fez que não com a cabeça enquanto pegava e pendurava o casaco de tia May. – Ele está atendendo ao telefone, pelo menos, mas não me fala onde está. Parece que não confia mais em mim. Tia May acariciou o braço de MJ. – Não leve para o lado pessoal, querida. Depois do que aconteceu no outro dia, acho que deve ter alguma coisa errada com o sentido-aranha dele. O pobrezinho está com medo da própria sombra. – Ela meneou a cabeça. – Desde que descobri tudo, fiquei com medo de que alguma coisa assim acontecesse. Ter genes de aranha misturados com os dele… – Ela sentiu um calafrio. – Sentidos que não são naturais para um homem ter… fiquei com medo de que isso fizesse alguma coisa com a cabeça dele. Ainda mais quando o sentido de perigo dele o deixa tão nervoso tantas e tantas vezes. Sabe, sempre me preocupo muito com as coisas e por isso aprendi na vida que, quanto mais você se deixa assustar, mais forte fica o hábito. É muito fácil ter medo de coisas pequenas. MJ suspirou. De certa forma, era um alívio ter tia May para conversar sobre isso. Quando Liz, Jill e outros amigos de Peter tinham vindo perguntar sobre seu paradeiro, ela havia sido obrigada a dar uma desculpa para eles, odiando-se por mentir para pessoas que se importavam com Peter e tinham o direito de saber se ele estava bem. E assim, ela havia se privado da oportunidade de compartilhar seu fardo. A liberdade de despejar suas preocupações nos ouvidos compreensivos de tia May era uma bênção. Ao mesmo tempo, ela compartilhava suas preocupações com MJ e, no processo, a fazia enxergar as coisas por outros ângulos. – Não sei – ela disse, por fim. – Ele simplesmente mudou muito nos últimos tempos. Os últimos anos foram muito difíceis para ele – ela disse, abafando a culpa por ter agravado isso ao lhe virar as costas. – E agora isso que aconteceu com os alunos dele… ele estava se culpando muito, então acho que só… decidiu ficar com raiva em vez de se culpar. Ele mudou. No começo, achei que fosse uma coisa boa, mas ele estava cada vez mais furioso, descontando tudo em todo mundo. Acho que está usando essa raiva para esconder seu sofrimento. – Ela olhou pela janela, perguntando-se onde ele estava. – Acho que, talvez, não seja o sentido-aranha que esteja errado e fazendo com que ele aja assim. Talvez, na verdade, ficar tão hostil e na defensiva tenha feito com que o sentido-aranha dele se sobrecarregasse. Ele achou melhor afastar todo mundo, e os instintos de aranha estão, enfim, levando isso ao pé da letra. E isso está virando um círculo vicioso, deixando o menino paranoico. – Ela balançou a cabeça. – Não sei o que a gente pode fazer. Depois de um momento, tia May disse: – Bom, simplesmente não consigo aceitar isso, querida. Peter precisa da gente. Nós somos a família dele e o amamos. Só a família pode vencer o medo. A gente só precisa encontrar Peter, sentar com ele e ter uma boa e longa conversa. – Ela abriu um leve sorriso para si mesma. – Andei descobrindo que isso faz maravilhas. MJ se voltou para a janela. – Certo… Encontrar Homem-Aranha, onde quer que ele esteja em toda Nova York, e convencê-lo a descer e ter uma conversa. Fácil. – Mas não é Homem-Aranha que estamos procurando, querida. Estamos procurando Peter. E essa é a nossa vantagem. Nós o conhecemos melhor do que ninguém. – Talvez. Mas, nesse momento, acho que ele está virando cada vez mais o Homem-Aranha e cada vez menos o Peter. – Ela franziu a testa quando um pensamento começou a se formar no fundo de sua mente. Tia May fez menção de dizer algo, mas MJ estendeu a mão pedindo silêncio. – Espera um minuto. – Ela se concentrou para deixar a ideia vir à tona. – Talvez conhecer Peter e HomemAranha possa ajudar. Ela caminhou até o armário e começou a vasculhar. – Sei que vi aqui em algum lugar… – O quê, querida? – Quando Peter começou, quando construiu os primeiros rastreadores-aranha, ele não os sintonizava ao sentido-aranha como faz agora. Ele rastreava por rádio. Usava um… achei! – Ela encontrou o que estava procurando, uma pequena caixa com uma antena e uma telinha, e mostrou para tia May. – Um radar! Faz tempo que ele o modificou para captar o sinal do novo rastreador, da vez em que o sentido-aranha dele não estava funcionando. Desde então, ele guarda por via das dúvidas. – E você acha que a gente pode usar isso para… quê? Encontrar os rastreadores que ele carrega? – tia May perguntou, esperançosa. Ela se curvou. – Não. Acho que só funciona quando estão ligados. Só ficam ativos quando acertam alguma coisa ou quando ele aperta um botão. – Ah – tia May refletiu por um momento. – Mas ele está usando um dos rastreadores para seguir o Sr. Jameson, não está? MJ abriu um sorriso triste. – Nós sabemos onde encontrar Jameson. É difícil não saber. – Mas Peter pode ainda estar atrás dele… ou talvez tenha encontrado outra pessoa para seguir. E talvez… – Talvez, se sintonizarmos o rastreador que ele está seguindo, possamos encontrar Peter também! – Animada, MJ ligou o localizador. Nada. Ela o levou até a janela e o ergueu em várias direções, mas não houve nenhuma reação. – Está com pilhas novas? – tia May perguntou. – Eu troco as baterias das lanternas e dos detectores de fumaça da minha casa todo ano. MJ abriu um sorriso involuntário. – As luzes estão acesas. Está funcionando. Mas não tem nenhum rastreador ao alcance. – Ahh, eu me sinto em Missão Impossível. O que você acha que Peter Graves faria em seguida? – Voltaria para o camarim e estudaria o roteiro – MJ respondeu. – Como assim, querida? Ela se voltou para tia May. – Acho que, se quisermos encontrar um rastreador, precisamos fazer o que Peter faria… Parker, não Graves. Damos uma volta pela cidade e torcemos para captar alguma coisa. – Seria muita sorte – tia May opinou. – Quando Peter voltar, a gente devia tentar ajudar o menino a melhorar as técnicas dele. – Então, ela franziu a testa. – Ah, querida. O trabalho de Peter leva nosso menino para algumas regiões perigosas, não é? – Acho melhor eu fazer isso sozinha, May. Tenho treinamento de defesa pessoal. – Eu não tenho medo, não, minha querida! – tia May insistiu. – Já te contei da vez em que solucionei um roubo na Casa de Repouso Descanse em Paz…? • • • • Enquanto o Homem-Aranha saltava por entre os caibros do depósito, desviando de uma saraivada de balas, ele se pegou lembrando de uma coisa: armas eram muito barulhentas. Ainda mais quando disparadas em lugares fechados. Seus ouvidos estavam zunindo e ele só conseguia pensar que os membros da gangue de bandidos que o havia seguido até ali estavam apenas causando danos auditivos permanentes a si mesmos. Normalmente, ele conseguia ignorar essas coisas. No calor da batalha, conseguia se render ao sentido-aranha, deixar que seus instintos lhe dissessem quando desviar, como se mover e bloquear as distrações de seus sentidos mais convencionais. Porém, já não sabia mais se podia confiar no seu sentido de perigo. Então, precisava se manter atento – sem deixar de usar os alertas que não teria de outro modo, ele se mantinha preparado para ignorar os instintos caso notasse que algo não correspondia ao que eles lhe diziam. Até agora, esses instintos não haviam lhe dito nada de errado; aqui e agora, ele sem dúvida estava em perigo. E perder um pouco da audição era o menor dos seus problemas. Ele havia se metido naquela situação por escolha própria. Vinha rastreando um comprador de mercadorias roubadas chamado Marty Barras, também conhecido como “Rubor”, na esperança de conseguir uma conversa particular com ele sobre negociações recentes de equipamentos de alta tecnologia. Rubor tinha um famoso medo de altura, que o tornava uma vítima ideal para a intimidação característica do Aranha, a chamada “Já conheceu minha amiga gravidade?”. Infelizmente, Aranha o encontrara bem na hora em que ele estava prestes a fazer um acordo com um grupo de traficantes de armas. O vigia deles o avistou e eles começaram a dar a Rubor uma demonstração improvisada de seus produtos, e Aranha foi o convidado especial. Daí sua exposição a altos níveis de ruído que excediam em muito as recomendações do ministério da saúde. O que não era nada comparado ao risco de exposição a chumbo. Mesmo sem querer, as tiradas vinham à sua mente por força do hábito. Contudo, ele as ignorava, lembrando-se de que não tinha tempo para brincadeiras. Fazer piadas seria uma distração na sua busca por respostas, e ele tinha que acabar com aquilo o mais rápido possível. Era mais fácil falar do que fazer. Normalmente, poderia inutilizar aquelas armas com teias em segundos. Mas precisava poupar as teias agora, pois toda vez que se aproximava do seu apartamento, independentemente de MJ estar ou não em casa, seu sentidoaranha o afugentava. Ele não podia gastar muita teia porque não sabia quais eram as chances de conseguir um refil tão cedo. Chega de brincadeira então. Os caibros de madeira já estavam cheios de buracos de balas. Ele saltou para cima de um especialmente perfurado e o chutou com toda a força, soltando um pedaço grande que lançou para baixo contra os atiradores. O zumbido em seus ouvidos sem dúvida impediu que eles ouvissem o estalo, e os clarões das pistolas no escuro turvaram suas visões, de modo que só perceberam o que estava caindo quando era tarde demais. Dois ficaram presos sob a viga pesada, e os outros se dispersaram. Só um dos muitos motivos pelos quais as armas não valem a pena. Mas Aranha já estava chutando a coluna de sustentação, quebrando-a do caibro do outro lado e dividindo-a em duas. Ele se colocou entre as duas partes e as empurrou, arrancando a coluna pela base e jogando-a contra um dos atiradores. O homem se esquivou do caibro antes que sua perna fosse esmagada, mas o punho de Aranha garantiu que ele deixasse de ser uma ameaça. Atrás dele, a seção de caibros que havia empurrado, junto com o pedaço do teto que ela sustentava, caiu em cima dos outros atiradores. Ele pulou para ver se estavam vivos e incapacitados, não necessariamente nessa mesma ordem. Ele sabia que não costumava ser tão duro. Mas se sentia cercado, perseguido, detectando inimigos em todas as esquinas. Ele não poderia se dar ao luxo de abaixar a guarda ou ser distraído da missão, e seu coração estava cansado demais de sentir pena de pessoas que tentavam parar os seus batimentos cardíacos. Os atiradores estavam fora da luta; era isso que importava. Agora era deixar que a UTI cuidasse do resto. E levar a casa abaixo provou ter uma vantagem: bastou se aproximar de Rubor Barras que o negociante começou a pedir clemência e contar tudo. HomemAranha quase ficou desapontado por ter sido tão fácil. – O que você sabe sobre os ataques de robôs? Quem está por trás deles? – Aranha perguntou. – Eu… não sei – gritou Rubor, fazendo jus ao seu nome ao ficar vermelho de medo. – Não sei nada sobre isso. Juro! – ele gritou quando Aranha deu um passo à frente. – Tô por fora disso, juro por Deus! Com todos os roubos naquelas fábricas chiques, achei que alguma coisa ia passar pelas minhas mãos, mas nada! Desmontaram tudo e não venderam nada! Faz sentido não! Aranha assimilou a informação, embora não tenha ficado surpreso. Se o equipamento não estava sendo vendido ilegalmente, estava sendo usado… por alguém que sabia como usar. – Você sabe alguma coisa sobre as pessoas por trás dos roubos? – Não, não. Como eu disse, ninguém veio falar comigo. – Nem mesmo boatos? Ninguém trabalhando com robótica? – Eu não… talvez… – Desembucha! – O Consertador! Ouvi dizer que ele está tramando alguma coisa. – O quê? – Num sei! Alguma coisa! É tudo que eu sei, juro! – Você está mentindo! O Consertador está fora da cidade! – Ele voltou! Faz uns dias! É tudo que eu sei! Não me machuca! O Aranha ouviu a chegada das sirenes. Aquilo poderia lhe custar um informante no futuro, mas ele não tinha tolerância para alguém que havia participado da venda de espingardas para adolescentes, muito menos no seu atual humor. – Sinto muito, amigo – ele disse, e nocauteou Barras com um direto no queixo. O Consertador, ele pensou ao subir pelo buraco no telhado. Agora sim uma pista promissora. Ele vende produtos tecnológicos para outros criminosos, às vezes até para gente de bem. Ele não veria problemas em trabalhar com Jameson nessa. Mas espera… Felicia me jurou que ele estava limpo. E ela não me avisou que ele estava de volta. Será que ela também se voltou contra mim? Ainda tem alguém em quem eu possa confiar? Só em mim mesmo, ele respondeu. Preciso confiar em mim mesmo. Senão não tenho ninguém. • • • • Graças a Felicia, Aranha sabia a localização da oficina atual do Consertador, escondida em uma área industrial de Long Island. Ele pegou carona na traseira do trem para chegar à região e atravessou o resto do caminho pulando de telhado em telhado, usando a teia somente quando necessário. Ao chegar ao depósito, Aranha atravessou uma das janelas do alto – um truque impressionante mas perigoso, ao qual conseguia sobreviver por sua pele resistente, ainda que sempre precisasse remendar o uniforme depois. Ele caiu a alguns metros de Mason em meio a uma chuva de cacos de vidro. Mas o velho magrelo tratou a invasão com grande desembaraço. Ele ergueu os olhos curiosos da mesa de trabalho, observando o intruso por sobre os óculos redondos sem demonstrar medo ou surpresa. – Homem-Aranha. Não estou aberto no momento. Você vai ter que voltar mais tarde. Em um segundo, Aranha estava agachado sobre a mesa puxando Mason pelo colarinho. – O que você sabe sobre os robôs que andam me atacando? – Não sei nada sobre robôs – ele disse, com uma calma impressionante. – Não me venha com essa! Já vi seu trabalho antes. Lembra quando quebrei aquele seu Toy? – Ele esperava que isso causasse alguma reação de Mason. Toy era um grande robô humanoide que agia como capanga do Consertador alguns anos antes, em uma época em que ele tentava ativamente ser um supervilão. No auge de um confronto, Aranha havia feito com que Mason atirasse em seu próprio capanga robô; foi então que o velho perdeu o controle e chorou por Toy como se estivesse diante de um filho morto. Tudo indicava que o trauma havia levado Mason a retornar à antiga carreira, meramente fornecendo equipamentos para outros vilões. Porém, mais uma vez, ele não mostrou nenhum sinal de perturbação. – Sinto muito, mas você vai ter que ir embora. – Não vou a lugar nenhum até você me dizer o que eu… eita! – De repente, estava voando em direção à parede; Mason o havia empurrado e lançado para frente com um movimento rápido e suave. Aranha girou no ar, pousou com segurança na parede e lançou uma rede de teia contra o inesperadamente forte Consertador, passando a achar sua calma inumana muito mais compreensível. Seu alvo desviou da teia, dobrando-se para trás de uma maneira que nem a coluna do aranha teria conseguido, e voltou a ficar em pé, confirmando que aquele não era o verdadeiro Phineas Mason. – Ora, se não é Toy Story 2! – ele brincou, antes de lembrar que não adiantava fazer piadas com um autômato, por mais humano que ele parecesse. – Cadê o verdadeiro Mason? – Estou cuidando dos negócios enquanto ele está fora da cidade – respondeu o falso Consertador. – Isso é tudo que você precisa saber. O robô avançou contra ele, estendendo as mãos para agarrar sua garganta. Aranha desviou e lhe deu um chute na cara, ficando um tantinho aliviado quando o rosto dele não caiu como naqueles programas cafonas de ficção científica. Esse alívio não foi nada perto da decepção pela cabeça toda não ter rolado. O robô simplesmente agarrou sua perna e o lançou por sobre o ombro de novo, fazendo com que ele caísse em cima da mesa de trabalho. Isso se provou um erro de sua parte. Uma tocha de soldagem ainda estava ligada em cima da mesa. Aranha a apanhou e abriu sua válvula ao máximo, avançando contra o androide. A chama fez um corte no torso do robô, que se retraiu, tentando apagar o fogo que havia tomado conta de sua camisa. Aranha continuou atrás dele, lançando a tocha contra o pescoço do robô. O androide deu um giro e jogou a tocha para longe, voltando a atacar, mas ele estava mais lento e seus movimentos mais irregulares. De novo, ele tentou estrangular Aranha, que deixou, pois estava ocupado enfiando os dedos pela fenda queimada na pele de látex do peito do robô, agarrando e arrancando suas vísceras. O que quer que ele tivesse extraído não devia ser vital, pois o ataque continuou. Ele enfiou a mão mais fundo e apalpou, encontrando cordas duras que deviam ser músculos artificiais. Ele as puxou até que se soltassem, e um dos braços do robô ficou mole. Depois de se livrar da outra mão e jogá-la para o lado, Aranha virou o androide de costas e acertou sua nuca repetidas vezes até que as conexões danificadas se rompessem. O androide caiu, contorcendo o corpo flácido a esmo. Arrepiado, Aranha o acertou várias vezes até que ele parasse. No entanto, ele havia tomado cuidado para minimizar os danos à cabeça, pensando que a CPU estaria lá dentro. Considerando a forma como o dano do pescoço o desligara, parecia provável. Dito e feito: logo em seguida, ele abriu a cabeça e encontrou o processador central. Depois de levar o chip para o computador de Mason, avaliou sua memória para ver o que poderia encontrar. Deu algum trabalho, e suas poucas habilidades de hacker não conseguiram Deu algum trabalho, e suas poucas habilidades de hacker não conseguiram revelar nenhuma informação sobre o verdadeiro paradeiro ou os planos de Mason. Não que esteja surpreso. Por que ele construiria um substituto para esconder onde estava e depois armazenaria a informação na memória dele? Mesmo assim, continuou procurando, e acessou uma gravação de sua memória de vídeo na esperança de descobrir alguma coisa sobre as pessoas com quem ele havia interagido. Ele avançou pelos arquivos de vídeo, assistindo apenas as raras ocasiões em que alguém entrava na oficina. A maioria dos visitantes estava entregando comida, sem dúvida para manter a simulação de que o lugar era ocupado por uma pessoa viva. (Embora parecesse que o androide realmente consumia o alimento, pelo que ele pôde ver através de seus olhos. Ao examinar o corpo, encontrou um “estômago” que mais parecia uma fornalha que o robô usava para queimar e processar o alimento a fim de receber energia química.) Alguns visitantes pareciam ser clientes, e o Aranha reconheceu um ou dois, mas eram personagens sem importância que não estavam entre seus inimigos mais comuns. Além disso, o androide parecia tê-los mandado embora, ainda que os arquivos de áudio estivessem danificados demais para serem recuperados. Foi então que o Aranha deu um pulo quando um rosto inconfundível surgiu no monitor. Jameson! De novo, não conseguiu saber o que estava sendo dito, mas estava claro que a conversa ia além de uma simples dispensa. Jameson estava desafiando o androide, indo para a frente e para trás por alguns minutos. Por que nunca aprendi a ler lábios? O dono do jornal foi ficando cada vez mais hostil ao longo da conversa, mas isso acontecia em quase todas as conversas de JJJ. O olhar em seu rosto perto do fim era um dos que Peter Parker reconhecia dos anos em que havia trabalhado para Jameson. Era um olhar que dizia que ele esperava algo de você e que não ficaria satisfeito até conseguir. – Eles estão juntos nessa! – Aranha gritou. – É isso! Finalmente uma evidência sólida! – Podia não ser uma prova, mas já era um começo, algo que mostrava uma relação real entre Jameson e um especialista em robótica. Claro, aquele era apenas um androide falso, mas quem poderia dizer que não era o mesmo, ou outro como este, que Felicia havia rastreado? O verdadeiro Mason podia ainda estar na cidade, trabalhando no submundo – talvez deixando que o androide cuidasse de seus afazeres de rotina porque estava se dedicando a um projeto especial. Talvez Jameson estivesse passando instruções através do androide, ou acreditasse que estava se dirigindo ao verdadeiro Consertador e o repreendendo por não estar trabalhando. Qualquer que fosse a explicação, Homem-Aranha se apegou a essa pequena evidência com todas as forças. Ela lhe dava algo em que acreditar e uma garantia de que estava no caminho certo, afinal de contas. Isso. Nunca deveria ter duvidado de mim mesmo. Sabia que era Jameson o tempo todo! Ele lembrou de que ainda tinha um rastreador no casaco de Jameson. A bateria ainda deve aguentar mais um ou dois dias, ele pensou. O que significa que é melhor eu agir rápido. Preciso encontrar Jameson, ele continuou, ao saltar janela afora e noite adentro. E dessa vez vou conseguir minhas respostas. O Alerta estava soando com menos frequência nos últimos dias. Jameson não O Alerta estava soando com menos frequência nos últimos dias. Jameson não só estava ocupado investigando o caso como também não achava mais tão fácil escrever a coluna. Estava decidido a continuar fiel à sua opinião no blog e manter sua retórica anti-Homem-Aranha a todo custo. Claro, tinha lá suas dúvidas, mas não poderia deixar que elas transparecessem; se cedesse terreno, o público perderia a confiança nele. Homem-Aranha ainda estava à solta, mais agressivo do que nunca, considerando os últimos relatórios da polícia. Estando ou não envolvido nos ataques dos robôs, suas táticas quase letais contra uma quadrilha de pistoleiros tinham sido imperdoáveis, e Jameson não poderia suavizar o tom em relação aos robôs sem parecer indulgente em relação às táticas de Aranha. Claro, havia pessoas sensatas e pacientes o bastante para ler um argumento ambíguo com atenção e compreender suas sutilezas, mas qualquer idiota sabia que a grande maioria do público era constituída de gente estúpida e instintiva que queria respostas o menos complicadas possível, separando claramente os mocinhos dos bandidos. As pessoas não tinham paciência para distinguir as nuances do cinza; por isso, era preciso ser tudo preto no branco. Mesmo que isso significasse tratar de maneira superficial algumas questões secundárias, como exatamente de quais crimes um homem era ou não culpado. No entanto, já não era tão fácil manter essa aparência de certeza. O furor que o fazia escrever sobre os crimes do Homem-Aranha não estava mais lá e não voltaria a estar até que ele encontrasse alguma evidência real. Em qualquer direção, ele acrescentou relutante. Na realidade, havia cada vez mais evidências, mas ainda nenhuma que apontasse diretamente para o Homem-Aranha. A última evidência, na verdade, apontava numa direção surpreendente. Envolvia Stanley Richardson, um segurança que trabalhava para a Stark Enterprises, a primeira empresa de alta tecnologia roubada depois da prisão de Electro, na noite específica em que Richardson estava encarregado de vigiar o depósito. Essa invasão foi a que mostrou menos evidências de assistência mecânica; na verdade, embora a equipe de segurança da Stark odiasse admitir, Ben Urich havia encontrado indícios de que uma pessoa de dentro havia sido cúmplice do roubo. Logo depois, Richardson desaparecera – até o dia anterior, quando seu corpo fora trazido pela correnteza até a costa de Staten Island, com o crânio perfurado por um equipamento metálico pesado. Isso levara Robbie Robertson a pedir uma investigação mais profunda sobre o passado dele… e Urich tinha descoberto um fato inesperado. – Parece – Robbie relatou a Jonah – que Richardson chegou a trabalhar como engenheiro elétrico com Max Dillon. Atrás de sua mesa, Jameson arregalou os olhos para Robbie. – Electro? – Não me lembro de nenhum outro supervilão com esse nome. Jonah, não pode ser uma coincidência que um ex-colega de Electro esteja implicado na mesma série de roubos relacionados a robôs da qual sabemos que Electro participou… e que depois ele apareça morto com um ferimento que pode muito bem ter sido feito por uma garra robótica. Jameson abanou a mão como se dispersasse uma nuvem de fumaça. – Sei, sei, não precisa soletrar tudo. Entendi aonde você quer chegar. Mas – Sei, sei, não precisa soletrar tudo. Entendi aonde você quer chegar. Mas lembre-se que Dillon está na cadeia. Ele estava preso quando aquele depósito foi roubado e estava preso quando Richardson foi morto. Ele precisaria ter um cúmplice – ele disse, incisivo. Robbie entendeu a indireta. – Você está falando de Homem-Aranha. – Quem mais? – Jonah, o roubo foi em Jersey, e Homem-Aranha foi visto no Brooklyn dez minutos antes. Nem ele consegue se mover tão rápido. – Você faz ideia de quantos babacas se vestem de Aranha e tentam sair por aí escalando paredes? – Quantos deles pulam de uma rua para outra com um único salto carregando um saco nas costas com dois ladrões dentro? – Robbie suspirou. – Jonah, você está no caminho errado em relação ao Homem-Aranha. De novo. Mas acho que dessa vez, até você sabe disso. Jameson não admitiu que Robbie tinha razão; mesmo assim, o editor pareceu satisfeito. Em seguida, JJJ retomou sua própria investigação, entrando em contato com a penitenciária em Ryker’s Island e pedindo informações sobre as atividades de Max Dillon. Depois de estudar os arquivos dele por um tempo, tomou uma decisão. Era hora de fazer uma visita a Electro. Aranha captou o sinal do rastreador ao atravessar Carnegie Hill. Aproximando-se, avistou a limusine de Jameson e a seguiu. Ela o levou até um heliporto da polícia, onde Jameson embarcou num helicóptero que cruzou o Rio East, tornando impossível a perseguição do Aranha. Mas ele pôde ver para onde o helicóptero estava indo: direto para Ryker’s Island. Indo encontrar outro cúmplice?, ele se perguntou. Agora estamos chegando a algum lugar. Vou dar um pouco de corda de teia para ele… vamos ver se ele vai se enforcar.

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